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FRANCES H.

BURNETT

1849-1924

O Pequeno Lord

Título original

LITTLE LORD FAUNTLEROY

1885-6
Sinopse

Publicado em 1886, este romance é um dos mais populares da literatura infantil anglo-saxônica. O
Pequeno Lorde permanece até hoje um dos heróis prediletos do pequeno mundo. Cedric Errol, filho do capitão
Errol e de uma americana jovem e bela, mas de condição modesta, após a morte do pai e dos irmãos dele vê-se
herdeiro do título enquanto ainda vive o velho Lord Fauntleroy, o avô ríspido e cheio de preconceitos contra a
A mérica e a burguesia. Todavia, desejando o avô que o menino receba uma educação digna de sua condição,
manda-o vir para a própria casa: por meio da bondade espontânea, da graça ingênua do menino, o velho
misantropo aprende a aproximar-se do próximo — de modo particular da nora, a extremosíssima mãe de Cedric
que nunca desejara conhecer, tornando-se, ele também, mais sereno e melhor.
Mais do que um romance, este livro imortal poderia ser chamado "uma fábula humanizada", e é esta
característica que explica o sucesso da obra.
I

UMA GRANDE SURPRESA

Cedric ficara pequenino, quando o pai faleceu. Mas, se fechava os olhos e se concentrava um pouco,
revia-o em espírito: alto, de olhos azuis, bigodes que faziam cócegas nas faces do pequeno, quando aquele pai
afetuoso se inclinava para beijá-lo, antes de o pôr aos ombros e fazer um giro em torno do quarto.
O pai de Cedric era inglês, como repetira muitas vezes ao filhinho a própria mãe. Pobre mãe! A criança
evitava fazer-lhe perguntas sobre o papai, porque notava que ela sofria muito quando falava sobre ele. D urante
o período de sua última doença, a criança fora mandada passar uns dias fora, e, quando voltou, já não
encontrou seu querido papai. S ua mãe, também adoecera. Costumava sentar-se na poltrona, perto da janela,
pálida, emagrecida, desfigurada, infinitamente triste, no seu luto severo. O s seus olhos pareciam maiores,
encaixados no pequeno rosto macilento, que já não tinha as suas belíssimas covinhas.
— Fátina — perguntara-lhe Cedric, que gostava de chamá-la, como a chamava seu pai — como vai meu
papai?
O s braços que apertavam a criança começaram a tremer. Cedric levantou os olhos para contemplar o
doce rosto materno, e percebeu que Fátina estava para desatar em pranto.
Um tanto atemorizado, repetiu a pergunta acrescentando:
— Dize-me, mãezinha, papai está melhor?
Também não recebeu resposta. Então, lançou-se ao pescoço da mãe, e beijou-a afetuosamente, enquanto
ela recostava a cabeça aos seus ombros, chorando e apertando-o contra o coração, como se alguém quisesse
arrebatar-lhe dos braços seu filhinho adorado.
Entre soluços, murmurou:
— S im, filhinho, está bem, mas... nós ficamos sozinhos no mundo e não temos mais ninguém por nós,
ninguém que nos queira bem!
Cedric entendeu: o seu papai já não voltaria! Tinha morrido! Esta palavra, mesmo sem a entender bem,
ele já ouvira dizer e redizer muitas vezes, e agora sentia, por experiência própria, a tristeza que fazia nascer no
coração. E como a mamãe sempre chorava, quando pronunciava o nome do papai, a criança resolveu falar sobre
ele raramente, porque não queria ver sofrer a sua querida mamãe, e muito menos queria que ficasse afogada
naquela grande poltrona, com os olhos fixos, a olhar vagamente, tão desolada, tão abatida, como se uma fadiga
esmagadora a prostrasse por completo. Cedric e sua mãe viviam muito isolados e se podiam contar com os
dedos as pessoas de suas relações. S omente, quando estava um pouco maior, ele entendeu por que ninguém
dava atenção à sua pobre mãezinha, nem se apiedava da sua orfandade.
S oube tantas coisas! que ela era órfã, quando o papai a conheceu, que era muito bela e vivia em
companhia de uma senhora de idade, muito rica, porém não muito boa: Prova-o um dia em que o capitão
Cedric Errol a encontrou debulhada em lágrimas, na escadaria, e se comoveu diante de sua miséria. D epois se
viram outras vezes e começaram a se gostarem, e apesar das dificuldades e obstáculos, como se amavam
verdadeiramente, chegaram a unir-se por toda a vida, pelos laços do matrimônio.
A s núpcias do capitão com aquela moça, que vivia em companhia de uma velha, irritou terrivelmente
um despeitado conde inglês, de família nobilíssima e riquíssima, mas de péssimo caráter, que não podia ouvir
falar da América nem dos americanos.
Este senhor era o pai do capitão Cedric. A lém dele, tinha mais dois filhos, maiores, aos quais de direito
tocariam o título e as riquezas da família, em ordem de idade; devia, pois, ser herdeiro o primogênito, e, em
caso de morte, toda a herança passaria ao irmão; sendo ele terceiro filho, o capitão não tinha nenhuma
probabilidade nem de se gloriar com o título de nobreza de sua família, nem de entrar em possessão do rico
patrimônio do pai.
Em compensação, Cedric Errol era dotado de muitos outros predicados que seus irmãos não tinham,
nem poderiam jamais possuir: era belo, alto, elegante, trazia sempre um sorriso à flor dos lábios, e a todos se
fazia simpático pela entoação agradabilíssima de sua voz. A demais, era bondoso e inteligente. Conquistava de
pronto a simpatia de quantos o procuravam, o que não acontecia com os outros dois irmãos Errol, que não eram
bons, nem belos, nem inteligentes. N o colégio, todos os antipatizavam, e na Universidade, onde, em vez de
estudar, malbaratavam tempo e dinheiro, não conseguiram fazer um amigo sequer. O nobilíssimo chefe de
família não aprovava esta conduta, e se irritava particularmente contra o primogênito, que não se podia dizer
fizesse honra à sua ilustre linhagem, pródigo, egoísta e despudorado como era. Pelo contrário, o terceiro filho,
condenado a viver quase em extrema pobreza, reunia todas as virtudes e méritos que faltavam aos irmãos. O
velho conde se irritava freqüentemente, e fazia confrontos desfavoráveis ao primogênito, de modo que resolveu
um dia afastá-lo de casa, enviando-o à A mérica. Ficou então sozinho, aturando os dois estróinas, que lhe davam
continuamente dores de cabeça. Bastaram porém seis meses para que ele começasse a sentir saudades daquele
filho modelo, que ele, a seu modo, amava profundamente. N ão pôde mais sofrer a separação e escreveu-lhe que
voltasse para a casa paterna. Mas, a carta se cruzara com uma de Cedric, que falava ao pai de seu grande amor
por uma linda americana, com quem queria casar. A ira do velho conde subiu de ponto!... N unca fora visto tão
fora de si, de cólera. Tendo passado o primeiro acesso de indignação, escreveu friamente ao filho, que não
queria mais saber dele, era livre de fazer o que bem entendesse, mas, que não aparecesse mais diante dos olhos
de seu pai, nem de seus irmãos! Esta carta causou imensa dor ao capitão, que era muito afeiçoado à sua família
e à I nglaterra. Contudo, assim que voltou a si do golpe recebido, convenceu-se de que a decisão paterna era
certamente irrevocável e que ele nada mais tinha que esperar, nem dele, nem de seus irmãos! Era necessário
pensar na vida, o que lhe era um pouco difícil, pois não estava habituado ao trabalho!
A ssim pediu voluntariamente sua demissão de oficial, e lançou-se corajosamente a procurar um
emprego. Conseguiu colocar-se em N ova York, casando-se logo após com a jovem que idolatrava. A sua vida
estava mudada, mas ele não deixava transparecer muito sofrimento. Era jovem, feliz e tinha confiança de
alcançar, um dia, uma posição elevada. O s dois esposos passaram a viver num pequeno apartamento, em rua
calma e pouco freqüentada. Fora aí que nascera o pequeno Cedric, acolhido desde o primeiro instante que abriu
os olhos para a luz, por tanto amor! O h! o capitão não lamentava decerto ter dado adeus à vida que levara antes
de encontrar aquela jovem que o fizera tão feliz! Como era linda a sua querida esposa! A criança se parecia um
pouco com ela e um pouco com o pai; crescia cheio de encanto! Gozava de ótima saúde e fazia a alegria de
quantos se lhe acercavam, pela sua beleza e candura. Era formosíssimo com a cabecinha enricada de ouro,
grandes olhos negros, louras sobrancelhas de seda e lábios entreabertos em contínuo sorriso. Com nove meses
apenas começara a andar. Parecia convencido de que todos lhe deviam querer bem, e na rua, se alguém se
inclinava sobre o seu carrinho para lhe fazer uma carícia, longe de estranhar e mostrar esquivo, sorria,
arregalando seus lindos olhos, serenos, transparentes e puros. N as vizinhanças gozava da simpatia geral.
Porém, quem o adorava (imagine-se!) era o quitandeiro da esquina!... Esta amizade constituía a força mais
convincente do belo caráter de Cedric.
Q uando a criança começou a sair a passeio, acompanhada de sua aia, de roupinha branca e chapeuzinho
de feltro, ficava tão bela e encantadora, que chamava a atenção de todos. Muitas vezes a aia contava à senhora
Errol como o pequenino era abordado na rua por senhoras desconhecidas, que lhe perguntavam o nome, e
ficavam encantadas da maneira como ele respondia. Talvez o encanto de Cedric consistia menos na graça
natural, que na sua ingenuidade, sem timidez, nem acanhamentos... Era uma criança tão boa e afetuosa, que
sentia necessidade de querer bem, e de fazer-se amar. Certamente se acostumou a isto, pela convivência com
seus queridos pais que eram tão gentis, tão nobres e tão bem educados. N unca trocaram entre eles uma palavra
ríspida, e, se se dirigiam à criança, era sempre com um sorriso e com uma carícia. O uvindo sempre chamar a
mamãe com os mais amorosos nomes, tinha-o ele adotado, e aprendera do pai a ser um pouco o protetor de
Fátina, como ele gostava de chamá-la. A ssim, quando pôde certificar-se de que seu papai não voltava mais, e da
dor de sua mamãe, compreendeu que ele devia fazê-la feliz! E, por isso, tinha que ser bom, obediente e
afetuoso. Este pensamento não o abandonava jamais, e transparecia claro nos seus olhos, quando subia aos
joelhos da sua querida mamãe para abraçá-la, quando lhe levava os seus brinquedos e livros infantis ou quando
se enrodilhava ao seu lado no divã. N ão podia fazer mais, por ser muito pequeno ainda; contudo, mesmo assim
era já o conforto daquela pobre viúva desolada. Uma vez Cedric ouvira-a dizer à sua velha e querida doméstica:
— Mary, estou certa de que, embora pequenino, faz tudo para consolar-me. S urpreendo-o, às vezes, a
olhar-me com olhos melancólicos, como se sofresse por mim, e, depois, lança os seus bracinhos ao meu pescoço
e me aperta contra o coração. É já um homenzinho e estou certa de que entende muitas coisas! E que boa
companhia fazia à sua mamãe! S aíam juntos, conversavam juntos, brincavam juntos. A prendera a ler, desde a
mais tenra idade, e, muitas vezes, à tarde, estendido no tapete diante da lareira, lia em voz alta algum livro ou
revistas infantis.
Mary, da cozinha, ouvia a senhora Errol sorrir por alguma graça que Cedric dizia. Falando com o
quitandeiro, Mary comentava um dia:
— É impossível a gente deixar de rir, quando Cedric diz as suas piadas! I magine o senhor que, no dia da
eleição do Presidente, veio ter comigo à cozinha, parou diante do fogão, de mãos nos bolsos, com um
semblante sério e pensativo, como se fosse um advogado, e me disse: “Mary, esta eleição me interessa. Eu e
mamãe somos republicanos, e tu, Mary?” Respondi-lhe: S into muito, Cedric, mas sou democrática! — O lhou-
me então contrariado e rebateu à queima-roupa:
— Mas então, Mary, todo o país, caminhará para a ruína!
Desde então, todas as noites, quando o levo a dormir, se esforça por me fazer mudar de opinião.
Mary adorava o pequeno Cedric e sentia orgulho dele. Vivia em casa dos Errol, desde que a criança
nascera, e depois da morte do capitão ficara somente para ser aia e cozinheira. A legrava-se vendo-o crescer, tão
sadio, forte e belo; sentia um orgulho especial dos seus cachos de ouro. D e boa vontade se levantava cedo e
deitava tarde, para ajudar a senhora Errol cozinhar e arrumar a roupinha de Cedric. Era necessário ouvi-la,
quando tecia elogios ao seu pupilo! “Gostaria de ver, dizia — se na Rua Cinco há uma criança como ele!
Q uando o levo a passeio, com sua roupinha de veludo preto, e com os cabelos soltos sobre os ombros, todos se
voltam para o contemplar: parece mesmo um condezinho!” Mas isto Cedric não sabia, como também não sabia
com precisão o que significava ser conde! O melhor amigo do menino era aquele quitandeiro da esquina,
enjoado com todos, mas leite e mel com Cedric, que, da sua parte, o respeitava e admirava, e cria também que o
sr. Hobbs fosse um nobre, porque tinha uma carroça, um cavalo e a casa sempre muito sortida de tantas coisas
boas: ameixas, figos secos, laranjas, biscoitos, etc... Por mais que Cedric gostasse do verdureiro, do leiteiro e do
padeiro, estas amizades não se podiam comparar com o afeto que votava ao S r. Hobbs. Visitava-o diariamente,
e ficava horas esquecidas com ele, a discretear sobre os últimos acontecimentos do dia... argumentos, tinha-os
em barda... E se começavam a falar de I ndependência, não acabavam mais. A o quitandeiro, os ingleses não
inspiravam muita simpatia. S abia de cor toda a história da guerra da I ndependência, com mil particularidades
comoventes sobre o heroísmo dos americanos, e sobre os horrores cometidos pelos ingleses. A declaração da
I ndependência, recitava-a, às vezes por extenso, sem omitir uma vírgula. E Cedric o escutava com as faces em
chamas de entusiasmo e olhos cintilantes...
O h! N inguém podia negá-lo: fora mesmo o S r. Hobbs que interessara pela política seu louro amigo. O
quitandeiro devorava os jornais e depois contava, com toda seriedade deste mundo ao seu pequeno amigo, o
que se passava em Washington e o punha ao par de todos os atos do Presidente. É de supor-se que, se uma vez,
a propósito de uma eleição, o S r. Hobbs e Cedric não se batessem pela causa justa, o país realmente acabaria
mal.
N aquela ocasião o quitandeiro levou a criança a ver o circo, e houve muita gente que sorria, vendo um
homem forte e robusto, que de pé ao lado de uma lanterna, equilibrava sobre os ombros uma criança que
gritava a plenos pulmões, e agitava o seu gorrinho.
Cedric andava pelos oito anos, quando algo de estranho aconteceu na sua vida, e a mudou, pode dize-se,
quase milagrosamente.
O mais interessante foi que o acontecimento, do qual nos ocupamos, se deu justamente no dia em que
ele e seu amigo, o quitandeiro, tinham discutido longamente sobre a I nglaterra, e sobre a Rainha Vitória, e o S r.
Hobbs não tivera papas na língua para dizer as verdades a propósito de condes e marqueses. Entrando Cedric
na venda para descansar um pouco, depois de ter passado a manhã brincando de soldadinho com os seus
amigos das vizinhanças encontrara o quitandeiro carrancudo,com cara de poucos amigos, olhando no jornal
ilustrado um clichê que reproduzia uma recepção na corte.
— A proveitem, malandros! — Comentava com azedume — mas há de chegar o dia em que todos os que
foram abatidos se rebelarão e darão uma lição a toda essa cáfila de condes e marqueses!
Cedric, como de costume, subira a um banco alto, de chapéu na nuca e mãos nos bolsos, copiando
fielmente uma das atitudes habituais do Sr. Hobbs.
— O senhor conheceu muitos condes e marqueses? Perguntou-lhe a criança.
O quitandeiro negou com certa indignação.
— E gostaria de que passasse pela cabeça de algum deles pôr o pé aqui dentro! N ão quero nem ouvir
falar de tiranos, ávidos e egoístas a sentarem-se aqui em minha casa!
D itas estas palavras, passou o lenço na testa para enxugar o suor, e lançou um olhar à volta, orgulhoso
da sua origem.
— Talvez não quisessem mais ser condes, se soubessem quanto o senhor sabe, disse a criança.
— Estão contentes de serem aquilo que são! S ão uns malandros de raça! J ustamente naquele momento a
porta se abriu e entrou Mary. Cedric pensou que tivesse vindo comprar açúcar, mas se enganou: ela estava
pálida, com o rosto convulso. Dirigindo-se a Cedric, disse:
— É preciso que tu venhas imediatamente para casa: tua mãe te espera.
Cedric desceu do banco.
— É para ir contigo, Mary? — E despediu-se do seu amigo: — A deus S r. Hobbs, ver-nos-emos mais
tarde.
Mary continuava a olhar para Cedric com uma expressão estranha que desorientava a criança.
— Que há? — perguntou ansioso. — Alguma doença?
— N ão, não... é coisa muito diferente, se soubesses que surpresas estão acontecendo! — Mamãe está
doente?
— Não, não se trata disso.
Chegando a casa Cedric, já da porta, percebeu o eco de vozes que vinham da sala de visita. Era sua
mamãe que falava com alguém.
Mary apressada vestiu a criança com a sua roupinha de flanela branca e cintura de seda vermelha,
penteou-lhe os- cachos louros, enquanto falava de si para si:
— São nobres? São condes? Pobres de nós! Creio que será uma grande desgraça...
Cedric estava estupefato, mas não pediu explicações a Mary, certo de que saberia tudo da boca de sua
mamãe. Quando estava pronto, correu para a sala de visita.
Um velho alto e magro estava sentado na poltrona. A mamãe achava-se em pé, pálida, com os olhos
cheios de lágrimas.
Vendo a criança, exclamou:
— Cedric! — E o estreitou contra o coração — Filhinho!
O desconhecido levantou-se, começou a olhar para o menino, afogando a barba com a sua mão
descarnada. Tinha certo ar de satisfação, quando disse acentuando as palavras:
— É este o pequeno Lord Fauntleroy?
II

