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ETNOGRAFIA NA PESQUISA EM SAÚDE: ALCOOLISMO, DOENÇA E


SIGNIFICADO EM UM GRUPO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.

Edemilson Antunes de Campos1

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Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Universidade de São Paulo, Brasil. edicampos@usp.br

Resumo. O objetivo deste artigo é apresentar a importância do método etnográfico de pesquisa no campo
da saúde, a partir de uma pesquisa realizada em grupo de Alcoólicos Anônimos (A.A.), localizados na
periferia da Cidade de São Paulo-Brasil. Trata-se de abordar a etnografia como método de compreensão
antropológica da diversidade sociocultural e, por essa via, compreender sua importância na pesquisa sobre
a saúde e o adoecimento, a partir de uma pesquisa etnográfica realizada em um grupo de A.A. O método
etnográfico de pesquisa constitui um conjunto de concepções e procedimentos utilizados, tradicionalmente,
pela Antropologia, com o objetivo de compreender cientificamente uma dada realidade sociocultural. Nesse
sentido, sua utilização no campo da saúde pode ser uma ferramenta fundamental, na medida em que
revelam que a saúde e a doença estão diretamente ligadas a um contexto sociocultural.
Palavras Chaves: Alcoólicos Anônimos, Alcoolismo, Etnografia, Processo saúde-doença

Ethnography In Health Research: Alcoholism, Disease And Meaning In A Group Of Alcoholics Anonymous.
Abstract. The purpose of this article is to present the importance of the ethnographic method of research in
the field of health, based on a survey conducted in a group of Alcoholics Anonymous (A.A.), located in the
outskirts of the City of São Paulo-Brazil. It is a question of approaching ethnography as a method of
anthropological understanding of sociocultural diversity and, by this way, understanding its importance in
research on health and illness, based on an ethnographic research carried out in A.A. The ethnographic
method of research is a set of conceptions and procedures traditionally used by Anthropology in order to
understand scientifically a given sociocultural reality. In this sense, its use in the field of health can be a
fundamental as they reveal that the health and illness are directly linked to their way of life within a
sociocultural context.
Key Words: Alcoholics Anonymous, Alcoholism, Ethnography, Healtn-Ilness Process

1 Introdução

O campo da saúde se constrói a partir da complexidade das práticas, dos valores e do estilo de vida
próprios aos grupos populacionais. Logo, esse campo se revela como um espaço privilegiado para a
reflexão antropológica, na medida em que se desenvolve em contextos de relações de alteridade, a
partir dos modos de vida e das práticas dos grupos sociais.
As pesquisas qualitativas, que ocupam cada vez mais espaço no campo da saúde, evidenciam a
prevalência das questões socioculturais e dos marcadores sociais da diferença: “classe social”,
“etnia”, “gênero”, “raça” na determinação do processo saúde-doença e das práticas de cuidado.
Essas pesquisas revelam como os processos patológicos não são imunes à produção social da
diferença, articulando-se aos sistemas de classificação social e aos modos de construção simbólica
dos corpos, da saúde e das doenças e suas práticas terapêuticas.
Assim, se é certo que o corpo humano possui uma anatomia e uma fisiologia universais, os diferentes
grupos sociais concebem o corpo, a doença e os cuidados com a saúde de uma maneira
extremamente diversificada. Os limites entre o interno e o externo, o normal e o patológico
assumem registros diversos dentro dos contextos socioculturais em que são estabelecidos (Uchôa &
Vidal, 1994).

