O Véu – Volume 1

Segunda Edição Ano: 2010 Autoria: Willian da Silva Nascimento Capa: Willian da Silva Nascimento Direitos reservados ao autor pelo Escritório de Direitos Autorais – Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro - RJ Obra liberada para livre divulgação sem fins lucrativos

1

Para Nathália, pois nenhum livro é escrito sem ter aquele interessado em ler

2

Agradecimentos da 1° Edição
Existem várias pessoas a quem devo a chance de realizar esse trabalho. Mesmo não contribuindo diretamente com o livro, suas ações, por menos importantes que possam parecer, foram as linhas fundamentais que permitiram tecer “O Véu”. Primeiramente, devo muitos agradecimentos a minha família, principalmente a meu pai Jurandy, minha mãe Estefania e minha irmã Michelle, que foram pessoas que não mediram esforços para me dar a melhor educação possível. Muito obrigado. Em segundo, gostaria de mandar um grande beijo para Fátima, uma grande amiga que me iniciou no mundo da leitura e me mostrou as coisas fantásticas por trás das letras. Tia Fátima, grande parte dos livros que você me emprestou ajudaram a compor essa obra. Obrigado. Nada seria de mim sem esse grupo. Eles me acompanharam por grande parte de minha vida e com eles tive a chance de viver muitas aventuras. Foram graças há nossas horas gastas em RPG, que eu consegui desenvolver a imaginação que me permitiu criar histórias próprias. Obrigado a Jorge, Marcelo, Marcos, Mariana, Rafael, Renata, e Renan. Amigos na realidade e na virtualidade. E por último, vale lembrar que nada sai sem um propósito. Nenhuma música é composta sem alguém para ouvir e nenhuma pintura e trabalhada se não tem quem possa ver. Assim também, nenhum livro pode ser escrito se não há pessoas interessadas em ler. Então, muito obrigado a Nathália, pois sua animação e incentivo me deram a coragem de me sentar na frente do computador e escrever. Obrigado por confiar em mim.

Agradecimentos especiais para a 2° Edição
Gostaria de Agradecer especialmente a Mayllee Chan e Adriana F. que me ajudaram na revisão desta edição. Acho que conseguimos retirar algumas pontas soltas deste trabalho. Obrigado

3

Prólogo - Histórias em volta da fogueira

De todas as férias que passava, não havia nenhuma melhor para Ana do que as que ocorriam no sítio dos avós em Três Corações, interior de Minas Gerais. O Estado mineiro é famoso por suas lendas locais e superstições dos mais variados tipos, mas Ana gostava especialmente desta cidade onde havia as lendas de bruxas que ela tanto amava. Suas tias, que também moravam na região, tinham o costume de lhe contar inúmeras histórias enquanto assavam marshmallows em volta da fogueira no quintal da casa delas. Teresa e Samanta eram suas melhores amigas e sempre se diziam bruxas de alto poder, coisa que Ana jamais duvidou. Ela ainda conseguia se lembrar muito bem da noite em que acordara doente, com o termômetro marcando quarenta graus de febre. Tia Teresa lhe trouxe um chá de ervas que, segundo ela, era capaz de curar quase todos os tipos de enfermidades. Com apenas oito anos na época, a menina não teve receios em acreditar com todas as forças na cura milagrosa e aparentemente os céus recompensaram sua fé, pois no dia seguinte estava curada. Esse e outros casos só serviam para confirmar para Ana o poder que aquelas duas mulheres possuíam. Sílvio e Marieta, seus avós, reforçavam suas crenças. Sempre confirmaram para Ana o poder de suas filhas, contando casos em que elas conseguiram mexer com as forças da natureza. Numa certa ocasião, eles contaram, uma onda de calor atacou o Município de Três Corações, trazendo algumas doenças de caráter misterioso. Eles se recordam que numa semana as irmãs Samanta e Teresa saíram de casa alegando que iriam para o interior da floresta onde havia um local especial no qual elas poderiam realizar um ritual que poria um fim no problema. Logicamente, seus pais foram contra tal empreitada, principalmente pelo fato das duas irmãs terem apenas doze e quatorze anos, respectivamente, na época. Mas a proibição não adiantou muito e naquela noite as duas haviam fugido às escondidas e ficaram desaparecidas por uma semana. Seus pais procuraram por elas de todas as formas possíveis sem obter resultados vantajosos. Mandaram inúmeros grupos de busca para a floresta, mas todos voltaram sem resultados e a policia começava a cogitar a idéia de um seqüestro. Porém, exatamente uma semana depois, as duas irmãs reapareceram. Ilesas e aparentemente saudáveis, elas diziam que foram bem sucedidas no ritual mágico. Sílvio e Marieta ficaram irritados, mas depois que tiveram suas filhas de volta, foram capazes de perceber que de fato as coisas haviam mudado e que o clima estava 4

bastante ameno. Sem saber o que fazer, deixaram aquela passar, mas não sem antes arrancarem uma promessa das duas de que jamais fariam aquilo novamente. Ao contrario de seus avós, sua mãe não concordava com tais comportamentos de suas irmãs. Helena era, na época, Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionava biologia. Ela não compartilhava das crenças de Ana. Para Helena, mágica não existia. Na verdade, para ela nada que não pudesse ter uma explicação baseada em átomos, enzimas ou teorias da física não existiam. “Por isso não arrumam maridos”, era o comentário que sempre fazia. Apesar dessa opinião, Helena nunca forçou Ana a seguir suas idéias, embora não gostasse da influência que suas irmãs tinham sobre a menina. Seu pai, apesar de também ser descrente, em nada se importava. Ele sempre dizia que crianças deviam ter o direito de sonhar. Para ele, que era psicólogo, essas fantasias eram importantes para o desenvolvimento infantil. “Crianças devem ser crianças”, ele sempre dizia. Com essa família, Ana nunca teve dificuldades em deixar sua imaginação correr. E sempre que cabia a ela escolher aonde seriam as próximas férias, a resposta já estava gravada em sua língua: para Três Corações. Porém, as suas férias de meio de ano, próximas da data de comemorar seu décimo segundo aniversário, poriam um fim a esse mundo de magia.

* Era Inverno e mais uma vez Ana tinha decidido passar seus dias de férias na casa dos avós. Nas três primeiras noites que passou, ela ouviu ótimas histórias de bruxas e magos em volta da fogueira no quintal da casa de suas tias. Samanta lhe contou uma lenda antiga, sobre uma família de magos que habitava as regiões do norte do Canadá: a família Garow. “De acordo com a lenda, essa família, diferente dos demais magos existentes, possuía uma forte ligação com a natureza da região, sendo capaz até mesmo de controlar o clima gelado e os lupinos locais. Além dos poderes incomuns, seus traços físicos eram muito peculiares e em muito lembravam aspectos canídeos. Dizem até mesmo que a lenda dos lobisomens nasceu devido a esse clã. “Durante a caça às bruxas, inúmeras foram as tentativas dos inquisidores europeus de erradicar esse grupo. Porém, devido ao seu grande poder e sua afinidade com a

5

natureza local, nunca foram derrotados, obrigando os colonizadores a não adentrar seus territórios e mantendo a região conservada. “Como os Garows não demonstravam instintos expansionistas, viveram em paz com os russos que vieram a habitar essa região nos anos seguintes. Até que desapareceram.” — Mas como, tia Samanta? – a garota ficou pasma – Os russos finalmente conseguiram derrotar os Garows? — Possivelmente não – respondeu Teresa. – Apesar de a Rússia possuir excelentes grupos inquisidores na época e seu povo já ser acostumado ao clima gelado, duvido que fossem capazes de deter a afinidade dos Garows em sua terra. — Mas então como eles puderam desaparecer? — Ninguém sabe – agora era Samanta quem dizia – esse é um dos maiores mistérios do mundo mágico. Como um clã tão poderoso pôde simplesmente ser erradicado? – ela deu de ombros – A noticia correu o mundo quando começou a circular na Europa o diário de um colono Russo que habitava a região e tinha relações com os membros do clã. Seu diário continha alguns relatos da dizimação dos Garows. Esses relatos mostram o grau de destruição em que a aldeia foi encontrada. Todos os moradores foram brutalmente assassinados, provavelmente por um grupo mais feroz que eles, devido aos tipos de ferimentos encontrados nos corpos. Ana ouvia cada detalhe com muita atenção, tendo até mesmo que se lembrar de respirar em algumas seqüências. — Nossa! – exclamou – Quando crescer vou descobrir o que aconteceu com o clã Garow. — Claro que vai querida – encorajou Samanta com um sorriso – mas agora você vai é voltar para casa da vovó para dormir. — Exatamente – completou Teresa. – Já está tarde e se você se atrasar mais meus pais vão nos mandar para a fogueira. Ana riu e concordou. — Vou indo sim. Mas posso fazer uma última pergunta? — Claro – encorajou Samanta — Como eles eram? Digo, eram humanos? — Claro que sim. Todos os magos são humanos, querida. Magia é para todos e aposto que as habilidades dos Garow, apesar de incomuns, foram fruto de um íntimo

6

contato com sua terra. Afinal, eles moraram naquela região por cerca de mil anos e nesse tempo aprenderam muitas coisas. — Claro que tem a questão da aparência – lembrou Teresa. — Como assim? – a garota se interessou. — Bem, contam as lendas que a grande afinidade que os Garow tinham com a sua terra acabou mudando a sua própria fisionomia – e fez uma pausa para acrescentar um ar de mistério à narrativa. – Parece que a ligação deles com os canídeos deram a este grupo algumas características bem bestiais como unhas em forma de garras e caninos pontiagudos. Outra característica forte no clã eram seus intensos olhos azuis. Todos os relatos sobre os Garows falam desses olhos. Parece que o efeito que causa em quem vê é impactante. — Eles deviam ser bem bonitos – comentou Ana. — Bem, tem gosto pra tudo – riu-se Teresa não concordando por completo. – Então, vai querer companhia pra casa? — Não Tia. Já sou crescida. — Que ótimo – felicitou Samanta. – Então vai logo. Amanhã faremos outro programa – e, de repente, ela deu um pulo lembrando-se de uma coisa. – Espere! Eu quero que leve isso contigo. Samanta remexeu o bolso do casaco à procura de algo, até que enfim encontrou um pedaço de pano, aparentemente muito velho. — O que é isto? – perguntou a garota um tanto enojada pela sujeira do tecido. — Abra – recomendou Samanta. Após desdobrar o pano sujo, Ana encontrou uma mancha. Ela olhou para as tias interrogativamente e depois focalizou a atenção novamente no presente. Aos poucos, foi identificando os aspectos da estranha mancha e percebeu que tinha um padrão ali. Logo percebeu se tratar não de uma mancha, mas sim de um desenho de aparência bem rústica. Depois de poucos segundos a garota conseguiu identificar a cabeça de um lobo estampada no tecido. A face do animal, toda em estilo tribal, se encontrava de frente e com um olhar ameaçador. O desenho não tinha muitos traços, mas era bonito assim mesmo. — Esse é o símbolo da família Garow – explicou tia Teresa. – É uma relíquia, talvez uma das poucas que um dia pertenceu à tribo. O rosto da garota se iluminou com a informação.

7

— Serio? Obrigado! – Exclamou enquanto voava no pescoço das tias num forte abraço – Mas como conseguiram? — Bem, como você sabe, fomos ao Canadá algumas vezes na nossa vida. Numa dessas viagens participamos de uma excursão pelas tribos indígenas da região e encontramos essa relíquia num desses lugares. Ela estava sendo vendida como lembrança por pessoas que provavelmente saquearam o lugar antes de nós chegarmos – e completou com um sorriso amarelo. – Reconhecemos a autenticidade do símbolo e conseguimos pechinchá-lo fazendo o vendedor acreditar que não era nada de valor. — Legal – repetiu a garota sem se importar com a trapaça das tias. Quando Ana as largou, Teresa disse: — Sabemos o quanto você gostou desse tipo de clã em particular, então resolvemos lhe dar isso – e alertou – mas, cuide bem dele. Temos esse símbolo há anos – brincou. E depois de se despedir de Teresa e Samanta, Ana saiu para a casa dos avós. Estava escuro e deserto no caminho que levava até o sitio de Sílvio, mas Ana adorava a sensação de perigo que envolvia andar sozinha à noite. Apesar do distrito de Três Corações não ser violento e as chances de que algo aconteça com ela durante os dez minutos de trajeto da casa de suas tias até a casa de seus avós serem de uma em um milhão, Ana gostava de se sentir destemida e encarando o desconhecido. O vento começava a soprar com força fazendo esvoaçar os cabelos curtos da menina. Era um fenômeno normal nas noites da região e que Ana adorava. Além de gostar da sensação do vento acariciando seu rosto, essa corrente noturna aumentava o ar sobrenatural da região que sempre a deixava de pelos arrepiados. Mas a brisa começou a soprar com mais força, exigindo que ela levasse o braço à frente do rosto para proteger os olhos. Um som começava a ser produzido em seus ouvidos e ela se lembrou de suas tias dizendo que os ventos muitas vezes carregavam mensagens distantes, embora Ana nunca tenha conseguido interpretar nenhuma. À medida que chegava perto de casa, Ana sentia que o vento em seus ouvidos começava a ganhar forma, até finalmente se tornar uma mensagem clara que Ana pôde interpretar. E ficou aterrorizada com o que escutou. Matar

8

Quando ouviu isso, o medo tomou conta da jovem garota. Ela olhava desesperadamente em sua volta tentando localizar a boca que emitia tal mensagem. Aquela voz gélida parecia pertencer a alguém cruel, que talvez nem humana fosse. Matar De novo e as lágrimas começaram a querer sair de seus olhos, mas ela as segurou. Não gostava de chorar na frente dos outros e muito menos daquilo que tentava apavorála. — Quem está aí? – ela gritava para o escuro. Sem resposta. Ela tentou juntar toda a coragem que tinha para continuar falando: — Eu sou sobrinha das duas maiores bruxas da região. Não se meta comigo ou você está frito! Agora o vento ria do comentário da jovem menina. Mas ao invés de responder, ele foi sendo levado para longe. Porém, os sussurros continuavam soando em seus ouvidos e desaparecendo aos poucos. Sussurros que continuavam a dizer: Matar, matar, matar. Matar as duas. O vento agora era levado em direção ao caminho por onde Ana havia vindo. Tias, um medo atravessou o coração da pequena e, conseguindo se livrar da paralisia em seus músculos causada pelo medo, ela correu como nunca na vida em direção a casa dos avós. Quando chegou, entrou gritando desesperada: — Vô! Vó! Rápido! As minhas tias estão em perigo! — O que houve minha filha? – perguntou sua avó largando a revista que lia e se erguendo da poltrona ao notar seu desespero. — Vó. Eu ouvi alguém dizer que vai matar a tia Teresa e a tia Samanta. — Onde você ouviu isso? Quem te disse? – a velha começava a ficar preocupada. — Eu ouvi. O Vento me disse. — Como? — Por favor, vovó! Chame a polícia, alguma coisa. Chame o vovô! — Seu avô saiu Ana. Vai demorar um pouco para chegar. — Mas vão matar as tias! – Agora Ana não conseguia segurar as lágrimas em seus olhos e foi então que se iniciou um choro soluçante que a impedia de continuar a falar com precisão. Vendo a situação desesperadora da neta, a avó a abraçou e disse:

9

— Calma minha filha – e vendo que não conseguia acalmar a garota, propôs. – Vamos lá na casa das suas tias. Veremos se estão bem. Vou levar o celular caso aconteça algo. Tá bem? A garota concordou saindo em disparada até a casa das tias. Mesmo limitada pela idade, Marieta lutava para acompanhar os paços da garota. Quando finalmente chegaram, tudo estava transpirando uma enorme paz. — Viu querida? Está tudo bem. Mas Ana ainda não estava completamente convencida. Ela tinha que entrar e conferir. Porém, não teve tempo para isso, pois logo um clarão surgiu do interior da casa e um estrondo de explosão derrubou a ela e a sua avó no chão. Ana sentiu o ouvido zumbir devido ao barulho e quando conseguiu abrir os olhos, só pôde ver chamas no local onde antes havia uma casa. O fogo conseguiu se espalhar com uma velocidade nunca imaginada e toda a casa ardia em meio às chamas. — Tia! – Ana sentia seus pulmões arderem a cada grito – Tia Samanta! Tia Teresa! Ana gritava sem obter respostas até que chegou uma próxima visão que fez sua voz se calar num engasgo. Pois no meio das chamas a menina pôde identificar uma silhueta que se encontrava na janela. Tia? Ela pensou, mas no fundo sabia que não era. A silhueta parecia pertencer a um homem. Era alta e forte. Mas como alguém sobreviveria no meio daquele inferno? Apesar de não poder enxergar o rosto daquilo que estava na janela da casa, sabia que aquilo a encarava. Então o medo voltou a brotar no fundo de seu corpo, assim como acontecera quando ela ouvira a voz na estrada de terra. Um medo tão forte que toda a sua voz era sufocada quando tentava alertar sua avó do que ela via. Mais um estrondo. E a última imagem na cabeça de Ana ficou sendo a da casa e do ser misterioso desaparecendo num segundo clarão.

* Ana acordou duas semanas depois. Descobriu que o corpo de bombeiros local acusou um escapamento de gás como a causa da explosão. E apesar de tentar, e não importava o que Ana dissesse ou o quanto gritasse, ninguém acreditava na sua versão sobre ventos malignos. Seus relatos sobre a noite não eram levados a sério e com o tempo nem sequer eram ouvidos, servindo apenas para que Ana ganhasse anos de visitas

10

à psiquiatras de diferentes estados do país e remédios com nomes cada vez mais complicados. Anos se passaram e aos poucos Ana foi desistindo de sua versão. Na verdade, o tratamento devia estar funcionando, pois nem mesmo ela conseguia mais acreditar no que tinha testemunhado. O fato de não acreditarem nela e o medo de acabar como a avó – que foi internada num hospício ao enlouquecer após o acidente com as filhas –, fizeram Ana finalmente se calar. À medida que foi crescendo, Ana foi também esquecendo. Esqueceu-se das antigas histórias que lhe contavam suas tias, das horas passadas em volta da fogueira. Magia e bruxas eram agora para ela apenas sonhos de uma garotinha, que morreram junto com suas tias naquele terrível acidente.

11

1 - Um dia na fossa.
Uma música tocava ao longe. Apesar de pertencer a uma de suas bandas favoritas, naquele momento aquele rock pesado lhe trazia uma mensagem muito triste: era hora de acordar. Ana abriu os olhos. Enquanto tentava se acostumar à claridade do dia, tateou a cômoda atrás do aparelho celular para poder desligar o despertador. Sem nenhuma pressa, sentou-se e não saiu da cama até que garantisse que todas as juntas do corpo haviam sido estaladas e todos os músculos espreguiçados. Não tinha o menor ânimo de se levantar. Sabia que um forte interrogatório a esperava na escola. Todas as suas amigas iriam querer detalhes do último acontecimento do Bairro Vila da Penha: o fim de seu romance com Lucas. E por falar nele, Ana agarrou o porta-retrato ao lado da cama e tirou a sua foto com o ex-namorado e a rasgou. Menos mal, pensou, eu tinha ficado horrível na foto mesmo. Talvez estivesse passando pelo comum estado da fossa, mas Ana não sabia se era verdade. Estava triste sim, mas não tanto quanto imaginou que seria. Ela sempre pensou que se um dia terminasse, esse seria um acontecimento terrível, que ela choraria horrores e se sentiria péssima, mas não era tão ruim assim. Estava triste sim, mas nem tanto pelo fim, mas sim pelo modo como aconteceu. Talvez se ela chorasse conseguiria aliviar um pouco seu peito da angustia, mas nem isso acontecia. Desde muito tempo que suas lágrimas haviam secado. Ana já havia chorado muito desde... Não queria voltar a pensar nisso. Não agora. Quem sabe um dia na fossa fosse resolver. Não tinha muita experiência nisso a não ser o que tinha visto em um seriado de televisão, Gilmore Girls, e era com essa base que se permitiria realizar todos os rituais comuns a esse estado: desde filmes tristes até o sorvete. Quando finalmente conseguiu se levantar, dirigiu-se até a cômoda para se olhar no espelho. Com certeza seu estado de espírito se refletia no corpo, pois naquele momento, ela não gostava de nada do que estava vendo. A garota do outro lado tinha seus olhos castanhos cansados e fundos por passar a noite anterior em claro; uma pele morena que talvez precisasse de um creme e os cabelos negros e lisos na altura do queixo pareciam um tanto malcuidados. Bem, eu acabei de acordar, se consolou.

12

Porém, o que mais a incomodava no momento era a pequena mecha de fios rebeldes que insistia em não abandoná-la. Aquele era um pequeno grupo de fios que fazia parte de sua franja, só que ao contrario dos demais cabelos que ficavam bem penteados ao lado do rosto, aquela insistia em cortar seu rosto ao meio e não importava como penteasse ou cortasse o cabelo, aquela mexa era sempre sua companheira. Ana já havia aprendido a conviver com ela, porém, hoje a garota a odiava em especial. Quando acabou a auto-avaliação do rosto, resolveu descer os olhos e fitar o próprio corpo. Talvez eu esteja gorda, pensou estufando a barriga como que para comprovar sua teoria. Ana percebeu que não estava num humor muito agradável para se olhar. Só conseguiria ficar mais pra baixo se continuasse. Talvez não tenha nada de errado comigo, pensou. Lucas só me trocou por ser um idiota, tentou se convencer. Azar o dele. Então, a garota resolveu se atentar na única coisa que em nenhuma situação conseguiria encontrar defeito. Era um objeto sim, mas ficava tanto com ela que já podia ser considerado como parte de seu corpo. Tratava-se de um colar de ouro com um pingente em formato circular. Era um daqueles pingentes que se abrem permitindo guardar fotos em seu interior. Nesse colar, em especial, três imagens. Uma foto de Teresa e outra de Samanta, suas duas tias mortas num – como todos acreditavam e ela também – acidente doméstico. Dentro do pingente havia outra coisa também que, assim como as fotos, servia de ponte entre Ana e seus entes queridos, mas ela não queria abri-lo no momento. Já se sentia bastante depressiva para ficar alimentando esse momento com recordações tão pesadas. Esquecendo então o assunto, tomou banho, arrumou-se e desceu para tomar o café e ir para a escola. — Bom dia, Ana – cumprimentou sua mãe com seu habitual bom humor. Como sempre, sua mãe conseguia ficar muito bem logo de manhã. Aquela mulher não parecia viver momentos ruins e mesmo às sete da manhã conseguia estar deslumbrante fazendo o café. Ana sempre admirou a beleza da mãe, mas naquele momento aquilo a incomodava. Torcia para sair de seu estado de morbidez o mais depressa possível. Não agüentava essa Ana que agora tomava conta dela. Helena era professora universitária e se vestia à altura. Seu blazer branco e bem passado contrastava com a pele morena que Ana herdara. Seus cabelos eram lisos como os da filha, mas Helena os conservava assim mais curtos. Dizia que os mantinha assim porque Oscar adorava.

13

Pensando bem, Ana era a imagem refletida da mãe, com os mesmos olhos castanhos e rosto fino. Engraçado conseguir achar a mãe tão bonita quando se sentia tão feia. — Bom dia, mãe – respondeu, tentando dissimular a voz. — Fiz sanduíches para o seu café – ela tratou de dizer com sua pressa habitual. – Eles estão em cima da mesa – ela falava rapidamente enquanto pegava as coisas na mesa da cozinha. – Seu pai saiu mais cedo e eu terei de sair agora também. Desculpe não podermos tomar café com você hoje. —Tudo bem – ela sorriu cansada. — Tchau, filha. — Obrigado. A mãe saiu em disparada da casa. Dentre as muitas qualidades que Helena tinha, pontualidade não era uma e todo o dia de manhã era aquela correria. Ana, no fundo, sentia-se muito mais aliviada com isso. Pelo menos nenhum de seus pais perguntaria logo de manhã pelo namorado. A notícia sobre o fim da relação era uma coisa que Ana adiaria para seus pais o tempo que conseguisse. Então, sentou-se à mesa e comeu com a maior calma que conseguia. Olhando o relógio, percebeu que não se incomodaria de chegar um pouco atrasada. Quando abriu a geladeira para pegar um suco para beber com os sanduíches que a mãe fizera, notou o bolo de seu aniversário de dezessete anos que sobrou da noite anterior. Com todo o desfecho daquele dia, Ana até havia se esquecido de que foi a noite de seu aniversário. A cena da briga com Lucas passava por sua mente o tempo todo. O flagra, a discussão, a tremenda cara de pau dele. Belo presente de aniversário esse, irritou-se. Com um pouco mais de mau humor, terminou de comer, pegou a mochila e foi embora para o seu destino. Ana morava na Rua Feliciano Pena que ficava no Bairro Vila da Penha, nos subúrbios do Rio de Janeiro. Um lugar calmo e freqüentemente desanimado, apesar de o bairro possuir alguns atrativos, como um Shopping, cinema e algumas boates. Andando em passos cada vez mais lentos em direção ao colégio, ela tentava deixar sua mente voar, mas logo descobriu que tal desejo não era possível. Cada vez que deixava seus pensamentos a guiarem, era para Lucas que eles a levavam. Saco.

14

— Ana! Seu coração deu um salto ao ouvir seu nome e ela se virou com receio de ver quem a chamava, porém, quando se virou viu que era Ian, e sua paz de espírito voltou. — Graças a Deus – sua voz demonstrava o alivio que sentia. – Pensei que fosse o... — Eu sei – ele riu oferecendo pra ela uma bala de menta. Esse já era um ritual clássico do garoto. Ele podia viver sem oxigênio ou água, talvez até sem comida, mas nunca sem suas balas de menta. – Quer companhia? — Lógico! – respondeu, aceitando a bala e agarrando-se ao braço do garoto. Passaram a caminhar juntos então. – Eu precisava de alguém pra conversar de algum assunto que não envolva ontem. Ian era um jovem de dezesseis anos, de estatura média, embora mais alto que ela. Ele era seu vizinho e melhor amigo desde que se mudara para aquela rua há quatro anos, logo depois da tragédia em Três Corações. As janelas de seus quartos davam de frente uma para a outra e eles tinham o hábito de ficarem horas conversando por ali. Na verdade, foi o que tinha acontecido na noite anterior, quando ela recorrera a Ian para desabafar sobre seu término. Os dois acabaram conversando até as três da manhã e esse era o motivo de estar se sentindo tão cansada. Ian também parecia estar sentindo o desgaste da noite anterior. Seus olhos negros como um céu noturno estavam fundos também. Porém, observando melhor, ele parecia estar sem dormir por muito mais noites e parecia estar dez vezes mais cansado que Ana. Seus cabelos eram extremamente despenteados e negros, iguais a cor de seus olhos e contrastavam com sua pele muito branca. Ian sempre dizia que eles faziam parte de seu estilo largado, mas Ana desconfiava que o real motivo fosse relaxamento estético mesmo. Era comum vê-lo de calça jeans e casaco, suas vestimentas habituais, mesmo num tempo não tão frio como era o daquele dia. Era julho e inverno, mas como todo o inverno no Rio de Janeiro, não estava exatamente frio. — Vai ser difícil. Esse será o assunto do momento hoje – ele falou enquanto andava com a garota em seu braço. — Eu sei. Eu sei – respondeu com um sorriso desanimado. — Mas então. O que pretende fazer agora com dezessete? — Não sei. Acho que nada muda.

15

— Eu sei. — Como sabe se você ainda não fez? — Bem... – ele revirou os olhos – nunca faz diferença, não é? — Verdade – ela riu. Ana olhou para as olheiras do amigo. — Não tem dormido direito? – interrogou. — Não muito – assumiu. – Tenho feito umas coisas importantes – disse com falso ar de mistério. — Sei... – Ana assumiu um ar desconfiado – Importantes. Com quem? — Não é nada disso – riu-se o garoto. O caminho até o colégio foi bem calmo. Conversar com Ian era sempre agradável independente do assunto. Eles dois eram vizinhos desde que ela tinha doze anos. Na verdade ele foi o primeiro amigo que ela conseguiu depois do acontecimento em Três Corações. Após o incêndio, sua família se mudou devido às especulações dos vizinhos de que ela havia enlouquecido. Embora tal atitude não tenha adiantado muito, pois mesmo depois de mudarem para a Vila da Penha seu apelido, InsANA, ainda andava pela boca das pessoas nos primeiros dias. E foi nesse período que Ian foi seu porto seguro. Era agradável ter alguém com quem conversar e Ian escutava todas as suas histórias: de como ela ouviu a voz no vento, de como viu a forma nas chamas. Ele parecia ser o único que, se não acreditava nela, pelo menos não demonstrava desconfiar de sua sanidade. E quando ela finalmente tirou da cabeça a loucura das suas histórias de bruxas, Ian nunca mais tocou no assunto e mesmo assim sempre foram amigos. Chegando ao colégio Santa Teresa, ela soltou o seu braço e eles se viraram de frente um ao outro. — Bem – começou Ian –, tenho que ajudar o Carlos com um trabalho antes que comece as aulas. Vai ficar bem sozinha? Ana olhou em volta dando de ombros. — Não, mas pode ir. Vou tentar sobreviver. — Tente – ele sorriu. – Então tchau – despediu-se passando a mão no seu rosto arrastando a mexa rebelde para junto das demais e lhe deu um beijo na testa.

16

— Tchau. – Ana fechou os olhos ao receber o carinho. Ela sempre gostou desse gesto. Apesar de ser completamente inútil, pois o cabelo anarquista sempre retornaria ao meio da testa, era agradável essa dedicação de Ian. Agora a garota se virou, encarando a entrada à sua frente e, com um forte suspiro, entrou. Andando pelos corredores, não encontrou ninguém próximo. Foi rápido e entrou na sala e ali aguardou o inicio da aula de biologia. Dez minutos depois, viu entrar Fernanda. Ao vê-la, a garota acenou e veio se sentar junto de Ana. Fernanda era uma garota alta e esguia. Tinha a pele muito branca – mais até que a de Ian – e sempre usava roupas muito discretas e conservava os longos e encaracolados cabelos castanhos claros, presos. Fernanda – ou Fê – era uma garota reservada e muito tímida, embora de vez em quando pudesse dar uns surtos de adrenalina que eram extremamente assustadores. — Oi. Tudo legal? – Perguntou Fernanda, solícita. — Sim. Tudo legal – respondeu, tentando parecer convincente. Fernanda não perguntou mais nada e se sentou de frente para o quadro. Ana percebeu que ela estava doida para saber do caso da noite anterior, mas vendo que ela não estava muito interessada em falar sobre o ocorrido, ficou calada. Gostava desse respeito que Fernanda tinha pela vida dos outros e começou a pensar em conversar com ela. Mas não sabia como começar um assunto sem que ele fosse desviado para Lucas. Mas depois de pensar um pouco, percebeu que no fundo ela precisava desabafar com alguém do mesmo sexo. Alguém que tivesse mais facilidade de entendê-la. E não teria problema em falar com Fernanda, afinal, conhecia a amiga e sabia que não era fofoqueira e o que fosse falado ali seria levado ao túmulo com a garota se fosse preciso. — Bem... – começou, e viu que a garota se inclinara rapidamente para ela muito interessada – Ontem eu fui ter uma conversa com Lucas. Tinha uns assuntos que eu tinha de tratar com ele e não poderiam esperar. Aí nós brigamos e eu resolvi terminar. — Eu estou sabendo, mas por quê? O que ele fez? – começava o interrogatório. — Eu descobri que ele não era completamente sincero comigo. — Tinha outra garota? — Sim. Fernanda levou as mãos até a boca num gesto um tanto exagerado para se mostrar perplexa. — Gente. Eu nunca imaginei isso. Ele parecia tão...

17

— Certinho? – Ana arriscou — É – concordou a amiga. – Bem, minha mãe sempre dizia que esses são os piores, mas… mesmo assim. Ana deu uma risada desanimada e concordou com a cabeça. — Pode crer. Eu também não esperava. O sinal tocou e logo a sala estaria cheia de gente. Antes, porém, Fernanda tentou mais uma pergunta. — Mas como você descobriu? — Eu o peguei uma vez perto do clube onde ele pratica futebol. — Que sorte – e corrigiu rápido. – Q... quero dizer. Pelo menos você descobriu, né? Maior acaso. — É... – Ana, porém, não diria que foi acaso. Foi mais um sexto sentido. Na verdade ela preferia esquecer isso, pois a coisa lhe trazia lembranças que ela há muito tempo tentava enterrar. Porém, o pensamento era uma coisa difícil de controlar e ela logo estava de volta para a Avenida Tejupá onde tentava ligar para Lucas enquanto se dirigia à escola onde ele tinha aulas de futebol. — É serio – era Lucas que tinha atendido ao telefone depois da quinta ligação –. Vou ficar ocupado por algumas horas aqui. Depois eu te ligo. De noite. — Francamente, é mais fácil conseguir marcar hora num hospital público do que falar com você – Ana estava um pouco irritada com a distância que o garoto tomava dela. – Depois temos de conversar. — Tudo bem, tudo bem. Depois eu te ligo – sua voz demonstrava enorme impaciência. — Bem, você vai ao meu aniversário amanhã, espero. – não era um convite. — Claro – respondeu rápido demais. — Até – e desligou. Ana parou no meio do caminho. Havia pensado em fazer uma surpresa, mas desistiu. Seu namoro não ia bem e talvez algo de diferente pudesse salvar a relação. Porém, após ligar para o namorado, descobriu que ele não foi para o treino por ter de ajudar o pai com uma coisa que ele não explicou. Alguma coisa a incomodava naquilo. Era uma sensação de que algo estava errado. Pensou em voltar para casa e esperar a ligação até que começou a ventar muito. O que

18

começou com uma leve brisa, ganhou força até fazerem seus cabelos baterem no rosto. Mas o que mais a incomodava era que o som produzido em seus ouvidos que começava a ganhar forma. Uma voz começava a poder ser ouvida junto com o som da brisa. Uma voz diferente da que ela ouviu anos atrás em Três Corações, mas uma voz mesmo assim. Ela tentou tampar os ouvidos, mas a mensagem já havia sido dada: Ele está mentindo pra você Ana pensou em simplesmente ignorar o aviso, correr para casa e fugir daquela voz que tantas lembranças ruins lhe traziam, mas no fundo se sentiu tentada a fazer o que ela lhe falou. Tinha parado de ventar e o aviso, somado à própria desconfiança que ela já sentia a fizeram continuar até o clube. Chegando lá, a primeira coisa que pôde ver foi Lucas com uma garota, se atracando em público, encostados na grade que cercava o campo onde ocorriam os treinos. Ela não soube o que fazer naquele instante. Sentiu raiva do namorado, queria tirar satisfações, discutir, bater e xingar se fosse preciso, mas o raciocínio lógico a impediu. Isso só o faria se sentir melhor. Ter duas mulheres brigando por ele. Pensou com nojo. E refletindo assim, deu meia volta e foi embora. Em casa, socou o travesseiro, tacou ursos pelas paredes, mas não chorou. Era uma dor no peito o que sentia, uma raiva por ter sido traída, enganada, mas não foi forte o suficiente para fazer lágrimas verterem de seus olhos. Naquela noite Lucas não ligou e só o viu no dia seguinte na sua festa de aniversário, onde tiveram a última briga. — Ana? Acorda – uma voz a tirava de seus devaneios e a trazia de volta a Terra. Era Ian, que já estava ao seu lado na sala e a cutucava enquanto olhava em direção ao quadro. Ana olhou e viu que a professora já estava em sala, encarando-a com uma irritada interrogação na expressão do rosto. — Então, Ana? Qual a resposta? – ela perguntou. — Protocooperação – soprou Ian. — Protocooperação! – Ana se pôs a responder. — Sim – concordou a professora com ar de desaprovação. — Obrigada. – sussurrou em resposta — Não por isso – o amigo riu.

19

* Depois desse momento a aula ocorreu tranqüilamente. Saindo da sala, houve o intervalo onde três novas pessoas pareciam interessadas em saber detalhes da separação. Curiosidade essa que Ana saciou respondendo o básico do que era perguntado, tendo seu relato cada vez mais resumido. Depois, houve mais um tempo de matemática e dois de Literatura Brasileira. Enfim, quando o dia terminou, Ana pôde tentar voltar a passos rápidos para casa. — Ah não! – gemeu quando saiu da escola e viu quem a esperava. Do lado de fora do colégio, encostado em sua motocicleta, Lucas parecia aguardar alguém. Infelizmente, Ana sabia quem era. Lucas era um garoto de dezoito anos, alto e forte. Tinha cabelos castanhos e encaracolados que pareciam cachos de anjos. Seu rosto tinha traços fortes e Ana sempre o considerou bonito demais pra ela. Isso até hoje, pois agora sentia nojo dele. A garota tentou fingir que não o viu e passar direto, mas o rapaz era rápido e a alcançou segurando seu braço. — Me larga! – disse controlando a repulsa que aquele toque lhe causava. — Precisamos conversar – Lucas a virou para encará-lo. — Já falamos de tudo ontem – ela forçou um sorriso irônico. — Não falamos nada. — Você ainda vai negar? – e deu um pigarro de descrença – Vai negar que estava no campo naquela hora, quando me disse que não estava? Vai me negar que estava acompanhado? – sua voz saia mais alta do que queria e ela logo a controlou. — Claro. Eu não estava lá. Estava com meu tio, ajudando ele. — Não era seu pai? – ela lançou um olhar inquisidor. — É... meu pai – gaguejou. — Francamente, nem na mentira você se decide – e riu se virando. — Ana... escuta. Você provavelmente viu coisas – o garoto a segurou novamente. — Então estou ficando maluca, também? – ela não podia acreditar na tamanha cara de pau dele. — Não seria a primeira vez – brincou, rodando o dedo em volta do ouvido num sinal de loucura – InsANA, lembra – brincou. Agora ele havia pegado pesado demais. A garota fez menção de bater nele, mas ele segurou sua mão a puxando para perto dele.

20

— Me larga! – mas não houve tempo para respostas, pois uma nova mão, aparentemente surgida do nada, o acertou bem no meio do rosto Naquele momento ela ficou sem palavras e antes que pudesse recuperá-las viu Lucas ir ao chão com o soco. Ian agora se colocara entre os dois, encarando Lucas com o tronco um tanto curvado parecendo um pouco perigoso. Era estranho vê-lo naquela postura tão ameaçadora. — Acho que ela não quer falar com você meu amigo – falou em tom calmo apesar de sua voz parecer um pouco mais rouca que o normal. Ana conhecia bem Ian e ele não era do tipo que gostava de briga. E pior ainda: era do tipo que não sabia brigar. Sabendo disso, ela tentava afastar o garoto do lugar o mais rápido possível. — Ian! Calma! Tá tudo bem. – Ana tentava puxar Ian desesperadamente para longe do ex. Lucas se levantou num salto com os olhos faiscando. Ele já ia erguendo os punhos para bater quando foi interrompido pela voz do supervisor da escola. — Que palhaçada é essa aí? – berrava o velho zelador. O senhor Carmino já era um senhor mais sabia impor respeito dos alunos e até mesmo dos visitantes. Lucas concertou a postura e limpou a boca por onde escorria uma linha de sangue. Ana não sabia que a pancada havia sido tão forte. — Nada senhor – disse Lucas, mas sua voz expressava sua fúria. Ele lançou um olhar para Ian e depois para Ana e saiu na moto. Quando os ânimos se acalmaram e Carmino já dispersava a multidão, Ana falou com Ian: — Você não devia ter feito isso e... – pensou um pouco – obrigado. — Não por isso - ele respondeu lançando-lhe um meio sorriso. Era incrível como conseguia recuperar a calma tão rapidamente depois de tudo. — Mas você não devia ter feito isso – repreendeu – Sabe como o Lucas é egocêntrico. Não vai aceitar a humilhação e vai querer arrumar confusão com você. — Não tenho medo – respondeu relaxado. — Ian! – ela o repreendeu – Você é a pessoa que menos sabe brigar que eu conheço. Ele vai machucar você. O garoto fez uma careta de ofendido.

21

— Então é assim que você me vê? — Desculpe – falou dando uma leve risada – mas puxa! Você realmente não sabe brigar – e completou quase pedindo desculpas com os olhos –, embora esse soco tenha sido muito bom – decidiu completar. O garoto riu com ela. — Que bom ver você rindo de novo – ele disse — É – concordou – é bom rir de novo. — Está tudo bem agora? – perguntou – Eu vi a sua cara. O que foi que ele disse? — Nada. Só me chamou de insANA. — Imaginei que esse apelido não te incomodava mais. — O apelido em si não. Mas o que ele me faz lembrar sim. O garoto ficou em silêncio processando o que foi dito. — Entendo – disse limpando novamente seu cabelo afastando a franja rebelde – Mas antes que eu me esqueça. Sei de um programa legal para o fim de semana. — Serio, qual? – Ela tentava se mostrar mais interessada do que estava. Ainda estava cogitando a idéia do sorvete e do filme. — A Laila vai comemorar o aniversário dela no sitio da família. Ela vai convidar pouca gente para passar o sábado e o domingo lá e você está na lista. — Nossa. E quem vai? — Bem, ela, Amanda, eu, você, Rodrigo, Fernanda e Antônio. — Nenhum responsável? — Só a mãe dela. — Bem, ela não é bem uma responsável – riu-se Ana. — Eu sei, mas nossos pais não precisam saber. Ela riu mais alto. — É verdade. Mas eu imaginei que ela não ia querer comemorar o aniversário – lembrou Ana – pelo menos depois que o pai dela morreu. — Bem, você conhece a Laila, não se deixa abalar por nada. - comentou - é um poço de alegria. — Eu sei – concordou Ana – eu sei que ela é assim, mas é que há alguns dias mesmo ela estava horrível. — Eu lembro – Ian assentiu. – Mas já parece melhor. E ainda tem o fato que essa seria uma boa chance de se aproximar do Rodrigo.

22

— Ela e o Rodrigo? — É. E é por isso que ela não convidou a Samara. Pois sabe que ela também é afim dele. — É mesmo – concordou. – Mas que bom que ela está melhor, mas... eu não sei se vou. — Ah que isso! Vai sim! Não vou deixar você ficar sentada vendo “Um amor pra recordar” comendo sorvete – e a olhou nos olhos. – Deixe o pote pra mim - completou com um sorriso amarelo. Ana riu mais uma vez. Era tão bom poder dar risadas como aquelas. — Tá bom. – respondeu por fim – Mas antes tenho que falar com meus pais. — Já fiz isso. – cortou Ian – Ontem na festa, e eles concordaram. Sabe que eles confiam em mim. — Claro – a garota respondeu – Minha mãe pensa que você é um bom menino e meu pai acha que você é gay. Mais uma vez Ian fez uma careta. — Nossa! – gemeu com o orgulho ferido. — É – Ana concordou – fazer o que?

23

2 - Operação cupido.
Ana confirmou naquela mesma tarde que Ian já havia avisado aos seus pais e eles concordaram. Então, ela se preocupou em arrumar a bagagem para a viagem, não por necessidade, mas porque isso a mantinha ocupada. A viagem seria na sexta à noite e ainda era quarta. Tudo era válido para matar o tempo e Ana aproveitou a grande onda de motivação para o trabalho e ajudou nas tarefas do lar e colocou todas as lições em dia. Durante o período que antecedeu a viagem, o trabalho a ajudava a manter a mente ocupada e aos poucos o fantasma de Lucas ia sumindo de sua cabeça, mais rápido do que podia esperar. Na verdade, outras preocupações surgiam a todo o momento. A voz misteriosa que há muito tempo não escutava; o fato de Lucas estar muito irritado com Ian, o que poderia levá-lo a tentar algo de ruim contra o amigo; e o fato de temer que as pessoas voltem a lembrar da época em que ela era considerada a estranha por suas histórias de bruxas e vozes malignas. Até porque, o próprio fato de escutar coisas a fazia pensar que estava realmente pirando. Balançou a cabeça tentando fazer a idéia ser arrastada pra longe, pois não era saudável pensar naquilo de novo. Para se sentir mais segura com relação ao amigo, Ana convidava Ian para a sua casa todos os dias. Pelo menos assim ela tinha garantia de que ele se encontrava bem, o que a ajudou bastante, pois o amigo era sempre uma ótima companhia. Nesse período sua mãe havia descoberto que ela e Lucas enfim tinham terminado o namoro. — Mas Ana, por quê? Achei que vocês formavam um casal tão bonito. — É mãe, mas deu errado – se limitou a responder. — Por quê? — Mãe, eu preferia não falar disso com você. Ainda. A mãe não ficou nada feliz com isso. Para ela, Lucas era o par perfeito para a filha e ela não queria estragar a imagem que tinha dele. Apesar de ele ser um canalha, ela não queria magoar a mãe. Seu pai era mais seguro. Ele não gostava nada do namoro da filha, então se ele perguntasse, poderia contar tudo – excluindo o detalhe da voz.

24

— Mas ele deve estar arrasado. Coitado – disse a mãe com profundo pesar. – Mas que azar. Primeiro o fim do namoro e depois o acidente. — Acidente? – perguntou Ana com interesse. — É! Parece que ele teve um acidente de moto. Tá bem quebrado o coitadinho. Apesar de monstruoso, Ana não pôde evitar sentir certa alegria por dentro, que ela tentou reprimir, pois não gostava de desejar o mal dos outros, mas... Deus, perdão, mas isso é tão bom. Desabafou consigo mesmo. Afinal, ele estava fora de perigo. — E ele está muito machucado? – tentou parecer preocupada. — Não muito – a mãe respondeu – ele deu sorte nesse caso. Por isso seu pai não gosta de motos e ficava irado quando você saia com ele. Ana ficou calada. Por outro lado, estava aliviada por causa de Ian. Afinal, quebrado como estava, Lucas não ia querer implicar com o amigo e isso o deixava longe de encrenca.

— Bem feito! – disse o garoto quando ela lhe contou sobre Lucas numa de suas visitas na quinta-feira – Ele bem que mereceu. — Pelo menos assim ele te deixa em paz – ela dizia enquanto arrumava a mala pela quinta vez. Acostumou-se a fazer isso para passar o tempo. Sempre que se imaginava esquecendo algo ou tendo que tirar alguma coisa, ela desfazia e refazia toda a bagagem. — Aí dele se quisesse se meter comigo – Ian tinha um ar presunçoso, mas Ana sentia mais que eram mais palavras do que possibilidades de ação. — Está bem – ironizou – ele ia acabar com você. — Acho que você não me conhece nada – falou com um ar desafiador. — Pelo contrário – corrigiu Ana –, conheço você bem demais e sei que não faria mal a ninguém. Não porque não é capaz, mas porque não suportaria. É bonzinho demais – brincou. — Você se engana – sua voz havia baixado um pouco e Ana pôde reparar que seus olhos focalizaram o nada, como se estivesse tendo alguma lembrança ruim, mas logo voltou ao normal e a garota resolveu ignorar. — Para de baboseira e me ajuda a abrir isso aqui – e lançou uma mala pra ele abrir – o fecho ta emperrado.

25

* Finalmente chegou a sexta-feira. Todos os convidados chegaram e foram se acomodando no Fiat Doblô da mãe de Laila para embarcarem na viagem. Toda a gangue estava reunida, como costumava dizer Laila. Laila era uma mulata exuberante. Sempre foi muito vaidosa e gostava de se sentir atraente. Com seus cabelos cheios de cachos volumosos e um corpo bonito desde os doze anos, ela sempre foi alvo dos garotos mais velhos. Seu bom humor sempre fez bem a ela mesma, deixando-a mais atraente e sempre foi garantia de sua popularidade. A única coisa que Ana não gostava nela era que não podia evitar se sentir feia perto da amiga. Mas esse era um defeito perdoável. Rodrigo era um rapaz forte no tronco, mas deficiente nas pernas. Ele era mulato médio de olhos cor de mel e cabelos, de cor preta, arrepiados e era um pouco mais alto que Ana. Fernanda estava no seu canto, com seu jeito apagado de sempre, mas muito animada com a viagem. Antônio fazia o estilo intelectual com seus eternos óculos. Era um rapaz ruivo e tinha algumas sardas no rosto branco. Era alto e magro, mas sempre andava com excelente postura e falava polidamente, o que lhe rendera o apelido de Professor. Eram trinta minutos em média para se chegar até o sitio da família de Laila e eles aproveitaram o tempo para cantar o maior número de músicas antigas que conseguiam se lembrar, atitude essa que deixaria qualquer motorista louco, com exceção de Mônica, mãe de Laila, que até acompanhou algumas. Na parte da frente, ia apenas Mônica. Na parte de trás as pessoas formaram casais. Na primeira fileira vieram Laila e Rodrigo, cuja toda a conspiração foi para que os dois ficassem juntos. A segunda fileira do automóvel foi ocupada por Antônio e Fernanda, sobrando Ian e Ana nos fundos do carro. Quando todos já estavam cansados de cantar na viagem, se preocuparam em manter conversas com seus parceiros. Ana encostou a cabeça no ombro de Ian e relaxou. Aceitou uma nova bala de menta oferecida e como sentia frio, deixou seus braços entrelaçarem pelo tronco do garoto fazendo-o estremecer. Ela sorriu com a reação dele. Ian era sempre muito carinhoso, mas não era muito aberto a receber afagos dos outros.

26

Ela fechava os olhos enquanto deixava que o vento que entrava pelas frestas da janela acariciasse seu rosto. Depois de um tempo relaxando ali, Ana fitou o rosto cansado do amigo e sugeriu: — Por que não dorme um pouco? Você ainda está com uma cara de morto. Ian riu cansado. — Tem razão. Vou tentar – prometeu. Ela abraçou o garoto com mais força sentindo uma carência profunda e Ian começou a acariciar sua cabeça massageando seus cabelos, o que fez Ana se sentir muito bem. Naquele momento, se viu em tanta paz que acabou adormecendo.

* — Acorda dorminhoca! O grito fez Ana acordar num salto. Ao despertar por completo, notou que já haviam chegado. Ela tinha um grave problema de dormir em viagens, principalmente quando tinha vento batendo em seu rosto. Dona Mônica, mãe de Laila, estacionou o carro e não bastou o motor desligar por um segundo que logo as portas se abriram como se o veículo tivesse explodido de dentro para fora e todos os passageiros pularam para admirar o lugar. Depois de passados os primeiros momentos de contemplação, logo eles saíram em disparada para jogar as malas num dos quartos para depois irem a toda velocidade para a piscina da casa. A casa de campo de Mônica era um lugar muito bom de viver. Era um terreno muito bem espaçado com um grande campo de grama sempre muito bem aparada pelo zelador da casa. Mais ao longe, se via uma área onde se podiam distinguir algumas árvores que seguiam até os muros da propriedade. Aquele lugar despertava um sentimento infantil em Ana e ela morria de vontade de brincar de pique no meio daquelas árvores. A piscina tinha uns vinte metros por trinta de comprimento e sua profundidade chegava a dois metros na parte funda e um e meio na rasa. A casa era de uma arquitetura antiga que Laila dizia pertencer a um antigo cafeicultor sendo mantida assim quando seus pais a compraram. No fim, todos foram correndo em direção a piscina e pularam de roupas mesmo. Ana foi somente até a borda e colocou o pé na água. Estava gelada. E quando ela ia se

27

preparando para entrar, não notou que Antônio vinha por trás a toda a velocidade a derrubando na água com tudo. — Cara... Filho da...! – Exclamou a garota ao sentir o frio lhe perfurando o corpo. Ian veio se reunir ao pessoal, porém, não entrou na água preferindo se sentar a borda com os pés no interior da piscina. — Anda logo cara! – chamou Rodrigo – mergulha. — É. Hoje é sexta. Pode tomar banho – zombou Laila. — Não obrigado – disse Ian em tom formal – não quero... Mas antes que pudesse completar a frase, uma enxurrada de água foi-lhe arremessada de todos os lados pelos integrantes da piscina. Ana incluída. O garoto ficou imóvel por uns segundos com os cabelos encharcados cobrindo o rosto. Depois, sacudiu a cabeça espalhando água para os lados e sorriu. Ana sorriu também quando Ian olhou em sua direção, acusando-a. — Então – desafiou – vai entrar? — Ainda não – ele respondeu com o cabelo pingando. Nova enxurrada. — Ainda não – se manteve forte. De novo. — Agora chega! – e pulou na direção de Rodrigo afundando-o na piscina. Logo Antônio se reuniu a dupla e iniciaram um combate aquático. — Ai meu Deus! – exclamou Fernanda, se reunindo as duas garotas – Agora eles vão ficar ali por horas. — É verdade. – concordou Laila – vão querer decidir quem é o Macho-Alfa. — Bem e então, – interrompeu Ana tentando mudar de assunto – como vai com o Rodrigo? — Ele é meio tapadinho. – falou a garota sorrindo – Lento sabe. Mas ainda tenho dois dias. E você? — Eu o que? – perguntou sem entender. — Ora, você e o Ian? Vai me dizer que não rolou nada no caminho pra cá. — Que nada – ela riu. – Só amizade. — Até parece – se intrometeu Fernanda – Só se for pra você, porque pra ele deve ter algo além.

28

Ana se surpreendeu com o fato de Fernanda ter dado uma opinião a respeito do assunto. Tentando dissimular, falou: — Que nada. Mas Laila ainda não ia desistir. — Fala sério, Ana – e jogou um pouco de água da cara da garota. – Aproveita. Ta solteira agora e o Ian te sempre do seu lado e Seis é par – Completou. — Como? – ela riu incrédula. — Ora. Por que você acha que chamei exatamente três casais? A Fê tá dando o maior mole para o Antônio e a você, bem... faria bem uns beijinhos no Ian. Fernanda ficou vermelha, comprovando que Laila estava certa. — Mas e sua mãe? – tentou contra-argumentar. — Ela? – Se espantou Laila, como se fosse uma pergunta absurda – A mulher que me ensinou sobre sexo com doze anos e me deu minha primeira camisinha com quatorze. Não esquenta, ela é bem liberal. E antes de a missão cupido continuar, a mãe de Laila se aproximou da piscina. — Bem crianças – ela gritou pedindo atenção – Só quero comunicar a vocês as duas regras desse final de semana: “A primeira é que não me incomodem e a segunda, não se matem, ou seus pais vão me incomodar depois. Fora isso, divirtam-se. Estou aqui para relaxar e devo ficar com meus livros e meus DVDs o dia inteiro. E querida? – falou para Laila – Feliz aniversário e a vocês – disse apontando para os garotos – Juízo. E assim saiu — Não falei – disse Laila com ar de triunfo.

* Depois da piscina, os residentes foram arrumar a bagagem. Havia três quartos na casa. Um ficaria com Mônica e o outro seria dividido por todos, deixando um vazio. Como estavam cansados da viagem, resolveram comer e dormir cedo mesmo. Arrumaram os colchonetes por todo o chão de um dos quartos da casa e ficaram conversando até, um por um, caírem no sono. Por ter dormido na viajem, Ana acordou no meio da noite. Tinha perdido o sono e ao olhar a sua volta, percebeu que estava sozinha com Antônio e Rodrigo. As garotas e Ian haviam sumido.

29

Ao sair do aposento, notou uma luz vinda da sala e percebeu o som da televisão ligada. Caminhando sem fazer barulho, ela conseguiu ver Ian sentado, assistindo TV. A garota pensou em entrar, mas nesse instante, sentiu uma mão a agarrando pela cintura, fazendo-a pular de susto. Levando a mão à boca, conseguindo evitar por pouco um grito que acordaria todos da casa, ela se virou encarando Laila e Fernanda que tentavam segurar as risadas. O rosto de Fernanda estava completamente vermelho e Laila parecia que ia morrer por insuficiência respiratória. — Hilário – debochou Ana. — Foi, não é? – concordou Laila, ainda rindo — Quer? – ofereceu Fê, estendendo um pote de sorvete pra ela. — Não obrigado. — Ia fazer o que? Ver um filminho com o Ian? – perguntou Laila curiosa. — Não. Só vim saber o que metade das pessoas que deveriam estar dormindo, estão fazendo fora do quarto. — O Ian perdeu o sono e veio ver televisão – explicou Fernanda dando mais uma colherada no pote – a Laila teve um desejo e veio tomar sorvete. — E você? – perguntou Ana para Fernanda. — Não pude deixá-la encarar a escuridão da noite sozinha. – disse levando mais uma colher até a boca. — Muito prestativa – disse Laila em tom de sarcasmo. — Obrigado. — Não muda de assunto – continuou Laila se virando pra Ana. – Quando você vai lá? — Eu não vou lá. – replicou a garota. Não acreditava que voltariam aquele assunto. — Por quê? – ela apontou para a sala – ele tá lá sozinho. — E? — E que vocês são perfeitos um para o outro. – ela insistiu – Vocês dois são chatos e desanimados, gostam das mesmas músicas e não são muito normais. - explicou como se tudo fosse obvio – acho que dariam certo. — Obrigado – ela não tinha certeza se queria agradecer.

30

— De nada – respondeu Laila sorrindo. – Agora vai – e empurrou a garota, mas ela fincou o pé impedindo o corpo de entrar na sala. — Gente. – ela acenou como se as duas não estivessem prestando atenção nela. Ainda sorria, mas começava a se incomodar com a insistência de Laila – eu acabei de terminar sabia? Não seria melhor esperar um pouco? — Pra que? - ela parecia ofendida com a pergunta – você está solteira e eu não acho que deva ter alguma consideração pelo seu ex. Ana ia responder, mas se calou. Não tinha como discutir com essa lógica — Também acho que você devia tentar – Disse Fernanda tomando mais uma colherada de sorvete. — Pra onde vai isso tudo? – Ana tentou mudar o assunto — Sei lá. – respondeu a amiga em tom divertido – Tenho metabolismo bom. — Mudando de assunto de novo, não? – acusou astutamente Laila. — Olha Gente. - ela cortou as duas quando pareciam querer continuar – Valeu! Sério mesmo, tô gostando do que vocês estão fazendo, mas não rola. Acabei de sair de um caso não muito legal e me meter em outro não seria uma boa idéia – e continuou desta vez andando de costas em direção a porta do quarto –. Além do mais. Se eu ficasse com o Ian pra isso seria covardia. Seria como se eu o estivesse usando e isso arriscaria a nossa amizade que eu prezo muito. — Acho que ele não se importaria em ser usado – contra-argumentou Laila – ele é doido por você, sabia? — É verdade – concordou Fernanda. — Francamente – continuou Laila – essa é a desculpa mais velha de todas – e a parodiou – Ele é só meu amigo. Ana chegava mais perto da porta como se estivesse se afastando de duas feras selvagens. — Ah tá. Tudo bem gente – tentou ainda argumentar. – Digamos que ele seja afim de mim. Se fosse isso, então porque não me disse anda ainda? Chances ele teve. — Ora. Ele deve ser mais lento que você. Fala sério, você vive agarrada nele, gosta de conversar com ele, sempre corre pra ele quando tem alguma dúvida ou problema – ela contava as coisas nos dedos –. Tá na cara, não queira negar. É insultante. — Porque ele é meu amigo – insistiu Ana como se fosse algo óbvio. — E é gatinho – comentou Laila maldosamente olhando pra sala.

31

— Bonito? O Ian? – ela parou na porta erguendo as sobrancelhas. — É sim – concordou Fê. — Olha você mesmo – sugeriu Laila e dizendo isso, abriu caminho para ela estendendo os braços em direção a sala, convidando-a a passar. Ao olhar para ela, Ana sentiu a armadilha naquilo, permanecendo onde estava e evitando ser empurrada para a sala de novo. — Calma Ana. A gente não vai te empurrar – prometeu Laila – só quero que você veja como ele está bonitinho ali. Com certa impaciência, e ao mesmo tempo querendo acabar logo com o assunto, ela avançou e meteu a cara dentro da sala, vendo o garoto de sempre ali, nada de diferente. Ian estava agora sentado na janela da sala olhando a noite. Nem tinha reparado que ele havia desligado a televisão e começou a se perguntar se ele havia escutado a conversa. Preferia acreditar que não, pois morreria de vergonha se acontecesse. Mas ele parecia não perceber que estava sendo observado e continuava a fitar o horizonte com a atenção fixa. Parecia que sua mente não estava no mesmo lugar que o corpo. Olhando-o dessa forma o garoto até ganhava um ar de seriedade um tanto incompatível com o ar despreocupado que sempre demonstrava. Estava longe do Ian brincalhão que conhecia e parecia até mesmo mais maduro. Mas voltando a análise... Ian até podia ser de certa forma atraente, mas ele era um tanto descuidado consigo mesmo. O rapaz parecia terminado definitivamente suas relações com o pente, pois seus cabelos estavam sempre despenteados. Por sorte eles eram bem lisos. Caso contrário, seria uma coisa bem assustadora de se ver. Até que eram bonitos assim como estavam. O fato é que a garota não o imaginava diferente e estranharia se um dia o visse penteado. Seus olhos eram bem negros, era uma cor que Ana achava bonita e agora pareciam um pouco mais belos devido à expressão de profunda reflexão do garoto. Uma coisa positiva naqueles olhos é que combinavam perfeitamente com o negro dos cabelos e contrastava com o branco da pele. Começou então a reparar em seu rosto. O garoto tinha traços bem fortes que somadas às madeixas revoltosas lhe concediam um ar selvagem, másculo talvez. Mas bonito? Seria? Pensou inclinando a cabeça para poder ter outra perspectiva.

32

Decidindo mudar de foco, passou a olhar o corpo do amigo. Ian era alto e magro, mas tinha certas definições nos braços e um pouco de músculos se deixavam transparecer na camisa. Ian tinha músculos? Nisso ela nunca reparara. Resolveu voltar ao rosto. Olhar penetrante e misterioso. Era engraçado que apesar de conhecer Ian a pelo menos cinco anos sempre parecia que tinha muitas coisas dele que não sabia. Além desse ar de mistério, ele também era carinhoso e sempre a fazia rir quando precisava. Eram uma boa dupla, mas só amigos. Ana começou a lembrar de seus anos de amizade. Quando era motivo de riso das outras crianças por suas histórias absurdas e Ian era o único que a ouvia sem zombar dela. Lembrou-se de quando tinha dúvidas na escola e Ian sempre lhe explicava o que não entendia. Era ótimo ouvi-lo falar. Ela se lembrou também de quantas vezes ele a defendeu na vida. Como quando tinha treze anos e alguns garotos roubaram seu colar e não a deixavam pegá-la, gritando ofensas alegando que ela era louca ou então imitando ataques de histeria como e fosse Ana. Aquele era o bem mais precioso da garota e ela lutava para recuperá-lo, mas era inútil. Ela se lembrou ainda que naquele dia Ian voou em um dos garotos que segurava seu cordão e lhe tomou a força. O problema é que logo depois ele apanhou feio. Ian não era um bom lutador e não tinha chance contra os três que implicavam com ela. Por sorte ele não tinha se machucado bastante e no dia seguinte já havia melhorado. Lembrou de Lucas e como ele a defendia na saída do colégio e como ele sempre mudava quando alguma coisa a ameaçava. — Ana? Ana? - chamou Laila Ana começou a sair de seus devaneios e voltou para a cozinha como se tivesse caído de uma altura considerável. — Você tá aqui garota? – brincou Laila. — Ah Sim... To bem. - respondeu ainda tentando se acostumar com o presente. — Pensando em que? - interrogou Laila. — Nada - mentiu – nada mesmo. — Então? — To com sono – e se apressou em ir para o quarto. – Tenho de dormir. Ela então atravessou a porta e correu para se deitar, deixando Laila e Fernanda pra trás. A garota pôde ver, antes de fechar a porta, o sorriso presunçoso de Laila com sua atitude.

33

3 – Aliança
O Centro da Cidade do Rio de Janeiro, apesar de sua arquitetura moderna como os imensos arranha-céus, ainda conserva muitas construções pertencentes aos sécs. XVIII e XIX, como é o caso de alguns patrimônios como o Museu da República, o Palácio Tiradentes e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais E assim também é com a Igreja da Iluminação, que ficava no Largo São Francisco Paula. Construída em 1970, aproximadamente, a igreja é um lugar de culto muito restrito. Suas missas ocorrem apenas uma vez aos domingos e nas comemorações dos dias santos. O que se faz por lá nos demais dias, nenhum morador local sabe dizer. São poucas as pessoas que ali freqüentam em dias de missa e menos ainda são aqueles que aparecem entrando e saindo de lá quando não se está nesses dias. Hoje, porém, era um desses raros dias em que um visitante chegava perto da igreja. Andando pelas ruas escuras e fedidas a urina da Uruguaiana, com seus mendigos e suas praças, vinha um jovem magro e de rosto macilento. Ele tinha cabelos louros e de aparência oleosa e olhos muito azuis. Esse talvez fosse o único traço em sua aparência que o salvava. Ele chegou até as portas gigantes da Igreja da Iluminação e encostou sua mão na madeira. Olhou em volta à procura de alguém, mas ali ele só tinha a companhia dos mendigos que naquele momento pareciam todos adormecidos. Então, voltou sua atenção à enorme porta de madeira e fechou os olhos ouvindo as trancas do interior se destravando e, logo depois, as portas se abriram. Ao entrar no templo, as portas se fecharam novamente sem que ele tivesse de tocar na madeira. Ali, ele deu uma boa olhada na arquitetura que era muito mais impressionante por dentro do que por fora. Enquanto a sua estrutura externa era decadente, parecendo poder cair aos pedaços a qualquer momento, com seus pedaços faltando, suas pichações horrendas e seu forte cheiro de urina, no interior a decoração renascentista do lugar enchia os olhos de qualquer amante de arte. Apesar de sua falta de luxo, sua decoração em madeira e mármore era de um capricho inigualável. Não é preciso luxo para agradar o senhor, pensou o jovem enquanto se permitiu admirar por mais alguns minutos as imagens santas do interior da igreja e depois apressou o passo até o altar principal aonde, atrás dele, se encontrava um enorme quadro retratando a Virgem Maria segurando Jesus Cristo no colo. Ele se aproximou da imagem e antes que pudesse tocá-la, ouviu um som por trás dela e logo o quadro girou, revelando uma gruta por trás da imagem. Uma voz rouca saiu do interior do túnel: — Entre filho.

34

Ele entrou. Passou por um extenso corredor que mais parecia o interior de uma mina abandonada. Mas bastou andar um pouco para sair em uma sala bem luxuosa. Nesse lugar, beleza e magia andavam juntas. Havia uma lareira com chamas púrpuras queimando em seu interior banhando o belo aposento com uma luz espectral e enchendo os ouvidos com o crepitar da lenha. Os Adentrando o túnel que se abriu, encontrou uma nova sala do outro lado da passagem. Esta, também muito bem vistosa. Seus móveis eram feitos de boa madeira e adereços de ouro estavam em todas as estantes e competiam com as imagens de santos do local. Sentado em uma poltrona de frente para a lareira estava um senhor um pouco acima do peso, vestindo uma manta cor de pele e um crucifixo de ouro em volta do pescoço quase invisível. O homem tinha uma expressão calma, porém divertida, no rosto. Olhando-o assim, aparentava ser um velho sedentário e provavelmente inofensivo, mas o garoto sabia que não podia confiar na aparência ao julgá-lo. — Bem vindo Ângelo. – saudou o senhor com uma voz rouca. Dava para ver que ele fazia um grande esforço pra falar. — Nem me deixou abrir a passagem – observou o jovem – estava ansioso me esperando ou tentando me surpreender? — Eu não conseguiria isso mesmo que quisesse – respondeu forçando um sorriso. – Olhe o meu estado. Ângelo via que não tinha como discordar. O eminente bispo César, que até outrora era um dos mais respeitados e temidos magos da Ordem dos Iluminados fora reduzido a quase ruína. Doía o coração de Ângelo ver seu mestre naquele estado. O bispo César havia contraído uma forma de câncer que nem os maiores especialistas tinham noção de como se tratar. Um tumor em sua garganta havia brotado e alcançado proporções gigantescas em poucas semanas. O bispo se recusou a procurar qualquer especialista , seja na área médica ou mágica, acreditando que isso o faria se afastar de suas funções. Faltar com suas responsabilidades era uma coisa que o bispo não tolerava, principalmente num momento tão delicado como o que se passava. E era justamente disso que Ângelo vinha tratar com ele aquela noite. No momento, César sobrevivia com medicamentos trazidos por um amigo que Ângelo pouco conhecia e escolheu o leito tranqüilo da Igreja da Iluminação, o que ele considera sua última função na terra. — Bispo, eu... – tentou ir direto ao assunto. — Tenha calma, Ângelo – interrompeu o bispo com a voz um pouco mais alta do que queria e teve que levar a mão à garganta, massageando-a – eu nem lhe ofereci nada. — Não quero nada, obrigado – apressou-se o garoto a responder

35

— Então, sente-se. Ângelo puxou uma cadeira para perto da poltrona do bispo, sentando-se. — Bispo! Vim expressar meu desagrado pela sua recente decisão. - falou em tom polido e o Bispo riu como pôde. — Não precisamos ser tão formais meu pupilo – disse amavelmente – Eu entendo suas dúvidas, mas essa questão não envolve você. — Perdão dizer isso, mas envolve toda a Ordem dos Iluminados, senhor. Então me envolve. – e se apressou em continuar antes que fosse interrompido – Não vê o risco que corre fazendo acordos com esse tipo de gente? – Ângelo tentava manter a voz o mais baixa possível, pois sabia que o bispo não suportava gritaria — Entendo sua preocupação, meu filho. Mas tenho que repetir que os únicos envolvidos nisso somos eu e o frade Henrique – depois lançou um olhar astuto para o garoto. – E você, porque resolveu fuçar onde não deve? Ângelo abaixou a cabeça. E depois, recobrou a confiança e continuou a falar em tom polido: — Então o senhor não pretendia me contar nada – não foi uma pergunta. — Não – respondeu o bispo com sinceridade – e sabia que você seria contra. — E sou. O bispo ficou calado. Sabia que aquela discussão não tinha acabado e como sua garganta doía, preferia deixar o garoto falar. — Senhor! Desculpe continuar insistindo, mas negociar com os Inquisidores é suicídio. Eles vivem a vida a nos caçar. Não acredito que tenhamos alguma coisa que eles querem. — Na verdade temos sim – o bispo Casar tentou rir de novo, mas sua garganta não permitiu – e vale lembra-lhe que nós e os inquisidores já fomos aliados. — Isso foi a uns cinco séculos bispo! – rebateu o jovem – Esse pacto foi quebrado há muito tempo, e hoje nós somos tão caçados quanto os demais magos. — Eu sei. E também duvido que esse nosso casamento dure muito tempo. Mas no momento é de vital importância a ajuda deles. E foi quando se iniciou uma tosse que fez a cabeça do bispo tender para frente enquanto tentava erguer a mão e pegar o remédio na mesa próxima a sua cadeira. Vendo a dificuldade e sabendo o quanto aquelas tosses eram dolorosas para César em seu estado, Ângelo se precipitou para abrir o frasco, colocando um comprimido na boca do velho. Logo a tosse se cessou. — Essas tosses me causam uma dor horrível – disse o bispo com os olhos cheios de lágrimas – ainda bem que tenho esses comprimidos. Eles são milagrosos. — De que são feitos? – tentou dar uma pausa no assunto.

36

— Não sei na verdade. É arte indianista. Feito de uma erva amazônica. Especialidade do frade. Mas funcionam, e é isso que importa. Ele encarou o discípulo — Está vendo o porquê de temos de agir rapidamente. Não vou durar muito – continuou o velho bispo. – Como você sabe, o período em que vivemos hoje é muito delicado. O tabuleiro está dividido em três partes com os magos, os demônios e os inquisidores ocupando capa ponta. Nós estamos bem no meio deles e somos odiados por todos. Temos que garantir alianças para sobrevivermos. — Eu sei, mas logo com eles? — Sim. É necessário – confessou o velho –. Até porque, a informação que demos a eles vai ser de grande importância pra ambos os lados. Vão ser dois cachorros com um só tiro – e fez uma pausa para pensar se era esse mesmo o ditado. — Quando o senhor vai me dizer o que esta negociando com eles mestre? – disse o garoto num tom mais de súplica do que de interrogação. — Quando for à hora – respondeu o velho – até lá, quanto menos pessoas souberem melhor. Eu e Henrique daremos conta. Agora saia! O jovem se surpreendeu: — Como? — Tenho de receber o frade Henrique para que discutamos assuntos que não lhe dizem respeito. Agora saia! Um pouco ofendido, o garoto se levantou e saiu pela passagem por aonde veio.

* Pobre Ângelo. Perdão! Pediu silenciosamente o bispo quando o garoto saiu. Ângelo era seu aluno mais novo, e também o mais promissor. Com apenas cinco anos de aprendizagem havia alcançado um nível de controle mágico formidável. Era um prodígio com certeza. O que a natureza havia lhe economizado em dotes físicos, havia compensado em miolos. Mas esse assunto o Bispo César preferia não envolver seu protegido. Não ainda. Ângelo seria seu herdeiro no futuro. Todo seu legado estaria guardado a ele quando o bispo, enfim, partisse consumido pelo câncer. Mas no momento, justamente para que Ângelo vivesse para receber essa herança, ele tinha de mantê-lo longe. César recentemente descobriu um segredo que havia lhe garantido um poder de barganha inimaginável. Uma presença, ou um presságio, não sabia a diferença, lhe invadiu os sonhos numa noite, mostrando o prenuncio de um retorno. As portas do inferno estavam se abrindo e impedir a volta da criatura era uma missão para todos, Magos ou Caçadores. Tal noticia era um

37

prato cheio para os Inquisidores. Pois se tratava de um ser mágico centenário ou talvez milenar, com um poder que fez o bispo tremer. Com certeza os caçadores iriam querer por as mãos nele antes que conseguisse conquistar todos os seus poderes. Por outro lado, além de conseguir aliança com os Inquisidores, a morte deste ser também interessava toda a Ordem dos Iluminados. Afinal, sua maior missão quando esta organização foi construída sempre foi a de destruir os demônios. Negociar com os Inquisidores seria algo que a Ordem não toleraria como o bispo já previa. Então, resolveu tomar as rédeas da situação e ir em frente sozinho. Era um mal necessário. Os fins justificam os meios. Mas Ângelo tinha de se manter fora disso. Pelo menos até estar tudo acertado. O garoto era jovem e tinha que viver muito. César, pelo contrário, estava condenado. Sabia disso. Mas antes de morrer seria o responsável pela salvação de milhares de pessoas e também de garantir uma aliança de vital importância para a sobrevivência da Ordem. Sairia por cima no fim.

38

4 – Carência.
Ana tratou de se deitar na cama o mais rápido que pôde. Não estava com sono, mas fingir dormir era a melhor maneira de fugir de Laila e Fernanda. O que havia sido aquilo? Ela havia deixado Laila falar demais e agora estava começando a pensar besteiras. A última coisa da qual precisava agora era um novo relacionamento. Seu coração já havia sido ferido demais e outro golpe não seria suportável. Eu e Ian. Ana riu do absurdo Iria dormir e amanhã já voltaria ao normal. Pelo menos era isso que esperava. E foi com esse pensamento que se cobriu esfregando os braços para ver se os pelos paravam de ficar ouriçados.

* Laila e Fernanda continuaram a se deliciar com o sorvete enquanto conversavam sobre a reação de Ana. — Não disse que ela estava a fim? – comemorou Laila. — Verdade – concordou Fernanda, lavando seu pote. — Agora falta só o Ian. Acho que ele vai ser mais fácil. — Você está realmente animada com isso – comentou Fernanda — Eles realmente formam um belo casal – refletiu Laila, ignorando o comentário. — Pena que ainda não tenham se ligado nisso. - Fernanda completou. — É verdade – riu-se Laila. Ao terminaram de lavar os potes de sorvete, Fernanda deu um longo bocejo começando a sentir que o sono vinha com toda a força. — Vou dormir. - anunciou - Vem? Laila passou em direção ao quarto, mas viu que Ian ainda estava na sala. Ele continuava sentado na janela e desta vez estava acariciando a orelha de Rex, um dos rottweilers que tomavam conta da casa. — Eu vou sim – respondeu Laila. – Mas antes vou atacar na outra ponta. — Bem, eu estou com muito sono - desculpou-se a garota - Não vou ajudar nessa. — Tá certo. Boa noite – disse Laila dando dois beijos no rosto da amiga. — Boa noite – e entrou no quarto.

39

Após a amiga sair do mesmo cômodo que ela, Laila respirou fundo e avançou, aproximando-se do garoto sem fazer barulho. Porém, quando chegou a uma distância curta ele virou o rosto para encará-la. O que a fez pular. — Nossa! – segurou o grito levando a mão ao coração – E eu que queria te dar um susto. — Desculpe – Ian sorriu pra ela. Ela olhou mais uma vez ele acariciando o cachorro e comentou: — Você é um dos poucos que não tem medo dele. Ian se virou de volta para o animal. — Eles não são tão maus assim. — Bem, com você. Acho que com outro ele teria arrancado a mão – comentou com naturalidade – E bem... – ela pensava no que dizer – você não tem sono não? — Hoje não. Resolvi assistir televisão para ver se me dava, mas nada. — Podia ter vindo tomar sorvete com a gente. Estávamos eu, a Fê e a Ana. — A Ana está acordada? – e Laila sorriu com essa manifestação de interesse — Não. Foi dormir já. — Ah... Ian voltou a prestar atenção no cachorro. Depois, lembrando-se de algo, ele voltou o rosto para Laila e disse: — Eu quase me esqueci. Obrigado por me convidar. — Que isso! – disse a garota com um gesto de pouco caso. — Não, é sério. Você chamou muito pouca gente e nós nem somos muito íntimos — Amigo da minha amiga é meu amigo. Ele riu — Valeu. — E por falar em Ana – insinuou a garota – como ela tá indo por causa do Lucas? — Acho que ela vai sobreviver – respondeu sem dar muito caso. Mas Laila pôde perceber que quando o nome do ex de Ana foi citado, o lábio superior do garoto deu uma tremida. — Então? – continuou investindo – E o que você acha desse fim? — Eu? – Ian pareceu surpreso com a pergunta – Acho... bom – concluiu. — Por quê? — Por que eu acho que ela merece coisa melhor.

40

— Por quê? – ela arregalava mais os olhos a cada Por quê. — Por que ele é um boçal. — Por quê? — Quantos porquês você vai me fazer ainda? — O suficiente até você me responder o que eu quero? — E o que seria? — Porque você gostou tanto desse fim. — Eu já falei. — Não a verdade – cortou. — Que verdade? — A de que você está feliz porque agora tem uma chance com ela. O garoto tomou um susto com a acusação. — Ah? - e soltou um pigarro – O que você está falando? Laila riu alto, depois levou a mão à boca para abafar. — Você é demais – ela continuou após parar de rir – até parece que não é nem um pouco afim da Ana. — Como assim? — Vai continuar se fazendo de sonso? – acusou. O garoto ficou calado por um tempo. — Somos amigos apenas – disse finalmente, voltando sua atenção ao cachorro. — Infelizmente pra você é assim. – ela continuou e viu que ele evitava olhá-la nos olhos – Mas isso é questão de tempo. Ian riu em deboche; —Sério! Ela também é louca por você. — Eu não sou louco por ela – corrigiu. — Tudo bem. Digamos que não – Ela ergueu as mãos em sinal de rendição –. Mas então você não se importaria se ela arranjasse outro, não é? — Como assim? – o garoto se virou pra ela. — Ora! Simples. A Aninha está carente, coitada. Precisa de um consolo pra se reerguer e como você não se candidata – ela lançou um olhar astuto pra ele –, é bom que ela arranje alguém. Não acha? O garoto ficou pensante, depois voltou sua atenção pra fora e disse: — Acho que sim.

41

Laila deu um forte suspiro de impaciência. — Então tá – consentiu – mas, não diga que eu não avisei. A Ana precisa de alguém que a faça esquecer o Lucas. E você seria o candidato perfeito. Eu votaria em você – e deu de ombros – Eu já lhe avisei meu amigo. Se você queria uma chance, é esta. Ian não respondeu. — Bem. Ao contrário de você, eu durmo. Boa noite – a garota agora se virou para sair da sala. — Boa noite - respondeu Ian. — E vê se dorme – recomendou numa virada rápida. – Você está com uma cara horrível. E saiu deixando o garoto sozinho com coisas para se pensar.

* Ana despertou com o barulho da porta do quarto se abrindo. Ao olhar para a direção da entrada do quarto, viu que Ian finalmente entrara para dormir. Ele se achegou para perto dela e deitou ao seu lado. Ela continuou a fingir dormir, mas estava com vontade de se virar para falar com ele. Ficou nesta posição por algum tempo, sem escutar nenhum som vindo do garoto ao seu lado. Naquele momento ela se encontrava de costas para o amigo e não conseguia ver se Ian já estava ou não dormindo. Vencendo a inibição, se virou para ficar de frente para ele e ao fazer isso levou um susto, pois o garoto estava virado pra ela e a olhava fixamente. Ana sentiu um arrepio na espinha pelo peso daqueles olhos. Por algum motivo não era o olhar habitual que Ian dava para ela. Havia algo de diferente. Esperança talvez. — Que bom que está acordada – ele disse em voz baixa e Ana sentiu um calor leve lhe subir o corpo. — Oi – ela respondeu sentindo o rosto corar. Droga, porque isso agora? — Eu só gostaria de dizer uma coisa – e falou encurtando a distância que os separavam. – E acho que se não falar agora não vou conseguir mais. — O... q... que? – ela pensou em se afastar um pouco, mas não o fez. Continuando deitada com as mãos encostadas no peito. — Fico feliz que tenha terminado com o Lucas. – falou rápido.

42

— P... por quê? – droga, ela tinha de parar de gaguejar. — Porque ele era um lixo e não a merecia. — Só? – perguntou Ana, mesmo sabendo que não era só. — Não – e respondendo isso, se aproximou mais de Ana, fazendo seus corpos se tocarem. Uma sensação parecida com a de uma corrente elétrica atravessando suas costas acometeu a garota. Ela não conseguia falar nada e ficava parada fitando aqueles olhos escuros. O garoto ajeitou sua franja, limpando seu rosto e se aproximou mais. Ela agora fitava seus olhos negros a uma distância de poucos centímetros. A respiração de Ian atingia seu rosto como uma brisa, permitindo que ela conseguisse sentir seu hálito. Um forte cheiro de bala de menta adentrou suas narinas. Eram as balas favoritas do amigo. A sensação de fitar aqueles olhos negros era a de como olhar para um poço sem fundo. Havia certo medo, mas também uma curiosidade nisso. A partir daquele momento, tudo que se seguiu passou como um efeito em câmera lenta. Ele foi aproximando o rosto para perto do dela com lentidão e por mais tempo que se passasse, a distância entre os dois não era vencida. Ana não conseguiu fazer com que seu cérebro processasse qualquer reação para o que estava prestes a acontecer. Na verdade, ela não conseguia nem mesmo crer no que ela achava que estava prestes a acontecer. Até que, faltando apenas um milímetro para que seus lábios se encostassem, ela sentiu um gosto parecido com o de pano penetrar a sua boca. Ana despertou e se pegou beijando o próprio travesseiro, enchendo-o de saliva. No susto, se ergueu rapidamente, olhando em volta. Mas apenas Fernanda e Laila haviam voltado. Ian nem estava ali. — Tá de sacanagem – suspirou consigo mesma. Sem saber o que fazer, pensou em ir ver o que Ian estava fazendo para se manter acordado a noite inteira, mas desistiu da idéia achando melhor não. Não era bom encontrar com ele naquele estado. Ao invés disso, virou o travesseiro e tentou voltar a dormir.

43

5 – Excluído.
Ângelo continuou na Igreja da Iluminação mesmo após ser expulso por seu mentor. Não foi capaz de abandonar o local com tantas coisas o inquietando. A idéia do bispo ainda parecia absurda perante seus ouvidos. Aliar-se com os Inquisidores novamente? Loucura. Ângelo conhecia bem a história de sua ordem mágica para saber que as chances daquele plano dar certo eram extremamente limitadas. Durante a Idade Média, a magia experimentou seu momento de apogeu e queda numa transição muito rápida. Devido ao alto poder alcançado por inúmeros grupos mágicos, tanto da Europa quanto dos demais continentes do velho mundo, logo a ambição começou a tomar conta dos praticantes de Magia e guerras foram sendo travadas entre diferentes tribos, a fim de alcançar uma hegemonia no planeta. Foi o período em que a realeza e o clero começaram temer a ameaça mágica. Nesse contexto, a igreja católica começou a arquitetar contra essa ameaça em conjunto com os reis e lordes feudais da época, fundando a sociedade secreta conhecida como Os Inquisidores. Os iluminados eram, no período, a esquadra mágica da Igreja de Roma e seu braço direito para assuntos referentes à magia. Usando a mágica contra a mágica, anos de guerras foram travados entre os Inquisidores e todas as organizações de bruxos que havia espalhadas pelo planeta. Devido a pouca organização e falta de sentido de união entre os magos, estes foram gradativamente derrotados, restando muito poucos no mundo de hoje. Porém, com o passar dos anos, a própria Ordem dos Iluminados começou e ser vista como uma profunda ameaça para a nova ordem. Pois agora, não só os magos eram condenados, mas toda a magia em si tornou-se sinônimo de ferramenta do mal, desvirtuando e corrompendo as pessoas. Enquanto, em contrapartida, o avanço científico ganhava as escolas do séc. XVIII tornando-a, além de profana, ultrapassada. Não demorou e os Iluminados passaram a ser vistos como uma pedra no sapado e foram excomungados entrando para a lista negra dos Inquisidores. Assim como os demais magos, eles sofreram graves perdas e agora o grupo de Ângelo se encontrava numa situação ainda mais delicada que a dos outros. Como o próprio Bispo César havia falado, todos já estavam em seus lados do tabuleiro. Uma guerra acontecia por debaixo dos panos no planeta e o mundo estava dividido em três grandes extremos: em um, os

44

inquisidores, que lutavam para acabar com os últimos resquícios mágicos existentes na Idade Contemporânea; de outro, as últimas organizações mágicas que tentavam sobreviver em um mundo cada vez mais cético; e no último extremo, outra espécie de criaturas que mesmo mortas ainda atormentavam a vida das pessoas vivas. Possuindo corpos de inocentes e comandando um exercito de bruxos que se vendiam para eles em troca de poderes, os demônios eram a maior ameaça de todas. E eram também os principais inimigos dos Iluminados. Na verdade, a luta contra os filhos das trevas foi o que causou a adesão dos Iluminados nas fileiras da inquisição nos primeiros anos de caça às bruxas. Pois na Idade Média, o número de bruxos que compactuavam com as forças obscuras para conseguir poder havia aumentado assustadoramente. Naquele momento, o ataque dos Inquisidores estava completamente direcionado contra a “má magia”. Porém, à medida que foram ganhando mais poder e adeptos, passaram a lutar contra toda a forma de força oculta, incluindo os Iluminados. Ângelo sabia que na atual situação eles estavam bem no centro da guerra, pois não conseguiam formar alianças com nenhum dos três grandes grupos. Eles jamais juntariam forças com os filhos das trevas e os demais magos estavam ressentidos demais para aceitar a ajuda dos Iluminados. Logo, os Inquisidores eram a última chance, levando-se em consideração que já foram aliados no passado. Mas Ângelo não acreditava que fosse possível reviver tais tempos. Com a vitória esmagadora da ciência sobre a superstição, não havia mais espaço para acordo entre os Inquisidores com os Iluminados. Eles já eram os vencedores da guerra e a única coisa que faltavam fazer era pescar os pequenos peixes que insistiam em nadar num rio que aos poucos secava. Para Ângelo, ainda era melhor a tentativa de renegociar com os grupos de magos remanescentes, mas o alto conselho do grupo nunca ratificava tal decisão. Sentado em um dos inúmeros bancos da igreja, contemplando sua imagem favorita, aonde mostrava a da Virgem Maria subjugando a serpente com seus pés descalços, Ângelo se pôs a esperar, enquanto tentava enxergar alguma saída mais favorável para aquela situação. Mas estava difícil ver uma luz nos tempos de escuridão da atualidade, com a magia quase morta e com os Inquisidores e os filhos das trevas com poderes cada vez maiores.

45

Ângelo respirou fundo e começou a rezar para recuperar a fé, e foi quando lhe ocorreu uma duvida: que informação o bispo havia obtido que interessava tanto os Inquisidores? Seria ela tão importante que faria os dois grupos esquecerem anos de lutas e mortes? O bispo não quis lhe dizer do que se tratava. Mas os pensamentos do jovem iluminado foram cortados pelo som das pesadas portas da igreja se abrindo. Ao se virar, ele vê o Frade Henrique adentrando a igreja. Henrique era um homem de trinta anos bem vividos. O pouco que Ângelo conhecia dele é que no passado trabalhava como intermediário entre a Ordem e os demais grupos mágicos existentes. Henrique tinha sempre uma postura impecável assim como seu visual, com unhas e cabelos sempre bem cortados e cuidados. Ele vinha andando em direção ao garoto e vestia sua habitual batina preta e trazia um embrulho embaixo do braço. Ângelo sentiu um profundo alívio ao ver Henrique e se levantou par receber o visitante: — Bem vindo frade Henrique. O homem se surpreendeu ao ver o garoto ali no escuro. — O que faz aqui tão tarde, Ângelo? — Precisava falar com o bispo César sobre um assunto urgente – respondeu. — Posso saber do que se trata? – o frade tinha um ar de preocupação. — Claro frade. – se apressou em responder – Na verdade, o assunto também convém ao senhor. Já estou ciente dos encontros do senhor e do bispo César com alguns setores dos Inquisidores. O frade ficou ligeiramente surpreso com tal afirmativa e tentando conter a palidez de seu rosto, perguntou: — Mas como você sabe disso? É um assunto confidencial. — Eu escutei uma vez a conversa do senhor com o bispo. - admitiu - Estou ciente que vocês têm se encontrado com gente da inquisição e que também possuem uma informação de vital importância para este grupo, porém, o bispo não me quis por a par de que tipo de informação é esta. — Nem deveria – concordou o frade sério – você já sabe demais Ângelo. Esse tipo de empreitada deveria ficar apenas entre mim e o bispo. — Eu entendo bem o porquê – desculpou-se. – Mas agora eu já sei. Sou contra essa decisão, mas não contra o bispo. — Ótimo. O que você quer então?

46

— Eu gostaria que o senhor me colocasse a par de tudo. – pediu. — Infelizmente não posso – respondeu se desculpando com os olhos. – Essa é uma empreitada muito perigosa e quanto menos pessoas da Ordem se envolverem, melhor. Nós confiamos em você Ângelo, não pense o contrario, mas não queremos que você corra riscos. — Então não confiam em mim. – interpretou o garoto – Pois não acham que sou capaz de lidar com a situação. — Pare de agir como criança Ângelo – replicou o frade – Eu disse para o bispo ontem mesmo o quanto você era maduro e competente apesar de sua idade. Não faça sentir nojo do que disse. — Mas... — Sem mas! Estamos tentando te proteger de tudo isso e seria bom de sua parte reconhecer isso. O garoto ficou calado. Henrique era seu superior e ele lhe devia respeito. O frade continuava enérgico quando continuou o sermão: — Você já sabe demais sobre o assunto e espero que concorde em desistir de saber mais. Pelo menos por enquanto. - e depois olhou o garoto de cabeça baixa se acalmando um pouco - Acredite. Quando chegar a hora você saberá de tudo. Agora eu gostaria que você fosse para casa. Não quero você escutando por trás da porta de novo. O frade estava visivelmente irritado, apesar de usar uma voz calma. Por isso Ângelo achou melhor não contrariá-lo. — Agora vá – continuou o frade. – Tenho muita coisa a discutir com o bispo e tenho que dar seu remédio ainda. Mesmo de má vontade, ele saiu. Mas aquilo ainda estava longe de acabar.

47

6 – Olhos azuis
Foi muito difícil para Ana recuperar o sono na noite anterior. Aquele sonho passou a se repetir em sua cabeça durante toda a passagem do tempo e o fato de Ian não voltar mais para o quarto não a ajudou, pois, apesar de não deixá-la constrangida, enchia-a de curiosidade de saber o que ele estava fazendo do lado de fora até tão tarde. Porém, depois de muito insistir, conseguiu adormecer para logo depois despertar, deixando a sensação em Ana de que ela havia apenas piscados os olhos para fazer amanhecer. Erguendo o corpo, ela olhou ao redor e notou que estava sozinha. Todos os seus companheiros de quarto já haviam se levantado, o que a deixou curiosa por saber que horas eram. Espreguiçando-se, se levantou da cama e, passando rapidamente pelo banheiro anexo ao quarto só para ajeitar levemente o cabelo e escovar rapidamente os dentes, se dirigiu para o quintal, onde todos já estavam sentados tomando café da manhã. Até dona Mônica, que possuía a fama de dormir até tarde, já estava de pé. — Bom dia, dorminhoca – saudou Laila, convidando-a a se sentar ao seu lado na mesa. – Sonhou gostoso hoje? — Como? – Ana acabou respondendo depressa demais, deixando uma pontada de espanto refletida em seu tom de voz. Sem querer, seu rosto enrubesceu. E se ela falou algo enquanto dormia? — Só força de expressão – explicou Laila constrangida com a reação – Sabe como é. Você dormiu pra caramba. — Ah... sim. – respondeu um tanto ausente. Agora a vergonha havia aumentado, mas parecia que ninguém, com exceção de Laila, havia notado seu ataque. Então, sentou-se a mesa, servindo-se de uma fatia de pão. Assim que seus olhos correram pela mesa, ela pôde ver Ian sentado bem na sua frente. Ainda estava receosa em olhar diretamente para ele depois do sonho que teve, porém, bastou ela encará-lo por um leve segundo que seus olhos se encontraram fazendo seu corpo estremecer de leve. — O que foi? – perguntou o garoto. — Nada – apressou-se em dizer. – Só pensei... – tentou encontrar algo para dizer – Bem, você não dormiu a noite de novo, não é? — Dormi sim – respondeu sorrindo. – Só que bem tarde.

48

— Eu não vi – se meteu Laila — Foi bem tarde. Bem depois que vocês voltaram pra cama. E voltaram a comer. — Bem, qual o plano de vocês hoje, jovens? – perguntou Mônica com ar divertido. — Na verdade viemos sem planejar nada – respondeu Fernanda sinceramente. Ela se servia do segundo pedaço de bolo desde que Ana chegou e a garota não sabia o quanto a amiga já tinha comido antes. Parecia que ela e Ian competiam pelo prêmio poço sem fundo. Para onde iria tanta comida? — Fale por você – corrigiu Laila olhando disfarçada pra Rodrigo, mas o garoto nem notou. — Isso que é bom – continuou Mônica. – Já sabem as únicas duas regras, então, divirtam-se – e saiu da mesa. – Com licença. — Minha mãe é meio doida – esclareceu Laila. Quando acabaram de comer, eles arrumaram a mesa, escovaram os dentes e foram para a piscina mais uma vez, para aproveitar o bom tempo que fazia. Nos primeiros momentos, Ana se manteve isolada dos demais, permitindo-se relaxar enquanto submergia na água e ficava alguns segundos no fundo procurando tirar os pensamentos da noite anterior da cabeça. Porém, em um dos momentos onde ela emergiu de volta para a superfície, seu rosto quase acertou o de Ian que a aguardava, parecendo interessado em falar com ela. — Ah... Oi. – ele riu com a quase colisão. – Está com algum problema, Ana? . — Como? – respondeu limpando a água do rosto. — Não sei. To te achando diferente, não falou comigo desde que acordou. — Não, que isso – ela fez um gesto de pouco caso. – Impressão sua. — Que bom – Disse Ian com um sorriso enquanto ajeitava seu cabelo mais uma vez. O garoto nem percebeu, mas aquele toque leve havia feito os músculos de Ana se enrijecerem, e sem notar, ele se aproximou dando um beijo na sua testa novamente. Ana mas uma vez fechou os olhos ao receber o carinho e já ia se afastar percebendo a periculosidade daquela proximidade quando sentiu uma enxurrada de água atingir seu rosto entrando em seu nariz. — Filho da... – Ao abrir os olhos, depois de tossir a água atirada, encarou o amigo que tinha um sorriso traquinas na face. Naquele momento, ela se esqueceu de todo o

49

perigo em se aproximar dele e pulou em torno de seu pescoço tentando afundá-lo na água. Utilizando todo o peso de seu corpo, ela conseguiu fazer com que a cabeça de Ian afundasse por pouco mais de um segundo, mas ela nem teve tempo de comemorar, pois logo seu pé foi puxado por ele do fundo e Ana foi levada ao chão da piscina. Ao voltar para a superfície, ela sorri e investe novamente contra o amigo e então se inicia uma batalha aquática entre os dois que ninguém se atreveu a interferir. Na luta, cada um levava uma vantagem sobre o outro. Ian era mais forte que a garota, porém, tentava ao máximo não machucá-la. Atitude com a qual Ana não se preocupava. Continuaram a brincar se esquecendo totalmente das pessoas a sua volta. Ian afundava Ana e Ana beliscava Ian e os dois se divertiam. Pareciam crianças de novo naquele momento. Isso pelo menos, até um dado momento do jogo em que ele conseguiu imprensá-la contra a borda da piscina. Seus corpos tinham se colado e suas faces agora estavam mais próximas que o normal. Ana pôde até mesmo sentir o cheiro de menta entrando em suas narinas que era incrivelmente similar ao seu sonho. Mais uma vez seu corpo entrou em defensiva, sentindo o calor do corpo dele esmagando o seu. Por um segundo, foi como se todo o tempo tivesse parado e toda a forma de pensamento se esvaiu da cabeça da garota fazendo com que um silêncio paradisíaco se instalasse sobre ela. E foi então que, olhando a face do amigo, ela percebeu que uma dúvida se instalara nele e Ian parecia se digladiar em seu íntimo para tomar a próxima decisão. Hesitante, ele aproximou o rosto. Seus olhos estavam ligados aos de Ana como que por uma linha invisível, aonde nenhum dos dois parecia capaz de vencer a força que os atraia um para o outro. Instintivamente, a garota Ana engoliu em seco e foi fechando os olhos deixando seus outros quatro sentidos a manterem conectados ao mundo. Tudo estava tão parecido com os filmes, porém, alguém parece ter resolvido dar Stop na fita, pois, tudo acabou num piscar de olhos. Eles nem tinham se tocado e Ian tratou de se afastar rapidamente deixando Ana beijando o vento. A garota sentiu sua face ficar vermelha, mas Ian não parecia estar sentindo a mesma coisa. O rosto dele demonstrava algum outro tipo de sentimento, algo que Ana ainda não conseguia identificar. Mas podia jurar que era alguma espécie de dor, ou medo, não sabia ao certo. Ela o teria machucado em algum momento?

50

Mas não foi isso, pois logo ele se reuniu com os demais membros sem olhar para Ana. Era como se ela não existisse para ele naquele momento. — Se você queria um momento ideal para o primeiro beijo... Foi esse aí – comentou Laila passando ao seu lado, dando um susto na garota. — Aí meu Deus – ela levou a mão ao rosto envergonhada. — Não se preocupe – tranqüilizou a amiga. – Acho que só eu notei. — Notou o que? – Ela tentava assumir a postura de antes, mas já tinha sido descoberta. — Francamente amiga. Já estou pensando que você acha que eu sou trouxa. — Me ajuda – pediu quase sem fôlego. – Preciso conversar. — Vamos para meu escritório. – Convidou a garota animada enquanto saía da piscina, sendo seguida por Ana. As duas meninas foram para o quarto onde passaram a noite. Laila fechou a porta atrás de si e se virou para a amiga. — Então? – perguntou. — Eu não sei o que está acontecendo. Eu só... – começou Ana sem saber controlar o tom de voz. — Relaxa! – interrompeu Laila, segurando seus ombros – não é nada demais. — Mas... – a garota deu um suspiro para relaxar – mas eu não sei o que está acontecendo. Nunca senti isso por ele antes e agora é como se do nada... Por que agora? — Carência é triste, fofa – respondeu sorrindo amigavelmente. — Como? — Ora Ana, você terminou um namoro agora e de forma não muito boa – ela fez força nos ombros da amiga para que ela se sentasse de frente pra ela no chão. – É normal isso que você está sentindo. Já passei por isso também. — Sério? — Sim. Você está num momento um tanto vulnerável. O Lucas feriu você e agora está desiludida com relação aos homens. Ana laçou um olhar de dúvida para Laila, mas ficou em silêncio esperando que ela continuasse. Apesar de ela nunca ter se considerado carente depois do término com Lucas, tinha que admitir que houvesse algum sentido o que Laila falava. — Mas existe uma coisa lhe incomodando nisso tudo – Laila continuou e Ana pôde sentir um discurso tendencioso em seu tom de voz. – Pois ao mesmo em que você acredita não querer olhar para a cara de nenhum homem, seu corpo precisa se acostumar

51

novamente com a solidão. E nisso, você acaba se interessando por qualquer um mesmo sem querer. — Como você pode ter tanta certeza? — Ora, eu já fui deixada pra escanteio também – respondeu Laila, mas se apressou em corrigir ao ver a cara de Ana pelo comentário. – Foi mal! – e continuou – Sei como é, bate uma carência na hora. Acaba que para se curar disso você corre o risco de cair nos braços de qualquer um. Sabe como é. — Eu não sabia – comoveu-se a garota. — Relaxa, eu to bem agora. Faz muito tempo e eu não estou afim de entrar em detalhes. Infelizmente eu não tive a chance que você tem quando isso me aconteceu. — Que chance? – surpreendeu-se Ana. — Ora, a de ter alguém a quem se atirar. Um porto seguro. Alguém que conhece e assim você pode perder o controle um pouquinho. No seu caso é comum você vir a se interessar pelo Ian. Afinal, ele está sempre ao seu lado e vocês são amigos. No fundo você acredita que de todos, ele é o único que não vai te magoar. — Não to entendendo aonde você quer chegar. — Você é burra, hein! – revoltou-se, mas riu depois mostrando que não falava sério – Estou falando que você tem alguém para se curar dessa carência. Eu acho que você deveria dar uma chance a si mesma. Pega ele! Laila falava com tanta convicção que Ana não conseguiu discutir com a lógica dela. Não imaginava que a amiga fosse tão sensível assim. — Melhores amigos são ótimos nessas horas – comentou por fim –, eles nos ajudam a superar. — Então o Ian seria essa pessoa? — Bingo! – Laila explodiu em alegria. — Não sei se seria capaz de fazer isso. Não seria justo... usá-lo dessa forma. — O que? – se exaltou a garota – como assim não é justo? Ele é homem, não vai se importar. — Que coisa horrível de se dizer - riu Ana. — E não é? – concordou Laila rindo mais alto ainda – Brincadeira. Só digo que você usando o Ian, só estaria fazendo um favor a você e a ele mesmo. Consegue me entender? — Fala sério – respondeu descrente.

52

— Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto você. É assim mesmo. Geralmente quem está dentro nunca percebe. Acredite, ele é louco por você. — Então porque ele nunca disse nada? — Ele é lerdo né, tadinho? É lerdo – respondeu Laila como se tivesse diagnosticando uma doença terminal. — Não sei... — Pensa bem Ana – atiçou Laila – Você nunca teve curiosidade de tentar, saber como é? Se ele beija bem? E quem sabe, não é? – refletiu – E se ele for o certo desde o começo? Quem vai dizer? Agora o que você não pode fazer é deixar de tentar. Por que você não dá o primeiro passo? Ana preferiu permanecer calada, pois não queria admitir que estivesse dando o braço a torcer para aquela possibilidade. No fundo, mesmo contra a sua vontade, aquilo era tentador. Parecendo perceber que o efeito de suas palavras faziam efeito, Laila de calou por um tempo, aguardando. — Belo colar – ela comentou, do nada, mudando o assunto. — Ah, como? – ela levou a mão ao cordão mecanicamente – Ah, sim. Foi presente. Herança de família – ela estava feliz que o foco do assunto tinha sido mudado, embora acreditasse no fundo que aquilo era apenas uma ferramenta de retórica usada pela amiga. — Você deve gostar muito dele – disse sorrindo. – Você não o tira nem para tomar banho. — Foi presente de minhas falecidas tias. Não consigo me desfazer dele. Ela ficou admirando a própria jóia para fugir do olhar de Laila. Ela era realmente muito bonita. E nesse momento a porta do quarto se abriu e Laila deu um pulo do chão. Era Ian quem entrava. — Sabia que se bate na porta antes de entrar? – replicou a garota – Poderíamos estar nuas. — Desculpe – pediu Ian, sem graça. – É que o pessoal está pensando em jogar cartas agora. Tão afim? — Eu já vou – prometeu Ana e se levantou. Laila parecia um pouco frustrada com sua decisão e quando saíram, falou ao seu ouvido: — Pensa no que eu te disse.

53

E saíram do quarto.

* As coisas continuaram normais no sitio de Mônica ao passar da tarde. Os hóspedes almoçaram, brincaram, conversaram, fizeram bagunça enquanto Mônica relaxava com seus filmes e suas comidas no quarto. Aparecendo apenas de vez em quando em algumas situações, como quando os garotos queriam jogar baralho e ela entrou na brincadeira, Mônica demonstrava grande capacidade em interagir com pessoas muito mais jovens que ela. À hora passou normalmente até que a noite chegou e Laila reuniu o pessoal no quarto para uma brincadeira. — Verdade ou consequência – anunciou para todos, alguns riram e outros, como Fernanda, ficaram um tanto apreensivos. Ana olhou bem a garota tendo uma estranha impressão que a maioria das garrafas acabaria apontando para ela e Ian. Conhecia a amiga e sabia que ela era bem capaz disso. Ana olhou para Ian e ele não parecia estar ali. Pelo menos não em espírito. O garoto mantinha os olhos focados em algum canto distante do quarto e parecia muito concentrado em seus pensamentos. Ao se questionar sobre o que ele estava pensando, notou que o seu lábio superior estava tremendo levemente. Estranho, refletiu. — Não vou brincar não galera – foi tudo o que ele falou antes de se levantar, ameaçando sair. Sua atitude foi tão rápida que Ana até levou um susto quando ele saltou do chão. — Ah fala sério Ian. Senta aí – reclamou Antônio. — Eu não gosto dessa brincadeira – alegou o garoto ainda olhando para a rua sem dar muita atenção ao companheiro. — Tem medo que descubramos seus segredinhos? – desafiou Laila Sem dar importância aos comentários, o garoto saiu do quarto escutando as vaias dos ocupantes do quarto. Com isso, Ana tinha ficado em maus lençóis, pois, sair significava ouvir comentários maldosos e ficar seria estar de vela. Sem muitas escolhas, ela se levantou dizendo não estar muito disposta ao jogo. No caso dela, não houve represálias e alguns até olharam-na como os olhos arregalados como se houvessem compreendido toda a verdade.

54

Sem olhar para os demais, ela saiu do quarto e foi até a sala. Ninguém. Notou que a porta estava aberta a atravessou, adentrando o quintal. Ao sair, sentiu uma brisa gelada e agradável passar pela sua pele. Correndo os olhos pelo lugar, viu o garoto sentado na borda da piscina da casa com os pés dentro d’água. Daquela posição, Ana não foi capaz de ver seu rosto, mas percebeu pela sua imobilidade que ele devia estar perdido em pensamentos. Sem fazer barulho, Ana se aproximou com calma até que um rosnar atrás de si a fez parar. Com a sensação de que sua espinha havia congelado, Ana se virou calmamente para encarar a fonte dos rosnados e deu de cara com três dos cachorros que tomavam conta da casa, que a encaravam como se só ela existisse no mundo dos animais. Ah não, praguejou. Tinha esquecido que à noite os animais eram soltos. O primeiro cachorro deu um passo à frente enquanto exibia seus dentes afiados para ela. À medida que chegavam perto, o rosnar ia aumentando de volume e Ana começou a sentir medo e, como sempre acontecia quando ficava apavorada, suas pernas resolviam não cooperar. Ela queria entrar na casa, queria correr para perto de Ian, não fazia diferença, ela só queria sair dali, mas estava paralisada e sem voz para gritar enquanto olhava aqueles caninos expostos. — Chega! Vem! – escutou a voz de Ian atrás dela. Subitamente, os cães pararam de rosnar e foram de encontro do garoto na piscina. Os animais sentaram-se ao lado dele como se fossem dóceis, filando afagos do garoto. Aquela transformação, digna de O médico e o monstro, deixou Ana perplexa por alguns segundos. — Você está bem? – Ele perguntou e Ana confirmou com a cabeça, pois ainda não tinha recuperado o dom da fala. – Pode ficar tranqüila. Eles não vão fazer nada – acalmou-a. Sentindo novamente a sensibilidade nas pernas, Ana se aproximou ainda receosa do amigo e dos cachorros. Mas seu medo agora parecia completamente infundado, pois os animais se tornaram estranhamente amigáveis. Ao chegar à borda da piscina, Ana se sentou ao lado do amigo mergulhando as pernas na água gelada e se acomodando. Ainda precisou de um tempo para poder falar, coisa que só conseguiu depois de garantir que não havia possibilidades de levar uma dentada. Mais relaxada, voltou sua atenção para o amigo, que parecia estranhamente incomodado com sua presença, embora tentasse sorrir para dissimular.

55

— O que a trás aqui? – ele tentou parecer casual, mas alguma entonação em sua voz acusou o desconforto – Pensei que estaria lá jogando. — Não gosto desse tipo de jogo – respondeu sentindo-se estranha por ser repelida por Ian. Aquilo nunca havia ocorrido antes. Pelo menos não antes de ter vindo para aquele sítio. Pensando melhor, já era a segunda vez que algo semelhante acontecia. – E você? O que faz aqui, sozinho? – arriscou um assunto. — Admirando o céu – ele pareceu responder a primeira coisa que veio em sua cabeça. Reparando melhor, ela não sentia mais que o problema era com ela. O garoto estava um tanto estranho. Seus olhos percorriam disfarçadamente o terreno como que procurando algo. Ele mantinha a cabeça imóvel, deixando apenas seus olhos seguirem, como que tentando impedir que Ana percebesse o que estava fazendo. Procurando ignorar a estranheza, ela olhou para cima e viu o céu todo estrelado. — Tinha me esquecido que aqui as estrelas são tão bonitas. — Verdade – concordou Ian, olhando pela primeira vez para o céu. — Lembra quando agente ficava brincando de desenhar nas estrelas – tentou manter o assunto. — Lembro. – concordou o garoto – Eu lhe inventava umas histórias bem doidas para cada uma delas. Era quando você ainda acreditava em bruxas. – apesar de ainda evasivo, Ana sentiu que começava a atrair a atenção dele para ela. — E eu adorava – concordou a garota apoiando com cuidado a cabeça no ombro do amigo, fazendo o corpo dele estremecer. Lerdo. Lembrou Laila dizer e achou graça. — Naquele tempo eu era muito feliz. — Por quê? – questionou o garoto – Não é agora? — Não é isso - disse em tom de desculpas – Me expressei mal. Eu quis dizer é que, apesar de tudo de ruim que aconteceu na minha vida, eu era feliz, porque… bem... eu tinha encontrado alguém igual a mim. Alguém que acreditava no que eu acreditava. — Até que você parou de acreditar – comentou e Ana sentiu certa acusação naquilo. — Mas mesmo assim continuamos íntimos – rebateu — É verdade – concordou. – Nós formávamos uma bela dupla. — Formamos – corrigiu a garota, sorrindo.

56

— É – Ian forçou um sorriso consolador. – Mas fico feliz que tenha conseguido superar isso – ele disse logo depois. – Você fica mais bonita quando está feliz – e sorriu pra ela. Ana sentiu o rosto corar e o coração bater mais depressa com aquele elogio. Não se lembrava de Ian dizendo pra ela que era bonita antes. — Você acha que eu fico bonita quando estou feliz? — Que você fica ainda mais bonita – corrigiu. Ele finalmente parecia ter desistido de olhar a paisagem e começou a prestar atenção nela. Os dois se olharam por um longo tempo aonde Ana conseguiu contemplar com perfeição aqueles olhos negros e mais uma vez, se deixou viajar pelo seu interior que realçava mistério. Mas o tempo para contemplar acabou rápido, pois, logo depois, Ian voltou sua atenção para a água, fugindo de seu olhar. — Algum problema? – perguntou. — Não, por quê? – se defendeu o garoto. — Não sei. Você parece estar me evitando. — Impressão sua – e sorriu, mas continuava a olhar para a água. — Você poderia me olhar enquanto fala comigo? – pediu a garota. E ele se virou — Perdão. Ela riu — O que foi? – perguntou Ian — Nada, – ela respondeu – só que... parece que você está tentando me expulsar daqui. — Como assim? – ele ergueu as sobrancelhas. — Não sei. Primeiro você parece desconfortável com minha presença e depois, não me olha, não me dá atenção. — Perdão – pediu de novo e depois ficou calado. — A gente se conhece há tanto tempo – ela continuou agora se aproximando mais dele –, mas sinto que ainda tem coisas que me falta descobrir em você. Meu Deus, o que é que eu to fazendo? Parecia que seu corpo havia dado inicio a algo que nem mesmo sua mente havia processado direito. O frio da água contrastava com o calor da pele de Ian, fazendo com que ela fosse atraída para perto do amigo atrás de conforto. E foi quando sua circulação se acelerou.

57

— Nem sempre temos que descobrir tudo um do outro – ele falou. Apesar do corte, Ana sentia que no fundo eles não estavam falando da mesma coisa. – Podem haver coisas ruins nas pessoas que às vezes é melhor nem se descobrir. — Mas às vezes, há coisas maravilhosas também que nos passam despercebidas – rebateu. Mais uma vez eles estavam se olhando nos olhos. A distância entre os dois era curta e poderia ser facilmente vencida. Era apenas questão de um dar o primeiro passo e esse pensamento tentou Ana pelo longo minuto em que eles voltaram a se olhar, fazendo a garota se sentir uma estranha dentro do próprio corpo. Ela não era acostumada a tomar as rédeas da situação como estava fazendo naquele momento. Sempre fora passiva aos acontecimentos e ter que tomar decisões a deixava um tanto apreensiva. Mas naquele instante, aonde os desejos pareciam falar mais alto que a racionalidade, estava sinceramente gostando daquilo. Era bom poder tomar a iniciativa um pouco e quanto mais olhava o amigo, mais tinha certeza de que Laila estava certa. Ele gostava dela. Os olhos de Ian agora eram completamente incapazes de desviar a atenção dela. O garoto demonstrava certo receio do que estava prestes a acontecer e que ambos sabiam sem ninguém falar nada. E foi quando Ana sentiu o desejo neles. Um anseio controlado, como se ele estivesse usando toda a força do seu ser para se impedir de ir mais longe. Nunca tinha recebido um olhar tão profundo quanto aquele e por um momento Ana experimentou o que Laila deveria sentir todos os dias: a sensação de ser desejada. E isso era muito bom. Se ele se seguraria por mais tempo, ela decidiu que não tinha que fazer o mesmo e sem dizer nada, foi aproximando seu rosto do dele. Os dois estavam de lado um para o outro e Ana percebeu que Ian tentava se afastar, mas a garota o segurou pela face com a mão. Um toque simples e sem força, mas que foi o suficiente para impedi-lo de se afastar mais. O amigo segurou suas mãos como que tentando afastá-la, mas ela percebeu que ele não queria isso de verdade, do contrário teria conseguido, pois era muito mais forte. Então, quando os lábios estavam tão próximos que nem mesmo uma corrente de ar era capaz de passar entre eles, Ana fechou os olhos fitando pela última vez aqueles olhos negros.

58

E foi quando eles se tocaram. No princípio, muito tímidos. O corpo do garoto estava duro e ele não se mexia, como se estivesse paralisado da mesma forma que Ana ficara ao se confrontar com os cachorros. Mas Ana, ao contrário, estava completamente solta, e esquecendo-se de qualquer inibição, permitiu sua mão passar pelas costas do amigo, puxando-as para mais perto e ele tremeu novamente. Apesar de se sentir ousada demais, ela não se importou e continuou a seguir em frente. Aquela sensação de poder nunca antes experimentado deixou-a arrepiada e ela queria poder sentir mais. E foi quando o beijo, que antes era suave, ganhou intensidade quando as barreiras impostas por Ian foram cedendo. Além dos lábios, as mãos começaram a entrar no jogo. Ana passou a alisar os braços dele enquanto Ian perdia a inibição e passava a mão por sua cintura, obrigando-a a chegar mais perto ainda, até que estavam completamente ligados. Enfim, enlaçando os braços em volta de seu pescoço, Ana retirou os pés molhados da água e o amarrou também pela cintura de modo que pudessem ficar de frente um para o outro. E então o beijo pôde finalmente ser experimentado com toda a intensidade exigida, mas durou pouco. Ian parecia recuperar a vergonha inicial e segurou seus braços impedindo-a de continuar. Mesmo cortada de seu prazer, Ana sentiu-se satisfeita por aquele momento e foi abrindo os olhos para encará-lo. Enquanto sentia as bufadas de ar em seu rosto recorrentes da respiração afobada de Ian, ela o fitou sorrindo de leve, mas o que viu ao enxergar o rosto do amigo fez o sorriso em sua face sumir dando lugar a um olhar de espanto. Naquele instante ele havia feito o mesmo, fazendo com que seus olhos se cruzassem. Mas ao olhar para Ian, Ana não encontrou o que esperava ver. Imaginando ver um par de olhos negros à sua frente, ela sentiu um arrepio quando dois grandes globos azuis estavam olhando pra ela. Ana ficou imóvel, vendo aqueles olhos azuis no rosto do amigo. Olhos que ela não se lembrava de ter visto antes, nem em Ian nem em nenhuma outra pessoa que conhecia. Havia algo de sobrenatural na coloração deles. Eram muito claros e pareciam repletos de energia. Mas o que mais a assustou, não foi a cor em si, mas sim o desejo que parecia vir deles. Não era mais a paixão retraída de Ian. Era algo muito mais intenso, mais carnal, mais obsessivo. Mas esse desejo logo se dissipou e eles pareciam estar apavorados agora. Um profundo medo era visível no rosto do garoto e nesse momento ambos se empurraram. Ian virou o corpo ficando de costas para ela. Sua respiração estava completamente

59

descompassada e ele se agarrava na borda da piscina com muita força, como se tivesse medo de a qualquer momento cair na água. Seus músculos tremiam e Ana olhava o amigo com espanto sem saber como se fazia para formar palavras em sua boca. Ela levou a mão ao ombro de Ian tentando vira-lo, mas o garoto resistiu, permanecendo de costas. — Ian? – conseguiu finalmente falar – O... q... que houve? O garoto continuou calado. — Fala comigo! – insistiu a garota, tentando vira-lo inutilmente. Quando enfim ele a encarou, seu rosto ainda estava muito perturbado. Ele olhava pra ela como se estivesse suplicando seu perdão. Seus olhos voltaram ao preto habitual, embora estivessem um tanto vermelhos e pareciam próximos a transbordarem lágrimas. — Ian?... – mas não houve tempo para Ana falar nada, pois, ele tinha se levantado e saído às presas para o interior da casa. A garota ainda teve que ficar parada algum tempo para tentar digerir o que tinha acabado de acontecer. Assim como ela, os cachorros também olhavam fixamente para Ian enquanto ele entrava. Agora que Ana havia dado pela presença dos animais a sua volta. Quando finalmente estavam a sós, eles viraram seu olhar para a garota e ela viu que era hora de entrar. Correu até a sala, fechando a porta que dava acesso ao quintal atrás de si. Olhando o aposento, viu que continuava vazio e se dirigiu aos quartos da casa. Só haveria um aonde Ian poderia estar. Ao se aproximar da porta do único quarto desocupado ela pôde ouvir algo um tanto estranho. Ao levar a mão à maçaneta, parou devido ao som da respiração ofegante de Ian que saía do interior do aposento. Mas não era apenas a respiração, havia algo mais. Gemido, choro. Na verdade pareciam mais ganidos do que sons propriamente produzidos por um ser humano e tudo era muito curioso. Ana não conseguia imaginar o que estava se passando dentro daquele aposento. Ela manteve a mão na maçaneta, mas se recusou a abrir a porta. Podia sentir o tormento que o garoto passava ali dentro. Parecia até que o estavam machucando fisicamente e ela não sabia se era melhor ir até ele ou deixá-lo sozinho. Acabou optando pela segunda opção. Ainda se lembrava da forma como ele fugiu dela e decidiu respeitar sua vontade de ficar sozinho. Sem opções de onde dormir, ela voltou à sala e ali permaneceu sentada no sofá, esperando o dia clarear.

60

7 – Um grito na noite
Sem perceber, Ana havia dormido no sofá e o local desconfortável aonde havia passado a noite se fez sentir na manhã seguinte quando sua cabeça latejou após despertar. Num flash, ela conseguiu se lembrar de tudo o que tinha acontecido na noite anterior: do jogo, do beijo e, principalmente, dos olhos azuis. Olhou em volta e percebeu que o lugar estava calmo, viu o relógio e ainda eram seis da manhã. Todos deviam estar dormindo. Levantou-se e decidiu ir até a porta do quarto comunitário. Ao abrir, notou quatro vultos deitados. Ele realmente havia passado à noite sozinho. Então, ela se dirigiu até o outro quarto e parou de frente para a porta. Pensou bem se devia ou não entrar. Segurou firmemente a maçaneta, mas não a mexeu de novo. Olhos Azuis. Pensou, não conseguindo tirá-los da cabeça desde então. Como aquilo era possível? Tudo era muito confuso. Sabia o que tinha visto. Mas ao mesmo tempo não sabia explicar. Precisava falar com o garoto, saber o que tinha acontecido e porque ele fugiu dela. Mas ainda ficou um tempo imóvel diante da porta, e foi quando a outra porta, ao lado, se abriu. Era Mônica saindo de seu quarto. A mulher estava bocejando ao sair e quando viu a garota, levou um susto. — Já acordada querida? Caiu da cama? – perguntou sorrindo meio constrangida por ter sido pega num momento tão intimo. — Eu diria o mesmo – rebateu a garota, retribuindo o sorriso. — Touché – riu-se a mulher. – Mas o que está fazendo aí? Achei que vocês estivessem dormindo no outro quarto. — Sim é que... Mas ela não teve tempo de responder, pois naquele momento ela sentiu a sua mão que segurava a maçaneta ser puxada para frente quando a porta se abriu. Do quarto escuro, surgiu Ian que estava bem à vontade trajando apenas a bermuda que usava na noite anterior. Os olhos do garoto estavam mais fundos do que nunca, o que mostrava que passou mais uma noite em claro e, apesar do frio que fazia de manhã, tinha o corpo completamente suado. Um silêncio constrangedor se fez presente naquele instante. Ana olhava o rosto pasmo da mãe de Laila e não sabia como desfazer o mal entendido. Em contrapartida,

61

ela olhava para Ian a procura de socorro, mas o garoto ainda não parecia estar a par do que acontecia em sua volta, lançando olhares interrogativos para as duas mulheres à sua frente. — Nossa! – exclamou Monica – Bem... – disse procurando se recompor. Seu rosto estava muito corado – vocês são jovens... e... – desistiu, saindo rapidamente para o quintal. — Não é isso o que... – mas não houve tempo de Ana se explicar, pois a mãe de Laila já tinha saído. A garota não sabia onde enfiar a cara, mas logo ignorou ao se lembrar do amigo. Porém, quando voltou sua atenção para Ian, ele já havia passado por ela e se distanciara em direção a saída. Que rápido? Ela nem tinha o visto passar. Ana teve de correr um pouco para alcançar o amigo se colocando na frente dele, bloqueando o caminho. — Precisamos conversar – ela se apressou em dizer. — Eu sei – ele respondeu rápido e Ana sentiu-se aliviada por não ter que ser ela a entrar em detalhes. – Desculpe, não era pra ter acontecido – ele procurava o que dizer – então, tchau – e tentou se desviar dela. — O que? Só isso? – ela o bloqueou novamente – Não é disso que estou falando. Aconteceu alguma coisa errada ontem. — Sim. Nos beijamos – ele evitava olhá-la nos olhos, desviando-os constantemente. – Desculpe-me. Não era pra ter acontecido – e tentou mais uma vez em vão passar por ela. — Não é isso. Para de se fazer de sonso. Eu quero dizer que aconteceu algo estranho ontem à noite. — O que? - ele não conseguia se fazer de inocente tão bem quanto queria. — Não sei. Gostaria que você me explicasse. — Explicar: Mas explicar o que? Ana bufou de impaciência. Não queria ser ela a puxar esse assunto. Parecia ridículo demais falar. — Como seus olhos ficaram azuis, por exemplo. – ela sentiu a idiotice daquelas palavras, mas não parou de encará-lo com convicção. O garoto soltou uma risada leve e Ana não gostou nada daquele sarcasmo. — Meus o que? Ana, como isso iria acontecer?

