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EDITOR CHEFE
Arno Alcântara

REDAÇÃO E CONCEPÇÃO
Marcela Saint Martin

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO
Matheus Bazzo

DESIGN E DIAGRAMAÇÃO
Vicente Pessôa

Material exclusivo para assinantes


do Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no


Instagram do Dr. Italo Marsili dos dias
24/06/2019 a 28/06/2019

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COMO É A SEMANA GW
1. Assista, de preferência ao vivo, às lives diárias
pelo YT ou Instagram, às 21h30.
Canal do YT: Italo Marsili.
Instagram: italomarsili

2. Na segunda-feira, você recebe no portal GW o


material referente às lives da semana anterior.

3. Leia o seu Caderno de Ativação. A leitura do


CA não leva mais do que 15 minutos.

6. Confira no LIVES a visão geral da semana e os


resumos. Separe uns 20 minutos para isso. As
transcrições na íntegra também estarão lá.

ENTENDA O SEU MATERIAL


1. O Caderno de Ativação o ajudará a incorporar
conteúdos importantes. É um material para FAZER.

2. No LIVES estão as transcrições, os


resumos e a visão geral das lives da semana.
É um material para se TER.

3. Se quiser imprimir, utilize a versão PB,


mais econômica.

4. Imprima e pendure o seu PENDURE ISTO.

3
A SEMANA NUMA TACADA SÓ _______________ 5

O PONTO CENTRAL ______________________ 6

“NÃO CONSIGO ME AMAR” ________________ 12

LIVE PARA OS CURIOSOS DA MEIA-NOITE ____ 23

O QUE EU DESEJO PRO


MEU FILHO (E PRA VOCÊS) _______________ 37

UM ASSUNTO PROIBIDO _________________ 43

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A SEMANA
NUMA TACADA SÓ

LIVE #70 | 24/06/2019


“NÃO CONSIGO ME AMAR” — A LIVE DO REI LEÃO
O amor-próprio leva à infelicidade. O que nós preci-
samos é de uma vida cheia de sentido, e isso só con-
seguimos aceitando o sofrimento inevitável.

LIVE #71 | 25/06/2019


LIVE PARA OS CURIOSOS DA MEIA-NOITE
Querer pensar com os próprios miolos é a receita
certa para ficar idiota. Dedique-se à sua área de atu-
ação e abandone o fetiche de opinar.

LIVE #72 | 27/06/2019


O QUE EU DESEJO PRO MEU FILHO
(E PRA VOCÊS)
Devemos dar sentido ao cumprimento de cada dever,
por mais banal que seja, e não ficar sonhando com
outras circunstâncias.

LIVE #73 | 28/06/2019


UM ASSUNTO PROIBIDO
Sempre reaja ao ataque. Na vida adulta, toda ação deve ter uma
consequência proporcional. A correspondência da astrologia é
simbólica e não fere sua liberdade.

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O PONTO CENTRAL
R E S U M O S D A S E M A N A

LIVE #70 | 24/06/2019


“NÃO CONSIGO ME AMAR”
— A LIVE DO REI LEÃO
A frase “você precisa se amar” é verdadeira quando diz
respeito a cuidar da saúde, da estética ou do intelecto;
falsa, porém, se ela é uma justificativa para a auto-refe-
rência, para a busca do prazer sem fundamento.

A vida requer um tanto de dificuldade, de esforço, de


aceitação do sofrimento inevitável. Quando você deseja
uma vida só de prazeres, quando você deseja se amar,
você imagina sua vida como um jogo da Seleção Brasilei-
ra contra um time de crianças de cinco anos: repleta de
vitórias sem sentido.

No exemplo do filme Rei Leão, vemos confrontadas duas


filosofias opostas: uma rejeita o sofrimento inevitável, ou-
tra o aceita; uma recusa as responsabilidades, outra as
admite; uma leva o jovem leão à crise existencial; outra o
leva a ter de volta o seu reino. A filosofia do Hakuna Mata-
ta, do amar-se acima de tudo, dos prazeres só pode levar
à infelicidade. Assumimos nosso lugar de direito quando
aceitamos, como Simbah, o sofrimento inevitável, o amor
ao próximo e o comprometimento com um ideal — mesmo
que a custa de uma paulada na cabeça.

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LIVE #71 | 25/06/2019
LIVE PARA OS CURIOSOS DA MEIA-NOITE
Se você rejeita tudo, vai continuar no lugar onde está. Pau-
lo Coelho, por exemplo, pode não ser um grande escritor,
pode escrever como um adolescente, mas conseguia nos
anos oitenta lotar todos os auditórios em que palestrava,
e isso sem a ajuda da mídia. Não temos nada a aprender
com ele?

Esse problema de rejeitar tudo reside na pressa em con-


cordar ou discordar. Ora, a maioria de nós não estudou
boa parte dos assuntos, por que então vai querer con-
cordar ou discordar? O que é necessário é compreender.
Nesse sentido, nada faz mais bem à inteligência que o
voto de pobreza em matéria de opinião. Ter opiniões so-
bre tudo é padecer da síndrome do propriomiolismo e
não há nada pior que pensar com os miolos que são seus.
Se você não estudou, não analisou o assunto com aten-
ção, não existe nada em seus miolos que seja relevante
para outra pessoa.

É muito melhor que, nesse caso, você fique quieto, porque


não tem nada para oferecer. Suas opiniões só servirão
para emburrecê-lo na medida em que você se convence
cada vez mais delas. A solução para isso é estudar e fo-
car sua atenção naquilo que é a sua área de atuação. Se
você é arquiteto, estude e esteja atento a tudo o que está
relacionado à arquitetura; se você é jornalista, a tudo o
que está relacionado ao jornalismo; se você é advogado,
a tudo o que está relacionado ao direito. Você vai ver que,
ao desenvolver-se bem na sua profissão, sua atenção se
expande a outros elementos da cultura que oferecem res-
posta aos problemas de sua área.

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A verdade é que muitos de nós não foram chamados para
ter opiniões, mas todos nós fomos chamados ao serviço.
Servir, ser útil e não encher o saco (sobretudo dando pita-
co onde não deve) é fundamental para o nosso processo
de amadurecimento.

LIVE #72 | 27/06/2019


O QUE EU DESEJO PRO MEU FILHO
(E PRA VOCÊS)
Estar diante de uma criança é contemplar o mistério da
fragilidade humana. Se não é alimentada, cuidada, ama-
da, ela morre. É assim com todos nós até o último dia de
nossa vida, mas ao olhar para uma criança, temos isso
muito evidente. Quando um pai vê a fragilidade do filho
para o qual terá de dedicar seu amor e seu trabalho, vem
o desejo que querer alguma coisa dele.

Meu filho será médico? Advogado? Não é isso que deve-


mos esperar de um filho. Por que a gente deveria espe-
rar de nós mesmos uma coisa dessas? Em determinadas
circunstâncias, ter uma profissão dessas é impossível. É
possível, porém, que façamos bem a mais mínima coisa,
que levemos nosso trabalho, seja ele qual for, a sério; que
façamos tudo da melhor forma. Isso é o que o pai deveria
querer de um filho.

Olhar para as coisas materiais que estão na nossa mão e


fazer delas transcendentes. Entrar na realidade e cumprir
da melhor forma todos os deveres que aparecem diante
de nós. Ter, por assim dizer, uma espécie de materialismo
espiritual. Enxergar em cada coisa material a presença
de algo que a transcende. Tudo isso está à disposição de

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cada um de nós, desde que matemos o fetiche do “quem
me dera”. Dizer: “quem me dera se eu fosse gordo ou ma-
gro, rico ou pobre, advogado ou médico” é o que mata a
vida do espírito.

O mundo é maravilhoso, ruim é nossa preguiça, nossa


indolência, nossa vaidade. O mundo espera nosso servi-
ço. Optar pela realidade e não pela fuga, pelo “quem me
dera” é o caminho para que nos livremos da maior parte
de nossas neuroses e vivamos uma vida cheia de sentido.

LIVE #73 | 28/06/2019


UM ASSUNTO PROIBIDO

Se for algum parente seu que está falando mal de você


ali numa festa de família, você tem de relevar. Mas se al-
guém está, em público, inventando mentiras a seu respei-
to, você não deve ficar quieto, nem sob pretexto de cari-
dade cristã. Você não está quieto por motivos religiosos,
mas porque é um quarta-camada e está com medo de não
ser validado. Há duas formas de reagir a um ataque: a
primeira é expondo o agressor: você vai jogar da plateia
tudo o que ele faz. Não é para inventar mentiras sobre ele,
é para lançar os podres verdadeiros. Tampouco é para
discutir a substância do que ele te acusa, é para acusar de
volta; zombando, se for o caso.

Na vida adulta, toda ação de uma reação igualmente pro-


porcional. Se você calunia um pai de família, uma pessoa
que está ajudando muita gente, você tem de pagar. Não é
questão de ofensa pessoal, mas de estar inserido na vida
adulta.