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O campo da saúde envolve fenômenos complexos, abarcando aspectos biológicos, econômicos,


políticos e socioculturais, de modo que a antropologia e seu método etnográfico de investigação
convertem-se em instrumentos poderosos, na medida em que revelam que as práticas de saúde de
uma população estão diretamente ligadas ao seu modo de vida dentro de um contexto sociocultural.
É o que revela pesquisas realizadas em saúde, particularmente em enfermagem, que tem se valido
do método etnográfico para a compreensão da dimensão sociocultural nas práticas de cuidado
(Lenardt & Michel, 2013; Nakamura, 2009).
Nesse artigo, busca-se refletir sobre a importância do método etnográfico nas pesquisas em saúde.
Trata-se de abordar a etnografia como método de compreensão antropológica da diversidade
sociocultural e, por essa via, compreender sua importância e sua especificidade na pesquisa sobre a
saúde e o adoecimento, a partir de uma pesquisa etnográfica realizada em um grupo Alcoólicos
Anônimos.

2 O método etnográfico e a antropologia

O método etnográfico de pesquisa constitui um conjunto de concepções e procedimentos utilizados,


tradicionalmente, pela Antropologia, com o objetivo de compreender cientificamente uma dada
realidade sociocultural. Desde os estudos clássicos de Malinowiski, (1986), fazer antropologia se
confunde com a prática da etnografia no desvelamento de formas de vida e de pensar diferentes das
nossas.
Para Lévi-Strauss, (2001), a tarefa da antropologia é buscar a origem simbólica da vida social. Assim,
se estabelece a primazia do simbólico para a compreensão da vida social culturalmente ordenada,
redefinindo o projeto da antropologia ao sinalizar para a formulação de uma “teoria simbólica da
sociedade”.
Trata-se, assim, de afirmar a identidade entre o simbólico e o social. Logo, o pesquisador deve
atentar para todas as manifestações e dimensões da vida social e cultural dos grupos estudados, pois
é por meio delas que se manifesta a totalidade do social. É assim que a diversidade sociocultural se
constrói como uma realidade na qual nossa humanidade se concretiza.
Todavia, para a apreensão do social como construção simbólica é preciso que olhemos para a
experiência concreta dos indivíduos. Dessa maneira, é possível entender o elo existente entre o
simbolismo e as práticas individuais, que compõem a totalidade da vida social. Assim, para
compreender os fatos sociais é fundamental observar como as diferentes dimensões da vida social
(economia, arte, religião, ciência, parentesco, linguagem) se articulam e se encarnam no modo de
vida dos indivíduos.
Nessa linha, o método etnográfico é fundamental para a compreensão dos aspectos simbólicos da
vida social, na medida em que se baseia na ideia de que os comportamentos humanos só podem ser
suficientemente compreendidos dentro do contexto sociocultural no qual eles estão inseridos.
Com efeito, a noção de cultura é central na compreensão simbólica da vida social. Essa noção já foi
objeto de várias reflexões ao longo da história da antropologia, mas atualmente, cada vez mais, a
cultura é entendida como o conjunto de regras que orienta e dá sentido às práticas e
comportamentos dos indivíduos dentro de um determinado contexto sociocultural.
A cultura é o universo simbólico que permite aos indivíduos de um determinado grupo social
interpretar a experiência vivida e guiar suas ações. Ela se constitui no contexto no interior do qual os
diferentes eventos – os cuidados em saúde, por exemplo –, tornam-se inteligíveis.
A perspectiva antropológica não nega o caráter universal de certos fenômenos biológicos (a doença e
a saúde), mas procura entender o significado específico que esses fenômenos assumem numa dada

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sociedade, visto que os registros de normalidade e anormalidade são, fundamentalmente,


