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“VIVA O REI, MORTE AO MAU GOVERNO”: AS CARTAS CHILENAS E A POLÍTI-


CA REFORMISTA DO IMPÉRIO ULTRAMARINO PORTUGUÊS
Adriano Toledo Paiva (UFV)
Jonas Marçal Queiroz (UFV)

As Cartas Chilenas: considerações historiográficas, teóricas e


metodológicas.

Nosso objetivo com este trabalho é analisar o pensamento político de


Tomás Antônio Gonzaga e suas possíveis relações com o contexto histórico da Con-
juração Mineira. Procuraremos nos distanciar da interpretação tradicional de que o
movimento liderado por Tiradentes foi um prenúncio da emancipação política de 1822
e, portanto, uma primeira prefiguração do sentimento de nacionalidade brasileira. Isto
nos leva a procurar observar melhor a natureza e conteúdo da resistência colonial, do
reformismo e da imposição da autoridade metropolitana no século XVIII.

Nesse sentido, tentaremos evidenciar o “aspecto regionalista” das obras


produzidas no período colonial e as práticas políticas e sociais do Antigo Regime.
Focalizaremos o fervilhar de uma cultura política na América Portuguesa, salientando
a linha divisória entre o permitido e o interdito, entre o uso e o abuso, e as responsa-
bilidades para preservação ou alteração da boa ordem. As epístolas que compõem
as Cartas Chilenas – obra que analisaremos mais detidamente – suscitam toda a
importância da sociabilidade literária e artística que era comum ao “formalismo” dos
letrados mineiros. Os poemas satíricos, compostos de versos decassílabos brancos,
foram agrupados em treze cartas e revelam a fratura política de uma sociedade, es-
tabelecendo uma crítica contundente a determinados comportamentos que lhe eram
próprios.

Os movimentos “nativistas”, a Inconfidência Mineira, seus integrantes,


especialmente Tiradentes, foram redescobertos pela República para estabelecer uma
conexão entre a velha ordem – período colonial – e o novo regime político que se
iniciava, além de cunhar uma nova identidade nacional que visava oposição ao que
lhe era exterior (tradição lusitana). Destarte, as revoltas, motins, as Cartas Chile-
nas,1 sublevações no final do período setecentista, tiveram as cores ressaltadas pelos
historiadores republicanos como forma de cunhar uma nacionalidade apropriada ao
novo regime político. Os republicanos se apartaram da tradição lusitana propagada
pela historiografia produzida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB),
que construía a nação do segundo Reinado enquanto propagadora e continuadora
dos ideais de civilização implementados pelo colonizador. Todavia, o IHGB procurava
“disciplinar idéias soltas de nacionalidade” na História do Brasil Imperial, deste modo,
os movimentos chamados de “nativistas” não foram enfocados sob a perspectiva de
uma contestação da ordem colonial, preconizadores de um sentimento de brasilidade,
_________________
1
Em um estudo bibliográfico acerca das Cartas Chilenas, na Revista do Arquivo Público Mineiro, as
epístolas são consideradas documentos históricos de valor “singular, insubstituível para quem conhe-
cer bem as causas, os fatos e o governo da Capitania Mineira”. Neste artigo, o período que governou
Cunha Menezes é caracterizado por “desoladores e de terríveis acontecimentos” que contribuíram
para a conspiração de 1789, que juntamente com as cartas de Critilo, expressam “formidável libello” e
“glorioso tentamen de liberdade e independência nacional”.

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pois se buscava o patriotismo sem constituir uma oposição a Europa e ao Estado que
se consolidava. (GUIMARÃES, 1988, p.5-7) (REIS, 2003, p. 32, 47)

Segundo Lourival Gomes Machado, as Cartas Chilenas possuem prin-


cípios menos justificadores do poder e representava em seu estilo um efetivo exercí-
cio, no qual buscavam os inconfidentes ilustrados razões de obediência ou motivo de
revolta. (MACHADO, 1977, p. 375-376) Nícia Vilela Luz afirma que nas Minas bastaria
um modelo concreto, imediato e um líder para se armar um levante. Para a historiado-
ra, mesmo que o movimento de 1789 se circunscreve a Minas Gerais tinha um projeto
nacionalista, podendo, portanto, “considerá-lo sem hesitação um movimento precur-
sor da independência do Brasil”. (LUZ, 1977, p.404-405) Sérgio Buarque de Holanda
considera os movimentos e sublevações nativistas como manifestações localizadas,
esparsas no território imperial lusitano, expressando geralmente uma insatisfação por
parte dos colonos perante as atitudes político-administrativas metropolitanas. Sérgio
Buarque de Holanda ressalta que esta sociabilidade de cunho local poderia desenca-
dear o ideal de emancipação política. (HOLANDA, 1965, p.9) Para K. Maxwell muitos
motins já haviam ocorrido anteriormente nas Minas, levantes custosos em vidas e
propriedades, mas a Conjuração Mineira, em oposição aos movimentos anteriores,
estava revestida de motivação fundamentalmente anticolonial e tão conscientemente
nacionalista. (MAXWELL, 2001, p.406)

