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AFRODESCENDENCIAE AFRICANIDADES: UM DENTRE OS DIVERSOS


ENFOQUES POSSÍVEIS SOBRE POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL.

HENRIQUE CUNHA JUNIOR

RESUMO

Intelectuais, pensadores e propositores negros nos diversos campos do conhecimento foram


incontáveis na história do Brasil, sendo que sociedade brasileira sempre os ignorou ou
minimizou a importância de suas existências. Os movimentos negros sempre processaram
formas autônomas e inovadoras de pensar a sociedade brasileira e também estiveram à margem
dos fatores considerados importantes pela cultura dominante brasileira eurocêntrica. No
encadeado na sequência desta tradição de pensar a sociedade brasileira a partir das realidades
das populações negras, é que surgem os conceitos e as formulações de afrodescendência e de
africanidades. São formulações existentes desde 1990 que constituem enfoques sobre a
realidade brasileira e tem como base o reconhecimento de uma história africana, bem como a
importância desta para a história do Brasil. Reconhece que o Brasil é em grande parte uma
reinvenção dos legados materiais e imateriais das sociedades africanas, reprocessados nas
realidades do escravismo criminoso e do capitalismo racistas. Este artigo faz uma balança destas
posturas críticas para pensar a educação brasileira.

Palavras chaves: população negra, cultura negra, pensamento negro, educação brasileira.

ABSTRACT

Black Intellectuals, scholars and politicians in the various fields of knowledge were countless in
the history of Brazil. But the Brazilian society always ignored or downplayed the importance of
their existence and their ideas. Black movements ever always were autonomous and innovative
in the ways of thinking the Brazilian society. Also they were on the sidelines of the factors
considered important by the dominant culture Brazilian Eurocentric. In following this tradition
chained think of Brazilian society from the realities of black populations, is emerging concepts
and formulations afro - descendants and afro-heritages. All strong thoughts are existing
formulations since 1990 that constitute approaches to the Brazilian reality and is based on the
recognition of African history, and the importance of this for the history of Brazil. Recognizes
that Brazil is largely a reinvention of tangible and intangible legacies of African societies,
reprocessed in the realities of slavery and capitalism racist criminal. This article is a balance of
these critical positions to think Brazilian education.

Keywords: black people, black culture, black thought, Brazilian education.


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1- O BRASIL TEM DIFICULDADES EM CONSIDERAR A HERANÇA


AFRICANA.

Dentre os grandes embates da formação social brasileira o maior deles se deu entre as
populações africanas e europeias, devido às condições históricas em que estes grupos
populacionais e sociais se encontraram no território nacional. Poderia dizer que o escravismo
criminoso emoldurou o campo das possibilidades dos movimentos sociais enredados pelas
populações africanas e afrodescendentes e as europeias e eurodescendentes. São embates,
contradições, conformidades e as composições que a história e cultura brasileira se esforçam em
descaracterizar e ignorar como realidades, levando a considerar como inexistentes. A sociedade
oficial e dominante do escravismo criminoso foi europeizante e desqualificadora das populações
negras. O mesmo embate tem continuidade com os grupos sociais denominados como negros e
brancos na história do pós-escravismo criminoso e considerada como sociedade do capitalismo
racista. Desqualificar e desmerecer as populações negras tem sido uma ênfase persistente dos
grupos dominantes da república no Brasil. As condições de vida das populações negras têm sido
ignoradas e desconsideradas, constituindo um sistema de dominação que podemos classificar
como racismo brasileiro. A existência de racismo anti negro na sociedade brasileira é
descaracterizado pela existência da ideologia da mestiçagem, como se essa fosse suficiente e
providente para eliminar os antagonismos, como também diluir os interesses políticos, culturais
e econômicos. Racismo anti negro definido como processo de dominação tem sido pouco aceito
como existente na sociedade brasileira (MOURA, 1995).