determinados a partir de valores próprios a um contexto sociocultural específico (Helman, 2003).
Nessa perspectiva, a saúde e a doença são concebidas como realidades simbolicamente construídas,
tanto por condições físicas e coordenadas biológicas quanto pelas relações sociais e culturais no
interior das quais os indivíduos inserem e modulam sua subjetividade. Ou seja, a realidade simbólica
é chave para a compreensão do processo saúde-doença e das implicações deste sobre o organismo,
bem como das práticas de cuidados em saúde vivenciadas dentro de um determinado contexto
sociocultural (Kleinman, 1980; Good, 1994).
Nessa linha, torna-se fundamental apreendermos o “ponto de vista dos nativos”, isto é, o ponto de
vista dos sujeitos da pesquisa, a partir da compreensão dos significados que determinadas práticas
sociais têm para aqueles que as vivenciam. Significados, esses, que dão sentido à realidade e por
meio dos quais os atos cotidianos, os eventos, os fatos, as ações e, inclusive a própria saúde e a
doença, tornam-se inteligíveis para aqueles que os vivenciam e sem os quais não existem como
categorial cultural.
Nesse contexto, o trabalho de campo, com a realização de observações in loco sobre os
comportamentos vivenciados no território da pesquisa, é fundamental permitindo a construção de
um conhecimento baseado no confronto entre nossas hipóteses e nossas observações.
Durante um trabalho de campo, todos os aspectos da vida social devem ser observados, destacando-
se: o modo como o espaço é organizado, as relações entre o ambiente interno e externo, os
comportamentos que os sujeitos de pesquisa mantêm entre si, com ênfase nas “normas” de conduta
implícitas e explicitas; a linguagem não-verbal, os gestos, toques, o tom de voz, bem como o
vocabulário êmico, isto é, as expressões que definem o modo como os sujeitos de pesquisa
compreendem e expressam suas aflições, dentro da lógica que rege o contexto sociocultural no qual
estão inseridos (Victora, Knauth &Hansen, 2000).
Para operacionalizar a pesquisa, o pesquisador deve contar com um diário de campo, no qual deve
fazer um registro fiel e detalhado de todas as atividades observadas em cada visita ao campo de
estudo. As informações do diário serão fundamentais tanto para expandir as informações obtidas no
campo, quanto na análise posterior das informações colhidas, oferecendo subsídios valiosos para a
análise do material coletado durante a observação sistemática.
O método etnográfico proporciona um conhecimento denso, íntimo, que prioriza a qualidade do
dado, de modo que é justamente aqui que se situa sua “veracidade”. Ao priorizar a convivência do
pesquisador com os sujeitos da pesquisa, durante o trabalho de campo, a etnografia exige um olhar
treinado e atento, uma observação e descrição minuciosa dos comportamentos, com a consequente
familiarização do pesquisador com os sujeitos de pesquisa dentro do contexto no qual estão
inseridos. Logo, é um exercício fundamental para o pesquisador que se inicia na pesquisa científica
qualitativa, particularmente no campo da saúde.

3 Ao encontro de Alcoólicos Anônimos

A realização de um trabalho de campo, contudo, não se limita à simples coleta de dados para a
pesquisa. Como lembra Geertz, (1989), o etnógrafo “inscreve o discurso social” em suas anotações,
transformando-o de acontecimento passado em um relato que existe em sua inscrição.
O itinerário etnográfico só se completa no momento da escrita, no qual a etnografia se converte,
para usar, ainda, uma expressão de Geertz, (1997), em “tradução”. Ou seja, é durante a escrita que
os dados etnográficos são lapidados e possibilitam entrever a lógica das formas de expressão deles
[os ‘nativos’], com nossa fraseologia. Dessa maneira, as formas de expressão e de pensamento de
nossos sujeitos de pesquisa são tratadas com seriedade, isto é, consideradas como um objeto de
descrição analítica e de reflexão interpretativa.