Tais análises tratam-se de uma generalização corrente e interpretação


desmedida, que constata a existência entre os naturais do país de um sentimento
generalizado de oposição ao reino, particularmente com o séqüito dos governadores.2
A História como uma “biografia nacional” torna-se unívoca em direção à formação da
nação, transformando o passado colonial em antecedente do nacionalismo moderno.
Para resgatarmos a historicidade deste passado é preciso desvencilhar-nos da tradi-
ção tríade que nos foi imposta: colônia – nativismo – nação.3 (SILVA, 1997, p.13-18,
60)

As erupções coletivas de rebeldia, como nos demonstra István Jancsó,


se esvaíam no específico de sua mediação imediata e na superação e resolução
de problemas pontuais, mesmo com o recurso da violência para o estabelecimento
da ordem, a monarquia não era questionada, mas preservada no seu papel de nú-
cleo ordenador das legitimidades e legalidades. (JANCSÓ, 1997, p.388) Os distúrbios
ocorridos nas Minas, nos primórdios dos setecentos, saques, motins, sublevações,
revoltas e a Inconfidência Mineira propõem a correção de um sistema de governo
localmente mal exercido, para torná-lo bom e justo.4 A organização do poder e estrutu-
___________________
2
Sobre a historiografia da Inconfidência Mineira, ver (FONSECA, 2002, p. 439-466).
3
Pensar a colônia e a colonização a partir da ótica do capital mercantil, segundo o historiador, afastaria
as análises de um certo tipo de teleologia e de “nativismo”. Para R. Forastieri Silva, a concepção do
passado colonial não é teleológica, embora conceba o modelo explicativo preconizado por Caio Prado
Junior e Fernando Novais, no qual a colônia é portadora de um “sentido”: promover a acumulação pri-
mitiva de capitais e, conseqüentemente, o desenvolvimento de uma nova etapa do capitalismo. Nesta
análise os objetos históricos estão atrelados e definidos pelo desenvolvimento do sistema Capitalista.
4
Carla Anastasia argumenta que os conflitos ocorridos na região das Minas, da primeira metade do
século XVIII, não eram nacionalistas nem separatistas, pois não colocavam a situação colonial em
questão. O que estava em jogo era o controle das estruturas locais de mando, as formas autoritárias de
dominação local, denotando uma gradativa reação ao poder público e, em contrapartida, a extensão da
máquina administrativa estatal aos sertões. (ANASTASIA, 1989, p.79)

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ras de mando torna-se o alvo das críticas destes movimentos, o objetivo que movia os
“insurgentes” era o de “Viva o Rei, morra o governo”, expressão da contestação que
não subverte os fundamentos da ordem, mas inicialmente busca restaurá-los . István
Jancsó argumenta que os eventos de Minas Gerais (1789) e da Bahia (1798) configu-
ram sedições na medida que se constituíam vontade de subverter a ordem pública e
padrões do Estado. Contudo, observa que a linha democrática do que é ou deixa de
ser contestação não é nítida, e a imprecisão dos limites da sedição revela-se nestes
quantos e outros episódios do final do século XVIII na América Lusitana. Mas, ressalta
o historiador, para além de enfocar o seu caráter contestatório na idéia de antecipa-
ção da brasilidade, devemos observar os movimentos sob a perspectiva de ampliação
do espaço social na América e suas novas alternativas para o ordenamento político
do universo colonial. (JANCSÓN, 1997,p.389-391) Russel-Wood, ao analisar estas
revoltas, elencou três elementos básicos para situar estes eventos em perspectiva,
“desmistificando-os” do fervor nacionalista e regionalista, da imprecisão e confusão
do estudo de terminologias e de traduções de trabalhos da língua portuguesa: pois
“nenhum destes casos não tinha o apoio de todo à população, os impactos destas lu-
tas permaneceram localizados (havendo pouca ou nenhuma repercussão em regiões
imediatas), nestes “movimentos não existiram estratégias planificadas para acabar
com o controle régio e o estabelecimento de uma república”. (RUSSEL-WOOD, 2001,
p.449) As afirmações de Russel-Wood elucidam o caráter essencialmente localizado
destes movimentos e o fato de não se direcionarem contra o soberano ou instituição
monárquica, apesar da antipatia dos vassalos em relação à metrópole. As causas
de tais “revoltas” ou distúrbios podem ser encontrados nas mudanças ou desafios do
statu quo social e econômico.