62

— É isso que eu gostaria que você me explicasse. Eu vi seus olhos mudarem de cor ontem à noite – ela se preocupou em reduzir o volume da voz ao falar essa ultima frase. — Você pode ter visto coisas. – propôs. — Então você também vai querer dizer que estou ficando louca? – disse a garota em cólera – eu já escutei isso de muita gente Ian, não precisava escutar de você também. — Não é isso – tentou se desculpar – só que você... pode ter se enganado. — Eu sei o que vi. – replicou. — Não sabe não. — Vai ficar negando? Ian, qual o problema? Sou sua amiga. Pode me contar o que foi. Ian olhou em volta impaciente antes de falar. — E o que você quer que eu lhe explique? Ela não esperava tal pergunta. — Sei lá! Algo que me faça entender o que aconteceu. - ela tentava responder. Realmente não fazia a menor idéia do que estava havendo - O porquê de você ter corrido de mim, o porquê de você estar me evitando agora e o porquê de seus olhos mudarem de cor. Qualquer explicação serve. — Eu fugi de você porque não foi certo o que fizemos. — Isso eu imaginei. Mas porque, eu não sei. — Porque somos amigos - ele respondeu como se fosse óbvio – isso arruinaria nossa amizade – mas ele não parecia ter certeza no que dizia - E estou lhe evitando porque não quero que aconteça de novo. Ela fez sinal de quem se rendia. — Tá bom, mas e a pergunta principal? — Os meus olhos? — É. Ele pensou um pouco cantes de responder. — É alguma doença? – arriscou apesar de não saber de nenhum caso assim. Talvez fosse raro. — Sim! – ele parecia feliz com essa conclusão – um caso raro. Nada grave – tratou de se apressar – mas… é isso.

63

Mas naquele instante Ian havia se traído. Não intencionalmente. Provavelmente ninguém, exceto Ana, haveria de reparar naquilo. Mas no momento em que ele falou aquilo, levou instintivamente a mão até o rosto e começou a coçar o nariz com a palma. Esse gesto, Ana conhecia muito bem. Durante os anos que estiveram juntos, sempre reconheceu esse sinal de Ian: Ele estava mentindo. Devia ser um tique dele, mas sempre que mentia, sua mão ia instintivamente até o nariz. — Quer saber? Tá bom. Esquece. Obrigado pela informação – ela se virou e saiu para o quintal. Atrás de si, ouviu o som da porta do quarto se abrir e os demais moradores saírem para o café da manhã.

* Na mesa do café, todos pareciam muito animados, apenas Ian e Ana não compartilhavam do mesmo espírito. O garoto estava desanimado e a menina, furiosa. No meio da refeição, Laila se achegou para perto da amiga e lhe perguntou ao ouvido: — Que cara é essa amiga? Não foi boa à noite ontem? — Eu não quero falar disso – respondeu Ana em tom ríspido. — É que eu pensei, que... – a garota parecia ofendida – por vocês não terem ficado com agente... — Eu não quero falar sobre isso. – repetiu, mas não achou justo descontar nela e tentou consertar as coisas – Desculpe – disse num tom mais amável – só não me pergunte, tá? — Tá bom. Desculpe – e voltou para o seu café.

* O resto do dia passou a correr lentamente para Ana no sítio. A garota ainda estava irritada com o silêncio de Ian e o clima de paixão, que reinava na casa desde a noite anterior, não estava ajudando. Ela não via à hora de chegar o dia seguinte em que eles sairiam daquele lugar e voltariam para a Vila da Penha, onde Ana poderia se trancar no quarto fechando sua janela e não seria obrigada a olhar o amigo. E só para completar sua fúria contra Ian, ele tinha escolhido dar uma de autista naquele dia. Ficava horas

64

olhando o horizonte ou perdia a atenção quando conversavam juntos e mantinha-se fitando o nada. Ana entendia isso como uma maneira de evitá-la e isso a irritava mais. Que infantil, pensou trincando os dentes. Ao cair da noite, Mônica adentrou a sala anunciando aos residentes: — Bem queridos companheiros. Eu fiz um cálculo errado nas compras e descobri que nos faltam refrigerantes e arroz para o jantar. Por acaso temos algum candidato aqui interessado em andar vinte minutos até a venda mais próxima? Ao dizer isso, ela aguardou a reação que foi negativa em sua grande maioria, fazendo um gemido de desânimo ecoar por todo o aposento. Porém, ao contrário dos demais companheiros, Ana não hesitou em se colocar logo de pé. — Pode deixar. Eu vou – disse com decisão. Afinal, ela precisava de um pouco de tempo longe daquele lugar. — Não sei – duvidou Mônica, meio apreensiva. – Já é tarde para você andar sozinha. O lugar não é perigoso, mas mesmo assim... — Eu vou com ela! – escutou Ian se prontificar Não, gemeu por dentro. — Sim! - respondeu Mônica – Assim é melhor. Ana percebeu com o canto do olho que Laila ia se prontificar a ir com ela, mas desistiu rápido quando Ian se ofereceu. No fundo, ela até preferia que fosse a amiga que a acompanhasse, mas o mal já estava feito. Mônica deu o dinheiro na mão de Ana e ela calçou os tênis enquanto Ian vestia um casaco e, sem trocar palavras, saíram. A caminhada por uma estrada de terra, mal iluminada e cercada de mato até a mercearia era longa, e o fato dos dois andarem calados e o clima entre eles não estar muito bom, deixava o percurso ainda mais maçante. Sem nem ao menos olhar para a cara um do outro, eles chegaram à mercearia, compraram as coisas pedidas e voltaram ainda mudos. Depois de muito tempo, quando o som do vento já estava por demais insuportável, Ian resolveu quebrar o gelo: — Quer uma bala? – disse estendendo o pacote pra ela. — Por que veio comigo? – perguntou a garota, sem rodeios – Achei que não quisesse falar comigo. — Para te proteger – respondeu, ignorando o comentário. — Obrigado, mas não precisava – disse. – Até por que, quem iria me proteger de você? Quem iria te proteger da raiva que sinto de você agora?

65

— Por que tanta agressividade? – disse sorrindo pra ela — Ian, esse tom de deboche não está ajudando – cortou. — Desculpa. – pediu, assumindo uma postura mais séria – Achei que amigos podiam brincar uns com os outros. — Achou? – rebateu com sarcasmo, parando de andar – E você sabe o que eu achei? Achei que amigos podiam contar coisas uns para os outros, achei que amigos não tinham segredos uns com os outros. Eu nunca escondi nada de você, mas agora parece que eu não sei nada de você. – acusou elevando o tom de voz. — Ana, eu não estou escondendo nada. Juro. A garota deu um pigarro alto e o olhou descrente. — Não esconde nada? Então porque é incapaz de responder uma simples pergunta que te fiz? Porque não me diz que aconteceu com seus olhos ontem à noite. — De novo esses olhos? - gemeu – Meu Deus, mas como é possível? – ele olhava espantado para ela procurando palavras para descrever o que vinha em sua cabeça – Cara! Por que você se fixa tanto nisso? Digo... Eu... eu te dei um toco. Você veio pra mim e eu te rejeitei, então... por que você insiste em se prender a essa questão? Ele havia tocado no ponto da questão. — Porque eu preciso de uma explicação coerente – falou simplesmente. — Por quê? – se exaltou o garoto – porque “você imaginou” não é o bastante. — Porque eu preciso de uma explicação que não diga que eu estou louca – Apesar de ainda estar com raiva, Ana agora começava a se sentir como que sedada ao perceber que provavelmente aquela discussão não levaria a nada. Por mais que ela falasse e argumentasse, parecia que a barreira que Ian havia erguido era forte demais e ele continuaria a negar o fato. – eu não quero mais ser tratada assim. – disse num suspiro, abaixando novamente o tom de voz – estou farta das pessoas quererem dizer o que foi que eu vi ou o que eu não vi, no que posso ou não acreditar, no que eu sei ou não. Ambos se calaram deixando apenas o som do vento quebrar o silêncio daquele caminho de terra. Ana sentia que estava muito alterada. Mesmo tentando evitar que os fantasmas do passado voltassem, eles estavam ali à espreita. Por algum motivo, tudo aquilo que estava acontecendo, parecia ter uma ligação muito estreita com o que ocorreu há quatro anos. Fazia anos que ela não se permitia perder o controle daquele jeito.

66

— Que tipo de explicação você quer? – o garoto disse depois de um tempo. Ao olhar par ele, Ana viu seus ombros baixarem como alguém que desiste de um combate e se rende ao inimigo. Fitando bem seus olhos, Ian agora parecia tão sedado quanto ela. — Apenas uma explicação sensata. – pediu. Ele suspirou fundo e seu rosto se contorceu numa espécie de agonia, como se ele estivesse travando uma intensa batalha em seu íntimo. — E se a explicação não for sensata? – cogitou. — Que? — E se não for? – repetiu – E se for algo mais... complicado. Algo... irracional? Não natural? — Por favor, Ian – ela suspirou – não vem com essas histórias. Não somos mais crianças — É. Eu sei – e ficaram mudos novamente. Mas aquele minuto de silêncio foi cortado pelo barulho de algo passando pela folhagem que cobria os lados da estrada de terra. Num movimento instintivo, ambos encararam a direção do ruído, apreensivos. O que será que estava ali? Seria algum animal? — O que foi isso? – a garota olhava em volta a procura de alguma coisa, mas nada se mostrou. O mato a sua volta começava a se mexer mais. Vários pontos diferentes da vegetação que os cercavam, oscilavam a cada momento, o que dava a entender que se tratavam de muitas criaturas os cercando. Ana olhava em volta tentando ver alguma coisa, mas tudo o que conseguia distinguir eram vultos disformes, que desapareciam antes que ela pudesse sequer arriscar um palpite da identidade daquilo. Sem receber respostas, ela olhou para o companheiro para saber o que ele estava fazendo e foi quando seu coração deu um novo solavanco. Agora, à sua frente, não era mais Ian quem ali estava. Pelo menos não totalmente. O garoto agora assumira uma postura diferente de tudo o que Ana já havia visto na vida. Com o tronco um tanto inclinado para frente, ele mantinha as mãos abertas para os lados com seus dedos em forma de garras. Ao fitar seu rosto, Ana viu um retrato de raiva na face de Ian. Com o cenho enrugado e o lábio superior tremendo, ela via seu olhar vigilante percorrer por toda a extensão do lugar.

67

E foi quando ela viu seus olhos, e agora, sem sombra de dúvidas, percebera que não estava louca. Pois ali, dentro dos globos oculares de Ian, estavam os mesmos olhos azuis que vira antes. Intensos, alertas e, acima de tudo, fascinantes. A mudança foi acontecendo de forma sutil, mas perceptível: o preto ia dando lugar ao azul vagarosamente. Uma pequena dose de medo começou a se aflorar dentro do peito da garota, que agora não sabia se voltava sua atenção para a criatura que os cercava ou se para o amigo que parecia se transformar diante de seus olhos. Mas agora o vento passou a soprar mais forte que nunca e Ana não foi mais capaz de focar sua atenção em Ian, pois a poeira começava a ser soprada para todos os lados ameaçando sua vista. E junto com a areia que era arremessada, aquela ventania trouxe também algo que gelou seu coração. Pois, da mesma forma que acontecera há quatro anos, o som produzido foi ganhando forma até se tornar uma palavra clara nos ouvidos de Ana. Apesar de tampar as orelhas a fim de evitar escutar o conteúdo da mensagem, já era tarde demais. Matar Sem conseguir pensar em mais nada devido ao medo, Ana apenas correu para frente gritando na tentativa de abafar o som daquela mensagem. Porém antes que conseguisse correr para muito longe, seu corpo colidiu com alguém logo à frente sendo agarrada com força logo depois. Ali, abrindo os olhos, ela viu Ian a abraçando. Um abraço forte e protetor. Ana fora imprensada contra o peito do amigo por seu braço que agora parecia duro como ferro. Além do som do vento poderoso que o cercava, o ambiente também era preenchido com o som do choro contido de Ana, que vinha na forma de um gemido agonizante. Porém, um terceiro ruído entrou logo em seguida. Este, diferente dos três anteriores, era mais feroz, mais bestial. Ana reconheceu nele uma espécie de rosnar. Tentou ver de onde vinha, mas foi então que percebeu que ele saía do peito de Ian. Ao correr os olhos pelo seu braço, viu as mãos que a seguravam tão rente ao corpo do amigo. Mãos em forma de garras, que a prendiam como um gancho. As unhas, agora mais compridas que o normal, eram afiadas e pontiagudas como punhais. Era incrível como elas podiam segurá-la sem machucá-la. Ao fitar novamente o rosto do amigo, viu os olhos azuis, agora mais intensos que nunca. Seu lábio superior tremia mais à medida que os rosnados elevavam o volume. Ao olhar

68

melhor viu que no interior da boca dele, um canino avantajado se fazia presente, contribuindo para a aparência bestial que o garoto assumia. A partir daquele momento ela não foi mais capaz de tirar os olhos de Ian. Por esse longo segundo, ela esqueceu-se completamente de toda a ameaça que se passava a sua volta e, observando melhor, notou que seus olhos azuis tinham as pupilas muito pequenas, quase invisíveis e que vasculhava todo o território a procura daquilo que os cercava. O vendaval então se tornou mais furioso e Ana sentiu que ele se aproximava quando percebeu uma brisa passando pelo seu pescoço. Num gesto rápido, Ian a segurou mais rente ao seu corpo e, num salto, afastou os dois de onde estavam. A garota experimentou a sensação de flutuar no ar quando ele pulou com ela em seus braços. Uma sensação de leveza tão profunda que ela nem conseguiu perceber quando finalmente aterrissaram. E foi quando os olhos de Ian focaram em um ponto distante. Ele havia encontrado o que procurava. Os braços em torno do corpo de Ana afrouxaram deixando seu corpo cair levemente sobre o chão de terra — Fica aí! Não saia! – Ordenou numa voz muito mais grossa que o natural e disparou, se embrenhando no mato. — Ian! Não! – mas ela não foi capaz de impedir o garoto que sumiu na escuridão. Mas uma vez, o medo a tinha paralisado e ela estava grudada naquele chão. O vento se cessou e Ana olhava fixamente para o ponto aonde Ian havia desaparecido. Os rosnares continuaram, cada vez mais ameaçadores, embora cada vez mais distantes. Até que eles se cessaram. O silêncio durou alguns segundos deixando um minuto mudo perdurar naquele ambiente. Mas ele durou pouco, e logo depois um grito de terror, vindo do fundo da vegetação, cortou a noite. — Ian? – Ana gritou assustada. Mas no fundo ela sabia que o grito não era de Ian. Mas mesmo assim, aquele som havia desperto sobre ela o controle do próprio corpo, permitindo que se levantasse. Com a mobilidade recém-adquirida, ela correu o mais rápido que pôde na direção por onde Ian havia desaparecido. Seu coração agora disparava e ignorando as compras que haviam ficado para trás ou as folhas que lhe machucavam as pernas quando ela passava, Ana correu mais e mais.

69

À medida que ia adentrando a vegetação, sentia o ar ficando mais frio até que uma neblina passou a se formar em torno dela. Mesmo sem poder enxergar um palmo à sua frente, ela continuou avançando, até alguma coisa bloquear seu caminho. Colidindo numa forte pancada, como se tivesse se chocado contra um muro, Ana foi ao chão. Rapidamente abriu os olhos e viu uma silhueta se abaixando para alcançála. Num movimento reflexo, ela tentou se desvencilhar da coisa que tentava segurá-la. — Calma Ana – ouviu a voz conhecida que a fez parar de se debater. Ela agora conseguia reconhecer as feições do amigo. Suas feições normais, com seus olhos negros e seus dentes alinhados. — Ian! Ian? Você está bem? – Ela dizia sem poder controlar a euforia que sentia. — Calma. Tudo bem – a voz do amigo era tranqüilizadora e muito suave. Muito diferente da de minutos atrás. – Vamos voltar logo e desta vez, por favor, sem perguntas. Ana estava cheia de perguntas, mas concordou em se calar. Na verdade, não se sentia muito segura em recusar uma ordem de Ian naquelas circunstâncias, depois de tudo o que se passou. Assim, ela se levantou e os dois e voltaram juntos para o caminho de terra, onde as compras estavam jogadas ao chão. Recolheram tudo e seguiram de volta ao sitio sem trocar palavras. A garota olhava o amigo pelo canto do olho. Muitas perguntas passavam por sua cabeça, mas não queria externá-las. Não agora. Ela ouviu o grito ecoar em sua mente, várias e várias vezes. Não se lembrava de ter testemunhado tanto terror proferido de alguém, ou alguma coisa, na vida. O que será que havia acontecido naqueles poucos segundos em que eles se separaram? Agora o medo que ela sentiu há poucos minutos atrás parecia pequeno se comparado a apreensão que experimentava no momento enquanto caminhava sozinha com Ian, num silêncio mortal e opressor. Ela havia sim sentido medo da criatura, mas a criatura havia temido a Ian. Pensando nisso, Ana se questionou sobre quem deveria ser o ser mais perigoso naquela noite.

70

8 – Flashback.
Caminhando vagarosamente pela escuridão da Igreja da Iluminação, Ângelo mantinha-se de prontidão para perceber a presença seja do bispo ou do frade, impedindo-os de lhe dar um flagrante. Mesmo ciente de que aquilo ia contra todas as regras da Ordem dos iluminados, ele ainda não tinha se conformado com as pobres explicações fornecidas por seus superiores e acabou optando por conseguir mais sozinho. Vendo que não havia ninguém por perto, o garoto se ajoelha num dos cantos da igreja mantendo os olhos fechados e as mãos em forma de cálice a frente do corpo. Após alguns segundos de concentração, nota-se uma luz prateada queimar nas mãos do mago e logo em seguida a imagem de um olho é projetada entre as suas mãos, aonde permaneceu flutuante. Abrindo um dos olhos, Ângelo começa a guiar o outro que ele conseguiu projetar magicamente em suas mãos. A magia utilizada era atualmente chamada de Big Brother. Um nome que o garoto passou a odiar após a estréia do programa. A mágica consiste em fazer uma projeção holográfica de um olho humano que pode se movimentar de acordo com a vontade do usuário. Porém, além de uma mera ilusão, esse olho carrega as funções orgânicas do mago transportando a visão de um de seus olhos para a pequena projeção. Com isso, Ângelo consegue transportar sua visão para pontos diferentes do seu corpo e investigar regiões de forma mais segura e discreta. Nesse momento, o pequeno olho vagava pelos aposentos da igreja procurando as figuras do Bispo César e do Frade Henrique. Nenhum deles se encontrava. Excelente. Ângelo já suspeitava de tal acontecimento, mas preferiu se certificar, pois iria precisar de total paz na nova empreitada que estava planejando. Andando em direção à passagem secreta atrás do quadro da virgem, o garoto encostou sua mão na imagem e com um pouco de concentração, fez com que esta de locomovesse, expondo a passagem com a gruta que dava acesso ao local de descanso secreto do bispo. Ângelo havia ligado para o bispo nessa manhã e descobrira que ele teria uma reunião com pessoas da cúpula dos Iluminados nesta noite, por isso, achou que seria o melhor momento para realizar a magia do Flashback e descobrir o que estava acontecendo. O garoto sabia que o bispo havia descoberto algo de muito importante e

71

que se recusava a confidenciá-lo. Sabia também que a descoberta era tão interessante que significaria até mesmo uma aliança, mesmo que temporária, com os Inquisidores. E era exatamente isso que Ângelo temia. Sua curiosidade o obrigava a chegar a esse ponto e saber tudo o que se passava em seu templo. O jovem confiava em seu mestre, mas não sabia até que ponto aquela doença havia mexido com seus nervos e seu raciocínio. Ao adentrar a sala luxuosa, pegou um pedaço de giz branco do bolso da calça jeans que usava e, tirando o carpete persa que forrava o chão, começou a desenhar no piso. Em poucos segundos, um circulo cheio de simbologias estava desenhado no chão. Tenho que me lembrar de limpar isso ou o bispo vai me matar. A magia do Flashback servia como uma ponte, aonde o mago podia observar acontecimentos do passado de um determinado local. Era uma magia um tanto rebuscada para um iniciante, mas Ângelo havia conseguido dominá-la há algum tempo. O bispo César, depois de sua doença, havia se isolado dentro desta sala, saindo raramente quando a necessidade o obrigava. Então, independente do que ele tenha descoberto, fora nesta sala. Ângelo entrou no círculo e se sentando com as pernas cruzadas, começou a se concentrar. A mágica do Flashback era uma descoberta recente de estudos realizados pela própria Ordem dos Iluminados. Muito poucos magos sabiam utilizá-la e Ângelo era um desses. Ela foi-lhe ensinada pelo Bispo, mas nem mesmo este sabia que o garoto havia avançado tanto em tão pouco tempo. O jovem não se sentia bem em utilizar uma coisa aprendida através do Bispo contra ele, mas sua intuição não o deixaria dormir à noite enquanto não soubesse o que estava sendo tramado dentro da igreja. Aos poucos a meditação ia se aprofundando. Depois de um tempo, Ângelo foi perdendo totalmente o contado com o mundo real, sentindo seu espírito sair do corpo. Logo, o silêncio do lugar foi sendo gradativamente substituído pelo som de uma voz; grave e forte, que Ângelo conhecia muito bem: a voz do bispo, antes de ser cruelmente atacada pela enfermidade. — Não acho que seja necessário – ouviu a voz do bispo. — Por favor, bispo – era a voz do frade Henrique – não vá agir como criança nessa altura da situação. O senhor sabe que sua saúde não anda bem. — Eu sei exatamente como estou no momento – respondeu o bispo em tom autoritário. – Só estou dizendo que não há necessidade de me afastar de meus afazeres. Não será uma doença que irá me abater.

72

Henrique soltou um suspiro de impaciência e depois falou, tentando manter a calma: — Senhor. Isso que o senhor tem, nem mesmo os nossos melhores curandeiros sabem do que se trata. Essa sua infecção na garganta é algo nunca antes visto e não sabemos a que proporções isso pode chegar. É muito mais sensato deixar nossos especialistas calcularem os riscos que essa doença envolve. Saber se é contagiosa e se há uma cura. Enquanto isso é melhor que fique afastado. — Reconheço sua preocupação meu filho – o tom do bispo era amável, porém firme – mas não preciso de ninguém para me dizer o que é melhor. Trabalhei trinta e cinco anos nessa ordem e não pretendo sair como um derrotado. Finalmente, a magia de Ângelo estava completa e além de vozes, agora ele conseguia ver a imagem da sala do bispo com perfeição. Não sabia quanto tempo ele havia voltado, até porque ali não havia calendários, jornais, nem nada que lhe posicionasse no tempo. A única coisa que reparava é que tudo não parecia muito diferente do seu tempo, há não ser o Bispo César, que conservava uma aparência muito mais saudável. O bispo estava de pé em postura impecável enquanto olhava a lareira e ouvia o que o frade tinha a dizer. — Infelizmente – continuou o frade – não sou apenas eu quem estou preocupado com sua saúde, bispo. Todos os membros do conselho estão cientes e também consideram que o senhor não está em condições de exercer suas atividades. Nem nas reuniões, nem na administração desta igreja. Houve um período de silêncio e o frade continuou: — Eu lhe peço. Abandone isso enquanto se recupera. O conselho não parece interessado em discutir essa situação por mais tempo. Se não sair por bem, eles... — Está me ameaçando, Henrique? – agora o Bispo encarava o pobre frade que deu um passo para trás diante da energia emanada nos olhos de César. — Não senhor. Longe de mim – respondeu Henrique tentando manter a calma, mas Ângelo sabia muito bem o quão ameaçador César poderia ser se assim desejasse – Mas não sou eu que estou lhe dizendo isso e sim o conselho – e completou como em tom de desculpa. – Sou apenas o mensageiro. Ângelo já sabia que estava no tempo errado e não gostava de visitar a vida pessoal de seu mestre desta forma, mas não havia outra solução. Depois que a mágica do

73

Flashback era iniciada, não se podia controlar com perfeição o tempo que se iria visitar, nem podia se avançar rápido ou rebobinar como numa fita. Por se tratar uma mágica muito recente, que não teve tempo para ser aperfeiçoada, o controle da data exata ainda era impossível. Tentar encerrar a magia naquele momento exigiria que Ângelo iniciasse o processo todo de novo o que custaria muita energia. Assim sendo, era preferível esperar que esse acontecimento terminasse para se ter mais sorte no próximo. Enquanto essa cena não acabava, Ângelo podia ver muito bem o efeito que as palavras de Henrique haviam causado em seu mestre. Apesar de sua tentativa de parecer imparcial, o garoto sabia muito bem que aquela notícia havia arruinado o velho mago. Um homem que tanto lutou para reerguer a influente Igreja da Iluminação no Rio de Janeiro e que tanto cresceu dentro da Ordem dos Iluminados, agora era derrotado por uma mera enfermidade. Ângelo queria não ter visto tal cena, mas não teve escolha. Agora as coisas começavam a sair de foco e ele começava a entrar numa outra cena. Nela, Henrique e César ainda estavam presentes, porém, acompanhados por outra figura. Um senhor de batina branca com um crucifixo dourado no cordão estava com eles. O homem tinha uma idade já avantajada e algumas manchas apareciam em sua pele muito branca. Seus cabelos prateados eram curtos e desalinhados e seu olhar era severo. Ângelo o reconheceu como sendo o bispo Armando, um dos mais importantes membros da Ordem dos Iluminados no Brasil e participante da cúpula da Ordem no mundo. — Não vou me demorar muito César. – falou o bispo com sua voz polida – Você poderá continuar na Igreja, afinal, você ajudou a reerguê-la em tempos difíceis. Porém, não tomará mais conta de suas atividades administrativas e nem continuará freqüentando as reuniões da cúpula enquanto sua situação não apresentar melhoras. — Mas senhor... – tentou intervir César — Nem mais uma palavra! – interrompeu o bispo Armando – Tenho certeza que o frade Henrique ficará feliz em cuidar da parte chata dessa Igreja enquanto o senhor descansa – e se virando para Henrique, que se encontrava até então encostado na parede e se endireitou ao ouvir seu nome, disse: – Estou enganado Henrique? — Não senhor. Será uma honra – dava para ver que Henrique também se sentia intimidado pela imponente presença de Armando, assim como César estava — Excelente! - felicitou o bispo – Agora, vou-me indo. Melhoras César.

74

E saiu sem receber uma resposta de seu interlocutor. Quando Armando deixou o local, César deu um soco no braço da poltrona. — Droga! – praguejou. Ângelo pôde ver que seus olhos começavam a se encher de lágrimas. — Acalme-se bispo – pediu o frade Henrique colocando a mão em seu ombro – Sua saúde não lhe permite irritabilidade. — Como irei de me acalmar Henrique? Não vê o que está acontecendo? Estou sendo basicamente excomungado da ordem! — Não é bem assim senhor. - Henrique tentou explicar - Sua saúde necessita de cuidados especiais. E mesmo assim, eu fiquei encarregado da administração da Igreja e como sou fiel ao senhor, será como se o senhor ainda estivesse no poder. — Não é a mesma coisa – resmungou o bispo. — Sei que não é. Mas enquanto isso eu tenho boas notícias. – respondeu Henrique com ar mais animado, enquanto puxava uma pequena sacola do bolso – Encontrei a receita dos remédios que lhe falei. Não é a cura definitiva, – acrescentou Henrique ao ver a cara de ânimo do bispo – mas irá lhe aliviar as dores enquanto não chegamos nela – e tirou uma pequena pílula envolvida num pedaço de folha. — O que é isso? – o olhar do bispo demonstrava alguma inquietação. — Sei que não gosta de remédios naturais, porém lhe garanto que este funciona. É uma propriedade mágica retirada de uma planta amazônica conhecida como Beladona. — Ela não é venenosa? – interrogou o velho. — Sim senhor. Mas possui também outros tipos de propriedades. Uma delas é um forte analgésico. Experimente – insistiu o frade. O bispo ficou um tempo pensativo. — Não vá agir como um velho de asilo que se recusa a tomar remédios – alfinetou o frade com um sorriso amável. Desafiado como fora, o bispo pegou uma pílula e a engoliu a seco. Não demorou muito para fazer uma cara que parecia que iria vomitar no carpete. — Jesus Cristo! Isto é horrível. O frade riu de alto som. — Eu sei. Mas funciona e isso é o que importa. Não sente a garganta melhorar? — Um pouco – concordou a contragosto enquanto esfregava a garganta com a mão.

75

— Ótimo. Recomendo uma a cada doze horas. E finalmente a cena acabou e Ângelo foi sendo lentamente arrastado para outro momento. O garoto começava a ficar ofegante. Manter a magia do Flashback por muito tempo era cansativo demais e ele esperava conseguir algo na próxima cena. Agora Ângelo estava vendo apenas o bispo César sentado em sua poltrona, aparentemente adormecido. Ângelo não entendeu o que aquele momento poderia ter de importante, mas reparou que o semblante de seu mestre estava um pouco diferente. Ele parecia inquieto e se mexia na poltrona regularmente sem abrir os olhos. O garoto percebeu que ele não estava tendo um sonho muito agradável ao fitar sua testa enrugada e o suor que começava a brotar dela. Ângelo se aproximou para ver melhor o semblante do bispo, porém, este abriu os olhos soltando um grito de terror que fez Ângelo pular pra trás. César suava muito e sua expressão era de profundo pânico enquanto olhava a sua volta tentando recuperar o fôlego e massageando a garganta que doeu com a força do grito. Henrique entrou na sala, eufórico. — Algum problema senhor? Mas César não respondeu de imediato. Não conseguia encontrar palavras para o que havia visto em suas meditações. — O que houve? – insistiu o frade. — Eu estava... meditando... — Sim. E daí? Por que gritou? Viu algo ruim? — Não sei o que vi. — Como assim César? – o frade se ajoelhou de frente para ele - De que diabos esta falando? O bispo ficou mais um tempo tentando recuperar o fôlego. Até que finalmente começou a falar: — Há algum tempo eu tive uma espécie de pesadelo. – ele começou com a voz fraca, fitando a lareira – Não dei muita importância a princípio, apesar de ter ficado um tanto abalado. E foi então que o tive novamente na noite seguinte. E na noite seguinte e na noite seguinte... Henrique o olhava atentamente, esperando César concluir sua narrativa — Comecei a ficar preocupado – continuou – então resolvi vagar pelos confins da minha mente, a fim de encontrar e interpretar o que aquele sonho significava.

76

— E em que consistia o sonho? — Não sei explicar ainda. Era um lugar estranho, que parecia o interior de uma caverna. Todo o lugar era iluminado apenas por uma luz vermelha que eu não sabia de onde vinha. Mas o que mais me incomodava eram os gritos. Eles exclamavam o máximo de medo e desespero que uma pessoa poderia expressar. “E eram vários. Homens, mulheres gritavam em desespero. Eu vagava pelas grutas a fim de encontrar a fonte de tanto terror, mas não achava. E o sonho sempre acabava com uma cena: No fim da gruta, eu encontrava um berço. Um berço negro e de repente, todos os gritos se cessavam e só se podia escutar uma leve cantiga de ninar. “Eu me aproximava do berço e era então que eu o via. Um bebê... não... me recuso a pensar que aquilo era um bebê. Ele tinha a pele totalmente queimada, não havia possibilidade de nenhum ser vivo sobreviver com tais queimaduras, mas ele sim. Quando me aproximei do berço, ele começou a chorar. Um choro terrível que aos poucos era substituído por uma risada. Era quando todo o sonho morria, mas antes uma última cena se mostrava. O bebê se erguia e tentava me agarrar. Até aí nada demais só que...” — O que houve? — Não tem como explicar – o bispo estava com a mão direita na cabeça massageando a testa – é necessário que você veja. Então, ele fez uma áurea prateada sair de sua testa e pousar na palma de sua mão. Uma chama metálica dançava por cima de sua pele, até que, num movimento rápido, foi disparada contra o fogo da lareira. A luz vermelha então, que iluminava a sala, passou a ser substituída por uma tonalidade púrpura que preencheu todo o aposento. E dentro da chama, uma imagem se formou. Ângelo se aproxima da lareira tentando visualizar melhor o que era mostrado. E é quando ele vê apenas a última cena do sonho de César: o bebê carbonizado saltando em direção ao bispo. Seus olhos vermelhos eram bem vistos e seus dentes em forma de presas tentavam morder o rosto do espectador. Apesar de a cena ser bastante bizarra, esse não era o motivo do espanto do velho bispo e agora Ângelo e Henrique compreendiam o motivo de tal sonho conseguir perturbar tanto o velho mago. — Essa energia – comentou Henrique. – Nunca senti nada parecido. É nefasta e ao mesmo tempo impressionante. Deve pertencer a um demônio... e um demônio bem poderoso.

77

— Exatamente – concordou o bispo. – Com certeza não é humano. — Mas não há a possibilidade de ser apenas um sonho? — Você acredita nisso? – questionou o bispo, fitando-o com o olhar sério. Henrique olhou envergonhado para o chão, mostrando que nem ele mesmo acreditava em tal possibilidade. — Não somos Sonhadores, mas não podemos ignorar que este pesadelo não tem nada de normal. Primeiramente, pelo fato de estar sendo repetidas inúmeras vezes, e em segundo por que nenhum sonho consegue emanar tal energia. — O que o senhor pensa que se trata então? — Eu não sei. – refletiu - Mas quero tentar descobrir – e girando a poltrona para encarar Henrique de frente, ele pergunta – Frade. Você ainda possui inúmeros contados, não é mesmo? Amigos espalhados por várias organizações. — Sim Bispo. - ele parecia um tanto receoso. — Possui alguém conhecido no grupo dos Sonhadores? — Sim, mas... — Traga-o até mim, rapidamente. — Mas senhor... — Rapidamente – ordenou o Bispo de forma enérgica. E a cena acabou e Ângelo ia sendo lentamente levado até a próxima com a magia do Flashback. Apesar de seu cansaço, ele não conseguia cancelar a magia. Já sabia o que o bispo havia descoberto. Era claro que aquele sonho não fora comum, mas ele queria saber mais. Seu corpo não parava de estremecer ao se lembrar da estranha energia que emanava do pesadelo do bispo. Aquela energia. Era tudo o de mais poderoso e terrível que ele sentira na vida. Não era de se admirar que o bispo, um homem de um invejável controle emocional, estremecesse ao pensar nele. O mais incrível é que tanto ele quanto Henrique haviam sentido, de tão forte que era, mesmo que eles tenham presenciado apenas uma demonstração feita pelo bispo. Ângelo estava exausto, mas ele queria mais do que nunca continuar. Ele tinha de saber o significado daquele sonho. O bispo tinha conseguido falar com um Sonhador? A próxima cena o levava para a sala iluminada por uma intensa luz azul púrpura. Ângelo notou que a lareira conservara as mesmas chamas que ele vira quando o bispo demonstrou seu sonho para o frade.

78

Na sala, estavam o bispo sentado de frente para uma mulher que Ângelo tinha certeza nunca ter visto na vida, pois era uma figura estranha demais para que se pudesse esquecer. Era uma senhora que aparentava uns sessenta anos. A figura lembrava bem uma pessoa rica, mas sem nenhum gosto estilístico, como as novas milionárias que ganham uma fortuna na loteria e se enchem de jóias e outros produtos caros, apenas para mostrar o novo status. As roupas que ela usava pareciam bem adaptadas a um desfile de carnaval, mas não num encontro entre magos de alto escalão. O manto colorido que usava era coberto por um xale roxo, todas na mais pura seda. Ela tinha óculos lente fundo de garrafa com o arame de cor vermelho intenso. E no corpo uma coleção de jóias dos mais diferentes tipos e estilos, que Ângelo não quis perder tempo contando. A mulher misteriosa jogava cartas em cima da mesa de forma furiosa. Seu rosto demonstrava bem um nervosismo e toda aquela tensão parecia se refletir, tanto no bispo, que não tirava os olhos do baralho, como em Henrique, que se conservava mudo encostado na parede próximo a lareira. A mulher finalmente terminou de jogar o baralho e olhou mais uma vez para a imagem na lareira, que Ângelo tinha reparado agora que ficava repetindo a cena final do sonho do bispo. Depois, ela se voltou para o baralho com as mãos apertando a cabeça. — Descobriu alguma coisa Cassandra? - perguntou o bispo tentando manter a calma em meio à apreensão do ambiente. — Só pode ser isso – respondeu a mulher, aparentemente falando sozinha e ignorando a pergunta de César. — O quê? — Mas é terrível – continuou em seus pensamentos — O quê? – insistiu o bispo. — Mas... — O que! – o grito do bispo fez Cassandra despertar de seu transe, parecendo muito aborrecida por a terem privado de seu momento de reflexão. Ela ficou ainda algum tempo atônita, com o olhar vazio. Só depois de um de passados alguns segundos que pareceu se recuperar. O bispo massageava o pescoço. Gritar era para ele um esforço sobre-humano. — Bem, bispo – começou ela com calma - o senhor já teve alguma experiência desse tipo antes? — Nunca – respondeu com sinceridade

79

— E o que o senhor acha? — Como assim? — Bem, o que o senhor pensa a respeito disso que acabou de vivenciar. Acha que está louco? — Lógico que não – respondeu com ar ofendido — Entendo. Apesar de muitos bruxos não aceitarem, os sonhos são de fato manifestações da realidade. Com isso não estou dizendo previsões do futuro. - ela se apreçou em afirmar ao ver o ar cético dos outros magos. — Porque a senhora não nos explica o que esse sonho significa? –interrompeu Henrique. O frade não parecia muito crente com relação à mulher. — Porque, antes disso é necessário que vocês entendam como funciona a experiência que César acabou de vivenciar – explicou Cassandra. — Então prossiga Cassandra, por favor. - pediu o Bispo. — Pois bem. - começou – Como todos aqueles que foram iniciados em magia sabem, o mundo é composto por energias. Correto? — Sim – respondeu o frade um tanto impaciente. — Pois bem – continuou Cassandra sem dar atenção – essas, que são chamadas por Aristóteles de Quintessência, fazem parte do universo, assim como o ar, a água, o fogo e a terra, e elas tendem a entrar em freqüência a todo o momento. — Acho que já aprendemos isso dona Cassandra – Disse Henrique carregado de sarcasmo. — Prossiga - pediu o bispo com muita calma. Ele parecia estar bastante interessado. Ângelo sabia que a Ordem dos Iluminados nunca fora muito crente na arte dos Sonhadores em decifrar mensagens ocultas nos sonhos. Para eles, esse grupo não passava de um bando de Charlatões. Mas naquele caso, o bispo estava dando toda a atenção à mulher. — Pois bem – continuou – Essas energias tendem a entrar em freqüência a todo o momento, devido a qualquer ação humana. Assim sendo, um pisão pode liberar energias que percorrem quilômetros pelo solo, um grito faz as moléculas de ar reagirem e até mesmo um simples pensamento é capaz de fazer com que essas energias vibrem no universo. Ela fez uma pausa bebendo um gole d'água que tinha à sua frente.

80

— Pois bem – continuou – Quando excitadas, essas energias criam freqüências que transitam na forma de ondas, que passam pela água, céu ou pela terra. Elas são, a todo o momento, captadas pelos nossos sentidos. Como quando ouvimos um grito, ou sentimos a terra vibrar, ou vemos alguma luz. Em todos esses momentos, são nossos sentidos captando as energias que circulam pelo universo. Porém, geralmente só percebemos aquilo que os nossos cinco sentidos captam e nos esquecemos de que há outro sentido que também faz parte de cada ser: a intuição. Ela fez mais uma pausa para assegurar-se que estava sendo compreendida. — Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e basicamente só se manifesta em casos extraordinários, como quando temos algum pressentimento ruim. Um exemplo bem interessante é a intuição que se nasce da relação entre uma mãe e seu filho. A mulher, quando mãe, é capaz de ter pressentimentos sobre a sua cria e isso ocorre porque sua ligação com ela é muito forte. Laços que são criados desde a estada do filho no útero materno. Ela bebeu de mais um gole e continuou: — Pois bem. Acontece que há outro momento em que podemos usar desse sexto sentido: quando dormimos. A intuição é o sentido humano que está mais intimamente ligado a essa vibração das energias no mundo, mas ela fica constantemente subjugada pelos demais, que a impedem de agir. Quando dormimos, é o momento que a intuição encontra para agir da melhor forma, pois é nesse instante em que o ser humano perde os demais sentidos. Você não escuta nada, não sente nada, não vê nada. E é nessa hora que a intuição consegue captar o maior número de informações a sua volta. E a sua interpretação é feita através dos sonhos. — Só que há um problema. – completou – Como eu já lhe disse, cada ação que ocorre no mundo, assim como cada pensamento, faz essas energias vibrarem. Logo, da pra imaginar o número de vibrações que ocorrem por dia no planeta? Esse excesso de informações acaba que por gerar o efeito de interferência nas mensagens. Assim, nossa interpretação sofre com esse tipo de interferência, gerando sonhos muitas vezes confusos. Por isso, quase nenhum sonho é perfeitamente claro, mas todos têm uma mensagem, pois todos são resultado da captação que a intuição faz das informações que giram em todo o planeta. O frade Henrique soltou mais um suspiro que não passou despercebido pela mulher.

81

— Pelo visto não acredita em mim senhor Henrique. Então que tal me dar outra explicação para a existência de sonhos? O frade ficou em silêncio e baixou a cabeça. — Assim é melhor. Mas então, de fato é como eu disse. Assim como quando falamos a energia do som é emanada, cada ação nossa corresponde a uma propagação de energia que transita pelo planeta. — Eu entendo perfeitamente senhora – interrompeu o bispo – mas o que eu não entendo é o que significa esse sonho que eu tive. — E é por isso que eu estou aqui – explicou com muita dignidade – Os Sonhadores se desenvolveram com base na interpretação de sonhos. Assim como uma língua estrangeira, os sonhos também possuem códigos primários que nos ajudam a identificá-los. Ela deu um pigarro antes de prosseguir. — Em algum lugar do planeta (e eu diria perto devido à intensidade dos seus sonhos) há uma trama se desenrolando. Devido à freqüência de seu sonho e a força dele eu diria que seu agente, além de estar próximo, está muito desejoso para concluir seus intentos. — Então aquele bebê seria realmente uma pessoa? – se interessou o bispo. — Eu não diria uma pessoa e sim... — Um demônio? – completou o bispo. — Exatamente – afirmou Cassandra. — Mas porque eu estou sonhando com ele? — Não faço a menor idéia. – respondeu a mulher, achando graça da própria resposta – Ninguém faz para se dizer a verdade. Não há um padrão para os sonhos. Você pode estar sonhando com acontecimentos da vida de uma pessoa que você nem faça idéia de que exista. Não temos como canalizar isso. — E esse sonho. A senhora consegue interpretar? — Creio que sim – disse a mulher com ar de triunfo. – De acordo com minha experiência, aquele bebê é de fato um espírito. Ao julgar pela forma como aparece e a energia que é emanada, ele pertence a um demônio, e um dos bem poderosos. A caverna simboliza sua exclusão do mundo, mas como você disse, há uma entrada na caverna não há? — Sim – respondeu César - há uma entrada que foi por aonde eu cheguei.

82

— Exatamente. Isso significa que, assim como há uma forma de se entrar... — É possível que ele saia? - completou o Bispo. — Sim. O bebê simboliza a fragilidade desse demônio. Quer dizer que o nosso amigo se encontra num momento de profunda vulnerabilidade. E é essa vulnerabilidade que o impede de sair da caverna. Mas como mostra o momento em que ele se ergue para atacar – ela fez um ar de mistério - ele esta prestes a sair da caverna. Um silêncio se fez no local. — Simplificando – continuou Cassandra – minha interpretação diz que há uma força tentando voltar ao mundo. Talvez na forma de possessão ou de reencarnação, mas ela quer voltar. Devido à força de seu sonho eu acredito que esse seja um fato iminente e que por isso, não deve ser ignorado. — Entendo – respondeu o bispo. – E eu não pretendo ignorá-lo. — Excelente. Pois bem, receio ter de ir agora. Espero que me mantenha informada sobre os demais acontecimentos. — Sinto muito – respondeu o bispo. — Imaginei que diria isso – disse a mulher com um ar divertido e saiu sem se despedir. Quando ela chegou à porta, o Frade Henrique deu um suspiro de alivio e se voltou para o Bispo. — Francamente. Da pra acreditar nessa mulher? - falou - Não sei nem porque eu guardo o telefone dela. Se dissesse outro “Pois Bem” eu acho que ia explodir. Notando o silêncio do bispo, ele se senta na cadeira antes ocupada por Cassandra e o encara. — Bispo César. O senhor não está pretendendo escutar o que esta mulher tem a dizer, está? — Devo decepcioná-lo e dizer que sim - respondeu calmamente. — Mas bispo... — Meu caro Henrique. De fato os Sonhadores são uma organização de magos um tanto excêntricos. Porém, o que esta mulher acabou de nos contar, não só é muito conveniente com o que eu presenciei como também é uma coisa que eu mesmo suspeitava. — Eu não sei bispo. Acho que vai ser como procurar pelo Santo Graal ou o Anel de Salomão. — Concordo, entretanto, uma coisa que Cassandra me disse me deixou intrigado.

83

— O que? — A sua explicação da origem dos sonhos. — O que tem isso? — Bem, se os sonhos são mesmo captações de fluxos de energia que transitam pelo espaço e são captados pelos nossos sentidos, há uma probabilidade grande de que se consiga rastreá-lo, não concorda? — Sim, mas como? Não se há noticias de que se possam rastrear as origens dos sonhos. Acho que se houvesse Cassandra teria comentado. — Sim, concordo – ele estava pensativo. – Porém, não acho que este seja um sonho comum. A energia emanada daquele bebê... – fez uma pausa, pensativo - é uma coisa que desafia todas as lógicas e é essa energia que eu pretendo rastrear. — Mas bispo. Não acha que isso é loucura? Se existe realmente esse espírito, porque o senhor é o único a senti-lo? — Não sei. Como Cassandra mesmo disse, não há como saber por que cada pessoa tende a receber determinados tipos de mensagens em seus sonhos, mas eu sempre acreditei em intervenção divina. — Como assim bispo? – o frade estava intrigado. — Ora. Esse sonho chegou em um grande momento – continuou tranqüilamente. — Poderia me explicar? - mas a expressão de Henrique denunciava que ele começava a entender o que se passava na cabeça do velho. — Logicamente. Devido a meu estado de saúde, minhas funções para com a organização estão muito reduzidas e minha utilidade quase inexistente. Esse é um grande momento para fazer algo de grande para a organização. Um momento para mostrar aqueles velhos da cúpula que o bispo César Amarante não é nenhum inútil. — Mas o que o senhor está planejando? — Na verdade, estou arquitetando ainda, jovem Henrique, – disse o bispo enquanto fitava o fogo - mas vou precisar de sua ajuda nisso. Posso confiar em você? O frade pensou um pouco, hesitando, antes de concordar. — Sabia que podia contar contigo. O bispo continuou fitando a lareira enquanto a imagem do bebê demoníaco avançava repetidas vezes. A cena foi-se evaporando. De certa forma, Ângelo já conhecia o motivo de todo aquele suspense, mas ele ainda tinha curiosidade de saber como o contato com os

84

Inquisidores havia sido feito. Mas isso ele já não conseguiria mais. Se ficasse mais tempo mantendo a magia, ele provavelmente retornaria para o tempo real desacordado. Ângelo sabia que precisava voltar, porém, a curiosidade permitiu que ele desse uma última espiada na próxima cena. Nela, a sala estava quase vazia, tendo apenas o frade Henrique que se encontrava sentado rezando com um lenço nas mãos. Ao ver isso, Ângelo blasfemou contra seu azar. Suas últimas energias lhe tinham lhe trazido para uma cena tão inútil. Porém, quando ele estava se preparando para cancelar a magia, alguma coisa havia feito esse trabalho por ele e o garoto sente seu corpo ser arrastado com violência de volta para o mundo real. Ao voltar ao tempo presente, Ângelo sentiu uma mão apertando seu ombro com força e quando se virou para encarar quem o segurava, viu o olhar severo do frade Henrique sobre si.

85

9 – Ponte.
No caminho de volta, Ana percebia que o amigo continuava a se manter vigilante. Talvez, ainda acreditasse que a criatura de poucos minutos atrás retornaria para atacálos, mas essa era uma suspeita que a própria garota não levava fé, pois alguma coisa lhe dizia que ela jamais voltaria. O som do grito ainda ecoava em sua cabeça e ela fitava Ian pelo canto do olho com receio de olhá-lo diretamente. O amigo parecia ter voltado ao normal: olhos escuros, dentes e unhas nos tamanhos normais e sem emitir rosnados. Na verdade, ele não emitia nenhum som desde que começaram o caminho de volta para a casa. Tentando assimilar tudo o que tinha acontecido em tão pouco tempo, Ana também não se preocupou em falar nada durante todo o trajeto. Quem era aquela criatura que, há pouco, os interceptou no meio do caminho? E mais importante: o que era aquilo em que Ian havia se transformado? Ela não conseguia esquecer aqueles olhos. Eles lhe causaram tanto fascínio e também tanto espanto. Não estava acostumada a sentir medo de Ian, mas naquele momento esse foi um sentimento que não pôde evitar. Em todos esses anos juntos, sempre considerou o amigo uma pessoa praticamente inofensiva, mas os acontecimentos recentes começavam a mudar esse julgamento. Era como se não fosse Ian quem estivesse ali, lhe protegendo da criatura, e sim outra coisa. Alguma coisa mais selvagem, bestial, inumana. Ela se lembrava do rosnar que vinha do peito dele. Nem mesmo os rosnares dos cachorros de Laila conseguiram provocar tamanho nervosismo na garota. Depois de anos de convivência com Ian, Ana acabava de descobrir que não sabia nada sobre ele. Pelo menos nada do dono dos olhos azuis. Ela ficava olhando para o amigo, esperando para ver se o garoto de olhos azuis voltava. Queria muito poder vê-lo de novo, apesar de reconhecer que esse era mais um gesto de loucura do que coragem. Mas uma força irresistível, talvez o ar de mistério, fazia com que ela não parasse de pensar neles e na vontade louca de vê-los de novo. Chegaram em casa sem trocar palavras. Lá, comeram o jantar, escovaram os dentes e foram dormir. Pela primeira vez, desde que chegou, Ian se reuniu aos demais moradores para dormir no quarto comunitário. Ele se deitou ao lado de Ana e foi então

86

que ela decidiu que finalmente era hora de puxar assunto. Não agüentava mais aquele silêncio. Virando-se para ficar de frente para ele, procurou falar muito baixo para que seus vizinhos não ouvissem a conversa. — Ian? – chamou. O garoto já estava com os olhos fechados quando foi chamado, mas os abriu ao ouvir seu nome. — Eu sei – ele se apressou em responder. Seus olhos não a encaravam e se mantinham fixos no teto enquanto falava – Acho te devo algumas explicações. — Acho que sim – disse tentando sorrir, mas seus lábios tremiam. O garoto sorriu em resposta e Ana sentiu um alívio em seu peito. Por algum motivo aquele gesto a havia acalmado e ela não sentiu mais receio dele. Na verdade, ela começou a se achar um tanto idiota por sentir medo. Mas não podia se culpar. Não depois do que viu. — Eu posso te pedir um favor? - ele se virou pra ela. Agora estavam deitados um de frente para o outro. — Claro – falou sem pensar muito. — Isso pode esperar até amanhã? - pediu - Eu gostaria de resolver umas coisas antes. A verdade é que Ana não queria esperar. Achava que já tinha esperado demais por respostas. Havia muitas perguntas dentro dela que clamavam por explicações, mas consentiu no fim. Ao ouvir isso, o amigo pareceu relaxar e seus olhos foram se fechando até a cor preta deles desaparecer. Depois de fechados, ele adormeceu. Foi tão rápido que Ana ficou impressionada. Parecia que o peso de dias sem sono caiu, enfim, sobre ele. Há quanto tempo estaria sem dormir, e por quê? A resposta parecia óbvia demais. A pergunta certa seria: há quanto tempo ele havia percebido aquela criatura e há quanto tempo a esperava? Ela se lembrava do amigo vigilante na janela da casa. E principalmente, se lembrou da noite do primeiro beijo e como ele estava inquieto, encarando o nada. Como se esperando algo cair em cima deles a qualquer momento.

87

Ana se virou de costas para ele e tentou dormir, mas não foi fácil. Ela não conseguia parar de se concentrar na respiração do garoto atrás dela. Talvez esperasse ouvir um rosnado a qualquer momento, mas esse medo, ou esperança, era bobo. Era tanta coisa passando pela sua cabeça ao mesmo tempo. Tantas dúvidas e tão poucas respostas. E foi enquanto pensava numa explicação para tudo o que havia acontecido que fez um movimento quase que mecânico, levando sua mão até o cordão em seu pescoço. Ali, sentiu o metal frio do pingente entre seus dedos e uma tentação de abrir aquele amuleto lhe acometeu. Faziam-se muitos anos desde a última vez que se atreveu a olhá-lo por dentro. Mas a tentação agora era irresistível. Quando destravou o feixe do pingente oval, pôde ver as duas fotos que ele guardava: uma de Teresa e outra de Samanta. Ambas as mulheres sorriram pra ela. Estava escuro no quarto, mas a luz da lua que entrava por uma pequena fresta da janela já iluminava o suficiente para que Ana pudesse reconhecer os traços de seus entes queridos Teresa, baixa e um pouco rechonchuda, com seus cabelos revoltosos e volumosos na cor castanha e seu sorriso infantil. Teresa sempre carregou consigo um ar divertido que a deixava mais jovem e fazia Ana rir. Ao ver a foto da tia sorrindo, ela não conseguiu segurar a vontade de sorrir em retribuição. Não sabia como tinha sobrevivido tanto tempo sem olhar aquelas imagens. Samanta era o oposto. Alta e muito magra, tinha feições mais sérias, o que fazia muita gente julgar se tratar de uma pessoa severa. Mas essas pessoas, quando tinham a chance de conviver com ela, como Ana convivera, logo percebiam que era um amor de pessoa. Assim como Teresa, Samanta, também parecia gostar do visual ao natural, com o rosto ausente de maquiagem e com os cabelos um tanto bagunçados na mesma cor da irmã, só que mais curtos, chegando à altura do queixo apenas. Na verdade, aqueles cabelos rebeldes a lembravam de mais alguém. Ela arriscou uma olhada rápida para trás e todos os presentes pareciam estar dormindo profundamente. E foi então que, puxando a foto de Teresa, um pequeno pedaço de pano caiu sobre o colchonete ao qual estava deitada. Esse pedaço de pano tinha muito significado para Ana. Nos primeiros momentos, ele era uma ponte entre a garota e seu passado, com suas histórias fantásticas em volta da fogueira. Porém, nos últimos anos, tem sido encarado como algo que Ana lutava para esquecer.

88

Havia crescido e isso exigia dela a renúncia das crenças da infância. Infelizmente, ela havia aprendido isso da pior maneira possível, o que garantiu que tal lição nunca mais fosse esquecida. Na verdade, esse fora o motivo pelo qual nunca mais abriu aquele pingente. Tinha medo de encontrar esse pedaço de tecido e de que todas essas lembranças que tanto lutava para esquecer voltassem com força total. Como estava acontecendo naquele momento. Mas os últimos acontecimentos a obrigavam a isso. Passando o dedo por dentro do pano, ela o desdobrou e uma imagem de uma cabeça de lobo surgiu. Garow. E foi como se anos de histórias voltassem em sua cabeça em uma fração de segundo. De fato, parecia que elas estavam sempre ali, a espreita, apenas esperando o momento certo para voltar. As características daquele que foi seu clã favorito na infância, surgiram com tudo e ela não pôde evitar compará-las com o atual momento: Natureza bestial – o som dos rosnados se faziam ouvir em sua cabeça. Mãos em formas de garras – lembrou-se das mãos de Ian quando ele tentava protegê-la da criatura. Caninos avantajados – ela pôde ver as presas que ficava a vista cada vez que ele rosnava Empatia com os lobos - a forma como os cachorros se tornavam dóceis perto dele. Controle climático – o frio que sentiu quando correu atrás dele no meio da mata e a neblina que a cercou. Olhos azuis. Ana nunca mais permitiu lembrar-se dessas histórias e já as julgava esquecidas, mas parece que a ponte com seu passado havia sido reconstruída naquela noite. Mas foi então que a racionalidade lhe cobrou um pouco de ceticismo e a garota soltou um riso fraco, colocando o símbolo de volta no pequeno no pingente, lacrando-o. Não podia se deixar viajar tanto. Deve haver outra explicação, pensou, sem muita certeza nisso. Enfim, sabendo que não conseguiria dormir facilmente, ela se permitiu virar para encarar Ian. Ele continuava adormecido. Sua respiração pesada era facilmente ouvida. Naquela noite, apesar do frio, eles haviam ligado o ar-condicionado do quarto alegando que o som do aparelho ajudava a adormecer. Tal escolha acabara tornando o ambiente do lugar quase insuportável de tanto frio. Mesmo coberta, a garota ainda não

89

se encontrava plenamente confortável e foi então que se aproximou mais de Ian, atraída pelo calor que emanava de seu corpo. Ali, parada ao seu lado, uma nova curiosidade se apossou dela e antes mesmo que ela pudesse pesar os riscos de sua ação, passou a mão em seu rosto fazendo-o estremecer, sem despertar. Com um pouco mais de coragem, ela passou o dedo pelos seus lábios levantando o superior com o polegar, a fim de ver seus dentes. Dentes brancos e bem alinhados. Nenhum canino avantajado. Mais uma respiração profunda saiu do peito de Ian exalando o cheiro de menta no rosto de Ana. Tirando as mãos de seu rosto, ela se ajeitou, encurtando ainda mais a distância entre eles e permaneceu ali um tempo, aproveitando do conforto do lugar acalentado em que se alojara. Agora, olhando para o rosto em paz do garoto um novo desejo lhe atacou. Esse, mais forte e impensado que o anterior, só foi percebido por Ana quando já era tarde demais, quando seus lábios já haviam se tocado. Ela não sabe de onde houve aquele impulso, mas acabou lhe roubando um beijo. Por que fiz isso? Sentiu uma imensa vergonha. E nesse instante Ian fez um movimento que fez o rosto de Ana corar, imaginando que ele havia despertado. Mas aquele havia sido um alarme falso e ele só fez foi passar o braço por cima dela, com quem agarra um travesseiro na hora de dormir. Ela permaneceu imóvel ao seu lado, como um animal de pelúcia até confirmar que ele estava de fato adormecido. Uma das mãos de Ian estava agora muito próxima de seu rosto e ela pode ver suas unhas bem curtas. Era difícil crer que há poucas horas atrás estas mãos tinham garras. Definitivamente ela não sentia mais medo. Ao contrário, estava fascinada demais. Começou a fantasiar, pensando em o que aconteceria se ele abrisse os olhos naquele momento e ela pudesse ver que estavam novamente azuis. Sentiria medo? Dificilmente. Provavelmente ficaria parada, fitando-os como antes. Como quando estava sendo ameaçada pela criatura a sua volta, mas sua atenção não conseguia sair deles. Como se nada estivesse acontecendo. Como se sua vida não estivesse em risco. Estranho, mas apesar de tudo, nunca se sentiu tão segura e mais uma vez ficou com vergonha do medo que se apoderou dela há pouco. Sabia que o amigo jamais lhe faria mal. Como pôde pensar o contrário?

90

Foi então que lhe veio outra dúvida ao se lembrar de quando ele fugiu dela, na beira da piscina. Porque tinha feito aquilo? Ele parecia assustado, mas com o que? Era como se Ian estivesse fugindo de alguém, mas dela? Não! Dele mesmo? Ian estaria com medo dele mesmo? Mas por quê? Resolveu ignorar. Sentiu que não chegaria a uma resposta no estado em que estava e foi quando, ao soltar um bocejo involuntário, percebeu começar a ficar com sono. Agora, se ajeitando de forma que seus corpos estivessem bem colados, ela se aninhou sentindo o garoto a abraçar com mais força. Enquanto caía no sono, ela ainda se questionava de muitas coisas, mas agora aquilo poderia esperar. Ian havia lhe prometido respostas amanhã e essa era uma dívida que Ana não se esqueceria de cobrar. No momento, porém, queria apenas aproveitar o aconchego nos braços do amigo. Foi quando adormeceu.

91

10 – O prodígio.
A mão pesada do frade Henrique que esmagava seu ombro arrancou Ângelo de seu transe e o colocou de volta a dura realidade aonde, ao olhar para o rosto de seu superior, sabia que estava encrencado. — Sinceramente não fazia idéia de que você era capaz de invocar tal mágica – começou o frade, mas apesar do elogio, Ângelo sentia a ira em sua voz – estou realmente impressionado. Pena que minha irritação é maior, se não lhe daria os parabéns. — Frade, eu... — Não me interrompa! – cortou o frade com severidade enquanto fazia Ângelo se levantar. - Pelo visto o que tem de talentoso, como o bispo diz, tem de arrogante. Aqui na Ordem dos Iluminados não toleramos indisciplina garoto. E você sabe disso. — Sei sim senhor, mas... — Silêncio! Mas será que você não consegue nem cumprir uma simples ordem? Agora Ângelo ficou em silêncio. — O que você viu? - perguntou, finalmente o convidando a falar. — Já sei de tudo – respondeu o garoto com firmeza – do demônio, da visita da Sonhadora. Só não sei como anda a negociação com os Inquisidores. — Apenas isso? - Perguntou com sarcasmo. — Sim. Ângelo viu que as feições do frade pareciam mais aliviadas agora. Então, tinha muito mais coisa das quais ele não sabia. - Sinto muito, - falou o Frade e apesar da calma que agora reassumira, Ângelo sentiu uma ameaça naquilo - mas eu tenho ordens diretas do bispo para não permitir que mais ninguém da Ordem tenha informações do que está sendo desenvolvido aqui dentro, e creio que nem mesmo o aluno número um dele tem tal direito – E enquanto falava isso, enfiou a mão por dentro das vestes e pegou o crucifixo de prata no tamanho de uma mão humana. Ao ver aquela arma nas mãos do frade, o garoto se exaltou: — O que você quer... - mas Ângelo não conseguiu completar a frase. Logo, ele sentiu o corpo ser atingindo por um impulso invisível que o levou de encontro à parede no estremo da sala. Com o estalar das costelas, sentiu seu corpo ser

92

fixado contra o muro, mantendo-o ali, imobilizado. Com o impacto, Ângelo soltou todo o ar que tinha nos pulmões junto com um gemido de dor. — O que você está fazendo? – gritou ao se recuperar do susto. — Bem, como você absorveu essas informações recentemente eu creio poder extraí-las de sua cabeça sem causar-lhe danos. - disse o frade em tom metódico. – Agora, fique parado. E espero que isso lhe sirva de lição. — Você não tem o direito! – berrou o jovem. — Você tem sorte eu lhe prezar muito garoto. Outros membros seriam excomungados da ordem por desobediência menor. — Me larga! – o garoto se debatia, mas o impulso que o mantinha era forte demais. — Fique calmo – disse o frade com tranqüilidade enquanto aproximava o crucifixo da testa de Ângelo. — Me larga! – e com esse último grito houve um novo impulso que, desta vez, fez o frade ir para trás. Henrique cambaleou, mas conseguiu se manter de pé. Mesmo com o susto, ele tentou erguer a cruz novamente para o garoto, mas foi novamente repelido quando Ângelo juntou as duas mãos pelas palmas como se estivesse se preparando para rezar. Ao unir os membros, um novo impulso, esse mais visível, se assemelhando a uma bolha de luz prateada, atingiu o corpo do frade empurrando-o com força contra a parede oposta. Desta vez o frade não foi capaz de se segurar, sentindo uma dor nos ossos atingidos. Mas, recuperando-se rapidamente, ele invocou de volta à sua mão o crucifixo que havia caído com o impacto e se posicionou para enfrentar o garoto. Ângelo agora estava envolto em uma barreira translúcida que emanava poderosa energia. O frade ficou sem palavras com a cena. Não esperava que Ângelo tivesse tamanha habilidade, sendo tão jovem. Conseguir repelir seu impulso tele cinético era uma coisa muito complicada e que exigia energia física e espiritual acima das de um garoto de dezessete anos com apenas cinco de casa. Ângelo ergueu o próprio crucifixo para seu adversário e o frade se posicionou. E foi quando uma nova bolha surgiu no meio dos dois, fazendo-os irem de encontro às paredes. E desta vez com uma força dez vezes superior as anteriores. Meio tontos, os

93

dois tentavam se levantar quando viram suas armas, que foram ao chão com o impacto, rumarem calmamente até a porta da sala e voarem, pousando nas mãos do bispo César. — Sinceramente não sei com quem estou mais indignado, – falou o bispo com muita calma apesar da expressão severa – se com meu melhor aluno por estar num local que não deveria ou se com meu assessor por estar lutando contra um dos meus alunos. ele fez uma pausa analisando as expressões dos membros da sala antes de ordenar: Expliquem-se! Ambos os envolvidos começaram a narrar o acontecimento em voz alta e de forma muito rápida. Não se podia entender nada do que se dizia no ambiente e rapidamente a paciência do bispo foi-se dissipando. — Silêncio! – Gritou, levando a mãos à garganta doente – Henrique. - pediu em tom mais moderado. — Senhor. Eu o peguei bisbilhotando em assuntos que o senhor mesmo o mandou manter-se afastado. - e ofegante completou - Ele usou a mágica do Flashback para invadir sua privacidade. — Flashback! – disse admirado, olhando para Ângelo – não sabia que você já era capaz de usá-la – o velho tentava manter o ar severo, mesmo feliz com a notícia – Então? Explique-se você agora. — O que o frade diz é verdade. - confessou - Eu não agüentava mais ficar excluído das coisas que estavam acontecendo aqui... – e praguejou, o que o fez merecer um olhar de represália – Perdão, mas eu não posso simplesmente ficar de braços cruzados quando algo grande está acontecendo na igreja em que freqüento. - se justificou. — Tudo bem, tudo bem – interrompeu o bispo – e vocês estavam duelando por quê? — Foi ele quem me atacou bispo - denunciou o frade. Ângelo não podia acreditar que havia certo temor na voz dele – eu estava tentando apagar as informações que ele havia descoberto. Ângelo se sentia ridículo naquela cena. Os dois pareciam crianças acusando o amigo do colégio para a professora. A única coisa que o fazia se perdoar era o fato de que estavam sendo interrogados pelo bispo César. Um homem que tinha a habilidade de impor medo em quem o conhecia. — Ele tentava me fazer lavagem cerebral, bispo. - acusou o garoto.

94

— Silêncio! – ordenou o bispo com a voz mais fraca devido à dor – Francamente, odeio servir de mediador dessa discussão infantil. Não esperava tal atitude de membros da Ordem dos Iluminados. - e olhava os rostos dos presentes, esperando o efeito de suas palavras. Ambos abaixaram as cabeças. - Estou decepcionado. - continuou calmamente Agora eu quero conversar com Ângelo em particular frade. Apesar da surpresa, Henrique reprimiu o impulso e saiu da sala, sem questionar. Dava para perceber a raiva que o frade estava sentindo. Ângelo não sabia qual era o motivo real. Se ele estava se sentindo preterido, ou podia ser a bronca que levou, ou pelo fato de ter enfrentado Ângelo de igual para igual. Com certeza, um homem com a experiência do frade esperava que fosse mais fácil apagar as memórias de um mero aluno.

* Quando o frade saiu da sala, César fechou a saída por trás dele e depois se virou, convidando Ângelo a se sentar. O jovem obedeceu, se acomodando de frente para seu mestre enquanto tentava não olhar para baixo e encará-lo com coragem, mas era difícil fitar aquele olhar enérgico por muito tempo sem fraquejar. O bispo ficou em silêncio fitando seu aluno, enquanto mexia nos crucifixos tomados dos dois magos. — Então, – começou – você já sabe de tudo? — Quase. – se limitou a responder olhando para o chão. — Mesmo quando eu lhe pedi para não se meter. – continuou. — Perdão – pediu, tentando compreender o tom do bispo. Seria decepção o que ele tentava passar? — Mas eu não podia ficar de braços cruzados num assunto de tamanha importância. - continuou - Perdão mestre, mas o que o senhor está fazendo coloca em risco toda a ordem. - e fechou os olhos esperando a repreensão por sua insolência. — E é exatamente por isso que não queria envolver ninguém mais. — Mas... — Ângelo – interrompeu o bispo – eu sei que é difícil para qualquer um conter sua curiosidade. Mas aqui temos regras e respeitar seus superiores é uma delas. — Então o senhor mesmo não estará seguindo essas regras – respondeu o garoto levantando a cabeça para olhar seu mestre, só para logo depois baixá-la novamente, amaldiçoando sua impertinência.

95

Porém, para a surpresa de Ângelo, o bispo deu uma boa risada. — Bem colocado. – disse com ar divertido – Realmente estou fazendo coisas aqui nesta Igreja que em muito contrariam a cúpula. Não posso falar muito de você. admitiu - Há não ser dizer que eu já sou adulto e um membro de respeito na ordem enquanto você, por mais talentoso que seja, é apenas um aluno e que por isso deve respeito ao seu mestre. — Perdão. — Tudo bem. – continuou em tom amável - Na verdade eu já suspeitava que isso fosse acontecer. Eu lhe treinei por pelo menos cinco anos e o conheço bem. Sei que não deixaria isso passar em branco. Só não suspeitei dos métodos que você usaria para conseguir tais informações. Métodos, digo eu, que me deixam ao mesmo tempo decepcionado e maravilhado. – e fez um gesto para calar Ângelo quando ele pensou em abrir a boca – Não me interrompa. – e continuou – A cada dia que passa estou mais orgulhoso de você. Suas habilidades mágicas estão num nível muito acima da média. A prova disso é que você foi capaz de usar da magia do Flashback em apenas dois meses de treino e que suas habilidades de combate já são capazes de rivalizar com as do próprio frade Henrique. Porém – continuou, mudando o tom de voz para acusação estou decepcionado que você tenha usado essas habilidades para atacar um membro da sua própria ordem e para invadir minha privacidade. — Perdão – voltou a dizer o garoto envergonhado, não sabia que outra palavra usar – mas eu tive de me defender do frade. Ele ia fazer... — Eu sei muito bem o que ele ia fazer – interrompeu mais uma vez o bispo – Apagar a mente de pessoas que sabem de coisas proibidas é uma pratica comum na nossa organização desde tempos remotos. E nem mesmo nossos membros estão livres de tal punição – e completou – E em minha opinião, a atitude do frade foi até então leve. Pois em outros casos sua invasão resultaria na sua expulsão da ordem. Ele não tinha como responder a isso. Ângelo sabia muito bem o quão severa era a Ordem dos Iluminados quando se diz respeito a regras e hierarquia. Pensando bem, a atitude de Henrique foi realmente branda. — Reconheço meu erro – admitiu por fim - e mais uma vez peço desculpas. — Eu sei como você está se sentindo Ângelo. Sei que é um excelente mago e você também pensa assim. Talvez por isso acredite que o tratemos ainda como se fosse um mero aluno. Mas acredite: Você é um mero aluno. Por mais talentoso que seja, ainda

96

deve obediência e tem muito que aprender. - ele fez uma pausa – Apesar de você ser um prodígio, Ângelo, esse assunto de que estamos tratando é um pouco demais para você. — Um prodígio? – se surpreendeu o garoto. — Sim. Vai me dizer que você nunca notou? - falou o velho mago - Você aprende as lições dez vezes mais rápido que qualquer outro. Sua energia mágica cresce a cada momento. Isso o classifica como um mago Prodígio. Você tem potencial para me ultrapassar e é por este potencial que eu quero te manter afastado. Quero que você viva para atingir esse meu sonho. O bispo sorriu para seu discípulo e ele retribuiu encabulado. Fez-se então um minuto de silêncio enquanto o bispo se servia de uma jarra de água que estava numa estante próxima. Após ingerir o seu habitual remédio e se sentar novamente, ele continuou: — Eu já sou bem grandinho para saber que me meter com os Inquisidores é um trabalho perigoso. E é por isso que eu não lhe quero envolvido. Pois se algo acontecer de errado, eu quero você bem para continuar minha obra e me superar. – e deu uma pausa encarando a lareira por um tempo. Nesse período, Ângelo se manteve mudo como antes, até que o bispo o encarou novamente – Me diga Ângelo, o que você viu enquanto meditava? O que descobriu? — Sei de seus sonhos e da visita de Cassandra – contou o garoto sem olhar nos olhos do mestre – acabei aí – Não queria comentar sobre a visita do membro da cúpula. — Mas já viu o suficiente – calculou, e com um suspiro cansado, olhou o seu aluno mais uma vez, dizendo: – Pelo que penso, mesmo após essa bronca, você não vai desistir de se manter envolvido, não é mesmo? Ângelo nada respondeu, ainda encarando os próprios pés. — Então eu tenho duas alternativas – refletiu – Apagar sua mente e expulsá-lo da ordem – o corpo de Ângelo estremeceu com a idéia – ou... – o bispo parou um pouco deixando o peso de suas palavras atingirem seu aluno – poderia lhe por a par da situação e lhe dar uma participação modesta que garantisse você sob meu controle. O rosto de Ângelo se iluminou e ele finalmente conseguiu olhar para o rosto de César e viu que o mestre sorria ao ver seu ânimo. Era a mesma expressão de um pai que acabava de presentear seu filho. O garoto queria falar, mas sua voz não saiu tamanha era sua alegria.

97

— Mas lhe digo já. - advertiu – Sua participação nisso tudo será pequena. Como já lhe disse, não quero você correndo perigo. — Obrigado. - conseguiu dizer. — Não agradeça. Encare como um novo estágio de seu treinamento. — Então... Vai me contar tudo. — Sim, mas não hoje. Já é muito tarde e eu preciso acordar muito cedo amanhã. Venha aqui às cinco da tarde de amanhã e eu lhe contarei tudo sobre o andamento do nosso plano. Desta vez, Ângelo não estava disposto a desobedecer. — Certo – concordou. — Então vá e mande o Frade entrar. Quero falar com ele. — Sim senhor- e saiu Antes de chegar à passagem, porém, ele se virou de volta para o mestre. — Senhor? — Sim Ângelo. — Porque nunca disse antes que me considerava um prodígio? — Francamente garoto! Você já é bastante arrogante sem precisar de incentivos – e sorriu para o aluno. Ângelo sorriu em resposta e saiu. Ao chegar ao altar da igreja, notou o frade sentado recitando uma oração. Ele tinha um lenço branco entre as mãos enquanto recitava os versos. O garoto não reconheceu a oração, mas achou-a bonita. — Que o senhor seja teu guia e te controles para que evites o caminho das trevas... – Então, surpreso ao ver o garoto chegando, Henrique parou. Ângelo se questionou se a maior surpresa do frade era pelo fato dele não tê-lo percebido se aproximar ou se por ver o garoto inteiro e feliz depois de conversar com César. O homem recobrou a compostura se colocando de pé de frente a Ângelo e ele transmitiu o recado do bispo. Ao terminar de falar, Ângelo continuou seu caminho até a porta da saída sentindo o olhar do frade o acompanhando cada passo. E se lembrou das palavras do bispo: Suas habilidades de combate já são capazes de rivalizar com as do próprio frade Henrique. Ângelo via que Henrique estava um tanto decepcionado com o que via. Provavelmente esperava que o garoto fosse duramente castigado pelo bispo, mas não foi

98

esse o caso. E não conseguiu evitar que um leve sorriso de deboche se formasse em seus lábios. O bispo tinha certa razão: ele era sim arrogante. Fazer o que? Sou assim. Estava feliz pelo fato de estar de costas para Henrique e assim, este não poder ver seu rosto. O garoto estava bem mais leve naquele momento e saía da igreja com um ar de vitória. Mas foi quando algo inesperado ocasionou um estalo na cabeça. Era uma sensação muito estranha a que sentia naquele momento, assim que atravessou a entrada da igreja e saíra para as frias ruas do Centro. Era uma sensação de urgência que lhe tocava o peito. Uma espécie de aviso, como se estivesse deixando algo importante passar, mas não fazia a menor idéia do que poderia ser. Voltou a olhar à Igreja à suas costas a procura de respostas para sua angustia, mas não lhe veio nada. E assim como veio, logo a sensação se foi e ele estava mais aliviado. Estranho. Refletiu. Nunca tinha passado por isso. Decidiu ignorar o aperto no coração e voltar para casa. Tinha coisas mais importantes com as quais se preocupar. Como, como ajudar o bispo, por exemplo. E foi então que começou a experimentar a adrenalina que a ocasião exigia. Aquela era de fato, uma ótima oportunidade para testar suas habilidades.

99

11 – Vencendo o ceticismo
Foi então que a noite deixou o sitio de Mônica e um novo dia raiou mais ensolarado que nunca, embora continuasse frio. Ana acordou e viu que ainda dormia ao lado de Ian, que se mantinha num sono profundo. A vontade que ela tinha era de acordálo naquele momento e pedir as explicações que ele lhe prometeu, mas conseguiu se controlar. Ficou olhando-o dormir mais um pouco, antes de se levantar com calma e sair do quarto. Ao chegar à varanda, onde ficava a mesa do café, viu que todos já estavam acordados e desta vez Ana não se importou com o fato de todos os olhares voltarem para ela. Já estava se acostumando a ser a ultima a se sentar para o café. Dona Mônica servia torradas quentes para os demais hóspedes e ao vê-la, convidou a se sentar. — Ana! Finalmente. Sente-se e coma, pois vamos embora cedo hoje. – e lhe serviu uma torrada que Ana pegou com um pouco de suco de laranja. – Agora falta apenas aquele menino o... qual é mesmo o nome? — Ian – respondeu Laila – Ele ainda está dormindo? – perguntou olhando para Ana. A garota sentiu as bochechas corarem e respondeu com um manejo de cabeça. — Acho melhor chamá-lo para o café. Não é, Ana? A garota ia se prontificar a levantar, mas Mônica a interrompeu: — Melhor não. Deixe-o dormir um pouco. Ele parece que passou todas as outras noites em claro aqui. Ao ouvir isso, Laila lançou um olhar travesso á amiga e Ana sentiu suas bochechas corarem ainda mais quando viu que aquele olhar era compartilhado por mais pessoas, incluindo Mônica. Alguns ainda davam umas risadinhas e a garota tinha vontade de se afogar em seu copo de suco e sumir. — Ele com certeza deve estar muito cansado - comentou Laila rindo com Fernanda.

* Até que chegou à hora de se despedir do sitio e certo pesar acometeu todos os jovens enquanto foram se ajeitando no carro. — Vou sentir falta daqui – comentou Rodrigo.

100

— Vamos poder voltar mais vazes – disse Laila que o abraçava por trás – Talvez com menos gente. — Gostei da idéia – respondeu e eles se beijaram, mas Ana duvidou que ele tivesse entendido o que Laila queria realmente dizer. Na volta, os lugares seriam os mesmo, afinal, os casais já estavam formados e Ana não pretendia ficar de acompanhante. Ela e Ian sentaram-se no último banco, como antes. No começo da viajem, ficaram calados. Cada um olhando para uma janela e admirando a paisagem. Em alguns momentos, Ana o fitava pelo canto do olho e pôde então perceber que a expressão do garoto havia mudado para melhor. Suas olheiras haviam sumido e ele tinha um ar bem mais saudável. Ana pensou em quebrar o gelo, puxando assunto, mas Ian foi mais rápido. — Você está bem? – perguntou. — Ah? – a garota foi pega de surpresa. - Como assim? — Você sabe. Por ontem. — Sim. Sim não fiquei com nenhum machucado. — Seu físico eu sei que está bem. Eu me refiro a seu psicológico. — Acho que sim – disse, mas com uma voz menos confiante. — Posso lhe perguntar o que você viu? – interrogou – Quero dizer, o que você interpretou de ontem? — Bem – começou coçando a cabeça – nem eu sei direito. Por isso eu gostaria que você me explicasse – disse segurando o colar das suas tias nas mãos. — Nem um chute? – porém, era como se ele estivesse falando sozinho agora. A mente de Ana já estava a muito distante dali em termos de tempo e espaço. Regressando em cinco anos, em Três Corações. E as palavras de Teresa e Samantha eram bem vivas para a garota naquele momento. Unhas em forma de garra Presas Intensos olhos azuis. — Ana? - o garoto a chamou, mas ela ficou muda. — Ana? - Ian a fitava, esperando a sua resposta. — Nada – ela respondeu, fitando o horizonte. — Como?

101

— Eu não consegui deduzir nada. Não é fácil, sabia? Foi muito estranho o que aconteceu. — Entendo – mas Ian parecia decepcionado e voltou-se a contemplar sua janela. Depois de uns minutos de silêncio, ele se voltou para a garota. — Então, o que você quer que eu lhe explique? — Como assim? – riu-se – A verdade, lógico. — A verdade verdadeira ou uma que você possa acreditar. — Lógico que a verdadeira. Porque a pergunta? — Porque eu sinto que você já a sabe, mas tem medo de arriscar um palpite. Ana sentiu seus músculos se contraírem. Pensou em falar da idéia absurda que passava por sua cabeça, mas as palavras não conseguiam se formar. Várias lembranças vieram à tona. Um passado triste onde envolviam consultórios médicos, tratamentos complicados e remédios que tiravam suas energias. Um passado que tinha crianças zombando dela, fazendo sinais obscenos e a acusando de louca. Um passado onde havia uma velha senhora, se debatendo, sendo levada por dois homens de branco. Essa foi à última cena que Ana tinha de sua avó, que enlouqueceu depois daquele dia. Ana nunca mais conseguiu voltar a Três Corações depois disso. Sabia que sua avó havia voltado para casa, mas que as marcas do trágico... acidente que matou suas filhas, ainda permaneciam. — Eu não sei de nada – falou fitando sua janela. Não conseguia encarar o amigo. — Ana, o que fizeram com você? Mais uma vez ela foi pega de surpresa por essa pergunta e sentiu seu peito estremecer. Ficou em silêncio. — Eu gostaria de saber exatamente o que aconteceu para você ter mudado tanto. Onde está aquela garota de mente aberta de tempos atrás? Aquela que me contava histórias e era capaz de sonhar? E mais uma vez a mente da garota viajou

— Então Ana? Como se sente hoje? Ana agora não estava mais no carro indo para casa e sim num consultório. Ela era uma menina de novo e estava emburrada olhando para os próprios sapatos, que ela balançava sem conseguir alcançar o chão. Ana tinha doze anos na época e sua psicóloga

102

estava em sua décima consulta. Um tratamento que ela iniciou depois da tragédia em Três Corações. — Ana? – chamou a doutora. — Não quero falar – embirrou a garota. – Você não acredita em mim. — Ana – doutora tinha a voz amável – querida. Não é que eu não acredite em você. Sei que no fundo você realmente acredita nisso, só que não é mais saudável para você crer nessas coisas. — Mas foi o que aconteceu - disse a garota elevando a voz e socando a poltrona onde estava. — Você já tem doze anos. Já é uma mocinha. Ana cruzou os braços, impaciente. — Eu entendo bem o que você está passando. – continuou a doutora - Você pode achar que não, mas entendo. Sei que a morte de suas tias foi um fato que a chocou muito. Então você criou essa fantasia, que a ajuda a interpretar a tragédia. É um bom recurso, mas... — Eu não criei nada! – berrou a garota. — Calma Ana. Estou aqui para ajudar. — Ninguém pode me ajudar! – respondeu Ana – Ninguém acredita em mim! Ninguém pode trazer minhas tias de volta e ninguém vai achar seu assassino enquanto pensarem que foi uma explosão de gás! — Então quem foi que as matou? – incentivou Renata para que ela falasse. — Um bruxo talvez. Alguém mal. — Ana. – começou ela se aproximando da garota – tem noção do que está dizendo? Ouça e você vai ver o quão incoerente é. — Mas é a verdade! – insistiu inutilmente. Enfim, a doutora Renata se levantou e mandou chamarem os pais de Ana. A garota estava agora do lado de fora da sala e escutava Renata que ela falava com seus pais. — Francamente já tentei de tudo – dizia a doutora. — Mas doutora. Não tem outro jeito? - suplicava a mãe de Ana. — Infelizmente, nenhum que eu conheça. Ela precisa de terapia mais intensiva – confessou a doutora - e recomendo que façam isso rapidamente, pois a menina começa a apresentar sinais de agressividade.

103

Depois dessa conversa, se iniciou o tormento da vida de Ana: remédios e tratamentos complexos passaram a fazer parte de seu cotidiano. Foram anos de brincadeiras e chacotas no colégio e na vizinhança. Anos que seguem a jovem como um fantasma mesmo depois de tanto tempo. Um passado que ela havia enterrado fundo em seu subconsciente, mas que voltava do túmulo mais uma vez com toda a força. — Eu... – continuou a garota, tentando controlar a voz que tremia – só quero uma explicação coerente, pra o que eu vi. — Você quer uma explicação plausível? — Sim. — E se eu dissesse que sofro de uma síndrome de dupla personalidade? - tentou o garoto levando a mão ao nariz e o coçando com a palma - Que muda meu fenótipo quando se manifesta? Ana ficou em silêncio. — Eu te digo que sua manifestação é rara e que alguns acontecimentos ruins em meu dia-a-dia acabaram por manifestá-la mais recentemente. - ele a olhava – O que você diria? — Você coçou o nariz. – respondeu Ana. — Como? – perguntou o garoto sem entender. — Quando você coça o nariz, é sinal de mentira – explicou Ana – eu sei disso. O garoto olhou surpreso para a própria mão. Depois, voltou a sua atenção a ela, se recuperando. — Ana, eu sinto que não posso ajudá-la a entender então. Não posso arranjar uma explicação coerente para seus padrões. A garota ficou calada. Aquela situação era angustiante, pois ela estava com a pergunta na ponta da sua língua, mas uma força muito grande a impedia de falar. Era como se ela fosse parecer ridícula ao perguntar para Ian, se ele era um mago. Se ele era o mago que ela escutava nas suas antigas histórias. Apesar de saber que o garoto já havia escutado tudo isso dela, não conseguia evitar pensar que ele começaria a rir da cara dela se perguntasse. Pensar que ele diria que ela estava delirando. Seu medo era tão grande, que Ana achava que se perguntasse para Ian se ele era realmente um Garow, os demais passageiros iriam escutar e começariam a zombar dela. Igual todos faziam há anos atrás. — É muito difícil pra eu falar sobre essas coisas. - admitiu

104

— Eu sei – falou Ian enquanto a puxava com o braço, abraçando-a - e eu sinto muito quanto isso. — Não foi culpa sua – respondeu Ana. — Talvez seja. — Não seja ridículo – Ana sorriu cansada. Ficaram calados por alguns segundos. — Mas vou tentar te ajudar. – prometeu o garoto – Eu só quero ajeitar uma coisa importante antes. Ana olhou o amigo e ele parecia muito firme em sua decisão. Estranhamente, desta vez ele não deu o sorriso reconfortante de sempre e Ana sentiu falta disso. Ela olhava para ele e percebia que o garoto estava pensando em algo muito importante. Como se estivesse com uma grande decisão nos ombros. — A verdade não será plausível – falou Ian – mas será a verdade – prometeu. — Obrigado – agradeceu a garota encostado a cabeça em seu ombro. — Não por isso – respondeu – Eu estou te devendo há muito tempo.

105

12 – Perdão.
Mônica deixou todos em suas respectivas casas e Ian e Ana foram os últimos, já que moravam um ao lado do outro. Após se despedirem de Laila e de sua mãe, ambos fizeram menção de irem para suas respectivas casas. — Vai fazer o que agora? – perguntou a garota. — Vou falar com minha mãe. Depois, tenho que resolver umas coisas antes, como falei. Descanse um pouco que de noite eu te chamo. – prometeu. — Tá certo. Até então – e entrou. Ian sorriu em resposta e se virou. — Até Entrou em casa se sentindo cansada, apesar de ter, mais uma vez, dormido o caminho quase todo da viagem. Ao dar uma olhada rápida, percebeu que estava sozinha e sem se importar, subiu vagarosamente as escadas. Chegando ao quarto, sentiu-se tentada a seguir o conselho de Ian e dormir um pouco. Mas algo a impediu de fazer isso. Uma sensação estranha, como se seu coração estivesse apertado, a acometeu. O que era aquela angústia em seu peito? Ela não fazia idéia de como o tempo a havia modificado. Sempre acreditou que nunca mais havia falado nas histórias que suas tias contavam porque já não acreditava nelas, porém, descobriu hoje que não era bem assim. De fato, havia um bloqueio a impedindo. Era como se todas as experiências pelas quais passou tivessem criado nela uma espécie de muralha, que a impedia de externar as coisas em que acreditava. A cada segundo que passava, estava mais certa de sua crença. Sentia como se o cordão em seu pescoço estivesse pesado, como se o peso de toda a revelação estivesse ali, tentando se mostrar para ela. Mas se tinha tanta certeza, então, porque não conseguia falar isso? Por mais estúpida ou infantil que ela pudesse parecer, qual seria o problema se estivesse errada? Ela não pararia num hospício por falar sobre magia. Apesar de tudo, não conseguia falar. Ela sentia exatamente o que Ian queria contar a ela. O segredo que tanto escondia. Ele tinha razão em dizer que Ana já havia deduzido tudo, mas que estava com medo de falar. Eles passaram boa parte da juventude juntos, Ana já havia contado para ele todas as histórias que suas tias lhe narraram. Ian sabia que ela conhecia o clã Garow, sabia que ela entendia sobre magia. E era isso que ele queria que ela deduzisse.

106

Só não entendia o porquê de não falar logo? Porque fazer todo esse ar de mistério com ela? Ela se lembrava da infância. Quando era pequena, isso era tão simples. Tinha toda a liberdade para fantasiar, estava protegida por sua inocência. Quando criança ela bebia das palavras de Teresa, e idolatrava Samanta. Falava para todos sobre bruxas sem se preocupar em parecer louca ou infantil. Afinal, era criança mesmo. Mas amadurecer, mantendo as velhas crenças foi para Ana assinar sua sentença. E por isso, dedicou o resto de seus dias a esquecer tudo o que havia aprendido. Investiu em acreditar que suas fantasias não passavam de folclore. Lutou para se convencer que um mero acidente doméstico havia tirado a vida de Teresa e Samanta. Minhas tias! Meu Deus! Nesse momento a ficha de Ana parecia ter finalmente caído e ela se dava conta da monstruosidade de suas ações nos últimos anos. Agora aquela angústia em seu peito fazia sentido, pois se realmente fosse tudo verdade, se de fato existissem magos no mundo. Se Ian fosse um deles. Isso quer dizer que os últimos anos de Ana foram dedicados não apenas a esquecer o que foi aprendido, mas também se esquecer de tudo o que elas representavam em sua vida. Não. Ana sentou-se na cama com o peito pesado. Sua mão foi instintivamente até seu cordão, onde todo o símbolo de seu passado estava. Um passado que assim como seu pingente, ela havia mantido trancado, esquecido. Durante anos se esforçou a crer que um mero acidente doméstico havia tirado a vida de Teresa e Samanta. Havia desistido de idéia do crime que tirou seus entes queridos e de seu assassino que continuava impune pelo mundo. Anos tentando ignorar as vozes medonhas ouvidas naquela noite. Anos tentando eliminar a imagem do espectro no meio da casa em chamas. Não, não era apenas isso. Pois desistindo de acreditar nelas, Ana não só estava fazendo injustiça a sua memória, como também as havia renegado a um patamar de mentirosas ou loucas. Como pude? Ela não conseguia se perdoar agora. Ao olhar para o espelho a frente de sua cama, sentiu nojo da garota que ali estava postada com cara de idiota. Não conseguia acreditar que havia feito tanta injustiça com aquelas que haviam sido as pessoas mais importantes de sua vida. Minhas tias, eu trai suas memórias.

107

— Desculpe. – pedia em uma oração silenciosa, sentia as forças em suas pernas se esvaindo levando seu corpo ao chão e encostando-se na cama – Perdão! Ela abriu mais uma vez o colar, mas desta vez não para ver o símbolo Garow ali guardado, mas sim o rosto delas, há anos negligenciados. Por que nunca nem sequer ousou abrir esse pingente? Infelizmente ela teve que fazer esse sacrifício. Para poder finalmente esquecer todo o trauma de sua vida, teve que enterrar todo o seu passado e tudo que o ligasse a ele. Incluindo elas. Ana começou a alisar as fotos, deixando as lágrimas recém reconquistadas caírem sobre o pingente e foi quando se deu conta dos dois fios quentes escorrendo por seu rosto. Passou a mão e viu as duas gotas de lágrimas que desciam por sua face e de início não conseguiu acreditar naquilo. Há tempos que não era capaz disso e já tinha até se esquecido qual era a sensação. O alívio que dava poder finalmente chorar. Permaneceu sentada no chão do quarto, colada ao seu pingente sagrado deixando que todas as lágrimas de anos saíssem. Não queria guardá-las mais. Não precisava delas. Ela não saberia dizer quanto tempo ficou ali, mas só se levantou quando pôde sentir-se forte de novo. Levantou- se e foi até a janela. Lá, encontrou de cara Ian saindo de casa e acenou sorrindo ao ver o amigo, mas este não a viu na janela. Ele estava atravessando a rua naquele momento. Pra onde está indo? Ana queria que ele não demorasse muito. Agora ela sabia exatamente o que queria perguntar e que respostas esperava ouvir. Só torcia para ser capaz de fazer a pergunta certa. Foi quando ele parou de frente para a casa de sua vizinha, Dona Solange. Sem tocar a campainha, ele entrou na casa. O que ele vai fazer ali? Sentiu uma pontada de curiosidade tocá-la.

108

13 – O Beijo
Não resistindo à curiosidade, ela subiu até seu terraço, pois, de lá, conseguiria ver boa parte da casa de Solange e quem sabe, com um pouco de sorte, ver o que ele fora fazer lá. Ao chegar ao alto, Ana se apoiou no parapeito do terraço e pôde ver os dois conversando nos fundos da casa. A mulher não parecia irritada com a invasão de sua propriedade e dialogava animadamente com Ian. Solange era uma viúva baixinha e magra, mas de aparência bem saudável, que mostrava alguém que tinha chegado à velhice sem abusar da juventude. Tinha cabelos curtos tingidos de vermelho e rugas nos olhos e testa que lhe denunciavam a idade verdadeira. Seu rosto era pequeno e sempre muito digno. Ela morava na casa à frente da de Ana e estava ali desde que se mudara para essa rua. Não era uma das vizinhas mais agradáveis que se tinham por ali, porém, não se tinha muito o quê queixar. Na verdade, seu único problema era ser agradável até demais. Era uma mulher muito espirituosa para se dizer a verdade. Mas possuía certos maneirismos que não cabiam para uma mulher de sua idade. Tais como o uso excessivo de maquiagem e roupas um tanto ousadas. Devia ter uns sessenta anos e se vestia como se tivesse vinte ou trinta, algumas vezes, abusando dos decotes e das cores chamativas. Sempre que podia, parava alguém da vizinhança para poder tagarelar sobre assuntos banais. Era um tanto irritante nesse ponto, mas o pior é que era também muito educada e até um tanto simpática, o que dificultava as pessoas indispostas a lhe dar atenção, de simplesmente cortarem o assunto e saírem andando. Ana até se sentiria mal por pensar tais coisas da senhora se essa não fosse uma opinião que ela dividia com os demais moradores da rua. Basicamente, apenas Ian perdia seu tempo lhe dando atenção. É verdade, compreendeu. Agora se lembrava que o garoto vivia prestando favores para a senhora. Como era viúva e sozinha, sempre era bom ter ajuda para certas atividades, principalmente aquelas que exigiam um esforço físico considerável. E nessas horas recorria a Ian, já que o garoto nunca negava favores a ela. Isso é o que dá ser bonzinho demais, riu-se por dentro. Mas apesar da exploração sofrida, Ian nunca reclamara da velha senhora e sempre tentava defendê-la das gozações dos demais moradores. O que foi Ian? Tá interessado nela? Ana sempre brincava com ele assim.

109

E foi quando se lembrou. Tenho que resolver umas coisas antes. Foi o que ele dissera. Mas provavelmente essas coisas não eram com Solange. Com certeza ela havia telefonado para ele pedindo auxilio para alguma tarefa, como trocar uma lâmpada, e Ana estava assistindo apenas a uma conversa banal, enquanto tomavam algo que parecia chá, ou café, Ana não sabia, pois só conseguia ver dali que a bebida era servida em xícaras. Como não tinha nenhuma idéia do que fazer naquele momento, optou por ficar ali mesmo, observando a conversa dos dois, que não devia ser nada interessante, conhecendo o gosto da vizinha. Parada no parapeito do terraço, observando o garoto, Ana foi se permitindo pensar em outra coisa sobre Ian que estava enchendo a sua cabeça. Eram tantas coisas que a perturbavam, que Ana se surpreendeu por ainda não ter pirado. Tirando um pouco o assunto do misticismo da cabeça, ela deixou sua mente vagar por outra dúvida. O que diabos está havendo comigo? Com certeza, muita coisa havia mudado nela nesses últimos dias. Além de se permitir pensar novamente em magia, ela sentia que as mudanças que ocorriam com ela eram ainda mais profundas. Desde a viagem ao sitio de Mônica, ela não só tinha investido em alguém como também roubado um beijo desta pessoa. Com certeza, eram duas coisas que nunca se atrevera a fazer antes. Sempre morreu de vergonha de tomar a iniciativa com relação a um garoto. Ana fazia o tipo que esperava pela ação do outro e enquanto não acontecia, torcia para ser notada. Ela mesma se lembra que demorou cerca de um mês para começar a sair com Lucas, isso por que o garoto demorou a perceber que ela era afim dele. E como Ana não falava nada, a coisa foi se enrolando até que Laila se meteu e deu um empurrãozinho. Sempre Laila, pensou com carinho. Infelizmente adorava aquela louca. Pena que ela não acertou na primeira. Refletiu se lembrando de seu termino e se surpreendeu ao constatar como tinha esquecido rápido do assunto. Hora de voltar ao foco, ordenou a si mesma. Mas então, o que a levara a fazer tanta coisa? Na verdade, não foram só os beijos. A coisa havia começado antes com o sonho e com o fato de conseguir achar algo de atraente em Ian. Estaria gostando dele? Ana riu da própria idéia. Eu e Ian? Até parece. Foi quando sua mente a levou de volta aquela noite a beira da piscina. A imagem passava nitidamente diante de seus olhos como se estivesse lá de

110

novo. Ana conseguia até mesmo sentir as coisas que sentiu na hora. O frio na barriga, o medo e ao mesmo tempo, uma vontade irresistível de ir em frente. Ela se lembrou da maneira como o garoto a olhava, da maneira como ele disse que ela era bonita. Da forma como sentia o desejo em seus olhos. Seu rosto corou novamente ao lembrar-se dessas coisas. Nunca tinha se sentido tão desejada na vida. Talvez tenha sido isso que a tenha levado a dar o primeiro beijo nele. Mas e o segundo? Ela vasculhava a mente atrás de respostas. Uma vez, tudo bem, era aceitável, mas duas... — Jesus, me ajuda – falou para o nada. Foi quando se lembrou de Laila e de suas palavras. Carência é triste fofa. Podia ser isso. Porque não? Iluminou-se com a alternativa. Era compreensível. Ela tinha acabado de sair de um namoro de seis meses. Nunca tinha ficado com ninguém tanto tempo e era lógico que tinha de sentir falta de companhia. Apesar de não ser muito nobre, é possível que tenha ficado com Ian só para suprir tal carência. E por fim, preferiu acreditar nisso. Já tinha confusão demais e coisas novas o bastante em sua cabeça para ficar arranjando mais problemas. Poderia estar até se sentindo atraída por ele. Afinal, tinha motivos. Sempre gostou dele, apesar de ser como um irmão. Gostava da companhia dele e ainda tinha alguns fatores adicionais. O primeiro era todo aquele ar de mistério que via no garoto agora e o segundo é que de certa forma, devia algo muito importante a ele. Graças a ele, Ana sentia que podia acreditar de novo e o melhor: ela agora podia reconstruir a ponte com seu passado e com ela mesma. Tentar reverter um pouco do mal que causou a si mesma sem perceber. — Obrigado – sussurrou a ele, mesmo sabendo que não poderia ouvir. Agora estava em maior paz consigo mesma. Sabia o que estava acontecendo, mas não podia deixar essas coisas a dominassem. Não posso me confundir. Isso arruinaria a… que m... é essa? Interrompeu seu pensamento quando viu uma coisa que a fez ficar de queixo caído. De todas as coisas que poderiam passar pela sua cabeça, essa com certeza jamais seria cogitada. Parecendo que ia se despedir da velha senhora, Ian se pôs de pé para sair, sendo seguido por Solange. Eles ficaram de frente um para o outro por poucos segundos, discutindo umas últimas coisas. O assunto parecia ter pegado fogo, pois

111

ambos se mostravam alterados, aumentando o tom de voz um para com o outro, embora ainda fosse impossível para Ana ouvir o que era discutido. E foi quando aconteceu. Num gesto muito rápido, a mulher puxou a cabeça do garoto para junto de si e, antes mesmo que ele tivesse alguma reação, havia lhe dado um beijo. Mas não foi um beijo no rosto e nem tão pouco um beijo na testa. Foi um beijo de verdade. Ana ficou imóvel esperando a reação do garoto. Empurra ela! Ela quase gritou. Porque você não empurra ela?Mas ele ficou ali, imóvel, deixando o beijo durar por mais alguns segundos. E foi quando finalmente se largaram. — Meu Deus! - exclamou sem acreditar. Vendo os dois, Solange parecia um tanto irritada e Ian muito perturbado com alguma coisa. Foi então que ele saiu. — Filho da... – ela tampou a boca para não completar a frase. Então é esse tipo de favor que você presta pra ela? Acusou sem externar esse pensamento. A garota não sabia o que pensar. Estava com raiva e, ao mesmo tempo, o espanto lhe tirava a voz e a capacidade de raciocínio. Dela você não foge, não é? Acusou novamente. Ela via o garoto atravessar a rua e ir de volta pra casa sem conseguir parar de xingá-lo em sua cabeça. Na verdade, ela nem conseguia acreditar no que via. Sentia que se alguém falasse pra ela que naquele momento ela via coisas, que estava ficando maluca, não só não se irritaria como também agradeceria a essa pessoa. Mas ela não imaginou, viu mesmo. Então era isso que você tinha de importante para resolver? Ana continuava a olhá-lo com desprezo quando chegou à porta de casa. Nesse momento, ele pareceu se virar para a direção de Ana, mirando o rosto para o terraço. A garota nem teve muito tempo para pensar no que fazer e acabou se tacando no chão para evitar ser vista, sentindo os joelhos bateram no piso e tendo de se segurar para não praguejar alto. No chão, esperou um pouco massageando os joelhos contundidos. Depois de acreditar ter se passado tempo o suficiente, se levantou e viu que o garoto não estava mais ali. Devia ter entrado. Então, ela correu para a parte lateral do terraço, cujo campo de visão permitia-se ver o quarto de Ian. Dali conseguiu ver ele se achegar à janela e olhar em direção ao quarto de Ana, parecendo procurá-la. Pelo menos ele não me viu. Pensou. Esse... queria parar de pensar ofensas

112

Mas a cena do beijo não parava de se reproduzir no interior de sua mente e Ana tinha de trincar os dentes para não xingá-lo dali onde estava. Muito bom. Agora vou dormir com isso na cabeça. Ian parecia mais calmo agora e Ana o viu se dirigir a cama, levando uma mão aos lábios. Safado, sem vergonha. Que vontade que tinha de esganá-lo. O garoto tirou a camisa e se deitou na cama fitando o teto. Parecia muito concentrado em alguma coisa que Ana não queria nem tentar deduzir o que era. Ela continuou o encarando e foi quando Ian pareceu olhar novamente em sua direção. Mais uma vez, Ana foi parar no chão tentando evitar ser vista. Desta vez, seus joelhos bateram com tanta força que não conseguiu evitar que um palavrão fosse proferido. Definitivamente, isso não contribuiu para melhorar seu humor. Ao se levantar novamente massageando os joelhos, decidiu ir para o quarto. Chega de bisbilhotar. Assim que entrou, correu para fechar as janelas. Não queria conversa agora e com esse pensamento deixou-se cair na cama. Sua cabeça só conseguia pensar em uma coisa: naquele beijo. Naquele maldito beijo. Queria poder dormir logo. Sentia o corpo cansado, mas a euforia não permitia. E apenas depois de muito se esforçar, pôde finalmente cair no sono.

113

14 – Jogo da verdade.
O som da chuva foi adentrando o reino dos sonhos, trazendo Ana de volta para o mundo real. Ao abrir os olhos, viu a janela aberta à sua frente que, devido à forte tormenta que caía do lado de fora, molhava todo o interior de seu quarto. — Droga! – e se levantou correndo para fechá-la. Devia ter aberto com o vento e Ana amaldiçoou o fato de não tê-la trancado. Levantar de forma tão brusca lhe causou certa dor de cabeça, mas que foi ignorada pela garota. Sem vontade de secar aquela bagunça naquele momento, desceu as escadas indo em direção a cozinha. Olhou em volta e viu que a casa continuava vazia. O relógio marcava cinco da tarde e já era para seus pais estarem em casa. Por que demoravam tanto? E foi só pensar nisso que escutou o som do carro sendo estacionando na frente da sua casa. Depois, o barulho das portas do veículo batendo com força e de pessoas correndo e rindo em direção a entrada da residência. Quando entraram, os pais de Ana estavam abraçados e rindo alto. Pareciam estar um pouco embriagados. Ambos levaram um susto ao ver a garota parada em pé na sala. — Querida! – disse a mãe em um sobressalto – Já chegou? — É domingo. - lembrou - Não deveria? — Ah sim, claro! – disse a mãe parecendo se lembrar só agora e se dirigiu à filha para lhe dar um beijo na sua testa - Que bom... que não pegou essa chuva no caminho. — É mesmo – concordou o pai parecendo envergonhado – E... como foi? — Legal – disse sem muita convicção. Mas os pais não pareciam estar muito interessados na resposta o que os fez ficaram sem assunto por um minuto que foi constrangedor para ambos os lados. — Bem – decidiu acabar com o terrível silêncio – Vou dar uma saidinha. - disse apontando para a porta. Ana pôde reparar que a mãe pareceu animada com a idéia pelos primeiros segundos, mas depois observou a rua e falou: — Nessa chuva? — É aqui no Ian. — Ah, então está ótimo! – seu rosto se iluminou – vou deixar dinheiro para você comer algo de noite em cima da mesa. E não se esqueça do chapéu.

114

— Tudo bem. – respondeu, constrangida ao olhar para os dois, parados em pé, basicamente apenas esperando que ela saísse logo. Assim, pegou o guarda-chuva que ficava ao lado da porta e saiu de casa. Porque meus pais não são normais? Pensava enquanto se dirigia a casa do amigo. Chegando lá, lutando contra o vento forte que quase a empurrava para o lado oposto, bateu na porta. Estava bastante frio e com o vento que fazia, aquele guarda-chuva não conseguia protegê-la muito. Depois de um minuto, a mãe de Ian, uma mulher em seus trinta e cinco anos muito bem vividos, atendeu. Ela era magra e esbelta, embora Ana percebesse que havia ganhado algum peso nos últimos dias, mas continuava linda. Ela tinha os cabelos e os olhos tão negros quanto os do filho. Pelo menos, quando os de Ian não estavam azuis. — Minha filha! O que faz nessa chuva? – exclamou Marta, e num gesto, pediu para que ela entrasse. — Não se preocupe tia Marta. Só vim falar com o Ian. - e entrou - Seu filho está? — Sente-se primeiro, Quer alguma coisa? – ofereceu a mulher, solicita – Um refrigerante ou suco? Acabei de passar um cafezinho, se estiver interessada. — Não, muito obrigada – tentou se esquivar. – Só vim para ficar um pouco e falar com o Ian. Marta sempre foi muito atenciosa quando o assunto era Ana. Ian brincava dizendo que ela era a nora que sua mãe pedia a Deus. Por algum motivo, Ana não via mais tanta graça naquele comentário. — Bem querida, o Ian saiu. - respondeu sorrindo enquanto se sentava – Aquele menino só me prega peças. Saindo nessa chuva – comentou desapontada. – E acredita que ele ainda por cima nem levou o celular? Vive fazendo surpresas. — Nem me fale - comentou Ana se sentando também. — Espero que você um dia ponha juízo na cabeça dele – pediu, deixando a menina sorrindo amarelo. Naquele instante, numa tentativa de fugir das investidas de Marta para acrescentála a família, Ana voltou sua atenção para a televisão que estava ligada passando a reportagem da tarde. O telejornal mostrava a notícia de mais um jovem de classe média que desaparecera de repente. — Luís Carlos Molina – falava o apresentador – vinte e dois anos, está desaparecido desde a noite de sábado desta semana. A polícia acredita que a ação de

115

traficantes internacionais esteja de alguma forma ligada a essa onda de desaparecimentos que se inicia há uma semana. Há a suspeita de que tais jovens estejam sendo usados como mulas para os traficantes. — O uso de mulas para o transporte de entorpecentes entre as fronteiras é um habito muito comum atualmente - comentava a apresentadora – E muitos desses jovens são seduzidos pelos traficantes com possibilidades no exterior. — Coitada da mãe desse garoto - comentou dona Marta, percebendo que a atenção da garota mudava de foco – deve estar arrasada. É por isso que eu implico tanto com o Ian sobre essas saídas dele. Não que eu não confie nele, mas... – ela hesitou um pouco e Ana podia sentir certa dor em sua voz - eu não confio é nos outros. — Entendo bem – disse Ana, que não estava muito interessada na matéria e só queria era mudar o assunto. No fundo, até sentia vergonha de ter feito isso, pois não esperava que a mãe de Ian fosse ficar tão abalada. Por algum motivo ela parecia verdadeiramente preocupada. — Bem, acho melhor você esperar aqui – ofereceu a mãe de Ian recobrando o bom humor – não acredito que ele vá demorar muito. — Não, tudo bem – disse a garota já fazendo menção de se levantar. – Depois eu ligo pra ele. — Por favor. Não me faça uma desfeita. Pelo menos me acompanhe num cafezinho. Ana pensou em recusar, mas não resistia ao olhar daquela mulher. Ana sabia que o pai de Ian estava numa viajem de negócios e já que Marta não era muito fã de sair, poderia estar se sentindo um pouco sozinha. Ainda mais com o Ian fora por tanto tempo no sítio. Assim, decidiu aceitar o convite. Enquanto Marta preparava o café, Ana aproveitava para dar uma boa olhada na sala. A mãe de Ian tinha o hábito de sempre fazer mudanças na casa. Era seu hobby favorito, seja comprando acessórios novos ou mudando as coisas de lugar. Passando os olhos pelo aposento, parou a atenção sobre um retrato de família, que ficava em cima do móvel ao lado do sofá onde estava. Nele estava Marta, sentada em uma cadeira, muito bem arrumada, no meio entre Ian de um lado e Ivan, seu marido, do outro. Todos estavam completamente impecáveis

116

na foto. Era um milagre, mas Ana percebeu que até mesmo os cabelos de Ian estavam alinhados e ficou imaginando o esforço que deve ter sido arrumá-los daquele jeito. Ele não devia ter gostado nada, riu-se. Ao contrario de Ian, seu pai era sempre impecável, tanto na maneira de se vestir, como com seu físico. Nunca permitira deixar os cabelos bagunçados como o do filho e o estilo ao natural de Ian sempre o incomodava. Porém, em todo o resto eles eram iguais. O mesmo senso de humor e até a mesma aparência. Eles tinham os mesmos traços do rosto e o mesmo porte físico, mas os cabelos e os olhos negros Ian havia herdado na mãe, que estava feliz sentada ao meio. Foi quando teve um estalo na cabeça. — Se Ian fosse um Garow, então... - acabou pensando alto. Parando para pensar agora, Ana chegou a uma conclusão: não seria a família toda assim como Ian? Ela estaria numa família de Garows? Não. Impossível. Como eles poderiam esconder esse segredo de todos? E lembrou que talvez não fosse tão difícil, já que Ian conseguiu esconder dela até hoje. Seria possível? Estaria ela na ultima família de Garows da história? Como sobreviveram? O que aconteceu a eles? E então uma grande expectativa cresceu em seu peito, fazendo-a sentir-se uma criança novamente. Mas foi então que começou a encontrar algumas falhas em sua teoria. De acordo com as histórias que ouviu quando criança, eles eram uma tribo selvagem do norte do Canadá. Então, como estariam morando no meio da metrópole do Rio de Janeiro? Se as histórias que suas tias contavam fossem verdadeiras, a tribo Garow habitava as regiões geladas, então não conseguiriam viver num país de clima tropical. — Deus! – deixou escapar um suspiro. Teria ela se enganado e viajado em suas fantasias? Não. Definitivamente, não. Ela havia demorado muito para poder voltar a acreditar e isso estava fazendo bem a si e não estava disposta a perder essa crença de novo. Mas então, o que? Realmente, não conseguia imaginar uma tribo desse tipo na Vila da Penha. Ou as histórias de suas tias estariam equivocadas e elas tivessem ignorado algum fator?

117

Ou talvez... pensou. Não fossem realmente Garows, mas sim uma família de magos comum. Ana riu, achando graça em colocar as palavras magos e comum na mesma sentença. Não fazia sentido. — Então deve ser isso – falou consigo mesma - Talvez não sejam Garows. Só magos normais. Mas acabou sentindo certa decepção com essa conclusão — Falando sozinha, Ana? – a voz de Marta cortou Ana de seus devaneios. — Nada – disse corando – só repassando umas coisinhas... Para a aula amanhã. – acrescentou rápido. — O que, uma prova? — Sim – mentiu. — E aquele moleque não me falou nada. Ele vai ver – e chegando perto da menina ofereceu uma xícara de café fumegante – Aqui esta Ana. — Obrigado – pegou a xícara e a tomou rapidamente para poder esconder o rosto traquina. Pelo visto, havia colocado o amigo em apuros. Marta era muito rigorosa com relação a estudos. Melhor ficar calada. E foi quando o telefone tocou e Marta foi atender. — Alô. - disse - Oi querido, como vai aí na Argentina? – e sorriu - Sim. Sim. Sim - e riu – Claro. Não ele não está. Sei. – de repente ela levou a mão à boca. Depois do susto ela deu um sorriso amarelo e dissimulou uma calma. — Claro querido. Como eu ia esquecer? Sim estarei esperando. – e desligou o telefone com uma expressão de culpada no rosto. — O que houve? – preocupou-se a garota — Esqueci que Ivan voltava amanhã. Ana riu sentindo um alívio. Achava que fosse algo mais urgente. — Meu Deus e eu nem preparei nada do que ele me pediu – disse com um sorriso amarelo – Querida perdão, mas tenho que dar uma saidinha, sim? Se quiser espera meu filho aqui, fique a vontade. — Não – apressou-se em responder enquanto tomava o café as pressas queimando a língua – Já estou de saída. Abusei demais. — Tem certeza? — Claro. Melhor esperar o Ian em casa - disse sem muita certeza se ia para casa, lembrando que o amor se encontrava lá.

118

— Está bem. Desculpe-me pelo meu filho. Ele some sem dar noticias. — Tudo bem – mas quando Ana ia se virando para sair, escuta o barulho da porta se abrindo. E ali, parado e molhado dos pés à cabeça, encontrava-se Ian, que sorria para as duas antes de sacudir a cabeça, jogando água para os lados. — Francamente! - zangou-se Marta – Onde esteve? A menina ficou aqui plantada esperando você. E você, o que pensa que está fazendo nessa chuva? Onde está o seu chapéu? Espero que esteja planejando secar meu chão quando terminar de se sacudir. — Uma coisa de cada vez mamãe - riu-se o garoto – Boa noite primeiro. - e fez uma reverencia exagerada. — Boa noite mamãe. Você vai ver – disse indo contra o garoto e lhe dando tapinhas de leve no seu braço, que mais o divertiam do que machucavam. Apesar do teatro Ana via que Marta estava mais feliz do que zangada – Ainda bem que eu tenho de sair se não lhe dava palmadas como quando você era pequeno. — Não faça isso – disse o garoto amável dando um beijo na testa da mãe. — Sinceramente, você não vale nada – disse a mãe se derretendo toda perante o carinho. – Vê se toma um banho e tira essas roupas molhadas. — Tá certo. — E não suja meu chão. — Sim senhora. — E me da um beijo. — Com prazer – disse dando um novo beijo na mãe. Desta vez na bochecha. — Bem, vou indo. – disse Marta e depois se virou para Ana – Até mais querida, agora vocês podem conversar sossegados - e saiu pegando o guarda-chuva perto da porta e indo até o carro. — Oi – disse o garoto sorrindo pra ela. — Oi – respondeu Ana retribuindo o sorriso. Mas então ela se lembrou mais uma vez da cena em seu terraço e seu sorriso se desfez. Ian pareceu não perceber a mudança súbita de humor. — Vou cumprir as ordens do sargento rapidinho aí a gente conversa. — Tá certo – disse fazendo menção de se sentar. — Por que não me espera lá em cima? – convidou — Por que eu iria? - perguntou meio surpresa.

119

— Não sei. Você sempre espera. Ela pensou um pouco meio duvidosa. Era verdade que sempre esperava, mas não tinha certeza disso hoje. — Vamos – incentivou. — Tá – disse se levantando e seguindo Ian através das escadas. Ao entrar logo atrás de Ian, Ana deu uma boa olhada no quarto. Antigamente, sempre se sentiu a vontade ali, mas naquele dia, ela não estava muito confortável. E sem tocar em nada, foi esperar na cama com as mãos cruzadas em cima das pernas. — Eu vou tomar um banho e já venho. - falou – fica a vontade. A garota não respondeu e ele entrou na suíte de seu quarto tirando a camisa. Ao ver que a porta permanecia aberta, Ana correu e a fechou. Gritando através dela. — Você deveria se lembrar que tem gente no quarto! – lembrou. — Desculpe. Você já é de casa. — Mesmo assim – falou um tanto impaciente – Ainda sou mulher. — O que houve?- interrogou Ian abrindo uma brecha na porta para poder vê-la. — Como assim? — Esse seu mal humor. Você estava bem hoje de manhã. O que aconteceu? — Impressão sua – respondeu, ignorando-o. — Tem certeza? — Claro – dissimulou, voltando para a cama. — Tá bom – e fechou novamente e porta sem parecer ter se convencido. — Cara de pau – sussurrou quando ele fechou a porta Na cama e sem nada para fazer, Ana começou a balançar pernas esperando o tempo passar, enquanto escutava o som da chuva lá fora e do chuveiro no banheiro. Ali, se permitiu ficar um pouco perdida em meio à decoração do quarto do garoto e se espantou ao notar lobos por toda a parte: em revistas, livros, colcha da cama e miniaturas na estante. Eles sempre estiveram ali, mas hoje ganhavam uma atenção especial. Cansada de ficar sentada, levantou-se e viu a camisa molhada que foi deixada no chão perto da porta do banheiro. — Esse garoto não tem jeito – comentou consigo mesma enquanto pegava a peça no chão. Estava ensopada.

120

Ana levou a roupa até a cadeira que ficava em frente à mesa do computador e antes de colocá-la, ficou segurando-a por um tempo. Não sabia que interesse tinha naquela peça de roupa, mas foi aproximando-a do rosto quase que por instinto, curiosa em saber que cheiro tinha. — Ih caramba! - disse despertando no susto e largando a roupa de volta ao chão. Secando as mãos molhadas pela camisa, percebeu que era melhor passar o tempo fazendo alguma coisa. Ao olhar para a escrivaninha, viu que o computador estava ligado com a proteção de tela ativada – um lobo mais uma vez - e decidiu se distrair ali. Mexendo o mouse, fez com que a proteção de tela desaparecesse. Ao abrir a tela inicial, Ana esperava encontrar outro lobo como plano de fundo, mas se surpreendeu ao ver uma foto dela e de Ian. A imagem os retratava abraçados com uma paisagem natural de fundo. E foi apenas olhar para a foto que pôde se lembrar daquele dia, quando foram para uma trilha na Floresta da Tijuca. Aquele era um dia ensolarado e além deles, havia outros dois colegas da rua e mais a sua mãe, que era fã desse tipo de programa. Ana se lembrava de caminhar junto de Ian pelo terreno, enquanto subiam a Pedra da Tijuca. Ela se virava do jeito que podia para não cair enquanto Ian não demonstrava nenhuma dificuldade em andar pelo terreno acidentado. O caminho, apesar de difícil para ela, valia à pena. Era um lugar deslumbrante. Para cada coisa que observavam, Helena tinha uma explicação. Dando uma aula completa sobre cada forma de vida encontrada e o passeio acabou se tornando uma aula ao ar livre. Quando finalmente chegaram ao Pico da Tijuca, Ana ficou encantada com a beleza do lugar. O céu azul mostrava todo o seu esplendor ali em cima e eles ficaram cerca de uma hora aproveitando a paisagem e tirando fotos como aquela que estava como papel de parede no computador. Quando desceram, passaram pelo riacho Bom Ribeiro para uma última descansada antes de voltar para casa. Ana, sentada na beira do rio, observava a limpidez da água quando reparou numa linda flor de pétalas brancas que se encontrava na borda. Tentou se aproximar da bela flor e pegá-la, mas foi quando sentiu uma mão segurando a sua com delicadeza. Ao virar para olhar, viu Ian ao seu lado. — Beladona – ele disse – eu não recomendaria pegar nela. É venenosa. — Nossa – assustou-se Ana, trazendo a mão de volta. O garoto riu ao seu lado.

121

— Não se preocupe. A toxina só é liberada através da ingestão direta. Só avisei pra você não ter a idéia de levá-la pra casa. — Era exatamente o que eu tinha em mente. - admitiu. E ficaram em silêncio por um tempo até Ian continuar. — Sabia que em algumas culturas, a Beladona é considerada uma planta com propriedades mágicas. Alguns curandeiros até utilizavam-na para fabricação de antídotos e dizem que são ótimos... — Ian. – interrompeu Ana – Acho melhor nos juntarmos aos outros. O garoto se calou por um tempo, visivelmente frustrado com a interrupção, mas não reclamou. — Está bem – disse e sorriu para mostrar que não estava ofendido. Ana ainda era grata pelo que Ian tentava fazer. Desde que suas tias morreram, ele era o seu substituto em histórias sobre magia, escutando-a enquanto os demais fugiam dela e ao mesmo tempo trocando conhecimentos. Mas naquela época Ana já escolhera esquecer. Por isso não queria mais ouvir histórias desse tipo. Queria definitivamente deixar o mundo das fantasias para trás.

Até agora, pensou voltando ao tempo presente. E foi quando ela escutou o som da porta do banheiro se abrindo e viu o amigo sair de lá já vestido. Menos mal. Ele usava apenas uma camiseta branca com um bermudão quadriculado. Engraçado ele mudar o visual comum, com seus casacos, justamente agora que o frio tinha aumentado devido à chuva. Ao contrário, Ana usava calças e camiseta, com direito a um suéter listrado e aberto na frente e ainda assim sentia um pouco de frio. Ela girou na cadeira e ficou de frente pra ele. A chuva caia forte lá fora e Ana ficava pensando em como começar a conversa que ela tanto aguardava. Estava muito ansiosa, mas gostaria muito que fosse ele quem iniciasse o assunto. — Então – ele começou – O que deseja? — Você sabe – respondeu – A verdade. — A verdade mesmo? – questionou o garoto se sentando no chão – Que verdade você deseja: a que lhe faça sentir melhor ou aquela que lhe traga recordações ruins? — Apenas a verdade verdadeira. Independente do que possa parecer. - sentiu que conseguia falar com convicção. Era um bom sinal.