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O trabalho de campo nos coloca, assim, diante do universo do outro; e viver essa experiência da
alteridade também implica um questionamento sobre nós mesmos. Vive-se uma situação complexa,
na qual o necessário engajamento exigido para a compreensão do “ponto de vista dos nativos”
também traz consigo a problematização da questão epistemológica dos limites entre o pesquisador e
o pesquisado, o que se evidencia ainda mais quando pesquisamos no campo da saúde.
Não podemos nos esquecer, como bem aponta Adam & Herzelich, (2001), que a doença exige uma
interpretação, relacionando-se às representações, às crenças e aos valores de um determinado
grupo social. Logo, é muito comum em uma pesquisa no campo da saúde o confronto com as crenças
dos sujeitos da pesquisa, tais como, por exemplo: a de atribuir as causas do adoecimento à ordem
sobrenatural, preferir seguir as recomendações de um curandeiro às de um médico, ou mesmo os
rituais de cura das religiões afro-brasileiras.
Esses fatos nos colocam diante da necessidade de se levar a sério as concepções de nossos sujeitos
de pesquisa, para que possamos compreender a lógica que rege suas ações. Todos nós temos uma
interpretação para o mal que nos aflige e compreender a lógica dessa interpretação é a tarefa da
etnografia em saúde.
A pesquisa etnográfica em saúde implica, portanto, em rompermos com a dicotomia clássica da
ciência positiva entre sujeito e objeto do conhecimento. Na etnografia, estamos diante de um
encontro entre dois sujeitos que, na interação própria ao trabalho de campo, negociam suas
posições numa troca constante que molda o processo de produção de conhecimento.
Esse processo fica ainda mais evidente quando pesquisamos em nossa própria sociedade, tal como,
por exemplo, na etnografia realizada em um grupo de doentes, a irmandade de Alcoólicos Anônimos
(A.A.). O A.A. é, de acordo com sua literatura oficial, “uma irmandade de homens e mulheres que
compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e
ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo” (Alcoólicos Anônimos, 1996). Trata-se, assim, de um
modelo terapêutico para o tratamento e controle do alcoolismo, que conta com reuniões periódicas,
cujo objetivo é ajudar seus membros a evitar o “primeiro gole” e, assim, a manter a sobriedade. No
Brasil, atualmente, existem cerca de cinco mil grupos de A.A.
Nessa pesquisa, foi estudado o grupo Sapopemba de A.A localizado na Zona Leste da Cidade de São
Paulo-Brasil. O grupo Sapopemba de A.A faz parte do 42º distrito de Alcoólicos Anônimos do Estado
de São Paulo, do Setor A – Capital (Campos, 2010). A escolha desse grupo deveu-se ao fato de se
tratar de um já consolidado na promoção de reuniões de recuperação, que acontecem desde sua
fundação, em 16 de março de 1981.
O grupo Sapobemba de A.A. é formado por trabalhadores, na sua maioria casados. Nesse contexto, o
trabalho e a família são referências simbólicas fundamentais, permitindo-lhes atribuir um sentido à
experiência do alcoolismo, ao mesmo tempo em que definem uma compreensão própria de si
mesmos.
O distrito de Sapopemba localiza-se em uma região limítrofe com o parque industrial do ABC,
conhecido pela grande concentração de indústrias do setor automobilístico. Essa proximidade,
decisiva para a configuração social do distrito, foi responsável pelo fluxo migratório, a partir dos anos
1950, de um grande contingente populacional, atraído pela promessa de melhores condições de
vida.
O bairro concentra uma população majoritariamente trabalhadora, que depende do próprio salário
para sua reprodução social, e assemelha-se, em sua forma, aos bairros vizinhos, delineando os
contornos de uma paisagem composta por casas simples, ou inacabadas, ou em processo de
construção, e que servem de local de moradia, ao mesmo tempo, para a própria família e para a de
seus filhos, quando estes vêm a se casar.
O distrito abriga ainda uma escola de samba, a Combinados de Sapopemba, da qual fazem parte
alguns membros de A.A., e cujos ensaios para o carnaval mobilizam os moradores em seus

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momentos de lazer. No mês de junho, ocorre o aniversário do distrito, que é comemorado em uma
grande festa, a Festa de Sapopemba, engajando seus moradores nos preparativos necessários à sua
organização e realização. Há também uma igreja católica, centros espíritas e terreiros de umbanda,
que convivem com uma quantidade cada vez mais crescente de igrejas evangélicas, instaurando um
circuito religioso pelo qual seus moradores circulam, participando de atividades que, muitas vezes,
concorrem com as poucas opções de lazer oferecidas na região. A igreja católica também abriga
reuniões de Narcóticos Anônimos e do Al-Anon, irmandades paralelas, dirigidas, como já foi dito, aos
dependentes de drogas e aos familiares e aos amigos de dependentes do álcool, respectivamente.
Não raro, também é possível ver algum membro de A.A. durante a missa, fazendo a divulgação das
reuniões do grupo.