Os intelectuais dos movimentos negros e os intelectuais negros autônomos têm realizado ao


longo de mais de dois séculos (CUNHA JUNIOR, 2005) (SANTOS, 2003) diversos enfoques
sobre a realidade social das populações negras e das contribuições culturais produzidos por estas
populações. Entretanto também estes grandes esforços culturais e intelectuais tem sido da
mesma forma ignorados pelos sistemas de transmissão da cultura, principalmente as
universidades e os sistemas de produção do conhecimento das universidades. As fórmulas
praticadas são das exclusões de intelectuais da população negra das bibliografias processadas.
Nas ausências dos africanos e afrodescendentes nas bibliografias se exclui também aqueles que
fazem propostas revolucionárias sobre o pensamento brasileiro quanto a população negra.
Citamos aqui apenas alguns exemplos. O médico negro e pesquisador Juliano Moreira. Este, no
início do século passado, foi o fundador do novo pensamento psiquiátrico brasileiro, grande
injustiçado e esquecido da ciência brasileira, foi um dos primeiros intelectuais a contestar as
premissas da escola racista baiana de medicina sobre a população negra e demonstrar que as
condições de vida impostas a esta população seria responsável pela situação destes
(JACOBINA/GELMAN, 2008). O intelectual baiano Manoel Querino (1851-1923) foi talvez
um dos primeiros a analisar e fazer justiça no que se refere à importância da população de
africanos e descendentes na formação histórica do Brasil (QUERINO, 1980), (QUERINO,
1955). Manoel Querino pensando o africano como colonizador do Brasil produziu estudos
inovadores e desafiadores sobre a cultura e a contribuição africana num período onde não havia
interesse dos estudiosos brasileiros sobre o assunto. Guerreiro Ramos é um participante dos
movimentos negros do Rio de Janeiro da época do Teatro Experimental do Negro (na versão do
Rio de Janeiro, pois houve uma versão Paulista comandado por Solano Trindade e Geraldo
Campos) e grande intelectual, possivelmente um dos grandes proponentes da sociologia
brasileira e não considerado nos meios acadêmicos (BARIANI, 2006). Na década de 1970 os
movimentos negros contaram com as proposições sobre a história brasileira vinda de Clovis
Moura (OLIVEIRA, 2006). Houve uma significativa produção de conhecimentos, desde
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reconhecer a importância dos quilombos, como pensar os diversos aspectos da população negra
na história do Brasil. Soma-se a ele a imponência da pensadora e historiadora Beatriz
Nascimento (RATTZ, 2007).

Dos exemplos e de outros não citados é possível considerar a existência de um pensamento


negro importante e dele vem as idéias autônomas de pensar a sociedade brasileira. No entanto,
os conhecimentos sobre o pensamento africano e sobre a história da África irrigaram novas
possibilidades sobre as formas de pensar a populações negras brasileiras. Assim é que desde
1990 venho trabalhando as idéias de afrodescendência e de africanidades brasileiras.

Com o conceito de africanidades fica aberto um caminho teórico para reconhecimento da


importância da herança africana no Brasil (CUNHA JUNIOR, 2010) e com as
afrodescendênciasum outro para análise da realidade da população negra, num enfoque
interdisciplinar, considerando diversos aspectos de ordem política, econômica, cultural e social,
estes entrelaçados, encadeados e não isolados como em muitas abordagens anteriores (CUNHA
JUNIOR, 2001). O conceito de afrodescendência privilegia a localidade, trabalha com enfoques
pautados na realidade dos bairros de população de maioria afrodescendente, onde os sistema de
dominação realiza o racismo anti-negro pelos meios do urbanismo e sem mencionar a cor da
pele ou os atributos tidos como raciais. Existe no espaço urbano a prática de racismo anti-negro
sem o apelo a raça social (CUNHA JUNIOR/RAMOS, 2007). Neste artigo faço uma introdução
às definições de afrodescendência e africanidades e localizo estes conceitos dentro das diversas
tendências da atualidade, como também discuto as dificuldades que tenho encontrado na
expansão destas ideias entre as similares. Concluo pela importância destas formulações na
educação brasileira levando em conta os espaços urbanos de maioria afrodescendentes.