122

— E não lhe incomoda parecer loucura? — Acho que já estou um pouco experiente nesse ramo – comentou, dando um sorriso desanimado. — Entendo. – disse retribuindo o sorriso. - Qual a sua teoria? - perguntou. Essa pergunta fez com que eles ficassem em silêncio por um tempo. Ana queria falar, mas mais uma vez se sentiu bloqueada. Droga! Por que é tão difícil? Ian pareceu perceber a dificuldade na garota em continuar e resolveu ajudar. Olhando em volta viu uma garrafa de água deixada sobre a mesa. O conteúdo estava vazio, mas ele a pegou mesmo assim. — Tampa pergunta - disse erguendo a garrafa – e fundo responde. Só perguntas simples, ou seja, que exijam como resposta sim ou não. Certo? — Pensei que você detestasse esse jogo – comentou surpresa. — Detesto sim. Acredito que o que não se pode ser dito numa conversa normal não deve ser dito. Então esse jogo é inútil. — Então por que resolveu jogar agora? — Pois quem sabe assim você se solta. - arriscou – esse jogo tem a tendência a libertar as perguntas mais ousadas das pessoas, já que o outro, em teoria, terá de responder - e girou a garrafa. Ana se sentou no chão para acompanhar o processo. Quando a garrafa parou de girar, estava apontada com o fundo para Ian. O garoto a olhou nos olhos aguardando a pergunta. Por um segundo, Ana travou e na tentativa de desviar o assunto perguntou a primeira coisa que veio a sua cabeça. — Você está com alguém? Digo, se envolvendo com alguém? O garoto pareceu muito surpreso com a questão levantada. Ah! Muito bom Ana, pensou. Não era isso que ela queria perguntar, mas mais uma vez não foi capaz. E o pior da pergunta foi o fato de ter lhe despertado a lembrança do beijo que ele deu em Solange. — Não – respondeu parecendo sincero – não sei por que você fez essa pergunta, mas a resposta é não. — O jogo é da verdade – lembrou Ana.

123

— E eu não estou mentindo. - disse erguendo as sobrancelhas com a acusação e Ana mordeu o lábio para calar a boca. Começava a sentir vergonha de sua impertinência. Era melhor não continuar o assunto, pois dizer que ele estava mentindo significaria admitir que andava espionando o garoto. Por que você fez uma pergunta dessas? Vamos ao que é importante, replicou consigo mesma. A garrafa girou novamente, desta vez, Ian perguntava. — Não tenho nada para saber ainda. Então... – e pensou – O que você vai me dar de aniversário? Afinal, está próximo – comentou com um sorriso. É verdade, lembrou-se, faltavam apenas duas semanas. Estavam no dia dez de julho, amanhã seria a última aula antes das férias de meio de ano. E oito dias depois, seria o aniversário de Ian. Dia dezenove de Julho. — Bem, vai ser surpresa – respondeu. — Isso quer dizer que você não pensou em nada? – acusou. — É – confessou rindo — Grande amiga – comentou girando a garrafa mais uma vez. Ela perguntava de novo. Ana respirou fundo e decidiu falar sério daquela vez. Como ainda não se sentia segura, começou sem ir direto ao foco. Pensou em alguma pergunta que pudesse fazê-la se aproximar da verdade, sem que a fizesse parecer idiota. — Você é humano? – bem, a pergunta não a fazia parecer menos idiota, mas servia. — Sim. - Ian pereceu satisfeito com a pergunta. Ana esperava aquela resposta, afinal, magos também são humanos. Mais uma vez a garrafa girou: ela perguntava de novo. — Você possui habilidades sobre humanas? - perguntou se sentindo mais segura. Desta vez o garoto revirou os olhos pensando antes de responder. Depois se voltou para ela e disse: — Não. Por essa ela não esperava e começou a achar que ele estava mentindo. Ian percebeu e riu.

124

— Você não está fazendo as perguntas certas – disse - eu acredito que você tem algo melhor para perguntar, mas está com medo. – e girou a garrafa mais uma vez: desta vez, ele era quem interrogava. — Desta vez eu quero fazer uma pergunta. – disse a olhando nos olhos - Pelo que vejo você está um pouco menos situada na situação do que eu imaginava. Você não tem muita ciência do que eu sou, embora a verdade esteja bem perto de seu coração. Então, com isso tudo... O que você está sentindo por mim, neste momento? O coração da garota ameaçou saltar para garganta com o peso da pergunta. Ele sabe alguma coisa? Será que ele estava acordado quando roubei aquele beijo, ou me viu bisbilhotando? E começou a ficar eufórica demais e a vergonha ameaçou se aflorar quando finalmente se lembrou de uma coisa. — Mas as perguntas têm de ser simples. - falou sentindo o peito se aliviar - Sim ou Não, lembra? —Verdade – ele estava sério – O que eu quero saber é: Você está com medo de mim? Medo? Espantou-se. É com isso que ele está preocupado? — Lógico que não! – respondeu quase rindo do absurdo. Ele olhou para o chão parecendo um pouco frustrado e Ana ainda sentia sua pulsação acelerada. Graças a Deus que ele havia pensado errado, pois morreria de vergonha se Ian a tivesse flagrado em algum daqueles momentos. E foi quando se lembrou: Perto de seu coração, foram suas palavras. De início, parecia uma metáfora, mas logo que levou a mão ao peito sentiu o pingente de ouro. Lembrou-se do que tinha nele além do retrato de suas tias. Ian sabia o que ela guardava ali. Mais uma vez ele a incentivava a pergunta. A garrafa girou novamente, mas desta vez Ana fez com que ela parasse, forçandoa a ficar apontada com o fundo para Ian. Com a mão ainda no cordão, criou coragem: — Você é um Garow? - perguntou baixinho. — Como? – questionou, levando a mão ao ouvido. Embora Ana percebesse que ele tinha entendido muito bem, resolveu repetir. — Você é um Garow? – repetiu mais alto. E foi então que pareceu que o tempo havia parado. Lá fora, apenas o som da chuva era ouvido quando ele falou: — Sim.

125

15 – Estudos.
Naquela noite chuvosa, Ângelo se encontrava protegido dentro de sua casa no Centro da Cidade. Sentado na escrivaninha de seu quarto, ele aproveitava o tempo vago para ir repassando as últimas matérias do colégio, quando se cansou delas e decidiu se dedicar aos ensinamentos da ordem. No dia seguinte ele teria prova de Biologia, matéria que ele achava a mais irritante entre todas que era obrigado a aprender. Não sabia por que ainda precisava estudar para essas coisas agora que já estava num caminho totalmente diferente. Mas o bispo sempre lhe recomendou não abandoná-las. — Ângelo, meu menino – disse-lhe uma vez – eu entendo que sinta que todo esse conhecimento é inútil, mas não é recomendável abandoná-los. Primeiramente, porque assim é mais fácil manter as aparências para aqueles que não sabem de nossa existência, e em segundo, porque nem todos esses conhecimentos são de total inutilidade para nós. — Como assim bispo? – perguntava uma versão em miniatura de Ângelo, mas ainda tão magricela quanto à atual. Naquele tempo, Ângelo estava se iniciando nos estudos de magia na Igreja da Iluminação e tinha acabado de conhecer seu novo mestre: o bispo César. Obrigado por sua mãe, Ângelo foi fazer sua primeira comunhão na igreja do bispo. Não era muito religioso, mas como não gostava de contrariar a mãe, que sempre foi muito boa pra ele, o garoto acabou dando o braço a torcer e com apenas dez anos foi ter suas primeiras aulas de religião. E foi ali que, por algum motivo que ainda desconhece, chamou a atenção do bispo, que o convidou para tomar aulas particulares. Ângelo ainda sente graça ao lembrar-se do medo da mãe ao ouvir isso. Ela andava muito assustada com o número crescente de padres pedófilos que apareciam nos jornais, mas também era muito devota para recusar tal oportunidade. Nas primeiras aulas, Ângelo teve que assistir acompanhado da mãe e só então, depois de pegar confiança em César, que ela o liberou. Foi então que Ângelo foi iniciado nos caminhos da magia. O bispo contou tudo pra ele. Falou da magia, da Ordem e dos Iluminados e o convidou a participar de tudo isso. O garoto não demorou muito a aceitar e fazer parte das fileiras da Ordem dos Iluminados. Era ótimo pra ele estar ali. Além de sentir que tinha nascido para ser um mago, aquela igreja era seu forte, seu porto seguro e o mantinha ocupado longe de casa.

126

Apesar de gostar muito da mãe, detestava o pai. Elias era um homem completamente irritante aos olhos do filho. Não trabalhava e tinha hábitos que muito o incomodava, como beber muito e tratar mal sua mãe. Márcia, sua mãe, sempre acreditou que um dia o marido fosse mudar, mas esse dia nunca chegava e Ângelo se cansou de propor que ela se separasse e vivesse sua vida sozinha. Talvez a questão do divórcio fosse a única coisa que discordasse com relação aos dogmas da Igreja. E além de todos esses motivos, ainda havia outro que o fazia gostar imensamente das aulas na Igreja: O bispo César. Desde o primeiro instante em que o conheceu, o garoto aprendeu a sentir um enorme respeito por aquele homem, que parecia não encontrar limites para sua sabedoria. Era muito feliz por tê-lo como seu mestre. — Bem meu filho, - ele explicou - Apesar de procurar um caminho mais difícil e, até certo ponto, mais destrutivo para se descobrir as verdades do mundo, não se pode negar que a ciência tenha feito alguns progressos. Ela foi responsável por algumas grandes descobertas que ajudaram até mesmo a nós, pôs auxiliam na compreensão da magia. — Tá bom. Cite uma. – desafiou o garoto — O estudo de Da Vinci com cadáveres, que ajudou principalmente na parte de curas mágicas; as experiências de Servet na descoberta da circulação sangüínea, que facilitou a descoberta dos locais para a injeção de nossos antídotos - e pensando mais, continuou – temos também Mendeleev e a descoberta de um padrão para os elementos químicos da natureza, o que auxiliou nos nossos estudos, principalmente para os magos usuários dos recursos naturais. - e parou para olhar o garoto - Mais alguma dúvida? — Sim. Que espécie de padre é o senhor? O bispo deu uma risada com vontade, naquele tempo ele podia rir assim. — É verdade. Isso eu não sei responder. Apenas reconheço a importância de nossa arquiinimiga. — Francamente. – comentou Ângelo consigo mesmo. Agora sua mente estava de volta ao seu quarto. Decidiu então deixar de lado seus estudos de biologia e se dedicar mais àquilo que o interessava: a religião e a Ordem dos Iluminados. Abrindo algumas anotações, se deparou com um tópico que falava sobre feitiços. Mais interessante do que estudar plantas, ele começou a ler suas anotações.

127

As artes mágicas possuem diferentes tipos de classificações. Existe os chamados Encantamentos, que são aquelas capazes mudar a forma das coisas, concedendo-lhes novas características. Esse tipo de magia é capaz, além de conceder uma meia vida a objetos inanimados, transforma seres vivos em matéria bruta. Conjurações são aquelas mágicas responsáveis pela convocação de coisas e seres que estão em tempos e espaços muito distantes do mago. O usuário pode usar uma conjuração para trazer um objeto pessoal que tenha esquecido em casa ou até mesmo, para convocar artefatos e criaturas de dimensões longínquas. Esse tipo de arte é de extrema complexidade, sendo apenas uns poucos capazes de realizá-la com perfeição. Bruxaria é um tipo de magia específico, aonde um bruxo precisa do apoio de outra entidade, geralmente demônios, para se realizarem. Necromancia é a arte que se baseia no estudo da morte e dos espíritos. Nela estão contidas tanto comunicações com os mortos quanto até mesmo a arte de se criar mortos-vivos. Essa última, proibida pela Ordem dos Iluminados, por interferir no descanso dos mortos. E por último, temos os Feitiços, que são tipos complexos de magia, onde um mago acaba por ter controle sobre sentimentos, vontades e ações de suas vítimas. Feitiços são mágicas complexas que exigem um forte equilíbrio, tanto energético, quanto emocional de seu usuário. Dependendo do nível do mago, ele pode controlar determinados tipos de ações de sua vítima. Ações simples como, sentar, correr, ou olhar, qualquer iniciado em feitiços é capaz de fazer. Porém, ações mais complexas, como algo que cause muito constrangimento ou vá contra os desejos ou interesses íntimos da vítima, é necessário um nível maior de destreza, assim como forçar alguém a ir contra ideais éticos ou religiosos de extrema importância para ela é apenas possível para magos de grande poder. Estar sobre o efeito de um feitiço foi um álibi muito usado por diversas pessoas para se justificarem perante a acusação de atos criminosos, por conta disso, se perceber quando alguém está sobre efeito desse tipo de magia é de vital importância para se localizar possíveis mentirosos. Para se reconhecer alguém enfeitiçado, devemse seguir alguns princípios básicos: primeiro, deve se olhar bem fundo nos olhos da vítima. Geralmente, pessoas sob o controle de outras tendem a nunca manter a visão focada nas coisas, nem mesmo em pessoas ou no que estão fazendo. Esse defeito é

128

algumas vezes corrigido pelo próprio feiticeiro, tornando essa característica um pouco mais sutil. Porém, com uma boa observação ainda é possível se notar o olhar vago dos enfeitiçados. OBS. Lembrando que nem todos os feitiços controlam a vontade das pessoas. Alguns apenas controlam seus movimentos e ações, como é o caso do feitiço da Marionete. Nesse caso, a vítima tem total consciência de sua condição e desse modo torna-se mais fácil de notar. Afinal, a pessoa que estiver correndo com uma faca em sua direção estará gritando para você correr ou pedindo desculpas, alegando que não é de sua intenção o que está prestes a fazer. A segunda característica de alguém enfeitiçado é a fraqueza que a pessoa sofre quando o controle é quebrado. Quando alguém é vitima de um feitiço, ela não está completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da vítima é travada uma batalha entre seu subconsciente e o invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito grande para trás, logo, é comum as vítimas desmaiarem após serem controladas por outro mago. OBS2. Como a batalha travada contra o feiticeiro é feita pelo subconsciente, a vítima raramente tem lembranças de que foi dominada. Geralmente acorda sem saber de nada do que fez ou falou.

A Ordem dos Iluminados condenou a prática dos feitiços desde 1789, na Convenção de Bruxelas, alegando que isso fere um dos direitos mais sagrados do homem dado por Deus: o livre arbítrio. Desde então, sua prática tem sido condenada nas áreas de influência da Igreja. Porém, com a perda de poder da Ordem dos Iluminados, decorrente da quebra da aliança entre esta e os Inquisidores, a influência contra tais crimes se perdeu. Durante toda a historia da Ordem, em apenas dois casos foi comprovado o uso de feitiços por Iluminados. Um deles, foi o do Bispo Manuel Simmons do Reino Unido, que tentava ascender ao posto de Papa da ordem através do feitiço “Canto da Sereia”, onde com este, tentava ganhar o afeto dos membros da cúpula. Tal magia foi sendo usada durante um mês em pequenas doses a fim de se evitar suspeitas, porém, o plano foi descoberto pelo Bispo da Prússia, João Huttz, e Manuel acabou sendo condenado à fogueira.

129

No segundo caso, o mago prodígio e aluno da Ordem dos Iluminados de Paris, Lucas Levstross foi pego criando orações de feitiços e os disfarçando em forma cantos gregorianos e orações que depois foram utilizados dentro da própria ordem. Até hoje, não se sabe o interesse desse mago, que cometeu suicídio após ser descoberto, mas não se pode negar o risco de tal feito. Ainda é presente o risco de que algumas orações utilizadas pelos membros da Ordem sejam na verdade feitiços travestidos.

Ângelo avançou um pouco a leitura até uma parte em que se dizia: Como se livrar de um feitiço.

Feitiços tendem a controlar as emoções e o poder de decisão de seu alvo. Logo, para alguém vitima de uma mágica de controle, a única saída é conseguir focalizar toda a sua atenção em algo diferente. O alvo da atenção da vítima tem que ser algo muito tentador ou completamente impossível de se ignorar para que o enfeitiçado não possa pensar em outra coisa a não ser naquilo. Com a atenção totalmente voltada à outra coisa, o Mago consegue se livrar das ordens emitidas pelo feiticeiro, pois não consegue prestar atenção a elas.

Ângelo parou de ler um pouco e passou a fitar a janela, olhando as nuvens carregadas que despejavam uma forte chuva no Rio de Janeiro. Pelo visto, iria esta noite a Igreja da Iluminação de baixo de chuva. Isso, se o chamassem. Havia feito um acordo com o Bispo e só apareceria lá novamente caso fosse requisitado, embora estivesse se segurando para não burlar essa regra. Bispo. Pensou. Queria tanto ajudar mais. E foi quando, olhando as nuvens, permitiu sua mente viajar.

Voltara de novo ao tempo em ainda era uma criança e olhava a janela da igreja para um céu azul cheio de nuvens. — Presta a atenção em mim garoto e para de olhar para a janela! - Gritou o bispo enquanto batia com a régua na cabeça de Ângelo. — Ai! – o menino levou as mãos à cabeça, massageando a região atingida. Ângelo estava de volta aos primeiros anos do ensino de magia na aula de feitiços. — Francamente garoto! - gritava o bispo enquanto mostrava uma inscrição em latim numa página de livro – Sabe identificar isso?

130

— Uma oração? – arriscou. O que lhe serviu para receber outro golpe de régua. Ai! — Não! Isso é uma das orações falsas criadas por Lucas Levstross, a fim de disfarçar seu uso de feitiços dentro da Ordem dos Iluminados. — Mas achei que eles já tivessem sido banidos – comentou o garoto, massageando o novo galo que surgiu na sua cabeça. Outro golpe de régua, mas desta vez Ângelo estava preparado e se esquivou. Apesar de ter abaixado a cabeça no último instante, não teve tempo de contar vitória, pois um novo golpe, e desta vez mais rápido, o atingiu na lateral da cabeça. — Ai! — O fato de um feitiço ter sido banido não significa que seu uso também o foi – falava o bispo – Ainda há resquícios deles em toda a parte e não duvido que existam pessoas dentro da própria Ordem que se sintam tentados em usá-los. — Eu sei - respondeu Ângelo. — Então se sabe, deveria prestar mais atenção! Identificá-los é de vital importância para se interceptar um feitiço lançado contra você – ele interrompeu seu sermão por um tempo para começar a tossir – francamente garoto. Você deve prestar mais atenção. – concluiu, massageando a garganta - Assim nunca vai se tornar um grande mago. Quem diria que o senhor se enganaria tanto, não é bispo? Refletiu, voltando ao presente. Os mesmos lábios que disseram que aquele garoto nunca seria um grande mago, agora o chamavam de prodígio. E balançando a cabeça para espantar os devaneios, decidiu que tinha que parar de pensar em besteiras e arranjar uma forma de ajudá-lo mais. Ângelo queria que César ou o frade ligassem para ele convocando-o, mas enquanto isso não acontecia, tinha de arranjar uma maneira de auxiliar dali. Vasculhando seu quarto, acabou encontrando um livro que falava sobre demônios, pego na biblioteca da Ordem e que estava com o prazo de devolução vencido. Ignorando esse último fato, decidiu se especializar sobre os assuntos que envolviam a questão em que se encontrava. Assim, abriu o livro num capítulo sobre o processo de criação dos demônios. Quando morremos, existe uma linha temporal pela qual todos nós passamos antes de alcançarmos a “morte real”. Esse lugar é como um estágio que se passa entre a

131

vida e a morte, aonde serve de preparo para a alma antes de atingir o paraíso ou o inferno. Ela recebe vários nomes distintos, dependendo da região aonde se pergunte: Mortalha, para alguns feiticeiros ligados à Demonologia – estudo dos demônios - ou a Necromancia – estudo dos espíritos e dos mortos-vivos. Mekai, para os magos de cultura grego-romana. Ou Purgatório, para os Iluminados. Independente de qual nome seja usado, todos representam a mesma coisa. O purgatório é o local para onde vão as almas daqueles que ainda não conseguem atingir o descanso eterno. Por possuírem assuntos inacabados na terra, ficam presos, vagando pelo liminar entre a vida e a morte. O purgatório é uma dimensão paralela e muito próxima ao mundo dos vivos. Devido à essa proximidade, ambas as dimensões tendem a se interagir e se interpenetrar em alguns casos. Como efeitos desse fenômeno, criam-se locais aonde essa penetração ocorre com mais intensidade ao ponto de um lado conseguir ver o que se passa no outro, causando os chamados “locais mal-assombrados”, como são popularmente conhecidos. Apesar de sua proximidade, ambos os mundos não possuem contado um com o outro, logo, os vivos e os mortos não têm a capacidade de interferirem no que se acontece na outra dimensão, exceto talvez nos locais mal assombrados, aonde a barreira de separação é muito estreita. Porém, nesse módulo o que interessa saber é que é justamente nesse tipo de dimensão aonde são criados as criaturas extra-planares conhecidas como demônios. Todos os demônios já foram seres humanos um dia. Pessoas com alegrias, tristezas, que nasceram, cresceram, reproduziram e morreram como todas as outras. Porém, é justamente a maneira como a morte chega que resulta em sua prisão no purgatório. Há várias causas que podem prender uma alma ao desejo de viver. Tais como: 1- Uma morte traumática que gere no falecido um desejo de vingança; 2- Um grande projeto interrompido pela morte, que faz a alma se prender ao mundo para poder concluir seu feito. Enfim, quando isso ocorre, a passagem para a morte fica interrompida e a alma fica condenada a vagar pelo purgatório. Devido à proximidade entre as dimensões, essas almas conseguem visualizar perfeitamente o mundo dos vivos, muitas vezes

132

ficando presas em um ciclo vicioso, seja simulando eternamente sua rotina em vida, seja reinterpretando o momento de sua morte. Com isso, anos de saudade da vida e impossibilidade de retorno iniciam o processo de corrupção da alma. Raiva e inveja passam a fazer parte da composição do espírito e ele começa e ficar violento e perder a capacidade de raciocinar. Assim ocorre a criação de um espírito caótico, mas este não é o problema mais grave, já que sem a capacidade de pensar, este não representa grande perigo para a dimensão dos vivos. O problema acontece quando, apesar de todo o processo de corrupção, essas almas conseguem destruir sua humanidade sem destruir sua consciência. Logo, temos a criação de um ser maligno, mas com capacidade de raciocínio. Este ser é o demônio. Durante séculos tais criaturas tentam abrir caminho para regressar a vida e tendem a conseguir muitas vezes o apoio de bruxos para tal intento. Por viverem numa dimensão paralela e muito instável, os demônios acabam por conseguir habilidades e tipos de conhecimentos impossíveis de se obterem no mundo dos vivos, e são esses tipos de coisas que aumentam o poder de barganha para a negociação com magos ambiciosos. Outro trunfo que os demônios possuem é a sua capacidade de transmitir poderes aqueles que os servem, isso é um prato cheio para se permitir a negociação com pessoas que não possuem uma aptidão natural a magia. Enfim, é com esses acordos que os demônios conseguem uma chance de voltar ao mundo dos vivos. Usando a possessão, um demônio pode usar o corpo de um bruxo como hospedeiro ou este pode facilitar o processo de possessão em outras pessoas. * (*Mais informações, veja o capítulo 17: Artes e magias dos bruxos) Atualmente, a Possessão é considerada o único meio comprovado que os demônios têm para atravessar a barreira do mundo dos vivos. Contudo, alguns testemunhos alegam a existência de outro recurso, muito mais complexo, utilizado por estes seres para atravessar a barreira que separa os dois mundos. Tal habilidade nunca foi provada, mas muitos praticantes de magia afirmam tê-la presenciado. Trata-se de ritual conhecido como Gênesis. De acordo com testemunhas, tal ritual teria a capacidade de criar um corpo vivo para servir de hospedeiro a alma demoníaca. Tal idéia é desacreditada por muitos magos que alegam ser impossível usar

133

a magia para se criar vida. Essa seria, talvez, a única limitação encontrada para os milagres da magia. As testemunhas de tal poder alegam que este é partilhado apenas entre tribos primitivas de magos, que possuem uma ligação natural com os espíritos. Tais grupos mágicos na atualidade não existem mais, e assim, acaba-se que por aumentar a dúvida quanto à existência desse tipo de poder. Outro fator que mina a veracidade dos depoimentos que alegam a existência do ritual Gênesis é o fato de ser sempre prestado por magos deficientes em suas capacidades mentais ou aqueles que estão se iniciando no caminho da loucura.

Ângelo coçou a vista e parou de ler, tentando assimilar aquele novo conhecimento. Em que aquilo poderia ajudá-lo? De acordo com suas informações obtidas pela magia do Flashback, sabia que o inimigo realmente se tratava de um demônio e de acordo com as interpretações de Cassandra, estava prestes a voltar à vida. Mas como? Possessão? Seria o ritual Gênesis? Ele existiria? Havia uma possibilidade. O bispo sempre dizia que em termos de magia era sempre bom nunca se manter totalmente cético em relação a qualquer coisa. Mais foi então que percebeu algo de estranho. Após deixar o livro de lado, teve uma sensação de inquietação que não lhe era estranha. Era a mesma sensação que sentiu na igreja, como se algo de muito importante estivesse passando completamente despercebido. Estranho. Queria voltar logo para a Igreja e checar melhor o que poderia ter sido aquele pressentimento. Seria meu sexto sentido? Pensou, lembrando-se de Cassandra. Absurdo. E riu. Não acreditava que tinha dado tanto ouvidos para a velha louca. Esquecendo-se então do mal estar, decidiu se concentrar no que era importante. Haveria outra forma daquele ser voltar? E começou a raciocinar. Algo que não esteja sendo cogitado? Algo que possa fazer mais sentido à interpretação do sonho. A imagem do bebê saltou em sua cabeça. Sim. Houve um estalo e Ângelo sentiu uma euforia crescer dentro dele. Será? Era possível? Sim, era. Já soube de casos. Tinha que falar com o bispo. E com a força no ânimo, saltou da cama e correu para o telefone e discou o número pessoal de César.

134

16 – O Véu.
A chuva caía pesada do lado de fora do quarto e durante muito tempo esse foi o único som ouvido em seu interior. As gotas pesadas agrediam a janela, tingindo o interior do aposento com suas sombras bruxuleantes. Os dois jovens que ali dentro estavam não trocaram palavras, um, porque esperava a reação e outro, pois não sabia exatamente como reagir. Com certeza aquela era a resposta que Ana esperava ouvir, porém, agora que recebera, parecia que tudo não passava de um sonho. Durante alguns minutos, ela fitava o rosto de Ian atrás de qualquer sinal de que ele estivesse brincando, porém, em nenhum momento ele piscou e nem tão pouco sua mão foi levada ao nariz. De fato estava dizendo a verdade. Sem esperar mais pela resposta, Ian segurou a garrafa e a fez girar novamente e Ana viu que ele a forçou a apontar para ela. — Acho que não precisamos mais disto – disse afastando a garrafa - Acho que você tem uma dúzia de perguntas a fazer, não? Sei que tem. – e vendo que a garota não falava, encorajou – Vamos. Você deve saber por onde começar. — Eu... – e riu, sem jeito. Ainda não sabia exatamente por onde começar – Eu gostaria de saber uma coisa. – e respirou – Porque mentiu pra mim no jogo? Por que mentiu se queria me contar isso no final? — Não menti – disse Ian com simplicidade – Você me perguntou se eu era humano e sim, sou humano. Você me perguntou se eu tinha habilidades sobre-humanas e eu não as tenho. — Mas você é um... — Mago? - Completou - Sim, sou um mago. Mas quem lhe disse que magia é um dom sobre-humano? Ela ficou em silêncio. Desde pequena sempre imaginou que suas tias eram pessoas acima da média humana. Que magia era um dom para poucos e torcia para que ela um dia fosse digna disso. Mas então... — Magia é uma das poucas coisas que foram dadas a todas as pessoas, sem distinção. A única diferença é que existem aqueles que a utilizam e outras que preferem renegá-la. — Por favor, Ian – pediu Ana – Não brinque comigo assim.

135

— Não estou brincando sua boba. - ele riu - Você mesma disse que estava pronta para toda a verdade. Estou lhe contando tudo. Então, se ajoelhou de frente pra ela e limpou seu rosto, tirando a franja rebelde. — Você... poderia me demonstrar? - pediu – Sabe. Fazer de novo o que fez antes. Só para eu ter certeza. — Poderia – respondeu – Mas não quero. — Por quê? – questionou com uma leve surpresa. — Porque eu acho mais importante que você acredite por si só. - respondeu se levantando e fitando a janela – A magia está aí por fora para todos poderem ver. Em várias ocasiões ela se manifesta em forma de milagres, mas as pessoas insistem em buscar outras explicações para ela. Em geral o mundo é totalmente cético e isso impede que a verdade seja vista. – e se virou para encará-la, encostando-se na parede e cruzando os braços - Você não era assim, mas se tornou. Tornou-se uma dessas pessoas que querem sempre ver para crer, mas não desconfiam que o caminho verdadeiro seja ao contrário. Eu poderia lhe dar mil demonstrações aqui, mas se você continuar com a mente fechada, nada adiantará. Irá pensar que tudo foi um sonho. Mas você não era assim, eu sei. Eu quero trazer a Ana de antes de volta. — É muito complicado – respondeu a garota, tentando não encará-lo – é que para mim é muito difícil, devido ao que me aconteceu durante a vida por acreditar nisso. — Eu sei. – respondeu o garoto – Você presenciou uma série de coisas nesses últimos dias e ainda se manteve cética. O que fizeram a você parece que foi pior do que eu imaginei. Uma pena eu não ter intervindo antes. Não sabia da gravidade do que tinha acontecido. Perdão. — Não foi sua culpa – lembrou e ele ficou em silêncio. Ana sentiu que Ian iria dizer algo, talvez a contestando, mas se calou. Quando voltou a falar, continuou com o assunto anterior: — Quando você presenciou a morte de suas tias, ficou traumatizada e seus pais fizeram o que todos os pais modernos e esclarecidos fariam em seu lugar: a coisa errada. – o garoto deu um suspiro – Eu não sei exatamente o que você passou, mas posso ter uma idéia. Posso imaginar o quanto sua mente foi abalada por tudo. Mas fico feliz que você esteja voltando a crer, mas ainda não é como eu esperava. — Me ajude então.

136

— Eu posso fazer isso. - declarou o garoto – Mas antes tenho que lhe fazer uma pergunta: está disposta a atravessar o Véu? Ana o olhou nos olhos sem entender a pergunta. — Véu? — Atravessá-lo significa enfrentar um desconhecido. Que tal já ir se acostumando com essa idéia e responder a pergunta sem saber exatamente do que se trata? Ana pensou um pouco. — Sim – respondeu. — Excelente – disse, se dirigindo até a porta - Vou buscar algo para bebermos. Espere aqui. E saiu, deixando a garota sozinha no quarto. Ana tinha a impressão que isso era programado, como se ele quisesse dar tempo para que ela pensasse em tudo que lhe foi dito e talvez tivesse a chance de desistir se quisesse. Passando mais uma vez a mão pelo cordão, ela se lembrou do antigo símbolo Garow que guardava ali, sendo capaz até de ver em sua mente o rosto do lobo a encarando, com as presas iguais a de Ian. Assim, começou a pensar no que ele disse. Todos são capazes de usar magia. Então por que mais gente não sabia disso? Porém, antes que chegasse a uma conclusão, Ian já tinha voltado com dois refrigerantes. O garoto lhe entregou um e se sentou de frente para ela no chão. Ficaram se fitando até ele beber uma boa porção de um gole e começar a falar. — Antes de tudo, tenho que dizer que você é normal. - ele a encarava muito sério agora – Você, como todos os outros, ouve falar a todo o momento de bruxaria, magia, feitiçaria. Você consome essas coisas. Quando criança tem os contos de fadas, quando cresce, tem os romances juvenis ou os filmes que falam do sobrenatural. Eles servem para lhe tirar um pouco da realidade e lhe fazer sonhar e relaxar. Mas como tudo tem um limite, o limite para esse gosto é não acreditar. A partir do momento em que cruza essa linha, você é considerado louco ou infantil. — Você é como todas as pessoas normais e modernas, que buscam suas respostas pela ciência. - continuou - Como todas, você cada vez mais se desvirtua do caminho da espiritualidade, acreditando que isso é fruto de mentes ignorantes, ou de charlatões que querem se aproveitar da ignorância dos outros. Assim como todas as pessoas do mundo, você está errada.

137

“Assim como todos, você reza a todo dia por milagres, sem perceber que eles ocorrem o tempo todo a sua volta. Todos os dias você pede, muitas vezes sem saber para quem, que mude sua vida, que algo de ruim não aconteça ou que você consiga o que deseja. Pede isso sem saber que o poder de realizar seus sonhos está com você mesmo. Como todos, você quer explicações para tudo a todo o momento e critica as pessoas que aceitam as situações de boa fé. Como todas as outras, você debocha das pessoas que possuem uma fé cega e se esquece de que você também carrega uma. A diferença é que seu Deus é a ciência e que seus milagres são ligações inter-atômicas.” — Essas palavras são um pouco duras – comentou a garota – Magia é uma coisa muito fantástica. É difícil para as pessoas aceitarem sem uma explicação. — Mas é a realidade. - respondeu o garoto – E mesmo assim, não é tão difícil assim as pessoas acreditarem em coisas sem uma explicação. — Como assim? — Ora Ana, basta se fazer a simples pergunta: Tudo em que acredito, eu posso provar? Ana ficou em silêncio, pensando na pergunta. — A terra gira em torno do sol. - falou – você pode provar? — Mas é assim – rebateu. — Eu não disse isso. Eu perguntei: você pode provar? Ana ficou em silêncio. — O mundo é formado por matérias minúsculas e indivisíveis chamadas átomos. Verdade ou mentira? — Verdade – respondeu com convicção. — Por quê? Ana olhava espantada para o amigo. O que será que ele está tentando fazer? — Sei que parece confuso o que estou fazendo, mas faz parte de meu intento. O que eu estou querendo te provar é que a humanidade não quer verdades que possam ser explicadas, pois muitas vezes vocês aceitam conhecimentos que não podem comprovar diretamente. Ana ficou pensativa. Realmente fazia sentido o que ele falava. — Então o que a humanidade quer? – questionou retoricamente - A resposta é simples. Alguma coisa que lhes dê segurança. Assim como na Idade Média era a Igreja quem provia as explicações, hoje são os cientistas. E se todos acreditam neles, por que

138

não acreditar também? Por que contestar algo que todos aceitam ser o certo? É tudo muito simples. Se a magia não pode ser explicada pela ciência, então ela não existe. Isso conforta muita gente. Ele fitou os olhos da garota para ver se ela estava acompanhando o raciocínio. — Então Ana, – continuou – é isso o que acontece. Vivemos num mundo em que acreditamos que nossa querida ciência pode nos dar todas as respostas. Porém, ela não pode. Então criamos o nosso ceticismo. Se a razão não pode explicar uma coisa, ela não existe. Assim se é construído o Véu. Ele se levantou, caminhando em direção a cômoda que ficava próxima da porta de seu banheiro. Abrindo uma gaveta, puxou dali de dentro um pedaço de tecido vermelho e esvoaçante e o levou até Ana. Antes que pudesse se perguntar o que era, ele atirou o tecido que planou no ar até cair delicadamente em cima de sua cabeça, cobrindo-a. Sem se mexer, Ana fitava o rosto do amigo por detrás do véu. Apesar de tudo estar um pouco ofuscado, ela conseguia enxergar a expressão de Ian e percebia que ele esperava que ela chegasse a alguma conclusão. — O Véu. – ela murmurou - ele me ofusca. — Exatamente. Quando eu digo o Véu, não estou me referindo a um pedaço de pano no sentido literal da palavra, mas e sim num termo figurativo, que designa a barreira que separa o mundo real do mundo dos adormecidos. “Assim como o véu guarda o sono das pessoas, impedindo que os mosquitos perturbem seus sonhos, o nosso Véu, impede que o mundo caótico da magia perturbe seu sono de ignorância. Mantendo seguro o seu mundo. Os magos tendem a observar o mundo dessa forma: aqueles que conhecem a verdade são conhecidos como despertos. Você, nesse momento está num processo de despertar. Agora, aqueles que insistem em não ver, esses são os adormecidos”. — Esse é o Véu a que eu me referi - concluiu – é mais uma metáfora, mas mostra bem a realidade. Assim como o véu tecido, o Véu barreira também não tampa a visão por completo, mas a ofusca. Ele é frágil e fácil de ser removido. Mas o ceticismo é a única coisa que o impede de sair de seus olhos. A descrença nos ofusca ao ponto de vermos milagres bem na nossa frente, mas não acreditarmos neles. Então, eu lhe faço novamente a pergunta: Você está disposta a atravessar o Véu? Quer enxergar o mundo como ele realmente é?

139

Ana tirou o tecido de cima da cabeça e agora podia ver melhor o rosto do amigo banhado pela luz da noite. Agora que percebia que o quarto estava com as luzes apagadas, deixando-os banhados pela penumbra. — Mas... - tentou expressar a primeira dúvida - Como isso tudo começou? E quando acabou? – Ana tentava colocar ordem em suas dúvidas para que parecessem ter sentido quando perguntasse, mas era complicado. — Entendo o que você quer saber - disse o garoto dando mais um gole no refrigerante – Quando acabou eu respondo, nunca. Quando começou, eu digo, não sei. Os dois riram da resposta útil e ele continuou. “Desde os primórdios da humanidade o homem entende que a natureza pode lhe oferecer poder. No começo esse poder era visto com pavor. Era como se fosse uma maneira de Deus intervir na terra sempre quando estava zangado. Eram os fenômenos naturais como as chuvas e os trovões que destruíam árvores e assustavam a humanidade”. “Porém, depois de um tempo, o homem aprende a usar essa energia a fim de lhe dar maiores chances de sobrevivência. Assim como ele aprendeu o cultivo das plantas, gerando a agricultura, e a criação de animais, criando a pecuária, ele também aprendeu a usar as energias que a natureza tem a oferecer, gerando a magia”. “Tudo no mundo tem energia. As forças da natureza, as pessoas, os animais as plantas e assim como o ser humano aprendeu a controlar a energia da queda da água para gerar eletricidade, aprendeu muito antes como transformar uma variedade infindável de outras forças para atender suas necessidades.” Ana abraçou as pernas ajeitando a posição para poder ouvir melhor. Ao notar o interesse da garota, ele continuou. “Durante séculos os magos foram se espalhando pelo planeta e à medida que foram se isolando, começaram a formar suas próprias culturas, suas próprias regras e suas próprias magias, e assim surgiram as diferentes Ordens Mágicas”. “A magia era usada para muitas coisas: conseguir alimento, proteger a família e também conquistar território. As guerras mágicas aconteciam na mesma proporção das guerras humanas, ou até mais. Cada família ou grupo mágico queria impor suas ordens, se considerando como únicas donas da verdade. Infelizmente, quando falamos de guerras, as vítimas nunca são apenas aquelas que se envolvem no combate. Assim, as “pessoas comuns” foram pegas no fogo cruzado. Só que havia uma diferença. Ao

140

contrário de lanças e flechas que causam dano controlado, a magia quando mal usada, tende a ser caótica.” — Como assim? – interrompeu Ana. — Bem. Quando você usa magia, você mexe com uma série de energias e ultrapassa uma infinidade de leis que controlam o planeta. Uma variação, por menor que seja, pode causar um distúrbio muitas vezes irreparável. Lembra-se disso: “Uma coisa tão pequena como o ruflar de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo ”. — Efeito borboleta – respondeu a garota e Ian deu uma risada. — Na verdade eu queria me referir a Teoria do Caos. — Ah... Claro. – corrigiu, corando. — O que eu quero dizer é que essa teoria se aplica perfeitamente ao uso de magia. Quando você mexe demais com as leis do universo de forma inconseqüente, o caos que pode causar no tempo espaço pode ser desastroso. Exemplo: “Digamos que eu queira fazer uma magia de controle climático. E digamos que esteja muito frio e eu queira trazer um pouco de calor para este bairro. Se eu não pensar direito e não tiver conhecimentos sobre como controlar o calor trazido, eu posso acabar tirando temperatura de uma região necessitada, que pode vir a causar um distúrbio no clima, gerando seca ou chuvas em demasia, acabando com toda a sua agricultura. Ou também, posso causar um distúrbio climático tão grande que seja capaz de gerar fenômenos como um tornado ou um maremoto. — Nossa! — Eu sei. E esse foi o principal motivo da queda da magia no mundo. Ana resolveu dar um gole no seu refrigerante esperando pacientemente pelo desenrolar. — E foi o que aconteceu. As guerras mágicas chegaram a níveis terríveis e os estragos nas pessoas e no planeta começavam a preocupar principalmente aqueles que não usavam magia. — Mas você disse que qualquer um poderia usar? — E pode. Mas isso não quer dizer que todos estejam interessados. Fazer mágica é uma coisa que exige trabalho e disciplina, qualidades que nem todo mundo tem. — O que aconteceu com isso foi o seguinte: a Inquisição – continuou – Com toda a guerra entre reinos e tribos espalhadas pela Europa e pelo resto do mundo, o tabuleiro

141

estava uma bagunça, pois cada um tinha seu interesse. Porém, um determinado grupo conseguiu se organizar. “As pessoas normais puderam enfim começar a se unir, pois tinham um inimigo comum: os magos. Foi então que Reis, Padres, e Lordes da época, conseguiram mobilizar a humanidade e fundar a sociedade secreta conhecida como os Inquisidores. Os Inquisidores foram treinados com os melhores métodos para exterminar magos e eles contavam com um exercito realmente numeroso. Então, soma-se isso a falta de união entre as irmandades mágicas no planeta e ainda a grande melhoria da nova ciência que fez um upgrade nos recursos bélicos da época – em que o mais promissor foi a pólvora – e o que você tem? Massacre. Houve um verdadeiro genocídio de bruxos em todo o mundo, principalmente na Europa.” “Devido ao isolamento das sociedades africanas e americanas, estas puderam sobreviver por mais tempo. Mas no período da colonização, também foram dizimadas”. — E o que agente aprende sobre inquisição? Como um movimento da Igreja para conter as heresias? — É, é isso que aprendemos. E isso foi graças à nova frente de ataque realizada pelos Inquisidores: Agora que derrubamos o inimigo, é hora de fazer sumirem seus vestígios. — Mas como? – Ana replicou – Como é possível se fazer sumir anos de existência? — Simples - disse Ian – Esquecendo. Quando a Inquisição chegou aos seus dias finais e cerca de oitenta por cento das sociedades mágicas foram dizimadas, ouve um processo do que chamamos de Lavagem Cerebral, que foi beneficiado por uma série de fatores. “Primeiro, vale lembrar que a grande maioria das sociedades mágicas foi exterminada, deixando um contingente muito pequeno de magos no mundo. Esse pequeno grupo, com medo da perseguição, preferiu se esconder. Logo, sua existência foi basicamente considerada extinta." "Em segundo, com as pessoas acreditando que estavam livres do mal, resolveram apagar a sua existência do mundo, a fim de que não surgissem novas pessoas tentadas a utilizar de artes consideradas tão perigosas. Nesse período, os livros e pergaminhos foram queimados, assim como tudo o que era referente à magia que estava na Terra. Depois de um tempo, os pais pararam de contar histórias de bruxos para seus filhos,

142

começaram a ignorar sua existência e tal processo durou gerações e mais gerações até que a existência de magia fosse completamente ignorada pela atualidade". "E por último, o golpe de misericórdia. Apesar de odiar esses caras, eu tenho que reconhecer a genialidade deles para por um fim a magia. A decisão de tornar-la algo público”. Ana lançou um olhar interrogativo. — Sim. – respondeu, achando graça da confusão da garota - Existe um ditado que diz que se você quer que uma coisa fique em segredo, a melhor maneira é espalhando para todos. Pois as pessoas têm dificuldade de acreditar naquilo que está muito claro na sua frente. E foi isso que foi feito. A magia foi transformada em algo público, em uma ferramenta de entretenimento para as pessoas. Agora você podia falar de bruxaria tranqüilamente, pois ela estava em todo o lugar, na literatura, nos jogos e depois, nos filmes Hollywoodianos. E isso funcionou muito bem. Hoje todos sabem o que são magos, bruxos ou feiticeiros, porém, ninguém se atreve a crer neles. E se você é diferente, é ridicularizado. É isso que a magia tornou-se hoje: Uma coisa ridícula. “Apenas Contos de Fadas”.

143

17 – Quintessência.
Quieta na mesma posição que estava, abraçada às pernas, Ana se pôs a assimilar toda a nova gama de conhecimento que lhe chegara. Ela sabia que tudo aquilo fazia sentido e isso, ao mesmo tempo em que lhe deixava eufórica, causava-lhe certa apreensão. A cada momento que passava, ela via seu ceticismo cedendo e sua sensação de culpa por renegar tudo o que tinha aprendido antes com suas tias, aumentando. — Então Ana – Ian chamou sua atenção – O que você acha de tudo o que falei? Acredita ou acha que estou brincando com você? — Entendo tudo o que você diz. – respondeu - Mas... você poderia me dar mais uma demonstração? — Não. – o garoto se mostrava decidido – Mas posso te ajudar a dar essa demonstração a si mesma. — E como eu faria isso? — Liberando a sua Quintessência. — Minha o quê? — Quintessência – repetiu - ou Quinto Elemento. É a energia que guia toda a vida na terra. – ele começou em seu tom didático – Esse termo foi utilizado por Aristóteles para designar a bolsa de energia que forma o universo em conjunto com os outros quatro grandes elementos: água, ar, fogo e terra. Ela pode ter outros nomes como áurea ou cosmos, mas eu gosto de Quintessência. “Essa é a energia que circula no planeta e permite aos magos criarem suas magias. Ela está contida em tudo no mundo, tanto em matéria viva ou morta”. Ana fitou o amigo por mais tempo a procura de qualquer sinal mentira, mas desde que ele começou a falar sobre magia que esses sinais não se manifestavam mais. — E como eu faço isso? – perguntou. — Bem, é muito simples – e deixou o ar de mistério – acreditando que é capaz de fazer. Ana ficou um tanto perplexa com a solução encontrada. Ian pareceu não notar e continuou. — Essa energia está presente em todos em forma de uma áurea que circula no corpo do ser. Eu posso ver a sua agora mesmo. Está aí circulando, invisível para olhos mal treinados, mas está aí. Tudo o que você tem de fazer é torná-la visível para você.

144

“A maneira não importa. Inúmeros magos conseguem fazer isso de diferentes formas. Pela meditação, pela dança, pela pratica de lutas, mas você tem que acreditar fielmente. Essa é a única condição”. — Esse é na verdade o primeiro exercício que um iniciado em magia tem de fazer: vencer o ceticismo e atravessar o Véu. Liberar a Quintessência é a prova máxima de que alguém despertou. De que se está livre do ceticismo. – e completou com um gesto convidativo – Que tal tentar? Ana ficou alguns segundos tentando imaginar como conseguiria fazer aquilo. Olhava para o amigo atrás de respostas, mas este mantinha um olhar avaliativo sobre ela, sem demonstrar nada. Usando a primeira coisa que lhe passou pela cabeça, ela começou a cruzar as pernas, formando a posição de meditação, mas se sentiu ridícula agindo assim. Olhou para Ian, mas ele ainda não demonstrava nada. Nem ria, nem mostrava que estava fazendo certo. Ele só ficava ali, ajoelhado de frente pra ela, esperando. Desistindo de procurar respostas no olhar do amigo ela, decidiu manter a posição e começou a se concentrar, tentando esquecer o constrangimento. Tudo bem. Começou a refletir. Fazer minha Quintessência ficar visível. Como fazer isso? Mas o que diabos é isso pra começo de conversa? Como vou saber se estou conseguindo se não sei o que é? Com suas inúmeras dúvidas, ela pôs as mãos em forma de cuia em cima da perna, esperando que o que quer que aparecesse, fosse ali. Bem, concentrar, concentrar. Ana se lembrava de uma aula de Ioga que teve e o conselho do instrutor era sempre deixar a mente vazia. Não pensar em nada. Tudo bem. Não estou pensando em nada. Não estou pensando em nada. Hei! Isso é pensar. Droga! Ela abriu um dos olhos se permitindo uma espiada, mas nada tinha mudado. Olhou para Ian e ele continuava paciente. Nada ainda. Ela começava a achar que não seria capaz. Acreditar. Lembrou a si mesma. Tenho que acreditar. Mas como vou acreditar em alguma coisa eu nem sei direito o que é? Não sei como é essa energia, não sei como é sua cor ou forma. Como vou saber se estou tendo progressos? Você simplesmente saberá. Falou uma voz no seu interior. Na hora, a garota levou um susto com isso. Não por ter escutado uma voz, afinal isso meio que já fazia parte de sua vida, mas sim por ter reconhecido quem era o dono dela. Uma voz que fazia anos que não escutava. Uma voz que ela acreditava ter esquecido como era, mas viu que seu

145

subconsciente guardou-a exatamente intacta todos esses anos, como a um tesouro precioso. Ana se concentrou mais para ver se voltava a ouvir Teresa, mas esta se calou. Tá certo. Acreditar. Decidiu continuar, mesmo abalada. Mas ainda assim era muito difícil. Apesar de tudo o que presenciava, e de tudo o que Ian falar fazer sentido, ela não conseguia abandonar uma ponta de dúvida. Acreditar cegamente era muito complicado. Não se dava para evitar se sentir ridícula fazendo isso. Ridícula. Essa era a palavra que a perseguia. Não conseguia ver o que estava fazendo como algo que não fosse ridículo. Com certeza seria constrangedor se alguém entrasse naquele quarto aquele momento e a visse sentada naquela posição. Assim como era ridículo ver alguém com mais de dezesseis anos falando de bruxos e tudo mais. Mas como falar dessas coisas sem se sentir ridícula? Quando alguém podia pensar nessas coisas sem se sentir ridícula? Quando se é louco, refletiu. Infelizmente a opção não era agradável. Realmente os loucos têm total liberdade em falar dessas coisas. Eles são loucos mesmo. Nada do que falem vai mudar sua real condição. Seria essa única forma? Ana. Escutou mais uma voz em sua cabeça. Era uma voz que Ana teve a certeza que vinha em seu auxilio. Era a voz que vinha responder à sua pergunta. Era a voz de Samanta. Quando eu tinha minhas tias, concluiu. Esse era o período de sua vida em que ela podia acreditar em tudo o que dissessem sem se sentir ridícula. Ana já teve a fé cega que Ian falava. Ela tinha a fé cega em suas tias. Ela já foi criança. Quando ficou doente e suas tias lhe deram o remédio de aparência e gosto horrível, Ana hesitou em tomá-lo? Não. Porque suas tias lhe disseram que a faria se sentir melhor. Quando Ian lhe disse que era um Garow, ela até duvidou, mas quando suas tias lhe contaram a história sobre esse clã, ela duvidou? Não. Porque era criança. Isso mesmo Ana, acredite. E agora a voz das duas eram bem presentes na cabeça da garota. Elas falavam alto no coração de Ana. E elas diziam para Ana acreditar. Eram suas tias. Ana não tinha como duvidar. Podia ser cética com tudo e com todos, menos com elas. E foi então que ela sentiu um calor abrasar seu corpo. Um calor agradável, que a deixou com vontade de tirar o casaco, mas ela não se mexeu. Não sabia que sensação

146

era aquela, mas tinha certeza que, de alguma forma, estava tendo um progresso. Continuando a se concentrar, sentiu que o calor de seu corpo começou a se canalizar e se dirigir para as suas mãos. Tentando conter a emoção, ela arriscou olhar mais uma vez as mãos e foi então que, ao abrir os olhos, eles se encheram de lágrimas, pois agora uma pequena chama arroxeada flutuava sobre elas. Apesar de o fogo estar bem vivo em suas mãos, ele apenas causava um calor agradável. E uma sensação de profundo alívio inundou a garota. Ela havia conseguido. Sabia que tinha. Sem poder controlar a euforia, ela ergueu a pequena chama em direção a Ian, como uma criança que queria mostrar o trabalho bem feito para um professor. Era a sua áurea, sua Quintessência que estava ali. Sua prova máxima. E chorou. Obrigado, agradeceu silenciosamente. Nesse instante ela olhou para Ian procurando encontrar seu rosto orgulhoso, mas se surpreendeu ao dar de cara com suas feições completamente pasmas. — O que houve? – perguntou perplexa ao olhar as feições de Ian. — É que... - ele pareceu ter dificuldades em encontrar palavras - Eu não... imaginei que fosse conseguir tão rápido - completou espantado. Ana tentou entender o que ele quis dizer com isso. — Como assim? Você me disse para tentar uma coisa achando que eu não fosse conseguir? — Bem... S... sim – falou coçando a cabeça – Não imaginei que você fosse conseguir tão rápido. Quero dizer... quase ninguém consegue isso tão rápido. — Então... — Só que, - disse recobrando a postura de antes - geralmente quando são iniciadas em magia, as pessoas tendem a demorar até conseguirem liberar a Quintessência com perfeição. Eu imaginei que assim como todos os outros, você precisaria de mais tempo. Assim eu queria ver como seria sua reação quando não conseguisse. - continuou - Como sua fé seria abalada. Mas vejo que não há mais necessidade de testá-la. — Talvez não - concluiu a garota sorrindo e voltando a admirar a chama roxa que dançava em sua mão. – É linda! - exclamou. — É sim. – concordou olhando o fogo – Fazia muito tempo que eu não a via brilhar assim. Estava com saudades. — Como?

147

— Quando nos conhecemos – explicou – sua áurea era assim. Viva, brilhante. Mas então você foi deixando de acreditar e o tempo a fez se apagar gradativamente, até parecer completamente extinta. Era triste de se ver, mas nesse período em que você deixou de ter fé, foi também o momento em que você demonstrava maior felicidade. Apesar de não gostar, eu tinha que admitir que você estivesse melhor, mas era tão triste ver seu fogo apagado daquela maneira. Ana sorriu. — Não sei como vivi tantos anos sem isso. – falou – Obrigada. — Não por isso. – respondeu – Eu disse que estava te devendo. Eu devia ter te contado sobre mim antes. Não devia ter deixado sua energia se apagar. — Mas você fez isso agora. Não foi tarde demais – ela sorriu para o amigo e ele retribuiu. Seus rostos estavam muito próximos naquele instante, colados para poder ter uma melhor visão da pequena chama arroxeada, porém, agora que se olharam e perceberam a proximidade de suas faces, ela começou a sentir um forte calor em seu peito, que sabia não ter nada haver com o fogo que segurava. E uma vontade de chegar mais a frente lhe tentou, queria encurtar as distâncias sem saber exatamente o porquê em sua cabeça. Parecia simplesmente que aquilo precisava acontecer, não sabia porque. Mas o garoto desviou o rosto no último instante e se deitou no chão, passando a olhar o teto. Mesmo levemente frustrada, ela se deitou ao seu lado decidindo ignorar o ocorrido. Quando se deitou ao lado de Ian, a chama em sua mão apagou-se instantaneamente devido à quebra na concentração, mas a garota não se importou, pois sabia que poderia conjurá-la novamente no futuro. E assim, deixou-se ficar ali, ainda eufórica com as revelações. Os dois ficaram mudos enquanto Ana aproveitava a alegria recém adquirida. Sentindo uma leve sede, lembrou-se do refrigerante ao seu lado e o pegou levando-o à boca, mas só para depois tirá-lo, pois estava quente. Ao ver sua cara de desagrado, Ian estendeu a mão pedindo a bebida e ela o entregou. Segurando a garrafa com uma das mãos, Ana viu uma pequena bolinha, assim como a sua chama só que de um azul muito claro, se formar dentro da garrafa. — Toma – devolveu Ian – Veja agora.

148

Ana provou e o liquido estava gelado. Muito mais que antes. Era como se estivesse no congelador há semanas, — Obrigado. - agradeceu - Mas porque resolveu me dar uma demonstração agora? — Não foi uma demonstração – corrigiu – Foi apenas um favor. Não preciso mais lhe dar demonstrações, pois você não é mais uma adormecida. É uma maga, assim como eu. Ana sorriu de novo. Estava tão feliz e agora estava mais cheia de dúvidas que nunca. Queria perguntar tudo o que pudesse. Todas as dúvidas sobre o mundo de Ian, do qual agora fazia parte. O garoto a olhou parecendo prever o interrogatório iminente. — Pode começar - encorajou. - Pergunte o que quiser. — Bem, assim... se é tão simples assim... Por que tantas pessoas vivem sem saber? — Primeiramente. – interrompeu levando o dedo à boca da garota – Não é simples. Pra você foi. Provavelmente você é uma prodígio. — Uma prodígio? completamente. — Sim. É assim que chamamos uma pessoa que tem aptidão nata à magia. Sentindo-se lisonjeada, Ana tentou não expressar seu ego que estava inflando por dentro como um balão. — Seu maior problema foi vencer o ceticismo – comentou Ian, parecendo querer acabar com seu momento prepotente – Mas depois que venceu isso, conseguiu. — É verdade - se limitou a dizer, mas ela ainda pensava com animação, Eu sou um prodígio. — Pois bem, – continuou – respondendo a sua pergunta. Não é tão simples ser mago nos dias de hoje. Perdemos várias batalhas nos últimos séculos Ana e ninguém é muito tentado a entrar para o lado perdedor. Hoje somos uma minoria e aprendemos com o passado que magia não é brincadeira. “Hoje em dia escolhemos muito bem aqueles a quem passamos esse segredo. É muito perigoso espalhar isso pra todo mundo. Até porque a inquisição ainda não acabou.” — Sério? - Ana gostou do nome, apesar de não compreendê-lo

149

— Bem, os inquisidores venceram a guerra exterminando várias Irmandades Mágicas e hoje sua principal função é garantir que não voltemos. – e continuou com um ar sombrio – Enquanto existirem magos no mundo eles existirão. — Mas quem são eles? — Eles não são tudo, mas estão em toda a parte. Eles fazem parte de um grupo seleto com sedes em quase todos os países do mundo. Sua principal função é garantir o extermínio das últimas sociedades mágicas e manter a magia presente apenas em literatura de ficção. — E como eles fazem isso? – Perguntou. — Espalhando pessoas nos principais setores estratégicos do mundo: eles são agentes do governo, pessoas das forças armadas, agentes secretos, entre outros. Eles são banqueiros, cientistas, homens da imprensa. Eles estão no controle do mundo. E estão alerta para qualquer deslize nosso para... - e com a mão em forma de lamina, Ian simulou uma guilhotina – Zap! Ana estremeceu. — Por isso não é seguro nos espalharmos muito. - explicou – É por isso que escolhemos muito bem a quem podemos ajudar a atravessar o Véu e muito mais ainda a quem podemos tomar como discípulos. É bem melhor ter alguns poucos peixes competentes no cardume do que várias iscas de tubarão. Discípulo? Ana sentia uma expectativa muito grande no rumo do assunto, mas não queria se apressar. — E ainda possuem outras complicações além dos Inquisidores. - comentou. — Como quais? — Bem – disse ele se levantando para poder gesticular melhor enquanto explicava – Como eu já disse, magia tem uma tendência ao caos, certo? – Ana confirmou com um gesto de cabeça – Assim, muitos magos não estão psicologicamente prontos para usá-la e muitos ficam loucos com tanto poder em suas mãos. Nós os chamamos de Caóticos. “Os caóticos são magos que foram corrompidos pela magia de tal forma que perderam a completa noção das coisas. Eles tendem a gerar bagunça por onde passam. “Eles foram os principais responsáveis pelos desastres que acometeram a Idade Média. Incluindo a Peste Negra”. — A peste negra foi fruto de magia? – Ana se levantou ficando frente a frente com Ian.

150

— Sim – respondeu o garoto – Guerra biológica não é coisa de hoje. A peste negra era um projeto de arma mágica que tinha como função básica criar uma forma de vida com uma simples programação: a de se instalar num hospedeiro, destruí-lo e se espalhar para outro. Não me lembro do mago responsável por sua criação, mas independente de quem fosse, perdeu o controle quando as pulgas que estudava escaparam. Daí o caos se instalou e o resultado você já sabe. — Dois terços da população européia faleceram. - completou Ana. — Sim. Por sorte, a cura pôde ser encontrada antes de um genocídio em massa. Mas o importante disso é saber o porquê dos magos atuais preferirem trabalhar com poucos discípulos. È maior garantia que não venham a ficar desgarrados e se tornarem corrompidos pela magia. — Entendo. — Mais alguma dúvida? — Várias. – Ana viu que Ian parecia animado em explicar todas aquelas coisas à garota, por isso tentou arriscar – Está a fim de me explicar? Ele se levantou e estendeu a mão para a garota oferecendo ajuda a para ela o seguir. — Claro! - disse – Mas estou com fome, então vai ser enquanto comemos. — Por mim tudo bem - disse Ana enquanto pegava a mão de Ian. Não queria falar, mas também estava morrendo de fome.

151

18 – A Bússola de Inês.

O telefone chamou uma, duas, três vezes até que Ângelo pôde ouvir a voz do Frade. — Alô. — Frade Henrique! Aqui é Ângelo. Eu queria falar com o bispo. — Ele não pode atender no momento, Ângelo. - informou o frade - Está descansando. O bispo teve uma noite muito longa e têm compromissos de manhã cedo. Ângelo mordeu o lábio inferior de aflição. Não queria ser inconveniente, mas a situação pedia. — Será que não é possível chamá-lo. Diga-lhe que tenho uma teoria quanto ao sonho dele. — Ângelo - o tom de voz do frade era de um sarcasmo controlado - Estamos trabalhando nisso. Não se preocupe com coisas que vão... – ele escolhia as palavras além de sua capacidade. Deixe isso pra nós e se limite a responder ao chamado do Bispo, como combinado. César está muito cansado depois de atender a uma reunião muito importante. — Mas... — Já chega Ângelo!- cortou o homem - Mas será que você não sabe seguir ordens? – e desligou, deixando o garoto falando sozinho. Ao escutar o som da chamada cancelada ele se revoltou batendo o telefone no gancho. Cara, eu estou começando a odiar esse maluco. Ângelo queria contar sua teoria para o bispo, mas maldita hora em que quem foi atender foi o frade. A cada segundo o desgosto por Henrique aumentava no peito do garoto. Não sabia o porquê, mas aquele homem resolveu tomar implicância por ele. Queria só dizer o que veio a sua mente. Uma Possessão Incubada, ele pensou. Chegara a essa conclusão após ler o livro e se lembrando de uma aula que teve com César. De acordo com o que lembrava, alguns demônios tinham a capacidade de se alojarem dentro de um hospedeiro para só despertar anos mais tarde. Nesse caso, as vítimas eram sempre embriões, que dentro da barriga da mãe, recebem a alma demoníaca. Nesses casos, a criança nasce normalmente e tem uma vida comum, até que se chega a certa idade – que é variável, dependendo do caso – e a alma do ser toma todo o corpo e assim, o imortal está livre para andar pelo mundo. Normalmente os demônios

152

usam esse tipo de prática quando há um pacto pré-estabelecido com alguma pessoa – geralmente bruxos – que entregam seus filhos antes de nascerem em troca de algum favor. Ou quando, por algum motivo, querem garantir sua vinda numa hora para eles mais apropriada. Em geral, a Possessão Incubada tende a ser mais forte que a comum, já que o grau de ligação entre hospedeiro e alma é mais forte, já que se dá desde o útero materno. Fazia sentido, concluiu. Ângelo lembrou-se da interpretação de Cassandra sobre o sonho dizendo da iminência do surgimento do demônio. Se fosse uma Possessão Incubada, deveria ser o caso de estar perto do momento em que o demônio acordaria por dentro do corpo de seu hospedeiro. Devia ser isso, mas o que ele mais queria não era apenas contar isso. Ângelo também havia pensado numa fórmula para localizá-lo: a Bússola de Inês. Conta-se a lenda que Inês foi uma grande maga nascida na Itália e que preocupada com a perda de seu filho, usou de todos os meios mágicos para localizá-lo. Depois de muitas pesquisas e tentativas frustradas, Inês conseguiu realizar uma magia de localização tão poderosa que não poderia ser mantida através do corpo do mago, sendo necessário o uso de algum artefato para tal feito. Tal magia consistia no uso de um objeto mágico para se localizar outro mago ou criatura mágica qualquer através de seu padrão de energia. Com uma amostra de Quintessência, seria possível se criar uma bússola que indicasse a direção do dono da energia utilizada. Era uma solução um tanto óbvia, mas que podia dar certo. E Ângelo tinha as duas coisas de que precisava: Um artefato, que era a sua cruz e a energia do demônio a ser localizado. O garoto se lembrava bem do sonho do Bispo e da energia que sentia sendo emanada dele. Aquilo só podia ser seu padrão mágico. Às vezes as coisas que estão na nossa frente são aquelas que mais temos dificuldade de enxergar, não sabia de onde veio esse ditado, mas cabia bem no momento. Talvez o bispo ficasse impressionado com tal idéia. Gostaria que sim. Tinha muito a agradecer a César por tudo o que fez a ele. E, além disso, também tinha uma louca vontade de jogar sua descoberta na cara do frade. Além de minhas capacidades, Ele vai ver. E ignorando a ordem de Henrique, decidiu ir para a igreja mesmo sem ser chamado.

153

19 – Mestre.
A chuva parecia não querer cessar naquela noite e continuava a agredir com força o Rio de Janeiro. Porém, protegidos dentro da Casa de Ian, os dois pouco se importavam com ela e naquele momento estavam mais interessados em encher o buraco de seus estômagos do que com a tormenta que caía. A passagem pela cozinha foi rápida e logo eles subiram com seus sanduíches, Ana com um e Ian com três. — Tem certeza que não vai sentir fome? – advertiu o garoto. — Nem todos nós temos um buraco negro no estômago. - lembrou a garota. — Você quem sabe - e saíram da cozinha. E foram subindo a passos largos até voltarem ao quarto. Ainda estavam sozinhos em casa, mas era melhor não serem surpreendidos quando os pais de Ian chegassem e ouvissem historias tão malucas quanto aquelas de que estavam tratando. Chegaram em cima e não falaram mais nada, aproveitando o tempo para matar a fome. Ana se sentiu mais aliviada ao notar o ar de descontração do garoto. Era como se um peso tivesse saído dele e agora tudo corria muito bem. Eles tinham recuperado a intimidade e podiam falar sobre todos os assuntos um com o outro de novo. Odiava esconder coisas de Ian e odiava ainda mais que ele escondesse coisas dela. Na verdade, ainda tinha uma coisa que ele ainda não havia contado. Ela se lembrou de Solange e sentiu uma pontada de raiva que quase lhe tirou o apetite. — Ian – chamou. — Fala. – respondeu depois de engolir um pedaço generoso de pão. — Tem mais alguma coisa que você queira me contar? — Como assim? — Sei lá. - tentou dar pouca importância – Algo que eu não saiba e que precise saber? Ele ficou em silêncio e Ana sentia que tinha tocado num ponto importante. Havia alguma coisa e ela aguardou mais um pouco enquanto Ian fitava o chão, evitando olhála nos olhos. É tão serio assim? Começou a se questionar. — Eu disse que vou responder às suas perguntas – ele falou – É só você perguntar – e deu mais uma mordida sem vontade. — Tá bom – queria perguntar logo, mas sentiu-se envergonhada com a reação que havia causado. Não queria perturbá-lo com suas neuras. Até porque isso não era da

154

conta dela. Pensando mais em algum outro assunto, lembrou-se do beijo que deram na piscina. Da intensidade, do desejo em seus olhos. E tão rápido quanto vieram, essas imagens foram expulsas da cabeça da garota. E continuou vasculhando a sua mente atrás de novas questões. E como não vinha nada de novo na cabeça, aproveitou para continuar comendo enquanto deixava a cabeça viajar atrás de novas dúvidas. Enquanto mastigava, Ana percebeu que havia subestimado a sua fome. Estava acabando seu sanduíche e sentia que precisava de outro, até que notou um dos lanches de Ian no prato. O garoto estava muito focado fitando o nada, com certeza ainda pensando no que ela havia falado. Mas o que importava agora para a garota era que ele focava tanto no nada que nem prestava atenção no pobre sanduiche que ficara preterido no prato. Talvez tivesse perdido a fome. E sentiu que um diabinho soprava essas coisas a seu ouvido. Então, quando Ian finalmente terminou e voltou à atenção ao prato, seus olhos bateram de cara no vazio. Ele engoliu as pressas o último pedaço que tinha na boca e soltou uma exclamação: — Hei! Porque você não pediu mais um? — Foi mal – se desculpou as pressas enquanto tentava parar de rir para não se engasgar com o sanduíche de Ian – Não pensei que estivesse com tanta fome. O garoto conseguiu sorrir em resposta embora olhasse para o prato sentindo a falta que aquele último sanduíche iria lhe fazer. — Bem - começou Ian, limpando a boca – Que tal continuarmos? Ele havia recuperado o humor — Por mim tudo bem. — O que mais você quer saber? Tirando Solange da cabeça, Ana queria começar a perguntar sobre suas tias e principalmente o que aconteceu a elas, mas achou que eram perguntas pesadas demais para começar. Ainda sentia tristeza quando falava delas. — Não sei... - disse contemplativa – que tal me falar sobre alguns mitos? – propôs. — Como quais? - interrogou o garoto. — Bem... – começou a pensar – Cruzes! Bruxos são repelidos com cruzes? Ian achou graça da pergunta, mas respondeu o mais sério que conseguiu. — Mito. Pelo menos não da maneira como está pensando.

155

— Me explique – pediu interessada – É que as lendas falam disso. – argumentou. — Bem – começou, olhando-a nos olhos - Não existe nada demais no símbolo da cruz que faça um mago ou bruxo recuar. Não somos criaturas demoníacas e por isso não precisamos temê-las. Mas existem algumas coisas que ajudaram a criar esse mito: “Primeiramente, você tem que lembrar que a Igreja foi a líder do processo de Inquisição. Processo esse que exterminou milhares, para não dizer milhões, de magos no mundo inteiro. Com o passar dos anos, era óbvio que o símbolo da Igreja passasse a ser temido pelos praticantes de magia. Não porque ele tivesse alguma forma de nos esconjurar, mas sim porque ele significava um símbolo de morte para os de nosso grupo". "O que os magos sentiam quando viam alguma cruz era o mesmo que sentia os judeus ao vislumbrarem a Cruz Suástica do nazismo. A certeza de que morreriam. E até hoje esse símbolo ainda guarda esse estigma, já que os inquisidores ainda usam a cruz como emblema oficial”. “Em segundo, podemos dizer que a própria cruz nem sempre foi apenas um símbolo de adoração, e sim uma arma. Existe um tipo de culto mágico ligado aos setores ultraconservadores da Igreja que se nomeava de a Ordem dos Iluminados. Esse grupo foi um dos pioneiros na luta contra as outras irmandades mágicas do planeta, alegando que estas obstruíam a ordem no mundo". "Esse grupo desenvolveu uma forma de utilizar alguns metais que possuem capacidade de absorver prioridades mágicas. Não sei que espécies de metais são. Isso é um segredo dividido apenas entre os membros da ordem. Mas o importante é que eles eram especialistas em criar armas mágicas. E em homenagem a seu culto, a arma preferida deles era justamente a cruz. Uma estratégia que foi muito útil, pois se tratava de um armamento facilmente disfarçável. O que é importante entender nesse caso é que muitas vezes quando um clérigo erguia a sua cruz contra um membro, nem sempre ele estava mostrando apenas um símbolo e sim uma arma.” — Mas está Ordem dos Iluminados era também uma irmandade mágica? Então por que eles lutaram tanto contra outros magos? — O objetivo deles não era acabar com a magia no mundo, mas sim com as guerras mágicas e estabelecer uma ordem suprema. Com eles no poder logicamente. Os conhecimentos que eles obtinham eram de muito valor para a Inquisição e isso lhes valeu uma aliança com os Inquisidores que durou séculos.

156

— E o que aconteceu depois? — Como já era previsto por quase todos, os Inquisidores não poupariam nem seus aliados na hora de exterminar a magia no mundo, e assim os Iluminados também entraram para a lista negra. — Bem feito - Ana já esperava por esse fim, dando de ombros. — Pode até ser. - concordou Ian com algumas dúvidas - São traidores, mas mesmo assim são muito poderosos. Seriam úteis para nós se as irmandades mágicas não fossem tão relutantes em tentar dar um voto de confiança. — Eu não sei se eu poderia confiar neles novamente. — Sei que é difícil. Mas estamos numa guerra, e nela aliados são melhores que inimigos. Sem falar que hoje esse grupo está totalmente isolado. As circunstâncias poderiam fazê-los se aliarem a nossa causa. Ana acabou agora de comer seu sanduíche e pensou na próxima pergunta: — Então quer dizer que aquele papo das bruxas terem pacto com o diabo é mito? — Não. — Não? — Não – repetiu - Existe uma classe de magos que não adquirem seus poderes através do esforço, ou não totalmente através dele. Esses são os bruxos. São mágicos que garantem seus poderes através de pactos com outros seres. Esses são classificados como bruxos, assim como suas tias. — Você está querendo me dizer que... – Sem perceber, Ana deixou que sua voz se elevasse alguns oitavos, pois não podia acreditar que Teresa e Samanta tinham pacto com alguma coisa ruim. Porém, antes que pudesse completar a frase, Ian pôs o dedo na sua boca, impedindo-a de continuar. — Calma – pediu – Me deixe explicar. Existem vários tipos de nomenclaturas para os mágicos no mundo. E vendo que a garota se acalmava, ele continuou: — Magos são aqueles como eu, que são especialistas em mágicas ofensivas. Isso não me impede de saber outros truques, mas minha educação foi feita para o ataque e a defesa. “Feiticeiros, são aqueles especialistas em mágicas de controle da mente. Eles conseguem somar o poder de persuasão às suas magias. È muito comum se ter

157

feiticeiros andando pelo mundo com caravanas de circo ou grupos ciganos e geralmente não são bem vistos, por serem considerados pouco confiáveis” “Seguindo uma linha da feitiçaria, temos os Ilusionistas, que são aqueles que conseguem alterar parcialmente a realidade. Pelo menos alterá-la para os cinco sentidos de suas vítimas. “Necromantes são os magos especialistas em mortos. Espíritos, cadáveres e exumação são seus tópicos favoritos. “E Bruxos, são aqueles que adquirem seus poderes através de pactos com outras entidades. Demônios são os mais comuns”. Ao notar a boca da amiga se abrindo ele fez mais um movimento para que ela se calasse e continuou como se nada tivesse acontecido. — Mas não são os únicos. – completou rapidamente - Também existem outros tipos de pactos e Magos que utilizam deles são conhecidos especificamente como Druidas. Druidas são aqueles que recebem seus poderes dos espíritos ligados à natureza. São pessoas que gostam da vida ao ar livre e são grandes conhecedores de feitiços naturais e remédios baseados em ervas. — Isso faz o perfil das minhas tias - comentou Ana com um tom mais autoritário, como se Ian não fosse acreditar nela. — Eu sei - ele respondeu – Pelo que você me contou é isso mesmo. Elas provavelmente conheciam os espíritos que habitavam as matas próximas de Três Corações. Ana se sentiu mais calma e até experimentou um pouco de constrangimento por ter explodido antes. Mas Ian não perecia ter se importado. Tantas dúvidas ela tinha. Era incrível como Ian, com seus dezesseis anos apenas, soubesse tanta coisa e conseguisse passar tão bem. Começava a admirar esse lado. Ian o professor. Será que isso a tornaria Ana a aluna? Sim, mas aluna ao ponto de ser uma discípula? Tomara. Seria bom ter ele como um mestre, afinal, Ian já a estava ensinando tanta coisa. E ela voltou a sentir a animação de antes. Aprender com um Garow. Pensou animada. Sem querer estava realizando um sonho, ou até uma promessa que havia feito para suas tias na última noite em que as viu. E foi pensando nisso que se lembrou da maior dúvida que tinha na vida e que nem passara por sua cabeça durante o interrogatório. Que momento melhor que esse para descobrir um dos maiores mistérios do mundo mágico?

158

— Meu clã, por exemplo – continuava Ian, sem perceber os devaneios da garota – é um clã de magos, mas também de necromantes. Apesar de nossa vinculação com a natureza, essa era mais uma forma de vida do que um pacto real com os espíritos do local. Muita gente acreditava que por termos uma afinidade com os lobos da região e por podermos controlar o clima gelado, isso era um presente das entidades do gelo. Mas não, era fruto de trabalho mesmo – completou, cheio de orgulho. Garows. Como desapareceram? E como Ian sobrevivera? Seus pais também eram Garows? Então por que apresentam características tão diferentes dos demais de seu grupo? Eram tantas dúvidas sobre ele. Resolveu tentar: — E você? – comentou animada – Por que não me conta um pouco da sua história e do seu clã?

Ana não poderia explicar o que tinha acontecido de errado naquele momento. Ela não sabia como, mas era como se toda a leveza do local, todo o clima amistoso, tivesse sido tragado para longe do quarto. A expressão de Ian, que era até então de animação, começava a demonstrar um profundo pesar. Ele fitava o chão como se estivesse envergonhado, sem coragem de olhá-la nos olhos. Agora, a chuva voltou a se tornar presente no local quando o único som ouvido foi o de sua água e seus trovões castigando a Vila da Penha. — Eu fui mesmo um idiota em pensar que você não faria essa pergunta, não é mesmo? – comentou Ian com um sorriso desolado olhando o chão. Mesmo curiosa com tal reação, Ana começava a se arrepender de ter feito a pergunta. Talvez fosse melhor mudar de assunto, pois aquela mudança de humor era opressora e o silêncio que se ficou entre eles, insuportável. — Esquece Ian, não precisa... – a garota tentou consertar, mas em nada adiantou. — Ana – disse levantando o rosto e encarando a garota – Desculpa. — Por quê? – Ana tentava forçar um sorriso, mas a expressão desolada do amigo a impedia. – Você não fez nada. — Fiz sim. Escondi de você uma coisa muito importante e te coloquei em perigo. Perigo? Ana tentava entender o que ele dizia quando sua mente a levou instantaneamente para a noite do primeiro beijo. E foi quando lhe veio à imagem dos olhos azuis. Olhos desejosos, olhos com certa dose de fúria. Lembrou-se de como Ian

159

havia ficado perturbado, de como ele tremia, como tinha fugido dela. Teria algo haver com aquilo? Tinha certeza que sim. — Ian, não precisa me contar se... - tentou argumentar, mas ele continuou como se ela não existisse. — Preciso sim. Ana, você não sabia com quem estava lidando todos esses anos e foi apenas meu egoísmo quem me impediu de contar tudo antes. Eu tinha medo que você nunca mais quisesse ficar comigo depois de saber a verdade. Tinha medo que você me olhasse com medo ou desprezo, assim como todos fizeram depois que souberam e… - ele falava rápido demais. Dava para ver a ânsia dele em tentar se justificar e Ana começou a ficar assustada. Não estava acostumada a vê-lo assim. — Ian, chega! – agora foi a vez de Ana tampar a boca do garoto - Eu não estou entendendo nada do que você está falando. Ele conseguiu se calar por um segundo e Ana esperava que Ian conseguisse dar clareza ao que dizia. O que poderia ser tão horrível assim que lhe causasse tanta mudança? — Ana – ele se recompôs antes de continuar – eu só quero dizer que sinto muito. Eu lhe escondi uma coisa muito importante e que... Se você não quiser falar mais comigo depois disso, tudo bem eu... — Ian – Ana o interrompeu de novo. — Quando eu terminar você vai poder entender algumas coisas sobre mim. Na verdade muita coisa. O porquê de eu não ter lhe contado tudo antes, ou o porquê de eu ter lhe evitado no sitio. Ana sentiu seu corpo estremecer. Então era isso mesmo. — Vou lhe contar minha história como você pediu. Afinal, eu lhe prometi contar tudo o que você quisesse saber. Então... Lá vai.

160

20 – Jogo perigoso.
Ângelo chegou ofegante à Igreja da Iluminação. Foi uma bela corrida de sua casa até ali e a chuva o deixara completamente ensopado. Mas o importante era que agora podia continuar com seu plano. Eram onze da noite e provavelmente apenas o bispo estaria ali. Ele era o único que passava a noite na igreja e nem mesmo o frade ficava até tal hora, pois César proibia alegando que sua saúde ainda não necessitava de uma enfermeira de plantão vinte e quatro horas. Melhor assim, sem o frade ele teria mais liberdades dentro da igreja. Aquele homem começava a irritar tanto o garoto que ele começou a lamentar o bispo ter chegado a tempo e impedido seu confronto. Não tinha certeza se venceria, mas gostaria de ter tentado. Mas não tinha tempo para ficar se indignando. Então, correu para o quadro atrás do altar e abriu a passagem que dava para a sala secreta do bispo. Chegando lá, o local estava iluminado por uma única luz púrpura que vinha de dentro da lareira e o único som que vinha de dentro da sala era o do sonho do bispo. Acertei. O bispo estava obcecado com aquele sonho. Agora que Ângelo sabia de tudo, César não se incomodava mais em deixar aquela reprodução do sonho na lareira vinte e quatro horas por dia. Da distância da entrada da câmara, Ângelo já sentia a energia emanada mesmo naquela reprodução. A criatura era assustadoramente poderosa. Seus pelos se arrepiavam todos só ao se aproximar. Segurando com firmeza seu crucifixo, pronto para recolher um pouco daquela energia emanada pelo bebê deformado, Ângelo avançou. Mas foi quando uma coisa chamou sua atenção. Num sofá, no canto da sala, ele viu um volume coberto por uma colcha xadrez. Ao se aproximar um pouco, viu que alguém dormia ali e ao observar o tamanho do volume, sabia que se tratava do bispo. Ângelo queria falar com ele, mas notando seu sono profundo, decidiu continuar sem ele. Por que está dormindo aqui? Ignorando aquele fato, Ângelo se aproximou da lareira até chegar a uma distância boa e apontou a seu crucifixo para a chama, sussurrando algumas palavras em latim com os olhos fechados. Foi então que, ao abrir novamente os olhos, ele pôde ver a áurea negra flutuando das chamas até a ponta de seu crucifixo. Estava completa a magia e a ponta de sua arma começou a se tornar negra como a energia emanada.

161

Perfeito, agora era só levar para casa e ali ele terminava o encantamento da Bússola de Inês. Amanhã poderia comentar com o bispo sua idéia. Mas ao se virar, ele acabou esbarrando na mesa ao seu lado, fazendo um cinzeiro de vidro cair e se espatifar no chão. Ângelo fechou os olhos, já escutando previamente as reclamações que o bispo lhe daria. Primeiro, por ter o acordado, segundo, por ter quebrado o cinzeiro e terceiro, por ter vindo sem autorização. Mas nada aconteceu e o garoto voltou a abrir os olhos e viu que César se mantinha na mesma posição, sem nem ao menos ter se abalado com o barulho. Estranho. O bispo era famoso por ter um sono tão leve quanto o de um cachorro. Como ele não acordou? Agora a curiosidade de Ângelo começava a se transformar em apreensão e foi com ela que ele se achegou ao leito do bispo, sacudindo-o de leve. — Bispo. – dizia em um tom moderado – Mestre! Acorde. Ao tocá-lo, Ângelo sentiu que sua pele estava demasiadamente quente. Preocupado, ele levou os dedos indicador médio aos próprios olhos, tocando-os de leve. Após retirá-los, pôde ativar sua Visão da Áurea e ao olhar para o bispo novamente, seus olhos estavam dominados pela cor branca onde não mais se podia reconhecer nenhuma íris ou pupila. Ao encarar o bispo, o garoto levou um susto ao notar que sua áurea se encontrava muito fraca, apresentando várias pequenas chamas prateadas quase se extinguiam no corpo de César. Fracas como estavam, parecia que se apagariam a qualquer momento e Ângelo começou a se alarmar achando que ele estava morrendo. Porém, com uma boa olhada, pôde perceber também que sua áurea se mantinha estável. Muito fraca, porém estável. O que considerava que ele não estava em risco de vida, mas sim muito cansado. O que ele fez para estar tão fraco? E foi então que se lembrou da doença. Doía pensar nela. Era incrível como uma mera enfermidade podia por abaixo um dos homens mais poderosos que já conheceu. Apiedado, Ângelo o cobriu melhor com a manta xadrez, para protegê-lo do frio que conseguia adentrar as grossas paredes do Templo. Agora, seu olhar, já de volta ao normal, passou para o cinzeiro caído no chão aonde, agora percebia, também haviam inúmeras pontas de cigarro caídas. Que sujeira. E se recolheu para limpar. Mas aquilo era de um tanto estranho também, pois o garoto sabia que nem o bispo nem o frade fumavam. Então eles haviam recebido visitas. Mas de quem? Henrique falara que César estaria descansando depois de uma longa reunião, mas quem teria a permissão de César de fumar ali dentro?

162

Provavelmente alguém muito poderoso ou interessante demais para ser expulso por macular aquele lugar com o cheiro insuportável de tabaco. Curioso. O garoto ficou aflito por, mesmo acrescido ao grupo, ainda desconhecer tantas coisas que ocorriam. Por que todos escondiam as coisas dele? Porque ele não podia saber que teriam visitas? Mas o que mais lhe preocupava agora era o bispo. Parecia tão vulnerável naquele estado. Vasculhou o lugar à procura dos remédios e viu que o pote estava em cima da mesa onde antes estava o cinzeiro. Abriu e pegou um comprimido que o frade Henrique preparou. Era inútil, pensou consigo mesmo. O próprio frade disse que isso não o salvaria. Servia apenas para aliviar sua dor. E colocou a pílula no bolso da calça se sentindo desolado. Não se podia fazer nada por ele. Ângelo começava a sentir uma tristeza misturada com a sensação de impotência. Se pudesse fazer alguma coisa por ele pelo menos. Mas ainda tem a sua missão, concluiu. Sim. A missão de que tanto o Bispo quanto o Frade Henrique queriam concluir. A última atitude do bispo antes de falecer. A missão pela qual ele estava se arriscando enquanto queria manter Ângelo seguro. Agora, mais do que nunca, o garoto se sentia envolvido. Tinha que continuar e tentar resolver esse caso antes que... antes que... não queria pensar. Ele deu um beijo na mão do mestre pedindo sua benção em silêncio e correu para terminar de arrumar a bagunça que tinha feito. Ainda estava intrigado com as cinzas pelo chão, até que notou que além do cinzeiro e dos remédios, havia também um terceiro item em cima da mesa. Era uma espécie de livrinho, com capa de couro negro que lembrava muito uma bíblia de bolso. Depois de limpar a sujeira e se desfazer do cinzeiro, ele voltou sua atenção para o pequeno livro. Ao abri-lo, seus olhos se arregalaram. Era um caderninho onde continham uma lista de nomes e números de telefone e aonde Ângelo reconheceu a letra erudita do frade Henrique escrita nele. O caderno de contatos do frade. Ângelo sabia que o frade Henrique tinha uma série de contatos espalhados pelo mundo em diferentes organizações mágicas e tribos perdidas. Durante sua juventude, o frade Henrique foi responsável por uma série de trabalhos diplomáticos e de espionagem em nome da Ordem dos Iluminados, conseguindo ao longo dos anos uma série de informantes que ele mantinha guardados seus dados naquele caderno.

163

Ângelo só deu uma olhada naquele livro umas duas vezes em sua vida. O frade era muito ciumento com relação a ele. Para Henrique, aquela agenda devia ser tão importante quanto à bíblia. Ângelo não sabia como Henrique poderia esquecer uma coisa dessas ali. Folheando as páginas, ele encontrou o número de Cassandra, a cigana que Ângelo vira quando vasculhava o passado daquela sala. Também notou um nome estranho – Rauch – que passaria despercebido por ele se não fosse uma anotação que vinha ao seu lado – Inquisidor. Ângelo apostava tudo o que tinha como era com esse tal de Rauch que o bispo mantinha contatos com os Inquisidores, já que era o único número da lista que continha essa anotação. Os demais vinham com citações de outros grupos mágicos espalhados pelo mundo. Ele limpou as mãos sujas de cinzas antes de tocar na página, quando de repente uma coisa lhe saltou a mente. Rauch. Ele sabia o que aquilo significava. Era o alemão para fumaça. Fumaça. Ele olhou de novo para onde antes estava o cinzeiro e as palavras do frade lhe voltaram na lembrança. César está muito cansado depois de atender a uma reunião muito importante. E se esse Rauch fosse o responsável por todas essas guimbas de cigarro ali espalhadas? Eles haviam atendido a um Inquisidor ali? Bem na sede da Igreja da Iluminação? Aquela igreja era a menina dos olhos do bispo, ele não poderia ter feito isso. E onde estava o frade? Porque saíra sem o seu caderno? Ele sentia que alguma coisa estava errada. Muito errada. E foi então que a mesma sensação incômoda o acometeu. Havia algo que ele deixara passar? Estariam em perigo? Teria acontecido algo? E o bispo? Onde estaria o frade naquele momento? Por que deixar o bispo naquele estado? Por que deixar seu caderno ali? A cabeça do garoto ameaçava explodir a qualquer momento devido ao estupro que as questões promoviam em sua cabeça. Sentindo-se tonto, ele resolveu sentar num banco próximo e organizar seus pensamentos. Alguma coisa estava estranha. Ele podia sentir. E foi quando se lembrou das palavras de Cassandra. Em todos esses momentos são nossos sentidos captando as energias que circulam pelo universo. Porém, geralmente só percebemos aquilo que os nossos cinco sentidos

164

captam e nos esquecemos de outro sentido que também faz parte de cada ser: a intuição. … A intuição é o sentido humano que está mais intimamente ligado a essa vibração das energias no mundo. Mas ela fica constantemente subjugada pelos demais, que a impedem de agir. … Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e basicamente só se manifesta, em casos extraordinários, como quando temos algum pressentimento ruim.

Ah, para com isso. Ordenou a si mesmo. O que estava acontecendo? Nunca fora assim. Que idéia era essa de ficar tão perturbado? Tinha que se acalmar. Havia ouvido aquela mulher demais e agora começava a ficar meio biruta também. Deve haver uma explicação lógica. Só porque o nome Rauch significava fumaça não quer dizer que a pessoa que esteve aqui seja ele. Embora fumaça fosse um bom codinome para alguém capaz de tragar tantos cigarros numa conversa, o bispo jamais permitiria uma reunião com um Inquisidor dentro de sua Igreja. E acabou rindo nervosamente de sua conclusão, agora um pouco mais calmo. O que eu faço? O que? Ele ainda sentia um nervosismo que o estava impedindo em sua capacidade de raciocinar. E o sinal de alerta que tocava dentro de seu corpo não ajudava. Será que não tinha como calá-lo? Ele não era um Sonhador para acreditar em Sexto Sentido, mas aquilo tinha que ser tão irritante? E olhando para o seu crucifixo com a ponta negra, ele se decidiu. Iria continuar com o plano original. Faria isso pelo sonho do bispo. Isso mesmo. Mas sozinho? Agora, mais calmo, ele já não acreditava tanto no sumiço do frade. Até porque, o que demais poderia ter acontecido? O lugar não demonstrava sinais de luta ou algo semelhante. Provavelmente eles tiveram alguma reunião com um especialista em demônios ou algo do gênero. E o frade poderia voltar a qualquer momento, deixando seu caderno para o bispo olhar. Era possível. Afinal César era seu superior. Por que não?

165

Então, desistindo de sua neurose, ele voltou a cerne da questão. Teria de fazer aquilo sozinho? Provavelmente. Não podia contar com Henrique para ajudar. Ele provavelmente iria dizer que ele não devia se meter em assuntos que vão além de suas capacidades. Essas palavras ainda queimaram dentro do garoto. Enfim, quando finalmente havia se conformado com a solidão que se lembrou novamente de Cassandra e de seu número que estava salvo na agenda. Recorrendo a ela, gravou-o na cabeça e saiu. Não gostava de ir atrás de alguém tão aluada quanto um membro do grupo dos Sonhadores, mas a mulher se mostrou interessada desde o começo no caso e era melhor tratar desse assunto com alguém que já estivesse ciente de algumas coisas. Seria difícil, mas ele faria isso pelo Bispo. Ângelo então saiu da Igreja e foi ao primeiro telefone público que havia por perto e fez uma ligação para o número de Cassandra. A secretária eletrônica atendeu numa voz exageradamente estereotipada de uma vidente. Alô! Aqui quem está falando é Cassandra, a grande vidente que tudo sabe e tudo vê. Eu fico feliz que tenha ligado embora já esperasse por ela. Se você é daqueles que desejam saber o seu futuro, ou significado de algum sonho, ou onde encontrar o amor verdadeiro, você ligou para o local certo. Porém, infelizmente, não estou disponível nesse momento. Então, deixe seu recado que, assim que puder, minha assistente vai agendá-lo em uma consulta. Ou então, compareça a Avenida Presidente Vargas 105, segundo andar, que Cassandra o receberá de braços abertos. Até nosso encontro. E que os astros estejam com você.

Ângelo deixou um recado avisando que iria comparecer no endereço dito por volta das nove da manhã do dia seguinte. Depois, desligou o telefone achando graça do acontecido. Ele já ouvira muitos charlatões fazendo se passarem por ciganos para conquistar a crença dos fieis, mas era a primeira fez que via uma cigana de verdade se fazendo passar por charlatã.

166

21 - Kalish.
Bem Ana. Para começarmos essa história temos que fazer uma viagem no tempo. Há mais ou menos uns trezentos anos atrás. Eu sei que lhe prometi contar a história de minha vida, mas acredite, esses trezentos anos fazem parte de minha vida. Sou um pouco mais velho do que você pensa. Por favor, eu peço que não me interrompa. Tenho medo de perder a coragem de contar se algo me fizer parar no meio. Então. Tudo começou há uns trezentos anos. Quando nasci, a tribo dos Garow se encontrava em seu auge. Já tínhamos dominado o fogo, já sabíamos manipular até mesmo o metal, nossa civilização era organizada e cada um tinha a sua tarefa na aldeia. Morávamos ainda em aldeias, pois respeitávamos nossa tradição e também não queríamos nos expandir, pois tínhamos grande amor por aquela terra. Possuíamos também grande afinidade com os lupinos, assim como diz a lenda, tanto que o símbolo adotado por nós era uma cabeça de lobo. Isso mesmo. Igual ao símbolo que você guarda em seu medalhão. Nós usávamos esse emblema em nossas roupas, como um brasão de família. Isso que você tem é a parte de uma vestimenta que os Garow usavam. Muito além de mera afinidade, nossa forma de vida era muito parecida com a destes animais e nossa organização, quando saiamos em grupo, era semelhante à de uma grande alcatéia. Além disso, tinha nossa aparência natural. Os dentes afiados, as presas pontudas, as garras e os olhos azuis eram a marca permanente do nosso clã. Elas eram características que faziam parte de nossa aparência. Todos os Garows nascidos apresentavam as mesmas características, que nos aproximava mais ainda dos nossos amigos lobos. Nossa organização não era feita por sexo ou faixa etária. Nossos ancestrais tinham uma tradição diferente, aonde os membros do clã recebiam suas funções de acordo com a época em que nasciam. Eu nasci na época do que seria para nós a do signo de sagitário. Esse período designava aqueles que nasceriam para se tornarem guerreiros. Eu fui batizado então com o nome de Kalish, o que significa no antigo dialeto Garow algo como “Presas de Prata”. Logo, eu cresci e fui aprendendo todo o essencial para me tornar um bom guerreiro: magias de ataque e de defesa, uso de armas, domesticação de lobos para as

167

batalhas e mágicas de cura superficial, que servem apenas para cicatrizar ferimentos de forma mais rápida, pois as verdadeiras artes medicinais cabiam aos curandeiros. Mas a grande verdade era que eu sonhava em me tornar um Xamã. Eu sempre ficava fascinado com o trabalho daquelas pessoas. Eles eram os que na tribo se responsabilizavam pela comunicação com os espíritos e aquilo me fascinava profundamente. Mas esse trabalho era muito restrito e assim como todas as funções da tribo, era limitado a alguns membros particulares. Ao contrário de época de nascimento, essa função era dada pela vocação natural. As crianças que demonstravam empatia com os seres espirituais eram as selecionadas para tão glorioso cargo e os demais não podiam nem fazer idéia do que se tratava lá dentro. E eu, como nunca demonstrei nenhuma habilidade desse tipo, fiquei de fora. Logo, eu era um guerreiro frustrado, mas nunca deixei de cumprir com minha missão: proteger a aldeia. Até porque, a época não era boa para relaxar em tal missão. Minha memória me falha um pouco nesse ponto, mas acredito que estávamos em 1780. Nossa região ficava muito próxima de onde hoje é o Alasca e nesse período começavam a chegar as primeiras caravanas colonizadoras européias naquela região. No nosso caso, foram os russos. Nós havíamos ouvido vários rumores do extermínio que povos nativos da América estavam vivenciando perante a cobiça européia, e as tribos que demonstravam alguma habilidade mágica, eram as que mereciam menor piedade. Lembrando que naquela época a Inquisição já estava no seu apogeu na Europa e muitos magos refugiados deste continente estavam rumando para o Novo Mundo fugindo da perseguição, os Inquisidores, logicamente, também vinham atrás desses fugitivos. Logo, as nossas terras se tornariam alvos das sangrentas batalhas que tingiam de rubro toda a América. Nesse contexto, todos os guerreiros da tribo estavam em alerta e qualquer europeu que ultrapassasse nossas fronteiras seria banido ou morto. Nesse tipo de trabalho eu me destaquei de certa forma. A tribo gostava de mim por minhas habilidades naturais de combate e logo fui subindo de patente dentro da aldeia rapidamente. Devido a nossa aptidão natural com aquelas terras, os inquisidores Russos não tinham a menor chance. E assim, nós acreditávamos estar destinados a habitar aquela região até o fim dos tempos. Pelo menos, assim parecia. Minha história vai dar agora um solavanco para uma bela manhã de Janeiro.

168

O que eu gosto de chamar de minha benção/maldição aconteceu naquele mês e veio na forma de uma mulher chamada Catarina. Eu a chamo assim, pois, ao mesmo tempo em que ela foi a responsável pelos momentos mais maravilhosos de toda a minha vida, também foi a causa de todo o inferno que veio depois. Era uma manhã, comum a todas as outras: nublada e fria, e eu vagava pelas áreas das nossas terras, não a serviço, mas apenas por lazer. Eu gostava de admirar toda a paisagem com um medo terrível de que tudo aquilo um dia fosse estragado pelos russos. E foi durante o passeio que escutei um barulho de galhos secos sendo pisoteados. Imaginei na hora que estava sendo vigiado e já me preparei para atacar, mas nada aconteceu. Comecei então a seguir o barulho e, passando pela floresta de pinheiros, cheguei a uma clareira. E lá estava ela. Tenho que admitir que ela fosse muito bonita para os padrões europeus. Como eu só conhecia Garows, tinha certo ideal de beleza em minha cabeça, mas ela de fato conseguiu ultrapassá-lo. Lembro-me muito bem, mesmo que se tenham passado anos. Ela tinha cabelos que batiam no queixo num tom castanho escuro e sua pele era muito branca. Era uma mulher saudável em aparência e conseguia andar pelo terreno acidentado muito bem, apesar de alguns tropeços. Pois bem, devido ao frio, ela usava roupas que cobriam o corpo inteiro. Suas peças tinham um tom meio acinzentado que a deixavam um pouco camuflada no ambiente. Hoje eu sei que aquelas roupas eram na verdade masculinas e pior: eram roupas de guerreiro. Quando eu finalmente consegui parar de admirar a beleza da mulher, me voltei ao objetivo principal: ela era uma intrusa e tinha que ser expulsa. Apesar de meu clã não ter distinção entre homens e mulheres, e isso dizia respeito tanto a amigos quanto inimigos, eu era dotado de um cavalheirismo crônico e por isso não queria atacá-la. Era apenas uma mulher, sozinha e indefesa – assim eu pensava. Um susto a faria aprender a nunca mais atravessar aquelas fronteiras. Então, deliciei-me com a idéia de apavorá-la e preparei meu golpe. Com uma concentração calculada, concentrei uma bola de energia gelada nas mãos, que se espalharia ao ser atirada, adquirindo a forma de um tufão contra a intrusa. Isso seria o suficiente para empurrá-la, mas não a mataria. Entretanto, quando lancei meu golpe, não imaginei que ela o notaria e, muito menos ainda, que o interceptaria.

169

Num movimento rápido e gracioso, ela conseguiu conjurar uma barreira translúcida de uma cor rosa, que absorveu meu golpe completamente. Foi então que eu vi que tinha que deixar de ser um Garow bonzinho. Ela era uma ameaça maior do que eu supunha, e por isso tinha de ser expulsa. Afinal, era quase impossível uma mulher daquelas andar pelas nossas terras sem alguma intenção ruim. Assim, saí de meu esconderijo e me mostrei pra ela. Eu era o que se podia chamar de um guerreiro honrado naquela época e não gostava de combates injustos. Então, me posicionei, avisando a ela que estava disposto a atacar. Eu não sabia falar russo muito bem, então não pude avisar nada formalmente e esperei que minha postura fosse o suficiente para pô-la para correr. Enganei-me de novo. Ao contrário de correr, ela nem ao menos pareceu assustada e pôs-se a me encarar com uma energia que eu pouco vira nas pessoas que vislumbravam as minhas presas. Confesso que fiquei estranhamente excitado com aquela coragem. Não sei, na verdade, porque não ataquei logo. Fiquei ali a encarando e rosnando, mas não avancei. Meus olhos apenas a fitavam e eu, sem saber, estava perdido naquela beleza assustadora, que, mesmo por trás daquela expressão carrancuda e aquele olhar de ameaça, conseguia me fazer ficar que nem um idiota a olhando. E nosso combate acabou só vindo a acontecer porque minha oponente cansou de esperar. Assim, num movimento rápido, ela me lançou uma bola de energia no mesmo tom de sua barreira. Aquele golpe, apesar de singelo, era potente. Eu saltei para cima de uma árvore próxima, podendo ver o chão atingido se espatifar, liberando neve para todos os lados. Ela não hesitou e me atacou novamente. Mais uma vez, fiz uma esquiva de sucesso saltando para uma nova árvore. A cada segundo ela se mostrava mais ameaçadora. Ao mesmo tempo em que isso alimentava a minha adrenalina, também me deixava mais intrigado com relação aquela mulher. Não falávamos a mesma língua, como eu disse, por isso o que tivéssemos de conhecer um do outro era pra ser conhecido ali, em luta. Na verdade, eu tinha o habito de sempre estudar meus oponentes antes de atacar e esse era o momento. Eu olhava para ela e me desviava de seus ataques enquanto tentava traçar um perfil de minha adversária. Pelas minhas observações, notei que era uma mulher muito bonita. Na verdade não era uma coisa difícil de perceber e eu não precisaria entrar em combate com ela para perceber isso. Você tinha que ver. Ela era fantástica e...

170

Ah, desculpe se estou falando demais da beleza dela é que... UAU... Bem... Acho que isso não está lhe agradando, não? Perdão. Voltando ao assunto: Uma coisa que eu pude notar também era que ela se preocupava em me manter uma distância favorável. Ela me atacava com mais pressa a cada vez que eu tentava uma proximidade. Então era assim que eu faria para vencê-la. Chegaria perto num combate corpo-a-corpo. Nesse tipo de confronto eu venceria com certeza. Assim, a coisa ficou mais interessante a cada minuto. Eu utilizei de minhas habilidades naturais para ganhar mais velocidade e comecei a avançar em ziguezague disparando em sua direção. Essa estratégia sempre funcionava. Na verdade, nenhum oponente espera que você, um inimigo, avance de forma tão direta e tão rapidamente. Tal investida sempre deixava o inimigo em pavor e isso me dava a vantagem psicológica. E não deu outra. Ela começava a tentar me atacar sem nenhuma coordenação enquanto eu investia em sua direção. A cada milésimo que eu me aproximava suas tentativas de me afastar se tornavam mais desesperadas e assim, menos eficientes. Até que enfim a agarrei, arrastando-a em direção a floresta. Porém, naquele momento eu cometi dois enganos: O primeiro foi o de pensar que a mata se seguiria plana por muito tempo. Havia uma pequena depressão à frente que eu me esqueci e por isso, rolamos por uma altura considerável. Não o suficiente para matar, mas sim para causar dor. Meu segundo engano foi acreditar que num combate corpo-a-corpo ela seria indefesa. Assim que caímos, um soco nas costelas me mostrou o quanto eu estava errado. Aquilo havia doido muito, mas não me abatera. Ao me levantar, seguido por ela, reparei que suas mãos agora tinham uma áurea em chamas a volta. Era estranho a ver erguendo as palmas das mãos abertas em minha direção, diferente de punhos fechados como os demais europeus faziam. Mas aquele único golpe já havia me ensinado a me manter distante daquelas mãos. Mas agora o combate a queima roupa já havia começado. Ao mesmo tempo em que eu evitava que aquelas chamas em suas mãos me causassem a mesma dor de antes, ela evitava que minhas garras dilacerassem sua carne. Eu não cansava de me impressionar com sua habilidade de luta. O que vou falar agora pode parecer ego ferido, mas eu realmente não estava lutando com tudo o que tinha, mas isso não me impedia de ficar admirado com suas habilidades.

171

Mesmo naquele terreno em que eu tinha uma vantagem natural, ela conseguia manter a luta num tom de igualdade. Mas foi então que em um dado momento eu consegui prender aquelas mãos ameaçadoras para o alto, segurando-as pelos punhos. Nossos rostos estavam bem próximos e eu rosnava pra ela. E à medida que tentava ameaçá-la, me sentia cada vez mais inútil. Um rosnar meu, capaz de espantar até a mais terrível das feras, não causava nenhuma mudança naquela expressão de pedra. Ela não tinha medo de mim e ao mesmo tempo em que isso me deixava frustrado, também me intrigava. Aquela era a oportunidade perfeita para ela levar uma bela dentada que acabaria com aquele combate de uma vez. Mas naquele momento, eu me senti impotente diante daquela mulher. E essa foi uma oportunidade que ela não desperdiçou e mais uma vez, me surpreendeu: ela conseguia atacar sem as mãos. Uma bola de energia se formou entre nós explodindo bem no centro e foi então que eu aprendi que ela era mais orgulhosa do que eu imaginava, pois aquele ataque suicida nos fez ser arremessados a metros um do outro. Será que perder era pra ela tão ruim quanto era pra mim? Quando me levantei, senti meu estomago doer. Olhei e vi um belo estrago, embora não muito sério. Consegui usar minha mágica de cura para fechar o ferimento, mas minha missão ainda não estava terminada, logo, não tinha tempo para me curar melhor. Fui olhar em volta para ver onde ela havia caído e vi uma caverna logo à frente. Não tive dúvidas e corri pra lá. Chegando, pude ouvir sua respiração ofegante vindo do interior e entrei. Assim que adentrei a gruta, houve uma avalanche me trancando em seu interior. No inicio, pensei que fosse uma armadilha, mas não era bem assim. Ao fazer minha quintessência ficar visível para que assim pudesse enxergar alguma coisa, logo uma luz azul clara encheu todo o lugar, e foi quando eu percebi outra luz, só que rosa, vinda de outro ponto. Indo em sua direção, eu pude ver seu estado: Ela tinha arranhões por todo o corpo e sua barriga sangrava em demasia. Apesar de ter recebido o mesmo ataque, o estrago nela parecia ter sido maior. Não posso culpá-la, pois dentre as características naturais dos Garows, estão também uma pele mais resistente e uma quantidade maior de glóbulos brancos no sangue. Isso me deixava numa situação muito melhor que a dela.

172

Enfim, esse era o momento perfeito para acabar com tudo. Seu ferimento não a mataria, mas a deixaria vulnerável para meu ataque que terminaria o serviço. Porém, só para variar, eu hesitei. Tinha a chance de acabar com ela ali e não o fiz. Fiquei parado olhando, compadecido com seu estado. Droga, ela era uma intrusa. Tinha que ser eliminada. Eu pensava, mas isso não mudou em nada minha atitude. Eu simplesmente havia sido reduzido, de um lobo a um cão dócil. Ela, pelo contrario, não desanimou e veio pra cima de mim com suas mãos em brasa tentando me golpear. Mas estava muito fraca e com isso eu quero dizer lenta também. Desviei-me com facilidade, mas não contra-ataquei. Fiquei ali, me desviando e tentando contê-la e mais uma vez os idiomas diferentes não ajudaram. Acabou que eu tive de ser um pouco mais bruto para conseguir ajudar de alguma forma. Então, quando ela tentou me golpear mais uma vez eu a segurei e joguei seu corpo ao chão. Antes que ela pudesse se recompor, eu me lancei por cima dela e rasguei a parte de cima da sua roupa, abrindo um buraco na parte da barriga. A mulher se assustou com meu gesto e tratou de tampar a parte de cima do corpo nu, olhando com espanto quando eu ergui minha mão de uma forma um tanto ameaçadora. Eu devo imaginar o medo que ela sentiu quando viu uma energia azul envolvendo minha mão, mas antes que pudesse me impedir, eu já havia a atingido na região ferida, fazendo-a soltar um grito agudo de dor, que foi logo perdendo a força enquanto caía quase desfalecida no chão. Apesar da dor que causei, ela conseguiu se erguer um pouco do chão. Olhou a barriga incrédula e me fitou, falando alguma coisa que não entendi, embora soubesse que me interrogava do porque eu ter a curado em vez de eliminá-la. Eu não respondi. Pra dizer a verdade nem eu sabia a resposta. Eu era o guerreiro da tribo e ela uma invasora. Se alguém na minha aldeia ao menos desconfiasse do que fiz, eu seria trucidado. Ela ficou me encarando e eu a ela. Mas nossos olhares não tinham mais a fúria de antes e sim certa curiosidade. E desta vez, vencido pela atração que ela me exercia, eu quem avancei em sua direção. Ela estremeceu, embora no fundo soubesse que eu não iria fazer-lhe mal. Pois se quisesse já teria feito. Era minha curiosidade que me guiava e eu cheguei bem próximo dela e comecei a sentir seu cheiro. Era um aroma diferente. Os Garows não usavam perfumes, então aquele cheiro me despertou uma curiosidade inquietante e eu fui pegando cada parte de

173

seu corpo levando até o nariz. Sei que essa não era a forma mais civilizada de se cortejar uma mulher, mas o que eu podia fazer na época? Aquele cheiro era por demais tentador para que eu pudesse resistir, então, continuei a farejá-la. Dos braços fui escorrendo até o pescoço, do pescoço até a boca e foi ali senti seu hálito. Dali, corri para... Ah... o que foi Ana? Ah. Não está interessada nesses detalhes. Entendo. Mas foi tão legal e... Tá, tá, entendi. Você realmente não quer saber. Então vou pular essa parte. Bem, depois que nós... terminamos, vimos que estávamos muito tempo fora de casa. Logo a tribo iria mandar um grupo de busca a minha procura, pois como eu falei, eu era de certa forma importante para a aldeia. E ela provavelmente não estava naquela região sozinha. Então, eu a levei até os limites da nossa tribo e a deixei lá. Antes de nos despedirmos - sem palavras - ela me deu o primeiro beijo de minha vida. Hei! Não ria. Minha tribo não tinha o costume de beijar. Nem sabíamos exatamente o que era isso. Não fazíamos idéia do que aquilo significava e eu não pude retribuir e acabei ficando ali, parado, vendo o que ela fazia com a língua, embora fosse estranhamente bom. Então, ela se foi. Acabei por experimentar um profundo pesar no coração ao vê-la partir e tive medo de não voltar a encontrá-la mais. Eu nem sabia, mas, a partir daquele momento, eu estava completamente apaixonado por Catarina. Era claro para mim que eu devia era estar feliz em nunca mais vê-la e por ninguém ter nos pego em nosso encontro. Mas não foi assim e várias vezes eu voltei na clareira aonde a havia encontrado pela primeira vez no afã de revê-la. Mas cada vez mais parecia que nosso encontro não passava de um sonho. Até o dia em que estava caminhando pelos limites das terras dos Garow. Desta vez, eu estava em serviço quando senti uma presença próxima. Virei-me para encarar o que vinha e vi uma forma de energia que avançava rapidamente em minha direção. Não dava para ver o que era, pois, conforme avançava, ela levantava uma grande quantidade de neve que me ofuscava e quando resolvi tomar uma atitude foi um pouco tarde.

174

Um ataque me levou em cheio e eu caí a alguns metros mata adentro e quando fui me levantar, senti alguém subindo em mim, me imobilizando. Eu ia fazer mais força para jogar meu agressor longe, mas então pude ver que era Catarina quem estava em cima de mim. Ela ria um tanto, convencida por ter me pego tão bem. Nem sei dizer a alegria que senti com aquele ataque. Nesse dia eu me aventurei a segui-la por além das minhas terras, sem pensar nos perigos que podia estar correndo. Ela era uma feiticeira e eu estava totalmente sob seu poder. Mas não houve contratempos. Ficamos por toda a tarde nos divertindo, mesmo sem podermos nos comunicar com clareza. Apenas gestos já eram o suficiente para que nos entendêssemos. Na verdade, essa nossa relação bandida durou um longo tempo. Cerca de dois anos, mais ou menos. Para evitarmos ser pegos pelos meus companheiros, eu usava de toda a minha autoridade para manter possíveis transtornos fora do alcance, sempre mandando os grupos de busca seguirem por outra direção quando ia me encontrar com Catarina. Como nossa aldeia viveu em paz por todo esse tempo, minha presença não era mais tão cobrada e eu tinha umas horas livres. Nesse espaço de dois anos, finalmente aprendemos a arranhar os dialetos um do outro e tal avanço nos permitiu aprender muito sobre nós. Eu descobri que Catarina veio para aquela região com os pais quando tinha cerca de vinte anos. Ela era um pouco velha para ser solteira e dizia que isso se devia a seu gênio. Catarina era conhecida como espanta-maridos na colônia em que morava e seus pais já haviam desistido sobre lhe arrumar um pretendente. Mas isso não queria dizer que por estarem tão desesperados em deixar sua filha para titia, aceitariam um selvagem como genro. Ela me falou também sobre a sua vida na Rússia e o motivo que a fez vir com sua família a América: a Inquisição. Ali, ela podia praticar suas artes em paz. Além de maga, Catarina também tinha fortes vínculos com os necromantes, que faziam parte de uma ramificação de sua família. E esse foi justamente o ponto auge de nossa afinidade: o gosto pelas artes dos espíritos. Ela me contava aprendizados seus e eu tentava retribuir da mesma forma. Mesmo não tendo acesso direto às descobertas do nosso clã, eu de vez em quando... conseguia algumas informações. Mesmo falhando na tentativa de ser um Xamã e acabar me tornando um guerreiro, eu nunca desistira completamente de aprender mais e mais sobre

175

o pós-morte. E assim, envelhecíamos e aprendíamos um com o outro. E o primeiro item era justamente o que estava nos preocupando. Nós possuíamos quase trinta anos naquela altura. Éramos já bem velhos para o nosso tempo. Então, num dia ela me confessou uma coisa. A família dela estava estudando um tipo de arte um tanto revolucionária, tanto para os padrões de magia daquele tempo como para os nossos. Uma coisa tão inimaginável que mesmo nos deixando muito excitados com tal perspectiva, ambos não deixávamos de ter certa dúvida de que tal coisa fosse possível: uma forma de enganar a morte. Ela me levou vários estudos e os leu para mim. Catarina me contou sobre a Mortalha, a dimensão para onde vão as almas que ainda têm assuntos inacabados na Terra. Ela me disse ainda que era essa dimensão que poderíamos utilizar para enganar a morte. Não sei se vou fazer você compreender em que consistia o plano de Catarina. Sem ofensas, mas você ainda é nova nisso tudo e o assunto pode ser muito complexo. Pois bem, quando morremos, existe um mundo de passagem por aonde todas as almas vão para se purificarem antes de fazer a passagem definitiva. Mas este também é o lugar para onde alguns espíritos, que não conseguem fazer a passagem, ficam presos nesse liminar. Mas ela sabia mais. Sua família havia descoberto que sempre que morremos, existe ainda um vestígio de conexão com a vida. Em linguagem simples, é como se fosse uma linha de energia, que conecta o espírito ao mundo vivo e é justamente essa linha de conexão que prende uma alma na Mortalha. Ela só pode ser desfeita quando o espírito está completamente pronto para fazer a passagem. Então, ela queria usar essa conexão, que fica mesmo depois da morte física, para fazer a tal empreitada. Ela não sabia bem como. Sua família apenas havia bolado a teoria, mas sem idéias de como aplicá-la. Mas a coisa fazia sentido, afinal, haviam almas que conseguiam retornar ao mundo dos vivos. Embora essa forma não fosse muito agradável para nós. Mas as almas mortas podem voltar ao mundo dos vivos como demônios. Sim. São assim que eles se criam. Demônios foram antes de tudo seres humanos, que por ficarem presos no mundo dos mortos, acabaram por perder sua humanidade, se tornando monstros. Ah, como? Não. Não tem Lúcifer não.

176

Mas voltando ao assunto. Ela não sabia como continuar sua idéia e foi então que eu entrei no jogo, fazendo um acordo com Catarina, onde eu iria ajudar fornecendo dados conseguidos com os Xamãs de meu clã. Mas havia uma condição: a de que fosse um projeto só nosso. E ela aceitou. Naquela altura não sei o que mais me deixava ansioso. Se tentar algo tão maluco, se ir contra todas as normas do meu clã ou a possibilidade de viver para sempre. As três eram ótimas, mas a terceira me tendia mais. Foi então que numa madrugada, onde os Garow estavam dormindo, restando apenas alguns guerreiros acordados, que se mantinham vigilantes na fronteira, que eu me esgueirei para dentro do templo dos Xamãs. Eu havia entrado lá pouquíssimas vezes e todas de forma clandestina como aquela, mas nunca levei nada de lá como estava planejando fazer aquela noite. Vasculhando os nossos arquivos, eu encontrei uma verdadeira mina de ouro. Uma série de rituais e processos que eu não fazia idéia que pudessem existir. Ali haviam conversas psicografadas, rituais utilizados por demônios e outros espíritos e até mesmo a descrição exata do processo de possessão. Levei esse último que eu achei de utilidade e outros, por interesse próprio. Ninguém me viu sair de lá e o no dia seguinte me encontrei com Catarina e desde já, nos encorpamos no projeto. Durou cerca de mais um ano, com a velhice chegando cada vez mais depressa. É então que começa a parte complicada. Vou tentar ser sucinto. Nosso plano foi feito com base em um encantamento que encontramos nos registros de meu clã. De acordo com o que dizia, esse encantamento era forte o bastante para aprisionar uma alma numa espécie de bolha. Onde ela se mantém adormecida e controlada. Essa magia era utilizada para aprisionar espíritos encrenqueiros e podia ser lançada do nosso mundo. Era tão poderosa que conseguia atravessar as barreiras dimensionais e atingir o mundo dos mortos. E foi com base nela que preparamos nosso ritual. Então nosso ritual consistiria em três passos. Primeiro, preparar toda uma poção que seria depositada em algum recipiente. A poção seguia as bases do feitiço de aprisionamento de espírito. Segundo, a partir daí, tivemos que fazer uma oração todas as noites antes de dormir, a fim de preparar a

177

trajetória de nosso espírito na sua pós morte. O terceiro e último teria que ser feito na iminência da morte. Esse seria o passo em que teríamos de destrancar o selo que prende o ritual, liberando as energias contidas dentro do recipiente. Mas este encantamento tem que ser aberto no máximo, dez minutos antes da morte, se não, perde o efeito e todo o trabalho seria inútil. Enfim, depois que morrêssemos – isso em teoria – nossa alma seria automaticamente encoberta pela bolha mágica, mantendo nossos espíritos adormecidos enquanto vagava pela mortalha. Nossa decisão de manter nossos espíritos adormecidos tinha como finalidade a de impedir que os males do mundo dos mortos nos corrompessem. Não queríamos voltar como demônios. O segundo passo seria o seguinte: A oração que fazíamos todos os dias era o ritual ensinado por Catarina para guiar o espírito depois de morto. Nele, nós poderíamos fazer com que a linha da vida que prende todo o espírito guiasse nossa alma por determinado caminho depois de sua morte. E o caminho que escolhemos foi um que nos levasse direto para uma possibilidade de uma nova vida. Nossas almas seriam guiadas para seguirem atrás dos abortos. Calma, eu vou lhe explicar o que são. Abortos são fetos que são gerados sem alma no corpo da mãe. Eu não sei exatamente como esse processo ocorre, mas existem crianças que são geradas simplesmente para morrer depois e são justamente esses bebês que tendem a causar os abortos espontâneos. É claro que outras coisas também podem causar, mas enfim... Esses fetos vazios tendem a ser muito usados por demônios que querem fugir para o mundo dos vivos. Eles usam esses corpos para possuírem e assim garantir sua nova vida, anos depois. Não sei se estou sendo claro, mas o que essa teoria nos ajudou foi que pensamos poder usar a oração para nos direcionar para um desses fetos. É assim que viveríamos de novo. Assim poderíamos reencarnar infinitas vezes e sempre mantendo nossas memórias e características, que estariam conservadas dentro da bolha de proteção. Bem, no fim não sabíamos se tínhamos conseguido ou não, mas iríamos arriscar. Sei que pode parecer loucura, mas decidimos que para que não houvesse erros, iríamos garantir que nossa morte ocorresse em dez minutos após liberássemos o encantamento. E isso seria garantido por que chegaríamos à morte nos suicidando em conjunto.

178

Isso pode parecer um tanto drástico ou romântico, mas era o único jeito. Sem falar que estávamos já velhos e não teríamos muito tempo mesmo. Estávamos com medo e por isso marcamos a data de nossa morte para duas semanas depois de pronto o feitiço. Até lá, poderíamos organizar nossas vidas e nos despedirmos de nossos entes, sem, é claro, avisar-lhes do que íamos fazer. Então, eu preparei minhas últimas coisas na aldeia e me despedi de uns poucos amigos com uma comemoração. A verdade é que desde que conheci Catarina, minha vida social ficou um tanto limitada a ela e aos poucos me distanciei de minha aldeia em termos de relacionamento afetivo. Poucas amizades sobreviveram a isso. E no dia fomos até a caverna onde tivemos nossa primeira... você sabe. Escolhemos que lá seria nosso túmulo. Então, nos preparamos para fazer e, sem trocarmos palavras, liberamos o encantamento. Depois, nos posicionamos um de frente para o outro com as mãos erguidas. Logo começamos a concentrar ataques em direção ao coração um do outro. — Está com medo? – perguntei, enquanto mirávamos um no outro. — Lógico que sim – ela me respondeu com lágrimas nos olhos. — Quer desistir? - eu também chorava. A adrenalina era muito grande, mas agora batia um total arrependimento. E se não desse certo? — Lógico que não – ela respondeu e eu ri. A coragem dela acabou me fazendo desistir de dar pra trás. — Eu te amo – falei - espero que consigamos ficar juntos por mais anos. — Eu também – e me deu um beijo. — Então... um – eu disse — Dois... – ela continuou — Três! – gritamos os dois juntos. Depois tudo ficou escuro.

* — Minha nossa! – exclamou Ana boquiaberta. Era uma história fantástica demais para ser verdade, mas ao mesmo tempo não podia evitar acreditar. — Eu sei – concordou Ian, sorrindo nervoso. — E então, deu certo? Ian não respondeu fazendo apenas um gesto como quem dizendo: “Eu estou aqui, não?”.