4 Um não-alcoólicos em Alcoólicos Anônimos

Desde minha chegada ao grupo Sapopemba de A.A., pude sentir o impacto de estar adentrando um
local onde eu ocupava o lugar do “diferente”, do “estranho”; em uma palavra, do “Outro”. Fui
apresentado como “professor” e “pesquisador” e logo percebi que minha presença chamava a
atenção de todos, despertando sua curiosidade. Eles queriam saber sobre o que era o meu trabalho,
como eu ficara sabendo da existência de Alcoólicos Anônimos e do grupo e o porquê de meu
interesse pelo alcoolismo.
Diante de tantas perguntas, eu procurava responder a todas do modo mais direto e simples possível,
dizendo que tinha interesse em conhecer melhor o modo como a irmandade tratava o problema do
alcoolismo e que iria escrever um livro sobre esse assunto. A princípio, essa resposta satisfez a todos,
que passaram a me tratar como alguém que ali estava para apreender o programa de recuperação
de A.A.
Desde o primeiro momento, eu deixei claro quais eram meus interesses em participar das reuniões
do grupo. Todavia, o fato de eu ter sido apresentado ao grupo por alguém que mantinha relações
com os alcoólicos praticantes dos passos de sua recuperação facilitou muito minha entrada nesse
“outro” universo social.
Durante o trabalho de campo, muitas lições podem ser aprendidas, mas talvez a primeira delas diga
respeito ao fato de que todos os momentos são significativos, particularmente, aqueles que
antecedem a reunião em um grupo de A.A.. Logo, não se deve jamais chegar em cima da hora às
reuniões de recuperação. Os momentos que antecedem a reunião são preciosos, uma vez que nos
ensinam muito das práticas de sociabilidade desenvolvidas entre os membros do grupo, com o
intuito de reforçarem seus laços, facilitando sua identificação como doentes.
Depois de um dia de trabalho, ou de passar o dia procurando emprego, os “companheiros” vão
chegando e cumprimentando-se mutuamente. O momento que antecede à reunião de recuperação é
fundamental para o reforço dos laços de amizade e solidariedade entre os membros do grupo que,
descontraidamente, narram seu cotidiano, abraçam-se e formam rodas para conversar. Aqui, o
sentimento é de que fazem parte de uma “família” e de que estão entre pares, o que é reforçado a
cada gesto e palavra que reafirma o pertencimento à irmandade. Sempre que há na sala a presença
de um novato ou de um provável ingressante, uma atenção especial é despendida com ele, e todos
afirmam que ele é “a pessoa mais importante daquela reunião”.
Embora meus interesses estivessem explicitados e minha participação nas reuniões tivesse sido
aceita, que posição eu ocupava no grupo, aos olhos dos membros da irmandade? Que visão os
alcoólicos têm daquele que está interessado em conhecer a irmandade e seu programa de
recuperação? Em outras palavras, o que os sujeitos de pesquisa pensam sobre nós pesquisadores em
saúde?