2- AFRODESCENDÊNCIA EAFRICANIDADES: A CONSTRUÇÃO DE


CONCEITO.

Existe uma realidade a se explicar e temos uma história das populações negras a se construir
conforme nossa observação e experiência vivenciada na sociedade brasileira. As explicações da
realidade e a história teeminterferências dos grupos sociais e das visões que cada um deles da
sociedade e de suas posições nesta sociedade. Difícil termos uma história do Brasil única, que
contemple as justificativas de escravizados e de escravizadores com os mesmos conteúdos. As
elites intelectuais brasileiras, marxistas ou funcionalistas, têm em comum a base do pensamento
eurocêntrico; são os seus autores em maioria descendentes de escravizadores ou então de
imigrantes europeus. Considero que a história da humanidade não é um fato evolucionista como
nas teorias marxistas, donde todos os povos passam pelas mesmas fases de desenvolvimento.
Neste sentido a história do Brasil e talvez a história das Américas não tenham que ter
necessariamente as mesmas etapas da história da Europa. Não passamos da sociedade escravista
para a sociedade feudal e desta para a capitalista. Não temos uma uniformidade e origem étnica
na formação do povo brasileiro, somos parte de populações ameríndias, africanas e europeias,
num contexto de grandes conflitos de poder e de dominação, que as posições sociais,
econômicas, políticas e culturais não se explicam apenas pela maximização do lucro e do
aperfeiçoamento do capital.

Considero que a realidade brasileira pode ser vista com base no pensamento das sociedades
africanas e diversa da evolução europeia. Existem as filosofias africanas e as conhecemos, em
particular a filosofia dos povos Bantu (CUNHA JUNIOR, 2010). Nas sociedades africanas a
percepção da sociedade é feita de forma sistêmica, considerando a complexidade das interações
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entre os diversos fatores, não comportando uma visão dualista apenas, do falso em oposição ao
verdadeiro, do certo separado do errado, das coisas estanques em dois grupos de oposição
indissolúveis. No pensamento africano sempre existe um conglomerado de fatores para
compreensão dos fatos sociais. Nas sociedades africanas a ancestralidade indica sempre a
presença do passado, interferindo na construção de novas realidades pela intervenção das
gerações de seres humanos. A ancestralidade é territorializada. Assim as histórias das
populações africanas são compreendidas pela ação interdisciplinar entre as diversas ciências
humanas. As histórias dos grupos humanos são profundamente dependentes das localidades, das
potencialidades dos lugares e da intervenção dos grupos humanos nestes lugares. O conceito de
Afrodescendências toma em consideração esta necessidade de complexidade e de
territorialidade vinda do pensamento africano. No entanto pensa com base na experiência dos
descendentes de africanos escravizados na sociedade brasileira. Processa a existência conceitual
de um grupo social cujas experiências comuns são as origens africanas e a passagem pelo
escravismo criminoso. Neste sentido a humanidade não é considerada afrodescendente por
terem todas as populações origens no continente africano. As africanidades são a forma de
consideramos os acervos do passado, transformado no presente, quanto às formas materiais e
imateriais da herança africana na cultura brasileira. Devido os conhecimentos que temos da
história do continente africano guardamos a particularidade de entendermos as sociedades
africanas tradicionais como sociedades das escritas (CUNHA JUNIOR, 2007), (CUNHA
JUNIOR, 2012), sociedades letradas e com histórias registradas por documentos escritos
diversos, que por vezes não foram do alcance das sociedades europeias em decifrá-los.

Nesta apresentação é necessário explicar a minha posição sobre a inexistência real das raças
humanas e sobre a unidade africana. Considero que as raças humanas são invenção do próprio
racismo científico. As raças humanas não existem de forma real, apenas como conceito e foram
criadas pelo pensamento cientifico europeu do século XVIII, com base para legitimar a
dominação dos povos Africanos e Asiáticos. Estes conceitos utilizaram as pequenas variações
dentro da espécime humana para diferenciar os grupos humanos.