179

— É verdade. Que idiota. - desculpou-se - Mas então... Você nasceu como Ian depois disso? Estranho, pensou automaticamente. Essa era uma história bonita demais, então, porque ele hesitou tanto em contá-la? — Na verdade não - corrigiu – houve outra vida antes desta. — Sério? Qual? — A de Lucien Verve.

180

22 – Lucien.
Bem, o que aconteceu após nosso suicídio é um pouco complicado. A magia criada por nós teria como função guardar nosso espírito adormecido em uma espécie de bolha, onde assim ficaríamos protegidos dos riscos da Mortalha e não correríamos o de nossas almas serem degeneradas ao ponto de nos tornarmos demônios. Essa magia é muito semelhante ao processo que os demônios usam para possuir os abortos e que se chama de Possessão Incubada. Nele os demônios, injetam sua própria alma dentro do corpo de um desses abortos e, mantendo sua verdadeira essência adormecida nos primeiros anos, conseguem garantir uma ressurreição anos depois. Durante esse processo, criam-se duas personalidades no recém-nascido. A primeira é a do próprio demônio, que esta desacordada nos primeiros anos. A segunda é uma personalidade artificial, moldada pelo meio onde a criança nasceu. Como ocorre naturalmente com qualquer ser humano. Nisso a criança nasce e cresce sem saber de sua essência demoníaca. Muitas vezes aquela criança cresce de forma bastante precoce e alguns já tendem a demonstrar maldade logo na infância. Até que quando se chega mais ou menos à puberdade, a memória do demônio surge e o corpo é totalmente possuído. Mais ou menos era isso que nossa magia iria fazer. Nossas almas possuiriam um desses corpos vazios antes de um demônio e assim conseguiríamos voltar. E da mesma forma que acontece com os demônios, aconteceu conosco, mas nos esquecemos de um pequeno detalhe ao fazermos a magia: não havia forma de controlarmos em que condições iríamos nascer. Nem no tempo, nem no espaço. E foi assim que eu acabei parando na Paris do ano de 1873. Eu nasci num período histórico um tanto conturbado: dois anos antes da experiência da Comuna de Paris. Tal acontecimento deixou a elite, não só da França como também de toda a Europa, em pavorosa. Pois as comunas foram como um presságio da grande ameaça comunista que se fomentaria com a União Soviética. Minha família fazia parte da nobreza parisiense, uma nobreza aburguesada, já que existiam poucas famílias realmente nobres no mundo do séc. XIX. Porém, quando a Comuna tomou a capital francesa, minha família teve de se mudar para Lyon, lugar onde cresci.

181

Meu pai era dono de um grande estabelecimento de perfumes na capital francesa e por conta dos negócios, fiquei separado dele por muitos anos. Minha mãe não era bem o que chamamos de mãe hoje em dia. Por isso minha babá teve de suprir essa falta. Trabalho que ela fez muito bem. Eu cresci como qualquer garoto burguês, cercado de mordomias e aprendendo desde cedo a tratar as demais pessoas como lixo. Mas a grande verdade é que apesar de toda a comodidade das cidades ainda havia alguma coisa que sempre me inquietava. Na época eu não sabia o que, mas eu sempre me sentia sufocado dentro de nossa casa. Eu tinha um desejo de ser livre que não sabia de onde vinha, até que completei meus treze anos e o processo de recuperação da memória se iniciou. Um processo doloroso e confuso, pra dizer a verdade. Naquele período eu já não sabia mais quem eu era. Lembranças de coisas que eu não vivi começavam a aflorar e por muito tempo minha família começou a considerar que eu estava enlouquecendo. Se não fosse para manter a boa imagem da família eles teriam me jogado em algum sanatório, prática que começava a ganhar fama naquele período. Ainda bem que eu era o único filho deles, se não esse seria meu destino. Mas o tempo começou a colocar as coisas em ordem. Finalmente eu recuperei toda a minha antiga vida e meus antigos poderes, que eu tratei de esconder de minha família. Então ficou claro o que me amargurava todos aqueles anos: primeiro, eu sentia falta da natureza, aquela cidade grande me incomodava, nunca fui fã de multidões. E em segundo, tinha Catarina. Onde estaria? Dos treze anos até os dezesseis, minha vida foi bastante apática. Mesmo estando feliz pela magia funcionar, eu ainda me sentia incompleto. Nós não cogitamos a possibilidade de nunca mais nos encontrarmos, mesmo que isso estivesse na nossa cara. E foi então que eu percebi que poderíamos ficar renascendo em períodos diferentes e sempre nos desencontrando pelo resto da eternidade. E foi quando eu comecei a ficar mais triste. Eu não tinha mais ânimo para nada, nem para as lições ou para os assuntos dos Playboys franceses. Foi quando me houve a idéia de fugir. Vagar pelo mundo novo aprendendo sobre aquela época e - com um pouco de sorte - tentando encontrar Catarina. Sim, fugir era a melhor coisa. Eu não tinha nascido para viver daquele modo e também não tinha me arriscado tanto pra isso. Eu queria correr o mundo e aprender mais sobre ele. Mas como faltavam apenas alguns meses para eu completar minha educação básica, decidi esperar. Eu tinha aulas particulares em nossa mansão e meu pai sempre

182

me levava para Paris a fim de me mostrar seu negócio. Ele nunca me escondeu que tinha o desejo de que eu continuasse o legado da família e eu também nunca disse que teria que decepcioná-lo. Mas no fim, isso não seria um grande problema, afinal, estava para nascer meu irmão Carlinhos, e eu sabia que este ficaria feliz em herdar toda aquela fortuna. No começo foi uma benção ser filho único, mas agora eu dava graças por ter um irmão. E foi quando faltava apenas uma semana para eu completar meu ensino básico que fui para uma festa em homenagem a perfumaria de meu pai, em Paris. Várias pessoas da alta sociedade estavam lá e eu vagava pelas alas do grande casarão onde o evento acontecia com minha taça de vinho sem prestar muita atenção nas coisas a minha volta. O nome de meu pai garantia que eu fosse constantemente abordado na festa. Eram sócios querendo saber meus planos para quando assumisse ou oferecendo conselhos prévios. Eram mães querendo arranjar um pretendente para suas filhas. Eram pessoas que simplesmente não tinham nada a fazer e puxavam o primeiro para uma conversa informal. Enfim, nada de interessante. Até que vi uma coisa que me deixou pasmo e fez com que meus dedos perdessem a força, levando minha bebida ao chão. Eu não me preocupei em abaixar para pegá-la de tão hipnotizado que estava. Uma empregada veio rapidamente limpar a sujeira que eu tinha feito, pedindo para que eu não me preocupasse. Mas nada me tirou a atenção da mulher que lá estava sentada, sozinha nos fundos do salão com uma expressão de tédio. Ela era linda, mas acima de tudo: era minha Catarina. Eu não sabia como, mas eu tinha certeza que era ela. A mulher à minha frente era loura, tinha as feições muito delicadas e usava roupas cheias de requintes, que Catarina jamais usaria, mas era ela. Eu não poderia lhe dizer de onde vinha tanta certeza, mas tinha. Podia ser um efeito da magia. Quem sabe, por termos morrido juntos, não éramos capazes de reconhecermos a alma um do outro. Mas eu estava eufórico. Minha vontade era de correr até ela e lhe falar tudo. Pegá-la e arrancar-la daquele lugar que a entediava tanto, mas uma coisa me deu medo. Eu não sabia como eu havia a reconhecido, mas e se ela não fosse capaz de fazer o mesmo? E se ainda não tivesse recuperado toda a memória como eu fiz? Ela me acharia maluco? Iria me jogar na cara a bebida que tinha em mãos?

183

Eu tinha que acalmar meus impulsos, então decidi falar com um de meus amigos na capital. Olhando em volta, não demorei a encontrar Olívio, cujo pai era grande amigo do meu e morava na região. Então, fui falar com ele: — Me diga Olívio - disse tentando dar pouco caso a pergunta, embora minha euforia tornasse isso impossível – quem é aquela dama que está sozinha no canto? Olívio olhou em volta até encontrar a pessoa da qual eu me referia e quando a viu, segurou uma risada e me encarou com olhar espantado. — O que houve? - interroguei. — Você realmente não sobreviveria um minuto aqui sem mim meu amigo - disse ele passando o braço por meu ombro e me falando ao ouvido. — Por quê? O que há de errado com aquela jovem? - perguntei — Bem - ele começou, ainda achando graça – se você gosta de levar um fora e acabar com sua vida social em Paris, não há nada de errado. Ele continuou se divertindo e eu esperei. — Aquela é Adele Tissot. Uma verdadeira espanta pretendentes, meu amigo. Todos os rapazes que tentaram algo com ela foram enxotados como cães. Se você preza a sua popularidade por aqui, meu amigo fique longe dela. Espanta pretendentes, eu já tinha ouvido isso. Sem dúvida era minha Catarina. Não esperei mais e fui lá, ignorando completamente o aviso de Olívio. — Com licença – foi tudo o que eu precisava dizer, pois no momento em que ela se virou para me encarar, sua expressão de desprezo desapareceu. Seus olhos ficaram arregalados e ela me olhava como se eu fosse um fantasma. Eu reconheci muitas de minhas reações ali. Primeiro e descrença, depois a alegria. Ela abriu um grande sorriso ainda receoso. — É... você? – ela perguntou se levantando. Catarina, ou Adele, ainda parecia desacreditada e erguia a mão para me tocar, acreditando que talvez eu fosse incorpóreo como uma ilusão. Apesar de seu receio, bastou apenas um gesto meu confirmando com a cabeça para ela se lançar em volta do meu pescoço. — É você! Eu... eu nem acredito – ela não gritava, mas o volume de sua voz já era o suficiente para atrair a atenção das pessoas próximas a nós. — Quer sair daqui? – recomendei — Melhor – disse, visivelmente encabulada com os olhares que despertamos.

184

Fomos então para o jardim e eu pude ver o queixo caído de Olívio me acompanhando enquanto eu saía do salão.

* — Nossa! Que sorte, não? – maravilhou-se Ana. — É, eu sei – respondeu Ian, animado – as chances de acabarmos parando na mesma era eram muito poucas. Mas parecia que o destino estava ao nosso favor. — Ela continuava bonita como antes? – Ana tentava não dar muita importância a pergunta. — De forma diferente, mas sim – começou Ian, fitando a chuva pela janela – na verdade eu sempre a via como a minha Catarina. Então ele se levantou e andou em direção a sua cômoda e, dali, pegou uma folha de papel aonde tinha a imagem desenhada de um rosto feminino. — Esse era o rosto de Catarina. - ele disse, entregando o papel - Esse é o rosto que eu via apesar da mudança de corpo e é o rosto que eu ainda me lembro pertencer a ela. O rosto retratado no desenho era muito bonito e Ana acabou sentindo uma leve pontada de ciúme daquela mulher tão bem reproduzida. — Não sabia que tinha talento pra desenho - comentou. — Aprendi como Lucien. - ele respondeu – Desenho fazia parte de minha educação. E Ana continuou a olhar o retrato percebendo, que ela tinha traços bem demarcados e uma expressão de profunda força e sabedoria. Catarina tinha cabelos na altura do pescoço com uma franja lhe caindo no rosto. Por um segundo Ana sentiu certa familiaridade com aquela mulher, mas logo foi substituída novamente por inveja, pois a maga era linda demais e não tinha uma franja rebelde lhe estragando o penteado. Pelo rumo que ia tomando a história, Ana duvidava que ela pudesse ter alguma tragédia ao fim. Era tudo perfeito demais. Eles agora eram imortais e poderiam viver seu amor pela eternidade. O que poderia dar errado? E foi quando lhe houve um estalo na cabeça e uma idéia, talvez maluca, se amostrou para ela. Pois, se eles haviam conseguido seu intento e se agora poderiam reencarnar infinitas vezes, onde estava Catarina? Eles teriam se desencontrado ou... Não! Não podia ser. Ana não podia acreditar naquela possibilidade. Seria... Seria Solange? Teriam eles reencarnado na mesma era só que com idades diferentes?

185

Isso explicaria o beijo. Ana sentiu seu peito apertar com a expectativa. A visão do beijo ainda a incomodava muito, mas ela tentou ignorar. Queria prestar atenção na história.

* Bem, você já deve imaginar a felicidade que senti por poder tê-la novamente. Catarina, ou Adele, tanto faz, tinha uma vida muito semelhante a minha. O pai dela também era um grande comerciante, só que na área de jóias, e ela também vivia a vida de pobre menina rica. Ambos estávamos entediados com tudo e todos à nossa volta e não tínhamos criado vínculos com ninguém nessa nova vida. Então, nada nos prendia ali. Sentíamos falta de nossa vida livre e bandida de antes. E agora éramos jovens de novo, cheios de saúde e com muita experiência acumulada. Não demorou muito para que decidíssemos adiantar a nossa viagem pelo mundo. Sairíamos só nós dois, atrás de aventuras e de alguns de nosso grupo também. Afinal, éramos uns dos poucos magos que ainda restavam no planeta e os existentes, viviam escondidos agora. Assim, naquela mesma noite, fugimos. Levando poucas coisas e deixando todo o resto pra trás, nossa vida passou a ser uma aventura constante. Coisa que adorávamos fazer era andar pelas ruas desertas e pelas estradas escuras das cidades. Esses eram os locais por excelência dos assaltantes e outras formas de criminosos e nós éramos a isca. Era sempre divertido ver essas pessoas correrem feito loucas ao tentarem confrontar a gente. Na verdade, fomos bem úteis para reduzir o índice de crimes de algumas cidades por onde passamos. Daí, descobrimos uma forma de ganhar dinheiro para sobreviver com honestidade. Eu e ela nos Tornamos caçadores de recompensas. Vagamos pelas cidades atrás de criminosos hediondos e nos mantínhamos com o dinheiro pago por suas capturas. O mundo naquele tempo já havia se tornado muito cético e assim as pessoas comuns estavam muito despreparadas para gente como nós, mas logo vimos que mesmo assim, não estávamos completamente seguros. Descobrimos de uma maneira não muito legal que não tínhamos mais a mesma segurança para agirmos como nós mesmos, como acontecia quando éramos Kalish e Catarina.

186

Os inquisidores já haviam dominado grande parte do mundo e a caçada a nós dois foi apenas questão de tempo. Numa de nossas empreitadas, recebemos a missão de invadir uma mansão, onde se dizia que uma jovem, filha de um nobre local, era mantida em calabouço. A recompensa para se trazer a menina era ótima e logo pegamos o serviço descobrindo o local do cárcere. Chegando lá, vimos se tratar de uma armadilha e quase fomos mortos se não fosse a nossa sorte em achar uma passagem secreta dentro da mansão que nos permitiu fugir. As armas dos Inquisidores haviam melhorado muito naquele tempo e suas táticas para nos apanhar também. Naquele tempo, os Iluminados ainda eram seus aliados, o que nos deixou em maus lençóis. Mas mesmo assim, conseguimos escapar. E foi quando nos demos conta do óbvio: de que poderíamos morrer. Lembramo-nos então de nossa antiga magia de enganar a morte e decidimos prepará-la de novo, por via de dúvidas. Fizemos nossa poção e passamos a rezar todas as noites. Essa seria nossa apólice de seguro para imprevistos. Nossa carreira foi indo bem. A cada ano que se passava, ficávamos mais espertos e sabíamos contornar as situações para não sermos mais vítimas dos Inquisidores. Conhecemos também algumas das poucas organizações mágicas ainda restantes. Todas escondidas naquele tempo. E tais encontros sempre nos obrigavam a sair da cidade mais cedo, pois as organizações não sentiam confiança em nós e tinham medo que nossas façanhas atraíssem a inquisição para sua cidade. Éramos discretos, mas nem assim conseguíamos manter residência numa cidade por mais de um mês se nela já houvesse algum grupo mágico. Eles não queriam se arriscar. Era compreensível. Na verdade, foi numa dessas visitas, quando conhecemos um grupo de Irmãos da Rosa, que descobri uma noticia que me deixou apavorado: Meu clã havia sido dizimado. Eu estava na residência de Emanuele Cristof, no Reino Unido. Ela era um membro da Irmandade da Rosa e foi quem me deu tal notícia. — Mas como? – indaguei perplexo. — Ninguém sabe – ela me disse enquanto vasculhava documentos em sua cômoda. — Impossível - eu não queria acreditar, O que aquela mulher sabia afinal? Foi então que ela finalmente encontrou o que procurava, me trazendo um pedaço de pergaminho velho que me entregou

187

— Essa é uma parte do diário de Arman Medved, uma das primeiras testemunhas do massacre da aldeia Garow. Acho melhor você ler. Eu peguei o documento de sua mão e comecei a ler

Eu não sei descrever a brutalidade de tal cena. Era horrível e de certa forma, fascinante. Os antigos Garow, que habitavam as regiões congeladas do novo mundo, temidos e respeitados por seu poder, agora estavam extintos. Nessa manhã, eu fui adentrar a fronteira das terras desse clã. Meus amigos não se atreviam a nem mesmo chegar perto de tal lugar, pois, apesar de os Garow serem um povo muito pacífico, invasão em seus territórios era uma coisa que não toleravam. Todos os que ali se aventuravam não retornavam. Eu, na verdade, era uma exceção rara. Desde minha infância sempre tive ótimas relações com os desta tribo. Isso porque minha família manteve um forte vínculo estratégico com os Garow, lhes fornecendo informações vitais sobre as ações dos colonos nas terras da América do Norte. Assim, eu sempre tive aval para atravessar suas fronteiras e até me familiarizava com muitos dali. Um povo sem classe, devo dizer, mas sem dúvida agradável a sua maneira. Enfim, quando eu fui esta tarde para mandar-lhes informações de um grupo de saqueadores que planejavam uma intentona contra a aldeia, a cena vista me surpreendeu. O branco da neve fora forrada com o rubro do sangue de dezenas, se não centenas, de Garows. Não encontrei nenhum membro vivo para contar o que aconteceu e quanto mais eu andava, mais tinha certeza de que só havia cena de destruição e morte para se ver. Mas a causa? Esta não era encontrada. Olhando os corpos, podia-se ver as marcas fundas de arranhões e mordidas, com feridas abertas elevando o cheiro de sangue até minhas narinas. E analisando a situação eu só pude chegar a duas conclusões: Ou os Garows acabaram por encontrar outra tribo mais selvagem e mais poderosa que a deles, ou, do dia para a noite, eles resolveram matar uns aos outros.

188

O documento acabava ali. — Isso não pode ser original – eu replicava — Original não é. – ela confirmou – É uma tradução, mas o depoimento é verídico sim. Algumas excursões foram enviadas para a América do Norte, a fim de saber mais do ocorrido e comprovaram o depoimento de Arman. Todos os membros do clã Garow foram brutalmente assassinados. Eu ainda lutava para não acreditar, não podia acreditar. — E o que a senhora acredita que foi? – Adele, que se mantinha ao meu lado, perguntou. — Sinceramente não sei. – ela deu de ombros - Eu acho difícil de crer que os Garow tenham resolvido matar uns aos outros, mas também não se há registro da existência de um grupo capaz de tal genocídio. - E depois ela se virou pra mim com curiosidade – E qual é seu interesse por esse clã em especial? — Interesse puramente acadêmico - respondi, olhando o chão. Apesar de termos relações com muitos magos, nunca contamos nosso segredinho pra ninguém. Sabíamos que se alguém suspeitasse da existência de uma magia que pudesse vencer a morte, haveria guerras atrás dela. Mas aquela explicação não me fora suficiente e, no dia seguinte, eu e Adele estávamos num navio para os EUA e de lá, rumaríamos às antigas terras do meu clã. Adele me consolava por toda a viagem. Eu, no fundo, já imaginava que isso pudesse acontecer um dia, porém, ainda era difícil crer no extermínio de meu clã, ainda mais de forma tão rápida e definitiva. Mas eu tinha Adele naquele momento e ela era meu porto seguro. A viagem foi conturbada, mas chegamos. Eu estava muito pra baixo e Adele tentava me animar de muitas formas. Mas era inútil. Eu sentia que ela começava a se irritar com meu humor e a se cansar de mim. Ela ficava com o pensamento distante em algumas horas, como se tivesse um peso muito grande nos ombros e eu sentia que isso era culpa minha. Mas no momento eu não conseguia fazer nada para remediar. Esperava que a visita à minha terra pudesse resolver meu problema e salvar minha relação com ela. E foi então que Adele me deu a idéia de naquela noite interrompemos viajem e ficarmos bebendo no bar local até enchermos a cara. Eu não estava muito afim, mas o que eu poderia fazer... Aquela mulher me controlava e eu devia muito a ela. No fim, foi

189

tudo muito divertido. Bebemos, falamos besteira e brincamos... Estava tudo indo bem quando decidimos terminar a noite com chave de ouro... Então fomos para o quarto do nosso hotel alugado e nos entregamos a nossa paixão que existia por mais de um século. Paixão que sobreviveu a morte...

* Mais uma vez o clima havia ficado pesado. Nesse momento, Ian passou a fitar o chão, calado. Sua expressão emanava uma dor aguda e Ana pôde ver seus olhos vermelhos segurando as lágrimas. Ana estava curiosa, mas não se atreveu a falar nada, aguardando ele continuar. Pensou em dar um incentivo, mas vendo suas expressões, começou a se questionar: Ela queria saber realmente saber o que aconteceu? — Aí eu apaguei – continuou, e Ana segurou a respiração – Não me lembro de mais nada depois disso. Só quando acordei... — E... o que aconteceu? - perguntou em voz baixa. Se tivesse algo de ruim naquela história, era ali. — Eu acordei com um cheiro forte de ferro que invadiu as minhas narinas. Ao me levantar, tentei me acostumar com a claridade que entrava pela fresta da janela e foi quando senti algo molhado na parte onde eu havia apoiado a mão para me erguer. – ele deu um forte suspiro antes de continuar – Era sangue. Na verdade a poça em cima do colchão não era a única. Por todo o quarto, nas paredes, no chão, tudo estava vermelho. E num canto do quarto... jogada... sozinha... estraçalhada... estava... — Meu Deus! – ela murmurou — Eu não entendi na hora como isso havia acontecido. Eu estava completamente sujo também e demorei a acreditar no que via. — Achei que fosse um pesadelo e que logo despertaria, mas eu não acordava. - ele começava a aumentar o tom e o ritmo da voz à medida que ia continuando - Seu corpo estava estilhaçado, haviam feridas abertas por toda a parte que eu tentava curar, mas... as feridas de Adele... mas era inútil. Ela já estava pálida pela perda de sangue... e... Estava morta. Ele agora se balançava segurando as mãos com força por cima da perna. Dava para ver que era muito dolorido trazer aquelas lembranças à luz de novo e Ana começou a se sentir péssima por ter lhe pedido para que contasse aquela história. Mas agora a curiosidade estava aflorada nela de tal forma que não pôde segurar a próxima pergunta:

190

— Mas quem faria uma coisa dessas? Nesse momento, como em um filme de terror barato, um relâmpago iluminou o quarto mostrando o rosto do garoto. Ele a olhava com aquela expressão que Ana conhecia muito bem: Culpa. Ana levou a mão à boca para conter o grito que queria sair de seu pulmão a qualquer custo.

191

23 – A Besta
Sim. Fui eu mesmo. Na época também não acreditei. Não sabia como isso poderia acontecer e vaguei por toda a cidade atrás do possível assassino, mas minhas buscas só me faziam ter maior certeza de minha culpa. E o pior. Serviram para fazer mais vítimas. A história vai começar a ficar um pouco pesada Ana e eu vou entender se você quiser ir embora. Vou compreender se não quiser me ver nunca mais, se estiver com medo de mim. Pois já faz muitos anos que eu também tenho medo de mim. Ah... Como? Quer continuar? Por quê? Esse é um risco seu, mas... Eu sinceramente não queria continuar. Eu sei, eu lhe fiz uma promessa e vou lhe dizer tudo o que quiser saber. Então tá, lá vai... Na hora, eu não pensei que eu mesmo pudesse ter feito aquilo. Apesar de eu ter grande quantidade de sangue nas mãos e na boca e até mesmo sentir o gosto dele cada vez que engolia saliva, eu não queria acreditar que tinha feito aquilo. Então, fui atrás do culpado com toda a sede de vingança que meu coração permitia produzir e com ela, vaguei pelas ruas da cidade de Michigan. Eu havia sabido que nenhum dos outros hóspedes do hotel havia ouvido nada na noite anterior. Quem quer que a tenha matado, foi tão rápido que não houve tempo para reação. E foi enquanto eu tentava caçar um culpado, que os apagões aconteciam com mais freqüência. Cada vez que acreditava encontrar um suspeito, minha raiva era tão grande que me fazia apagar. Eu dormia e sempre amanhecia num lugar que eu não conhecia, banhado de sangue. Geralmente eram terrenos baldios e outros locais esquecidos do mundo e sempre que eu voltava para saber sobre o meu suspeito da noite anterior, descobria que ele fora brutalmente assassinado. Apesar de lutar para me manter ignorante, como alguém que se recusa ver uma verdade que está exposta a sua frente, não demorou muito e eu finalmente pudesse enxergar o culpado quando olhava para o espelho. E mesmo naquele momento eu ainda tentava lutar contra tal idéia, mas não tinha mais como. As provas estavam lançadas na minha cara. Uma parte de mim parecia voltada a matar. E o pior, essa parte conseguia manter o controle sobre mim muito regularmente. E foi então que comecei a identificar algo diferente em mim.

192

Uma presença, uma besta talvez. Então eu tive a certeza de que eu era o monstro que estava caçando. Ele morava dentro de mim. Eu não entendi quando ou porque aquilo havia começado, mas era assim e eu começava a sentir medo de mim mesmo. Medo do que sentia. Com o tempo, fui percebendo mais sobre essa Besta. Raiva, adrenalina, excitação, tudo isso era motivo para eu apagar e acordar cheio de sangue. Eram os estopins da Besta. O que a fazia se libertar e assumir o controle sobre de mim. Foi então que eu comecei a me policiar em tudo o que fazia. Evitava brigas ou qualquer forma de estresse. Na verdade, eu comecei a evitar as pessoas. E me isolei. Eu não podia mais confiar em mim e acabei me condenando a anos de solidão. Mas eu não estava verdadeiramente sozinho, pois para todo o lugar para onde eu ia, duas coisas me acompanhavam: A primeira era a besta, sempre a espreita, sempre alerta, esperando meu próximo deslize, esperando eu perder o controle de mim mesmo para ela assumir. A segunda era a culpa. E foi quando comecei a ter pesadelos. Eu via Adele gritando, pedindo para que eu parasse, mas eu não o fazia. Eu sentia a sede do sangue, sentia prazer com seu sofrimento. Sinceramente, eu não sei como não enlouqueci. Não sei nem o que me mantinha vivo naquela época. Talvez a covardia de por um fim em mim mesmo. Eu não podia amar, não podia me entregar a nenhuma forma de prazer, eu não podia nem sentir raiva. Passei então a ser um mecânico, tudo o que fazia tinha de ser de forma fria, imparcial. Eu não me dava mais a chance de sentir nada. Não queria descobrir outras sensações que pudessem vir a libertar a besta dentro de mim. E não demorou muito para que eu me considerasse morto por dentro. Houve uma ocasião em que uma prostituta nas ruas de Virgínia veio mexer comigo. Aquela havia sido uma das poucas situações em que eu, cansado de ficar enjaulado, me arriscava a andar junto das pessoas. Ela então perguntou se eu não estava interessado em um programa e como não aceitava, deve ter achado que seria uma boa idéia me atiçar com um carinho. Um carinho não muito costumeiro e pouco ortodoxo por assim dizer. Mas apenas isso já foi o suficiente para eu sentir uma espécie de ódio dentro de mim. Um ódio que eu já estava acostumado a sentir, mas que lutava para conter. Naquele instante meu corpo tremeu e por pouco não apaguei. Não sei o que aquela

193

moça viu ao olhar para meus olhos, mas sei que foi o suficiente para fazê-la sair correndo e gritando socorro. E eu saí de perto antes que alguém chegasse. Um simples toque já me transformava em um monstro. Mas nada me doía mais do que lembrar de Adele. Os sonhos começavam a me perseguir com maior freqüência e eu acordava todas as noites banhado de suor. A culpa era avassaladora. Eu me contorcia de dor só de pensar no que aconteceu naquele momento. Ela teria sofrido muito? Não, eu sabia que não. Nenhum dos vizinhos escutou nada, nenhum grito. Porém, isso não me aliviava nem um pouco. Eu a tinha matado e nem sequer dei a ela a chance de se defender. Mas se eu tivesse dado? E foi quando me lembrei do colar. Será que ela teria tempo de ativar o feitiço e se salvar? Talvez ela pudesse ter morrido, mas garantido sua próxima reencarnação. Era uma esperança que eu mantinha viva no peito, pois só assim para conseguir sobreviver. Foi então que eu decidi que eu tinha que tentar entender o que havia acontecido com o meu clã. Saber o que estava acontecendo comigo mesmo. Assim, decidi sair de meu retiro, embora continuasse a me privar dos locais públicos. Viajando pela América do Norte, fui para a antiga aldeia Garow, para tentar encontrar algumas respostas. Mas nada encontrei a não ser escombros. Parecia que ninguém mostrou interesse naquelas terras depois do ocorrido e acabaram a deixando abandonada a maneira como estava. Os documentos dos Xamãs, entretanto, foram saqueados. Nada sobrou que pudesse me ajudar e foi quando comecei a vagar pelo mundo atrás de ajuda. Mas em todos os lugares que passava, quando os magos descobriam o meu caso, ou me viravam as costas ou me erguiam as armas. Todos eles viam o monstro que eu era e queriam me eliminar por isso. Talvez eu devesse ter deixado. Quem sabe assim poria um fim a tudo. Oi? Como? Ana, por favor. Será que você não está escutando nada do que estou lhe falando? Eu matei a mulher que me amava. Eu matei inúmeras pessoas. Se isso não em faz um monstro eu não sei mais o que pode fazer. Eu fiquei sozinho por tanto tempo... A única coisa a que eu me prendia era a possibilidade de que Adele pudesse ter se salvado, mas até essa começava a me abandonar. Com o tempo, a esperança foi morrendo. Se meu ataque foi tão rápido que não houve tempo de reação, que chances ela teria de ter ativado o feitiço?

194

E foi então que um dia, quando eu estava em uma das partes mais altas da montanha Maciço Logam, após uma boa escalada – hábito que eu havia adquirido para passar o tempo. Quando todas as minhas esperanças, tanto de acreditar na salvação de Catarina quanto na minha, haviam se esvaído. Quando eu não encontrava mais nada que me prendesse a vida que não fosse minha covardia de acabar comigo mesmo, que, eu olhei para baixo e me senti tentado. Eu não tinha mais a quem recorrer. Só de uma coisa eu sabia. O porquê de meu clã ter sido dizimado. De alguma forma, os Garow haviam sido amaldiçoados e essa Besta fazia parte de nós. Eu até era capaz de ver a cena ser reproduzida em minha mente: A aldeia inteira possuída pela besta. Irmão matando irmão. Vizinho estraçalhando vizinho. Mãe atacando filho. Ali todos se mataram, mas no meu caso, não tinha ninguém para me matar. É claro que a fila pra isso era grande. Além dos inquisidores que queriam a minha cabeça, havia também inúmeras sociedades mágicas que desejavam minha morte, por me considerarem uma ameaça. A fila era extensa e eu tinha até mesmo o direito de escolher como ser morto. Esse é um privilégio de poucos. Mas de todas aquelas opções, a que estava bem abaixo de mim era a mais tentadora. E foi quando eu me permiti pensar na sensação da queda. Como seria? Qual deveria ser a sensação de ter seu corpo livre no ar, caindo e caindo até que, no fim, acabasse? Aquele desejo começou a crescer dentro de mim e só faltava mais um pouco para que ele fosse forte o bastante para me criar coragem, nem que fosse por uma fração de segundos, que eu aproveitaria sem pestanejar. Olhei para o meu colar. A idéia de tentar nascer novamente me tomava. Talvez se eu tivesse uma chance de recomeçar. Mas eu não tinha esse direito. Talvez, na nova vida eu estivesse livre dessa maldição que me acometeu. Mas eu não acreditava fielmente nisso. Sabia que se aquela besta esperou cem anos para aparecer, ela não se importaria de esperar mais alguns e me pegar na próxima vida. Então eu me acheguei para perto da beira do penhasco. Ali, olhando para as estrelas que pareciam tão próximas de mim, eu falei com Catarina. Desculpei-me, e prometi que iria ao seu encontro para que ela pudesse acertar as contas comigo. E quando a coragem veio na forma de um lampejo de loucura, eu saltei.

195

* E a narrativa havia acabado e Ana não sabia mais o que falar. Não sabia se devia consolá-lo, se chorava, ou se sorria pra dar-lhe ânimo. Todas as opções pareciam idiotas e inúteis Não sabia nem o que pensar. Impossível, pensou. Apesar de toda aquela história, Ana sentia total dificuldade em acreditar nela. Ela conseguia crer que Ian tinha conseguido enganar a morte, que ele tinha realmente matado Catarina, mas se recusava a olhar para ele e ver o monstro que ele tanto se referia. E foi quando lhe veio, mais uma vez, a imagem do beijo na beira da piscina e os olhos azuis que ali se manifestaram pela primeira vez. Um frio correu por sua espinha, mas Ana manteve a calma. — E então nasceu o Ian que você conhece – ele encerrou. — Mas eu não entendo – ela falou – você não usou a magia de reencarnação, então por que... — É eu não usei. Pelo menos não de forma consciente. - respondeu – Eu cometi um erro. Ao pular usando o colar eu fiz com que ele se ativasse sozinho. Você tem que entender uma coisa sobre magia Ana: ela é a extensão de sua vontade, de seus desejos. Quando saltei, estava realmente decidido a por um fim a mim mesmo. Mas no fundo ninguém quer morrer. À medida que fui caindo, o medo da morte começou a me tomar. No fundo eu queria viver e foi esse desejo somado ao desespero que fez a magia se ativar por si só. Então, mesmo sem querer, eu reencarnei. — Que bom – comentou Ana. — O que? - ele ficou surpreso. - Que merda é essa que você está falando? — Que bom que você pôde ter mais uma chance. — Eu não acredito no que estou ouvindo – o garoto ria perplexo, como se Ana estivesse lhe fazendo uma brincadeira de muito mau gosto - Será que você não entende a gravidade de tudo isso? Não entende por que fugi de você na piscina? Não sabe que do contrário você estaria no lugar de Catarina hoje? - e continuou desolado - Eu fiquei tanto tempo sem sentir o gosto de uma boca, que seu beijo foi demais para mim. Eu lutei muito para não perder o controle, mas... Um beijo apenas quase pôs tudo a perder. A tristeza de Ian era quase que palpável para Ana o que a fez sentir-se remoída pela pena. Mas além dela, uma sensação de culpa também começou a se fazer presente, pois, no fundo, ela sentia que era responsável pelo que quase aconteceu. Isso por que,

196

por dar ouvidos à Laila, quase pôs a própria vida em risco e obrigou Ian a reviver os fantasmas do passado. — Entendo se estiver com medo de mim agora - ele disse desanimado - e pode ir embora se quiser. — Eu não estou com medo – disse sinceramente – mas estou em dúvida. Então, quando seus olhos estão azuis eles... — Nem sempre – disse com a voz cansada – Como eu disse, isso é uma característica do meu clã, que me acompanhou mesmo depois da morte. Mas elas ficam inativas a maior parte do tempo e só aparecem quando eu as invoco ou... — Sei – interrompeu. Agora, olhando-o ali, sentado no chão, com seus olhos vermelhos que lhe veio um desejo quase infantil, mas que não pôde ser reprimida – Você... poderia me mostrar então? — O que? – perguntou surpreso — Eu só gostaria de ver de novo. Com mais calma. Agora não seria uma demonstração, como você mesmo disse. — Você é louca? — Talvez. Já estou me acostumando a isso. - ela sorriu. Ana realmente sentia uma vontade louca de vê-los de novo, sensação está que a acompanhou desde o sítio. Só que naquele momento, havia uma razão a mais para olhálos. Queria se certificar de uma coisa. Ian a fitou por um longo tempo esperando que ela desistisse da idéia, mas a garota não pareceu ceder. Então, o garoto deixou o ar sair dos pulmões num sinal de desistência e fechou os olhos. Quanto os abriu novamente, estavam naquele mesmo azul intenso que Ana se lembrava. Mais uma vez ela não pôde fazer mais nada a não ser olhar para eles, perdida naquela cor. Eram muito bonitos de se ver e muito diferentes do azul habitual. Esses eram sobrenaturais. Era fascinante ver como aquelas pupilas negras e muito pequenas, que deixavam o azul dominar toda a região da íris, fitavam-na naquele momento. Como se quisessem silenciosamente que ela saísse dali. Que fugisse. Ian ergueu a mão propositalmente para que ela pudesse ver as garras que saiam de cada dedo. Ele parecia realmente determinado a assustá-la com isso, mas não conseguiu. Ao invés de fugir, Ana segurou sua mão sentindo o calor da pele. Estava muito curiosa e

197

deixou que seu dedo escorresse pelo dele e, ao passar por uma unha, sentiu ela lhe cortando a carne. — Ai! – gemeu, enfiando o dedo na boca. — Desculpe – disse, recolhendo rapidamente a mão de volta. — Não foi culpa sua - Ana o acalmou – foi um acidente. Não sabia que eram tão afiadas. Depois de sugar a sangue que escorreu pelo ferimento, ela ergueu a mão para tocar-lhe no rosto. Ian hesitou no primeiro segundo tentando desviar a cabeça, mas Ana a segurou com mais firmeza. Sentindo-se um bebê que descobria o rosto de um adulto ela tocou seus lábios com os polegares elevando-os um pouco. Debaixo da pele, uma fileira de dentes brancos apareceu. Eram bem cuidados sim, mas não era isso que a tinha encantado. Ao contrário dos normais, eles eram um pouco mais afiados, quase imperceptíveis se não fossem os quatro caninos, muito mais avantajados que a média que enfeitavam a boca. Desta vez ela não se atreveu a tocar-lhes, pois deveriam ser tão afiados quanto suas garras. Agora, soltando seu rosto e olhando-o por completo, notou que havia outras diferenças em seu corpo. Seus cabelos continuavam despenteados, mas agora pareciam um tanto mais opcionais, com alguns fios mais arrepiados do que os demais. E passando os olhos pelo corpo pôde ver que os músculos também sofreram uma mudança. Estavam mais definidos. Não aumentaram de tamanho, mas pareciam mais esculpidos. Porém, nesta parte ela não se atreveu a por a mão para conferir. Quantas diferenças. Na primeira vez que viu tal transformação, não pôde prestar muita atenção aos detalhes, mas agora tudo era bem visível. E foi então que ela tentou olhar além da figura selvagem a sua frente e olhando-o bem sabia que, por trás daqueles olhos azuis estavam os olhos negros de Ian. Os mesmos olhos que prestavam atenção em suas historias anos atrás e que a tiravam da solidão. Os mesmos olhos que a viam sempre com ternura apesar de todas as besteiras que fazia. Ela não podia acreditar que aquilo era um monstro. Quem dera que todos os monstros fossem assim. E foi então que decidiu já ter visto tudo o que queria e concluiu que, mesmo com todos aqueles adereços, era Ian, não um monstro. Aquele rosto triste, carregado de culpa, não podia pertencer a um monstro.

198

E mesmo assim, quem disse que a história tinha acabado? Ana sabia que tinham mais coisas depois. O final não foi o assassinato de Catarina e sim a conversa que ele estava tendo com Ana naquele momento. Aconteceram muitas coisas desde que ele se atirou do penhasco. Coisas que faziam toda a diferença. Coisas que transformaram o atormentado Lucien no doce Ian. E Ana queria saber essa história também. — Você é exoticamente bonito – ela comentou - nem um pouco assustador como você imaginou que eu pensaria. — O que? – ele balançava a cabeça, incrédulo – Será que não acreditou em nada do que eu acabei de lhe dizer? Ou não prestou atenção em nada? Você não viu que mesmo sem querer posso machucar as pessoas. — Eu entendi e escutei tudo muito bem – respondeu com voz calma, mas carregada de emoção - Mas eu também conheço você muito bem. Vivi com você durante anos e isso já é o suficiente para conhecer você Ian. E sei que não é um monstro. — Inacreditável – ele deu um sorriso nervoso - Será que você não entende que eu quase te matei no sitio? — Mas não matou – ela corrigiu – E além do mais, você não contou a história toda. — Como assim? — Você tem dezesseis anos e nos conhecemos a cinco. O que aconteceu na sua vida antes de me conhecer? Aposto que isso faz toda a diferença. Primeiro porque você não fugiu como fez quando era Lucien e depois porque foi a melhor coisa que me aconteceu... – ela se sentiu envergonhada de falar assim tão abertamente, mas continuou - e isso deve fazer a diferença e deve também fazer você não ser um monstro. — Você não entende. A única coisa que me fez viver todo esse tempo foi o meu autocontrole. Privei-me de tudo, eu não sinto nada por dentro há muito tempo. E esse autocontrole eu posso perder a qualquer momento. — E é isso que faz a diferença - ela comentou, segurando suas mãos que tremiam. – Você se controlou porque não quer ser um monstro e por isso você não o é. Agora por favor, me conte o fim da história até me conhecer. O que lhe aconteceu depois. — Não aconteceu nada demais. — Isso quem decide sou eu. - ela interrompeu – Você prometeu – lembrou.

199

Ian olhou fundo nos olhos de Ana e percebeu um tanto espantado que eles não transmitiam medo. Por quê? Pensou. Eu poderia tê-la matado, mas você acredita em mim. Por favor, não me diga que aquilo é verdade. Ian lembrava-se do olhar da prostituta em Virgínia e de todos os magos que encontrou depois disso. Todos eles tinham as mesmas expressões: ódio, medo... mas ela não. Por quê? Há tanto tempo se sentia sozinho. Apesar de ter amigos como Ian, ele nunca pôde ter nada tão intimo com ninguém. Nunca conseguiu se abrir da forma como estava fazendo agora. Nem para a sua atual mãe, que muito amava, nem mesmo com Solange, que tanto o entendia. Ian olhava nos olhos de Ana tentando fazer com que todas as suas mágoas e medos passassem para ela. Ele queria avisá-la, mas as palavras não saiam. Droga, isso não pode estar acontecendo. Fuja de medo, me odeie por te esconder tudo, me despreze por ser um monstro, mas vá embora. Vá! Não alimente o que eu sinto por você. Você não pode ficar comigo, mas eu sou egoísta demais para acabar com tudo por mim mesmo. Eu preciso de você. Então acabe você, por favor. Eram as palavras que ele diria se tivesse coragem, mas elas ficavam engasgadas na garganta e Ian torcia para que seus olhos pudessem transmiti-las por ele. — Termine – ela pediu, acariciando seu rosto. Um toque quente, mas sem nenhum apelo. Era bom sentir aquele calor de novo e ele deixou o rosto cair. — Por favor. – encorajou. – O que aconteceu quando você nasceu como Ian? – e foi quando ela se levantou e foi se sentar em cima da cama, agarrando-se a um travesseiro. Era a mesma coisa que fazia sempre que ia ouvir as histórias de suas tias antes de dormir. Era bom voltar a sentir aquilo. Ela ainda tinha o desenho de Catarina na mão, que o colocou no bolso no casaco para poder segurar melhor o travesseiro. — Estou pronta – falou – Pode começar. Ele desistiu de tentar convencê-la. — Está bem – concordou.

200

24 – Ian.
Bem. Meu suicídio havia falhado e eu acabei reencarnando como Ian. Quando nasci, mais uma vez não me lembrava de nada sobre Kalish ou Lucien e vivi normalmente como um jovem carioca de classe média. Graças a minha experiência com cidades na vida como Lucien, eu não sentia mais tanta falta do ar livre que sentira na minha segunda vida. Mas uma dor sempre me acompanhava, e dessa eu não sabia a razão até minha memória centenária despertar. Mas havia algumas coisas novas nessa minha vida como Ian que eu não havia experimentado como Lucien. Pra começar, eu havia criado laços aqui. Primeiro por Marta, que foi uma verdadeira mãe para mim e ainda é. Essa era uma experiência que eu nunca senti antes. Primeiro, porque nos Garows, as mães eram comunitárias, e como Lucien, minha ama era mais minha mãe que a própria. Enfim, eu realmente gostava da vida como Ian, até que finalmente acordei. Como antes, esse foi um processo demorado e de certa forma doloroso. Eu comecei com uma série de sonhos aonde havia Alpes, neve e lobos. Depois veio a crise de sonambulismo onde eu dormia em minha cama e acordava em algum lugar diferente. Sempre dentro de casa a princípio, até que um dia em particular eu fui acordar no meio de uma tempestade na praça que temos aqui perto de casa. Depois disso, veio a nova memória e tudo ficou claro pra mim. Minhas outras vidas, meus poderes, minha condição e minha culpa. Eu não me lembrava de haver tentado a magia da ressurreição, mas logo cheguei à conclusão do que havia acontecido e amaldiçoei minha burrice por não ter tirado o colar antes de me jogar. Eu tinha novamente a idéia de fugir de casa, assim como fiz como Lucien. Só que agora eu queria fugir não por tédio, mas sim porque eu não queria arriscar a vida da mulher que aprendi a amar como mãe, expondo-a a minha besta. Mas desta vez não foi tão fácil. Tinha uma coisa que me prendia: que era minha própria mãe. Eu havia vivido tantos anos sozinho, recebendo apenas olhares de desprezo e ódio de todos a minha volta, que quando via Marta olhando pra mim, sentia uma paz profunda. Ela me amava e era bom poder retribuir aquele amor, pois ele era puro, onde não havia chances de eu sentir nenhum desejo por ela que me obrigasse a… Você sabe. Enfim, era perfeito demais para simplesmente ir embora. Eu pensei também em tentar um novo suicídio, mas esta alternativa também não era válida. Como Lucien, eu

201

tive que chegar a um estágio em que tivesse perdido tudo para tomar tal decisão. Já como Ian, eu tinha coisas que valiam à pena. Eu tinha minha mãe e isso me tirava toda a coragem de repetir o ato. E foi nesse período que eu tive contato com outros magos do nosso tempo. Na verdade, com bruxos, magos compactuados com demônios que me queriam ao seu lado. Depois de um leve confronto, onde também conheci Solange, que descobri ser também uma maga, conseguimos nos livrar deles. É estranho, né? Nossa vizinha Solange também é uma maga. Para você vê. Magia está em toda a parte, mas o véu nos impede de ver. Bem, quando nos livramos deles, eu vi que era egoísmo demais de minha parte tentar manter minha mãe ao meu lado. Apesar de não correr o risco de sentir excitação por ela, ainda assim era perigoso, pois isso não me deixava livre de outras sensações. Tais como a raiva. Você pode imaginar como é? Eu não podia nem sequer discutir com ela com medo de perder o controle e isso me deixava louco. Sendo obrigado a me fiscalizar perante a cada atitude. E apesar de amá-la, é difícil não se irritar nunca. Bem, então eu tinha que ir e já estava me preparando para isso. Eu tinha idéia simples de viver isolado em algum lugar até que a morte chegasse. Desta vez não tentaria enganá-la. Nem fiz mais o ritual para não cair em tentações. Não queria mais viver daquela maneira. Tendo de me privar de tudo. Afinal, isso nem é viver, é sobreviver. Logicamente eu tinha a opção de me matar, mas a verdade é que não queria. Primeiro, porque não queria que minha mãe sofresse se sentindo culpada pela minha morte e em segundo porque eu já tinha provado disso duas vezes e não queria tentar uma terceira. Pode ser paranóia, mas eu me sentia dentro de um ciclo vicioso de suicídios. Achava isso já doentio. Quem sabe viver uns dez ou quinze anos de solidão não me fariam ganhar desespero o suficiente para tentar me matar de novo? Mas até então, não. Foi então que me aconteceu. A minha nova benção/maldição. Eu conheci você. Você chegou de uma forma tão repentina. Era uma garota linda, mas ao mesmo tempo frágil, quando se mudou pra cá na rua. Eu lembro que a minha mãe me convenceu a ir até a casa de vocês naquela manhã de mudança, para me apresentar. Ela

202

sabia que havia uma menina da minha idade e achou uma boa idéia eu tentar lhe enturmar com o pessoal da rua. Eu relutei em fazer isso, afinal eu já estava planejando a minha fuga e fazer novas amizades não facilitava o processo. Mas acabei sendo convencido. Pensei então que poderia apenas te apresentar a todos os meus amigos e deixar que você mesma cuidasse das coisas. E foi com esse pensamento que fui até a sua casa. Sua mãe me atendeu muito bem e me convidou para entrar, me mandando para seu quarto. Ela estava muito preocupada e hoje sei que queria muito que você conseguisse um amigo. Então eu entrei e foi quando a vi pela primeira vez. Confesso que a primeira coisa que senti foi pena. Desculpe-me. Eu sei que é triste ouvir isso de alguém, mas você estava tão pra baixo, tão desamparada. Acho que me comovi com seu estado desde o princípio, não sei. Eu só sabia que naquele momento eu queria te ajudar. Na verdade, teve mais uma coisa que me chamou atenção em você. Sua energia. Eu me lembro claramente de ver aquela áurea roxa queimando em volta de seu corpo e achei aquilo intrigante Pois, como alguém podia estar tão viva no espírito e tão fraca no corpo? Hoje eu entendo bem isso. Apesar de desolada pelo seu trauma, você ainda se agarrava firmemente em suas crenças e isso lhe dava todo aquele poder que eu via transbordar. O que aconteceu depois foi bem estranho, lembra? Foi quando comecei a perguntar sobre a sua vida e você facilmente falou de tudo o que tinha lhe acontecido. É. Acho que você estava realmente desolada naquela época e só queria encontrar alguém que te ouvisse sem lançar o olhar torto. Acho que fui eu a fazer isso. Desde o inicio já sabia que era verdade o que você dizia. Eu reconheci muitos dos acontecimentos e dos rituais que você citou. Sabia que você não poderia inventá-los com tanta precisão. De fato você havia conhecido druidas. Mas, mesmo reconhecendo que você falava a verdade, eu ainda tinha dúvidas se confirmava ou não as suas crenças. Desculpe dizer isso, mas você estava tão perturbada com a coisa que era potencialmente capaz de se tornar uma Caótica. Foi então que pensei bem e vi que poderia esperar que você se acalmasse e amadurecesse para aí sim lhe contar algo. A idéia era boa, eu pensei na época. Eu poderia lhe mostrar o Véu e depois Solange se encarregaria de lhe iniciar nas artes

203

mágicas. Afinal, você já havia tido muita experiência com suas tias e por isso devia conseguir mais fácil. Havia uma grande maga em você e eu pude ver isso, mas eu ainda planejava ir embora e não podia assumir um compromisso com uma nova aluna. Não podia ser seu mestre. O que eu não sabia era que meus planos já estavam sendo minados naquele mesmo dia. Pois, quando saí da sua casa naquela manhã, sua mãe me interceptou. Ela viu que você estava mais feliz depois de nossa conversa e pediu para que eu voltasse mais vezes. Isso não era parte de meu plano, mas eu não pude resistir a sua súplica e tive que adiar minhas idéias. Então resolvi retificar meu planejamento e minha partida seria adiada para até depois que você se recuperasse e quem sabe, eu já lhe apresentasse à Solange. Mas a cada dia que passava eu não percebia a armadilha se formando dentro de mim. Você era tão dependente, tão frágil. Eu tinha que te proteger de tudo: das pessoas, de seus pais e até de você mesma. Isso pode parecer irritante, mas acabou por despertar em mim uma personalidade que nunca havia experimentado. Eu sei que devia ter posto um fim nisso naquele momento, mas quanto mais eu me atolava mais eu queria me afundar mais. Quando menos pude perceber, estava realmente dependente de você. Era dependente de sua necessidade de mim, de sua vontade de me ter por perto, diferente das inúmeras outras pessoas que me perseguiam como Lucien. E foi quando essa dependência evoluiu e eu passei a me apaixonar por você. Eu queria você pra mim, mesmo sabendo que era impossível. Pois como você poderia gostar de um monstro feito eu? E foi então que eu descobri que nunca mais conseguiria contar a verdade pra você. Eu tinha adiado demais e agora perdi a chance. Eu não teria problemas se tivesse feito você atravessar o Véu antes, porque eu ainda não era apaixonado por você. Eu não teria problemas em te contar meu passado sombrio, mas agora, era impossível. Contar-te a verdade sobre suas tias e sobre o mundo seria a ponte que te ligariam ao meu passado, a minha vergonha e eu sabia que chegaria um momento após saber de tudo que você começaria a me perguntar sobre minha história, como aconteceu hoje. E aí eu teria que contar tudo a você, pois não seria justo esconder quem eu era. E esse medo foi adiando minha confissão até que enfim aconteceu: você parou de

204

acreditar. Agora minhas histórias sobre magia não a interessavam mais. Você havia acreditado finalmente que suas tias haviam morrido num acidente e que todas as histórias eram apenas contos para distraí-la. Eu só não sabia que preço que você pagou para conseguir esse conforto foi tão alto. Nunca fiz uma real idéia de quanto esse tratamento havia mexido com você. Você perdeu sua fé, perdeu parte de sua esperança e de seu brilho. E era minha culpa. O que me consolava um pouco era o fato de você realmente parecer mais feliz assim, adormecida. Era um efeito inverso. À medida que eu via sua energia caindo e perdendo o brilho, eu notava que você ganhava saúde, vitalidade. E isso de certa forma me consolava. Meu egoísmo não me deixou lhe contar a verdade antes, pois tinha medo que quando você soubesse de mim, passasse a me olhar como medo ou raiva, assim como faziam todos a minha volta. Até mesmo Solange, com quem tenho uma boa relação, demorou muito até parar de me olhar de rabo de olho. E ver você olhar com desprezo pra mim - ou pior, com medo - era uma idéia que eu não suportaria. Desculpe, pois deixei meus sentimentos estragarem sua vida. Se eu tivesse te dito antes Eu poderia lhe explicar sobre o Véu e assim alertá-la de que era melhor parar de falar sobre magia pelos quatro cantos e assim você se passaria como uma pessoa normal e evitaria todo o tratamento. Perdão, mas eu era muito egoísta para ter feito o contrário.

* Desta vez, Ian não mais chorou e só ficou olhando para o chão, com o rosto envergonhado diante dela. Ana viu que ele agarrava os próprios antebraços com força, pressionando as unhas contra a pele e arrancando sangue dela. Ao ver isso, a garota saltou da cama para abraçá-lo. — Para – pediu. — Desculpe – sussurrou ao seu ouvido – è que essa é a única forma que eu conheço de controlar um pouco a raiva que sinto de mim mesmo e segurar a besta. — Não importa. – e ordenou com a voz mais dura – Pare! Ele parou e abraçando-a também, encostou a cabeça em seu peito como uma criança desolada e ali permaneceu, recebendo afagos de Ana nos cabelos. E ao ver

205

aquele seu estado Ana não soube o que fazer. Ian, que sempre fora controlado, se deixou desabar ali, derrotado por si mesmo. — Você não tem culpa – tentava acalmá-lo - A vida foi difícil pra você. — Mas isso não justifica – murmurou. – Eu devia ter falado. Eu devia ter lhe dado a chance de se defender de mim. Eu devia deixar que você soubesse desde o começo com que perigos estava lidando. Devia deixar você escolher se queria estar realmente perto de mim. — Mas eu já escolhi – ela lembrou. — Agora é um pouco tarde. – ele rebateu se soltando dela – eu não podia ter te deixado se envolver comigo. Você... — Eu o que? – encorajou, enquanto acariciava o rosto do amigo - não estou entendendo. — Porque você teve que gostar de mim? – questionou com uma pontada de revolta como se a estivesse acusando - Por que teve de se envolver comigo? – e se afastou, encarando-a. Ana ainda precisou de um tempo para compreender do que ele estava falando e quando conseguiu, sentiu-se envergonhada e temerosa em explicar. — Ian... – ela começou, pensando bem nas palavras que ia dizer. – Você está entendendo errada a situação... – não sabia como continuar. O garoto, que estava de pé fitando a janela, parou para encará-la com o rosto intrigado. — Como assim? - perguntou. — Eu... – e gaguejou nervosa – Eu não... Eu não estou apaixonada por você – resolveu ir direto ao assunto. Aquela informação pareceu tê-lo atingido como um tapa no rosto, deixando-o estupefato. — Mas... e quando você me... — Desculpe – ela se apressou em dizer, enquanto se levantava e segurava o rosto do amigo, fazendo com que ele a olhasse nos olhos. Mas apesar de sua tentativa, Ian começava a andar pelos lados falando mais alto. — Por que você me...

206

— Sinto muito. – interrompeu, sentindo-se muito mal por tudo - Eu acho que foi besteira. Não achei que significasse alguma coisa pra você... - mas ela sentiu que sua desculpa não era convincente o suficiente e a voz de Laila veio a sua cabeça. Acho que ele não se importaria em ser usado. Ele é doido por você. Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto você. Geralmente quem está dentro nunca percebe — Você achou que não significaria nada? - ele agora estava perplexo. Ana sentia que quanto mais tentava explicar, mais se complicava – Então... eu era só um consolo? Um prêmio de consolação? Ana ficou muda. A voz de Laila não saia de sua cabeça. Ele é homem, não vai se importar. Mas o pior de tudo era saber que, na verdade, a amiga havia lhe avisado. Havia lhe dito quando Ian gostava dela e mesmo assim ela o usou. — Desculpe. – pediu com a voz fraca. Mas ele continuou como se não tivesse escutado: — Eu só pensei que... com todos esses anos juntos eu tivesse mais crédito com você. — Eu sinto muito – e tentou investir mais uma vez. Mas Ian ficou de costas para ela, apoiando as mãos na janela segurando com força no parapeito, murmurando palavras que não eram direcionadas a Ana e sim constituintes de um monólogo interno, mas que a garota pôde escutar ainda assim. — E eu quase matei você por um consolo? Uma brincadeira? Eu quase fiz aquilo de novo... por nada? — Ian – ela levou sua mão ao ombro do garoto para tentar puxá-lo de volta. — Por favor... - ele pediu com uma calma controlada, mas sua voz parecia que ia explodir a qualquer momento - Saia. — Mas... — Saia! – E sua voz soou como um rosnado feroz e, ao virar o rosto para encarála, Ana viu em seus olhos azuis uma coloração vermelha que começava a surgir na pupila, se espalhando pelo globo ocular como se fosse um colírio pingado. Aquilo a fez dar um passo para trás com um leve susto, mas não o suficiente para fazê-la correr feito louca de volta para casa, pois a vontade de se desculpar melhor,

207

ainda era mais forte. Mas foi então que o bom senso começou a lhe avisar que era melhor ir embora. Ele estava muito transtornado e não poderiam conversar assim. Mesmo contra a vontade, Ana saiu do quarto do amigo fazendo um último pedido de desculpas antes de sair. Ao chegar à porta deu de cara com Marta. — O que houve minha filha? – ela se alarmou vendo os olhos inchados de Ana Porque tanta pressa? — Desculpe tia Marta - a garota se desviou da mulher antes que ela a pegasse e saiu para casa em alta velocidade. Chegando em casa, ignorou seus pais que dormiam abraçados no sofá da sala. Ignorou que estava molhada devido à chuva que insistia em se manter forte. Ignorou tudo. Só queria chegar ao quarto. Lá, pôde fazer o que realmente queria. Caiu na cama e deixou que a culpa saísse de dentro dela e chorou como não lembrava mais, sentindo o alivio que as lágrimas lhe proporcionavam. E assim permaneceu, deitada na cama, sem ânimo de trocar de roupa. Desculpa, ainda pedia em silêncio. Sentia frio e foi então que se deitou de lado e uniu as mãos em frente ao rosto em forma de cuia pondo-se concentrada. Foi então que, mais rápido que antes, uma pequena chama roxa acendeu-se em sua mão, aquecendo seu corpo. O fogo dançava à sua frente e a manteve distraída por um tempo, fazendo-a esquecer a dor que sentia. Era bonito admirá-la. Então, cansada de manter o fogo acesso, ela só torceu intimamente para que a raiva do garoto não durasse até o dia seguinte. E assim, fechando os olhos, caiu no sono.

208

25 – Numa noite chuvosa.
Andando pelas ruas do centro no meio da forte chuva, um homem de terno preto seguia sem parecer ter destino certo. Ele usava um guarda-chuva negro e tentava, a muito custo, tampar com a mão um isqueiro que lutava para acender, nem que fosse por alguns segundos apenas suficientes para que o sabor adocicado do cigarro lhe entrasse os pulmões após uma boa tragada. — Finalmente – murmurou quando conseguiu. E colocando o cigarro na boca ele se deliciou, pondo-se a esperar na esquina da Avenida Presidente Vargas. Maldita chuva. Praguejou, enquanto olhava o relógio da rua que marcava meia noite e três. Atrasado. Mas enfim, como que ouvindo seus pensamentos, um Vectra preto começava a surgir pela deserta avenida. Ao reconhecer o carro, o homem caminhou um pouco, posicionando-se estrategicamente para receber o passageiro. O carro estacionou à sua frente, mantendo a janela do carona bem próxima dele. Assim, o vidro se abriu e o homem jogou um envelope de papel pardo no seu interior e já ia se virando quando alguém de dentro o chamou. — Pensei que não fosse haver conversas – indagou o homem de preto. — Só estou curioso – dizia um sujeito gordo de facetas rosadas que colocara apenas a cabeça calva para fora do carro – Como andam as coisas com os clérigos? — Ambos já estão sobre o nosso controle, ficarão vivos enquanto forem úteis. — Mas eu soube de um terceiro que freqüenta aquela Igreja - questionou o gordo com ar divertido — Um iniciante – fez pouco caso – não vai incomodar – e atirou a guimba do cigarro numa poça d’água e se preparou para pegar outro. — O cigarro mata meu amigo – alertou o senhor no carro. — O colesterol também - cortou o homem de preto numa voz fria — Me pegou – riu-se o senhor e o carro disparou pela rua chuvosa. Falta pouco agora, se animou o homem de preto. Logo poderemos acabar com aquela igreja de uma vez.

209

26 – Plano de Fuga.
Ana acordou com sua mãe lhe chamando na manhã seguinte, e apesar da fadiga enorme que sentia que a impedia de se levantar, Helena não parecia querer desistir tão fácil. — Querida acorda. Vai perder a hora. Ana lutava para se manter sonolenta, mas logo se rendeu e, ainda de olhos fechados, ergueu-se, retirando o cobertor de cima do corpo e ficando sentada na cama. Permaneceu em estado inerte até que sentiu Helena segurar seu rosto. Ao abrir os olhos, viu o olhar da mãe encarando-a intrigada. — O que houve? – questionou – Andou chorando? — Não é nada – e tentou virar o rosto, mas a mãe o segurou. — Como assim não foi nada? – ela puxou a coberta - Olha pra você. Dormiu assim e... - passou a mãos no colchão - e toda molhada. O que você está pensando? Quer ficar doente? — Eu cheguei cansada e dormi direto - explicou Ana um tanto apática. Por um lado estava feliz pelo foco da discussão ter mudado, já que agora a sua irresponsabilidade havia tirado a preocupação da mãe com seu estado de espírito. — Francamente! – exclamou – Se arruma logo e vai pra escola. Quando eu chegar do trabalho, quero explicações. Não pense que vai fugir dessa fácil Ana. É. Ela sabia que não ia escapar fácil. Mas não queria se preocupar com isso agora. Então, tomou banho e se arrumou, fazendo isso de forma mecânica e não orgânica, pois seus pensamentos estavam muito longe daquele quarto. Ficava pensando em tudo o que aconteceu no dia anterior. Quantas descobertas e quantos problemas. Quando foi colocar sua roupa molhada para a lavagem, um papel caiu de um dos bolsos. Estava um pouco úmido e Ana o reconheceu levando a mão na testa. O rosto de uma bela mulher surgiu. Um pouco deformado devido ao estado em que estava o desenho, mas Ana o reconheceu como sendo o desenho de Catarina. Ao segurar o papel com a ponta dos dedos, a garota gemeu ao ver o estado do trabalho. Ian não ia gostar nada daquilo. Mas um problema. Pensou com pesar e resolveu deixá-lo secando na janela enquanto terminava de se arrumar. Quando acabou, colocou-o na mochila para devolver. Era uma boa maneira para se iniciar um assunto com ele e só esperava que seu humor já tivesse melhorado o suficiente para que ele não

210

fizesse muita questão para o estrago em sua obra de arte. Afinal, ele não devia estar ainda bravo com ela, não depois de uma noite inteira. Era nisso que ela queria acreditar. Assim, acabou de tomar o café e saiu de casa escutando sua mãe gritando quando atravessou a porta: — Não se esqueça de nossa conversa, mocinha! — Tá mãe! – respondeu Ana, já no portão. Assim que saiu de casa, tratou de passar na de Ian. Apesar de eles sempre caminharem juntos para o colégio, ficou com receio de chamá-lo hoje. Tinha medo de como seria recebida. Então, esperou um pouco para dar o tempo de o garoto sair e foi quando viu Solange regando as suas plantas no jardim de casa. Sem pensar duas vezes, correu até ela. — Bom dia tia Solange – cumprimentou, um tanto hesitante – A senhora viu se o Ian já saiu? — Saiu sim. – respondeu a mulher num tom um tanto seco. Ana se surpreendeu, pois Solange sempre teve um bom humor, apesar de a garota sempre fugir dela. Ela era do tipo de mulher que quando começava a falar não parava mais, mas naquele dia em especial não parecia querer papo com Ana e a garota decidiu ir para a aula sozinha mesmo. Chegando lá, não teve tempo de procurá-lo na entrada, pois, já era hora de ir para a primeira aula: física. Assim, entrou na sala e percebeu que o lugar de Ian, que era sempre ao seu lado, estava vago. Olhou em volta intrigada e o viu sentado ao lado de Rodrigo, que falava animadamente com ele. Mas apesar de Ian estar olhando para o amigo, Ana pôde perceber que ele não prestava muita atenção. Seu olhar estava um tanto perdido e ele acenava com regularidades cronometradas para mostrar que estava atento ao que o seu interlocutor dizia. Naquele caso, seu olhar estava tão vago que ele nem viu quando Ana chegou. Ou fingiu não ver, ela não saberia dizer, mas então a garota se esgueirou até seu lugar e sentou-se, apoiando cabeça nos braços cruzados. Vai ser mais difícil que eu pensei. E foi quando ela sentiu alguém sentando a seu lado e levantou a cabeça na esperança de encontrar Ian de volta. Mas era Laila. — Oi fofa! – saudou, dando-lhe um beijinho na bochecha – Como foi seu domingo?

211

— Por que você esta sentada aqui hoje? – Ana não queria ter falado de forma tão fria, mas não pôde evitar. No fundo, ainda culpava a amiga por seus problemas. — Bem... – respondeu um pouco constrangida - Eu pensei que já que o Ian resolveu mudar a rotina eu poderia aproveitar para falar com você... – e tentou acrescentar rápido – mas se você... Mas Ana sentiu uma pontada de culpa no peito. — Não, não – interrompeu – Desculpe. É que não dormi bem e acordei meio virada. — Sei qual é. – disse, parecendo recuperar o humor. Realmente nada a abala. Pensou feliz por saber que não magoara outra pessoa em menos de vinte e quatro horas. — A noite foi boa? - ela perguntou – Já que você não dormiu direito. Ana riu do comentário. — A melhor parte dela foi que eu finalmente consegui dormi – resmungou. — Nossa! – ela se espantou - Foi tão ruim assim? — Pior. - era mentira. A noite foi ótima, mas terminou horrível. — Eu imaginei – ela falou olhando para Ian – Então parece que eu me enganei feio, não? — Acho que sim. – concordou com um meio sorriso. — Estranho. - insistiu e Ana viu que ela não iria desistir assim tão fácil de sua operação Cupido – Eu podia jurar que ele gostava de você. Ana concordou em mente. Gosta mesmo. Esse é o problema. E pensando naquilo, Ana não pôde deixar que uma coisa a intrigasse por não se encaixar naquilo tudo. Se ele gostava tanto dela como dizia, por que então beijar Solange daquela forma? Apesar de tudo, não conseguia tirar aquilo da cabeça. — Acho que ele gosta na verdade de outra pessoa - deixou escapar. — Sério? – surpreendeu-se - Mentira! A voz de Laila havia se elevado demais e Ana fez um gesto para a garota moderar. — Desculpa – pediu abaixando o tom – mas é tão... incrível. Eu geralmente não me engano tanto assim. Quem é ela? — Eu não conheço. – mentiu. - Ele só me falou. Deixando a amiga perplexa ao seu lado, Ana abriu a mochila para preparar o material, esperando que Laila desistisse enfim. Porém, quando foi puxar seu caderno de

212

Física, uma folha escapuliu e deslizou até a mesa de Laila. Ana ainda tentou recuperar a tempo, mas a garota era rápida e antes dela pensar em pegar o papel, a amiga já o tinha agarrado. — Nã... - tentou impedir, mas se conteve. — Algum problema? – perguntou - Algo confidencial? – acrescentou, com um pouco de êxtase na voz. — Nada – concertou Ana – Dada demais. – e recolheu o braço estendido. — Posso então? – pediu Laila, fazendo menção de desdobrar. — Claro. – disse, não muito confiante. Pelo canto do olho, Ana espiava Ian para ver se o garoto estava vendo o que acontecia, mas ele não parecia interessado em virar o rosto. — Nossa! – exclamou a garota ao vislumbrar o desenho – Quem fez? — Ian - respondeu baixinho. Foi então que se passou uma expressão pelo rosto de Laila que Ana não conseguiu captar a essência de imediato. Primeiro, um espanto, depois, um sorriso presunçoso se abriu em seus lábios e ela olhou para Ana cheia de si. — Então eu estava certa, não? — Como assim? — Ele gosta de você. - explicou como se fosse óbvio e Ana viu que era difícil para ela esconder seu orgulho por estar certa. — Mas como assim? – Ana de fato não entendia. — Ora. Por que outro motivo ele lhe desenharia? — Hã? - agora ela estava confusa – Laila... a moça da foto não sou eu. — Como não? Olha você. – e devolveu o papel para a garota poder ver – Tá certo que a mulher da foto parece um pouco mais velha e mais bonita... Brincadeira! – acrescentou rápido - Mas é você. Ana pegou o desenho e olhou a moça linda reproduzida na imagem. Analisando bem, a única coisa que ela achava ter em comum com Catarina era a tipo de cabelo, pois ambas mantinham o corte Chanel com franja, mas fora isso, nada. Até mesmo o cabelo da maga era perfeito e não tinha uma mecha rebelde que sempre cortava seu rosto ao meio. — Não é. – teimou Ana.

213

— Olha bem - insistiu Laila - o mesmo cabelo, o mesmo rosto, só que mais velho talvez. Ana agora olhava os traços da mulher: Fortes e bem delineados. Laila pegou um espelho da bolsa e ergueu para que Ana pudesse comparar. Ana riu, mas pegou o espelho. Por um lado, talvez. Tentou dar o braço a torcer enquanto olhava do desenho a ela e voltava para comparar. E vendo assim de perto, até que começou a achar algumas semelhanças, mas ainda não estava completamente convencida. Acho que é assim que eu gostaria de ser. Será? Realmente, agora que falava, elas tinham alguma coisa em comum. De fato eram muito parecidas. Talvez tenha sido isso que o atraiu pra mim. Mas ao pensar nisso, ela se sentiu um tanto triste. Então deve ser isso. Porque pareço com Catarina. Ele deve ter se confundido E foi quando a voz do professor Pinheiro cortou seus devaneios. — Bom dia! – anunciou com seu bom humor habitual. — Que droga de aula – comentou baixinho Laila. — Mas você sempre gostou – rebateu Ana, embora não tivesse dado muita importância ao comentário. Sua mente ainda vagava pelo desenho. — Eu sei, mas já estou um pouco de saco cheio – riu-se a garota - Quero férias. Mas Ana não prestava mais atenção a ela. Ficava agora olhando o desenho de Catarina e realmente se convenceu que ambas eram parecidas e ela só pôde parar de olhar para o papel quando Laila deu-lhe uma cutucada com o cotovelo. Com um solavanco da cadeira, viu que o professor a estava fitando e rapidamente recolocou o desenho de volta na mochila e passou a anotar o que estava no quadro. Assim, o professor Pinheiro fingiu que nada havia acontecido. — Obrigada – sussurrou Ana. — De nada. Deu pra ficar narcisista agora? As duas riram em voz baixa e a aula foi-se passando. A todo o momento Ana olhava para o corredor de carteiras ao lado e Ian insistia em não se virar. Queria pelo menos que ele a olhasse, não estava acostumada a ser esnobada por ele dessa forma. Na hora do intervalo, decidiu ir falar com ele, mas Laila a segurou. — Vem comigo comprar folhas de fichário? As minhas acabaram.

214

Ana olhou de volta par Ian, mas ele já tinha saído. — Ah... Claro. E seguiu a amiga até a papelaria da escola onde Laila a prendeu em um papo sobre jóias, que Ana não participou muito. O ruim de Laila é que sempre que começava a falar não parava mais, embora nos últimos dias parecesse ter conseguido acentuar essa sua característica. Quando finalmente conseguiu se livrar da garota, ela correu para o refeitório para ver se ele ainda estava lá e acabou achando-o numa mesa solitária, brincando com um sanduíche sem comê-lo. Pela sua experiência, Ana sabia que se Ian estava sem apetite, era motivo de preocupação. E sem fazer barulho, se esgueirou até a mesa dele e se sentou na sua frente, sem pedir licença. O garoto, que estava de cabeça baixa, fitou-a pelo canto do olho sem dizer nada de imediato. Mas, apesar de seu silêncio, Ana sentiu-se mais aliviada, pois percebeu que sua expressão não era mais de raiva, parecendo mais que estava constrangido. Era um bom sinal. E assim, ambos ficaram calados por um tempinho. Ana não sabia direito como começar, já que não tinha muita experiência de brigas com Ian e por conta disso, não sabia muito bem como se desculpar com ele. Odiava que o garoto ficasse chateado com ela e também gostava demais dele para conseguir ficar brava por muito tempo. — Desculpe! – acabaram falando os dois ao mesmo tempo, se espantando com a coincidência. — Primeiro as damas - convidou Ian. — Por favor, eu insisto que você vá primeiro – implorou Ana. Ele sorriu e concordou. — Tá bom. Desculpe por ter sido um idiota na noite anterior. Eu confundi as coisas e me sinto péssimo por isso. — Está tudo bem. – ela se sentiu mais animada. — Agora é a sua vez - convidou. Ela sorriu amarelo e falou: — Eu não devia ter feito aquilo com você. Não podia brincar com seus sentimentos. Desculpe. Ele deu uma risada seca.

215

— Não é bem assim, Ana. Acho que você não fez nada demais. Talvez eu esteja ainda acostumado com o séc. XIX de Lucien. Tenho que me atualizar com o séc. XXI, onde um beijo não quer dizer necessariamente compromisso. — É verdade vovô - brincou. Ele riu de novo. Desta vez, um pouco mais descontraído. — Foi mal. - pediu de novo - Acho que, na verdade, não foi seu ato que mais me deixou irritado. Foi descobrir que você… bem... não gosta de mim como eu de você. Sabe? Ana se ajeitou incomodada na cadeira. — Bem. - ela começou – Não tem problema. Eu gosto de você. Mas como amigo. — E pra mim isso está bom – ele se apressou em dizer - É até melhor. Mais seguro. — Não fala assim. Você nunca me faria mal. — Eu nunca faria mal a ninguém - corrigiu – Mas fiz muito. O que faz você ter tanta certeza que não vai se repetir? — Você está muito mais controlado do que naquele tempo. – argumentou. — Pode ser - concordou. - a verdade é que fazia muito tempo que eu não sentia a besta tão forte. A fórmula foi até simples: só deixar de viver – comentou irônico – Mas os últimos dias foram verdadeiras provas de fogo. Eu quase perdi o controle duas vezes. Ela ia perguntar qual teria sido a segunda, quando se lembrou de seus olhos prestes a ficar vermelhos na noite anterior. — Ah... – lembrou-se. Queria mudar de assunto e meteu a mão no bolso do casaco – Toma. – e lhe entregou o retrato de Catarina – Isso é seu. Eu levei ontem sem querer. O garoto pegou o desenho agradecendo, mas quando viu o estado do papel sua expressão ficou interrogativa. Ele ergueu a folha na ponta dos dedos olhando pasmo o estado dela, fazendo Ana se encolher com cara de culpada esperando a bronca. Mas se surpreendeu com a reação. — Terei de fazer outro – comentou sorrindo. — Desculpe. — Que isso. Na verdade há muito tempo que quero me livrar dele. Da dor que ele me causa, mas não consigo. Acho que eu tenho a tendência a me punir, mesmo que de forma inconsciente. — Se for assim, eu fiz bem. E digo que se fizer outro, eu o queimarei. – avisou.

216

Ian riu. — Talvez você não esteja perto de mim para poder fazer isso. Ana emudeceu com tal comentário. — Não brinca assim. - ela tentou sorrir. — É sério. – ele a encarou. – Já passou da minha hora aqui. Tenho que seguir caminho. Descobrir mais sobre mim. Sobre essa minha maldição. Ana segurou a mão de Ian com força. — Não diga isso. – ordenou - Você não vai embora. Não pode. – e escarneceu do absurdo. — Posso sim, e devo – corrigiu - Já adiei isso por tempo demais. Eu adiei tanto que até pensei em nunca mais ir embora. Pensei que eu fosse mais estável. Pensei até em viver essa vida como uma pessoa comum. Esquecer o passado e morrer como um adormecido, mas os últimos acontecimentos me deixaram descrente. Minha raiva de ontem poderia ter desencadeado num desastre. Eu sou uma bomba atômica Ana, e não quero explodir perto de você nem de ninguém. — Não diz isso - Ana vasculhava a mente atrás de argumentos – e Eu e... e a sua mãe. Como ela vai ficar quando você partir. Ele deu um suspiro antes de colocar a mão na mochila, puxando um pedaço de papel. — Já pensei nisso – disse o garoto lançando um jornal para ela. Ana olhou o jornal sem entender e viu que a noticia era sobre o aumento do número de jovens desaparecidos no Rio de Janeiro. A manchete dizia: Sobe para oito o número de jovens desaparecidos.

Lendo rapidamente, ela reconheceu a notícia que vira no telejornal na casa de Ian na tarde anterior. A reportagem falava do aumento no número de desaparecimentos ocorridos na região da Vila da Penha e como a polícia desconfiava de que esses acontecimentos estavam de alguma forma, vinculados com a ação de traficantes internacionais vistos perambulando pelo Rio de Janeiro. Havia até a idéia de que esses jovens estavam sendo recrutados para servirem de mulas para o transporte de drogas para outros países. — Você está pensando em ser uma mula? - perguntou descrente.

217

— Não – apressou-se em concertar – Você entendeu errado. Isso vai ser só um álibi. Como uma desculpa para minha partida. — E você acha que isso vai fazer sua mãe se sentir melhor? - comentou sarcástica - O filho sendo um traficante. — Não é isso – e apontou para outra parte da noticia – Olha isso. A folha dizia:
Jovem é encontrado decapitado. Confirmando as suspeitas da ação do tráfico internacional no Rio de Janeiro, a cabeça do jovem André se Souza Lima, 17 anos, desaparecido na manhã do dia 20 de junho, foi deixada na porta da 27° delegacia, na noite de ontem. Tal ação se assemelha muito a ação dos traficantes, que vêem aterrorizando o México, aumentando as suspeitas da ação desse grupo no Brasil. A polícia ainda investiga a causa da morte, mas a principal teoria é de que André fosse usuário de drogas e que havia contraído uma alta divida com os traficantes.

— Não entendi - comentou dobrando o jornal. — Bem – tentou explicar - Não há uma maneira de minha mãe não sofrer com a minha partida. Bem que eu queria, mas não dá. Então eu pensei em forjar minha morte. Não quero que ela fique com a vida parada tendo esperanças de que eu um dia volte. Acreditando que estou morto, será mais fácil para ela tentar recomeçar. Essa é uma boa oportunidade, afinal eu me encaixo no perfil. — Como assim? Ian – e riu descrente – ninguém vai acreditar que você resolveu do dia para a noite virar uma mula. Não dá, tira isso da cabeça. — Eu não quero ser uma mula Ana. – respondeu achando graça de sua confusão. Só uma vítima, como esse tal Luiz. E assim, posso ser encontrado morto um dia. — E como você faria isso? — Sei de alguém que pode arranjar um corpo. – falou misterioso. — Mas você não usa drogas! - lembrou Ana. A garota começava a ficar nervosa. Ele esta falando sério. Já pensou em tudo. — Nunca é tarde para começar – brincou, rindo um pouco antes de ver a cara da garota que a fez parar. — E você acha que isso vai fazer sua mãe se sentir melhor?

218

— Olha, eu sei que é cruel o que estou fazendo, mas eu não sei como fazer diferente. – o olhar o garoto agora era duro – Assim pelo menos eu faço com que ela tenha uma lembrança ruim de mim. Talvez assim seja mais fácil pra ela tentar me esquecer, sei lá. E ela vai ter o Nathan para consolá-la depois. — Nathan? - perguntou surpresa. Ele pareceu surpreso com a dúvida de Ana, mas depois levou a mão á cabeça dando uma tapa na própria testa. — Ah, esqueci de te falar, não é? Minha mãe está grávida. Três meses. Souberam do sexo anteontem. – anunciou com um sorriso. — Serio? - Ana ficou radiante - que legal - E depois seu sorriso desanimou - Mas você nem vai querer aproveitar o irmão. — Não vai dar - disse o garoto também triste de novo - Acho que ele vai fazê-la se sentir melhor. Espero que sim. É bom não ser mais o filho único. — Parece que você não vai desistir, não é? - disse desanimada — Não – concordou Ian, fitando seu sanduíche intocado - Até porque minha mãe já tem pensado coisas desse tipo sobre mim. — Não é possível. - Ana riu de escárnio - Ela não pensaria isso de você. — Na verdade, pensa sim – ele a corrigiu sem ânimo - apesar de nunca ter falado. Minha mãe tem ficado muito pavorosa com essas noticias e tem se preocupado muito comigo por conta disso. - e completou meio encabulado - E nos últimos dias eu tenho feito coisas que acentuaram tal preocupação. — Não pode ser. – disse Ana, mas então o momento da conversa com Marta voltou a sua mente: Não é que eu não confie nele é que... eu não confio nos outros Ela ainda se lembrava da súbita onda de dor que passou pelos olhos dela, naquele momento da conversa quando a reportagem passou na televisão. De fato, ela estava preocupada com o filho. Por quê? — Como ela pode pensar isso? - perguntou Ana. — Bem. A verdade é que ultimamente eu tenho agido de forma um tanto estranha. – ele parou um minuto suspirando – Eu não queria te contar para não te assustar, mas acredito que agora o perigo já passou. - disse voltando a atenção pra garota. - Nos últimos dias eu percebi a presença de um demônio pelo nosso bairro.

219

— Um demônio? – Ana se curvou para junto de Ian a fim de que a conversa fosse mais particular. — Sim, um possuído, eu achava. — Como assim? — Eu não sei explicar. Foi... diferente. - ele parecia realmente confuso. Ana esperou, até que ele se propôs a divulgar. — Bem, vou te contar do principio: “Há umas duas semanas, quando notei sua presença tão próxima, comecei a temer pela segurança de você e de minha família. Falei com Solange e ela também estava ciente da presença do intruso, só que ele não fazia nada. Ficava sempre perambulando e rondando nossa rua sem nunca se revelar. “Fiquei dias sem dormir por conta disso, saindo à noite e voltando cada vez mais tarde para casa a fim de encontrar o desgraçado e acabar com ele. Mas o infeliz era escorregadio. Aconteceu que, com o tempo, minhas chegadas em casa ficavam mais tardes e minhas desculpas mais esfarrapadas. Isso já é o suficiente para uma mãe ficar desconfiada, mas ela nunca me interrogou seriamente sobre o assunto e eu também nunca dei maiores explicações.” — Por isso que você esteve andado tão cansado esses dias – comentou Ana. — É, e isso minha mãe também percebeu. Teve um dia em que eu a peguei vasculhando minhas coisas, provavelmente atrás de drogas. Essa é a maior preocupação dela. - comentou triste - Então da próxima vez que ela procurar eu vou fazer com que ela ache algo. Aí eu sumo e peço para meu amigo simular minha morte. — Ainda acho uma idéia ruim - replicou Ana. — Mas é a melhor que eu tenho – cortou Ian – Não quero que ela fique esperando por mim a vida toda. Quero que ela siga em frente e tente ser feliz. Ana lutava para não extravasar a raiva que sentia da idéia dele e, percebendo isso, Ian fitou seu rosto e tentou mudar de assunto. — Não quer saber o que aconteceu com o demônio? – ele arriscou. Ana ainda estava com raiva dele, mas também estava curiosa. Era um golpe baixo. Então, confirmou com a cabeça, mas sua expressão deixava bem claro que aquele assunto ainda não havia encerrado. Ian deu um pigarro antes de começar.

220

— Como eu disse, havia um demônio a solta. Não sabia o que ele queria, mas tinha quase certeza de que eu era seu alvo. — Como eu falei, já fui recrutado por essas criaturas antes, assim que despertei para minhas verdadeiras lembranças. Então, quando houve a chance de viajar para o sitio da mãe de Laila, foi a hora certa de saber quem era o alvo da criatura. Falei com Solange e ela aumentou a prontidão para o caso dele continuar na nossa rua. Não podia deixar meus pais desprotegidos. Mas no fim, eu estava certo. “Então viajamos e na primeira noite eu senti a presença dele de novo. Na primeira noite, não consegui dormir. Eu tinha a idéia de sair e caçar nosso intruso, mas aí Laila e Fernanda, e depois você, resolveram se levantar. Tive de disfarçar vendo um filme chato na televisão esperando que vocês dormissem. “E quando finalmente todos se deitaram eu pude sair, mas já era demasiadamente tarde. O canalha havia sumido de novo. “No dia seguinte ia tentar o mesmo. Saí mais cedo do quarto e aguardei do lado de fora esperando pelo demônio, mas foi então que você chegou. Não preciso entrar em detalhes, só dizer que seu beijo me deixou um tanto... perturbado. “Eu não estava preparado pra aquilo. Fazia tempos que não sentia o toque de alguém e acabei me deixando levar sentindo a besta reclamando a posse de meu corpo. Bem, você já sabe o que poderia acontecer. Enfim, não consegui caçar naquela noite também e fiquei o tempo todo trancado no quarto, tentando me controlar... você sabe como. “Então, na última noite, você resolveu sair de casa sozinha. Eu já havia pressentido demônio naquele dia e não podia permitir que saísse desprotegida. É claro que escolhendo seguir você, eu deixei outras cinco pessoas vulneráveis, mas você era minha prioridade”. Ana sentiu um frio na espinha. Estava prestes a chegar à parte da história em que se lembrava com precisão. A hora da voz. Aquela voz fria, a mesma de quatro anos atrás. — Foi então que aconteceu. Ele se revelou e eu não podia desperdiçar aquela chance. Tive de revelar minhas habilidades pra você. Persegui o infeliz por mata à dentro até encontrá-lo. O enfrentei e até estranhei a facilidade com que foi morto. Parecia ser um principiante atrás de confusão. Mas então... Ele hesitou nessa parte, parecendo confuso.

221

— O que houve? – sibilou Ana já curvada demais pra perto de Ian. — Bem, é estranho... - disse coçando a cabeça – Quando eu o matei, ele virou pó. Cinzas pra ser mais exato. — E isso não é normal. – deduziu — Não – concordou – Só há uma maneira de demônios atravessarem o reino dos mortos e é através de uma possessão. Eles precisam de um hospedeiro e por isso, quando os matamos suas almas, o espírito vai para a mortalha ficando apenas os corpos dos hospedeiros. Ana sentiu um solavanco. — E eles morrem? — Calma. – disse Ian, segurando sua mão – Sei que parece terrível, mas é necessário. O hospedeiro tem que morrer, geralmente. — Mas, são pessoas inocentes e... — A verdade é que os demônios não tratam bem os corpos de seus hospedeiros. – explicou - Geralmente eles fazem as maiores loucuras quando estão dentro de humanos. Loucuras, como entrar em conflitos desnecessários, arriscam a vida, tentam experiências sexuais nada convencionais, entre outras coisas. E tais loucuras acabam por danificar demais o corpo do hospedeiro. A única coisa que os deixa vivos é a alma demoníaca alojada dentro deles e assim que são exorcizados, os corpos morrem. Não faz diferença um ritual de exorcismo ou a morte natural para quem é possuído. A morte virá de qualquer jeito. Ana concordou com a cabeça, mas ainda estava perplexa. Não pôde evitar sentir pena das pessoas que tinham esse destino. Imaginar seu corpo sendo controlado, usado para os mais terríveis fins e depois ser simplesmente descartado. — As pessoas ficam conscientes quando estão possuídas? – perguntou, sem saber se queria a resposta. — Sim – respondeu. Era isso que ela temia. Ian pareceu decifrar o que ela estava pensando, pois começou a alisar a sua mão e, com uma voz doce, tentou acalmá-la. — Se isso lhe serve de consolo, as pessoas possuídas tendem a atrair tal destino para si. – ficou em silêncio, esperando que suas palavras fossem compreendidas – Homens e mulheres depressivos ou até muitas vezes gananciosos, acabam por atrair determinadas criaturas. Sua fraqueza espiritual é a porta de entrada para esses seres.

222

Alguns até se deixam possuir propositalmente, pois tem tendências suicidas ou acreditam que assim possam ser melhores. - e completou com ar esperançoso. - Isso ajuda? — Não, mas valeu. — De nada. - sorriu desanimado — Bem, é só isso? — Não – respondeu Ian, voltando ao foco – O que aconteceu naquela noite foi estranho porque o corpo não ficou lá. Ele simplesmente virou cinzas, desapareceu. — O que você pensa? — Nada ainda me ocorreu. - disse fitando o nada - Pretendo investigar melhor quando partir. — Mas... – Ana disse subitamente, agora com um pouco de esperança - Talvez seja melhor você ficar então. Pense bem, se esse sujeito apareceu por aqui, podem ter mais. Seria até melhor para você manter todos aqui seguros. — Obrigado pela tentativa, mas não - cortou Ian com um sorriso – Primeiro, não acredito que haja mais alguém. Como eu disse, a maneira como ele apareceu, de forma tão descuidada, me pareceu mais um encrenqueiro afim de confusão. E em segundo, se há mesmo mais pessoas atrás de mim, quanto mais cedo eu cortar os laços com as pessoas daqui, melhor. Ana não encontrou argumentos e mordeu o lábio inferior tentando esconder a tristeza que sentia. — Eu não quero que você vá! - disse diretamente, mas a sineta tocou. — Não podemos nos atrasar para a aula – declarou rapidamente cortando o assunto. — Não fuja de mim – chamou a garota quando ele se levantou e ameaçou sair. — Ian! - ela chamou novamente, tentando correr atrás dele, quando sentiu alguém segurando seu braço. — Ana, para de agir que nem histérica – era Laila falando no ouvido da garota. — Laila, me solta - Ana tentou se libertar — Sossega menina – sibilou a garota - Tá pagando mico. Olha em volta. Ana reparou e viu que tinham algumas pessoas olhando para as duas. — Correr atrás de homem não é bom. Melhor o deixar voltar pedindo desculpas – aconselhou.

223

27 – A especialista em sonhos.
Ângelo estava sentado na sala de espera do consultório de Cassandra, admirando espantado a decoração multicolorida do lugar, que fez com que ele se lamentasse ter se esquecido dos óculos escuros. Mapas espaciais, véus, velas coloridas e outras coisas enfeitavam o ambiente, tornando-o um tanto agressivo para olhos despreparados. Cassandra, com certeza, não queria ser levada a sério. A decoração seguia o que se esperava de um Centro de Tarô comum, só que muito mais exagerado. Aquilo devia ter a função de dar a noção para um visitante novo de que jogaria seu dinheiro no lixo se quisesse se consultar com Cassandra. Ângelo estava sentado num sofá de dois lugares vermelho confortável, enquanto olhava as coisas em sua volta. À sua frente, uma mulher magra com óculos fundo de garrafa digitava alguma coisa nervosamente e quando percebia que Ângelo a olhava, dava-lhe um sorriso expondo seus dentes meio tortos. De fato a mulher completava a atmosfera estranha que preenchia o lugar. Enfim, ele ouviu o barulho da porta de Cassandra se abrir e um senhor de terno e gravata saiu acompanhado da maga. O homem devia ter seus quarenta anos, era branco, meio calvo e tinha uma barriga um pouco avantajada. — Obrigado Cassandra – agradeceu o homem balançando a mão da maga com força. Ângelo podia ver a pobre mulher lutar para se manter de pé com a força do aperto de mão – Você me tirou um peso de meus ombros. — Não se preocupe meu caro. Sua mulher o ama mais que tudo. Não duvide disso. – afirmou com um sorriso. O homem saiu dali radiante e assim que a porta se fechou, ela murmurou para a sua secretária. — Coitado Esmeralda. A mulher dele deve estar com o jardineiro nesse momento. Se ele correr ainda pega os dois. - Depois deu de ombros e se virou para Ângelo. O garoto se revoltou com o que ouvira. — Mas então por que não avisou ao homem? - disse se levantando – Por que o deixou sair iludido? — Ora, pois foi pra isso que ele veio – comentou Cassandra como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Ele já sabe há muito tempo disso, mas queria que alguém lhe dissesse o contrário. Pessoas como ele vem aqui apenas para se iludir. - e completou,

224

parecendo um pouco ofendida com a ousadia do garoto - Ele esta pensando agora mesmo que sou uma golpista e nunca mais vai voltar aqui. – e deu de ombros - Pelo menos eu o fiz feliz por um momento. — Ele quer se iludir? – comentou Ângelo, perplexo. — A ignorância muitas vezes é uma dádiva Ângelo. Então? Não veio aqui fiscalizar meu trabalho, aposto. Ângelo ficou surpreso, lembrando-se que não tinha lhe dito seu nome antes. — Como a senhora sabe meu nome? - perguntou — Bem – ela sorriu – Você marcou hora com Esmeralda ontem à noite e lhe deu seu nome. Ouvindo isto, Ângelo sentiu seu rosto corar e se calou. Cassandra soltou uma risada com vontade. — Não pense que vou fazer como nos filmes, anunciando seu nome e dizendo que já o aguardava, querido. - disse a mulher, achando graça - Isso eu deixo para as pessoas que vieram aqui para serem enganadas. Com meus camaradas, eu sou eu mesma. A mulher sorriu e o convidou a entrar. O garoto a seguiu, imaginando que seus olhos pudessem ser mais maltratados, mas havia se enganado. O ambiente interior era ainda mais colorido e berrante que o anterior. Cassandra se sentou numa mesinha e convidou Ângelo a se ocupar a frente dela. Ele obedeceu olhando para a mesa aonde pôde ver cartas de tarô e outras utilidades que ele não sabia identificar. A mulher, que estava vestida naquele dia com um manto rosa com detalhes dourados, tirou um fino xale que lhe cobria os ombros e estalou os dedos, fazendo as velas se acenderam. Depois, fitou Ângelo com os olhos cheios de curiosidade. — Não imaginei que o Bispo traria alguém aqui, enfim. – ela falou se sentindo lisonjeada em finalmente ser útil. – Então, resolveram me contar mais? — Como sabe que sou da Ordem? — Não é obvio? - respondeu - Quase todos vocês possuem a mesma áurea prateada. A Quintessência de vocês é quase que padronizada e especifica. É fácil reconhecer vocês. E acima de tudo, eu reconheci seu nome. – ela o olhou como se estivesse estudando-o e depois falou numa voz exaltada – Ângelo, o mago prodígio. Ele fala muito de você, Ângelo não pôde esconder o orgulho que sentiu estufando o peito, mas foi interrompido pela entrada de uma alguém na sala. Ela vestia roupas semelhantes às de

225

Cassandra, só que no tom verde esmeralda. Ângelo já tinha visto essa vestimenta antes. E a reconheceu como sendo igual a da moça da recepção, mas não podia ser ela. A recepcionista era estranha e aquela mulher era deslumbrante. Era ruiva também, só que seus cabelos eram melhores tratados e tinham um volume que realçavam suas bochechas, além de ser muito mais jovem. Ela sorriu ao entrar, mostrando dentes perfeitos. Mas o que mais chamavam atenção nela era o verde de seus olhos. — Esmeralda querida – saudou Cassandra – Então? Tudo acabado? — Sim – disse a moça com ar de triunfo - A senhora não será mais incomodada hoje. Despachei todas as visitas. — Esmeralda? - o queixo de Ângelo caiu. Não pode ser. — É – Cassandra se divertia com a expressão de espanto de Ângelo – Ela vinha tendo problemas com alguns de meus clientes e adotou um visual diferente para afastálos. - e se virou para a garota - Mas agora está ao natural, não é querida? — Alguns homens não sabem dar o respeito – ela bufou soprando uma mecha que ficou desalinhada na frente do rosto – É melhor ouvir piadinhas do que certas cantadas – e se sentou numa cadeira entre os dois. — Espero que não se incomode de minha aluna ficar aqui. - comentou Cassandra. — Eu... não... – disse Ângelo tentando tirar os olhos da garota - Acho que não seja uma boa idéia. — Bem, - começou ainda achando graça da falta de jeito do garoto - Imaginei que o bispo não quisesse envolver aprendizes, mas pelo visto mudou de idéia. Não vejo problemas em Esmeralda ficar ciente. Ela é de confiança e eu não gosto de esconder nada dela. — Até porque você saberia se eu não fosse - Lembrou Esmeralda. — Saberia mesmo – sua voz subiu alguns oitavos. — Mas não foi o bispo quem me mandou. - cortou Ângelo, começando a recuperar o dom da fala. As duas ficaram surpresas ao olharem para ele. — Então... - começou Cassandra - você está aqui contra as ordens do bispo? — Não contra – Ângelo tentou se defender - ele apenas não sabe. — Isso muda muita coisa – refletiu Esmeralda, meio que de deboche. — Muita – concordou a mestra.

226

Ângelo percebeu que os ânimos no local tinham se elevado. Provavelmente as duas eram chegadas em burlar as regras. — Então – incitou Cassandra – quer continuar? — Sim. -respondeu. — Bem, – Começou Esmeralda num tom cuidadoso – o que o levou a agir por contra própria? Ângelo ainda não gostava da presença da garota e não sabia se era por causa de ela ser uma intrometida naquele tipo de assunto ou se apenas era sua beleza que colocavam seus votos em xeque. Mas no fim, deu um pigarro e decidiu continuar. — O problema é que eu não sei se o bispo está em condições de lidar com a situação. — Só isso? - perguntou Cassandra com os olhos no garoto. - Isso parece um pouco pretensioso da sua parte. Na verdade tinha uma coisa a mais. Uma idéia que havia lhe ocorrido há pouco, mas que mesmo assim não deixava de incomodá-lo. — Não – continuou – Também acho que tem coisas erradas acontecendo... — Que tipo de coisas? - a atenção da sala agora era toda dele. — Não é bem uma coisa... só... um pressentimento. — Bem, essa é minha especialidade. - disse feliz, apoiando o queixo nas mãos com os dedos cruzados. - Me diga, o que o está incomodando? — Não sei bem, só que ontem... nada. - desistiu Ângelo não gostava de falar de pressentimentos, ainda mais com uma sonhadora. — Assim não posso ajudar – lembrou Cassandra. Ângelo se lembrou da pílula que trazia no bolso e a pegou num movimento rápido. Desde que vira o bispo naquele estado, não conseguia tirar da cabeça aquele pressentimento estranho, sentindo como se César estivesse sendo negligenciado ou coisa do tipo. — A senhora tem algum conhecimento sobre remédios de ervas? - ele estendeu a pílula. Cassandra se surpreendeu com o ato. — Bem não, mas Esmeralda... - disse se voltando para garota. Antes que ela completasse a frase, a garota meteu a mão no comprimido e o analisou com seus olhos verdes.

227

— Feito de Beladona pelo que vejo. - disse de cara – Olhando, eu diria que é um remédio para conter uma inflamação. — É isso mesmo - confirmou Ângelo se sentindo um tanto estúpido. — Por que você mostrou então? – perguntou a garota. — Só pensei que tivesse algo mais. Esmeralda revirou os olhos, tentando vasculhar a mente e depois respondeu com simplicidade: — Às vezes sim... — Como assim? – exasperou-se Ângelo - Então veja se tem algo a mais. — Estou dizendo que a composição está correta. É um remédio para inflamação – cortou a garota irritada com a educação de Ângelo. — Mas o que você disse sobre poder ter algo mais? — É que uma das propriedades da planta Beladona é a de ser um bom recipiente mágico - explicou um pouco impaciente - É possível se depositar magia nela. — Então ela pode ter magia? Essa pílula? — Bem, sim – Esmeralda deu uma boa olhada na apreensão do garoto - A Beladona já foi usada muito como um recipiente para se guardar todo o tipo de mágica: magia, necromancia, feitiço, e outros. Era como ter uma arma sempre a mão. Como numa guerra por exemplo. Antigamente os magos colocavam magias ofensivas em recipientes feitos com base nessa planta e depois largavam como se fosse uma granada. É bem útil, pois assim você tem munição extra para o caso de ficar sem energia. Mas... e fitou o rosto de Ângelo – Só magos experientes são capazes disso. De quem você desconfia? Ângelo baixou a cabeça pensando se devia duvidar de um superior assim para estranhos. A verdade é que não tinha prova alguma. Talvez fosse só implicância devido a fato de o frade estar o tratando tão mal. Ao olhar par frente, percebeu que as duas esperavam pacientemente pela notícia como se fosse a última fofoca do momento. — O Frade Henrique – falou finalmente. Cassandra arregalou os olhos, espantada. Para Esmeralda a notícia não quis dizer nada. Provavelmente nem sabia quem era. — Isso é muito sério Ângelo – avisou Cassandra. — Eu sei – afirmou o garoto. — Conheço o Frade Henrique há muito tempo.

228

— Mas... - ele ia dizer, quando foi interrompido — Bem, não tem nada. - ouviram a voz de Esmeralda. — Como? - Ambos se viraram pra ela. — Não tem nada – repetiu a garota. - Acabei de checar. Nada. Vazia. Nenhuma magia. — Isso diz muita coisa... – falou Cassandra. — É – concordou Ângelo, cabisbaixo. — Mas eu estou curiosa para saber o que o levou a ficar tão desconfiado. — Não é nada, só... um pressentimento. - falou se sentindo ridículo. — Sério? - ela parecia interessada. — É - confirmou. Cassandra ficou pensativa. Meu Deus, o que estou fazendo batendo um papo com uma louca dessas? — Mas também têm outras coisas – tentou se defender. Não queria se basear apenas em uma superstição para acusar o frade – ele também tem agido estranho. Parece não... - mas não tinha argumentos. Melhor calar a boca. — Vamos mudar de assunto? – propôs Cassandra e Ângelo se sentiu aliviado. – eu tenho novidades sobre o demônio que está caçando. Essa notícia fez atiçar sua atenção. — Sim. Mas como a Ordem dos Iluminados não tem interesses em envolver mais ninguém, eu não pretendo revelar meus segredos. O animo de Ângelo se esvaiu. — Entretanto – ela deixou suas palavras fazerem efeitos na expressão de Ângelo. – tanto eu quanto você estamos excluídos nisso tudo. Então, acho que não há problemas em lhe contar. Ela limpou seus óculos na toalha da mesa e continuou. — Desde a vez em que me encontrei com seu bispo, eu tenho ficado de olho nesse sonho. Eu fiz até mesmo uma cópia pra mim das chamas da lareira. E realmente o rastro de energia que essa criatura emana é assustador. Tão assustador e incomum que é até mesmo possível de ser rastreado. — Eu já pensei nisso - respondeu presunçoso. — Que bom – falou a mulher sem dar importância ao gênio dele. - Era o mínimo que deveria pensar – alfinetou

229

O garoto fechou a cara: — Pelo que ando vendo, o sonho de seu mestre é muito claro e a aparição do demônio iminente. - continuou - O rastro deixado me permitiu localizá-lo, mas sua posição real é muito imprecisa. Eu consegui resumir a sua busca para algum lugar dessa região. E mostrou um mapa. Na verdade, Cassandra estalou os dedos e num movimento no ar, como se tivesse desdobrando uma folha, fez surgir uma ilusão perfeita de um mapa. Uma ilusionista. Ângelo a olhou com desconfiança. — Sei que sua Ordem é contra pessoas como eu – falou Cassandra, interpretando as feições do rapaz – Mas você não vai me julgar em tais circunstancias, não é? — Não. - respondeu. — Ótimo. Enfim, é essa a região – ela circulou o dedo na área que engloba os bairros Vila da Penha e Vicente de Carvalho. — Reduziu bastante – admitiu. — Sim, mas ainda não é preciso. — Acho que posso cuidar disso – afirmou Ângelo, confiante. — Como? — Uma mágica especial – disse com certo mistério. — Entendo. - comentou – Não sei o que vocês da Ordem tem que não confiam nos outros e sempre querem fazer tudo sozinhos. Não me admira que não consigam alianças. Ângelo sentiu uma pontada no seu orgulho e a julgar pela expressão da mulher, era exatamente isso que ela queria. — Mas não acho bom você se meter assim, sozinho. - completou – Não sabemos se esse ser está só ou como está preparado. Mesmo você sendo um prodígio como dizem, não acho uma boa idéia. — Agradeço a sua preocupação, mas eu sei me cuidar. Esmeralda deu mais uma bufada de impaciência. — Espero que saiba o que está fazendo – desejou insatisfeita. — Não se preocupe. – comentou – Posso me cuidar sozinho. — Então por que veio até mim pra começo de conversa? - disse com um sorriso presunçoso.

230

— Só queria uma direção. — Entendo – disse com um ar meio vago. - Então façamos um trato. Você tenta procurar esse ser sozinho. Mas não vá fazer a besteira de tentar enfrentá-lo sem preparo. Entre em contato com seus superiores ou conosco se o localizar. Ângelo não gostava da forma como a mulher lhe tratava. Parecia a sua mãe. Mas decidiu concordar para poder se livrar delas. — Bem, Obrigado. Tenho de ir. E se levantou, saindo sem esperar respostas. — Ele é um tanto irritante – comentou Esmeralda quando o garoto fechou a porta atrás de si. Mas Cassandra não prestava atenção no que ela dizia. — Mestra? – chamou Esmeralda - A senhora está bem? — Ah, sim claro – ela parecia ter saído de um sonho – O que dizia? — Eu estava falando desse tal Ângelo. Ele é um tanto arrogante. Não acho que vá fazer o que prometeu. — Eu acredito que não querida – concordou com a voz ainda distante – Mas na verdade não estou tão preocupada com ele, mas sim com uma coisa que ele disse.

231

28 - Revirando o passado.
As aulas enfim dariam uma pausa de meio de ano e Ana teve a notícia de que não precisaria freqüentar o resto da semana para fazer a recuperação, já que suas notas eram razoáveis. Então estava oficialmente de férias, até dia vinte e cinco do mês de julho. O que fazer com o tempo vago? Essa era a sua maior dúvida. Na verdade, não tinha muito que pensar. Queria aprender mais do mundo de Ian e isso tomaria todo o mês. Seriam aulas nas férias, pensou. Mas esse tipo de matéria ela queria aprender. Mas então lhe houve uma idéia nova. Uma coisa que há muito tempo precisava ter feito e que não podia mais ser adiada. Olhou na saída a procura de Ian e o viu indo para casa. Precisava falar com ele. A garota acelerou o passo, mas com cautela para não ser percebida. Ainda tinha medo de que ele a visse e andasse mais rápido. Ian havia adquirido o hábito irritante de fugir dela nos últimos dias. E foi quando percebeu que uma pessoa vinha na direção oposta, fazendo-a ficar preocupada ao reconhecer quem: Lucas. Ana estremeceu, não porque ainda sentisse algo pelo ex, há muito esse não era mais um problema pra ela, mas porque ele estava indo na direção de Ian. Ana se lembrava das ameaças que Lucas havia feito para ele e a garota percebia a iminência de um confronto e começava a ficar preocupada. Sabia bem agora que Ian tinha força ao suficiente para acabar com seu adversário, mas havia aprendido também que ele não se permitia entrar em brigas com medo de perder o controle. Sempre julgou Ian como sendo pacifico, por sempre evitar confrontos, até mesmo nas brigas mais bobas da infância. Mas agora que sabia que a realidade era outra, não achava justo o garoto apanhar por não poder se defender. Meu Deus. Pensou, perdendo a calma e começou a correr na direção dos dois antes que se cruzassem. Faria qualquer coisa para evitar desentendimentos entre eles. Mas foi quando Lucas percebeu Ian. Seu rosto ainda tinha algumas escoriações da última queda de moto. Mas o que aconteceu depois, Ana não entendeu. Quando seu ex viu o garoto, seus olhos se arregalaram e ele atravessou a rua para evitá-lo. O que aconteceu? Ela parou sem entender. Lucas parecia com medo, mas Ian não botava medo em ninguém no bairro, nem mesmo nela que sabia seu segredo. E voltando a olhar para frente, viu Ian olhando para ela, parecendo esperá-la com a expressão calma no rosto.

232

— Você não é boa em seguir pessoas – comentou, quando ela chegou perto. Depois lhe deu um beijo de estalo no rosto e a convidou a acompanhá-lo. Depois de um segundo de hesitação, ela concordou. Ainda estava perplexa com o acontecido. O caminho foi lento e silencioso e a animação que Ana tinha para falar com ele parecia ter sumido no mar de dúvidas. Ela queria propor algo para Ian, mas decidiu tentar quebrar o gelo com ele antes. — Ian – ela fitou o garoto que parecia tranqüilo – Não sei, mas me pareceu que o Lucas tinha fugido de você – ela viu a lábio dele sorrir. Um sorriso traquina, controlado, culpado. - Você por acaso... Ele a olhou nos olhos e dava para ver que ele segurava o riso, como uma criança travessa. — O que você fez? — Nada – ele disse parecendo sincero, mas ainda sim ocultando alguma coisa – Ele só veio me bater, como prometeu. — Você revidou? Brigou com ele? – Ana já via como a luta devia ter sido injusta. — Na verdade não, eu só me defendi. A maior parte do tempo foi ele quem se machucou. — Como assim? Como ele podia ter se machucado dessa forma, batendo em você? — Bem. - ele pensou ainda achando graça. Até que estendeu o braço para ela Aperta a minha mão. Ana o olhou meio hesitante. — Não se preocupe – a acalmou – não é aquele velho truque do puxa o meu dedo. Rindo de leve, ela apertou a mão: macia, quente, normal. — O que tem? – e soltou. — Agora aperta de novo. – pediu — Ian, que palhaçada é essa? — Vai – encorajou. Ana pegou na sua mão de novo e levou um susto quando a sentiu. Não parecia mais ser tecido vivo o que ela tinha nas mãos. Continuava quente, mas agora parecia que estava segurando um bloco de concreto. Ela o largou, incrédula. — Como você faz isso?

233

— Concentrando minha Quintessência nessa parte do corpo - explicou – Isso é uma das bases do controle de energia que você ainda deve aprender. Eu posso com isso enrijecer uma parte do corpo, tornando-a tão dura quanto rocha. Entre outras coisinhas mais. – Acrescentou com falsa modéstia - Mas por enquanto é tudo o que você tem que entender. – acrescentou – Já da para imaginar o quando doeu nele me bater, não? — Ian... — Desculpe – apressou-se em dizer – Sei que não foi muito nobre, mas era o Lucas. Eu não queria apanhar pra ele de graça. — Entendo - ela não queria rir. Ainda achava um pouco injusto, mas pensando bem até que merecia. - Pelo menos você não bateu nele. — É... – concordou com um ar vago e Ana sentiu a mentira na sua voz. — Ian! - exclamou. — Foi só um – ele prometeu. Agora parecia uma criança se desculpando – Juro, um só. Só pra ele me deixar em paz. E... funcionou! - Acrescentou orgulhoso. — Então a queda na moto... — Ele inventou. Lucas não ia gostar de dizer que um garoto franzino como eu havia batido nele. Por mim é até melhor. — Mas não é arriscado você usar seu poder assim na frente de outros? — Não tem perigo – afirmou - Ele jamais ira pensar em algo assim. Lucas, como qualquer adormecido, vai pensar em várias teorias para explicar aquilo. A preferida das pessoas é que alguém teve um surto de adrenalina – ele riu – Essa sempre funciona. Era engraçado falar com ele dessas coisas. Ana se sentia de volta a infância e aonde tinha intimidade com Ian de falar essas loucuras. — Você só me surpreende – comentou sorrindo. — Que bom. – ele disse. - Essa é a principal vantagem de se viver como um mago. Você sempre se surpreende. Confesse que é bem melhor do que o mundo monótono dos adormecidos. Vale até o risco de ser caçado. — Tenho que concordar – admitiu. — Pena que não terei muito tempo para te ensinar mais. Aquilo foi um aviso. Uma forma de Ian reforçar para ela e para ele mesmo que estava decidido. E Ana sentiu mais uma pontada no peito e ficou em silêncio, deixando o sorriso de seu rosto desaparecer.

234

— Você veio comigo só para relembrar os velhos tempos ou tem algo a mais? ele decidiu mudar de assunto. Ele já sabia. — Acho que você quer me pedir alguma coisa – ele continuou despreocupado. Vá em frente. – encorajou. — Por acaso você sabe ler mentes também? - perguntou. — Não – respondeu – Só te conheço. Contanto que não queira me pedir para ficar – ele apressou-se em dizer – pode ser qualquer coisa. Ficarei feliz em lhe realizar um último pedido antes de ir. Na verdade, esse era seu principal desejo, mas Ian ainda estava muito certo de sua escolha. Sabia que agora não conseguiria nada dele, mas quem sabe ganhar um pouco de tempo. O pedido que ela tinha em mente poderia lhe dar esse tempo. Tempo para fazê-lo mudar de idéia e assim poderia realizar duas coisas em uma só. Mas acima de tudo, era uma coisa que ela queria fazer. Uma coisa que ela já devia ter feito. — Sim, eu gostaria de lhe pedir uma coisa. - confessou - Você também já está de férias, não? — Sim. – respondeu, esperando que ela continuasse. Aquilo era como na noite do jogo da verdade. Ana sentia que o garoto sabia exatamente o que ia pedir, mas esperava que ela falasse. Por que ele não podia poupá-la disso? — Eu queria que você viajasse comigo nessas férias. – propôs. — Para Três Corações – ele completou. Ana não se surpreendeu — Sim. — Para saber o que aconteceu com suas tias. — Também, mas... - ela hesitou – eu também tenho coisas pra fazer lá. Pessoas que nunca mais vi. Lugares em que nunca mais estive. — Entendo – ele parecia sincero. – Conte comigo. - disse por fim. Ana sorriu em agradecimento. — Seus pais... – ele questionou. — Não acho que eles vão fazer objeção – Ana sabia que esse era o maior sonho de sua mãe: Ela voltar para visitar seu avô e sua avó. E ao se lembrar da avó Marieta, seu coração apertou. Queria poder olhá-la de novo, mas a última imagem dela ainda era forte em sua cabeça. A maneira como acabou enlouquecendo depois do incidente.

235

E ficou imaginando que esse poderia ser seu destino. Seria seu destino se não fosse... Ela parou de pensar. Ao mesmo tempo em que isso lhe dava alegria, também lhe causava dor. Pois seu protetor desejava deixá-la. — Minha mãe também quer que eu viaje para espairecer – ele disse. — Por quê? - perguntou Ana. — Para me afastar de possíveis más companhias. Ana percebeu que a preocupação de Marta com o filho era realmente mais séria do que pensava. Por isso Ian estava tão convicto que seu plano de fuga ia dar certo com ela. — Obrigada. — Não por isso - respondeu Eles se despediram ao chegarem em suas casas e Ana viu que sua mãe voltara do trabalho mais cedo naquele dia. Ela sabia que uma bronca a esperava, mas teve uma idéia de como evitar esse confronto. E então, como parte do plano, correu animada para a cozinha onde a mãe terminava o almoço. — Mãe!– ela chamou, deixando toda a sua animação transbordar. Sentia-se ridícula atuando daquela forma, mas tinha que seguir o roteiro em sua cabeça. — Ainda bem que você veio mocinha... – a voz dela era severa, mas Ana não a deixou terminar de falar. — Eu entrei de férias hoje e... — Você sabe que temos de conversar... - a mãe não dava muita atenção — Eu estava pensando em... — Sabe muito bem que... — Ir para Três Corações ver meus avós E foi quando conseguiu fazer Helena se calar, reação essa que Ana já esperava. Ela pôde notar um sorriso começando a surgir no rosto de sua mãe, que ela tentava repreender, mas não conseguiu, pois parecia ter se esquecido do motivo pelo qual estava brava há algumas horas. — É sério, querida? - ela não parecia acreditar no que ouvia. — Sim – disse com animação – Eu pensei nisso hoje. Estou com saudades deles e queria muito ir lá.

236

— Mas isso é... maravilhoso. – Helena estava radiante – Bem, eu e seu pai não podemos ir, mas... - ela começava a falar consigo mesma – ele pode deixá-la lá e depois voltar. Aí você pega um ônibus pra voltar... ou... Ana foi concordando com tudo o que ela dizia com movimentos de cabeça. — Mas mãe. – ela interrompeu – A idéia foi do Ian – mentiu – Ele poderia ir junto? — A idéia foi dele? – o sorriso dela parecia ganhar mais força – Que bom. Claro, claro. Ana concordou com um sorriso meio tenso, pois já sabia do apreço da mãe pelo garoto e com isso, acabara de ganhar mais pontos para ele com Helena. O que ela vai pensar quando descobrir que Ian é usuário de drogas? Pensou, e até conseguiria achar graça da idéia se não fosse tão triste. — Então, tudo bem? - perguntou esperançosa. — Sim. – concordou Helena – Pode! Vou falar com seu pai hoje mesmo. — Que bom e... – se fez de desentendida - o que você queria conversar comigo? A expressão de Helena mostrava que ela acabara de voltar a terra quando escutou a pergunta. Mas não conseguiu sentir mais a raiva de antes para dar bronca na garota. Vendo que sua autoridade foi perdida, tentou da melhor maneira passar um sermão. — Você sabe que fez coisa errada ontem, não é? – Helena tentava ser o mais severa que conseguia. — Sei – e Ana tentava parecer o mais culpada que conseguia. — Então não faça mais isso – apressou-se. — Prometo. — Ótimo. Agora vá tomar um banho para comer. — Sim senhora – e correu para o quarto. Chegando lá, foi até a janela e viu que Ian já estava ali, esperando por ela. — Então? - perguntou – Sua mãe deixou? — Claro – sorriu Ana – e a sua? — Também – ele retribuiu o sorriso – Eu disse que ela queria muito isso. — Que bom. Vou almoçar agora. Até. — Até. E fecharam as janelas.

237

29 – Caça ao demônio.
Numa casa pequena, na Rua Oliveira Belo, morava uma pequena família de classe média, composta de quatro pessoas. Mario, o chefe da casa, estava em seu momento de lazer em frente à televisão esperando à hora para voltar ao trabalho. Um serviço que ele odiava, mas sustentava a sua família e era isso o que importava. Cecília, a esposa, estava ocupada arrumando a bagunça da cozinha, mantendo sua rotina diária. Cristiano, o filho do casal de dez anos, estava mais uma vez trancado em seu quarto com seu vídeo game novo e se recusava a acabar com sua distração para brincar na rua. Coisa que seu pai odiava, ameaçando-o várias vezes de tirar-lhe o jogo, mas sua mãe sempre intercedia a seu favor. E Corine, a sogra, que estava mais uma vez em seu quarto lendo seus preciosos romances. Apesar de quase nunca abrir a boca, sempre que o fazia, era para dar alguma reclamação. Seja pela vida sedentária de Cristiano, pela rabugice do genro, ou pela capacidade sobre humana de sua filha em suportar tudo isso. E como todos os dias comuns. Mario se recostava na sua poltrona favorita vendo o noticiário da tarde, tentando aproveitar cada momento que tinha antes de voltar ao martírio de seu emprego. Então, a campainha tocou. — Querido, pode atender? – gritava a mulher da cozinha. — Cristiano! A porta! – berrou, mas o filho não respondeu nada. Não adiantava pedir a Corine, então, mesmo resmungando, ele foi atender. — Eu vou explodir o jogo desse garoto aí ele me escuta... Quando abriu a porta, não se preocupou em parecer educado ao visitante. Seja ele quem fosse. E quando viu quem chamava, tomou um susto. O garoto era a coisa mais feia que ele vira. Coitado. — O que você quer? É um dos amigos de Cristiano? – questionou. — Não senhor. Eu só queria um minuto de sua atenção. Mario notou as roupas do sujeito: Calças sociais pretas, camisa de botão bem passada. Cabelos arrumados e sapatos. Merda. Pensou. — Não queremos nada. – e tentou fechar a porta, mas o garoto a conteve. — Por favor, senhor. Só quero lhe passar a mensagem de Deus. — Escuta aqui meu filho – ele falou baixo, mas com a voz dura – eu tenho um emprego que detesto, uma mulher que não faz amor comigo, uma sogra que me da nos

238

nervos e um filho que vive em Matrix. Desculpa, mas a palavra de Deus não me parece muito atraente no momento. E fechou a porta numa batida. — Quem era Mario? – gritou sua mulher da cozinha. — Só mais um Crente. E a voz de Corine pôde ser ouvida lá de cima. — Francamente. É por isso que essa família desanda. Vocês são um bando de Ateus. Mario decidiu ignorar o comentário e voltou para sua televisão, sentindo-se frustrado por ter perdido seus sagrados minutos.

* Já é a sétima porta na cara, contou Ângelo. Estava bem difícil encontrar o que ele queria. O garoto havia vagado pelos bairros da Vila da Penha e Vicente de Carvalho conforme Cassandra havia o direcionado, mas ainda não encontrou nada. Ele precisava de apenas alguns segundos para ver se seu crucifixo, encantado com a Bússola de Inês, reagia. Claro que se ele fosse mais habilidoso isso não seria necessário, já que A bussola de Inês era tão poderosa que conseguiria encontrar a emanação energética daquele demônio a muitos quilômetros de distância. Mas, infelizmente, Ângelo não tinha poder para tanto, tendo que se conformar com a versão genérica da magia. Talvez se eu tivesse pedido ajuda ao bispo... Mas não. Ele havia decidido continuar sozinho. Queria isso. E além de tudo a Bússola era uma magia complexa demais, até mesmo para César. Até onde Ângelo sabia, nenhum mago, com exceção da própria Inês, foi capaz de realizar aquele encantamento com perfeição. Assim, para os demais praticantes de magia, era necessário estar a uma boa distância do alvo para que a Bússola começasse a reagir. E naquela casa não havia nada. E pensando melhor, foi até bom o dono ser um grosso, pois assim ele não perdia tempo e ganhava mais para visitar outra casa. Pior era quando ele deparava com pessoas dispostas a discutir sobre e existência de Deus ou então falar sobre suas próprias crenças. Esses dificultavam seu trabalho. Respirando fundo e tentando recuperar o ânimo, ele continuou a sua busca. Passou por várias casas e nada da Bússola reagir. Começou a se questionar se tinha feito a

239

magia corretamente, mas não gostava de duvidar de suas próprias habilidades, preferindo por a culpa na velha louca. Talvez ela tivesse errado na área. Como ainda faltavam casas a serem visitadas, continuou sua busca, até que chegou a uma bonita residência na Rua Feliciano Pena. Já sem esperanças de conseguir algo, ele tocou a campainha. E foi instantâneo. Assim que uma bela senhora abriu a porta, ele sentiu o crucifixo começar a se aquecer dentro de sua roupa. — Sim? – a mulher surgiu para ele. – Em que posso ajudá-lo? — Desculpe o incômodo senhora, - ele começou a se sentir eufórico com a possibilidade. A circulação de seu corpo se acelerou e Ângelo lutou para poder falar com precisão. - é que eu precisaria tomar um pouco do seu tempo. Poderia me dizer o seu nome, se não for muita ousadia? A mulher pareceu perceber do que se tratava e não estava muito animada, mas ainda assim foi paciente. — Marta – disse sem muito ânimo. — Bem, Marta. Eu faço parte de um grupo religioso que tenta conscientizar as pessoas para a palavra de... Mas foi interrompido quando seu crucifixo pareceu entrar em combustão em seu peito. Ele fez uma careta de dor colocando a mão no peito e Marta o olhou com curiosidade. — Aconteceu alguma coisa? Se sente mal? — Não, nada... - tentava falar enquanto ajeitava o crucifixo na blusa para que ele não queimasse tanto a pele. — Mãe? Algum problema? - ouviu-se uma voz atrás dela e um garoto apareceu na porta. O jovem parecia ter seus quinze ou dezesseis anos. Era alto e de porte médio. Seus olhos, no momento interrogativos, eram muito negros em contraste com uma pele muito branca. A bússola queimava mais que nunca, agora que o garoto estava perto. — Nada Ian – a mulher disse, dando um beijo no rosto do garoto - Vai comer se não o almoço esfria. E o tal Ian saiu de vista. Mas por último, lançou um olhar desconfiado para Ângelo. Agora seu peito se aliviava um pouco. — Você está bem? - tornou a perguntar.

