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Alterações Cardiovasculares do Envelhecimento

CAPÍTULO 2
Alterações Cardiovasculares
do Envelhecimento

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Capítulo 2

O conhecimento das alterações morfológicas e funcionais do sistema


cardiovascular e de outros sistemas relacionados, decorrentes do processo
de envelhecimento fisiológico, é de fundamental importância para se en-
tender a dificuldade de manutenção da homeostase orgânica frente às
situações estressantes fisiológicas e patológicas. As doenças cardiovasculares
e o estilo de vida sedentário são tão prevalentes entre idosos, que trans-
formam em grande desafio diferenciar as alterações morfológicas e funcio-
nais resultantes destes processos, do que é decorrente do processo fisio-
lógico irreversível de envelhecimento1. Um exemplo típico é a aterosclerose
antes atribuída ao envelhecimento e hoje um processo fundamentalmente
inflamatório ao longo de toda a vida, tendo o idoso sido exposto por mais
tempo durante sua vida2.
Em outra análise, há alterações funcionais relacionadas ao envelheci-
mento que são prevenidas ou reversíveis com mudanças de estilo de vida
envolvendo condicionamento físico1, 3-6.
Há alterações morfológicas fortemente associadas à idade e que não
estão relacionadas a qualquer disfunção ventricular como a atrofia mar-
rom (decorrente de depósitos de lipofucsina) e degeneração basofílica3.
Algumas alterações fisiológicas podem induzir processos patológicos quando
muito intensas. Intensa calcificação do anel mitral pode comprometer o sis-
tema de condução levando a bloqueio atrioventricular total e necessidade
de marca-passo, ou insuficiência mitral ou, mais raramente, estenose mitral3,7.
A diminuição da celularidade do nó sinusal e perda de fibras do tecido éxcito-
condutor predispõem os idosos à doença do nó sinusal e distúrbios de con-
dução. Depósitos amilóides somente determinam manifestações cardio-
vasculares durante a vida (hipertrofia ou insuficiência cardíaca por amiloidose
cardíaca senil) quando em grandes quantidades3.
O aumento da quantidade e modificação das propriedades do colágeno
do idoso determinam diminuição da complacência ventricular (disfunção
diastólica) e enrijecimento da parede aórtica. A quebra de elastina junta-
mente com as alterações do colágeno está envolvida no aumento da
impedância aórtica e conseqüente aumento da pressão arterial sistólica (PAS)
e pressão de pulso1,3,4,7 e ampla oscilação da pressão sistólica7.
A espessura da parede ventricular esquerda aumenta progressivamen-
te com a idade 1,3,8. Isto se deve ao aumento do tamanho do miócito
(hipertrofia). Entretanto, a quantidade de miócitos diminui. Aumenta a
quantidade deste tecido colágeno de menor elasticidade.

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A diminuição de complacência ventricular eleva a pressão diastólica inicial