As teorias das raças humanas foram uma sucessão de erros propositais da manipulação
científica. Portanto negando as teorias de raças não teremos o continente Africano, para efeitos
dos estudos envolvendo as populações, dividido em “negro africano” e “não negros africanos”.
Ou então a precisão de África sub-sahariana e África sobre sahariana torna-se desnecessária.
Assim, nesta concepção a África é um só continente, as populações são diversas devido as
história, as culturas também são diversas como partes da história do conjunto africano. As
populações negras ocupam todo o continente apenas com variações de tonalidade da cor da pele,
não sendo esta a principal característica que os define ao longo da história da humanidade. O
continente africano, as culturas africanas e as populações africanas são definidas num conjunto
histórico de território particular. Grupos continentais na história da humanidade construíram ao
longo dos séculos uma grande oposição de interesses definidos de forma política e meio
arbitrária como civilizações africanas e européias. Este posicionamento conceitual dissolve a
necessidade de ficarmos discutindo se as civilizações do Nilo, Etiópia, Núbia e Egito são ou não
negras. São sobretudo civilizações pertencentes à unidade histórica do continente africano.
Alerto que o fato de considerarmos a inexistência das raças humanas de forma real não implica
em considerarmos a inexistência dos racismos, principalmente dos racismos anti-negro. Os
racismos formam um conjunto político, criado dentro de processos de dominação ideológica;
portanto, a existência deste não depende da existência de raças, sejam elas biológicas ou sociais.
Os racismos são parte da maximização do poder político dentro das sociedades. Neste sentido o
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capitalismo no Brasil é considerado como capitalismo racista, onde a lógica do poder político do
grupo branco se mistura com a do poder econômico.

Tomamos como ponto de partida que o conceito de racismo anti negro na sociedade brasileira é
estrutural; fundamenta a formação social brasileira e produz o processo de dominaçãosobre os
grupos socialmente denominados como negros, escuros ou pretos, pelos grupos de claros ou
brancos. A compreensão da situação da população negra não depende do entendimento do
racismo anti-negro como problema estrutural. Compreendendo uma articulação das dimensões
da esfera social, política, cultural e econômica, entendidas como um sistema complexo, indo
além da simplificação teóricado modelo marxistas de apenas duas classes sociais e das relações
privilegiando a esfera econômica das relações entre despossuídos e possuidores de capital.

3- “O OUTRO” DELES OU “O OUTRO” DA HISTORIA DELES.

A teoria de movimentos sociais tem inicio nos anos de 1970 e depois se amplia como o
reconhecimento de novos movimentos sociais, onde as reivindicações dos grupos sociais são
expressas na sociedade brasileira. A idéia de movimentos sociais e também de educação popular
tem grande importância para a educação brasileira devido às revisões de proposições que estas
ensejam. Entretanto, nestas formulações pouca atenção foi dada à população negra e aos
movimentos negros.

Quantos aos movimentos negros estes existem como reivindicativos e críticos da educação
brasileira deste de 1853. Mesmo em meio à sociedade escravista criminosa grupos de população
negra já criticavam as escolas e a educação existente e propunha uma educação mais adequada à
realidade da população negra. A escola para crianças pretas e pardas realizada pelo professor
Predextato (SILVA, 2000), no Rio de Janeiro,é o exemplo mais antigo revelado por recentes
estudos destes protestos sobre a educação. As escolas implantadas extra oficialmente pelas
irmandades negras e por outras organizações existiram de fato e merecem mais estudos. No
entanto, elas indicam terem tido importância devido ao número de escravizados citados em
anúncios de fuga, realizados pelos seus escravizadores, há referências que alguns sabem ler e
contar, e usavam inclusive deste artifício para se passarem por livres.

Negro Cosme foi condenado à forca por liderar no Maranhão uma das mais temidas insurreições
do povo negro já ocorrida no Brasil, que além de participar da Balaiada, liderou quilombos e
revoltas negras no Maranhão entre 1830 e 1842 (SANTOS, 1983). Cosme organizou um grande
quilombo em Lagoa Amarela e nele fundou uma escola.