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E por falar em gente que não sabe o que diz, um dos as-
suntos mais discutidos por quem não entende nada do
riscado: a astrologia ou é amada ou é odiada apenas pelo
nome. Quem ama ou quem odeia, em geral, não entende
nada do assunto. A correspondência que se pode fazer
entre a astrologia e o modo de ser de alguém é de ordem
simbólica. O seu mapa natal, assim como as caracterís-
ticas físicas, não determinam suas ações. Por exemplo, a
Lua, na ciência astrológica, corresponde à sensibilidade,
em como você recebe as sensações do mundo e as sente
interiormente. Se a sua Lua está em Leão, você sente as
coisas de maneira leonina: de forma expansiva. Em nada
isso determina a vida ou fere a liberdade do sujeito.

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Live #70 | 24/06/2019

“NÃO CONSIGO ME AMAR”


(A LIVE DO REI LEÃO)

Uma menina escreveu assim: “Italo, eu não consigo


me amar”. Aí, falei: “Isso é tema para a live de segun-
da-feira”. É um tema central para nós, algo recorrente
– mais um sintoma do que qualquer outra coisa.
Quando as pessoas falam assim, elas realmente não
sabem do que estão falando. O pessoal tem esse
jargão, essa ideia recorrente: “Você tem que se amar
antes. Se você não fizer isso, ninguém te amará”. Mas
como fazer essa porcaria? O que de fato é essa porra
de “me amar”?

Preste atenção: em geral, quando as pessoas falam


disso, estão mencionando algo que não se pode to-
car. Quando querem te empurrar essa filosofia, elas
estão esvaziando sua vida de uma filosofia profunda,
de algo que está atado à sua realidade e que pode
te dar resultado. As pessoas que têm essa questão
“ah, eu preciso me amar antes”... do que elas estão fa-
lando? É isso que veremos hoje. Mas é possível fazer
isso ou não? Ora, é óbvio que, sobre um aspecto bem
fraco do termo – “eu preciso me amar” –, ninguém vai
dizer que não é assim. É claro que é assim: você vai
cuidar do seu corpo, da sua saúde, do seu intelecto
etc. Isso é óbvio! Ninguém está falando disso. Agora,

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o pessoal está dizendo o seguinte: “Você tem que se
valorizar e dar coisas para si”. Aqui é que está o pon-
to central! Na prática, como você faz isso? O que você
está realmente querendo? Prazer? Bons momentos?
O que é “se amar antes”? É dar para si tudo o que
precisa? É fazer isso antes de dar para os outros? Se
for isso, você caiu numa cilada monstruosa. Você não
entendeu que o prazer não pode ser a finalidade dos
seus atos – o prazer não dá alegria para ninguém.
“Como assim? É muito bom ter prazer”. É bom mes-
mo? O que você realmente quer é o prazer? Precisa-
mos fazer esta pergunta o tempo todo.

Daqui a pouco, vou contar a história do “Hakuna Ma-


tata”, que tem os personagens Timão e Simba. Mas é
o prazer que você quer mesmo? Ou o prazer só faz
sentido ao ser articulado com outra coisa (que vai
te levar a gostar de estar vivo)? Este é o ponto da
história. Ao dizer “não consigo me amar”, você está
olhando para si – para seus desenhos imediatos –
e, realmente, nunca vai conseguir satisfação fazen-
do isso. Por exemplo, no futebol, do que você gosta
numa partida? “Ah, a vitória... o gol... os dribles”. É isso
mesmo?

Se montássemos uma seleção brasileira masculina de


futebol com os melhores do mundo para jogar contra
um time de crianças do jardim de infância do colégio
da esquina, haveria vitória, um drible atrás do outro
e muitos gols. Quem iria gostar desse jogo? Alguém

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pararia para assisti-lo? Você entendeu a respeito da
pergunta “do que você gosta mesmo?” e da respos-
ta “eu gosto é do prazer”? Assim, você está absoluta-
mente desconectado da realidade.

Ao vir com esse papo de “não consigo me amar”, você


se assemelha à vida de Rocky Valentine, personagem
que aparece no episódio dramático “A Nice Place to
Visit”, da série americana fantástica The Twilight Zone
(Além da Imaginação), da década de 1960. Na trama,
ele morre e, logo em seguida, volta à vida. Quando
isso acontece, ele é acordado por um sujeito desco-
nhecido. Quando este sujeito o indaga, um diálogo é
estabelecido:

– Eu sei o que você deseja. Você quer dinheiro!


– Como você sabe o que eu quero? Quero é te
assaltar!
– Não, meu senhor. Estou aqui para te servir.
Tome 700 dólares.
– Ehhh... dinheiro... 700 dólares. Que maravilha!
Eu quero mais!!!
– Eu estou aqui para te servir, senhor.

Aí, o sujeito leva Rocky Valentine até uma mansão,


que tem o nome deste escrito bem na frente dela. Va-
lentine, então, pergunta de modo agressivo:

– Quem é o dono desta casa? Você está me en-


rolando.

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– O senhor é o dono dela. E eu sei o que o se-
nhor deseja: um bom banho quente numa banheira.
– Ehhh... eu quero isso mesmo.

Depois de se banhar na banheira, Valentine sai e o


sujeito pergunta:

– Eu sei o que o senhor quer: uma boa roupa...


um terno xadrez e uma gravata colorida.
– Você está de história comigo. Quem é o dono
desta casa?
– Calma, senhor! Estou aqui para te servir. O se-
nhor quer é um banquete!

Após se saciar com a comida maravilhosa, o sujeito,


novamente, estabelece um diálogo servil:

– Estou aqui para te servir. O senhor quer mu-


lheres?
– Quero três mulheres! Quero jogo também!

Rocky Valentine começa a ganhar tudo no cassino.


Aposta “13 no preto” e ganha tudo na roleta! “Ah, feli-
cidade, felicidade, felicidade”. Mas, num determina-
do momento, olha para o sujeito, diz que ele “está de
história” e resolve atirar no homem. Só que o sujeito
não morre. Então, prossegue, falando para o sujeito:

– Se você não morre, estou no céu! Que maravi-


lha! Mais mulheres! Mais jogo!

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Após tantas vitórias, no 15º dia de cassino, ele come-
çar a achar aquela situação sem graça. Aí, fala:

– Quero outro jogo! Bilhar!

Valentine dá uma tacada e todas as bolas caem den-


tro das caçapas – quem não quer essa vida de pra-
zer? A nice place to visit era o que ele tinha ali. Aí, ele
começa a se enfadar dessa vida repleta de prazer.
Afinal, não havia esforço/desafio. Então, ele decide
assaltar um banco. O sujeito que o servia pergunta:

– De qual carro o senhor precisa? Quantos ca-


pangas são necessários?
– Não é possível! Isso aqui não é pra mim!

Valentine mete a mão na porta, para sair. Depois, fala:

– Se o céu é assim, eu não quero!

Mas a maçaneta estava travada. E o sujeito surge fa-


lando:

– Quem disse que esse lugar é o céu?

Ora, é óbvio que, ao olhar essa história e a da seleção


brasileira contra um time de crianças de cinco anos,
passa a ficar claro que nada de alegria pode surgir
de histórias como essas. Quando a pessoa olha para
essa vida e fala “eu preciso me amar, tenho que ter pra-

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zeres, necessito cuidar de mim e me valorizar antes
de tudo”, sabe o que acontece? Você está buscando
um prazer superficial demais, que não te alimenta-
rá. Qual é a graça dessa vida exemplificada nas duas
histórias? Isso não dá o que 68% dos 170.000 universi-
tários americanos responderam diante de um ques-
tionário que tinha as seguintes perguntas: “O que
te deixa triste? O que é necessário para te fazer sair
dessa tristeza?”. A resposta que eles deram foi muito
precisa. O que você quer não é se amar mais, esse
amor próprio não vai te alimentar nem dar sentido à
sua vida. A resposta foi: “Quero uma filosofia cheia de
sentido”. Ora, o sujeito quer o sentido da vida – que
não entra quando você olha só para si.

O sentido da vida jamais aparece daquele modo do


personagem Timão, no filme O Rei Leão. O jovem leão
Simba, recém-órfão, encontra, na floresta, o suricato
Timão, que começa o diálogo indagando:

– Coisas ruins acontecem, não é? E não há nada


que possa evitá-las.
– Certo!
– Errado!
– Bem, mas não foi isso que me ensinaram –
Simba reflete.

O pequeno leão havia sido criado dentro de uma tra-


dição real – simbolicamente, os leões –, mas, num mo-
mento de confusão, um suricato como o Timão surgiu

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com uma frase dessas “Coisas ruins acontecem, não
é? E não há nada que possa evitá-las”. Ao falar “Cer-
to!”, Simba está dentro da tradição da qual o Dr. Viktor
Frankl também faz parte, ou seja, a de que aceitar o
sofrimento inevitável da vida é o caminho para en-
contrar o sentido desta, que, em última análise, dará
a você a felicidade. Não é você buscar apenas a si!
E o que Timão fala para Simba? “Talvez, você deveria
encontrar um novo estilo de vida chamado Hakuna
Matata, é lindo dizer”, não é isso que o suricato fala?

Mas isso não é lindo de viver. Seguindo o Hakuna Ma-


tata, você sabe o que acontece? Em algum momento,
você tem uma crise existencial. Quando Simba está
iniciando sua vida adulta, com uma “jubinha de la-
dinho” – cadê aquela juba leonina? – surge, então,
o mandril Hafiki, que dá uma paulada na cabeça do
leão. Através da dor, Simba acorda novamente e se
encaixa. Aí, Hafiki indaga:

– Doeu, não é?!


