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Nois vs. Légos Danilo Marcondes de Souza Filho A rejeigdo da idéia de um pensamento ndo-discursivo tem sido uma das ca- racteristicas centrais da filosofia da linguagem, estando relacionada inclusive com seu surgimento na tradicao analitica (A. Coffa, 1986). Na filosofia grega cl4s- sica, entretanto, esta nocdo ocupou um lugar central na teoria do conhecimento, na metafisica e na propria definicdo da tarefa filos6fica. Minha hipétese é preci- samente a de que a importancia e o privilégio atribuidos ao pensamento nao-dis- cursivo explicam, em grande pare, o lugar secundario atribuido a linguagem e ao discurso no pensamento classico, e até mesmo a inexisténcia do conceito de linguagem, propriamente dito, neste pensamento. A questao, portanto, da relagdo entre pensamento discursivo (didnoia, Iégos) e pensamento ndo-discursivo (nods, ndesis) situa-se dentro de uma problematica mais ampla: todo pensamento é necessariamente linguistico?; pressupde uma es- trutura linguistica?; a linguagem é necessaria ao pensamento? Sao essas quest6es que servirao de pano de fundo para este breve exame da nogdo de pensamento nao-discursivo na filosofia grega e suas conseqiiéncias. Antes disso, entretanto, alguns esclarecimentos se fazem necessdrios quanto ao sentido dado neste tra- balho a termos como «linguagem», «pensamento», «discurso», «proposicao», etc. Vou partir de certas definiqdes estipulativas, sem discutir as varias interpreta- Ses possiveis destes conceitos contemporaneamente, 0 que me desviaria dos propésitos deste trabalho. Pretendo basear-me em concepgées recentes na filoso- fia analitica’ para a consideracao dos textos classicos. “Por «linguagem, entendo, em um sentido bastante amplo, a estrutura légica abstrata, o conjunto de regras que permite a constituicdo de juizos, isto 6, a arti- culagao de conceitos, bem como as operaces oi relacdes entre juizos. A propo- sicdo é 0 contetido de um ato de pensamento, distinto do ato ele proprio, e possuindo a forma predicativa do juizo «que X é Y». A sentenca é a expressio 1 Vejam-se.a este respeito Ryle (1971) ¢ Nuchelmans (1973). 8 Danilo Marcondes de Souza F* verbal de uma proposigao constituindo, portanto, uma unidade do discurso. O discurso resulta, assim, de um conjunto de sentengas articuladas. O pensamen- to € 0 processo mental, interior, relativo ao individuo, subjetivo, portanto. En- quanto constituido de juizos, ou da faculdade de julgar, possui uma estrutura lingilistica. Na tradigao classica (Nuchelmans, 1973, 7), o légos é uma combina- cdo de dnoma e rhéma (Platéo, Sofista, 262a), expressando um pensamento (diénoia). O pensamento, por sua vez, é sempre, ou quase sempre, caracterizado através do discurso, como na passagem classica de Platao em que é definide co- mo «o didlogo da alma consigo mesma» (Teeteto, 189e4). Nossa questo, no entanto, é precisamente se h4 um pensamento nao-lingiiis- tico ou nao-discursivo, isto é, nao constituido de proposigées. Se h4, qual entao 0 papel deste pensamento na nossa compreensao do real, na constituigao de nos- sa experiéncia? Ou seja, por que é necessério para a filosofia grega supor a existéncia de um pensamento ndo-discursivo? Oconceito de pensamento ndo-discursivo parece, de fato, vir a resolver duas dificuldades, estreitamente relacionadas, apresentadas pelos paradoxos da defi- nigdo e da andlise. O paradoxo da definicao resulta do reconhecimento de que toda definicéo nominal de um conceito é dada através de outros conceitos que servem para definir 0 primeiro. Estes conceitos, por sua vez, que pertencem ao definiens, carecem de definigao e s6 podem set definidos por outros conceitos. Te- mos, assim, uma circularidade, j4 que as palavras remetem umas As outras, sem que possamos sair do circuito do discurso. A definiggo nominal, produto do pen- samento discursivo, é incapaz de nos revelar a esséncia das coisas, sua verdadeira natureza. E necessdrio, portanto, uma forma de captacao da esséncia, um modo de acesso ao real, que nao dependa de definicdes nominais. O paradoxo da ana- lise é derivado da concepcao de que, se o conhecimento de um objeto complexo (Teeteto, 201¢-210a) se da através de sua decomposigao nos elementos simples que 0 compdem, entao estes elementos eles préprios nado podem por sua vez ser decompostos e portanto analisados, sendo assim incognosciveis. O conhecimento repousaria entao sobre uma realidade que nao pode ser conhecida, 0 que pare- ce claramente contraditério, Ora, 0 procedimento de anélise é um Pprocedimento discursivo e por isso precisa dar lugar, para que 0 paradoxo seja evitado, a uma apreensao