Os movimentos negros do período da pós-abolição em diversas formas e com discursos


variados criticam a educação formal oferecida pelo estado, tanto pela ausência de escolas como
pela sua forma. Apontamento importante neste sentido foi à realização das escolas da Frente
Negra Brasileira nos anos de 1930 (ARAUJO, 2007).

Estes exemplos demonstram que os movimentos sociais negros precedem os movimentos socais
populares da década de 1970 e não tiveram a devida atenção pela pesquisa acadêmica (CUNHA
JUNIOR, 2003).

A educação popular fez um amalgama sem especificidades e tornou a população negra parte do
povo brasileiro anônimo, sem propostas particulares e visão de cultura própria. Neste sentido
estes grandese importantes movimentos tiveram reduzida importância na solução dos problemas
sociais da população negra.
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As teorias vindas no sentido da pluralidade e da diversidade da população fizeram varias


transformações como na história a “nova história” de influência da escola francesa dos Annales,
nos movimento do pós-colonialismo com a as formas de multiculcuralismo, interculturalismos,
nos estudos pós-coloniais e descolonização. Vários movimentos importantes mas todos
deixando lacunas no que se referem à presença das populações negras; e quando as referenciam
são percebidas apenas como os discursos “dos outros”. Outras abordagens, outras populações e
outros sujeitos. Passamos a ver “o outro” no discurso deles. Sendo uma posição incômoda e
sempre secundária. Continuaram os discursos eurocêntricos de forma mais liberais, mas sem, no
entanto comporem uma forma de verdadeira pluralidade do conhecimento e muito menos de
consideração do conhecimento africano com importância igual ao conhecimento europeu. A
vozes dos excluídos não se configuraram por si só no desejo de inclusão ampla pretendido pelos
movimentos negros. Neste sentido é que as ideias e os conceitos de Afrodescendência e de
Africanidades não fazem parte das correntes destes movimentos e guardam com relação a estes
uma certa autonomia intelectual, discursiva e prática. A luta contra a dominação ocidental e
contra os eurocentrismos deve ser traduzida através dos meios de construção das idéias, nas
quais foram criados os pensamentos em torno das Afrodescendências e das Africanidades
brasileiras. Não somos “o outro” das histórias deles e nem eles “os outros” das nossas histórias
(CUNHA JUNIOR, 2010).

4- A PESQUISA AFRODESCENDENTE

Podemos partir da constatação de que os grupos sociais que não tem pesquisa acadêmica não
recebem a atenção das políticas públicas. A pesquisa acadêmica funciona como uma
confirmação da realidade, não bastando à realidade e suas atrocidades em si. Funda-se neste
sentido a necessidade de pesquisas que tenham como preocupação a população negra, mas a
partir dela própria, não na figura de “o outro” da pesquisa. Esta necessidade leva a uma
discussão em muitos termos já superada a natureza epistemológica que tem a ver com a
inexistência da neutralidade da pesquisa.

A pesquisa em territórios de maioria afrodescendentes vem sendo realizada de forma sistemática


nos últimos 30 anos por uma geração de pesquisadores negros que tem trabalhado com um
conjunto novo de conhecimentos com base africana..

O meu interesse particular concentra-se na intervenção da realidade e na transformação social,