– Doeu!
– Mas isso está no passado.
– Continua doendo.
– E daí? O que importa é o que você fará com
essa dor a partir de agora.

Eu não sou o sujeito do Hakuna Matata na sua vida.


Não vou dizer “ame-se primeiro”, “Hakuna Matata, é
lindo dizer... é lindo viver”. Sou o Hafiki! Vou dar uma

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porrada na sua cabeça com amor. Eu quero te acor-
dar! Quero que você entre no jogo da vida real e
volte para a tradição real dos leões reais! Quero que
você volte para a tradição do que é ser humano! Que-
ro que você possa responder, de modo seguro, aquilo
que aqueles 68% não conseguiram responder naque-
le estudo: “Olha, eu não sei o que é viver! Não tenho
uma filosofia que tenha sentido para mim. Eu estou
perdido (a), porra”.

Hoje, as pessoas não procuram os consultórios de psi-


canálise para sair da repressão dos próprios desejos
– elas não sabem nem o que é ter um desejo, como
o espírito da realeza leonina pulsando na vida. Que
Hakuna Matata? O próprio Timão, ao descobrir que
Simba é da família real, fala surpreso:

– Mas eu não sabia que você era um rei!


E Simba, constrangido, fala:
– Eu continuo sendo o mesmo cara.
Então, Timão fala:
– Mais ou menos... você é um rei, porra!

Quando Simba desperta, o que acontece com Timão


e Pumba? Eles despertam. De alguma maneira, esses
dois participam daquela realeza vivida, com a cen-
tralidade da vida de quem vive uma vida cheia de
sentido – mesmo que tenha dor. Simba, ao retornar,
tendo como objetivo libertar os outros leõezinhos do
império de Scar, seu tio traidor – que havia assassi-

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nado Mufasa, pai de Simba –, enfrenta não mais as
minhoquinhas cheias de geleia e aquela vida feliz
de banhos na cachoeira. Ele enfrenta uma guerra de
sangue, em que deixa metade de sua carne, metade
de seu coro, lutando contra as hienas e o próprio tio.
Ali a vida dele estava plena de sentido, o que levou
Simba a encontrar o caminho da realização, pois es-
tava dentro da verdade.

Ele não fugiu da tradição da qual todos somos cha-


mados, ou seja, a tradição de amar uma pessoa, servir
a um ideal e aceitar o sofrimento inevitável da vida. É
assim que você consegue se amar. Agora, dessa for-
ma, amar-se não está mais no jogo, porque você en-
trou na tradição daqueles que estão aqui para viver
e “libertar os outros leões que vivem achacados pelo
império da traição e das hienas – um império da mal-
dade, homicida”.

O que Scar, tio de Simba, fez? Matou a realeza e usur-


pou, indevidamente, o título de rei, porque era um
covarde. Ele era um tipo de Hakuna Matata, que de-
sejava uma vida simples, com as hienas como ser-
viçais, do tipo: “Eu não preciso botar minha carne/
meu coro na jogada – aquela coisa do amor próprio
–, então me amem, hienas”.

O que acontece? Simba desperta, enfrenta Scar,


retoma a realeza e devolve a esperança e o sentido
para todos aqueles leões. Ele expulsa as hienas, os

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rios deixam de ser assoreados, a água volta a correr
nesses rios, a seca cede à abundância da vida, as ár-
vores voltam a frutificar, e as coisas voltam para seu
lugar. Por quê? Porque Simba abandonou a ilusão do
Hakuna Matata. Abandonou a nice place to visit. Que
graça tem ganhar sempre um jogo? Não é o prazer
que você quer! Que graça tem marcar ao ser mar-
car 100 gols contra uma seleção de crianças de cinco
anos do colégio da esquina? Isso não é o jogo da
vida! Não é a vida humana!

Quando você diz que não consegue se amar, saiba:


você apostou no Hakuna Matata. Não há escapatória.
Você se entristecerá e perderá o fio da meada da vida.
Como retornamos à realeza leonina, que está dentro
do coração de todo ser humano? Com coragem e ser-
viço! Você encontra a felicidade ao olhar para fora; e
não para dentro – como explicou o Dr. Viktor Frankl.
Esquecendo de si, você encontra a felicidade. É as-
sim que se faz! Esses desenhos e livros estão aqui
para nos ensinar. Temos que ter olhos para ver, porra!
Veja o episódio que mencionei da série The Twilight
Zone, é o 28º capítulo. Veja que drama! É um drama!
Todos querem essa vida: sinuca com bola em cada
caçapa, mulheres a todo instante, dinheiro à vontade,
comida e bebida. Se não tem esforço, aquele elemen-
to do sacrifício, do risco, do tudo dentro, do tesão, não
há sentido! Vamos matar o Hakuna Matata! Este lema
é caminho certo para sairmos do rumo da felicidade.
Assim, perderemos toda a vida.

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Vamos matar esses Timões e Pumbas, a fim de res-
taurar aquele chamado do Hafiki, o mandril que ba-
teu com o cajado na cabeça do rei leãozinho. Assim,
Simba acordou, despertando para a vida através da
dor/de uma provocação. Para isso, nós estamos aqui.
Eu sou o cajado desse mandril que bate, dia e noite,
nas suas cabeças. Despertem! Não tenham medo de
viver! Doeu... e daí? Qual sentido vocês darão para
essa dor? Isso é a vida humana!

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Live #71 | 25/06/2019

LIVE PARA OS CURIOSOS


DA MEIA-NOITE
Eu sou um cara curioso e estudioso, e uma das coisas
que já estudei foi o sucesso no mercado editorial. Fa-
zer um bom livro exige um certo processo específico:
você tem que dominar os elementos da linguagem e
da comunicação e tem que saber para qual público
está falando.

Há também o processo de aquisição cultural -- por


exemplo, no tempo em que morei com o Olavo, tentei
absorver os fundamentos e ferramentas dele para que
eu pudesse desenvolvê-las em um momento adequa-
do. Há ainda um outro processo, que é o de fazer uma
escrita com ganchos, que prenda as pessoas. Para a
maior parte das pessoas essas coisas não aparecem
espontaneamente, só para uma ou outra.

Existem técnicas de gancho para prender a atenção


das pessoas. Eu fiz um curso de um sujeito chamados
James Patterson (não é o psicólogo canadense Jordan
Peterson, que escreveu o livro 12 Regras para a Vida).
Esse sujeito, o James Patterson, faz best sellers. É o que
ele faz. Ele pode escrever qualquer livro: virará best
seller. O cara já deve ter metido uns vinte livros na
seção Mais Lidos do jornal The New York Times, ele
sempre está lá.

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Perguntaram aqui: “São técnicas de persuasão?” Não
são técnicas de persuasão, são técnicas de escrita,
mesmo. Há um jeito específico de escrever ou falar
que faz com que você prenda a atenção da pessoa,
o sujeito simplesmente fica ali. Esse James Patterson
falava uma coisa muito interessante: “Eu não escre-
vo gênero policial. Eu escrevo gênero vira-páginas
(turning pages). Uma vez que você entra no meu livro,
não consegue mais ir embora e fica até a última pági-
na.” É a mesma coisa que aquele idiota que escreveu
o Código da Vinci faz, o tal Dan Brown. Esses sujeitos
têm um jeito de escrever muito específico.

Esse curso do James Patterson de que falei está dispo-


nível na internet, vocês podem procurar. Ele explica
como se faz, o processo criativo dele etc., e ele é um
sujeito que eu achava muitíssimo interessante, por-
que ele sabia o seu lugar. O Patterson dizia “Olha, eu
não sou Camões. Não sou Cervantes, não sou Shakes-
peare. Eu sou um porteiro. Eu faço com que você se
acostume a ler, se acostume a conseguir ficar senta-
do duas horas seguidas diante de um material de pa-
pel que possui páginas, para que talvez um dia você
possa consumir as pérolas. Eu apenas te introduzo
no elemento da leitura”.

Claro que estou romantizando o discurso, ele não fa-


lou exatamente assim, mas é um sujeito que sabe seu
lugar e não quer ficar fingindo que é um gênio sem
sê-lo. Ele não quer falar para meia dúzia de pessoas

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quando ele pode muito bem se comunicar com cen-
tenas de milhares e fazer um bem para elas, oferecen-
do-lhes um pouco de cultura. Esse é o lugar do James
Patterson, e gostei muito dele por isso. É uma clareza
muito aguda de quem sabe seu lugar, de quem não
rejeita nada, nenhuma tradição. Ele está inserido na
tradição literária, estudou muito, leu tudo o que você
possa imaginar.

Quando eu fui para a Psiquiatria, pensei “Vou precisar


ler tudo”, e foi o que fiz. Acontece que noutro dia me
perguntaram nos stories: “Italo, você começou a es-
tudar pelo quê? Quais foram os primeiros assuntos?”,
e eu respondi: “Foi o espiritismo”. Uma enxurrada de
crentes e católicos ficou escandalizada, perguntando
“Como?!”