OS AMIGOS DE CEDRIC

D urante a semana seguinte, Cedric teve tantas surpresas que parecia sonhar. A ntes de tudo, a mamãe
lhe contou uma história tão estranha, que para entendê-la bem a criança pediu que a repetisse mais de uma vez.
Q ue pensaria de tudo isso o sr. Hobbs? Era o que fazia pensar a Cedric. Com efeito, naquela história bizarra,
entravam muitos condes. Conde era o avô que a criança não tinha conhecido, e o mais velho dos irmãos do seu
papai deveria ter ficado conde por sua vez, depois da morte do avô, se, em conseqüência de uma queda de
cavalo, não tivesse perdido a vida. O título tocava, pois, ao outro irmão, mas também este atacado de Tifo,
enquanto se encontrava em Roma, sucumbira. Por conseguinte conde deveria ser o pai de Cedric, o seu querido
papai, que já não existia. Tendo desaparecido todos, depois da morte do avô, o título de Lord Fauntleroy estava
reservado para Cedric. Toda essa história era um pouco difícil de se entender, mas Cedric acabou por orientar-
se naquele Dédalo de parentes, ficou um pouco pálido de emoção e exclamou:
— Mamãe, eu não queria ser conde... que faremos? Nenhum dos meus amigos é conde; só eu, mamãe?...
Mas, não era possível! Fátina procurou explicar à criança: Falaram demoradamente sobre o assunto
naquela tarde, sentados à janela. Cedric, na sua cadeirinha, apertava os joelhos entre os braços e tinha o rosto
abrasado pelo esforço de prestar atenção e procurar entender o que lhe explicava a mamãe. A coisa mais
importante era esta: O avô queria que Cedric fosse para a I nglaterra, e a senhora Errol procurava convencer o
filho de que era necessário obedecer. Fixando na criança os seus olhos doces e tristes, dizia-lhe:
— Estou certa de que também o papai deseja que obedeças. A mava a sua casa! E depois há tantas outras
razões que compreenderás mais tarde... agora és muito pequeno. Pensa contudo que eu seria uma mãe egoísta,
se eu não te convencesse de partir.
Cedric balançou a cabeça, entristecido.
— Tenho muita pena de deixar o S r. Hobbs, sei que, se eu partir, ele terá saudades de mim, e eu também
dele!
N o dia seguinte quando voltou o S r. Havisham, que era advogado do conde de D orincourt, vindo
expressamente à A mérica para levar o Lord Fauntleroy para a I nglaterra, Cedric veio a saber muitas outras
coisas que o deixaram contudo indiferente. Parecia que não lhe importava nada tornar-se um dia senhor de
maravilhosos castelos com parques e jardins, com minas e campos povoados de famílias de camponeses. Cedric
só pensava no seu amigo fiel; e logo depois de cear foi fazer-lhe uma visita.
Encontrou o Sr. Hobbs lendo o jornal do dia. Aproximou-se dele, cheio de ansiedade.
N ão era fácil abordar o assunto. D e caminho, Cedric ia pensando como dar ao amigo aquela notícia
inesperada.O Sr. Hobbs saudou-o:
— Bom dia, Cedric.
— Bom dia, S r. Hobbs; e em vez de trepar no seu banco alto, como sempre, sentou-se sobre um caixão e,
contra o seu costume, ficou em silêncio.
Admirado, o Sr. Hobbs levantou os olhos do jornal:
— Que há de novo, Cedric?
A criança compreendeu que chagara o momento de falar:
Tomou coragem e disse:
— O senhor se recorda do que falamos ontem de manhã?
— Parece-me que sobre a Inglaterra.
— Sim... mas precisamente o senhor recorda do que estávamos dizendo quando Mary me veio buscar?
O Sr. Hobbs coçou a cabeça.
— Creio — disse pensativo — que estávamos falando sobre a rainha Vitória e a aristocracia.
— Isto mesmo... — Cedric hesitava — e... falamos também acerca dos condes, o senhor não se lembra?
— Certamente, e eu deveria ter dito tudo o que merece essa gente!
Cedric enrubesceu. N unca se sentira tão embaraçado e temia também causar embaraço ao S r. Hobbs.
Todavia continuou corajosamente:
— O senhor disse, se não me engano, que não queria jamais ver nenhum conde em sua casa.
— Disse-o e repito! Experimentem e verão o que farei!
— Contudo, Sr. Hobbs, há um conde aqui!.. sentado em sua casa...
O velho levantou-se de um salto. —- Que estás dizendo?
— S im! — Cedric baixou os olhos com modéstia — S r. Hobbs, eu sou um conde, ou ao menos um dia o
serei. Quero ser sincero com o senhor.
O Sr. Hobbs não achou outro expediente a não ser relancear os olhos inquietos ao termômetro.
— Talvez... faz hoje um calor insuportável! Dizia procurando mudar de assunto.
— O calor não te incomoda? N ão tens dor de cabeça? — E estava todo ansioso enquanto passava a sua
mão de dimensões respeitáveis sobre a cabecinha loura do seu pequeno amigo.
Mas Cedric protestou:
— Asseguro-lhe que estou passando muito bem. Pode ficar certo de que sinto muito dever repetir tudo o
que lhe disse; é a pura verdade. Mary veio ontem buscar-me porque estava lá em casa o S r. Havisham, que é
advogado, e disse à mamãe que eu sou conde.
O quitandeiro não se convencia, e, sentando-se novamente na cadeira, enxugou o suor e exclamou:
— Será que estou ouvindo bem? Estarei sonhando?
— N ão, não S r. Hobbs — insistiu Cedric — é a pura verdade, e não há nada que fazer. O S r. Havisham
veio de propósito da Inglaterra para nos transmitir esta notícia e foi o meu avô que o enviou.
— Teu avô? Mas quem é ele?
E o quitandeiro olhava fixo o rosto da criança que revestia grande seriedade.
Cedric não respondeu, mas pôs a mão nos bolsos e tirou uma folha de papel, na qual ele mesmo, com a
sua caligrafia irregular, tinha escrito alguma coisa.
— Tive que escrevê-lo — disse — é um nome difícil — e acentuou:
— J ohn A rthur Molyneux Errol, conde de D orincourt. É o vovô que se chama assim, e mora num castelo,
mas me parece que há uns dois ou três. Papai era o seu caçula, e eu não seria conde se papai não tivesse
morrido, e também ele não seria conde, se não tivessem morrido antes os seus dois irmãos maiores. Mas que
todos morreram, só resta eu. É por isso que devo ser conde e começar a morar na Inglaterra: assim disse o vovô.
A s faces do quitandeiro estavam afogueadas; não fazia mais que passar o lenço sobre a testa calva para
enxugar o suor, enquanto respirava com dificuldade. Tinha a intuição de que havia acontecido alguma coisa
extraordinária, todavia olhando para aquela criança sentada diante de si, imóvel, como vira tantas vezes, com o
mesmo rostinho gracioso, apesar de estar anuviado por certa seriedade que lhe não era comum, cria com
dificuldade naquelas histórias de condes e viagem à Inglaterra.
Matutando consigo, não encontrou outra saída senão perguntar:
— Então, como te chamas agora?
— Chamo-me Cedric Errol, Lord Fauntleroy?... — respondeu o pequeno. — Q uando entrei ontem na
sala, aquele senhor mandado pelo vovô, disse: — Então, este é o pequeno Lord ?...
— Prefiro ser massacrado se toda esta história é verdade! — disse com indignação o quitandeiro.
D everia estar muito irritado, porque somente em caso semelhante se saía com uma interjeição daquele
gênero. N aquele momento, não encontrou outra exclamação, e Cedric considerava absolutamente apropriada à
circunstância. A criança queria-lhe tanto bem e tinha tão grande admiração pelo S r. Hobbs, que aprovava tudo
o que ele dizia. E porque não tinha ainda muita prática dos hábitos da boa sociedade, não podia perceber que a
educação do S r. Hobbs apresentava algumas lacunas.. N otava que ele era diferente de sua mãe, isso sim, mas
ela era uma senhora, e os homens não podem ser como as senhoras.
Houve um momento de silêncio entre os dois. Em seguida Cedric perguntou olhando com ansiedade
para o Sr. Hobbs:
— A Inglaterra é muito longe?
— É sim! Para chegar lá, tens de atravessar o mar!
— Q ue pena! — suspirou Cedric — Temo que não nos veremos por muito tempo, S r. Hobbs... e já
começo a sentir saudades, sim, muitas saudades!
— Acontece, às vezes, que mesmo os melhores amigos deste mundo se devam separar.
— E nós somos amigos desde muitos anos, não é verdade? — D esde quando vieste ao mundo. D evias ter
cerca de seis semanas, quando te vi passar diante de minha venda, pela primeira vez, no teu carrinho.
— N aquele tempo não pensava ainda em ser conde... suspirou Cedric, que parecia vagamente
preocupado.
— N ão acreditas que possa haver alguma intervenção? — Creio que não. Mamãe diz que papai queria
também que eu fosse para a I nglaterra para a casa do vovô. Mas, não tem nada! S e devo mesmo ser conde,
procurarei, ao menos, fazer o possível para ser um conde bom. N ão quererei ouvir falar em ser tirano, e
asseguro-lhe que se houvesse perigo de outra guerra com a América, farei tudo para impedi-la.
A conversa entre os dois amigos foi longa e séria. Passados a primeira surpresa e o primeiro sobressalto,
o S r. Hobbs acalmou-se e parecia quase resignado a aceitar a nova situação. Começou a fazer um mundo de
perguntas à criança, e quando não recebia resposta, porque Cedric não sabia, o que responder, o S r. Hobbs
dava-se a si mesmo a resposta e uma vez tendo iniciado o argumento a propósito de condes, marqueses e
congêneres, disse tudo o que sabia sobre o assunto. Certamente, se o S r. Havisham tivesse podido ouvi-lo,
ficaria surpreso.
Mais surpresas, teve-as, uma após outras, naqueles dias, o enviado do conde de D orincourt. Vivera
sempre na I nglaterra e na A mérica não conhecia nem o povo nem os costumes. A dvogado, do conde há
quarenta anos, estava a par de tudo o que dizia respeito à nobre família, e não deixaria de se interessar pela
formação do caráter da criança destinada a ser o herdeiro daquele título de nobreza e de riquezas consideráveis.
O S r. Havisham recordava muito bem todos os desgostos causados ao velho conde por seus filhos mais velhos e
a sua cólera por causa do casamento do terceiro filho, com aquela americana, para a qual mesmo sem a
conhecer, o irascível e injusto velho só tinha palavras injuriosas, convencido de que ela era uma moça vulgar e
que só casara com seu filho por interesse. À força de ouvi-lo dizer, também o S r. Havisham tinha acabado por
convencer-se disto. Foi esta a razão pela qual, ao encontrar-se na modesta casa da viúva do capitão Errol, não
pôde deixar de sentir-se perturbado pelo pensamento de que o herdeiro do castelo de D orincourt, das Torres de
W yndham, de Charlworth e de outras magníficas propriedades, tivesse vindo ao mundo naquele ambiente, que
ele desprezava. Q uem sabe, como seria aquela criança e que espécie de mulher seria a sua mãe! Para dizer a
verdade, o advogado não tinha lá grandes desejos de vê-los... Porque orgulhoso como era, de ser já desde tantos
anos a pessoa de confiança do conde de D orincourt, ter-se-ia irritado de dever tratar com uma mulher
interesseira, ambiciosa, certamente mal educada e ignorante, que não tinha nenhum amor à pátria e ao nome
do marido, enquanto aquele nome era quase sagrado para o Sr. Havisham.
I ntroduzido pela empregada na modesta sala de visita, o advogado lançou à sua volta um olhar crítico:
nada porém notou de vulgar, nem de banal. Felizmente não pendiam das paredes litografias grosseiras, nem
havia em toda a sala nenhum adorno que denotasse mal gosto. Pelo contrário. Q uadros interessantes estavam
dispostos em perfeita ordem e lindos bibelôs revelavam o fino gosto da dona da casa.
— Bem, assim, à primeira vista, passa... certamente foi o capitão que arranjou esta sala... disse consigo o
S r. Havisham. Mas bastou olhar para a senhora Errol, para convencer-se de que o seu gosto devia estar em
perfeita conformidade com o do marido. S e o advogado não fosse um velho rabugento e brigão, não teria
podido conter um gesto de surpresa diante de uma figura feminina que parecia mais a de uma moça que da
mãe de um menino de sete anos. A senhora Errol, elegante mesmo, no seu vestido de luto, tinha “um rosto
belíssimo com dois suaves olhos negros cheios de tristeza”. N ão a abandonara mais aquela melancolia desde o
tempo em que o adorado companheiro da sua vida a deixara para sempre. Cedric já estava acostumado com os
olhos tristes da mamãe, mas sabia que aquela tristeza parecia desfazer-se um pouco, quando Fátina brincava
com ele, ou ouvia repetir com toda a seriedade o que tinha lido nos jornais do Sr. Hobbs.
O velho conde se enganara em crer vulgar e interesseira a nora que nunca vira. N ão foi preciso muito
tempo para que o advogado se convencesse plenamente desta verdade.
Ele, que não tinha conhecido as alegrias da família porque vivia só e nunca quis casar-se, compreendeu
logo que, se a mãe do pequeno Lord Fauntleroy tinha casado com o capitão Errol, fora somente porque se
enamorara dele, e não do seu título de nobreza e de suas riquezas. Compreendeu também que não encontraria
impedimento no desempenho de sua tarefa e começou a crer que a criança pudesse ser, em tudo e por tudo,
digna de pertencer à nobre família paterna. Q uanto ao físico não deveria ser feio, pois o capitão fora um jovem
simpático e a senhora Errol era verdadeiramente uma mulher bonita.
Q uando a mãe de Cedric soube o porquê da visita daquele senhor que não conhecia, ficou pálida e com
voz cheia de angústia murmurou:
— Então, querem levar meu filhinho? Eu o amo tanto, como poderei viver sem ele? E enquanto os olhos
se lhe enchiam de lágrimas continuou:
— S ó tenho a ele no mundo, e sempre procurei ser uma boa mãe... oh! se o senhor soubesse, quanto eu
amo o meu filho!
O Sr. Havisham, um pouco perturbado, respondeu:
— S into muito ser obrigado a dizer-lhe, senhora, que o conde de D orincourt não a vê com bons olhos.
Q ue fazer? Está avançado em anos, e os seus preconceitos estão radicados profundamente. N unca teve
simpatia, nem pela A mérica nem pelos americanos e a notícia de seu filho ter casado com uma americana, foi
um verdadeiro golpe para ele, S ei que o que vou dizer-lhe senhora, lhe causará pena, mas devo ser sincero: por
ora ao menos o conde não quer vê-la e tenciona que o Lord Fauntleroy vá viver com ele e seja educado sob sua
direção. S eu filho morará no castelo de D orincourt, onde o conde vive habitualmente, pois sofre de gota e não
tem muita simpatia pela capital. E faz-lhe a oferta da vila chamada “Chateau”, a pouca distância do castelo, e
uma boa pensão. Lord Fauntleroy irá muitas vezes vê-la, mas a senhora não deverá jamais ir ao castelo, nem
entrar nos parques adjacentes. Contudo, já que a senhora pode sempre vê-lo, não deverá de modo nenhum
considerar-se separada de seu filho... Peço, senhora, que reflita um pouco, pois as condições impostas pelo
conde poderiam ser mais duras e rigorosas. Creio além disso que a senhora percebe as vantagens que advém a
Lord Fauntleroy do ambiente e educação que o esperam.
Enquanto falava tão sabiamente, o S r. Havisham pensava que de um momento para o outro aquela
mulher fraca começaria a chorar, o que o teria aborrecido bastante.
Porém nada disso aconteceu. A mãe de Cedric deu apenas alguns passos em direção à janela com ares
de quem olhava algo lá fora: certamente fazia um grande esforço para dominar-se. Finalmente falou:
— Meu marido amava muito D orincourt e sua pátria, e sofria estar afastado dela. Tinha orgulho do seu
nome e da sua família, e certamente nada lhe causará maior prazer do que saber que seu filho está sendo
educado de maneira digna da sua linhagem, sob o olhar protetor dos seus antepassados...
A senhora Errol voltou-se para o advogado e, fixando-o com olhos cheios de doçura, continuou:
— É porque sei que se fosse vivo, esta seria a vontade do meu marido, que eu quero respeitar e fazer o
futuro de meu filho. Q uero esperar, porém, que o conde não terá coração de ensinar a meu filho não me amar...
aliás, mesmo se o tentasse fazer, não o conseguiria, estou certa. Parece-se muito com o pai, e seu coração é tão
afetuoso e tão leal! N inguém, nem coisa alguma deste mundo seria capaz de afastá-lo de mim. A mar-me-á
sempre mesmo se não devesse mais ver-me. — Q uanto a mim, basta que não o arrebatem de todo e que possa
continuar a estreitá-lo nos meus braços, e creio... creio que poderei resignar-me com a separação. O advogado
dizia de si para consigo:
— Não pensa em si, não impõe condições... e em alta voz declarou:
— S enhora, admiro os nobres sentimentos que a animam. Certamente um dia, quando puder
compreender o seu sacrifício, seu filho lhe será grato pela abnegação. D a minha parte, posso assegurar-lhe que
Lord Fauntleroy será educado com todo o cuidado e, na medida do possível, será feliz. O conde de D orincourt
procurará fazer por ele tudo o que a senhora tem feito até hoje.
— O h! espero somente que lhe queira um pouco de bem... — replicou a pobre mãe com voz que tremia...
Cedric está acostumado a ser amado por todos. É uma criança tão afetuosa! N a realidade o advogado não sabia
o que pensar: o velho conde, tão egoísta e de coração empedernido pelas vicissitudes da vida e desgostos que
lhe tinham causado seus filhos mais velhos, dificilmente se afeiçoaria a quem quer que fosse. Todavia era de
esperar que ao menos fosse bom com o pequenino, que estava destinado a suceder-lhe, e por pouco que desse
boas esperanças, o avô sentiria orgulho dele.
Convencido disso, o Sr. Havisham repetiu à senhora Errol:
— S im, Lord Fauntleroy será feliz. A senhora não deve duvidar disto, e é também para que nada falte à
sua felicidade que o conde deseja que a senhora more perto de seu filho, e que possa vê-lo à vontade.
O advogado não podia decerto repetir as palavras precisas do conde, privadas absolutamente de
qualquer benevolência para com viúva de seu filho, e preferia pôr alguma coisa de seu para não desencorajar
aquela pobre mãe.
Q uando Mary, saindo para ir buscar Cedric, disse onde imaginava encontrá-lo, o advogado sentiu-se
chocado. O pequeno Lord estava na casa de um quitandeiro! E Mary explicou-se como se fosse a coisa mais
natural deste mundo:
— Deve estar com o Sr. Hobbs sentado no “seu” banco, falando de política, (Deus o livre de ser político!)
ou certamente estará brincando entre os sacos de batatas e as caixas de velas, tranqüilo e impassível como
sempre.
E a senhora Errol acrescentou, dirigindo-se ao hóspede:
— O S r. Hobbs conhece Cedric desde que veio ao mundo, e lhe quer muito bem. — O advogado não
disse palavra. Pensava que na I nglaterra os filhos dos nobres não fazem amizade com os filhos dos
quitandeiros. A coisa era realmente estranha... Será que o menino goste de companhias vulgares?
Estava absorto em tais pensamentos, quando Cedric entrou. A surpresa que o advogado recebeu foi
profunda. Encontrava-se inesperadamente diante de uma das crianças mais encantadoras que já tinha visto.
Cedric era belo e robusto, o seu porte nobre, cheio de dignidade, e parecia-se de maneira impressionante com
seu pai, se bem que tivesse os olhos da mãe: brilhantes e vivos, quase arrogantes na sua inocência, como olhos
de quem nunca, jamais conhecera a dúvida nem o temor.
O Sr. Havisham disse com seus botões:
— Nunca vi em minha vida uma criança tão bela e de modos tão aristocráticos! E em alta voz exclamou:
— Sim, é este o pequeno Lord Fauntleroy!
Esta primeira surpresa foi seguida de muitas, outras. O advogado não se interessava por crianças
mesmo tendo muitas vezes ocasião de estar no meio delas: rosadas e louras, vivas ou tímidas, sempre seguidas
de professoras e aias, pouco interessantes em geral, para um velho solteirão, como o advogado Havisham.
Mas, Cedric atraía-o particularmente e quanto mais o advogado o olhava o achava digno de interesse.
Q uanto à criança que não tinha consciência de ser objeto de estudo da parte daquele hóspede inesperado, não
mudara em nada o seu modo de ser, desembaraçado e reservado ao mesmo tempo. D epois de ter apertado a
mão ao S r. Havisham, Cedric respondeu à sua pergunta, com a mesma simplicidade com a qual respondia ao
seu amigo, o quitandeiro. O menino não era nem tímido, nem demasiado ingênuo, enquanto o advogado falava
com a sua mãe, ele ouvira com toda a seriedade, como se fosse uma pessoa grande.
— Parece-me uma criança precoce, observou o Sr. Havisham.
— Também me parece, respondeu a senhora Errol. O que é certo é que aprende tudo com facilidade e
criou o hábito de trabalhar com o cérebro, estando sempre em companhias de pessoas grandes. D iria até que
gosta de usar palavras difíceis e expressões complicadas, que ouve ou lê, mas ao mesmo tempo gosta de brincar
e até mesmo de traquinar, quando está de veneta...
E o S r. Havisham pôde logo convencer-se disse, no dia seguinte: enquanto dava uma volta na sua
carruagem pelo quarteirão, viu um grupo de meninos que faziam grande algazarra, torcendo por dois do seu
partido, que estava para começar uma corrida: um dos dois, e talvez o mais entusiasta, era Cedric. A o sinal:
um... dois... três... o pequeno Lord precipitou-se em disparada para a meta...
O S r. Havisham observava-o do seu carro. Cedric devorava a pista com velocidade de raio, de punhos
cerrados, cabeleira ao vento, faces em brasa. Entretanto os seus companheiros, divididos em dois partidos,
gritavam calorosamente.
— Viva Cedric! Viva Bill! Pique!... pique!... pique!... Cedric! Cedric! Cedric! Bill! Bill! Bill!...
O advogado que, apesar de toda a seriedade, se sentia transportado para aquela atmosfera vibrante de
entusiasmo esportivo, começou a torcer pelo Lord Fauntleroy, e dizia convencido:
Ele vai vencer! Ele vai vencer!
Foi realmente o que sucedeu. O futuro conde de D orincourt, enquanto os rapazes gritavam a plenos
pulmões, chegava ao poste que fazia as vezes de meta, exatamente dois segundos antes do seu antagonista.
A quela vitória acolhida vibrantemente pelos vivas dos companheiros enquanto da sua parte o advogado,
retirando o rosto da janela da sua carruagem, sorria satisfeito,exclamando:
— Muito bem, pequeno Lord! Muito bem! Quando o carro parou diante da porta da senhora
Errol, ele notou o vencedor e o vencido seguidos dos seus respectivos teams. Cedric pairava
animadamente com Bill, com as mãos nos bolsos, faces afogueadas, a cabeleira em desalinho...
Q ue pensas tu? explicava ao companheiro, com intenção de louvá-lo e de fazer-lhe pensar menos na
derrota. — S e eu venci, foi somente, pelo menos assim o creio, porque tenho as pernas mais compridas... é
natural, tenho três dias mais que tu, e isto me dá vantagem. Três dias são alguma coisa, não achas?
Examinando as coisas segundo este ponto de vista, a gente se sente animada, e Bill William se animou
de tal modo que chegou a vangloriar-se, como se, em vez de perder, tivesse ganho a partida. Cedric deveria
estar satisfeitíssimo porque era a sua especialidade fazer a todos contentes. Mesmo na glória do triunfo, como
tinha bom coração não podia deixar de pensar que seu companheiro tinha perdido e devia estar triste. Por isso
dava a entender que afinal de contas, sem algumas circunstâncias especiais, o vencedor teria podido ser o
amigo.
N aquele dia o advogado teve uma conversa com Cedric que lhe fez sorrir: ficaram os dois a sós, por
alguns momentos, porque a senhora Errol precisou afastar-se, e o advogado queria encontrar uma ocasião para
sondar a criança. Era urgente prepará-lo para o encontro com o avô, e com a vida diferente que o esperava na
I nglaterra. Cedric não tinha a mínima idéia do ambiente no qual deveria viver. N em sabia que não podia viver
mais com a sua mãe, porque, segundo tinham combinado o S r. Havisham e a senhora Errol, julgaram oportuno
não dizer nada à criança sobre esta condição imposta pelo avô, senão no último momento.
E agora o advogado e Cedric estavam a sós: o S r. Havisham sentado numa poltrona, junto à janela, e
Cedric mergulhado noutra poltrona ainda maior, onde quase desaparecia, olhava o hóspede, apoiando a
cabecinha loura no espaldar com as mãos nos bolsos, como de costume, e as perninhas cruzadas. D urante todo
o tempo em que o advogado estivera falando com a sua mãe, tinha-o fixado atentamente, e ainda continuava a
observá-lo com a mesma curiosidade cheia de respeito. Foi ele o primeiro a quebrar o silêncio:
— Acredita-me, senhor, que eu não entendo bem o que vem a ser um conde?
— Ah! não?
— N ão, repetiu Cedric, acrescentando: — Penso que um menino que deve ser conde deve saber do que
se trata afinal, não acha o senhor?
— Sem dúvida...
— O senhor não gostaria, pediu a criança com respeito, de dar me a explicação? (A centuou a palavra um
pouco longa para ele). Os condes... quem é que os fez?
O advogado respondeu:
— Em geral são os reis e as rainhas que os criam. O fato é este: Um conde torna-se tal, por uma nobre
ação ou por um grande serviço prestado a seu rei.
— Então é como o Presidente? observou Cedric.
— A h! é por isso que são eleitos os vossos presidentes? Com gravidade a criança respondeu: — S im,
senhor, quando alguém é muito instruído, elegem-no presidente, e então fazem muitas festas com muitos
discursos. Às vezes, já pensei que poderia ser um dia presidente, mas, nunca pensei que poderia vir a ser
conde. Claro, pois, nem mesmo sabia o que fosse um conde, aliás, se eu soubesse teria também desejado sê-lo.
— E isto disse Cedric para não parecer descortês.
— Mas não é a mesma coisa ser presidente! Replicou o advogado.
— Por que não se fazem festas e discursos para os condes? O advogado refletiu um pouco, e depois
tendo decidido a enfrentar o argumento, começou:
— Tu deves saber que um conde... um conde é uma pessoa muito importante.
— Por isso não, porque um presidente é também importante, replicou Cedric. A s festas que se fazem
por ele são muito bonitas, com fogos de artifício e música. Eu o sei, porque sempre fui assistir a elas com o S r.
Hobbs.
O Sr. Havisham continuou, mas não sabia muito bem como argumentar com Cedric:
— Um conde é muitas vezes de antiga linhagem.
— Antiga linhagem... que quer dizer?
— Quer dizer de família muito antiga.
— Compreendi, disse Cedric enfiando ainda mais as mãos nos bolsos. Certamente a verdureira da
esquina, deve ser de antiga linhagem, porque é muito velha e quase não se pode manter em pé, deve ter pelo
menos cem anos, mas vem todos os dias, mesmo quando está chovendo. Temos tanta pena dela, eu e meus
companheiros! Uma vez Bill William tinha quase um dólar, e eu lhe pedi que comprasse a ela, cada dia,
algumas maçãs, mas depois de uma semana o dinheiro do meu amigo terminou. Felizmente um senhor me deu
meio dólar e então eu comecei a comprar-lhe as maçãs. Realmente faz compaixão uma pessoa que é muito
pobre e é de linhagem antiga. Pobrezinha da verdureira! D izem que é muito doente de reumatismo e sofre
muito com o frio.
O S r. Havisham ficou embaraçado: olhou a criança que estava com o rostinho muito sério e absorto e lhe
disse.
— Temo que não entendeste bem o que te disse: “Linhagem antiga” não quer dizer velhice, mas
significa que o nome de uma família é conhecido desde muito tempo e que desde anos e anos os componentes
de tal família são nomeados na história de seu país.
— É justamente o caso de Washington! interrompeu Cedric. Sempre ouvi falar dele desde que nasci e ele
já estava antes de mim no mundo há um bocado de tempo. O S r. Hobbs disse que ninguém o esquecerá jamais.
Parece que era mesmo um grande homem...
O Sr. Havisham, sem atender à celebridade de Washington, declarou com solenidade:
— O nome dos condes de Dorincourt tem quase quatrocentos anos!
— Mesmo? — E a criança mostrava um ar de intensa admiração. — E o senhor disse isso a “Fátina”?
D eve-lhe ser muito agradável, porque todas as coisas nobres lhe interessam. E depois de a gente ser conde, o
que é que faz?
— Houve muitos que ajudaram governar a I nglaterra, outros deram prova de coragem, combatendo em
batalhas que ficaram célebres.
— O h! isto é que me agradaria! — exclamou Cedric com o rosto inflamado de entusiasmo. — Também
papai era soldado muito valoroso. Estou certo que o era ao menos como Washington. Talvez o era porque, se
não tivesse morrido, teria sido conde. Gosto muito de saber que os condes devem ser corajosos! I magine o
senhor que uma vez, quando eu era muito pequeno, tinha um pouco de medo do escuro... mas depois me curei
completamente pensando nos soldados da Revolução e em Washignton.
— Mas os condes não têm somente coragem, — declarou lentamente o advogado enquanto perscrutava
o rosto de seu pequeno interlocutor, — quase sempre têm também muito... muito dinheiro.
— A h! sim! — Cedric pareceu ficar satisfeito e com toda ingenuidade respondeu: — Q ue coisa boa! Eu
também gostaria de ter muito dinheiro!
— Deveras? E que farias desse dinheiro?
— A h! sei muito bem o que faria com ele! S e eu fosse rico daria àquela pobre verdureira, da qual lhe
falei, uma bela lona para cobrir o seu banco, uma casinha, e, quando chovesse, lhe daria dinheiro para que
pudesse ficar em casa, e lhe daria também um chalé, para que ela se abrigasse do frio. A pobrezinha não é
como nós, sofre muito de reumatismo e parece que, a cada movimento, lhe doem os ossos. Talvez se eu lhe
desse todas essas coisas que lhe disse, ela ficaria curada. — Talvez... mas dize-me um pouco, que mais farias se
tivesses dinheiro, muito dinheiro?
— O h! nem mesmo eu sei tudo aquilo que poderia fazer! A ntes de tudo compraria muitas belas coisas
para “Fátina”: leques, um belo dedal, muitos anéis, talvez uma enciclopédia, uma carruagem para não ficar tão
cansada, andando a pé. Gostaria também de lhe comprar um vestido de seda vermelha, mas ela gosta mais de
roupa escura. Levá-la-ia comigo aos grandes armazéns e lojas, onde há tantas coisas belas e lhe compraria tudo
o que ela quisesse. E depois pensaria em Dick.
— Dick? Quem é Dick?
— Ê o engraxate da estação, respondeu Lord Fauntleroy. É o mais simpático menino que conheço. Está
sempre na estação, e já é meu amigo há muitos anos. E é um pouco curioso o modo como nos conhecemos. Foi
assim: um dia, quando eu era ainda muito pequeno, estava passeando com “Fátina”, que me tinha comprado
uma bola de borracha. A certo ponto, ela me escapou das mãos, e foi cair ao meio da rua, onde passavam os
carros. Eu comecei a chorar... era muito pequeno e D ick, que estava engraxando sapatos, começou a gritar; “Ei!
Ei! Atenção”! E se meteu por entre as pernas dos cavalos para apanhar a minha bola, e depois de a limpar um
pouco com a manga da camisa, entregou-a, dizendo: “O lhe aqui, amigo, não se rasgou, não...” I magine como
“Fátina” e eu ficamos contentes, e agora não há perigo que saia e não faça uma visita a D ick. Eu o saúdo, ele me
responde à saudação e me conta como é que vão os seus negócios. Há tempo que lhe vão mal.
— E o que querias fazer por Dick?
— Eis o que faria: compraria a parte de Jake.
— E quem é Jake?
— É o sócio de D ick. Mas parece que não seja bom menino. N ão é muito honesto e isto não agrada a
D ick. Garanto que o senhor se zangaria, se tivesse que engraxar sapatos o dia inteiro, honestamente, sabendo
que tem um sócio que não é pessoa de bem. O s fregueses estão por D ick, mas muitas vezes não voltam mais
por causa de J ake. Eu sei muito bem o que é que faria se fosse rico. Compraria a parte de J ake e daria a D ick
uma bela nota só para ele, e lhe presentearia com muitas escovas e latas de graxa.
Era divertido ouvir Cedric falar de seu amigo engraxate, usando quase o mesmo jargão, e sem lhe vir ao
pensamento que toda aquela história não poderia interessar em absoluto ao seu velho hóspede. Mas não é
verdade, porque o S r. Havisham se interessava muitíssimo, não somente pela verdureira, e pelo engraxate,
como também, e sobretudo por aquele menino que tanto pensava nos outros, não tendo um só pensamento
para si.
O advogado não pôde deixar de perguntar-lhe:
— E para ti, não farias nada?
— O h! sim! Cem mil coisas! A ntes de tudo daria dinheiro a Mary para Brígida, que é sua irmã, e que tem
o marido desempregado e doente com dez filhos. Tantas vezes vem aqui chorando, e “Fátina” lhe dá muita
coisa. Então Brígida recomeça a chorar e diz: “D eus lhe pague, senhora Errol. D eus lhes pague!” E depois
deveria comprar alguma coisa para o S r. Hobbs. Talvez gostasse de um relógio de ouro com uma linda corrente
e de um belo cachimbo. E depois, gostaria de comandar uma companhia.
O advogado olhou-o interrogativamente, e Cedric explicou-se.
— S im, uma Companhia Republicana, com flâmulas e com belos uniformes para todos os rapazes e para
mim, para fazermos exercícios militares. Sim, isto é que me agradaria, mais, se eu fosse rico.
Naquele momento, a senhora Errol entrou e disse ao advogado:
— D esculpe, S r. Havisham, tê-lo deixado sozinho tanto tempo, é que me procurava uma pobrezinha das
vizinhanças.
— Estávamos em animada palestra, respondeu o advogado, e ele me contava a história de seus amigos e
o que pretendia fazer por cada um deles, se fosse rico.
— Brígida é também sua amiga, disse a senhora Errol, e era justamente ela que estava à minha espera na
cozinha, chorando, porque seu pobre marido está de cama com ataque de artrite.
Cedric deixou logo a poltrona.
— Vou falar com Brígida, disse, e perguntar pelo seu marido. É tão simpático e sabe fazer tantas coisas!
Lembro-me de que uma vez me fez uma linda espada de madeira.
E a criança saiu, enquanto o S r. Havisham se levantou por sua vez. D irigindo-se à senhora Errol, disse-
lhe tudo o que lhe pesava no coração:
— Recebi do conde de D orincourt algumas instruções antes de partir. O conde deseja que a criança se
prepare para conhecê-lo de bom ânimo, e que goste de viver com ele. Recebi o encargo de fazer ao Lord
Fauntleroy que a riqueza lhe dará um futuro brilhante, e não terá mais que manifestar um desejo seu, para que
seja logo atendido. Todavia, apesar de estar o conde bem disposto para com o seu neto, creio poder afirmar,
que nunca pôde pensar em desejos do gênero que Lord Fauntleroy me expôs. Mas naturalmente se a criança
quer socorrer àquela pobre, que está no momento na casa da senhora, é preciso contentá-lo... estou certo de que
este seria o desejo do conde.
Realmente a linguagem do velho senhor era bem diversa. A o seu advogado ele dissera exatamente
assim:
— “A criança deve saber que terá de mim tudo o que quiser, deve saber o que significa ser neto do
conde de D orincourt. Compre-lhe tudo o que ele desejar, encha-lhe os bolsos de dinheiro, e diga-lhe que sou eu
quem assim o deseja”. Realmente esta maneira de agir seria fatal, se tanto Cedric como a sua mãe não fossem
desinteressados. A senhora Errol, na grande bondade de sua alma, pensava que sendo velho, o conde procurava
agir dessa maneira para conquistar o afeto do netinho. E que bom poder também ajudar um pouco a pobre
Brígida!
Contente, pois, com aquela mudança de situação, vendo que era concedido a seu filho fazer bem a quem
tanto desejava, respondeu com ardor ao advogado:
— Como é bom o conde! Cedric se sentirá feliz em poder socorrer Brígida e Miguel. S ão pessoas que o
merecem, e também eu, quando, pude, procurei ajudá-los. Miguel tem tanta vontade de trabalhar, mas está
quase sempre doente, e tem necessidade de ser muito bem tratado de se alimentar melhor. Estou certa que
tanto ele como a sua mulher saberão fazer bom uso do dinheiro que receberem
O advogado tirou do bolso interno do paletó uma carteira. Enquanto se notava no seu semblante uma
expressão estranha: pensava como teria julgado o conde, tão indiferente e tão egoísta, o primeiro desejo
manifestado pelo seu netinho desconhecido.
Talvez, senhora, disse, não tenha consciência das grandes riquezas do conde de D orincourt e do seu vivo
desejo de satisfazer a todos os caprichos do seu netinho.É em obediência às suas ordens que eu ponho à
disposição de Lord Fauntleroy, se a senhora me permite, cinco libras esterlinas para aquelas pessoas de quem
falamos.
— Vinte e cinco dólares! Exclamou a senhora Errol. — É um patrimônio! Parece-me quase impossível! O
advogado sorriu com ar de compaixão.
— S im, senhora, a vida de seu filho está para transformar-se completamente, e uma grande força estará
nas suas mãos!
— Mas, é tão pequenino! Tanto dinheiro em seu poder! S aberei eu ensinar-lhe a fazer bom uso dele?
Quase tenho medo, de toda essa riqueza!
Tão doces e tímidos eram os olhos da mãe de Cedric, que o velho coração seco do advogado se comoveu.
— Bastou-me falar um pouco com seu filho para convencer-me de que o futuro conde de D orincourt
saberá empregar bem o seu dinheiro. Pode-se confiar nele, mesmo hoje, porque ele já é o pequeno Lord
Fauntleroy.
A ssim falou o advogado da nobre família inglesa. A senhora Errol deixou-o um momento para ir à
procura de Cedric. O pequeno estava no corredor e o Sr. Havisham ouvia-o dizer:
— É artrite inflamativa... parece que é a mais perigosa de todas... ele está desesperado porque não sabe
como pagar o aluguel da casa e assim piora muito mais, diz Brígida, e é também uma tristeza que Pat não tenha
nem ao menos um vestidinho apresentável sem rasgões! N em pode empregar-se como menino de recados! —
Cedric estava com o rostinho triste quando entrou na sala, dizendo ao advogado:
— “Fátina” me disse que o senhor procura-me: estava na cozinha com Brígida. O advogado olhou para a
criança um pouco embaraçada, porque afinal era apenas uma criança e disse-lhe:
— O conde de D orincourt... Mas não foi mais capaz de continuar e olhou para a senhora Errol, como a
pedir-lhe ajuda. E então Fátina, estreitando nos braços a criança, disse-lhe: — Filhinho, o conde é teu avô. pai de
teu querido papai. Ele te quer muito bem e é muito bom, e quer que também tu o ames, porque seus filhos, que
ele tanto amava, morreram todos. Teu avô deseja somente que sejas feliz e que possas também fazer feliz aos
outros, e como ele é muito rico, deu dinheiro ao S r. Havisham para que ele te dê, a fim de que tu possas gastá-lo
como quiseres. D e todo esse dinheiro, poderias dar um pouco à pobre Brígida, para que ela possa pagar o
aluguel da casa e comprar remédios para seu marido. S eria uma bela ação! Teu vovô é muito bom, e deves estar
muito contente com ele!
Cedric arregalou os olhos, olhando alternativamente para sua mãe e o advogado. Em seguida
murmurou:
— Poderei dar logo o dinheiro à Brígida? Ela estava quase de saída... (O S r. Havisham entregou à criança
algumas notas, novas em folha, e Cedric precipitou-se a cozinha gritando;)
— Brígida, Brígida, espera um pouco. Tenho aqui dinheiro para que pagues o aluguel e compres uma
roupinha para Pat! Foi meu avô quem o enviou e é para ti e para Miguel!
A voz de Brígida fazia-se ouvir na sala de visitas e percebia-se que a pobrezinha estava sobremaneira
comovida:
— Mas, o que é isto, Cedric? São vinte e cinco dólares! Onde está tua mãe?
A senhora Errol sorriu:
— Preciso que eu vá explicar-lhe tudo... e se afastou.
Tendo ficado só, o advogado assomou à janela. Pensava no velho conde, isolado na sua magnífica
biblioteca, rodeado de luxo e esplendor. N inguém o amava, nem ele amou jamais a alguém, porque, fechado no
seu cego egoísmo, prepotente, colérico, não se preocupava de outra coisa em toda a sua vida, a não ser de si
mesmo. S ó tinha empregado, para sua própria vantagem, as riquezas, a autoridade e o poder que lhe advinham
de seu nome e da sua estirpe, e agora era já velho, doente, cansado, inútil a si e aos outros. Tratava a todos com
profunda aversão. Poder-se-ia dizer que não havia em toda a I nglaterra um velho nobre, menos amado e mais
isolado que o conde de D orincourt. Podia muito bem convidar a todos que quisesse para a sua mesa e para as
suas caçadas, nos seus castelos suntuosos, mas sabia que, se os tais amigos aceitassem aqueles convites, isto
não queria dizer que sentissem a mínima simpatia pelo senhor do qual temiam as extravagâncias bizarras e os
sarcasmos pungentes. A borrecido como era, tornara-se ainda mais antipático, com o correr dos anos. D ivertia-
se muitas vezes, pondo embaraço à gente com as suas palavras mordazes e não tinha escrúpulo de fazer sofrer
àqueles que eram demasiado sensíveis, tímidos ou orgulhosos. E aqui, pelo contrário, na modesta casa, onde o
capitão Cedric Errol tinha vivido, quanta diferença! Parecia ainda ao advogado ver aquela bela criança de cachos
louros, acantoada numa poltrona a falar, todo interessado e preocupado com os negócios de seu amigo D ick e
com a pobreza da verdureira.
Pensando nas magníficas possessões, nas rendas consideráveis, nas riquezas que permitem fazer tanto
mal ou tanto bem, que um dia talvez não muito longe, passariam a pertencer ao pequeno Lord Fauntleroy, o S r.
Havisham disse de si para consigo, com profunda convicção:
— O h! as coisas mudarão... haverá uma grande diferença, uma diferença enorme...Q uando a mãe e o
filho voltaram, Cedric estava radiante. S entou-se com as mãos cruzadas sobre os joelhos, ainda todo comovido
pela gratidão da pobre Brígida.
— Chorava! disse ele. — Falou que era de alegria, mas eu nunca vi ninguém chorar quando está muito
contente. Certamente vovô deve ser muito bom. Começo a pensar que ser conde é uma coisa muito bela... estou
quase satisfeito de ser também conde.
III

A PARTIDA

Com o passar dos dias, Cedric se convencia sempre mais de que ser conde constituía situação vantajosa,
mas isto porque todos os seus desejos, apenas expressos, eram logo atendidos. Parecia-lhe quase impossível, e é
de crer-se que não caísse na conta disse. Mas finalmente, depois de ter falado ainda com o advogado,
mensageiro do avô, convenceu-se de que podia verdadeiramente realizar os projetos que tinha mais a peito, e
dedicou-se a isto com tal paixão, que causava assombro e dava que refletir ao S r. Havisham, na alma de quem
deviam permanecer impressas as visitas feitas em companhia de Cedric a D ick e a maravilha da verdureira “de
antiga linhagem”, quando o viu parar diante de seu balcão para dizer que teria uma soma de dinheiro, uma
bela lona para cobrir o seu banco, e um chalé para agasalhar-se do frio e finalmente um pequeno fogareiro para
amparar-se das intempéries. Com a sua adorável graça, Cedric declarou à sua velha amiga:
— Eu devo ir para a I nglaterra e ser conde, e não gostaria de que todas as vezes que começasse a chover
eu tivesse de pensar no seu reumatismo; ou não sofro nada e não entendo como é possível que você sofra
tanto... mas certo é que só em pensar nisso, me dá muita pena e desejaria poder curá-la completamente.
D epois que deixaram a pobrezinha quase sem fala por toda aquela riqueza que lhe caía do céu, Cedric
disse ao companheiro:
— É mesmo uma senhora e tanto, imagine que um dia dei uma queda e ralei os joelhos e então ela me
deu uma maçã e não quis nem um centavo. Como ela é bondosa, não acha? Eu me recordo sempre deste fato.
Era natural para aquele coraçãozinho reto recordar-se dos benefícios recebidos e não imaginava que não
existisse gente que facilmente os esquece.
A conversa com o engraxate foi uma das mais interessantes. J ustamente naqueles dias, D ick que por
causa do seu sócio pouco recomendável, tinha tido uma porção de aborrecimentos, andava muito mal-
humorado. O uvindo dizer Cedric que tinha vindo trazer-lhe uma soma de dinheiro, que ao pobre engraxate
pareceu enorme ficou, sem palavra. O menino expôs o fim da sua visita com tanta clareza e simplicidade que
mesmo o Sr. Havisham ficou admirado.
Q uando D ick conseguiu finalmente compreender que seu amigo era um menino de família aristocrática
e que seria finalmente conde se vivesse até lá, arregalou os olhos, abriu a boca e deu um salto, tão rápido, que o
seu gorro voou pelos ares. Curvando-se para apanhá-lo, rompeu em exclamações que não impressionara muito
a Cedric, porque já estava habituado àquelas maneiras do seu amigo, mas produziu um efeito estranho no
impassível e impecável Sr. Havisham.
Por que foi que D ick comentou desta maneira os acontecimentos? J ulgava talvez que seu amigo
estivesse brincando!
Cedric, que tinha ficado um pouco embaraçado, procurou dar uma explicação.
— S ei muito bem que de início ninguém quer acreditar. I magine que o S r. Hobbs julgava que eu
estivesse doente! E também isto me estava fazendo certa impressão... mas agora já me habituei com tudo e
nada me incomoda. Atualmente não sou ainda conde, porque o é meu avô, e é ele que me concede tudo o que
me agrada. É muito, muito bom, mesmo sendo conde; e enviou-me o S r. Havisham com muito dinheiro, e assim
vim trazer-te este dinheiro que é preciso para mandar Jake passear.
Foi assim que D ick pôde separar-se do seu sócio e ficar senhor absoluto da “firma”, com dinheiro no
bolso e um bom número de escovas novas.
D ick estava radiante com aqueles presentes tão belos, mas custava crer que aquela riqueza era mesmo
dele, do mesmo modo que vivera tivera dificuldade em fazer acreditar à verdureira de “antiga linhagem”.
Continuava a olhar para Cedric com ares de quem não sabe se está sonhando ou acordado, e não voltou a si,
senão quando, estendendo-lhe a mão para despedir-se, Cedric lhe disse:
— E agora, adeus! — A voz lhe tremia um pouco e os olhos lhe brilhavam de lágrimas, se bem que
desejasse simular bravura. Espero que teus negócios correrão bem de agora por diante. S into muito ter de
partir e deixar--te, mas pode ser que volte e me encontre contigo, quando for conde. D everas escrever-me
porque fomos sempre bons amigos. Mas recomendo-te enviares as cartas para Lord Fauntleroy, porque agora
não me chamo mais Cedric Errol. Adeus Dick!
O menino fechou os olhos marejados de lágrimas. N ão era um engraxate que ia ter o fingimento de
procurar palavras bonitas naquela hora comovente. Contentava-se em fechar os olhos e engolir em seco,
procurando pôr um dique à onde de emoção que lhe extravasava do peito.
Tentou contudo balbuciar meias palavras:
— Queria que tu não fosses embora...
Olhou depois para o advogado tirando o seu gorrinho:
— Eu lhe agradeço, senhor, por me ter trazido aqui a Cedric. e por tudo que o senhor fez. É um menino
muito bom e eu lhe quis sempre muito bem.
D urante muito tempo ficou o pobre D ick a seguir com os olhos banhados de lágrimas a silhueta da
criança, que se afastava, viva e alegre, ao lado do Sr. Havisham.
Estas eram visitas ligeiras. A o S r. Hobbs foi que fez a sua “grande” despedida. Vários dias antes de
partir, demorava-se com ele largo tempo. S eu velho amigo parecia triste e abatido, de tal modo que nem soube
exprimir sua alegria, quando seu amiguinho com ar triunfante lhe levou um belíssimo relógio de ouro com uma
linda corrente, como lembrança.
O quitandeiro, tendo colocado o estojo do relógio sobre os joelhos, tirou do bolso o lenço e assoou o
nariz ruidosamente. Cedric entretanto fez notar:
— Há alguma coisa escrita dentro do estojo. Fui eu que a ditei: “A o S r. Hobbs, meu maior amigo, Lord
Fauntleroy. Q uando olhares para este relógio, pensa em mim”. Certamente, porque não quero que o senhor se
esqueça do seu amigo.
O quitandeiro assoou novamente o nariz, comovido:
— O h! sim! N ão me esquecerei nunca! E tinha a voz tão emocionada como a de D ick. — Mas também tu
não deveras esquecer-me, mesmo quando fores conde...
— Sim, eu não me esquecerei nunca do senhor!
A ssegurou o pequeno gentil homem, — e como poderia fazê-lo? Passei na sua companhia muitas das
minhas horas mais belas. Gostaria tanto se um dia o senhor fosse visitar-me! Q ue prazer vê-lo outra vez, creio
que até meu avô teria satisfação em conhecê-lo. Pode ser que, quando lhe falar do senhor, ele o convide. E o
senhor não tem nada a dizer, se ele é conde? Q uero dizer: não recusará o seu convite, somente porque ele é
conde, sim?... O quitandeiro prometeu benignamente:
— I rei visitar-te — condescendendo com o seu jovem amigo que, se o conde o convidasse friamente para
ele ir à I nglaterra passar alguns meses no castelo de D orincourt, teria posto de lado todos os seus preconceitos
republicanos e arranjaria logo as malas.
Ultimados todos os preparativos para a partida de Cedric e de sua mamãe, chegou o dia em que as malas
foram levadas para bordo, e a carruagem os esperava à porta. I mprovisamente, Cedric se sentiu só. A mamãe
ficou encerrada no seu quarto e, quando descera, tinha os olhos vermelhos de chorar e seus lábios tremiam.
I nclinou-se para Cedric, e abraçou-o. A criança sentia que seu coração estava muito triste e não disse outra
coisa senão estas poucos palavras.
— Queríamos tanto bem à nossa casinha, não é verdade mamãe?! E lhe queremos sempre muito bem...
— Sim, filhinho, sempre...
Q uando subiram para o carro, sentou-se junto à senhora Errol e tomou-lhe uma das mãos, enquanto
“Fátina” olhava para fora, como a dizer adeus a tudo que deixava.
A bordo reinava a maior confusão. A afluência dos passageiros que chegavam agitados, porque muitos
não reconheciam as próprias bagagens e temiam chegar atrasados. Malas e maletas obstruíram a ponte e os
marinheiros corriam de um lado para outro arrastando rolos de cordas. O s oficiais transmitiam ordens...
Entretanto, homens, mulheres e crianças com as suas amas, continuavam a subir a bordo. Uns iam sorrindo e
brincando, outros tristes, alguns choravam.
Cedric, olhando à volta, encontrou muitas coisas que o interessavam: Grandes porões, complicadas
maquinarias, e mil outras coisas, e no coração sonhava travar amizade com os marinheiros para poder
perguntar-lhes se seria possível encontrar piratas durante a viagem. Estava apoiado no parapeito da ponte
observando os últimos preparativos, e se divertia grandemente com todo aquele movimento, com toda aquela
confusão, com os gritos dos marinheiros e dos carregadores do porto, quando lhe pareceu notar certo tumulto
de gente em terra, e percebeu que era um rapazinho que procurava abrir passagem, agitando alguma coisa
vermelha que tinha na mão: Era Dick!
D ick gritava — D ei uma corrida! Mas queria ver-te partir. E não foi fácil! S omente com o apurado de
ontem pude comprar isto para que ponhas no pescoço, quando estiveres no meio daqueles grandes senhores: É
um lenço! O papel no qual estava embrulhado, perdi-o por culpa daquela gente que não queria deixar-me
passar.
N ão tinha ainda acabado de falar, quando ouviu o sinal de partida, e antes mesmo que Cedric pudesse
responder alguma coisa, D ick foi obrigado a afastar-se gritando: — A deus! A deus! Põe o meu lenço quando
fores conde!
E o engraxate saltou para terra enquanto os marinheiros retiravam a escada.
Ficou no cais acenando com o seu gorrinho enquanto Cedric respondia ao adeus, agitando o lenço que
tinha recebido como lembrança.
Começaram a ouvir apitos e rumores confusos: Do cais ao navio trocavam-se adeuses calorosos:
— Adeus! Adeus! Boa viagem! Escreve-me! Recorda-te de nós! Adeus! Envia-nos notícias de Liverpool!
Lord Fauntleiroy assomou ao parapeito e gritou:
— Adeus Dick! Adeus e obrigado!
E o navio começava a afastar-se lentamente. A senhora Errol desceu o véu sobre a face. N o cais uma
massa confusa se agitava ainda e gritava. Mas o pobre engraxate não via senão um rostinho alegre, emoldurado
por uma auréola de cabelos de ouro, e ouvia apenas a última saudação da voz cordial e amiga. Adeus Dick!
E entretanto Lord Fauntleroy zarpava do seu país natal para a pátria dos seus antepassados.
IV

