Movimento pela Educação, surgido na blogosfera cabo-verdiana e contando com o apoio de um conjunto de cidadãos/cidadãs no país e na diáspora

, organiza uma petição contra a medida de suspensão temporária das alunas grávidas do ensino secundário. Este movimento conta ainda com o apoio da aluna Ana Rodrigues e da sua família.

Pelo Direito à Educação! A Carta das Nações Unidas foi o primeiro instrumento internacional a considerar a dimensão da igualdade entre os homens e as mulheres como um direito fundamental. Em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a ideia foi reforçada, garantindo um largo conjunto de direitos antes negados em particular às mulheres. Para reforçar a luta contra a discriminação das mulheres, entre tantas outras medidas e instrumentos específicos, em 1979, foi adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (CEDAW). Neste ano em que celebramos o 60º aniversário desta declaração, não podíamos deixar de trazer à luz um dos direitos fundamentais reconhecidos – o direito à educação. Reconhecemos que o país tem dado passos significativos no que se refere à situação das mulheres. Também não podemos ignorar o grande avanço registado em Cabo Verde relativamente à educação, nomeadamente na camada feminina e na população mais jovem. Entretanto, convém realçar a persistência de práticas discriminatórias, sendo a medida de suspensão temporária das alunas grávidas do ensino secundário (embora podendo regressar após o parto) uma constatação clara da violação dos direitos humanos das mulheres cabo-verdianas. O Plano Nacional para a Igualdade e a Equidade de Género (2005-2009) realça essa questão, chamando à atenção para a necessidade de avaliar e ponderar a coerência desta medida, introduzida a partir do ano lectivo 2001/2002, como também o seu impacto na

1

vida pessoal, social e escolar daquelas que foram atingidas por esse procedimento discriminatório. É com base na legislação nacional e no ordenamento jurídico internacional que invocamos a Meta 4 dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio – “Eliminar a disparidade de género no ensino básico e secundário, se possível até 2005, e em todos os níveis de ensino, o mais tardar até 2015” – e formulamos esta reivindicação pelo direito à permanência sem uma interrupção indesejada no ensino secundário, contestando a referida medida de discriminação negativa das jovens e adolescentes grávidas. Verificamos que, tanto no ensino básico, como no secundário, já atingimos a paridade. Porém, no ensino secundário tem havido quedas da taxa de escolarização feminina, podendo ter alguma correlação com a medida discriminatória existente, sendo de realçar a grande percentagem de jovens e adolescentes mães que se encontram fora do sistema escolar. Certamente, existem outras medidas possíveis de serem aplicadas para combater a gravidez precoce, como a educação para uma saúde sexual e reprodutiva responsável. A nossa contestação vem na sequência do caso da Ana Rodrigues, publicada no Liberal (secção sociedade, no dia 5/06/2008). Tivemos conhecimento que, no passado dia 28 de Maio deste ano, esta estudante do 11.º ano, na Escola Secundária Januário Leite, no concelho do Paul, foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”. Indignada com esse amargo sabor da discriminação feminina nas escolas cabo-verdianas, Ana Rodrigues escreveu uma carta para o Ministério da Educação e Ensino Superior, suplicando o direito de continuar os seus estudos, sem uma interrupção indesejada neste ano lectivo prestes a findar. Uma vez que a medida – apesar de ser discriminatória – abrange apenas o período de gestação, impõe-se uma questão: por que razão a estudante Ana Rodrigues foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”? Se a aluna tiver ultrapassado o limite de faltas, exigimos que ela tenha o direito de justificar as suas faltas! Não podemos deixar de relembrar que a dita medida atinge somente as mães, sendo uma clara discriminação das mulheres e desresponsabilização do homem (pai) perante a maternidade. É com uma medida 2

desta natureza que pretendemos “conciliar os princípios constitucionais de protecção da maternidade e da infância”? É desta forma que pretendemos construir uma sociedade mais justa, democrática e de respeito para com os direitos humanos? Assim, por causa do nosso descontentamento com o triste convite endereçado à estudante Ana Rodrigues – que, apesar de estar a enfrentar dificuldades económicas, é uma das melhores alunas da sua escola, com uma média acima dos 17 valores – e também tendo conhecimento de outros casos similares, decidimos avançar com uma petição, exigindo um enquadramento especial para as alunas grávidas nas escolas secundárias, bem como um acompanhamento das mães jovens e adolescentes para prosseguirem os seus estudos. Aliás esta última exigência já foi reconhecida como sendo necessária pelo Plano Nacional para a Igualdade e a Equidade de Género (2005-2009). Queremos deixar claro que a nossa intenção não é incentivar a gravidez precoce, mas combater o possível abandono escolar e a discriminação que a referida medida de suspensão implica. Exigimos o direito à educação!

“Todos os direitos para todos e para todas!”

Movimento pela Educação

3