nao-discursiva, direta, imediata da natureza das coisas simples, que ndo podem ser conhecidas por andlise. © recurso 4 nosdo de pensamento nao- discursivo evitaria assim a circularidade do discurso, a sua impossibilidade de telagao direta com o real, jé que a definicado de um termo é dada sempre através de outros € o significado destes termos é sempre convencional, o que levaria ao Tegresso ao infinito das definigdes. Evitaria também o problema do acesso ao re- al do qual a andlise nao da conta e que deve ser imediato, direto, para servir de base ao processo progressivo de construgao do conhecimento. Vejamos alguns textos de Platao em que a nogo de pensamento nao-discur- sivo (nofis)” é introduzida em relacao a estas questdes acima indicadas. Destacaria em primeiro lugar a discussao sobre as etapas e os elementos que formam o pro- 2 Sobre a nogéo de nods antes de Plato, particularmente em Parménides, ver Guthrie (1975, pp. Nodis vs. Légos 9 cesso de conhecimento na famosa passagem da Carta VII (342a-343c). Plato dis- tingue af trés elementos que levam ao conhecimento ou o tornam possivel, sendo © conhecimento ele préprio o quarto elemento e a coisa conhecida o quinto. Em Primeiro lugar temos entdo 0 nome (6noma) cuja natureza é meramente conven- ional (343b), em segundo lugar a definigao (Iégos), que na realidade nada mais € do que um conjunto de nomes (343b), em terceiro lugar a imagem (efdolon) ou tepresentacao da coisa, que € de natureza sensivel e portanto nado pode consti- tuir ainda conhecimento e, finalmente, temos 0 conhecimento (epistéme) identificado por Platao nesta passagem com o entendimento ou intelecgdo (noiis) -€ com a opinido verdadeira (alethés déxa) j4 que no pertencem nem ao campo do discurso nem ao das figuras materiais, mas esto na alma (psyché). Platao des- taca nesta passagem a inadequagao do discurso (343c) ao pensamento, jd que o significado nao é fixo por ser convencional, as palavras podendo ter seus signi- ficados alternados (343b). As definicdes (légoi), igualmente, por serem compostas de nomes, esto sujeitas 2s mesmas limitacdes. Em consequéncia «nenhum ho- mem inteligente deve procurar expressar aquilo que seu intelecto apreende (ta nenoeména) em palavras» (343a). As palavras e o intelecto possuem naturezas dis- tintas, as palavras sao inadequadas para expressar 0 que 0 intelecto capta, 56 0 intelecto é capaz de captar a coisa ela mesma (t6 én), chegar ao préprio real, su- perando por meio da dialética 0 dominio do sensivel que é 0 dominio do discurso, O discurso e a apreensao sensivel sio assim parte do processo do co- nhecimento, mas apenas como etapas a serem vencidas, como um caminho que aponta para a realidade superior das coisas mesmas (ta dita, td noeld), que sO 0 intelecto (nofs) pode conhecer, que sao objetos do intelecto (ta noetd). O segundo texto de Platao a que podemos recorrer é a célebre alegoria da Lin- ha Dividida (Republica, 094-511), em que Platao simboliza as varias. etapas ou modos de contato da mente humana com os mundos sensivel e inteligivel atra- vés de uma linha dividida em dois segmentos representando respectivamente o mundo inteligivel (noetd, as coisas inteligiveis, ou énfa, as realidades), e o mun- do sensivel (gignémena, objetos em mudanga; aisthetd, objetos de percepcdo; doxastd, objetos da crenga; horatd, objetos sensiveis). Cada segmento é por sua vez subdividido em dois novos segmentos. Pretendo concentrar-me apenas no seg- mento superior relativo ao mundo inteligivel, examinando as razdes de PlatSo para subdividi-to por sua vez em dois novos segmentos, representando duas eta- pas diferentes de acesso a essa realidade, sendo que alguns intérpretes (por exem- plo Austin, 1979, que passo a seguir) consideram precisamente a distincao entre pensamento (didnoia) e ciéncia (epistéme) como um dos propésitos centrais deste texto. O primeiro segmento em que se subdivide o segmento sobre o mundo in- teligivel € relativo ao matemitico. Segundo Platao, o matematico (geémetra) par- te de hipéteses para delas extrair suas conclusdes e utiliza-se de diagramas e desenhos de figuras que pertencem ao mundo sensivel. O fildsofo (dialético), por sua vez, em busca do verdadeiro conhecimento, deve superar as hipéteses, aban- doné-las, usando-as apenas como pontos de partida para chegar ao prinefpio nao hipotético (arché anypéthetos), no caso a forma do Bem. © termo «hipdtese» tem para Platao precisamente o sentido de uma definicdo ou postulado (cf. Austin, 1979, p. 300), pressupondo a existéncia do objeto definido, sem contudo demons- tra-la. Assim, embora 0 matemitico esteja se referindo a uma realidade supra-