NA INGLATERRA

D urante a viagem a mamãe teve que decidir-se a dizer a Cedric que na I nglaterra não poderiam morar
juntos, e com tal notícia sofreu tanto, que o S r. Havisham começou a pensar que não seria possível fazer que o
pequeno Lord suportasse a separação, se o velho conde não concedesse à senhora Errol morar a pouca distância
do castelo e pudesse muitas vezes ver o filhinho. Ela empregou toda a doçura de seu coração e todo o seu poder
persuasivo para conseguir que Cedric se resignasse. Todas às vezes que voltava àquele assunto, “Fátina” não
fazia senão repetir.
— A sseguro-te, Cedric, que a casa onde eu vou morar é tão perto do castelo, que poderás diariamente ir
ver-me. I magina quantas coisas temos que contar, e que felicidade todas as vezes que estivermos novamente
juntos! O castelo é belíssimo! Teu pai me falava dele porque o amava muito. Verás como vais gostar.
— É minha vontade que pudesses vir comigo — rebatia Cedric suspirando. N ão conseguia encontrar a
razão daquela estranheza: sua mãe numa casa e ele noutra! Nunca o teria imaginado, mas...
A senhora Errol desviava sempre o assunto.
— D esejo que, ao menos por agora, não saiba o verdadeiro motivo desta disposição do conde —
explicava o advogado — não entenderia e, sentindo-se ofendido, não poderia ser espontâneo e afetuoso para
com o avô, como será, ignorando que ele detesta sua mãe. Cedric nunca soube o que fosse ódio e aversão, e
seria um golpe demasiado forte para ele, vir a saber que alguém odeia sua mãe. Q uer-me tanto bem! É muito
melhor para ele, que venha a saber todas estas coisas mais tarde, e é melhor para o conde também. I sso
constituiria um obstáculo quase insuperável entre eles, mesmo sendo Cedric uma criança.
Cedric ficou vagamente maravilhado quando a mãe, mencionando apenas a questão, disse-lhe que era
ainda muito pequeno para compreender a razão pela qual não deviam morar juntos: mais tarde compreenderia
tudo. Todavia não indagou muito a fundo, e a senhora Errol soube de tal maneira esconder as sombras negras
daquele quadro, que o conjunto se apresentava maravilhoso. A lgumas vezes, porém, o S r. Havisham
surpreendia a criança muito séria olhando fixamente para o mar...
D urante uma de suas palestras com o advogado, lhe disse: — S e soubesse quanto sofro porque a mamãe
não pode vir comigo! Mas há tantas dores neste mundo, e é preciso que as suportemos: Mary o diz sempre e o
repetiu sempre o S r. Hobbs. E sobretudo é Fátina que quer que eu vá viver com o vovô, porque todos os seus
filhos morreram e ele vive só, e isto é certamente uma grande desgraça.
O que agradava mais a quem observava o pequeno Lord, era a seriedade com que falava e a gravidade de
alguma de suas observações, que, unida à expressão infantil de seu rostinho inocente, era algo de fascinante.
Era de tal modo encantador, quando estava sentado, segurando os joelhos com as mãozinhas gordas e falando
com tanta seriedade, que quem o ouvia ficava deslumbrado.
É mais que todos o advogado que via aumentar cada dia mais o seu interesse pelo filho do capitão
Cedric.
— Tu gostas mesmo do conde? — perguntou-lhe um dia.
— Certamente, respondeu Cedric, somos parentes e entre parentes é preciso que haja amor, e sobretudo
porque vovô tem sido muito bom para comigo; como se poderia deixar de querer bem a uma pessoa que faz
tantas coisas por nós e nos contenta em tudo, mesmo se não fosse parente? Sendo-a, amaremos muito mais.
— Mas tu acreditas mesmo que o conde te quer bem?
— Creio que sim, porque sou filho do seu filho, e aliás deve já querer-me bem, doutra maneira não me
teria enviado o senhor para levar-me à I nglaterra e não lhe teria dado tanto dinheiro para gastar comigo e
satisfazer a todos os meus desejos.
— Pensas que tudo é assim mesmo?
— Claro! Não lhe parece que um avô deva querer bem ao seu neto?
Tendo passado o enjôo, os passageiros, que agora subiam ao tombadilho para apreciar melhor a
travessia, foram aos poucos tomando conhecimento da história de Lord Fauntleroy e vinham, tomados de
grande interesse, conversar com aquela criança viva que se divertia a correr pelo navio, ou passeava ao lado de
sua mamãe ou daquele senhor alto e magro que o levava à I nglaterra ou pairava com os marinheiros. Todos lhe
tinham grande simpatia e faziam amizade com ele. Q uando passeava no tombadilho, com certos senhores que
ficaram seus amigos, e acolhiam sempre suas brincadeiras com alvoroço, procurava, fazer como eles, andando
com passos largos e compassados. S e o chamavam para o meio de um grupo de homens, fazia-os rir. A s
crianças o adoravam, porque inventava continuamente novos brinquedos, para se divertirem.
Mas os seus amigos preferidos eram os marinheiros. Estava sempre ao lado deles pedindo que lhe
contassem histórias de corsários, de naufrágios e de ilhas desertas. Q ueria aprender a torcer as cordas, a
fabricar barquinha em miniatura e queria até manejar o leme, cuja complicada nomenclatura não era mais
segredo para ele. Tinha já adquirido, sem o perceber, o linguajar dos marinheiros e um dia fez arrebentar de
riso um grupo de passageiros que estavam no tombadilho, envoltos em suas mantas e agasalhos, exclamando
com seu ar gentil e sério ao mesmo tempo:
— Estou com os ossos estalando com este frio danado!
E não entendia porque começaram a rir. A quela exclamação, que lhe agradava tanto, aprendera-a com
J erry, um velho lobo do mar, que a dar-lhe crédito, já tinha feito ao menos duas ou três mil travessias com igual
números de naufrágios diante de ilhas povoadas de canibais. Parecia que tivesse sido colocado sobre grelhas, e
algum canibal tivesse feito um banquete com os pedacinhos de sua carne viva. A pele deviam-na ter arrancado
pelo menos uma dúzia de vezes.
Era por isso que era inteiramente calvo... — explicava Cedric com grande seriedade à sua mãe.
A s vezes quando fazia mal tempo e os passageiros não podiam sair ao convés, pediam a Cedric que
repetissem as histórias de J erry. O pequeno Lord não se fazia de rogado e começava a narrar com tanto brio e
vivacidade que fazia crer que antes dele nenhuma criança tão simpática e divertida tinha atravessado o
Atlântico.O melhor era que ele não tinha consciência de haver conquistado tanta simpatia.
— Vejam só como todos se interessam pelas histórias de J erry! D izia à mãe. A mim, algumas vezes não
parecem verdadeiras, mas como sucederam com ele, em pessoa... Certamente são muito extravagantes, mas... E
pode acontecer que às vezes ele se engane em referi-las ou se esqueça de alguma coisa. D e resto, se entende. J á
lhe arrancaram o couro da cabeça tantas vezes!
Exatamente onze dias depois da partida, Cedric desembarcou em Liverpool, e na tarde do décimo-
segundo dia com a sua mãe e o advogado chegaram de carro, de uma estação vizinha, ao portão do “Palacete”.
Era já ao cair da noite e a criança pôde somente distinguir uma grande alameda ladeada de altas árvores.
D epois de percorrer breve trecho da estrada, o carro parou diante de uma porta da qual bruxoleava uma luz.
Mary tinha precedido os viajantes com os quais fizera a travessia no navio, de tal modo que, descendo do
veículo, Cedric viu-a em pé à porta, enquanto dois criados permaneciam imóveis, um pouco atrás, no vestíbulo,
profusamente iluminado.
A criança saudou-a com efusão e, dirigindo-se à sua mãe, disse-lhe: — É Mary, mamãe.
E nas faces enrugadas da fiel doméstica o pequeno Lord depositou um afetuoso ósculo.
Em voz baixa a senhora Errol confiou a Mary.
— Estou satisfeita de que estejas aqui... assim não me sentirei tão sozinha — e estendeu a mão, que
Mary tomou entre as suas, infundindo-lhe ânimo e coragem. Entendia muito bem a melancolia e a solidão que
esperava a senhora Errol, longe da sua pátria, e em breve separada também de seu filho!
O s criados do “Palacete” olhavam os recém chegados com curiosidade. S abiam já muitas coisas a seu
respeito. Tinham sido muitas vezes testemunhas dos acessos de cólera do velho conde por ocasião do
casamento de seu filho e estavam bem informados de tudo o que se estabelecera sobre a permanência da
senhora Errol no “Palacete” e do menino no castelo. O pequeno Lord Fauntleroy herdaria um dia o grande
patrimônio do velho irascível, prostrado pela gota, mas, em vez de invejá-lo, todos diziam:
— Pobre criança, quem sabe a vida que o espera!
Todavia, nenhum conhecia ainda a alma e o caráter do futuro conde de D orincourt, o qual, como se
estivesse acostumado a fazer tudo por si, tirou o paletòzinho, olhando à sua volta, para admirar o vestíbulo, os
quadros, os chifres de veado que pendiam da parede, tantas coisas que lhe pareciam estranhas, porque nas
casas que freqüentara nunca vira coisas semelhantes.
— Mãezinha, esta casa me parece bela e grande: estou muito contente que venhas morar aqui.
Certamente a casa era bela e grande, sobretudo se se comparasse com a modesta casinha de Nova York.
Mary conduziu a senhora Errol e o menino a um quarto de dormir, onde um belo fogo ardia na chaminé
e sobre o tapete branco do pavimento dormia um magnífico gato angorá.
— Enviou-o para a senhora a empregada do castelo, que preparou tudo isso aqui. D eve ser muito boa!
Falei com ela um momento: queria tanto bem ao capitão, e chorou muito quando ele morreu! E me disse que
lhe mandou este gato para que a casa não lhe parecesse demasiado deserta. Conheceu seu marido em criança
que era um menino muito belo e quando jovem muito elegante e gentil para com todos! Então eu lhe disse:
“Deixou um filho como ele, a mais bela criança que já vi”.
Momentos depois, mãe e filho desciam a escada para outro quarto magnificamente iluminado, com
móveis de muito bom gosto, com grandes poltronas de alto espaldar e algumas estantes e uns pequenos
armários cheios de objetos raros. O gato angorá seguira Cedric, fazendo-se acariciar, e se deitou junto dele
sobre o tapete diante da chaminé. A criança, ocupada em mimá-lo, não atentava no que diziam o S r. Havisham
e a senhora Errol, que falavam em voz baixa:
— Ah! esta noite, não, pelo amor de Deus! Que ele fique comigo, pelo menos esta noite!
Está bem, respondeu o advogado. N ão há necessidade que parta esta noite. I rei ao castelo e falarei ao
conde, anunciando-lhe a chegada do neto.
A senhora Errol olhou para Cedric: estava deitado sobre o tapete. A s labaredas da chaminé iluminavam-
lhe o rostinho rosado e os lindos cachos de ouro! O gato satisfeito brincava com Cedric, que o acariciava com a
sua tenra mão infantil.
"Fátina" sorriu, mas no seu sorriso havia tanta tristeza!
— O conde de D orincourt não sabe o que me está arrebatando! disse, e, voltando-se para o advogado,
acrescentou: — Gostaria que o senhor tivesse a fineza de lhe comunicar que prefiro não aceitar o dinheiro que
me ofereceu
— A senhora não se refere, por acaso, à pensão que lhe está destinada! O advogado parecia muito
surpreendido.
— S im, é justamente isto que penso não ser justo que aceite, replicou com firmeza a senhora Cedric
Errol. A casa não a recuso, antes estou muito grata que me seja concedido viver ao lado de meu filho, mas,
quanto ao dinheiro, tenho uma renda que me permite viver modestamente e não desejo mais. O conde me
detesta de tal modo que me parecia vender-lhe Cedric, se aceitasse o seu dinheiro. S e eu lhe mando meu filho é
somente porque quero o seu bem e estou certa de que o seu pai desejaria que eu agisse deste modo.
O Sr. Havisham olhava fixo para o solo: parecia muito preocupado.
— É um caso muito sério, disse, Penso que se encolerizara e de modo nenhum aceitará a sua recusa,
senhora Errol.
— Creio que sim, se refletir um pouco. Enfim não tenho necessidade do seu dinheiro e por que deveria
aceitá-lo, então, como coisa supérflua, sobretudo de um homem que tanto me odeia, que quis separar-me de
meu filho, que é filho de seu próprio filho?
— Bem, farei o que a senhora pede, replicou o advogado, depois de alguns instantes de reflexão.
Depois foram todos cear, enquanto o gato, enrascado junto de Cedric, dormia despreocupadamente.
Q uando o S r. Havisham chegou ao castelo, dirigiu--se logo aos aposentos particulares do conde.
Encontrou-o sentado junto à chaminé, numa ampla poltrona, com o pé atingido pela gota apoiado num
escabelo. O velho senhor, franzindo as sobrancelhas, fixou os olhos no advogado que percebeu como o conde,
apesar de ostentar a sua indiferença habitual, deveria estar nervoso e agitado.
Finalmente o velho conde falou:
— Já estás de volta, Havisham, que há de novo?
— Lord Fauntleroy ficou com sua mãe, amanhã eu mesmo o trarei ao castelo.
O conde, que tinha um cotovelo apoiado no braço da poltrona, levantou a mão como para proteger os
olhos da luz, e disse:
— Então pode falar. Tinha-lhe dito que não me escrevesse nada, por isso não estou a par dos
acontecimentos. Gostaria de saber, que tal é o menino. Veja bem que não é sobre a mãe dele que lhe peço
informações, é sobre ele.
O Sr. Havisham encheu o copo de vinho do Porto e, tendo-o ainda entre as mãos, respondeu.
— D irei que não é fácil julgar do caráter de uma criança de sete anos! O conde, que por nada deste
mundo teria renunciado aos seus preconceitos inveterados, deixou escapar uma imprecação: — Entendi... trata-
se de um estúpido ou de um mal-educado? Aliás, compreende-se: sangue americano!
Um pouco secamente o advogado replicou:
— Q uanto a isto, penso que não há nada que temer. Eu não entendo muito de crianças, mas diria que me
parece um menino educado e de bons sentimentos.
Falava deliberadamente com frieza, exagerando também a sua maneira habitual de ser, e isto porque
julgava ser talvez melhor não preparar o conde para o encontro com o netinho, a fim de poder julgá-lo com
plena liberdade.
— Então como é ele? É sadio e bem-educado?
— Uma coisa e outra, ao menos em aparência.
— E de aspecto, como é ele? Simpático?
O S r. Havisham não pôde deixar de sorrir. Via a criança belíssima, deitada no tapete, como a tinha
deixado no “Palacete”, com as faces rosadas e os belos cachos louros caídos sobre os ombros.
— S egundo o meu parecer, é uma criança bela, resolveu declará-lo, mas já lhe disse que de crianças eu
não entendo muito. Penso porém que o achará um pouco diferente das crianças que estamos habituados a ver
na Inglaterra.
— O h! não duvido um segundo! E o conde contorceu a boca porque tinha sentido uma dor aguda no pé
doente. — Os meninos americanos são todos desavergonhados, já o sabia.
O advogado corrigiu a expressão pouco respeitosa do conde:
— N ão se trata de falta de vergonha. Confesso que não saberia dizer que diferença existe entre o seu
neto e um menino inglês, mas talvez se trate de um misto de madureza e infantilidade, devido ao fato de que
Lord Fauntleroy viveu muito mais com adultos que com crianças da sua idade. O conde balançou a cabeça:
— J á o sei, já o sei! Trata-se de alguma coisa que os americanos costumam chamar precocidade e
liberdade. Eu o chamo com o nome que merece: péssima educação e impertinência bem americana! O S r.
Havisham continuava a tomar goles de vinho.
Estava acostumado a não discutir nunca acaloradamente com o nobre senhor, sobretudo quando estava
atacado de gota. Silenciou, e só depois de longa hesitação quebrou o silêncio, para dizer:
— Tenho uma mensagem para transmitir-lhe, senhor conde, da parte da senhora Errol.
— N ão me interessa! N ão quero ouvir nada daquela mulher, murmurou com os dentes cerrados o velho
iracundo.
— Trata-se de coisa muito importante, insistiu o advogado. A senhora Errol recusa terminantemente
aceitar a pensão que o senhor lhe destina.
— Que estás dizendo?
O conde parecia estupefato. O advogado repetiu:
— É a pura verdade. D iz que não tem necessidade de pensão, e não sendo amigáveis as relações entre V.
S. e ela...
— D esafio! — I nterrompeu o velho irritando-se. Fico com os nervos rilhados somente em pensar que
existe aquela mulher! Imagina o que aconteceria se a visse! Uma americana vulgar e venal!
— Venal, V. S . não a pode chamar! N ão somente não pede nada, mas recusa até aquilo que se lhe
oferece.
O conde não cedeu, e retorquiu asperamente ao advogado:
— S e está pensando em fazer-se de importante, de figurona, se crê que eu vá admirar a sua famosa
independência americana, engana-se! Pouco se me dá dela, mas não quero que viva como mendiga à minha
porta: é a mãe de meu neto! E isto a põe numa situação que deve suportar, queira ou não. Por isso deverá
aceitar o meu dinheiro.
— Mas fique certo, V. S. que não o gastará.
— Q ue me importa? — Gritou enfurecido o conde. Basta-me que lhe seja dado o dinheiro, ao menos
assim não poderá dizer que é obrigada a viver pobremente por minha causa. O que é que ela não faria, para dar
à criança uma péssima opinião de mim? Imagino como procurou indispor o menino contra seu avô!
— N ão, afirmou com toda calma o advogado. E a este respeito devo dizer-lhe ainda outra coisa, para
provar-lhe que não é verdade aquilo que V. S. pensa.
— N ão quero explicações! Vociferou o velho que corria o risco de ficar sem fôlego, atacado por um
acesso de raiva ou de gota.
Mas o Sr. Havisham, imperturbável, continuou:
— A senhora Errol pede-lhe que não diga a Lord Fauntleroy nada que lhe possa fazer entender que V. S .
o separa de sua mãe, por que a não quer ver, certa do imenso amor que a criança nutre por ela, a senhora teme
com razão que, vindo a conhecer os sentimentos de hostilidade de V. S . a seu respeito, a criança o temeria e
certamente não sentiria nenhum afeto para com seu avô. Explicou ao filho que não pode dizer-lhe os motivos
pelos quais o separam hoje dela, porque não poderia entendê-los. Mais tarde saberia de tudo... Mas, pelo que se
refere ao presente, a senhora deseja vivamente que não haja nem uma sombra de desconfiança ou desafeto
entre avô e neto no primeiro encontro.
O conde deixou-se cair pesadamente sobre a poltrona com os olhos em chama.
— Vamos! continuava a repetir. — Não tentes fazer-me crer que ela não lhe tenha dito nada!
— N em ao menos uma palavra, asseguro a V. S ., afirmou com frieza o advogado. A ssim a criança está
disposta a considerar V. S . como um avô afetuoso e que o ama, sobre todos os respeitos. N ão só lhe quer bem,
como também tem um grande reconhecimento, pois em N ova York tive o cuidado de executar a suas ordens,
satisfazendo a todos os seus desejos.
— Sim? murmurou o conde. O advogado continuou:
— Dou minha palavra de honra que a impressão que receberá Lord Fauntleroy a seu respeito, dependerá
exclusivamente de V. S . E ousarei sugerir que julgo útil para que a criança se afeiçoe cada vez mais a V. S ., não
lhe falar em tom áspero e de desprezo...
— Quantas histórias! Quantas histórias! Finalmente trata-se apenas de uma criança de sete anos, não é?
— Sim, senhor conde, mas estes sete anos, ele os passou ao lado de uma mãe que o adora!
V