“Como” o quê, meu filho? Uai, um homem de estudos


estuda, não sei se você sabe disso. Ele estuda Astrolo-
gia, Espiritismo, Macumba, as religiões afro, isso tudo
vai no pacote. Você acha que estou aqui há dezessete
anos fazendo o quê, oras? Estou estudando, prestan-
do atenção e atendendo gente já há muito tempo, en-
tão é claro que terei de estudar esses assuntos.

Voltando um pouco ao assunto de antes, quando co-


mecei a estudar esse negócio do mercado editorial
(que acho muito interessante), fui estudar toda a car-
reira do Paulo Coelho, aquele de quem todos falam “Ele
não sabe escrever, escreve igual a um adolescente”.

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Está bem, tudo isso é verdade, mas o fato é que o Pau-
lo Coelho, na década de 80, conseguia lotar auditó-
rios que ninguém lotava, conseguia fazer lançamen-
tos de livros que ninguém fazia. Veja bem: década
de 80, sem internet, sem porcaria nenhuma, e o cara
enfiava 200, 300 pessoas em um auditório para falar
dos livros dele.

“Ah, mas o Paulo Coelho é só mídia, ele só tem mídia”.


Meu filho, o sujeito não tinha mídia nenhuma, se for
parar para pensar. Foi o contrário: a mídia é quem
teve de engolir o Paulo Coelho, porque ele já tinha
feito sucesso, ele tinha lá a técnica específica de con-
vencimento de vendas dele etc. Se for ficar com co-
ceirinha de “Não me misturo com esse pessoal, que-
ro nem saber da vida dele”, você será um ignorante
para sempre. Se você rejeita tudo a priori, você ficará
no lugar onde já está, e isso é um problema, porque
esse é um lugar muito restrito, pequeno, pouco am-
plo, amputado.

Se você rejeita tudo a priori, se você tem uma cocei-


rinha religiosa, cultural, de pensar “O sujeito tem
umas idéias que são incompatíveis com as minhas”,
você está frito. Como assim “idéias incompatíveis”,
filho? Você nem tem idéia nenhuma!

Às vezes as pessoas vêm aqui me escrever como se


fossem muito superiores a mim, falando “Fico inco-
modado com essas pessoas fanáticas. Eu concordo

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com muitas coisas que o Italo fala, mas não concordo
com outras”.

Dane-se se você concorda ou não. Você está estu-


dando o assunto há 17 anos? Você tem seriedade na
vida, está mesmo atento a tudo? É óbvio que não,
eu sei que não. Então não é para concordar comigo e
muito menos discordar, é para somente prestar aten-
ção ao que estou falando. Que mania maldita de
querer já sair concordando ou discordando de tudo.

Já comentaram aqui: “Paulo Coelho é comunista”


Dane-se! É o maior fenômeno de vendas de livros no
Brasil. Você irá rejeitar a expertise do cara nessa área?
Eu por acaso falei que você deveria se tornar o Paulo
Coelho? Não! Falei apenas para você prestar atenção
ao sujeito, porque existe algo que ele faz mil vezes
melhor do que você. É só por isso.

A questão não é concordar ou discordar de mim. Fran-


camente, isso é irrelevante pra você, então imagina
pra mim! Estou pouco me lixando se você concorda
ou discorda; a recomendação que eu te dou é: você
está diante de um homem de estudos, de um sujeito
que está prestando atenção a isso há muitos anos,
apesar de ser novo. Tenho 34 anos e estou estudando
a sério desde os 17, muitos assuntos relativos à Filoso-
fia, à alma humana, às religiões, às ciências compa-
radas. Não é para você concordar ou discordar.

27
Isso é o que professor Olavo chama de voto de po-
breza em matéria de opinião. Nada te tornará tão in-
teligente quanto isso. Se você já fica com essa cocei-
rinha de querer concordar ou discordar de alguém
só porque o sujeito começou a falar, você é um ju-
mento. Não está na hora ainda, você não está pron-
to. Passe 10 anos estudando e prestando atenção ao
assunto, aí você, talvez, quem sabe, comece a reunir
todas as ferramentas e elementos para concordar
ou discordar de algo.

Comentaram aqui: “Até sobre os fotógrafos históricos


você estudou”. Claro que estudei, caramba, quem faz
meu curso sabe. O pessoal não consegue interpre-
tar um texto simples. Noutro dia eu falei nos stores:
“Método de ovulação billings (MOB) é camisinha de
católico”. Santa Mãe de Deus, veio uma enxurrada de
gente querendo concordar ou discordar de mim lou-
camente. Não é pra fazer isso, é pra prestar atenção
ao que estou falando!

“Não há analogia possível”. Meu filho, mas isso aqui


é uma droga de uma analogia, como não há analogia
possível? O adjunto “de católico” qualifica o “camisi-
nha”. É claro que o MOB não é uma camisinha. Se eu
quisesse dizer isso, eu teria dito “O MOB é camisinha”,
mas não, eu disse “O MOB é camisinha de católico.”
Mais especificamente, de católicos que querem fin-
gir que podem espaçar filhos e o caramba a quatro, e
aí o pessoal entra em uma puta discussão absoluta-

28
mente idiota.

A pessoa é católica, mas nem conhece os fundamen-


tos históricos, a discussão, não faz idéia do assunto,
e quer concordar ou discordar. Isso acontece a toda
hora. O sujeito tem uma ânsia, uma coceira, um pru-
rido, um comichão de querer concordar e discordar,
parece que ele tem uma ereção quando pode discor-
dar de algo. Mas que palhaçada! Pare com isso! Você
não está em posição disso.

Para poder concordar ou discordar de um tema, você


precisa saber várias coisas sobre ele. Precisa saber
se está concordando com a proposição ou com o
conceito; com a substância ou com a forma da coi-
sa; com a premissa maior, com a premissa menor ou
com a conclusão.

“Italo, eu nem sei que coisas são essas, nunca ouvi fa-
lar de nada disso”. É por isso, exatamente, meu filho.
Você nunca ouvir falar de porcaria nenhuma, quer
concordar/discordar de quê?

“É, mas eu sou um sujeito de muita opinião, não con-


cordo com tudo, tenho minha opinião formada, eu
penso com a minha própria cabeça.” Você então so-
fre da Síndrome do Propriomiolismo! Da síndrome
de pensar com os próprios miolos! Não há nada pior
do que pensar com os próprios miolos quando eles
são seus, porque no seu miolo não tem nada, só tem

29
tuts tuts, distração, sono e preguiça!

Seja sincero consigo mesmo: qual foi a última em que


você leu um livro de capa a capa? E qual foi a última
vez que leu um livro que era absolutamente o con-
trário daquele livro que leu anteriormente? E qual foi
a última vez que leu os princípios filosóficos por trás
desse livro mesmo que estava lendo? Meu filho, você
não lê um livro há anos, desde a época do colégio!
Me fale a verdade: você nunca leu uma porcaria de
um livro!

“Italo, mas a minha avó nunca leu um livro e era mui-


to culta”. É, mas sua avó estava inserida em uma tra-
dição histórica que não estava degenerada, ela pres-
tava atenção às coisas e ficava com a opinião dos
sábios, caramba, não com a opinião da cabeça dela.
Ela repetia a opinião dos sábios, que eram sujeitos
centrados na tradição, que por sua vez repetiam a
opinião dos sujeitos que já tinham investigado aque-
le assunto propriamente e muito profundamente.

Eu sei que falar um negócio desses hoje em dia é es-


quisito, é horroroso, é muito incômodo. “Como assim,
Italo, agora quer dizer que para eu pensar, dar minha
opinião e exercer meu pensamento crítico eu preci-
so estudar?” Ué! E não é assim? Se você não estudou,
não investigou, não prestou atenção, não ouviu, não
conversou, nunca leu, não teve vontade de saber,
não teve vontade de gastar 10 minutos do seu dia

30
por um ano para investigar aquele assunto... Então,
saiba que está pensando besteira. Todo o direito que
você tem de emitir uma opinião burra, nós temos de
não prestar a mínima atenção a essa idiotice que
você está falando. Não há mistério nisso.

O sujeito “discorda” de Astrologia. Meu filho, você es-


tudou Astrologia em algum momento da sua vida, da
sua história?

“Italo, mas na Bíblia diz que não pode”. É, mas ali na-
quela outra passagem diz que pode, diz até que uma
estrela indicava o nascimento do Salvador. Astrologia
é complexa para caramba, só quem estudou o assun-
to profundamente sabe.

“Ah, o Italo é astrólogo!” Meu filho, eu apenas estudei


Astrologia, não sou astrólogo. Eu não vivo disso, não
tenho uma tendinha para fazer atendimentos, como
é que sou astrólogo? Eu também sou fotógrafo por
bater fotos e ter um Instagram?

É aquele desejo de lacrar, de ser o gênio da lacração.


Pare com essa bobeira, isso é um atentado contra a
inteligência humana. Fique calmo. Não precisa emi-
tir opinião, concordar ou discordar. Ninguém te pede
isso e, na verdade, ninguém quer saber, ninguém está
nem aí. Esse é o ponto.

“É ridículo ler Paulo Coelho”. É ruim mesmo, é um livro

31
fraco nesse sentido, mas expressa todo o pensamen-
to de uma época, toda uma manifestação fracamente
religiosa da new age. É claro que têm uma puta utili-
dade aqueles livros, mas como documentos históri-
cos. Como gênero literário, são fracos mesmo e não
se igualam minimamente a nada que foi produzido
de grande na humanidade. Assim como Astrologia,
porém, é um negócio que deve ser estudado. “Italo,
então eu preciso estudar essas coisas?” Não, mas tam-
bém não precisa ter opinião, caramba. Sua opinião é
proporcional à atenção séria e verdadeira e compa-
rada que você deu à coisa.