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Foi em um desses momentos que antecedem as reuniões que as respostas começaram a ficar mais
claras, e vivi o que interpreto como sendo o instante de minha “aceitação” pelo grupo. Eu estava
parado, saboreando o café com bolachas, quando Paulo virou-se para mim e disparou: “acho que
você é um alcoólatra; você ainda não assumiu, mas vai acabar assumindo; você diz que está fazendo
pesquisa, mas você deve ser um alcoólatra”. Depois disso, todos riram e passaram a conversar
comigo de forma afável e amiga. Nesse instante, ficou claro para mim que, ao mesmo tempo em que
eu buscava formular uma compreensão sobre o modelo terapêutico de A.A., os alcoólicos também
buscavam formular uma compreensão sobre minha presença naquele lugar.
Com isso, aprendi a segunda lição de uma pesquisa em uma associação de ex-bebedores: a de que
fazer um trabalho de campo nesse contexto significa fazer parte de um sistema de troca, expresso
em três “etapas”: visitante, amigo de A.A. e profissional amigo de A.A., durante as quais se constrói a
relação entre o pesquisador e seus pesquisados.
O visitante é aquele que, ao chegar, é considerado um “estranho” e se interessa em obter
informações sobre as suas atividades e seu programa de recuperação do alcoolismo. O amigo de
A.A., por sua vez, é aquele que, ao conquistar mais a confiança dos membros do grupo, passa a
compartilhar de alguns valores e práticas e pode trazer novas informações, podendo mesmo exercer
um papel de divulgador da mensagem de A.A., especialmente em locais nos quais os membros não
consideram ir, em cumprimento ao princípio do anonimato e ao modo de vida sugerido pelo modelo
terapêutico. Já o profissional-amigo de A.A. é aquele que dedica parte de seu tempo, como
voluntário, à organização, participando de reuniões e atividades programadas pela associação.
Essa relação foi se aprofundando, e ficou claro para mim que de um lado, os membros do grupo
aceitariam minha presença nas reuniões, possibilitando o meu acesso às informações de que eu
tanto necessitava para a realização de minha pesquisa; e, de outro, eu passaria a ocupar a posição do
amigo de A.A. É por meio da troca estabelecida na relação entre o pesquisador e os membros de A.A.
que a identidade do pesquisador é construída.
A pesquisa em uma associação de doentes também implica, como lembra Fainzang, (2002), a
exigência de o pesquisador reproduzir certas práticas durante as atividades promovidas pelo grupo,
como, por exemplo, em A.A, fazer a oração da serenidade, ao início e término das reuniões, em pé.
Desse modo, o pesquisador acaba por colocar em prática certos códigos ritualizados, que assinalam
seu envolvimento no sistema de troca. Com isso, sua posição dentro do grupo vai se consolidando
cada vez mais, de maneira a facilitar o acesso às informações necessárias para o trabalho de campo,
delimitando seu “lugar” entre os nativos.
Ao fazer parte de A.A., o pesquisador interage com os membros do grupo, participando de inúmeras
atividades promovidas pela irmandade, tais como reuniões de unidade em outros grupos, reuniões
temáticas, visitas em clínicas de recuperação de dependentes, reuniões com profissionais etc., que
acabam por selar seu envolvimento, ao mesmo tempo em que sua identidade é relocada e
reafirmada.
Dentre as muitas relações que estabeleci com os membros do grupo, uma em especial merece
destaque. Trata-se da minha relação com Paulo, membro de A.A. há mais de 20 anos, que ilustra bem
esse deslocamento identitário, vivenciado na pesquisa de campo.
Ao longo de meu trabalho, Paulo tornou-se um verdadeiro colaborador de minha pesquisa, devido
tanto à posição estratégica que ocupava no grupo como ao fato de ser um alcoólico experiente na
prática do programa de recuperação de A.A, o que implicava certa liderança em relação aos demais
membros do grupo, facilitando minha inserção nas reuniões. Também demonstrou, desde o primeiro
momento, um grande interesse pelo meu trabalho, passando-me valiosas informações, que foram
muito úteis para o andamento da pesquisa.
Não raro, ele me indicava reuniões e atividades que seriam realizadas em outros grupos na mesma
região e em que, segundo ele, minha participação seria importante; chegou mesmo a marcar, para