NO CASTELO

N o dia seguinte à chegada à I nglaterra de Lord Fauntleroy, uma carruagem o conduziu através de uma
longa avenida que levava ao castelo dos D orincourt. O conde queria que seu netinho fosse admitido à sua
presença perto da hora do jantar.
D urante o percurso, tendo apoiado a cabecinha loura nas almofadas macias do veículo, Cedric olhou em
derredor curioso. D e resto não tinham deixado de despertar o seu interesse a viatura, os adornos brilhantes, os
cavalos, o cocheiro e o empregado em uniforme, e sobretudo o brasão gravado na portinhola da carruagem,
cujo significado desejou conhecer. Q uando a carruagem chegou defronte do imponente portão do parque, a
criança assomou à janela, atraído pelos leões de mármores que pareciam guardar a entrada do castelo.
D e uma casinha pouco distante, revestida de trepadeiras, correu a abrir o portão uma senhora
sorridente. S eguiam-na duas crianças de olhos arregalados sobre aquele rapazinho da viatura, que, por sua vez,
os olhava com curiosidade. A um sinal da mãe, que se curvava numa inclinação profunda, também eles fizeram
a sua reverência.
Lord Fauntleroy perguntou, como falando consigo mesmo: — Conhecem-me? — e acrescentou: —
Certamente que me conhecem! — e, tirando o seu gorrinho, saudou alegremente a senhora: — Boa tarde, como
vai?
Com o semblante radiante, ela respondeu: — Bem-vindo! Q ue D eus abençoe o belo rostinho de Vossa
Senhoria! Saúde, fortuna e felicidade para vós, Lord Fauntleroy!
Cedric lhe sorriu continuando a agitar o gorrinho. Voltou-se depois ao advogado para comunicar-lhe as
suas impressões:
— Como é simpática aquela senhora, e como deve querer bem às crianças! Gostaria de brincar com
aqueles meninos. Há muitos nas redondezas para formarmos um grupo?
O S r. Havisham conservou-se em silêncio. Pensou que seria muito cedo para dizer-lhe que, dificilmente,
obteria licença de fazer amizade com os filhos dos empregados. A carruagem que tinha retomado o seu
caminho desfilava agora, entre dois renques de árvores frondosas, que sombreavam a avenida. Eram árvores tão
altas e de troncos tão grossos, que encantaram a Cedric, pois não se recordava ter visto jamais coisa
semelhante. A criança não podia certamente saber que o castelo de D orincourt era célebre em toda a região
pela sua beleza, e que o parque que o circundava era magnífico. A chava que tudo aquilo que via lhe agradava
grandemente, isto sim, e olhava demoradamente para os fortíssimos ramos atravessados pelos últimos raios de
sol, como por setas de luz. Como era agradável o silêncio absoluto que reinava naquele arvoredo, e como tudo
era cheio de interesse! A s moitas pareciam massas espessas de sombras, as árvores isoladas. aqui e ali e
arbustos floridos ondulavam levemente à brisa vespertina, quando, um coelho passava em desfilada, agitando
comicamente a cauda branca, e levantava vôo um par de perdizes. Extasiado, Cedric batia palmas e dava gritos
de alegria... — Como é bonito aqui! exclamou. Agrada-me muito mais do que o parque de Nova York!
Admirado, pois, do comprimento daquela alameda, que parecia não acabar mais, perguntou:
— Qual é a distância do começo da alameda ao castelo?
O Sr. Havisham respondeu-lhe:
— Devem ser 3 ou 4 milhas.
— Mas, como estamos longe da entrada! — comentou a criança, que, notando alguns cervos uns sobre a
relva, outros olhando fixamente a carruagem, espantados, prontos a correr, em casos de perigo e com uma
vozinha toda cheia de alegria, interrogou: — O h! que beleza! O s cervos! Parece que deixaram aqui um circo! D e
quem são?
— O parque é a casa deles, respondeu o advogado. E o dono deles é o conde, teu avô.
Majestoso e imponente, com as janelas que pareciam feitas de ouro, pelos derradeiros raios de sol,
apareceu finalmente o castelo, cheio de torre e torrões, muitas vezes revestido de cortinas espessas de hera.
Diante da construção majestosa, havia amplos terraços alternados com prados verdejantes e canteiros floridos.
A alegria brilhava nos olhos de Cedric, e lhe tingia de púrpura as faces rosadas. Bateu novamente as
mãos exclamando:
— Parece-me estar no palácio de um rei, como já li nos livros de fadas.
O grande portão estava aberto. D uas filas de criados aprumavam-se à espera. Cedric observou os seus
uniformes e perguntou a si mesmo o que é que eles estavam fazendo ali. N ão podia de modo nenhum imaginar
que estivessem ali a esperá-lo, para homenagear a criança destinada a ser o senhor do castelo, que parecia uma
habitação de fadas, com aquele parque magnífico de árvores centenárias, cheio de lebres, de coelhos, de cervos
e cabritos.
D iante da criadagem, encontrava-se de pé uma anciã vestida de negro com uma touca na cabeça
grisalha. D escendo da carruagem pareceu que lhe quisesse dizer alguma coisa. Mas o S r. Havisham,
continuando à segurar o menino pela mão, disse, voltando-se para a senhora:
— Eis aqui Lord Fauntleroy, senhora Mellon — e depois a Cedric: — Lord Fauntleroy, esta é a senhora
Mellon, a governanta do castelo. Cedric estendeu-lhe a mão, olhando-a com seus olhos grandes, belos e vivos:
— Foi a senhora que mandou o gato? Como a senhora é gentil! Muito obrigado!
O rosto simpático da mulher entreabriu-se num sorriso, como a mulher do vigia, quando Cedric lhe
falou; e disse:
— O h! reconheceria V. S . em qualquer parte! Parece-me ver o capitão! S enhor advogado, hoje é
realmente um grande dia.
Q ue queria dizer? I sto Cedric não entendeu e olhou para a senhora Mellon com certa curiosidade: “ela
tinha os olhos cheios de lágrimas”... mas, por quê?
Contudo continuava a sorrir e agora dizia à criança:
— Mandarei para os aposentos de V. S. dois gatinhos que são um amor!
Mas agora o Sr. Havisham perguntava-lhe algo em voz baixa.
— À biblioteca, foi a resposta da senhora Mellon, e acrescentou — Sua senhoria deve ir só.
Foi assim que um imponente camareiro de uniforme acompanhou Cedric até à porta da biblioteca e a
abriu solenemente:
— Lord Fauntleroy, senhor conde.
Era apenas um doméstico, mas entendia que não era um dia como os outros, o dia em que o herdeiro de
um dos maiores patrimônios da I nglaterra era admitido pela primeira vez à presença do velho conde, que lhe
tinha legado tudo. Cedric parou à porta: a sala era magnífica e severa, com enormes estantes de madeira
esculpida, cheias de livros e de tal modo espaçosa, com tapeçarias e cortinas, janelas guarnecidas com lindos
vitrais, que naquela hora do entardecer dava um aspecto ainda mais austero ao ambiente. Cedric pensou que
não havia ninguém na biblioteca, porém, apurando mais os olhos, viu que, junto da chaminé, onde ardia um
grande fogo, havia uma poltrona grandíssima e nesta poltrona, estava mergulhado alguém, que, no primeiro
momento, nem mesmo se voltou para ver quem entrara. Mas houve outro que deu mostra de agitação: um
enorme cão lobo, de pêlo ruivo, que parecia quase um leão, levantando-se do tapete ao pé da poltrona, onde
estava deitado, se dirigiu para Cedric com passo lento.
— Dougal, vem para cá! — ordenou uma voz.
N ão havia perigo de que o pequeno Lord tivesse medo. Com toda a naturalidade, tomou o cão pela
coleira, enquanto D ougal bufava ligeiramente, e entraram juntos na sala da biblioteca. O conde levantou a
cabeça. Cedric viu um velho alto, de cabelos e sobrancelhas brancas, nariz pronunciadamente aquilino, dois
olhos cavados nas órbitas, cintilantes de arrogância. Por sua vez o nobre castelão percebeu uma elegante
figurinha, em veludo negro e colarinho de seda branca, rostinho luminoso e sereno, aureolado de cabelos
louros, dois grandes olhos inocentes, que o olhavam com curiosidade e afeto.
S e o castelo era semelhante a um palácio encantado, Cedric tinha a expressão de um principezinho de
fada, sem o saber. O coração empedernido do velho misantropo sentiu um ímpeto de comoção e de orgulho,
diante daquela bela criança que o olhava calmíssima, continuando a segurar o cão pela coleira. O conde estava
gostando de ver que o seu netinho não tinha medo dele, nem do cão. Cedric aproximou-se da poltrona do avô, e
olhando-o, como teria olhado o vigia e a governanta, disse com sua costumada gentileza:
— O senhor é o conde? Eu sou o seu neto, que vim para a I nglaterra com o S r. Havisham. — S ou Lord
Fauntleroy — e espontaneamente lhe estendeu a mãozinha, convencido de que também os condes deviam fazer
assim. Depois, prosseguiu: — Espero que o senhor esteja bem. Tenho muito prazer em o ver.
O conde apertou a sua mãozinha, com um raio de alegria nos olhos, e ficou de tal modo admirado, que
nem soube o que dizer. Continuava intrigado a olhar aquela figurinha infantil. Finalmente falou:
— Disseste então que sentes prazer em ver-me?
— S im, muito, respondeu Cedric. E olhando à volta descobriu junto da chaminé uma cadeira e se
sentou. Q uase que desaparecia nela e não conseguia tocar os pés no chão. Mas era de tal modo, desembaraçado,
que parecia achar-se perfeitamente à vontade, e continuava a olhar o avô com olhos cheios de interesse.
De repente observou:
— Pensei muitas vezes no aspecto do vovô! Freqüentemente a bordo, quando estava deitado, acordava
dizendo: “Quem sabe se você não se parece com o papai?!”
— E que te parece agora?
— Mas eu era muito pequeno, quando papai morreu, por isso não posso recordar-me bem como ele era.
É talvez por isso, que penso que o senhor não se parece com ele.
— Acho que isso não te agrada.
— O h! N ão! (A pressou-se em protestar gentilmente Cedric). — N aturalmente gostaria que o senhor se
parecesse com o papai, mas o avô, mesmo se não se parece com o papai, agrada da mesma forma. O s parentes
se admiram sempre.
— Completamente desorientado, o velho apoiou a cabeça no espaldar da poltrona. Pensando bem, não
podia dizer que tivesse algum dia admirado os seus parentes. Pelo contrário, passara a vida a litigar com eles
satisfeitíssimo de achar-se longe deles, e de poder dizer mal de todos, todas as vezes que tinha ocasião, com o
belo resultado de fazer-se odiar de todos. Enquanto assim refletia, ouviu o netinho dizer.
— Todo neto deve amar o seu avô, tanto mais quando o avô é tão bom, como o vovô!
— Julgas que sou bom para contigo?
— Se soubesse quanto lhe sou grato por Brígida, pela quitandeira, e por Dick!
O conde de Dorincourt não entendia absolutamente nada!
— Dick, Brígida, a quitandeira!... (De que gente falava o menino?).
— Sim, vovô tentou explicar Cedric. Foi para eles que o senhor deu dinheiro ao Sr. Havisham.
— A h! tu falas daquele dinheiro? D evias gastá-lo como te aprouvesse. O que foi que compraste?
Gostaria de o saber!
Enquanto dizia estas palavras, o velho olhava fixamente o netinho, curioso de saber seus gostos.
— Realmente... — disse Cedric — deveria ter explicado melhor ao vovô. O senhor certamente não
conhece nem o D ick, nem Brígida, nem a quitandeira, a que vende maçã no parque de N ova York: eram todos
meus amigos. Miguel, pobrezinho, estava doente!
— Miguel? E quem é Miguel?
— É o marido de Brígida! Coitadinhos! S ofriam tanto! A liás, se entende! Q uando um homem está
doente e tem dez filhos, sem poder trabalhar, as coisas não correm bem! Mas Miguel é sempre muito
trabalhador, por isso é que Brígida vinha à nossa casa, chorando. E uma tarde, quando estava lá em casa o S r.
Havisham, Brígida chorava ainda mais, porque não tinha nada para dar de comer aos meninos e não podia nem
mesmo pagar o aluguel, o advogado disse-me que o senhor tinha dado tanto dinheiro para mim. Então eu corri
à cozinha e dei logo um bocado de dinheiro a Brígida para que arranjasse tudo, e ela nem mesmo podia
acreditar, de tão contente que estava! É por isso, vovô, que sempre lhe serei grato.
Com voz profunda o conde comentou:
— Isto é uma das coisas que fizeste com o dinheiro, e depois?
A penas Cedric se sentou na poltrona, D ougal enroscou-se aos pés e começou a olhá-lo, como se
entendesse tudo o que dizia, porque D ougal era um cão majestoso e tinha ares de tomar tudo a sério. O conde,
que conhecia a fundo o animal, observava-o com interesse. S abia que não era fácil em fazer amizade e se
surpreendia em vê-lo aceitar tão de boa vontade as carícias do menino.
D e fato, justamente naquele momento, como se tivesse acabado o seu exame, D ougal levantou as patas,
pousou-as sobre os joelhos da criança, que, sem se amedrontar, continuava a sua narrativa:
— D epois havia D ick, que eu desejava socorrer. Estou certo de que o senhor gostaria dele! D ick é tão
reto.
— Reto? Que significa isto?
Cedric hesitou um momento. Realmente não sabia bem o que significava aquele termo, só pensava que
fazia um elogio a seu amigo, porque Dick o empregava muitas vezes. Decidiu-se:
— Eu creio que se diz de uma pessoa que não engana nunca a ninguém, nem bate nas crianças e engraxa
os sapatos do povo, o mais conscienciosamente que pode. Certamente, porque Dick é engraxate de primeira.
— E era um de teus amigos? perguntou o Conde.
— Era, sim, um dos meus velhos amigos! N ão tão velho como o S r. Hobbs, mas quase... Q uando parti,
foi a bordo despedir-se e levar-me uma lembrança.
Tirou do bolso um objeto vermelho, cuidadosamente embrulhado, e mostrou ao avô com orgulho: era
um lenço vermelho, com cabeças de cavalo e ferradura.
— Ele deu-me de lembrança, explicou Cedric, e eu o conservarei sempre. S erve para pôr no pescoço, mas
se pode também usar no bolso. I magine que comprou este lenço com o primeiro dinheiro que ganhou, depois
que eu o separei de J ake, que era sócio de D ick, e comprei para meu amigo muitas escovas novas e uma placa. E
ele, como agradecimento e como lembrança, me deu este lenço! Q uando o vejo, sempre penso em D ick, como o
S r. Hobbs sempre pensa em mim, quando lê o que mandei escrever no relógio que lhe dei: “Q uando olhares
para este relógio, pensa sempre em mim”.
O ilustríssimo senhor conde de D orincourt estava absolutamente estupefato e não entendia nada do que
ouvia. Ele, um homem “lido e corrido” que conhecia bem o mundo! Mas, desta vez, tratava-se de algo tão
diferente, que não sabia o que fazer.
N unca tivera muita simpatia por crianças, e de resto tinha muito que fazer em cuidar de si próprio, para
lhe sobrar tempo a fim de se ocupar de meninos. Aliás seus filhos tinham-no deixado frio e indiferente.
O que poderia saber aquele velho rústico dos tesouros de ternura escondidos na alma inocente de uma
criança? Para ele as crianças eram pequenos animais aborrecidos, que era necessário ter em freio para que não
incomodassem com as suas trampolinas barulhentas.
Q uando resolveu mandar vir da A mérica seu netinho, não lhe passara nem por sonho pela mente, poder
afeiçoar-se a ele. S e o queria no castelo, era só por orgulho do nome de sua casa, que não podia sofrer que o seu
herdeiro fosse mal-educado e o desonrasse o nome dos Dorincourt.
Estava de tal modo convencido que ia encontrar-se diante de uma criança traquinas e sem criação, que
evitaria contemplá-lo de frente, quando Lord Fauntleroy entrou na biblioteca, sozinho, como o conde lhe
dissera, justamente porque não queria que nenhum estranho fosse testemunha do desapontamento que ele
deixaria transparecer no rosto, ao encontrar-se face à face com aquele menino desconhecido, vindo da América.
Mas como tinha acontecido tudo ao contrário! E que aperto de coração, naquele velho coração apesar de
não estar de todo endurecido, sentira o conde de D orincourt, vendo dirigir-se para ele, calmo, sereno, com as
mãozinhas no pescoço do grande cão, que já se fizera seu amigo, um menino louro, belíssimo.
N unca pensara, nem mesmo nas suas raras horas de otimismo, que teria um herdeiro tão encantador! E
as surpresas continuavam... era tão simpática a sua conversa infantil!
E o conde estava estranhando que, apesar de inspirar a todos sujeição e temor, não incutira a mínima
timidez no seu netinho! Realmente Cedric não sabia o que fosse acanhamento ou medo. N ão por retraimento
natural, mas porque ignorava que houvesse motivo de temor e, tratando o avô com toda a espontaneidade,
como amigo, não duvidava um segundo que não lhe correspondia.
É claro que aquela criança sentada na poltrona, discorrendo com a maior serenidade, nunca teria
suposto que aquele ancião de aspecto tão grave sem a mínima atração, que estava diante de si examinando-o,
não sentisse prazer em vê-lo, e não fosse tão gentil, como ele.
D a sua parte, fazia o possível para conquistar-lhe as simpatias e confiava que estava dulcificando a alma
amargurada do conde, acostumado a ser misantropo e intratável.
Experimentava sempre grande satisfação em ver-se defronte de alguém que o contemplava amavelmente
com confiança e serenidade, fosse embora uma pessoa de mau caráter. S im, era alguma coisa que lhe dava
prazer, mesmo se, afinal de contas, não se tratava senão de uma criança. A ssim, levado por aquela nova
sensação que lhe dava um não sei quê de indizível alegria, o velho conde mergulhou mais ainda na sua poltrona
e, continuando a fixar os olhos do netinho, com estranha luz nas pupilas o encorajou a continuar a discorrer.
Lord Fauntleroy se distendeu a falar sobre D ick e J ake, sobre a verdureira que sofria de reumatismo, sobre o S r.
Hobbs, e descreveu ao avô as festas com tochas e fogos de artifício os cortejos e as passeatas de N ova York por
ocasião da comemoração da República e chegou finalmente ao tema que mais o apaixonava: a Revolução. Mas
calou-se abruptamente.
— Por que não continuas? perguntou-lhe o avô. Lord Fauntleroy hesitou um momento antes de
responder e depois confessou:
— D esculpe-me... N ão havia pensado que podia desagradar-lhe o que estava dizendo.. Esquecera de que
o senhor é inglês e que talvez houvesse alguém de sua família na guerra.
— Não! Não havia nenhum dos meus... mas parece que te esqueces de que és também inglês.
— Eu, não! exclamou Cedric. — Eu sou americano! O conde então rebateu. És inglês como teu pai!
Cedric nunca pensara nisso. Corou até a raiz dos cabelos, mas não se deu por vencido.
— Nasci na América, declarou, e quem nasce na América é por força americano.
Pareceu arrepender-se de seu tom resoluto e acrescentou.
— Perdão, se o contradigo, mas me recordo de que o S r. Hobbs me disse uma vez, que se devesse haver
outra guerra, eu... deveria estar ao lado dos americanos.
O conde deu uma risadinha seca.
— Deveras?
N ão podia sofrer nem a A mérica, nem os americanos, mas o tom de absoluta convicção do pequeno
patriota, o divertia e fazia pensar que afinal de contas um americano tão bom podia vir a ser um inglês...
Razoável.
Tratavam ainda daquele assunto, quando vieram anunciar que o jantar estava na mesa. Lord Fauntleroy
levantou-se e aproximando-se do conde, notou seu pé envolto em faixas.
— O senhor quer que eu o ajude? — perguntou com gentileza. Q uer apoiar-se em mim? O S r. Hobbs
fazia sempre assim, quando lhe caíam em cima as caixas de batatas.
A lguém naquele momento correu o risco de perder toda a sua reputação: era o empertigado mordomo,
que tinha, para sua glória, todo um passado de serviço impecável prestados nas casas mais aristocráticas da
I nglaterra, e nunca tinha esboçado um sorriso, convencido como estava de que seria uma descortesia digna dos
mais vulgares servos. Teve que fixar os olhos num quadro pouco interessante que pendia da parede, por trás
dos ombros do conde, para impedir seus lábios de se contraírem num sorriso indiscreto. Entretanto o velho
conde, depois de ter medido da cabeça aos pés aquele homenzinho que lhe oferecia a sua ajuda, interpelou-o
bruscamente:
— Pensas mesmo que podes ajudar-me?
— O h! sim, posso! S ou forte e já tenho sete anos! Penso que o senhor faria muito bem, em se apoiar de
um lado ao seu bastão, e do outro ao meu ombro. D ick dizia sempre que eu tinha bons músculos para sete
anos. E levantou o braço, apertando o punho para fazer ressaltar aqueles músculos que o engraxate, na sua
bondade, achara hercúleos. Estava com o rosto tão sério, que o mordomo teve de desviar novamente os olhos da
criança e fixá-lo no retrato pela segunda vez.
— Então, experimente, disse o conde.
Cedric ofereceu-lhe o bastão e quis ajudá-lo a levantar-se da poltrona. Esta tarefa tocava ao criado, que,
todas as vezes que S ua S enhoria sofria daquela nova dor no pé doente, ouvia algum epíteto pouco lisonjeiro. A
gentileza não era o forte do conde de D orincourt, e, por vezes, tinha certos modos rudes que fazia tremer como
varas verdes os criados, mesmo engalanados nos seus esplêndidos uniformes. Mas naquela tarde, apesar de se
terem repetido as crises, não se ouviu uma imprecação sequer. O conde estava demasiado absorto naquela
experiência original. Levantou-se lentamente e pôs a mão sobre o ombro que lhe foi oferecido.
— A póie-se, disse confiante em si mesmo o pequeno Lord, que se aproximara com precaução, temendo
ferir o pé doente. Irei devagar.
É claro que se o conde tivesse sido ajudado, como de costume, pelo seu servo, teria pesado muito sobre
o seu braço que sobre o bastão. Todavia, fazia parte da experiência fazer que o netinho sentisse um peso que
não fosse lá muito leve. A ntes, devia ser notável, porque, dados somente alguns passos, Cedric ficou com o
rosto afogueado e sentiu o seu coraçãozinho bater apressado. Mas continuava a resistir. N ão tinha D ick
elogiado os seus músculos? Contudo, murmurava com a vozinha um pouco cansada: pode apoiar-se, está muito
bem, se o caminho não é... muito longe...
Realmente não era, mas pareceu a Cedric muito longe a sala de jantar e longe a poltrona posta à
cabeceira da mesa. A cada passo, parecia-lhe que a mão sobre o ombro pesasse mais e a fronte se lhe orvalhava
de pérolas de suor e a respiração se lhe tornava difícil, mas nem por longe lhe passava pelo pensamento dar-se
por vencido. Enrijava os músculos e levantava a cabeça, continuando a encorajar o avô:
— Pode apoiar-se... pode... O pé lhe dói muito? O senhor nunca o pôs em água quente com um pouco de
mostarda, como fazia o Sr. Hobbs? Mas ouvi também dizer que arnica nestes casos faz bem.
Atrás dele, vinha, com passos lentos, o cão. Q uanto ao criado, estava boquiaberto, notando o esforço da
criança para resistir àquele peso, que lhe devia ser demasiado.
D e quando em quando, o conde olhava também para o rostinho enrubescido de Cedric. Finalmente
chegaram à sala de jantar, que pareceu a Cedric vastíssima e imponente. D a mesma maneira imponente lhe
parecia o segundo servo que estava em pé atrás da poltrona do conde, arregalando os olhos àquele espetáculo O
conde ergueu a mão do ombro da criança e sentou-se. Cedric tirou do bolso o lencinho que lhe dera D ick e
passou-o na fronte.
— Faz calor esta tarde, não lhe parece? — disse. — talvez o senhor precise de aquecer o seu pé doente...
mas eu acho que aqui dentro faz um calor tremendo.
N a sua delicadeza, procurava agradar em tudo ao avô. Por isso, não dizia que achava nada desagradável,
como, por exemplo, queixando-se daquele calor excessivo.
— Penso que te cansaste, observou o conde.
— N ão, não me cansei, só senti um pouco de calor. A liás, estamos no verão... — e continuava a passar o
lenço no rostinho banhado de suor.
O lugar de Cedric era na cabeceira da mesa defronte do avô, e devia sentar-se numa poltrona certamente
destinada a personagens de maior estatura e corpulência que a sua. D e resto, tudo quanto a criança tinha visto
até àquele momento: salas, móveis, o cão, os criados, empertigados, o próprio conde, era de proporções tão
notáveis que fazia ressaltar a sua pequenez! Mas Cedric não se perturbava com nada disso. Considerava-se
sempre pequeno e pouco importante e disposto a se adaptar em qualquer lugar. Era o que fazia de boa vontade
agora. Mas não devia ter parecido tão pequeno como naquela poltrona na outra cabeceira da mesa.
Bem que amante da solidão, o conde de D orincourt nem por isso gostava menos do fausto e do
esplendor: amava um bom prato e tinha sempre diante de si uma mesa lautamente preparada. A os olhos de
Cedric, que, pela primeira vez, via uma mesa daquele gênero; os cristais e as pratas das baixelas despediam
raios ofuscantes. O quadro era realmente um tanto bizarro, de modo a fazer rir a quem não estivesse
acostumado ao ambiente: um” sala amplíssima, servos em trajes de gala, profusão de luzes, serviço
cerimonioso, na cabeceira da mesa um velho aristocrático, rígido e orgulhoso, diante de uma criança vestida de
veludo escuro, com uma golinha de renda branca e cachos louros, que lhe caíam sobre os ombros.
N ão era coisa de brincadeira um jantar para o conde, sobretudo para o cozinheiro, tanto mais quando
S ua S enhoria estava de mau humor ou perdia o apetite. Mas naquela noite as coisas andaram de outra maneira,
talvez por que havia algo que fazia esquecer ao conde criticar com azedume a salada o ou preparo da carne.
N unca teria acreditado que pudesse interessar-se pela conversa de uma criança. Contudo foi o que aconteceu!
O pequeno Lord divertia-o e deixava-o estupefato.
De chofre Cedric saiu-se com esta pergunta:
— Mas o senhor não traz sempre a coroa?
— Não, não gosto muito, respondeu o conde, mordendo os lábios para não sorrir.
O S r. Hobbs pensava que o senhor a trazia sempre, mas depois, refletindo melhor, disse que algumas
vezes devia trazê-la... quando o senhor põe o chapéu.
— Justamente! Às vezes, eu a uso.
Um dos criados levou a mão à boca para sufocar um acesso de tosse. Cedric acabou de jantar e,
apoiando-se no espaldar da poltrona, olhou em derredor.
-— Realmente a casa do vovô é uma maravilha! Certamente o senhor se sente orgulhoso aqui dentro, eu
nunca vi uma casa assim. Aliás, tenho somente sete anos e ainda não vi muitas coisas.
— Parece-te mesmo que eu deva sentir orgulho de minha casa? disse o conde.
— Todos teriam orgulho dela, e eu seria o primeiro se ela fosse minha — declarou Cedric.
— É tão bonito tudo o que há aqui! A casa, o parque, as árvores, as flores... — Calou-se um instante e
olhou para o avô, um pouco admirado, quase perplexo, mas não é uma casa um pouco grande para duas
pessoas somente?
— Parece-te?
Lord Fauntleroy hesitou um instante, depois acrescentou:
— D uas pessoas que não fizessem boa companhia uma à outra numa casa tão grande, talvez pudessem
sentir-se muito sozinhas.
— Mas não acreditas que eu poderei ser uma boa companhia ?
— O h! sim! O S r. Hobbs e eu éramos ótimos amigos, os dois. A ntes, era ele o meu melhor amigo, a não
ser “Fátina”, se entende.
Franzindo as sobrancelhas, o conde perguntou:
— Quem é “Fátina”?
— É mamãe, respondeu Cedric em voz baixa. Talvez se sentisse um pouco cansado. A liás, era tarde e
naqueles dias tinha passado tantas emoções, mas certamente à fadiga se unia um pouco de tristeza: naquela
noite, não adormeceria sob os olhares amorosos de sua adorada “Fátina”, a sua maior amiga. O h! se pensava
nela, passava toda a vontade de conversar! Mas fizera muita força de maneira a não ceder à tristeza e, ao
voltarem à biblioteca, a mão do avô se apoiou ainda ao ombro do afetuoso netinho, um pouco mais levemente,
porém, enquanto do outro lado o sustentava um criado.
Cedric sentou-se diante da chaminé acariciando D ougal, que se tinha deitado a seus pés olhando
fixamente para os tições em brasa. Suspirou levemente.
O conde notou que estava um tanto triste e perguntou-lhe:
— Em que pensas tu pequeno, Lord Fauntleroy esforçou-se por sorrir, enquanto respondia:
— Penso em “Fátina”. Talvez é melhor que me levante e passeie um pouco pela sala. E de fato, com as
mãozinhas no bolso, começou a andar de um lado para outro na biblioteca. D e cabeça erguida e passo firme,
mas em seus olhos havia uma nuvem de tristeza, enquanto conservava os lábios obstinamente cerrados. Dougal
levantou-se e começou a segui-lo. Cedric fez-lhe uma carícia.
— É bom, — disse — quer me bem e sabe o que eu sinto neste momento.
— O que é que tu sentes? — O conde sentia-se algo perturbado pela luta evidente da criança contra a
saudade que sentia pela primeira vez, mas admirava os esforços do pequeno Lord para dominar-se.
Aproximando-se do avô, confessou:
— N unca estive fora de minha casa! — E seus olhos ficaram mais tristes e parece-me coisa muito difícil
passar a noite num castelo onde nunca estive. Felizmente “Fátina” não está longe e me disse que pensasse
sempre nela... e eu já sou grande: tenho sete anos. A liás, posso olhar o seu retrato... — Tirou do bolso um
pequeno estojo de veludo.
— Olhe aqui! Basta apertar o botão, ele se abre e aparece o rosto de “Fátina”!
No ato de abri-lo estava apoiado no braço da poltrona e no braço do conde com toda a naturalidade.
— O lhe aqui mamãe! — disse sorrindo. O conde franziu a testa. N ão desejava ver aquele retrato, mas
não podia deixar de contemplá-lo: viu, pois, um rostinho feminino, jovem e suave e de tal modo semelhante à
fisionomia da criança, que se sentiu desconcertado.
— Tu lhe queres muito bem?— O h! sim, quero! — disse com entusiasmo o pequenino. Veja: o S r. Hobbs
era meu amigo e também D ick e Brígida e Miguel e Mary, mas “Fátina” é minha amiga, mais amiga que todos, e
nós nos dizemos sempre tudo... Papai me confiou a ela e, quando eu for grande, trabalharei e procurarei ganhar
muito dinheiro para ela;
— E que pensas poderás fazer?
Cedric sentou-se no tapete, tendo o retrato nas mãos, refletiu um momento e depois respondeu:
— Pensei muito a sério entrar em sociedade com o Sr. Hobbs. Mas gostaria mais de ser Presidente.
— E agora te mandam para Câmara dos Lords!
— Bem, se não posso ser Presidente, e se trata de um bom negócio, eu aceito, porque, realmente, ser
quitandeiro não rende muito.
S ilenciou e continuou a olhar fixamente o fogo, mas provavelmente a questão de seu futuro fazia ainda
refletir. O conde também permanecia em silêncio, continuando a contemplar o netinho. Q ue multidão de
pensamentos estranhos e esquisitos naquela cabecinha! D ougal adormecera apoiado sobre as patas. Q uando
mais tarde o S r. Havisham foi introduzido na biblioteca, reinava o mais profundo silêncio. O conde imóvel na
sua poltrona, notando a chegada do advogado, levantou a mão quase involuntariamente para lhe pedir que não
fizesse o menor rumor. D ougal não despertara e junto dele, com a cabecinha loura apoiada ao braço jazia
adormecido Lord Fauntleroy.
VI

O CONDE E O NETINHO

Q uando, na manhã seguinte, Cedric abriu os olhos, — na noite anterior tinham-no levado a dormir sem
que se apercebesse — notou o crepitar alegre das labaredas na chaminé e um murmúrio de vozes perto dele,
mas de tal modo baixo, que não dava para distinguir as palavras. Eram duas mulheres que falavam entre si, e
diziam uma à outra:
— Cuidado! D awson... é preciso que o menino não venha a saber por que ela não pode morar aqui.A
resposta foi:
— A s ordens de S ua S enhoria devem ser observadas, já se entende. Mas se tu me permites, visto que
entre nós se pode falar, devo dizer-te que me parece uma crueldade separar a pobre mãe de seu filhinho! Uma
criança tão bela e tão bem-educada! O ntem à noite, durante a ceia, Tiago e Tomás diziam que nem eles dois,
nem nenhum dos outros criados tinham visto nunca uma pessoa com os bons modos daquele senhorzinho, tão
simples e tão desembaraçado, como se estivesse sentado à mesa com o seu maior amigo, quando estava com
S ua S enhoria! Tem o caráter de um anjo, justamente o contrário daquilo que todos conhecem e que, desculpa
que te diga, às vezes, faz gelar o sangue nas veias. Como é encantador! O ntem, à tarde, quando eu e Tiago
fomos chamados à biblioteca para ir buscá-lo para dormir, e Tiago o tomou nos braços, com aquele rostinho
corado e aqueles cabelinhos louros caídos sobre os ombros, era um amorzinho! Comovia a gente! D eve ter
causado impressão mesmo ao conde, porque o contemplava... o contemplava de um modo... E depois disse a
Tiago:
— Cuidado para não o acordar!
N este ponto, Cedric mexeu-se entre os lençóis e abriu resolutamente os olhos. Havia duas senhoras no
quarto, atapetado ricamente e adornado com flores, e uma chaminé acesa, apesar de estar inundado de sol.
Lord Fauntleroy reconheceu a senhora Mellon, a governanta. A outra era uma mulher de meia idade, de aspecto
agradável e simpático.
— Bom dia, senhorzinho! — disse a senhora Mellon. — Dormiu bem?
Cedric esfregou os olhos e sorriu.
— Bom dia, respondeu gentilmente. — Como é que estou aqui?
— Trouxeram-no para a cama adormecido, ontem, à noite — explicou a governanta.
— V. S. está no seu quarto e Dawson cuidará para que nada lhe falte.
Levantou-se para sentar-se na cama, estendendo a mão a D awson com o mesmo garbo com que a
oferecia ao conde.
— Bom dia, repetiu. — Como está a senhora? É muito gentil por querer ocupar-se de mim.
A governanta sorriu.
— Chame-a antes, Dawson, senhorzinho.
— Senhora ou senhorita Dawson?
— Dawson somente — replicou a doméstica com as faces vermelhas de emoção.
— Chame-me assim, senhorzinho, e Deus o abençoe pela sua almazinha tão boa! Quer levantar-se agora,
e quer que o vista? O café está pronto!
— N ão, senhora! S ei vestir-me sozinho! Há tanto tempo que aprendi! protestou Cedric. — Ensinou-me
Fátina. É mamãe, como a senhora sabe, Mary tinha sempre tanto que fazer em casa, porque se ocupava de tudo,
ela sozinha, e lavava a roupa, e por isso não quero ser de incômodo. Também sei tomar banho sozinho.
A senhora Mellon trocou um olhar com Dawson e depois anuiu:
— Faremos tudo o que deseja V. S enhoria. Pode vestir-se, se assim o deseja, mas eu estarei aqui para
ajudá-lo, se tiver necessidade.
— O brigado, respondeu Cedric. — Às vezes não sou capaz de abotoar-me e então preciso de alguém que
me ajude.
A ntes que Lord Fauntleroy tivesse acabado de vestir-se, já era velho amigo de D awson e já sabia toda a
sua história. D awson perdera o marido na guerra, tinha um filho marinheiro, que havia navegado em todos os
mares, e conhecia os piratas, os canibais, os turcos, os chineses e, todas às vezes que voltava a casa, trazia lindas
conchas, e corais que D awson conservava na mala e mostrava às suas visitas. Cedric soube também que
Dawson tinha sido aia por muitos anos no castelo, onde educara uma linda menina. Lady Hwyneth Vaughan.
— É ainda parente de V. S. — disse a boa senhora a Lord Fauntleroy. E V. S. a conhecerá logo.
— Mesmo? — exclamou Cedric. — Q ue alegria para mim! Gosto muito de meninas, apesar de nunca as
ter tido por amigas.
Entrando no quarto contíguo para o café, e notando que era muito grande e que tinha ao lado outro
ainda muito maior, Cedric sentiu-se de novo tão pequenino, que não pôde deixar de confiar esta sua impressão
a Dawson, enquanto tomava lugar à mesa, diante do opíparo café que lhe fora preparado.
Com certo ar de melancolia, confessou: —N ão acha que sou um menino muito pequeno para morar num
castelo tão grande e ter tantos quartos todos para mim?
— Oh! respondeu Dawson — V. S. se acostumará logo e estará à vontade. É tudo tão bonito aqui!
— S im, é tudo muito bonito, — e Cedric suspirou — mas gostaria muito mais, se Fátina estivesse
comigo! Eu sempre tomava café com ela, e era eu que punha o leite e o açúcar na xícara e lhe preparava o pão
com manteiga. Fazíamos tão boa companhia um ao outro!
— Mas V. S . pode vê-la todos os dias! E quantas coisas bonitas pode V. S . contar-lhe! Bastará que dê uma
voltinha e veja os cães, as cavalariças, com cavalos tão belos! E há um cavalinho que lhe agradará mais que
todos os outros:
— S im, eu gosto muito de cavalos! Q ueria tanto bem a J im, o cavalo que puxava a carroça do S r. Hobbs!
A senhora devia ver como era brioso e como não tropeçava!
— Espere só para ver aquele que está na estrebaria... e ainda V. S . não entrou no quarto aqui do lado,
amorzinho!
— O que há lá?
— Acabe V. S. de tomar café, e já verá tudo!
D awson despertara tanto a curiosidade de Cedric com aquelas palavras, que ele apressara o café: quem
sabe o que há naquele quarto? Dawson tinha uns ares tão misteriosos!
Levantou-se. — Acabei, disse. — Posso ir agora?
D awson consentiu e, sorrindo sempre com mistério acompanhou o pequeno Lord até à porta: depois
abriu-a. O menino parou à soleira e olhou para dentro. N ão disse uma palavra, mas estava radiante, seus olhos
brilhavam e, com seu gesto habitual, pôs as mãos nos bolsos. Realmente qualquer criança se impressionaria
diante de tudo o que estava exposto no quarto misterioso. Era grande, como todos os quartos do castelo, mas a
Cedric pareceu o mais belo de todos: os móveis não eram antigos, nem maciços, e as tapeçarias não eram
pesadas. Tudo era claro e alegre. Havia estantes de livros bem alinhados em prateleiras e mesas cheias de
brinquedos bonitos, daqueles que parará tantas vezes para admirar nas vitrinas de Nova York. Finalmente disse
alguma coisa.
— Mas este é o quarto de um menino? E de quem são tantas coisas?
— São de V. S. — respondeu Dawson.
Então Cedric exclamou:
— Minhas! Minhas! Mas por que são minhas? E quem mas deu? Correu em seguida a ver de perto os
brinquedos com ar de quem teme seja somente um sonho aquilo que vê, e exclamou com os olhos a brilhar de
alegria:
— Sim, foi o vovô! Foi o vovô!
— S im, foi mesmo V.S . — confirmou D awson, e se fores bom menino e gostares de estar aqui, o vovô te
dará tudo o que quiseres.
A manhã foi cheia de interesse, de curiosidade e de surpresas para Cedric. Tudo que havia no quarto o
atraía de tal modo, que parecia não se cansar de contemplar tanta beleza. Era um deslumbramento contínuo,
uma alegria que se renovava a cada minuto. E como era estranho pensar que todas aquelas maravilhas foram
preparadas de propósito para ele, quando estava ainda na América.
Voltou-se para Dawson:
— Tu crês que é possível existir no mundo um avô tão bom como o meu?
A criada ficou perplexa: não estava no castelo senão há poucos dias, mas já todos a tinham informado
sobre o mau caráter do conde, cujo primeiro mordomo, Tomás, dizia que era o homem mais rabugento e
colérico que conhecera. Foi Tomás quem contou a D awson tudo o que ouvira dizer ao conde, falando com o
advogado Havisham:
— Bastará dar-lhe muitos brinquedos, muitos jogos, ensinar-lhe a ler e fazer todas as suas vontades,
para que se esqueça de sua mãe. Mas inconsciente de tudo aquilo, Cedric passou uma manhã deliciosa,
enquanto o conde despertara de péssimo humor. Mandou chamar o netinho, e logo depois do café, o viu
atravessar o vestíbulo correndo. Quando chegou à sua presença, tinha o rostinho transfigurado de alegria.
— Estava esperando a hora em que o senhor me mandasse chamar! — disse. — Estou pronto desde
manhãzinha. A gradeço-lhe, vovô, todas aquelas coisas bonitas que o senhor preparou para mim. Brinquei a
manhã toda!
— E te divertiste muito?
— O ra, o senhor nem pode imaginar! Calcule que há um jogo que é como futebol de botão, que se joga
num tabuleirozinho com muitos jogadores de branco e preto, e os pontos se marcam com umas contas enfiadas
num arame. Procurei ensiná-lo a D awson, mas talvez não conseguisse ensinar-lhe muito bem... A liás ela é
mulher e nunca deve ter jogado futebol. O senhor, sim, mas...
— Creio que não, replicou o conde — mas penso que aquele jogo de que gostas tanto deve ser
americano.
— O S r. Hobbs me levou muitas vezes ao futebol. Como é divertido! S e fosse buscar minha caixa para
jogar com o senhor?! Pode ser que lhe agrade e faça esquecer um pouco o seu pé... esta manhã, como vai? Está
doendo?
— Ora, se... muito mais do que eu desejava!
— E o senhor não se aborreceria, se eu lhe explicasse aquele jogo?
— Não. Vai buscá-lo!
Pensava no entanto que era algo fora do comum o que lhe sucedia. Em vez de sentir-se aborrecido,
estava sendo arrastado por aquela novidade: uma criança que queria ensinar-lhe um de seus jogos! Havia
alguma coisa como um sorriso naqueles lábios, que, no passado, foram sempre amargos, quando Cedric entrou
com a caixa de jogos.
— Posso aproximar a mesinha da poltrona do vovô? — perguntou.
— Chama Tomás.
— Oh! não é necessário! Eu mesmo posso puxá-la. Não é pesada!
— Então, vejamos!
O lhando de soslaio a criança toda embebida nos seus preparativos, o velho conde sorria, satisfeito.
Cedric conseguiu arrastar a mesinha para perto da poltrona do avô e começou a explicar-lhe o jogo:
— É muito interessante! Vamos fazer assim: o senhor toma os jogadores de preto e eu os de branco.
D evemos considerá-los seriamente como homens e fazê-los meter muitos gols. Estes são os limites dos quais a
bola não deve sair, e estes são os pontos dos quais se pode tirar as penalidades.
Com grande vivacidade explicou longamente os detalhes e a tarefa que tocava a cada jogador,
recordando uma partida interessante, a que tinha assistido em companhia do S r. Hobbs. A cabadas as
explicações e as descrições, começou o jogo verdadeiro e o interesse do conde aumentou em vez de diminuir,
porque o menino jogava com tanta paixão, e era tão parcial a respeito de um bom golpe do adversário, que já
era um divertimento vê-lo jogando! S e oito dias antes, alguém tomasse a liberdade de dizer ao conde de
D orincourt que, em certa manhã, não teria pensado na gota, nem no seu constante mau humor, por causa de
uma brincadeira de criança, (futebol de botão) teria recebido uma boa resposta! Contudo era mesmo assim: o
velho senhor sentia tanto prazer em jogar com aquele menino encantador, que tinha como rival na partida, que
parecia caíra das nuvens, quando Tomás lhe veio anunciar uma visita.
Era o pároco da aldeia. Um ancião todo vestido de preto, que, vendo aquele espetáculo, ficou de tal
modo estupefato, que por pouco não recuou, arriscando-se a cair por cima de Tomás. O Reverendo não viera
realmente para visitar o conde com muito entusiasmo, pois considerava aquelas visitas de obrigação ao nobre
castelão como um dos deveres menos simpáticos do seu ofício e isto porque era justamente o nobre que
tornava as visitas mais penosas. D e fato, o conde de D orincourt era conhecido pela sua antipatia à I greja em
geral e às obras de caridade em particular. S e, pois, alguns de seus súditos se permitiam ir pedir-lhe um auxílio
para uma causa de beneficência ou para aliviar algum doente, ou algum infeliz, era acolhido com a maior
indiferença, especialmente, se chegava num daqueles dias nos quais estava atormentado de gota. S e não se
sentia muito mal ao pedido do padre pelos seus pobres paroquianos, o conde respondia, dando uma pequena
soma de dinheiro, fazendo-o antes sofrer por todos os modos, investindo contra os seus subordinados,
chamando-os estúpidos e vagabundos. E parecia ter um gostinho especial em ser de tal modo insolente e
sarcástico, que o Rev. P. Mordaunt estava convencido de que era realmente lamentável o resultado de quem
tentasse incutir na alma do Exmo. Sr. Conde algum sentimento de compaixão para com os miseráveis...
N aquele dia o digno pároco viera falar ao velho de um caso doloroso e durante o caminho estava
preocupado com o resultado da visita. S abia que desde vários dias o conde não se sentia bem e estava tão
irritadiço, que dera que falar no povoado, como lhe dissera uma das criadas, à sua irmã, a senhora D ibbles,
proprietária de uma mercearia, onde se vendiam comestíveis, doces, vinhos, etc, e onde se falava sobre tudo e
sobre todos.
S oubera-se no vilarejo que o único herdeiro do conde deveria ter chegado ao castelo, na tarde anterior,
esperado sem amor nem alegria, porque S ua S enhoria, antes mesmo de o ter visto, estava convencido de que
não passava de um garoto mal-educado, indigno do seu nome. O reverendo prometia-se que na realidade, havia
ao menos dez probabilidades contra uma, de que as previsões do conde tinham fundamento, e vinte contra
uma que, irritado, por aquela nova peça que a vida lhe pregara, estivesse de péssimo humor, a ponto de
derramar a sua bílis sobre o primeiro infeliz que lhe estivesse ao alcance, e no caso presente, era o próprio
Padre Mordaunt em pessoa. É para imaginar-se o estupor do reverendo, quando, apenas Tomás abrira a porta
da biblioteca, chegou aos seus ouvidos uma risadinha infantil, seguida desta exclamação: “D uas penalidades! O
senhor não vê que está fora da linha de novo?”
O lhando para dentro da sala, o pároco viu o conde na poltrona com o pé enfaixado sobre o escabelo e
diante dele uma mesinha onde havia alguma coisa que atraía atenção de uma criança, porque estava curvada
com toda a concentração, enquanto se apoiava no joelho sadio do conde, repetindo: D uas penalidades! O
senhor não teve sorte desta vez.
Q uando o conde levantou os olhos parecia menos aborrecido que de ordinário. S audou-o, sim, com a
mesma voz áspera das outras vezes, mas lhe estendeu a mão com bastante gentileza:
— Bom dia, P. Mordaunt... como está vendo, ocupo-me hoje de algo novo... — apoiou depois a mão nos
ombros de Cedric e talvez sentisse no coração um frêmito de orgulho por aquele herdeiro que podia apresentar:
— É o novo Lord Fauntleroy! — disse. Em seguida, voltando-se à criança, acrescentou: — Fauntleroy
apresento-te o P. Mordaunt, o nosso Vigário.
Cedric estendeu a mão com sua graça habitual ao recém-chegado:
— Muito prazer, Padre — disse recordando a maneira como o S r. Hobbs acolhia os seus fregueses de
consideração.
O pároco tomou por um instante as mãozinhas da criança entre as suas e, com um sorriso acolhedor,
contemplou-a. O pequeno Lord conquistou logo a simpatia do padre, como aliás conquistava a de toda a gente,
não somente pela sua beleza mas pela sua bondade espontânea que se sentia em cada palavra, mesmo se
algumas vezes poderia ser esquisita. O lhando para Cedric o P. Mordaunt, esqueceu-se do conde e parecia-lhe
que a imensa biblioteca estava iluminada e vivificada por uma luz singular.
— A legro-me em vê-lo aqui, Lord Fauntleroy —-disse voltando-se para o pequeno — sei que V. S . fez
uma grande viagem para vir até nós, e todos nós alegramos com a sua chegada.
— O h! sim, a viagem foi um pouco longa — respondeu Cedric — mas como eu estava com Fátina, minha
mãe, nem mesmo notei, porque quando se está perto da mamãe, se está sempre bem, e além disso o navio era
muito bonito.
Convidado pelo conde, o Padre sentou-se, e olhando ora o conde, ora a criança, disse com grande
cordialidade:
— Regozijo-me de coração com V. S.!
Parece que o velho não queria saber de comentário, porquanto atalhou logo, dizendo bruscamente:
— Assemelha-se ao pai. Esperemos que seja mais bem sucedido na vida!
Houve uma pausa e em seguida o conde perguntou:
— Então, que há de novo? Tem alguns casos para me contar? Ou pobres para socorrer?
Realmente o pároco esperava pior acolhida, mas não pôde deixar de ter uma ligeira dúvida e hesitação,
antes de começar o seu discurso.
— Vim aqui para falar a V. S . de Higgins, o empregado da fazenda do “Cantão”. Pobrezinho! Esteve
doente durante todo o outono e agora seus filhos estão com escarlatina. N ão digo que tenha grandes
habilidades, mas certamente a desgraça o persegue e não consegue jamais livrar-se dela, agora está muito
atrasado no aluguel, e N evick lhe disse que, se não arranjar o dinheiro, o porá na rua. S eria um caso muito sério
para ele. Imagine que tem também a mulher doente. Ontem veio ter comigo para pedir que intercedesse por ele
junto a V. S ., está certo de que, se receber um bom óbolo, poderá pagar o seu débito pouco a pouco, e satisfazer
às suas necessidades...
— O ra, todos dizem a mesma coisa! — E o conde mostrou uma cara de fria indiferença. Cedric deu um
passo adiante, postando-se entre o avô e o visitante, escutando as suas palavras com atenção: as desgraças de
Higgins lhe interessaram logo. Q ueria saber quantos filhos tinha e se caíram mesmo de cama gravemente, com
escarlatina. D e olhos fixos no P. Mordaunt, começou a defender o seu pobrezinho: Higgins é uma boa criatura,
o senhor sabe.
— Higgins é homem bom, mas como inquilino é péssimo, não está em dia nem um mês. N evick está
sempre a me dizer — rebateu,o velho senhor.
O fato é que as coisas lhe vão mal, sobretudo no momento. E se tivesse de sair agora do sítio, iria morrer
de fome com a mulher e os filhos. Atualmente já luta com tanta dificuldade, ademais agora que dois dos
pequenos ficaram tão fraquinhos e têm necessidade, como diz o médico, de beberem um pouco de vinho e de
se alimentar melhor.
Cedric interrompeu a conversa:
— Justamente como Miguel! — exclamou.
— A h! esquecia-me que tínhamos em casa um filantropo! — I nterveio o conde com um laivo de malícia
nos olhos e voltou-se para perguntar a Cedric:
— E quem é esse Miguel?
— O marido de Brígida — explicou Lord Fauntleroy que adoeceu e por isso não podia pagar o aluguel
nem comprar o que comer. Mas com o dinheiro que o senhor lhe mandou por meio do S r. Havisham, pudemos
ajudá-lo.
O conde franziu os sobrolhos, sem todavia parecer irritado, e, olhando o pároco, exclamou:
— N ão sei realmente que raça de proprietário virá a ser! Tinha recomendado a Havisham que lhe desse
tudo o que quisesse, e parece-me que tenha unicamente pedido dinheiro para dar aos mendigos! N este ponto,
Cedric, como o conde ofendesse aos seus amigos, protestou: — N ão são mendigos! Todos trabalham e Miguel é
um bom pedreiro!
— S ério? Todos, gente muito importante! Um pedreiro, um engraxate, uma verdureira... — interrompeu
suas palavras fixando a criança, pensando em alguma coisa que queria pôr em execução. Chamou para perto de
si Lord Fauntleroy e lhe perguntou:
— Dize-me, cá! Que é que farias para Higgins?
A sensação que o P. Mordaunt sentiu naquele momento era indefinível. Era homem sério e ponderado,
tinha a seu cargo, por largos anos, a paróquia de D orincourt e conhecia bem todos os seus paroquianos. Tanto
os ricos como os pobres, tanto os camponeses como os trabalhadores e os preguiçosos, honestos e pouco
recomendáveis, de tal modo que podia compreender qual a possibilidade de fazer bem ou mal, seria um dia
concedida à criança que estava diante de si, mas ele também dizia consigo que, tal possibilidade lhe fosse
outorgada antes de tempo, unicamente pelo capricho, de um homem obstinado e egoísta, viria a ser também de
grande dano a ele e aos outros.
Sempre continuando a fixar os olhos no netinho, o conde desistiu: Mas o que farias, então?
Fauntleroy amigavelmente apoiou a mão sobre o joelho são do avô e respondeu:
— O h! S e eu fosse rico, e grande deixar-lhe-ia a casa e lhe daria tantas coisas boas para seus filhos... Mas
não posso fazer nada porque sou muito pequeno. -— Calou-se, mas foi por pouco tempo, porque com olhos
chamejantes retomou o fio da conversa:
— O senhor poderá fazer tudo isso, não é verdade?
— Pensas mesmo a sério no que me estás perguntando? — Era um pouco brusca a tonalidade da voz do
conde, todavia não parecia irritado. O pequeno Cedric, como que retificando o que tinha dito, acrescentou. —
Mas o senhor pode dar tudo o que quer, não pode? — Quem é Nevick?
— O meu feitor. Muitos dos meus moradores não simpatizam com ele.
— Então, quer escrever logo para ele? Vou buscar já pena e papel. Voltarei em seguida.
Cedric não tinha pensado nem por um momento, que fosse permitido ao feitor sem coração agir
segundo as suas intenções.
— Sabes escrever? perguntou-lhe o conde.
— Sim... mas não muito bem.
— Não faz mal. Vai buscar à minha escrivaninha caneta e papel e senta-te naquela mesa.
O pároco permanecia calado, porém, interessava-se imensamente pelo andamento da conversa. Com a
maior naturalidade Cedric trouxe os objetos solicitados e disse com vivacidade:
— Pronto, agora pode escrever.
— Tu é que o deves fazer. — Disse-lhe o avô. O pequeno Lord enrubesceu.
— Eu? Mas é preciso mesmo que eu escreva? N ão tenho aqui ninguém que me corrija, temo que não vá
escrever muito bem.
— O ra, vai sair òtimamente, e quanto a Higgins, asseguro-te que não se incomodará com a ortografia, e
és tu quem deve escrever, porque o filantropo não sou eu! Vamos, molha a pena!
Fauntleroy obedeceu e depois com o braço apoiado à mesa, em ótima posição para escrever, perguntou-
lhe:
— Que é que eu devo dizer?
— Bastará que escrevas que por ora Higgins não será desalojado. E assina Fauntleroy.
Cedric molhou a pena e começou a escrever. A empresa era longa e fatigante, mas via-se que o menino
empregava os máximos esforços para escrever bem. Q uando acabou, mostrou a folha ao conde, perguntando
com ansiedade:
— O senhor pensa que esta carta poderá ir?
O avô leu-a e esboçou um sorriso:
— Sim, pode ir. Creio que Higgins ficará muito contente:
Voltando ao padre, apresentou-lhe a carta e o P. Mordaunt leu-a por sua vez:
“Caro senhor N evick, eu lhe peço que por ora o S r. Higgins não seja despedido e fará um grande prazer
ao vosso devotíssimo Fauntleroy”.
(Havia certamente erros de ortografia, porque, afinal de contas, Lord Fauntleroy era apenas uma criança
de sete anos).
O S r. Hobbs assinava sempre assim as suas cartas — comentou Cedric — e depois pensei que era
melhor dizer-lhe: peço-lhe... mas as palavras estão mesmo apropriadas ?
Ora, havia algumas que não estavam escritas no dicionário — respondeu-lhe o avô.
— O h! eu já o imaginava! S ucede sempre assim: quando se trata de palavras um pouco extensas, não há
jeito de as escrever certo. Agora vou passar a limpo.
Fê-lo assim realmente e tudo ficou muito bonito, porque o próprio conde serviu a Cedric de vocabulário.
O P. Mordaunt despediu-se com a carta no bolso e com alguma coisa mais: uma profunda sensação de
confiança, de esperança, como não tinha nunca sentido desde quando freqüentava o castelo dos Dorincourt.
Depois de o ter acompanhado à porta, Cedric dirigiu-se ao avô:
— Poderia agora visitar Fátina? — perguntou. Está à minha espera.
O conde não respondeu logo. S omente poucos minutos depois lhe disse. Toca a campainha... mas, antes
deves ir ver uma surpresa que está na cavalariça.
— O brigado... — Cedric corou — mas se o senhor me permitisse, creio que preferiria ir à cavalariça
amanhã. “Fátina” me está esperando...
— Bem, vamos mandar preparar a carruagem, então. — Uma pausa e depois com grande indiferença o
conde murmurou. — É um belo cavalinho.
— Um cavalinho! E Cedric arregalou os olhos. De quem é?
— Teu.
— Meu? Assim como todas aquelas coisas que vi hoje de manhã para brincar?
— Certamente, queres vê-lo, não é? Posso ordenar que o tragam imediatamente para aqui!
Fauntleroy mostrava cada vez mais ansiedade:
— N unca pensei que teria um cavalinho, nunca, nunca! Como Fátina ficará contente! O senhor me dá
tudo, tudo!
— Ora... queres vê-lo? Insistiu o conde. Fauntleroy suspirou:
— Oh! sim, queria tanto vê-lo, mas penso que não terei tempo hoje.
— E deves mesmo ir hoje ver a tua mãe? Não podes deixar a visita para amanhã?
Cedric interrompeu replicando:
— Mas, se durante toda a manhã, não fiz outra coisa senão pensar nela, e ela não fez outra coisa se não
pensar cm mim ?!
— Realmente? Então, toca a campainha.
Meia hora depois avô e neto atravessavam o parque numa carruagem. O conde conservava-se taciturno e
Cedric tagarelava alegremente.
Enchia o conde de perguntas sobre o cavalinho. Q uantos anos tinha? Era grande? E de que cor? Q ue
comia? N a manhã seguinte a que hora poderia vê-lo? Como Fátina ficará contente! — dizia. — E como pensará
que o senhor é bom para comigo! Ela sabe que eu gosto muito de cavalos, porém, nunca imaginamos que eu
viria a possuir algum. O lhe aqui: N a rua 5, morava um amigo que tinha um belo cavalinho e todas as manhãs o
levava a passear. Passávamos sempre diante da casa dele, só para vê-lo. Calou-se por um instante, apoiando a
cabecinha nas almofadas da viatura, e, de repente, saiu-se com esta exclamação: — S abe vovô, eu penso que o
senhor é o melhor homem do mundo! O senhor só faz o bem e só pensa nos outros! Fátina, continuou — diz
que esta é a maior bondade: N ão pensarmos nunca em nós mesmos, mas nos outros, e é isto mesmo que o
senhor faz.
Estupefato de ouvir aquela descrição de si próprio, o conde não achou palavra para responder: causava-
lhe profunda impressão ver o seu egoísmo, transformado em generosidade e bondade pela simplicidade de
uma criança.
O lhando sempre com admiração, o pequeno Lord continuou: Pense um pouco em quanta gente o senhor
fez feliz! Miguel, Brígida e os seus dez filhos, a verdureira, D ick, o S r. Hobbs, e agora mesmo o sr. Higgins, com
sua mulher, filhos e o P. Mordaunt, porque também ele ficou contente; depois Fátina e eu mesmo com o
cavalinho e aquelas coisas todas bonitas que o senhor me deu. J á as sei de cor, a dedo: o senhor foi bom, com
vinte e sete pessoas... escute, são alguma coisa vinte e sete pessoas!
— Mas, fui eu quem foi bom para com elas? -— indagou o conde.
— Sem dúvida! O senhor fez a todas muito felizes!
E pensar que... — Cedric hesitou com delicadeza — há pessoas que tenham opinião pouco favorável para
com os condes! Mas é porque não os conhece! Tenho de escrever tudo ao S. Hobbs.
— Por quê? Que opinião tinha o Sr. Hobbs dos condes?
— A h! eu creio que é porque ele nunca viu condes, como o vovô... e acreditava no que lia nos livros. Por
isso o senhor não se deve incomodar. Ele estava convencido de que fossem todos tiranos e dizia que nunca
deixaria que um conde entrasse em sua casa. Mas se tivesse conhecido o vovô, por certo não falaria assim, tenho
certeza! Porém eu vou escrever a ele!
— E que vai dizer-lhe?
— Contarei — disse Cedric — que o senhor é a melhor pessoa do mundo e que só pensa nos outros para
lhes fazer bem, e que eu quero ser como o senhor, quando for grande!
— Como eu!? — S ua S enhoria contemplou o rostinho emocionado, radiante e enrubesceu. Voltou a
cabeça e começou a olhar pensativo para a margem da estrada, vendo o desfilar das faias de folhas brilhantes e
douradas, pelos raios de sol.
— S im! Como o senhor! — repetiu Cedric e acrescentou: — Tenho medo que não o consiga, mas, vou-me
esforçar.
O veículo percorria agora magnífica avenida, ladeada de árvores seculares. Manchas de sombra espessa
alternavam com zonas fulgurantes de sol.
O pequeno Lord contemplava as flores variadas dos campos e os cervos estendidos na relva úmida,
levantando a cabeça para olhar a carruagem, com olhos surpresos, os coelhos a fugirem, o trinar dos
passarinhos, e sobretudo se encantara com o vôo das perdizes. Tudo lhe parecia ainda mais belo, do que da
primeira vez que o vira. S eu coraçãozinho batia de alegria. Coisas bem diversas no entanto, via e escutava o
conde. Passava-lhe diante de si sua longa vida isenta de sentimentos nobres ou de ações generosas. Revia os
anos em que, jovem e rico, desfrutara da saúde, da juventude e da riqueza, unicamente para divertir-se e passar
o tempo em prazeres... O tempo passara, e ele se encontrava velho, sozinho no meio daqueles esplendores e
riquezas rodeado de pessoas que o temiam, detestavam e lisonjeavam hipocritamente. N inguém que tivesse
um pensamento de bondade e de afeição desinteressado, para com o conde de Dorincourt!
O lhava os seus domínios! A s terras se perdiam no horizonte! S abia que patrimônio magnífico
constituíam. Q uanta gente vivia naquelas colinas! N o entanto, em toda aquela extensão, não existia uma só
pessoa invejosa de sua riqueza, de sua nobreza e do seu poder, não existia uma só, que o julgasse “bopi”, e
muito menos que desejasse ser semelhante a ele, como aspirava a criança na sua ingenuidade comovente.
E esta não era certamente uma reflexão que desse prazer, nem mesmo tratando-se de um velho cético e
egoísta, que por setenta anos nunca se ocupara senão de si mesmo, zombando da opinião que faziam de sua
“bondade”.
Mas, talvez, na realidade, nunca pensara no julgamento dos outros, e se o fazia agora era somente
porque uma criança o havia julgado erradamente, expressando o seu desejo de imitá-lo, o levara a perguntar-se,
se realmente ele era um modelo digno de imitação.
D ando conta do silêncio e da meditação do avô, Fauntleroy pensou que o pé lhe estivesse doendo, e para
não perturbá-lo, ficou em silêncio, gozando a beleza do panorama que se descortinava.
Quando transpuseram a entrada, após breve percurso por entre macios tapetes de relva, a viatura parou.
Tinham chegado ao “Palacete”. Cedric saltou em terra, quase mesmo antes que lhe fosse aberta a porta
da carruagem.
Voltando a si das suas reflexões, o avô exclamou:
— Chegamos?
— Sim, respondeu-lhe Cedric — aqui está a bengala, mas é melhor que se apóie em mim para descer.
— Não, não vou descer — declarou bruscamente o conde.
— O senhor não vai descer? Então o senhor não quer ver Fátina? — A criança parecia surpresa e sentida.
— Fátina me desculpará — disse secamente. — D ize-lhe que nem mesmo o desejo de ver o cavalinho te
impediu de visitá-la.
— Oh! Ela sentirá tanto não falar com o vovô! Desejava tanto vê-lo!
— Penso que não... — foi a resposta. — E acrescentou: — Voltarei a buscar-te mais tarde. E voltando-se a
Tomás, ordenou: — Dize a Jeffres que vá também com Lord Fauntleroy.
Tomás fechou a portinhola, e Cedric, depois de fitar um tanto desconcertado o avô, dirigiu-se correndo
pela alameda, seguido a passos largos por J effres. O conde viu que perninhas ligeiras devoravam o espaço. A
criança não queria perder tempo. Enquanto a viatura voltava lentamente, o conde, olhando pela janelinha, via o
“Palacete”, não tirando os olhos da porta de entrada. De um salto, viu Lord Fauntleroy subir os poucos degraus.
Uma figurinha gentil e delicada lhe correu ao encontro. Mãe e filho se abraçaram afetuosamente.
VII