240

— Sim senhora. Desculpe, mas tenho que voltar agora. Lembrei-me de uma coisa. Outro dia continuamos a conversa, pode ser? — Claro – ela respondeu prontamente, embora sua voz mostrasse que não desejava muito isso. — Até – despediu-se Ângelo — Até – respondeu, fechando a porta. Ângelo foi andando ligeiro, tirando o crucifixo rapidamente de baixo da blusa. A ponta negra dele, onde havia recolhido a energia do demônio, estava piscando. Ele finalmente havia encontrado. O garoto é jovem e eu não senti uma presença muito forte lá dentro, então isso quer dizer que o demônio ainda esta adormecido. Preciso agir, mas tenho que esperar ele ficar só. Não é uma boa idéia dar um show na frente da mãe dele. Acho que posso exorcizá-lo, mas não faz diferença. O corpo não tem nenhum espírito além do demônio, então mesmo que eu o esconjure, o corpo vai morrer. Pobre mulher, mas acredito que ela vai preferir ter um filho morto a um possuído. Isso tem que ser feito. Ele não pode despertar.

241

30 – Boa o bastante.
Ana já estava na mesa do almoço com seus pais, esperando a mãe tomar a palavra. Helena prometera dar a noticia e a garota queria saber se ela usaria esse momento. Mas não teve que esperar muito, pois logo que deixou um minuto de silêncio para que a família saboreasse o prato, ela se virou para Oscar, seu marido. — Querido, você não vai acreditar no que nossa filha decidiu. — Agora é nossa? – ele comentou, limpando a boca – Até hoje de manhã era minha. Ana riu, imaginando que ela fora reclamar para o pai por ter dormido toda ensopada. — Agora é nossa – ela disse sem se interromper – Ela decidiu passar parte de suas férias com os avós em Três Corações. Oscar a olhou impressionado. — Sério? O que levou essa mudança? — Saudades eu acho. - respondeu a garota - Na verdade eu já tinha isso em mente – mentiu – e o Ian também me deu uma força para decidir. — O Ian? – ele disse feliz. - Gosto desse garoto. - comentou Sei que gosta, pensou Ana. — Por mim é uma excelente idéia – sorriu Oscar – Se quiser te levo amanhã mesmo. Não vou trabalhar e aí, vejo meus sogros e volto. — Sério? — Bem, eu estava brincando um pouco – disse constrangido olhando pra garota iludida – mas... - e pensou - pode ser. Eu não vou poder ficar, mas aí você fica por lá. — Seria bom – ela não queria esperar muito – Vou falar com o Ian – e voltou a comer. — Por quê? – seu pai perguntou. — Ele vai comigo – disse simplesmente, voltando-se para seu prato. Depois olhou para o pai e viu que ele não estava mais tão contente – Desculpe. Esqueci de comentar, eu acho. — Acho uma péssima idéia – ele fechou a cara. Que mudança, pensou. Ana ia replicar quando sua mãe interveio na discussão. — Amor. É o melhor amigo dela. - defendeu - Deve ser uma boa companhia.

242

— E eu não quero que seja boa demais. Francamente Helena. Os dois, sozinhos. — Mãe – Ana gemeu. — Calma – pediu estendendo a mão para que a garota se mantivesse calada – Oscar, do que você tem medo? Eles são amigos há tanto tempo e você sempre gostou dele. Gostava quando pensava que o Ian era gay. Por que resolveu mudar de idéia quanto a isso? Pensou em falar, mas preferiu se manter calada. Tinha experiência e sabia que a mãe era melhor em argumentar com seu pai do que ela — Oscar. Isso é uma verdadeira benção. Há quanto tempo você não queria que Ana voltasse a ver os avós. Sabe como isso é importante para meu pai e quanto é pra mim. Não vá estragar tudo por um complexo de super proteção. Oscar bufou e Ana entendeu isso como um sinal de fraqueza. Preferiu conter o sorriso nos lábios. — Não sei ainda. — Meus pais estarão lá. Nada vai acontecer de ruim. Francamente! O que você acha que pode acontecer? Ele ficou em silêncio. Sabia que o pai morria de vergonha de falar sobre essas coisas na frente da filha. Então, comeram por mais um tempo em silêncio. Helena tinha um ar emburrado, mas Ana sabia que era apenas uma de suas armas de manipulação. Era boa nisso. Quase uma feiticeira. Analisou. — Bem – comentou Oscar quando terminou – Vou levá-los amanhã. — Obrigado! – ela correu para beijar-lhe a bochecha. — De nada. Mas juízo, por favor? — Prometo - e saiu correndo para pôr o prato na pia e subir até seu quarto antes que o pai resolvesse desistir. Ana ainda podia ouvir o que se falava no andar de baixo enquanto se afastava. — Eu sempre faço o que você quer - resmungou Oscar — Faz mesmo – riu-se Helena. No quarto, Ana viu que a janela de Ian estava fechada. — Ian – chamou – Ian, você está aí? Ela escutou um barulho vindo do quarto do garoto e depois a janela se abriu. — Oi - ele apareceu

243

— Vamos amanhã mesmo – disse ela com alegria. — Amanhã? - se espantou – Isso é um pouco precipitado. — Tem algum compromisso? — Não, só que eu queria te apresentar a alguém antes – e depois deu de ombros – Vou falar com minha mãe sobre essa mudança. Pode me encontrar aqui em baixo daqui a meia hora? — Claro. – disse curiosa. — Legal. Vou lá então. - despediu-se. — Tchau – e fechou sua janela para poder trocar de roupa. Meia hora depois, estava na frente de sua casa esperando. Ian saiu e veio de encontro a ela. — Então? – perguntou impaciente. — Vou sim – disse ele – Não disse que minha mãe quer se livrar de mim? – completou, fingindo-se de ferido. — Não brinca assim. — Foi mal. — Então – ela se animou – A quem você quer me apresentar? — Você não tem a menor idéia de quem seja? — Não - respondeu sinceramente. Ian se aproximou com calma dela segurando seu rosto com as mãos. Ana sentiu sua pulsação se acelerando conforme ele ia se aproximando, fitando-a os olhos. Pega de surpresa, ela não sabia o que fazer naquele momento e a apreensão fez com que o ar escapasse de seus pulmões. Foi quando ele virou sua cabeça em direção a casa de Solange e a garota se sentiu feliz por não externar a impressão que teve das intenções do garoto. — Solange – As palavras saíram um pouco decepcionadas - Acho que ela não gosta de mim. - comentou. — Que isso. Ela gosta de todos. — Eu também achava. Até ontem. Ian riu. — É isso? – disse, fazendo pouco caso – Não ligue. É que ela me viu saindo de casa naquela manhã sabendo que eu tinha te contado tudo na noite anterior. Como me

244

viu muito pra baixo, imaginou que você tivesse fugido de mim depois de saber a verdade. — Eu nunca faria isso. — Mas ela não sabe disso. - lembrou - Ela gosta muito de mim e só queria me proteger. — Eu imagino – disse inconscientemente, entre os dentes cerrados. — Como? - ele pareceu surpreso com a mudança de humor. — Nada. - tratou de se recompor. – Por que você quer tanto me apresentar ela? — Se esqueceu de que ela é como eu? Solange também é uma maga. Na verdade, membro de um grupo muito específico: a Irmandade da Rosa. — É verdade – lembrou-se Ana - E que tipo de grupo é esse da Irmandade da Rosa? Fitando o amigo, Ana percebeu um sorriso travesso se formar no rosto dele. Ela ainda tentou identificar o que significava, mas não conseguiu. — Do que você está rindo? — Nada – ele coçou o nariz. Era mentira. — Fala! - mandou. — É que... – ele lutava para tirar o sorriso da boca – Você vai se espantar. Eles estavam parados de frente para a casa de Solange. — Acho que você concorda que já passei por várias coisas que podiam ter me espantado, não? — Sim, mas... – ele ainda ria. — Fala logo Ian – ela começou a lhe fazer cócegas na barriga. — Tá bom. Para! – levantou as mãos em sinal de rendição – É que... Como vou explicar – ele fitou o horizonte atrás de respostas. Não conseguia parar de achar graça e Ana começou a pensar que ela estava fazendo o papel de palhaça. — Existem, – começou, ainda em dúvida – várias formas de se liberar a quintessência de um corpo. Ponto. — Você me disse isso – respondeu Ana – Dança, meditação, luta. – foi repetindo o que se lembrava - Continue. — Então. - ele fez uma pausa - Você conseguiu através de uma simples concentração. Ponto. - Porque ele não tirava aquele sorriso da boca? - Mas existem outros meios. Ponto.

245

— Para de falar ponto. — Sim. Ponto – e riu – Foi mal. Então, além dessas três que você citou, existem as maneiras mais peculiares de se liberar energia do corpo. Tem grupos que cultuam a dor e através de rituais de mortificação, liberam sua magia. Outros preferem a abstinência. — Sim... – incitou. — E tem a Irmandade da Rosa que tem como principal condutor mágico o prazer – e acrescentou rápido – o prazer da dança, o prazer da música... e só. Essa é a Irmandade da Rosa. - encerrou. Ana percebeu que ele acabou rápido demais. Ian tinha deixado algo solto que a garota tentava pescar e quando finalmente conseguiu compreender o que Ian deixara de falar, arregalou os olhos. Ele balançou a cabeça afirmativamente ao ver suas expressões. — Eles usam... – a palavra engasgou em sua garganta - sexo como ritual mágico? — Entre músicas e danças – tentou defender. — Isso realmente me impressionou - sua expressão não a deixava mentir. Imaginar Solange realizando rituais sexuais era um golpe muito forte para sua mente. Conseguiu superar a visão dela beijando Ian, mas aquilo... — Bem Ana, pra entrar nesse mundo você tem que quebrar certos preconceitos. explicou Ian. — Não é preconceito, é que... – e apontou para a direção da casa – imaginar ela... — Você se impressionaria se soubesse como ela... – e parou no meio vendo o rosto de Ana. Seu sorriso desapareceu e ficou serio – Ela é uma boa... maga. - disse por fim. — Sei – disse a garota tentando esconder o incomodo que sentia. – Só que ela deve ter uns cinqüenta. — Sessenta e cinco para ser sincero. Agora Ana se impressionou. — Nem parece. - admitiu — Não é? - concordou Ian. — Ian? – ela se virou para encará-lo. — Oi.

246

— Você. - ela tinha dificuldades em perguntar, aquilo era uma intimidade da vida do garoto que ela nunca se atreveu a tentar descobrir - já participou de algum desses... e gesticulou tentando fazê-lo entender. Ian riu. — Infelizmente minha condição não permite. - lembrou. — É mesmo – concordou - A Besta. — Só consigo participar dos menos insinuantes, ou os de música – ele sorriu. O beijo dado em Solange caia bem no quesito, menos insinuantes. Diabos, por que não consigo me livrar disso? — Vamos entrar? – convidou ele. — Ah. – disse, cortando seus pensamentos - Claro, mas... - hesitou ao o ver abrindo o portão - Não vai chamar? — Ela não gosta dessas formalidades com pessoas íntimas. - explicou - Vamos. Aposto que você vai poder aprender muitas coisas com ela. Ela é uma das magas mais poderosas que eu tive a oportunidade de conhecer. E olha que eu tenho quase cem anos de vida. - completou. E foi então ela entendeu o objetivo de toda aquela animação em lhe apresentar Solange. E essa compreensão fez a garota parar no meio do caminho, e, vendo Ian se afastar dela, sentiu um peso no peito. Ele não quer que eu sinta falta dele. Ana percebia sua idéia principal se esvaindo. Acreditava que Ian demoraria a abandoná-la, afinal, ele ainda tinha muitas coisas para lhe ensinar sobre esse mundo, mas não era bem assim. Pois naquele momento, ele estava tentando encontrar um novo mestre pra ela. Ian se virou ao notar que não era seguido. — Vamos, pode entrar. - encorajou Suspirando fundo, deixou a tristeza de lado e continuou. As palavras dele ainda estavam vivas em sua cabeça e ela se lembrou do que ele lhe contou quando narrou sua vida como Ian. Quem sabe Solange não poderia lhe iniciar nas artes mágicas, afinal, você já teve muita experiência com suas tias. Acho que ele nunca se esqueceu desse plano. Percebeu. E os dois atravessaram a porta e, ao entrar, Ana pensou que tinha sido levada para outro mundo, pois a casa simples do lado de fora não parecia suportar o luxo que tinha

247

na parte de dentro. Ela olhava os móveis de incrível qualidade espalhados pela sala espaçosa, com direito até a um piano de calda. Como isso tudo coube? Ana e Ian tiraram os tênis antes de entrarem e os pés de Ana foram recebidos por um tapete muito macio. — A vaidade é uma característica muito forte na Irmandade da Rosa. – comentou o garoto, notando seu espanto. — Mas - ela tentou juntar as palavras – como é que ela consegue? — Por que você acha que Solange, por mais simpática que seja, nunca convida muita gente para a sua casa? - perguntou com ar divertido – Sua casa é repleta de mágicas. Quando ela precisa realmente receber algum adormecido ela pode simplesmente fazer uma ilusão para que a pessoa tenha a impressão que está numa casa humilde, digna de uma viúva. — Bem vindos – ouviram a voz de Solange. Quando olhou, Ana pôde ver a mulher entrando na sala. Ela estava vestindo um roupão se seda vermelho que realçava seu porte corpulento, que não diminuíra com a idade. Vendo-a, Ana não pôde deixar de invejar o corpo de Solange. Mesmo que não parecesse uma jovem de trinta anos, a mulher conseguia se manter bem conservada. Jamais diria que ela tinha mais de sessenta. — Bem, então finalmente você despertou. – ela perguntou sorrindo amistosamente. Ian estava certo. Ela voltara a tratá-la com a mesma delicadeza de antes – O que acha desse novo mundo? — Fascinante – comentou Ana, ainda intimidada pela presença da mulher. — Aposto que Ian ainda vai poder lhe mostrar muito mais. - disse a mulher. Ana olhou hesitante para o garoto. Será que Solange não sabia dos planos dele de empurrá-la pra ela? Mas Ian parecia naturalmente calmo com suas palavras. Depois daí, a conversa se seguiu tranqüilamente entre os três. Assuntos triviais encheram o lugar, o que decepcionou um pouco Ana, que acreditava poder ter mais lições sobre magia. Porém, Solange não parecia querer falar desses assuntos naquele momento. Mas acima de tudo, a conversa corria tranqüila e animada. Ana até se sentia envergonhada por já ter pensado tão mal daquela mulher um dia. Mas ainda não conseguia deixar de ter um pé atrás com ela. No fundo, ainda sentia certo incomodo

248

imaginando uma mulher daquela idade se sujeitando a certos tipos de rituais. Ian havia dito para ela vencer esses preconceitos, mas ainda era um pouco difícil. Precisaria de tempo para digerir tudo aquilo. E foi quando menos percebeu, havia dado a hora de partir. Ana ainda tinha que organizar algumas coisas para levar para Três Corações e provavelmente seu pai iria querer levar-lhes cedo na manhã seguinte. — Bem, acho que temos de ir. - falou para Ian e Solange. Ian concordou com a cabeça já se levantando. Depois, se virou para a mulher. — Eu posso falar com você uns minutos? - e depois se virou para Ana – Pode indo se estiver com pressa. Ana notou que aquilo era mais uma imposição do que um conselho, mas fingiu não entender. — Vou lhe esperar aqui no jardim. — Tá certo. – concordou, sem muita resistência. Eles ficaram em silêncio enquanto Ana saía do cômodo. Ela queria perguntar o que eles fariam para não quererem sua presença, mas não teve coragem para tamanha ousadia e concordou em ficar do lado de fora. Mas sua paciência durou por apenas uns trinta segundos, até que sua curiosidade lhe deu o golpe de misericórdia. Olhando a janela que dava à sala de Solange, ela foi se esgueirando pelo quintal até ela e, sem aparecer, encostou o tronco na parede, a fim de tentar ouvir melhor o que se passava lá dentro. — Solange, nós combinamos – a voz de Ian era revoltada, mas ele a mantinha sob controle. Provavelmente, não queria que Ana ouvisse a discussão do lado de fora. — Não combinamos nada – replicou Solange, numa voz cortante –Você tomou as decisões achando que eu ia simplesmente concordar, mas não vou. — Qual o problema? Ela tem potencial. E você é uma excelente mestra. Precisa se dar outra chance. — Não estou interessada no momento, obrigada. - disse com sarcasmo. Ian ficou em silêncio, mas Solange não. — E potencial apenas não é o bastante Ian. – continuou – É preciso mais, é preciso paixão. Coisa que muito falta nessa garota. - e fez uma pausa entes de continuar - Você mesmo disse que ela demorou dias para finalmente conseguir vencer o seu

249

ceticismo, mesmo quando as coisas estavam debaixo de seu nariz. Como espera que ela possua a paixão necessária para partilhar da Irmandade da Rosa? Tudo ficou em silêncio. Ana começou a pensar que eles tinham acabado a discussão e talvez nem estivessem mais na sala, quando a voz de Solange voltou. Estava mais fraca que o habitual e parecia estar carregada de dor. — Valéria também tinha potencial, Ian. E você sabe o que aconteceu. Não vou arriscar outra só porque é um prodígio. Você sabe o que eu senti, ou quer sentir de novo? Parecia que aquela frase tinha posto a discussão por encerrada. Valéria? Esse nome não trazia nenhuma lembrança para Ana. — Desculpe por te incomodar – disse Ian com a voz dura – Vou-me embora, então. — Adeus - a despedida dela parecia bem carregada, como se acreditasse nunca mais vê-lo. Ana correu até a frente da casa e se sentou num banco da varanda, tentando disfarçar. Quando Ian saiu pela porta, ela o olhou tentando dissimular a decepção que sentia. Então não sou boa o bastante. Aquele pensamento a havia atingido com mais força do que esperava. Era lógico que ela queria um pouco disso. Quem sabe com Solange se recusando a lhe ter como discípula, Ian não teria de assumir esse cargo. Mas as palavras dela foram tão duras e lhe trouxeram tantas lembranças ruins. — Então? Pronto? - ela perguntou. — Sim – ele olhava para baixo o tempo todo com um ar de derrota. E foram para casa sem se falar. Ana não queria perguntar nada com medo que sua dúvida a traísse e Ian acabasse percebendo que a garota espiou tudo. Mas no fundo, ela acreditava que Ian já sabia disso. Mas ele também não parecia entusiasmado para iniciar a conversa. Chegando ao quarto, ela pegou a mesma mala que usou para ir ao sitio de Laila e tirou algumas roupas sujas que ainda estavam ali, levando-as para o cesto de roupas sujas. Depois, começou a organizar o que levaria. A todo o momento olhava para sua janela, que dava visão direta ao quarto de Ian. O garoto também parecia entretido em arrumar sua bagagem, mas seus olhos denunciavam o aperto que sentia no coração. Ele quer realmente se livrar de mim.

250

Ana sabia que era infantilidade sentir isso, mas não conseguia evitar. Desde que sua vida deu uma guinada para a pior ela sempre foi a excluída. Das brincadeiras, das festas de aniversário, dos grupinhos de escola. Só conseguiu remediar essa situação depois de algum tempo, mas a sensação de exclusão ainda a tomava. E agora, que parecia que tudo era diferente, onde finalmente acreditava ter conquistado seu espaço nesse novo mundo que se abria pra ela, descobriu que seu lugar ainda não era bem definido. Ian não a queria por perto, com medo de feri-la. Não podia culpá-lo. Se nem mesmo a poderosa Catarina durou minutos com ele, que chances ela tinha? E Solange dizia que ela não tinha paixão. Mas que diabos aquilo significava? Ian disse que ela tinha talento natural, ela era um prodígio. Ainda gostava dessa palavra. Ela deixava-a lisonjeada e agora tudo caía como um castelo de cartas. Tudo porque não tinha paixão. Ana temia a partida de Ian. O que seria dela, sem ninguém para lhe guiar nesse novo mundo? Ficaria bem sozinha? Ana já havia passado muitas vezes solidão. A solidão de ninguém acreditar nela. A solidão de se sentir como um alienígena em meio aos terráqueos. Isso já não a devia incomodar tanto. Mas incomodava. Incomodava porque ela sentia que uma parte muito importante de tudo aquilo estava prestes a ir embora pra sempre. Havia superado a solidão sim, mas como? A verdade é que ela nunca esteve completamente só, pois mesmo nos piores dias, sempre tinha alguém perto dela. Alguém que a ouvia, que a protegia. Alguém que por si só supria toda a falta de todo o resto. Nunca se dera conta do tesouro que tinha em mãos. Só agora que estava prestes a perdê-lo. Quem sabe se eu nunca tivesse descoberto nada? E se nunca houvesse atravessado o Véu e se permitido dar uma olhada no mundo maravilhoso que se estende depois dele. Talvez assim ela pudesse passar melhor pela falta que estava prestes a sentir. Talvez seria mais fácil se despedir de Ian. Não, pensou. Estou me enganando. Ainda assim uma coisa muito importante seria perdida. Não era do Ian mago que ela sentiria falta. O Ian Garow. Era o Ian companheiro. O Ian protetor. O Ian de olhos negros. Ana acabou de arrumar tudo e deixou a roupa que usaria amanhã preparada. Não quero continuar sozinha daqui, pensou triste, olhando a janela à sua frente. Ian poderia vê-la dali? Veria que ela estava chorando, como há muito tempo não fazia?

251

Saiu de frente dela. Não queria ser vista assim. Resolveu então matar alguns minutos na frente do computador. Quem sabe um jogo de paciência não lhe daria sono e assim ela pudesse esquecer simplesmente o que acontecia em sua volta. Não queria terminar aquela noite conversando com Ian. Seria mais difícil hoje. O jogo não funcionou. Resolveu usar a internet, ver seu horóscopo e a frase do dia. E foi quando uma idéia lhe ocorreu: e se isso fosse verdade? Essas previsões que se vêem por aí, seriam feitas por magos de verdade? Pelo menos algumas delas? Ana sempre teve o hábito de ler essas coisas, mas nunca por crença. Na verdade, não sabia o real motivo por se interessar por Astrologia. Então ela leu a sua frase do dia. Só nos damos conta do valor das coisas quando estamos prestes a perdê-las. — Ta de saca você também! – exclamou para máquina. A brincadeira de astróloga a havia distraído bem, mas agora se tornara sem graça e, desligando o computador, foi se deitar, forçando-se a dormir um sono que custava a chegar.

252

31 – Compreensão.
Fazia-se muito tempo que Ana não sonhava e talvez por isso tenha tido tanta dificuldade em perceber que estava dormindo naquele momento. Era noite ainda e ela estava correndo. Correndo como nunca na vida por uma rua que parecia não ter fim. Corria como se sua vida dependesse daquilo. Corria porque tinha que alcançar alguém. À sua frente, via uma pessoa andando. Sabia que quanto mais aquela pessoa se afastava, mais seu coração parecia ficar apertado dentro do peito. Por isso corria e corria. Mas a distância nunca era vencida. Só aumentava cada vez mais, até ele quase sumir. — Ian – ela gritava – Espera! Mas ele não parecia ouvi-la e continuava andando. Cada passo que Ana dava a frente era como se ele tivesse dado dois. Ian não corria, andava e por mais que Ana disparasse em sua direção, não saía do lugar. Até que finalmente desapareceu nas trevas. — Ian! - ela acordou sentindo o corpo suar. Ainda teve dificuldades para perceber que tudo não passava de um sonho e que agora estava segura na realidade. Olhou para sua janela e viu o quarto de Ian bem à frente. Percebeu que ele estava ali e isso lhe deu mais confiança. Assim, respirou mais fundo para regular a entrada de ar e passou a mão na cabeça a fim secar o suor, quando percebeu que além da testa, o rosto estava úmido. Ela tinha chorado. Levantou-se então para comprovar para si mesma que ele ainda estava ali e ficou olhando para dentro do quarto de Ian até achá-lo. E o achou, dormindo num sono profundo abraçado a um travesseiro. Agora, vendo-o, pode enfim relaxar. Mesmo sendo um sonho, Ana notou o recado nele. Era claro como a água: À medida que o tempo passava, mais ele se afastava e ela não conseguia fazer nada para detê-lo. Ian sempre estava um passo à frente. Havia planejado tudo e todas as idéias que Ana teve para tentar mantê-lo, foram dribladas. O que eu faço?Mais do que nunca a urgência agora cobrava da garota alguma atitude. Então se lembrou de Solange e como ela não aceitara treinar Ana. Por um momento, conseguia ver com felicidade aquela situação, pois Ian não conseguia um substituto e assim ele teria de ficar mais tempo. Mas e se ele for embora

253

mesmo assim? E se me deixar a própria sorte. Ela balançou a cabeça como que tentando jogar o pensamento para fora dela. Ele nunca faria isso. Agora, tentando tirar a preocupação do pensamento, ela o olhava dormir e via como ele se agarrava forte ao travesseiro. Havia lido em algum lugar, numa revista de psicanálise talvez, que esse era um sinal claro de carência. E foi com essa compreensão que começou a sentir muita pena. Quantos anos ele teria vagado sozinho? Quanta culpa ainda carregava por tudo? Sentia falta de Catarina? Ela queria poder saltar aquela janela e encurtar a distância entre eles que não conseguiu no sonho. Estar perto dele e poder suprir sua carência. Poder fazer isso por ele. E também, por que não, fazer por ela mesma? Quanto tempo ainda teriam juntos? Quanto ainda poderia aproveitar de sua companhia? Era muito incerto. Ele tanto podia ir embora daqui a muito tempo como agora mesmo. Basicamente duas escolhas se estendiam pra ela nessa situação: Ela podia tentar aproveitar o máximo aqueles momentos, deixar ser eterno enquanto durasse, ou tentar romper desde já e tornar a despedida menos dolorida. Mas sabia que nenhuma das alternativas era boa. Porque nunca a despedida seria menos dolorosa e nunca os momentos seriam eternos. Ana já era capaz de sentir o buraco que aquela despedida ia fazer. Já conseguia sentir a dor e era forte demais, e acreditou que não sobreviveria quando acontecesse. Ele ia embora e ela percebia isso mais forte do que nunca. Não conseguia lutar, por mais que tentasse. Ela corria e ele andava, mas nunca o alcançava. Ela queria ser forte o bastante para poder segurá-lo, mas não era. Queria ser rápida para alcançá-lo, mas não era. Queria ser resistente para suportá-lo, mas não era. Não era Catarina, não era nem maga ainda. Que chances ela tinha? Voltou para a cama com todo o peso extra que agora carregava. Era claro que alguma coisa estava mudando. Algo que ela queria manter sob controle, mas não conseguia. Não pode estar acontecendo. Por favor, não pode. Pedia ao se deitar.

* Ana se sente voltando ao mundo real através de uma mão quente e doce que acariciava seu rosto. Instintivamente agarrou-a sem abrir os olhos e a empurrou para mais perto de seu rosto.

254

— Filha, acorde. – escutou uma voz feminina falando. E isso foi um estalo na sua mente que a fez se por de pé num segundo. Esfregando os olhos para fazê-los se acostumar a nova claridade, ela olhou para a mãe que a fitava, levemente espantada. — Com o que você estava sonhando Ana? — Nada – respondeu, sentindo o rosto corar. — Eu hein! - ela riu-se – Mas desce logo. O café está pronto e seu pai quer levar vocês bem cedo. Ana olhou pela janela e viu que tinha acabado de amanhecer. — Meu Deus! - lembrou-se – eu nem falei para o Ian da hora que agente ia. — Não se preocupe – acalmou a mãe com a mão no ombro da filha – Eu liguei para a Marta ontem à noite. Ele já deve estar acordado. Agora se arruma. E saiu do quarto. Ana se arrumou, vestindo a roupa que havia separado na noite anterior: uma bata verde folgada, uma calça jeans e um par de sandálias verde água rasteiras. Quando desceu, seu pai já estava pronto lendo o jornal na mesa, enquanto Helena servia-lhe um pão com ovo e café preto. Ana comeu em silêncio, ainda lembrando o sonho da noite anterior. — Ânimo Ana - era mãe quem falava – Não quer mais ir para a casa de seus avós? — Claro que quero - Ana tentou consertar o rosto - Só estou com sono. O pai sorriu por cima do jornal. — Não está acostumada, isso que dá. Ela sorriu em retribuição. Um sorriso fraco, mas ele nem reparou. E voltou a comer. — Pai – Ana virou se para Oscar – Por que decidiu ir tão cedo? — Bem, é melhor se eu quiser voltar ainda hoje. — Não vai passar a noite lá? — Não, amanhã trabalho. - lembrou - Só estou indo hoje para aproveitar sua animação e porque também tenho que entregar umas coisas do Sílvio que estão aqui há muito tempo. E sem dizer mais nada, Ana terminou seu café e foi escovar os dentes. Quando voltou, tudo já estava pronto e eles foram para a rua. Ian já estava ali esperando por eles com a mãe o abraçando e falando coisas a seu ouvido. Estava uma manhã um pouco

255

mais fria e Ian não perdeu a oportunidade deu usar uma camisa de manga longa branca com uma calça jeans. O garoto balançava a cabeça afirmativamente para o que a mãe falava. Pela sua expressão, devia estar recebendo uma série de conselhos e dicas que todas as mãe davam e que todos os filhos já sabiam, mesmo que muitas vezes não seguissem. Quando ele viu a garota saindo, seu rosto não escondeu o alivio. Ana cumprimentou Marta e deu um beijo no rosto do garoto. — Vamos? – perguntou – Até breve tia Marta. Eu vou cuidar de seu filho. — Ma faça esse favor - ela lançou um olhar torto para o garoto – Adeus e juízo Ian. Ian falou com Oscar que lhe respondeu com educação embora um pouco frio. — O que deu nele? - ele perguntou — Nada – ela sorriu – Acho que está pensando besteira por você estar indo viajar comigo. — Ele não pensava que eu era gay? — Até ontem à tarde eu acho que sim. - respondeu. — E se eu contasse minha história pra ele. Será que ele ficaria mais calmo? Pelo menos assim ele saberia que eu não tentaria nada com você. — Acho que aí que ele não ia deixar você ir mesmo – comentou e ele riu. Ana tentou retribuir o sorriso, mas ela sentiu que saiu tão falso como uma nota de três reais. — Algum problema? - Ian analisava seu rosto. Ana tentava desviar a face, fugindo do olhar penetrante do garoto. Tinha medo que com apenas uma olhada ele pudesse ver todo o conflito que se passava dentro dela. — Não é nada – respondeu – Só estou com sono. Ian fez uma careta e eles entraram no carro. Antes de entrar, Ana foi falar com seu pai. — Pai, eu vou me sentar ali atrás com Ian, sim? Oscar lhe deu um olhar desconfiado, mas concordou. — Juro que você é o único homem da minha vida. - prometeu. — Você disse a mesma coisa antes de conhecer o Lucas. Ana sorriu. — E mesmo assim nunca deixou de ser verdade. - garantiu.

256

O pai sorriu forçado e ela foi para o banco de trás. Ana o viu ajeitar o retrovisor para poder ver bem os dois. É. Quem precisa olhar quem vem atrás no meio de uma avenida? Dando de ombros, Ana agarrou o braço do garoto sem ligar que estavam sendo observados. Queria muito tirar aquele tempo para conversar com ele. Sabia que o pai tinha o hábito de dirigir ouvido música nos seus fones de ouvido, pois não gostava de ninguém falando com ele durante o percurso. Mas mesmo assim, teria que tomar o cuidado de falar baixo, já que não tinha total consciência do grau de protecionismo do pai. Talvez ele pudesse até ficar prestando atenção no que os dois conversavam. Ian pegou seu aparelho de MP3 que levava na mochila e lhe ofereceu um fone que ela pôs no ouvido. E assim, seguiram viajem. Nos primeiros minutos ficaram em silêncio, esperando que Oscar parasse de olhar tanto para trás e Ana aproveitou esse tempo para ficar sentindo a brisa que entrava pela janela escutando uma música acústica no MP3. Depois de um tempo, quando a barra estava limpa, olhou par Ian. — Você nunca foi para Três Corações, não é? — Você nunca me convidou – ele lembrou. — Eu nunca mais fui – ela rebateu sorrindo – Acho que você vai gostar de lá. comentou - É bem calmo e perto da natureza. — Devo gostar sim – ele confirmou e, agora, diminuindo o volume da voz – Ainda mais que podemos conhecer os espíritos que suas tias mantinham contato. — O que você acha que são? – perguntou no mesmo tom de sussurro, mesmo percebendo que o pai não prestava atenção. — Não sei. Embora tenha minhas suspeitas. — Nada de ruim, não é? — Duvido. Os espíritos que habitam as áreas naturais podem ser bons ou até mesmo neutros, mas nunca cruéis. — Que bom. - respondeu - Odiaria pensar que elas mantinham contato com alguma criatura horrível. — Sem dúvida tiveram – concluiu o garoto, mas depois tratou de explicar ao ver o olhar de Ana – Não estou dizendo que elas fizeram algum pacto. Provavelmente o enfrentaram e acabaram... — Morrendo – completou. — Desculpe. - pediu encabulado.

257

— Não precisa – ela falou – Dói, mas é bom. Sinto orgulho delas por terem enfrentado um ser desses. – e sua mente a levou de volta para aquela noite. Para aquela voz escondida atrás da ventania e o espectro entre as chamas. — Você não tem que se culpar – Ian falou, parecendo ler seus pensamentos – Você era jovem demais. Não tinha como fazer nada. — Eu sei. - concordou - Não era e não sou tão forte como Catarina – e se arrependeu de ter feito esse comentário. Por que foi fazer isso? Ian a fitou depois do comentário, mas não parecia chateado, só surpreso e pensou um pouco procurando o que devia responder. — Verdade. - concordou por fim – Não é. Não por enquanto pelo menos. Ana lembrou-se do desenho. De como elas duas eram parecidas e decidiu se esclarecer. — Você vê alguma semelhança entre mim e Catarina? – perguntou - Não sei, é que parece meio estranho ela ter sido seu primeiro amor e depois você vir a gostar de alguém como eu. Ian pensou de novo. Ele parecia meio apreensivo como se qualquer resposta que desse, pudesse colocá-lo em apuros. — Talvez alguma coisa. – respondeu cauteloso - Na aparência talvez. Seus traços são assemelhados aos dela agora que cresceu. — Sério? – Ana já tinha sido alertada disso, mas agora que ele falava, sentia-se mais lisonjeada. Catarina era uma mulher muito bonita, pelo menos na forma como Ian se lembrava dela. – Talvez seja isso que lhe tenha atraído - tentou não dar importância a seu próprio comentário. — Com certeza foi – ele concordou e Ana sentiu uma fisgada no peito – Mas apenas no inicio. - ela olhou pra ele - Eu não contei pra você antes, mas quando te vi pela primeira vez, tomei um susto. Você já era parecida com Catarina, mas agora está ainda mais. Eu cheguei a pensar, seria possível ela ter conseguido se salvar, mas minha ilusão durou segundos. Eu sabia que não era assim. Assim como eu tinha certeza de que Adele era Catarina, eu estava certo de que você não era. Não sei explicar porque, mas é assim. Eu não te amei – o verbo no passado não era convincente – por você ser Catarina, mas sim porque você era Ana. Vocês duas tem muitas diferenças. — Cite algumas – desafiou. — Bem, primeiro você é mais... feminina.

258

Ana estranhou a tonalidade usada na última palavra. — E isso é bom ou ruim? – perguntou — Bom claro – ele riu - Só que o que me atraiu em Catarina foi justamente sua independência. O fato de ela conseguir ser totalmente livre numa época bem mais machista que a nossa. Acho que eu gostei de ser desafiado e ela foi a primeira a fazer isso. Ela ficou em silêncio. — E depois – ele continuou - ela sempre cuidou mais de mim do que eu dela. Acho que gostava disso também. Eu podia ser totalmente criança perto dela. - e analisou suas expressões antes de continuar – Você por outro lado, era um pouco mais... - pensou um pouco – dependente, de certa forma. — Não entendo - ela interveio um pouco chateada – Ela era totalmente o oposto de mim: corajosa, bonita, independente, forte. Então porque você gostou de mim. Ian a alertou com os olhos apontado para seu pai, que a sua voz tinha aumentado. Depois respondeu num sussurro. — Acho que foi justamente isso. - disse meio sem jeito - Você despertou novos sentimentos em mim. Nunca pensei em ter alguém para poder cuidar, proteger. Não sabia que eu era bom nisso. No início eu me via como seu irmão mais velho, apesar de minha idade fisiológica ser menor que a sua. - ele fez uma pausa - Mas aí você cresceu e as coisas mudaram sem eu perceber. Você despertou o meu lado protetor e acima de tudo você me queria e precisava de mim. Há muito eu não sentia isso. Eu passei anos da minha vida como Lucien, vendo as pessoas olharem pra mim com ódio ou medo. Você não, me olhava com carinho, com ternura. Foram armadilhas, que eu cai feito um patinho. — Desculpe. — Deve mesmo. – disse num sorriso zombeteiro - Você é má. — E como você está agora? - disse um pouco esperançosa. — Acho que já me curei – ele levou mais uma vez a mão ao nariz. Mentira. Ana não sabia como se sentia com relação a isso. Ao mesmo tempo em que lhe dava alegria saber que ele estava mentindo, não podia evitar uma dor no peito. — Que bom – disse por fim.

259

Então, acabando o assunto, Ana apertou o braço de Ian com mais força, como se a qualquer momento ele pudesse pular pela janela do carro e fugir. Seu coração já não estava em calma. Ele me ama. Ela queria se sentir culpada por isso, mas não conseguia. Estava feliz por saber que seria difícil para ele a deixar. Talvez ele nem me deixe mais. Era egoísmo pensar nisso, mas quem disse que o amor não podia ser egoísta. Amor. Pensara nessa palavra quase que automaticamente. Amor. Ela amava Ian, demorou um pouco, mas agora sabia disso. Toda essa última semana serviu para por sua a amizade em xeque. Ela sobreviveu a tudo: aos segredos, aos perigos e ao beijo, mas quem disse que também não se modificou? Não posso amá-lo. Ela não queria isso. Sabia que ele nunca poderia ser totalmente dela. Mas será que ter apenas uma parte dele já não valeria à pena? Inevitavelmente começou a compará-lo com Lucas, com o que sentia por Lucas no começo do namoro. Não queria igualar, pois sabia que isso era uma armadilha, mas não tinha escolha. Seu cérebro estava trabalhando sozinho. Ela se lembrou de quando achava que amava Lucas. Quando começou a namorar ele e como se sentia feliz em estar ao seu lado. Naquele tempo, ela podia jurar que aquilo era o amor. Estava bem e feliz e isso era tudo o que importava. Mas tinha seu lado negro também. Com o tempo a paixão foi morrendo. Nenhum dos dois sabia explicar o que tinha acontecido e então começaram a haver cobranças. Lucas dizia que era homem e tinha necessidades. Esse assunto nunca fora mencionado entre eles e ela não entendia porque era tão importante de uma hora para a outra. Lucas a acusava de não gostar dele, pois ela se recusava a se entregar. Queria explicações do porque disso. Mas Ana não tinha as respostas, nem mesmo para ela mesma. Sabia que amava Lucas, então por que tinha dificuldades em expressar esse amor? Quando se questionava sobre isso não conseguia encontrar motivos para não avançar um passo na relação. Não era conservadora e não tinha planos de se guardar para o matrimônio, então qual era o problema? Mas aí já era tarde, ele já não mostrava mais interesse por ela. A relação foi morrendo até se chegar o dia em que foi guiada pela voz até o flagrante. Agora ela pôde observar seus sentimentos com mais clareza. O que ela sentiu na hora? Raiva. Mas raiva de que? Raiva por estar sendo traída, enganada. Raiva, não de

260

ele estar com outra, mas sim dele não ter terminado com ela antes. Na verdade nunca se sentiu mal por estar perdendo Lucas. Foi fácil deixá-lo partir, mas agora era diferente. Ela se lembrava de seu primeiro dia de retorno a vida de solteira. Seu primeiro dia na fossa. Mas que fossa? Sorvete, filmes tristes, ela apenas estava reproduzindo os filmes piegas que assistia. Tentando agir como se sentisse mal por ter terminado. Ela tentava reproduzir aquilo que não conseguia sentir, mas por que não sentia? Droga, ela amava aquele garoto, então por que o deixou ir embora tão facilmente? Por que não o segurou, não prometeu melhorar? Mesmo que não fizesse nada disso, por que não sentiu falta dele ao menos? Por que não chorou? O que mais lhe doía não era ter deixado Lucas, mas sim como aquilo não significava simplesmente nada pra ela. Como ela podia estar tão passível a tudo? Como não conseguia sentir nada? Era insensível e não sabia? Seria Ana alguém tão fria? De fato ela não o amava como imaginava, tanto que não demorou nem mesmo dois dias para se jogar nos braços de outro, alegando estar tentando tampar o buraco provocado pela carência. Mas a verdade é que ela estava, inconscientemente, tampando um buraco muito maior que há muito tempo vivia aberto em seu peito. Era seu coração lutando por uma coisa que seu cérebro relutava em aceitar. Ficou tanto tempo enganando a sim mesma, quando estava tudo tão na cara. Não sabia se foi mais difícil pra ela voltar a crer em magia ou se perceber que estava gostando do amigo. As duas situações eram bem parecidas. Ambas eram coisas que estavam bem evidentes, mas ela sempre buscava outra explicação. Lutava em fazer acreditar que eram apenas amigos, mesmo com tudo mostrando ao contrário. O sonho, o beijo na piscina e principalmente o beijo roubado. Era como se ela previsse um momento assim. Como se no fundo soubesse que ia acabar sofrendo. Deixar Lucas, não doeu nada. Agora ela sabia o que era dor de verdade. Era aquilo que sentia agora. O desespero da partida, a urgência em se tentar fazer algo para evitar e a apatia em ver que nada dava resultados. Ana agarrava o braço de Ian com mais força ainda, percebendo a iminência do adeus. Não queria dizer adeus.

261

32– Possessão encubada.
Com certo pesar, Marta escuta a campainha tocar e vai atender a porta. Há muito tempo havia uma dúvida que a dilacerava. Um medo terrível e uma sensação de impotência diante do novo desafio. Queria desabafar urgentemente, mas não sabia com quem. Tinha medo de revelar sua dúvida para algum conhecido e não saber que reações teriam. Quando abriu a porta, relutou ao ver que se tratava do jovem da tarde anterior. — Bom dia dona Marta. Sou Ângelo, lembra-se de mim? – anunciou o garoto. — Bom dia. - a voz da mulher era trêmula – lembro... claro. Esse não era o melhor momento para ouvir sermões, mas foi então que Marta percebeu nele uma oportunidade. Estava com medo em deixar sua apreensão transbordar para os conhecidos, mas quando veria aquele rapaz de novo? Provavelmente nunca. Ângelo esperou paciente para ver se a mulher saía de seu torpor. — A senhora está bem? – ele tentou chamar sua atenção. — Sim... eh, mais ou menos – ela tentava parar de gaguejar. — Posso ajudá-la? – Ângelo se mantinha em sua postura impecável de frente pra porta. Marta ficou pensativa por mais um tempo, sentindo o conflito sendo travado dentro de si. Não era uma mulher muito religiosa, porém, tinha motivos de sobra para rezar nesses dias. Seu filho estava lhe dando muita coisa com o que se preocupar. Provavelmente ele não imagina que ela saiba as horas que ele vinha entrando em casa, ou suas saídas escondidas. Sempre que tentava puxar esse tipo de assunto com o filho, ele era evasivo. Ian estava lhe escondendo alguma coisa, ela sentia. E tinha medo de já saber o que era. Voltando sua atenção para o jovem parado, ela o convidou: — Entre, por favor.

Ângelo adentrou e ficou esperando que seu crucifixo começasse a lhe incomodar, mas nada. O garoto não está em casa, deduziu. Virando-se para encarar a mulher, percebeu que ela parecia prestes a cair em lágrimas e, sem nada dizer, conduziu-a para um sofá próximo, como se fosse o dono da casa. Depois que ela se acomodou, ele falou:

262

— Eu estou aqui para lhe ajudar, senhora. — Eu não sei o que dizer a você. – ela começava com a voz engasgada. — Pode me chamar de Ângelo – acalmou o garoto. Ela respirou fundo. Já não conseguia mais segurar as gotas que desciam e Ângelo segurou sua mão e aguardou que ela estivesse pronta para falar. Estava muito surpreso por encontrá-la assim, embora já começasse a ter suspeitas do que tinha causado toda aquela tristeza. — Desculpe por estar te alugando - pediu com os olhos suplicantes, de rasgar o coração. — Tudo bem senhora. Estou aqui para trazer-lhe paz – Ângelo disse em tom amável. — Pode me chamar de Marta - e forçou um sorriso. — Qual o problema, Marta? — Olha, eu não sou uma mulher religiosa e... — Não tem problema. - acalmou - A palavra de Deus é para todos. Mesmo que as pessoas tentem escutá-la de formas diferentes, ele sempre fala para todos. E Marta sorriu mais calma. Não sabia o porquê, mas sentia que podia confiar no jovem. Mesmo que não pudesse, não tinha chances de se encontrarem novamente, então ela podia desabafar. — É meu filho – finalmente soltou. Como imaginei. — O que tem seu filho? – perguntou, parecendo completamente alheio ao assunto. — Eu não sei, - ela começou pensando nas palavras - ele tem... agido estranho ultimamente. Eu... não sei... — Como assim, agido estranho? — Ele vem mantendo segredos. Vem agindo diferente, chegando tarde ficando noites sem dormir. Seu humor parece variar. Eu não sei o que é. Era complicado escutar aquilo. Ângelo sabia exatamente do que se tratava. Ele estava despertando. O demônio do garoto começava a dar seus primeiros sinais. Pela descrição da mulher, o jovem estava passando pelos primeiros estágios. Quando um demônio encubado começa a despertar, inicia-se um processo de recuperação de personalidade que vem com a volta da memória demoníaca. O hospedeiro começa estranhando as mudanças que vem ocorrendo com ele mesmo, as

263

lembranças de coisas que não viveu, as sensações que nunca teve e geralmente esse é o período em que seu humor começa a mudar. Alguns já tendem a apresentar uma personalidade cruel desde o nascimento, mas outros não. Nascem e crescem como crianças comuns. Muitos até como bons filhos: educados, amáveis e responsáveis. Então, depois com o despertar, que a personalidade ruim começava a surgir. Pelo que via, esse tal Ian era o segundo caso. Pelo sofrimento da mãe, ele devia ser um bom filho até agora. Pobre mulher. Em alguns casos, as crianças começam a sofrer de um sonambulismo perigoso. Perigoso porque o espírito demoníaco as obriga

inconscientemente a satisfazer seus desejos nefastos e o hospedeiro, sem entender, começa a perambular pela noite. Em alguns momentos podem até tentar cometer um assassinato por ordem do demônio. Entre as características básicas, perda de sono e mudança de humor, são as mais freqüentes. Mas Ângelo não sabia como dizer isso à Marta. Verdade ou ignorância? Qual seria a melhor naquela situação? Como não sabia como contar pra ela, optou pela ignorância e tentou usar um artifício. — Seu filho, qual o nome dele? — Ian – disse, enxugando os olhos com a palma da mão. — E esse Ian, como ele é? Ou era antes dessas mudanças? — Ele sempre foi excelente. - respondeu a mulher - Educado, carinhoso, prodigioso até. Nunca deu trabalho. Prodigioso, era mais uma boa característica. Normalmente as crianças possuídas tinham a tendência a ter uma educação precoce, devido à idade do espírito possuidor. — Ele era até bem dotado, digamos? – perguntou, tentando dar pouco caso. — Sim. - respondeu orgulhosa - Sempre tirou notas ótimas e sempre era o primeiro da turma. — E o que a senhora pensa que é? - perguntou – Digo. O que você acha que o mudou? — Eu não sei – a sua voz era hesitante. Ela tinha uma suspeita. — Pode dizer. Não tenha medo. - encorajou. Marta o fitou bem nos olhos e mais uma vez sentiu confiança no rapaz. — Acho que são... – a palavra era difícil de sair. Tinha muito medo que elas acabassem por se confirmar – drogas.

264

Drogas? Era um bom álibi, refletiu. Talvez seja realmente melhor para a mulher acreditar nisso. Não eram muitos que ficavam bem sabendo que seus filhos na verdade eram demônios encarnados. Pensou em dar corda a essa crença, mas não conseguia fazer isso. Não conseguia confirmar seus temores. Ela estava tão arrasada, que Ângelo começou a sofrer de empatia por ela. Decidiu, por fim, tentar acalmá-la. Infelizmente, quanto a Ian, este teria que morrer e rápido. Não podia deixar que ele despertasse por completo. — Minha senhora, digo, Marta – corrigiu - Quantos anos seu filho têm? — Vai fazer dezessete daqui a uma semana. Dezessete era um pouco tarde para o despertar. Geralmente o espírito começa a apresentar os primeiros sinais aos quinze. Mas podia ser um mero atraso. — Desculpe se sou pretensioso, mas não creio que haja motivo para alarde. Ângelo se lembrou de Cassandra quando disse: A ignorância muitas vezes é uma dádiva. E naquele caso seria. Não era a coisa mais honesta, mas Marta já teria muito do que sofrer quando ele destruísse aquilo que ela acredita ser seu filho. Ela não precisava antecipar essa dor. Pelo menos por enquanto, ele poderia dar-lhe um pouco de paz. É o que ela quer ouvir, pensou, lembrando-se mais uma vez de Cassandra. — Como assim? – ele pôde sentir um pingo de esperança em sua voz e isso o mortificava. Tentou manter o tom despreocupado ao continuar. — Bem, esse é um bairro pacato. Seu filho é aquele que eu vi ontem, não? – ela balançou a cabeça confirmando – Então. Ele me parece um jovem saudável. Saudável, demais acredito. E talvez seja isso que o esteja modificando. Todos nós passamos por um momento desses e isso não quer dizer que o problema seja drogas. Ao julgar pela aparência saudável dele eu diria que nem comer carne vermelha ele come. É só um momento de rebeldia, hormônios, acredite. – acrescentou com mais animação - Eu mesmo passei por algo semelhante antes de encontrar Jesus. – e de repente lhe veio uma idéia – Se a senhora quiser, eu posso dar o endereço de nossa igreja e ele pode ir lá um dia desses. Na verdade, temos um culto hoje à tarde – e deu uma ênfase a mais a palavra hoje. Ela enxugou as lágrimas parecendo bem mais aliviada. — Obrigada – Marta conseguiu sorrir agora – Pode ser uma boa idéia – comentou – Aquele garoto anda muito desligado da igreja ultimamente. Claro que vou falar com ele quando voltar.

265

— Que horas ele chega do colégio? – arriscou Ângelo sem parecer ansioso demais. Talvez pudesse até mesmo interceptá-lo antes que chegasse em casa. Queria acabar logo com aquilo e depois fugir, ignorando o aviso da cigana. — Não, ele não foi pra aula hoje – ela agora parecia um pouco mais orgulhosa Ele é um bom aluno e ganhou férias antecipadas. Então eu o mandei para uma viagem. Então, Ângelo sentiu como se uns cinqüenta quilos de concreto caíssem em seu estomago de uma só vez. Uma leve vertigem o acometeu e foi com muita dificuldade que ele uniu as letras que formariam a próxima pergunta: — Como? — Ele viajou com uma amiga para Três Corações. Deve voltar em dois dias. Dois dias podem ser tarde demais! Ele queria gritar. — Quer um café? – ofereceu bondosamente a mulher. Ângelo balançou a cabeça afirmativamente olhando o nada, mesmo não gostando de café. Na verdade, ele aceitaria até mesmo cachaça naquele momento. A mulher se levantou para a cozinha enquanto o garoto fitava a parede. Meu Deus, o que eu fiz? Por que não tentei cuidar disso ontem mesmo? E agora? — Açúcar ou adoçante? — Adoçante – na verdade ele odiava adoçante, mas respondeu a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Não estava em condições de pensar. E então, passando os olhos pela sala como se aquelas paredes pudessem oferecer a resposta que ele tanto clamava, viu uma folha de papel que estava na mesa de cabeceira. Até então, nada que chamasse sua atenção, mas as palavras Três Corações entraram em foco e ele a agarrou. Tinha um número de telefone nele. Deve ser o número da casa onde ele vai ficar. Preciso descobrir o endereço. E colocou o papel no bolso.

Marta acabou de colocar o café numa bandeja e foi servir. Com certeza estava um pouco mais leve. Realmente não podiam ser drogas, Ian esbanjava saúde. Qualquer um que o visse diria isso. Até mesmo suas olheiras desapareceram quando ele começou a dormir cedo. Ela havia deixado o noticiário a preocupar demais. Ainda bem que não externou suas preocupações com Ian. São tantos jovens entrando nesse mundo, refletiu. Marta sentia pena das outras mães.

266

Podendo agora sorrir com sinceridade, chegou à sala trazendo a bandeja com duas xícaras e viu Ângelo de pé. — Desculpe senhora por não poder ficar – ele se apressou em dizer – mas tenho que resolver assuntos urgentes. — Mas você... — Infelizmente não posso. Perdão e... adeus. – e saiu da casa sem esperar ser acompanhado. — Foi alguma coisa que eu disse? – refletiu.

Ângelo saiu transtornado e acabou descontando parte de sua raiva numa pobre lixeira, começando a chutá-la e a praguejar contra sua sorte. Quando se sentiu calmo, pegou de novo o número do telefone nas mãos. Precisava agir rápido e já tinha um plano: Procuraria uma Lan House e lá acharia o endereço pertencente e esse número e depois, tentaria ver alguma forma de condução até Três Corações, nem que tivesse de recorrer à Ordem. Não podia deixar a coisa se seguir assim. Era arriscado demais.

267

33 – A Testemunha.
Com um bocejo involuntário, Ana acordou e, mais uma vez, percebeu haver dormido durante a viagem. Que efeito será que tinham as estradas e os automóveis nela? À medida que voltava do mundo dos sonhos, começou a se familiarizar com os sons a sua volta. Primeiro, a música que tocava no MP3. Depois, as vozes: seu pai e Ian conversavam, mas não sabia sobre o que. E por último, o som, ou melhor, a falta de som. Não estavam mais no caos da Avenida Brasil. Ao olhar pela janela, viu que estavam começando a entrar em Minas Gerais. — Quanto tempo eu dormi? - perguntou Seu pai riu. — Acho que umas três horas. Já estamos chegando. – anunciou. Desta vez ele não estava mais usando os fones de ouvido. — Nossa! — Você estava mais cansada do que imaginava – comentou Ian. — Essa aí sempre está cansada - debochou Oscar. Ao ouvir a piada, Ana não entendeu. Agora os dois estavam unidos contra ela? Quando isso aconteceu? O que eles estavam falando que fez seu pai parar de olhar para Ian como se tivesse o desejo de deixá-lo no meio da estrada? Ela perdera muita coisa nesse cochilo. — Que bom que você acordou. - ouviu Ian cochichar em seu ouvido. Ela viu que era um assunto confidencial – Tenho um exercício para você. — Um exercício? Como assim? — Uma coisa que eu quero que pratique quando chegarmos, mas seria bom você começar a treinar agora. — Pode falar. – ela agora estava mais animada. — Então, lembra quando eu te mostrei como consigo fazer minha pele endurecer. — Sim. Você vai me ensinar isso? — Também. Mas primeiro preciso que você entenda o que eu fiz. - Ele deu um pigarro antes de continuar - Pronta para uma aulinha? — Claro.

268

— Bem, assim como suas células, a sua energia também tende a circular pelo corpo através do seu sangue. - ele começou - O sangue é a essência da Quintessência de qualquer animal, e é por isso que os rituais de sangue são tão comuns. Pois bem, fechando o parêntese, o que eu quero que você faça é se concentrar. Tende prestar atenção nas batidas de seu coração e assim tente sentir seu sangue circulando. Com isso, você vai poder começar a sentir a energia que roda em seu corpo também. — Parece complexo. — E é. Mas você é um prodígio, não terá problemas – fez pouco caso – Enfim, o que eu quero é que você consiga sentir essa energia, pois esse é o primeiro passo para poder controlá-la. Esse controle é de vital importância para a execução de qualquer magia. — Mas e a parte de endurecer a pele? - ela parecia mais entusiasmada com essa parte. Ian riu antes de responder. — Esse será o segundo passo do exercício. Controlar a Quintessência para mexer no corpo é o fundamental no ensino de magia. Com esse controle, você não só poderá tornar sua pele mais resistente, como pode fazer seus músculos ganharem maior potência, ou suas pernas mais velocidade. Pode controlar seu peso e... lá eu lhe dou maiores demonstrações. - prometeu. — Tá bom. — Mas eu gostaria que você tentasse sentir sua áurea desde agora. - ele disse – Essa viagem de carro seria perfeita devido à calma da estrada. Pena que você perdeu mais da metade do percurso. Ana não falou mais e tentou seguir o conselho dado. Estranho. O que fez com que ele mudasse de idéia sobre me treinar? Por que ele está me ensinando coisas? Ana não queria se iludir, mas não conseguiu evitar sentir certa alegria com tal possibilidade. Ele teria desistido de partir agora que ela não tinha mais mestra? Talvez. E por isso, Ana não ia dar motivos para ele se decepcionar. Quem sabe se ele visse o quanto ela progredia, isso não o fizesse mudar suas metas. Não tinha mais idéia e se agarrou a essa. Começou a tentar.

269

Fechando os olhos, começou a se concentrar novamente. Primeiro passo: acreditar que isso era possível. Ter fé era à base da magia. Atravessar o Véu era crer no que ninguém mais cria. Concentrou-se. — Ela dormiu de novo? – escutou o pai incrédulo. Decidiu ignorar o comentário. De olhos fechados, começou a perceber as batidas de seu coração. Eram bem rápidas. Em pensar que cada pulsação dessa era um jorro de energia que andava pelo seu corpo. Sua quintessência. Pensando assim, ela até conseguia ver inúmeras bolas de chama roxas, iguais aquelas que ela conjurara no quarto de Ian, circulando pelo seu sistema. Ela posicionou as mãos em forma de cuia e sentiu Ian as tampando. — Não faça isso aqui. - ele sussurrou. Ana até tinha esquecido onde estava. Recolheu as mãos. Então como farei? Como eu posso sentir essa energia que ele tanto fala sem poder vê-la? Como controlá-la? Não podia desanimar. Ela ainda pensava nele como seu mestre. Tinha que fazer merecer isso. E foi quando percebeu que ainda segurava o braço de Ian. Lembrando-se que se não conseguisse, ele poderia ir embora. E o desespero voltou. Para, ela se ordenou. Não fique nervosa. Ele não vai embora. Não ainda. E foi quando sentiu seu coração acelerar devido ao medo e um estalo ecoou em sua cabeça. Cada vez que se forçava a pensar em sua partida, ele acelerava. Em cada acelerada, maior o número de impulsos. Maior o número de impulsos, maior a quantidade de energia liberada. E acreditou chegar à chave de tudo: Sentimentos. Essa seria a forma de controlar o fluxo de energia no seu corpo. Se pensasse em coisas que fizessem seu sangue circular mais rápido, a energia liberada para o corpo seria maior, se estivesse relaxada, a energia seria menor. — Sentimentos. Emoções - ela pensou alto. — Como? — A chave para se controlar. - falou baixo, sem abrir os olhos - As emoções. — Você não cansa de me impressionar – ele parecia perplexo, apesar de não poder ver seu rosto - Como chegou a essa conclusão tão rápido? Ana não respondeu.

270

— Bem, você avançou um pouco na lição, mas ainda é importante que você consiga sentir essa energia. Então vá treinando mais. - aconselhou - Deixe as coisas em seu devido tempo. — Tá – e voltou a se concentrar. Ele tinha se impressionado, esse era um bom sinal. O resto do caminho, não teve maiores progressos, mas ela se sentia muito mais animada.

* Ao chegarem à casa dos avós de Ana, a garota olhou-a com curiosidade e viu que continuava da mesma forma como se lembrava. A casa de Sílvio era espaçosa e se situava afastada do centro do município, onde árvores enfeitavam a paisagem e o cheiro do asfalto era substituído por terra e grama. Ela não fazia idéia de como esse cheiro lhe fazia falta. Já tinha ido para floresta da Tijuca e para o sitio de Mônica, mas nenhum desses lugares tinha esse cheiro. O cheiro de casa, de lar. Eles saíram do carro e Ian deu um grande suspiro enchendo os pulmões de ar. A expressão dele era de contentamento. A idéia de trazê-lo parecia a cada hora mais acertada na mente de Ana. — Meu Deus! – o som dos pássaros foi cortado por essa voz. Uma voz fraca e doce, que Ana julgava estar esquecendo. Mas agora sabia que isso nunca acontecera. Estava guardada para esse momento. Para que quando fosse ouvida novamente, lhe trouxesse esse mar de emoções que estava sentindo. Ela se virou em câmera lenta e viu a figura do avô com lágrimas nos olhos e braços estendidos para ela. Silvio tentava andar o mais rápido que podia até Ana, mas a idade não o ajudava muito. Ele continuava igual como ela se lembrava. Um homem um pouco acima do peso, de barba branca parecendo com o Papai Noel, vinha em sua direção. Sua pele era morena de sol e seus olhos eram castanhos, como os de Ana. Você tem os olhos de seu avô, era o que sempre diziam e ela via que não era um comentário equivocado. Finalmente, passado o primeiro momento, Ana conseguiu vencer a inércia que atingira seu corpo devido ao choque do encontro e disparou na direção do ente querido. Sua velocidade era absurda e ela começava a imaginar se já não estava aprendendo o

271

que Ian tinha lhe dito. Mas não, era apenas a emoção do reencontro adiado por quase cinco anos. Ela correu o mais que pôde para vencer a distância que os separava no menor tempo possível. E foi quando se aproximou, teve a idéia de pensar no impacto que aquela velocidade ocasionaria. Nos últimos milésimos, ela reduziu a velocidade e no ultimo tempo, se agarrou ao avô com lágrimas nos olhos. Nenhuma palavra foi dita. Mas nenhuma palavra era necessária. Ana se deixou ficar o tempo que quisesse naquele abraço forte. Não importava quanto tempo passasse. Não importava que anoitecesse ou chovesse. Ela não queria soltar. Quando enfim conseguiu se soltar do avô, este deu uma boa olhada na garota. — Meu Deus! - sua voz quase morria no meio da emoção - Olha pra você. — Não estou tão mal assim - brincou com a voz engasgada. — Não. Esta ótima. A cara de sua mãe. — Mas tenho seus olhos - lembrou. — É mesmo – concordou, ainda chorando. E aquela emoção toda no avô fez Ana perceber o mal que devia ter feito deixando de visitá-lo por tantos anos. Começou a se ver como um monstro por tanto tempo de ausência. Sílvio olhou em volta e viu Ian. — Não sabia que já namorava. - disse feliz – Quem é o garoto? — Ah não... – Ana desfez o mal entendido - Ele é só... amigo. Como era difícil dizer essa palavra depois da súbita compreensão do carro. Ian se precipitou e apertou a mão de Sílvio. — Muito prazer. Ian - ele anunciou num tom um pouco mais polido que o normal e Ana pôde jurar que quem estava falando era Lucien, e não Ian. — Muito prazer. Oscar deu um leve pigarro. Ele não gostava de se sentir assim, tão excluído. — Ah, e você Oscar. - Sílvio parecia só ter notado a presença do genro naquele momento - Como vai minha menina? — Muito bem cuidada, como sempre. Ela lamenta não poder vir e prometeu que em nossas próximas férias passaremos uns dias aqui. A família toda.

272

— Como nos velhos tempos – a voz dele ainda era cheia de emoção. Ele ainda se mantinha muito próximo a Ana. Talvez ainda pensasse que a garota pudesse fugir de repente. Ela sabia como era isso. — Como nos velhos tempos – confirmou Ana. Todos entraram e Ana não pôde evitar a avalanche de perguntas que foram direcionadas a ela. Seu avô queria saber de tudo: se estava bem, se tinha namorado, como ia na escola e todo o resto. Em nenhum momento citou sua ausência ou o motivo dela. Ele não queria tocar nessas feridas e Ana agradeceu mentalmente essa decisão. Ian também não escapou e foi o segundo a sofrer um interrogatório, embora quase todas as perguntas estivessem, de alguma forma, ligadas à Ana: como eles se conheceram, quanto tempo eram amigos, se havia algum podre que Ana não tinha contado, entre outras coisas. A conversa com Oscar foi breve e o pai de Ana devolveu um baú cheio de pertences dele e de sua avó, que ficou na sua casa por muitos anos. O baú era pesado e Oscar pediu a ajuda de Ian. Ana teve que se segurar para não rir quando seu avô disse que Ian era franzino demais e provavelmente não agüentaria o peso. Ele se propôs até a chamar um dos empregados, mas Ian afirmou que não precisava e se dispôs a pegar o baú. Ele e o pai de Ana carregaram o peso até a sala de Sílvio, onde o deixaram num canto. Ana podia ver Ian lutando para parecer que estava fazendo algum esforço com aquilo. Já seu pai, colocava os bofes para fora. Emília, a empregada de seus avós, que estava na família desde a época de Ana, também foi uma que não resistiu ao impulso de agarrar a garota e se debulhar em lágrimas, apertando Ana contra o corpo e criticando sua magreza. — Você não tem se alimentado direito, não é? - ela falava - Eu sabia. Esse pessoal do Rio de Janeiro não sabe comer. Ana se sentiu lisonjeada com a crítica de Emília, pois sempre se considerava um pouco acima do peso, como todas na sua idade. E agora, completamente enturmada, experimentou uma leveza nunca antes sonhada, pois conseguia enfim tirar o peso que a separação prolongada criou em seu peito, mas ainda faltava alguém. — E a avó? Onde ela está? Ana notou a hesitação nos olhos de seu pai e seu avô. Ela aguardou até eles poderem falar. Sabia que a situação da avó era ruim e eles deviam querer poupá-la daquilo tudo. Mas ela se sentiria horrível se não pudesse vê-la.

273

— Ela está lá em cima, no quarto, mas... - tentou falar o avô — Tudo bem, eu vou – prontificou-se antes que ele terminasse. - Vem Ian chamou e subiu as escadas escutando os passos do garoto atrás dela. Ela subiu correndo e acabou ficando sem fôlego no fim da escada. Ela tinha se esquecido do quanto àquelas escadas eram cansativas. Na verdade, nunca notara. Quando criança e cheia de energia, aquilo era muito fácil pra ela. Mas agora, precisava parar para tomar fôlego enquanto Ian a esperava com o rosto bastante tranqüilo e a respiração controlada e isso a deixou um pouco invejosa. — Como você consegue? – ela olhou para ele. — Muito exercício, boa alimentação... – comentou bem presunçoso - Não levo uma vida sedentária. — Até parece – debochou enquanto dava um beliscão na sua barriga. - Tem até pneu. — Ei! - ele deu um passo pra trás protegendo o abdômen. – Não se aperta a barriga de um homem quando ele está relaxado. Ela riu e voltou a andar. Na verdade, tinha se impressionado ao notar como ela era dura. Mas não comentou, pois isso o deixaria mais convencido. Quando chegou de frente para a porta, parou, levando a mão à maçaneta sem mexê-la. — É difícil, não? – Ian dizia atrás dela. — Um pouco. - admitiu - Sinceramente eu fico imaginando que poderia ser eu ali. — Você teve a sorte de ter a mente mais aberta na época. Isso a ajudou a superar o trauma, de certa forma. Já sua avó, estava completamente desprotegida da avalanche de informações que aquela noite causou. Foi mais difícil pra ela. — Sem dúvida. — E eu ainda acredito - ele continuou – que ela tenha visto muito mais coisa que você naquela noite. Ana se virou para encará-lo. — Você acha que ela viu mais coisa do que aconteceu as minhas tias? — É um palpite. - alertou - Você desmaiou cedo demais e é bem provável que ela tenha ficado acordada para poder ver mais. E esse mais, fez toda a diferença. — Você acha que ela ainda se lembra? — Com certeza, mas duvido que queira falar. E não seria justo interrogar. — Não, não seria. - murmurou um pouco desanimada.

274

— Pronta? - ele perguntou, lhe dando forças. — Acho que sim. E girando a maçaneta, a enorme porta de madeira que dava acesso ao quarto da avó Marieta começou a se abrir. Ana a empurrou até a metade quando lhe faltou coragem de ir mais além. A última imagem da avó, dopada numa cama de hospital, ainda a perturbava muito e tinha medo de se deparar com a mesma cena ao entrar naquele lugar. Entretanto, foi quando sentiu outra mão envolvendo a sua. A pele quente de Ian segurava sua mão, dando-lhe forças. Ela não olhou para o garoto, mas agora tinha maior convicção para seguir em frente. Preparando-se para o choque, Ana adentrou o aposento e olhou em volta a procura de sua avó, mas o que viu foi muito melhor do que podia supor, dando-lhe uma sensação de alívio. A avó estava lá, sentada em uma poltrona na varanda olhando a floresta que se seguia logo atrás da casa. O quarto era todo branco e era muito bem iluminado pela luz da manhã que entrava e banhava o corpo da velha senhora com seus raios. Olhando melhor para Marieta, Ana ficou encantada com sua cascata de cabelos prateados que eram banhados pelo sol da manhã. Sua pele era mais pálida que a do avô. Provavelmente, por ficar a maior parte do tempo trancada no quarto. Mas o que mais a encantou foi a expressão tranqüila em seu rosto. Ela parecia em paz olhando a paisagem verdejante. Quando se virou para olhar quem entrava, sorriu ao ver Ana. Não era o mesmo sorriso exaltado de seu avô ou de Emília. Este era mais um sorriso que mostrava o quão contente estava por receber visitas, mesmo que de desconhecidos. Sua avó não a reconhecera e isso caiu como um martelo no peito te Ana. — Vó? – sua voz era vacilante. A mulher sorriu. Um sorriso amável e que serviu de convite para Ana se aproximar, fitando seus olhos cinza. Esses olhos que transbordavam ternura, carinho e acima de tudo, paz. Ao chegar bem perto, ajoelhou-se em frente à Marieta e pegou na sua face enrugada com as mãos. A avó parecia adorar aquela caricia e deixou o rosto cair nas mãos de Ana. — Desculpe – sussurrou, sentindo que ia perdendo o controle para as emoções de novo – Desculpe por não vir antes. Ana via que a mulher não entendia o que ela falava, mas isso não importava. Ela precisava aliviar aquele peso que sentia. Marieta agora estendeu a mão e acariciou o

275

rosto da neta. Um toque leve e confortante, o mesmo de anos atrás. Um toque que nem mesmo a ausência e a loucura conseguiram modificar. O toque da sua avó. Agora, Marieta passava seus olhos cheios de curiosidade para Ian, que permanecia em pé ao lado da porta. O garoto se aproximou lentamente, se ajoelhando ao lado de Ana. A mão da avó corria agora pelo rosto do garoto, que sorria fitando os olhos da mulher. — Ela gostou de você. – Ana comentou – Assim como toda a minha família. — Tenho esse dom – brincou. — Convencido. O garoto deu um sorriso doce para ela que a deixou com um aperto maior no coração. Não poderia viver sem aquele sorriso. — Ela parece muito feliz – disse Ian — É. E parecia mesmo. Por mais terrível que a situação pudesse parecer, Ana se sentia bem, pois via que a avó alcançara um estágio de paz que provavelmente todos os seres no planeta buscam. Ela estava feliz por estar ali e conseguir tirar a última imagem da avó numa cama de hospital da cabeça. A partir de agora, quando fosse pensar em Marieta, veria uma linda mulher em paz, sentada numa poltrona, recebendo a luz do sol da manhã enquanto admirava uma bela paisagem. — Obrigado – Ana disse para Ian, mas o garoto não percebeu que era com ele que ela falava. — Obrigado Ian – ela agora direcionou melhor o agradecimento. — Pelo o que? – ele a fitou ainda recebendo os carinhos de Marieta no rosto. — Por esse momento – ela olhou nos seus olhos negros - Se você não tivesse me mostrado a verdade. Se não tivesse me feito atravessar o Véu, ainda ficaria presa no Rio e não teria essa oportunidade. Você não sabe o bem que está me proporcionando. — Amigos são para estas coisas - disse sorrindo. Amigos. Como sentia raiva dessa palavra agora. Parecia tão falsa. E foi quando a porta do quarto se abriu e Emília colocou a cabeça para dentro. A mulher sorriu ao ver o momento íntimo que se estendia ali, hesitando estragar tudo. Mas Ana se virou para ela, encorajando-a a falar. — O almoço está servido. - disse baixinho – vocês devem estar com fome.

276

— Já vamos descer – anunciou Ana e depois se virou de volta para a avó. Deixou-se ficar mais uns minutos ali e depois se levantou e saiu com os braços em volta da cintura de Ian.

277

34 – Decisões
Dentro de um ônibus na rodoviária do Rio de Janeiro, Ângelo aguardava impacientemente a hora de ir. O garoto nem acreditava em sua sorte. Assim que descobriu o endereço através do telefone na casa de Marta, foi olhar os vôos para Minas Gerais e viu que não tinha nenhum para perto. Ele começou a perder as esperanças quando viu que a rodoviária tinha um ônibus que sairia naquela manhã mesmo para Belo Horizonte e que dali poderia pegar outra condução para Três Corações. Provavelmente chegaria lá amanhã de manhã. E por sorte também que todos os membros da Ordem dos Iluminados possuem um cartão de crédito para situações de emergência. Assim poderia tentar salvar um pouco a tragédia que havia ocasionado. Devido ao rumo que as coisas tomavam, ele viu que precisaria engolir o orgulho, pois essa viagem poderia ser o tempo necessário que o demônio precisava para despertar no corpo do jovem Ian. Ele tinha que ser detido. Decidiu então que não podia mais continuar sozinho. Ligou para a Ordem e como não atenderam, deixou um recado contando de forma resumida e objetiva tudo o que ocorrera. Quem sabe com os recursos da Ordem dos iluminados o Frade ou o Bispo não chegariam a Três Corações antes mesmo dele. Caso não cheguem, terei de resolver sozinho. O demônio não teve tempo de se despertar por completo e provavelmente Ângelo mesmo poderia liquidá-lo se chegasse a tempo. Não adiaria mais isso. Os sinais eram claros e ele não tinha mais dúvida. Ian era o demônio e tinha que morrer. Agora que sentara, sentiu o cansaço da correria cair sobre si. Ele havia revirado a cidade atrás do demônio e agora o vira escapar para outro estado bem por entre seus dedos. Fora um erro tentar agir por conta própria e agora estava pagando por ele. Deixara suas suspeitas o afastá-lo do resto da Ordem. Chegara ao cúmulo de duvidar da fidelidade do Frade Henrique. Agora ele se sentia péssimo por isso. Mas no fundo, ele ainda não conseguia deixar que uma sensação de que alguma coisa lhe escapava fizesse pesar em seu estômago. Ele estava se esquecendo de algo, podia sentir. — Sexto sentido – escarneceu. O convívio com os loucos dos Sonhadores o deixara tão doido quanto eles. Como pôde deixar um mau pressentimento abalar seu

278

raciocínio lógico e, pior, como pode deixar que isso o desviasse de sua missão e o afastasse do frade e do bispo. A doença de César avançava a longo passo e o frade Henrique estava duas vezes atarefado tentando cuidar de sua saúde e resolver essa importante missão. E em vez de Ângelo ajudá-lo com a segunda tarefa, deixou seu ego comandar e tentar fazer tudo sozinho. Recuperado novamente, deixou seus pressentimentos de lado e tentou se concentrar no objetivo a sua frente: Matar o garoto. Em seu colo tinha apenas sua mochila com algumas de suas anotações das aulas com César. Na correria, não pegou roupas ou qualquer outra coisa que precisaria numa viajem. Mas não fazia tanto mal, afinal, ele não pretendia ficar lá muito tempo. Se a Ordem não tivesse recebido seu recado a tempo, ele enfrentaria o demônio sozinho e aí, seria matar ou morrer. Qualquer uma das duas reduziria o tempo de sua visita em Minas Gerais.

279

35 – A discípula das fadas.
Ana não se lembrava de ter comido tanto na vida. Realmente a comida de Emília fazia falta em seu sistema e era muito bom matar essa vontade de anos. Como toda a comida mineira, esta era bem temperada e pesada e a garota sentia que nem mais um pedaço de pão conseguiria descer por sua garganta. — Não me diga que você já parou, menina? – Emília erguia a colher ameaçadoramente em direção ao prato da garota. - Que tal mais um pouco de Tutu? — Não - ela a segurou – Não agüento mais, é serio. Obrigada — Por isso está tão magra – e se virou para Ian – E o namorado, vai querer? Ana desistiu de tentar esclarecer esse mal entendido e Ian não estava interessado em corrigir aquela que o alimentava e, sem pensar duas vezes, ergueu o prato. — Esse é um dos meus! – exclamou Emília cheia de orgulho e saiu. — Isso vai entupir suas artérias – avisou Ana. Ian engoliu antes de responder. — Habilidades mágicas requerem muita energia. Tenho que repô-las de alguma forma. - explicou. — Mas essa comida é muito pesada. Pode fazer mal. Ian parou mais uma vez e a olhou nos olhos antes de falar: — Ana – disse com a voz calma e um sorriso – Os únicos prazeres carnais aos quais posso me entregar em anos são os culinários. Por favor, não em tire isso. Ana levantou as mãos num gesto de rendição. — Desculpe. – e descansou enquanto Ian acabava. Quando o garoto finalmente acabou, eles foram até a varanda onde o pai se despedira. — Até logo pai – disse dando um abraço em Oscar. — Se cuida e juízo – avisou o pai dando uma olhada de rabo de olho para Ian. — Tudo bem – e depois, se lembrando, perguntou – Vamos ficar até quando? — Eu venho buscá-los em dois dias. Quinta de manhã eu estou aqui. — É pouco – refletiu Ana – Mas é bom por enquanto. — Sei que você tem muitas saudades daqui, então nas nossas próximas férias passaremos umas duas semanas com seus avós. Prometo. — Eu não vou esquecer. - lembrou Ana.

280

— Nem sua mãe – completou Oscar. Depois se despediu de Sílvio e de Ian e foi embora. Sílvio acenava até que o carro desapareceu numa curva e depois se voltou para os dois. — Então? Vão descansar o almoço? — Eu pensei em caminhar pelo campo - sugeriu Ian. — Realmente o dia está bonito hoje, mas vocês acabaram de passar pela comida de Emília. Você é novato nisso garoto e Ana está em abstinência há quatro anos. Não acho que deveriam ir tão fundo. Podem passar mal e vocês ainda têm o amanhã todo. — Não vamos nos esforçar muito. - avisou Ian - Prometo. Sílvio ficou indeciso e olhou para Ana. — Tudo bem – ela falou sorrindo - Não se preocupe vô. Eu estou mesmo querendo matar toda a saudade daqui. E Sílvio se deu por vencido. — Tudo bem então, mas cuidado. - alertou - Você ainda se lembra os caminhos, não é? — Claro. — Então, boa caminhada. – e entrou na casa. — Qual o motivo da caminhada? - perguntou. — Bem, achei que seria bom pra você conhecer um pouco o mundo das suas tias. Assim que Silvio atravessou a porta, Ian fez sinal para que Ana o seguisse e, juntos, adentraram a floresta que ficava atrás da casa. — Estamos indo pra onde exatamente? – Ana não tinha intenção de esconder a excitação. — Nos perder. – respondeu simplesmente. Ela parou de caminhar olhando para Ian. — Como? — Nos perder. – repetiu, se virando pra ela - Se suas tias forem de fato druidas, elas devem ter uma espécie de altar em homenagem aos espíritos por entre essa floresta. – e apontou mata adentro - Claro que não é um local de fácil acesso, então duvido que você conheça o caminho. Então, temos que nos perder se quisermos encontrar. Esse não era um convite muito tentador, mas Ana não fez objeção quando o garoto estendeu a mão a convidando para que o acompanhasse. Eles andaram por um

281

longo tempo de mãos dadas, num ritmo lento e constante. Ana começava a ficar cansada e a sentir uma leve apreensão por não saber mais como voltar para casa. O tempo estava claro ainda e ela agarrava a mão de Ian com força. O garoto sentiu seu medo e tentou confortá-la. — Confie em mim. Vamos conseguir voltar. – e depois sorriu – E acabo de ver uma fada. — Uma fada? – a voz de Ana era perplexa. Ela olhava para a direção onde Ian mantinha o foco. — Sim. Os espíritos da floresta que eu digo, são também conhecidos pelo nome de fadas, duendes, entre outros. Eu gosto de fadas. Ana olhava, mas não via nada. Uma fada? Parecia um tanto fantasioso demais. — Não acredito que possam existir... – ela começou a falar, mas se conteve ao perceber o olhar de censura de Ian. — Eu não acredito, não é a coisa certa a se dizer. Lembre-se Ana, o primeiro passo é acreditar. Ana se sentiu envergonhada por esquecer a principal regra da magia: - A fé cega – e tentando concertar as coisas, olhou de novo tentando procurar a fada, tentando imaginar como seria. Talvez encontrasse uma pequena boneca voadora como a Sininho de Peter Pam, mas nada parecido se fez presente. Teria ela passado tão rápido que Ana não fora capaz de ver? E já ia perguntar para Ian se ele ainda era capa dez ver a tal fada quando uma bela borboleta cruzou seu caminho. Ana, normalmente não daria atenção ao animal se a beleza dele não fosse tão grande. Em todos os aspectos era um inseto, só que um pouco maior que a média. O tamanho do animal era igual à de sua mão aberta e suas asas eram coloridas de um azul vivo. Mas o que mais chamava a atenção de Ana era o brilho que caía do animal quando este ruflava as asinhas. — Que linda! – exclamou. De repente, Ana viu que ela não estava sozinha. Num segundo, dezenas de borboletas surgiram, todas do mesmo tamanho da primeira, porém, cada uma de uma cor diferente. Elas voavam num balé na mata deixando cair seu brilho por toda a vegetação. — De onde elas surgiram?

282

— Elas estavam aqui há alguns minutos, mas você demorou um pouco para vê-las – explicou Ian. — Como? – perguntou soltando-se da mão de Ian e andando, como que hipnotizada, em direção a elas. — Como eu te disse, quando falamos de magia, as regras da ciência de ver para crer não funcionam. Você tem que fazer o contrário. - explicou - Quando acreditou, elas apareceram pra você. — Então elas são... — Fadas? – completou Ian – Sim. Não são como as que você deve ter imaginado, mas são reais. Elas são as guardiãs dessa floresta e com certeza os seres que concederam os poderes à Teresa e Samanta. — São lindas! E agora que estava bem próxima do grupo de fadas, quase as tocando, um animalzinho começou a voar em volta da garota, fazendo cócegas quando tocava seu rosto. — Elas gostaram de você - disse Ian satisfeito – Devem ter lhe reconhecido como herdeira das duas bruxas anteriores. Ana não respondeu. Ainda olhava maravilhada o balé aéreo que os minúsculos insetos faziam bem acima dela. Ela pulou para tentar tocar em uma delas, sentindo-se criança de novo. — Tome cuidado! - Alertou o garoto – Elas podem ser poderosas, mas são frágeis. — E como isso é possível? - perguntou. De alguma forma, aquilo não fazia sentido. — Bem, fadas são seres mágicos poderosíssimos, mas que se recusam a usar seus poderes contra seres humanos adormecidos... Ana analisou o tom de voz do garoto e sentiu que ele queria falar mais. — E... - encorajou. — E por isso que grandes florestas são devastadas todos os dias e nada acontece que impeça. As fadas não usam seus poderes contra quem não é capaz de se defender e assim, as pessoas destroem suas casas e dizimam milhões desses seres e elas são incapazes de se defender. — Que horrível! - disse espantada.

283

— É sim - concordou Ian – Depois que abandonaram a magia como maneira de resolver seus problemas, a humanidade partiu para um caminho mais seguro e também mais destrutivo. Cometemos um erro no passado, eu admito. – Ana sentiu que ele falava de todos os magos – Mas isso não justifica a destruição que estão fazendo, a fim de conseguir satisfazer suas necessidades e caprichos. – dava para sentir certa revolta na voz do garoto. - é triste ver as coisas terríveis que estão acontecendo. Ana ficou em silêncio até ele se recuperar da súbita revolta. Foi só quando ele deu um suspiro e parecia ter voltado ao normal, que Ana perguntou: — Mas e o que você disse sobre não usar com adormecidos? Então você... — Elas me matariam se me achassem uma ameaça – falou com naturalidade – E elas podem ser mortais quando querem. Isso me faz lembrar... – e se agachou numa reverência para as borboletas - Elas são caprichosas – e sorriu. Ana se curvou também, reverenciando os belos animais. Agora, mais borboletas se aproximaram e rodearam a garota. Algumas fadas batiam de leve em suas costas e Ana sentia como se elas a quisessem levar a algum lugar. Olhou para Ian um pouco assustada e o garoto fez um gesto afirmativo com a cabeça, estimulando-a. Mais confiante, foi deixando ser empurrada pelas fadas com Ian seguindo atrás dela. Eles andaram por mais uns minutos até chegarem a uma clareira na floresta. No meio da clareira, recebendo luz do sol, havia alguns pedestais de mármore já abandonados e sinais de fogueiras extingas, já a muito esquecidas, no chão. Era tudo muito simples e demonstrava ser um local para rituais bem primitivos de adoração a natureza. — Achamos – disse Ian. Ana continuava a olhar tudo aquilo maravilhada. — Era aqui que minhas tias faziam seus rituais? — Sim. Foi aqui que elas ganharam seu poder e foram instruídas pelas fadas. Aposto que foi aqui que elas fizeram o ritual que acabou com o período de pestes na história que você me contou. — Deve ter sido. – concordou, sem prestar muita atenção. Ela vasculhava cada centímetro do local à procura de mais e mais coisas. Notou Ian se dirigindo ao altar central e colocando a ponta do dedo indicador na boca. Antes que pudesse questionar o que ele estava fazendo, pôde perceber seu intento e tentou fechar os olhos, mas era um pouco tarde e acabou vendo os dentes do garoto rasgaram a carne do dedo, produzindo uma fina linha que escorreu em gotas até que o garoto a

284

estendeu diante do altar, fazendo-as cair em uma tigela de barro rústica. As fadas então voaram em sincronia, parecendo mais agitadas, mas felizes com a oferenda. — Fazia anos que elas não recebiam nada - Ian começou a falar calmamente – Então decidi fazer uma oferenda. Não precisa contribuir não – acelerou em dizer quando viu que a garota levava o dedo a boca, mas hesitava em cortá-lo – Umas gotas já são mais que o suficiente. Ela não pôde deixar de se sentir aliviada. Não gostava de auto flagelação. — Eu imaginei que rituais de sangue eram coisas de quem compactuava com demônios. — Também – corrigiu Ian – Todas as tribos mágicas possuem rituais de sangue. Afinal, ele é o fluido com maior quantidade de energia do planeta, pois contêm toda a Quintessência de um ser vivo. Mas as bruxas, ao contrário dos demais grupos, são os únicos que utilizam este sangue com base no sacrifício de um inocente. As fadas só aceitam sangue que for dado de bom grado e não resultar na morte do doador. Ana olhava as borboletas gigantes rodarem Ian, contentes. — Guarde seu sangue – avisou – Afinal, você deve ter que fazer muitas oferendas a elas ao longo do tempo. Achei que seria legal você assumir o lugar de suas tias. Acha que consegue se tornar responsável por esse templo? — Seria uma honra – falou contente. — Que bom. – Ian parecia animado – Em troca, você vai ganhar muitos conhecimentos, assim com Teresa e Samanta. E a oferenda não precisa ser só sangue. Você pode trazer animais filhotes para que elas cuidem, ou sementes. Nada morto, por favor, nem mesmo os animais. Elas não gostam de sacrifícios. - lembrou. — Então os animais significam o que? E as sementes. — Recomeço. Tanto os filhotes como as sementes significam um novo começo para a natureza e as fadas gostam de cuidar deles. — Vai ser ótimo poder cuidar de uma coisa que foi de minhas tias. — Sabia que você ia gostar. Por isso resolvi te trazer. — Obrigada de novo. - e sorriu para ele que retribuiu. Ana sentiu um calor lhe invadir o peito com aquele sorriso. Era tudo tão mágico. Em tempos atrás, duvidaria que isso fosse possível. Mas esses tempos passaram e ela agora podia enxergar toda a beleza que o mundo da magia tinha a oferecer. Ana queria falar, mas sentiu que ia perdendo o controle de suas emoções e decidiu se calar. Segurou

285

as lágrimas de emoção que cresciam para que Ian não percebesse. Ainda sentia vergonha de chorar na frente do garoto, afinal, ele nunca a viu fazer isso. O sol começava a se despedir da clareira e, chegando ao horizonte, tingiu o céu de laranja, deixando o lugar onde estavam envolto na penumbra. Há quanto tempo estariam fora? — Acho que ficamos tempo demais aqui. Melhor voltarmos. – sugeriu Ian, já andando de volta. Ana o seguiu sem falar nada e antes de sair da clareira, deu um último olhar para as fadas que começavam a entrar em alguns troncos de árvores. E seu brilho desapareceu da floresta, deixando-a mais escura. Ian segurou a mão de Ana e foi a guiando. Ela agora só ouvia a sua voz alertandoa contra possíveis acidentes ao longo do percurso, pois Ana era incapaz de ver qualquer coisa à sua frente. — Grave bem o caminho. Qualquer coisa, nós voltamos amanhã para que você o memorize. — Claro – garantiu – Acho que já gravei. Acredito até que minhas tias já o tenham me trazido aqui algum dia. Mas faz muito tempo. — Não duvido. Provavelmente elas iam querer que você aprendesse tudo sobre as fadas. Elas seriam boas mestras. - comentou. Sem dúvida, concordou em silêncio. Ainda bem que eu tenho você pra substituir. E continuaram andando em silêncio. Mesmo naquele escuro, Ana não sentia medo e seguia o caminho traçado por Ian sem opinar. Podia confiar nele. Ela sentia seus dedos entre os dela, aproveitando o toque. Ultimamente o garoto evitava encostar nela. Desde o beijo que nunca mais recebeu os carinhos dele e isso fazia falta. Queria tanto poder falar pra ele o que demorou tanto pra descobrir, mas uma coisa a impedia. Ela ainda se lembrava na noite em seu quarto e como ele ficou apavorado com a idéia de que Ana pudesse gostar dele. Devia ser bem ruim pra ele se controlar, mas o que pensaria se fosse correspondido? Como se portaria se soubesse que Ana sentia mesmo? Provavelmente fugiria agora mesmo. Refletiu desanimada. Ana sabia que gostar dele significaria investir nele. Tentá-lo. Provavelmente ele não ia querer arriscar a besta novamente. A besta. O que seria? Ana não conseguia deixar de pensar que Ian exagerava um pouco nisso. Ela conhecia o garoto e sabia o

286

quanto era controlado. Ele não perdia a calma com facilidade e imaginá-lo como um animal descontrolado estava fora de cogitação. Talvez ele estivesse se subestimando. Era um pouco insensível pensar aquilo. Lógico que Ian não arriscaria perder o controle com ela. Já bastava Catarina. Ele não ia arriscar matar Ana também. Mas e se ele realmente estivesse mais controlado do que quando era Lucien? Era bem provável isso, mas era melhor não externar seus pensamentos. Não ainda. Ia anoitecendo e a floresta ganhava cada vez mais um aspecto macabro. Ana agora mal conseguia ver Ian, que estava bem na sua frente. Eles andavam em um ritmo mais lento agora, para evitarem tropeços e Ana olhava as árvores com seu aspecto mais terrível agora de noite, mas ainda não sentia medo, pois sabia que aquele lugar, por mais assombroso que parecesse agora, era o lar de criaturas tão engraçadinhas e belas como as fadas. Pensando assim, uma dúvida veio até ela. E suas tias? O que de fato tinha acontecido a elas? — Ian? – ela parou de andar. — O que foi? - ele parava também e se virou para ela. Agora, eles estavam sob uma pequena clareira onde a lua conseguia jogar sua luz prateada de modo que as feições de Ian eram mais ou menos reconhecíveis. — Eu estou pensado. Se minhas tias não tinham pacto com nada demoníaco, então como explicar a morte delas? O garoto pareceu pensar um pouco. — O fato de elas não compactuarem, não as tornam imunes a essas criaturas. – ele fitou a lua antes de continuar – Meu palpite é que em algum momento elas se depararam com um demônio. Provavelmente tentaram combatê-lo, mas o ser devia ser muito poderoso e elas... — Caíram – completou Ana. — Sim – respondeu – Sinto muito. — Não sinta – ela o olhava com os olhos cheios de lagrimas. Ainda bem que estava tão escuro. – Sinta orgulho, como eu sinto. Elas lutaram, elas enfrentaram uma criatura terrível, mas... – ela balançava a cabeça, mas não conseguia mais segurar e as lágrimas começaram a cair. Ian passou a mão em seu rosto sentindo as lágrimas que desciam por sua face e Ana deixou o rosto cair na mão dele. Ele continuava a acariciando quando começou a

287

afastar sua franja limpando sua testa, fazendo-a estremecer com aquele gesto. Depois, puxou-a pra perto num forte abraço. Ana sentiu a força do garoto contra ela, mas não era incômodo aquilo, era bom. Ela se deixou ficar ali, recebendo cafunés na cabeça enquanto molhava a camisa do garoto com suas lágrimas. Quando finalmente conseguiu parar, ela olhou para ele e viu que estava com os olhos azuis. — O que houve? — Desculpe – pediu, tentando conter a raiva na voz – Não gosto de vê-la chorando. Se eu pudesse encontrar o desgraçado que fez isso... — Não! – a voz dela acabou saindo mais alta que imaginava – Não. – disse agora mais controlada. – Não faça isso. Ana estremeceu com essa possibilidade e a cena da casa em chamas voltou à sua mente. Ela não agüentaria perder mais ninguém para aquilo. — Não faça isso. Não tem como achar ele. – ela agarrava o garoto com mais força. — Eu não tenho muitas esperanças de encontrá-lo. – disse, tentando acalmá-la – Não sabemos nem ao menos quem fez isso. Mas se um dia eu tivesse a chance, juro que faria isso por você. — Mas não faça. Não quero que você se... machuque – a palavra que ela ia usar era morra, mas não quis pensar nisso. — Eu sou forte Ana – a voz dele era divertida – Não dizendo que suas tias não eram, mas eu tenho a experiência de meu clã para combater criaturas desse tipo. Além do mais, eu sou um guerreiro. Estou acostumado a combates. Suas tias não eram boas nisso e também, lembre-se que tenho alguns anos de experiência. – completou com um sorriso, exibindo os longos caninos como um diabinho travesso. Ao ver sua cara, Ana não pôde evitar rir da expressão que se formara, apesar de ainda estar nervosa com a possibilidade de Ian enfrentar a criatura. Então, para mudar de assunto, ela falou: — Como é ser tão antigo? Digo... como se sente? — Velho. Ela riu.

288

— Sério. - confirmou como se ela não estivesse acreditando - Sempre fui assim, me sentindo um tanto precoce. E isso mesmo antes de despertar para minhas memórias passadas. Eu sempre me senti como um alienígena no meio das outras crianças. Ele agora ria. — Teve um dia - disse se lembrando - que uma criança no jardim de infância me perguntou de onde vinham os bebês. Eu tinha seis anos na época. — E você? — Contei a ela. - respondeu simplesmente achando graça - Ela me olhou com espanto e se afastou de mim. O pior é que eu nem tinha idéia de onde eu sabia isso. Os dois riram agora. E ficaram abraçados por mais um tempo. Até que Ian falou: — Seu avô deve estar preocupado – ele sussurrava em seu ouvido – Acho melhor irmos pra casa antes que ele ligue para seu pai. — É verdade. - concordou. E seguiram de volta. — Eu tenho que ir à antiga casa de minhas tias – falou enquanto andavam. — Amanhã – falou Ian com doçura. Está tarde e já vimos coisas demais. Chegando em casa, a preocupação de Ian acabou se mostrando acertada, pois seu avô quase mandara chamar a polícia atrás dos dois. Ana viu a hora e já passavam das onze. Não tinha idéia que caminharam por tanto tempo. Ana então se desculpou, prometendo não sair mais aquele dia e o jantar decorreu tranqüilo. Sílvio estava feliz demais com a visita da neta depois de tantos anos para ficar irritado com tão pouco. A avó de Ana também comeu na mesa e desta vez, Ana pediu que dispensassem Emília da tarefa de alimentá-la. E ela mesma fez isso. Ian, mais uma vez, comeu por três e Emília estava muito contente achando que sua comida fazia sucesso. Ana achou melhor não comentar que Ian comeria até mesmo carne crua se colocassem na sua frente, pois ela estava tão feliz com aquilo. Não valia a pena estragar tanto orgulho de um trabalho que Ana sabia que Emília fazia muito bem. Na hora de dormir, Sílvio anunciou que o quarto de Ian seria ao lado do seu. Ana sentiu o dedo de Oscar nessa medida, mas o garoto não se incomodou. Despediram-se no corredor quando foram dormir e ele lhe deu um beijo na testa depois de tirar sua franja rebelde de seu rosto. Que bom que ele voltara a fazer essas coisas. Ana colocou a avó para dormir e foi tomar um banho para se deitar. A caminhada foi cansativa e ela logo adormeceu. Nesta noite, fadas dançaram em seu sonho.

289

36 – No quartel.
Quem caminha pelo Largo da Carioca pode ver inúmeros edifícios cortando o céu, cada um parecendo competir com outro em quem chega mais perto de tocar as nuvens. Mas dentre todos os prédios encontrados, há um que chama a atenção em especial, não por sua arquitetura, ou por sua fachada, pois nisto, ele é igual aos outros, mas sim pelo que ocorre em seu interior. O homem de terno preto chegou até ele olhando rapidamente para a fachada que anunciava o local como sendo pertencente a uma respeitável indústria de Software, mas que ele sabia bem o que era no interior. Ao entrar, foi rapidamente cumprimentado por uma bela recepcionista: — Bom dia senhor André – disse em voz profissional. Um gesto de cabeça foi o suficiente para servir de resposta e ele se dirigiu até a parte dos elevadores, aonde entrou em um especial com a placa dizendo: PRIVATIVO. Sozinho, ele olhou para o painel aonde se mostravam os botões correspondentes a cada andar. Logo abaixo, encontrava-se um orifício reto na vertical com cerca de uns dois ou três centímetros. O homem vasculhou seus bolsos atrás de alguma coisa, quando finalmente encontrou uma chave de prata presa a um chaveiro que representava uma pequena cruz. Introduzindo a chave no pequeno orifício, ele fez com que o elevador começasse a descer muito além da garagem subterrânea. Assim que as portas se abriram, um cenário espetacular apareceu para ele. Agora, devendo estar a uns duzentos metros abaixo da terra, todo o lugar era iluminado artificialmente por uma fileira de lâmpadas fluorescentes que se estendiam durante um longo corredor, aonde um senhor obeso - o mesmo que encontrou dentro do Astra naquela noite chuvosa - ao vê-lo, veio em sua direção. Este parecia ansioso, mas como sempre, não conseguia tirar aquele sorriso do rosto. — Rauch, até que enfim – o homem se precipitou – O conselho recebeu seu relatório e gostariam que você adiantasse o fim desse caso. — Eles acreditam que as informações conseguidas com os padres já são o suficiente? – perguntou Rauch, em seu tom frio habitual. — Sim e agora chegou à última parte da missão: Eliminar os que estão por dentro. — Entendo. - concordou – Pode dar o recado a cúpula que os Membros da Ordem dos Iluminados serão eliminados em no máximo setenta a duas horas Vitor.

290

— Setenta e duas horas? - perguntou incrédulo. - Não acha que é tempo demais? Um simples olhar já havia dado a Vitor toda a resposta que ele precisava, mas mesmo assim, Rauch resolveu explicar: — Pretendo interrogar o velho só mais uma vez. Depois os libero. - disse simplesmente. E continuou seguindo o corredor. Rauch foi acompanhado por Vitor até uma pequena sala com três computadores, onde apenas um jovem ficava responsável pelos três. O garoto era a imagem típica de um Nerd: Magro, óculos, roupas sociais e não desgrudava o rosto das telas. — Bom dia Rauch – cumprimentou o garoto sem tirar os olhos da tela. — Bom dia Cris – respondeu – Já fez o que lhe pedi? — Só mais um minuto. Ele esperou. Dava para ver que Vitor estava muito curioso pelo assunto, mas lutava para não perguntar. Rauch, também não ajudou. Não gostava dele, era irritante demais. — Bem Rauch. – começou, meio hesitante – Então todos os membros da Ordem estão sobre controle? — Sim - respondeu simplesmente. — E... – ele tentou de novo – Agora falta apenas um último interrogatório para podermos eliminá-los? — Sim. — Então está tudo terminado? Rauch deu um suspiro, rendendo-se à insistência do companheiro. — Na verdade, eu descobri que um aprendiz também foi informado por César de nosso acordo – disse - Por isso estou atrás dele antes de por um fim a tudo. Não quero que ele espalhe que nós e os Iluminados tínhamos um acordo antes de termos todos os membros da Ordem. — Excelente – felicitou Vitor muito animado – Essa escória já devia ter sido eliminada há muito tempo. Em pensar que queriam voltar a se aliar a nós. - completou como se isso fosse um absurdo. — Enquanto eu for importante aqui nos Inquisidores, isso nunca acontecerá. – garantiu Rauch.

291

— Eu também – concordou o outro – Mas me diga Rauch. E toda aquela história de demônio reencarnado? — Não me diga que acreditou? — Bem... não! Só que... – Vitor já se mostrava constrangido pelo comentário. — Você sabe bem que essa coisa de demônio não existe – garantiu o primeiro. — Mas então o que estivemos caçando durante tanto tempo na história? E Rauch deu mais um suspiro de impaciência. Ele tentava se lembrar que Vitor ainda era novo naquela história toda. Ao contrário da maioria dos Inquisidores, ele não fora recrutado e treinado desde a infância. Nascendo e crescendo como um mero adormecido: trabalhador honesto, chefe de família honrado e cidadão modelo. Mas tinha um pequeno defeito: era bom demais no que fazia. Ele trabalhava como detetive para casos específicos no Rio de Janeiro, que com o tempo foi ganhando destaque. Seus casos, cada vez mais bombásticos, mostravam o talento do homem e seu faro natural para encontrar as causas dos principais eventos do planeta. Tal habilidade não passou despercebida pelos olhos dos Inquisidores. E logo seu trabalho começou a se mostrar um risco para sociedade. Grande parte das pessoas que contratavam os serviços de Vitor eram mulheres atrás de pulos do marido, ou parentes de pessoas desaparecidas. De vez em quando, era recrutado para solucionar um crime sem explicação. Então, o faro natural do homem começou a infiltrá-lo no mundo que se estende além do Véu e os Inquisidores acabaram tendo que lutar muito para manter o sujeito afastado desses assuntos, mas ele era bom demais e começava a descobrir coisas demais. Quem diria que por trás desse rosto bobo e redondo se escondia um cérebro. Pensou. No fim, os Inquisidores tinham duas escolhas: Matar Vitor ou incluí-lo na folha de pagamento. A cúpula optou pela segunda, levando-se em conta as habilidades dedutivas do homem. O problema é que como não fora treinado devidamente, Vitor ainda desconhecia muita coisa sobre os praticantes de magia. Logo, era comum perguntas daquele tipo saírem de sua boca. Apesar de não gostar de bancar o professor, Vitor era um Inquisidor, um companheiro, e ele tinha a obrigação de esclarecê-lo. — Vitor – começou no tom mais paciente que conseguiu – Eu sei que você deve ter aprendido que um dos motivos ligados a inquisição, era a caça a bruxos, pois esses têm pacto com o demônio, mas isso é um mito. Esse tipo de coisa não existe, só usamos

292

tal desculpa pois a Igreja era uma das principais associadas ao nosso grupo e eles precisavam de um álibi para justificar suas ações. Nós só fingíamos que acreditávamos quando na verdade sabíamos que os verdadeiros demônios eram todos os praticantes de magia em geral. — Mas então esses padres, eles... — Acredito que não. Eles não devem ter mentido. – explicou, sem deixar Vitor expressar suas dúvidas - Na verdade, existem sim lunáticos que acreditam nessa baboseira. E a Ordem dos Iluminados é uma. Esses caras vêem demônios em todo o canto e talvez até acreditem que estejam fazendo algum bem afinal. O erro deles foi pensar que pensaríamos a mesma coisa. — Nossa! - exclamou – Não sabia disso, mas... - ele olhava para Rauch como que pedindo permissão para continuar a perguntar. Não recebeu, mas isso não o impediu não acha que tem alguma coisa aí? Não sei. Acho que eles não arriscariam entrar em contato conosco se não fosse algo grande. Rauch balançou a cabeça com um sorriso descrente e Vitor ficou apreensivo. O comandante quase nunca sorria, mas quando o fazia, parecia ter pouca prática, pois seu sorriso sempre saía com um ar sombrio que amedrontavam todos à sua volta. — Meu amigo – disse no que deveria ser um tom amável – existem duas possibilidades: um, é que eles estão blefando. Os Iluminados há muito tempo não conseguem aliados nesse mundo e percebem que o cerco esta se fechando entre eles. Eles não têm o apoio dos magos que antes eles ajudaram a caçar e também não tem o nosso. Logo, eles querem apenas cair nas graças de alguém de novo. “A segunda, possibilidade é que realmente exista alguma coisa surgindo, mas que com certeza não é um demônio. Eu já lhe disse como esses clérigos são supersticiosos. Vêem demônios em tudo. No começo, fingíamos acreditar só para termos sua ajuda, mas nos dias de hoje? Não. Com certeza se trata de um desses mágicos imundos, que nós vamos cuidar depois. Primeiro, temos que aproveitar essa oportunidade que nos foi dada e eliminarmos de uma vez essa Ordem que tanto nos chateia. Depois, conferimos se suas crenças são reais”. Vitor não tinha mais o que discutir. Não gostava de importunar Rauch. Na sua presença, tentava manter o ar mais calmo possível, mas a verdade é que aquele homem lhe causava arrepios. — Então. – Vitor tentou mudar o foco – Qual será o próximo passo?

293

— Como você mesmo disse: eliminar os envolvidos. – disse, parecendo mais relaxado - César e Henrique já estão sob controle, então podem esperar. Mas existe o fedelho. — Então temos que pegá-lo primeiro. — Exatamente. Ele provavelmente não sabe ainda de nada do que está acontecendo em sua Igreja e assim deve ser. Nós conseguimos o endereço de várias sedes da Ordem dos iluminados, graças e Henrique e César, e seria terrível que o tal Ângelo os alertasse e impedisse nosso ataque surpresa. Por isso, antes de agirmos contra os outros dois, temos que pegá-lo. Vitor ficou em silêncio parecendo satisfeito no momento. Graças a Deus, pensou o comandante Rauch. Não gostava daquele interrogatório todo. Era muito chato ter que explicar o básico, mas era bom manter Vitor informado de tudo. Pois quanto mais ciente dos magos ele estivesse, mais útil seria para a sociedade. Rauch sabia que a cúpula estava planejando colocar Vitor em uma investigação especial contra as atividades dos magos logo. Ele tinha um interesse especifico sobre uma onda de desaparecimentos que estavam acontecendo no Rio de Janeiro. No momento, a mídia local dizia que os seqüestros, seguidos de morte em alguns casos, eram obra de traficantes internacionais, mas ele sentia que tinha algo a mais naquilo. Eram os magos com certeza. Cada neurônio de Rauch o alertava quanto a isso. Se Vitor tivesse metade da capacidade de resolver enigmas de magos quanto tinha para humanos, ele seria uma peça fundamental. — Cris – Rauch falou com o jovem no comando dos computadores. Vitor até tinha esquecido que aquela terceira pessoa estava ali. Cris nem mesmo olhou para eles enquanto abria uma janela no computador. A imagem de um jovem magro e de cabelos grandes e oleosos apareceu na tela. — Quem é o feioso? – perguntou Vitor. — Parece que o principal pupilo de César. O pirralho que falta pegarmos. Pelo que me consta, o bispo passou informações para ele. — Entendo. E onde ele está? Desta vez, quem respondeu foi Cris. Em muitos meses de serviço era a primeira vez que Vitor ouvia o hacker falar. — Eu o rastreei como pediu Rauch. Parece que ele usou o cartão da Ordem dos Iluminados para compra uma passagem de ônibus.

294

— Para onde? — Belo Horizonte, e depois para Três Corações. — Então vamos para lá – ordenou Rauch – mande uma equipe de cinco para Três Corações e deixe ordens para que não se preocupem em trazê-lo vivo. Duvido que ele tenha algo a nos oferecer. — Sim senhor – Cris respondeu enquanto pegava o aparelho de telefone na sua mesa e discava. Rauch saiu da sala e Vitor o seguiu. — Por que você acha que ele foi para lá, Rauch? — Não sei. Provavelmente caçando seu demônio. — Então não seria melhor mandar uma equipe maior? Rauch virou e encarou Vitor, que ficou mudo. — Como eu já disse, não acredito que se trate de um perigo real, então, não há necessidade de preocupação. Deixe que eu sei fazer o meu trabalho. E saiu de novo, deixando o companheiro fixado na mesma posição. Não gosto dele, pensou Vitor, antes de se virar e ir embora pela outra direção.

295

37 – Primeiras aulas.
Ângelo desceu em Três Corações às seis da manhã de terça feira. Dormiu no ônibus no caminho e já se sentia revigorado. Na verdade, a adrenalina da caçada o deixava aceso. Ele sentiu o cordão se aquecer em seu peito assim que chegou. Por sorte, tinha aproveitado algumas horas da noite, em que a maioria dos passageiros estava dormindo, para tentar melhorar alguns defeitos da bússola. Agora, ela parecia trabalhar melhor e já estava reagindo mesmo longe da presença do demônio. O município era pequeno então não demoraria a encontrar o Ian. Que Deus esteja comigo. Ao descer do veículo, notou uma igreja próxima e decidiu ir até lá para orar antes de seguir em frente. Quando saiu, foi para uma parte pouco movimentada e segurou a cruz, apoiando-a deitada na palma da mão por um tempo, até que ela começou a girar. A parte negra apontava para o norte. E foi pra lá que ele seguiu.

* A alguns poucos quilômetros dali, Ana despertou. Ao se sentar na cama, sentiu o corpo dolorido e decidiu esperar até que seus olhos se acostumassem com a claridade que entrava pelas frestas da janela para se levantar. Acho que estou meio fora de forma. Pensou, se lembrando da caminhada da noite anterior. Enfim, ela conseguiu se levantar e descer para o café. Chegando à mesa da sala, vê que tanto seu avô quanto Ian já estavam acordados. — Vem minha filha – chamou Sílvio – Estávamos esperando você. Ana olhou bem para as migalhas de pão espalhadas pela mesa antes de responder: — Estou vendo. - e sorriu - Obrigada. — Desculpe, não resistimos – falou Ian com uma falsa expressão de culpa. Ele parecia estar ótimo e Ana se perguntou o quanto ele ficou cansado do exercício de ontem. Talvez nada, concluiu. — Espero que vocês não tenham planos de sumir hoje, ouviu Ana? – falou Sílvio, quando a garota se sentou e Ana ia pedir perdão quando Ian se intrometeu. — Desculpe tio Sílvio. A culpa é minha. Estava tão doido para que Ana me mostrasse tudo que a fiz perder a hora.

296

Sílvio encarou o garoto, mas seu olhar não era severo, depois, deu de ombros e continuou passando manteiga no pão. Sílvio foi o primeiro a sair e Ian ficou esperando Ana acabar o café. — Obrigada - disse — Não por isso. Ana voltou sua atenção para sua comida e Ian continuou a falar. — Espero que você coma bem, afinal, hoje você vai precisar de energias para as aulas que vou te dar. — Aulas? - ela tentou esconder a excitação — Sim. Eu fiz você atravessar o Véu e então é importante que eu te guie nesse novo mundo enquanto puder. Não quero te deixar como cega no meio do tiroteio. Ana tentou conter a emoção. — Essas aulas, serão como exatamente? — A continuação do que eu te falei. Controle de energia. Você tem treinado? pela a acusação de seu olhar, Ana sentiu que ele já sabia a resposta. O peso daquele olhar a fez baixar a cabeça, permitindo-se apenas encarar o próprio café. O garoto deu uma risada. — Estou de brincadeira. - falou - Sei que não teve tempo além da viajem. Quero lhe dar umas demonstrações para você ver bem do que estou falando. Então, quando acabar de comer, vamos voltar para a floresta. Ana não respondeu e tratou de comer mais rápido. Estava muito animada com essa tarde. Ao subir, escovou os dentes e deu um jeito no rosto e no cabelo. Por incrível que pudesse parecer, todo o cansaço havia sumido de seu corpo com a expectativa de ter aulas de magia. Ao se arrumar, parou de frente para a mala, tirando toda a roupa e decidindo o que iria vestir para a ocasião. Como se veste para ter aulas de Magia? Ana pensou nas habituais vestes compridas que sempre via nos filmes e ilustrações, mas não tinha nenhuma. E também seria complicado usar aquele tipo de roupa para treinar numa floresta. E optou por um vestido amarelo que tinha. Era curto e confortável. Permitiria a ela se movimentar com facilidade pelo caminho acidentado. Pensou bem no comprimento da roupa e achou melhor por coisas a mais para que seu avô não tivesse um infarto. Então, mexeu a bolsa atrás de um top e um short para por baixo do vestido.

297

— Pronto - disse quanto acabou e se olhou no espelho. Pelo menos assim não mostraria coisas demais caso houvesse algum acidente. Era engraçado, mas naquele momento ela começava a fazer as pazes com o espelho, gostando muito do que via refletido. Não sabia o que era, mas ela parecia estar com um brilho diferente. Na verdade, tinha muitos motivos para estar mais feliz. Tudo ocorria bem. Ela recuperava seu vínculo com o passado, suas crenças e sua família renegada. Estava aprendendo coisas novas que lhe enchiam os olhos e acima de tudo, sentia que Ian estava desistindo de partir. Ele quer ser meu mestre. Pensou animada. Seria eu uma daquelas alunas apaixonadas pelo professor? Continuou com seus devaneios. De fato era. E desceu para encontrar Ian. Antes de avisarem a Sílvio da saída, Ana passou na avó para poder cumprimentá-la e dar-lhe um beijo. Não queria ficar um dia a mais sem fazer isso. E assim, saíram de casa, prometendo estarem de volta para o almoço. Entraram na floresta mais uma vez e Ana deixou Ian guiando o caminho. — Aonde vamos? — Para um lugar discreto. - disse simplesmente. Saíram da trilha que estavam seguindo e Ana começou a ouvir o som de um rio próximo. Ao chegarem, os dois podiam ver a água cristalina que cortava ao meio a floresta. A correnteza era muito fraca ali e Ana teve uma sensação de Déjà-vú — Aqui está bom. Acho que ninguém deve vir aqui. – falou Ian, olhando em volta. — Eu já estive nesse lugar. - lembrou-se Ana - Vinha aqui com minhas tias. Era um ótimo lugar para nadar. A água é muito boa. — Então acha que é um lugar bom para ficarmos? - perguntou Ian. — Sim, é. Acho que as únicas que conheciam essa parte eram minhas tias - Ana falou maravilhada com o sopro de lembranças que aquele lugar lhe inspirava. Ela sabia que logo atrás haveria uma clareira onde, uma vez, fez uma fogueira quando tinha mais ou menos nove anos. Ela, Samanta e Teresa, ficaram ali contando historias de bruxas e comendo besteiras enquanto olhavam as estrelas. Ana se lembra ainda que aquela fora a primeira vez que ouviu a história dos Garow. Seu fascínio por esse clã a atingiu de imediato. E imaginar que estou de frente para um agora.

298

— Ana? – Ian estava na sua frente sacudindo a mãos para lhe chamar atenção Volte para a terra. Ana deu um pulo com o susto. Não imaginava que havia viajado tanto, pois, em um segundo, Ian estava longe e agora, aparecera em seu lado. Como um piscar de olhos pôde durar tanto tempo? — Com o que estava sonhando? — Nada – ela disse rapidamente – só... lembrando. — Ah. Bem, vamos começar? — Claro – Ana agora estava totalmente na terra. Ian ficou andando pela borda do rio enquanto parecia pensar em como começar até que uma idéia lhe veio à cabeça e ele se virou para Ana. — Você me disse, ontem no carro, que sentimentos eram a chave para se controlar seu fluxo de energia. - começou em seu tom metódico. — Sim – concordou Ana se lembrando vagamente. Na verdade ela estava muito sonolenta naquele dia. — Bem, você encontrou de fato a chave para desencadear o fluxo de energia de seu corpo. Os sentimentos são como válvulas de escape que você regula para aumentar ou diminuir o fluxo de energia. Ana concordou com a cabeça e Ian continuou. — Então, sentimentos fortes como amor, ódio, desespero, tendem a aumentar esse fluxo, pois aumentam os batimentos cardíacos e, assim, liberam mais sangue carregado de energia para o organismo. - ele fez uma pausa - E a calma, a tranqüilidade, a apatia, entre outros, tendem a diminuí-lo. Isso você já concluiu, Agora o segundo passo é aprender a canalizar essa força. Ele agora caminhava para um local onde havia uma pedra, do tamanho de uma bola de basquete, repousada na grama. Ian apoiou o pé em cima dela, falando: — Como todo o ser humano da minha idade e do meu porte eu teria dificuldades em erguer essa pedra e muito mais dificuldades se quisesse quebrá-la. Isso é uma limitação natural que eu teria que vencer, caso quisesse quebrá-la com um chute, por exemplo. Para que isso ocorra, eu teria que seguir dois passos: um, seria canalizar o máximo de energia para o meu pé e, dois, controlar meus sentimentos para liberar o máximo de energia possível.

299

E sem mais explicações, Ian ergueu o pé ameaçando chutar a pedra com toda a força. No susto, Ana não teve nem mesmo a reação de gritar e tudo o que foi capaz de fazer foi virar o rosto para não ver a cena. E foi então que ela escutou um som muito semelhante ao de uma explosão ecoar pela floresta. E quando se atreveu a olhar de novo, viu uma quantidade de poeira voando e, percebendo rápido, conseguiu enxergar estilhaços do que antes foi uma pedra atingirem a outra borda do rio e, alguns deles, golpearem com força as árvores próximas, ricocheteando entre elas. Ian deu um sorriso amarelo coçando a cabeça ao ver o estrago que tinha feito. — Melhor eu maneirar se não as fadas vão comer meu couro – e se voltou para Ana – Bem, isso é uma demonstração do que se pode fazer. Como eu tive uma educação para ser um guerreiro, isso é fácil pra mim. Na verdade, esse é um exercício padrão que todo o mago iniciado sabe fazer, mas nem todos o usam ou tem muita prática com ele. e se aproximou de Ana a olhando nos olhos - E agora vou usar uma deixa sua para dar uma demonstração do que não se deve fazer. — Eu? — Sim. Hesitar. – ele esperou que ela entendesse do que ele estava falando. – Quando eu escolhi quebrar aquela pedra, além de concentrar toda a minha energia no meu pé, também tive que liberar certa raiva contra aquele ser inanimado para que um fluxo de quintessência considerável chegasse ao meu membro. - fez uma pausa esperando que ela assimilasse - Se eu hesitasse, por um único minuto que fosse. Se eu tivesse medo de me ferir ou pena da pedra. Esses sentimentos fariam meu fluxo de energia cair. Poderia até chegar a um nível insuficiente para quebrá-la. E você imagina o que aconteceria? Ana ficou em silêncio, sem querer responder. — Você provavelmente teria que me carregar de volta com uma trilha de sangue seguindo atrás de você - respondeu como se isso fosse uma coisa do dia a dia. – Então, quando for chutar uma pedra, não hesite. — Vou me lembrar disso – respondeu, embora não acreditasse precisar disso em seu futuro. Ian riu e depois a olhou sério — Mas é sério. Quando você vai lançar qualquer magia, hesitar é a linha que separa o sucesso do fracasso total, pois a hesitação altera o fluxo de energia em seu corpo. Entendido?

300

— Entendido. – Ana confirmou, olhando maravilhada a pedra destruída à sua frente. O pé do garoto estava totalmente ileso, apresentando apenas alguma sujeira provocada pela poeira. — Você ainda acha incrível demais para acreditar? – perguntou, fitando seus olhos. — É fantástico sim, mas dá pra acreditar – respondeu eufórica. — Que bom! – ele sorriu – Outros em seu lugar tentariam dar alguma explicação. — Acho que seria difícil não acreditar depois de ver isso - comentou. — Nem tanto Ana – respondeu – Não subestime o ceticismo das pessoas. Ou se esqueceu do quanto você demorou a acreditar mesmo depois de me ver em ação? A garota baixou a cabeça um tanto encabulada. — Não fique assim. É natural no mundo de hoje. Acreditar em mito na sociedade moderna é fazer papel de louco. – e concluiu - por isso as pessoas hoje em dia podem ver milagres a sua frente o tempo todo e continuarem céticos. Muitos são capazes até mesmo de fazer magia sem crer nela. — Fazer magia? — Sim. – explicou - Essa demonstração que acabo de lhe dar, por exemplo. Quantas vezes você não soube de casos em que as pessoas são capazes de feitos até mesmo sobre-humanos quando a necessidade aperta. Pense numa mãe vendo seu filho num carro em chamas. Ela quer salvar a pessoa que ama. Nessas circunstâncias, ela até mesmo poderia criar uma força monstruosa e arrancar à força a porta do carro. Isso se chama Mágica Espontânea. — Mágica espontânea – repetiu como que tentando gravar o nome. — Sim. – respondeu – É a mágica que é feita quando a necessidade aperta, de forma inconsciente. Essa mãe, por exemplo, mesmo não sabendo usar magia, é capaz de fazer o sangue circular rapidamente através de seu corpo de forma o suficiente para lhe dar forças, nem que por um segundo, de salvar o filho. Ele fitou o horizonte e depois continuou. — Outro exemplo de Mágica Espontânea é a que me fez nascer como Ian. Quando me taquei do alto daquele penhasco, meu desespero era tamanho que eu acabei ativando a magia de ressurreição sem querer. Ele ficou em silêncio por um tempo.