Durante a faculdade, eu tive uma matéria de Bioquí-


mica, cujas provas eram do estilo prova comparada.
Você poderia pedir quantas folhas adicionais qui-
sesse para escrever. O sujeito que escrevesse melhor,
mais completo etc., tirava 10 na prova, e a nota dos
outros era em comparação à nota do sujeito que ti-
nha ido melhor. Em uma das provas, o meu amigo
sentou-se ao meu lado para fazer o teste. Começa-
mos a fazer a primeira questão. Terminei a primei-
ra folha, pedi uma adicional, depois outra, e outra...
Quando eu estava na quarta folha, meu amigo falou
“Caramba, pára com isso, cara! Chega! É comparada
essa porcaria, escreve menos aí, desgraça!” É isso, a
sua opinião é comparada com a opinião do sujeito
que estudou mais. O fato de você ter estudado tam-
bém por 15, 20, 30 minutos não quer dizer nada.

32
Noutro dia apareceu uma menina querendo discu-
tir Bioética comigo. Ela era arquiteta, nunca leu nada
sobre o assunto. Francamente falando, minha filha,
você quer discutir Bioética comigo? Não querendo
ser arrogante, mas a menina querer discutir Bioética
comigo é equivalente a eu entrar em uma banca de
jornal, folhear o índice da revista “Casas Modernas”,
e querer discutir projetos e execuções com ela. Fala
sério, caia na real. Imagina se ela vai deixar eu tocar
um projeto, fazer a execução de uma obra, só porque
folheei o índice da porcaria da revista Casas Maravi-
lhosas. É claro que ela não deixará um negócio des-
ses acontecer.

Sua opinião é proporcional à atenção e ao esforço


que você teve para se dedicar a algo. Quando você
não se esforçou, não se dedicou a nada, você não
deve ter opinião sobre o assunto, mas ficar quieto.

“Italo, então eu vou ser um sujeito sem opinião?” Meu


filho, o problema não é ficar sem opinião. É que você
não tem nada a oferecer, então é melhor para você e
para sua inteligência que você fique quieto, mesmo.
Fique quieto e preste atenção, caramba. Do contrário,
você estará frito, será um dosestará convencido da-
queles lixos de idéias próprias que tem.

O pessoal quer passar lição de moral escrevendo “lhe


dar” no lugar de “lidar”, como recebi outro dia nos
stories. Você vai me dar o quê, filha? A pessoa não

33
consegue nem escrever em português.

“Italo, não tem nada a ver. Eu só não sei escrever, mas


tenho minhas próprias opiniões”. Não tem, cara. Eu
sei que é duro o que estou falando, mas não dá para
te colocar em pé de igualdade. Fique quieto, vá fazer
o que tem de fazer.

As pessoas são doidas para terem opinião naquilo


que não é da área delas. Meu filho, preste atenção.
Você é arquiteto? Então vá ter opinião na arquitetura,
vá estudar, vá se dedicar. Se você for dentista, vá ter
opinião em qual é a melhor resina, a melhor técni-
ca. Tenha um núcleo duro de interesses e se esforce
nele, reme ali, cave ali. Quando você fica com essa
coceira de querer ter opinião para tudo, em questões
que você não é chamado a ter, você se emburrece e
se enfraquece, porque a sua área é o seu primeiro
ponto de interesse.

“Italo, mas eu sou advogado e adoro Filosofia, ado-


ro história grega.” Dane-se, cara, sinceramente. O que
você tem que adorar é advocacia, desculpa te falar.
Quando você tiver estudado e dominado tudo de Di-
reito, quando souber tudo, aí você usa aqueles outros
elementos de cultura para iluminar a sua área de co-
nhecimento duro.

“Italo, mas eu sou super técnico, sou esteticista. Não


há nada mais técnico que isso”. Então você domina-

34
rá toda a técnica da Estética e começará a estudar
as áreas correlatas, como a da Beleza. Isso é passo a
passo de produtividade, inclusive. O sujeito fica im-
produtivo quando começa a se interessar por coisas
que não têm nada a ver com a área dele, e quando
começa a ter opiniões sobre tudo naquela outra área
porque leu meia dúzia de livrinhos sobre assuntos
correlatos.

Outro exemplo dos stories: o sujeito adora evolucio-


nismo, só lê livros evolucionistas, não lê um livro so-
bre criacionismo, e quer falar “Esse negócio de cria-
cionismo é crendice”. Meu filho, sabia que nem na
Academia científica as pessoas estão convencidas de
que o evolucionismo é a única linha de explicação?
Sabia? Não, né?

Aquecimento global é outro exemplo. Não há um con-


senso de que a terra está aquecendo. Há menos de
20 anos as pessoas achavam que estava congelando,
não sei se vocês se lembram. Então fique bem quieto.

“Você opinou sobre Direito”. Eu nunca opinei sobre o


Direito, não fale besteira. Naquele dia, eu estava fa-
lando sobre escolha de carreira, isso sim. Já esse ne-
gócio de sentença X, Y, Z, eu não sei, quem tem de sa-
ber é o advogado. Acrescente-se a isso o fato de que
o Direito é uma área que deve ser do conhecimento
de todo homem maduro. O conhecimento das leis e
da justiça deve ser de todo homem maduro, mas a

35
ferramenta técnica do direito, não -- quem tem de sa-
bê-la é o advogado. Não faça confusão.

O psiquiatra, o sujeito que fala sobre comportamen-


to, parece estar falando sobre muitas áreas distintas,
mas no final das contas, está falando sempre da mes-
ma coisa: de escolha, motivação, amadurecimento...,
e isso engloba várias áreas, um monte de coisas. Não
vou me meter a falar de áreas técnicas.

Não fique dando opinião para as coisas que você


irá emburrecer. Faça voto de pobreza em matéria de
opinião. Fique quieto por cinco, dez anos, e esforce-
-se na sua área, sem aquele rançozinho de não con-
seguir ler a corrente antagônica. “Gente, sou muito
direitista, não consigo ler nada de comunismo”. Meu
filho, então você não sabe nada sobre o direitismo e
sobre o que é a direita. Se você não leu nada sobre
o comunismo, então não sabe nada sobre o direitis-
mo, porque você não conhece a discussão interna da
área.

A maior parte das pessoas não é chamada a ter opi-


nião, mas sim a trabalhar bem, servir, ser útil.

36
MFM #72 | 27/06/2019

O QUE EU DESEJO
PRO MEU FILHO (E PRA VOCÊS)
Dr. Italo Marsili

Vamos fazer a transmissão da live da fofura. O Ân-


gelo, que nasceu ontem, está com a gente. Criança é
uma coisa misteriosa, ainda mais quando é bebê. Eu
adoro bebê! Você olha para ele e visualiza algo extra-
ordinário... de outro mundo. Você toca ali no mistério
da fragilidade humana, que, se não houver alguém
mais forte, amoroso e que queira cuidar de nós, aca-
baremos morrendo/perecendo. E essa continua sen-
do a realidade da vida humana até o nosso último
dia neste planeta. Com o bebezinho, essa coisa fica
bem clara, ou seja, do que é feita a realidade da vida
humana? Como acontece a coisa? O que é o Homem?
Ele está diante do quê? Está diante de um mistério
tremendo, o mistério do amor das outras pessoas.
Enfim, a nossa sociedade é assim, quero dizer, se não
houver pessoas que, por exemplo, sejam benévolas
e queiram cuidar de nós, acordem antes, para fazer
a cidade andar, cozinhem e teçam para a gente, cui-
dem da segurança das cidades e encanem a água
para chegar nas residências, ou seja, se não existirem
pessoas trabalhando bem, acabaremos perecendo –
afinal, se formos soltados na mata, morreremos mes-
mo... um ou outro sobrevive.

37
A verdade é que dependemos a todo instante do
amor e da benevolência dos outros. Quando olho
para um bebê desse que aparece – e, na minha vida,
já apareceram alguns meus (este é meu sexto filho) –,
umas coisas vêm junto: o que eu quero para este mo-
leque? Veja só, isso de querer que o filho seja médico,
advogado etc. é uma bobeira. É óbvio que não! É algo
secundário, colateral. É uma coisa que não depende
de mim. Você mesmo, como pode querer ser médico,
advogado, arquiteto? Isso depende de tanta coisa,
seja da existência de faculdade, de uma sociedade
mais ou menos organizada etc. Num momento de
convulsão social ou de guerra, você não terá nenhu-
ma dessas profissões.