NA IGREJA

N aquele domingo a igreja ficou cheia. O pároco não se lembrava de ter visto tanta gente na paróquia há
muito tempo. Estavam presentes mesmo pessoas que habitualmente não se faziam ver à missa: Vinha gente até
da paróquia limítrofe de Haselton. Havia camponeses queimados de sol com suas mulheres corpulentas, em
trajes domingueiros, com todos os filhos. N ão faltaram os Kimsey, marido e mulher, merceeiros, farmacêuticos
aos quais todo o distrito recorria, e num dos bancos a senhora Dibbles, ladeada pelas suas amigas mais íntimas:
a costumeira e a modista da aldeia. Viam-se também o assistente do médico, e o caixeiro da farmácia. Cada
família fazia-se portanto representar. N aquela semana só se falava de Lord Fauntleroy, e se tinha contado dele
histórias fantásticas. A campainha da porta da senhora D ibbles estava quase desesperada de ser apertada com
tanta fúria pelos fregueses que vinham à mercearia para fazerem suas compras e colherem... notícias... porque
ela estava ao par de tudo: dos magníficos jogos que se tinham preparado no castelo para o pequeno Lord, dos
brinquedos, dos cavalinhos, da caleça com acabamento de ouro e prata e do escudeiro que teria a S ua S enhoria.
E sabia também a faladora vendeira que todos os criados do castelo não faziam outra coisa senão afirmar que a
criança era mesmo um amor e que era uma vergonha querer que vivesse separada da mãe. E sobretudo tinha-se
tomado de domínio público a história de Higgins, que no mercado se viu rodeado de gente que queria saber
como tinham andado as coisas... Q uanto a N evick, corria que mostrara a um amigo a carta que lhe enviara Lord
Fauntleroy. E que imaginaria as conversas das comadres nas cozinhas e que se dizia nos bares e nas pracinhas!
A quela numerosa assistência à igreja, a pé ou em caleça, era causada pela curiosidade geral de ver o
herdeiro do conde de Dorincourt!
O conde geralmente não freqüentava a igreja, mas no primeiro domingo, depois da chegada de
Fauntleroy ao castelo, resolveu deixar-se ver em público, na luxuosa bancada, reservada à sua família, tendo ao
lado o netinho.
A o longo da estrada, era densa a multidão dos curiosos que em grupos paravam junto à cancela ou
ficavam à espera sob o pórtico. Todos queriam saber se S . S enhoria levaria o netinho à igreja e quando mais
entusiasmada estava a conversa, ouviu-se de pronto uma mulher exclamar:
— Aquela deve ser a mãe dele! Como é linda!
Todos se voltaram para ver a senhora vestida de preto que vinha só pela estrada. O véu levantado
descobria-lhe o rosto de uma expressão dulcíssima, aureolado de cabelos louros que caíam de sob o chapéu de
luto. N ão atentava nas pessoas com quem cruzava no caminho, pois seu pensamento se ocupava somente de
Cedric, que fora visitá-la no dia anterior, montado na sela, no seu cavalinho baio, que constituía agora toda a
sua felicidade. Mas apesar de absorta naqueles doces pensamentos, a senhora Errol acabou por perceber que
todos a fitavam curiosamente, e naquele momento, uma mulher de saia vermelha lhe fez uma grande
reverência, enquanto outra a saudava sorrindo. — “D eus a abençoe!” e quase todos os homens tiravam o
chapéu, cumprimentando-a. Mas seria mesmo para ela? Fátina custou a acreditar no que via, mas refletiu que
toda aquela gente se mostrava tão cortês, era porque ela era a mãe do pequeno Lord Fauntleroy. S orria,
enquanto um leve rubor tingia-lhe as faces, e agradeceu aos que estavam mais próximos, saudando os outros
com acenos de cabeça. Estava comovida e se alegrava, mas também sentia-se profundamente perturbada por
aquele acolhimento tão amável. Vivera sempre à sombra, naquela grande cidade regorgitante que deixara para
sempre! A penas a senhora Errol entrou na igreja, deu-se o fato tão ansiosamente aguardado: chegava a
carruagem do castelo com os criados em uniformes de gala, à alameda.
— Aí vêm eles! Foi um murmúrio geral, e a carruagem parou.
Tomás abriu a portinhola e saltou em terra uma belíssima criança, vestida de veludo azul, com os seus
caracóis dourados, esparsos sobre o colarinho de renda branca. Todos os olhares se concentraram nele. O s que
se recordavam do pai de Cedric, não puderam deixar de exclamar:
— É o retrato do capitão! Parece-me estar a vê-lo, quando pequeno!
Cedric esperava que o avô descesse da carruagem e o contemplava afetuosamente. Q uando lhe pareceu
o momento oportuno, estendeu a mãozinha para ajudá-lo, e lhe ofereceu os ombros para que se apoiasse.
O conde de D orincourt podia inspirar verdadeiro terror a toda região pelo seu temperamento exótico,
porém o netinho não sentia nem sombra de temor, e todos podiam afirmar isso.
Com toda a simplicidade voltou-se ao conde, dizendo-lhe:
— Apóie-se em mim, vovô! E acrescentou: — Como todos gostam de ver o vovô!
— Tira o gorrinho, Fauntleroy, respondeu o conde, eles não se cansam de te saudar.
— D e me saudar?! Cedric parecia estupefato. Tirou logo o gorro, mostrando a cabecinha loura, que
resplandecia aos raios do sol matinal. Q uisera saudar a todos, agradecer a todos. A mulher de saia vermelha
que saudara a senhora Errol, dizendo-lhe: “D eus a abençoe!” A gora voltava-se ao filho dizendo-lhe: Q ue D eus
abençoe o coração de V. S.!
— O brigado, senhora, respondeu gentilmente Lord Fauntleroy, entrando na igreja apoiado do avô!
Todos os olhares os seguiam, ao atravessarem a nave central, para tomar assento no banco adornado com
damasco vermelho. Logo que se sentou, Cedric, notou que do outro lado da nave se sentava sua mãe a sorrir-lhe
carinhosamente e depois percebeu sobre a coluna de pedra dois anjos de mãos postas em atitude de oração,
vestidos à antiga. Por baixo deles havia uma lápide, que conseguiu ler era parte, apesar de estar escrita com
caracteres difíceis de decifrar-se. “A qui jazem os restos mortais de Gregorio A rtur, primeiro Conde de
Dorincourt, e de sua esposa Luísa Ildegarda”.
Instigado pela curiosidade, Cedric inclinou-se para o avô.
— Posso falar-lhe, vovô? — perguntou. — Que queres?
— Quem são aqueles? — E apontou-lhe a lápide com o dedinho.
— São teus antepassados, Fauntleroy, que viveram há mais de um século passado!
E a criança continuou a olhar as duas figuras de pedra, ajoelhadas, mas agora notava-se em sua face um
quê de veneração.
Q uando começou o canto, levantou-se, procurando com os olhos sua mãe. Ela gostava tanto de cantar! E
foi com alegria que também ele se uniu ao coro, com sua vozinha suave e pura como a de um passarinho,
esquecendo tudo o mais que estava à sua volta. Até o conde não se ocupava mais consigo, enquanto observava o
netinho do seu lugar, protegido pelas cortinas vermelhas: em pé, segurando o grosso missal, com as duas
mãozinhas, cantando com uma expressão celestial, enquanto pelos vitrais um raio de sol acariciava os seus
cabelos de ouro. Também a senhora Errol contemplou por um momento o filhinho, e suas meigas orações eram
por ele. O rava para que aquela alminha inocente conservasse a brancura da pureza, para que as riquezas nunca
viessem a perturbá-lo, nem contaminá-lo de amarguras. A quele coração materno sofria ânsias e preocupações.
Q uando, na tarde anterior, o estreitou nos braços, sentindo um aperto no coração, disse-lhe com toda a ternura
de mãe.
— “Como me alegro por ver-te dizer tantas coisas belas e elevadas! Mas para que sejas sempre
obediente, corajoso e sincero, como agora, é preciso que nunca, nunca faças mal a ninguém, porque só deves
poder fazer o bem! Q uem sabe quanta coisa neste mundo não mudará para melhor por tua mãozinha inocente?
E isto será minha maior alegria! Ver que o mal possa se converter em bem, por tua causa, porque és puro e
bom!”
De volta ao castelo naquela tarde, Fauntleroy repetira ao avô as palavras de sua mãe, acrescentando:
— Q uando Fátina me falou assim, pensei logo no senhor e lhe disse, que o vovô é o melhor do mundo, e
que eu espero ser como o senhor, quando for grande!
Com certa inquietação, Sua Senhoria quis saber:
— E... que foi que ela disse?
— Respondeu-me que era justo, e que devemos imitar sempre o que há de bom nas pessoas.
Talvez o nobre castelão pensava naquela sua conversa com o netinho, enquanto se encontrava atrás
daquelas cortinas balançantes. Procurou contemplar mais vezes no meio da multidão a figura feminina que
levava o seu nome e viu aquele rosto suave que inspirava amor, e aqueles olhos semelhantes aos da criança que
estava ao seu lado. Em que pensava o velho misantropo? A sua alma tão árida, tão fechada, será em que
começava a sentir algum sentimento de ternura?
À saída da igreja, todos esperavam ver passar o conde e Lord Fauntleroy. A lguém diante da porta do
cemitério adiantou-se com o chapéu na mão, e depois como que hesitando, parou, mas o conde adiantou-se:
— Q ue há, Higgins? Cedric, voltou-se de súbito: — É o sr. Higgins — S im — respondeu o conde
bruscamente. — Imagino que veio ver como é o seu novo patrãozinho.
Higgins corou. Sim, senhor conde — afirmou.
— O S r. N evick me disse que foi o senhor quem teve a bondade de pensar em mim e é por isso que, se
não é demasiada liberdade de minha parte, quereria agradecer-lhe.
Parecia um pouco estranho que quem tivesse feito tanto bem a ele, fosse apenas uma criança que estava
ali a contemplá-lo, justamente como faziam os seus filhos, inconsciente de que era um personagem tão
importante.
— Devo agradecer ao senhorzinho, oh! devo agradecer-lhe muito disse.
Cedric então declarou surpreso:
— Mas eu escrevi somente a carta: quem fez tudo foi o vovô que é sempre muito bom para com todos,
não é verdade? E a senhora Higgins, como vai?
A o ouvir falar da bondade de S . S enhoria, Higgins ficou boquiaberto, olhando Cedric. D epois voltando a
si, disse:
— Minha mulher está melhor... agora as coisas melhoraram um pouco.
— Estou contente! exclamou Cedric. E acrescentou: — Estávamos tão tristes, o vovô e eu, porque os seus
filhos estavam com escarlatina. Também vovô tinha filhos, o senhor não sabe? Eu sou filho de seu filho.
Higgins estava estupefato. S abia, como toda gente, que o amor paterno do conde consistia em ver seus
filhos, somente uma ou duas vezes por ano, e deixá-los no castelo sozinhos, se adoecessem, para não ser
aborrecido por médicos, enfermeiros e criados.
Por isso, era interessante pensar que S ua S enhoria se preocupava com a escarlatina dos pequenos
Higgins.
O conde sorriu sarcàsticamente, enquanto dizia:
— Estás vendo, Higgins? Parece que todos vocês pensavam mal de mim... Lord Fauntleroy acredita que
me conhece melhor. S e quiseres mais informações exatas sobre a minha pessoa, é só pedi-las ao meu neto.
Vamos! Sobe à carruagem, Fauntleroy.
A criança obedeceu e a viatura pôs-se a caminho entre os prados verdejantes. A o longo da estrada, um
sorriso amargo pairava nos lábios do conde de Dorincourt.
VIII

CEDRIC APRENDE A CAVALGAR

A inda nos dias que se seguiram, o sorriso dos lábios do conde devia ser mesclado de amargura, mas
pouco a pouco, enquanto aprendia a conhecer melhor o netinho, o sorriso se tornou mais freqüente, naquele
rosto austero, mas já não com tanta amargura.
É preciso considerar que antes da chegada de Lord Fauntleroy ao castelo e especialmente nos últimos
tempos, o velho senhor tinha começado a sentir, a fadiga de viver doente, de ter chegado quase aos setenta anos
sozinho. N ão era de modo nenhum interessante ficar só, em absoluta solidão, numa sala enorme, apesar de
magnífica, com um pé estendido sobre um escabelo, tendo como única distração a de tratar mal um criado
constantemente sobressaltado, que naturalmente detestava o patrão.
A h! não era de modo nenhum interessante, sobretudo se se pensar que tal desventura acontecia ao
homem que tinha passado uma vida brilhante e mesmo movimentada.
O conde era perfeitamente consciente da antipatia de seus criados, e notava facilmente que ninguém
vinha visitá-lo, somente por simpatia, apesar de haver sempre alguém que experimentasse certo fascínio na
eloqüência à base de sarcasmos e malignidades, que não perdoava a ninguém e por onde passasse ia deixando o
sinal.
Até quando gozava de boa saúde e sentia toda a sua força física, empreendera longas viagens, iludindo-
se que se estava divertindo muito, quando, na realidade, não fazia outra coisa senão aborrecer-se. A o chegarem
a velhice e os achaques, retirou-se para o seu castelo faustoso, não tendo por companheiros, senão a gota, os
livros e os jornais. Todavia, não podendo sempre ler, às vezes sentia-se devorado pela melancolia, e parecia-lhe
que o tempo não passava nunca e se tornava sempre mais misantropo e rabugento.
Chegou de além mar o pequeno Lord e já desde a primeira vez que o vira, sentiu satisfeito o seu orgulho
racial, e isso foi um grande bem para Cedric, porque se não fosse uma criança tão bem dotada, o avô se teria
irritado contra ele de tal modo, que certamente não se interessaria por outras qualidades do filho de seu filho.
Gostou de crer que a beleza e a coragem fossem, no novo Lord Fauntleroy, uma herança dos D orincourt, e
assim tinha mostrado certo interesse, mas quando pôde convencer-se de ter diante de si uma criança
inteligente, boa e educada, apesar de completamente inconsciente, como criança que era, da importância do seu
nome e da sua posição, o conde começou a lhe querer bem verdadeiramente e também a não se entediar mais.
S e permitira ao pequeno fazer bem a Higgins, não fora porque aquele pobre diabo tivesse despertado o
mínimo de interesse em S ua S enhoria, mas porque dava prazer a Lord Fauntleroy e esperava também que,
desde cedo, se tornasse popular e benquisto pelos seus futuros súditos. A ssim tinha acompanhado Cedric à
igreja, para ver o interesse que suscitara, certo de que a gente da aldeia não teria podido deixar de admirar
aquele menino tão desembaraçado e belo, que se portava tão elegantemente. S abia já o conde de D orincourt,
antes mesmo de ouvi-lo de uma senhora, que todos disseram que aquele menino “nascera para ser um senhor”.
Muito orgulhoso do seu nome e do seu discernimento, era o soberbo aristocrático, para deixar de
mostrar ao mundo que a casa dos D orincourt podia, finalmente, ufanar-se de ter um herdeiro digno do seu
nome e da sua posição.
N a manhã na qual Cedric pela primeira vez montara no cavalinho em sela, o avô se sentiu de tal modo
satisfeito, que parecia esquecer-se completamente de que sofria de gota. O escudeiro conduzira ao parque o
garboso animal de pêlo reluzente e cabeça erguida, e, da janela aberta da biblioteca, o conde assistiu à primeira
lição de equitação de Lord Fauntleroy, perguntando-se a si mesmo, se a criança não sentiria nenhum temor.
Realmente, não se tratava de um cavalinho pequeno, e o conde se recordava de ter visto meninos com
fama de corajosos, ficarem atemorizados, quando da primeira vez, tentavam montar a cavalo.
Mas Cedric estava sereno e radiante, enquanto Wilkins, o moço da cavalariça, o guiava puxando o cavalo
pela rédea de um lado para o outro do prado.
Mais tarde, falando aos amigos, Wilkins dizia:
— Q ue criança corajosa! O lha que não quis que ninguém a ajudasse a montar e quisera que vissem como
estava direito na sela. E me perguntava muitas vezes: “Wilkins, como estou? Vi no circo que estão todos
aprumados”. E eu lhe respondia: “O h! senhorzinho, o senhor monta a cavalo tão aprumado como uma seta!”
Então começou a rir e me disse todo satisfeito: “Está bem, mas se não estou direito tu deves dizer-me, Wilkins!”
A Cedric, porém, estar direito e ser guiado a passo, passado o primeiro momento, não era realmente um
grande prazer, porque perguntou ao avô, que estava a olhá-lo da janela:
— Posso agora ir só? E um pouco mais depressa? Aquele menino da Rua 5 andava a trote e galopava.
— Mas, tu sabes galopar?
— Ora, gostaria de experimentar!
O conde fez um aceno a Wilkins e o escudeiro, montando no seu cavalo, tomou o cavalinho de Cedric
pelas rédeas.
— Faça-o andar a trote.
N os primeiros momentos Cedric achou que o trote era menos fácil que o passo, e quando o cavalo
acelerava marcha, sentia-se sacudir todo. E dizia ao companheiro. S acode muito... não sente também as
sacudidelas?
— Não, senhorinho — respondia Wilkins. — Tudo está em se habituar. Apóie-se nos estribos.
Cedric o fazia, mas quando se levantava e se sentava novamente, lhe dava tantas sacudidelas que o
desorientava um pouco. Ficava muito vermelho e ofegava mas continuava a manter-se firme e direito na sela,
que era um prazer contemplá-lo. O conde viu-os da janela de relance, mas logo os perdeu de vista, porque
desapareceram por entre o arvoredo. Q uando reapareceram, o pequeno cavaleiro estava sem chapéu, tinha as
faces afogueadas, apertava os lábios, mas, trotava ainda com tenacidade.
— Pára! — Que fizeste do chapéu?
— Caiu — respondeu ao conde, Wilkins que se divertia à vontade.
Com tom brusco perguntou-lhe o seu patrão:
— Tem medo?
— N em por sonho! Parece que não sabe que coisa quer dizer medo. J á ensinei muitas vezes a meninos
montar a cavalo. Mas, nunca vi um tão corajoso assim!
— Estás cansado? E o conde voltou-se para o netinho — Queres apear?
— N ão... — respondeu Cedric. — S acode um pouco, mais do que pensava, e estou também um tanto
cansado, mas quero continuar. Respirarei um momento, e vou depois procurar o chapéu.
Certamente, se alguém tivesse querido ensinar a Cedric a melhor maneira de se tornar simpático ao avô,
não poderia encontrar outra melhor. Q uando o cavalo partiu a trote, as faces do conde se avermelharam
levemente e nos seus olhos apareceu visibilíssima uma satisfação que ele mesmo nunca sentira, enquanto
esperava que o trote dos cavalos se tornasse mais próximo. Q uando os dois cavaleiros voltaram, Wilkins trazia
na mão o chapéu do Lord Fauntleroy, que já galopava seguro, com os cabelos ao vento e as faces em chamas.
— Chegamos! exclamou. — Galopei finalmente, não tão bem como o menino da rua 5, mas consegui
galopar, sem cair!
E assim nasceu uma grande amizade entre aqueles três: Lord Fauntleroy, Wilkins e o cavalinho baio.
N ão havia dia que não saíssem a dar belos galopes, estrada afora, ou pelas campinas. N as casas acorriam as
crianças, que se encantavam olhando o cavalo e o pequeno cavaleiro que empertigado na sela saudava a todos
completamente desprovido de etiqueta, mas, em compensação, com muita cordialidade: Bom dia! Como vai?
A lgumas vezes Lord Fauntleroy parava para trocar algumas palavras com as crianças e um dia — isto
contou depois Wilkins a todos os criados do castelo — desceu para fazer montar a cavalo e levar a sua casa um
menino aleijado.
— N ão houve meio de o impedir — disse o escudeiro — e não quis que eu apeasse com a desculpa de
que o meu cavalo era muito grande e aquela criança se sentiria mau. Pensa um pouco! Tive de pô-lo na sela — e
o senhorzinho se foi a pé com as mãos nos bolsos, e o barrete na nuca, pairando que era um prazer. Q uando
chegamos a casa do menino, saiu para fora a mãe, toda amedrontada a ver o que sucedia e ele então, tirou o
barrete e lhe fez uma grande saudação: “Trouxe para casa seu filho, senhora, porque estava doente da perna.
Mas não me parece que lhe baste aquele bordão para caminhar bem. Pedirei ao vovô que mande fazer para ele
um bom par de muletas!” Era de ver-se o rosto daquela mulher — concluiu Wilkins. Q uanto a mim... pensei
que desmaiava!
N ão havia motivo na realidade, porque o conde, quando soube do sucedido, não teve a menor excitação,
antes sorriu e quis que o seu netinho mesmo lhe contasse toda a história e mostrava divertir-se imensamente.
Poucos dias depois, viu a carruagem do castelo parar diante da casinha do menino aleijado e descer Lord
Fauntleroy, levando a tiracolo, como se fosse um fuzil, um belo par de muletas novas em folhas, fortes mas
leves, que deu à criança, dizendo-lhe:
— É uma lembrança do vovô, senhora, trouxe-a para seu filho, espero que em breve se curará.
Voltando para a viatura, Cedric disse ao avô:
— D ei lembranças do senhor a ela: o senhor não me tinha dito nada, mas eu pensei que se tivesse
esquecido. Fiz bem?
Uma risadinha foi a única resposta. Cada dia avô neto se tornavam mais amigos e sempre mais viva se
fazia na alminha de Cedric a confiança na bondade do avô. E como teria podido duvidar da generosidade do
conde? N ão havia desejo que, apenas formulado por Cedric, não fosse ouvido, e ele ficaria de tal modo cheio de
presentes, que estava quase estupefato. Realmente podia fazer e ter tudo o que queria. O sistema adotado pelo
castelão, na maior parte dos casos, não seria recomendável, mas, com o pequeno Lord Fauntleroy, obtinha os
melhores resultados. Ele não corria o menor perigo de se tornar uma criança viciada, porque a mãe se ocupava
dele. Ela pensava no filhinho com a mais amorosa solicitude e lhe inculcava os melhores sentimentos durante
as horas que passavam juntos no “Palacete”. Cedric nunca deixava a sua “Fátina”, sem ter as facezinhas
quentes de beijos e o coração reavivado pelas suas palavras serenas, cheias de amor, de conselhos e de
admoestações. Mas, havia algo que intrigava e aborrecia a criança, e que a preocupava mais do que sua mãe o
pudesse supor: (não falemos do conde, que disse era completamente inconsciente) perguntava-se na
ingenuidade de sua alminha pura e sincera: “Por que seria que a mamãe e o vovô nunca se viam?”
D e fato, quando a carruagem do castelo parada diante do “Palacete”, o conde não descia, e quando
acompanhava o netinho à igreja, deixava-o sozinho para falar com sua mãe no pórtico, e levá-la a casa. Todavia,
diariamente a senhora Errol recebia flores e frutos dos magníficos jardins e pomares do castelo. I sto confirmara
a ótima opinião que, na sua inocência, Cedric fizera do avô, desde o primeiro domingo, no qual vira a senhora
Errol voltar a pé da missa, triste por não ter levado ramalhetes de flores para as imagens, como sempre gostara
de fazê-lo na América.
O conde de D orincourt vira também que a senhora Errol, Lady Fauntleroy, andava a pé. por falta de uma
carruagem. E assim, um dia, enquanto Cedric se preparava para visitar sua mãe, encontrara à porta, uma
grande carruagem com uma parelha enorme de cavalos árabes, uma grandiosa charrete com um lindo cavalo
branco.
O conde dissera bruscamente a Cedric:
— D eves presentear esta charrete a tua mãe, para que não ande por aí a pé. Vê que é um presente que tu
lhe dás.
Cedric feliz, só pensava na hora de parar diante do “Palacete”.
Quando chegou, a senhora Errol estava passeando pelo parque.
O menino, tendo apeado de um salto, lançou-se nos braços maternos exclamando: — Fátina, viste o
carro, no qual vim? É para ti! E eu é quem devo presentear-te, para que tu não andes por aí, a pé.
Como poderia a senhora Errol recusar? A alegria do menino era tão grande, que ela não ousava
perturbá-lo não aceitando aquele riquíssimo presente, que não podia alegrá-la, vindo de um homem que se lhe
mostrava sempre inimigo. A ssim, sorriu e subiu à charrete, fazendo um bonito giro, enquanto Cedric não se
cansava de falar da bondade e da generosidade do avô. Havia tanta ingenuidade nas suas palavras, que por
vezes a senhora Errol não podia conter o riso, ao apertá-lo contra o coração e cobri-lo de beijos, contente de vê-
lo descobrir tantas virtudes naquele velho misantropo, que não tinha sequer um amigo sincero.
Foi justamente no dia seguinte ao presente da charrete à mamãe que Fauntleroy escreveu uma longa
carta ao S r. Hobbs, e, depois de fazer o rascunho, mostrou ao avô, dizendo-lhe: — N ão sei ainda escrever bem,
por isso se vovô quiser corrigi-la, por certo a copiarei melhor.
Escrevera o seguinte:

— “Caro Sr. H obbs, escrevo-lhe para dizer-lhe que vovô é o melhor conde do mundo, e o senhor se enganava
quando dizia que todos os condes são tiranos, porque ele não tem nada de tirano, e gostaria que o senhor o visse, pois
estou certo de que ficaria logo seu amigo. Ele sofre de gota num pé, que lhe dói muito, mas tem tanta paciência, que eu lhe
quero cada dia mais bem, porque quem não gosta de um conde tão bom?! Sabe tudo, e a gente pode perguntar a ele o que
quiser, e ele responde, só não sabe o que é jogar futebol de botão. D eu-me tantas coisas, e um belo cavalinho, uma
carruagem, à mamãe, presenteou com uma linda charrete, para não andar mais a pé, e eu tenho três quartos grandes,
todos para mim só, e tantos brinquedos bonitos, que o senhor não pode nem pensar, e quem sabe como o senhor ficaria se
visse o parque e o castelo, que a gente pode até perder-se neles! D iz Wilkins, o rapaz que me ensinou a cavalgar, que
debaixo da terra há um subterrâneo, mas em cima tudo é tão bonito, e no parque há árvores tão belas, tantos cervos,
coelhos e passarinhos... porque o vovô é muito rico, mas não é soberbo como o senhor dizia que eram todos os condes, e eu
me dou muito bem com ele e gosto tanto do povo daqui, porque são todos gentis para comigo, os homens tiram o chapéu, as
mulheres fazem reverência e dizem às vezes: “D eus o abençoe”, falam sobre mim. Agora ando a cavalo, mas no começo
sentia-me muito dolorido. O senhor deve saber que o vovô deixou a casa a um pobrezinho que não podia pagar o aluguel
porque estava doente, justamente como o pobre M iguel, e a governanta do castelo levou para seus filhinhos vinho bom, e
muitas outras coisas. Eu gostaria tanto de ver o senhor e queria também que minha Fátina viesse morar comigo no
castelo, mas quando não penso nisso, sou muito feliz e quero muito bem ao vovô e a todos também lhe querem bem. O
senhor deve responder-me logo, porque eu sou seu afetuosíssimo velho amigo, Fauntleroy”.
“P. S. I a-me esquecendo de dizer-lhe que nos subterrâneos não há ninguém morrendo de fome, porque o vovô
jamais o permitiria! É tão bom que me faz sempre pensar no senhor”.

O conde restituiu a carta a Cedric e lhe perguntou:


— Disseste que, faltando tua mãe, te falta muito?
— O h! sim! — respondeu com ardor a criança. — S empre me falta! D epois, acercando-se do avô, apoiou
a mãozinha sobre seus joelhos e perguntou-lhe: — Ao senhor não faz falta, não é?
— Eu não a conheço! —- O tom de voz de S. Senhoria foi quase brusco.
— J á sei — replicou Cedric. — e não entendo a razão. Mas, como mamãe recomendou-me que não
fizesse perguntas ao vovô, é por isso que eu não faço, mas às vezes penso nisso, e não entendo nada, e nem
assim pergunto nada! Q uando sinto mesmo, que me falta tanto, vou à janela do meu quarto e, através das
árvores, vejo a luzinha que põe todos os dias quando está escuro e sei o que ela quer dizer.
— O que é? indagou curioso o conde.
— “D orme bem, que D eus te proteja”. D izia-me assim todas as noites, quando estávamos juntos, antes
de eu me deitar. E também pela manhã, quando eu despertava: “D eus te abençoe”. E assim eu estava sempre
muito contente.
— S im, não o duvido... — replicou o conde um tanto embaraçado, e, franzindo os sobrolhos, fixou os
olhos na criança, que não podia em absoluto imaginar o que pensaria o conde, àquele momento.
IX

OS POBRES DA ALDEIA

Parecia, há tempo, que S . S enhoria, o excelentíssimo conde de D orincourt, não tinha mais tempo para se
aborrecer, tendo na cabeça uma multidão de pensamentos novos, que diziam respeito, mais ou menos, ao
netinho. O novo Lord Fauntleroy satisfazia plenamente ao seu orgulho de velho aristocrático, e como podia
dizer que o orgulho estava na base do seu caráter, tinha vastos motivos para achar no neto um novo e
inesperado interesse na vida.
O conde sentia íntima satisfação em mostrar à sociedade que herdeiro o destino concedera à Casa dos
D orincourt, que no passado, em matéria de herdeiros, só tinha que se lastimar. N o cérebro do velho senhor
havia um amontoado de projetos para o futuro e na sua alma, de quando em quando, aflorava uma sensação
estranha que se assemelhava muito ao remorso de não ter vivido uma vida límpida e pura, que agora pudesse
servir de exemplo ao netinho. N ão podia contar a sua vida àquela criança, porque era doloroso pensar que uma
sombra sequer empanasse aquele delicado rostinho, resplandecente de pureza e ingenuidade, se viesse a saber
que o avô, que ele julgava “o melhor avô do mundo”, por muitos anos tinha sido apenas conhecido pelo
apelativo de “aquele pérfido conde de Dorincourt”.
A contecia ao conde, às vezes, esquecer as crises da gota, tão preocupado se achava com outros
pensamentos. N ão só. Mas esquecer-se do seu mal, já lhe era salutar, porque seu médico, com legítima
surpresa, notou que a saúde do seu nobre cliente ia sempre melhorando de dia para dia.
Uma manhã, com surpresa geral, Lord Fauntleroy foi visto a cavalgar, tendo ao seu lado, no lugar de
Wilkins, alguém em sela, num belo cavalo castanho: era S . S enhoria que não tinha podido resistir à graça de seu
netinho, quando o vira, voltando para ele um rostinho sinceramente ansioso suplicante: como gostaria que vovô
viesse comigo quando monto a cavalo! Sinto-me tão triste quando penso deixar o vovô sozinho no castelo!
E assim todas as manhãs, S elim via ao lado do cavalinho baio, e do seu juvenil cavaleiro, um rosto rígido
e severo, contrastando com aquele rostinho alegre, gentil e confidente, do herdeiro dos Dorincourt.
O conde soube logo que a senhora Errol estava bem longe de levar uma vida ociosa e que, nos seus
domínios, os pobres e os infelizes já a conheciam muito bem. N ão havia de fato uma casa onde reinassem a
miséria e a desgraça, diante da qual a charrete de Fátina não parasse como anjo bem fazejo.
O senhor sabe, — contava Fauntleroy ao avô — quando a vêem, todos lhe dizem: — “Q ue D eus a
acompanhe!” É de ver-se os meninos como ficam contentes. Convida a sua casa as meninas para ensinar-lhes
serviço caseiro. Diz sempre que se sente muito rica e que não pode deixar de ajudar assim aos pobres.
Tudo considerado, o conde gostava que a viúva de seu filho fosse jovem e bela, com um aspecto tão
distinto, que podia dar lições a uma duquesa, e sentia viva satisfação, constatando que se fazia querer bem por
todos.
Contudo, não podia deixar de sentir-se ciumento, notando que a sua imagem dominava de maneira
soberana no coraçãozinho de Lord Fauntleroy.
Uma manhã parou um momento o cavalo no outeiro que atravessavam e, mostrando com o azorrague a
aldeia que os circundava, disse, voltando-se para Cedric: — Toda esta terra é minha, como sabes, não é?
— Deveras! — exclamou a criança encantada. — Para uma pessoa só, é muito grande!
— E um dia, toda esta terra será tua... e ainda muitas outras mais — continuou o conde.
— Minha! — Cedric parecia impressionado vivamente e perguntou ingenuamente. — E quando será
minha?
— Quando eu morrer.
— Então não a quero, e senhor deve viver sempre! Com seu modo de falar brusco, o conde replicou:
— Tu és muito bom, falando desta maneira. I sto não tira naquele dia do qual te falo, tudo isto será teu. E
então é que tu serás o conde de Dorincourt.
Endireitando-se na sela, a criança calou um instante. S eus olhos vagavam pelas campinas verdejantes,
pelas colinas, pelas florestas circunvizinhas, pelos bosques espessos e pelas casas espalhadas aqui e ali e pela
grande aldeia, dominada pelas torres cinzentas do castelo dos Dorincourt.
Deu um suspiro.
— Em que pensas tu? — perguntou-lhe o avô.
— Penso que sou muito pequeno ainda! E penso, também, naquilo que me disse Fátina.
— Que te disse?
— D isse-me que não é fácil saber ser rico e bom, e que sucede muitas vezes que quem tem tudo, se
esquece de que existe também no mundo, quem tem muito pouco, e às vezes quem nada tem, e que é dever de
quem tem tudo pensar nos desprotegidos da sorte. Eu lhe digo sempre que o senhor é muito bom, e então ela
me responde que isto é uma coisa muito bela, porque um conde é uma pessoa muito importante, e se pensa
somente em divertir-se, não se ocupando com a gente que habita nos seus domínios, poderia suceder que esse
povo vivesse na mais completa miséria, sem que ele desse por isso, enquanto que, sabendo-o, poderia remediar
a tudo aquilo. E então, neste momento, eu estava pensando que, quando fosse grande, deveria saber tudo
aquilo que acontece em minhas terras. E o senhor, como é que faz para saber sempre tudo?
— É N evick quem se preocupa com tudo, por mim. Confiou nervosamente os bigodes grisalhos e
mudou de assunto: penso que já é hora de voltarmos... quando fores conde, deves procurar ser melhor do que
eu.
Passaram oito dias e Cedric, voltando de uma visita feita ao “Palacete”, entrou na biblioteca muito sério,
com ares de quem estava muito preocupado. S entou-se naquela famosa poltrona, onde se tinha acantonado na
primeira noite da sua chegada ao castelo, e pôs-se a fixar imóvel as labaredas da chaminé em silêncio. O conde
observava-o esperando que dissesse alguma coisa. Vendo porém que a criança continuava calada, imaginou que
devia ter algum pensamento que a preocupava, e de fato, Cedric, levantando os olhos, perscrutou o avô,
perguntando-lhe subitamente:
— Mas, é mesmo Nevick que sabe tudo o que sucede?
— Deveria saber... porém, a que vem a tua pergunta? Julgas que ele esqueceu alguma coisa?
O interesse de Lord Fauntleroy pela gente da região divertia e encantava o conde. Ele nunca tinha
experimentado pessoalmente tal interesse, mas achava bem, que naquela cabecinha loura, onde só deviam
haver pensamentos de folguedos, alegria e serenidade, houvesse também certa seriedade e tendência para a
reflexão.
Cedric contava agora, e uma sombra havia nos seus olhos tristes.
— Fátina viu um lugar fora da aldeia, onde as casinhas caem aos pedaços de tão velhas! E se respira um
ar tão mau! A gente é muito pobre e muitas pessoas se encontram doentes a morrerem à míngua, as crianças
são as que mais morrem, e aquela gente então se torna má, porque as coisas não correm bem. É pior do que
estavam Miguel e Brígida. Fátina foi até lá, para ver uma pobre mulher, e quando voltou não quis abraçar-me
antes de mudar de roupa e, contando-me todas estas coisas, chorava.
Também Cedric tinha os olhos marejados de lágrimas, enquanto referia ao avô, o que lhe dissera a sua
mamãe mas, nos seus lábios havia um tímido sorriso. A poiando-se nos braços da poltrona de avô, continuou:
— D isse Fátina que o senhor não devia saber de nada disso e que eu lhe dissesse tudo, para que o senhor
pudesse mudar as coisas, como fez para Higgins, porque é claro que Nevick se esqueceu de dizer-lhe.
O h! não! N evick não se esquecera! O conde sabia bem quantas vezes lhe tinha falado das condições
miseráveis daquele grupo de cabanas, chamado na região “Corte do Conde”: tratava-se de tugúrios caindo, sem
água, sem ar, sem sol, úmidos, escuros, antros de doenças e de misérias. Também o padre tinha falado ao
castelão sobre eles e com termos bastante fortes, mais fortes de que as frases humildes de N evick, mas em
resposta não recebera senão palavras duras e ásperas, e, mesmo um dia em que o conde sofria mais de gota,
não tivera escrúpulos de declarar que esperava que aquela gente fosse para o inferno o mais depressa possível,
porquanto não queria mais ouvir falar dela.
Mas agora, com aquela mãozinha apoiada sobre os seus joelhos e aquelas faces mimosas que estavam
tão perto das suas, envergonhava-se um pouco de seu modo de proceder.
Procurou brincar, acariciando a mãozinha de Cedric e exclamou:
— Talvez pensas fazer de mim um proprietário de casa, modelo, não é verdade?
Com toda a seriedade, Cedric respondeu:
— É preciso derrubar aqueles mocambos feios! Foi Fátina que o disse! Vamos logo, dizer que derrubem
todas aquelas casas miseráveis! Gostarão tanto de ver o senhor ali!
Os olhos de Cedric brilharam como duas estrelas.
— Sim, mas por agora vamos dar um passeio no terraço, depois falaremos disso com mais calma.
O conde, levantando-se, descansou a mão no ombro do netinho, olhando-o no rosto e a sorrir
intimamente.
X

ALARME NO CASTELO

A senhora Errol descobrira muitas coisas tristes durante as suas visitas à aldeia, que parecia tão
pitoresca quando se olhava do alto do monte, e tão miserável, quando se via de perto. O nde deveriam reinar o
trabalho e o conforto, Fátina só encontrara a miséria, a ignorância e a preguiça. A maior parte das desgraças
que ali havia, tinha-as descoberto por si mesma, de outras lhe falara o pároco, lamentando-se das dificuldades e
das desilusões encontradas cada vez que tinha tentado fazer mudar aquele horrível estado de coisas. D e fato, os
agentes do conde tinham preferido não o aborrecerem mais, de tal modo que a penúria e as doenças minavam
em toda a parte, mas de modo particular nos pardieiros da “Corte do Conde”, que apresentavam realmente um
espetáculo repugnante. A senhora Errol ficara completamente estupefata. O lhando aquelas crianças
subnutridas, sujas e órfãs, pensou em seu filho, uma espécie de principezinho, servido e reverenciado,
satisfeito em todos os seus desejos, cercado por uma atmosfera de luxo e de beleza. Uma idéia audaz germinou
no seu coração, pensando na influência que Cedric exercia sobre o conde.
J á que o castelão nada recusava ao netinho, por que não procurava tirar partido para o bem da sua
munificência? S abia que poderia fiar-se do coração de seu filho, por isso teve só de contar-lhe o que tinha visto
na “Corte do Conde”, para ficar certa de que Cedric referiria as suas palavras ao avô, com bom resultado.
E de fato aconteceu como ela tinha pensado. Toda influência de Cedric, consistia na perfeita confiança
que demonstrava ao avô, na sua absoluta certeza de achá-lo sempre bem disposto à bondade e à generosidade.
E para o conde era de tal modo agradável a novidade de sentir-se considerando como um benfeitor, um
Mecenas, que não repeliu a idéia de sorrir à criança, dizendo consigo mesmo: — Mas que importa “Corte do
Conde... E a sua gente?” A ssim mesmo querendo obstinar-se em não fazer caso do que lhe tinha dito Cedric,
teve com ele uma palestra, durante a qual acabou por tomar a decisão de derrubar todos os tugúrios e de
construir, em seu lugar, habitações novas. Assim, com seu costumado tom brusco, se justificou:
— É Lord Fauntleroy que o quer assim. D iga portanto que agradeçam a ele — e olhou
interrogativamente. O pequeno Lord estendido sobre o tapete brincava com D ougal que se tinha já tornado o
seu companheiro inseparável.
Q uando se começou a falar dos melhoramentos projetados e da demolição da “Corte do Conde”, muitos
ficaram surpreendidos e houve também quem se mostrasse totalmente cético a respeito. Mas toda dúvida
desapareceu, quando viram chegar algumas turmas de operários que começaram logo as obras de demolição
das casinholas infectas. A inda uma vez Lord Fauntleroy tinha levado a cabo uma boa obra, e se devia a ele que
a vergonha das casas da “Corte do Conde” acabava.
Cedric teria arregalado os olhos maravilhados, se pudesse ouvir o que se dizia de boca em boca, e como
lhe prediziam um magnífico futuro. Entretanto, ele continuava a viver como uma criança comum, dando
grandes corridas pelos parques, perseguindo os coelhos, ou estendendo-se sobre a relva ou sobre o tapete da
biblioteca a ler livros interessantíssimos, cujos enredos narrava-os ao avô e a mãe. N ão se esquecia de escrever
ao S r. Hobbs e a D ick, dos quais recebia resposta bizarras, e cavalgava todas as manhãs, tendo ao lado o conde,
ou então, escoltado por Wilkins. Via que a gente se voltava a olhá-lo e lhe dizia: — Mas, como este povo deve
querer bem ao senhor! Quisera que um dia me amassem assim... é tão bom sentir-se amado de todos!
E o pequeno Lord se sentia orgulhoso de ser neto de um conde tão admirado e amado.
Muitas vezes avô e neto foram visitar as obras de reconstrução das casas da “Corte do Conde”. Cedric se
interessava por tudo. Fazia amizade com os pedreiros e queria saber como faziam para servir-se dos tijolos, do
cal e de todo o resto, e contava como tinha visto construir casas na A mérica. Conseguiu finalmente fazer para o
avô a descrição de uma fornalha de tijolos, concluindo: — Gostaria de aprender todas estas coisas, mas não sei
o que pode acontecer...
Q uando foi embora, os operários não faziam senão falar daquele menino que era um verdadeiro
prodígio e se divertiam era lembrar o que lhes tinha dito. Q ueriam-lhe muito bem e sentiam-se felizes quando
podiam ver, no meio deles, a discorrer como pessoas grandes, com as mãos nos bolsos e gorrinho de lado, todo
sorridente.
— Que criança estranha! diziam os operários. Tem tanto juízo e fala de um modo tão encantador!...
Em casa de Lord Fauntleroy às esposas, e estas por sua vez às amigas, e assim, não havia pessoa nas
vizinhanças que não conhecesse Cedric, e que não soubesse que o “pérfido Conde”, tinha finalmente
encontrado a quem amar, alguém que devia ter tocado o seu coração empedernido. Mas ninguém podia
imaginar até que ponto... Quando Cedric compreendeu, realmente, que o avô lhe queria muito bem, parecia que
não podia mais afastar-se dele: na biblioteca, à mesa, na carruagem, a cavalo e até quando passeava no terraço.
— O senhor se lembra — disse um dia Cedric ao avô, quando estava no tapete diante da estufa — que na
primeira noite quando nos conhecemos, disse-lhe que devíamos fazer amizade? E agora parece-me difícil
encontrar dois amigos mais íntimos do que nós!
— Sim... fazemos boa companhia ao outro — respondeu o avô, e acrescentou: — Aproxima-te um pouco.
Cedric obedeceu.
— Dize-me... desejas ainda alguma coisa?
A queles olhos infantis fixaram-se quase suplicantes na sua face austera, e a criança respondeu em voz
baixa:
— Sim, uma só coisa. — Que coisa?
Lord Fauntleroy não respondeu logo.
— Mas, o que é que tu queres? — insistiu o conde.
— Desejo que Fátina viva comigo.
O velho conde perturbou-se instantaneamente:
— Mas... tu a vê todos os dias... não é bastante?
A criança replicou:
— A ntes estávamos sempre juntos e ela me beijava todas as noites antes de deitar e todas as manhãs
quando vinha despertar-me, e, quando tínhamos alguma coisa para dizer, dizíamos logo, sem esperar como
agora.
Em silêncio os olhos do velho se encontraram com os da criança. — D epois, franzindo as sobrancelhas,
perguntou:
— Mas tu nunca esqueces tua mãe?
— O h! não, nunca! — replicou Cedric e ela nunca se esquece de mim! A liás, nunca poderia nem mesmo
esquecer o vovô. E se não estivéssemos um dia morando juntos, eu pensaria ainda mais no senhor.
— N a realidade o creio — exclamou o conde, e o sentimento de ciúme que o atormentava, todas as vezes
que o netinho lhe falava de sua mãe, se fez mais agudo.
Mas outras penas e preocupações o esperavam nos dias seguintes e seriam de tal modo graves que lhe
fariam quase esquecer a aversão que tinha pela viúva de seu filho.
Mas, disto nos ocuparemos depois. Continuando a nossa narração, vemos que, na tarde pouco antes que
as novas habitações da “Corte do Conde” estivessem ultimadas, deu-se no castelo um grande jantar de gala
como fazia anos que não se via nos domínios dos D orincourt. A lguns dias antes, a única irmã do conde Lady
Lorridaille, chegava ao castelo, em visita, com o seu esposo. Este acontecimento causara em todo o povoado a
maior agitação, o que fez soar ininterruptamente a campainha da senhora D ibbles, porque todos sabiam que
Lady Lorridaille, desde quando se casara, isto é, desde há 35 anos, só viera uma vez ao castelo, para dizer ao seu
irmão o que pensava dele e do seu modo de vida. Depois disto, nunca mais se fizera ver.
Q uando Lady Lorridaille, soube que seu irmão chamara da A mérica o filho do nobre capitão Errol, para
fazer dele um perfeito Lord Fauntleroy, disse ao marido: — Vai estragá-lo, como estragou seus filhos, se a mãe
da criança não tiver bastante fortaleza de alma, para impor a sua vontade sobre a educação do filho.
S oube depois que fora interdito à senhora Errol o acesso ao castelo, separando-a assim do seu filho.
Indignou-se com esta medida tão severa.
É uma vergonha! S eparar da mãe uma criança daquela idade, para pô-la ao lado de um companheiro
como meu irmão! — dizia ao marido. — Veremos o que vai acontecer: Fará dele um menino viciado e
insuportável, isto se simpatizar com ele, senão, o tratará tão mau, que lhe tornará a vida impossível!
Em seguida Lady Lorridaille ouvira falar tanto de Lord Fauntleroy e de seu comportamento a respeito
dos pobres e das relações que parecia se tinham estabelecido entre ele e o avô, que experimentava uma
vivíssima curiosidade de conhecer o pequeno americano. Como fazer? A coisa não era fácil dada a hostilidade
que existia entre ela e o irmão, desde há tantos anos, mas, justamente enquanto a senhora que tinha belas faces
cor de rosa e uma cabeleira de neve, procurava um meio de satisfazer o seu desejo, chegara-lhe enchendo-a de
estupefação, uma carta do conde, pedindo-lhe para que fosse fazer, uma visita a Dorincourt.
— D eve ser verdade que aquela criança faz milagres — comentou Lady Lorridaille, contente afinal com
aquela aproximação.
D e acordo com o marido, decidiu, partir para D orincourt, e, quando aí chegou, pela tarde, subiu aos
aposentos que lhe estavam destinados, sem ver o seu irmão, vestiu-se para o jantar e desceu ao salão. J unto à
chaminé estava o conde mais que nunca imponente, ao lado brincava um menino vestido de veludo vermelho
com golinhas de rendas brancas, sorridente, iluminado por dois olhos tão límpidos que a nobre senhora não
pôde conter uma exclamação de alegre surpresa:
— Este é o menino, Molyneux?
Lady Lorridailly não chamara mais o irmão por este nome desde o tempo em que eram ambos crianças.
— Como vai titia? — perguntou gentilmente Cedric. A velha matrona apoiou um momento a mão sobre
os ombros de Cedric e deu-lhe um ósculo.
— Chama-me tia Constância — disse-lhe. — Q ueria tanto bem ao teu pai, e penso que tu te pareces
muito com ele.
— O h! como me alegro, quando me dizem — replicou o pequeno Lord porque estou certo de que todos
deviam querer-lhe bem, do mesmo modo como Fátina, tia Constância.Lady Lorridaille, toda sorridente, beijou
de novo Cedric, que desde aquele momento se tornou logo seu ótimo amigo.
— Mais tarde, sussurrou ao seu irmão:
— Creio realmente, Molyneux, que não poderia ser melhor!
— Parece-me também a mim, respondeu S ua S enhoria, é um bom menino, estamos sempre de acordo.
A credita que pensa que eu sou um verdadeiro filantropo e não se cansa de tecer louvores à minha
generosidade. Devo confessar-te mesmo, Constância, antes que tu o percebas, que aquele menino fará um velho
rejuvenescido.
Lady Lorridaille não fez comentários, mas perguntou abruptamente:
— E que pensa de ti a mãe dele?
Um pouco aborrecido, o conde replicou.
— Nunca lhe perguntei.
— Contudo, — declarou resolutamente a senhora — gostaria de dizer-te sem rodeios: N ão aprovo a tua
maneira de agir a respeito da senhora Errol e, quanto a mim, tenho intenção de ir falar com ela o mais cedo
possível, se te ofendes, dize-me logo. Bastou-me ver e ouvir a criança, para convencer-me de que deve tudo à
sua mãe, que, apenas chegada à nossa terra, conquistou o respeito e a veneração de todos, cuja fama de
bondade chegou até nós.
— Q uanto a respeito e veneração, é a ele — e o conde apontou para Fauntleroy — que respeitam e
veneram. A senhora Errol... é realmente bastante simpática e não se pode negar que a ela devemos a beleza da
criança. S e queres, podes ir falar com ela. Custa-me somente que permaneça no “Palacete” e que não lhe tenha
passado pelo, pensamento convidar-me para visitá-la. E, dizendo estas últimas palavras, o conde mostrou-se
deveras aborrecido.
Mais tarde Lady Lorridaille dizia ao marido: por carta:
— Tenho a impressão que a sua hostilidade contra a mãe da criança diminuiu notavelmente. N o dia
seguinte, a irmã do conde fez uma visita à S enhora Errol e, de volta ao castelo, disse ao conde: — Posso
assegurar-te, Molyneux, que nunca vi uma mulher mais simpática! Tem uma voz encantadora, e basta ouvi-la
falar para que a gente se convença de que a criança deve tudo à sua mãe. D eu-lhe muito mais que a sua beleza!
Repito-te: — A cho que fazes mal em não convidá-la para morar no castelo, não somente para ocupar-se da
criança, mas também de ti. Quanto a mim, convidá-la-ei a fazer-me uma visita.
— Oh! não aceitará, para não afastar-se de seu filho.
— Pode ser, então talvez acreditasses no que te digo — replicou sorrindo Lady Lorridaille. Estava
completamente convencida de que aquele seu orgulhoso irmão tinha concentrado todas as suas ambições, e as
suas esperanças, e todos os seus afetos naquela criaturinha expansiva e simples que, com confiança absoluta e
encantadora ternura, tanto se afeiçoara ao avô rabugento. E sabia também a senhora, que o conde dava aquele
jantar unicamente para poder apresentar à sociedade o seu herdeiro e para que vissem que Lord Fauntleroy não
só merecia a fama que gozava, mas a excedia de muito. Realmente na tarde do jantar não houve um convidado
que não viesse expressamente para saber alguma coisa mais sobre aquela nobre criança que se tornara famosa
em toda a região, e com a esperança íntima de poder vê-lo. Falando de Lord Fauntleroy, o conde dissera aos
seus amigos:
É muito bem-educado, e não aborrece ninguém. Em geral os meninos são todos uns tolos e aborrecidos,
mas esta criança sabe perfeitamente quando deve falar e quando deve calar. N ão há perigo que se torne
importuno. A quela tarde porém não calou realmente. Todos o rodeavam, pedindo-lhe que falasse e as senhoras
elegantes o acariciavam e os homens brincavam com ele, do mesmo modo que os passageiros a bordo do navio.
Foi uma tarde divertidíssima para Cedric. A s magníficas salas do castelo estavam cintilantes de luzes e tão
adornadas de flores que pareciam um jardim. O s hóspedes eram afáveis e alegres, e as senhoras estavam
adornadas de jóias que pareciam emitir cintilações fulgurantes. Havia, porém, uma senhora muito linda que
Cedric não podia deixar de encantar-se contemplando-a: Era alta e magra, de rosto oval, morena, olhos cor de
violeta e os seus lábios pareciam serem feitos de pétalas de rosas. Vestia um lindo vestido branco e tinha ao
pescoço um lindíssimo colar de pérolas. Rodeavam-na tantos jovens obsequiosos e cheios de atenções para com
ela, que a princípio Cedric pensou que aquela bela senhora fosse uma princesa e se sentiu de tal modo
encantado por ela, que quase inconscientemente, foi para o lado dela, sem deixar de fixá-la, até que em dado
momento, sorrindo, ela lhe falou:
— Dize-me: por que tu me olhas assim, Lord Fauntleroy?
— Porque a senhora é muito bonita! — foi a resposta graciosa da criança, e todos sorriram, inclusive a
senhora que ficara totalmente embaraçada, corando muito. Com a sua ingênua sinceridade, Cedric continuou:
— N ão creio ter visto ninguém tão bela como a senhora, a não ser Fátina, entende-se. N enhuma pode
ser linda como ela... eu penso que ela seja a pessoa mais bela do mundo.
A graciosa senhora, que se chamava Miss Herbert, beijando a criança docemente, e, sorrindo, assegurou-
lhe que também ela pensava da mesma maneira.
Por quase toda a noite, a moça teve junto de si, Lord Fauntleroy e toda a atenção dos presentes, se
concentrou neles. A certo ponto Cedric, sem notar mesmo, começou a falar da A mérica, das procissões com
tochas, de D ick, do S r. Hobbs, e, em dado momento, tirou do bolso com orgulho para mostrar a todos, o belo
lenço flamejante, que lhe tinha presenteado o seu amigo engraxate. E explicou: pus hoje no bolso para a festa.
Se Dick o soubesse, gostaria muito, estou certo disto. .
N a realidade, o lenço era muito vistoso e no meio de toda aquela refinada elegância, destoava um pouco,
mas ninguém teve coragem de o dizer, porque a seriedade da criança em falar do presente recebido tinha algo
de comovedor.
— Gosto tanto deste lenço — afirmava — porque é um presente de Dick que é meu amigo.
O conde tinha dito bem. Cedric não aborrecia ninguém e naquela mesma tarde, quando não insistiam
muito para fazê-lo falar, conservava-se calado escutando o que diziam as pessoas grandes, encostando-se a cada
momento na poltrona do avô ou sentando-se a seus pés, sobre um escabelo atento às suas palavras.
O S r. Havisham, que fora esperado por toda a tarde, chegou atrasado, justamente na hora do jantar.
A proximando-se do conde, tinha um aspecto de tal modo agitado, que surpreendeu o castelão que lhe
perguntou o motivo daquela perturbação. O advogado, em voz baixa, respondeu que o desculpasse por ter
chegado atrasado, por causa de um acontecimento absolutamente imprevisto.
Havisham, tão metódico e tão pontual, atrasado e nervoso! A lguma coisa de grave deveria ter
acontecido. À mesa, o advogado não comeu quase nada e sucedeu que alguém, dirigindo-lhe a palavra, viu-o
estremecer como se tivesse com o pensamento muito distante. O estado de agitação e nervosismo de Havisham
pareceu aumentar quando apareceu na sala Lord Fauntleroy, à hora da sobremesa. A própria criança o notou
porque já conhecia muito bem o advogado, que só o contemplava com um sorriso amigo, porém, naquela noite,
seu rosto estava severo e contraído que não pressagiava nada de bom.
E como poderia não estar agitado o advogado Havisham, sabendo que mesmo antes de acabar a noite,
devia comunicar ao conde algo muito grave, tão inesperado, que nem mesmo se podia imaginar quais seriam as
conseqüências? Havisham olhava em torno de si. Toda aquela gente que enchia os salões do castelo, qual era o
fim de sua visita, além de ver Lord Fauntleroy? S orria o herdeiro do conde de D orincourt e seu avô tinha uma
expressão feliz de orgulho. Uma tristeza surda se difundiu do coração do velho advogado. S ofria pelo golpe que
devia infligir. Estava de tal modo absorto nos seus pensamentos, que não dava por mais nada do que acontecia
à sua volta. Notava apenas os olhares do conde a se dirigirem para ele com surpresa.
A cabado o jantar, passaram ao salão. S entando-se no divã, junto a Miss Herbert, Lord Fauntleroy falou-
lhe: Devo à senhora ter-me divertido muito nesta festa que é a primeira a que realmente assisto.
Q uando os jovens rodearam novamente a gentil senhora, que se tornara amiga de Cedric, ele ficou a
escutar o que diziam, mas depois, com o cansaço, seus olhos começaram a fechar-se. Com esforço os reabria,
porque não queria dormir, mas atrás dele havia uma poltrona tão macia! Bastou que apoiasse a cabeça para que
os olhos se lhe cerrassem, e desta vez, definitivamente, mas minutos depois os entreabriu. A lguém o beijava
suavemente nas faces e uma vozinha acariciante lhe desejava boa noite: era Miss Herbert.
Àquela saudação, Cedric respondeu meio adormecido, como já se encontrava:
— Boa noite... estou tão contente de tê-la conhecido... a senhora é tão bonita. — N a manhã seguinte não
se recordava mais daquelas palavras, lembrava-se de que ouvira risadas, mas quem sabe porque sorriam?
Q uando todos os convidados se despediram, Havisham aproximou-se do divã. O pequeno Lord estava
estendido com o braços de comprido e as pernas pendentes, suas faces estavam mais vermelhas que de
costume, circundado pelos seus lindos cabelos louros. Era um quadro encantador!
A voz áspera do conde ressoou por detrás dos ombros do advogado:
— Então, Havisham, pode-se saber o que há de novo? Podes dizer-me?
— Más notícias! — foi a resposta do advogado, passando a mão no queixo, com seu gesto habitual, todas
às vezes que alguma coisa o preocupava.
— Más notícias!? surpreendeu-se o conde.
— S im, más — repetiu — realmente péssimas e desastrosas... digo-lhe que sinto muito dever comunicar-
lhas...
O conde já durante o jantar devia ter o pressentimento de alguma coisa pouco agradável, porque tivera
algumas crises de nervosismo e irritação. Agora falava asperamente ao advogado:
— Gostaria de saber por que olhavas o menino daquele modo estranho, e o fizeste por toda a festa...
como se... vamos, Havisham. N ão queiras ser ave de mau agouro... que tem que ver Lord Fauntleroy com as tuas
más notícias?
O advogado decidiu-se:
— Mas — começou — o que devo dizer-lhe se refere unicamente a Lord Fauntleroy, que, a julgar pelo
que soube, não é Cedric, de modo nenhum Lord Fauntleroy, mas... somente o filho do capitão Cedric Errol,
nada mais. J á porque o verdadeiro Lord Fauntleroy parece que é o filho de seu filho N évis, que atualmente se
encontra num Hotel em Londres!
O conde apertou fortemente os braços da poltrona com tal estremecimento, que as veias se lhe saltaram
na fronte e nos pulsos, Com o rosto lívido, gritou: — Que dizes? Estás louco? Quem inventou tal mentira?
— S e é mentira, tem toda a aparência de verdade... suspirou o advogado. — Esta manhã uma senhora
veio ter comigo para dizer-me que há 6 anos em Londres casara-se com o filho de V. S ., N évis, e, para dar valor
às palavras que me dizia, mostrou-me os seus documentos legalizados. Contou-me em seguida, que um ano
depois separou-se de N évis, que, não querendo mais vê-la, lhe concedeu uma pensão. Esta senhora tem um
filho: uma criança de 5 anos. É uma americana de baixa condição social, ignorante e vulgar, que até pouco
tempo não tinha consciência dos direitos de seu filho, mas bastou consultar um advogado para sabê-lo.
Após breve pausa, Havisham prosseguiu.
— Por isso, agora aquela senhora pretende que seu filho seja reconhecido como Lord Fauntleroy,
herdeiro do título e do patrimônio dos Dorincourt.
A loura cabecinha abandonada à almofada apenas se moveu, enquanto um calmo e profundo suspiro
saía dos pequeninos lábios entreabertos. Talvez ao menino adormecido, pouco se lhe dava não ser o Lord
Fauntleroy e não poder ser o conde de D orincourt. S eu rostinho voltou-se ligeiramente, como para que pudesse
ver melhor o avô que o contemplava imóvel, com um sorriso amargo.
Finalmente o conde falou:
— N ão daria crédito em uma só palavra de tudo isto, se a refletir bem, não fosse uma felonia digna em
tudo e por tudo do N évis, deste meu filho que foi sempre uma desonra para a família D orincourt; fraco,
mentiroso, sem nenhuma virtude... E aquela mulher disseste que é ignorante, vulgar?
— A ssina seu nome com dificuldade... e deve ser de uma venabilidade revoltante. S eu único
pensamento deve ser o dinheiro. N ão digo que não seja bela, apesar de o ser de maneira trivial, mas...
Havisham, habituado a tratar com a aristocracia, fez um gesto muito expressivo.
Gotas de suor frio banhavam a fronte enrugada do conde, e ele as enxugou com um lenço. E o sorriso de
seus lábios acentuava-se cada vez mais amargo. Murmurou:
— E eu me opunha à outra... à sua mãe — e apontou para a criança adormecida. — N ão queria nem
mesmo conhecê-la... Fui castigado. É justo, muito justo!
Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro da sala. S entia-se com a alma flamejante de
indignação de ódio ou de desilusão! Uma verdadeira tempestade de cólera se desencadeava nele e parecia
sacudido como o furacão sacode e abate uma árvore. Todavia, o advogado notou que S . S enhoria não se
esquecia da criança adormecida e tinha cuidado de lançar suas imprecações em voz baixa, para não acordá-la.
— Poderia esperar por esta! — repetia entre dentes. — A queles dois filhos desde o dia em que nasceram
foram a minha vergonha! Custa-me crer em coisa semelhante, mas, se for verdade, lutarei com todas as forças!
Enfureceu-se novamente, fez mais perguntas sobre a mulher e sobre os documentos que mostrara, e, a
cada resposta do advogado, ficava lívido e fora de si, trêmulo pela ira que o devorava.
De repente, encostado no diva, confessou doloridamente:
— S e alguém me predissesse... um dia que me afeiçoaria a um menino... — a voz, apesar de áspera,
agora lhe tremia — não o teria acreditado. N unca suportei crianças, mas a este menino quero bem, eu o sei... —
sorriu tristemente — não me teme e tenho muita confiança nos seus atos. O cuparia o meu posto melhor e com
mais honraria do que eu, é digno do nome dos condes de Dorincourt.
I nclinou-se sobre a face cor de rosa, franzindo as sobrancelhas, mas era uma expressão de infinda
tristeza e perturbação. Levantou docemente da fronte de Cedric os anéis encaracolados dos seus louros cabelos
e depois, voltando-se, tocou a campainha. Q uando o criado entrou, disse-lhe o conde com a voz um tanto
trêmula:
— Leva... Lord Fauntleroy ao seu quarto...
XI

