II Congresso do CRI2i

A Teoria Geral do Imaginário 50 anos depois: conceitos, noções, metáforas
Porto Alegre, Brasil - 29 a 31 de outubro de 2015

Saúde integral e imaginário: uma proposta de tecnologia social e comunitária
Integral health and imaginary: a proposal for a social technology and community
Pleine santé et imaginaire: une proposition de la technologie sociale et communautaire

Adilson MARQUES1
ONG Círculo de São Francisco, São Carlos, Brasil
Resumo
Esta comunicação visa apresentar a metodologia de trabalho da ONG Círculo de São
Francisco, na cidade de São Carlos, criada em 2003 para difundir e popularizar as práticas
naturais, integrativas, complementares e populares, atendendo gratuitamente a comunidade.
Essa metodologia denominada Essência, pode ser considerada uma tecnologia social e está
relacionada diretamente ao imaginário noturno, do tipo dramático, segundo nomenclatura de
Gilbert DURAND (1997), estimulando uma perspectiva holonômica de atendimento à saúde,
na linha sugerida por José Carlos de PAULA CARVALHO (1990).
Palavras-chave: imaginário; tecnologia social; saúde integral
Abstract
This communication aims to present the work methodology of the ONG Círculo de São
Francisco, in São Carlos city, established in 2003 to disseminate and popularize natural,
integrative, complementary and popular treatments. This methodology called “essence”, can
be considered a social technology and is directly related to nocturnal imagery, according to
Gilbert DURAND (1997), or a holonomic perspective of health care, according to José Carlos
de PAULA CARVALHO (1990).
Key words: imaginary; social technology; integral health

Introdução
A ONG Círculo de São Francisco, na cidade de São Carlos, vem se consolidando,
desde 2003, como um centro de referência comunitária no atendimento da população com
práticas naturais, complementares, integrativas e populares. Em 2013, criou o Programa
Essência, buscando atuar através de uma nova metodologia de trabalho que, do ponto de vista
das estruturas antropológicas do imaginário, parece apontar para as imagens noturnas, do tipo
dramáticas ou disseminatórias, utilizando a nomenclatura proposta por Gilbert Durand

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Adilson Marques: asamar_sc@hotmail.com

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(1997), uma vez que parecem salientar a coerência dos contrários ou a energia móvel na qual
a adaptação e a assimilação se harmonizam.
O Programa Essência pode ser considerado uma tecnologia social, cuja metodologia
consiste em integrar as diferentes abordagens terapêuticas oferecidas na ONG, de forma que
toda a equipe de voluntários participe do diagnóstico, da elaboração do plano de tratamento e
da avaliação de cada paciente, discutindo cada caso e adequando o plano de tratamento às
necessidades do cidadão que busca atendimento de saúde na ONG.
A proposta surgiu com a intenção de superar o cartesianismo, ou a “redução pelas
partes”, sem, porém, cair no outro polo, o da “redução pelo todo”, quando se perde as
singularidades de cada caso, para valorizar uma perspectiva holonômica, segundo a proposta
de Paula Carvalho (1990). Em outras palavras, é como se o primeiro polo visse apenas as
“árvores”, enquanto, o segundo, apenas a “floresta”. A proposta holonômica visa religar os
dois polos, valorizando, simultaneamente, as “árvores” e a “floresta”.
O atendimento na ONG tem como finalidade promover a autoconsciência (também
chamado de processo animagógico, uma etapa que consideramos posterior ao processo de
individuação), valorizando o processo natural de manutenção e/ou recuperação da saúde, tanto
na dimensão física, mental, emocional e espiritual, mas, sem esquecer ou desmerecer a social
e a ambiental. E as modalidades terapêuticas atualmente oferecidas são: homeopatia, terapia
floral, acupuntura, auriculoacupuntura, naturopatia, yoga, arte-terapia, terapia cranio-sacral,
TVI, reiki, shiatsu, constelação familiar, entre outras, através de profissionais habilitados, mas
que prestam serviço voluntário na organização.
Quase todos os voluntários atendem particularmente em seus consultórios. Porém, na
ONG, se envolvem em uma diferente forma de trabalho. Pela metodologia do Programa
essência, as pessoas atendidas passam, inicialmente, por uma triagem para que sejam apuradas
suas queixas principais, assim como dados de sua história pregressa. Após essa primeira
etapa, a equipe de saúde, em sua reunião semanal, discute o caso e elabora um programa de
tratamento, individualizado e personalizado, que será discutido e aprovado também pelo
consulente.
O Programa Essência começou a ser discutido e planejado em 2013, envolvendo a
participação de vários voluntários da ONG. A ideia básica era a de começar um atendimento
multidisciplinar na ONG. Apesar de oferecer várias práticas naturais, integrativas,
complementares e populares, cada voluntário, até aquele momento, organizava o seu próprio