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mim, entrevistas com informantes-chave. Muitas vezes, participei de reuniões só por ele ter insistido
e consegui informações fundamentais para o meu trabalho. Paulo se interessava pelos detalhes de
minha pesquisa, procurando me orientar quanto a aspectos relativos ao programa que eram, muitas
vezes, obscuros para mim.
Em várias ocasiões, ele me disse que, ali no grupo, eu era um “aluno”, e que eles e os demais
membros eram os “professores”, os “verdadeiros” especialistas no “assunto do alcoolismo”, e iriam
me apresentar os meandros desse universo. Ouvir isso num grupo em que não há a presença de
profissionais, tais como psicólogos, psiquiatras ou médicos, soou estranho para mim, num primeiro
momento. Mas, com o tempo, percebi que, ao participar das reuniões e trocar experiências com
alcoólicos na mesma situação, os membros do grupo acumulam um saber e um conhecimento sobre
o tema do alcoolismo, suas consequências e seu tratamento que fazem dele uma espécie de
“especialista” no assunto (Giddens, 1997). Ora, assumir o papel de “aluno” no grupo foi fundamental
para meu aprendizado de suas representações sobre o álcool, o alcoolismo e de si mesmos como
doentes alcoólicos em recuperação.
Conforme minha relação com Paulo se estreitava, cheguei a pedir para que ele lesse alguns textos
parciais, que eu tinha escrito, sobre minha participação nas reuniões do grupo. Ele leu com interesse;
e depois fazia críticas, algumas delas importantes para o esclarecimento de minhas dúvidas e para o
andamento da pesquisa.
Essa relação, construída entre mim e Paulo, também foi importante por trazer à tona o que parece
ser um aspecto fundamental em uma pesquisa etnográfica, e para o que Geertz, (1989), de maneira
muito feliz, chama a atenção, ao se referir à natureza de um prolongado trabalho de campo: na
etnografia, mais do que pensar sobre os nativos, pensamos com os nativos.
Um exemplo disso eu vivi nos momentos em que fui convidado a participar de reuniões temáticas,
para discorrer sobre o tema de minha pesquisa. Sentado na “cadeira” usada pelos membros do
grupo para fazerem suas “partilhas” (termo utilizado para se referir aos depoimentos feitos na
reunião de recuperação), eu falei por cerca de uma hora sobre o trabalho que estava realizando, e
depois fui “sabatinado”, como disseram os presentes, sobre diferentes aspectos do programa de
recuperação de A.A..
Esse momento foi por mim considerado fundamental para a pesquisa etnográfica, já que nele foi
possível confrontar-me com os membros do grupo, os quais assumiram, de fato, a posição de sujeitos
no processo de conhecimento, estabelecendo uma relação de troca cujo fundamento é parte mesmo
das suas práticas, na qual eles me ajudaram em minha própria reflexão, ao mesmo tempo em que eu
os ajudava a refletir sobre suas práticas.
Pode-se dizer, então, que nesse momento ocorreu a relativização de um dos pilares sobre o qual se
sustenta a posição “clássica” do sujeito do conhecimento na pesquisa etnográfica, a saber: o poder
que o pesquisador tem de observar e falar sobre o Outro.

5 Alcoolismo, doença e significado em Alcoólicos Anônimos

A pesquisa etnográfica permitiu desvendar os sentidos do alcoolimo para os membros de AA. Eles
foram unânimes em ressaltar os “problemas” que o álcool e o alcoolismo provocaram em suas vidas
familiar e profissional. É isso o que deixa entrever um membro de AA em entrevista: “O alcoolismo
me afetou principalmente na família e no trabalho. Primeiro com a família, porque eu passei a ser
aquele homem descompromissado. (...) Na fábrica, eu tinha minhas atribuições junto aos demais
companheiros, mas de acordo com minha bebedeira, ninguém podia contar comigo. Eu passei a ser
um homem inútil na equipe. E aí eu sinto que eu mesmo perdi o domínio, perdi a credibilidade, eu
perdi o interesse, eu perdi a força de vontade, eu perdi a força física.”