301

— Bem - continuou olhando em volta tentando mudar o assunto – Essa foi uma demonstração do uso de Quintessência para aumentar a força do usuário – e ficou em silêncio enquanto pensava em algo - mas… existem outras finalidades para essa energia. - Agora ele parecia ter reassumido o fio da aula – Para todas elas, é necessária uma canalização adequada de quintessência do usuário e também um fluxo regular e exato de energia. — Entendo. E o que mais pode se fazer, exatamente? — Muitas coisas. Quando se sabe controlar o fluxo de energia, você basicamente possui um controle extensivo de seu próprio corpo – ele se agachou – Você pode fazer uma infinidade de coisas que parecem impossíveis, como levar força aos músculos das pernas para um bom salto – e sumiu um borrão Foi como se Ian tivesse sido abduzido de repente. Num segundo, ele estava lá, e no outro, não. Ana olhou nervosamente em volta à procura do garoto até que escutou sua voz vinda de cima. — Ou relaxar para que seu fluxo de energia seja menor, reduzindo seu peso. Quando Ana olhou para a direção, viu que Ian estava e cima de um galho de árvore. Aquele pedaço onde ele estava era muito fino e provavelmente quebraria sob o peso de um pequeno animal. Mas ao contrário de partir, o galho apenas oscilava um pouco, como se em cima tivesse não um homem, mas um passarinho. — Assim como você pode colocar energia no corpo para aumentar o peso e a força, você também pode tirar para reduzi-los. — Isso deve ser maravilhoso para magas com problema de peso – brincou Ana, mas viu que a piada não agradou. — Bem... – ele revirou os olhos, tentando voltar ao assunto – também podemos usar a quintessência para ganhar velocidade – e sumiu num outro borrão. — E usar nossa redução de peso para sermos silenciosos – um sussurro fazia-se ouvir no ouvido de Ana. Ela levou um susto e quando se virou, Ian estava a meio centímetro de seu corpo. Nem o ouviu chegar. — Outra coisa muito útil é levar energia para os sentidos para que se possa perceber a chegada e os movimentos do inimigo. - lembrou.

302

O garoto tinha os olhos azuis naquele momento e eles fitavam seu rosto com ar divertido. Ela correu os olhos rapidamente e podia ver as garras em suas mãos e uma presa, que pulava para fora de sua boca, mesmo fechada. — Nossa! – exclamou Ana. — Legal né? – disse ele, muito contente – Como eu disse, essas são habilidades muito usadas por guerreiros como eu, mas qualquer praticante de magia sabe usá-las, embora alguns cultos não sejam muito especialistas nelas. Na verdade, muitos magos não sabem brigar. - completou – mas essa prática se tornou muito mais comum devido aos riscos que corremos. — Fala dos Inquisidores? - perguntou Ana. — Eles também - respondeu – Mas principalmente pelos demônios. Quando eles assumem um corpo, suas condições físicas são muito maiores que a de um humano comum. Logo, aprender a controlar a energia do corpo acabou por ser tornar um princípio para qualquer mago. — Entendo. Agora, o olho azul de Ian se dirigia ao rio e um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios. — O que foi? Ian não respondeu e começou a caminhar em direção à água, parando na borda antes de olhar para Ana. — Magia também nos permite fazer milagres. – e saltou de pé na água do rio. Nesse momento, Ana não precisou desviar o olhar. Aquela parte do rio não era funda e a correnteza não era forte, então não oferecia perigo. Só ficou um tanto espantada com tal atitude, espanto esse que não foi nem metade do que experimentou ao ver o que se seguiu. Mas mesmo acompanhando cada detalhe, Ana não conseguiu explicar o que houve. Quando imaginou que Ian sumiria dentro da água, eis que ele fica de pé como se na verdade estivesse ainda com os pés no solo. Quando Ana olhou para seus pés, seu queixo caiu. Ian estava de pé em cima da água, sorrindo para ela. Ele poderia estar como se em cima do solo se não fosse por um leve balançar que era ocasionado pela fraca correnteza. - Se fosse um lago ou um rio mais calmo, seria como se estivesse no chão. – disse, enquanto tentava não perder o equilíbrio devido à oscilação da água - Esse truque era muito útil para o pessoal do meu clã, pois haviam épocas em que os lagos não estavam

303

congelados, mas isso não quer dizer que a água não estivesse fria. Então, usávamos isso para atravessar as lagoas e rios para encurtar nossa viajem. - ele pareceu finalmente encontrar o ponto de equilíbrio. — Isso é um milagre realmente – ela estava maravilhada. — Bem, um pouco. – disse modesto – Essa não é uma técnica fácil de usar. É necessário muito controle do fluxo de energia para se deixar o corpo com uma densidade menor que a da água. Qualquer distração, eu afundo. É difícil usar isso em situações de tensão, mas não é impossível. — Jesus Cristo seria um mago, então? — Possível, quem sabe? – ele deu de ombros. Ana sabia que as convicções religiosas de Ian não eram fortes. A garota ficou mais um tempo visualizando o espetáculo que era tudo aquilo. Ian parecia querer brincar com ela e dava mortais para trás caindo com os pés em cima da água e sorrindo pra ela. Deveria ser maravilhosa a sensação. Seus olhos correram da pedra espatifada até o galho e depois para o rio e ficou ali, olhando. — Uma moeda por seus pensamentos – ofereceu Ian, parando de pular. — Não é nada, é só que... é tudo tão lindo. — Magia é bonita Ana. Seria muito melhor se todos a usassem ao invés de destruir o planeta. Mas não podemos mandar nos outros. — É que... – Ana pensava em como falar – Desde que minhas tias faleceram que eu tenho olhado a magia com uma visão negativa. Primeiro, não acreditando nela e depois, vinculando-a ao mal. Entende? — Entendo bem – falou Ian, solícito – Eu admito que a magia tenha seu lado negro, mas isso não é culpa dela. Ela é uma ferramenta, e sua utilidade depende do uso dado por quem manuseia. – ele ia se afastando até a outra borda enquanto falava e Ana tentou perguntar o que ele estava fazendo – Assim como a energia nuclear que foi descoberta por Einstein a fim de ajudar a humanidade, foi pega por algum idiota para se criar a famosa bomba A, a magia também pode se tornar perigosa nas mãos de pessoas mal intencionadas. – agora ele se virou para Ana sem sair do rio – Então, mesmo uma magia que foi usada anos atrás para fazer uma criança chorar... – e levou a mão até a boca, sussurrando algo ali que Ana ao conseguiu identificar.

304

Ana ia perguntar o que ele estava fazendo quando sentiu uma brisa passar por seu rosto. O vento começou a passar por suas orelhas, produzindo um som que a deixou assustada com as lembranças que causava. Mas logo serenou, pois a voz que ali se produzia estava longe de ser aquela medonha e fria do dia da morte de suas tias. Esta era doce e dizia-lhe uma frase linda demais. Eu te amo. Ana sorriu reconhecendo a voz de Ian no vento. —... pode fazer, anos depois, uma mulher sorrir. - completou a frase. Ana agora não podia deixar de sorrir. Era como se tivesse desaprendido a não expor os dentes, tamanha era a sua alegria. — Essa magia se chama Mensageiro. - explicou - Muitos grupos primitivos de magos conhecem-na – explicou, aproximando-se de novo de Ana. – Ela usa a capacidade do ar em conduzir as ondas sonoras e faz com que uma determinada informação seja anexada ao vento, ocultamente. Assim ela pode ser transportada até o receptor. É uma forma segura de mandar mensagem. Ele sorriu. Ana se aproximou da borda do rio. Ian se mantinha ainda dentro da água. — Então, essa é a forma mais segura de se mandar mensagens? – Na verdade, ela tinha um assunto mais importante para falar. A frase dita pelo vento ainda ecoava em sua cabeça. — Uma das mais eficientes talvez, mas não a mais segura – corrigiu Ian – Qualquer mago com percepção boa pode interceptar o conteúdo do mensageiro se estiver no caminho do vento. — Então, qual é a forma mais segura? - O que isso importa? Pensou. Só queria ficar mais perto dele, mas a fronteira do rio a impedia. — Me permite demonstrar? – o Garoto tinha um ar de mistério. Seus olhos azuis a fitavam intensamente. — Claro – disse Ana olhando-o e sentindo todo aquele desejo que sentira na noite do primeiro beijo. — É uma arte bem rebuscada... – falou hesitante, conforme foi se aproximando mais e inclinando o rosto em sua direção – A Irmandade da Rosa o usa constantemente... – respirou fundo e seus olhos demonstravam o conflito em sua mente

305

– Normalmente eu não me permito usar, mas...

– Ana não sabia o que fazer,

contemplando seu rosto que se aproximava a cada palavra dita. – Eu... E foi quando ele se pôs na ponta dos pés e, sem sair da água, beijou-a. Ana ficou imóvel, presa nos primeiros momentos da surpresa. Então, instintivamente, fechou os olhos para sentir melhor o contato dos lábios. Foi um toque tímido e suave, mas que conseguiu fazer com que suas pernas bambeassem. Ana avançou um pouco, forçando sua língua a entrar na boca dele, mas não foi capaz. Isso por que, algo inesperado a impediu. Num segundo uma seqüência de imagens invadiram sua cabeça. Elas eram rápidas demais para que Ana conseguisse identificar o que se tratavam, deixando-a confusa. Com clareza, ela só conseguiu entender uns poucos momentos.

* Numa cena, ela estava dentro do quarto de Ian. Ana se encontrava apoiada na janela vendo seu quarto à sua frente. Ali, dentro do quarto, conseguiu ver ela mesma, só que mais jovem, penteando os cabelos em frente a um espelho. O que esta acontecendo? Perguntava-se. Mas a cena acabou. E foi para outro momento. Neste, ela estava sentada numa cadeira em uma festa estilo brega. Ela reconheceu o lugar como o aniversário de Fernanda, onde começou a namorar Lucas. Ana, agora, observava sentada, ela mesma, abraçada com o recém namorado, dando-lhe um beijo apaixonado. Ela não pôde explicar como, mas sentiu uma dor aguda em seu peito ao ver aquela cena. A terceira que ela conseguiu pegar foi a mais consistente. Nela, Ana estava agarrada a ela mesma, abraçando-a, protegendo-a. Eles estavam no meio de uma estrada de terra com matos altos em volta, que ela reconheceu como a estrada do sitio, no dia em que ela e Ian saíram para comprar coisas de última hora para Mônica. Ana agarrava a ela mesma num desespero terrível. Não podia permitir que Ana – ou ela mesma, já não sabia – se machucasse. Ela vasculhava o lugar a procura do ser que estava conjurando aquela espécie de vulto negro que os rodeava, sentindo uma vontade louca de rosnar para a criatura. Uma raiva começava a surgir dentro de seu

306

peito, mas ela tinha urgência em mantê-la sobre controle. Não podia arriscar nada com Ana ali, tão próxima. Quando a sombra chegou bem perto de Ana – a que ela estava abraçada – Ana – a real - a agarrou e, levando energias para as pernas, saltou para trás. Um salto muito maior que a média humana, mas a garota encolhida em seus braços parecia nem perceber. Ana tinha raiva. Não queria que ela mesma, que estava em seus braços naquele momento, fosse ferida. O rosnar começava a crescer dentro de seu peito e ela mostrava os dentes feito um cão raivoso para tentar intimidar a criatura escondida nas sombras. Tinha que achá-la. E seus olhos vasculhavam cada centímetro da mata. E foi quando finalmente sentiu uma energia vinda de uns cem metros de onde estava. Era ali. Então largou uma Ana no chão pedindo para que ficasse ali em segurança enquanto se lançava no escuro querendo acabar com o demônio que havia conjurado aquele ser espectral.

* Ana se afastou de Ian, sentindo uma leve dor de cabeça. Nada muito forte, mas incômodo mesmo assim. Voltando a realidade, ela tentava assimilar os flashes que vinham em sua mente. Eu fui Ian, ela concluiu. Estava em sua mente por alguns segundos. — O Beijo - disse Ian se afastando. Dava para ver que ele se arrependera de ter se permitido ir tão longe – é a forma mais segura de se mandar uma mensagem. Além de você conseguir mandar muito mais informação, incluindo imagens e sons, um mago pode transmitir fragmentos de sua memória através do beijo. Lançando sensações e sentimentos para que o receptor saiba exatamente sobre alguma coisa. - e concluiu - É uma maneira impossível de ser interceptada. Por mais habilidoso que o alguém seja. Ana ficou olhando Ian com a mão nos lábios e o garoto deu um sorriso fraco ao continuar. — Como é puramente um ato mágico, sem a necessidade de um contato ou envolvimento mais íntimo, eu posso usá-lo. – e depois ficou cabisbaixo de novo – Embora eu não seja totalmente imune. Ana lembrou-se do dia em que viu Ian e Solange se beijando e imaginou...

307

— A Irmandade da Rosa tem esse meio de comunicação como seu favorito – Informou como se pudesse ler seus pensamentos e uma alegria incontrolável surgiu no rosto da garota. — O que foi? – perguntou Ian, erguendo as sobrancelhas. — Nada – disse exaltada – Nada mesmo. Está tudo ótimo. Ana sentiu um calor enorme abrasar-lhe o corpo. Mesmo tendo se esquecido do ocorrido, por um tempo, aquele acontecimento ainda a incomodava muito, mas agora, explicado, fez a garota rir sem controle. Foi só um ritual mágico! Mas o que será que ela passou pra ele... Ah, pouco importa. Foi só um ritual mágico. Ian olhou intrigado para ela, que, num acesso de riso, abanava o corpo tentando fazer o calor abrandar em sua pele. E foi quando olhou para a água que o garoto estava pisando. Devia estar ótima. — Que calor - comentou e Ian ficou em silêncio. Então, uma vontade irresistível de mergulhar a acometeu. Uma necessidade de apaziguar o calor que sentia. Lembrando-se que tinha um top e um short por baixo do vestido, ela meteu a mão na barra da saia e o puxou com toda a força para cima, despindo-se num só movimento. Mas algo aconteceu. — Ah! - escutou Ian gritar junto com o som de algo caindo pesadamente na água. Ana tirou o vestido de frente da cara, segurando-o nas mãos. Ela olhava em volta, mas o garoto havia sumido. — Ian? - vasculhou com os olhos o lugar à procura dele. – O que aconteceu? Onde você está? Ana já começava a ficar preocupada quando uma mão surge de dentro do rio e se agarra à borda. Ao ver o garoto se apoiar para subir enquanto tossia nervosamente a água que havia ingerido, ela se questionou sobre o que teria acontecido, quando ele falou em uma voz engasgada: — Eu te disse que não posso em distrair... – tossiu de novo - Enquanto estiver sob a água. E foi então que a vontade de rir veio com mais força do que nunca ao olhar o estado do garoto à sua frente. — Você me deu um susto – disse o garoto, enquanto tentava recuperar o fôlego. — Desculpa! – gritou Ana no meio das fortes gargalhadas que lhe faziam doer o peito.

308

O garoto a olhou com uma expressão carrancuda no rosto, mas depois não resistiu e começou também a rir, parando em alguns momentos para tossir novamente a água. Ana foi perdendo a força nas pernas e se ajoelhou com as mãos na barriga. Tinha que se controlar ou morreria por insuficiência respiratória. Ambos estavam muito alegres ali e nem percebiam que a alguns metros de distância, alguém os observava.

* Ângelo finalmente havia encontrado o demônio. Ele estava lá com uma garota que não devia saber o tamanho da ameaça que ele representava. O crucifixo em seu peito parecia que ia torrar a sua pele, mas isso não o incomodava tanto quanto o que acabara de ver. Ele chegou há apenas alguns segundos, mas já viu coisas demais. Ele consegue andar sob a água. Isso é magia elevadíssima. Meu Deus, ajude-me a detê-lo aqui e agora. Ele não pode sair daqui vivo.

309

38 - O confronto.
Ana tentou ajudar Ian a se levantar, mas não conseguiu reunir forças o suficiente, pois o riso atrapalhava. Então, ambos foram se apoiando um no outro até que conseguiram ficar de pé. — Gente, mas eu queria ter visto – comentou, tentando regular a respiração. — Acha graça? É que não foi você quem afundou. - respondeu o garoto sem poder parecer zangado como queria – Bebi tanta água que quase explodi. — Mas o que aconteceu pra você cair desse jeito? Ian baixou a cabeça. Estava constrangido demais para falar e Ana olhou para o vestido em suas mãos. — Ah... tá. Isso – ela sentiu o rosto corar um pouco. Enfim, ela se virou de costas, dando uns passos para frente e se distanciando de Ian para poder colocar novamente a roupa. A idéia de pular na água havia saído de sua cabeça, mas foi essa a deixa necessária para o que aconteceria a seguir. Tudo aconteceu de forma muito rápida. Num instante, ela parou de escutar o riso de Ian atrás de si e quando se virou, mal viu o garoto se jogando em sua direção. Em pouco mais de um segundo, ele já havia a segurado e se jogando com ela para uma direção da floresta ao mesmo tempo em que se escuta o som de uma explosão. Sem entender o que acontecia, ela sentiu o corpo sendo levado para o interior da vegetação até que Ian os escondeu atrás de uma árvore. No susto, havia se esquecido de respirar e agora, enchia os pulmões de ar para compensar a falta de oxigênio. Percebendo a tensão no ambiente, traduzida na respiração descompassada vinda do peito dele, tentou sussurrar: — O que está acontecendo? — Alguém nos atacou – ela notava os olhos azuis vasculhando cada centímetro da floresta - E se escondeu. — Mas quem? As fadas? — Não, esse não foi um ataque de uma fada. E nós não fizemos nada que merecesse isso – Sua voz era uma mistura de fala e rosnar – Foi um mago quem fez isso. Ana olhou na direção da explosão que escutou e seus olhos se arregalaram com a cena. Havia um buraco enorme no caule da árvore atingida. Era como se uma bomba

310

fosse acionada ali. Atrás da árvore atingida, uma pedra, que deveria ser dez vezes maior do que a que Ian havia destruído, estava em migalhas naquele momento.

A alguns metros dali, Ângelo blasfemava. Merda! Errei. O ataque dado foi muito bem concentrado para poder destruí-lo em um único momento, mas no último segundo, o demônio percebeu a investida. Ângelo olhava com cuidado para a direção onde o demônio correu com a garota. Por algum motivo, Ian queria proteger a companheira e agora Ângelo começava a duvidar a inocência da jovem. No início, achou que fosse alguém por fora do assunto e por isso esperou que ela se afastasse para atacar o demônio sem molestá-la, mas agora não tinha certeza se ela devia ser poupada. O garoto olhava para a árvore onde os dois correram e preparou um novo ataque com a mesma potencia do anterior. Tinha que aproveitar o fato do demônio ainda não ter descoberto seu esconderijo. Então, segurando seu crucifixo e o apontando em direção à árvore, começou a se concentrar.

— Ana – Ian falou ao seu ouvido – Fique aqui e não importa o que aconteça... — O que você vai fazer? – ela lutava para que sua voz não se elevasse muito. — Vou distraí-lo. Obrigar que se revele. — Não Ian... Ele tampou a sua boca. — Isso não se discute – ele ordenou – primeiro... - e seus olhos focaram em um ponto. Droga! Ele a abraçou novamente, arrastando-a para outra parte quando a árvore onde estavam explodiu. — Agora eu achei – rosnou. E largando Ana atrás de uma grande pedra, disparou em direção ao inimigo. Ian pensou em fazer um ataque direto, pois quem quer que estivesse atacando, não deveria ser bom num combate cara a cara e isso lhe daria vantagem. Assim, correndo em ziguezague e evitando a chuva de esferas prateadas que lhe eram lançados, ele foi se aproximando. Peguei.

311

E quando chegou a uma boa distância, fincou o pé no chão freando o corpo bruscamente e fazendo uma pequena nuvem de poeira se elevar. No mesmo instante, realizou um movimento com as garras, como se estivesse arranhando o ar. Concentrando energia nas pontas dos dedos, ouviu-se o som semelhante ao de uma serra enquanto quatro linhas brancas apareciam no ar se direcionando rapidamente em direção a uma árvore próxima, onde estava o mago agressor.

Ele me viu. Ângelo se desesperou e tentou atacá-lo rapidamente, mas o maldito era rápido e evitou todas as magias lançadas. Agora era ele quem investia contra o iluminado e algo que parecia com quatro linhas brancas vinham em sua direção numa velocidade alucinante. As árvores eram muito estreitas e ele não sabia como se movimentar rapidamente entre elas. Sua chance era ficar na clareira junto do demônio e enfrentá-lo frente a frente. Como não tinha como se esquivar com sucesso do ataque, Ângelo apenas juntou as mãos em oração e liberou sua energia.

Assim que tocaram o tronco, Ian viu sua magia atravessar a árvore como se ela fosse manteiga. Depois, se seguiu uma explosão e uma nuvem de poderia subiu. Enquanto a neblina se dissipava, Ian aguardava o resultado de seu ataque. Não viu ninguém sair do lugar, então acreditava ter atingido seu alvo. E quando a poeira se dissipou, ele pôde ver que atingira sim, mas não surtiu o efeito esperado. Uma barreira translúcida num tom prateado, semelhante às esferas que foram lhe lançadas a pouco, envolviam o corpo de um jovem magro e de cabelos longos e claros. Quando conseguiu focalizar bem o rosto do garoto, Ian se lembrou dele. Era o mesmo garoto que estava em sua casa, falando com sua mãe anteontem. Sabia que ele era um Iluminado, pois o reconhecia pela cruz que segurava. Mas o que um Iluminado quer comigo?

Ângelo estava ofegante. Que ataque! Pensou surpreso. Ainda bem que conjurei a barreira a tempo. Mas no fundo ele estava feliz. Pelo menos o demônio ainda não havia despertado completamente. Ao julgar pela energia emanada pelo sonho do Bispo, um ataque

312

daquela criatura deveria ser tão terrível que atravessaria sua barreira e lhe cortaria ao meio. Mas não foi assim. Tinha que acabar com ele agora. Ou ele podia despertar enquanto lutavam. — O que você quer de mim? – falou o garoto e Ângelo se surpreendeu por ele querer conversar. Mas não respondeu. — Sei que você é um Iluminado – continuou - Então responda. O que você quer comigo? Então o demônio me conhece. Não era de se espantar, afinal, demônios e Iluminados eram inimigos declarados há séculos. — Se sabe quem eu sou, sabe o que quero demônio. – gritou Ângelo enquanto saía em direção à clareira. — Do que está falando? – Ian gritava em resposta, parecendo sinceramente confuso. Ele não deve se lembrar completamente, mas eu não vou esperar que isso aconteça. E fechando os olhos, ergueu o crucifixo para frente e logo o chão começou a tremer. Então, várias pedras se colocaram levitando entre ele e Ian e, com um gesto realizado pela mão livre, elas avançaram em direção ao garoto.

Ian conseguiu se desviar com perfeição, se lançando em direção a uma das árvores. Mas seu agressor não desistiu, fazendo as pedras seguirem seu adversário enquanto ele tentava escapar. A chuva de rochas mantinha uma distância muito arriscada de Ian, impedindo-o de arrumar tempo para contra-atacar.

Enquanto ele o perseguia, Ângelo tomava cuidado para que o garoto não conseguisse se aproximar mais. Não era bom em combates corpo-a-corpo. E num gesto com a mão livre, fez parte das pedras se separarem, indo por outro caminho enquanto um grupo continuava seguindo o demônio de perto. Enquanto mantinha um grupo próximo, fazia as outras darem a volta para fechar suas passagens.

Ian saltava e corria, mas não conseguia evitar a rajada de rochas pontiagudas que o seguiam de perto. Decidiu então usar a estratégia mais antiga do mundo e correr em

313

direção do Iluminado para fazê-lo se atingir com seu próprio ataque, mas ao pensar nisso, viu que era um pouco tarde. Metendo os pés na terra para conseguir frear, ele viu surgindo à sua frente outro grupo de pedras que fechavam seu caminho. Sem tempo para desviar ele fechou os braços em volta do corpo, esperando o impacto.

— Ah! – o grito de Ian fez Ana dar um pulo onde estava. Não! Por favor. Ela olhava na direção de Ian onde viu uma densa neblina de poeira, levantada pelo ataque do mago invasor. Sem tirar a atenção enquanto a poeira se dissipava, ela enfim pôde constatar que Ian estava bem. Pelo menos continuava de pé, mas as pedras o pegaram em cheio. Vários arranhões marcavam o corpo do garoto e boa parte de suas roupas tinham rasgões. Ana deu um suspiro de alivio ao constatar que Ian conseguiu endurecer o corpo a tempo ou o resultado seria pior. Ela queria poder fazer alguma coisa, mas o que? Sentia que, como sempre, o medo lhe fazia ficar imóvel e muda atrás daquela pedra, sentindose completamente impotente.

Ângelo se espantou quando o garoto tirou os braços de frente do rosto e pode dar uma boa olhada em seus olhos. É o demônio, com certeza. Ele escutava o rosnar que era emitido por Ian e sentiu uma leve pontada de medo. Parecia um animal selvagem que estava de frente pra ele, mas o que mais o assustava era a tonalidade que seus olhos, antes azuis, começavam a ganhar. Era como se uma mancha vermelha começasse a tomar conta da íris do garoto, se espalhando por todo o globo ocular à medida que ele rosnava. E um frio na espinha lhe acometeu, mas Ângelo não tinha tempo para sentir medo, não podia fraquejar. Então, mantendo a concentração, preparou um novo ataque que nem ao menos passou perto de seu alvo, deixando o iluminado surpreso com a velocidade com que Ian desviou dessa vez. Com certeza estava mais rápido que antes. Desta vez ele nem havia conseguido acompanhar os movimentos dele e agora sentia a apreensão de não saber onde o inimigo estava. Tinha que achá-lo, pois ele parecia ficar mais forte a cada minuto.

314

Ian se colocou por trás de uma árvore próxima. Parece que havia conseguido despistar seu caçador e isso lhe dava tempo para se preocupar com algo um pouco mais urgente. Olhando para o próprio corpo, percebeu os ferimentos provocados pelo mago e logo a dor das pedradas o fez sentir raiva. Via alguns cortes nos braços, pernas e tronco, mas não eram tão importantes e logo passariam. O que mais o preocupava era a raiva que sentia. Devido à adrenalina que a luta proporcionava e a fúria por ser ferido, ele começava a sentir a presença da besta bem próxima, querendo assumir o controle da situação. Ele tentava controlar a respiração, assim mantendo a calma. Fazia muito tempo que não enfrentava alguém assim. O Iluminado era bom e isso era diferente de lutar contra Lucas ou o demônio do sitio. Os dois eram fracos e por isso Ian não precisou se entregar de corpo e alma a luta, como era forçado a fazer naquele momento. Suas mãos tremiam involuntariamente e, à medida que os minutos passavam, sentia a besta tentando sair para o mundo. Seria ótimo arrancar a cabeça daquele garoto, mas os riscos eram grades demais. Não podia permitir, não podia perder o controle ali. Ana correria muito perigo se isso acontecesse. Ian tinha que se concentrar numa forma de derrotá-lo sem gastar muita energia. Não podia usar todos os seus poderes contra ele sem libertar a besta. Então, sem arrumar uma idéia melhor, juntou as mãos cruzando os dedos bem na altura de sua barriga e começou a se concentrar. Foi quando uma pequena bola azul ganhou forma em suas mãos. E não demorou muito para o clima começar a mudar.

Ângelo vasculhava as árvores com os olhos sem sair do lugar, quando percebeu uma neblina densa que surgia. Esse demônio controla o clima? Pensou espantado. Quer me cegar, não é? Não vou permitir. E levando a mão até os olhos e colocando a ponta dos dedos acima das pálpebras fechadas, ele ativou a sua Visão da Aura. Ângelo ainda se lembrava da áurea do demônio. Ela era negra e por isso ficaria muito visível naquela floresta, onde se predominava a cor verde. Com ela, seria fácil localizá-lo.

315

E quando abriu os olhos novamente, eles eram tão claros que quase não se notava a existência de íris. Com eles, o Iluminado vasculhava a floresta, mas não viu nenhuma mancha negra no meio de tudo. Onde ele está? Teria ido tão longe assim? Tal engano o custou caro, pois quando percebeu o vulto azul que disparava em sua direção, era um pouco tarde. Ângelo só viu o garoto quando este estava bem ao seu lado, erguendo o punho em direção a seu braço. E se desesperou. Sua força iria destroçá-lo, mas como não teve tempo para conjurar uma barreira, concentrou toda a energia que tinha para endurecer o membro para que pudesse sobreviver ao impacto. Mas foi quando se surpreendeu com a leveza do golpe. Ele nem podia dizer que aquilo tinha sido um soco. Parecia mais que o garoto estava batendo numa porta do que contra seu inimigo. Ele viu o vulto do demônio passar por ele e se virou para encará-lo. Ao fitar seus olhos, que voltaram ao tom azul, percebeu que Ian tinha um sorriso presunçoso em seu rosto, mas não entendeu o que isso significava até sentir a dor agonizante em seu braço. Num espasmo violento, Ângelo sentiu como se tivesse farpas penetrando em sua carne. A dor o fazia gemer e cair de joelhos no chão, parecendo que seu braço iria ser arrancado a qualquer momento. O mago olhou para o próprio braço e não via nenhum machucado nele. O que é isso? Pensava desesperado. Era uma dor aguda demais, e foi então que reconheceu aquele sintoma: Era hipotermia. Ele via seu membro ficando acinzentado e logo perdeu o controle sobre ele, deixando sua cruz cair no chão. Pensava em pegar sua arma caída, mas o mínimo movimento fazia com que a dor aumentasse. Ele olhava para o demônio à sua frente enquanto ele fazia um gesto com a mão que fez sua cruz voar para dentro do rio. Agora Ângelo estava perdido. Os olhos furiosos do demônio o encaravam enquanto ele se aproximava vagarosamente, parecendo estar curtindo o momento enquanto deixava o garoto experimentar a tensão agonizante. — Não sei por que diabos você resolveu me atacar – a voz do garoto era controlada e fria – mas na verdade isso não me importa. Ele ergueu a mão em forma de garra contra Ângelo, que tentou conjurar uma nova barreira com a mão boa, mas sem seu crucifixo era inútil. Num golpe apenas, todo o escudo foi destruído e ele viu vários fragmentos de sua barreira cair como cacos de vidro e desaparecerem no chão.

316

O garoto o olhava com seus olhos brancos cheios de pavor e agora percebia uma coisa. Algo estava muito errado. A áurea do garoto era azul clara e não negra. Por quê? Era pra ser negra como a do demônio que eu estive caçando. Por que ela não é negra? Será que... E a possibilidade o aterrorizou. Teria se enganado? Teria feito a magia errada e estava o tempo todo caçando um inocente? — Meu Deus! - Exclamou. Só podia ser isso. Ele caçou a pessoa errada e agora estava prestes a morrer por isso. Queria explicar o mal entendido, mas o garoto já erguia a mão em forma de garra para um novo ataque. E este, com certeza, rasgaria sua carne. Ângelo não tinha mais forças para conjurar barreiras e a dor no seu braço o impedia de sair dali ou sequer pensar em algo útil. Enfim, não tendo mais escolhas, fechou os olhos esperando a morte. Perdão Mestre. Eu falhei.

317

39 - Ataque surpresa.
A neblina começava a se dissipar e Ana podia enxergar de novo. Assim, pensou em arriscar uma nova olhada no confronto desejando que a situação já estivesse ao seu favor. Por favor, Ian, esteja bem. O que ela viu, aliviou-a. O inimigo estava no chão e Ian acabava de destruir sua barreira. Agora ele estava no controle e avançava calmamente em direção do mago invasor. Seu gesto, porém, apavorou-a. Ele ergueu uma das mãos em forma de garra mais uma vez e desta vez, o garoto no chão não parecia capaz de se defender. Ana levou a mão à boca temendo o que Ian pretendia fazer. Não!

Ângelo queria que ele acabasse logo com isso. Não agüentava mais manter os olhos fechados esperando o golpe de misericórdia. Ele orava enquanto esperava que aquelas garras rasgassem toda a sua carne e possivelmente os ossos também. Só torcia para que fosse rápido. Foi quando ouviu: — Não! Era um grito de mulher. Uma voz que veio como música para seus ouvidos. Seria um anjo que veio em sua salvação? Ângelo abriu um olho e percebeu que o mago de olhos azuis parou com a investida. — Ana, volte! – ele ordenou para a garota em sua companhia – É perigoso. — Ian não faz isso, por favor. – Ângelo podia ver as lágrimas querendo cair do rosto da tal Ana. Sentiu-se aliviado por ela interceder a seu favor e culpado também. Em pensar que eu quase a matei. Ian hesitou e Ângelo viu a oportunidade de tentar se consertar. — Espere... – ele tentou falar, mas quando sua voz saiu, Ian se voltou para ele pegando-o pelo pescoço e o erguendo do chão. — Cala a boca – ordenou em um rosnado - Ana, volte. — Não Ian. - ela insistiu - Por favor, não mata ele. — Ele estava me caçando – defendeu-se Ian - eu já vi o desgraçado. Ele foi até a minha casa anteontem e agora está aqui.

318

Ângelo queria ao menos se livrar da mão e poder respirar, mas não conseguia. Além de aquela garra estar fortemente agarrada em seu pescoço, ele sentia que o mago liberava aos poucos um ar frio em Ângelo, que causavam hipotermia em todo o seu corpo, impedindo-o de se concentrar para liberar Quintessência. Assim, não tinha forças nem para se defender, nem para trazer sua arma de volta. Estava completamente vulnerável. — Foi um engano – ele cuspiu as palavras no meio dos engasgos O garoto se virou pra ele com os olhos cheios de raiva. — Engano? Então foi engano você ir até a minha casa e foi engano me seguir até aqui? - e completou com ironia – Ou talvez o seu engano foi o de julgar que poderia me matar, não? — Não – ele tossiu – eu o confundi... com... outra coisa. — Ian – suplicou Ana que agora estava bem do lado dele, segurando seu braço. Ian hesitou, provavelmente se odiando por ceder, e depois o largou no chão. — Explique-se – falou com Ângelo assim que ele caiu no chão e depois se virou pra Ana – Espero que seu senso de julgar as pessoas esteja correto.

Ana sorriu, agradecendo a Ian com o olhar. Ainda bem que não presenciara nada mais trágico, pois não queria vê-lo matando alguém, não conseguia suportar essa idéia. Os braços do garoto tremiam e Ana via que ele lutava com a besta interna para manter o controle sob o corpo. Talvez se ele matasse o mago caído isso poderia desencadear toda a fúria que sentia. Então, voltando à atenção para o garoto no chão, observou. Deve ter a minha idade. E percebendo isso, não conseguia pensar nele como uma ameaça, apesar de terlhes atacado há pouco. Queria dar um voto de confiança. Só esperava não se arrepender.

Ângelo não conseguia acreditar na sua sorte. Realmente aqueles dois não podiam ser coisa ruim, mas agora ele tinha que convencê-los de que ele também não era. — Perdão – foi a única coisa em que conseguiu pensar. — Bom começo – zombou Ian. – Agora, por que veio atrás de mim então? — Vai parecer estranho, mas estava caçando um demônio. Um demônio que pensei que fosse você.

319

— E como chegou a tal conclusão? – o rosto dele não tinha uma expressão definida. — Usei uma espécie de rastreador mágico que me levou até você. - explicou com rapidez, como se a qualquer momento ele pudesse perder a paciência a atacá-lo novamente. — Acho que deve melhorar seus truques então Iluminado. – escarnou e Ângelo sentia que ele ainda não estava muito afim de perdoá-lo. Apesar de não gostar de ter suas habilidades menosprezadas, decidiu não discutir com alguém que lutava para não dilacerar-lhe a carne. — E como conseguiu saber que estava errado? - perguntou a garota. — Quando vi sua áurea. - disse para Ian - A do demônio era negra e a sua é azul. Ângelo ficou feliz ao ver no rosto de Ian, que ele começava a acreditar. — Quando você estava escondido eu tentei usar a visão da áurea para localizá-lo. – explicou Ângelo – Aí vi que estava errado. — Áurea? – questionou Ana. — É a manifestação da Quintessência no corpo – explicou Ian – é como aquele fogo que você conjurou. Só que ele fica circulando em volta de seu corpo constantemente e funciona como se fosse uma identidade mágica de cada ser. Com a visão certa, você pode enxergar isso nas pessoas. — Eu sei, mas. Não podem existir duas iguais? — Não. - respondeu Ian e Ângelo percebeu o que tinha feito. Havia acabado de atrapalhar a aula de um mestre com sua pupila. - Geralmente as diferenças são sutis, mas existentes. É como uma impressão digital e com a observação certa você nota as diferenças. - explicou sem tirar os olhos de Ângelo. — E não tem como você disfarçá-la? - ela parecia muito curiosa em aprender. — Muito difícil e... – e lançou um olhar disfarçado para Ângelo – Você também não ta ajudando. — Perdão – Ana conteve sua curiosidade. — Ela é sua discípula? - perguntou Ângelo Ian pensou um pouco antes de responder. — Sim. - Ângelo não sentiu firmeza na sua voz, mas não era importante isso agora.

320

O Iluminado ficou esperando para ver se tinha se safado. A dor já havia passado e se quisesse poderia se defender de novo, mas não tinha mais motivos. Só conjuraria seu crucifixo de volta se fosse absolutamente necessário. — Então? – a garota olhou suplicante para o companheiro. Ian parecia confuso. Ele lançava olhares de Ângelo à Ana e dava para ver que ainda estava com raiva, mas parecia que a garota tinha algum controle sobre ele. Era bom que ela estivesse do seu lado. — Acho que... – ele lutava contra as palavras e seus olhos começavam a mudar de cor: do azul para o preto. Ângelo ficou intrigado com aquele fenômeno. Já era a terceira cor que via. Queria perguntar, mas o que aconteceu depois não lhe deu chance. Os olhos do garoto interromperam a mudança rapidamente voltando ao azul intenso. Sua íris, muito menor que a média, focou em algum ponto distante atrás de Ângelo, que precisou de alguns segundos a mais para perceber o que ele estava olhando. E foi quando sentiu que alguém se aproximava por trás. Quando se virou para ver, teve se agir rápido para evitar o disparo que veio em sua direção. Da forma mais rápida que encontrou, conjurou uma barreira que impediu sua cabeça de ser atingida por uma bala. Escutou outros disparos e ouviu um rosnado vindo do garoto. Ian agarrava Ana, se colocando entre ela e os disparos. Ângelo viu uma pequena mancha de sangue nas suas costas antes de ele pular com ela para algum ponto distante. A única coisa que ele teve tempo de fazer foi se proteger atrás de uma árvore.

Mais uma vez as coisas aconteceram rápidas demais para que Ana tivesse tempo para entender. Num segundo, escutou o som de disparos e no outro um rosnar de Ian que a segurava e a arrastava para longe. Ana olhava para a árvore ao lado e via o outro mago também escondido. Podia ouvir o rosnar baixo de Ian bem próximo de seu ouvido. Ela o olhou e viu que seus olhos estavam fechados e suas presas trincadas. Abraçando-o, sentiu um líquido quente em suas costas e quando puxou a mão para ver do que se tratava, notou o líquido rubro que a sujava. — Ian! - se alarmou, mas o garoto não pareceu lhe dar atenção. Ele abriu os olhos mais uma vez e começou a vasculhar o lugar — Um... dois... três – ele sussurrava – quatro... merda! Cinco Inquisidores.

321

Inquisidores? Ana se encolhia nos braços do garoto, quando ouviu o som de mais tiros que atingiram as árvores onde eles e o outro mago estavam. Ela tentava alertar Ian sobre o ferimento em suas costas, mas ele parecia estar mais ocupado tentando se comunicar com o outro Mago. Estava apontando para situá-lo da localização dos inimigos. O garoto confirmou com a cabeça. — Estranho eles aparecerem assim - Ian comentava consigo mesmo – Ataque direto não faz parte do feitio deles. — Ian. – ela sussurrou - Você está ferido. — Eu sei – respondeu ainda concentrado na direção dos Inquisidores – depois eu cuido disso. Só queria entender o que está acontecendo. — Eles devem ter pensado que conseguiriam acabar com vocês com um único tiro - Ana sussurrou. — Pode ser. Mas por que então só atiraram no iluminado e aí depois resolveram apontar pra agente? — Talvez não esperassem encontrar outro mago aqui. Podiam estar vindo atrás dele.

Ângelo estava tremendo. Teria o bispo mandado os Inquisidores ali após receber seu recado? Esperava que não. Agora que descobriu caçar miragens, tinha medo pelo que eles poderiam fazer com aqueles dois. Com certeza não os deixariam sair dali vivos. Não, não é isso, refletiu. Aquele tiro foi apontado pra mim, eu tenho certeza. Talvez nem soubessem que o outro também era um mago. Tanto que eles atiraram em Ana e o único motivo para Ian ter sido atingido foi que ele se atirou na frente. Droga, eles estão me caçando. Por quê? Ele viu Ian lhe dizer a localização dos demais. Pelo menos o garoto não acreditou que ele tivesse algo haver com isso. Ângelo se concentrou um pouco, pensando em seu crucifixo e conseguiu fazer sua arma saltar para sua mão, mas isso denunciou a sua posição. Uma varada de tiros penetrou na árvore onde ele estava e quando menos percebeu, seu crucifixo voou de sua mão, indo parar no meio da floresta. O que? Ângelo não sabia o que fazer, eles pareciam ter vindo preparados para matá-lo.

322

Ian fez Ana se abaixar. — Fique aqui. Não se mexa. Desta vez, a garota não reclamou e Ian desapareceu de vista. Saindo do esconderijo, ele tentou se aproximar cautelosamente de um dos atiradores, mas, ao perder a proteção da árvore, foi atingido de raspão no braço. A dor lhe causou uma onda de raiva que ele não tinha o direito de sentir. Aguardou atrás de outra árvore para se recuperar da dor. Ele tinha que se aproximar com calma, os Inquisidores não se mostrariam se não tivessem alguma coisa a mais. Mas por mais que ele olhasse em volta, não conseguia achar nada. Estranho. Ian sentia que todas as miras estavam apontadas para a sua árvore e tinha que arrumar um jeito de sair daquela ratoeira. Então, viu um enorme galho bem na sua frente e pensou. O truque mais velho de todos.Então, pegou o pedaço de madeira e o arremessou com tudo numa direção e, assim que ouviu a chuva de disparos, lançou-se na direção oposta. Correu o mais rápido que pôde tentando se tornar invisível para os atiradores. Ao aguçar seus sentidos para poder captá-los, acabou escutando um fragmento de comunicação.

— Sim senhor, tem outro aqui. E não parece ser principiante. Então, eles realmente não estavam preparados para mim. Tal pensamento aguçou a excitação nas veias do garoto. Pelo menos tinha a vantagem da surpresa. Vendo que tinha que acabar logo com aquilo, se lançou rumo aos inimigos usando as árvores para se esgueirar. Acabou por encontrar um deles, que ficou de rosto pálido ao vê-lo. Não fez perguntas e com apenas um golpe na cabeça fez o homem tombar. Ao cair, o rádio que usava caiu no chão e a voz de dentro dizia nervosamente. — Carlos, Carlos você está bem? Com um pisão, o aparelho foi despedaçado. Ian olhou em frente e notou que um dos Inquisidores o viu. Ian se lançou ao lado antes que ele conseguisse disparar. O homem começava a mandar balas desesperadamente, mas as habilidades de Ian no meio das florestas, coisa que ele aprendeu como Kalish, garantiam que conseguisse escapar e se aproximar de seu alvo.

323

Não demorou muito e o segundo homem estava no chão.

Ângelo escutava os disparos, mas nenhum deles vinha em sua direção. Pelo visto, Ian se mostrou um alvo mais tentador do que ele e essa era a sua chance de localizá-los e terminar com aquilo. Ficou pensando em quantos já haviam caído. O garoto era realmente muito bom. Melhor até que eu. Concordou a contragosto. Mas ainda estava interessado naqueles olhos. Nunca tinha ouvido falar de nada parecido. Esquece isso agora. Recomendou a si mesmo. E continuou com calma a procura para não chamar atenção. Não era um guerreiro, então não era seguro dar as caras. Não tinha sua arma para se garantir e nem ciência de quantos apontavam as armas pra ele. Quando finalmente encontrou um, ele estava virado de costas para Ângelo. Quando o garoto ia atacá-lo quando viu o que tinha acontecido com sua arma. Ao lado do homem, estava uma espécie de cubo de metal parecido com uma caixa de som, só que no local onde deveria ser a saída dos ruídos, sua cruz estava grudada com muita força. Eles de fato vieram apenas para matá-lo e com certeza não esperaram encontrar outro mago ali. Toda aquela emboscada tinha sido preparada pra ele. Dava para ver pelos sinais. Primeiro, eles se mostraram muito facilmente. Caso soubessem que tinha algum guerreiro no lugar, teriam esperado mais e preparado uma armadilha melhor. Segundo, aquela máquina. Ela exercia uma tração magnética forte o bastante para desarmar qualquer Iluminado numa grande distância. Conseguindo desarmar Ângelo, seria mais fácil derrubá-lo. O homem vestido em uniforme preto se virou, percebendo que não estava sozinho, mas não teve tempo de reagir. Com um movimento de mão ele foi atingido por uma espécie de escudo invisível. Voou cerca de três metros, indo bater de encontro a uma árvore próxima. Ângelo ouviu os tiros cessarem. Demorou a se acostumar com o silêncio e ficou aguardando para ver se não sobrava algum. E foi quanto Ian apareceu atrás dele — Acabou aí? – perguntou. — Sim. – respondeu, levando um susto. — Beleza, então acabou de vez. Só vieram cinco. Ângelo ficou surpreso com a informação.

324

— Você derrotou quatro? — Eles não vieram preparados pra mim – disse, tentando parecer modesto – Acho que eles nem esperavam encontrar alguém além de você. — Tenho que concordar – Ângelo olhava para a caixa preta. Ele se dirigiu a ela tentando encontrar uma forma de desligá-la, quando achou um interruptor na parte de baixo. Ao desligá-lo, sua cruz caiu no chão. — Então, eles vieram a sua procura – Ian falou. Não era um pergunta e sim uma deixa para que ele se explicar. — Acho que sim. — Por quê? Agora que não estavam mais agitados com o confronto, a cabeça de Ângelo pôde começar a se preocupar com outras coisas. — Bispo! – ele exclamou. — Quem? – Ian ergueu uma sobrancelha. — Eu só... - mas não conseguia falar. Então, seus medos estavam certos. Alguma coisa de muito grave estava acontecendo na Igreja. Os Inquisidores de alguma forma penetraram as suas paredes e devem ter visto recado deixado por Ângelo. — Meu Deus! Mas como? – Ele falava sozinho. Como o bispo pôde permitir que eles adentrassem seu santuário sagrado. Por quê? Ele tinha que correr. — Desculpa cara - apressou-se Ângelo – eu tenho que correr. Eles estão atrás de mim. De meu grupo. Eu preciso fazer algo. E correu. Ian nada fez para impedir.

325

40 – Um novo mundo.
Ana ainda tampava os ouvidos com força para afastar o barulho das balas. Mesmo depois que o tiroteio havia cessado, ela não conseguia tirar as mãos, pois tinha medo de que o som dos tiros fosse substituído por algo pior como o grito de Ian. Era uma verdadeira loucura. Mal tinham saído de um problema e já entraram em outro. Quando finalmente conseguiu desgrudar as mãos dos ouvidos, arriscou uma olhada para a floresta, quando sentiu uma mão em seu ombro. No inicio levou um susto, mas logo seu coração se acalmou ao ver que era Ian. Sem dizer nada, ela apenas se atirou nos braços do garoto deixando a respiração ir se regulando aos poucos com a cabeça encostada em sua camisa rasgada e suja e areia. Ele estava todo sujo, mas ela não ligava, estava muito feliz que tudo tinha acabado. Só esperava que agora fosse pra valer. — Acabou – ela o ouviu sussurrar a seu ouvido – Fica calma. Ela começava a tatear o corpo dele a procura de novos ferimentos, mas há não ser por um arranhão no braço, ele estava como antes e foi quando se lembrou da bala alojada em suas costas. Ela se precipitou para olhar o ferimento, mas ele a segurou. — Relaxa. - disse – eu vou ficar bem. Ana sorriu com aquela declaração. Finalmente conseguia respirar normalmente de novo e seu coração começava a entrar no compasso. Ele parecia um mendigo, todo sujo e desfiado, mas Ana conseguia achá-lo ainda mais bonito assim. Ele sorriu para acalmá-la, exibindo os caninos avantajados. — Mas como? – ela ficou perplexa – E suas feridas. Ele riu baixinho, parecendo um tanto surpreso. — Estranho você ainda não me perguntar sobre os Inquisidores ou pelo o outro mago – e depois sorriu pra ela – mas fico feliz que sua preocupação comigo seja prioridade. Obrigado. — Fala sério – ela conseguiu rir - lógico que estive preocupada contigo. Nem sei como foi, só fiquei ali escutando tiros e imaginando se você estava bem. — Não se preocupe. Parece que os caçadores vieram apenas atrás do nosso amigo ali. Não estavam preparados pra se encontrarem com um Garow – ele deu uma entonação a mais para a última palavra. — Mas você está ferido – lembrou, com a voz fraca.

326

— Pode parar de se preocupar um pouco? Além do primeiro, eles só me acertaram mais um de raspão – disse mostrando o braço – E o Iluminado me atingiu com as pedras, mas eu consegui endurecer o corpo no último segundo aí só levei alguns arranhões. – ele levantou a blusa e mostrou as costas arranhadas. Depois comentou Assim é melhor, aí podemos falar para deu avô que eu apenas levei um tombo feio. – acrescentou com um sorriso. - ele não precisa ver o tiro nas costas. — Fala sério Ian. Eu ainda estou preocupada. — Eu sei - ele ficou mais sério. Mas não acredito que aqueles caras vão voltar. Como eu disse, eles mandaram poucos, pois acharam que o Iluminado era a única ameaça. Então, não deve haver mais nenhum em Três Corações até amanhã de tarde. E até lá, já estaremos longe. — Mas e quando eles acordarem? Eles podem querer caçá-los de novo. Ian ficou em silêncio. Ana viu que suas feições ficaram um pouco mais sombrias e ele provavelmente tinha alguma coisa a contar, mas não sabia como. Quando finalmente entendeu, sentiu sua voz ficando fraca ao fazer a próxima pergunta: — Eles... não vão acordar, não é? — Não - disse simplesmente. Ana ia falar, mas Ian a interrompeu: — Ana escute – disse seriamente, segurando-a pelos ombros – Sei que isso tudo é novo pra você, mas tem que entender que esse mundo para o qual você está entrando tem seus lados negros. — Mas você disse que não gostava de ser um assassino. – ela gemeu em resposta. — O que eu disse – sua voz era dolorida. O que Ana tinha dito o havia machucado – era que eu não suportava matar mais inocentes. Ana – ele acrescentou, olhando nos olhos da garota – esses homens vieram com um único motivo. Na verdade, eles vivem com um único motivo: Matar o máximo de nós que encontrarem. Deixá-los vivos seria assinar nossa sentença, pois eles teriam gravado nossos rostos e com certeza, viriam até nós mais tarde. Ana ficou em silêncio. Fazia total sentido, mas mesmo assim... — Escute Ana. – continuou numa voz vagarosa – Até agora você apenas testemunhou o lado romântico da magia, e isso é minha culpa. Realmente ela tem uma face muito bonita, mas essa não é a única. Eu te disse que estamos numa guerra. Temos os demônios de um lado e os Inquisidores do outro e estamos bem no meio dela. – ele

327

respirou fundo antes de continuar – Olha. Eu sei que tirar uma vida deve ser terrível pra você. Sei bem que você só me impediu me matar aquele Iluminado, pois não queria me ver como um assassino, mas Ana, aquilo era uma questão de sobrevivência. — Eu entendo – sua voz continuava fraca. Matar era uma coisa que Ana se perguntava se seria capaz de fazer um dia. — Que bom que você estava certa sobre aquele cara – falou em tom mais despreocupado, tentando acalmá-la – se não estaríamos fritos. - e sorriu. - Mas pense bem no mundo em que está entrando. Você pode até ter a sorte de passar uma vida inteira sem confrontar com nenhum dos perigos que ronda nosso mundo, mas aviso, isso é sorte de muito poucos. Ana se lembrou de suas tias inconscientemente. — Pense bem – continuou – você pode decidir continuar por esse caminho ou virar as costas pra ele e fechar a porta atrás de si. É uma escolha sua. Assim como você vai encontrar beleza e alegrias na magia, também vai ver dor e sofrimento. - e mudou o tom para um mais divertido ao completar – embora eu duvide que alguém seja capaz de fechar a porta depois que se descobre do que nosso mundo é feito. Você vai ver magia em tudo agora e ela sempre vai estar com você. Ana deu um meio sorriso em retribuição. Agora que ela se lembrava do outro mago que estava com eles. — Onde está o Iluminado? — Os Inquisidores estão atrás dele. Ele foi ver o que acontecia com os demais membros do seu grupo. — E não vamos ajudar? — Infelizmente não dá – Ian fez uma careta de susto com o vamos. — Por quê? — Bem, é um pouco complexo. A Ordem dos Iluminados está meio que renegada das demais organizações mágicas do planeta. Por isso eles tendem a não confiar em mais ninguém, além deles mesmos. Se fosse ao contrário ele teria pedido a minha ajuda, mas não o fez. Preferiu seguir sozinho. Ana agora se lembrava da historia que Ian lhe contou. Lembrou que durante anos os Iluminados lutaram ao lado dos Inquisidores para destruir as irmandades mágicas existentes. Lembrou-se também que tinha dito um bem feito depois que descobriu que

328

agora eles também estavam sendo caçados. Mas agora, vendo o que era realmente ser caçado, se comovia com a situação do jovem. Não desejava aquilo a ninguém. — E ainda tenho mais – Ian cortou os pensamentos da garota – Eu não sei se seria bem recebido. — Por quê? — Bem – ela viu que essa lembrança o deixava um pouco triste. – Nos primeiros anos em que eu descobri estar amaldiçoado, recorri a um grupo de Iluminados. — E? — E que eles me consideraram um possuído pelo diabo e tentaram me matar. Inúmeras vezes pra ser sincero. – completou – Sorte o nosso novato não saber de minha situação, ou nossa luta só acabaria com a morte de um. — Nossa. - agora Ana entendia a relutância de Ian em poupar o garoto. — Então, o que faremos agora? – ela perguntou. Ian olhou para o relógio e depois falou: — Bem, primeiro, ponha seu vestido. Depois vamos pra casa descansar e comer alguma coisa. Depois vemos o que faremos do nosso dia. - e olhou em volta - Nossa aula de hoje acaba aqui. Classe dispensada.

329

41 – Traição.
Ângelo chegou ofegante a uma parte da floresta. Agora, bem afastado do rio e dos outros dois, ele podia dar asas a seu desespero. Não era fã de demonstrar emoções na frente dos outros. Mestre, Frade, como eu pude abandoná-los? Se ele tivesse dado atenção à sua intuição, nada disso teria acontecido. Tenho que voltar ao Rio de Janeiro. Merda, onde deixei a mochila? O garoto vasculhava o local à procura do pertence quando finalmente o encontrou encostado atrás do tronco de uma grande árvore. Ele se precipitou para pegar a bolsa e na pressa acabou derramando seu conteúdo no chão. — Droga! – praguejou. Andava fazendo muito isso ultimamente. Teria que se confessar depois. Ele catava os papeis com pressa colocando-os de qualquer maneira dentro da bolsa. Grupo por grupo, os papeis foram sendo amassados dentro da mochila, quando um deles fez Ângelo parar o que estava fazendo. Ele ficou perplexo por alguns minutos, olhando para o pedaço de papel que continha a sua letra. Era a anotação que ele fizera em uma de suas aulas com o Bispo. Agora Ângelo entendia o que era a sensação de deixar algo passar que o atormentava há quase uma semana. Na folha, estava uma espécie de oração em Latim, que Ângelo sabia que não era nada religioso, mas sim uma forma de encobrir o que de tão poderoso estava entre as suas linhas.

*Traduzido do Latim Que as asas dos anjos o guiem para a face da luz, Que o senhor seja seu guia e te controle para que evites o caminho das trevas. Seja Feita a vossa vontade. E nesse caminho cego, sua fé lhe levará...

A oração de Lucas Levstross! Sua mente retornou a cerca de quatro noites atrás, quando saía de uma conversa com o Bispo César e encontrara o Frade Henrique orando em frente ao altar. As mesmas palavras da oração de Henrique. Ângelo sabia que nenhuma oração da ordem usava essas palavras. Henrique, no momento da oração, havia recitado-a em

330

português, e por isso Ângelo não foi capaz de fazer a comparação de imediato, pois só a havia aprendido em latim. Não acredito que não percebi Então as lições do bispo ecoaram em sua cabeça causando-lhe dor do peso na consciência. O fato de um feitiço ter sido banido não significa que seu uso também o foi ... Ainda há resquícios deles em toda a parte e não duvido que existam pessoas dentro da própria Ordem que se sintam tentados em usá-los. ... Identificá-los é de vital importância para se interceptar um feitiço lançado contra você ... Francamente garoto. Você deve prestar mais atenção. Assim nunca vai se tornar um grande mago.

E eu não prestei. Pensou cheio de culpa. Mas ele podia estar usando esse feitiço contra os inquisidores, pensou com mais esperança do que com lógica. No fundo, sabia que essa teoria não era válida. Ângelo conhecia a fidelidade do bispo à Ordem e sabia que César jamais usaria uma coisa condenada pela igreja. Mesmo contra seus inimigos. Assim como não permitiria a entrada de um Inquisidor na sua igreja a menos que... estivesse controlado. Agora tudo fazia sentido. Meu Deus. Abaixo da oração, havia algumas anotações sobre feitiços: Anotações que Ângelo tinha lido à apenas alguns dias, atrás. A segunda característica de alguém enfeitiçado é a fraqueza que a pessoa sofre quando o controle é quebrado. Quando alguém é vitima de um feitiço, ela não está completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da vítima é travada uma batalha entre seu subconsciente e o invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito grande para trás, logo, é comum as vítimas desmaiarem após serem controladas por outro mago.

331

Ele se lembrava do bispo desmaiado do sofá da Igreja e de como sua áurea estava fraca. Meu Deus. Eu ainda me considero um prodígio. Quanto mais raciocinava, mais via que as coisas estavam na sua cara o tempo todo. Mas tinha uma coisa que ainda não se encaixava. Ele conhecia o Bispo, sabia de suas habilidades, então como não conseguiu interceptar o frade antes que ele o enfeitiçasse? Quem lhe respondeu foi uma voz feminina que veio em sua mente. Uma das propriedades da planta Beladona é a de ser um bom recipiente mágico. ... A Beladona já foi usada muito como um recipiente para se guardar todo o tipo de mágica: magia, necromancia, feitiço, e outros. ... Só magos experientes são capazes disso. De quem você desconfia?

Ele usava a Beladona para depositar feitiços. Assim a magia ia direto ao corpo do bispo sem ele perceber. Ângelo começava a entender tudo. Tantas explicações de uma vez o deixavam até um pouco nauseado, mas não queria perder a linha do raciocínio. Quando o frade fez a oração eram apenas alguns minutos antes de conversar com o bispo. Lógico, ele é muito esperto para colocar a magia em todas as pílulas do bispo de uma vez. Além de aumentar as chances de César descobrir, ainda tinha o inconveniente de alguém vê-lo num estado de torpor. Por isso ele só enfeitiçava as pílulas nos momentos exatos. Ângelo sentia raiva agora. O bispo confiava em Henrique, tanto que o deixou a par de tudo. Entregou toda a sua saúde nas mãos dele. O garoto gritou. Um grito para ninguém ouvir, há não ser as árvores e pedras próximas. Um grito que servia apenas para desabafar. Liberar a tensão. Decidido, ele se levantou e correu em direção à rodoviária.

332

42 – Os guardiões do segredo.
Ana e Ian chegaram à casa e o avô já estava pronto para dar um sermão pelo atraso da dupla, quando viu o estado do garoto. — O que aconteceu? – disse ele num tom que era mais de surpresa do que de comoção. — Caí – disse Ian com um sorriso amarelo. — Estávamos caminhando e Ian caiu de um pequeno barranco – acrescentou Ana, dando corda a mentira. — Meu Deus! – Ana viu que Sílvio estava achando mais graça do que compaixão pela situação do garoto, mas disfarçava muito bem o riso e lutava para manter a postura séria. Ana sabia que o avô tinha essa veia sádica – Você está bem? — Sim. Não me machuquei – garantiu Ian. — Então vão tomar um banho que vou mandar a Emília servir o almoço. Sem dizer mais nada, eles subiram as escadas até os banheiros. Não demorou muito e eles puderam escutar a risada vinda do térreo. Ian fitou a garota com uma expressão divertida e os dois riram também. Ana o olhava e ele parecia bem à vontade apesar dos arranhões. Pelo menos não é nada tão grave. Pensou quando seus olhos bateram na mancha de sangue atrás da blusa. — Melhor vermos isso. Agora. – ela apontou para o ferimento. — O que? - ele perguntou. Parecia que tinha esquecido completamente do buraco de bala em sua pele. — Tira a camisa. – mandou Ian obedeceu e eles entraram no quarto da garota para ela poder ver melhor o buraco nas suas costas. — Ian, você foi atingido! — Shiiiii! – o garoto colocou a mão na boca dela – Quer estragar o disfarce? Relaxa! Eu já sei. — Mas quando foi exatamente? Foi tão rápido. — Foi na hora em que os Inquisidores dispararam pela primeira vez. - ele falou, olhando o buraco na frente de um espelho – Como eu disse, eles não deviam estar

333

esperando por mim. Tanto que além de só darem o primeiro disparo no Iluminado, eles também miraram o segundo tiro em você Ele falava com naturalidade do ocorrido, mas Ana sentiu uma apreensão ao descobrir que aquela bala estava endereçada a ela. E falou um tanto triste: — Então você teve... — Aí eu me joguei na frente. Foi tão rápido que não tive tempo de endurecer a pele por completo e acabou que ela entrou – e olhava mais no espelho sem dar muita atenção ao sofrimento da garota. - Mas não foi nada grave. Pelo menos consegui endurecer o suficiente para que ela não atravessasse meu corpo ou atingisse algum órgão vital. — Desculpe. - pediu encarando o chão, sentindo-se envergonhada. — Não tem porque se sentir culpada – Ian se virou pra ela – Balas são fogo mesmo. São rápidas demais para você esquivar com perfeição e potentes demais para se absorver todo o dano. — Mas se eu pudesse me virar você não teria que levar a bala por mim. — Por favor, não fala merda. – comentou e Ana se assustou com a indelicadeza. Por enquanto, você é minha aprendiz e eu tenho responsabilidades sobre você. E além do mais – completou – eu jamais me perdoaria se acontecesse algo com você. Ana sorriu. — Vou ter que tirá-la daqui. – comentou, voltando a atenção para o espelho. — Como? – Ana se surpreendeu. — A bala. Está dentro do meu corpo, mas não muito fundo. – e começou a tentar enfiar o dedo na ferida. Ana mordeu o lábio inferior e se virou rápido para não olhar. — Ai! – ele gemeu e a garota tentou se virar e olhar o processo, mas quando viu a linha de sangue sair o ferimento do garoto conforme ele tentava tirar a bala, desistiu. Ela sabia que tinha que ter estômago forte nesse novo mundo que Ian lhe falou, mas tudo tinha seu tempo. — Ufa! Até que enfim. – ele falou. Ana se virou agora e viu que ele segurava a bala nos dedos. — Tá aqui a desgraçada – disse, erguendo o projétil. Ana viu que a dor tinha o feito manifestar o fenótipo do clã. Os dedos que seguravam a bala tinham garras e os olhos azuis estavam com um ar divertido, apesar da

334

dor, enquanto ele a encarava com um sorriso cheio de dentes afiados e quatro caninos avantajados. Outras transformações também aconteciam quando ele se transformava, como os cabelos que ficavam um pouco mais ouriçados e os músculos mais realçados, sem ganhar volume. E eram justamente esses músculos avantajados que ela olhava agora, sentindo o rosto ficando vermelho pela semi-nudez dele. Era raro vê-lo sem camisa. Além do peito nu, partes da calça também estavam rasgadas, mostrando alguns pedaços de pele. Ian lembrava um modelo de campanhas de itens de aventura, naquele estado tão selvagem. Ela decidiu puxar um assunto para ver se conseguia parar de olhálo. Foi quando ele levou a mão até o ferimento de novo e Ana já se preparou para virar novamente, quando viu a uma energia azul na palma de sua mão. A curiosidade a fez continuar a olhar enquanto ele botava a mãos sobre o ferimento e, depois de alguns segundos, o buraco sumira. — Bem melhor – disse mexendo a coluna comprovando que o antigo ferimento não o incomodava mais. — Por que não faz isso com os outros arranhões? – sugeriu Ana ainda maravilhada com a cura. — Tenho que manter o álibi da queda no barranco. – ele disse, dando de ombros – Melhor deixá-los se curar sozinhos. — Deve ser complicado guardar esse tipo de segredo, não? — Mais ou menos – disse Ian – só temos que ser assim com os adormecidos. Geralmente nós nos isolamos da sociedade normal e vivemos com os nossos poucos companheiros. Eu que sou uma aberração e tive de me isolar deles também. - completou com um sorriso largo exibindo as presas para Ana. — Não fale assim – Ana comentou irritada. Não gostava quando ele se menosprezava. Ele riu. — Desculpe – e continuou para deixar essa passar – Além do mais, nós temos um forte aliado para nos manter ocultos. — Quem? — Os Inquisidores. Ana ficou em silêncio.

335

— Eu falei que eles nos querem mortos e por isso eles trabalham para que estejamos de fato mortos para todos. – começou, sabendo que logo teria que responder as dúvidas da garota - Eles têm muitas influências na polícia e na imprensa, e são capazes de abafar a nossa existência em um piscar de olhos – e depois de dobrar a camisa em cima do braço, continuou – Você ficaria surpresa em saber quantas notícias ditas como acidentais ou tragédias naturais não foram na verdade manifestações nossas encobertas. — Hum... — É. – concordou – Mas nem sempre é culpa nossa – tratou de se defender – muitas desgraças acontecem porque esses caras insistem em nos caçar e nos obrigam a tomar medidas drásticas. — Entendo – concordou Ana – Como hoje. — Como hoje – confirmou – Aposto que os mortos serão escondidos antes de serem achados por qualquer autoridade da região e os tiros dados vão ser atribuídos a algum caçador eventual. – e se voltou para o espelho para conferir que a ferida estava totalmente fechada. — Chega a ser assustador o controle deles – refletiu Ana. — E é. Por isso que eu te disse, que não pense que tudo é beleza quando se atravessa o Véu. Você tem que estar preparada para se defender. — Eu sei. Vou aprender. - disse confiante. - Tenho um ótimo mestre. – completou. Por um segundo, Ian desviou os olhos para o chão, foi um gesto rápido, mas que Ana captou no momento exato. Já tinha muita experiência em decifrar a linguagem corporal de Ian e não gostou nada do que percebeu. Tinha certeza que os planos de fuga ainda estavam vivos na cabeça do garoto, mas podia manter-se calma, por enquanto. Afinal, Ian mesmo disse que não queria deixá-la sozinha, que tinha responsabilidades para com ela. Enquanto ele não arranjasse um substituto, ela ficaria bem. — É mesmo – disse com um sorriso forçado – Então vejamos seu progresso – e se aproximou, levando o rosto pra perto dela. – Me bate. — Como? – ela se assustou com o pedido. — Me bate – repetiu como se aquilo fosse algo costumeiro – Quero ver como está o seu controle de energia. — Eu não posso bater em você.

336

— Claro que pode. – ele encorajou – É só me imaginar como uma pedra. Não se preocupe. Você ainda não deve ter força para me matar com uma porrada. Vai! – e virou o rosto de forma a facilitar o ângulo de seu golpe. — Mas eu não posso – insistiu rindo – Você mesmo disse que eu tenho que ter raiva para poder liberar minha energia e eu não sinto raiva de você. — Bem lembrado, mas você sempre pode criar raiva dentro de si. Vamos imagine – e a segurou pelos braços – Pensa que eu sou um tarado e quero te agarrar a força. O que você faria? Só não bata lá – concertou rápido apontando com os olhos para as partes baixas - Não sei se posso endurecer ali com eficiência. Ana gargalhou. O olhar de Ian parecia o de uma criança travessa, divertindo-se com a situação inventada. Mas então, já que era para dar asas a imaginação, Ana resolveu arriscar também uma brincadeira. — E se eu não quisesse oferecer resistência se você me agarrasse à força? – ela atiçou. — Não brinque com isso – apesar do sorriso, sua expressão ficou mais seria. Ele largou os ombros da garota. – Tem gente que não sabe brincar – comentou e revirou os olhos tentando mudar de assunto - Acho que temos de tomar banho. Estou com fome e já tive situações demais para me policiar por hoje. E saiu do quarto dela. — Covarde - murmurou baixinho quando ele saiu e depois foi se lavar no banheiro do quarto. Depois do banho, eles desceram para comer. Ian, como sempre, comeu pelos dois e isso garantiu a ele vários elogios de Emília. Sílvio acabou comentando no meio da refeição. — Ainda bem que vocês vieram logo. É melhor não andarem pela floresta mais hoje. — O que houve? – perguntou Ana, interessada. — Parece que temos uns caçadores fora de época. – informou, tomando um gole de suco - Nós ouvimos tiros vindos da floresta e a polícia está vasculhando as redondezas. — Acharam alguma coisa? - perguntou Ian. — Nada ainda. Simplesmente sumiram. – respondeu Sílvio – Mas ainda acho melhor não voltarem para a mata hoje.

337

Ian deu um olhar para Ana que queria dizer claramente: Não disse? — Mas foram muito rápidos – disse Ana respondendo a Ian, mas se arrependendo depois. — Eu sei – concordou avô, obviamente não entendendo a real intenção do comentário – Geralmente só temos caçadores no verão. Ian lançou um olhar de alerta para Ana que respondeu com um desculpa, que não saiu som.

338

43 – Paciência.
O local tinha as paredes rochosas como as de uma caverna e as únicas luzes que ali havia eram as provenientes de uma série de tochas enfileiradas nas paredes, que acabavam por contribuir para o ar fantasmagórico do ambiente. Ali, uma pessoa estava aparentemente sozinha. Fitando o interior de um recipiente de barro que continha um líquido rubro semelhante a sangue. A bela jovem de longos cabelos prateados e pele branca parecia estar esperando alguma coisa surgir. Com a expressão paciente, ela mexia no líquido rubro com a ponta do dedo, parecendo acariciar-lhe como se faz com um animalzinho. — Satine. – uma voz fraca e fria parecia vir do nada. – Como está o andamento das coisas, minha filha? — Se acalme, meu senhor – disse a mulher numa voz doce – Logo eles retornarão de sua viagem e eu duvido que fiquem juntos após isso. — Essa espera está me matando Satine. - murmurou a voz que vinha do recipiente. — Peço que tenha um pouco mais de paciência, meu amo. – seu olhar era de profunda devoção para com aquele líquido falante – Não vai demorar muito e vamos conseguir a garota. Assim que seu guardião a abandonar, ela estará vulnerável a nós. Peço que tenha um pouco mais de paciência – tornou a pedir. — Paciência eu tenho Satine. O problema é que eu sinto urgência nisso. Não sei como, mas alguém sabe de nós, de nosso plano. — Mas isso não é possível – continuou a mulher sem se abalar - Como alguém poderia saber? Não envolvemos mais ninguém. – e deu um sorriso para o recipiente. — Eu também não sei. - começou a explicar calmamente - Mas enquanto minha alma foi trazida para esse mundo por seu encantamento, eu senti que minhas energias estavam sendo percebidas por um mago. Um bispo, para ser mais exato. Um membro dos Iluminados. Satine torceu o nariz demonstrando nojo pelo nome. — Não acho que esses padres possam nos impedir, meu senhor. - disse confiante — Provavelmente não, mas tentaram. Agora ela estava surpresa. — Como?

339

— Percebi um membro perambulando pelo bairro. Um novato, mas ele acabou seguindo uma pista falsa - e riu. Uma risada fraca, mas muito sincera. — Então não há problemas. – a mulher sorriu de novo. — Não, não há. Mas espero que quando aqueles padres malditos voltarem a nos procurar, eu já esteja forte. Sabe que nossa posição é pouco favorável aqui. — Eu juro lhe proteger com minha vida! – garantiu. — Sim, eu sei que você é capaz disso, mas não quero lhe sacrificar em vão, minha menina. Por isso não quero que você enfrente o Garow. Caius tentou e você viu o que aconteceu. Satine mostrou-se comovida com essas palavras. — Ah, meu amo. O senhor é tão bom. Eu sei que não sou capaz de enfrentar aquele garoto, mas eu prometo que com o meu plano aqueles dois vão se separar e aí o caminho estará livre. Ana não terá para onde fugir. — Ana... – ele parecia se deliciar com o nome – É uma pena não tê-la matado enquanto pude. Um erro tolo, mas que não tinha como eu saber. — O senhor não erra meu amo. O senhor a poupou quando ela era apenas uma garotinha. É uma pena que ela acabou se tornando uma pedra no nosso caminho. — Ela seria uma boa aquisição para o nosso time. – ele não parecia ter prestado atenção ao ultimo comentário de Satine. – Sinto um forte potencial naquela menina. Satine fechou a cara, tirando seu dedo do liquido. A voz riu novamente. — Não fique assim minha Satine. Você é fiel a mim e isso é uma virtude que eu sei reconhecer acima de tudo. Eu só estava comentando. Aquela garota jamais aceitaria se juntar a nós. Não depois do que eu fiz. – sua voz não tinha culpa e sim parecia se divertir com alguma lembrança. — Aquelas duas não tiveram chance contra o senhor. Seu poder é impressionante – Satine mostrava excitação. — E é por isso que eu quero a garota. Preciso voltar a ter aquele poder. — Ela será sua. Não dou mais que dois dias para que isso aconteça. — Eu confio em você minha queria. Confio em você.

340

44 – Adeus Tias.
Quando finalmente acabaram de comer, Ian e Ana foram para o quarto e decidiram arrumar logo sua bagagem para o dia seguinte. Infelizmente, a curta estada em Três Corações já chegara ao fim e os acontecimentos marcantes do decorrer da visita deram a sensação de uma passagem ainda mais rápida do tempo. — Vamos deixar tudo pronto para amanhã – sugeriu Ian – Quero ir com você a um lugar e depois podemos passar as últimas horas com seus avós. — É verdade – concordou Ana – tivemos tanto o que fazer e tantas coisas aconteceram. – E depois, se lembrando, perguntou – para onde vamos? — Se esqueceu? Do que me pediu? Ana ficou em silêncio. Tinha entendido o que faltavam fazer naquela viajem. — Tenho que dizer adeus a elas - murmurou para Ian depois de um tempo. — Essa vai ser a parte mais difícil – alertou. — Mas minha viajem não estaria completa sem isso – acrescentou Ana. — Vamos daqui a pouco - sugeriu Ian – Aí voltamos à noite e ficamos com seus avós. Eles sentiram muito a sua falta e merecem isso. Ana confirmou com a cabeça e juntos terminaram de arrumar a bagagem. Falaram com Sílvio avisando da saída e prometeram voltar cedo. Mais uma vez o avô não os impediu, apesar de não estar muito feliz com isso. Só os fez prometerem que não andariam pela floresta e os liberou. Agora, os dois caminhavam pela estradinha de terra que dava até a antiga casa de Teresa e Samanta. Suas tias viviam ainda mais isoladas do centro de Três Corações, preferindo assim para estar mais próximas a natureza. Ao chegar a um trecho do caminho, Ana se lembrou do momento em que, naquele mesmo lugar, anos atrás, ouviu pela primeira vez a voz trazida pelo vento. A mensagem de morte que tanto a assustou. — Eu só não entendo uma coisa – apesar de estar fitando o horizonte, ela falava com Ian – Por que ele não me matou naquela noite? Ian ficou em silêncio. - Digo – ela continuou – ele teve a chance. Eu, de certa forma, testemunhei o que ele fez. Não penso como ele podia me permitir viver depois disso. Por que apenas elas? — Aquele demônio tinha um alvo Ana. Eram suas tias e ele não considerou você uma ameaça. Seja lá o que ele queria, tinha muita pressa em chegar até as duas.

341

— Mas ele parou para me assustar. Por que fez isso? — Por prazer. O medo é um dos sentimentos que mais animam um demônio. Causar dor, tormento, e outras frustrações, mexe com a excitação destes seres. Eles são tão atormentados que só conseguem ser completamente felizes se conseguirem provocar isso em outras pessoas. Ana ficou em silêncio. — Eles já tinham um alvo traçado naquela noite. – agora ela olhava para o garoto. Não era uma pergunta. Ana sabia que sim. — Sim – respondeu assim mesmo. — Só queria saber por quê? — Infelizmente, não acredito que vamos descobrir hoje. – e pensou bem antes de continuar - Talvez não saibamos nunca. A garota baixou a cabeça percebendo verdade nas palavras de Ian. E quando se sentiu mais forte, levantou-a novamente e forçou um sorriso. — Mas eu não estou aqui atrás de vingança. Não hoje: só quero me despedir. — E é isso que vamos fazer – ele retribuiu o sorriso. Ana segurou na mão do garoto e juntos caminharam sob o sol da tarde até a antiga casa. Ana não tinha mais medo. Ela se lembrava ainda da voz, mas ela não lhe causava mais pavor, pois sabia que aquilo foi apenas um truque. O mesmo truque usado por Ian, mas não para assustá-la e sim para lhe fazer feliz. — Sabe, durante muito tempo eu passei a ter medo do vento. Uma simples brisa já me deixava nervosa e uma ventania me apavorava completamente. Demorei muito até perder esse medo. Engraçado que quando eu o senti daquela vez em que... Ana parou de andar de repente. — O que houve? – Ian parou ao seu lado As expressões de Ana mudaram rapidamente. Da surpresa, para a dúvida, da dúvida para a raiva, da raiva para a satisfação. No fim, ela olhou para Ian com um sorriso incrédulo. — Foi você, não foi? — Eu o que? - o garoto foi pego de surpresa. — No dia do meu aniversário? Quando eu dei um flagra em Lucas? Ian revirou os olhos. Culpado. — Você me guiou até lá com o Mensageiro. – essa parte não era uma pergunta.

342

— Confesso que não me orgulho, – assumiu – mas meu ciúme e minha raiva por ele me fizeram fazer isso. Eu queria tanto você naquele momento e ver que quem te tinha não estava dando o devido valor, me fizeram cometer essa loucura. Eu devia imaginar que você entraria em pânico ao escutar mais uma vez o Mensageiro. — Mas eu não fiquei com medo – Ana o corrigiu. — E isso foi o mais estranho – ele riu incrédulo – Não sei como você não saiu correndo. Infelizmente eu só pensei nessa possibilidade depois de fazer. Que bom que você não se assustou – ele voltou a encará-la – Mas por quê? Por que você não correu naquele dia? Por que confiou em mim? Digo... em minha magia. — Não sei – respondeu sinceramente – acho que no fundo eu sabia que as vozes eram diferentes. A de quando eu era criança queria me destruir, mas a sua queria me salvar. Não sei como, mas pude sentir a diferença. — Mesmo assim isso não justifica o que eu fiz. Desculpe. — Mas eu não te culpo. – acrescentou Ana rápida – você me ajudou, abriu meus olhos. Ultimamente você tem feito muito isso – acrescentou, fazendo o garoto sorrir sem graça. Ana não queria mais constrangê-lo e resolveu continuar andando em silêncio. Ela só queria confirmar uma coisa que já sabia e agora conseguiu. Estava feliz. Gostou de saber que Ian sentia ciúmes dela. Isso a fazia se sentir bem, querida. Engraçado, refletiu consigo mesmo. Ele leva um tiro por mim, mas saber que sente ciúmes me faz acreditar mais no seu amor. Continuaram a andar. Uma feliz demais com seus devaneios e outro constrangido demais para puxarem algum assunto, quando finalmente chegaram ao que antes era a confortável casa de Teresa e Samanta. O lugar havia sido deixado de lado. Ninguém pareceu mostrar interesse pelo terreno e os escombros continuaram iguais há anos atrás, com a única mudança é que o mato havia crescido bastante, mesclando a natureza naquele cenário de destruição. Ficaram ali, parados, contemplando a paisagem. Ana deixou a emoção inflar em seu peito enquanto Ian aguardava que ela estivesse pronta para falar. Imagens do passado vieram à tona, muitas de uma vez e demais para qualquer ser humano conseguir assimilar. Ana sentia como quando Ian havia lhe demonstrado O beijo. As lembranças vinham rapidamente, permitindo a Ana não mais do que uma leve espiada naqueles

343

tempos tão felizes. Mesmo estando no local da morte, o dia do assassinato foi a única lembrança não despertada. Havia pouco tempo para ficar ali e ela não queria perder tempo com uma memória que já ocupou tanto tempo em sua vida. — Eu vivi muitos bons momentos aqui - murmurou para Ian. — Sei que sim. Por isso queria tanto que você viesse aqui. — Engraçado – ela comentou – Tantas lembranças e nenhuma referente aquela noite. — Que bom! - exclamou o garoto – Não é bom guardar coisas tristes. — Mas é difícil se lembrar de coisas positivas quando sentimos saudades. – ela se perguntou se ele entenderia o duplo sentido de sua frase. — Eu sei, mas se prender a coisas ruins não ajuda. Tudo termina um dia, todos se vão. Tentar lembrar as coisas boas não trás ninguém de volta, mas ajuda a aliviar a tristeza. – ele tinha entendido e estava rebatendo. Ana desistiu de discutir. Ela tentava fazer uma ligação da despedida de suas tias com a que Ian queria forçá-la afazer, mas o garoto rebatia muito bem. Então, ela entrou nos escombros. O fogo realmente havia devorado tudo e Ana não conseguia reconhecer muito pouco do que fora antes. A única coisa que a fazia reconstruir aquele local como a casa de suas tias, era suas lembranças. As brincadeiras, as histórias, o carinho que recebia. Ian estava logo atrás dela adentrando os diferentes cômodos da velha casa. Não havia mais paredes então ela conseguia ver por onde ele andava. E perguntou-se se ele tentava encontrar pistas sobre o assassino, mas não conseguia imaginar que tipo de pistas aquilo deixaria. Aqui foi o lugar onde tudo mudou. Nesse lugar, uma garota cheia de sonhos e fantasias se tornou uma adolescente descrente e solitária. Foi aqui que minha vida deu uma guinada para trás. Foi aqui que começou o processo de transformação, onde eu tive que passar depois por inúmeros especialistas, a fim de me curar. Mas também... lembrou-se. Foi aqui que marcou o inicio de uma história nova. Uma história que me levaria de encontro à... ele. Ian voltou pra junto da garota e se surpreendeu ao ver que ela o fitava. — O que foi? – perguntou meio sem jeito. — Nada. – disse emocionada – Só estou pensando. — Posso saber em que?

344

— Claro – ela deu de ombros – Estava pensando em como nossos caminhos se cruzaram. – e ergueu os braços para o local – começou aqui. Ele ficou um tempo calado até finalmente entender. — É verdade. - disse enfim - Esse ser realmente deu uma guinada em nossas vidas. — E o que você diz dessa guinada? — Como assim? — Foi positiva ou negativa? — Pra mim ou pra você? — Para nós. — Bem, - ele revirou os olhos à procura da resposta – Não consigo dizer que foi negativa. Embora quisesse. — E por que você acha que deveria dizer que foi negativa? — É só olhar para os fatos. - disse - Se isso não tivesse acontecido você não perderia suas tias, não teria de passar por todo um tratamento que te deixaria arrasada. Você provavelmente seria uma maga feita a essa altura e com certeza sua vida seria melhor. Ana tinha que concordar com o que ele disse. Muita coisa ruim aconteceu, mas gostava de pensar que também lhe aconteceram coisas boas. O garoto à sua frente era uma delas. Resolveu não entrar nesse assunto ainda. — E quanto a você? – ela perguntou. — Bem, - disse hesitante - Você acabou adiando todos os meus planos de vida. Você me fez amar de novo, você me fez sentir querido de novo. Mas acima de tudo, você me fez querer viver de novo. Ana estranhou o tom de voz dele. — Você fala com uma conotação negativa. — É que no meu caso é. Morrer seria a coisa mais decente que eu poderia fazer, mas você me impediu. — Talvez porque não seja a sua vez de partir. — Minha vez de partir foi há trezentos anos. - ele lembrou - Mas eu burlei as regras e permiti que muito sangue inocente fosse derramado. - e suspirou, parecendo cansado de ter de explicar a mesma coisa - Não mereço viver, Ana. E só você não consegue enxergar isso.

345

— Eu ainda digo que não era a sua hora. - insistiu mordendo o lábio inferior. Odiava quando ele falava assim - Talvez todas essas suas vidas, só o estivessem lhe preparando para essa – ela se surpreendeu com a sabedoria que parecia sair da sua voz – Talvez você não pudesse morrer sem viver como Ian. Sem descobrir que não é um monstro. — Mas eu sou um monstro – e argumentou – Tenho um currículo extenso que mostra todos os que eu já matei para provar. — E tem outro que mostra quantos você já salvou. – contra-argumentou. — Eu não entendo – ele começava a se exaltar – Todos me vêem como um animal. Todas as pessoas a quem conheci viram o monstro em mim, mas você se recusa a enxergar. Por quê? — Porque não há monstro para enxergar. Porque a verdade não é que eu não enxergue e sim que eu enxergo melhor que os outros. Eu consigo ver melhor que os outros. Eu te conheço Ian ficou em silêncio e Ana se odiou por dentro. Não era isso que ela queria dizer. Essa era a chance perfeita para falar o que estava há muito tempo engasgado. O que ela deveria ter dito a noites atrás quando ele declarara seu amor por ela, o que ela deveria ter dito na manhã de hoje quando ele perdeu por um segundo todo o controle disse as palavras eu te amo sopradas ao vento. Porque eu te amo, era isso que ela devia ter dito, mas a sua covardia não permitiu. — Eu não entendo – ele repetiu balançando a cabeça. Ficaram em silêncio mais um tempo. Uma eternidade em um segundo. — Quer fazer mais alguma coisa? – ele falou enfim, com os olhos no chão, desistindo do assunto e Ana percebeu mais uma vez que deixara a oportunidade escapar. — Só uma – e saiu da casa. Depois, voltou e deixou um buquê improvisado no chão, dizendo um último adeus. Eles saíram de volta à casa do avô. O sol ia se despedindo no horizonte, deixando um céu laranja que aos poucos ia escurecendo. Seguiram seu caminho em silêncio, assim como na ida. Um silêncio constrangedor, que fez Ana ficar se perguntando se Ian sabia o que ela queria ter dito há horas atrás. Ele saberia que ela o amava? Não. Ela havia destruído essa crença quando disse que o beijo que havia lhe dado fora apenas fruto de carência. Na época, ela acreditava nisso, mas agora sabia que não era verdade. O que ela tinha era medo de dizer eu te amo

346

pra ele. O que aconteceria quando finalmente contasse? Quando finalmente declarasse seu amor? Ana sentia a Roleta Russa girar sempre que refletia sobre essa decisão, pois, assim como poderia significar o ato libertador que faria Ian definitivamente desistir de ir embora, poderia ser o catalisador de sua fuga. Tinha medo de já saber a resposta. Ela conhecia o medo que Ian tinha dela se apaixonar por ele. E por isso que tentava fazer o máximo para que ela ficasse bem em sua ausência. Para que ela não sentisse a sua falta, mas já era tarde. Tarde demais. Ana se assustou quando percebeu que já tinham feito todo o trajeto da casa de suas tias até a casa de seus avós. Tinha se esquecido como as duas eram próximas. Quando viu seu avô na sala, Ana se lembrou que ainda faltava aproveitar isso em sua viajem. Na manhã seguinte voltaria ao Rio de Janeiro e tinha que dar ao seu avô e a ela mesma esses momentos juntos.

347

45 – O caçador de magos.
Rauch socava a mesa, esbravejando palavrões. — Que inferno! Como falharam? Apesar de toda a fúria do homem e do fato de ele estar naquele momento socando a sua mesa, Cris não se demonstrou intimidado. Ele continuava calmamente mexendo em seu computador. — Pelo que me informaram senhor, havia outro mago no local. — E por que não o abateram também? Não são treinados para isso? — Sim, mas eles não haviam levado equipamento para enfrentar um mago daquele tipo. Pelas poucas mensagens que me enviaram aquele parecia ser um guerreiro e tanto. - continuou com seu tom de voz profissional. — Inferno! – Rauch começava a tentar manter a calma – Não fazia a menor idéia de que ainda havia desses em Três Corações. Pra mim aquele lugar estava livre dessa peste. — Todos pensavam assim, senhor - respondeu Cris. — Droga! – Apesar de ainda gritar, começava a se sentir mais calmo – Então eu devo presumir que esse garoto em breve estará aqui no Rio, não é? — Quanto a isso eu já não tenho certeza – ele abriu uma tela no computador enquanto falava – Estava olhando as últimas transações dele e vi que esse Ângelo usou seu cartão de crédito para comprar uma passagem de ônibus, mas não para o Rio de Janeiro. - completou - Ele está indo para São Paulo. — São Paulo? Mas o que diabos ele estaria fazendo em São Paulo? — Não sei senhor. Pode ser um truque para nos distrair, agora que sabe que está sendo caçado. – sugeriu Cris. — Talvez. Ou... – ele começou a refletir. — O que? — Talvez ele deva estar recrutando mais gente. Mais gente da laia dele. — Como assim? - Cris parecia sinceramente intrigado. — Com o contato que tive com os administradores daquela paróquia no centro, soube que esses tais Iluminados possuem algumas cedes em São Paulo. — Entendo. - refletiu Cris - Mando pessoas interceptá-lo?

348

— Claro. – concordou Rauch – Apesar dele jamais conseguir chegar aqui a tempo, não quero que alerte os demais da laia dele. Até porque pretendo terminar meu trabalho com o Frade e o bispo e amanhã mesmo devo tê-los eliminado. Depois partirei para caçar os demais membros da Ordem. — Entendo – o garoto voltou-se para seu computador. - desta vez não vou medir esforços. — Excelente – felicitou - Vou me preparar para o interrogatório de amanhã. Mais algumas informações e tanto o bispo quanto o frade serão dispensáveis. Rauch se dirigiu à porta de saída quando a voz de Cris o fez parar. — Posso lhe fazer uma pergunta, senhor? Pessoal? Rauch não entendeu. Não se lembrava de Cris interessado na vida das pessoas. Geralmente seu relacionamento com os demais colegas de trabalho não atravessava a barreira do profissional. Como não recebeu respostas, Cris perguntou mesmo assim. — Sabe, - disse se virando pela primeira vez para encarar o homem - todos nós aqui fazemos esse trabalho porque acreditamos que estamos fazendo um bem a todos nos livrando desses magos. Mas o senhor é diferente. Sei que não é da minha conta, mas acho que aconteceu alguma coisa com o senhor que o fez odiar tanto eles. Da para ver isso pela maneira como você fala. Estou certo? — Você tem razão – falou o homem – não é da sua conta. – e saiu.

Andando pelos corredores, Rauch não conseguiu conter a raiva que sentia da abordagem de Cris. De fato o garoto havia acertado na mosca e Rauch sentia seus pensamentos lhe fazendo voltar no tempo. Numa época em que ele morava com a família em Niterói. Numa época quando ainda era conhecido como Rafael e não como Rauch, nome que adotou quando entrou para os Inquisidores. Naquela época, ele podia se considerar uma criança feliz. Tinha dinheiro, pais que o amavam, amigos. Nada lhe faltava até que tudo lhe foi tirado. Rauch ainda se lembrava perfeitamente do dia em que estava dormindo tranqüilamente em casa quando ouviu o som de um grito. A voz lhe causou um profundo terror quando reconheceu ser de sua mãe. Se lançando para o chão e correndo o máximo que pôde, conseguiu abrir a porta do quarto de seus pais a tempo de ver a cena que mudaria a sua vida.

349

Além de seu pai e sua mãe, havia uma terceira pessoa no quarto. Alguém que Rafael nunca tinha visto na vida. O homem era alto e magro. Seus cabelos eram mal cuidados e suas roupas pareciam esfarrapadas, mas o que mais assustou Rafael não foi a sua aparência e sim o que ele estava fazendo. Inclinado próximo de sua mãe, ele segurava uma garrafa próxima de seu pescoço onde uma fina linha rubra caia de uma fenda feita na jugular da mulher, até o interior do vidro. Ele se lembra de que ficou paralisado por intermináveis segundos. Nesse tempo, o homem percebeu que tinha um espectador, mas isso não o impediu de continuar seu ato. Parecia apenas que ganhava mais um incentivo para continuar. Lentamente, o sangue enchia o recipiente. Rafael olhou para o lado da mãe se perguntando por que seu pai não fazia nada, quando notou que ele também tinha um corte no pescoço. Sua pele estava pálida e ele tinha os olhos esbugalhados na direção do garoto. Quando finalmente conseguiu sair da inércia, Rauch disparou contra o agressor e lhe distribuiu uma serie de socos, que em nada afetaram o homem. Apesar de sua aparência frágil, ele se mostrava bastante resistente a surra e com um simples bofetão, o garoto foi lançado contra a parede e ali caiu inconsciente. Quando acordou, pensou que tudo não passava de um sonho, mas ao abrir os olhos e se ver na cama de um hospital com alguma coisa imobilizando seu pescoço, a dura realidade bateu nele como um soco no estômago. Deu seu depoimento aos policiais que vieram lhe visitar e eles atribuíram a culpa a um maníaco qualquer. Desde aquele dia, mesmo tendo apenas treze anos, um desejo mortal de vingança brotou no seu peito como uma semente cruel. Um desejo que cresceria dentro dele e criaria raízes em seu peito pelos próximos doze anos que se seguiriam até chegar à vida adulta. Naquele dia, Rafael já sabia o que queria ser quando crescer. Seria detetive. Alguém que caçaria maníacos, como o que matou seus pais. Ele se vingaria colocando não só o assassino de sua mãe, mas todos os maníacos na cadeia. Depois de duas semanas, quando recebeu alta do hospital, ele foi levado a um orfanato. Seus bens seriam congelados até que completasse a maioridade e como não tinha outros parentes – seus pais nunca falaram deles – teria de passar o resto da sua juventude ao lado de outras crianças sem lar. No orfanato onde esteve, não pôde dizer que teve vida. Ele estudava muito e fazia exercícios físicos diários, almejando um dia

350

ser policial, mas não conseguia fazer amizades. Isso se devia mais por culpa dele mesmo do que pelos outros. Rafael não conseguia se enturmar, principalmente quando alguém tentava puxar assunto sobre seus pais. Ele era muito irritadiço e sempre arrumava briga. Com o tempo, os outros garotos aprenderam a respeitá-lo assim como a temê-lo. E foi quando completou quinze anos, que finalmente recebeu uma visita que marcaria a segunda mudança em sua vida. Ele estava em seu dormitório, lendo um exemplar de A Arte da Guerra que lhe fora emprestado por um dos professores, quando uma das responsáveis pela arrumação lhe chamou, avisando que tinha uma visita importante a receber. Sem entender quem ia querer lhe visitar depois de tantos anos, Rafael foi curioso até a sala de visitas. Chegando ali, encontrou apenas um senhor bem vestido, aparentando ter mais ou menos uns cinqüenta anos de idade, que lhe aguardava. O homem usava um terno azul marinho e tinha os cabelos e a barba rala muito brancos. Sua pele era morena e seus olhos cinza. Tinha um porte atlético, mostrando que mesmo depois da velhice, não abandonara os exercícios. Rafael ficou parado olhando curioso para seu visitante inesperado. — Você deve ser o Rafael. – disse o homem com um sorriso – Por que não se senta ao meu lado? – ele dava tapas no lugar vago no sofá onde estava – Tenho uns assuntos a tratar com você que acredito serem de seu interesse. Sem falar nada, o garoto se aproximou, mantendo certa distância ao se sentar. Seu olhar ainda mostrava muita desconfiança. — Pelo visto você não está muito interessado em bater papo e deve estar se perguntando o que trouxe um velho como eu até aqui. Rafael se limitou a balançar a cabeça confirmando. — Bem, então vou direto ao assunto. Meu nome e Evandro Martins e eu comando um internato especial para jovens e gostaria que você fizesse parte de nossas fileiras de aprendizagem. Rafael continuou em silêncio. — Nós recrutamos jovens com certos... potenciais para receber ensino gratuito em nossas instalações e você foi selecionado Rafael. Você deve estar perguntando o que nos chamou a atenção para você – disse rapidamente ao ver a boca do garoto começando a se abrir – Pois eu digo que não estamos atrás de você por causa de seu

351

comportamento, que não é dos melhores, nem por suas notas, apesar de serem muito boas. – deu um suspiro antes de continuar. – O que nos chama a atenção é a sua motivação meu jovem. Ele não entendeu e Evandro continuou: — Sabemos sobre seus pais. – disse simplesmente. A expressão de Rafael passou da dúvida para a raiva. Já ia fazer menção de se levantar e sair quando o homem falou: — E se eu disser que lhe daremos a chance de se vingar? - incitou - Se falarmos que sabemos quem foram e quem são as pessoas capazes de tamanha monstruosidade e lhe dermos condições de combatê-las? Agora o garoto tinha toda a sua atenção para o homem. — Eu sei o que você pensa Rafael. Que a morte de seus pais foi fruto de um mero psicopata. Mas eu digo que não. - completou – Infelizmente, se tornar policial não vai ajudá-lo a combater o tipo de gente que fez aquilo com seus pais. — Como o senhor sabe? – era a primeira vez que ele falava e a dureza em sua voz espantou o homem. — Sei, porque essa é minha especialidade – respondeu, mantendo o tom casual. – Sei porque passo minha vida caçando gente como essa. Sei porque, como você, pessoas assim me tiraram coisas, coisas importantes. Evandro parecia ter se emocionado um pouco, mas se recompôs num segundo para continuar: — Minha escola especial é responsável pelo treinamento de pessoas que assim como nós, estão assustados com essa ameaça que nos ronda e que querem fazer algo a respeito. — Mas que tipo de ameaça é essa que você está falando? Até agora você não me disse o que matou meus pais. O homem deu um pigarro, provavelmente desaprovando o tom autoritário de Rafael, e depois lhe respondeu: — Se eu lhe dissesse agora, não acreditaria em mim. Não iria lhe culpar, afinal, você não teve nenhuma experiência muito fantástica com o assassino. – e pensou um pouco – Entenda apenas que existem pessoas ligadas a uma espécie de... seita. Uma grande seita. Imagine o assassino de seus pais assim.

352

Era fácil para ele imaginar isso, era a teoria da policia também ao julgar o assassinato ser um tanto ritualístico. — Isso eu já imaginava. - respondeu. — Mas o que você não imaginava era que esse cara não é um mero doido varrido e sim um membro de algo muito maior, organizado e perigoso. Rafael ficou em silêncio. — Bem, eu não posso te provar nada aqui, mas estou-lhe convidando para vir à nossa escola. Já falei com sua diretora e ela autorizou uma visita. Se você não gostar, não precisa aceitar, embora eu acredite que não desperdiçará essa oportunidade. Eu já recrutei outros garotos como você e todos garantiram para si um excelente futuro, pergunte a sua diretora. O que me diz? Rafael não tinha muito que pensar. — Acho que uma visita não será ruim. — Assim se fala! – o homem lhe deu uma tapinha no ombro. – Vamos! E saíram do orfanato e foram de carro para um prédio no Centro de Niterói.

— Aqui é a escola? – Perguntou, vendo o prédio que parecia um edifício comercial. — Não – riu-se o homem – Estou aqui apenas para lhe mostrar sobre o que lhe falei. Mostrar-lhe os assassinos de pessoas como os seus pais. Entrando, Rafael se sentiu numa empresa das que aparecem em filmes. O mármore branco predominava se contrapondo aos moveis cinzas e as aparelhagens modernas que enchiam o lugar. Ali havia um balcão onde uma recepcionista cumprimentou Evandro e eles seguiram até o elevador. Enfiando uma chave num buraco logo abaixo do painel com os andares, Rafael sentiu o elevador descendo muitos andares antes que as portas se abrissem, mostrando um enorme corredor que deixava o do andar superior no chinelo. Várias portas se passaram enquanto Rafael e Evandro passavam. Em algumas partes da parede havia janelas de uns seis metros de largura e Rafael se permitiu dar uma espiada. Ali, ele viu um laboratório numa sala e em outra uma espécie de sala de tiro ao alvo, onde homens vestidos com uma roupa preta da cabeça aos pés brincavam com uma espécie de óculos na cabeça.

353

Rafael percebeu que estava ficando pra trás e acelerou o passo para alcançar o homem, que apesar da idade, andava bem rápido. No fim do corredor havia uma porta por onde eles entraram. Ali, uma sala espaçosa com um grande computador deixou o garoto de queixo caído, e um homem de jaleco branco que se mantinha sentado, levantou-se para recebê-los com um sorriso. — Então esse é o recruta? – saudou, olhando para Rafael — Se Deus quiser, sim – riu-se Evandro. E depois se virou para Rafael – Esse é Miranda e ele vai lhe explicar melhor sobre o que conversamos. Antes que o garoto pudesse falar algo, o homem já tinha se sentado na frente do computador, ignorando seu cumprimento. A mão do garoto ficou estendida à toa e ele a recolheu de volta. — Bem Rafael – começou, clicando numa tecla – Você deve reconhecer essa cena. Na tela gigante, mostrou-se uma imagem que causou um frio na espinha do garoto. Nela, um homem adulto, diferente do que ele vira há dois anos, segurava o pescoço de uma criança enquanto sangue vertia de um corte em seu pescoço. — Lembro sim – disse, trincando os dentes. — Então, como você vê, o sujeito está praticando uma espécie de ritual com o sangue dessa criança, que ele vai usar depois, sabe-se lá pra que. Provavelmente num encantamento mágico. — Esse homem é diferente do que atacou meus pais – falou Rafael. — Sim, mas não pense que eles são os únicos. - respondeu Miranda - Junto com eles existem vários. Uma centena ainda, eu diria. Rafael ficou surpreso. Não imaginava que houvesse tantos malucos que matassem suas vítimas para roubar-lhes o sangue. — Então está me dizendo que esse cara faz parte de uma espécie de seita que acredita ser capaz de realizar magia com o sangue das pessoas? - perguntou incrédulo. — Infelizmente não só acham Rafael, – corrigiu Miranda – eles são realmente capazes disso. O garoto deu uma risada de escárnio, mas quando olhou a expressão seria dos homens, calou-se. — Isso não é possível – falou, acreditando que estavam brincando com ele.

354

— Infelizmente é. – corrigiu Miranda – Felizmente, poucos sabem disso. Se todos soubessem seria um caos, mas você, assim como nós, foi escolhido para combater gente assim – e ao olhar o rosto cético do garoto, ele concluiu – Mas não precisa acreditar em mim agora. Deixe-me lhe mostrar mais umas coisinhas As próximas passagens foram um estupro à objetividade do garoto. Várias cenas, algumas até em vídeos, mostravam pessoas capazes de fazer as mais incríveis coisas: voar, lançar fogo, conjurar objetos, entre outras coisas. As imagens eram perfeitas demais. Difícil crer existir alguém com tamanho talento para criá-las em computador. — Como você pode ver, – narrou Miranda – existem pessoas em nosso planeta capazes das coisas mais fantásticas. Com certeza algumas coisas parecem bonitas na primeira olhada, mas não se engane. Elas são terríveis. Elas criam o caos, elas são egoístas e atrás de seu poder está o sacrifício de inocentes. Inocentes como seus pais. Os dentes de Rafael trincaram mais uma vez. — É isso que combatemos Rafael. Pessoas assim – agora a imagem mostrava os atos mais terríveis praticados por magos. Pessoas sendo queimadas vivas, outras sofrendo lavagem cerebral. E algumas, como os pais dele, perdendo seu sangue em nome de rituais. Essas ganharam um espaço especial de tempo na tela. - Esses são Magos, garoto. Eles são aberrações que vão contra as leis da natureza. Com o tempo, Rafael foi perdendo o ceticismo. Logo ficou espantado com tudo aquilo. Quando saiu dali, já tinha a decisão tomada. E uma semana depois foi enviado para Brasília onde ficava academia. Diferente do orfanato, ali ele fez muitas amizades. Os outros internos eram como ele, pessoas que foram brutalmente lesados por aqueles seres. Rapidamente ele foi ganhando destaque dentro da Sociedade e quando completou dezoito anos, foi chamado para servir em missões. Ali, também se destacou e acabou se tornando líder de tropas com apenas vinte e dois anos. E depois, comandante de unidade aos vinte e nove e chegou agora à líder de base aos trinta e um. Ele ainda se lembra do feliz dia em que capturaram o assassino de seus pais. Ele havia ganhado o presente de poder ficar sozinho com o monstro numa sala de interrogatório. Ali, não se é necessário narrar os acontecimentos. Ele ainda se lembra do homem pedindo perdão pelos seus crimes, chegando ao absurdo de alegar que estava possuído por um demônio na noite do assassinato

355

— Demônios – bradou Rauch com sarcasmo, voltando à realidade - Todos alegam isso. Para os magos existe uma barreira que os separam, onde se dividem os magos do bem, preocupados apenas em manter suas tradições e os do mal, que são sedentos de poder e compactuam com demônios a fim de alcançá-los. Para Rauch todos eram aberrações e deveriam ser dizimados. Estava fazendo isso naquele momento. Com as informações conseguidas pelo bispo e pelo frade da Igreja da Iluminação, acharia toda uma rede de membros da Ordem dos Iluminados. Mal podia esperar para completar a missão.

356

46 – Última noite.
Faltavam cerca de dez horas para que Oscar viesse buscar os dois. Eram nove da noite e Ana decidiu passar seus últimos momentos em Três Corações com os seus avós. Durante um tempo, ela ajudou a avó a tomar banho e se arrumar e, depois, jantaram juntos. No fim, passou o resto da noite na sala com o avô vendo televisão. Infelizmente, aquela viagem tinha durado bem pouco, mas o que confortava Ana era saber que era a primeira de muitas outras. Não agüentaria mais ficar muito tempo longe dali. Ainda mais agora que sabia sobre as fadas. Poder cuidar de uma coisa que suas tias se dedicaram tanto lhe faria um bem enorme. O avô se recostava em sua poltrona enquanto Ana e Ian estavam sentados no chão com as costas encostadas no sofá da sala. A garota ia passando os canais à procura de algo interessante, quando passou por uma notícia dizendo que mais dois jovens haviam desaparecido misteriosamente. A notícia fez brotar o nervosismo em Ana ao se lembrar do plano de Ian para fugir. Nem um dos dois comentou nada sobre a reportagem. Foi Sílvio quem o fez. — Esse Rio de Janeiro está muito perigoso – ele disse com desaprovação. Ana sabia que a violência foi o motivo para Sílvio nunca ter se mudado para perto da filha e o que o faz evitar visitas a neta. O avô morre de medo de assalto. – Por que vocês não vêm morar aqui por uns tempos? Até essa onda parar. — Eu adoraria vovô, mas estou no meio do ano na escola e meus pais não podem largar o emprego. — Mas eu ficaria bem mais tranqüilo se vocês estivessem longe desse caos. — Eu sei que sim - concordou Ana com um sorriso - Por isso eu te amo. O rosto de Sílvio começou a corar e ele tentou mudar de assunto para evitar que os outros percebessem. — O que está passando de bom aí? Ana continuou viajando pelos canais até que parou em um filme que parecia ser interessante e acabou optando por ele mesmo. Era um filme de suspense chamado A visita, que narrava uma história de assassinato de uma jovem no Brooklin após ter recebido uma visita misteriosa e a tentativa de um amigo de conseguir solucionar o caso. O filme foi ficando interessante até que seu avô se levantou.

357

— Bem jovens, já são onze e isso já é demais pra mim. Não se esqueçam que amanhã seu pai vem buscar vocês cedo, Ana. — Tudo bem – garantiu Ana – Só vamos esperar acabar o filme. — Mas acho que o garoto não vai agüentar muito não. – comentou, olhando para Ian. Ian riu. — Mas tenho – respondeu – Quero saber quem é o assassino. Ana olhou para ele e viu que o avô estava certo. A cara de Ian mostrava que ele estava realmente com muito sono. Quando o avô saiu, ela comentou: — Você está mesmo cansado, não? O garoto deu um sorriso fraco e respondeu: — Gastei muita energia hoje. Primeiro contra o Iluminado e depois contra os Inquisidores. Estou um pouco esgotado. — Por que não vai dormir então? — Porque quero ter certeza que Sophie é a assassina. Ana olhou para o filme e depois para Ian. — Você acha que foi ela? - sua voz mostrava descrença – Mas ela está ajudando tanto o Peter a encontrar o assassino. E ela também não tem um motivo real para ter feito aquilo. — É isso mesmo. Ela ajuda demais – e bocejou – Provavelmente o que ela esta tentando mesmo é fazer o Peter seguir por um caminho errado e se safar. — Mas e que motivo ela teria pra matar a amiga? — Não sei. Isso vai se revelar no fim do filme. - garantiu Ana continuou sem levar fé. Pra ela o assassino era Brent. Ela era o ex-namorado e apesar de parecer bom moço ela sentia que ele ainda tinha ciúmes da vitima. Ficaram acompanhando o filme por mais um tempo em total atenção, e foi quando Ana pensou em comentar com Ian uma cena, que sentiu a cabeça dele caindo em seu ombro. Por um segundo ela estremeceu com o contato, então percebeu que ele tinha os olhos fechados. — Ian? - uma respiração pesada foi o que ela ganhou em resposta. Ele estava dormindo pesadamente em seu ombro. Ana sorriu para ele quando percebeu que e a sua cabeça escorregava perigosamente até o chão.

358

Rapidamente, ela a segurou com delicadeza a o apoiou em suas pernas onde ele se ajeitou sem acordar. A garota ficou fazendo cafuné em sua cabeça enquanto acompanhava o filme, mas sua atenção agora estava dividida entre o que se passava na TV e expressões tranqüilas do garoto dormindo. E foi quando chegou à conclusão de que gostava mais de Ian assim, adormecido, pois além de parecer mais relaxado, tinha outro ponto a favor. Pelo menos dormindo ele não foge de mim. Se estivesse acordado, Ana tinha a certeza que o garoto teria se levantado com o carinho que ela fazia e se afastado. Recordou-se do sitio, quando dormiu agarrada a ele. Ela sabia que se ele tivesse acordado naquele momento, teria a empurrado e fugido dela. Pelo menos no meio dos sonhos ele era menos precavido. O garoto se mexeu um pouco, ajeitando a sua posição e agarrando com força a coxa de Ana. Com certeza ele jamais faria isso acordado. Pensou, se divertindo com a idéia. Ela começou a acariciar o rosto dele e depois passou a mão no braço onde sentiu as cicatrizes da batalha contra o Iluminado. Lembrando-se da luta, foi quando começou a sentir vergonha de si mesma, por sua participação precária no acontecimento: ficar o tempo todo escondida atrás de alguma proteção, tampando os ouvidos. Ana ainda não se acostumara totalmente com esse novo mundo. A mesma sensação de exclusão que sentia antes de atravessar o Véu permanecia com ela só que de forma diferente. Antes, ela se sentia excluída por ser diferente, agora por se sentir inútil. Inútil, ela pensou melhor na palavra. Mas era assim realmente que se sentia. Nos dois momentos em que suas vidas corriam perigo, ela só fez ficar escondida atrás das árvores. Mais uma vez se lembrou de Catarina, a primeira mulher que Ian amou e se perguntava como ele podia gostar dela depois de conhecer aquela maga tão poderosa e independente. Com certeza se fosse ela quem estivesse com Ian na floresta, a luta teria sido mais fácil. Eles poderiam ter lutado juntos, e vencido com mais facilidade e sem cicatrizes. Com certeza ela não estava aos pés de Catarina e isso a martirizava. Era mais como uma criança irritante, que sempre tinha de ser fiscalizada e protegida enquanto torrava a paciência dos adultos com suas perguntas idiotas. Infelizmente, sentia que nunca tinha nada a oferecer em troca. Era sempre ele: ele a ajudava, ele a protegia, ele a ensinava. Onde estava o retorno?

359

— Eu só queria ser um pouco mais útil para você – ela sussurrava para o garoto adormecido – Poder estar ao seu lado sem você precisar me proteger de tudo, sem que você precisasse me proteger de você mesmo. - ela falava enquanto acariciava o rosto do garoto. Ana suspirou, sentindo o peito ficando apertado. — Eu queria poder fazer alguma coisa por você. Te dar algo do que você está me dando. Retribuir de alguma forma. Eu... - ela criou coragem para terminar a frase – Eu te amo tanto. Mesmo com ele dormindo era difícil falar. Ainda tinha medo que ele pudesse estar escutando alguma coisa. — Eu tenho tanto medo de que você saiba disso e fuja de mim. Eu sei que você não quer que eu goste de você, mas eu não escolhi isso. Desculpe. - falava com mais ênfase sem aumentar o tom de voz - Eu só... queria que você olhasse para mim e não me visse tão frágil quanto sou. Que você não me visse fraca e incapaz de ficar ao seu lado. Não quero que você pense que tem que me proteger de tudo. Queria que você me visse como uma igual, se possível. Ela sentiu a emoção começar a se manifestar. Era bom poder botar aquilo pra fora, mesmo com ele adormecido. Com os sentimentos aflorados, ela acabou colocando muita força em uma carícia, fazendo o garoto se mexer com o toque. Por um segundo, ficou nervosa com a possibilidade de tê-lo acordado, mas no fim, ele só se mexeu um pouco coçando a região atingida como se fosse uma mosca que tivesse pousado nele. Segundos depois, sua respiração voltou a ficar pesada. — Para quem tem uma ligação com os cães, você tem o sono bem pesado – riu-se sentindo o aperto diminuir. Então, depois de já ter dito tudo o que queria, resolveu aproveitar o momento que lhe restava. Aquela era a última noite que passaria em Três Corações e provavelmente a última que passaria tão junto de Ian. Quando voltassem ao Rio, eles não dormiriam mais juntos e ela não poderia se aproveitar de sua sonolência. Ainda teriam suas janelas, mas não seria a mesma coisa depois de hoje. O filme acabou e, no fim, Sophie era realmente a assassina. — Acho que não posso competir com sua experiência de cem anos - comentou surpresa. Aconteceu exatamente como Ian havia falado e o motivo do crime foi

360

justamente ciúme. Parece que Sophie gostava do ex-namorado da vítima e se martirizava lembrando que mesmo após o termino ele ainda gostava dela. — Você acha que as mulheres são tão ciumentas a ponto de matar? - comentou com Ian como se ele estivesse acordado. — Se fosse assim, ainda bem que Catarina está morta, - refletiu - Ela me destruiria se pudesse ver a gente aqui. — Gente, mas que coisa horrível de se pensar – concluiu. Mas Ian nem se quer se mexia. Acho melhor dizer amanhã que o assassino era o Brent. Sabia que o amigo ia se vangloriar por ter acertado e era bom ele pensar que estava errado só para variar um pouco. Se divertindo com a idéia, desligou a televisão e pensou em chamar Ian para irem para os quartos, mas se lembrou que teria de dormir separada dele. Então, olhou o tapete e, vendo que era bem confortável, pegou uma almofada e se alinhou ao seu lado. — Boa noite – sussurrou para Ian, roubando-lhe mais um beijo. Aconchegou-se para mais perto dele e ali fechou os olhos. Mais rápido do que queria, adormeceu.

361

47 – A Volta.
Ana sente alguém lhe balançando e, mesmo lutando contra o despertar, percebe que seu corpo começa a voltar para a realidade enquanto o se percebe no chão da sala de deu avô, com Emília a sacudindo. — Acorda menina – chamava a mulher – Vai tomar um banho. Imagina se teu pai chega e lhe vê dormindo aqui. — Que horas são? – disse numa voz meio confusa devido ao sono. — São cinco e meia. — Então ainda falta muito pra ele chegar – reclamou. — Mas seu avô também não vai gostar nada de vê-los dormindo aqui. – lembrou. Ana se levantou. Agora que se lembrava de ter passado a noite dormindo com Ian no chão. Ambos se puseram de pé sem mais reclamações e foram até os quartos. No seu, Ana tomou um banho, o que lhe ajudou a despertar e desceu novamente. Em baixo, seu avô já lia o jornal do dia. — Madrugou hoje, hein querida? — Acho que estou me acostumando – respondeu com um sorriso fraco pelo cansaço. Nesse dia, os dois tomaram café e passaram as últimas horas com os avós de Ana. Pelas dez horas, o pai da garota chegou para buscá-los e, ficando apenas algum tempo, o suficiente para descansar, pegaram a estrada novamente. — Como foi Ana? Se divertiu? – seu pai perguntou. — Melhor do que o esperado. – respondeu com sinceridade. — E você Ian, o que achou? — Muito bom. Realmente o lugar é demais. — Que bom. Quem sabe não voltamos em breve. — Seria bom – Ana disse. Ficaram em silêncio. O sono estava forte demais e Ana olhava para o garoto e via que este estava tão ruim quanto ela. Por um momento se surpreendeu. Era comum ela acordar cedo com cara de zumbi, ele não. — Parece bem cansado - comentou. — Está tão evidente assim? - ele deu um riso fraco. — Acho que você está tão ruim quanto eu – disse, sorrindo pra ele.

362

— Nossa! - exclamou - acho que estou mesmo enferrujado - completou baixo, apesar do pai dela estar usando seus habituais fones de viajem. — É por causa da luta com o Iluminado? - sussurrou — A verdade é que faz muito tempo que não me exercito tanto. Ele me fez gastar muita energia. — Deve estar ficando velho - zombou. — Possível. Você acha que uns oitenta anos, aproximadamente, é muito velho? — Não - debochou - Está na flor da idade. — Obrigado. — Aquele mago era bem poderoso. - mudou o foco. — Muito - concordou o garoto - e era tão jovem. — Acha que ele é como você? — Como assim? — Igual a você. Você sabe. Um reencarnado. — Ah não! – descartou - Duvido muito disso. Essa mágica que eu usei foi original. Não sei de mais nenhum mago que a tenha descoberto. Acho que era um prodígio mesmo. — Um prodígio? E ele pode chegar a ser tão forte assim em pouco tempo? - Ela se interessou. - Digo. Você é muito mais velho que ele e devia ser mais forte. - pensou com lógica. — Não necessariamente. - ele corrigiu. Dava para ver que era difícil admitir aquilo - Eu sou de fato mais experiente, mas não necessariamente mais forte. Tenho alguns pontos fracos em relação a ele. Ana estava curiosa em saber, mas não achou delicado perguntar. Ian percebeu seu interesse e continuou. — Bem. A magia é a arte de se controlar as energias, tanto do próprio corpo quanto do ambiente em sua volta. Minha mágica é voltada ao controle da natureza. Em especial, do gelo. Ele ficou pensado, provavelmente em como usar palavras simples. — E como eu te disse, magia tende a ir contra todas as leis da natureza e nem mesmo nós magos vamos contra as leis sem sofrermos penalidades. Quando mechemos na realidade, ela se volta contra nós. — Como em Efeito Borboleta?

363

— Exato – ele pareceu ter encontrado uma forma melhor de explicar com a deixa dela – É a Teoria do Caos. Lembra quando o personagem do Ashton Kutcher, sempre que voltava no tempo para tentar mudar algo, acabava mexendo em mais coisas do que queria? — Lembro. — Então é mais ou menos isso. No meu caso quando eu uso meu poder de controlar o clima, tenho que tomar cuidado, para que a corrente fria que eu conjurar não atinja demais o meio ambiente onde eu estou. Ele olhou pela janela por uns segundos como que se estivesse perdido em pensamentos. — Lembra quando eu convoquei aquela neblina? — Sim - ela já imaginava que tinha sido ele. — Então. Aquilo foi uma pequena manifestação de meus poderes. Eu podia ter convocado uma nevasca em cima dele, porém, é muito arriscado. Eu poderia acabar mudando o ciclo de chuvas de Minas Gerais com isso. E você sabe que mais conseqüências poderiam isso acarretar, pois eu já lhe expliquei antes. Você entende, não? — Sim, você não aceita perder e esta achando uma desculpa – brincou. Ele riu com vontade. — Bem, possivelmente. Mas, além disso, eu tenho outro probleminha contra mim. — Qual... - mas ela se calou entendendo do que ele estava falando. — A besta - ele se preocupou em falar mais baixo essa parte. - Adrenalina demais é uma das coisas que podem me fazer perder o controle. Lembre-se que eu sempre tenho que me vigiar mais que as pessoas normais. A garota concordou. Era engraçado ouvir Ian falar assim. Tinha horas que parecia que ele fazia uma tempestade num copo d’água. Ela sabia que era triste pensar assim. Era injusto talvez, mas ainda assim, os únicos momentos em que sentiu essa besta que Ian tanto falava foi num breve lampejo em seus olhos quando se beijaram, mas até ali não sentiu em nenhum momento o perigo de que ele tanto a alertava. Ela tinha certeza que Ian era mais controlado agora do que como Lucien e que poderia muito bem subjugar sua besta com mais facilidade. Quem sabe ele nunca mais tivesse problemas com ela, afinal, nunca perdeu o controle como Ian. — Sem falar que eu estou há muito tempo parado. - ele falou, cortando suas

364

conclusões - Não tenho tido muita ação nessa vida. Como Ian tem sido uma existência calma e pacata. Estou muito fora de forma. Ana despertou com a voz de Ian. Tinha viajado em suas reflexões de novo. — Você está bem? - ele perguntou. — Sim - riu sem graça - só viajei. — Pensando em que? — Nisso que você me disse - e pensou bem antes de falar - Sobre o mago, o prodígio. — Interessada em ficar tão poderosa quanto ele? — Um pouco - admitiu - mas acho que ser uma prodígio não é o suficiente. — Por que está dizendo isso? - ele ergueu as sobrancelhas. — Eu... escutei o que você conversou com Solange - ela sorriu amarelo - Sobre uma tal de Valéria Ian ficou em silêncio. — Quem foi Valéria? – decidiu arriscar. Ele respirou fundo antes de falar. — Valéria foi uma aluna de Solange. Na verdade, a única que ela já teve. — E o que aconteceu com ela? — Enlouqueceu, se tornou uma Caótica. Era a primeira vez que ouvia falar de um caótico. Ian só tinha dado uma passagem rápida sobre o assunto com ela antes. — E ela? E Solange? - Ana não tinha certeza se queria saber a resposta. — Teve de matá-la. — Ela matou a própria discípula? - Ana se exasperou, o que mereceu uma reprimenda do garoto. — Eu me prontifiquei a fazer isso na época, mas ela fez questão. - disse com a voz inalterada - Dizia que era responsável por tudo aquilo e por isso ela teria de encerrar. depois ele olhou pra ela - Então não pense que o problema é com você. Solange ainda não se sente pronta para ensinar. Acho até que esse papo de paixão que você com certeza escutou. - acusou com um olhar torto - Acredito que seja apenas uma desculpa. Não sei, não cabe a eu julgar. — Entendo - murmurou - Acho que isso também é um pouco de culpa minha. — Por quê?