NA AMÉRICA

O s velhos amigos estão na A mérica. O S r. Hobbs sentira-se muito só quando, passada de agitação na
qual o tinha imergido a notícia inesperada de que o amigo era um Lord, e deveria ir para a I nglaterra,
convenceu-se de que entre ele e Cedric estava de permeio o O ceano Atlântico. O bom vendeiro se tinha
realmente afeiçoado à criança, e não podia de modo nenhum substituí-la em seu coração, e isto porque afinal
não era homem muito brilhante, nem de grande espírito, e tinha bem poucos conhecidos. O s divertimentos não
o atraíam e tinha como única distração a leitura dos jornais e as contas do seu negócio. Esta última ocupação
não era das mais fáceis, pois, antes de estar certo de que as somas estavam exatas, perdia muito tempo. Cedric,
que era bastante inteligente, o ajudava algumas vezes um pouco. Brincar com o menino era o seu prazer.
I nteressava-se tanto por tudo o que estava nos jornais e ficava a ouvir com muita atenção as palavras do S r.
Hobbs sobre a Revolução, sobre os ingleses, sobre as eleições e sobre os republicanos. N ão era para admirar
que deixasse um vazio tão grande na venda.
O s primeiros dias pareciam ao S r. Hobbs que não era verdade que Cedric tivesse partido de N ova York.
Mas, (oh! dura realidade!) um belo dia, levantando os olhos do jornal, o teria visto à porta, vestidinho de
branco, com as calcinhas vermelhas e o gorrinho na nuca, e sua vozinha alegre o teria saudado como de
costume:
— Bom dia, Sr. Hobbs. Que há de novo? Como vai a vida?
Mas nada disso era verdade, e os dias passavam e o quitandeiro se tornava cada vez mais melancólico.
Não tinha mais gosto nem mesmo para ler os jornais, porque não tinha com quem comentar os acontecimentos.
Muitas vezes o deixava cair sobre os joelhos e como que sonhando, fixava o banco onde tantas vezes viu Cedric
sentar-se. N as pernas duma cadeira que Cedric muitas vezes também ocupara, havia tantas marcas de pés que
entristeciam ao pobre S r. Hobbs. Cedric os fizera batendo com os pés entusiàsticamente, quando à discussão se
animava. E aquelas marcas estavam ali, como a provarem que também os pequenos condes, apesar do seu
sangue nobre, e sua fina linhagem, gostam às vezes de dar pontapés nas cadeiras.
Q uando estava cansado de olhar aqueles sinais da passagem de Cedric, o S r. Hobbs tirava do bolso o
relógio de ouro, abria-o e lia: “A o S r. Hobbs, seu velho amigo Lord Fauntleroy”. E depois fechava-o com um
gesto triste, levantava-se com um suspiro e dirigia-se à porta por entre as caixas de maçãs e sacos de batatas e
olhava para cima, para o céu azul. A o cair da noite, depois de fechar as portas, acendia o cachimbo e ia dar um
passeio até a casa onde o pequeno Cedric morou. O lhava para o cartaz: “A luga-se”, balançava a cabeça, puxava
com mais força baforadas de fumo, do cachimbo, e voltava mais triste ainda para casa. Passaram duas semanas
assim, até que brotou na mente do S r. Hobbs uma idéia. Era um pouco retardatário em tudo, e em geral
desconfiava das novidades, mantendo-se fiel às suas tradições. Contudo, notando que as coisas iam de mal a
pior, porque não fazia outra coisa senão pensar no seu pequeno amigo, que nunca mais vira, nem viria talvez
jamais, começou a amadurecer um projeto: ir procurar o engraxate D ick. Cedric tinha-lhe falado tanto nele, ou?
justamente o S r. Hobbs pensou que seria um alívio estar com ele, para recordarem juntos o pequeno amigo que
perderam, talvez para sempre. E assim, um dia, D ick, ocupadíssimo em engraxar os sapatos de um freguês, viu
um homem alto e calvo parar na calçada a fixar a placa que dizia. “D ick, o I nsuperável!” Estava tão encantado
em contemplá-la, que D ick, depois de ter despachado o freguês, que servia no momento, dirigiu-se ao S r.
Hobbs, perguntando-lhe:
— Quer engraxar, senhor?
O quitandeiro apresentou o pé ao engraxate, anuindo, mas, quando D ick engraxava seus sapatos, o novo
freguês não fazia senão fixá-lo ao mesmo tempo que a placa também, até que perguntou:
— Quem te deu?
— Um amigo — foi a resposta de D ick. E também me deu todo o resto do que tenho... um menino tão
bom, o melhor amigo do mundo. Agora foi para a Inglaterra para ser conde.
Bem pausadamente, o Sr. Hobbs, pronunciou:
— Lord... Lord... Fauntleroy, que será conde de Dorincourt!
A escova caiu por terra. Dick arregalou os olhos exclamando: o senhor o conhece?
— D esde que nasceu — afirmou o S r. Hobbs, passando o lenço na fronte — éramos velhos amigos... eis
o que éramos...
Comovia-se falando daquele tempo. Tirou do bolso o relógio e mostrou a D ick a dedicatória lendo em
voz alta:
“Q uando olhares isto, pensarás em mim”. D eu-me para que não me esquecesse dele, mas imagina se eu
poderia esquecer-me dele... mesmo que não me tivesse dado o relógio e se eu soubesse que nunca mais o veria!
E como se poderia esquecer de um amigo como ele? Calou-se e por sua vez Dick começou a falar.
— N unca conheci um amigo como ele, e como era corajoso... Q ueria-lhe muito bem... e ficamos amigos,
desde o dia em que lhe salvei uma bola que lhe tinha caído debaixo das rodas de um carro. D esde então, vinha
sempre falar comigo acompanhado de sua mãe ou da aia, e logo de longe já gritava para mim: “Olá Dick!” como
se fosse um homem feito e não pequenino, ainda de calcinhas curtas, estava sempre alegre e quando os
negócios me iam mal eu me consolava falando com ele sobre os meus assuntos.
— Assim mesmo! exclamou o Sr. Hobbs.
— É uma pena que tenham querido fazê-lo conde! N a venda, não te digo o que viria a ser, e mesmo num
negócio de fazenda, com aquele garbo, aquela sua inteligência! Um portento!
E balançou a cabeça com tristeza.
Entrados em argumentos os dois tinham tanta coisa que dizer que entenderam como não era fácil falar
tudo de uma vez e fizeram uma combinação: N a tarde seguinte D ick iria visitar o S r. Hobbs na sua venda. A
idéia agradou ao engraxate que era um menino às direitas, sem família, e que sempre desejara um pouco de
tranqüilidade e de paz. D esde quando se livrara, graças à intervenção de Cedric, do seu sócio, ganhava o
suficiente para poder pagar um leito para dormir e não passar as noites ao ar livre, e esperava que com o tempo
a sua situação fosse sempre melhorando. A gora aquele convite de um ancião respeitável, proprietário de uma
venda bem sortida, de uma carroça e de um cavalo, para Dick era um verdadeiro acontecimento.
Antes de despedir-se, o Sr. Hobbs perguntou ao jovem:
— Tu sabes alguma coisa sobre os condes e sobre os castelos? Gostaria muito de saber alguma coisa em
particular a respeito.
D ick respondeu: — N o jornalzinho que custa cinqüenta centavos que eu compro sempre, há uma
história intitulada: “O dileto da dama da corte” ou “A vingança da condessa Maria”. É muito interessante e
cada semana vem um capítulo novo.
— Traze-me amanhã que eu te pagarei, recomendou o quitandeiro e traze-me também tudo o que
encontrares sobre marqueses ou duques, apesar de ele não me falar nada sobre o assunto. I niciou-se assim uma
grande amizade entre o Sr. Hobbs e Dick.
N a tarde antes da primeira visita, o quitandeiro acolheu o engraxate com grande cordialidade. Fê-lo
sentar perto das caixas de maçãs, dizendo-lhe:
— S erve-te; acendeu o cachimbo e depois olhou os jornais trazidos por D ick, e os dois se engolfaram em.
grandes discussões, sobre a nobreza britânica. A certo ponto, o S r. Hobbs indicou ao menino o banco que tinha
aqueles sinais nas pernas:
— S abes o que são aquelas marcas? S ão pontapés de Lord Fauntleroy. Porque era ali que ele se sentava,
comia biscoitos das latas, maçãs das caixas e lançava as cascas à rua. E agora vive num castelo... e aquelas são
marcas dos pés de Lord Fauntleroy, que um dia serão os sinais feitos por um conde. A seguro-te, que às vezes
digo comigo sério. “Desejaria ser massacrado!”
A visita de D ick e as suas palavras foram de grande conforto para o S r. Hobbs. A ntes que o seu hóspede
se despedisse, exigiu que ceasse com ele numa sala que tinha atrás da venda e lhe ofereceu queijos e
sardinhas,biscoitos e conservas de sua venda, abrindo por fim, com certa solenidade, uma garrafa de cerveja,
com a qual encheu dois copos.
— À saúde! — exclamou antes de levar aos lábios o seu. — E que possa dar boas lições a todos os
condes, duques e marqueses!
D epois daquela tarde, os dois novos amigos, se reviram muitas vezes e o S r. Hobbs sentiu-se um pouco
mais consolado. Ele e D ick, lendo o jornal de cinqüenta centavos e outras folhas interessantes do mesmo
gênero, começaram a se instruírem sobre os hábitos da aristocracia, conhecimentos que sem dúvida teriam
antes surpreendido a dita nobreza, se fosse informada a respeito. Um dia, pois, o S r. Hobbs foi de propósito à
uma livraria e pediu alguma coisa que servisse para enriquecer a sua biblioteca naquele gênero. Entrou e,
apoiando-se no balcão, dirigiu-se ao caixeiro: — Quero um livro que fale de condes.
— De que?
— Um livro que fale de condes — repetiu pacientemente o quitandeiro. ao que, sempre com o mesmo ar
de admiração, replicou o caixeiro:
— Talvez não tenhamos tal livro.
— Sim? — disse perplexo o Sr. Hobbs. — Então há alguma coisa que fale de marqueses e duques?
— Mas, a falar a verdade, não conheço livros que falem dessa gente — respondeu o caixeiro.
O S r. Hobbs sentiu-se vagamente perturbado: olhou para o pavimento, depois o teto e insistiu: — Um
livro ao menos que fale de condessas...
— Penso que nem há desses livros... — e o caixeiro sorriu ligeiramente.
— O ra bolas! Então? — exclamou o S r. Hobbs e estava para sair desiludido quando o caixeiro o chamou,
que tinha um livro no qual todos os protagonistas eram nobres e se lhe agradava tal livro. Em falta de melhor, o
quitandeiro resolveu contentar-se com aquele, e o caixeiro lhe vendeu um romance intitulado: “A torre de
Londres”, e o Sr. Hobbs o levou para casa.
À noite, quando veio D ick, os dois amigos começaram a lê-lo achando-o interessantíssimo: Tratava-se de
um episódio do reino daquela célebre rainha da I nglaterra, chamada Maria, a S anguinária, e quando o S r.
Hobbs conheceu os seus feitos e o seu belo hábito de cortar a cabeça e queimar viva a gente, ficou tomado da
mais profunda agitação; tirava o cachimbo da boca, punha-o novamente, enxugava o suor com o lenço
encarnado e olhava para Dick, abrindo muito os olhos, até que, finalmente, rompeu em exclamações:
— Mas então, está em perigo? S e naquele país uma senhora pode sentar-se tranqüilamente num trono e
ordenar aquelas atrocidades quem sabe o que pode suceder-lhe de um momento para o outro? É um
desastre!Dick, apesar de não estar muito tranqüilo, da sua parte, procurou acalmar o amigo.
— A gora as coisas mudaram, — disse — não é mais a mesma rainha quem manda. A de agora chama-se
Vitória, e a do livro chamava-se Maria.
— É verdade... admitiu o S r. Hobbs — passando mais uma vez o lenço sobre a fronte — e é verdade que
os jornais de agora não dizem nada de torturas, de fogueiras, de patíbulos, mas que queres que te diga, eu
sempre tenho medo que lhe suceda alguma coisa, no meio desta gentalha que não festeja nem ao menos o 4 de
julho. O S r. Hobbs ficou inquieto por longo tempo e se tranqüilizou somente um pouco quando recebeu uma
carta de Cedric e a leu e releu, juntamente com D ick, que por sua vez a fez ler ao quitandeiro a que tinha
recebido.
A quelas cartas eram mesmo um alívio! O s dois amigos as comentavam palavra por palavra e levavam
horas a compilar as respostas que liam e reliam antes de enviá-las. N a realidade, para D ick, escrever era um
verdadeiro trabalho dada a pouca instrução, que tinha adquirido como pudera, enquanto vivia junto com o
irmão mais velho. Fora então a uma escola noturna e, sendo muito esperto, soube aproveitar-se daqueles
poucos meses de estudo, e depois continuava sempre a se exercitar, lendo alguns jornais ou escrevendo a giz
nas paredes. Contava agora ao S r. Hobbs o tempo transcorrido com o irmão que fora muito bom para com ele
quando começaram a viver juntos, depois de terem perdido seus pais. Bem se ocupara D ick até que ele pudera
ganhar a sua vida, vendendo jornais e fazendo pequenos recados. Q uanto a Ben, que era um jovenzinho ativo e
de boa vontade, tinha uma ótima colocação numa casa de negócios.
— Tudo andaria prosperamente se Ben não se tivesse casado — contava D ick com a voz irritada. —
I magine o senhor que se enamorou de uma menina, como um bobo, e se casou com ela. Começaram a viver
ambos em dois quartos. Ela era uma verdadeira fúria! Q uebrava tudo que tinha nas mãos, quando estava
nervosa e estava sempre irritada. E quando começava a berrar! E o filho de Ben e daquela mulher era
justamente como a mãe, não fazia outra coisa senão chorar, dia e noite, e, se eu não me precipitasse a calentá-lo,
minha cunhada jogava-me na cabeça o primeiro objeto que encontrasse à mão. Foi assim que um dia me jogou
um prato, mas, em vez de acertar em mim, acertou no menino, e lhe fez um ferimento no queixo. O médico
disse que a cicatriz ficaria por toda a vida. Q ue raça de mulher! E que vida fazia viver meu irmão e seu marido!
Também a seu filho e a mim! Como odiava de morte porque dizia que não ganhava bastante, um dia ele saiu de
casa com um rapaz que tinha uma criação de gado, porque também já não podia mais suportá-la. Fiquei eu, mas
oito dias depois que Ben partira, voltando a casa — naquele tempo eu vendia jornais — não encontrei mais
ninguém e uma vizinha disse que Mina tinha ido embora levando a criança. E nem eu, nem Ben, soubemos de
mais nada. Creio que meu irmão não se tenha lamentado, nem tenha tido saudades dela, mas, quando a
conhecera, ficara tão enamorado daquela bruxa! A liás, ela não era feia, quando estava bem vestida e de bom
humor. Tinha os olhos negros e cabelos compridos até os joelhos, e os olhos lhe brilhavam de uma maneira...
Ben freqüentemente escrevia a D ick, que falasse dele ao S r Hobbs. Parecia que não tivesse tido muita
sorte, andara de um lado para outro e depois se domiciliara na Califórnia, juntamente com um criador de gado
e se encontrava ainda ali.
Uma tarde, Dick confiou ao Sr. Hobbs:
— A quela Mina arruinou realmente meu irmão: asseguro-lhe que às vezes ficava com pena... estavam
sentados à porta da venda e o quitandeiro, enquanto ouvia o seu amigo, enchia o cachimbo e dizia: — Teu
irmão não devia casar-se — levantou-se para ir buscar um fósforo, encostando-se ao banco para apanhar a caixa,
exclamou: — uma carta! Como é que não dei por ela? Vê-se que o carteiro a colocou entre os jornais. O lhou-a de
todos os lados e continuou: — mas... é sua, foi ele quem a escreveu! N ão pensou mais no cachimbo nem nos
fósforos, e, todo agitado, voltou a sentar-se junto de Dick, murmurando: — Que dirá de novo esta vez?
Abriu o envelope com o canivete e começou a ler:
— “Caro S r. Hobbs, escrevo-lhe com grande pressa, porque lhe devo dizer uma coisa realmente
extraordinária que o senhor ficará maravilhado. A conteceu uma grande embrulhada: eu não sou mais Lord
Fauntleroy e nunca ficarei conde, porque apareceu uma senhora que se tinha casado com meu tio N évis que
morreu e deixou um menino e então agora é ele Lord Fauntleroy, porque na I nglaterra se faz assim: o filho mais
velho de um conde, fica sendo conde, quando os outros morreram, e então eu me chamo de novo Cedric Errol
como quando estava na A mérica, e tudo aquilo que me tinha dado o vovô aquele menino me tomará, menos o
cavalinho, pois vovô não o consentirá. N ão lhe agrada nada, e creio que não gosta daquela senhora; mas talvez
pense que Fátina e eu estamos aborrecidos porque eu não serei mais conde, é pena, porque gostava muito do
castelo e do parque e todos me queriam bem, finalmente é muito bom a gente ser rica, porque pode fazer
muitas coisas, mas eu não sou rico, porque meu papai, que era o terceiro filho do vovô, não podia ser rico nem
conde, e então, quando for grande, trabalharei para sustentar Fátina, e, se Wilkins me ensinar a tratar de
cavalos, poderei tornar-me escudeiro ou cocheiro. A quela senhora veio ao castelo com o seu filho e meu avô e o
S r. Havisham lhe falaram, e ela se zangou e gritou tanto que o vovô se enfureceu como nunca eu tinha visto. Eu
não queria que se zangassem assim todos! Q uis escrever-lhe aquilo que sucedeu, ao senhor e a D ick, porque sei
que lhes interessará, mas por hoje basta, e creia-me o seu amigo, Cedric Errol, não mais Lord Fauntleroy”.
O S r. Hobbs caiu pesadamente sobre a cadeira de braços, enquanto a carta, o envelope e o canivete, se
espalharam por terra, e gemeu exclamando:
— Com mil demônios, não entendo nada!
Estava de tal modo estupefato que tinha transformado, sem o perceber a sua maneira de falar que nunca
chegava a exclamações tão fortes.
Quando Dick conseguiu falar, disse:
— Então está tudo por terra?
— A h! eu sei que é toda essa história! É um complô daqueles belos senhores, condes, duques,
marqueses, para derrubá-lo, porque é americano! O deiam-nos e agora se vingam nele! Eu lhe tinha dito que
estava em perigo... viste que coisa sucedeu? Estão de acordo até com o governo, acredita-me, para espoliá-lo de
tudo aquilo que lhe pertence de direito!
O S r. Hobbs estava fora de si... A princípio, não tinha acolhido com entusiasmo a mudança de vida do
seu pequeno amigo, depois, gradualmente, se habituara e antes se poderia dizer que sentia certo orgulho
quando chegavam aquelas cartas de Cedric, que descreviam tantos esplendores.
S e o S r. Hobbs não tinha grande opinião dos condes, como bom americano apreciava de tal modo o
dinheiro que não podia dar-se conta de tudo o que podia significar perdê-lo de um golpe, juntamente com um
título de tão alta dignidade.
D errubam-no — exclamava — eis o que fazem lá em cima, e outros que têm dinheiro deveriam pensar
em defendê-lo. Entretinha a D ick por longo tempo, porque não podia falar com outros a desventura que lhe
sucedera, e da ruína do seu amigo, e, quando o engraxate se despediu, o S r. Hobbs lhe fez companhia até a
esquina, parou um momento diante da casa que ainda mostrava a placa “A luga-se” e continuava a fumar o seu
cachimbo, mas permanecia mais do que nunca preocupado.
XII

OS RIVAIS SE APRESENTAM

A penas poucos dias depois do grande jantar que houve no castelo, todos os leitores de jornais da
I nglaterra ficaram informados das vicissitudes romanescas de D orincourt que, para dizer a verdade, era de
interesse palpitante. A história era narrada com todos os seus pormenores. Falava-se do pequeno americano
vindo para ser educado, como convinha a Lord Fauntleroy, era belo, dizia-se nas cortes, e já amado de todos.
O cupavam o primeiro plano nas crônicas, o conde, tão orgulhoso do seu herdeiro, e a jovem mãe à qual não
fora ainda concedido perdão, pelo casamento com o capitão Errol. Contava-se depois o casamento ainda mais
bizarro do Lord Fauntleroy defunto com uma senhora desconhecida de todos, que de improviso aparecia na
ribalta, pedindo que fossem reconhecidos os direitos de seu filho, o autêntico Lord Fauntleroy. Era o assunto do
dia, e despertava em todos imenso interesse. S oube-se depois que o conde de D orincourt, que escondia sua
grande cólera, propunha-se a examinar a fundo a questão por meio de seus advogados, de modo que se podia
concluir que o processo seria um daqueles que atraem a atenção de todos.
Mas, particularmente, era em torno do castelo que se faziam as rodinhas dos comentários. A s comadres
convidavam-se mutuamente cada dia para novos assuntos e davam opiniões a respeito do caso de D orincourt.
Como sempre, a mais bem informada era a senhora Dibbles, procurada por todos.
A s coisas vão mal — afirmava — e se quereis saber o meu parecer, eu vos digo que isto é um castigo, por
terem tratado tão mal aquela senhora, separando-a de seu filho. Ela sim, que é uma verdadeira senhora, mas a
outra... não o creio! N ão passa de uma desavergonhada e uma grande impertinente, e, quanto a seu filho, nem
se pode fazer uma comparação com aquela outra bela criança. S ó D eus sabe o que sucederá e como acabará
toda essa história! A agitação reinava em toda a parte! N a biblioteca onde o conde e o advogado se entretinham
por longo tempo a discutir; nos quartos dos empregados, onde Tomás, o mordomo, e toda a criadagem perdiam
o tempo em conversas fúteis, nas cavalariças onde Wilkins com ar tristonho, tratava do cavalinho baio com
mais carinho que antes, dizendo ao seu colega que nunca ensinara a cavalgar a um menino tão esperto e
corajoso, que era um verdadeiro prazer, vê-lo a cavalo.
Entre tanta gente perturbada o único que permanecia calmo e tranqüilo era o interessado. Q uando
explicaram a Lord Fauntleroy o estado das coisas, ficou primeiramente muito admirado e ligeiramente
perplexo, mas, não porque a sua ambição ficasse lograda. Enquanto o conde lhe falava do assunto, a criança se
conservava sentada sobre o escabelo, apertando os joelhos com os bracinhos como fazia muitas vezes, quando
escutava algo que lhe interessava. Finalmente, levantou o rosto no qual se lia certa ansiedade, dizendo:
— Não sei... sinto alguma coisa de estranho, muito estranho, mas não saberia dizer o que é.
O conde contemplava-o sem dizer palavra. Também ele sentia algo de estranho, como nunca sentira
antes, sobretudo vendo aquele rostinho, que estava habituado ver alegre e sereno, perturbado por esquivos
pensamentos. Finalmente Cedric murmurou com voz inquieta:
— Vão levar a charrete de Fátina? E ela também deve deixar o “Palacete”?
— Oh! não! — exclamou o avô.
— Realmente?
E Cedric parecia aliviado, mas olhou ainda cheio de ansiedade o avô:
— E o outro menino... — perguntou, e a voz tremia-lhe — será seu filho como eu o fui?
— Não! — O velho senhor pronunciou o monossílabo com tanta força, que Cedric se assustou.
— N ão!? — murmurou — cria... — Levantou-se do escabelo e perguntou: — Continuarei a ser seu neto,
mesmo se não me tornar conde? Será o mesmo como antes?
Uma viva ansiedade se lia em seu rostinho: O conde olhou para ele e seus olhos lhe brilharam
cruelmente sobre as densas sobrancelhas contraídas.
— Meu filho! — exclamou. Falava em tom cortante e resoluto, mas a sua voz tremia-lhe um pouco;
N unca! — e acrescentou — até a minha morte, tu serás sempre meu filho... às vezes me parece que és
realmente meu único filho!
Cedric enrubesceu de alegria e de alívio e, com as mãos nos bolsos, olhou para o avô:
— Então não me importa nada de ser ou não conde! E eu cria que aquele que fosse conde deveria tornar-
se seu filho era meu lugar, e era por isso que eu sentia uma coisa esquisita aqui dentro...
O avô, apoiando-lhe uma mão no ombro, aproximou-o a si:— Nunca te levarão nada de tudo o que puder
conservar para ti — murmurou comovidamente — e ainda não quero crer que te possam levar nada. O título é
teu, e farei tudo para te conservar, mas qualquer coisa que venha a acontecer, mesmo assim, terás tudo o que te
poderei dar, tudo! — N ão parecia que falasse com a criança tal a expressão do seu rosto e a decisão da sua voz.
Parecia que antes fazia uma promessa a si mesmo que, talvez, nunca se chegasse a cumprir. A lguns dias depois
de ter falado com o S r. Havisham, a senhora que pretendia ser Lady Fauntleroy chegou ao castelo com seu filho.
O conde mandou dizer-lhe que não queria recebê-la e que tinha encarregado do assunto o seu advogado. Esta
mensagem estava a cargo de Tomás, e ele, falando com seus companheiros, declarou que aquela não era de
modo nenhum uma senhora, e de verdadeiras senhoras entendia muito bem, dado os anos que tinha prestado
serviço em famílias senhoris.
Com certo ar de superioridade, acrescentou também; — a que está no “Palacete”, será americana toda a
vida, mas é uma grande senhora, não há nada a dizer sobre isto, e um homem que tenha pouco discernimento
nota-o logo, aliás, eu mesmo já o disse a Henrique no primeiro dia em que a vimos.
Repelida pelo conde, a senhora retirou-se um pouco temerosa, mesmo encolerizada como estava. O
advogado, todas as vezes que falara com ela, já notara que tinha um caráter iracundo e maneiras
profundamente vulgares, com uma boa dose de insolência; todavia não era nem inteligente, nem sagaz, como
assim queria ser. N ão era nem mesmo o caso de se falar, que ela estivesse à altura da posição à qual aspirava.
Falando à senhora Errol, disse o Sr. Havisham:
— D eve ser de baixa condição, completamente ignorante e mal-educada, incapaz sequer de tratar de
igual para igual, pessoas como nós. N ão sabe de modo nenhum comportar-se. A sua visita ao castelo deixou-a
irritadíssima, mas também a impressionou de modo evidente. O conde não quis nem recebê-la, mas eu o
aconselhei ir comigo ao hotel para vê-la. Q uando entrou, aquela mulher ficou lívida e logo não encontrou
melhor saída do que irritar-se, e todas as suas perguntas eram mais ameaças.
Realmente S ua S enhoria, aparecendo em toda a nobreza da sua impotente figura aristocrática, media a
senhora de alto a baixo, franzindo as sobrancelhas sem preocupação de ocultar a sua repugnância. D eixou que
falasse sem interrompê-la, e, somente quando ficou quase sem palavra, replicou friamente o conde:
— A senhora, diz que é a esposa de meu filho mais velho: se é verdade, quero dizer, se as suas provas
puderem convencer-nos, a senhora terá a lei da sua parte, e seu filho será Lord Fauntleroy. Pode ficar certa de
que o caso será examinado a fundo e, se as suas pretensões forem justas, a senhora alcançará tudo o que lhe for
devido. Mas, lembre-se bem, que enquanto eu for vivo, sou eu o conde de D orincourt, e não quero vê-los, nem à
senhora nem a seu filho! D esgraçadamente não posso dispor do que acontecerá depois da minha morte. A
senhora é a pessoa que podia supor escolhida por meu filho Névis.
D itas essas palavras, voltou-lhe as costas, saindo majestosamente do hotel como tinha entrado. A lguns
dias depois a senhora Errol escrevia nos seus aposentos do “Palacete”, quando uma das empregadas anunciou
agitadíssima:
— Senhora, é o conde de Dorincourt.
Q uando entrou no salão, a senhora Errol viu em pé, diante da chaminé, um velho de elevada estatura,
imóvel, com um severo perfil, nariz aquilino, longos bigodes grisalhos e duas pupilas que a fitavam com
obstinação e agudeza.
O visitante disse:
— A senhora Errol!?...
— Sou eu — respondeu, imperturbável, a mãe de Cedric.
— S ou o conde de D orincourt — calou-se um instante olhando-a nos olhos, naqueles grandes olhos
afetuosos semelhantes aos olhos infantis que de alguns meses se erguiam para ele com uma confiança
inabalável. A senhora Errol o fitava com aquela mesma confiança, de uma forma tão comovedora, que
emocionou o conde. Quase com rudeza afirmou:
— Seu filho parece muito com a senhora!
— O h! já me disseram tantas vezes, conde, mas parece também muito com o seu pai, e isto me consola
tanto...
D oce e triste era a voz da senhora Errol, com seu porte esbelto e cheio de dignidade, como assim tinha
dito Lady Lorridaille ao seu obstinado irmão, a viúva do capitão Cedric Errol não parecia, de modo nenhum
embaraçada pela visita inesperada.
—- D e fato — anuiu o velho senhor — parece-se muito com meu filho Errol — e passou a mão nos
bigodes nervosamente — A senhora sabe o motivo da minha visita? — perguntou.
— O Sr. Havisham disse-me que já estão bem adiantadas as pretensões.
O conde a interrompeu:
— Eu vim dizer à senhora que serão examinadas com a maior atenção e, se possível, combatidas as
preterições da senhora N évis! Vim dizer-lhe também que seu filho será defendido com todo o poder da lei. O s
seus direitos...
Agora foi a senhora Errol que interrompeu o velho conde; mas, com grande doçura:
— Oh! o pequeno não deve ter nada que não seja seu de direito, nem mesmo se a lei o consentisse.
— Mas a lei não pode muito num caso deste gênero... fará o que for possível, e nada mais. A quela
insolente e seu filho!...
— Talvez lhe queira bem como eu quero a Cedric — murmurou a senhora Errol — e se é verdade que o
filho de V. S. a desposou, é seu filho que é o Lord Fauntleroy e não o meu!
Como a Cedric, a Fátina também o conde não inspirava nenhum temor. Ela o olhava da mesma maneira
como o fazia Cedric, e isto sem incomodar o conde, aliás, muito o agradava. Era uma espécie de novidade para
ele, habituado a ver tremer a gente, quando estava diante dele, que quase o divertia. Franzindo
imperceptivelmente a fronte, perguntou:
— Diria quase que a senhora prefere que o seu filho não seja o conde de Dorincourt!
Um leve sorriso aflorou aos lábios de Fátina, que lhe respondeu:
— O h! sei muito bem o que significa ser o conde de D orincourt, mas me preocupa muito mais que
Cedric seja como o seu pai; honesto, bom, justo e corajoso!
Com sarcasmo o conde replicou:
— Evidentemente tudo o contrário do que foi o seu avô...
— Até hoje, não tinha tido o prazer de conhecer o avô de meu filho, mas, sei que ele crê... — parou,
depois com olhos fixos no rosto do conde acrescentou: — sei que Cedric lhe quer bem.
— A senhora pensa que ele me quereria bem igualmente, se lhe tivesse dito que eu não queria que a
senhora viesse ao castelo? — perguntou bruscamente o conde.
— Não, realmente não o creio, e é precisamente por isso que preferi não lho dizer.
— Bem, pigarreou o conde — poucas mulheres seriam capazes de guardar silêncio.
E pôs-se a caminhar de um lado para outro pelo quarto, confiando nervosamente os bigodes.
Subitamente exclamou:
— S im, a criança me quer bem e eu também lhe quero. Creio que nunca amei a ninguém em toda a
minha vida, mas a ele sim, eu o quero muito. Gostei dele assim que o vi. S ou velho e me sentia tão cansado de
viver, mas aquela criança deu um escopo a minha existência. S into-me orgulhoso dele e pensava com alegria
que um dia seria a personificação dos nossos antepassados gloriosos!
Parou de andar de um lado para outro e, detendo-se diante da viúva de seu filho, deixou escapar:
— S into-me tão infeliz! Tão infeliz... confessou — e via-se que nem mesmo o seu orgulho lhe impedia o
tremor da voz e das mãos. Por um momento, até parece que seus olhos estivessem marejados de lágrimas.
Olhou fixo a senhora Errol, e continuou:
— Vim, talvez, somente porque me sentia assim infeliz... e a odiei porque tinha-lhe profunda inveja. Mas
agora tudo mudou. Bastou-me ver aquela mulher vulgaríssima que afirma ser a esposa de meu filho N évis e
Lady Fauntleroy, para cair na conta da consolação que teria, fazendo-lhe uma visita. O h! mas que velho bobo e
rabugento fui! Certamente tratei mal a senhora, não o duvido. A senhora se assemelha muito a seu filho... e
agora não tenho mais no mundo ninguém, senão a ele.
Por seu amor, trate-me o menos mal possível, bem o mereço!
Pronunciava estas palavras em tom áspero, mas parecia de tal modo abatido, que a senhora Errol se
comoveu. Levantou-se, empurrou para diante uma poltrona, e disse quase afetuosa:
— O senhor não gostaria de sentar-se um pouco? Esses dias de luta devem tê-lo cansado, e é justamente
agora que o senhor precisa de toda a sua força!
Q ue alguém lhe dirigisse a palavra com tanta gentileza e bondade, era mais uma novidade para o conde.
Pensou no netinho e, quase sem o perceber, obedeceu. N a realidade, depois de ter dado apenas um relance de
olhos naquela mulher estúpida que se dizia a esposa de N évis, qualquer figura feminina lhe pareceria
agradável, tão simples e cheia de dignidade era no gesto e nas palavras a senhora Errol, que o conde, como se
alguém tivesse exercido sobre ele um influxo benéfico, se sentiu melhor e pôde enfim falar mais livremente.
Assim recomeçou:
— De resto, aconteça o que acontecer, eu tomarei conta da criança.
Depois, antes de despedir-se, perguntou:
— A senhora gosta desta casa?
— Oh! sim, muito — respondeu sorrindo a mãe de Cedric.
— Realmente... é uma estância alegre. Posso, posso voltar para que falemos ainda, a sós de todas estas
coisas?
— Todas às vezes que o queira — foi a resposta.
O conde subiu à carruagem e voltou ao castelo. Tomás e Henrique não sabiam realmente o que
pensarem de todas aquelas novidades.
XIII