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horário e realizava seu trabalho de forma independente e sem envolvimento com o trabalho de
outro terapeuta voluntário.
A integração das práticas, quando acontecia, era feita pelo próprio consulente que,
muitas vezes, inscrevia-se em várias atividades oferecidas, sem que houvesse um
acompanhamento por parte da equipe de voluntários para avaliar cada caso.
O Programa Essência foi colocado em prática, experimentalmente, no início de 2015
com a participação inicial de seis voluntários, sendo um médico, um fisioterapeuta, duas
psicólogas, uma enfermeira e uma fonoaudióloga, todos com especialização em alguma
prática natural, integrativa, complementar ou popular. A ONG tem, até o momento, condições
de atender até 50 pessoas, semanalmente, dentro da proposta do Programa Essência, em sua
sede.
Problematização: Qual é a relação do Programa Essência com a temática da tecnologia
social e do imaginário?
Desde 2013 a ONG participa das atividades do projeto Mapeamento de Práticas
Populares de Saúde e Educação, da UFSCAR, realizando palestras e oficinas que valorizam e
divulgam várias práticas integrativas e complementares, entre elas, a Terapia Vibracional
Integrativa (TVI), criada e sistematizada na ONG, para diferentes bairros da cidade e outros
municípios. Com uma maior difusão de seu trabalho, a ONG passou a integrar o Conselho
Municipal da Saúde. Estes fatos estimularam uma reflexão sobre o andamento dos trabalhos e
apontou para uma necessidade de mudar a metodologia de atendimento na ONG.
Apesar da ONG ter nascido em 2003, propondo uma diferente forma de encarar a
saúde, contrapondo-se ao modelo biomédico que enfatiza o tratamento das doenças de forma
fragmentada, focando principalmente na doença e, raramente, no doente, o trabalho oferecido
também era fragmentado, sem interação da equipe de terapeutas.
Desde o início, a proposta da ONG sempre foi a de pensar que o doente é um ser
espiritual vivenciando uma experiência humanizada na qual está ligado a um corpo físico e a
uma mente, e que se emociona e vivencia esta experiência humanizada em um ambiente
natural e social muitas vezes insalubre, inseguro e estressante. Essa proposta, durante os doze
primeiros anos de atuação com as práticas integrativas, complementares, naturais e populares,
atraiu a atenção de profissionais interessados em atuar como voluntários, mas sem que o

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mesmo se envolvesse com o trabalho dos demais, pautando, assim, sua prática por um
isolamento profissional, realizando o seu trabalho sem se vincular com os demais terapeutas.
Em outras palavras, a organização do trabalho da ONG ainda era predominantemente
"diurna", apesar da proposta "noturna" de atendimento à comunidade. Assim, cada
profissional atuava de forma isolada, mesmo dominando várias práticas terapêuticas e
valorizando a saúde de forma integral, dedicando-se à recuperação do bem-estar e saúde de
seus pacientes com o uso de técnicas e terapias não-convencionais.
O Programa Essência, nesse sentido, foi proposto para ser uma tecnologia social que
visa modificar a forma de trabalho, introduzindo um tratamento multidisciplinar, e
estimulando também a integração dos profissionais/voluntários envolvidos na ONG.
A proposta do Programa Essência procura valorizar uma visão holonômica do
processo organizacional, oferecendo uma forma de trabalho distinta da dominante, na qual
predomina o “imaginário heroico”, ou seja, de isolamento e de separação. E, ao integrar os
terapeutas da ONG Círculo de São Francisco para que possam atuar em equipe, levantamos a
hipótese que esse método apenas favorece o atendimento, pois vai ao encontro das
necessidades do paciente, que continua sendo pensado como um todo, em seus aspectos
físicos, emocionais, mentais, espirituais, sociais e ambientais.
Conclusões

Há evidências que o corpo físico tende à auto-cura quando os impulsos naturais
ressoam no sentido de estimular a saúde. As terapias naturais, integrativas, complementares e
populares, de forma geral, são de baixo custo quando comparadas à medicina alopática.
Porém, uma grande parcela da população não tem acesso a elas por motivos de
desconhecimento ou por questão financeira. Os atendimentos particulares costumam ser caros
e elitizados e são poucos os equipamentos de saúde pública equipados para disponibilizar
amplamente estas terapias.
Essa situação está mudando com a política nacional das práticas integrativas e
complementares, instituída em 2006, e várias cidades já possuem um programa municipal de
atendimento à população. Porém, não temos conhecimento da existência de trabalho similar
ao que a ONG Circulo de São Francisco vem colocando em prática, na cidade de São Carlos.
Talvez essa proposta iniciada pelo Programa Essência seja original dentro da saúde pública e
privada, mesmo em escala nacional.

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Nossa hipótese de trabalho é que o Programa Essência apresenta uma metodologia
original, que pode ser identificada com o imaginário "noturno" do tipo "dramático" e que se
constitui, também, em uma importante tecnologia social, considerando que este conceito
aborda não só produtos, mas também métodos, processos ou técnicas criadas para solucionar
algum tipo de problema social e que atendam aos quesitos de simplicidade, baixo custo e
aplicabilidade e impacto social comprovado, seja no âmbito da educação, da saúde, do meio
ambiente etc.
A metodologia aqui apresentada tem como principal objetivo um tratamento
holonômico capaz de compreender o ser humanizado que busca auxílio de forma integral,
respeitando todas suas funções orgânicas, bioquímicas, físicas, energéticas, sociais e como um
ser integrado à natureza e ao meio ambiente.
Além disso, visa também integrar os profissionais de saúde em uma equipe
multidisciplinar, com um objetivo comum de recuperação da saúde da população através de
atividades naturais, integrativas, complementares e populares, constituindo-se em uma forma
de atendimento mais adequado à população, especialmente aquela que não tem acesso às
clínicas particulares.
Essa compreensão holonômica e “noturna” de acolher a pessoa enferma pode ser
pensada em duas dimensões complementares, o qualitum e o quantum. Na primeira,
ampliando o autoconhecimento (animagogia) e facilitando o despertar espiritual. E, na
segunda, diminuindo os custos em medicamentos com pouca ou nenhuma reação adversa,
estimulando e promovendo o reequilíbrio das funções orgânicas, mentais, emocionais e
espirituais fortalecendo o compromisso com um ambiente natural e social mais saudável,
fraterno, cooperativo e de paz.
REFERÊNCIAS
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
ONG Círculo de São Francisco. Animagogia: educação espiritual para um mundo em
regeneração. São Carlos, BN editora, 2015.
PAULA CARVALHO, José C. Antropologia das organizações, um ensaio holonômico. Rio
de Janeiro, Imago, 1990.

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