365

— Bem, ela me conheceu quando me mudei pra sua rua. Ela viu como eu estava abalada. Provavelmente não acreditou que eu fosse capacitada para esse novo mundo. Ian ficou em silêncio. Provavelmente ele concordava com ela, mas não queria falar e acabar a magoando. — É uma pena – ele disse – Solange tem grande potencial em ensinar. Todos falaram o belo trabalho que fez com Valéria, mas ela não podia controlar as decisões da pupila. Não foi culpa dela o que aconteceu, mas ela não se perdoa. - e depois olhou para Ana – Aposto que você seria uma maga muito poderosa se a tivesse como mestra. Ela é melhor que eu em ensinar. — Mas você é um grande mestre - argumentou. — Mas não chego nem aos pés de Solange nesse assunto. Aprendi muito com ela, mesmo sem querer. Ela é como eu, uma guerreira, e além de mágicas ofensivas ela conhece inúmeros rituais da Irmandade da Rosa. Acho que você aproveitaria melhor com ela. — Mas ela não me quer – lembrou a garota. — É... - e deixou a frase solta. A partir daí o assunto morreu e o resto da viajem foi muda. Nem mesmo Oscar se virava para puxar qualquer tipo de conversa e Ana sabia que o interrogatório a esperava em casa, com a sua mãe. A viagem de volta foi tranqüila. Ninguém falou mais e Ana aproveitou o silêncio par chupar bala de menta oferecida por Ian e dormir ao som de uma melodia que tocava no aparelho do garoto. Quando acordou, já haviam chegado. — Acorda Ana – era a voz de Ian. Ela se ergueu em um salto e tirou a cabeça do ombro do garoto. — Já? – se surpreendeu. — Você dormiu o caminho todo – falou Ian. — Acho que ainda não me acostumei a acordar com os galos. — Acho que nunca vai se acostumar – atiçou o pai, com um sorriso malicioso. Ela se despediu de Ian e chegando em casa, desarrumou as malas. Seu pai foi para o trabalho e como não tinha o que fazer, pensou em passar na casa do garoto para falar com ele, mas esse foi o momento em que sua mãe chegou e ela teve de dar os detalhes da viagem. O problema era que ela não tinha feito muita coisa que Helena pudesse saber, com isso, sua narrativa da viagem teve que ser simples. Ana acabou enrolando

366

mais em alguns detalhes para dar a impressão que de fato havia feito alguma coisa em Três Corações que não fosse converter Oxigênio em Gás Carbônico. Depois de seu detalhe sobre a viagem, Helena se mostrou muito mais animada em passar as próximas ferias em família na casa de seus pais. Ana achava que a viagem tinha feito muito bem a ela mesma, porém, ao ver a alegria da mãe, percebeu que sua felicidade não era nem metade da dela. — Ana – ela parecia pensar em como perguntar – como você está se sentindo? — Como assim? — Digo. O que foi que aconteceu em tão pouco tempo para você mudar tanto? ela sorriu – não me entenda mal, eu estou muito feliz com mudança, mas ainda sim fico intrigada. Você melhorou muito nessa última semana. — Você acha? — É visível filha. Você parece mais alegre e também… eu não sei... parece brilhar. Ana riu com o comentário. — Está apaixonada? - ela foi direto ao ponto. — Eu? - Ela tentou se desviar da pergunta – Claro que... - mas sabia que não adiantava mentir para a mãe. Helena era um radar para essas coisas – talvez. — Eu sabia! - ela deu um pulo – E o Ian? Também? — Como você sabe que é... - mas viu nos olhos da mãe que parecia uma coisa óbvia demais. - Eu não sei. Acho que sim. Helena abraçou a filha. — Mas não conte nada ao pai - ela falou - Acho que ele não esta pronto ainda. — Você acha? - a mãe riu – Você não sabe nem a metade. Ele ficou resmungando o tempo todo: Onde já se viu uma garota viajar sozinha com um homem ou eu sabia que esse tal Ian não era uma boa coisa. — Mas ele gostava tanto dele – Ana riu da imitação. — Gostava enquanto pensávamos que ele não era uma ameaça. — Você também pensava assim? — Bem filha – disse a mãe, revirando os olhos – Agente nunca o viu com ninguém antes, não é? Ana riu. Era melhor não falar mais nada. Não tinha como defender Ian sem dizer a verdade, então era melhor deixar o mal entendido como estava.

367

— Então nada de contar ao pai. - ela lembrou. — Claro. - ela afirmou - É melhor ele continuar pensando que o Ian é gay assim como pensa que você é virgem. — Mas mãe... – ela falou meio constrangida - eu sou virgem. — Sério? - ela pareceu surpresa. — Sério! – confirmou – O que você anda pensando? — Não sei – disse meio sem graça – é que as coisas estão tão diferentes e você namorou o Lucas por tanto tempo que... Deixa pra lá. O assunto morreu ali e Helena voltou à cozinha para terminar o almoço. A refeição foi bem animada e quando finalmente acabou de comer, sentiu o sono da pósrefeição e também todo o cansaço da viagem. Ao bocejar, desistiu de visitar seu vizinho Garow e foi dormir. Chegando ao quarto, fechou a janela para que todo o cômodo ficasse escuro e depois se jogou na cama. Agora que tinha deitado, deixou sua mente viajar, até que se sentiu sendo arrastada para o mundo dos sonhos.

368

48 - Liberdade.
Ana acordou sentindo o vento batendo em seu rosto. Olhou para a janela e uma bela Lua minguante sorriu pra ela. Dormi demais. Pensou, quando rapidamente se lembrou de ter fechado a janela antes de dormir. Estranho, como ela... Mas seu pensamento foi interrompido ao sentir uma presença que lhe acompanhava. Havia mais alguém no quarto. Olhou em volta tentando controlar o nervosismo que crescia em si mesma, quando viu uma silhueta muito próxima da sua cama. Levou um susto e segurou o grito, fitando melhor a figura que se mantinha escondida nas trevas. Mas a apreensão durou pouco, e logo ela pôde respirar melhor quando o silêncio foi quebrado e Ana pôde reconhecer a voz de quem a acompanhava: — Perdão, não queria te assustar - dizia a voz de Ian vinda da penumbra. - Mas também não queria te acordar. — Meu Deus Ian! - desabafou a garota, sentando-se na cama. A alegria de ver o garoto já a tinha feito esquecer o medo de poucos segundos atrás - Você quase me matou de susto com isso. - ela ria enquanto ligava a lamparina - Da próxima vez você... Mas sua voz se perdeu quando a luz revelou o garoto próximo de sua cama. Aos poucos, seu sorriso foi sumindo sem deixar outra expressão reconhecível no rosto, enquanto corria os olhos pelo Garow. Ian estava em pé, bem vestido, como que se fosse para sair. Com seus jeans, tênis e casaco habituais. Mas ele também tinha um acessório a mais. E era justamente esse acréscimo que era responsável pela mudança de humor da garota. Cruzando seu peito, uma tira de pano grossa fazia o olhar de Ana seguir até uma mochila vermelha que Ian mantinha jogada nas costas. Nada foi dito nesse tempo. Ian parecia envergonhado demais para começar e Ana parecia ter esquecido de como se juntar vogais e consoantes. A garota sentia que começava a perder o ar à medida que olhava para o objeto, mas não conseguia se lembrar como fazia para que os pulmões se enchessem de oxigênio novamente. A mochila era grande. A mesma que o garoto usou para ir ao sitio de Laila, mas tinha a deixado de lado quando foi a Três Corações. Mas agora, ela estava ali de novo. Sua mochila de viagens estava ali e Ana se esforçava para pensar em tudo, menos

369

no que aquilo parecia significar. — Bem - a voz do garoto era hesitante - Eu não podia fazer isso sem falar com você antes. Sem me despedir. - ele tentava sorrir pra ela. Despedir. Num segundo, era como se que nada houvesse saído da boca dele a não ser essa palavra que parecia uma lança vinda em sua direção. — Acho que já fiz o que podia por você. - ele continuou - Você vai ficar bem nesse novo mundo. Pode se tornar uma boa Druida, como suas tias foram - ele falava o tempo todo olhando para todos os lados, menos para ela – As fadas são boas mestras, elas quem ensinam os druidas tudo o que eles sabem. Assim como suas tias. Ana mordeu o lábio inferior. Como não tinha percebido o plano de Ian antes? Era por isso que ele fazia tanta questão de lhe mostrar aquele lugar. — Bem, eu já te dei as bases que você deve saber e agora sei que você não vai se arriscar demais. Não temos mais nenhuma ameaça próxima, então sei que você vai ficar bem – ele fez uma pausa, coçando a cabeça e tentando se lembrar de mais uma coisa Então... acho que você não vai mais precisar de mim pra nada e eu... Mais silêncio. Ele também tinha esquecido como se falava e não conseguia terminar a frase. — Eu vou indo - disse finalmente, olhando em seus olhos - Adeus. Essa última palavra fez um impulso elétrico correr pelo corpo da garota e ela finalmente conseguiu sair da paralisia opressora em que estava. Num único movimento, pulou da cama e se lançou em direção ao garoto. No trajeto, acabou tropeçando e caindo em seus braços. Amparada, aproveitou o momento para enlaçar a cintura dele, prendendo-o num forte abraço. Ian a segurou com habilidade impedido que ambos fossem levados ao chão e Ana apertou seu abraço com toda a força que conseguia reunir, segurando seus corpos selados um no outro. — Eu também vou sentir saudades Ana - ele deu uma risada fraca, ignorando a gravidade daquele momento. A garota não disse nada e continuou a segurar o corpo dele junto ao seu. Neste momento, ela desejou poder canalizar toda a sua força em seus braços para fazer com que ele não pudesse mais se livrar dela. — Ana, eu posso respirar um pouco? - disse ainda no tom de brincadeira. Ana odiava esse tom. Não era o momento para isso.

370

— Ana – sua voz em fim ficou mais séria. Agora ele falava com delicadeza em seu ouvido - Me solta, por favor. — Você não pode ir - gemeu. Finalmente havia encontrado a voz perdida. — Eu preciso Ana. Nós já havíamos combinado isso... — Não combinamos nada! - ela sentia os olhos enxerem de lágrimas enquanto em seu peito um misto de raiva e tristeza a deixavam louca. - Você decidiu sozinho. Você decidiu tudo sem que eu concordasse! Você nunca parou pra pensar em mim. — Isso é injusto, Ana - sua voz estava um tanto alterada como se ela o houvesse ofendido - A pessoa em quem mais pensei ao tomar essa decisão foi você. Em sua segurança. — Mas não pensou no que eu quero - ela começava a falar alto – Eu não quero que você vá. Eu não vou deixar você ir. - e apertou mais o abraço como conseguiu. — Ana, me solta - ele a empurrava com leveza, mas ela se recusava a ceder - Eu preciso ir. É melhor pra você, pra mim, pra todos. Eu preciso manter essa maldição longe daqui. Se não puder me curar, pelo menos tenho que garantir que ela não machucará mais ninguém. Ela não soltou. Ana envolveu o pulso com a outra mão fechando o garoto como se fosse um grilhão. — Ana entenda. - ele continuava - Eu sei que somos amigos e isso não muda. Em nome da nossa amizade, eu peço que você me solte. — Eu não quero a sua droga de amizade - ela sentia o coração apertando ao pronunciar cada palavra. Sentia-as querendo romper o caminho pela sua garganta para encontrar a saída. - Eu não quero que seja meu amigo. - era agora. Podia falar. Era sua ultima cartada - Eu te amo! Ana sentiu o alívio gigante que aquelas três singelas palavras podiam provocar, fazendo sua respiração voltar a funcionar normalmente como se um alimento entalado tivesse sido finalmente removido de seu esôfago. — O que? - sua voz era estranha. Ele parecia não acreditar e até riu baixinho como se fosse uma piada. — Eu te amo. - repetiu - Por favor, não vai. - e o segurava mais. — Isso é golpe baixo Ana - ele parecia chateado agora - Você sabe quanto eu gostaria de te ouvir dizer isso. Por favor, não use esse meio para me manter. Machuca. — Eu não estou usando nada - sua voz era engasgada - Por favor, não vai. Fica.

371

Ela agora enfiava a cabeça em seu pescoço, beijando-o. Ela subia o rosto tentando fazer com que seus beijos chegassem até os lábios dele, mas Ian não permitia. — O que você tem na cabeça, sua doida? - perguntou, descrente no que ouvia – O que te deu na cabeça de se deixar levar por mim? — Eu não escolhi isso. — Ana, você deve estar se confundindo. Você deve é estar triste por eu ir, afinal somos amigos, mas não diga que me ama. Você não pode me amar. Não tem esse direito. — Você poderia parar de dizer o que eu posso ou não fazer? - ela tentou colocar dureza na voz, mas falhou ao tentar. — Meu Deus – ofegou, tentando conter a emoção - Eu posso te matar - lembrou. — Você não faria isso e eu não tenho medo. - rebateu. Agora ela se sentia uma criança birrenta, mas não se importou com isso. — Ana, você não faz idéia do que está dizendo. Não sabe como eu tenho que lutar a cada segundo da minha vida contra o desejo de ter você. Você não sabe como é difícil para eu evitar cada pensamento amoroso quando estou junto de você. Isso está me destruindo. Já é muito difícil esconder o que sinto sem você gostar de mim também. Por favor, não fale isso. — Eu não tenho escolha. Não quis isso. Como você, aconteceu. Ficaram em silêncio e Ana tirou a cabeça do pescoço do garoto. Ela olhava para ele e fitava seus olhos negros um tanto avermelhados devido ao pranto. Tentou procurar seus lábios, mas ele virou o rosto. Ana não desistiu e na segunda tentativa ele não conseguiu resistir. Suas bocas se encostaram e ao contrário do primeiro beijo da piscina, este não teve tempo de começar envergonhado. Todas as emoções foram transbordadas desde o primeiro instante, pelo menos por parte de Ana. Ian ainda tentava manter o controle. Seus dentes se selaram para impedir a entrada da língua da garota, mas nem mesmo isso funcionou como um balde de água fria para as emoções dela, e com uma pequena persuasão ele foi cedendo até finalmente ela ter o beijo que tanto esperou. O segundo no qual ambos se entregaram totalmente foi breve, porém, intenso. Ian a pegou pela cintura e a puxou para mais perto de si. Ana não mudou sua posição. Ainda não sentiu segurança em largar a cintura dele. Mas o sonho acabara e ela sentiu as mãos dele chegando aos seus pulsos. Ana tentou colocar toda a sua energia em seus

372

membros, mas não podia lutar contra a força dele. Com muita suavidade, apesar da força monstruosa, Ian conseguiu fazer seus braços cederem e o largarem, sem machucá-la. Não tinha como lutar e em segundos ele havia separado os dois. Seus lábios foram a ultima parte e se largarem. Ana via que os olhos negros haviam desaparecido novamente e o Garow estava em sua frente. Seus olhos azuis estavam cheios de dor enquanto a lua iluminava sua pele branca. Era um sonho. Se fosse, Ana queria acordar o mais rápido possível. Não queria mais sentir aquela dor. Não queria vê-lo partir. — Eu te amo - ele enfim falou - É por isso que eu tenho de ir. — Não... - ela tentava falar no meio da tristeza. — Por favor - ele insistiu - Se você não faz isso por você mesma, faça por mim. Me deixe ir. Ana queria dizer não, mas não foi capaz. Ele tinha dado um golpe muito baixo. — Você não sabe como é duro lutar contra cada um dos meus desejos. Lutar contra tudo o que sou. Você não sabe o mal que me faz ter você perto sabendo que nunca vai ser completamente minha. Nunca vou poder me entregar de corpo e alma pra você. Por favor, me liberte. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas por algum motivo elas não caiam, deixando a visão de Ana embaçada. Ela não sabia mais como argumentar, mas agora, além de ele ir embora, ele queria mais. Queria que ela o libertasse. Não sabia se podia fazer isso. — Por favor. - insistiu – Eu já sofri muito. Eu sei que não mereço isso, mas, por favor, tenha piedade. Ana se afastou um passo e, colocando a mão dentro de sua blusa, puxou o pingente. Abriu-o e recolheu o velho pedaço de tecido e, sem falar nada, o entregou ao garoto. Ian o recebeu, mas quando percebeu do que se tratava, tentou devolver as pressas. — Não, – ele disse, erguendo o velho emblema de seu clã pra garota – é seu. Foi presente de suas tias. É sua lembrança. — Na verdade é seu – sua voz naquele momento não demonstrava emoções. Por um momento toda a dor sumiu, deixando para trás apenas um vazio em Ana. – pertence a seu clã e... – tentou sorrir, mas não tinha vontade disso. Não estava feliz, então não queria demonstrar isso. – eu já tenho com o que me lembrar delas – Ergueu o colar,

373

mostrando a ele. — Então fique para se lembrar de mim. – ele deu um sorriso fraco, mas esperançoso. — E quem disse que quero me lembrar de você? - falou sem pensar e viu que as palavras haviam atingido o garoto como um soco no rosto, mas não se arrependeu. Não sabia o porquê, mas queria que ele sentisse aquela dor. Era uma maneira de se vingar pela dor que ele estava provocando nela. – Se você não pensa em mim na hora de ir, por que eu tenho de pensar em você depois? — Não diz isso – ele pedia, se aproximando dela. Sua mão alisou seu rosto, pela ultima vez, limpando sua face e tirando o cabelo rebelde que cobria sua testa. E aquele toque trouxe uma forte nostalgia na garota, pois sabia que nunca mais receberia esse gesto e sentiu mais raiva ainda dele, por ter feito sua tristeza voltar. Então, juntou toda a determinação que tinha para desferir as próximas palavras: — Já acabou? - seu tom era frio, ou pelo menos tentou ser - então está esperando o que? — Como? - ele ficara surpreso. — Já acabou? – repetiu - Agora então pode parar de enrolar. Você não queria ser livre? Vai! Liberte-se logo e para de enrolar. Sai daqui! Ele a largou e ficou parado olhando-a com a cabeça e ombros caídos, fazendo-o parecer cachorro arrependido. Ela via a dor que suas palavras estavam causando e apesar de sentir pena, não pôde evitar que uma parte doentia dentro dela se sentisse vingada. — Anda! - ela gritava agora - Vai, Vai embora. Vai!- enxotou-o. Ian se aproximou da janela e se virou para Ana, esperando que ela falasse algo. Uma última palavra que não fosse uma ofensa ou uma expulsão, mas ela nada fez. Dava para ler na face do garoto como era duro pra ele ouvir tais palavras sendo as últimas que viriam dela. Ela não mudou de postura e ficou o encarando como se estivesse impaciente para ele ir logo. Sabia que não era justo o que estava fazendo. Sabia que desde o começo ele tentara tornar esse momento o menos doloroso possível. Sabia que ele não queria magoá-la, mas isso não importava. Ele a estava magoando. Estava a ferindo como há anos não acontecia. Ela estava experimentando uma dor que desde a morte de Teresa e Samanta não sentia. Ele não queria machucá-la, mas machucou.

374

Então, ela tinha o direito de retribuir. — Adeus Ana - ele disse antes de desistir e desaparecer pela janela. Ela teve de esperar ainda uns segundos para ter certeza que ele não ouviria. — Adeus Ian.

375

49 - Sexto sentido.
Em um dos prédios da Avenida Presidente Vargas, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, segundo andar, a cigana Cassandra distribuía rapidamente as cartas sobre a mesa. A cada momento, recolhendo-as e, embaralhando-as novamente, voltando a lançá-las. Sem dar atenção à porta de sua sala que se abriu ou a sua discípula que acabou de entrar, soltando seus longos cabelos e sacudindo-os com os dedos para voltarem ao volume natural, ela se manteve concentrada em seu trabalho. — Bem mestra, hoje o movimento não foi tão bom – comentou, sem perceber que a mulher nem tinha notado a sua presença - pelo menos consegui colocar algumas coisas em ordem e agora... Ela parou, olhando para a mestra que parecia numa espécie de transe. Decidiu ficar em silêncio então até que ela voltasse ao mundo real. Tinha experiência em lidar com Cassandra e sabia bem que nada a deixava mais irritada do que alguém interromper sua linha de pensamento. — Meu Deus! - ela finalmente voltou. — Algum problema mestra? - Esmeralda se aproximou devagar - Quer alguma coisa antes de eu ir? Cassandra olhou a pupila parecendo notá-la pela primeira vez ali e depois de se recuperar da surpresa, começou a falar enquanto apoiava a cabeça em cima das mãos com os dedos entrelaçados. Seu olhar ainda era distante, mas pelo menos agora ela falava com Esmeralda. — Querida, acho que temos um pequeno problema em nossas mãos - disse em seu tom profético de sempre. — O que aconteceu? — Você ainda se lembra do garoto que veio aqui há uns dois ou três dias, não lembra? — Como ia esquecer? - comentou a garota com desdém - Arrogante e louco. — Concordo com a primeira, mas tenho que objetar à segunda. - disse ainda com o olhar perdido. — O que houve? - Esmeralda ainda não mostrava muito interesse. — É sobre o que ele me disse sobre o frade Henrique...

376

— Sobre ele ser um traidor? A senhora o conhece há muito tempo. Pensei que fosse alguém de confiança sua. — Conhecê-lo não quer dizer que confie nele querida. - corrigiu - Afinal, lembro a você que eu o conheci como um espião dos Iluminados e que nossa relação está basicamente pautada na simples troca de informações e experiências. Assim como Henrique tem relações comigo, ele também possui ciclos de amizades com Bruxos e Inquisidores. — Tudo bem, mas... - ela calculou bem as palavras - onde a senhora quer chegar? — Desculpe querida, eu acabei viajando de novo - ela deu um leve risinho - O que estou dizendo é que desde que recebemos a visita desse garoto chamado Ângelo, que eu tenho tentado prestar mais atenção no que vem acontecendo na Igreja deles. E algumas coisas começaram a me incomodar. — Estranho. - interrompeu Esmeralda - Pensei que a senhora não estivesse compartilhando da dúvida desse garoto sobre uma traição dentro da ordem. — E não estava - concordou - Mas uma coisa que ele disse me chamou muito a atenção. — O que? — Ele disse que teve um mau pressentimento. Se fosse há alguns anos atrás, antes de receber seu treinamento com Cassandra, Esmeralda riria do que ela dizia. Porém, conhecendo a mestra muito bem, a garota sabia que duas coisas em Cassandra jamais deviam ser questionadas: uma, era seu gosto para moda, que apesar de horrível, ninguém devia questionar, e o segundo, eram seus pressentimentos. — Sei que você ainda se mostra um pouco descrente minha querida - disse a mulher, finalmente olhando em seus olhos – E é isso que eu quero que você mude. Você não pode ser uma boa Sonhadora sem acreditar em pressentimentos. Esmeralda fitou um pouco o chão sem conseguir encarar Cassandra. A mulher tinha uma capacidade em colocar energia naqueles olhos negros que deixavam qualquer um se sentindo inferior. — Você é mulher minha querida - continuou a velha mestra - Confie em seus sentidos, mais do que em sua lógica. Esse é o nosso dom natural e por isso somos boas em perceber as coisas que os homens não conseguem - ela deu um pigarro, voltando ao assunto - Aquele garoto, por exemplo. Dava para ver com o que ele lutou para poder

377

dizer que estava tendo dúvidas com relação à fidelidade de um de seus superiores. Ele não tinha nenhuma prova objetiva que os homens tanto buscam para basear suas teorias e dava para sentir o conflito interno dentro de sua cabeça. Não podemos culpá-lo minha cara, ele é homem - Cassandra falava como se estivesse comprovando um defeito clássico - Ele tende a confiar mais em seu raciocínio do que em seus instintos. - e depois, deu uma balançada na cabeça voltando ao assunto - Mas o que importa é que para ele falar conosco sobre o que sentia, era porque já devia estar sendo atormentado por essa dúvida há muito tempo. Eu tenho certeza que há coisas acontecendo dentro daquela Igreja. Coisas grandes, que obrigaram aos Iluminados a envolverem gente como nós. — E tem - ela interrompeu mais uma vez - Um demônio. — Não é apenas esse o problema - Cassandra não gostava de ser interrompida Existe algo a mais e no momento devemos dar prioridades aos nossos vizinhos. — O que a senhora está pensando? — Não só pensando querida - disse cheia de orgulho - Já investiguei. Mandei uma pessoa de confiança ficar de olho na Igreja nesses dias. — E ela viu alguma coisa? - a garota agora se sentara de frente pra ela. — Sim - a mulher deixou o mistério no ar uns segundos. Tinha gostado da súbita onda de interesse que surgiu na pupila - Parece que eles têm recebido muitas visitas de certos homens estranhos. — E... - Esmeralda já estava se roendo de tanta curiosidade. — E, que pela descrição, eu reconheci um desses homens que os visita constantemente. - e parou, enquanto tomava um gole de água na garrafa que tinha ao lado de sua mesa - Parece que estamos lidando com um Inquisidor chamado Rafael, mais conhecido como Rauch. — Um Inquisidor? Na igreja? Acredito que o bispo responsável jamais permitiria. — Jamais - concordou a mulher – Eu conheço pouco César, mas sei o quanto aquela igreja significa para ele. Ele ajudou a reconstruí-la e jamais permitiria que alguém perigoso entrasse lá. Cassandra agora pegou novamente as cartas e começou a jogá-las na mesa. Esmeralda ficou pensando no que a mestra havia lhe dito e agora concordava que havia algo muito suspeito naquilo tudo, mas não sabia se era de interesse delas.

378

A mulher continuava a jogar as cartas. Esmeralda percebeu que ela tinha entrado no mesmo torpor que estava quando entrou há pouco. Com certeza aquele assunto a estava deixando muito perturbada. Esmeralda ficou olhando as feições vazias de Cassandra enquanto ela jogava a seu tarô e sua mente acabou viajando para o momento em que seu destino cruzou com o daquela estranha mulher. Esmeralda nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Sua família não era de bruxos e ela acabou entrando em contato com a magia graças a uma vizinha que sempre ficava de babá quando seus pais saíam. Luísa era o nome da velha senhora, Vó Luísa para os íntimos. Vó Luísa lhe ensinou as bases de toda a sua educação mágica. Ela era especialista em magia indígena e desde pequena, Esmeralda teve contato com as ervas medicinais e os rituais primitivos dos druidas brasileiros. Mas o problema era que Luísa já estava muito velha, o que a obrigou a deixar a discípula muito prematuramente. Com sua morte, Esmeralda tinha herdado um grande tesouro: Uma grande quantidade de diários onde ela relatava suas experiências e seus conhecimentos. As folhas dos cadernos eram cheias de fórmulas de poções, rituais antigos e outras coisas que a ajudaram muito na ausência da velha. Mas ainda assim, a educação de Esmeralda fora comprometida pela ausência de Vó Luisa e ela acabou deixando esses conhecimentos de lado e se dedicando aos seus estudos normais. Acabou completando o ensino médio com dezessete anos, já conseguindo passar no vestibular logo no primeiro ano e começou a cursar biologia na UFMS. Se formando com louvor com vinte e um anos, ganhou bolsa para estudar no Rio de Janeiro e completar sua graduação na UFRJ. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, ela tinha que arranjar um emprego para conseguir se manter. Tinha medo que o dinheiro da bolsa de estudos não fosse o suficiente. E foi numa manhã de segunda-feira que seu telefone tocou. Um telefonema que mudaria sua vida. — Alô, Esmeralda, por favor - era a voz de uma mulher madura quem falava. A pessoa na linha parecia muito animada. — É ela. - Esmeralda respondeu - Quem deseja? — Ah querida. Desculpe, não reconheci a sua voz. — E eu conheço você? - perguntou a garota. — Ah, claro que não, mas eu conheço você querida e vim lhe propor um emprego

379

como minha assistente. — Espere um pouco minha senhora - Esmeralda estava achando aquilo doido demais – Primeiramente, quem é você? — Ah... Perdão querida, como sou desmiolada. Eu me chamo Cassandra, sua futura patroa, e meu endereço é esse: Rua Barão de Albuquerque 105, segundo andar. Venha me visitar e eu lhe darei o emprego que você tanto quer. Antes que Esmeralda pudesse interromper, a mulher repetiu o endereço para que a garota pudesse gravar. — Te vejo amanhã as nove querida. - disse - Sei que você não tem aula nesse horário. Tchauzinho... — Mas espera... – mas ela já tinha desligado — Que mulher maluca! – exclamou. Mas o que a incomodava era que ela tinha razão. Esmeralda não tinha nada para fazer naquele horário. Como sabia? Acabou pensando na estranha Cassandra até a hora de dormir. Esmeralda não sabia o porquê, mas sentia-se tentada em ir ao encontro da mulher. Como ela conseguia saber tanta coisa? Como sabia sobre seu horário? Como sabia que estava atrás de emprego? Acabou dormindo. Acordou às sete horas da manhã e como tinha muito tempo e nada para fazer, resolveu ir até o tal endereço. Só esperava não estar entrando em roubada. O lugar era um edifício próximo à Avenida Presidente Vargas. Um lugar movimentado, então, não tinha tanto o que temer. Entrou e subiu até o segundo andar e assim que tocou a campainha, um show de cores atacou seus olhos quando a estranha mulher, que parecia uma borboleta pela forma como estava vestida, atendeu. — Oi Esmeralda. Que bom que você pôde vir. Venha! - e abriu caminho - Quer um chá? — N... Não obrigada - e entrou, ainda pasmada com a figura multicolorida a sua frente. Cassandra a convidou pra sentar de frente para uma mesa com uma porção de tentações. Havia biscoitinhos de coco, que ela adorava, um bule de café fumegante, que lhe abria o apetite, e um bolo de limão, que completava a visão que estimulava a sua gula. — Coma querida. São seus favoritos, não?

380

— Um momento - a garota não estava acreditando em tudo aquilo e encarou muito séria a mulher antes de falar - Como você sabe dessas coisas? Como sabe que quero emprego? Como sabe sobre o que eu gosto? E como sabe o meu nome? A garota começava a elevar a voz, mas a mulher não parecia se abalar com aquilo. Esmeralda podia jurar que ela estava se divertindo com tudo. — Eu também sei sobre a Vó Luísa - disse num tom brincalhão enquanto se servia de uma xícara de café. Então Esmeralda ficou mais calma. — Entendi - disse sorrindo mais aliviada - Você conheceu a Vó Luísa. Foram amigas? — Na verdade eu não conheci. - disse revirando os olhos - Sei que ela foi uma grande maga, mas dai a conhecê-la... - e balançou a cabeça - não. — Agora você esta me deixando louca - ela riu nervosamente. — Calma querida, eu vou explicar - disse pousando a xícara na mesa - Assim como sua Vó Luísa e você, eu também sou uma desperta. A única diferença entre a gente é que eu tenho uns dons a mais. Pouca coisa. - completou humildemente - Só consigo ver umas coisinhas a mais. Como eu vi você. — Um dia, eu estava jogando as cartas em meu escritório, logo ali atrás - ela apontou para uma portinha nos fundos da sala - E acabei vendo você. Vi que já é uma iniciada. Vi que vinha para o Rio de Janeiro. Vi que sua mestra morreu. E vi também que eu seria sua nova mestra. — Como? — Sim - disse alegre - Não sei porque, mas estamos destinadas a ficarmos juntas como mestra e discípula. Esmeralda olhou para o café e viu que precisava de algo mais forte - e com um pouco de álcool também - para engolir tudo aquilo. — Venha querida - ela se levantou puxando a garota com ela - Vou lhe mostrar tudo. Sem muita escolha, Esmeralda foi aprendendo todo um resumo sobre a seita dos Sonhadores e, na verdade, fascinou-se com a filosofia da coisa. Com o tempo, ela foi aprendendo mais e mais e, depois de se formar como mestra em biologia, não conseguiu mais deixar o culto. Realmente é um historia bem doida. Pensou, voltando à realidade.

381

E foi quando Cassandra pareceu finalmente despertar num salto de seu torpor. Um grito fez Esmeralda pular da cadeira, olhando assustada para o rosto da mestra. A expressão de Cassandra mostrava um profundo pavor. — O que houve mestra? - ela se ergueu e circulou a mesa, levando as mãos para o ombro dela. — Precisamos ir para a igreja - disse rapidamente, passando um suéter pelos ombros e se levantando. — O que houve? - a garota tentava acompanhar a velha que seguia até a porta mais rápida do que a idade parecia permitir. — Te explico no caminho - disse rapidamente. Esmeralda, sem entender, apenas obedeceu e, pegando sua jaqueta, saiu atrás de Cassandra. Ela só trancou a porta rapidamente sem nem passar o pega-ladrão e correu escada abaixo atrás da louca mulher.

382

50 – Ombro Amigo.
Ana não sabia quanto tempo ficou chorando em seu quarto até conseguir fazer a dor aliviar um pouco. Ela olhava pela janela onde o vira pela última vez, tentando acreditar que tudo não passava de um sonho, um terrível pesadelo que a faria acordar chorando, mas que uma hora ela acordaria. Esgueirando-se até a janela, ela podia ver o quarto do garoto que estava em sua frente. Vazio, escuro. As memórias eram cruéis e não esperaram para virem com toda a força. As noites em que ficava por ali conversando com o amigo passaram por sua cabeça como filmes. Ela ainda se lembra de quando contou para ele, toda animada que começara a namorar Lucas. Enquanto falava, lembrava-se que ele não estava muito paciente naquele dia e, alegando cansaço, disse que iria entrar. Ana sentiu raiva por ter sua historia feliz cortada pela metade e ofendeu Ian em pensamentos enquanto ia se deitar, desejosa de poder contar a alguém o quanto estava feliz. Como eu não percebi? Por que ele não me contou antes? E pensou por fim. Por que ele me contou? Agora que chegara a essa conclusão. E se ele não tivesse se declarado? Talvez nunca tivesse gostado dele. Talvez essa partida pudesse ser menos dolorida. Mentira, concluiu. Ela já gostava dele antes, mas nunca percebeu. Ela sempre foi apaixonada por ele, mas deixava a máscara da amizade esconder o verdadeiro sentimento que nascia aos poucos dentro dela. Não tinha como essa partida ser menos dolorida. Ninguém se pode desfazer-se de quatro anos de vida assim tão facilmente. E se ele não tivesse se declarado, como seria? Ana sabia a resposta. Ela não teria tido aquele beijo. Não teria nada o que guardar e depois passaria a vida inteira se lamentando por ser tão cega. Aos poucos, seu coração começava a se acalmar. A idéia de que, de alguma forma, amar e perder seria melhor que nunca amar, aliviava o aperto. Essa frase feita não fez a dor sumir, mas a confortava e fazia as lágrimas começarem a secar em seu rosto. Nesse instante, a campainha da sua casa tocou e o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de deixar como estava. Fazer o seu visitante acreditar não ter ninguém em casa, mas no fim, pensou que seria bom ver alguém. Naquelas circunstâncias, falar sobre algo diferente com qualquer um seria a melhor coisa para distraí-la por alguns 383

momentos Então, desceu até a porta, se preocupando em lavar o rosto rapidamente antes. E ao atender, tentou dissimular um sorriso no rosto e, viu que quem a esperava era Laila. A garota sorriu abraçando a amiga assim que a viu. — Amiga! Que saudades. Soube que você viajou e... - ela se afastou para poder olhá-la melhor, e foi quando seu sorriso sumiu - Aconteceu alguma coisa? - ela tinha o olhar hesitante. Parece que suas habilidades em interpretação não eram boas. A tristeza devia estar estampada em sua cara e Laila foi capaz de perceber numa primeira olhada. Ana ficou em silêncio, sentindo toda a tristeza que lutou tanto para controlar voltarem. — Ana, está chorando? - Laila parecia muito preocupada – Ana, me conta, o que aconteceu? As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto. — Fala mulher! - ela começava a ficar exaltada. Ana agarrou a amiga, abraçando-a e colocando a cabeça em seu ombro. E ali, começou a soluçar — Calma Ana - Laila acariciava os cabelos dela. Sua voz era de uma emoção maternal que Ana não estava acostumada, mas agradeceu por dentro a amiga ser capaz de tal gesto. Sempre viu Laila tão dona de si, tão independente, que até pensou que fosse insensível. Mas tinha se enganado. Que bom. Laila esperou pacientemente e Ana deixou seu coração se acalmar novamente. Não tinha certeza se devia contar a causa de seu pranto para a amiga. Não tem problema, falava para si mesma, ela vai saber que ele fugiu, mais tarde. Quando encontrarem um corpo que a policia vai dizer ser dele. Quando o vincularem ao tráfico. Quando eu for ao seu enterro. — O Ian - falou finalmente. — O que tem ele? - ela pareceu surpresa e mais alguma coisa que Ana não conseguiu captar de imediato. — Ele foi embora. Fugiu. Ana esperava a chuva de perguntas de Laila, mas surpreendentemente ela não fez nenhuma. Talvez estivesse pasma demais ou não tivesse acreditado nela, não importava. Ana agradeceu por poder ficar abraçada a amiga, sem perguntas, sem cobranças. Era só

384

ela chorando e a Laila consolando. Não queria outra coisa.

Naquele instante, Laila mantinha a garota encostada em seu ombro, deixando que suas lágrimas sujassem a sua blusa nova. À sua frente, havia um quadro pintado em espelho muito bonito, que mostrava a imagem de uma tropa de cavalos correndo sob uma bela planície. Laila olhava para seu reflexo e conseguia ver muito bem a imagem de Ana abraçada a uma mulher. Mas ao contrário de uma mulher morena, a pessoa a quem Ana estava abraçada era alta, esguia e loura. Satine sabia exatamente que só ela conseguia enxergar tal imagem. Sabia que se Ana olhasse para o espelho, só veria ela mesma agarrada à Laila. Satine sorriu. Finalmente havia chegado a hora. O protetor de Ana havia partido e ela podia levá-la para seu senhor.

385

51 – A hospedeira.
Ana foi voltando aos poucos ao mundo real e a primeira coisa que a conectou ao mundo foi a forte dor de cabeça que sentiu, arrancando-lhe um gemido da boca. Seu corpo estava pesado e ainda não se encontrava completamente desperto para que as forças lhe permitissem levantar. Seus sentidos voltavam aos poucos e ela, com certa dificuldade, ia tentando identificar onde estava. Havia um forte cheiro de terra e outra coisa, uma coisa fétida que concluiu ser mofo. O chão estava duro, parecia pedra ou talvez cascalho e sentia que a cada vez que mexia, sua pele era arranhada. Ela tentou mexer os braços e viu que não dava. Alguma coisa estava envolvida em seus pulsos e os mantinha unidos bem à frente de seu corpo. Ana tentava se lembrar dos últimos acontecimentos. Lembrava-se de Ian sumindo em sua janela, dela chorando, a campainha tocando e Laila a consolando. Foi então que tudo ficou negro. A última coisa que ela é capaz de descrever com clareza é um impacto rápido e potente em sua nuca. Alguma coisa a golpeou de forma tão ligeira que Ana nem teve tempo de sentir dor antes que o mundo se tornasse uma mancha negra. Aos poucos, seus olhos foram se abrindo e ela enxergava uma espécie de caverna onde a única luz disponível eram as chamas vindas de tochas espalhadas pelas paredes rochosas, que contribuíam para o aspecto macabro do lugar. Ana olhava em volta a procura de alguém e se lembrou de Laila. E começou a sentir medo pela amiga. Onde estaria? Teria sido capturada também? Mas quem? Por quê? A última coisa que Ana pôde reconhecer foi uma espécie de altar de mármore branco, próximo de uma das extremidades da caverna. Em cima, havia um vaso de aparência rústica, barro talvez. Não conseguia ver o que havia em seu conteúdo, era impossível daquela posição. Pensou em se levantar quando percebeu que seus pés também estavam presos. Agora ela via cordas que envolviam seus pulsos e tornozelos. As que prendiam os tornozelos iam até uma das paredes onde se encontravam muito bem amarradas em uma estaca fincada na rocha. Tentou puxar para se soltar, mas era inútil. Não tinha força para tanto. Seu coração começou a palpitar em um desespero controlado quando finalmente ouviu o

386

som de passos vindos em sua direção. Ana se petrificou olhando o corredor rochoso que se estendia ao seu lado direito. Agora, uma sombra começava a ganhar forma e antes que Ana pudesse identificar quem era, Laila surgiu para a luz das chamas. — Laila! - exclamou em alegria, mas logo sua felicidade se transformou em dúvida quando olhou bem a expressão da garota. Laila sempre teve um ar presunçoso, tinha o hábito de olhar os demais com certa superioridade. Mas esta quem estava ali não era Laila. Ana podia ver a vaidade mil vezes acentuada naquela mulher. Seus olhos eram frios e demonstravam até certa repulsa ao olhar para Ana. — Quem é você? - ela tentava manter a voz o mais tranqüila possível. A mulher riu alto. Sua voz ecoou pelas paredes da caverna e Ana teve a certeza de que não era Laila. A voz que saia do corpo da amiga era muito mais fina, mais bonita até, só que mais fria. Não era humana. — Finalmente percebeu - disse a mulher, falando através da boca de Laila - Fico feliz em ter conseguido enganar você e Ian por tanto tempo. Se ele me descobrisse eu estava frita - ela falava tudo como se fosse um a espécie de jogo. — Há quanto tempo você está nos enganando? Onde está Laila? A mulher alisou o próprio corpo antes de dizer: — Bem aqui - ela olhou para Ana com um ar divertido - Quer dar um oi pra ela? Eu mando o recado. - Zombou. Ana a fuzilava com os olhos. — Sabe que eu gostei desse corpo. - ela falou - É quase tão bonito quanto o meu. — Demônio – falou entre os dentes - Você é um demônio. - não foi uma pergunta. — Muito bom gênio - debochou - Como percebeu? Pela voz ou pelo jeito? Ana trincou os dentes de raiva. Aquilo estava dentro do corpo de Laila e só Deus sabe que barbaridades ela já fez com sua amiga. — Quem é você? - gritou para a mulher. — Laila – respondeu, achando graça do próprio comentário e ficou uns segundos se divertindo com a expressão de ira da garota. — Meu nome é Satine - disse enfim. Satine ficou andando de um lado para o outro da caverna, fitando a garota com olhos curiosos. — Eu não entendo o Kalish - ela parecia estar falando consigo mesma Francamente menina, o que você acha que ele viu em você?

387

Ana ficou em silêncio, recebendo o olhar investigativo da demônio. — Eh! Nem você sabe, não é? - zombou mais uma vez e continuou a andar de um lado para outro. Ela parecia estar esperando alguém e Ana se perguntou quem ou o que ainda estaria por vir. — Há quanto tempo você está no corpo de Laila? - Perguntou por fim. Sua voz era semelhante a um rosnar. Por um segundo, se lembrou de Ian. — Só por umas duas semanas. - ela olhou com travessura para a garota - Não se preocupe, não machuquei sua amiguinha – informou, alisando mais uma vez o corpo de Laila. - Só a peguei para poder separar o casalzinho. — Como? – essa parte ela não conseguiu compreender. — É querida. Nosso alvo sempre foi você, o tempo todo. Mas com o Ian do seu lado, não tínhamos como te alcançar. Caius tentou e se deu mal. Nós? Ela agora tinha certeza que mais alguém era esperado. Quem seria? Seria esse tal de Caius? Não. Da maneira como ela falava parecia que Caius havia caído, mas quando... E se lembrou do demônio no sitio de Laila. O ser que Ian derrotou. — Sinceramente eu não entendo, mas realmente aquele garoto ficou caidinho por você. – ela continuava com seus devaneios - E isso foi péssimo para nossos planos. Aquele Garow era muito forte, eu admito. Eu não era louca de enfrentar o Ian num combate cara a cara e ele estava sempre perto de você. Não tinha um lugar para onde você fosse que ele não estivesse lá de sombra. Ela começou a rir. — Você não sabe como vocês dois eram ridículos – agora ela, com certeza, falava com Ana – Somos apenas amigos – imitou – Francamente, isso não enganava ninguém. Ele até tinha um motivo para agir assim, mas você... – ela balançava a cabeça, descrente – era idiota mesmo. E foi aí que eu percebi. Ironicamente, a única maneira de separar vocês dois era os juntando. Ana ficou em silêncio, sem ter o que responder. — Depois que matou Adele – Ana se impressionava pelo fato da mulher conhecer todos aqueles nomes. Como ela sabia tão a fundo da vida de Ian? - o pobre Lucien nunca pensou se apaixonar de novo e quando isso aconteceu com você – ela falava de Ana como se fosse um animal asqueroso – foi um tormento pra ele. Ele não suportaria te ferir como fez com a pobre Catarina. Como ela sabe de tudo isso?

388

— Ele é uma bomba atômica e o mínimo de desejo faz com que ele detone. Ele suportava isso quando você era indiferente, mas quando começou a tentar investir... Aí não. Ela deixou essa frase no ar e Ana sentiu raiva de si mesmo. Lembrava-se de como tinha sido induzida a ficar com Ian por influência de Laila, ou melhor, Satine. — Você não acredita como foi fácil – ela ria consigo mesmo. Aquele riso irônico que estava deixando Ana com vontade de acabar com ela – Foi tão fácil te convencer a dar em cima dele. É claro que você não leva muito jeito pra isso, mas... – e deu de ombros – enfim, funcionou. Ele caiu. Eu daria tudo para que você o visse depois que vocês se beijaram. Que você visse ele trancado naquele quarto sozinho, tentando espantar as imagens luxuriantes que vinham na cabeça dele – ela alfinetou. — O que? Satine deu um sorriso presunçoso. — Você não viu – ela sorria com prazer – como foi lindo ele naquele quarto, sozinho se ferindo para que a dor afastasse todo o pensamento que fazia sua besta interior vir à tona. - e depois olhou pra ela com os olhos faiscantes – É Ana. Feriu-se. Ele se mutilava para tentar espantar seus desejos. — Não! - Apesar de não querer concordar, ela sabia que Satine dizia a verdade. — Sim! - ela zombou de novo – parece que você beija bem menina. Fazia tempo que ele controlava seus desejos carnais em prol de sua estabilidade, mas seu beijo o desconjuntou. - ela riu - Ele ficou com tanto medo de perder o controle ali que se trancou como um animal só para não correr o risco de arrancar sua cabeça. Não. Ela se desesperava. Podia ver a cena se passar em sua cabeça. Quando ela ficou em frente à porta do quarto vago na casa de Mônica. O choro e os arfares que escutava em seu interior. Nunca imaginaria que Ian estava na verdade se machucando ali dentro. — Na verdade se ele tivesse matado você isso facilitaria o nosso trabalho. – concluiu - E se Caius não estivesse lá com certeza Ian fugiria de você naquele dia. E isso também facilitaria nosso trabalho – refletiu com certa tristeza forçada. – e Caius não teria que ser destruído – deu de ombros – Bem, a culpa foi dele. Eu avisei que ele não tinha chances contra o garoto. E respirou fundo, deliciando-se com o efeito que suas palavras provocavam na garota.

389

— Bem - disse se aproximando – é hora de colher os frutos do trabalho duro e da paciência. Foi bom ficar com você esse tempo. Ela chegou bem perto de Ana, abaixando-se e fazendo seus rostos ficarem a apenas alguns centímetros um do outro. — Pelo menos serviu para fazer uma pesquisa de campo e descobrir onde você escondia. - E com um movimento rápido, Ana sentiu uma dor no pescoço ao ter seu cordão arrancado. Então o som de liquido entrando em ebulição começou a se fazer ouvir no lugar e Ana percebeu que tal barulho saía do recipiente em cima do altar. Satine se virou para o recipiente muito contente. — Eu não disse que conseguiríamos senhor? – disse, erguendo o medalhão. — Duas grandes notícias no mesmo dia - disse uma voz rouca. Ana tentava localizar de onde vinha, mas parecia surgir de toda a parte, então, ela focalizou o recipiente tendo-o como a fonte. Uma sensação familiar tomou conta dela. Era uma espécie de angústia que ela não sabia como surgia. Mas sentia algo muito familiar naquela voz. — Duas? - surpreendeu-se Satine - E qual seria a segunda? — Logo logo você vai saber - disse num ar de mistério - Mas eu estou ansioso. Pegue o símbolo Garow. - ordenou Satine abriu triunfante o pingente de Ana e seus olhos se arregalaram quando só encontrou as fotos de Teresa e Samanta ali dentro. A mulher demônio não sabia o que dizer e olhava assustada para o recipiente. — O que aconteceu? - urrou a voz. — N... Não está aqui.

390

52 - Armadilha do diabo.
— Como assim não está aí? Você mesma disse que a garota sempre o carrega aí dentro. — Mas ela carrega. Digo, só podia estar aqui. – a mulher, visivelmente apavorada, tentava se explicar. Depois se virou para Ana com os olhos em brasa - Onde está o emblema garota? Ana não sabia de onde tinha vindo, mas sentiu uma vontade doentia, porém irresistível, de rir. Sabia que sua gargalhada era mais fruto de desespero do que de graça, mas ela não conseguia contê-la. — Do que está rindo desgraçada? - ela agarrou o pescoço de Ana - Onde está o emblema? — Vocês... - ela falava engasgada - vocês tentaram tanto tempo tomar isso de mim e agora... ele está longe. — De que você esta falando? - a mulher perdera a paciência - O que você fez com o emblema que suas tias te deram? — Eu... Eu o devolvi... para seu legitimo dono - Ana tinha um sorriso presunçoso - Dei para Ian. Os olhos da demônio se arregalaram à medida que sua mão, inconscientemente, apertava o pescoço da garota. — Está mentido - apesar do volume baixo da voz, dava para ver que ela estava se contendo para não quebrar o pescoço da garota, embora não estivesse tendo muito êxito, e Ana sentia que o ar começava a lhe fazer falta. — Satine! Largue-a! - ordenou a voz e Ana foi ao chão, tossindo copiosamente. — É - zombou Ana, tentando falar - Vocês tentaram tanto tirar isso de mim sem enfrentar o Ian... – e massageava a garganta dolorida - e agora não têm escolhas se não tirar dele. Isso é - lembrou - se o acharem. Satine ergueu a mão contra Ana, mas a voz vinda do recipiente a conteve. —- Basta! - Urrava - Satine, ainda não. — Como assim mestre? - a mulher estava alterada - Não vê o que ela está fazendo? Nos ferrou e ainda esta a zombar de nós. Vamos matá-la! Só espero que seja rápida, por favor. Apesar do medo que sentia da mulher, Ana ainda estava um tanto satisfeita. Pelo menos morreria desafiando aquele ser. Só gostaria

391

de poder fazer alguma coisa por Laila — Não. - disse com muita calma - Precisamos dela para trazer o garoto de volta com o nosso artefato. — Mas senhor, perdão pela insolência, mas... - Ana percebia o medo em sua voz eu não acho que o senhor esteja em condições de enfrentá-lo. Não sem seus poderes. E eu... — Calma, minha pequena Satine, calma. - a voz parecia se divertir com o pânico da garota - Como eu disse, temos uma segunda boa notícia hoje. Satine o olhava com desconfiança e Ana começou a sentir medo da idéia. Eles queriam trazer Ian de volta. Ela estava feliz com a idéia de saber que ele estava longe dali, mas agora eles o atrairiam para uma armadilha. E ela seria a isca. — Qual o seu plano, mestre? - perguntou Satine, relutante. — Pelo o que eu conheço de Kalish, ele ainda não deve estar longe. Eu ainda posso senti-lo por perto e vou mandar uma mensagem pra ele. Vou mostrar-lhe sua amada aqui, como nossa prisioneira. — E depois? - perguntou impaciente. — Talvez você tenha que atrasá-lo um pouquinho até que a nossa arma secreta chegue. — Arma secreta? — Sim Satine. A nossa segunda boa noticia de que falei. Temos mais uma pessoa que abraçou a nossa causa. Uma que aquele mago não poderá derrotar. Ana começava a ficar mais nervosa com a situação. Agora teria mais um demônio para Ian enfrentar. Um que ele não poderia derrotar. — Eu até que gostaria de bater um papinho com ele eu mesmo, - falou o demônio – Tenho coisas que gostaria de lhe contar, mas em minhas condições não posso. Tenho que esperar até que eu tenha meu corpo de volta. — Vou chamá-lo agora - completou a voz - Não podemos nos arriscar que ele se distancie mais até sumir. Conto com você para distraí-lo? — C... Claro senhor? - ela tentava parecer um pouco mais confiante, mas ainda assim não conseguia parecer natural. — Use o corpo dessa garota para atrasá-lo. Não quero que machuque o seu, que levou tanto tempo para ficar pronto. — Claro senhor - ela sorriu, ainda trêmula.

392

Ana não entendeu o final, mas temeu o que era discutido. Além de Ian, Laila também ia sofrer. Ela tentava se livrar das cordas, mas não era possível. Tentou se lembrar das lições sobre controle de energia. Tentou mais uma vez canalizar sua quintessência para o braço, mas não foi capaz. Emoções não lhe faltavam para fazer o sangue circular mais rápido, mas ainda lhe carecia de disciplina para controlá-lo.

* Há alguns quilômetros dali, em pé no alto do telhado de um prédio de sete andares, Ian observava a lua minguante com seu sorriso irônico e escondido nas nuvens. Não conseguira ainda sair dos limites do bairro, por ter a cabeça cheia de coisas com o qual pensar. Ainda refletia sobre as palavras de Ana. Na maneira como ela o expulsara, na forma como o desprezara. Sabia que era da boca pra fora. Que aquela explosão foi resultado da despedida. Mas mesmo assim, doía saber que essas seriam as últimas palavras que ele a ouviria pronunciar. Mas no fundo a culpa é minha, refletiu. Se eu tivesse ido embora há quatro anos, não teria de suportar isso. Não teria se apaixonado e a despedida seria menos dolorosa. Abandonar a sua mãe já era bem difícil, agora abandonar Ana também, era como morrer. Teve de deixar as duas únicas mulheres que conseguiu amar nessa sua droga de vida. E as únicas mulheres que conseguiram amar o monstro que ele era. Ela me ama. Lembrou-se subitamente, levando as mãos aos lábios. Ele não pôde deixar de lembrar-se da declaração de Ana. Aquilo quase o fez desistir de fugir, mas não podia fazer isso. Não podia arriscar a vida dela como fez com a de... E experimentou uma pontada no peito que fez seus punhos enrijecerem ao se lembrar daquela noite. A imagem do corpo mutilado num quarto em Michigan ainda tomava conta de seus pesadelos. Não podia permitir que isso acontecesse de novo. Não podia imaginar isso com Ana. Se um simples beijo já lhe despertou tanto êxtase, como seria quando ela quisesse algo mais? Não, ela merece alguém mais saudável. Mas ainda assim não podia evitar a alegria que sentia ao saber que era correspondido. Ainda mais sabendo que ela o aceitara do jeito que ele era. Sabendo dos seus crimes e de sua maldição. Pare de rir, seu idiota. Ordenou a si mesmo. Pois você nunca vai tê-la. Não tinha

393

outro jeito. E desistindo de sonhar e apertando o tecido em suas mãos, ele pensava agora na próxima questão de sua vida: Para onde ir? E uma vontade louca de rir veio. Havia pensado em todos os aspectos de seu brilhante plano de fuga. Desde o momento exato para servir de álibi até a ajuda que Solange lhe daria arranjando um corpo para se fazer passar por ele. Mas não tinha pensado para onde partiria. Foi tão mais fácil como Lucien. Na sua segunda vida ele pôde fugir simplesmente sem dar explicações. Não tinha laços com ninguém, foi simplesmente sair e nunca mais voltar. Sem despedidas, sem lágrimas, só ele e Adele. Adele. Pensou com culpa. Esse crime o perseguiria para sempre. Mas o pior foi permitir a chance de cometê-lo por inúmeras vezes mais. Por sorte, nunca perdeu o controle como Ian. Pelo menos nessa vida ele estava limpo. Mas o banho de sangue que provocou como Lucien mostrava que sua ficha jamais seria limpa. Era hora de acabar com tudo. Concluiu finalmente. Já tinha feito antes, mas de forma errada. Mas se fizesse agora, seria definitivo. Não tinha nada que pudesse salválo da morte. E foi quando ele olhou para o chão, tentando-se com a idéia. Aquela altura seria o suficiente para ele? Já que não sabia para onde ir, talvez o melhor caminho fosse para baixo. Um caminho que ele terá que fazer um dia. Já que não enganaria mais a morte e como estava atrasado para com ela, por que não agora? Já tinha feito isso como Lucien. Numa época em que não tinha nada a perder. Nada que o prendia ao mundo dos vivos. Mas o que o prendia hoje? Sua mãe já o ia ver como morto daqui a um ou dois dias. Solange, por mais que estivesse ao seu lado durante dois anos, jamais demonstrou muito apego a ele e Ana mesmo já tinha dito que era hora dele partir. Não tinha pra onde ir e nem quem o estivesse esperando. Não tinha realmente nada que o prendesse ali. O que o esperava depois dali? O que faria se decidisse viver? Com certeza, passaria seus últimos dias isolado do convívio das outras pessoas, para se impedir de matar mais alguém. Mas por quanto tempo conseguiria viver assim? Não podia viver mais se privando de tudo. Não podia viver sem sentir raiva, paixão ou emoção. Viver assim não era viver. Viver sem amor não era viver. Viver sem Ana não era viver. Agora a altura parecia menos opressiva a mais tentadora. Pensou na liberdade que

394

sentiu quando se tacou como Lucien, da sensação de leveza, como se por uns leves segundos fosse capaz de voar. Era doentio, mas era nisso que ele estava tentando se agarrar e assim o medo começava a abandoná-lo. E foi quando um vento forte começou a bater em seu rosto. Ian ficou surpreso com a corrente inusitada e levou as mãos aos olhos para protegê-los. Então, o som que passava pelos seus ouvidos foi ganhando forma, até que palavras começavam a ser entendidas, mensagens que se revelavam escondidas atrás das correntes de ar. Ian. Chamava a voz fria que o vento trazia e aquela foi a única palavra dita. O resto foi uma seqüência de imagens que o fez levar as mãos à cabeça. Uma enxaqueca aguda o atingiu enquanto ele via em flashes uma caverna iluminada por tochas, Ana amarrada a uma das extremidades, Laila em pé a sua frente, rindo dela. A dor de cabeça atingiu um nível mais alto fazendo Ian cair de joelhos ao testemunhar a última cena, que foi a de uma fachada de uma casa em ruínas. Um lugar que ele conhecia muito bem. Ficava na rua acima da sua onde morava. O lugar estava abandonado há anos. Num dos cômodos daquela sala, Ian sabia que encontraria um alçapão que o levaria para os túneis cavernosos da primeira visão. Tudo isso lhe foi enviado em apenas alguns segundos. Tudo trazido pelo vento. Seja rápido. A voz dizia. E venha sozinho. É uma armadilha, ele percebeu de cara quando a dor de cabeça se desfez e ele pôde aproveitar o silêncio reconquistado. Mas as imagens eram tão reais. Ele sabia que elas eram frutos de uma transmissão de memórias, que é muito comum quando se da o Beijo mágico. Mas não sabia que podiam ser transmitidas através do Mensageiro. Quem teria poder para tanto? Sabia que essas imagens eram reais e isso o deixava louco. Tinha deixado Ana para mantê-la segura e agora ela estava em perigo justamente por que ele a deixou. Tinha que voltar. Sabia onde ficava o lugar, mas ainda não entendia o que estava acontecendo. Não fazia sentido aquilo. Por que atraí-lo para lá? Por que escolher logo o momento de sua partida? Mas não tinha tempo para descobrir e apenas tomou o caminho de volta saltando de prédio em prédio.

395

53 - A perda da fé.
No salão principal da Igreja da Iluminação, Henrique caminhava pelo tapete vermelho que se estendia da entrada até o altar, olhando tudo com ar de despedida e, se pondo de joelhos de frente para a Imagem da Virgem Maria, começou a rezar. Não sabia na verdade para que estava rezando. Se para agradecer, pedir perdão ou para garantir uma viagem tranqüila ao reino dos céus. Pensando sinceramente, concluiu que perdão não era. Não se sentia culpado. É certo que suas atitudes acabariam provocando a morte de inúmeras pessoas, incluindo sua própria, mas sentia que era tudo por uma causa maior. Ângelo já devia estar morto e o caso de César era apenas uma questão de tempo. Logo os Inquisidores entrariam por aquela porta para finalizar o serviço. Henrique também não tinha esperanças de sair vivo. Sabia que os Inquisidores só o deixaram respirando até agora porque ele era útil. Mas essa utilidade não seria eterna e ele seria descartado. Mas no fim, isso também não lhe fazia diferença. Afinal, ele também era parte do grande mal a ser combatido e por isso merecia morrer. Só esperava que seus últimos atos lhe garantissem a redenção divina. Henrique sempre foi um homem fervoroso. Sempre respeitou as inscrições e sempre valorizou a moral e os bons costumes. Quando entrou para os Iluminados, ele se viu no paraíso. A magia para ele era a manifestação do milagre de Deus na terra e a Ordem era a portadora dessa luz. Devido ao seu carisma, habilidade e conhecimentos de línguas, ele acabou recebendo a missão de ir conhecer os diferentes grupos mágicos que existiam no mundo e durante muito tempo foi os olhos da Ordem nos diferentes cantos. Servindo de espião, Henrique se infiltrou em diferentes cultos para descobrir seus segredos e, servindo de diplomata, tentou melhorar as relações dos Iluminados com o as demais ordens. E foi nesse período de sua vida que ele acabou conhecendo os podres daquela existência, que, de certa forma, ele fazia parte. Na França, entrou em contado com a Irmandade da Rosa, um grupo que praticava a libertinagem em seus rituais. No Oriente, deparou-se com os Filhos do sol. Um grupo terrorista que pregava a morte em homenagem a um Deus falso. No Japão, conheceu os Pensadores do Futuro. Uma organização que mesclava ciência com magia. Um povo do mais alto nível de ateísmo que esse mundo podia ver.

396

Todas as irmandades mágicas eram degeneradas. Não havia salvação. Todas praticavam inúmeras formas de pecado. Eram um risco a moral e a família por sua forma libertina de se viverem. O paraíso em que ele acreditava era falso. Os magos estavam longe de serem pessoas de bem. Eles tinham que ser detidos. Eles desvirtuaram os milagres de Deus. E foi quando se infiltrou em um grupo pequeno de Inquisidores. Ali, ele entrou como um espião. Alguém para conseguir informações para a Ordem. O líder Rauch o aceitou bem. Ele sabia que não poderia criar vínculos com esse grupo, pois sua encomenda de morte não tardaria a chegar. Mas mesmo assim, no tempo em que ficou infiltrado neles, acabou por absorver sua filosofia. Durante o tempo em que esteve infiltrado ali, foi tratado como um irmão. Bebeu dos ensinamentos e ao contrário do que via nas irmandades mágicas, ali sim havia pessoas direitas. Pessoas de família que respeitavam a fé e os bons costumes. Cidadãos descentes que cumpriam suas obrigações e mantinham lares saudáveis. Foi quando sua fé caiu drasticamente. Henrique perdeu toda a sua crença na magia e começou a vê-la como uma verdadeira ameaça e seu maior ódio foi contra a sua própria instituição. As histórias contam de um passado, quando os Iluminados lutavam contra os demais grupos mágicos alegando defenderem a estabilidade e ordem no planeta. Hipocrisia. Pensava. Eles usavam o mal para combater o mal e isso não era certo. A verdade é que sua organização só estava interessada em uma coisa na época: poder. E foi então que ele voltou a sua Ordem e mostrou para os membros do conselho seus relatórios. Mentiu, alegando que nenhuma organização mágica tinha interesses em se juntar aos Iluminados. A verdade era que muitas organizações se mostravam prontas a perdoá-los, mas Henrique preferia assim. Deixar as coisas como estavam e manter a ordem isolada. Ele já tinha um plano em mente naquele momento e só faltava coragem de executá-lo. Henrique tinha o desejo enorme de que os Inquisidores acabassem com toda a forma de perversão causada pela arte mágica. E foi quando entrou em contado com Rauch, e lhe contou tudo o que era. O homem, no principio, tinha vontade de esganá-lo, mas pareceu se segurar ao enxergar o potencial de seus serviços. Apesar de ser alguém importante dentro da Ordem, ainda existiam muitas limitações no prestígio de Henrique. Muitas informações caras aos Inquisidores o frade

397

não possuía e Rauch acabou lhe passando uma nova missão: a de tentar conseguir informações com alguém mais influente. A Ordem do Conselho e a súbita doença do bispo César, chegaram para ele como um aviso dos céus. Um sinal de que ele engrenava pelos caminhos certos e que Deus o ajudava. Pois monitorando César de perto, poderia conseguir muito mais coisas. Então, durante um mês ele usou um forte feitiço injetado nas pílulas que dava a César. O feitiço era forte o suficiente e fazia o Bispo responder a todas as perguntas e ainda garantia que o homem não se lembrasse de nada depois de um interrogatório. Como o feitiço era muito poderoso e a força de vontade do homem também, acabava que o efeito só durava por alguns minutos, antes de César cair exausto sem poder dizer mais nada. Rauch sempre demonstrou interesse em levar o velho para seu QG e interrogá-lo lá, mas Henrique sempre garantiu que César era um homem de profunda lealdade e que jamais daria qualquer tipo de informação, mesmo que sob o efeito das maiores drogas e das mais pesadas torturas. Com paciência e habilidade, Henrique conseguia dar a medicação ao frade que tinha uma confiança cega nele. Henrique tinha a habilidade de enganar as pessoas devido aos seus anos em que trabalhou como espião e diplomata para a Ordem dos Iluminados. Mas uma coisa que sempre preocupava Henrique era manter suas comunicações com Rauch sem levantar a atenção do Bispo. E foi quando César teve o sonho que o deixaria tão abalado. No inicio, Henrique pensou em não dar maiores atenções às loucuras do velho, mas foi quando ele enxergou nisso uma grande oportunidade. Mexendo seus pauzinhos, convenceu o velho homem a aceitar uma ousada empreitada: a de tentar um acordo com os Inquisidores. Nesse plano, uma série de fatores conspirou a seu favor: Primeiro, o fato da Ordem dos Iluminados se encontrar isolada nos tempos modernos. Fator esse que em grade parte se deveu a ele. Em segundo, a história da Ordem com os inquisidores. Afinal, eles já foram parceiros na luta contra o mal da magia em outros tempos e eram o mais próximo de aliados que a Ordem teve em sua longa existência. E em Terceiro, o próprio dilema pessoal do bispo. Ele tinha batalhado tanto pela Ordem e agora se via sendo jogado no lixo. A ânsia de provar algo para si mesmo o fez arriscar por esse terreno duvidoso. Assim, ele conseguiu aproximar Rauch do Bispo.

398

Todos aparentando estar preocupados com o sonho do velho homem. Nessa loucura, os únicos que se mostraram realmente interessados foram a louca da Cassandra e o moleque do Ângelo. Ângelo, essa foi a maior pedra no sapato de Henrique desde então. A curiosidade dele colocou em risco sua missão sagrada. Ele ainda transpira ao lembrar-se do dia em que pegou o garoto usando a magia do Flashback na sala do bispo. O lugar onde tantos interrogatórios haviam ocorrido. Se ele visse um deles que fosse, não tardaria a correr para contar ao bispo. E tudo ruiria como em um castelo de cartas. Ele ainda tentou, por via de dúvidas, apagar as lembranças dele, mas o garoto se mostrou um mago mais habilidoso do que esperava. Ângelo, o prodígio. Lembrava com raiva. Aquele garoto havia neutralizado seu golpe com muita facilidade. Ele não conseguia evitar sentir seu ego ferido. Mas agora ele está morto. Que Deus o tenha e julgue seus pecados. Acalmou-se. E foi quando escutou a porta principal do templo se abrir. Levando as mãos aos bolsos das vestes, se virou para encarar seu visitante, imaginando ser Rauch que vinha para acabar com o serviço. — Demorou muito. - disse se virando e foi quando viu que havia se enganado. Na sua frente, uma versão maltrapilha de Ângelo se encontrava erguendo-lhe a arma. Ele parecia horrível e Henrique não imaginava que ele pudesse ficar mais feio do que já era. Suas roupas pareciam que não eram trocadas há dias e o suor deixava sua pele brilhando e seu cabelo pingando. — Eu quero explicações! - gritava para o frade.

399

54 - A arma secreta.
Ian mantinha seus sentidos ligados à procura de qualquer armadilha posta na entrada da velha casa. Nada. Tudo parecia calmo demais e o garoto teve um caminho tranqüilo até o alçapão. Seguia até então os passos passados pelo Mensageiro, mas a partir daí não saberia o que poderia encontrar. Puxou então a argola que servia de maçaneta para a entrada e um cheiro de mofo atacou suas narinas. Tentou ver se escutava alguém, mas o túnel parecia deserto. Mas assim que pulou alçapão adentro, percebeu alguma coisa atrás dele e ao se virar para atacar, viu que era Laila. — Ian! – A garota parecia assustada. — O que você faz aqui? - perguntou relutante. Havia algo de errado. Ele sentia uma presença na garota que não era comum e foi então que alguma informação lhe passou pela cabeça. Algo que ele não sabe de onde veio e foi então que percebeu que se tratava de uma informação que o mensageiro deixara escapar para ele. Ele via Laila rindo para Ana e então soube, não exatamente como, que ela não era a amiga, e sim uma demônio. Satine. Ela foi se aproximando do garoto como se fosse abraçá-lo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela simulava pânico. Sem deixá-la se aproximar mais, o garoto a pegou pelo pescoço num movimento rápido, pondo-a de encontro com a parede. A demônio soltou um grito engasgado e quando o garoto ergueu a mão em forma de garra contra ela, Satine começou a rir. — Cuidado - disse ao meio de tosses - Esse corpo ainda está inteiro - e riu novamente. — Como? - seus olhos se arregalaram

Satine já se sentia vitoriosa. Ian não iria se arriscar a machucar o corpo da garota. Ela tinha até se assustado com o golpe brusco recebido, mas agora via que estava com a situação sob controle. Quem sabe até ela mesma não pudesse derrubá-lo ali. Os olhos dele estavam azuis no tom habitual do clã Garow e uma mão com garras segurava o seu pescoço bem preso.

400

— Isso mesmo queridinho. Esse corpo ainda está vivo - ela sorria presunçosamente - Me matando, você estará pondo um fim à sua amiguinha também. Assim como matou Adele, - completou - ou Catarina, tanto faz. Seus olhos se arregalaram ainda mais. — É querido, eu sei - ela riu mais uma vez - Não vai querer ser o responsável por mais uma morte inocente, vai? Ele largou o seu pescoço e ela sentiu o ar entrar de bom grado em seus pulmões. Ian agora olhava para o chão e Satine se preparou para dar um golpe de misericórdia. Fácil demais, pensou. Mas ela não esperava o que estava por vir. Tudo aconteceu em poucos segundos. Os olhos espantados do Garow à sua frente ganharam uma expressão de raiva e suas presas ficaram visíveis quando ele se virou, desferindo um golpe contra a barriga de Laila. Satine sentiu a carne da garota sendo dilacerada pelas unhas do Garow e uma dor aguda a fez cambalear para trás com a mão no recente ferimento. Por quê? Por isso ela não esperava. Então, o medo que ela sentia antes voltou com toda a força. Por algum motivo, Ian não estava ligando para a vida de seu hospedeiro. Ana era tão importante assim? Ela começou a sentir o desespero tomar conta dela. Não podia morrer dentro do corpo de Laila ou seu espírito voltaria ao maldito purgatório. — Eu não vou voltar pra lá! - ela berrava - Você não se importa com a garota, seu monstro? Vai matá-la! Mas ele começou a se aproximar sem prestar atenção no que ela dizia. Satine cambaleava tentando se afastar dele e foi quando deu uma olhada rápida na mão que tampava o ferimento e percebeu que não havia nada. Nenhuma gota de sangue. Mas como? A dor ainda era forte demais, tinha que estar machucado. Tinha que estar sangrando. Ela olhou para a barriga e constatou que nenhum ferimento era visível. De onde vinha então a dor? E quando olhou para as mãos do garoto, percebeu uma luz azul fraca na ponta de cada dedo, envolvendo cada uma das garras. Ele deu mais um golpe e desta vez ela percebeu o que acontecia. As unhas de Ian penetravam a sua carne como se fosse um holograma, sem ao menos ferir o corpo. Mais uma dor dilacerante fez Satine cair de joelhos no chão. Ela não conseguia mais falar quando sentia as garras atravessando mais uma, duas, três vezes seu corpo sem ferir sua hospedeira. Era uma dor mil vezes maior do que se estivesse tendo seu corpo de verdade retalhado.

401

Ele vai me destruir. Ele está me atacando diretamente no espírito. Concluiu em desespero. Ela se desesperou quando viu sua mão erguida ameaçadoramente contra seu coração. — Não! - gritou antes de uma explosão negra sair de seu peito. Ian teve de levar a mãos aos olhos para se proteger da luz negra emanada. Ao abri-los, pôde notar um espectro deslizando pelas paredes rochosas em direção a um corredor. Ele correria atrás dele se não tivesse uma prioridade naquele momento. À sua frente ele via Laila. Caída ao chão, ela não estava desmaiada, pelo contrário, ela tinha as mãos em frente ao rosto e se encolhia contra a parede rochosa. A garota mexia as pernas como se tentando fugir de algo, porém, lhe faltavam forças ou o nervosismo a deixara desajeitada demais para escapar. Seu choro soluçante ecoava pelas paredes frias e escuras da caverna. — O que está acontecendo? - ela gritava ainda sem coragem de destampar os olhos. Ian se precipitou para junto da garota, segurando seus braços. — Laila! - ele a sacudia e depois a abraçou. De inicio, a garota tentou empurrá-lo, mas o alívio do toque gentil a fez se agarrar em Ian enquanto chorava copiosamente. Ian a sentia tremer enquanto o segurava com tanto desespero que suas unhas arranhavam-lhe brandamente a pele. — Laila - ele disse com a voz mais baixa agora que ela parava de gritar - Calma. Está tudo bem. — I... Ian? - apesar do alívio, sua voz ainda era muito nervosa. — Sim. — O que... o que você está fazendo aqui? O que aconteceu comigo? Onde estamos... - ela atropelava uma pergunta em cima da outra. — Calma - ele apertou os braços em volta dela - Está tudo bem agora. — O que esta acontecendo? - ela começava a se acalmar. — É uma longa história - e a segurou novamente pelos braços, obrigando-a a olhar pra ele - Escuta! Eu não tenho tempo de te explicar, mas vou te dizer o que tem que fazer. Subindo essas escadas atrás de mim, você vai sair na antiga casa abandonada na rua acima da nossa. Você vai reconhecer na hora. Quando sair daqui, eu quero que você chame a policia pra cá. Está ouvindo? Ela o olhou com os olhos arregalados.

402

— Está me ouvindo? Ela balançou a cabeça, confirmando — E você? — A Ana tá aqui também. Eu tenho que pegá-la e depois te explico. Vai! - e a largou. Laila precisou de alguns segundos ainda para conseguir vencer a paralisia que mantinha seu corpo preso ao chão. Enfim, conseguiu sair e seguiu as instruções do garoto. Menos uma com quem me preocupar. Ian preferiria que ela fosse atrás de Solange, mas Laila ia enchê-lo de perguntas e tempo não é uma coisa que ele podia desperdiçar naquelas circunstâncias. E depois, não queria ajuda da maga até ter certeza de que estivesse com Ana. Tinha medo que eles fizessem alguma coisa com ela se outro mago aparecesse. Pelo menos a polícia pode fazê-los recuar se for preciso, pensou. Apesar de toda a tensão, ele se sentia mais tranqüilo. Pelo menos a garota não tinha sido ferida inutilmente. No fundo, Ian agradeceu os anos em que furtava conhecimentos dos Xamãs de sua tribo, pois foi numa dessas empreitadas que conseguiu as Garras da Morte. Uma forma de ferir um espírito intruso, sem molestar seu hospedeiro. Por essa ela não esperava, pensou sorrindo. Mas não tinha tempo de se gabar. Sabia a direção pelo qual o espectro havia fugido e seguiu.

* Ana esperava cheia de tensão. Satine havia saído há alguns minutos no corpo de Laila para enfrentar Ian. Apesar de a demônio alegar não ter poder o suficiente para derrubar o garoto, ela tinha uma vantagem: não havia como Ian atacá-la sem ferir a amiga. E então, ele teria duas escolhas: uma, seria atacar o corpo de Laila sem se preocupar com nada. Mas isso mataria a garota. E a segunda, seria se deixar capturar, ou pior... Mas ela não queria pensar no fim dessa possibilidade. E foi quando percebeu algo muito rápido que havia cruzado seu caminho. Ele chegara pela passagem em que Satine havia saído e entrou em uma nova logo à esquerda de Ana. Ela não conseguiu ver o que era. Parecia um vulto.

403

- Eu realmente não esperava por essa - comentou a voz misteriosa que vinha de dentro do recipiente com um ar divertido. O que houve? E foi quando uma figura alta e esquia, com longos cabelos prateados saiu das sombras, por onde o vulto havia entrado anteriormente. Era provavelmente a mulher mais bonita que Ana já tinha visto na vida. Parecia uma modelo com seu porte altivo, mas naquele momento, suas belas expressões estavam danificadas pelo desespero que parecia engolir-lhe o coração. — Meu senhor - disse ofegante - eu... — Acalme-se Satine - o tom zombeteiro mudou para o paternalista - Fico feliz que tenha escapado. Eu realmente não esperava que aquele moleque fosse capaz de tal artimanha. O Ian venceu? Ana começou a se animar. Mas a que preço? E pensou em Laila. — Não sei que magia era aquela. - o tom de voz da mulher ainda era de súplica Ele conseguiu me ferir sem machucar a vadia e... — Calma Satine - pediu novamente a voz. Ana ficava mais feliz com o que ouvia - Eu também fui pego de surpresa. — Mas ele está vindo pra cá – lembrou já alterada - O que pretende? Usar a garota como escudo? - e apontou pra Ana? — Não - a voz riu. — Então? — Você por acaso se esqueceu do plano original? – Mas quem havia respondido não fora o recipiente, mas sim uma terceira voz que fez Ana olhar para outra passagem naquela gruta que ela nem tinha reparado existir. Um túnel se estendia por trás de onde ela estava. Estava escuro, pois a luz das tochas ali não chegava e Ana forçava a vista para tentar vislumbrar de quem era aquela voz aveludada que fez sua espinha se congelar. Quando finalmente a dona da voz apareceu, a garota percebeu que havia cometido um equivoco. Aquela era a mulher mais bonita que já tinha visto na vida. As sombras começavam a ganhar forma, revelando uma figura tão alta quanto Satine, só que esta parecia ter mais leveza em seu andar. Enquanto se aproximava, a figura misteriosa parecia que dançava ao som de uma música que só ela aprecia ouvir e à medida que foi deixando a escuridão, suas formas desenvolvidas foram se revelando.

404

Parecia uma mulher de uns vinte e cinco anos, com um corpo bem feito. Cada detalhe dela parecia ter sido desenhado. Seus cabelos formavam uma cascata em sua cabeça, como a de Satine, mas eram negros e volumosos e pareciam possuir luz própria enquanto brilhavam a luz das tochas. Seus olhos eram negros, como os de Ian quando não invocava sua descendência Garow, e seu olhar era inexpressivo, mas demonstravam uma força que fez Ana se encolher. Quando esses olhos pousaram sobre Ana, a garota sentiu um profundo desprezo vindo daquela mulher. Seu rosto era tão inexpressivo quanto seus olhos, que realçavam os traços bem feitos. Assim como Satine, ela parecia ter sido esculpida ao invés de concebida. — Você! - ela viu a esperança brilhando nos olhos de Satine, que não conseguia manter a boca fechada, tamanho era o choque. Quem é ela? Ana se perguntava. E a mulher deu um sorriso frio, mostrando uma fileira de dentes perfeitos. — Meus parabéns Satine. - disse em tom cortante - Conseguiu distrair Lucien por tempo o suficiente. A voz irônica dela demonstrava que estava tirando sarro da loura, que se irritou, mas não se atreveu a dizer nada. O medo que a mulher morena provocava em Satine chegava a ser palpável para Ana. Nem mesmo quando soube que ia enfrentar Ian ela se mostrou tão temerosa. E sem dizer mais nada, saiu, se dirigindo sem pressa por onde Satine havia saído na primeira vez. — Como a conseguiu? - perguntou Satine, estupefata, quando a outra desapareceu. A voz riu. Um som de prazer saiu daquele recipiente que deixou Ana apreensiva. — Eu disse que tínhamos uma arma secreta - gabou-se a voz - Ela mostrou interesse em se reunir a nossa nobre causa há algum tempo. Mas eu só a chamei agora, pois as circunstâncias exigiram. — Acha que podemos confiar nela? - perguntou. — Não tenho certeza – disse com ar divertido – Mas acredito que no momento ela tenha tanto interesse quanto nós em ver o Garow morto. Morto?

405

Satine olhou para Ana aparentemente se lembrando agora que a garota ainda estava ali. — Então queridinha. Não faz idéia de quem seja? Ana não respondeu. — Só te digo uma coisa - ela a olhou com a expressão superior – Dela, o Ian não passa.

406

55 - Acerto de contas.
— Eu já sei sobre o feitiço que usou! Eu já sei sobre a Beladona! Agora eu quero explicações - gritava Ângelo com a cruz erguida contra o frade. Henrique estava surpreso. Pelo que se lembrava, Rauch era mortal quando se envolvia numa caçada, mas por algum motivo havia deixado aquela presa escapar. Vendo que talvez tivesse que terminar o trabalho do Inquisidor ele mesmo, o frade alisava a cruz que levava dentro do bolso das vestes que usava enquanto dizia em tom de voz casual: — Bem, se você já sabe de tudo, o que quer que eu lhe explique? Ângelo arregalou os olhos para expressão calma do frade. — Eu quero... - disse tentando recuperar a fúria - que você me diga o que fez. O que você fez com aquele feitiço? Para quem era? — Você não imagina? - disse surpreso – Não me diga que toda aquela fama de Prodígio era um mito? A raiva do garoto começava a se tornar incontrolável. — Me diga! - urrava. — Já que insiste. - e deu de ombros - Mas duvido que você não tenha chegado às conclusões por si mesmo - Henrique deu um risinho debochado - Eu usei o feitiço proibido de Lucas Levstross. Eu usei a beladona para armazenar o feitiço e fazer com que o bispo o ingerisse sem perceber. - ele deixou o silêncio pairar por uns segundos - E eu tenho um pacto com os Inquisidores e permiti a sua entrada aqui. - e revirou os olhos vasculhando a mente – Acho que não sobrou mais nada. — Por quê? - A voz de Ângelo era tão fraca que ele se surpreendeu por Henrique conseguir entender o que ele dizia. Não conseguia acreditar que o frade pudesse falar daquilo de forma tão natural. — Cansei de ser hipócrita Ângelo - seu tom perdeu o deboche de antes e agora assumia o ar pedagogo - Durante anos a Ordem dos Iluminados vem combatendo o que ela considera o mal: a magia. Mas utiliza de seus meios sujos para fazê-lo. Somos tão desprezíveis quanto os demais magos que ajudamos a caçar. — Você não pode estar falando sério! - Ângelo balançava a cabeça, descrente Você está aqui há anos a mais que eu. Como não consegue enxergar nossa posição? Nós usamos a magia sim...

407

— Usamos um mal para combater outro! - interrompeu o frade - Se você leu as palavras do senhor, como se exige nos deveres de casa, vai perceber que ele jamais concordou com isso: usar um mal para combater outro. — Mas a magia não é um mal! E sim quem a usa. Os motivos contam tudo! Nós nunca usamos a mágica levianamente. Quando participamos da Inquisição, foi só porque as tribos mágicas tinham perdido o controle. Espalhavam o caos com suas guerras. Tentamos manter a estabilidade. A risada de Henrique ecoou pelas paredes da catedral. — Você realmente acredita nisso? – e balançou a cabeça, demonstrando pena Acho que deve estudar mais prodígio - Apesar do sorriso, seus olhos emanavam uma frieza - Da próxima vez, faça seu dever de casa, como eu fiz. Eles ficaram em silêncio, um encarando o outro. Ângelo furioso e Henrique calculista. O garoto havia desperdiçado uma grade vantagem sobre o frade. Ele estava com o bônus da surpresa e o fato de seu oponente estar desarmado. — Desperdiçou sua chance - falou Henrique e Ângelo o encarou sem entender Quando fazemos uma coisa temos que ir com tudo - e apertou o crucifixo. - Não podemos deixar pontas soltas. - E encarou o garoto - Você quer proteger essa sua igreja hipócrita, então não deveria ter hesitado em destruir alguém que esta tentando derrubála. Desculpe, mas não vou cometer o mesmo erro... E num movimento rápido e preciso, ele sacou o crucifixo e lançou contra o garoto um impulso invisível. Mais uma vez, Ângelo mostrou uma habilidade fora do comum conseguindo se esquivar no último momento, fazendo a magia bater nas portas atrás dele, fechando-as num estrondo. — Realmente você tem um grande potencial - ele olhava para o lado onde o garoto havia se jogado. E Ângelo já havia se posto de pé e o encarava com a arma erguida. Ângelo sentia o corpo doer. Estava cansado com certeza. Desde a luta contra o garoto em Três Corações e contra os Inquisidores logo depois que não descansa. E agora ele sente seu corpo reclamando, mas não era tempo para isso. O frade, ao contrário, parecia muito bem. Seu olhar estudioso corria pelo corpo do garoto, analisando a vantagem que ele tinha naquela luta.

408

— Bem meu filho - começou o Frade, dando um passo em sua direção - desta vez o Bispo não poderá lhe defender. Pena que você não poderá fazer o dever de casa nunca mais. Então, Ângelo une as mãos colando-as pelas palmas e uns cinco bancos próximos se erguem no ar, espatifando-se e formando uma nuvem de estacas pontiagudas e serragem. Então, guindo-as com uma mão, as estacas voam em cima do frade que não pareceu se impressionar com o ataque. E da mesma forma que fez contra Ian, Ângelo dividiu as estacas em dois grupos e, enquanto fez um investir no ataque direto, tentou com o outro uma investida surpresa pelas costas do adversário. Henrique nem ao menos se moveu. Assim que a madeira chegou a uma distância de um metro dele, ela se transformou em serragem. O ataque surpresa também não surtiu efeito e logo, uma neblina marrom enchia o lugar. — Eu me lembro que você era mais forte - o frade parecia decepcionado - Deve estar cansado. Ângelo estremeceu com a facilidade em que seu ataque foi repelido. Realmente estava mais fraco do que supunha. E erguendo a cruz contra Ângelo, o Frade fez mais um impulso se dirigir contra o garoto. Ângelo tentou ainda formar uma barreira para conter o impacto, só que a energia usada não era o suficiente. Sua barreira estourou como vidro e ele foi arremessado contra a parede próxima. Um gemido ficou abafado em seu pulmão quando sentiu as costelas latejarem com o impacto. Mais uma vez, Henrique veio se aproximando vagarosamente. Seu rosto mostrava o quão feliz estava em poder brincar com o jovem mago. Ângelo tentava pensar, mas nenhuma idéia lhe vinha à cabeça. Estava tão fraco que tinha medo de desmaiar se colocasse força demais num ataque. Sabia que deveria ter descansado um pouco antes de chegar à igreja, mas foi tudo corrido demais. Agora seu corpo cobrava dele a fadiga. Então, percebeu que não segurava mais sua arma. Ela havia voado quando ele atingiu a parede e agora não a encontrava. Olhava em volta, mas seu crucifixo parecia ter ido pra longe. O desespero começou a tomar seus pensamentos e o impedia de raciocinar direito. Tudo parecia se mover em câmera lenta conforme o frade vinha em seu encontro. Com toda a calma ele ergueu o crucifixo bem alto e fez uma das estacas remanescentes voar no peito do garoto. Mais por instinto do que por raciocínio, ele se jogou contra uma

409

fileira de cadeiras logo à frente, evitando ser empalado. Quando caiu no chão, pôde ver sua cruz caída embaixo de um dos bancos. Ele ergueu a mão em direção, tentando fazer com que ela voasse em sua direção, mas esta apenas tremeu um pouco. Calma, Ângelo. Ordenou a si mesmo, lutando para regular a respiração. Mas o garoto sabia que suas chances não eram boas. Talvez o frade tivesse razão e ele perdeu a única chance que teve quando hesitou em atacar quando ele estava vulnerável. — Olá! - a voz vinha de cima. O garoto olhou num sobressalto e viu o frade em cima de uma das cadeiras, acenando para ele. Num novo movimento, fez o garoto se arrastar pelo chão da igreja até a outra extremidade. Novamente suas costas bateram com força na parede fazendo seu corpo deslizar até o chão. Ele tentou se levantar, mas viu que suas pernas não lhe obedeciam. Estava fraco demais e agora sua cruz estava mais fora de alcance que nunca. Tentou atraí-la com a mente, mas um novo impacto o fez perder a concentração. Agora estava fincado contra a parede, sentindo uma enorme pressão contra o peito. O frade andava em sua direção com a cruz erguida. — Que tal acabarmos logo com isso? - torturar o garoto parecia ter perdido a graça para Henrique. Ângelo caiu no chão, sentindo o ar bem vindo preenchendo seus pulmões. Ao tentar se mexer, sentiu a perna arranhar e foi quando percebeu que uma estaca de madeira o havia cortado quando caiu. No desespero, agarrou a estaca próxima e tentou se levantar, mas as pernas falharam e ele caiu de joelhos, fazendo a perna latejar onde havia o corte. Ele segurou a nova arma, apontando-a em direção a Henrique se dando conta do ridículo que era aquilo. Eu não tenho a menor chance. Pensou numa graça desesperadora. Não dava para se levantar. Suas pernas falhavam Acho que é melhor acabar logo com isso, pensou. Melhor eu me matar, para ele não conseguir fazer isso por mim. De onde veio isso? Ângelo se assustou com o próprio pensamento. Não tenho mais porque viver. Melhor dar um fim a minha vida de uma vez. O garoto sabia que estava pensando nessas coisas, mas não sabia por quê. O pensamento vinha dele, mas ele não o escolhia e o pior é que a idéia começava a ficar tentadora.

410

— Para com isso! - gritou para o frade que sorria. Vou me matar agora, pensou novamente e sua mão direita começou a se erguer contra o próprio pescoço. Ângelo não conseguia controlar o membro. Todo o resto do seu corpo estava paralisado e apenas a sua mão parecia ter vida. — Sabe que suicídio é pecado, não é garoto? - zombava Henrique. Foi então que Ângelo percebeu um pequeno fio prateado que se encontrava ligado a sua mão e se seguia até um dos dedos de Henrique. O frade mexia seus dedos e o braço do garoto avançava perigosamente em direção ao próprio pescoço. O desespero fez o sangue se bombear em seu organismo, enchendoo de adrenalina. Tentava ir para trás, mas as pernas fracas não deixavam. Sentia o corte na perna fisgando enquanto tentava se levantar. Em alguns momentos, até conseguia fazer a mão atacante recuar, mas logo ela voltava, aproximando-se cada vez mais. Começou a sentir os dedos tocando seu pescoço, envolvendo-o num abraço mortal. Ângelo tentava andar de joelhos para fugir da mão controlada e mais uma vez sua perna ferida reclamava. Ele conseguiu fazer a mão recuar alguns centímetros novamente, mas logo um novo pensamento lhe ocorreu e um desejo de morrer veio com mais força, fazendo-a envolver completamente o pescoço e começando a lhe apertar. O ar começava a ficar escasso para o garoto. Ele tentou controlar a mão boa para fazer com que ela empurrasse a controlada e foi quando percebeu que ainda segurava a estaca. Mais uma vez ele tentou se afastar, lutando para ir para trás, mas as pernas não obedeciam. Mais uma pontada de dor. O sangue de sua perna começava a fazer daquele chão mais escorregadio. Ângelo segurou a estaca com mais força quando sentiu mais uma pontada e os dedos que o estrangulavam se afrouxaram por um segundo, permitindo que algum ar entrasse. E foi então que lhe surgiu uma idéia. É isso, pensou.

Henrique olhava o garoto lutar contra seu feitiço da Marionete. Dava para ver o desespero que todo o ser humano enfrenta quando há iminência de morte. De começo, estava divertido olhar para Ângelo sofrer. Seu orgulho estava ferido do último confronto dos dois, onde o garoto, mesmo sendo tão jovem, conseguiu subjugar seu ataque e ainda contra-atacá-lo, fazendo-o se lançar para trás.

411

Mas agora ele estava na vantagem e já provara para si e para ele que suas habilidades eram superiores. Podia parar com esse momento de sadismo. Era hora de realmente dar um fim àquilo. Logo os Inquisidores chegariam e ele não queria que testemunhassem aquela cena. Então, aproximando-se do garoto, ele segurou a cruz abaixada e logo se podia ver algo mudando na arma. Ela começava a aumentar de tamanho, tendo uma áurea prateada que a envolvia. No minuto seguinte, não era mais uma cruz que o frade Henrique segurava: era uma espada. Ao ficar a poucos centímetros do garoto, que ainda se estrangulava, Henrique ergueu a nova arma acima da cabeça. Um movimento e fim. Pensou, fechando os olhos para não vê-lo sendo decapitado. Mas algo de inesperado ocorreu e foi quando sentiu duas mãos encostando-se em seu peito. Ele não teve tempo de abrir os olhos para ver o que era antes que seu tórax recebesse um impacto que parecia a colisão de um caminhão. Henrique voou em alta velocidade contra a parede no outro extremo da imensa igreja enquanto sentia suas costelas sendo espatifadas com a força do golpe. A dor foi tão aguda que ele nem mesmo sentiu quando suas costas se chocaram contra a parede e foram deslizando até o chão. Um cheiro de sangue começava a encher suas narinas e ele sentia falta de ar. Como? Foi tudo o que conseguiu pensar.

412

56 - O Reencontro.
Esses corredores parecem ter quilômetros. Mesmo correndo ao máximo, Ian encontrava dificuldades em chegar à câmara final, onde provavelmente Ana se encontrava. Todas as curvas eram muito parecidas e o garoto tinha a leve impressão de estar andando em círculos. Tomando noção de sua condição, ele decidiu parar e estudar o local. Ele se encontrava de frente para um corredor rochoso, onde se tinha duas alternativas: uma passagem a sua direita e outra seguindo a fundo o escuro corredor de pedras. Achando já ter passado por uma bifurcação semelhante, ele marcou com as unhas a parede que dava acesso ao final do corredor, antes de seguir em sua direção. Quando foi dar o primeiro passo, porém, ouviu que alguém vinha em sua direção. O som de passos era facilmente reconhecível naquele silêncio onde se encontrava. Os passos eram vagarosos, mas ritmados. Parecia que seu visitante andava sem pressa. Ian olhava o corredor à sua frente de onde o barulho vinha. Seus olhos tentavam fixar o escuro, esperando que as trevas revelassem alguma forma. Já estava preparado para um confronto, e foi quando viu que quem vinha era uma mulher. As trevas impediam o Garow de ver os traços físicos da visitante, mas mesmo assim, não pôde deixar de sentir um frio na espinha. Por alguma estranha razão, sabia quem era sem nem poder ver o rosto. Um grupo de reações lutava para se aflorar no peito dele: surpresa, pânico, vergonha, felicidade. Seu rosto era inexpressivo enquanto olhava a bela mulher que surgia na luz das tochas. Com certeza, nunca tinha visto aquele rosto, mas assim como aconteceu há muito tempo na França, isso não fazia diferença. Era uma pessoa que, ele não sabia o porquê, mas que poderia reconhecer em qualquer época e sob qualquer forma. Uma pessoa que antes inundava seus sonhos, mas que nos últimos tempos, só tem lhe aparecido em seus mais sombrios pesadelos. — Catarina - ele não sabia se sua voz estava forte o suficiente para ser ouvida. A mulher sorriu. Um sorriso, que fez Ian ficar arrepiado. Não era o mesmo sorriso doce da mulher que amou há anos atrás. Era frio e o garoto não conseguiu interpretar seu significado. Um silêncio opressor se instalou. O peito de Ian começou a ficar pesado demais. Os flashes na noite de sua desgraça nos EUA vieram com toda a força. O quarto

413

destruído, as mãos sujas de sangue, a mulher de sua vida morta. Ele não conseguia pensar o suficiente para formular palavras e torcia para que seus olhos conseguissem expressar toda a culpa que sentia e que seus lábios não conseguiam pronunciar. Não sabia por onde começar. Se perguntando como ela tinha voltado, ou se ajoelhando e implorando seu perdão. Suas pernas estavam bambas e ele sentia que não conseguiria manter-se em pé por muito tempo. Ela nada falava, mas a sua simples presença o fazia sentir tantas coisas que ele julgara estar enterradas para sempre em seu interior. Ela deu um passo à frente e ele hesitou dando dois pra trás. Agora seus braços tremiam. Ele sentia suas garras sendo recolhidas sem sua permissão. Assim como no Canadá, quando ele ainda era Kalish, a simples presença daquela mulher o deixava intimidado. Catarina deu mais um passo pra frente. Ela parecia feliz em vê-lo. Ela erguia os braços como se quisesse abraçá-lo, mas Ian sentia seus instintos brigando para afastá-lo daquele que poderia ser o abraço de uma Dama de Ferro. Sabia que algo estava diferente nela. Sabia que não era a mesma Catarina que tinha encontrado em forma de Adele há anos atrás. Essa era diferente, mortal. Ele sabia que tinha que se defender. Que ela não lhe faria bem, mas era incapaz de erguer a mão contra ela. — C... Como? - foi o máximo que conseguiu falar. Ela sorriu novamente. — Não está feliz em me ver? - sua voz não tinha mais o calor de antes. Não era o timbre que ele conhecia. Corre, alguma voz gritava dentro dele. — Estou - ele não conseguia mentir. Era ótimo saber que de alguma forma ela continuava viva. Mas ao mesmo tempo ficava triste. - O que aconteceu... com você? Ela não falou nada e continuou se aproximando e Ian não tentava mais manter uma distância segura, apesar da voz em sua cabeça estar gritando desesperadamente para que ele saísse dali. — A culpa é minha - ele sentia seus olhos ficarem marejados. — Não faz mal - ela disse com um tom mais próximo do amoroso - Eu não o culpo. Aquelas palavras foram como um bálsamo para o peito do Garow. Por uns leves segundos ele sentiu que toda a culpa que carregava durante duas vidas haviam sido

414

removidas. Suas pernas não o sustentavam mais e ele caiu de joelhos no chão. Seus olhos também não sustentavam mais a água e lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Ela agora estava muito próxima e o abraçou. Apesar de toda a sua frieza, seu corpo ainda era quente. O mesmo calor que ele se lembrava. Seus braços caiam nele como um lençol fino e suave e Ian sentiu todo o cansaço da corrida. Ela agora segurou seu rosto, fazendo seus olhos se fixarem uns nos outros. Não eram os mesmos olhos. Esses eram negros e olhá-los dava em Ian a sensação de vislumbrar um poço sem fundo. A voz em sua cabeça havia se calado. Ela havia desistido de alertá-lo. Sabia que ele estava condenado à forte presença daquela mulher. E foi quando seus rostos se aproximaram. Ele sentiu certo desespero como aquele que sempre o tomava quando alguém tentava beijá-lo. Mas não teve forças para resistir e seus lábios se tocaram. O beijo da mulher era apaixonado. Começou com toda a intensidade como se ela, assim como ele, esperasse anos e mais anos por aquele momento. Mas o surpreendente é que ele não sentiu a mesma coisa. Durante anos ele viveu lembrando-se dos momentos que tinha passado junto daquela mulher. Lembrando-se daquele beijo de mil e uma maneiras diferentes, mas agora que aconteceu, toda a mágica se foi. Não sentiu toda aquela paixão saindo dele como sentia antigamente. Não era o mesmo beijo. Nem mesmo a besta mostrou sinais de tentar se apossar, tamanha era a falta de animação que partia dele. Ian se lembrava do quanto era perigoso aquilo. Sabia o risco que causava sentir tanta paixão. Mas quanto tinha sentido tanta paixão pela última vez? Quando um beijo foi perigoso pra ele. A imagem de um quarto escuro tendo apenas a lua e uma lamparina como fontes de iluminação veio em sua mente. Na cena, ele tinha outra mulher em seus braços. Uma garota cheia de problemas, mas que com a sua ajuda tinha recuperado tudo o que tinha. Uma garota frágil que poderia ser facilmente destruída por ele, mas que apesar de sua fragilidade, nunca demonstrou medo dele, como demonstraram até mesmo os mais poderosos magos do mundo ao lhe conhecerem. Alguém que o amava quando ele fingia ser uma pessoa normal, mas que não deixou de amá-lo quando descobriu o monstro que era. Ele sabia o que faltava naquele beijo. Simplesmente não era o beijo de Ana. — Ana - disse num sobressalto. Como podia ter se esquecido dela?

415

Ele largou Catarina e sentiu que o sangue voltou a circular em seu corpo. A paralisia havia passado. Suas garras voltavam a crescer e ele podia finalmente reagir se não fosse tarde demais. O que aconteceu depois foi muito rápido. O rosto de Catarina, que parecia sereno, mudou para uma fúria insana. A voz dentro da cabeça de Ian começou a alertá-lo que nem uma louca, mas ele não teve tempo de reagir quando uma dor alucinante lhe atingiu na boca do estomago ao mesmo tempo em que viu uma luz rosa brilhar entre os dois. Ian sentiu as energias evadindo de seu corpo rapidamente e sua pernas ficaram bambas novamente. A caverna foi perdendo suas formas e tudo ficou escuro.

416

57 - Dever de casa.
Provavelmente suas costelas haviam sido feito em migalhas, refletiu Henrique cuja dor do impacto fora tão forte que por um segundo ele acreditou que não sobreviveria para poder abrir novamente os olhos e se questionar: Como ele conseguiu fazer isso? O cheiro e o gosto de sangue tomavam todo o sentido do olfato e paladar do mago. Ele sentia o líquido quente inundando seus pulmões, percebendo que logo estaria afogado em seu próprio sangue. A sua frente, o jovem aprendiz estava caído de cara no chão, completamente imóvel. Estará morto? Pensou e um brilho de esperança o iluminou por uns instantes. Mas não, Henrique conseguia ver que Ângelo ainda respirava. Estava apenas fraco, mas aquilo era uma questão de tempo. O garoto não tinha mais forças nem para se erguer. Ele usara muita energia para dar aquele último ataque e agora não conseguiria nem ao menos se manter de pé. Tinha sido derrotado, por ele. Um mero estudante. Ângelo mexeu a cabeça e olhou para ele. Um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios e Henrique sentiu a raiva ganhar força em seu interior. — Frade... - ele tentava falar. Parecia que iria desmaiar a qualquer momento - Eu fiz meu dever de casa. Maldito. Trovejou. Queria ter gritado, mas não se encontrava capaz de emitir palavras. Como? Ele se perguntava. Ele estava fraco e tinha sido pego completamente pelo meu feitiço de Marionete. E, ainda se questionando, foi deslizando o olhar pelo corpo do garoto e foi quando finalmente percebeu. Antes de cair morto, ele viu uma estaca de madeira, igual às muitas que ele tentava investir contra Henrique, fincada fundo em sua perna esquerda. Foi isso. Esse foi seu último pensamento antes de a luz abandonar seus olhos.

Ângelo não conseguia mais se manter de pé. Tinha economizado suas últimas energias para aquele ataque, pois sabia que essa era a única forma de derrotar o frade. Com um único golpe, que teria de ser mortal. Tentou mover os braços e se arrastar, mas nem isso sua condição permitia.

417

A estaca em sua perna o doía profundamente, mas ela o havia salvado. Trechos de suas anotações sobre feitiços passavam por sua cabeça.

Feitiços tendem a controlar as emoções e o poder de decisão de seu alvo. Logo, para alguém vitima de uma mágica de controle, a única saída é conseguir focalizar toda a sua atenção em algo diferente. O alvo da atenção da vítima tem que ser algo muito tentador ou completamente impossível de se ignorar para que o enfeitiçado não possa pensar em outra coisa a não ser naquilo.

A dor é alguma coisa que não se pode ignorar. Ângelo havia percebido, enquanto tentava loucamente se livrar da mão que o estrangulava, que sempre que sua perna ferida reclamava, ele era capaz de assumir, nem que por poucos segundos, o controle de seu corpo. Se um simples arranhão já era forte o suficiente para chamar sua atenção, fazendo-o ignorar os pensamentos emitidos pelo frade, o que dirá um buraco de uns três centímetros de diâmetro. Sem pensar duas vezes, Ângelo fincou a estaca contra a própria perna e a dor foi tão grande que ele sentiu recuperar todo o controle do corpo, instantaneamente. Depois, foi apenas simular até que Henrique abrisse a guarda. Ângelo estava satisfeito consigo mesmo. Só queria ter forças para ir ver se o bispo estava bem, mas sabia que seria impossível, pelo menos pelas próximas duas horas. Até lá, seu corpo não moveria um centímetro. Ângelo sabia das conseqüências desse ataque, mas não teve escolha. Desde que descobrira sobre a traição do frade, ele tentou vir o mais rápido possível de volta ao Rio de Janeiro. Por sorte, havia um ônibus pronto para partir, mas não tinham vagas. Foi quando teve um plano. Ele sabia que os Inquisidores eram mestres em rastrear a vida das pessoas. Telefones, e-mails e cartões de crédito nunca estavam seguros com eles por perto. Foi então que decidiu comprar uma passagem para São Paulo com seu cartão esperando despistá-los. Depois, entrou como clandestino, dentro do ônibus, ocupando a parte das bagagens. A viagem foi terrível e ele não conseguiu descansar nada. E agora seu corpo cobrava umas horas de repouso. Infelizmente, ele não dispunha de duas horas. E isso ficou claro depois de ouvir as portas da igreja rangendo ao se abrirem e ver os homens de terno preto que chegavam,

418

carregando armas e ostentando o símbolo de uma cruz preso no bolso do terno como um broche: o símbolo da morte. Desesperado, ele ergueu a mão para frente tentando chamar sua cruz, mas ela nem se quer mexia. Se não tinha forças nem para se levantar, jamais conseguiria invocar a arma e muito menos usá-la para algo útil. Estava totalmente vulnerável. Os homens foram em direção ao frade e um deles pôs os dedos em seu pescoço. Depois, se virou para um dos companheiros que estava de pé ao seu lado, aparentemente o líder, dizendo: — Morto - uma voz profissional, sem sentimentos. O líder confirmou com a cabeça. Todos usavam óculos escuros e Ângelo não conseguia ver os rostos com clareza. Mas não faria diferença. Nunca na vida, até a tarde anterior, tinha se confrontado com um Inquisidor. Não conhecia o rosto de nenhum e com certeza não reconheceria seu futuro assassino. E foi quando um dos homens de preto olhou pra ele. Mesmo por trás dos óculos, Ângelo percebeu que o líder tinha se surpreendido por encontrá-lo ali. Sem nada dizer, ele foi se aproximando com a arma apontada para sua cabeça. Tarde demais para se fingir de morto. Tudo andava em câmera lenta e Ângelo teve tempo de refletir antes do inevitável fim. Dizem que quando se está para morrer, toda a sua vida passa diante de seus olhos. Mas todas as imagens que vinham em sua cabeça tinham haver com aquela igreja e com o seu mestre que ele tentava inutilmente proteger. Sua vida tinha começado dentro das paredes daquela igreja. Sua razão de viver, o que tinha nascido para viver. Bispo. Pensou. O homem que tinha dado tudo isso pra ele estava em algum lugar daquele templo, mas ele não tinha condições de protegê-lo. Se ele tivesse sido mais astuto, poderia ter percebido tudo antes. Poderia ter contado a seu mestre, que derrotaria Henrique sem pestanejar. Se tivesse percebido antes, aqueles Inquisidores não sujariam sua preciosa igreja com aquelas patas imundas. E foi quando o homem apontou a arma para sua cabeça e seus últimos pensamentos foram: Perdão mestre. Ditas numa oração silenciosa.

419

58 - Conto de Fadas.
Ana não sabia se era o lugar fechado ou a apreensão, mas estava cada vez mais difícil de respirar naquele ambiente. Faziam-se alguns minutos que a bela mulher havia ido atrás de Ian e até agora não se sabia de nada. Satine andava de um lado para outro, impaciente, porém, dava para ver que não estava preocupada com o destino da parceira. Quem seria essa estranha mulher? Seria tão poderosa que a vitória sobre Ian estaria certa? O que seria dela e do garoto se a demônio estivesse certa? O que fariam quando pegassem o que queriam? Na verdade, o que queriam com aquele simples pedaço de pano? Ainda ajoelhada no chão, Ana se sentia completamente inútil. Não conseguia canalizar sua energia em direção aos braços para arrebentar as cordas que a prendiam, e mesmo que fosse capaz, o que faria depois? Como passar pela mulher demônio? A única coisa que conseguia fazer era rezar para que Ian fosse capaz de vencer seu próximo desafio. Era estranho, mas ela se sentia num conto de fadas. A princesa presa pela fera maligna, esperando unicamente que o príncipe viesse em seu socorro. Ana odiava essas histórias. Elas sempre mostravam a figura frágil da princesa e sua total falta de capacidade de se cuidar sozinha. Em sua infância, sempre criticava esses personagens, dizendo que uma mulher tinha que ser independente e não esperar que um homem viesse salvá-la. Infelizmente, ela se encontrava numa posição igual à delas. Estava presa, sob o domínio de uma demônio e não podia fazer nada a não ser esperar que Ian fosse capaz de passar por todos os contratempos e chegar até ela. Estava com vergonha de si mesma. Ela que queria ser boa o bastante para andar a seu lado, mas não se mostrava nem ao menos capaz de cuidar dela mesma. Foi só ele deixá-la sozinha por uma hora que já conseguiu se meter em apuros. E agora ele teve que voltar em seu socorro. E não só agora, mas em toda a sua vida teve de depender de Ian. Quando era criança e ele a ajudou a superar seu trauma. Quando adolescente, ele teve que protegê-la das ofensas de Lucas, do demônio do sitio, do mago e dos Inquisidores em Três Corações. Minha vida sempre foi um conto de fadas. Ela sempre foi a princesa que tanto criticava.

420

Queria poder fazer algo, mudar sua condição, mas a impotência a jogava mais fundo num abismo de melancolia. Olhava seus pulsos e percebeu que eles começavam a apresentar feridas de tanto esforço que fazia para se libertar. Quanto mais força fazia, mais os membros doíam e mais infeliz se tornava. Sentiu vontade de chorar, mas não se permitiu. Não queria dar o gosto àquela mulher em saber o quão desesperada estava. Nessa última semana já tinha chorado bastante. Mais do que chorou por quatro anos de vida. — Não chore bebê - a voz aveludada de Satine era carregada de deboche - Logo, logo seu príncipe encantado vai estar aqui com você. Ana não respondeu, mas parou de tentar arrancar as cordas. — Catarina não vai matá-lo, pois meu amo não quer isso agora. Então, vocês terão um tempinho para falar algo um para o outro. Catarina! E foi quando a compreensão a atingiu como uma enxurrada na cabeça e Ana passou a olhar com espanto o nada. - Então você a conhece? - Satine tinha um sorriso travesso nos lábios - Então sabe que seu amado não tem chance com ela. Mas como ela voltou? Por que voltou? — Aquela mulher tem muito poder - Ana sentiu a pontada de ciúme na voz de Satine - Ian não pode disputar com ela. Ela infelizmente tinha razão, mas não totalmente. Era verdade que Catarina foi uma eximia maga quando viva. E provavelmente seu poder não diminuíra com a morte. Mas não era esse o motivo para o qual Ian perderia a batalha. Ela ainda se lembrava da dor e da culpa contidas em cada uma das palavras do Garow, enquanto narrava os acontecimentos em que ele colocava fim à vida de Catarina. Ela sabia a culpa que ele ainda devia carregar e sabia que ela o tornaria incapaz de repetir o gesto. Agora ela tinha certeza: Ian perderia a luta. — Finalmente - Satine se virava saltitante em direção ao corredor escuro por onde Catarina havia saído. Ana olhou e viu que seu medo se confirmara. Nos ombros da mulher, vinha um corpo inconsciente. A cena era bem estranha: Catarina, uma mulher magra de feições delicadas, sustentando com tanta facilidade um corpo que devia pesar uns trinta quilos a mais que o dela.

421

Sem falar nada, Catarina atirou o corpo inconsciente de Ian ao chão sem nenhum cuidado. E o garoto nem ao menos se mexeu, mesmo com a brutalidade da queda. — Ian! - Ana gritava. Por que ele não se mexia? — Catarina, você não... - começou Satine com uma voz meio hesitante. — Não. - Respondeu – Não o matei. Só está inconsciente. Ana sentiu um alivio no peito com aquelas palavras. Agora ela olhava e via que o garoto não parecia muito machucado, a não ser por um enorme buraco em sua camisa, na parte da barriga. Daquela distância, dava para ver o abdome vermelho do garoto. O círculo rasgado dava a impressão que a camisa foi estilhaçada por alguma coisa e sua barriga apresentava uma série de arranhões circulares como se o tivesse sido atingida com uma espécie de broca. Satine aproximou-se do garoto e se abaixou, alisando seu ferimento. — Você o pegou de jeito. Catarina permaneceu muda. Parecia alheia a tudo a que acontecia, mas quando olhou para Ana, sua expressão mudou. Desta vez, dava para ver a raiva que a mulher sentia da garota. Ela fitava Ana com uma fúria assassina nos olhos. Mas apesar da força daquele olhar, Ana não sentiu medo, pois a preocupação com Ian tomava todo o seu pensamento. — Ian! - Gritou novamente. Queria que ele acordasse. Só assim ficaria mais tranqüila. — Ele está vivo, queridinha – lembrou Satine, mas Ana continuou tentando chamar Ian sem resultado. Satine agora alisava o rosto do garoto com uma doçura que fez Ana sentir raiva. — Larga ele! – rosnou, fazendo a mulher rir. — Ou você vai fazer o que? - desafiou - Vai me encher com sua voz irritante? - e começou a acariciar os cabelos dele. - Tão bonitinho - comentou - Pena que não pode se divertir. Desperdício. — Acho que seria bom prendê-lo e pegar logo o que queremos - cortou Catarina Ou ele pode acordar e degolar você. Eu não impediria - completou com um sorriso forçado. — Vejo que alguém está com ciúmes - zombou Satine – Não vai me dizer que você também não queria tirar uma casquinha?

422

Nenhuma resposta foi dada, mas o simples olhar de Catarina foi o suficiente para fazer Satine calar a boca e recolher seu sorriso zombeteiro. Se pondo de pé, ela sussurrou uma serie de palavras incompreensíveis para Ana e no segundo seguinte, um conjunto de grilhões negros prenderam Ian nos pulsos, no pescoço e nos tornozelos. Depois, começou a tatear os bolsos dele e não se atreveu a fazer mais nenhuma brincadeira, nem com Catarina e nem com Ana, até finalmente pegar o pequeno pedaço de tecido. — Achei. — Ótimo - quem respondeu foi a voz no cálice. Ana tinha até se esquecido dele. — Senhor. Podemos começar - falou Satine. Dava a impressão que a mulher queria levar o crédito pela captura. Ana olhava para Ian jazido inconsciente no chão e tinha a péssima sensação que aquela história não teria um final feliz.

423

59 - O segredo dos Garows.
— Ian! - ele ouvia uma voz que fez seu coração acelerar de alegria ao reconhecer. Tudo estava escuro e as coisas começavam a ganhar forma muito vagarosamente à medida que recuperava a consciência. Ian sentia uma dor aguda em seu estômago como se o tivessem perfurado. Aos poucos, seus olhos se abriam e ele começava a reconhecer o ambiente. Viu Ana e sentiu um alívio que logo foi substituído por uma tristeza. À frente, enxergou uma bela mulher loura e a reconheceu como sendo Satine. Viu também Catarina e teve o ímpeto de rosnar tamanha era a ira que aquela imagem lhe causava. Um ódio, que na verdade também sentia dele mesmo, pois sua hesitação provocara sua captura e agora sua vida e de Ana estavam nas mãos daquelas duas. Mas não eram apenas elas. Havia uma terceira pessoa ali. Ian podia sentir sua presença medonha em torno deles. Uma presença que fazia seus pelos se ouriçarem. Notou crescerem suas garras e as presas enquanto um rosnar incontrolável começava a se formar em se peito. Aquela presença o deixava em profundo alerta, mas não sabia identificar de onde vinha. Tentou se levantar, mas percebeu que estava preso. Correntes negras que não pareciam estar presas a nada o envolviam com grilhões no pescoço e também nos pulsos e tornozelos. Eram pesadas e o máximo que ele conseguiu, com toda a sua força, foi ficar de joelhos. — Ian - ele ouviu a voz alegre de Ana e olhou para a garota a uns seis metros à sua frente. Amarrada, mas não parecia ter sido ferida a não ser por alguns cortes nos pulsos. A presença daqueles cortes fez uma onda de raiva passar por ele como um impulso elétrico, que ele teve que reprimir. — Vejo que acordou meu filho - ouviu uma voz dizer, mas não sabia de onde. Só sentiu a apreensão aumentar dentro dele. Logo as duas mulheres se viraram para o Garow. Notou que a loura segurava nas mãos o brasão de seu clã, mas aquilo não importava pra ele na hora. A voz tinha o feito ficar de prontidão. Queria localizá-la ao mesmo tempo em que tentava controlar o medo que tal presença lhe causava. Olhou mais uma vez para Ana e seus olhos se cruzaram com os da garota.

424

— Desculpe - disseram os dois ao mesmo tempo. Agora ele olhou para as duas mulheres. — Acho que vocês já me têm. - disse - agora podem... — Soltar a garota? - completou Satine, e riu depois - Acho que a vida não é igual aos filmes cachorro. — Como é nobre esse meu filho - escutou a voz dizer mais uma vez e foi quando notou o pedestal que se encontrava em um dos cantos da gruta onde estavam. Em cima dele, havia um recipiente e era dali que vinha a presença que tanto o atormentava. — Quem é você? - perguntou ao jarro. — Alguém que conhece toda a sua vida, meu filho. A maneira como a voz o tratava começava a irritar o garoto. — Para de me chamar assim! - Mas levou uma bofetada na cara da loura. Ele sentiu uma louca vontade de mordê-la, mas por algum motivo, ela foi reprimida — Não fale assim com meu senhor - ameaçou Satine. — Não precisa querida. Ele não sabe de nada. - a voz parecia calma. — O que vocês querem de nós? - desta vez foi Ana quem perguntou. — De você? - olhou a loura com desprezo - Nada. Só isso. - ela balançou o pequeno pedaço de pano - Mas como nem pra isso você serviu, tivemos que ir atrás dele. Agora ele - olhou para Ian - Poderia vir a ter grandes utilidades. Se ele quisesse. Satine foi se aproximando de Ian até ficar cara a cara com ele, estudando-o com os olhos cor de avelã. — Uma pena que ele não vai querer - disse por fim, levantando-se. — Uma pena - concordou a voz - Você foi uma das minhas melhores criações, meu filho. — Do que está falando? - Ian tentava manter a voz o mais fria que conseguia, mas aquele recipiente lhe causava tanta apreensão que cada palavra proferida saía com um rosnado. — Meu jovem Ian - disse a voz - Último descendente do clã mais poderoso que já pisou na terra - ele se deliciava com as palavras - Nunca se perguntou de onde vieram as habilidades incomuns de sua tribo? Nunca se perguntou como elas acabaram por desaparecer da face da terra?

425

O garoto ficou em silêncio. Ana sentiu a mesma surpresa que Ian parecia demonstrar. O que aquela voz teria de relação com a família de Ian? — Você me pergunta porque te chamo de meu filho, pois lhe direi. Você, assim como todos os membros da família Garow, são meus filhos. Vocês foram criados por mim. Seus dons, seus instintos, sua maldição. Tudo. Essa foi a minha maior obra de arte. Meu maior feito. - agora sua voz tinha uma revolta contida – E também a minha maior decepção. — Está mentindo - disse num riso que tentava esconder a pontada de desespero. — Repita isso até acreditar - zombou a voz - A verdade, meu filho, é que você e todos os Garow nada mais são do que frutos de um pacto com um demônio. Frutos de um pacto comigo. — Mentira! - ele gritava. Ana via que ele tentava se mostrar descrente e escarnecer do que o demônio falava, mas não conseguia. — Ian - Ana o chamava, tentando fazê-lo manter a calma. — E por terem se rebelado - continuou como se não houvesse tido interrupções Foram condenados. Por isso Ian, você não pode aproveitar da companhia de sua donzela. Por isso você é um monstro. Isso é conseqüência da traição de seus descendentes. Isso é o preço que se paga por tratar mal um pai tão devoto e tão bondoso. Era a primeira vez que a voz parecia alterada. Suas palavras ecoavam e as luzes das tochas pareciam ganhar mais força a cada aumento no tom. Satine chegou até mesmo a se encolher, diante da fúria. Catarina, porém, continuou indiferente. — Quando seu clã chegou até mim. Implorando pelo meu poder, eu era um dos maiores demônios que já tinham feito contato com os vivos. Um dos mais antigos. Seus antepassados tinham medo do lugar onde viviam. O ambiente era hostil, os animais os atacavam, havia outras tribos ameaçando sua permanência nas terras do norte do Canadá. - fez uma pausa - Eu me comovi. Eu vi o potencial de vocês. Magos habilidosos, mas que precisavam de um empurrão e eu cedi-lhes a mão. Eu lhes dei o dom de controlar as criaturas que tanto os atormentavam e assim fazer com que fossem capazes de jogá-las contra aqueles que tentavam expulsá-los de suas terras. Eu lhes dei o dom de moldar o clima hostil em que viviam e fazê-lo trabalhar para vocês. Eu lhes dei conhecimentos sobre a vida e a morte que nenhum outro mortal jamais sonhou. E como vocês me pagaram? Escondendo o que eu mais desejava. Deixando de revelar ao

426

seu tão querido pai, a coisa que ele mais queria saber no mundo. A coisa que ele mais procurava. Ele se calou e as luzes voltaram a seu tom normal. Satine continuou de onde ele parou: — Para todo o demônio, a coisa que ele mais sonha é ser vivo de novo - e olhou bem nos olhos dos seus prisioneiros, dava para ver que ela estava realmente comovida com o estado de seu mestre - Vocês nunca morreram e não sabem o tormento que é. Descanso eterno? - ela riu - Não. Infelizmente, aquilo é tudo, menos descanso. A vida no purgatório é um verdadeiro inferno e o inferno muda a gente. “Vivemos com fome, mas não há comida que nos satisfaça, Morremos de sede, mas não podemos morrer, pois já passamos por isso. Sentimos desejos, mas somos incapazes de tocar no corpo quente de um ser vivo. Sonhamos com o dia em que podemos andar de novo com os vivos, saciando nossa luxuria e nossa gula. E só conseguimos isso através de um corpo humano. Mas apesar de eficiente, esse método não é o suficiente. Podemos comer, podemos beber, podemos amar, mas sempre de forma incompleta. Não é um corpo nosso. Então nunca podemos nos entregar completamente a ele. O hospedeiro sempre tenta nos expulsar e isso nos obriga a sermos maus com eles. Não! Possuir um ser-vivo não nos satisfaz completamente. Nunca nos fez. Nunca nos fará. Ter um corpo que fosse verdadeiramente nosso, sempre foi nosso sonho maior.” Ela ficou em silêncio olhando para o jarro. Seus olhos mostravam a profunda compaixão que sentia. — Para meu senhor também é assim. - disse com a voz amorosa - Assim como todos os outros demônios, ele não sente mais nada. Não ama e não vive. Mas ele ainda sofre mais que todos nós, pois ao contrario de mim e de Catarina, ele já passou por isso por muito tempo. Meu senhor é o mais velho demônio que eu conheço. Anos, décadas, séculos, milênios de existência, nessa profunda agonia de estar entre a vida e a morte. “E essa idade é uma faca de dois gumes. Pois além de aumentar o poder de um espírito e dar-lhe experiência, também o enfraquece. Todos nós temos uma ligação com a vida. Mesmo depois de mortos, existem coisas capazes de nos impedir de fazermos a passagem completa. Mas infelizmente nada é tão forte que possa nos prender ao purgatório por muito tempo. No fim, todos os demônios acabam que por morrer completamente. Não sei como acontece, eles simplesmente desaparecem. Morrem. Meu

427

amo é o mais velho de nós. Durante anos vem lutando contra a morte final. Ele viu outros demônios perecerem na sua frente. Ele também testemunhou os avanços do planeta. Ele adquiriu poder e conhecimentos inimagináveis para qualquer mortal ou demônio existente. E agora essa é sua sina. Devido a tanto poder acumulado, ele não consegue mais possuir nenhum humano, pois seu poder mágico é grande demais e nenhum corpo o suporta. — Ao contrário de nós – disse apontando para Catarina – que somos jovens e podemos saciar nossas necessidades mesmo que de forma parcial. Meu amo não pode – ela se mostrava muito triste – Ele não pode porque nenhum corpo suporta tamanha grandiosidade. Todos os hospedeiros morrem. “E assim ele vive um paradoxo. Forte demais para o mundo dos vivos e fraco demais para o mundo dos mortos. Pois ao mesmo tempo em que vem ganhando poder e experiência, ele também vem passando tempo demais na fronteira entre a vida e a morte. A morte final está cobrando dele seu descanso eterno. Quanto mais ele fica no purgatório, mais sua ligação com a vida vai se esvaindo e mais ele desaparece até sumir. — Há alguns séculos, – A voz falava - nós demônios descobrimos uma forma de criarmos nossos próprios corpos. Foi uma revolução. A magia do Gênesis, como nós a chamamos, era muito complexa, mas os mais capacitados de nós conseguíamos. Era um sonho se realizando, mas eu não pude desfrutar dessa utopia. Assim como os corpos humanos, os corpos feitos com essa magia não suportavam meu enorme poder e dentro de, no máximo, vinte e quatro horas, explodiam. “Naquele tempo, só os Garows ainda eram meus fieis seguidores. Todos os bruxos me abandonaram, pois sabiam que eu não conseguia me manifestar no mundo dos vivos mais com tanta força. Seus Xamãs eram meu grupo de elite. Com eles dividi todo meu conhecimento e esse meu investimento sempre trazia retornos. Como eu disse, tinha enxergado um grande potencial em seu clã e não nunca me enganei. Com meus conhecimentos, vocês revolucionavam a cada dia. Descobriam novas fórmulas, novas magias, novas técnicas e assim os Garows cresceram até se tornarem o que a história conta deles. Graças aos meus ensinamentos, eles foram capazes de criar a magia da Garra da Besta, capaz de ferir um espírito encubado em um corpo alheio. Magia essa que você usou tão covardemente contra minha querida seguidora. Todo esse conhecimento, seu clã adquiriu comigo e em troca eles me mantinham informado de suas descobertas. Mas tinha uma coisa que eles não queriam dividir comigo.