cultural, econômica e política das relações étnicas brasileiras. A preocupação fundamental é
com uma situação de vida, nos seus diversos aspectos, da População Afrodescendente. A nossa
ênfase é a da produção de conhecimento que permita uma intervenção nas situações de caráter
estrutural que moldam a vida dessa população. Visa uma autonomia do pensamento dos
afrodescendentescom relação à produção eurocêntrica ocidental. Trata-se do processo da
produção de conceitos e de metodologias dentro de um projeto cientifico de expressão das
afrodescendências com finalidade de uma mudança das relações sociais brasileiras. Inscreve-se
no âmbito dos movimentos sociais de maioria afrodescendentes. Entretanto um guarda a
particularidade da procura de inspiração africana como conhecimento de base. Os estudos sobre
a população afrodescendente realizados por afrodescendentes, ganharam amplitude a partir de
1980 possivelmente como parte de um projeto político dos movimentos negros. O final da
década de 1960 e início de 1970 se caracterizou por uma retomada dos movimentos negros nos
diversos estados do país (CUNHA JUNIOR, 2003), ampliando uma crítica sobre as relações
sociais e criticando as produções de conhecimento feitas por pesquisadores eurodescendentes
com conceitos apenas eurocentricos. As pesquisas sobre as populações afrodescendentes, sobre
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os temas de interesse destas populações tiveram grande impulso devido a crítica social realizada
pelos movimentos negros e também em razão do processo implementado pelos movimentos
negros denominado por Amauri Mendes Pereira (PEREIRA, 2000) como Cultura de
Consciência Negra. Fica aqui o registro que o interesse acadêmico pelos temas específicos das
populações afrodescendentes sempre foi diminuto e sempre enfrentando diversos obstáculos.
Parece que o principal obstáculo a ampliação dessas pesquisas é decorrente do enfoque dado
pela república sobre as questões da cultura nacional e das relações étnicas, procurando um
distanciamento com relação a cultura negra e a população negra. A república executou um
esforço imenso e ideológico da desafricanização do país (CUNHA JUNIOR, 2006). Esforço
este que setores políticos da direita e da esquerda, por razões opostas, deram apoio considerável
(FRANCISCO, 1992).

Parte dos pesquisadores afrodescendentes estava procurando uma produção de um


conhecimento de ruptura com uma hegemonia do pensamento eurocêntrico. Este conhecimento
de ruptura com uma hegemonia do eurocentrismo faz parte de um projeto coletivo dos
pesquisadores negros que tomou impulso a partir dos anos 1980 em diante pela leitura da
produção de Muniz Sodré (Sodré, 1983) e pela retomada dos trabalhos de Guerreiro Ramos
(RAMOS, 1995); ou então pela leitura de Marco Aurélio Luz (LUZ, 1995) e sobretudo pela
procura de leitura de filósofos e historiadores africanos. A tentativa de ruptura com uma
hegemonia se traduz em diversos projetos científicos. O emprego da pluralidade da cultura do
uso da base africana é uma deles. A retomada do pensamento africano foi um grande passo para
uma crítica e formulação de um processo de ruptura com uma hegemonia do eurocentrismo e
sobretudo com o brancocentrismo brasileiro. Com o termo brancocentrismo brasileiro procuro
sintetizar a adaptação do eurocentrismo realizado no pensamento brasileiro.

A identidade de Pesquisadores Negroscomeçou a ser consolidada ou pelo menos anunciada com


uma realização, ano de 1989, na cidade de Marília, Estado de São Paulo, do Encontro Estadual
de Pesquisadores e Pós-Graduandos Negros das Universidades Paulistas. No mesmo diapasão
da produção de um novo campo de produção científica que fala da experiência histórica e social
também, como, das necessidades de afrodescendentes, é que surge, no ano de 2000, o Primeiro
Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, realizado na cidade do Recife , dando origem
em seguida uma Associação Brasileira de Pesquisadores Negros.

A perspectiva de um novo campo de produção científica especifico das populações de


descendência africana, tratando da população desta realidade na sua própria ótica é que levou
uma incorporação dos conhecimentos da história, da cultura africana resultando na base do
conhecimento denominado afrodescendência (VIDEIRA, 2005), (CUNHA JUNIOR, 2001),
(LUZ, 2000).