Uma coisa que realmente quero para esses moleques


é uma coisa que aparece... eu estava outro dia ven-
do a Sâmia, minha esposa, e, enquanto ela ensinava
ao Augusto (meu terceiro fiho) a escrever, ela falava
o seguinte: “Não importa que você escreva rápido e
termine! O que é importa é que você faça, mesmo
devagarzinho, mas com boa letra! Imediamente, veio
à cabeça aquele poema do poeta Antonio Machado,
que diz: “Despacito y buena letra, que el hacer las co-
sas bien, importa más que el hacerlas”. Ou seja, fazer
as coisas bem-feitas, com sentido de transcendên-
cia, botar o coração nelas, é algo que importa muito
mais do que terminá-las. Então, o que eu quero para
meus filhos? Que eles possam encarnar uma coisa a
qual chamamos materialismo espiritual. Não é um

38
materialista hedonista (do prazer)! O que eu quero
para esse moleque é que ele seja um sujeito capaz de
olhar para as realidades mais materiais deste mun-
do e as situações intranscendentes do nosso dia a
dia. Mesmo que ele, por exemplo, faça isso brincando
com os irmãos desde pequeno, estudando em casa ou
no colégio, olhando para uma pessoa, num trabalho
dentro de uma fábrica, de um laboratório ou hospi-
tal, mas que ele consiga olhar para aquela situação
mais intranscendente e vulgar de todas e descobrir
aquele brilho espiritual e divino, que pede para ser
descoberto a cada circunstância, ou seja, no meio
das tarefas mais vulgares. Que ele consiga materia-
lizar a vida do espírito nessa circunstância concreta,
na qual ele apareceu.

Ao sujeito que é religioso: isso está em vários textos


religiosos, mas, na tradição ocidental, há uma pas-
sagem muito interessante, na ressurreição de Cristo,
em que Este ressuscita e fala: “Vede as minhas mãos
e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que
um espírito não tem carne nem ossos”. Cristo reen-
carna na matéria, volta para uma realidade material.
Nós olhamos para as coisas materiais e precisamos
encontrar esse grão de verdade e transcendência. O
sujeito deve conseguir fazer isto, independentemen-
te da realidade em que esteja (entre livros, pacientes,
sofrimentos, alegrias e tristezas, por exemplo). Quero
dizer, ele deve conseguir olhar para aquela coisa ali
– quero isto para cada filho e cada um de vocês – e

39
matar o fetiche do “quem me dera”: “quem me dera
ser mais velho, mais novo, mais magro, mais gordo,
mais pobre, mais rico... quem me dera ter mais tem-
po, menos tempo, menos filhos...”. Pare com esse fe-
tiche! Ele mata a vida do espírito.

Meu filho, algo já foi dado para você: a realidade ma-


terial, que você tem em suas mãos. É essa realidade
mais intranscendente e vulgar, que você consegue
dar transcendência a ela ao se esforçar na busca da-
quele quê divino e de verdade, existente em cada
uma dessas coisas. Isso é que nos leva a entrar neste
mundo, materializando a vida do espírito e dando
sentido a cada uma das coisas presentes em nos-
sas mãos. Aí não tem tristeza! Quer dizer, você pode
ter sofrimento, mas sem tristeza – que são coisas
diferentes. Ora, quem mata o fetiche que mencionei,
consegue entrar na vida profundamente humana. No
final das contas, tudo esse sujeito faz para dar ele-
mentos de transcendência. Ele consegue encontrar
o sentido de sua vida. Diante do sofrimento ou da
alegria dos doutros, diante da pobreza ou da rique-
za, ele está inscrito/instalado dentro da vida – que
é a vida propriamente humana. É isso que desejo
para meus filhos e todos vocês! Ao acordar, preciso
sempre lembrar disso na minha vida. Ao entrarmos
no mundo de fantasia e fuga – do “quem me dera” –,
encontramos à frente a porta da frustração, uma ja-
nela fechada para a vida cheia de sentido. Ora, como
fazemos isso? Entendendo que este mundo é bom e

40
está na nossa frente para que possamos pegá-lo, tra-
balhando fortemente dia a dia, a cada minuto, dian-
te desse sentido de eternidade. Do mesmo jeito que
minha esposa falou para o Augusto daquela vez, de-
vagar e com calma, fazendo as coisas bem, importa
mais do que fazê-las. Dessa forma, imagine quantas
neuroses serão amputadas dentro das nossas cabe-
ças. Devemos entender: o que cabe a nós é cumprir o
nosso dever, estar onde deveríamos estar, sem fugir,
mas fazer bem aquela coisa por anos. Quando en-
tendemos que o ritmo é matar o fetiche do “quem me
dera” e encontrar o brilho divino/espiritual em cada
coisa, a vida anda sem sofrimento e tristeza. A gente
consegue lembrar que é possível olhar para o plane-
ta e pensar o quanto ele é bom. O que estraga este
mundo é a preguiça, indolência, inveja e crueldade.

Quando entramos no mundo verdadeiro sem medo


de transformá-lo, quer dizer, o tempo por antono-
másia, nós transformamos o tempo no lugar próprio
da vida do espírito, isto é uma bobeira. A vida do
espírito se dá justamente nesse trono chamado reali-
dade, onde nosso coração deve morar. Quando trans-
ferimos o trono para a igreja etc., temos uma fuga da
vida do espírito e conseguimos nos frustrar. Cada cir-
cunstância do nosso dia a dia é uma fonte de santi-
ficação da nossa vida, uma maneira de cumprirmos
nosso dever – para fazermos as coisas diante da ver-
dade (sem reclamação, sem querermos fugir), ou seja,
fazermos as coisas de cara (olhando para a verdade),

41
querendo descobrir isso a cada circunstância.

É isso que desejo a todos e queria realmente


transformar e formar no nosso espírito, quer dizer, a
morte do desejo de fuga, do desejo do “quem me
dera”. Como assim “quem me dera”? O que foi dado a
você, ou seja, essa família, este país, este planeta, es-
sas características (cor, linguagem, inteligência), é o
que você tem. Você precisa pegar tudo isso, sabore-
ar, colocar dentro do peito e começar, assim, a viver.
Ao matar o “quem me dera”, você consegue entrar na
realidade, voltando para dentro dela e começando a
trabalhar a partir dessa nossa circunstância concreta
(com desejos fortes de servir, sorrir e de estar instala-
do na realidade).

Isso aqui resolve um monte de neurose, dá uma for-


ça inimaginável e nos coloca no reino da felicidade
– lembrando que a felicidade não é a exclusão de
sofrimento; ela é aceitação amorosa e deliciosa da
circunstância concreta, que nos cabe viver e santifi-
car neste presente momento.

O Ângelo é muito bonzinho... é um anjo... um amor.


Quando olho para uma criança, sinto uma imensa
vontade de rir. As crianças aparecem no mundo para
serem amadas, é só para isso que servem, para a gen-
te amá-las.

Fonte com o trecho bíblico: http://www.capuchinhos.org/biblia/index.php/Lc_24

42
Live 73 | 27/06/2019

UM ASSUNTO PROIBIDO

Toda vez que eu incorporo o espírito caipirês e sol-


to algo como “Semo todos caipira”, aparece alguém
para dizer “Ah, como é que vou acreditar em um dou-
tor que fala ‘semo’?”

É engraçado, porque quando esse mesmo cara vai


brigar comigo, me acusar, o texto dele vem cheio de
erros ortográficos. Não de forma proposital, mas por-
que ele não sabe mesmo escrever. No Brasil é assim.

Se é a sua avó te acusando, sua tia, sua família, você


deixa para lá, faz vista grossa, fica de bem, dá beijo,
não leva a sério e pronto. Já quando começam a te
acusar em público -- e às vezes são acusações sérias
e graves --, o pessoal fica muito acanhado, acuado de
se defender, e começa a se justificar. E é por isso que
eles se enfraquecem.

Quando você se justifica, começa a dar razão para


os outros, e muitas vezes eles são uns panacas que
não têm razão nenhuma. A grande receita é bater
de volta, mas bater com verdade, acusá-los não com
mentiras, mas com coisas sérias que eles realmente
fazem.

43
Noutro dia eu estava conversando com umas amigas
blogueiras e elas estavam comentando que morrem
de medo desses sites de fofoca. Elas têm medo por-
que não batem de volta, não reagem. Aí o sujeito que
só quer o seu mal cresce e vai achar que, de fato, você
é fraquinho -- aí é que ele não pára nunca.

Quando você revida, dá umas três ou quatro pan-


cadas de volta ridicularizando o outro, você mostra
para que veio. Mas veja bem: não é para discutir a
substância do que eles estão falando. É para fazer
chacota, é para vir com vinte vezes mais piada e ri-
dicularização para cima do cara, assim ele fica com
medo e às vezes até deleta o perfil.

Isso aconteceu comigo da última vez, com um des-


ses perfizinhos de fofoca veio falar de mim. Eu lá me
justifiquei do monte de absurdos que ele estão falan-
do? Fiz apenas um monte de piadas, de chacota para
cima deles, e o querido excluiu o perfil.

A outra opção é ir com processo judicial criminal,


mesmo. Minha empresa tem uma equipe jurídica, en-
tão meus advogados colocaram uns estagiários para
mandar notificações extrajudiciais e alguns proces-
sos reais aí para esses caras que fizeram o difamação
e calúnia contra mim.

“Italo, mas isso é muito quarta camada!” Você não tem


idéia de o que é quarta camada, minha filha, uma

44
coisa não tem nada a ver com a outra. Você acha que
vão fazer chacota, calúnia, difamação, contra um pai
de família, contra um profissional que pode fazer o
bem para milhares de pessoas e que ficará por isso
mesmo? Nada disso, o assunto será tratado judicial-
mente. Se você vier me tratar de modo criminoso, eu
vou te dar é uma pancada na esfera jurídica que você
terá de vender as calças para me pagar. É simples as-
sim. Isso não é quarta camada, é o mundo dos adul-
tos.