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Ora, o alcoolismo é concebido como uma doença que afeta diretamente as relações que o alcoólico
mantém na família e no trabalho. Nesse sentido, a “dependência do álcool” abala a “força física” do
alcoólico, que se vê incapaz de cuidar de si e de sua família. Logo, o alcoólico não se reconhece mais
com um “homem digno”, isto é, com um trabalhador responsável por prover o sustento de sua
família.
O alcoolismo é concebido como uma doença “física” e “moral” que, além de atingir o indivíduo que
se considera doente, também afeta as relações familiares nas quais ele está envolvido. É assim que
os membros de AA definem o alcoolismo como uma “doença da família”, revelando os sentidos do
adoecer e do sofrimento, fundados nos valores diferenciais que conformam o contexto sociocultural
no qual os AAs estão envolvidos, notadamente os valores da “família” e do “trabalho”.
Nessa linha, o modelo terapêutico de A.A. opera a reconfiguração da experiência da doença e, por
essa via, do processo de reconstrução subjetiva, através do qual os membros de AA encontram um
lugar para o seu corpo e para o seu espírito, ambos considerados enfermos, reconciliando-se consigo
mesmo e com seus familiares.
Em meio à troca de experiências dentro do grupo, os alcoólicos forjam uma linguagem da doença
cujas regras operam com os códigos e os valores próprios ao universo sócio-cultural no qual o doente
e seus familiares estão envolvidos, tornando-os responsáveis pelos cuidados de si e de sua família.

6 Considerações finais

A etnografia envolve um encontro intersubjetivo, que faz da disciplina antropológica, como assinala
Da Matta, (1997: 173): “uma ciência interpretativa, destinada antes de tudo a confrontar
subjetividades e delas tratar”. Somos obrigados, assim, a deslocar nossa subjetividade, nos
confrontando com as nossas concepções sobre o corpo, a saúde e a doença.
Na pesquisa etnográfica, o Outro é o nosso guia, nos conduzindo dentro de um universo social
estranho à primeira vista, mas que é nossa tarefa buscar compreendê-lo. É assim que a etnografia
deve assumir a perspectiva de uma “descrição densa” (Geertz, 1989), distanciando-se da descrição
meramente mecânica, possibilitando compreender a lógica que rege os universos de significação.
Nesse sentido, a etnografia é um mergulho para dentro desse universo, em busca dos significados
que o Outro atribui à sua existência. Significados que dão sentido aos atos cotidianos, tornando-os
inteligíveis para aqueles que os praticam. Trata-se, então, de procurar entender outro universo de
significação, na tentativa de desvendar a lógica que lhe é subjacente, a partir de um “diálogo”
travado entre dois sujeitos, o pesquisador e o pesquisado, reconhecendo os limites que essa relação
impõe.
A etnografia em um grupo de A.A. permitiu constatar a maneira como a “doença do alcoolismo” é
construída social e simbolicamente a partir dos valores que formatam o contexto sociocultural no
qual os membros de AA estão inseridos, notadamente os valores da “família” e do “trabalho”.
A etnografia permite ao pesquisador em saúde um contato direto com o universo da pesquisa de
campo, dentro do contexto onde os sujeitos estão inseridos. A pesquisa etnográfica insere-se,
portanto, na formação do pesquisador em saúde, possibilitando uma iniciação na pesquisa científica
por meio da realização de entrevistas, da observação sistemática dos comportamentos e das análises
das categorias socioculturais que compõem os discursos e orientam as práticas no interior do
processo saúde-doença.

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7 Referências

Adam, P. & Herzlich, C. (2001). Sociologia da doença e da medicina. Bauru, SP: EDUSC.

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Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos.
Campos, E.A. (2010). “Nosso remédio é a palavra”: uma etnografia sobre o modelo terapêutico
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