Segundo Joaci P. Furtado, as Cartas Chilenas mantêm um vínculo com


acontecimentos validados por outros gêneros documentais, mas “a empiria dos fatos está
longe de ser considerada a contribuição dos poemas herói-cômicos”. Escritas na década
de 80 do século XVIII, próximo à Conjura Mineira, as missivas não devem ser considera-
das “Evangelho de libertação colonial”, nem “grito lancinante da angústia da população
pelos éditos régios”. Tais interpretações equivocadas das epístolas advêm de uma histo-
riografia romântica e positivista, na qual o valor de uma obra literária determinava-se pela
sua função referencial. Portanto, essas leituras não fazem a crítica ao discurso literário,
mas projetam seus próprios critérios de produção e recepção da literatura para o passado.
(FURTADO, 2001, p.770-771)

Tomando os argumentos de J. A. Hansen, Joaci Pereira Furtado demons-


tra que a preceptiva da retórica como subgênero epidítico produzia, na segunda metade
do século XVIII, uma sátira que objetivava um fim essencialmente moral e moralizante. A
produção literária era desprovida de qualquer noção de individualidade ou subjetividade
psicológica. Desta forma, as Cartas Chilenas podem ser interpretadas sob a auctoritas do
modelo ou gênero que é imitado segundo a racionalidade técnica ou não-psicológica do
autor. (FURTADO, 2001, p.759) A sátira das Cartas Chilenas mescla estilos sem figurar
uma unidade, nesta obra observamos preceptivas líricas do encômio e do épico. A repre-
sentação nos discursos do Antigo Regime refere-se aos conflitos relacionados à posição
social, além de conectar o primado do visual ao jurisdicionalismo. Portanto, as imagens
criadas pela sociedade colonial celebravam a hierarquia, princípios éticos e teológicos-
políticos. (HANSEN, 2001, p.740,743-744) Para Antônio Candido, os pensadores Árcades
manifestam freqüentemente uma expressão racional da natureza e demonstram uma

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“verdade” relativa às coisas locais e na busca de normas justas, que deveriam pautar a
vida, comportamentos do povo. Realizam estes intelectuais uma investigação sistêmica
da realidade e questionamentos para as transformações de seu estatuto político.(SOUZA,
1977, p.95-96). O pensamento político e jurídico de Gonzaga apresentam mesclas ilustra-
das, no que tange às teorias corporativas de poder e ao direito natural de origem divina,
criticando os jusnaturalistas modernos e amparando ideais católicos. (VALLE, 2004, p. 5)

Analisando as missivas de Critilo, procuramos observar a solidariedade polí-


tica setecentista, no qual o repensar o império não configura uma ruptura, tampouco visava
unicamente a acumulação primitiva de capitais em Portugal, como afirma Caio Boschi e
Laura de Mello e Souza. Todavia, as discussões de como administrar de maneira eficiente
suscitou criticas profundas nestas sociedades, e influenciou decisivamente nos projetos de
tipo nacional. (PIMENTA, 2002, p. 67-68) Deste modo, as Cartas Chilenas não prenun-
ciam o sentimento nacional no século XVIII, já que a terminologia nação não possuía ca-
ráter político, como concebemos na modernidade. As referências e pontos de análise das
missivas partem da Reformatio in melius realizada pelo Estado Imperial Lusitano, presente
no pensamento de T. A. Gonzaga, juntamente com princípios escolásticos.

Do descrédito ao formalismo: o pensamento normativo nas Car-


tas Chilenas.

No Antigo Regime se materializa uma dada noção de pacto e soberania,


caracterizada por valores e práticas da política de privilégios. A formação política do
Império se baseou na transferência de uma série de mecanismos administrativos da
metrópole aos seus demais domínios do globo. A implementação de uma política mais
rígida no Império, baseada na “economia moral do dom”, proporcionou o sentimento
de pertencimento dos vassalos – reinóis e ultramarinos – criando redes de poder e
hierarquia que dinamizavam o poder metropolitano e proporcionavam melhoria em
seu exercício. (XAVIER & HESPANHA, 1993, p.381) O Estado possuía aspecto cor-
porativo, um corpus mysticum secular, ligado ao funcionamento de seu soberano, que
com atuação constante de sua justiça ordenava o social e garantia o bem comum.
(KANTAROVITZ, 1994, p.114) A existência de uma “relação simbiótica” entre Coroa
e Magistratura transformava os funcionários régios nos defensores mais importantes
da autoridade por meio da aplicação da justiça do rei. Contudo, estes funcionários
acabaram enredados nas malhas geradas pelos interesses locais, portanto, tornan-
do-se vulneráveis ao tráfico de influências, especialmente no baixo escalão da buro-
cracia colonial. (GOUVÊIA, 2001, p.303-304) O Padre Antônio Vieira argumentou que
os magistrados coloniais portavam de um certa autonomia, e que os seus interesses
destoavam dos ditames do soberano:

A sombra, quando o sol está em zênite, é muito pequenina, e


toda se vos mete debaixo dos pés; mas quando o sol está no
oriente ou no ocaso, essa sombra se estende tão imensamente,
que mal cabe dentro dos horizontes. Assim nem mais nem menos
os que retendem e alcançam os governos ultramarinos. Lá onde
o sol está no zênite, não só se metem estas sombras debaixo dos
pés do príncipe, serão também dos seus ministros. Mas quando
chegam àquelas Índias, onde nasce o sol, ou a estas onde se põe,
cresce tanto as mesmas sombras, que excedem muito a medida
dos mesmos reis de que são imagens. (SOUZA, 1989, p. 92.)