DICK EM CAMPO

D epois dos jornais ingleses, foram os jornais americanos que se ocuparam de toda aquela história de
D orincourt. O argumento era demasiado interessante para que não o disputassem. Todavia as versões eram de
tal modo diversas umas das outras, que seria interessante ler diversos jornais para fazer os confrontos depois,
Mas o S r. Hobbs, pelo contrário, à força de ler tinha acabado por não entender mais nada. Com efeito, num
jornal encontrava descrito o seu amigo Cedric, como uma criança ainda lactente, e em outro o via tornar-se
nada menos que um brilhante estudante universitário, um verdadeiro gênio na literatura grega. E havia um
jornalista que conjecturava, com perfeita convicção, do noivado do ex-Lord Fauntleroy com a lindíssima filha de
um duque, em completo contraste com o seu colega que falava do casamento consumado. Em suma diziam de
tudo, menos a verdade: Q ue era um menino de sete anos, com a cabecinha linda, encaracolada de ouro e duas
perninhas ligeiras. O uvia-se também repetir nas diversas rodas que aquele menino não era de modo nenhum o
neto do conde de D orincourt, mas um pequeno vagabundo, vendedor de jornais, com uma mãe astuta, que
soubera muito bem enganar o advogado, enviado à A mérica pelo conde, à procura do herdeiro. E como os
jornais se distendiam nas descrições do novo Lord Fauntleroy e da mãe que, vez por outra, aparecia como uma
cigana, uma espanhola, uma atriz, etc. O s cronistas, porém, estavam todos de acordo em afirmar que o conde
não queria saber de reconhecer como herdeiro o filho de N évis, Lord Fauntleroy, e não cederia, senão obrigado
pela lei. E já que os documentos exibidos não eram convincentes de todo, estava em vista um rumoroso
processo que interessaria a todo o mundo.
O S r. Hobbs não fazia outra coisa senão ler o dia todo, assim, a tarde, estava com dor de cabeça, o que
não o impedia de discutir calorosamente sempre sobre o mesmo argumento com D ick. E à força de ler e de
falar, conseguiu finalmente entender que raça de personagem era o avô de Cedric, e quanto devia ser rico, com
todas as suas possessões, o castelo, o parque e todo o resto.
Assim o quitandeiro concluiu:
— Em suma, é preciso fazer alguma coisa, conde ou não conde não se pode deixar escapar toda aquela
graça de Deus!
Mas o S r. Hobbs e o pobre D ick que poderiam fazer para ajudarem seu amigo? N ada mais que escrever-
lhe mostrando a sua solidariedade pelos acontecimentos imprevistos. D e fato, mandaram duas cartas a Cedric,
sem mesmo terem conseguido fazer uma idéia exata da situação, mas, antes de enviá-las, leram um para o outro
as respectivas cartas.
Assim dizia a carta de Dick:
— “Caro amigo, recebi a carta que me mandaste e também o S r. Hobbs a recebeu, sentimos muito que
as coisas vão tão mal, mas resista quanto puderes, e não te deixes enganar. Há tantos ladrões em giro que, se
entende, procurarão arrebatar tudo o que puderem de ti, se não tiveres os olhos bem abertos. Eu quero dizer-te
que não me esqueço de tudo o que fizeste por mim e assim, se na I nglaterra não encontrares nada de melhor,
volta para aqui, e vem ser meu sócio. A gora os negócios vão bem, e eu cuidarei de estar atento para que não te
suceda nada, porque, se algum malandro quisesse te ofender, tinha de se haver com D ick Tipton. Por hoje te
saúda o afetuosíssimo Dick”.
Por sua vez Dick leu a carta do Sr. Hobbs:
— “Egrégio senhor, recebi a sua carta, e diria verdadeiramente que as coisas não andam como deviam.
Creia-me: aqui há uma conjuração e é preciso que se descubra quem a tramou. Eu lhe escrevo, para dizer duas
coisas: A primeira que eu quero interessar-me no caso, não se mova, que eu procurarei um advogado e tomarei
conselho. Em segundo lugar, digo-lhe que, se não houver remédio, e todos aqueles condes o puserem para fora,
enganando-o, dê um pontapé em todos e volte para a A mérica, que aqui encontrará ótima colocação no
comércio, na minha venda, e depois também uma casa e um amigo que lhe quer bem e por hoje se subscreve, o
seu devotíssimo Silas Hobbs”.
O “devotíssimo” Silas Hobbs, comentou assim as duas cartas:
— Depois de tudo, mesmo se não for conde, entre mim e ti, dará no mesmo.
— Entende-se — anuiu Dick — eu sempre lhe quis bem.
N a manhã seguinte um dos fregueses habituais de D ick teve uma surpresa. Era um jovem advogado que
começava então a sua carreira, muito pobre e desembaraçado, inteligente e dotado de um caráter esplêndido.
Tinha um escritório pobre, justamente ao lado da banca do engraxate, e todas as manhã tinha o prazer de
engraxar os sapatos, que, a dizer a verdade, não estavam em bom estado, o que não o impedia de brincar com
Dick.

N a manhã de que falamos, o jovem, preparando-se para engraxar os sapatos, trazia entre as mãos um
jornal ilustrado, uma daquelas folhas sensacionais, recheadas de notícias exageradas, exemplificadas com
grande quantidade de fotografias. Lera-o todo, de modo que, antes de sair, deu a Dick, dizendo-lhe:
— Faço-te um presente, dá-lhe uma vista enquanto tomas café, no restaurante de luxo da esquina. Verás
um castelo inglês, e a nora de um conde. D iria que é uma bela senhora, com olhos e cabelos muito negros, mas
está fazendo um barulho louco! Tu deves acostumar-te a tratar com os grandes, D ick. Começa pois com o
excelentíssimo conde de Dorincourt e com Lady Fauntleroy... mas, que há? Enlouquecestes?
A s fotografias das quais tinha falado o jovem estavam justamente na primeira página e D ick fixava uma
com o rosto lívido, olhos arregalados e lábios entreabertos de espanto. Vendo a atitude do menino, o advogado
insistiu curioso:
— Mas, finalmente, Dick, que houve?!...
Realmente não se poderia saber o que pensar vendo o menino segurando aquele jornal estupefato.
Enfim conseguiu falar, e mostrou o retrato da senhora sobre o qual estava escrito em letras garrafais:
“A mãe do pretendente, Lady Fauntleroy”. Parecia uma linda senhora com duas trancas enormes, em
volta da cabeça.
Com uma risada, exclamou.
— Olha aqui, eu a conheço como ao senhor, esta senhora, e melhor ainda!
— Realmente? — E se pode saber onde a encontrastes? N ão terá sido no ano passado, quando fizeste
aquela viagem de recreio a Paris? ou na praia?
Mas agora D ick já não ria. A panhava as escovas e arranjava as latas de graxas, como se tivesse a intenção
de sair.
Às palavras do freguês, replicou:
— Digo-lhe que a conheço... o resto não importa. E, por hoje, encerro o expediente.
D e fato, cinco minutos depois se dirigia à venda. O S r. Hobbs devia ficar estupefato vendo-o chegar
como um raio, em céu sereno, brandindo na mão um jornal. O fegante pela corrida, D ick sacudiu o jornal sobre
o banco, antes de falar, tão emocionado estava.
— Que há? — exclamou o Sr. Hobbs — alguma coisa de mau?
Finalmente Dick pôde falar e disse de um só fôlego:
— Veja esse retrato! Vê aquela senhora ali? N em tão pouco é a esposa de um nobre, nem senhora
nenhuma. O diabo me carregue se aquela não for Mina, a mulher de meu irmão, e como não poderia reconhecê-
la? É bem ela, asseguro-lhe.
— Foi ela quem fez toda essa trama! exclamou D ick, cheio de indignação, foi sempre uma grande
embusteira, e sabe que coisa me veio à cabeça vendo o seu retrato? N um dos jornais que lemos diz que seu
filho tem uma cicatriz no queixo; ponha juntos este retrato e aquela cicatriz, e verá que aquele menino não é tão
nobre quanto eu! É o filho de Ben, e aquela cicatriz fê-la Mina, quando o feriu com o prato que me tinha jogado
na cabeça.
D ick era bastante inteligente e à força de ganhar para si o pão cotidiano, correndo pelas ruas, de uma
grande cidade, tinha-se tornado sagaz e desembaraçado. A prendera ter os olhos abertos e se interessara
enormemente por todos aqueles acontecimentos. S e o pequeno Lord Fauntleroy pudesse por um momento,
apenas naquela manhã, ver a venda do seu amigo, ter-se-ia divertido a valer, se toda aquela discussão só tivesse
por argumento a sorte de outro menino e não a sua.
O S r. Hobbs, agora, sentia-se quase opresso pela sensação da sua responsabilidade, mas D ick não, pelo
contrário, sentia-se todo vibrante de energia e de espírito de iniciativa. A ntes de tudo escreveu a Ben, enviando-
lhe o retrato recortado do jornal e o S r. Hobbs, por sua vez, escreveu a Cedric e ao avô dele. O s "dois amigos
estavam ocupados em escrever, quando no cérebro de Dick nasceu uma idéia:
— O freguês que me deu o jornal é advogado, vamos perguntar a ele o que se deve fazer, os advogados
sabem tudo.
O S r. Hobbs ficou admirado com aquela idéia magnífica, o que confirmava mais uma vez a inteligência
de Dick e seu espírito empreendedor e a aprovou.
— Bem, aqui, precisamos mesmo de um advogado.
Tendo entregue a venda ao caixeiro, vestiu o paletó e saiu com D ick à casa do advogado Harrison, que
ficou bastante surpreendido com toda aquela história, que à porfia narraram os dois amigos de Cedric. D e fato,
se não fosse tão jovem e desocupado, e com grande vontade de fazer alguma coisa, talvez tivesse achado
inverossímil aquela história tão complicada. Mas precisava trabalhar, e conhecia D ick, que soubera expor-lhe os
fatos com tanta precisão. Por sua vez, o Sr. Hobbs acrescentou:
— Q uero que o senhor investigue até ao fundo todo esse negócio: pelo tempo que empregar, eu me
responsabilizo e lhe apresentou seu cartão de visitas: “S ilas Hobbs, secos e molhados”, com o respectivo
endereço.
— Está bem — respondeu o advogado — creio que acabaremos tendo razão. E será uma bela fortuna
para Lord Fauntleroy, e também um pouco para mim. Como quer que seja, é preciso fazer investigações
profundas.
Parece que a senhora se contradisse sobre a idade do menino e tenha despertado suspeitas. A ntes de
tudo, é necessário escrever ao irmão de Dick e ao advogado do conde de Dorincourt.
D e fato, antes que o sol se pusesse, partiam duas cartas: Uma para a I nglaterra e outra para a Califórnia,
a primeira endereçada ao advogado Havisham e a outra a Benjamin Tipton.
N aquela tarde, depois de fechar a venda, o S r. Hobbs e D ick ficaram até a meia-noite a comentar os
acontecimentos do dia.
XIV

VOLTA A SERENIDADE

N ão nos enganamos afirmando que as coisas mais inverossíveis podem acontecer em tempo
estranhamente breve: Poucos minutos foram suficientes para mudar a sorte da criança que balançava as
perninhas do alto do banco do S r. Hobbs, fazendo dele um filho da aristocracia inglesa, herdeiro de um título
histórico e de um patrimônio ingente. Poucos minutos bastaram também para fazer dele um pequeno
impostor, presumivelmente, sem o mínimo direito a todos os esplendores, que por alguns meses tinha gozado.
E, por fim, bastou pouquíssimo tempo para mudar a face das coisas outra vez, de modo que a criança reavesse
tudo o que perdera. N a realidade a coisa não foi tão difícil, porque aquela que se fazia chamar então Lady
Fauntleroy não era bastante astuta para manter a sua parte, e interrogada habilmente pelo S r. Havisham,
sobretudo no que dizia respeito ao seu casamento com o filho do conde de D orincourt e sobre o seu filho, se
contradissera muitas vezes não deixando de suscitar suspeitas, finalmente, perdendo a cabeça de todo, se
atraiçoara.
A s contradições se referiam à criança porque, sobre o se casamento com N évis, parecia não deixar
dúvidas. Ele a tinha desposado verdadeiramente separando-se dela pouco tempo depois e dando-lhe uma soma
de dinheiro para a sua manutenção. Mas, que a criança tivesse nascido em certo bairro de Londres, era falso. À
agitação produzida por tal descoberta se acrescentou a causada pela carta do advogado de N ova York, e por
quanto tinha escrito o Sr. Hobbs.
O S r. Havisham leu aquelas duas cartas ao conde na sua biblioteca e aquela tarde ficou realmente
memorável!
Depois de tê-las discutido e comentado, o advogado da casa de Dorincourt disse:
— D epois da minha terceira conversa com aquela mulher, as minhas suspeitas se transformaram em
convicções. A criança parecia-me maior do que a idade declarada pela mãe, e, falando da data do nascimento,
lhe escapara um erro que inutilmente procurara emendar. A gora estas cartas são uma Confirmação das minhas
suspeitas. Parece-me que o melhor que se pode fazer é mandar chamar imediatamente aqueles dois Tiptons,
sem que a senhora o saiba, e depois, quando menos o esperar, confrontá-los com eles. S e, como creio, as suas
palavras não passam de uma impostura, se atraiçoará, vendo-os.
Foi o que aconteceu. O S r. Havisham não disse uma palavra do seu projeto a Mina, e impediu que
pudesse nascer nela qualquer suspeita, continuando a declarar-lhe que as suas pretensões estavam sendo
examinadas, e assim que, tranqüilizada, ela se tornava cada vez mais insolente e pretensiosa.
Mas, uma manhã, enquanto estava no Hotel, a construir para si grandiosos planos para o futuro,
anunciara-lhe o S r. Havisham, mas quando entrou não vinha só. S eguiam-no três pessoas: um jovem rapaz, um
menino de aspecto vivo e inteligente, e por último, quem? O conde de Dorincourt.
A mulher levantou-se abruptamente e um grito de pavor fugiu-lhe dos lábios trêmulos: pensava que
aquelas duas pessoas estivessem longe, milhas e milhas de distância, e, se uma vez ou outra pensava neles,
afastava-os imediatamente do pensamento, julgando que nunca mais os veria.
Dick, sorridente saudou-a:
— Olá, Mina!
Ben, ao contrário, pôs-se a fitá-la em silêncio.
— Conhecem-na? — perguntou-lhes o advogado.
— Muito bem... e também ela me conhece — respondeu Ben que, lhe voltou as costas, dirigindo-se à
janela, como se não pudesse nem mesmo suportar o seu aspecto.
Dick ria ouvindo os seus esbravejos e as suas ameaças de vingança, mas Ben dirigiu-se ao advogado:
— Estou disposto a jurar quem é ela, em qualquer tribunal e com uma dúzia de testemunhas, se
necessário. S eu pai é um homem honesto, mesmo pobre, sua mãe era como ela. A gora é morta, mas o pai ainda
vive, e é um homem bastante honesto para reconhecê-la como filha, mesmo que se envergonhe de tal filha. Ele
poderá dizer-lhe se somos ou não casados.
Cerrou os punhos de raiva e perguntou-lhe:
— Onde está a criança? Para ele e para mim, acabaram-se as relações contigo.
J ustamente naquele instante se abriu a porta e a criança, talvez atraída pelas vozes, um tanto ásperas e
entrou. N ão era um menino bonito, mas tinha um rostinho simpático muito parecido com o de Ben, no queixo
notava-se visível a cicatriz. O pai tomou-lhe as mãos... e as suas tremiam:
— S im, — afirmou — poderia também jurar, por quanto diz respeito a ele — dirigindo-se ao menino,
disse-lhe:
— Eu sou teu pai, e te levarei comigo, onde está teu chapéu? A criança lhe mostrou em cima de uma
cadeira e parecia contente com a novidade de ter um pai. Tinha passado por tantas coisas, que nem mesmo
estranhava que um homem de quem nunca se recordara de tê-lo visto, lhe dissesse de repente ser seu pai.
N unca tivera a menor simpatia por aquela que um belo dia chegada ao povoado onde morava com a sua mãe de
criação, dizendo-lhe que era a sua mãe; de modo que aquela nova mudança muito lhe agradava.
Ben aproximou-se da porta dizendo ao advogado:
— S e tem novamente necessidade de mim, sabe onde pode encontrar-me — e saiu com a criança, sem
mesmo dirigir um último olhar àquela que um dia fora a sua esposa, e que bramava impropérios como uma
possessa, enquanto o conde, calmíssimo, a fixava por cima dos óculos.
Entretanto, o advogado dizia:
— Creio, senhora, que é melhor acalmar-se, de nada adiantarão os seus esbravejos, deve dar-se por
muito feliz por não entregarmos à polícia como uma... impostora!
O S r. Havisham tinha uma voz tão gélida dizendo estas palavras, que Mina, sentindo um calafrio de
medo, compreendeu que era melhor para ela, ir-se embora, e depois de olhar longamente pela última vez, saiu
batendo a porta num último acesso de ódio, e refugiou-se no quarto contíguo.
— N ão nos dará mais aborrecimentos — afirmou tranqüilamente o advogado — e de fato, naquela
mesma tarde, ela partiu para Londres e dela não se soube mais nada.
Saindo do Hotel, o conde subiu na carruagem, ordenando a Tomás: depressa ao “Palacete”.
— A o “Palacete” — repetira Tomás ao cocheiro,acrescentando: — eu não tinha dito que as coisas
tomariam outra forma... inesperada?...
Q uando a carruagem parou diante do “Palacete”, Cedric estava na sala com sua mãe. O conde entrou
sem mesmo fazer-se anunciar: parecia feliz e rejuvenescido. Os olhos lhe brilhavam felizes.
— Onde está Lord Fauntleroy? — perguntou.
A senhora Errol, enrubescendo levemente, adiantou-se-lhe:
— Mas é mesmo Lord Fauntleroy? — replicou — mesmo?
O conde estreitou-lhe a mão sorrindo:
— S im senhora — respondeu, depois apoiando a outra mão nos ombros de Cedric, que acorrera ao seu
encontro e com sua acostumada maneira autoritária disse:
— Fauntleroy, pergunta a tua mãe quando quer ir morar conosco no castelo.
Cedric lançou os braços em volta do pescoço da sua mãezinha:
— Mamãe, vai morar conosco! Ficar conosco! Para sempre!
O conde contemplava a senhora Errol e ela o fitava longamente. S ua S enhoria dissera seriamente,
porque assim o decidira e não queria perder mais tempo. Começava agora a compreender que tinha todo o
interesse em fazer amizade com a mãe de seu herdeiro.
Docemente Fátina perguntou:
— O senhor quer mesmo que eu vá morar no castelo?
Com toda a franqueza o conde respondeu:
— O h! sim, certíssimo! Realmente há muito tempo que o queremos, mas não tínhamos compreendido o
quanto, até este momento. Esperamos que a senhora venha.
XV

CEDRIC FESTEJA SEU OITAVO ANIVERSÁRIO

Ben voltou para a Califórnia levando o seu filho e lia-se no seu rosto a mais viva satisfação. O conde,
desejoso de fazer alguma coisa por aquela criança, que por um momento pensara ser Lord Fauntleroy, seu
herdeiro, decidiu adquirir na Califórnia uma grande fazenda, e oferecê-la a Ben a fim de que pudesse tirar dela
boa renda, assegurando assim o futuro do seu filho. Comunicou esta boa notícia a Ben, pelo seu advogado, e
Ben partiu com a esperança de ser em breve o feitor de uma grande fazenda, destinada a se tornar mais tarde
sua propriedade, depois de algum tempo. E realmente assim aconteceu, enquanto Tom crescia, tão bom e
trabalhador, que compensava o pai dos desgostos que tinha sofrido.
O S r. Hobbs e D ick, que atravessaram o oceano para estarem certos que o negócio se arranjasse em prol
do seu pequeno amigo não voltaram logo: o conde, de fato, quis tomar conta de D ick e dar-lhe uma boa
educação, e, quanto ao S r. Hobbs, tendo entregue a venda ao caixeiro, resolveu ficar na I nglaterra para assistir
às festas que se realizariam em D orincourt, por ocasião do oitavo aniversário de Lord Fauntleroy. Todos os
moradores foram convidados. Preparava-se um grande banquete no parque e muitos jogos e numerosos fogos
de artifício para a noite.
— J ustamente como para 4 de julho! — comentava entusiàsticamente Cedric. É pena que o meu
aniversário não seja no mesmo dia. Assim poderíamos festejar juntamente as duas datas.
Para sermos sinceros, o sr. Hobbs e o conde não fizeram logo amizade, como seria de esperar, para o
bem da aristocracia inglesa. Talvez porque o conde, na sua vida, não tivera ocasião de conhecer quitandeiros, e
o S r. Hobbs não tivera muita intimidade com os nobres. E, durante os seus raros encontros, a conversa passava
logo a perder o interesse. E também o S r. Hobbs ficara um pouco desorientado pela magnificência que Cedric
fizera um dever mostrar-lhe. D esde o primeiro momento, o portão de entrada e os leões de mármores
impressionaram o S r. Hobbs, e depois, quando vira o castelo, o jardim, os viveiros, os terraços, os brasões, as
escadarias, cavalariças, o subterrâneo, a criadagem uniformizada, ficara realmente boquiaberto. Mas, o que
mais chamara a sua atenção, foi a galeria dos retratos.
— N ão é um pouco como um museu? — perguntara a Cedric, que apesar de um pouco em dúvida, lhe
respondera: — Não, não creio que seja museu: vovô diz que aqueles são todos os meus antepassados.
— D eus meu! -— Todos? Todos mesmo? Mas que raça de família tinha o teu avô e como fazia para
manter toda aquela gente?
O Sr. Hobbs parecia preocupado com aquele problema, cuja solução não era fácil encontrar.
Com certa dificuldade, Cedric explicou-lhe que os retratos da galeria não pertenciam aos membros de
uma só família, contudo foi necessário a ajuda da governanta, informadíssima de tudo que dizia respeito aos
retratos e aos pintores que os realizara, para esclarecer o assunto, com muitas narrações interessantes sobre as
damas e os cavalheiros que revestiam as suas efígies magníficas, as paredes marmóreas do castelo. O S r. Hobbs
ficou encantado e criou logo tal simpatia pela galeria que muitas vezes vinha do hotel, onde estava hospedado,
para passar ali uma meia hora a contemplar aquela gente imóvel, que por sua vez o Contemplava e balançava a
cabeça a cada passo, dizendo:
— E pensar que todos estes condes ou pouco menos!... murmurava. — E pensar que um dia também ele
será conde e senhor de todas estas belas coisas!
S entia-se um pouco menos descontente dos condes e do seu modo de viver, e era para temer-se que seus
princípios, rigidamente republicanos, se ressentissem um pouco, com aquela sua intimidade com castelos,
antepassados, etc.
Um dia o Sr. Hobbs deixou escapar uma declaração inteiramente inesperado e notável:
— Ora, apesar de tudo, não me desgostaria muito de ser um deles...
Realmente era uma grande confissão!
Q ue dia passou Lord Fauntleroy pelo seu aniversário, e como se divertiu! O parque estava estupendo,
com toda aquela gente que se apinhava nas alamedas, vestida de festa, com todas aquelas barracas
embandeiradas, e a bandeira dos D orincourt, a tremular do alto do castelo. Todos os que puderam acorreram à
festa, porque sentiam grande satisfação que Lord Fauntleroy ficasse sendo a criança que todos aprenderam a
amar, e que no seu lugar não viesse outro desconhecido. Todos queriam ver Cedric e sua mãe, que se fizera
amar em toda a região. Todos faziam agora melhor opinião do conde, porque o netinho lhe demonstrava tanta
afeição, e também por que se reconciliara com a senhora Errol e tratava-a com grande respeito: dizia-se até que
lhe queria muito bem, e era de esperar-se que, por causa daquela criança e de sua mamãe, o conde se tornaria
um “grande” senhor, em prol de todos os seus súditos.
Q uanta gente debaixo das árvores e nos campos, à sombra das barracas. Camponeses e camponesas em
trajes de festa, meninos e meninas, moças e velhas com seus garridos chalés domingueiros.
N o castelo, pelo contrário, encontravam-se os nobres senhores que tinham vindo juntamente com suas
esposas, para assistirem à festa, a dar os parabéns ao conde e felicitar a mãe dê Fauntleroy, que, pela primeira
vez, era apresentada oficialmente como Lady Fauntleroy.
Lady Lorridaille viera com o marido, S ir Tomás A sshe, com as filhas. Estavam naturalmente o advogado
Havisham e a graciosa Miss Herbert, que vestia de branco, com uma sombrinha de organdi florido, era algo
encantador, e um brilhante séquito de admiradores, aos quais, todavia, a moça preferiu a companhia do
pequeno Lord, que, apenas a vira, lhe correra ao encontro para abraçá-la. Ela retribuiu o abraço, e, tratando-o
afetuosamente como se fosse um seu irmãozinho, disse-lhe:
— Meu querido pequeno Lord Fauntleroy! Como estou contente!
D epois deu um giro pelo parque levando a criança pela mão, ouvindo as suas explanações sobre tudo.
Quando encontraram Dick e o Sr. Hobbs, Cedric os apresentou a Miss Herbert:
— Este é o meu velho amigo, S r. D ick Tipton, e este é outro velho amigo, S r. S ilas Hobbs. J á sabem que a
senhora é muito bonita e que eu esperava que não faltasse a esta festa, para conhecê-los.
Então miss Herbert apertou a mão dos dois amigos de Lord Fauntleroy, pedindo notícias de sua viagem
e se gostavam da I nglaterra, enquanto Cedric a contemplava extático, feliz de ver que também D ick e o S r.
Hobbs achavam Miss Herbert... realmente bonita.
Tinha dito Dick, com certa solenidade:
— É realmente a mais bela moça da festa. Parece uma flor, sou eu quem te diz.
D e fato, todos olhavam quando ela passava, mas também contemplavam a Lord Fauntleroy. E o sol
descambava, e as bandeiras se agitavam no ar, e as pessoas bailavam alegres. N aquela tarde linda, o pequeno
Lord estava de tal modo feliz, que o mundo inteiro lhe parecia um sonho maravilhoso.
Mas havia outra pessoa que, talvez, pela primeira vez na vida, se sentia verdadeiramente feliz, talvez
porque se sentisse um pouco melhor: era o conde de D orincourt, que apesar de ser de nascimento nobre e rico,
não tinha muitos motivos para sentir-se satisfeito da sua existência. N a realidade não se tornara de um dia para
outro perfeito, como pensava Cedric, mais ao menos agora amava alguém, e experimentava certo prazer em
levar a cabo as boas obras que lhe sugeria a bondade de seu netinho, e esta já era uma promessa para o futuro.
A chava cada dia mais simpática a viúva de seu filho, e se podia dizer, sem temor de engano, que já começava a
amá-la. Certo, porque gostava de contemplá-la, de ouvi-la falar, com aquela voz suave e encantadora. Pela
primeira vez, o velho senhor ouvia palavras afetuosas e começava a entender como tinha sido possível que uma
criança, que vivera numa modesta casinha de N ova York, amigo de um quitandeiro e de um engraxate, se
comportasse como criança perfeitamente bem-educada e soubesse sempre fazer-se honrar em qualquer ocasião
sempre à altura da sua nova situação.
Parece uma coisa pequena, mas, na realidade, não há nada que tenha mais importância neste mundo. O
pequeno Lord não sabia nada de condes e de castelos, e de patrimônios, mas sabia fazer-se querido de todos,
porque era simples, modesto e afetuoso, e quem é assim é bem digno de ser até filho de um rei.
J ustamente por isso, naquele dia, o velho conde estava tão contente, vendo passear de um lado para
outro seu netinho no parque, apinhado, saudando aqueles que conhecia, respondendo graciosamente àqueles a
quem desconhecia, e conversando animadamente com seus amigos americanos, ou parando perto de sua mãe
ou de miss Herbert para ouvir atento o que diziam. N unca se sentira tão feliz o avô de Cedric, quando pôde
entrar, tendo ao lado o pequeno Lord, debaixo de uma ampla barraca, na qual os moradores mais importantes
das terras de D orincourt se reuniam diante de uma mesa, magnificamente preparada. N aquele momento
estavam brindando, e, depois de terem bebido à saúde do conde com entusiasmo, mais que o ordinário, alguém
propôs que se fizesse um brinde a Lord Fauntleroy. S e houvesse alguém que duvidasse da popularidade de
Cedric, seria convencido, apenas assomando a cabeça naquela barraca, onde o nome de Lord Fauntleroy se
confundia com o entre chocar de brindes, aplausos, champanha, e bênçãos. A quela boa gente amava de tal
modo o netinho do castelão, que não sentiam nem ao menos que eram súditos, agora que ambos vieram do
castelo para saudá-los. D ebaixo da barraca fazia-se um grande rumor, e as mulheres, vendo aquela bela criança
no meio delas, entre a mãe e o avô, comovidas, murmuraram de coração:
— Deus o proteja!
Cedric estava radiante, sorria e saudava a todos, dizendo a sua mamãe:
— Por que me querem tanto bem, mamãe? É mesmo verdade? Estou tão contente!
O conde, pondo a mão nos ombros de Cedric, disse-lhe:
— Fauntleroy, é preciso que agradeças a todas essas pessoas que são tão gentis para contigo.
Cedric olhando ligeiramente para a mãe e depois para o avô, estava um pouco intimidado, e, por isso,
perguntou em voz baixa:
— D evo fazê-lo? — mas Fátina sorriu e também miss Herbert, que chegava, acenou com a cabeça que
sim.
E então Cedric adiantou-se um pouco, enquanto todos o contemplavam, tão belo, com seu rostinho
confiante; sua voz firme e clara fêz-se ouvir no silêncio, que se estabelecera de repente:
— Estou agradecido pela vossa gentileza, e espero que vos tenhais divertido na minha festa, porque
também eu me diverti e estou muito contente de dever um dia ser conde. A ntes não acreditava que gostaria,
mas, agora sim, e amo tanto a este país, que muito me agrada e... quando for conde, procurarei ser bom como o
vovô.
D eu um passo atrás, tomando fôlego, enquanto ressoavam os aplausos, e, dando a mãozinha ao conde,
se apoiou nele, contente e sorridente.
E depois disto a nossa história estaria terminada, mas há ainda alguma coisa que vos devo dizer:
O S r. Hobbs sentiu-se de tal modo atraído pela vida aristocrática e de tal modo desejoso de não deixar
mais o seu pequeno amigo inglês, que decidiu vender a sua mercearia de N ova York, e estabelecer-se na
povoação de Erlebor, onde abriu um negócio, que protegido pelos senhores do castelo, não deixou
naturalmente de prosperar. A pesar de não conseguir, mal grado a sua boa vontade, de tornar-se amigo íntimo
do conde, todavia, com o andar dos tempos, acabou, por fazer-se ainda mais aristocrático do que S . S enhoria,
em pessoa, o conde, até o ponto de ler cada manhã, com a maior atenção, as notícias da Corte, e as discussões
da câmara dos Lordes.
Q uanto a D ick, quando dez anos depois acabou a sua educação, partiu para a Califórnia, para viver com
seu irmão Ben, e perguntou ao Sr. Hobbs, se queria partir com ele, mas ouviu a seguinte resposta:
— O h! não, para viver ainda aí, não. Q uero ficar perto dele, bem pertinho. A A mérica é um país que está
bem para quem é jovem e tem vontade de trabalhar, mas tem também os seus inconvenientes... lá não há
antepassados... e nem sequer um conde!
Disponibilização: Marisa Helena
Digitalização: Marina
Revisão: Edna Santos