Há um mês, um sujeitinho, um palhaço desses aí, es-


creveu uma nota de repúdio contra mim, cheia de ca-
lúnia e difamação. Daqui a pouco ele está recebendo
o processo em casa, o coitado. Vai para a corte, terá
de responder diante do juiz. Pronto, acabou, o mole-
que cala a boca, porque ele aprende que na vida dos
adultos é assim que funciona.

Na vida dos adultos, toda ação tem uma reação de


igual proporção. O sujeito quer fazer uma calúnia ou
uma difamação contra um pai de família, um sujeito
que está trabalhando? Não vou nem perdoar ou dei-
xar de perdoar. Nem ligarei, não farei nada, manda-
rei para o meu advogado resolver esse problema. O
moleque tomará um processo e pronto, o juiz julgará
e acabou.

“E se ele pediu desculpas?” Tudo bem, como eu disse,


nem precisava ter pedido, mas aceito as desculpas.

45
Ainda assim, terá de responder na corte agora. É tão
simples quanto isso, mas no Brasil as pessoas não sa-
bem desse negócio, elas ficam repetindo “O que vem
de baixo não me atinge”. Isso é afetação, é claro que
atinge.

Se as pessoas falarem mal de você recorrentemente


e você não reagir, daqui a pouco você ficará aca-
nhado, com medo, perderá a sua voz e entrará na
espiral do silêncio.

A espiral do silêncio é uma teoria sociológica criada


por uma alemã chamada Elisabeth Noelle-Neumann
na década de 70. Não é exatamente o caso, mas se
parece: você fica tão acuado que fica com medo de
reagir, de falar.

O negócio é ir para a pancadaria e bater de volta,


com tranquilidade, sem guardar rancor. Quando
você nunca responde, nunca devolve, nunca reage,
eles crescem para cima de você e põem uma morda-
ça na sua boca, arrancam metade dos seus culhões,
tiram toda a sua fibra e toda a sua energia. Você vira
uma nulidade, porque tem medo.

O pessoal acha que ser bonzinho, religiosinho, é es-


tar adequado a uma moral burguesa mas uma coisa
não tem nada a ver com a outra. Não é para se afetar,
a coisa não acontece por dentro.

46
Quando eu li a nota de repúdio do cara, há um mês,
eu não senti nada. Zero. Sabe o que é nada? Eu ape-
nas li e falei “Bem, eis aqui um cara que mexeu com
meu pai de família”. Mandei para o meu advogado e
o sujeito tomará um processo, vamos mexer os pau-
zinhos aí. Ele e uma série de pessoas que foram es-
crever nos comentários, aliás. Vão aprender como é
que funciona a vida adulta. Para reagir, não precisa
se sentir afetado, basta ver a situação.

É como aquela gente do grupo Psicólogos Cristãos.


Tempos atrás, houve uma discussão envolvendo esse
pessoal. O Conselho de Psicologia falou “Isso de Psi-
cologia Cristã não existe, não é da profissão, vocês
são charlatães”.

O que esses psicólogos fizeram? Começaram a se jus-


tificar, falando “Não, é que eu tenho meu direito da
consciência, de fazer o que quero”. Bando de fracotes
também, vão tomar e não estão nem vendo de onde
veio.

Eles deveriam ter se reunido, levantado a ficha de to-


dos aqueles casos escandalosos do Conselho e mos-
trado ao mundo que o Conselho é formado por um
bando de picaretas que têm um desconhecimento
profundo do tema. Umas das coisas mais profundas
que há é a linha de Psicologia que entende o sujeito
segundo a antropologia cristã. Isso é tão velho quan-
to andar para frente. Aliás, um dos maiores edifícios

47
de Psicologia foi escrito por ninguém mais, ninguém
menos que São Tomás de Aquino, que não era apenas
cristão, mas também católico. Existe toda uma tradi-
ção de psicólogos cristãos, uma enxurrada de gente.

Os caras tinham que montar todo um documento,


reunir gente para caramba e dar pancada, pancada,
pancada, pedindo a extinção do Conselho,a desti-
tuição de todo o mundo, o impeachment dos caras.
Mas não, maluco quer ficar acanhado porque de fato
estão errados, a cambada de ignorantes. Querem se
justificar.

Vão meter uma mordaça na sua boca e você fica-


rá quietinho, caladinho, assim como eles querem.
Isso é mais velho que andar para frente. Se o sujeito
realmente não tem culhões, não tem energia, dis-
posição, força, vigor, não tem muita cor ou confian-
ça, não sabe o que está fazendo, aí ficará acanhado
para caramba mesmo, e pior, ainda vai fingir cari-
dade cristã: “Não, mas a caridade cristã não permite
que eu revide à altura”.

Você não sabe o que é “caridade” e muito menos


o que é “cristã”, então vá se ferrar. Se você tivesse
culhões, se honrasse mesmo o nome do Cristo de
quem você acha estar ao lado, você desceria a pan-
cada nos outros. Mas você não sabe como, então
apenas se ferra, mesmo. É isso que te acontece.

48
Há um outro problema, que é a questão do tempera-
mento. Alguns têm o temperamento de ser o mártir,
o cruzado que bate de frente. Outros têm o tempe-
ramento de pensar “Vou oferecer minha vida e vou
morrer sem lutar, vou entregar a minha vida”. O pro-
blema é o sujeito que não tem uma coisa nem outra,
quer apenas salvar a própria imagem, quer o empre-
guinho dele, os pacientezinhos dele. Por esse tipo de
cara, realmente não há muito a ser feito.

Temos de ficar aqui, batendo, batendo e batendo. No


final das contas, eles são um bando de quartas ca-
madas que querem aceitação de um grupo, querem
ser validados por aquele grupinho, não têm disposi-
ção para o martírio, para a pancadaria, para porca-
ria nenhuma, e aí ficam amargando.

Perguntaram: “Qual é a ligação entre os temperamen-


tos e a Astrologia?” É o seguinte: tudo o que está den-
tro da cadeia simbólica pode ser conectado. A pri-
meira grande articulação simbólica de conexão são
os números, mas hoje o pessoal perdeu isso comple-
tamente, não se estuda mais simbólica. Podemos cor-
relacionar temperamento e Astrologia, mas não de
forma direta, como em “Os sujeitos que são de Câncer
e Peixes, que são signos de água, têm o temperamen-
to fleumático”. Não é assim que funciona.

O máximo que você consegue fazer é uma correla-


ção simbólica, sobretudo entre as características. Os

49
temperamentos não derivam diretamente do mapa
astral do sujeito, não há essa correlação, você não
pode traçar esse nexo causal entre uma coisa e outra.
O que você pode é, uma vez dado o temperamento,
o mapa astral do sujeito, fazer um estudo simbólico,
mas você não conseguirá traçar uma relação direta,
de tal modo que você consiga calcular o tempera-
mento pelo mapa.

O que pode ser feito é o cálculo de uma outra coisa,


chamada mentalidade, que por acaso dá os mesmos
nomes que os temperamentos, mas a mentalidade
diz respeito a uma outra realidade, mais psicológica,
enquanto o temperamento é uma realidade mais mi-
neral.

Mandaram: “Católicos vs. signos do zodíaco”. Essa


discussão é chata para caramba. Estamos falando so-
bre Astrologia. Um católico pode, por exemplo, fazer
culto a Satanás? Não, não pode, porque isso não é da
religião católica -- no entanto, não sei se você sabe,
mas existe uma série de linhas de estudo sobre de-
monologia, por exemplo. O fato de o sujeito estudar
os anjos, os anjos caídos/demônios, de ele fazer um
estudo profundo sobre a metafísica da angelologia,
não significa que ele cultue o Satanás. Esse assunto é
de uma burrice que não tem fim e, às vezes, não tem
nem cura. Quando você fala a palavra “Astrologia”,
caem os queixos dos religiosos, eles falam “Ahhh, de-
mônio, herege, apóstata, vade retro”.

50
O sujeito adere a uma coisa não porque estudou, exa-
minou, mas só pelo nome dela. Ele tem medo, pruri-
dos, não pode nunca ouvir falar do negócio. Falou
Astrologia? Está condenado, foi para o quinto dos in-
fernos, caiu queixo do cara, pariu um filho preto, ar-
rancou os cabelos.

Outra pergunta: “E esse povo que culpa o signo para


justificar as bobeiras que faz?” São uns idiotas, né? O
que os signos têm a ver com as besteiras que você
faz? Você possui uma coisa chamada liberdade, e
você sempre, sempre, tem uma margem de manobra.
Você pode fazer besteira por dois motivos: ou porque
queria, ou porque não sabia. Pela teoria da Ciência
Astrológica, seu mapa astral, sua constituição astro-
lógica, te define, mas não te determina.

Se você tem 1,70m de altura, isso te define? Claro que


sim, mas isso te determina? Não. Com 1,70m de altura,
você pode algumas coisas e não pode fazer outras,
mas você possui uma certa liberdade dentro da sua
altura. Se você é branco, preto, japonês, você de al-
gum modo está definido, mas não determinado. Há
uma liberdade dentro daquela sua definição. Ela te
determina, mas não define nesse sentido, ou vice-ver-
sa, é só um jogo de palavras.