428

“De alguma forma, eles conseguiram uma maneira de aperfeiçoar a mágica da Gênesis. Tinham alcançado um novo nível para ela. Um nível que poderia criar um corpo forte o bastante até para receber minha alma imortal. Mas esse conhecimento, eles não queriam dividir comigo. O que eu mais desejava, eles esconderam de mim. Mas logo os Garows aprenderam que quando se assina um contrato com o diabo, sempre tem uma apólice de seguro que garante sua prisão a mim.” Todo o ambiente estava tão dominado pelo silêncio, que Ana acreditava até mesmo poder tocar a tensão ali presente. Ela olhava para Ian e via o quanto ele lutava para não dar ouvidos ao que a voz dizia, mas por algum motivo tudo estava fazendo sentido pra ele. E agora, a história chegaria ao ápice. A razão pela qual o clã mais poderoso do planeta foi desgraçado. — E daí teve o inicio da desgraça de vocês. - continuou - Suas habilidades animalescas tinham um preço, meu caro Ian. Sua ligação com os lobos era mais profunda do que vocês imaginavam. Essa ligação era tão íntima, que dentro de vocês uma besta também estava adormecida. Cada Garow tinha uma parte de mim dentro dele. Uma natureza inumana, uma besta incontrolável que, na verdade, todos os seres viventes possuem, que é a sua natureza animal, mas que em vocês estava muito mais intimamente ligada. “Esse Monstro se mantinha preso dentro de vocês graças a mim. Eu tinha as coleiras que prendiam suas bestas, mas a sua traição me obrigou a soltá-las. E foi então que seu clã sucumbiu num mar de sangue. Amigo matando amigo. Esposa matando marido. Mãe matando filho. Irmão matando irmã. Vocês se tornaram os animais desprezíveis que eram, mas não queriam ver. Você escapou do massacre Ian, por ter usado a Magia da Ressurreição. Mágica muito boa, tenho que admitir, mas que não me interessa, já que já estou morto. Mas foi apenas uma questão de tempo para o demônio que há em você despertar. E foi numa noite, num hotel em Michigan que você o sentiu pela primeira vez. Naquela noite, você sentiu na carne tudo o que seus antepassados experimentaram”. O silêncio se instalou no lugar. Ian olhava o chão com seus olhos azuis em carne viva, trincando os dentes de tal forma que pareciam prestes a despedaçarem pela pressão de sua mandíbula. Ana olhava para o lado e viu que Catarina, pela primeira vez, demonstrava certa apreensão pela história. Por um leve momento, ela se abraçou. Um gesto que mais demonstrava uma tentativa de se consolar do que amenizar um frio.

429

E por um segundo apenas, Ana foi capaz de sentir compaixão com relação a ela, mas não conseguiu nutrir esse sentimento. Independente dos motivos, eles agora estavam em perigo e isso, em parte, era culpa daquela mulher. — É isso que você é Ian. - completou a voz - A cria de um demônio. Um monstro que, como eu, não pode mais sentir o que é estar vivo. Por isso que digo que você é meu filho.

430

60 - O arrependimento do velho mago.
Que bagunça. O tenente de operações, Ronaldo Lima, olhava a cena de destruição da Igreja da Iluminação, vislumbrando as marcas de luta nas paredes, nos móveis, em tudo. Havia muita serragem pelo chão e duas poças enormes de sangue onde estavam os corpos de Ângelo e de Henrique. Foi quando olhou o moleque magricela caído no chão e, tomado pela raiva, apontou a arma em sua cabeça deu um tiro que fez o som ecoar pelas paredes da catedral Ele e seus três companheiros haviam sido enviados para a Igreja com duas missões básicas: a primeira, matar César, pois este começava a perder a utilidade, e a segunda, levar o frade Henrique até o QG. Na verdade, Ronaldo não gostou da segunda idéia, mas o comandante Rauch havia deixado essa decisão bem clara. De acordo com ele, o frade ainda tinha muita utilidade para os Inquisidores, devida á sua ampla experiência com inúmeras irmandades mágicas além da Ordem dos Iluminados. Muitos nomes poderiam ser conseguidos com o incentivo certo. O soldado olhava o corpo inerte de Henrique no chão, prevendo o perigo naquilo. Rauch vai me matar. Pensou desolado. Conhecia bem o comandante e sabia que ele não tolerava falhas. Não foi nossa culpa, Ronaldo tentaria explicar, chegamos lá e o homem já estava morto. Mas não daria certo. Se vocês tivessem chegado antes, ele ainda estaria vivo, ele responderia. Estava ferrado, mas pelo menos completaria o segundo passo do plano. De acordo com suas informações, o Bispo se encontrava numa câmara secreta, cuja passagem ficava atrás de um grande quadro com a imagem da Virgem Maria, logo após o altar principal da Igreja. O problema era que Henrique abriria a porta para eles e Ronaldo só esperava que ele tivesse feito isso antes de morrer. Então, andando em direção do quadro, torceu para que Deus o tivesse auxiliado nesse ponto. E foi quando viu um soldado ir em direção ao garoto. — Como está ele está? - perguntou em tom profissional. — Morto senhor - informou o oficial. — De mais um tiro, só de garantia. - ordenou. — Sim senhor.

431

Ronaldo se dirigiu até o quadro e, colocando a mão na imagem, sentiu-o deslizar. Perfeito. Pelo menos alguma coisa de boa naquilo tudo. Agora poderiam continuar. Mas algo estranho aconteceu. Não foi nada do que viu ou ouviu, mas sim o fato de não ouvir nada que o deixou suspeitoso. Já estava na hora de escutar algum tiro sendo dado. — Ainda não ouvi o som de tiros sargento – Ronaldo foi se voltando para o grupo enquanto falava, mas ficou mudo ao ver que todos os seus homens estavam petrificados. Todos em suas posições originais, com armas em punho. Não mexiam um músculo e pareciam nem ao menos respirar. — O que houve soldados? - ele tentava disfarçar a apreensão crescente que sentia. Nada aconteceu. Nenhuma resposta ou reação. Começou a andar em direção aos homens, tentando fazê-los saírem de seu transe. Balançou um, esbofeteou o outro, mas nada aconteceu. Olhou para o corpo inerte do garoto. Ele ainda está vivo? E avançando em sua direção com o fuzil em punho, mirou para atirar. Tinha que acabar com ele, só podia ser ele o autor daquilo. Mas quando disparou, porém, algo estranho se passou. O longo cano do fuzil começou a se entortar no segundo em que ele puxou o gatilho. Então, o cano se envergou num ângulo de cento e oitenta graus fazendo com que o orifício da arma ficasse apontado para ele. Não teve tempo de largar a arma e um tiro o atingiu no ombro. Apesar de usar sempre um colete, sentiu o projétil perfurando-lhe o corpo. Depois de atravessar-lhe o ombro, a bala atingiu uma estátua de Jesus crucificado atrás dele, que se espatifou. Como? Ele tentava pensar, mas a dor não deixava. A arma foi ao chão e Ronaldo caiu logo depois, sentado, tentando assim mesmo sair de perto do corpo do garoto. Tinha que fazer algo, mas foi quando sentiu o chão quente. Olhou para o piso de taco da igreja e notou que ele parecia todo em brasa. — Ah! - gritou quando uma labareda subiu rapidamente, devorando seu braço. Tentou rolar para o lado e apagar o fogo, mas logo as chamas se alastraram envolvendoo totalmente. Estava sendo queimado vivo. Nunca imaginara que uma dor tão alarmante pudesse existir. Estou no inferno. E a última coisa que conseguiu vislumbrar antes de desmaiar, foi uma imagem um tanto estranha para aquele ambiente. Uma mulher idosa, vestida de forma extravagante, estava de frente para a porta da igreja.

432

Como ela entrou? Mas não houve tempo para respostas. Logo as chamas tamparam sua visão e a última cena vista antes de partir foi a do olhar furioso que a estranha mulher lhe lançava.

Quatro sons ocos soaram quando os corpos dos Inquisidores caíram no chão. Esmeralda estava imóvel diante da cena que acabara de testemunhar. Ela acreditou ter entrado com a mestra na igreja, mas agora, era como se a Cassandra original tivesse permanecido do lado de fora e quem adentrou com ela fosse outra mulher. Não estava mais risonha, não parecia louca. Estava séria e com um brilho mortal nos olhos. A jovem tentava repassar tudo o que havia ocorrido em sua cabeça para ver se compreendia melhor o que acabava de acontecer. Assim que elas chegaram à porta da Igreja da iluminação, ouviram um barulho de disparo. Esmeralda ficou apreensiva, imaginando o que poderia ter acontecido e foi quando olhou para sua mestra. Cassandra já despertou muitas sensações em Esmeralda. Seu ar alegre e aluado, sempre causou espanto, ternura ou vergonha na garota, mas esta era a primeira vez que ela olhava para a mestra com medo. Esmeralda via a raiva em seu rosto, era como se de fato ela soubesse exatamente o que aquele disparo significasse. E sem nada dizer ela agarrou o braço de Esmeralda e, juntas, atravessaram as portas da igreja sem nem ao menos abri-las. Era noite no Centro e não havia movimento nas ruas. Quando entraram, Esmeralda viu a cena tão terrível. Uma cena que ela sabia que Cassandra já havia visto antes. Uma cena que era a responsável pela mudança de humor em sua mestra: Jazido no chão, estava o Iluminado. Deitado, morto. Seu assassino andava em direção a um quadro que ficava atrás do altar e mandara um de seus subordinados dar um último disparo contra o morto. Quando Esmeralda pensou em tomar alguma atitude contra eles, percebeu que era tarde. Cassandra já havia tomado medidas. Ela viu uma áurea no tom laranja envolver o corpo da mulher. As chamas eram vivas e Esmeralda se espantou com o brilho que emanavam. Nunca tinha testemunhado o verdadeiro poder da Sonhadora, mas na verdade, não tinha o que ver. Foi tudo tão estranho. De repente, os homens começaram a gritar, a chorar, a espernear de dor. Parecia que algo invisível os molestava e lhes provocavam tanta dor que homens adultos se transformavam em crianças, implorando para que alguma divindade os ajudasse ou que os deixasse morrer. Esmeralda nunca sentiu tanto medo vindo de

433

alguém em toda a sua vida. Sabia que eles estavam desesperados, mas ela não entendia com o que. Foi quando finalmente caíram. Mudos no chão, mortos talvez. Cassandra saiu de sua inércia e se dirigiu ao garoto no chão. Esmeralda via seu rosto vermelho e seus olhos marejados. Quando falou, sua voz era engasgada: — Perdoe essa velha meu menino. Esmeralda se conservou muda. A Fada Morgana, concluiu consigo. A mágica suprema de ilusão, capaz de criar uma realidade tão palpável para os cinco sentidos que é quase impossível para a vítima se dar conta de que está em sua volta não é verdade. — Não consegui chegar a tempo. Na verdade não acreditei em você a tempo. - ela pedia perdão. A garota andava vacilante em direção aos dois. — Mestra - ela colocou a mão no ombro de Cassandra. Por mais triste que fosse o momento, não conseguia chorar. Sentia-se apreensiva demais. Sabia que o garoto estava morto, mas pelo que sua mestra havia lhe contado, a igreja estava condenada. Em sua visão, Cassandra viu a igreja em chamas e elas tinham que sair dali e levar o bispo, se possível. — Eu sei querida - falou a mulher. Foi quando escutaram o gemido de dor que vinha de um ponto à frente. Nem ela nem Cassandra precisaram olhar para saber de quem se tratava. Por detrás da imagem da Virgem Maria, o Bispo César vinha a toda velocidade. O homem parecia esgotado e suas investidas acabaram lhe rendendo tropeços e quedas. Esmeralda fez menção de ajudá-lo, mas foi impedida por sua mestra. — Deixe-o - falou a mulher - Ele quer fazer isso sozinho. Esmeralda olhava o velho homem à sua frente. Estava abatido, mas emanava uma força incomum. Uma força causada pela dor. Ele vinha se arrastando para junto do corpo do discípulo jazido no chão e lágrimas corriam de seus olhos, engasgando-o e o impedindo de formar palavras em sua boca.

Ele gemia enquanto se aproximava vagarosamente apesar do esforço que fazia para ir rápido. Quando finalmente conseguiu alcançar o corpo de Ângelo, agarrou-o. E ao sentir o frio de sua pele, não pôde segurar a emoção que já sentia e pôs-se a chorar. As duas ficaram caladas, deixando aquele momento para o mestre e discípulo.

434

Por quê? Era tudo o que ele conseguia pensar. César tentava chamá-lo, acordá-lo com gritos, sacudidas e até mesmo socos. Preso com todas as esperanças naquela tarefa inútil, ele demorou a ver que suas investidas de nada adiantariam. Já era tarde. Quando caiu em si, voltou a chorar, com o rosto encostado no tronco do garoto. — Por que Deus? - falou para o céu e foi quando finalmente notou as duas mulheres postadas diante dele — Deus não tem culpa disso, meu caro César. - falou Cassandra. O bispo olhou com surpresa para as duas mulheres. — O… o que estão fazendo aqui? - gaguejou. — Tentamos ajudar - respondeu Cassandra triste - Mas chegamos um pouco tarde. Sinto muito – completou sinceramente. — Quem fez isso? Quem fez isso, eu mato. — Já é tarde - continuou Cassandra, ignorando o tom alterado do velho bispo. César olhava em volta e viu os corpos dos inquisidores no chão e do Frade Henrique e se assustou mais uma vez. — Henrique também? - se alarmou. - Foram eles! - gritou olhando para os inquisidores - Eu os mato. Eles me traíram. — Eles nunca lhe traíram Bispo - Interveio Cassandra. Esmeralda ainda se impressionava com a calma de sua mestra falando com aquele homem em cólera. - Eles são caçadores de magos e estavam caçando magos. Não há traição. Você sabia com o que estava lidando. — Do que você esta falando, bruxa? Cassandra deixou aquela passar. — Não acho que você deveria descontar em mim sua raiva. - aconselhou - Se quer culpar alguém, se quer chamar alguém de traidor eu lhe recomendaria aquele cadáver ali - e apontou para Henrique. César olhou sem entender. — Ângelo descobriu há algum tempo a traição de Henrique. Como não conseguia falar com o senhor, pediu minha ajuda. Pelo menos de certa forma. Ele o estava enganando bispo. Ele era um agente duplo e enquanto dizia servir de intermédio entre você e os Inquisidores, era a ponte que colocava esses homens em sua igreja. — Você está mentindo. - ele balançava a cabeça, descrente. — Acho que você pode conferir se quiser.

435

O bispo ficou calado. — Mas não quer - completou - Sabe que estou lhe dizendo a verdade. Sei o quanto você é bom para analisar as pessoas. É uma pena que seu caminho se cruzou com o de alguém com uma habilidade ainda maior para dissimular. - e olhou para o corpo de Henrique. — Eu vou matá-los - bufou bispo. — Quem? Os Inquisidores? - perguntou incrédula - Boa sorte. - continuou em desprezo - Eles são milhares e estão em toda a parte. O senhor sabia disso o tempo todo. Vai ficar o resto de seus poucos dias tentando e não vai conseguir nem a metade. O homem a olhava com cólera e Esmeralda estremeceu. Era incrível ver aquela batalha psicológica entre dois magos de tão alto nível. O bispo estava em fúria e Cassandra parecia à vontade. — Pare de se enganar bispo - continuou num tom sério, porém amável - Você não pode contra eles. Há muito perdemos essa guerra e não será um homem que mudará isso. O bispo baixou a cabeça, olhando o corpo do aprendiz. — Sei que dói – completou – mas não há como mudar. E se quer culpar alguém, culpe a si mesmo. — Como? - ele olhou descrente para a mulher. — Ângelo morreu tentando seguir seu sonho. Ele queria completar a missão em seu nome, pois via que você não apresentava condições para isso. Mas você desvirtuou tão sagrada missão. “Seu sonho foi um pressagio terrível. Uma questão importante que você desvirtuou em nome de sua posição dentro da Ordem. O fato de não ter comentado isso com mais ninguém e tentar resolver um caso desta gravidade confiando apenas em inimigos e excluindo os aliados foi um erro terrível e que lhe custou à morte de Ângelo”. — Do que está falando? - sua voz agora era fraca. Apesar da pergunta, Esmeralda sentia que ele sabia exatamente do que sua mestra estava falando, mas preferia parecer não entender. A verdade devia ser dolorida demais. Nesse momento, o velho mago parecia querer voar em direção de Cassandra e Esmeralda se precipitou entre eles, mas nada aconteceu de grave. Ele se deteve e olhou o chão envergonhado.

436

— Ângelo abraçou seu sonho. Abraçou sua causa aceitando suas escolhas considerando-as as mais sábias. Mesmo que fosse contra tudo o que ele acreditava, ele foi atrás do demônio, mas era jovem demais para conseguir sozinho. E como não tinha o apoio da sua própria Ordem, que preferiu delegar a missão a seus algozes, ele pereceu. Mais silêncio. As lágrimas escorriam volumosas pelo rosto enrugado de César. Ele não conseguia encontrar argumentos para discutir. — Escute bispo - pediu Cassandra – Não se lance numa caçada insana contra os inquisidores. Você não tem chance. Ângelo não ia querer que o senhor arriscasse sua vida em vão. Uma vida que ele morreu para proteger. — O que eu poderei fazer então? - perguntava o bispo olhando o chão. — Algo que Ângelo gostaria. - respondeu – Ele morreu correndo atrás daquela criatura. Ele sentiu a urgência por trás de seu sonho. Sabia o quão importante era – e fez uma pausa - A presença do demônio continua aqui e eu sinto que seu ressurgimento é uma questão de tempo. Pouco tempo pra ser mais sincera. Ela se calou por uns segundos e ninguém disse nada durante esse tempo. Esmeralda não queria falar nada, não se sentia digna de entrar naquela conversa. — Ângelo tentou fazer isso por você. Ele realmente acreditava que era importante. Confiou em seu sonho como ninguém e se arriscou muito para impedir que aquilo voltasse. Acho que gostaria que você terminasse sua obra e não se colocasse em uma caçada insana contra seu assassino para vingar-lhe a morte - ela respirou antes de continuar, e quando falou, seu tom era despreocupado - Até porque ele já fez isso. — Ele...? - o bispo a olhou com curiosidade. — Quando chegamos aqui, apenas os Inquisidores estavam vivos. E ao ver pelo ferimento no corpo do frade, acredito que quem lhe deu um fim foi o próprio Ângelo. Ele era realmente um mago esplendido. Você o ensinou muito bem. A mulher tinha um sorriso amável e Esmeralda pôde respirar de novo ao constatar que a tensão tinha ido embora. — Ângelo derrotou o frade? — Ou isso ou Henrique cometeu suicídio apontando um impulso para o próprio peito. - comentou sorrindo e depois ficou séria ao voltar a falar - Eu tenho uma segunda noticia ruim para você bispo. Essa igreja está condenada - falou com pouco caso. Seu humor natural parecia estar voltando e Esmeralda começava a reconhecê-la de novo Não sabemos quantos magos foram descobertos pelos inquisidores graças à traição de

437

Henrique. Eu, por via de dúvidas, vou mudar de endereço e espero que você faça o mesmo. Ela pegou um cartão e lhe entregou. — Esse será o nosso novo endereço. Passe por lá se não tiver aonde ir e, principalmente, se quiser terminar o que começou. Essa é sua chance de cumprir sua missão direito bispo. - e se virou para pupila - Vamos querida. E saíram. Esmeralda deu uma última olhada para trás antes das portas da igreja se fecharem atrás dela.

Agora, sozinho, o bispo pôs-se a pensar. Não imaginava que havia feito tanta coisa ruim. Cassandra tinha-lhe dito palavras duras, mas todas verdadeiras. Tinha uma missão importante em mãos e pôs tudo a perder. E para que? Para provar aos membros do conselho que ele não estava acabado. Provar pra que? A única coisa que ele tinha provado é que realmente não passava de um velho esclerosado. Graças a ele, não sabia quantos membros da ordem e quantos magos em si corriam perigo. E foi quando se pôs de joelhos diante do corpo de Ângelo. — Perdão filho – trouxe essas palavras do fundo do coração - Você era a única pessoa que eu queria preservar. O único em quem pensei antes de fazer tudo o que fiz e foi quem mais prejudiquei. Ele deixou cair à cabeça no tronco do garoto e pôs-se a chorar, como desde criança não fazia. — Me perdoe!

438

61 - À procura da Nova Gênesis.
Meu Deus. Ana olhava para Ian sem saber o que falar. Não sabia se devia deixar o garoto sozinho com seus pensamentos ou tentar encontrar palavras de apoio. Então, esse era o motivo de sua maldição. Ela ainda se lembrava do orgulho que o garoto sentia de seu clã. Ian considerava os Garow como sendo trabalhadores e que seus poderes foram resultado de muito esforço. Era capaz de imaginar o choque que tal revelação causou nele. Ele tinha os olhos marejados, mas as lágrimas ficaram retidas. Seus dentes estavam selados numa fúria assassina e ele não emitia nenhum som a não ser o da sua respiração descompassada. Ela queria dizer alguma coisa, mas não sabia o que exatamente. Ela via Satine diante dele. Seu rosto parecia se deliciar com o sofrimento que estava causando. Mais uma vez a raiva brotou no peito da garota. Sentia uma louca vontade de pular em cima dela. Apesar de serem três demônios, só conseguia concentrar toda a sua raiva nela. Como se Satine fosse à maior responsável por tudo aquilo. Foi ela quem a enganou, que a manipulou para fazer com que ela e Ian se separarem. Ela era quem mais gozava do sofrimento que estava causando. Não tinha como sentir raiva dos outros com ela ali. — Não adianta chorar garoto - ela zombava - Seu bando de cães sarnentos traíram meu amo. Tiveram o que mereciam - Ela começou a brincar com o pedaço de tecido Mas enfim, a recompensa justa. Ana ainda não entendia uma coisa: O que aquele símbolo tinha haver com tudo? — Bem, acredito que eles não são mais úteis, não é? - era a primeira vez que Catarina falava em muito tempo. Apesar da voz controlada, era notável a ansiedade nela em colocar um fim em tudo. O jarro deu uma risada prazerosa. — Paciência minha jovem Catarina. Não podemos esquecer as boas maneiras. De certa forma, esse dois são os responsáveis por esse momento e acho que seria o mínimo justo que eles testemunhassem esse acontecimento. Satine! — Sim senhor - e mulher colocou a ponta do polegar na boca e com os dentes, abriu uma pequena ferida no dedo. Depois, segurando o símbolo Garow, deixou que duas gotas de sangue quase negro caíssem sobre o tecido. Ana olhou o que acontecia

439

sem perder um instante. Num segundo, parecia que nada havia mudado, porém, em seguida, o pano pareceu começar a ganhar volume. Seu tecido enegrecido pelo tempo começou a se rejuvenescer. Logo, a demônio segurava uma espécie de pergaminho entre as mãos. — Vocês eram bem astutos - comentou para Ian - Escondiam suas principais fórmulas na aparência de objetos inúteis para não chamarem a atenção. Em seguida, abriu o pergaminho. Seus olhos vasculhavam com esperança o pergaminho, mas começaram a apresentar frustrações com o passar das linhas. — Algum problema? - disse a voz em tom despreocupado. — Está em dialeto Garow – disse preocupada - Não sei ler. — Mas não creio que isso será um problema para nós. Não é mesmo, Catarina? Sem nada dizer, a mulher se aproximou de Satine erguendo a mão para receber pergaminho. No primeiro instante a loura hesitou, segurando o papel para mais perto do corpo como se estivessem tentando tirar-lhe algum item pessoal, mas depois consentiu. Provavelmente não estava gostando de Catarina estar se mostrando muito mais útil que ela nesses momentos finais. Com um sorriso presunçoso, Catarina segurou o papel e se dirigiu a um canto da gruta. — Enquanto nossa tradutora nos revela o conteúdo do Ritual Nova Gênesis, eu tenho que agradecê-los, principalmente a você Ian. - falava a voz, agora muito satisfeita - Afinal, você o trouxe para mim com tanta boa vontade. O garoto rosnou ao ouvir o caçoar do demônio. Ele mexia as correntes, mas dava para ver que não tinha forças para se livrar delas. E a voz riu novamente. — O que foi, meu filho? Achei que ficaria feliz em ter me ajudado. Afinal, era uma forma de se redimir depois que sua tribo o escondeu de mim por tantos anos. Você tem idéia de quanto eu esperei por esse momento? - Agora a voz começava a subir o tom - Você imagina como foi pra mim, pensar que todo o conhecimento do clã estava perdido para sempre? Quando descobri que vocês escondiam coisas de mim, minha raiva acabou por subjugar meu bom senso. Dizimei a todos e principalmente aos Xamãs, mas me esqueci de que com essa atitude, condenei os únicos seres com os quais eu poderia conseguir depois a Nova Gênesis. “Seus Xamãs eram os únicos detentores desse conhecimento e eu os perdi. Imaginei que poderia encontrar um ou outro no purgatório, mas não. Todos eles nem se

440

quer passaram por aqui, sumiram do mapa, antes de chegarem. Parece que todos aceitaram a morte muito bem e não ficaram presos como eu fiquei. Eu até encontrei um ou outro Garow, mas eram todos inúteis. Não tinham acesso a esse tipo de conhecimento. "Durante séculos eu fui definhando. A cada ano que passava eu ia ficando mais fraco e incapaz de me segurar no purgatório por muito tempo. Eu sentia a mão fria da morte me arrastando, querendo me fazer desaparecer assim como fez com muitas outras almas, mas eu não estava pronto e minha força de vontade foi suficiente para me manter aqui. “Eu também não podia mais possuir outro humano. Minha essência milenar matava todos os meus hospedeiros antes que eu pudesse aproveitar seus corpos. "E com o passar do tempo, todos os meus seguidores foram me abandonando. Todos os demônios que temiam meu poder e todos os bruxos que me viam como um Deus, foram me deixando. Sabiam que eu não conseguia mais manter ligações com o mundo dos vivos e assim não poderia lhes conceder poderes, então me largavam. As almas do mundo dos mortos que tanto me temiam e idolatravam, agora passaram a me atormentar, a me repudiar. Devido a minha fraqueza no mundo dos mortos, ninguém mais me temia. Malditas. Mas no fim de tudo, alguém se manteve fiel a mim". Ana percebeu o sorriso carinhoso surgindo na face de Satine. — Eu nunca o abandonaria, meu amo - disse toda amorosa. — Eu sei minha querida e você já provou isso inúmeras vezes. Quando viva, era minha melhor bruxa. Desde sempre você foi tão querida pra mim que nunca me atrevi a tomar seu corpo. E nem mesmo a morte naquela fogueira fez sua devoção para comigo morrer. Lá no purgatório, você me apoiou, ficou comigo. E quando voltou para o mundo dos vivos, passou a ser meus olhos na terra. Foi você quem descobriu sobre o truque dos Garows para esconder seus rituais. A mulher sorriu satisfeita. Estava muito mais feliz agora que era reconhecida. Em um momento até lançou um olhar de desdém para Catarina, como se estivesse a provocando. — Você foi muito astuta, minha menina. E como recompensa, ensinei-lhe o ritual gênesis. Apesar de ele não servir pra mim, caiu muito bem pra você. Com ele, você conseguia sempre ter um corpo novo - ele riu - Você sempre teve um bom gosto para aparência.

441

— Obrigada - ela começava a ficar convencida. A voz riu de novo. — Você achou muitos artefatos Garow que continham antigas magias e rituais, mas nenhum era importante. Eu queria a Nova Gênesis, mas estava muito difícil. — Foi então que aquelas bruxas apareceram - cortou Satine com ódio. Ana passou a prestar mais atenção a essa parte. — Sim - concordou a voz - Teresa e Samanta tiveram sorte e acabaram levando o nosso ritual antes de você. O pior é que elas nem tinham idéia do que levavam. — Malditas - gemeu Satine. — Não fique chateada minha querida - disse com doçura - aquelas solteironas tiveram sorte, só isso. O mais triste era saber que as duas eram druidas tão habilidosas. Em Três Corações, onde moravam, havia muitas fadas. Você não poderia entrar lá sem ser dizimada. Satine baixou a cabeça com vergonha. — Então, eu mesmo tive que agir. - falou a voz - Usei a mágica da Gênesis, mesmo sabendo que meu novo corpo não me sustentaria por muito tempo. Mas fui assim mesmo. “E foi uma boa coisa ter feito isso. Minha simples presença acabou por espantar aquelas borboletas do lugar e meu caminho estava livre para as duas. “Naquela noite, rumei em direção à casa de Teresa e Samanta, mas antes, me permiti assustar uma pequena criança que encontrei no caminho. Era a primeira vez em milhares de anos que eu andava na terra e me permiti esse pequeno capricho.” Ana sentiu um solavanco ao ouvir aquilo e a noite onde escutou a voz pela primeira vez voltou em sua mente. Ela se lembrou do caminho que fazia da casa de suas tias até a casa de seus avós. Lembrou-se do vento, da voz e, enfim, do fogo. Agora ela sabia de onde reconhecia aquela voz. Era a mesma de quatro anos atrás. — Você deve estar orgulhosa Ana. - falava o vaso - Elas foram oponentes valorosas. Foi difícil matar as duas. Elas não queriam me entregar o símbolo, mesmo sem saber o que ele significava, e preferiram lutar. Idiotas - comentou com descaso Samanta foi a mais difícil. Eu a matei bem no seu corredor, quando tentava correr pra pegar sua arma. Ele falava com tanta calma que Ana não conseguia acreditar que dizia a verdade. Era simplesmente frieza demais para qualquer um, até mesmo para um demônio.

442

Ana sentia o choro querendo irromper de dentro dela, mas ela o segurou com mais força do que nunca. O demônio continuou a falar, provocando-lhe uma pontada no peito a cada palavra. — Elas não me disseram onde estava o maldito pergaminho e depois de mortas eu não consegui achá-lo. A raiva mais uma vez tomou conta de mim, subjugando meu raciocínio lógico. Eu destruí o lugar e foi então que eu a vi, pequena e indefesa ao lado de uma velha. Não podia permitir testemunhas, então decidi matá-las também. Você desmaiou logo de cara, mas sua avó foi mais dura na queda. Insolentemente, ela tentou lhe proteger. Tal arrogância despertou meu instinto mais cruel. - ele riu baixo antes de continuar - Acho melhor não contar o que fiz com sua pobre avozinha garota, mas infelizmente não consegui matar as duas. “Aquele corpo que estava usando não agüentava mais. Eu havia usado muita energia contra as duas druidisas e foi então que explodi com tanto poder”. Ana não conseguia mais sentir-se conectada aquele mundo. Sua mente havia vagado por todo o passado manchado de sangue, agora reconhecendo o autor de tudo aquilo. Então, tudo o que ela viveu nesses quatro anos era culpa daquele ser. A morte de suas tias, a loucura de sua avó, sua infância perdida. Agora, mais do que nunca, ela queria conseguir se libertar dali. Não sabia o que faria se conseguisse. Ian estava preso e ainda restavam dois demônios que ela sabia que não conseguiria vencer. Mas ainda assim queria sair dali, queria fazer algo contra aquela voz. Não sabia como feri-la. Talvez entornando o conteúdo do recipiente, quem sabe. Ela forçou as cordas mais uma vez, mas nada aconteceu. Apenas seus pulsos se arranharam mais. Desta vez era Ian quem olhava para ela sem saber o que dizer. Ela chorava de tanta raiva que sentia, mas suas lágrimas continuaram contidas dentro dos olhos, embaçando-lhe a visão. Ela olhava aquelas duas que a encaravam com desprezo e sentia mais raiva ainda de estar chorando na frente delas. De fato ela sabia que não conseguiria cortar as cordas. Por mais que pudesse canalizar sua energia como Ian havia falado, ainda tinha um problema. Havia hesitação nela. Ela sabia que mesmo que conseguisse se libertar, não seria páreo para as duas acompanhantes do demônio. Ela não conseguiria liberar a energia toda naquele estado. O bom senso a estava bloqueando. Ela só queria ser louca o suficiente para se soltar dali, mesmo sabendo que só serviria para encontrar a morte mais cedo.

443

Mas ela não era assim. — Naquele tempo eu fiquei desolada - Satine se incluiu na conversa - Meu amo havia desaparecido e eu estava sozinha. Não sabia o que tinha acontecido a ele. Não sabia se tinha conseguido seu intento e também não podia me aproximar do local para averiguar. Pois as fadas ainda habitavam aquela região. — Eu também estava desolado minha filha - falou a voz - Criar um corpo foi um esforço por demais arriscado. Eu não sabia que minha frágil ligação com a vida podia ficar mais fragmentada, mas aconteceu. Eu estava definitivamente desaparecendo. Nunca mais poderia voltar. Eu havia gasto tanta energia para o ritual Gênesis que não tinha mais forças nem para me manter no purgatório. - Ele fez um minuto de silêncio Mas foi quando Satine provou mais uma vez sua lealdade. A loura ficou radiante. — Mesmo depois de quatro anos perdido no purgatório, lutando constantemente contra o fim, ela conseguiu me encontrar. Ela conseguiu falar comigo e eu lhe contei o ocorrido. Neste dia, ela percebeu de cara o que havia acontecido e eu me senti um estúpido por não ter percebido antes. O símbolo não estava com aquelas duas. Era claro que elas haviam passado adiante. Mas pra quem? E a imagem da menina chorona me veio quase que instantaneamente. Ela descobriu que o símbolo havia sido passado para você Ana. Aquelas desgraçadas nem sabiam o que tinham em mãos e passaram uma das mais potentes mágicas da história para uma criança. Satine decidiu vir ela mesma e conseguir a mágica da Nova Gênesis para mim. — Mas, mais uma vez, alguém se colocou em nosso caminho - completou a mulher olhando para Ian. — Uma surpresa, eu digo. Nunca imaginei que pudesse haver um de vocês por aqui. Realmente fiquei pasmo. - comentou a voz. — Infelizmente eu percebi de cara que não estava em seu nível. - admitiu a mulher - Um combate direto seria arriscado demais pra mim e Caius pagou caro por tentar. — Caius. - a voz parecia achar graça na lembrança - Mais um demônio que decidiu me seguir. Dava para ver que ele não era muito capaz, mas nas circunstâncias em que estávamos não tive muito que escolher. Eu não podia mais fazer o mesmo do que fiz contra Teresa e Samanta, então, não podia eliminar o Garow eu mesmo. Então, imaginei que Caius pudesse ser útil.

444

— Mas não foi - interveio Satine - Aquele idiota só atrapalhou tudo. Eu disse para ele, eu falei: não use seu corpo novo, o garoto vai perceber. Você não tem chance contra ele. Mas o imbecil não me deu ouvidos. E não deu outra. - E olhou pra Ian – Você o percebeu e eu tratei de me recolher para não ser notada também. Mas Caius era prepotente. Achava que podia contra você. Mas eu sabia que não. Por culpa dele, você fechou o cerco para proteger essa pirralha e aí ficou mais difícil de me aproximar dela. Ana olhou pelo canto do olho para Catarina e viu que as feições dela se endureceram ao ouvir essa parte. — As esperanças estavam pequenas e a fim de conseguir conselhos de meu mentor eu criei esse mecanismo para trazê-lo até mim. Uma pena que não pude fazer mais. - seus olhos ficaram tristes — Você fez um excelente trabalho querida - elogiou o vaso - Graças a você, eu saí daquele purgatório nojento e daquelas almas condenadas e consegui ficar aqui, mesmo que limitado a esse vaso. Pelo menos assim, eu podia ficar totalmente a par do que acontecia. É uma pena que tantos jovens tiveram que morrer para me manter aqui – completou numa falsa compaixão. — As vidas deles não valiam a sua meu amo - defendeu Satine. — Eu sei que não. - concordou - Foram um sacrifício válido. Com a morte e o sangue deles eu consegui me manter aqui dentro por pelo menos um dia para cada sacrifício. Os jovens desaparecidos. Então esse foi o destino deles? — Você sempre foi muito ardilosa minha pequena Satine - comentou a voz, fazendo a garota corar – Além de encontrar um meio e me trazer de volta, também encontrou um meio de separar protetor de protegida. Nunca imaginei que a solução para nossos problemas fosse tão simples. - continuou - Realmente você conhece a alma humana minha querida pupila. — Era claro que aqueles dois se gostavam. Eu os observei durante muitos dias tentando ocultar minha presença e vi que havia algo entre eles. Algo que não admitiam nem para si mesmos - ela olhava para Catarina enquanto falava. Satine estava brincando com fogo. - Então eu vi que a única maneira de me aproximar sem demonstrar minha presença era possuindo alguém, alguém próxima. Desde sempre eu mostrei interesse no corpo de Laila. Ela era bonita e eu gosto disso numa pessoa. Mas ela era tão feliz, tão

445

alegre e segura de si que não conseguia me aproximar. Mas aí um terrível acidente ocorreu com seu querido papai... - ela fingia pena. — A morte dele foi um golpe duro demais. Coitada. – continuou - Logo toda aquela alegria se esvaneceu. E eu entrei. - ela olhou para Ana com os olhos faiscando de prazer - Sinceramente Ana, como sua amiga, eu pude ver o quanto você é irritante e eu repito: não sei o que ele viu em você. Tão apagada, tão chata e tão coitadinha. Vivendo em sua auto-piedade, se lamentando pelos cantos. Você gostava dele e nunca teve coragem de dizer. Sempre alegando: ele é meu amigo. Francamente! — Você sabe manipular as pessoas minha querida - comentou A voz - Nem perceberam que não era Laila quem estava ali. — Eu a observei durante poucos dias, mas rapidamente me identifiquei com a garota. Não foi difícil imitá-la. - ela fingia modéstia - A viagem até o sitio dos pais dela seria uma boa hora para investir pesado. E ela acabou me servindo para duas coisas. — Lá eu tomei conhecimento disso – disse, olhando para o cordão de Ana caído no chão – Não tive dúvidas sobre onde ela poderia guardar nosso precioso ritual. Mas tinha o problema: Desde que Ian percebeu a presença de Caius, o garoto fechava o cerco. Eu não arriscaria roubar o colar dela, pois não queria levantar suspeitas. Então, eu vi que tinha que acalmá-lo. E qual a melhor maneira se não o fazendo acreditar que a ameaça estava finalmente morta? — Caius - falou a voz – o garoto estava descontrolado. Queria a todo custo enfrentar Ian. Eu tentei contê-lo, mas ele era irritante. — Por isso vi que o eliminando, seriam dois estorvos contidos – falou Satine – Então, eu o convenci a vir ao sítio. A enfrentar Ian, dizendo que ele poderia vencer. E ele foi. Sabemos esse ponto da história – completou rindo – Assim, eu pude voltar a investir em vocês dois – ela falava com Ian e Ana – comecei a jogar um nos braços do outro e no fim, consegui e Ana havia dado o primeiro passo. Ela olhou maliciosa para Ian. — Então, como foi beijar depois de tantas décadas, meu amigo – O garoto rosnou - Eu até imagino. Foi bem, né? Que parte você mais gostou? O desejo de querer matá-la ou depois quando ficou sozinho naquele quarto se flagelando? Acho que as duas são tentadoras.

446

Ela riu mais alto. Ana já não agüentava mais escutar. Agora estava se sentindo envergonhada. Foi usada por aquela mulher e forçou Ian a passar por tudo aquilo. Não conseguia olhar para ele. — Mas no fim o amor venceu - falou Satine, num discurso recoberto de deboche Vocês dois não resistiram. Por amor, ele teve que ir embora. Que lindo – completou. — Acho que já podem parar com o melodrama - a voz de Catarina chegou cortando o ambiente - Já decodifiquei a língua e a magia é tão simplista que podemos fazer agora mesmo. — Maravilha – exclamou a voz - Então vamos todos. Não agüento mais um minuto neste vaso.

447

62 - O Retorno.
Parecia que nada podia ser feito. Todos os preparativos foram facilmente arranjados e tanto Ana como Ian nada puderam fazer há não ser servirem de testemunhas. Estavam ambos inutilizados. As correntes que prendiam Ian eram resistentes demais e Ana ainda não era forte o bastante para romper as cordas que a imobilizavam. Assistir foi a única opção. Assistiram Catarina trazer um corpo, que Ana deduziu como sendo o de um dos jovens desaparecidos. Assistiram Satine envolvendo o cadáver num circulo desenhado no chão, usando seu próprio sangue como tinta. Assistiram as chamas vermelhas se tornarem negras. Assistiram as duas mulheres recitarem a oração de invocação por cerca de vinte minutos. Assistiram a explosão de energia que ocorreu e a cortina de fumaça que se formou após. Assistiram um homem alto, forte e careca surgir nu e ser coberto por Satine com uma roupa que ela mesma conjurou. Assistiram o demônio vislumbrando o próprio corpo com estupor. Só não sabiam se poderiam assistir a muito mais coisas depois disso.

448

63 - Paixão.
Alheia a tudo que acontecia bem em seu bairro e segura em sua casa que ficava a uma distância segura, Solange se colocava diante de sua cafeteira para preparar a bebida com a qual enceraria o dia. Sempre foi amante de café e nunca atendeu aos alertas das pessoas que alegavam que este tirava o sono, ou causava úlcera e etc., etc.. Enquanto depositava a água, café e açúcar necessários na máquina, sentia o cansaço lhe acometer, vindo na forma de leves bocejos. E ali, paciente, conforme via as gotas negras enchendo a vasilha, ela se pôs a pensar. Estranhamente, aquelas gotas caindo, uma a uma, lembravam a ela uma ampulheta. Lembravam a ela do tempo. O tempo está passando. Solange já era uma mulher de mais de sessenta anos, embora as pessoas dissessem que não parecia passar de quarenta e cinco, e gostava disso. Gostava de parecer mais jovem do que sua real idade. E esse gosto foi uma das características herdada da Irmandade da Rosa: A vaidade Gostava de se sentir bonita mesmo já fazendo parte da terceira idade. Gostava de quando era jovem e desejada. Gostava quando chamava a atenção nas ruas e os garotos lhe chamavam de gostosa. Não era muito a favor do termo, mas sentia-se bem sabendo o que ele significava: que era desejada, atraente. Na verdade, a vaidade nela se mostrava de muitas formas além da aparência. Era uma maga talentosa e gostava de ser reconhecida. Era uma pessoa simpática e gostava que as pessoas notassem isso nela. Era uma mulher culta e queria que a vissem assim. E há alguns anos, ela não se lembra exatamente quando, também gostava quando os magos a viam como uma excelente mestra. Valéria. Pensou com pesar. Sua primeira e única aluna. Alguém a quem ela dedicou a mais completa aprendizagem. Ela se lembra até hoje do curso de dança que lecionava até os cinqüenta anos. Essa era a forma que ela encontrara de se manter conectada ao mundo dos adormecidos e, assim, manter as aparências. E foi numa das aulas que conheceu a menina. Ela era uma garota linda, cheia de vida e talvez tão vaidosa quanto ela. Solange a tornou sua aluna favorita e em pouco tempo mostrou à menina os mistérios por trás do Véu. Valéria era uma criança de dez anos na época. Sempre bem vestida e com uma noção de estética muito aguçada para a sua idade, ela agarrou seu coração.

449

Mas acima de tudo, a menina era um gênio nas artes mágicas, uma verdadeira prodígio. A garota bebia das palavras de Solange e aprendia tudo em extrema velocidade. Quando tinha que apresentá-la a outros membros da Irmandade, todos a parabenizavam pelo ótimo trabalho que estava fazendo. E Solange tinha orgulho em chamar a menina de sua pupila. Sua sucessora. Minha Écolière. A adolescência de Valéria foi chegando e a beleza dela foi apenas aumentando com o amadurecimento. Era uma menina cobiçada. Era uma maga promissora. Tinha apenas um defeito. Na verdade, Solange não sabia bem que era um defeito até acontecer a desgraça. A única coisa que faltava na menina era a Paixão. Essa era a coisa mais cara na Irmandade da Rosa. Para seu culto, o amor incondicional era aquilo que transformava as pessoas em magos. Para os irmãos da Rosa, era esse sentimento que guiava os sereshumanos a aprenderem magia. O amor a alguém ou a alguma coisa. Era essa Paixão que guiaria a vida de um mago e o faria crescer. Solange amava a magia, e foi esse amor incondicional que a fez ser o que era. A paixão poderia ser por qualquer coisa, uma pessoa, um animal, um lugar ou a vida em si, mas sem paixão, nenhum mago poderia ser formado. Pelo menos, nenhum bom mago. Valéria amava as aulas, aprendia tudo com facilidade e gostava de estar sempre aprendendo e se fortalecendo. Solange pensou que isso era uma forma de Paixão, pois assim como ela, a garota também tinha seu amor voltado para o aprendizado. Mas foi o seu maior engano. Solange havia confundido uma coisa muito importante. Havia confundido a Paixão com Ambição. Não era a magia a que Valéria amava e sim o poder que esta proporcionava. A sua aluna não amava o aprendizado, ela o usava. Ela não amava a magia, ela a cobiçava. E no fim, faltando apenas uma semana para ela se tornar uma maga completa, Valéria se rebelou. Alegando que a mestra não tinha mais nada a lhe ensinar, largou tudo. Abandonou a casa onde morava, abandonou sua vida e abandonou Solange, e foi atrás de mais poder. Foi atrás de alguém que lhe pudesse ensinar mais. Disse que seria a maior maga que já existiu e que usaria de todos os meios para conseguir isso. Solange só não imaginava que ela fosse realmente usar de todos os meios. Logo a garota começou a ganhar fama entre os magos. Valéria começava a se tornar um risco para todos os outros praticantes de magia e seu nome passou a ser vinculado com uma série de assassinatos e desaparecimentos de grandes mestres do mundo. E foi quando

450

suas atitudes desmedidas começaram a chamar a atenção dos Inquisidores e a Irmandade da Rosa começava a correr um grave perigo. O conselho da Irmandade foi implacável: a garota tinha que ser detida. Essa época acabou coincidindo com o período em que Ian despertou. Apesar de muito jovem, Solange reconhecia seu poder e ele mesmo havia se oferecido a por um fim em sua pupila. — Deixa comigo Solange. Sei como é difícil pra você, então deixe para mim. - ele falava. Mas Solange recusou. Sua vaidade fez com que ela mesma tomasse para si o fardo. Para ela, ninguém tinha o direito de derrotar Valéria a não ser ela mesma. Mas suas verdadeiras intenções eram outras. No fundo, ela acreditava poder trazer a garota de volta para o bom caminho e assim, quem sabe, conseguir com que o conselho a anistia-se. Porém, quando se encontraram pela ultima vez, Solange teve a certeza que não havia volta. Na verdade, não havia quem voltar. Sua aluna já havia morrido. O que sobrou dela foi uma figura que Solange sente dor só de lembrar. Toda a beleza juvenil de Valéria havia desaparecido. O desgaste devido ao treinamento pesado e as marcas deixadas pelos rituais e pactos feitos a deixaram completamente monstruosa. Tinha apenas dezessete anos na época, mas parecia mais velha que sua mestra. Seus cabelos estavam mal cuidados e sua higiene pessoal estava horrível. Mas acima de tudo: estava louca. Ela havia se tornado uma Caótica de corpo e alma. Apesar das tentativas de Solange de ainda procurar outro caminho, não houve tempo para diplomacia e Valéria avançou com tudo em cima de sua mestra. A batalha foi feroz. A garota poderia estar muitas coisas, mas fraca não era uma delas. No fim, a experiência venceu e Solange ainda se lembrava bem daquele dia: Montreal, noite de chuva fina. Num beco deserto de uma das principais ruas, Solange deu o golpe de misericórdia. Voltou vitoriosa, mas não conseguia deixar de se sentir uma perdedora. Falhou para com o que para ela era o mais valioso de sua vida. Falhou consigo mesma por não ter percebido a garota quem treinava, por não lhe dar a devida atenção. Nunca mais quis saber de treinar novos magos. Nunca mais, até agora. Droga Ian. Por quê?

451

Havia conhecido Ian há uns cinco anos e ele acabou sendo um grande amigo desde então. Ficou ao seu lado nesses momentos difíceis e ela aprendeu muita coisa com ele e também lhe ensinou outras. Solange tinha receio de sua besta, mas nunca conseguiu julgá-lo por isso e ambos acabaram se tornando confidentes um do outro. Solange sabia de toda a culpa que o garoto carregava por Adele e ele sabia a dor que Valéria havia lhe causado e de sua decisão de nunca mais se envolver com isso. E era exatamente por isso que sentia tanta raiva do garoto agora. Ele sabia que ela tinha essa ferida na alma. Sabia que não se sentia capaz de treinar mais ninguém. Mas mesmo assim lhe ofereceu uma nova discípula. Depois que voltou da viagem, ele encheu a cabeça de Solange com coisas sobre Ana. Narrou todo o seu passado, falando do potencial que enxergava nela. Alegando que seria bom para Solange tentar novamente com alguém. Para fazê-lo calar a boca, a maga teve que lhe mostrar na integra sua situação. Dando-lhe O beijo nos lábios, passou para ele todos os fantasmas que a perseguiam, mostrou-lhe tudo o que já havia contado, só que agora com direito a imagens e sensações. Pois só assim, Ian teria a real noção do porque de sua decisão. Mostrou Valéria quando se conheceram durante sua iniciação e o terrível fim que a acometeu. E funcionou, o garoto havia desistido por um tempo. Mas logo depois voltou com aquela idéia. E a trouxe até sua casa para que a conhecesse. Miserável. Pensava com raiva. E foi assim que pôde conhecer Ana. Mesmo morando na mesma rua, nunca tinha falado muito com a garota e grande parte disso era culpa da própria Ana, que nunca parava pra falar com ela. Mas conhecendo-a melhor, de fato Solange enxergou um grande potencial na menina e tinha que admitir que ela fosse mais interessante do que esperava. De inicio, acreditou que Ian falasse de seu potencial apenas pelos olhos de alguém apaixonado, mas constatou que estava errada. Enquanto conversavam em sua casa, ela podia ver a áurea da menina e se surpreendeu com o quanto brilhava. Como o fogo de sua quintessência era bonito e vivo. Isso ela tinha que admitir, mas não era o bastante. Era preciso mais. Era preciso Paixão. Ana possivelmente nunca se adaptaria à Irmandade da Rosa. Ela não tinha o perfil de uma maga desse grupo. Solange a conheceu assim que se mudou. Era uma menina sem brilho, sem vaidade. Era desanimada, cabisbaixa e essas não eram características de uma Irmã da Rosa. Mas acima de tudo, ela não tinha paixão. Depois

452

que suas tias morreram a garota não parecia capaz de amar algo que a fizesse querer a magia. Provavelmente, ela estava deslumbrada com o novo mundo que Ian havia aberto pra ela, mas isso não era o bastante. Deslumbro poderia causar o desejo por poder, e tal desejo poderia virar ambição e as conseqüências disso, Solange não queria testemunhar novamente. Mas agora, esse problema acabou pra ela. Ian havia lhe contado que conseguiu quem amparasse a garota e agora ela não era mais problema dela. E o próprio Ian havia ido embora. Foi fazer o que já queria ter feito há muito tempo. Fugir, se esconder, morrer. Não gostava da idéia, mas não pôde o impedir. Não sabia como ajudá-lo então achou melhor deixá-lo seguir seu caminho. Era melhor assim. O café ficou pronto e Solange viu que assim como a última gota negra, sua vida também estava chegando ao fim. Infelizmente morreria sem deixar nada. Sem deixar alguém que lhe continuasse. Tinha muito a ensinar, mas ninguém para aprender. Pelo menos, ninguém que ela tivesse confiança de ensinar. Mas droga. Por que estou pensando nessas coisas? Não queria admitir, mas tinha ficado tentada com a possibilidade. A chance de ser uma mestra novamente. Tinha medo sim, mas ao mesmo tempo sentia que no fundo havia nascido para isso. Acreditava que ensinar era uma coisa que estava morta dentro dela, mas Ian a trouxe de volta quando lhe deu essa chance. E ela o amaldiçoava por isso. Se pelo menos a garota tivesse paixão por alguma coisa. Se tivesse desejo por algo. Não. Decidiu tirar isso da cabeça. Esse pensamento a deixava triste e isso não fazia parte de sua natureza. Fazer o que, meu tempo passou. Conformou-se e pegou um copo para depositar uma quantidade generosa de café. Porém, não teve tempo de levá-lo à boca, pois logo a xícara foi ao chão. Seus dedos fraquejaram e ela não teve astúcia para conseguir pegar o objeto no ar, pois alguma coisa tomava toda a sua atenção. Uma apreensão, que a fazia sentir uma gota de suor frio lhe escorrer pela testa. Que sensação é essa? E olhava em volta atrás de alguma coisa. Nunca tinha sentido algo tão medonho na vida. Era como uma explosão de energia. Uma energia profana e muito poderosa. A sensação sumiu como se nunca tivesse existido, como se não fosse nada além de fruto da imaginação. Mas ela sabia que não tinha imaginado.

453

Algo aconteceu e de muito sério. Cada nervo de seu corpo avisava isso. Sem se preocupar em limpar a sujeira, Solange correu até seu quarto para se aprontar.

454

64 - Uma pequena esperança.
— Bem vindo de volta, Nero - saudou Catarina. Satine lançou um olhar de reprovação para a mulher. Provavelmente, não gostava da intimidade com que Catarina tratava seu amo. Mas o homem não respondeu, permanecendo em silêncio enquanto contemplava as próprias mãos como se elas fossem feitas de ouro. — Realmente a solução para Nova Gênesis era muito simples – comentou Catarina. - Era apenas uma questão de usar um cadáver como recipiente e não um corpo feito de enxofre como se fazia. Mas Nero não parecia escutar o que ela dizia. — Que bom que corpos não faltavam aqui – disse Satine, com um sorriso malicioso. Ana olhava a figura alta e musculosa que surgiu moldada do cadáver de um dos jovens desaparecidos. O homem era amedrontador. Sua altura e seu porte, somadas à sua cara de poucos amigos, fariam qualquer pessoa que cruzasse com ele no meio da rua pensar em trocar de calçada. Satine se aproximou, parecendo uma boneca diante da altura de Nero. Ela se ajoelhou diante dele fazendo Catarina soltar um pigarro de desaprovação. E sem dar atenção à companheira, ela saudou o demônio renascido: — Meu amo - disse amorosa. Com uma delicadeza pouco compatível com sua aparência, ele segurou o rosto da loura. — Levante-se minha criança. Você não precisa de tantas reverências. - e deu-lhe um beijo nos lábios. Depois de soltar o rosto da loura, ele se virou para os dois prisioneiros. Andando em passos lentos na direção de Ian, Nero demonstrava certa dificuldade em se locomover. Em um dado momento, pareceu que fosse sofrer uma queda. — Cuidado meu amo - alertou Satine com toda a delicadeza - O senhor ainda tem que se acostumar com esse corpo. Afinal, essa magia nunca foi testada. O homem deu uma risada fraca. — O pior é que você está certa. Sinto que minhas energias ainda não voltaram totalmente e também não tenho controle total dos meus movimentos. Não consigo usar

455

com perfeição todos os meus sentidos e também não me sinto muito equilibrado. Uma pena. Mas logo acredito que voltarei ao normal. E mesmo com dificuldades, ele continuou se aproximando e Ana estremeceu quando o homem enorme segurou Ian pelo pescoço, erguendo-o do chão. O garoto começou a se debater, mas as correntes negras limitavam em muito seus movimentos. Então, Nero colocou o rosto de Ian de frente para o seu, fitando seus olhos azuis com interesse. — De fato vocês foram minha maior criação. Um poder tão intimamente ligado a vocês que pôde ser transportado até depois da morte. - ele deu um suspiro e parecia se deliciar com o fato de estar respirando de novo - Sua alma e a minha são idênticas meu filho. - ele falava muito próximo do rosto de Ian - Meu poder corre em suas veias e eu diria que nós temos quase que a mesma quintessência. Não é a toa que aquele Iluminado lhe confundiu comigo, pois somos feitos da mesma energia. Os olhos de Ian se arregalaram e Ana sabia que ele também se lembrava do garoto que os atacou na floresta. O iluminado que dizia estar caçando um demônio. — Sinceramente, seria um desperdício matar você. - comentou - Não sei se conseguiria repetir o feito de anos atrás e criar outros como o clã Garow - ele sorria enquanto falava - Você poderia se juntar a nós. Seria uma boa idéia, não acha? Pense bem. – e seus olhos faiscaram - Eu poderia aprisionar de volta a besta que o persegue e você poderia passar o resto da vida, e até além dela, ao lado de sua amada Catarina. – E Ana estremeceu de raiva - Não seria uma boa idéia? A resposta de Ian foi dada com um cuspe no rosto de Nero, que não pareceu irritar ao homem, que com a mão livre, limpou o rosto transbordando calma. — Esperava essa resposta - disse em tom tranqüilo antes de arremessar Ian com força contra a parede. Um estalo oco se fez ouvir quando o corpo dele se chocou contra as rochas e ele abriu a boca soltando todo o ar de seus pulmões. Apesar da dor, não conseguiu gritar, sua voz tinha sido abafada. — Não! - gritou Ana quando o corpo inerte de Ian caiu no chão. Nero olhou para a garota como se só agora notasse sua presença ali. — Tinha me esquecido de você, pequena Ana. Não creio que sua resposta seja diferente da dele. Ana não respondeu. Seus olhos estavam fixos no garoto caído. Dava para ver que ele ainda estava consciente, mas o impacto o deixava com dificuldades de se mexer.

456

Com muita luta, Ian conseguiu se colocar de joelhos novamente e agora rosnava para o demônio que nem ao menos dava atenção para as ameaças. Ele ainda mantinha os olhos em Ana. - É uma pena. Eu bem que gostaria de mais seguidores. Ian foi minha melhor criação e eu vejo um grande potencial em você fedelha. Mas não creio que você queira se unir a mim depois que... De repente, Nero ficou imóvel com um olhar estudado na direção do corredor escuro. Catarina parecia ter percebido a mesma coisa e também encarava a passagem escura. — Tem alguém chegando - falou. — Quem? - perguntou Satine, que não notara. — Desconheço - respondeu Nero, e um sorriso sombrio surgiu em seus lábios Mas me parece ser alguém bem poderoso. — Concordo – falou Catarina - Acha que devemos interceptá-lo? — Certamente - respondeu Nero - Essa seria uma boa hora de testar meu novo corpo. - e se virou para Satine – Você, minha filha, livre-se desses dois. E Catarina, venha comigo. Satine não pareceu gostar muito de ser preterida e Nero percebeu isso nela. — Não é nada pessoal minha querida, apenas sei o quanto você gosta dessa parte do trabalho - e depois ficou sério - Só peço para que não brinque muito com esses dois. Não corra riscos desnecessários e mate-os de uma vez. O garoto primeiro, de preferência. - completou um tanto cauteloso. Pela primeira vez desde que Ian fora capturado, Ana começou a sentir certa esperança. Ficou imaginando quem seria a pessoa que estava chegando e torcia para que fosse alguém realmente poderoso e que pudesse fazer algo por eles, mesmo sabendo que as chances de aparecer alguém capaz de enfrentar Nero e Catarina serem bem pequenas. Agora, apenas Satine estava na gruta com eles e Ana continuava a sentir uma raiva mortal daquela mulher. Ainda culpava a ela por tudo o que estava acontecendo, mas ainda sentia um ódio mais mortal pelo que fizeram a suas tias. Embora nessa parte o alvo de sua ira fosse Nero. Queria sair dali. Se pelo menos tivesse alguma forma de Ian conseguir se soltar, eles estariam salvos. Quando Nero e Catarina saíram, Satine pareceu um pouco mais contente. Ela olhava os dois prisioneiros com um olhar tão divertido que chegava a

457

beirar o macabro. E mesmo não sabendo o que se passava na cabeça da loura, Ana podia ver que eles corriam um sério perigo se não saíssem dali naquele instante. Talvez um perigo maior que a simples morte. Eu sei o quanto você gosta dessa parte do trabalho. Lembrava ouvir Nero falar. Mesmo conhecendo ela apenas por alguns minutos, sabia que Satine era louca. — Tenho que admitir - ela falou, saltando em direção a Ian - Essa é a minha parte preferida do trabalho - e segurou o garoto pelos cabelos, fazendo-o gemer - Uma pena Ian, você não querer se reunir a nós. Eu adoraria te dividir com a Catarina. — Larga ele - gritou Ana. — Nossa! - Satine fingiu medo - A leoa criou garras. Que fofo. Protegendo o namoradinho. — Ana não - gemeu Ian. — Oh, parem! Por favor. - continuou zombando - Assim vocês me fazem chorar. É tão lindo ver os dois se preocupando uns com os outros, mesmo sabendo que suas próprias vidas correm perigo. Ela ergueu Ian pelo queixo da mesma forma como Nero fez e depois, chegou o rosto próximo do ouvido do garoto. Ian rosnou, mas continuou imóvel, — Quer me morder? - perguntou - Mas não pode. Sabe, uma coisa legal dessas correntes é que além de prenderem muito bem, elas inibem ações agressivas. - e fez um biquinho enquanto balançava a cabeça. Cada palavra da mulher era acompanhada de um olhar penetrante. Ela agora parecia mais louca ainda depois que seu mestre saiu. - Você pode até tentar rompê-las, mas eu duvido que consiga, então - e deu um beijo rápido nos lábios dele - Eu posso fazer com você o que eu quiser. – e repetiu - Você é como um boneco pra mim. — Larga ele! - gritou de novo Ana. A raiva começava a ganhar mais força em seu peito e seu grito havia feito os olhos de Satine faiscarem com mais intensidade. — Ciúmes querida? Só por que você não teve essa oportunidade que estou tento? Poder fazer com ele sem o risco de ser trucidada? - e largou o garoto que caiu de joelhos - Sabe, isso me lembra uma coisa. - e se dirigiu à Ana - Você nunca teve medo dele? – e se abaixou de frente pra ela, fitando-a com curiosidade – Digo. Ficar com ele é como namorar um cão raivoso. Nunca teve medo de lhe acontecer o mesmo que a Catarina? Até porque você, minha querida, seria destruída com muito mais facilidade.

458

Ela encarava Ana com olhos excitados, mas a garota retribuía o olhar com raiva e coragem. Nesse momento, o medo já tinha se esvaído totalmente e só lhe restava no peito uma fúria mortal. — Isso me parece um não – por um segundo, ela pareceu decepcionada, mas logo recuperou o sorriso quando alguma coisa pareceu lhe vir à cabeça - Talvez, porque você nunca tenha visto ao vivo o que é seu namoradinho com raiva. Você nunca o viu perder o controle, não é? Ana teve dificuldades em entender o que se passava na cabeça da demônio, mas percebeu que Ian já o havia notado, pois seus olhos se arregalaram em espanto. — Não! - sua voz era de súplica. Satine se virou para ele, insolente. — Ah Ian, qual o problema? Não seria a primeira vez que você retaliaria a pessoa que você ama, não é mesmo? Seria tão divertido. A loura se levantou e começou a andar na direção do garoto que tentava se arrastar pra longe dela. Ana nunca vira tanto medo nos olhos dele. — Calma garoto, eu não mordo - e o segurou pelo rosto - Mas vai ser lindo ver você morder a Ana. — Não, não - ele tentava inutilmente se livrar dela. — Você conseguiu manter o controle por tanto tempo. Não vai ser bom poder se libertar por um momento? Pensa bem. O medo de Ian começava a contaminar Ana. — Sabe que vai ser divertido - ela falou, olhando-o nos olhos - Sei que Nero me alertou para acabar com vocês dois logo, mas... - ela revirava os olhos tentando procurar uma explicação - eu não resisto ao desafio. - e o largou no chão - Essas correntes são fortes para te segurar e tudo que eu tenho a fazer é soltar sua besta e sair. Quando estiver bem longe, eu libero as correntes – e fez um biquinho - É uma pena não poder ficar para assistir, mas de onde estarei poderei escutar os gritos dela. — Você é louca - gritou o garoto - Mesmo que você consiga, quem lhe garante que eu não vou atrás de você depois? — Nero garantirá - respondeu presunçosa – Acredito que ele logo recuperará seus poderes. Sem falar que eu sei muito bem que você tende e desmaiar depois que todas as pessoas a sua volta morrem. Aí eu volto e te mato - e pensou bem - Não. Talvez eu

459

deixe você acordar de novo para ver o que fez. Deixar você se sentir culpado, deixar você se odiar e aí sim, eu te mato. – completou, encerrando o pensamento lógico. À medida que ia falando, os olhos Ian se arregalavam e parecia que ele poderia chorar a qualquer momento. A mulher estava tão envolta em sua idéia que seu prazer era palpável. Então, se deixou cair em cima do garoto e olhou em direção ao corredor. — Duvido que o nosso oponente seja tão forte ao ponto de manter meu amo ocupado por mais de dez minutos. Então, - e olhou para Ian com seus olhos arregalados - acho melhor nos apressarmos, ou ele não vai deixar. — Então Ian? - continuou - Eu vou conseguir fazer você perder a calma? Conseguirei fazer você sentir uma raiva assassina por mim? Ou melhor... - e aproximou seu rosto do ouvido dele - eu conseguirei fazer você sentir desejos por mim?

460

65 - A segunda visão da história.
Catarina seguia Nero de perto ao encontro do misterioso invasor. Infelizmente, ela preferia continuar na gruta, mas não queria ir contra as decisões do demônio assim tão cedo. Segui-lo e o ver em ação poderia vir a ser útil, afinal. Assim, pelo menos, poderia ter uma noção da tamanha força dele. Ela havia escutado inúmeras histórias sobre ele quando esteve no purgatório e decidiu se aliar no último minuto. Apesar de Nero ser odiado pelos demais demônios, ele tinha um coisa que interessava Catarina: a chance de criar um corpo só para ela e sair daquele inferno. Pouquíssimos demônios tinham conhecimento de como sair do purgatório e, praticamente, apenas Nero conhecia o Ritual Gênesis, mas o guardava como um tesouro. Mesmo que tal magia não consiga trazer de volta um demônio tão poderoso e com uma ligação tão fraca com o mundo dos vivos, Catarina ainda era jovem e por isso poderia se aproveitar dela. Por esses motivos não queria discutir. Graças a ele, conseguiu esse belo corpo que ela mesma ajudou a montar. E também, ainda preferia estudar o poder do reencarnado. Era uma pena, pois ainda sentia inveja de Satine, que poderia ficar e se divertir com os dois. E ficou imaginando o que a loura iria aprontar. Ela obedeceria às recomendações de Nero? Duvidava. Mesmo conhecendo a loura há pouco tempo, já tinha a certeza sobre uma característica dela: era completamente louca. Satine tornava-se incontrolável quando tinha que eliminar alguém. Nessas duas semanas, toda a vez em que Satine pegava alguma pessoa para abastecer de sangue o jarro que mantinha Nero conectado ao mundo dos vivos, Catarina observava como a mulher transformava uma simples execução numa peça de teatro. Ela era uma sádica que sentia um prazer voraz com o sofrimento alheio. E Catarina sabia que para conseguir esse prazer, ela seria capaz até de passar por cima das ordens de seu amo, a quem se devota como que para um Deus. Nessa última semana, Catarina havia se aliado a Nero, mas ele pediu para que ela se mantivesse em segredo por àquela hora. Queria que deixasse Satine tomar conta da situação. Até que a coisa se tornou incontrolável e sua presença teve de ser requisitada. Ele não confiava em mim e com certeza ainda não confia, pensou. A mulher sabia que Nero acredita que ela ainda guarde algum sentimento para com Ian e que isso

461

poderia fazer com que o traísse. Por isso ele a manteve em segredo e só a chamou por que não tinha alternativa. Quando estava prestes a por tudo a perder. Só então ensinou o Gênesis a ela e lhe deu a missão de interceptar Ian. Essa seria a sua prova de lealdade. Seu Batismo de Sangue. Engraçado ele ainda não confiar em mim depois disso. Melhor pra ele. Era incrível, mas ela podia imaginar exatamente o que se passava na cabeça de Nero. Provavelmente ainda acreditava que, deixando-a sozinha com os dois, ainda houvesse a chance de ela se render ao garoto. Que assim, poderia soltá-los. Por isso delegou a missão à Satine — Do que você está rindo? - perguntou Nero. Ele olhava para ela pelo conto dos olhos e parecia estar apreensivo. Catarina achou graça em poder provocar tal sensação em alguém que se dizia tão poderoso. — Só pensando no que está acontecendo lá atrás. - respondeu. — Não... sente pena? – perguntou, dando pouco caso. — Sinceramente? Não. Eles são testemunhas de sua volta e quanto menos pessoas saírem vivas daqui, melhor. — Entendo – mas ele ainda duvidava. A grande verdade é que Catarina realmente se importava com o que acontecia lá atrás. Mas não por pena, e sim por decepção de não poder fazer aquilo ela mesma. Quando teve a chance de finalmente se encontrar com Ian, ela acreditou que o garoto ia cair aos seus pés. Implorar seu perdão e se entregar facilmente a sua simples presença. No começo, até foi assim. Ele se arrependeu, pediu perdão e não hesitou em oferecer seu amor, mas depois... Aquela garota tinha que se meter. Catarina não entendia como aquela menina sem sal poderia ter feito Kalish esquecê-la. O que ela tinha? Catarina era muito mais bonita e muito mais poderosa. Era superior em tudo. Então, por que foi preterida? Não era ciúme que sentia e sim orgulho ferido. Tinha certeza disso. Afinal, não tinha motivos para ter ciúmes. Ela nem gostava tanto dele quando era viva, mas Kalish sempre foi um bom companheiro. Ela ainda se lembra do dia em que se encontrou com ele, sozinha na floresta perto das terras de sua tribo. Ela não estava perdida naquele dia. Ela sabia realmente o que queria. Queria encontrar um Garow. Kalish foi apenas o acaso. Poderia ser qualquer um. Sua família havia se mudado para o Canadá, fugindo da Inquisição na Rússia quando ela tinha

462

apenas oito anos. Assim, ela cresceu na América ouvindo histórias sobre aquele clã. De como era poderoso, como conhecia truques inimagináveis, como era misterioso e Catarina cresceu com essa obsessão: a de conhecer, de desvendar seus segredos. E foi quando pensou em tentar algo inusitado, e para muitos, até louco. Teve a idéia de tentar ter relações diplomáticas com os membros daquela tribo. E foi então que conheceu Kalish. Sem querer, o tinha conquistado. Catarina sempre soube usar seus talentos de mulher e estava acostumada a utilizar de certos meios de sedução, mas ficou pasma por saber que uma simples luta havia despertado no garoto uma atração tão forte por ela. Ela riu novamente e Nero se virou pra ela, mas nada perguntou. A rede tinha sido jogada e ela poderia enfim se aproveitar disso. Sua família era especialista em mágicas do espírito e saber que os Garow eram considerados os maiores especialistas no assunto, deixou-a maravilhada. E durante anos absorveu os conhecimentos que Kalish lhe trazia. Logicamente teve que ensinar coisas também, mas não tinha problemas. A troca era vantajosa para ela. E foi então que tiveram a idéia de criar uma magia capaz de enganar a morte. Até então, esse era apenas uma utopia, mas que com o tempo e com os conhecimentos adquiridos pelo Garow, foi ganhando forma e possibilidades. Podia dar certo, e deu. Nasceu como Adele, uma jovem burguesa da cidade de Paris. Sua vida era boa ali, tendo luxo e empregados a sua disposição. Mas sua vida não era completa. Sentia tédio daquilo e quando as lembranças de Catarina vieram a ela, a garota percebeu do que sentia falta. Recuperou seu poder e sua experiência e logo viu a chance de viver com maior intensidade. Queria fugir dali e correr o mundo. Ficou em dúvida se Kalish também havia conseguido, mas não acreditava que, se tivesse, nasceria no mesmo tempo que ela. Ela confessa que sentiu saudades dele, mas podia sobreviver sem. Tinha uma nova vida num mundo novo. Um mundo onde a Inquisição não era mais a céu aberto e muitas pessoas nem mais acreditavam na existência de magos. Esse novo mundo tinha muitas possibilidades. Então, em uma festa em Paris, aconteceu o que pensava inimaginável. Kalish estava ali. Muito melhor que antes, pra dizer a verdade. O ar europeu tinha feito bem a ele que não era mais o selvagem do Canadá. Agora era um cavaleiro burguês. Lucien, como agora se chamava, propôs uma fuga. Uma idéia tentadora para uma Catarina que já estava cansada daquela vida de um pouca mobilidade. Uma aventura faria bem.

463

Fugiram os dois, se transformaram em muitas coisas, desde assaltantes a heróis. Viajaram muitos países e a vida errante até foi boa no começo. Principalmente para Lucien. Seu sangue Garow ainda era muito presente e ele se sentia bem ao ar livre. Mas com o tempo, Catarina foi se enchendo. Ela, ao contrário do companheiro, sempre foi acostumada à boa vida. Na Rússia, era uma nobre e na França, uma burguesa. Foi então que começou a sentir falta do luxo e das festas que julgava tão chatas antes. Admitia que a vida com Lucien fosse divertida, mas ele começava a se tornar um pé no saco. Sempre querendo conhecer mais lugares e não parando em nenhum canto. Sempre tiveram dinheiro, mas nunca pompa. E com o tempo, sua relação foi esfriando e o Garow perdendo a graça. E foi numa noite de outono que aconteceu: seguindo uma pista falsa, caíram na armadilha dos Inquisidores e quase perderam a vida. Para Catarina, o episódio foi um choque, mas Lucien não pareceu sentir o mesmo. Sua sede de adrenalina era quase insaciável e a mulher percebeu que era hora de abandonar o barco. Mas para onde ir? Como viver? Não tinham acumulado dinheiro o suficiente para viver na boa vida de antes e ela não podia mais voltar para o requinte da casa de seus pais, pois eles jamais a aceitariam de volta. Então, pensou em conversar com Lucien sobre enfim pararem, mas desistiu. Primeiro, porque ele tentaria convencê-la a não abandoná-lo e segundo, pois não queria parar junto com ele. Lucien era divertido como aventureiro, mas seria insuportável como companheiro para vida toda. Mas como abandoná-lo? Como sobreviver em uma vida comum? Nesse momento, a oportunidade pareceu na forma de um anúncio. Era uma manhã de inverno naquela data e eles estavam na Inglaterra. Ali, na cidade de York, ela viu um cartaz que mudaria sua vida. Pois nele, havia uma recompensa. Uma recompensa igual a muitas que serviram para sustentá-los durante a vida. Mas esta, ao invés de significar sua vida, estava condenando-os à morte. Sabia bem que aquilo era a garra dos Inquisidores, mas o que mais a tenteou foram os números logo abaixo. Suas cabeças estavam valendo mais de duzentas libras cada. Uma fortuna. E não conseguiu pensar em outra coisa depois disso. Afinal, ela era ou não uma caçadora de recompensas? A proposta era tentadora e ela sabia como seria fácil conseguir isso. Apesar de não saber se era poderosa o

464

suficiente para derrotar o companheiro, sempre se tinha outros métodos. No começo, relutou um pouco, pois não considerava certo trair um companheiro de anos, mas ela tinha duzentas razões para fazer. No fim, acabou optando pela traição. Gostava de Lucien, mas ele começava a ficar irritante e ela também gostava da idéia de ser a única conhecedora do ritual da imortalidade. E foi quando tudo aconteceu rapidamente. Conheceram uma irmã da Rosa na Inglaterra, souberam do massacre do clã Garow. E tal choque acabou por adiar sua decisão e eles foram para a América a fim de tentar saber mais. Mas a coisa não podia ser adiada por muito tempo. Catarina sabia que quanto mais relutasse, mais difícil seria fazer depois e acabou escolhendo a noite da despedida. Em Michigan, depois de uma festa em um bar, onde beberam bastante, levou-o para o quarto para terem os últimos momentos juntos. Catarina se sentiu como uma viúva negra que mataria o macho logo depois da relação, e no fundo até gostava da idéia. A adrenalina corria por seu sangue e aumentava seu prazer. A coisa ia bem, gostava do sexo. Talvez até fosse sentir falta dele depois, mas não pensou nisso. E enquanto tirava prazer de cada segundo, enquanto escutava o arfar de Lucien em seus ouvidos, foi preparando o golpe final. Não sabia exatamente como fazer. Ela podia o atacar com uma mágica ofensiva, ou usar alguma arma como nas melhores tragédias teatrais. Mas ainda tinha um inconveniente: Lucien usava o colar da imortalidade. Se ela estava mesmo planejando matá-lo, teria que ser definitivo. Não podia deixar que ele tivesse a chance de voltar e persegui-la em algum futuro. Então, no meio da relação, segurou o objeto e o arrancou. Tal ação nem chamou sua atenção. Provavelmente, o companheiro acreditou que esse fosse unicamente fruto do êxtase. Estava na hora, tinha de fazer. Mas foi quando sentiu algo errado. Ele havia parado, havia ficado em silêncio enquanto a agarrava com força. O que havia acontecido? Será que havia percebido algo? Impossível. A força de seu abraço começava a ficar mais forte e incômoda, e Catarina foi perdendo o controle à medida que o medo se tornava presente. — Lucien? - ela estava sem ar – Querido... está apertando forte demais - deu uma bufada - Está me machucando. O que estava acontecendo?

465

Catarina nunca imaginaria que fosse aquilo que estava acontecendo. Naquele instante, sua respiração voltou fazendo-a ouvir seu arfar em seu pescoço, mas esse era diferente. Não eram mais os suspiros de prazer que antes ele emanava. Esses eram algo parecido com bufões de fúria e foi então que escutou o rosnar. Ela não teve tempo de sentir todo o medo que a situação exigia, não teve nem tempo de pensar em reação. Foi rápido demais e ela nem teve oportunidade de sentir dor antes de estar morta. Catarina sentiu seu corpo estremecer com a lembrança. Quanto ódio sentiu dele depois disso. Um ódio tão forte que fez sua alma ficar presa no mundo nos mortos. Um ódio que a impediu de fazer a passagem. Seu espírito atormentado ficou retido no purgatório e anos passados a transformaram no que é hoje: um demônio. Vagou por décadas, séculos, pelo mundo dos mortos, sendo degenerada pelos espíritos degenerados, enlouquecida pelo caos do lugar, contaminada com seu mal. Anos depois, conheceu Nero, uma alma renegada no purgatório, assim como ela. Sabia que todos os outros demônios o conheciam e o desprezavam, pois, apesar de muito poderoso, Nero era um demônio velho demais. Sua ligação com o mundo dos vivos ia se esvaindo e como conseqüência ele estava cada vez mais fraco no mundo dos mortos. Em contrapartida, era forte demais para voltar ao mundo dos vivos. Seu poder destruía qualquer corpo que tentasse tomar posse. Definitivamente, ele estava acabado e basicamente havia apenas um demônio que se mantinha fiel a ele. Satine, que lutava no mundo dos vivos para trazer seu mestre de volta. Descobriu também que ele tinha um grande plano para retornar. Soube que ele, de alguma forma, conhecia Kalish. Que tinha alguma espécie de ligação com ele, mas só ficou sabendo exatamente do que era há poucos minutos, quando ele revelou ter criado o clã Garow. A lembrança de Lucien, saber que agora ele vivia como Ian a deixou descontrolada. Queria vingança. Então, ela tinha que segui-lo. Conheceu Nero, ofereceu-se em serviços e o demônio a tentou com a possibilidade de ter um corpo e uma chance de voltar ao mundo dos vivos. Ela não pensou muito. Apesar de não passar de uma ruína naquele momento, Nero ainda era o demônio mais velho de que ouvira falar e tinha conhecimentos que muito a interessavam.

466

Mas Nero ainda não confiava nela, pois sabia de seu passado. Como conhecia a história de Ian, ele sabia um pouco dela. Sabia que ela o amava, ou pelo menos sabia que Kalish acreditava nisso. Mas também não tinha escolhas. O demônio tinha apenas um único servo trabalhando para ele e era arriscado demais continuar assim. E Catarina tinha astúcia, e logo o convenceu do ódio que sentia de Lucien, que agora era Ian. Ele não acreditou completamente, mas decidiu lhe dar um voto de confiança e a trouxe de volta. Nesse tempo, ela se manteve escondida até mesmo de Satine. Apenas observou, esperando o momento em que atuaria. E ali, soube com prazer da maldição que o garoto carregava e também que ele jamais havia se perdoado pelo que tinha feito. Pelo menos assim ele estava pagando. Mas o pagamento final, Catarina queria ter a chance de cobrar. Queria poder fazê-lo se sentir da pior forma possível antes de matá-lo. E então, quando teve a chance de se encontrar com ele, ficou imaginando como faria: pensou em colocá-lo no chão, tentar reativar todo o amor que ele tinha por ela e depois jogaria tudo na cara dele. Chamá-lo-ia de assassino, contaria todo o sofrimento que passou no purgatório. Nero pediu que ela não o matasse, pois o queria no ritual do retorno, queriao como testemunha e ela se sentiu triste com essa decisão, mas consentiu. Poderia matálo depois, mas antes o faria sofrer. Tudo ia bem. Tudo conforme o plano. Ele estava de joelhos. Estava chorando. E foi quando falou aquele maldito nome. Ana. Lembrava-se com ódio. Nero a havia alertado sobre Ana. Disse que ele gostava dela, mas Catarina não a julgava uma oponente. Imaginava que o que Ian sentia por ela era uma paixonite qualquer, resultado de anos de solidão e culpa. Afinal, ele tinha matado a mulher que dizia amar e agora tinha alguém para cuidar. Nada estranho ele se sentir atraído por sua protegida. Mas Catarina era Catarina no coração dele e a garotinha não tinha chance com ela. No começo, isso se comprovou e Ian não hesitou em beijá-la. Então, era hora da segunda parte do plano, onde o humilharia, mas foi quando ele a largou e disse o nome da garota. Miserável. Como pôde me beijar pensando na outra? Ela quase o matou naquele momento. O ataque que desferiu tinha a intenção disso, mas Catarina o subestimou e não usou força o suficiente. Ele foi ao chão, gravemente ferido, mas não morto. Pensou em dar o golpe de misericórdia, mas se conteve no último minuto seguindo as ordens de Nero.

467

Nero. Catarina olhava o demônio à sua frente. De vez em quando ele ainda olhava para trás, duvidoso com relação a ela. Se ele soubesse da minha parte da história, não desconfiaria tanto de mim. Ou desconfiaria mais? Refletiu. Se Nero soubesse da versão de Catarina, com certeza não pensaria que ela pudesse se aliar a Ian e Ana. Mas também conheceria com quem estava lidando. Assim como Kalish, Nero era apenas uma ponte para um poder maior. O Garow a havia ensinado muitas coisas e ela sentia que o demônio poderia mais. E quem sabe, quando ele não fosse mais útil... E mais uma vez sorriu. — Você anda muito feliz, minha cara - Nero comentou desconfiado. — As coisas estão indo bem, é só isso. – respondeu despreocupada. Mas foi então que sentiu alguma coisa estranha e parou de andar. Nero também se conteve e fitou Catarina com ar interrogativo enquanto a demônio tentava perceber o que havia se estranho. Um aroma. Parecia... perfume? — Que cheiro é esse? – comentou. Nesse instante, Nero ergue as sobrancelhas e seus olhos se alarmam. — Tampe a respiração! - gritou e, num gesto rápido com a mão, conjurou uma pesada corrente de ar. Catarina segurou o nariz com uma das mãos e com a outra, prendeu os cabelos que voavam com a ventania. Ela agora era capaz de ver alguns pontos cor de rosa no ar, assemelhando-se a uma poeira brilhante, como purpurina. O vento acabou apagando as tochas e entregando o lugar a escuridão. Quando acabou, Catarina não via mais a poeira rosa em lugar nenhum. E as tochas começaram a se acender novamente sozinhas. Uma a uma, foram expulsando o escuro e além de Catarina e Nero, uma terceira figura surgiu, como vinda do nada. Os dois demônios olham para a menina à sua frente. Ela parecia jovem, quinze anos talvez. Usava roupas coladas ao corpo num misto de vermelho e branco. Era muito bonita, com cabelos bem curtos que caiam muito bem no rosto pequenino, mas seu ar angelical não combinava com as expressões sérias que tinha. Ela encarava os dois com um olhar muito estudado, mostrando uma determinação pouco compatível com sua idade.

468

Ela estava muito maquiada e parecia uma ginasta olímpica com aquelas roupas. Em uma de suas mãos ela segurava um longo tecido vermelho que balançava sob uma brisa que não existia. — Meus parabéns por interceptarem meu feitiço - elogiou. Sua voz era muito forte para alguém tão pequena. - Vejamos se podem interceptar isto. Então, ela sorriu, erguendo o véu que começou a se abrir, assumindo um tamanho gigantesco conforme envolvia o corpo pequeno de quem a segurava, e oscilava num balé hipnotizante.

469

66 - Brincando com fogo.
Satine parecia se divertir como criança enquanto brincava de alisar o rosto do garoto. Ian, ao contrário, se assemelhava a uma vítima de tortura, mantendo os olhos fechados e os dentes serrados como que para evitar que um grito irrompesse por sua boca. — Ian, não faça isso - Satine se mostrava falsamente constrangida - Eu não gosto de me sentir rejeitada. Com um olhar obsessivo, ela deu um beijo nos lábios crispados do garoto e repetiu continuas vezes, descendo em direção ao seu pescoço. — Para com isso. - ele a encarou com os olhos azuis em brasa. — Pra que, se está funcionando? - ela deu um sorriso maroto - Engraçado que enquanto você resiste aos meus carinhos, está morrendo de raiva pelo o que estou tentando fazer. Acaba que estou atacando em duas frentes e me pergunto: a qual delas você vai sucumbir? Ana não se lembrava de sentir tanta raiva de uma pessoa na vida. Contra Satine, estavam jogadas todas as coisas que mais a prejudicaram nesses anos todos. Pois foi ela quem descobriu que suas tias haviam localizado o emblema antigo dos Garow, o que permitiu a ida de Nero a Três Corações e o assassinato de Teresa e Samanta. Graças a ela também, sua avó perdera completamente a sanidade e agora vivia quase como um vegetal. E agora estava obrigando Ian a lutar contra tudo o que ele controlou durante anos. Queria forçá-lo a matar Ana. — Sabe. - ela atiçou - Eu pensei que fosse mais fácil. Meus parabéns. Catarina gostava tanto de você e você não hesitou em dilacerar-lhe e carne. Por que luta tanto por essa garota? E deu mais um beijo em seus lábios. Ana via as mãos do garoto fechadas em punho. Suas garras mal colocadas feriam a própria carne das mãos e deixavam algumas gotas de sangue escorrer pelo chão. — Larga ele sua... - praguejou. — Desculpe querida, mas você não faz o meu tipo - ela riu e continuou - Vamos Ian, eu sei que você quer isso há muito tempo.

470

Então, passou as pernas em volta da cintura de Ian, chegando seu corpo para mais junto do dele. Ainda inspirada, segurou bem seu rosto forçando-o a olhar pra ela, mas depois o largou. — Será que eu vou ter que apelar para a sua essência masculina? - ela ameaçou sorrindo. Ana se sentiu como uma leoa naquele momento. Nunca havia desejado fazer tanto mal a alguém como queria a Satine. Ela olhava Ian lutar contra a besta, vendo o sangue escorrendo de suas mãos numa tentativa desesperada de tirar a mulher demônio de sua cabeça, e tal cena era dolorosa demais para ela. Ela queria sair dali, estava com muita raiva e queria socar a cara da mulher para ver se isso lhe aliviava. E juntando toda a força que tinha, puxou as cordas que envolviam seus pulsos. Desta vez, algo diferente havia acontecido. Elas arrebentaram.

Satine estava se divertindo muito com a situação e mal podia esperar a hora de ver aqueles olhos começarem a ficar vermelhos. Nero a havia contado como era a transformação do garoto, dizendo como ele ficava sob o domínio da besta e estava muito curiosa para ver o animal com seus próprios olhos. Depois de conseguir, era só desaparecer e soltá-lo como um leão numa arena. E Ana seria sua gladiadora. Mas foi quando escutou o som das cordas arrebentando atrás de si. Ela se virou descrente e viu a garota de pé, encarando-a com os olhos faiscantes. — Filha da... - e se levantou - Eu devia ter amarrado direito. A mulher ficou encarando Ana por mais um tempo achando divertida a raiva que estava estampada na cara da garota. — Pelo visto vou ter que te deixar inconsciente primeiro - e foi andando calmamente em sua direção.

Satine vinha em sua direção com seus passos de modelo e Ana deu um passo pra trás. A demônio sorriu acreditando que se tratava de um gesto de medo, mas não foi. Ana, na verdade, estava procurando uma posição para fazer o que tanto desejava. Quando for quebrar uma pedra, não hesite, lembrava-se de Ian falando.

471

Ela não hesitaria. Não tinha dúvidas. Queria extravasar sua raiva e só tinha um jeito de conseguir isso. E quando Satine se aproximou o bastante, ela fechou o punho largando um soco contra a face da demônio. Ana não tinha muita pratica nisso, então, fez tudo o que sabia: fechou o punho e o lançou contra a mulher. Satine ergueu a mão em forma de garra para segurar o soco da garota com um sorriso presunçoso que logo se desfez ao constatar que havia subestimado a situação. O soco de Ana se mostrara mais poderoso do que ela poderia supor, atravessando sua defesa e a atingindo em cheio no rosto, e fazendo-a disparar contra a parede rochosa.

Depois do estrondo, um silêncio se instalou no ambiente. Todos estavam pasmos e nem mesmo Ana conseguia acreditar na sua força. Satine bateu na parede e quando caiu no chão, um pouco de entulho a encobriu. A garota ficou maravilhada com sua façanha. Nunca havia se sentido tão leve na vida. Mas o alívio não durou muito e logo uma dor insuportável atingiu seu braço agressor. Era como se seus músculos estivessem sofrendo espasmos, mas ela tentou ignorar isso e se dirigiu até onde Ian estava preso.

Ela conseguiu? Ian estava surpreso, mas feliz, apesar de saber que não era o suficiente. Satine não cairia com um simples soco, mas pelo menos ela poderia fugir agora e... O que? Ele se assustou quando viu a garota vir em sua direção. O que ela está fazendo? Ele a viu segurar suas algemas, tentando tirá-las dali. — Como se faz para desfazer isso? – perguntou para Ian. O garoto olhava para as suas feições e era claro que aquele soco a havia desgastado por demais. Esse era o resultado de se fazer tão poderosa magia sem experiência. — Não dá! - respondeu - Ana, Ana! - ele tentava chamar sua atenção - Vai embora daqui. Agora! — Eu não posso. - ela falou,indignada. — Ana, escuta droga! - ele gritava. - Vai embora. Ache a Solange e a avise sobre isso. — Ian... - ela interrompeu.

472

— Cala a boca! - cortou - Estamos numa casa abandonada muito próxima da nossa rua. Eu quero que você corra até Solange e fale o que ocorreu, ela vai te proteger. — Mas e você? — Se liga. Ela vai acordar logo, vai! - Ian ignorou a pergunta. — Não vou te deixar sozinho com ela. Eu talvez possa aproveitar que ela está caída e matá-la - disse esperançosa. — Você não vai conseguir. Olha seu estado. Você nunca usou tanta energia antes. Seus músculos estão fatigados. Corre! — Não! - ela gritou em resposta. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Droga! - praguejou - Não seja burra. Vai! — Não. – Teimou. Droga Ana, E foi quando chegou a uma conclusão. Me desculpa. E concentrando toda a sua raiva, praguejou alto, fazendo um palavrão ecoar pelas paredes do lugar: — #! Será que você não vê que estando aqui só me atrapalha? - berrou. Os olhos da garota ficaram espantados na hora - Com você aqui eu tenho que me preocupar em proteger nós dois. Me deixa sozinho que eu me viro melhor. Vai! A garota ficou muda ao ouvir aquelas palavras, olhando-o com espanto. Mas elas não adiantaram, pois logo se escutou o som de entulho se revirando e Satine surge com seus olhos transbordando fúria e sua face direita um pouco funda aonde Ana a acertou. E foi quando suas belas feições tomaram um aspecto bestial, mais semelhante à sua natureza. — Sua vagabundazinha! - ela urrava - Vou acabar com você - e veio se aproximando em seu passo de modelo de sempre. Mas agora, ela parecia mais inspirada a chegar à garota. — Ana, corre! - ele gritou, mesmo sabendo ser inútil. Satine a alcançaria facilmente. No desespero, ele tentou se levantar, mas as correntes não deixavam. Eram pesadas demais. Tentando então concentrar toda a sua força, procurou se soltar, mas não adiantou, elas não cediam de nenhuma maneira. Dessa forma, ele só pode assistir e à medida que via Satine chegar perto de Ana, seu desespero foi ganhando força e ele tinha a sensação que seu coração saltaria pela boca a qualquer instante. E foi quando Ana se posicionara de novo. Maluca, pensou em desespero. Corre droga, corre! Mas ela não correu. Ao contrário, tentou socar a mulher de novo, mas

473

desta vez, Satine estava pronta. Desviou o rosto no último minuto com muita graça e prendeu o braço da garota com a mão. — Não agora querida – escarneceu e, com um movimento simples de dedos, ouviu-se um estalo. Ana gritou, mas sua voz ficou perdida pela metade. E tudo parou para Ian. Tudo parecia ter ficado em silêncio e apenas o som do osso estalando e do grito ganhavam espaço em seus ouvidos. Foi muito rápido e em questão de segundos, muitas sensações se passaram no coração do garoto: medo, ansiedade, mas principalmente, raiva. E essa raiva ia o dominando com muita rapidez. Apenas uma parte muito pequena dele ainda lutava para manter a calma, mas todo o resto estava focado em uma única coisa. Cada sentido seu queria uma coisa: Queria vê-la sofrendo Queria ouvir seus gritos. Queria sentir o gosto de seu sangue Queria ter a sensação de suas unhas cortando sua pele. Queria sentir o cheiro do seu medo. Ele tinha uma fera presa, mas já não sabia se queria mais segurar as correntes.

Satine se deliciou com o grito de dor da menina, que parecia música para seus ouvidos. Uma música que ela curtiu com gozo. — Isso é pra você aprender querida - ela a fitou - Cansei de brincar e acho que vou começar por você mesma. E, com um empurrão, atirou-a contra a parede. No golpe, calculou bem a força para não matá-la, pois ainda tinha muitas contas a acertar com a pirralha pelo dano que fez a seu lindo rosto. Mas não teve tempo de fazer mais nada. Pois foi nesse instante, enquanto voltava a caminhar em direção à Ana, que ela ouviu um som que fez sua espinha gelar e seu coração acelerar descompassado. O som, que parecia de vidro explodindo, seguido de perto de um rosnado, foi o suficiente para fazê-la se petrificar onde estava. A sensação que dava era a de que tinha uma matilha de lobos as suas costas, tamanha era a ferocidade dos rosnados. Então, somando toda a sua força de vontade

474

para se virar e encarar o que estava ali, ela girou o corpo vacilante, encarando e desejando que tudo não fosse nada além de fruto de sua imaginação. Assim, quando se virou para onde estava o garoto, ela pôde contemplar o fruto de sua obra. No ar, viu inúmeros pedaços negros que antes, em conjunto, constituíam a corrente que a mantinha segura. Esses cacos, ao caírem no chão, desapareciam e agora que seu olhar pairou sobre o chão, pode ver o garoto. E seus olhos não eram mais azuis, não estavam nem negros, e sim vermelhos. Um tom rubro preenchia agora toda a íris do rapaz. Além de seus olhos, as garras que já eram avantajadas alugaram-se ainda mais em conjunto com a ponta de seus dedos que se tornavam mais longos. Satine começava a sentir seu corpo tremer ao notar como ele ia se curvando. Ian não parecia mais ser capaz de andar sem que suas mãos dianteiras tocassem o chão e, como um lobo, ele se pôs de quatro, rosnando ferozmente. O ladrar ecoava pelas paredes rochosas enquanto ele encolhia mais o corpo como uma fera pronta para dar o bote. Satine olhava seus olhos vermelhos na esperança que estivessem voltados para alguma outra coisa, mas percebeu que o único foco deles era ela mesma. Não havia outros alvos no lugar para o Garow.

475

67 - Cronos.
A garota olhava os dois demônios à frente e, apesar de apreensiva, não demonstrava medo. Não queria dar aquele gosto aos seus inimigos, principalmente por que expressar profunda confiança era a principal ferramenta para conseguir o que pretendia. Segurando o seu véu com firmeza, fazendo-o dançar em volta de seu corpo num balé hipnótico, ela atentava-se para a aura dos dois. A mulher possuía a quintessência num tom cor de rosa bem forte e a do homem era negra como a noite. Olhando bem, ela via que a energia emanada da mulher era muito superior a do companheiro, embora a força dela não fosse tão impressionante quanto a que sentiu há poucos minutos. Talvez não seja nenhum deles, refletiu. Deve haver um terceiro. Solange ainda se lembrava bem do momento em que sentiu a explosão de energia em sua casa. A força emanada era terrível, caótica e nenhum daqueles dois parecia demonstrar tamanha energia, embora reconhecesse que a energia emanada da mulher fosse bastante impressionante. Porém, se ela quisesse chegar ao seu objetivo, teria que passar por aqueles dois. Então, era melhor eliminar a garota de uma vez.

Nero olhava a menina à sua frente que parecia um pouco jovem demais para conseguir realizar o feitiço tão requintado. O perfume lançado era de fato um feitiço terrível. Através da eliminação de uma suave flagrância, um mago consegue, através dos canais olfativos, adentrar a mente de seu adversário. A essência do perfume tende a mexer com as funções cerebrais da vítima, causando alucinações e até a morte. Se Catarina não o tivesse alertado, ambos teriam sido derrubados por aquela mágica. Era irritante, mas ele ainda não estava totalmente acostumado com esse corpo, tanto que seus sentidos ainda não funcionavam bem. Caso contrário, teria percebido o cheiro do perfume. Ele estudava a garota e via seu véu vermelho dançar no ar, rodeando o corpo da usuária. Queria saber qual seria seu próximo movimento e fez sinal para que Catarina ficasse onde estava. Apesar das limitações, ainda queria testar seu novo corpo e a garota parecia ser uma boa oponente.

476

Solange viu o homem alto se colocar entre ela e a mulher demônio. Ela deve ser a líder então. Como suspeitei. E sem dar mais tempo ao tempo, posicionou-se. Tinha que ser rápida. No momento, ela estava usando a mágica Cronos. Tal habilidade é muito útil para pessoas em idade avantajada como ela, pois permitia fortalecer as células do organismo ao ponto de fazer seu corpo rejuvenescer vários anos. Porém, essa magia tinha uma curta duração, pois, exagerar na dosagem significava uma fadiga intensa nos músculos, deixando o usuário impotente sem conseguir se mexer. Levando-se em consideração as circunstâncias, Solange teve que usar esse recurso. Não podia enfrentar tal tipo de ameaça contando com seu corpo envelhecido. Mas não podia se demorar. Tinha que acabar com aquilo rápido. Nero deu um passo à frente em direção da mulher, esperando vê-la hesitar. Porém, ela não o fez. Ao contrário, num movimento rápido, a garota girou o véu em volta do seu corpo com muita destreza e num segundo ela estava ali, no outro não. Onde ela está? Ele varria o lugar a procura da garota desaparecida e foi quando finalmente conseguiu focalizar. Do meu lado. E quase não teve tempo de colocar o braço para proteger o rosto. Ouviu-se um estrondo enorme quando a perna dela o golpeou. Nero fincou os pés no chão, mas não foi o suficiente, pois a força da garota fez seu corpo se arrastar alguns metros ao lado. Tal façanha o deixou pasmo, não com a força da mulher, mas sim com a ausência da sua. Preparou-se para receber um próximo golpe, mas se surpreendeu quando a garota se virou em direção a Catarina. Num movimento gracioso, ela ergueu a perna direita formando um Ângulo de cento e oitenta graus com a outra, deixando-a cair em cima da cabeça da mulher demônio logo em seguida. Catarina investiu o corpo pra trás como pôde, a fim de evitar que seu crânio fosse atingido pela força monstruosa da oponente. E quando o pé da menina atingiu o chão, a caverna tremeu e um buraco de uns dois metros de diâmetro se abriu. As paredes soltaram uma densa poeira e algumas partes da caverna caíram. Foi um milagre o teto não ter desmoronado na cabeça dos três. Nero sentiu raiva por estar sendo subestimado, mas estava mais furioso ainda por não conseguir se mover como antes. Ele avançou contra a mulher, percebendo que não conseguia alcançar a velocidade desejada. Quem é ela?

477

Catarina se assustou com a força demonstrada que quase a esmagou, mas logo se recompôs, olhando para Nero, provavelmente cobrando dele alguma atitude. Afinal, ele havia dito que seria oponente dela. Ele corria em sua direção, mas numa velocidade tão lenta que mereceu um olhar de desprezo de Catarina. Então, sentindo todo o ódio por estar sendo humilhado, concentrou toda essa raiva e, direcionando-o para uma bola de energia negra nas mãos, arremessou-a contra a garota, usando o impulso da corrida para aumentar a pressão da magia. Mas a menina surpreendeu a todos novamente e num movimento que parecia uma espécie de balé, girou o véu envolvendo a bola e, quase sem nenhum esforço, lançou-a de novo ao encontro de Nero.

Catarina, não teve tempo de ver o que o demônio faria para evitá-la, pois a garota investiu novamente contra ela e desta vez com o punho fechado. Mais uma vez a mulher lançou seu corpo pra trás a fim de evitar o impacto, mas caiu numa armadilha. Quando pensou estar livre, percebeu que o soco da adversária era falso, e agora sua mão estava erguida para frente, aberta contra a demônio. Então, dela foi conjurado um enorme tufão de chamas que rumaram em direção à Catarina. Por não estar com os pés no chão devido ao impulso tomado para evitar o soco, não conseguiu se esquivar e levou as mãos até o rosto e desapareceu no meio das chamas.

Nero ouviu o grito de Catarina e, olhando, viu que ela fora engolida pelo fogo conjurado pela maga. Apesar de saber que aquilo não era o suficiente para por um fim na demônio, ele não gostava nada do rumo que as coisas estavam tomando. A guria era realmente forte e ele ainda não estava cem por cento. Olhou para a direção da garota, mas esta havia desaparecido novamente. Antes mesmo de pensar em procurá-la, ouviu um som atrás de si e virou-se de qualquer jeito para impedir um soco direcionado contra a boca de seu estômago. Conseguindo agarrar o braço da garota, ele a arremessou contra o muro a sua frente. Mas ela conseguiu se livrar e, lançando o véu que o envolveu na cintura, evitou o impacto. O demônio precisou fincar os pés para não ser levado junto e isso a impediu de se chocar contra o muro. Ao cair no chão, ela fez mais um movimento e o véu se desenrolou do tronco de Nero.

478

E ela já ia preparando uma nova investida quando o ambiente ficou tingido de um vermelho vivo. Olhando para o lado, viu Catarina envolvida de chamas, mas ela não parecia mais queimada por elas. Ela as controlava. Apesar de um pouco chamuscada, não demonstrava maiores ferimentos a não ser no orgulho.

Catarina tinha os olhos em brasa quando arremessou o fogo de volta à Solange. Com reflexos rápidos, a maga ergueu seu véu fazendo-o girar com toda a velocidade em volta do corpo. O vento criado foi o bastante para impedir que saísse queimada. E foi então que os três ficaram de frente, encarando-se. Aparentemente estavam todos um pouco cansados, mas Solange não tinha tempo para ficar refletindo sobre sua condição e logo investiu contra o homem, pensando em nocautear logo aquele que deveria ser o mais fácil. Depois cuidaria da mulher. O homem tentou lançar contra ela mais uma bola negra, mas executando um giro digno de uma bailarina, seu corpo jovem conseguiu desviar do ataque, salvando-se. E aproveitando da investida dele, ela foi com tudo conseguindo atingir o demônio em cheio no estômago com sua força.

Nero sentiu seu corpo disparar contra a parede e só foi impedido de se chocar com ela por que Catarina o deteve. Ele nunca se sentiu tão irritado na vida. Não podia acreditar que estava passando aquele sufoco todo para derrotar uma simples maga. Com raiva, tentou se levantar, mas o corpo falhou. Maldição. Foi então que percebeu uma sombra pairando sobre ele, e ao erguer o rosto para olhar, viu Catarina se colocar entre ele e a Mulher. A demônio estava irada, mas parecia ter percebido que se quisesse vencer teria de manter a calma. Sua expressão era calculada, embora seus olhos demonstrassem uma energia que poderia fazer qualquer ser com o mínimo de raciocínio lógico correr. O demônio sentiu-se humilhado por estar sendo protegido daquela forma. Tentou se erguer novamente, mas o corpo não obedeceu. Foi então que ordenou: — Não Catarina! Vamos embora. — Mas... — Vamos embora! - repetiu num tom que dizia: Sem discussões.

479

Catarina sentiu muito nojo daquele homem e não conseguiu acreditar que chamou um verme daqueles de amo em algum momento. Havia se decepcionado muito com ele, mas reconhecia que ela também não era páreo para a garota que começava a lançar labaredas neles. Erguendo as mãos para frente, Catarina conjurou uma barreira que os protegeu do lança chamas. Foi então que percebeu algo de errado naquele ataque. Não parecia mais ter a mesma potencia do anterior. — Catarina, vamos! – ordenou novamente E quando as chamas acabaram, ela, mesmo à contra gosto, ergueu uma das mãos em direção ao rosto, que agora aparecia cheia de um pó cor de rosa. Sem esperar novas ordens, soprou aquele conteúdo, lançando toda uma nuvem de poeira contra a oponente.

Solange

viu

uma

neblina

espessa

encher

o

ambiente,

encobrindo-os

completamente. Prevendo o que pretendiam, correu para mais perto e ali girou seu véu com toda a força, criando uma nova corrente de ar para espalhar a poeira. Mas quando conseguiu, não havia mais ninguém. — Inferno! - praguejou Mesmo irritada por tê-los deixado escapar, tinha de admitir que por um lado foi bom. Isso porque seu corpo começava amostrar o desgaste com aqueles dois. Usar a magia Cronos era muito trabalhoso e todas as magias que usara na luta haviam contribuído para desgastá-la ainda mais. Mas ela ainda não havia acabado a missão. Ainda não sabia onde estava o dono da energia monstruosa que sentiu ainda pouco e precisava encontrá-lo. Preparou-se então para correr pelos túneis a fim de achá-la, mas sua atenção foi cortada por uma nova explosão de energia. Esta, tão monstruosa quanto à anterior e por um momento Solange até acreditou que fosse a mesma, mas não era. Havia uma diferença perceptível, pequena, mas estava ali. Por um segundo, aquela manifestação a deixou intrigada, pois acreditava já tê-la sentido antes, mesmo que de forma diferente. E foi quando finalmente compreendeu, fazendo seus olhos se arregalarem e seu coração sair do compasso. Não! Sabia de quem era aquela energia. Estava mais irada e mais caótica, mas era ele, com certeza. Não pode estar acontecendo. E torcendo para estar enganada, se lançou nos corredores escuros em direção da terrível emanação.

480

68 - Besta liberada.
Que energia monstruosa, admirou-se Satine, que tremia da cabeça aos pés. Tão monstruosa que chegava a ser visível a olhou nu. A mulher conseguia ver com total clareza o contorno que as chamas vermelhas vivas faziam no corpo do garoto e acreditava que até mesmo Ana poderia enxergar tal emanação. Naquele momento, não teve chance de se arrepender, pois o medo tomava conta de sua cabeça e só conseguia fazê-la pensar em alguma forma de fugir dali. A besta não tirava os olhos dela, mas ainda não avançava, permanecendo em sua posição de ataque e rosnando ferozmente para ela. Por um momento, Satine acreditou que poderia escapar se corresse, mas foi apenas dar o primeiro passo para trás que pôde ver o garoto desaparecer diante de seus olhos. Ah, como? Ela olhava nervosamente para os lados a procura do Garow, quando seus olhos o focalizaram bem à sua frente. Ian estava ali, agachado, e agora levantava a garra contra suas pernas. — Não! – e num impulso instintivo, ela lançou seu corpo para trás conseguindo evitar as garras por uma questão de centímetros. Pelo menos foi nisso que acreditou. Mesmo evitando as unhas, o simples vento produzido pelo golpe raspou em sua perna e um espirro de sangue sujou a parede ao lado. Soltando um grito agudo que feria os tímpanos, Satine olhou alarmada para o estrago e viu três linhas vermelhas marcando sua coxa branca. — Não! Meu lindo corpo não! - ela tentava se afastar do garoto que agora andava lentamente por cima dos membros superiores e inferiores - Para com isso! Ela gritava em vão, pois sabia que ele não podia ouvi-la. Satine olhava os olhos de Ian e não conseguia enxergar mais nenhuma humanidade neles, podendo ver neles apenas uma única mensagem, clara como a água, que lhe causou um acesso de pânico: Morte. E numa investida rápida, o Garow se lançou contra ela novamente, correndo sobre os quatro membros numa velocidade alucinante. Como um animal, ele se lançou num ataque direto contra Satine. — Sai daqui! - ela urrou erguendo as mãos contra ele e disparando uma chuva de pequenas bolinhas negras.

481

Num movimento rápido, a besta se lançou contra a parede ao lado evitando o golpe e ao mesmo tempo, pegando impulso em direção e ela. Ele passou de raspão ao lado da mulher demônio, mas, mais uma vez, uma simples brisa já lhe rendeu um novo ferimento. Mais um grito de Satine encheu o ambiente e ela levou a mão à barriga, onde mais três cortes estavam à mostra. — Não! Para! - ela parecia chorar mais seus olhos não vertiam lágrimas - Por favor! Eu não quero voltar pra aquele inferno. Mais uma vez ele não parecia ouvir nada e investiu novamente. Desta vez, o movimento foi mais veloz, passando por ela uma, duas, três vezes e fazendo sangue espirrar em cada uma delas, indo e voltando. Satine começou a sentir suas energias abandonando o corpo à medida que sentia sua pele ser cortada na panturrilha, nas costas e no peito. Seu corpo foi cambaleando até o chão e seu grito ficou abafado desta vez. Não. Não quero voltar para o lá. O desespero tomava conta da mulher. Não queria passar por aquele sofrimento todo de novo. Não queria voltar à companhia daquelas almas atormentadas. Não queria passar cada dia vendo os crimes de seu passado correndo atrás dela por aonde ia. Não queria mais olhar para os vivos e sentir inveja. Não queria não poder sentir nada. Nem o vento, nem o toque dos outros. Não queria morrer de novo. Ela tentava se arrastar para longe da fera, mas esta estava diferente. Não avançava mais e agora ele a rodeava como um predador estudando a presa. — Desgraçado! - Gritou - Nero! - tentou chamar, torcendo para que o mestre pudesse acudi-la naquele momento desesperador. - Nero! Amo! Mas nada. As únicas pessoas que pareciam olhar por ela naquele momento eram a inútil da Ana e seu algoz, com aqueles olhos vermelhos desejosos. Ela sabia o que eles queriam. Sabia da sede deles. Satine viu seu sangue em toda a parte. Não podia abandonar seu corpo naquele estado. Ela sabia que a Magia Gênesis só a mantinha no mundo dos vivos se ela tivesse um corpo para habitar. Por isso sempre procurava manter seu verdadeiro corpo a salvo usando o de outras pessoas. Se saísse para tentar possuir alguém, ele terminaria de estraçalhá-la. De qualquer forma, estava perdida. E foi quando sentiu as duas listras quentes cortando seu rosto. Ela começava a chorar.

482

Ana não conseguia reconhecer o ser que atacava tão violentamente Satine. E por mais que tentasse, não conseguia enxergar Ian em nada daquilo. Ana sentiu a dor em seu braço quebrado começar a perder o efeito conforme olhava aquela cena de profunda bestialidade. O desespero da mulher era palpável e, por um segundo, a garota foi até capaz de sentir pena dela. Ninguém merecia uma morte daquelas, nem mesmo um demônio. E Ian não parava. Não descansava e continuava a retalhar o corpo de Satine. Em vários momentos, ela tinha que virar o rosto para não presenciar a cena. Era forte demais. Por mais que a mulher tentasse lutar ou esquivar, não conseguia. Ian se mostrava muito mais rápido que qualquer coisa imaginável. Em várias situações, Ana o via desaparecer para notá-lo depois, no mesmo segundo, em outro lugar. Queria se erguer do chão. Queria poder fazer algo, mas como sempre o medo a mantinha presa ao solo com uma força magnética insuperável. Pela primeira vez na vida ela sentiu medo de Ian. Olhava suas feições e não conseguia encontrar o amigo naqueles olhos vermelhos. Ela conseguia ver também a energia que emanava dele e não era do azul habitual e sim vermelha como seus olhos. Satine agora caíra e Ian parou com os ataques. Uma fagulha de esperança surgiu no peito da garota, mas que pouco durou. Ela o via circular sua vítima como um lobo cercando uma lebre, com seus olhos fixos carregados do desejo de morte. E foi quando a demônio começou a chorar. Ana não imaginava que a mulher fosse capaz de um gesto tão humano e se espantou ao ver as lágrimas que brotavam dela. Mas elas não eram feitas de água. O liquido que saía dela era vermelho escuro. Um rubro que contrastava com o branco da pele. — Ian. - chamou, mas sua voz era fraca e duvidava que o garoto a pudesse ouvila. E as palavras do garoto vieram à sua cabeça. Em vários momentos ele a avisara da besta, mas Ana nunca levou o assunto tão a sério. Julgava que Ian exagerava nas coisas, mas agora, não tinha duvidas e sentiu-se envergonhada por um dia ter duvidado daquilo. Nesse instante, a energia vermelha que circulava pelo corpo dele começou a desaparecer. Não, não estava desaparecendo, estava rumando para outro lugar. Todas as chamas corriam agora para um único ponto do corpo dele: seu braço.

483

Logo seu braço direito estava envolto de energia, só que mais intensas. Ana não entendeu o que aquilo significava, mas sabia por experiência que não devia ser nada de bom para a mulher demônio. — Não! - ouviu Satine gritar e tentar correr como podia para a passagem da caverna atrás dela. Ian disparou em sua perseguição e os dois desapareceram no escuro da passagem. Por uma fração de segundo, houve silêncio, que serviu para Ana puxar a maior quantidade de ar possível antes de voltar a esquecer como se fazia isso. E foi quando o grito da mulher pareceu estourar seus tímpanos. Ana fechou os olhos e tentou como pôde tampar os ouvidos. Depois, uma nuvem negra saiu da gruta, enchendo o lugar com um cheiro forte de enxofre. Por um momento ela ficou imóvel, contemplando a passagem por onde os dois haviam desaparecido. O silêncio agora era permanente. Acabou? Estamos salvos? O suor frio escorria por sua testa. Ela não conseguia tirar os olhos do corredor, quando viu uma forma surgir em meio à escuridão. Alguém estava voltando. Viu Ian saindo. Ele tinha o corpo curvado, mas já andava em duas pernas, o que ela pensou ser um bom sinal. Porém, quando seu olhar subiu mais e ela conseguiu fitar os seus olhos, percebeu que não estava salva. Agora, mais do que nunca, ela corria um perigo mortal. E desta vez ele não rosnou, nem a cercou, como fez com Satine. Apenas avançou.

* Era tão calmo ali. Escuro e talvez um pouco assustador, mas acima de tudo calmo. Não havia sons e tudo parecia preenchido por um liquido quente, como se estivesse de baixo d'água. Estranhamente conseguia respirar o que fez Ian ter a impressão de que, se soubesse como era estar dentro do útero materno, aquela seria a sensação. Não conseguia se lembrar de já ter vivido aquela experiência antes. Na verdade, nem conseguia se lembrar de mais nada. Era um vazio na sua cabeça e isso o ajudava a manter a paz. Mas por algum motivo, sentia que devia fazer um esforço para se lembrar. Como se alguma coisa urgente dependesse disso. O que estava fazendo ali? Qual era última coisa que conseguia se lembrar? Uma mulher loura veio a sua mente. Satine. Lembrou-se e uma raiva tomou conta dele. Sim,

484

Satine estava me atiçando, queria me fazer perder o controle. E ao olhar o escuro a sua volta, deduziu que ela havia conseguido. Mas era estranho. Nas outras ocasiões em que a besta o havia dominado, Ian não se lembrava dessa experiência. Ele simplesmente dormia e acordava em algum lugar para depois vir saber quem fora sua vítima fatal. Satine havia brincado com fogo. Havia liberado sua besta e ela devia estar no controle de seu corpo naquele momento enquanto ele estava naquele mundo de trevas. O que estaria fazendo agora? Estaria atacando Satine? E um pequeno contentamento o deixou em paz por algum tempo. Ele se lembra que esse era seu desejo antes de apagar, mas também algo o incomodava ainda assim. Algo estava passando despercebido pelo retorno de sua memória e isso poderia ser terrível. Cada célula de seu corpo lhe cobrava isso. Ele tinha que se lembrar. E foi quando um estalo de um osso ecoou em sua cabeça, despertando-o para a terrível verdade: o motivo pelo qual havia perdido o controle. Lembrou-se do grito de Ana no momento em que teve seu braço partido. Meu Deus. E foi quando percebeu que tinha de acordar de alguma forma. Agora sabia a razão do desespero que sentia. Tinha que se impedir se não fosse tarde demais. Ele tentava se despertar, como em um pesadelo, mas não sentia nenhuma diferença e foi quando viu uma luz surgir logo acima dele. Era branca e o ofuscava um pouco. Não sabia o que significava, mas instintivamente, começou a nadar em direção a ela. Era a única coisa que podia fazer. E foi como emergir do fundo do mar. Sentiu como se seu corpo saísse de um ambiente para entrar em outro no mesmo instante que o ar penetrava seus pulmões, e era como se estivesse sem respirar a muito tempo. Demorou um pouco até que a imagem do local onde estava começasse a entrar em foco e até conseguir isso, apenas sentia seu corpo correndo descontroladamente. Percebeu que tinha vontade irresistível de morder alguma coisa, arranhar, estraçalhar. E quando seus olhos voltaram a ver, viu seu alvo encolhido em um canto da caverna. A garota o olhava paralisada, segurando um braço machucado. Ela gritava seu nome e o desespero deixava sua voz mais aguda que o natural. Mas o que Ian jamais poderia esquecer naquela cena, era o pavor que via em seus olhos.

485

Somando toda a sua força de vontade, Ian conseguiu fincar os pés do chão e parar a poucos centímetros de Ana. Seu rosto estava quase colado ao dela e ele olhava diretamente em seus olhos. Aqueles olhos castanhos que sempre o viam com carinho, desta vez estavam cheios de medo. Um medo que ele já vira muitas vezes na vida. Já tinha recebido esse olhar de muitas pessoas, mas nunca dela. Ana finalmente tinha visto o monstro nele. Ele parou, com a respiração ofegante, enquanto encarava suas mãos e viu o sangue que sujava suas garras. Ian ainda sentia um gosto de sangue na boca e se sobressaltou. A noite num quarto escuro nos EUA voltou à sua cabeça. Suas mãos sujas, o gosto quente na boca. Tudo voltou de forma muito real e o desespero tomou conta de seu coração. Ana parecia ilesa, mas ele conseguia visualizar perfeitamente a garota estraçalhada no chão, no lugar de Catarina.

Ana viu o garoto disparar em sua direção. Na hora, o medo tomou conta dela o que a impediu de se movimentar. Foi tudo tão rápido, permitindo a ela apenas gritar seu nome, tentando desesperadamente chamá-lo de volta. Tentando acordá-lo. Ele se aproximou muito rápido e em poucos segundos seu rosto estava colado ao dela. Apesar de estar apavorada, em nenhum momento ela desviou o olhar. Ainda o encarava fixamente, como que presa numa vã esperança de poder voltar a ver seus olhos na cor azul. Mas agora ele estava perto demais. Ela podia até sentir suas presas encravando em sua carne antes mesmo do impacto, mas não fechou os olhos e continuou olhando-o. Nunca sentiu tanto medo na vida. Ana sabia com certeza que era seu fim. Mas foi quando ele parou. Não entendeu o que tinha acontecido, ficando ali, parada diante dele, sentindo seu hálito quente no rosto que cheirava numa mistura de menta e ferro. Parou? E foi quando viu a cor de seus olhos começarem a mudar. O vermelho foi dando lugar ao azul claro que ela tanto conhecia. E a expressão deles também mudou. Da raiva incontrolável, ao pavor profundo. Ele olhou para Ana desesperado que depois fitou as próprias garras sujas de sangue. Lágrimas alarmadas começaram a surgi em seus olhos e Ana finalmente conseguia respirar normalmente. Reconhecia agora a pessoa que olhava pra ela. Ele tinha voltado.

486

Sentiu uma pontada de felicidade e até fez menção de se levantar para abraçá-lo, mas ele deu um passo pra trás. Ana ficou apreensiva. Tentou se levantar e ele deu outro, aumentando a distância. Ana via o medo em seus olhos. O mesmo medo que ela sentira há pouco agora estava estampado no rosto de Ian. — Não - ela gaguejava, tentando erguer a mão para alcançá-lo. Sabia o que ele estava prestes a fazer, mas não conseguiu impedir. Mais rápido que sua visão conseguiu acompanhar, o garoto disparou. Sumiu pela passagem da gruta. — Ian! - a maldita voz finalmente resolveu sair, mas já era tarde. Não o via mais, não o escutava mais. Ela tentou se levantar mais uma vez e correr atrás dele, mas sentiu o corpo fraquejando e a cabeça ficando tonta. Foi perdendo seus sentidos pouco a pouco e a última coisa que pôde ver foi a figura de alguém se aproximando. Não pôde identificar quem era. Podia ser Catarina, Nero ou até mesmo Laila, mas infelizmente, sabia que não era Ian.

487

Epílogo - Novos começos.
De fato, Cassandra era uma exímia vidente. Em cima de um dos grandes edifícios da Avenida Presidente Vargas, o bispo César conseguia olhar sua Igreja. O templo que tanto lutou para reerguer estava agora rodeado pelas chamas. Ele sabia que isso aconte