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Esta alusão metafórica de Padre Antônio Vieira demonstra a realidade


das estruturas e mecanismos de poder na capitania mineira, ponto do Império Lusi-
tano onde o poder local “mais se encompridou” em projeção das sombras. Os fun-
cionários mineiros corromperam as redes do poder em seu próprio proveito, urdindo
a esfera pública e privada, tornando seus negócios interesses públicos, e utilizando
destes interesses para seu proveito. Laura de Mello e Souza analisa a máquina admi-
nistrativa mineira engolfada em contradições, oscilando em um movimento pendular
entre “a sujeição extrema ao Estado e autonomia” (SOUZA, 1989, p. 96-97). Havia,
pois, que fazer sentir o Estado, mas evitando o sentimento de ódio a este aparelho
administrativo, que era essencialmente moroso. Os administradores procuravam ditar
postos norteadores para a organização e implementação da ordo social nas terras
incultas e bárbaras onde aflora o fulvo metal (FURTADO, 1999, p.166-169).

As práticas judiciais eram uma das facetas que contribuíam para a ma-
nutenção da ordem colonial, seus caracteres eram a violência, coerção, arbitrarieda-
de. Os ministros que exerciam a Justiça gozavam de bastante independência. Os ca-
pitães gerais guardavam reserva aos ouvidores, pois gozavam de grande autonomia.
Um exemplo do embate destes funcionários é o de Tomás Antônio Gonzaga e Cunha
Menezes5 (SOUZA, 1989, p.105,116-117).

O despotismo foi a marca efetiva do poder metropolitano na Capitania


mineira. Os funcionários régios impunham as ordenações da Coroa acima dos interes-
ses locais. A administração centrada na figura do rei representava a ação e gerência
do Estado nas minas, que impôs seu poder aos sertões inóspitos. A tônica reformista
marcaria os discursos do fim dos setecentos procura reanimar as forças econômicas
e de mercado. Francisco Andrade afirma que o Estado metropolitano, por seu governo
político, passou a assumir o papel de único e verdadeiro protagonista nas descober-
tas e conquistas, requerendo para si direitos e atributos específicos, privativos de um
poder público. (ANDRADE, 2002, p.209) Na segunda metade do século XVIII, obser-
vamos uma grande inovação na forma de como a Coroa portuguesa coordenava sua
política no complexo colonial Atlântico, almejando a implementação de um sistema de
governo para recuperar economicamente Portugal e conseqüentemente seus domí-
nios. A percepção do estado de decadência do ouro provocou medidas reformadoras
que incidiam na administração, na morosidade da justiça, na cobrança de impostos e
contribuições, nas receitas e práticas alfandegárias. 6
__________________
5
Acerca da sobreposição de funções e autonomia do poder local, ver (RUSSEL-WOOD, 1977) e (PI-
RES, 2004, p.1-10).
6
Os burocratas voltam seu olhar para as colônias, especialmente para sua melhor possessão, o Brasil,
que possuía peso no comércio colonial e manutenção do equilíbrio econômico do reino. D. Rodrigo de
Souza Coutinho demonstrou uma grande preocupação com a unidade política do império, objetivando
o estabelecimento de um nexo indissolúvel em todas as partes do fluido território, para conferir felicida-
de dos povos e grandeza a El Rey. As idéias basilares de unidade política do império e de manutenção
da dependência colonial desempenhavam estratégias para levar a cabo um modelo de desenvolvimen-
to assente, expresso na diferenciação produtiva ou divisão do trabalho e pela agricultura. (CARDOSO
& ALMODAVAR, 1999, p.04-11). A preocupação técnica com a extração aurífera e apontavam como
meio de se evitar a decadência das minas e de incentivo a prática agrícola. O reformismo ilustrado luso
se caracterizou por um revivescer fisiocrático, no qual a imaginária riqueza de Minas, “o ouro, passa a
ser encarada como um mal”. Nesta perspectiva, Azeredo Coutinho afirma que uma nação sensata não
deve imitar os desvarios de um jogador, mas, necessitava de se estabelecer sobre bases mais sólidas
e permanentes “, tal suporte seria a agricultura, “riqueza verdadeira e duradoura”. (SOUZA, 1989, p.
36, 38, 40)

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Na América Portuguesa implementava-se uma série de melhoramentos


que permitissem acréscimos de produção e ganho de produtividade, baseados nas
diretrizes e preceitos iluministas, da prática científica e saberes técnicos. No último
quartel dos setecentos, os projetos de uma cultura científica se articulavam às re-
formas pragmáticas, sobre a tríade do monopólio fiscal, justiça e controle militar. As
ações concretas estatais e a “aventura especulativa” do período Mariano e Joanino
tiveram como projeto a confecção uma História Natural das colônias e Metrópoles. 7

Nos domínios imperias lusitano se criou uma concepção orgânica de


Estado, na qual qualquer membro do corpo político que não funcione em acordo com
os demais, e, sobretudo, conforme estabelece a cabeça (soberano), deveria ser cor-
tado e destruído para garantir estabilidade e desenvolvimento ao governo. A influência
iluminista fazia este Estado verter-se para o “bem comum”, assegurando a harmonia
entre as partes constituintes da res publica. O rei passava a ser fonte de harmonia e
poder na aceitação e construção da realidade. O “bem público” só poderia resultar na
anulação do múltiplo e no estabelecimento do uno. (SILVEIRA, 1997, p.78-79) A polí-
tica reformista possuía atração exercida pelos modelos franceses, que estabeleciam
uma lógica coesa, nova e unitária ao corpo político, econômico e social.