ventricular, prejudica o retorno venoso e induz uma maior participação da
contração atrial no enchimento ventricular. A dificuldade de retorno ve-
noso aliada à menor sensibilidade à sede, menor volume de líquido circulante,
menor resposta dos barorreceptores, predispõe os idosos à hipotensão ar-
terial, quedas e síncopes, principalmente quando em uso de diuréticos e
vasodilatores ou expostos a perdas de volume (ex.: sudorese excessiva, vômitos)
sem reposição compensatória.
Ocorre aumento das cavidades atriais. As cavidades ventriculares dimi-
nuem e o septo adquire um aspecto sigmóide ao ecocardiograma devido
a um abaulamento da porção basal, e pode dar falsa impressão de hipertrofia
septal assimétrica 1.
A função sistólica ventricular está preservada conforme demonstrado
em estudos de modelos animais e humanos saudáveis cuidadosamente se-
lecionados 7. Entretanto, a duração da contração está aumentada prova-
velmente resultando de menor metabolismo energético mitocondrial (re-
dução de atividade da adenosinotrifosfatase. O idoso apresenta menor
resposta à estimulação adrenérgica. Durante exercício ou estresse por doença
há menor resposta inotrópica e cronotrópica (ambas dependentes do efei-
to beta-1-adrenérgico). Portanto, a contratilidade está preservada em re-
pouso, mas há dificuldade para aumentar o volume sistólico e o débito
cardíaco aos estresses decorrentes da menor resposta ao estímulo beta-
adrenérgico e alterações do metabolismo energético mitocondrial. A res-
posta inotrópica ao cálcio não está alterada9.
O sistema cardiovascular do idoso lança mão da lei de Frank-Starling
para manter o volume sistólico e débito cardíaco para compensar a dimi-
nuição da resposta betadrenérgica.
Através do condicionamento físico é possível encurtar o tempo de
contração ventricular, reduzir a impedância aórtica e aumentar o consu-
mo máximo de oxigênio (MVO 2), o qual está diminuído por redução da
utilização periférica O 2 (e não por redução do débito cardíaco), sugerindo
que o estilo de vida sedentário é um componente importante das altera-
ções cardiovasculares observadas nos idosos. Por outro lado, o condicio-
namento físico não modifica a dificuldade de enchimento ventricular e a
resposta betadrenérgica diminuída, sugerindo que estas alterações sejam
inerentes ao envelhecimento por si1, 7.

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Capítulo 2

A seguir, um resumo das alterações do envelhecimento do sistema


cardiovascular e de outros sistemas cujo comprometimento interfere na
fisiologia cardiovascular, interpretação de dados clínicos e laboratoriais,
diagnóstico e terapêutica do idoso (Tabelas 2.1, 2.2 e 2.3).

Tabela 2.1
Alterações Morfológicas do Envelhecimento

1. Miocárdio
Atrofia marrom e degeneração basofílica
Acúmulo de colágeno
Depósitos amilóides
Aumento da gordura subepicárdica
Aumento da espessura ventricular
2. Cavidades
Aumento das cavidades atriais
Diminuição das cavidades ventriculares
Septo ventricular com aspecto sigmóide
Hipertrofia lipomatosa do septo atrial
3. Valvas
Calcificação do anel mitral
Esclerose/calcificação valvar aórtica
Protrusão dos folhetos mitrais em direção ao átrio
4. Aorta
Alongamento aórtico (desvio para direita)
Aumento de diâmetro e tortuosidade
Esclerose e calcificação da média tipo Monckeberg (arteriosclerose)
5. Artérias coronárias
Tortuosidade, ectasia
Placas ateroscleróticas (alta prevalência), calcificação
6. Sistema de condução
Redução da celularidade das células de marcapasso do nó sinusal
Ocupação do nó sinusal por tecido fibroso e gorduroso
Fibrose e perda de fibras especializadas

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Tabela 2.2
Alterações Funcionais do Sistema Cardiovascular
Associadas ao Envelhecimento

1. Enrijecimento da aorta (diminuição de elasticidade e complacência)


2. Elevação da pressão arterial sistólica e pressão de pulso
3. Diminuição do relaxamento miocárdico (disfunção diastólica)
4. Diminuição do retorno venoso
5. Diminuição da resposta barorreflexa
6. Maior utilização da lei de Frank-Starling
7. Menor resposta à estimulação beta-adrenérgica
8. Menor resposta parassimpática cardíaca
9. Função sistólica preservada

Tabela 2.3
Alterções de Outros Sistemas Correlatos

1. Redução da taxa de filtração glomerular


2. Diminuição da volemia
3. Diminuição da sensibilidade à sede
4. Aumento da gordura corporal total
5. Redução da massa magra
6. Redução da função hepática
7. Redução do MVO2 por redução da utilização periférica de oxigênio
8. Redução da capacidade vital pulmonar
9. Redução da auto-regulação da circulação cerebral
10. Aumento da resposta parassimpática cerebral

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Capítulo 2

Bibliografia

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