As pesquisas afrodescendentes estão voltadas para os temas que tem relação com espaço urbano
e os territórios quilombolas (VIDEIRA, 2005), (DAMIÃO, 2007). Estamos preocupados com as
relações da população afrodescendente no espaço urbano das cidades brasileiras e nas regiões de
rurais de comunidades de quilombos. Para nós o Racismo faz parte de um processo de
dominação e com consequências no campo estrutural nas relações de trabalho, da cultura e da
educação. (CUNHA JUNIOR, 2006), (ANJOS, 2006), (KERSTING, 1997), (MAUCH, 1988).
Racismo produz desta forma uma ideologia de dominação entre os grupos étnicos e possibilita
uma sistemática de produção e reprodução das desigualdades sócio-econômicas, políticas e
culturais entre os grupos étnicos no interior da sociedade. Não se trata de um problema simples
e inter-pessoal apenas, nem de problemas apenas da cor da pele, mas sim das estruturas sociais,
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primando assim pelas práticas das instituições do Estado e dos setores privados. Tratamos
racismo como uma categoria específica, “racismo anti-negro” diferenciado das demais formas
de racismos genéricos. O racismo anti-negro no Brasil é um problema amplo perpassando as
instituições públicas e privadas, a formação histórica, econômica esocial do país, que afeta mais
da metade da população brasileira; portanto, um problema estrutural da sociedade brasileira.
Entretanto, nem sempre visto como tal e nem sempre referido na literatura nesta dimensão.

5- CONCLUSÕES

A proposta do conceito de territórios de maioria afrodescendentes é uma visão nova sobre os


bairros habitados pela população negra (CUNHA JUNIOR, 2006). No sentido teórico a
proposição é que estes territórios teem uma construção histórica particular e própria. Guarda as
particularidades da cultura da base africana e dos desenvolvimentos sociais das populações
afrodescendentes nas suas localidades. A ênfase sobre a localidade é importante uma vez que
cada local tem uma forma própria. Isto refuta os poderes da dominação consumistas e da
dominação racista eurocêntrica pensando estes territórios com certa autonomia cultural. A
cultura tem uma autonomia mesmo com a economia mundializada. As generalizações são
também vistas como inapropriadas para compreensão da vida da população negra.

Como a educação é um instrumento da transmissão da cultura, esta educação para a população


afrodescendente precisa ser formulação com as particularidades de cada um dos territórios de
maioria afrodescendentes. Neste sentido a educação precisaria de uma forte revisão com foco na
especialização cultural política social de cada território. Existe nesta pauta dos movimentos
negros um embrião de uma revolução cultural pela via da educação para os territórios de
maioria afrodescendentes. Na pauta geral destas transformações está o combate ao racismo
institucional anti-negro. Todo o conjunto dos movimentos negros têm este item na pauta de
trabalho. Parte deste conjunto dá ênfase ao aprofundamento sobre a cultura de base africana na
educação como forma de afastamento do eurocentrismo e da dominação ocidental. O
pensamento universitário com foco na afrodescendência e com a formulação dos territórios de
maioria afrodescendente, leva estas propostas dos movimentos negros dos anos1970 como uma
ruptura conceitual profunda com relação a educação brasileira em geral.

Educação sem a afrodescendência produz uma síntese da dominação ocidental pelas formas que
estas se apresentam nos territórios de maioria afrodescendentes. A dominação ocidental tem o
título de racismo antinegro na formulação dos movimentos negros sobre a produção da situação
da população negra na sociedade brasileira. As abordagens sobre educação nos movimentos
negros desde a década de 1970 passaram por uma formulação ampla na tentativa de melhor
explicar a produção da situaçãosócio-econômica e cultural da população negra.

Pensar os territórios de maioria afrodescendentes levou a especificidade de análise sobre a


situação da população negra na sociedade brasileira. Especificidade que contradiz as diversas
formulações sobre as relações étnicas brasileiras. Tanto as formulações que pretendem as
relações sociais sem grandes antagonismos entre afrodescendentes e eurodescendentes, quanto
as que reconhecem os antagonismos, mas os inclui apenas nas relações do trabalho e do capital.

Na formulação dada pela afrodescendência os antagonismos são vistos como forma estrutural da
formação social brasileira, regulando o universo da política de dominação entre grupos sociais.
Sistema esse que forma historicamente uma oposição de interesses entre africanos e
afrodescendentes, entre escravizados e esscravizadores no sistema de produção escravista
criminoso deixando uma herança para o sistema do capitalismo racista.
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