A política reformista lusa cunhava uma “ideologia da colonização”, na


segunda metade do século XVIII, calcada no modelo e processo civilizador,8 que se
acentuavam com a ilustração e projetos de “mitologias orgânicas”, para a boa gerência
do Estado. Inseridos e embebidos nesta atmosfera estavam os funcionários e memo-
rialistas que se preocupavam com os problemas da sociedade mineradora, realizando
considerações e referências acerca do grau de desenvolvimento e civilidade que se
encontrava as Minas. Tomás Antônio Gonzaga, assim como burocratas e viajantes,
criticava a realidade e irregularidades, afetações na sociedade mineira e o “descrédito
ao formalismo”, defendendo a justa medida, desejo de raiz teologal. O poeta almejava
uma reforma com base na virtude, na qual aparecessem intactos os interesses da
Coroa e do estatuto escravista, deste modo, denunciava as atrocidades cometidas
pelo aparelho administrativo, propondo uma capacitação dos governantes pelas leis,
portanto, os processos sociais seriam regidos de maneira racional e esclarecida. Na
lógica católica e patrimonialista, o poder resulta da capacidade de arregimentar em
torno de si fontes vitoriosas de respeito e prestígio. Na obra analisada, observamos
que ocorre um elogio ao passado, a uma “idade perdida”, portanto, as Cartas Chile-
nas procurava implementar uma ordem e unidade anterior, paradisíaca, ainda que
por sucessivas reformas. (SILVEIRA, 1997, p.76)

_____________
7
A cultura européia setecentista apostava na ciência como signo da racionalidade, do aperfeiçoamento,
do progresso material e utilidade. A aproximação da História Natural ao campo do saber decorre da
publicação dos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772), proporcionando um afastamento das
superstições e arcaísmos intelectuais. (FILHO, 2001, p.483, 488, 493). O governo promoveu uma visão
pragmática do conhecimento científico, tomou uma série de procedimentos culturais e educacionais
dinamizando a produção de matérias-primas na colônia em benefício da metrópole, entre os quais o
apoio a instituições educacionais e aulas voltadas para estudos práticos e científicos. (VILLALTA, 1997,
348-349). A implementação desta política reformadora nos domínios coloniais do Ultramar decorreu da
criação da Real Academia de Ciência de Lisboa em 1779, realizando uma política positiva para atender
as demandas do Estado, inventariando a riqueza das colônias, conhecendo melhor seus territórios para
“dominá-los”, conquistá-los e explorá-los com mais eficácia. (FILHO, 2001, p. 485)

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Neste texto de padrões estéticos árcades, vozeia a persona satírica atra-


vés do decoro e subversão da realidade. As missivas expressam um caráter mora-
lizante, despertando ações indignas, recobertas de vícios, para causar repulsa ao
leitor dos fatos narrados. No prólogo observamos tal aspecto quando a frase latina de
Horácio é resgatada: “Quid rides? mutato nomine,/de te Fabula narratur”...9, fazendo o
leitor internalizar as críticas presentes nas cartas revendo seu posicionamento e atitu-
des nas sociedades que integram, através do antimodelo Fanfarrão Minésio:

Este, o Critilo, o precioso efeito/ dos teus versos será, como


em espelho, / Que as cores toma, e que reflete a imagem; / Os
ímpios Chefes de uma igual conduta/ A ele se verão argüidos/
pela face brilhante da virtude, / Que nos defeitos de um castiga
a tantos. (GONZAGA, 1996, p.36)

A perspectiva retórica poética neoclássica é realizada como uma pintura


em tópicos discursivos, construindo caricaturalmente os personagens, sob o princípio
aristotélico do disforme moralmente, e com esta peculiaridade transladada para todas
as esferas da vida das personas construídas. (FURTADO, 2001, p.761, 771) Deste
modo, a descrição das autoridades mineiras é o primeiro predicado, que se constrói
para este Governo, fazendo com que os homens se persuadam das aparências exte-
riores e creditem ou não confiança aos personagens.