Se a constituição astrológica consegue ter um im-


pacto no seu jeito, na sua forma de ser, de enxergar
o mundo, na sua sensibilidade etc., naturalmente

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você terá uma margem de liberdade ali dentro. Se
você tem 2,10m de altura, você pode ser jóquei? Não,
mas pode ser jogador de basquete, fazer outras coi-
sas, ou não ser nada disso. Você não conseguirá al-
gumas coisas, mas conseguirá duzentas outras.

Com a questão astrológica é a mesma coisa, não há


uma determinação absoluta. Você continua com uma
liberdade condicionada, assim como é com todo ser
humano. Ninguém é 100% livre ou condicionado, há
uma determinação dentro de uma margem. A consti-
tuição astrológica não tem qualquer impacto na dou-
trina do livre arbítrio, muito pelo contrário. Se, de al-
gum modo, há uma determinação, há também uma
liberdade grande pelo outro lado.

Acabaram de comentar: “Touro com ascendente em


Touro.” O que você quer que eu fale sobre isso? Eu
não sou o João Bidu, você não está abrindo o horós-
copo da Contigo!, da Capricho. A coisa, para ser séria,
tem de ser vista por vários ângulos.

Em primeiro lugar, eu teria de te explicar o que esta-


mos analisando. Depois, eu teria que pegar uma série
de outros fatores do mapa, para podermos começar
a conversar sobre esse assunto. Touro em Touro? Ok,
mas não sei onde estão seu Marte, seu Saturno, seu
Júpiter, sua Lua. Só sei onde está seu sol e seu ascen-
dente: em Touro, como você mesma disse. Só posso
dizer que você deve estar com o Sol mais ou menos

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por ali na casa XII ou na I, isso é tudo o que posso di-
zer sobre você, e mais nada.

Qualquer pessoa que pegue um elemento qualquer


do mapa e comece a traçar um perfil não sabe o que
está fazendo. Não confie no cara que chega e fala
“Você é de Sagitário, então é desse jeito X.” É... Pode
ser, mas pode ser o contrário, depende de onde estão
seus outros planetas.

A Lua, o planeta Lua, na Astrologia, diz sobre a sen-


sibilidade, sobre o modo como você sente o mundo,
como você tem as suas sensações do mundo, e algu-
mas sensações interiores também. O pessoal gosta
de falar que a Lua corresponde ao pensamento, mas
não é bem isso.

Quando você vê a Lua posicionada, por exemplo, em


Leão na casa IV, a ciência astrológica está te comu-
nicando que a sua sensibilidade é moldada com as
qualidades deste signo Leão, e Leão é o signo do meio
do verão, quando começam a aparecer os primeiros
frutos das árvores. Não é que Leão seja exibido, é que
ele tem uma característica de expansão, de se mos-
trar, e você terá de interpretar esse negócio. A Lua é
sua sensibilidade; ela está moldada por essa qualida-
de do Leão, e está na casa IV, que tem uma caracte-
rística específica relacionada aos afetos. Você tem de
saber fazer a leitura simbólica disso tudo.

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“Italo, você acredita nessas coisas?” Meu filho, cale a
boca e escute, se você acreditará ou não é um outro
problema, estou explicando o que é a coisa da Astro-
logia. Pois bem. Continuando, isso é o que o planeta
Lua está te referindo na Astrologia Tradicional.

Falam que o planeta Mercúrio simboliza o homem


completo, mas também não é bem isso. Ele represen-
ta uma outra faculdade sua, que é a da razão. Sua
capacidade de calcular, perceber o mundo. Mercúrio
simboliza como o sujeito percebe o mundo do modo
mais objetivo e prático, quase que como um cálcu-
lo trigonométrico. Quando você vê um Mercúrio do
sujeito posicionado em um signo ou casa, você está
vendo como é a característica mais natural do fun-
cionamento da razão deste sujeito.

Comentaram aqui: “Não acredito nisso nuuunca!” En-


tão tá bom, você claramente nunca estudou, nunca
ouviu falar, não sabe do que se trata. É só um impli-
cante, no final das contas. Só escute, meu filho, até
para poder criticar depois, se quiser.

A ciência astrológica tem uma radicação muito pro-


funda em uma coisa chamada Antropologia Tradi-
cional. Foi, inclusive, o S. Tomás de Aquino que nos
explicitou esse negócio, mas esse é um outro proble-
ma, uma outra questão. Enfim. O Mercúrio “represen-
ta” (tem uma correlação simbólica) uma faculdade
humana chamada razão. Estamos olhando como fun-

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ciona a razão daquele sujeito.

Já quando você olha para o planeta Vênus, está


olhando para uma outra faculdade, que é a do apeti-
te concupiscível. É o modo como você deseja as coi-
sas, é o desejo natural por coisas fáceis e gostosas,
como torta de limão. Quando aquele objeto te apare-
ce, há uma coisa em você que se move para consu-
mi-lo. É fácil, nada se sobrepõe entre você e a torta,
então você a deseja de modo muito natural. Isso é o
planeta Vênus, ele simboliza essa faculdade da sua
operação chamada apetite concupiscível.

O Sol, por sua vez, representa a vontade, o jeito mais


fácil com que você quer as coisas, o grande motor
propulsor de todas as suas atitudes e atos, o que te
move a tudo. Quando falam “O Italo é de Câncer”, es-
tão dizendo que o Sol do Italo está em Câncer, estão
dizendo que o motor, a qualidade de mover as ações
do Italo são qualidades cancerianas. É isso o que um
Sol em Câncer nos representa.

Há um outro planeta chamado Marte. Ele se relacio-


na a uma faculdade humana chamada apetite iras-
cível. É a faculdade que te move a conquistar coisas
difíceis. Por exemplo, passar em um vestibular, ficar
magro, ficar bonito. Você precisa de um senhor esfor-
ço para essas coisas, e essa é a qualidade do apetite
irascível.

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Se você vê Marte posicionado em um certo signo,
você está, na verdade, vendo qual é a qualidade des-
ta sua faculdade chamada apetite irascível. Isso é a
Ciência Astrológica Tradicional; você faz uma corre-
ção dos planetas com a faculdade. Os planetas estão
moldados pela qualidade dos signos e dizem respei-
to a uma parte das doze casas.

Depois, há o Júpiter, que diz respeito à inteligência


ativa, e o Saturno, que é a inteligência passiva. Preci-
saríamos de uma aula enorme para falar sobre esses
dois.

Os ignorantes, que nunca ouviram falar sobre isso,


que não têm idéia de o que são as faculdades hu-
manas e a simbologia, que nunca estudaram, que
não sabem nem de onde vêm e para onde vão, que
nunca viram, acham que astrologia é só crendice.
Se você nunca estudou nada, tudo vira crendice. Até
dirigir um carro vira crendice, porque você não tem
idéia de como funciona um motor a combustão, você
acreditou em alguém que te falou. Se te falaram men-
tira, você comprará aquele negócio como se verdade
fosse.

“E a previsão do futuro?” Esse negócio de prever fu-


turo já é um outro problema, pertence à Astrologia
Horária. Estou falando de uma outra coisa e não dis-
so, estou tratando da correlação simbólica entre as
coisas criadas e uma qualidade sua.

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Se você é ignorante, preguiçoso, tem uma implicân-
cia, não conseguirá nunca compreender essas coi-
sas que estão entre o céu e a terra -- e há mais coisas
entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filoso-
fia.

Não precisa ficar estudando horóscopo, lembre-se


daquilo de que falamos nesta semana: faça voto de
pobreza em matéria de opinião. Você nunca, jamais
leu um livro ou estudou sobre o assunto, então não
pode falar sobre ele. A verdade é que você não sabe.
Se você não leu uma meia dúzia de uns 20 livros so-
bre Astrologia, você não tem idéia de o que ela é, in-
dependentemente de gostar ou não dela.

“Eu sou a louca do mapa astral!” Minha filha, você


também não leu nada, não sabe nada. “Odeio mapa
astral!”. Tá bom, meu filho, mas você também leu al-
guma coisa? Não, né?

O fato é que o sujeito que estuda não consegue odiar.


Ele não odeia, ele simplesmente conhece e conse-
gue dizer onde estão os pontos cegos e os pontos
de razão. Um sujeito de estudos dificilmente odiará
alguma coisa. Ele não faz isso, ele conhece a coisa,
entende o que dá pra usar e o que não dá, e calma-
mente articula aquilo tudo em uma grande cadeia
de conhecimento.

O sujeito ignorante em geral é o mais arisco. “Odee-

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eio esse negócio”. Tudo bem, você não estudou nun-
ca isso mesmo, você apenas tem uma idéia, uma opi-
nião na sua cabeça que não significa rigorosamente
nada.

Perguntaram aqui: “E os outros planetas? Netuno, Ura-


no?” A Astrologia Tradicional, medieval, não trabalha
com eles, porque são planetas que não se vê. Só tra-
balhamos com planetas visíveis a olho nu, e olhando
para ao céu, conseguimos visualizar só até o planeta
saturno, mais que isso não dá.

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@italomarsili
italomarsili.com.br

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