A cunhagem do antimodelo revela os posicionamentos ideológicos de


Tomás Gonzaga, contrário a uma política permeada pelos privilégios local, despótica,
que proporcionava um aumento da sombra deste governo sobre a efígie do Rei, como
nos aludiu Padre Antônio Vieira. O capitão geral cercou-se de “néscios e peraltas”,
que Gonzaga compara a moscas e abutres em busca de mel e carne podre: esta “lou-
ca gente provém de toda a parte corre a ver, se encontra / Algum alívio à sombra dele”.
(GONZAGA, 1996, p.73-74) Com estes argumentos, Tomás Antônio Gonzaga obser-
vava como os cargos administrativos e sua concessão – especialmente do governa-
dor geral – necessitavam de implementação de estratégias governativas reformistas.
Destarte, os cargos administrativos eram monopolizados por um grupo seleto de indi-
víduos que concediam títulos e benesses a amigos e parentes, além de se corromper
por subsídios pecuniários. A nobreza portuguesa não se mantinha da propriedade de
terra, mas sim das mercês. 10 (GONZAGA, 1996, p. 43-44)

Gonzaga observava que era prática comum o monarca indicar brasões


e escudos dinásticos repletos de glória para o regimento dos domínios coloniais e
que, ao assumir os órgãos administrativos, esta nobreza se entregava à “desgraçada
justiça”, apartada das leis do reino, utilizando a balança do interesse como medida
para realizar despachos injustos, conceder mercês e postos. Em suma, “Os mesmos
Magistrados se revestem / Do gênio, e das paixões de quem governa. / Se o Rei é
piedoso, são benignos / os severos ministrar se é tirano, / Mostram os pios corações

________________
8
O processo de civilização dos costumes e desenvolvimento de um “aparelho de autocontrole indivi-
dual” acontece na “Europa Moderna” e é transposto para as colônias. As diretrizes sociais ocidentais
se disseminaram ocasionalmente para a estruturação destas sociedades, criando novas identidades,
disponibilidades culturais e simbólicas entre os indivíduos nestas inseridas. (ELIAS, 1993: v. II p. 195,
213)
9
Por que ris? Mudado o nome, / a fábula fala de ti. (GONZAGA, 1996, p. 36)

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de feras”. Critilo nos demonstra o quanto um chefe indigno pode acometer a virtude
do império. (GONZAGA, 1996, p.44--45)

Critilo professa as medidas e ideais proferidos pelo Estado reformista


português, de unidade territorial, a “nível provincial” com a metrópole, não pensada
como uma configuração que abrangia todo o território colonial. O estabelecimento de
um interesse uno, que se vertia para o bem comum, e não nos interesses particulares,
criava a necessidade de implantação de um sólido aparelho político e administrativo
que colocasse fim às sobreposições de interesses e privados no poder colonial. Para
Gonzaga o controle da administração imperial deveria ser exercido por homens letra-
dos e ilustrados, pois os “ministros carecem de apertados estudos, mil exames”, não
sabendo “escrever uma só regra”. (GONZAGA, 1996, p.44-45) Critilo nos demonstra
que as letras, a Justiça e temperança não são morgados que são construídos pela
sucessão dos fidalgos, mas por valores internalizados e constituídos nas práticas e
relações cotidianas. A persona satírica afirma que o governante deve dedicar-se à
leitura contínua de “doutos livros” e tratar com sábios homens, “não viver a consumir
as horas, como passava Fanfarrão Minésio, a falar com néscios e peraltas”, metendo
nas pernas perfumes e concertando a ponta de seus lencinhos. (GONZAGA, 1996, p.
44-45)

Os homens que possuíam cargos administrativos nas Minas, segundo


Tomás Antônio Gonzaga, provinham da Classe dos tendeiros e mesmo “ascendendo
socialmente” continuavam a cuidar de suas vendas:

As santas Leis do Reino não concedem/ ao magistrado régio,


que execute/ No crime o seu julgado, e o nosso Chefe/ Quer, que
dêem as sentenças sem apelo/ Incultos comandantes, que nem
sabem/ Fazer um bom diário do que vendem!/ (...) Estes homens
são uns grandes Consultos, que meteram/ Os corpos do Direito
nos seus cascos” (...). “os postos, Doroteu, aqui se vendem./ E
como as outras choças, que se compram, / Devem daqueles ser,
que os mais pagam. (GONZAGA, 1996, p. 91,133)

Ao construir a imagem do Chefe, a persona satírica intentou que este


possuía uma alma amante da virtude11, mas afirma que esta foi uma brejeirice que
obrou Fanfarrão para “chamar a si todos os negócios”. O governador fazia soltar mui-
tos presos das cadeias, libertava os acusados que não possuía seu assento realizado
em três dias, ajudava órfãos, viúvas, miseráveis que padeciam em “duras e rotas
camas”, protegia as honradas donzelas. Contudo, similar a Nero, Fanfarrão gover-
naria pelas regras da “formosa justiça”; porém trocaria o cetro pelas mãos de ferro.
O “grande chefe” decidia os deveres e despesas do povo com Letrados e Cartórios,
praticava a justiça e punia os infratores. “Decide os casos todos que lhe ocorrem, /
ou seja de Moral, ou de Direito / Ou pertençam a Medicina, / Sem brotar, (que ainda
é mais), / abaixo um livro / Da sua sempre virgem livraria”. (GONZAGA, 1996, p.76-
77) Narra Critilo que os infratores eram julgados pelo benigno Chefe a cem açoites,
_____________
10
“De pejo, e de vergonha os bons Monarcas, / Que prós intenções sempre alimentam/ De reger como
filhos os seus povos, / Tocados se verão – Prudentes, sábios, / Consultarão primeiro sobre a escolha/
Daqueles Chefes, que as remotas terras/ Determinam mandar, deles fiando/ A importante porção do
seu governo” (...). “É filho do Marquês do Conde é filho; / Vá das Índias reger o vasto Empório. / (...) Que
tão longe o trono prostitui/ O vosso império aos abortivos Chefes”. (GONZAGA, 1996, p.43-44)

Discursos e Identidade Cultural


631

portanto, pessoas que cometiam pequenos delitos eram punidos como criminosos ou
“réus de morte”, igualmente como puniam os senhores seus escravos que cometiam
desobediências caseiras.12 Fanfarrão desobedecia as leis do Reino e mandava que a
todos os devedores se prendam, mostrando grande zelo nas cobranças, ordenando
os soldados que se dirijam às comarcas para que se cumpra o débito com El Rey, do
contrário seriam os homens concernidos na cadeia. (GONZAGA, 1996, p. 164-165)

Cunha Meneses obrava com má fé as leis do reino, vendia-se a qualquer


preço, incorporava naturais da terra – “mulatos desgraçados e desclassificados” – para
militarizar a Capitania e fazer frente às oligarquias. Tais particularidades horrorizaram
o espírito conservador e estamental de T. A. Gonzaga. A persona satírica é avessa à
“ascensão” social da “arraia miúda”, mormente tendeiros e mulatos, sendo partidário
tenaz de uma divisão hierárquica impermeável, resultando em um reino bem governa-
do, desta maneira, cargos de importância não deveriam ser regidos por homem sem
nascimento e origem. Na segunda metade dos setecentos, a sociedade mineira re-
correu a mecanismos para reforço de sua hierarquia e estigma social. (SOUZA, 2001,
p.184-185)13 Tomás Antônio Gonzaga revela tal particularidade em seu pensamento,
típico da “ideologia da colonização”, de uma política civilizadora e reformista.

O poeta demonstra que no tempo de Cunha Meneses estava cada vez


mais em desuso os floretes e as perucas brancas. Os magistrados deixavam a mostra
seus cabelos naturais, nem se preocupava de freqüentar a missa de chicote em pu-
nho e chapéu fincado, “na forma em que passeiam os caixeiros”. (GONZAGA, 1996,
p.124-125) Para Gonzaga nesta sociedade desapareceram referências e manifesta-
ções de decoro e urbanidade. Os homens de alto cabedal imitam os vastos costumes
femininos, seguindo as modas e raspando as barbas, não mais se portam a mesa
com distinção, além de sair das reuniões sem se despedir dos amigos. (GONZAGA,
1996, p.54) O poeta censura a abolição das “regras tradicionais de cortesia”, elogia a
antiga etiqueta e mostra-se apegado à exteriorização das hierarquias, princípio típi-
co do processo civilizador. Segundo Critilo, a implantação de hábitos afrancesados,
modas novas e comportamentos vis – descrédito ao formalismo – são particulares de
uma sociedade aluvial, composta por uma horda de imigrantes, que não conheceram,
em sua terra de origem, a oportunidade de assimilar os altos padrões de civilidade e
luzimento e que os incorpora na administração e sociedade.

O Arsenal de normas de conduta virtuosas mobilizadas pela persona sa-


tírica contra o “antiexemplo” demonstra que os homens são naturalmente propensos
ao mal, e que o governante não poderia cometer ações viciosas para não inspirar os
comuns. A construção da personagem satirizada cunha uma estrutura discursiva mo-
delar e disciplinarizadora, baseada nas práticas e costumes civilizados, um “arquétipo
ideal” encarnado de virtude e rígidas hierarquias sociais. O estabelecimento de uma
ordem norteada pelos princípios Tomista e aristotélicos permeia o pensamento de
Tomás Antônio Gonzaga.
_____________
11
Nosso personagem satirizado, “mal se põe na Igreja de joelhos, / Abre os braços em cruz, a terra bei-
ja, / Entorta todo o seu pescoço, fecha os olhos”.Faz que chora, suspira, fere o peito, / E executa outras
muitas macaquices, / Estando em parte, onde o mundo as veja “. (GONZAGA, 1996, p. 68-69).
12
“Uns gritam que são livres; outros clamam, / Que as sábias leis do Rei os julgam broncos: / Este diz,
que não tem algum delito, / Que tal vigor mereça, aquele pede/ Do injusto acusador ao céu vingança”.
(GONZAGA, 1996, p. 92-95).

Discursos e Identidade Cultural


632

Portanto, ao analisar estas missivas de Critilo, não utilizamos uma pers-


pectiva de contestação da ordem vigente, de cunho separatista, prenunciando um
“sentimento de brasilidade”, mas enfocamos o pensamento decorrente do contexto
da Ilustração, promovendo a ampliação de um espaço de discussões políticas e so-
ciais inseridos nos meandros da cultura e discursos do Antigo Regime. O pensamento
burocrático dos coloniais era o de “colocar fim” aos abusos, desusos e despotismos
locais fazendo prevalecer os ideais da monarquia distante, da qual os “d’aquém mar”
são fiéis súditos do rei. Pois, “Os Chefes, bem que Chefes, são vassalos; / E os vas-
salos não têm poder supremo. / O mesmo grande Jove, que modera/ O Mar, a Terra,
e o Céu, não pode tudo, / Que ao justo só se estende o seu Império”. (GONZAGA,
1996, p.73)

Considerações finais:

Discutimos com este trabalho o pensamento político e jurídico de To-


más Antônio Gonzaga através das Cartas Chilenas. Inserimos a obra nos debates
reformistas e civilizadores do Estado Imperial Português, na segunda metade do sete-
centos, e enquanto preceptiva retórica de cunho discursivo e modelar, apresentando
códigos comuns que deveriam ser compartilhados para o retorno da sociedade a um
“antigo costume”, baseado na virtude e no amor, no “bom uso”. A representação co-
lonial era regida pela prescrição aristotélica, fundindo lógica e retórica como técnicas
para a invenção e disposição da sociedade em geral. Este modus operandi expressa-
va-se nos princípios teológicos-políticos e éticos, cunhando um arquétipo ideal para
as sociedades visando seu bom gerenciamento.

Com a construção de um antimodelo, Fanfarrão Minésio, a persona sa-


tírica, Critilo, critica a realidade política e administrativa Imperial, especificamente nas
Minas Gerais, assinalando que as instituições e os hábitos estavam corrompidos pelo
despotismo local. Gonzaga concebia como melhor filosofia de justiça a de Peraldo,
que consistia em “uma virtude que dá a cada um o que é seu”. (ANTUNES, 2004,
p.02) Esta concepção esclarece o pensamento de Gonzaga, quanto ao seu apego às
hierarquias e ao bom governo. Estaria o nosso jurista inserido no “pensamento arcai-
zante de colonização e desenvolvimento” Português no século XVIII?14 Valorizando o
bom uso, criticando o descrédito ao formalismo por parte dos “Donos do poder”, reafir-
mando os ideais da sociedade escravista, Critilo professava o ideal político reformista
para restabelecer a ordem nas sociedades lusas, mas não subvertia a efígie do so-
berano. Todavia, os Estados modernos eram considerados patrimônios do monarca,
sendo redesenhados por práticas de conjunção típica do Antigo Regime, empresas
coloniais, guerras, acordos de paz, casamentos dinásticos, perda ou ganho territorial.

____________
13
Segundo Laura de Mello e Souza, num primeiro momento, a sociedade mineira estava aberta à
promoção social e ao talento individual, à maneira da sociedade de classes; depois, estabeleceram-se
princípios de uma sociedade de estados, característica do Antigo Regime. (SOUZA, 2001, p. 184-185)
14
O domínio imperial Português não estava inserido em um projeto de concretização do modo de pro-
dução capitalista. A sua economia reforçava a estrutura agrária tradicional, incentivava o crescimento
de um aparelho burocrático, a fim de inibir a atividade privada e a acumulação de capitais, buscava-se
a aristocratização. Todavia, uma sociedade pautada nestas práticas tem o “arcaísmo como um projeto”,
sendo não-capitalista.(FRAGOSO, 1998, p.79-83)
15
Debates acerca das terminologias e conceitos de nação no Antigo regime e na modernidade, ver: (PI-

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633

O Estado reivindicava para si unidade e centralidade de poderes acima dos corpos


políticos, se identificando como nação, ou seja, comunidades formadas por todos os
grupos sociais, no Velho e no Novo Mundo, na condição de leais súditos do rei, tendo
como poder de coesão a dinastia, por meio da figura monárquica, e a vassalagem. A
unidade patriótica comum aos reinos e pátrias, localizados no Novo e Velho mundo,
postularam a existência de uma nação. Este “patriotismo” não tinha caráter moderno,
mas centrava-se na defesa régia, religiosa e de valores compartilhados.15 Não existia
neste período uma pré-figuração de sentimento de brasilidade, e o movimento de
1789 visava a solução de problemas relacionados ao statu quo econômico social dos
conjurados; portanto, configurava um movimento de caráter regional, que não possuía
estratégia planificada de extinção do poder régio, tampouco de consolidação de uma
República. Com base no formalismo dos letrados mineiros a Conjuração Mineira não
seria um movimento separatista, pois visava a instauração de uma res publica – en-
tendida como qualquer forma de governo – que restaurasse a ordem social e econô-
mica para o progresso d’el Rey.

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