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(#) "92 José Gil ‘mento do espago material tem e terd cada vez mais efeitos na expansio do espago do corpo e da conscigncia dos portugueses, Ascor icias io portanto ambfguas, as mudangas comple~ as, ndo-lineares e imprevisiveis, No salto brusco da pequenez fa 0 colossal hé a ansia des- ‘em fazer de Porjufal (¢ sobretudo de Lisboa) uma tmetr6pole cosmopolita cpfio Paris ou Nova Torque. Sonho pro- ‘mando Pessoa (falando da vontade por- {uguesa de cosmopolitismo), No entanto, nele passa uma forga real que acaba pot obrigar os corpos e as mentes a ultrapassa- tem os seus limites — mais uma vee, em direcstes talver im previs De qe jdnano somos, neses tempor madangs? Que see Go significa que ainda nfo ajustémnos a nossa estat ‘Com tantas imagens de nbs eda fo atnamos com o ta als, se aleangaré quando finalmentenoa vp, a outos pales, O nossomerdadeiro tw as trocas constants que com ele 3S ue possvimos vn tamanho variave de necessria€ funglo da capacidade de ser sos n6s (de 6s expressarmos, de crarhos) sem Jependermos de 8 Por puro auto-espelhamento, Varabilidade pré. pra do nosso tamanho que se exprimiré (em condigbes ideas) na sua méxima poténcia (porqus/éstamos agora muito longe desse alvo). Deinaremos fnalmee de perguntar «de que tamanho so. mos n6s, prtugueses?», porque deixaremos de ter problemas de ‘idenidade. Gib, dose OO medo de existin Lisboa: Ruse ro DY gre, 20077 AAS ed Da economia dos afectos De onde vem o retraimento que, ainda por vezes, nos tolhe no desejo de permanecermos pequenos? As causas sio tantas ¢ tio ics, sociolégicas, psicolégicas) que o se ia outras concepgées da causalidade nas cincias hu: itemo-nos a indicar certos lugares privilegiados da rmanifestagio da pequenez. Portugal continua a ser,em muitos aspectos importantes, uma sociedade fechada, aberta a superficie, ¢ fechada no interior. Ac- ‘walmente, a reacgio 3 abertura que se traduz pelo apego cada vez mais desesperado aos modelos antigos que legitimavam o fechamento nfo produz novas ideias, novos modos de adapta- ‘glo, novos discursos éticos. Agarramo-nos ao que jf conhece: ‘mo$ € a0 que nos habitudmos — e que em nés se sedi salvagio contra os flagelos que entram fem breve, escancarada) a0 mundo, hherdados, perdidos e que se retomam pont a familia esté em desagregagio, nas grandes cidaces. As sepi es, os divércios com todas as sequelas que arrastam; a adoles- ‘céncia cada vez mais ameagada, os pais que jf nile sabem lidar . jovens e menos es José Gil regida por normas tradicionais ancestrais. Familia que, de um Ponto de vista geral — com todos os conflitos ¢ disfungSes que Ihe sto inerentes — constituia um nucleo de base que agia posi- tivamente para a manutengio do equilfbrio do campo social. Esse tipo de familia gerou comportamentos, automatismos, yar material e espiritualmente to podero- 1m globalmente o que se poderi do determi liar representava um © familiarismo envolvia por dentro o mundo portugues, des- de a familia popular até ao Estado (Salazar mandava 20 embai- xador portugues em Franga caixas de ananases eserevendo-lhe, cteio — cito de cor — que eles «vinham da nossa quinta». O império era uma quinta, com propriedaderistica de um agega- 6 Familiar, o povo portugués). tratamento paiico que uma pessoa dispensava a outra copia- ‘va @ relago familiar. No fundo, o modo como cada individuo se dispanha a tftar outro em qualquer situaglo implicava a ameni- dade, proximidade, a familaridade, a intimidade imediatas com que se aborda um parente. Nos anos 80 ainda, um funcionério de tum banco lsboeta atendia longamente uma serhora do Minho que the contava toda a histria da familia, antes de chegar ao assunto, ‘A longa fila por detrés dela esperava pacientemente, sem protes- tar, sabendo 0 que estava a acontecer. Eo empregado escutava-a é ‘compreendia-a, jé nfo como um estranho. 0s portugueses eram todos parentes. O familiarismo induzia uma vasta promiscuidade social, a famosa «gregaridade» lusita- na E claro que outras clivagens — verticals, hierfrquices ou de classe — atenuavam este efeito, mas enquanto consequéncia da ‘atmosfera politica opressiva (era uma maneira dela se abrigar, insuflando afectividade pessoal numa vida materialment lectualmente, espiritualmente ¢ existencialmente pob vvessava as prdprias diferengas sociais. Com estilos des diferentes, reinava na alta burguesia como no povo.. Portugal, Hoje: O Medo de Exist 35 Assim se constitui, na grande esfera da afectividade social, ‘uma estrutura envolvente que reproduzia a todos 0s niveis o mo- delo afectivo-relacional da célula familiar, Claro que uma tal es- trutura se desenvolvia em intmeras variantes, mas a sua forga envolvente era omnipresente e quase sem falhas. No fundo, for- necia também um estranho coadjuvante ao poder politico. Primeiro, criava uma espécie de cadeia continua de corpos afectivos que, porque podiam exprimir 0 seu fntimo (familiar), iam menos a opressio civica e politica, assim como a au- im espago pubblico. ‘Em sekundo lugar, nessa comrente afectiva em que todos eram irmtios (uma espécie de irmandade social nua) vivia-se incons- cientemente qualquer coisa como uma democracia dos afectos: todos iguais porque todos humanos, nos mesmos sentimentos & flor da pele. Nao jafirmo que este fenémeno tena resultado da reptessio politica, como uma compensagio simétrica & humilha- «glo e & desigualdade. Tendo também esse sentido, constituia an- tes de mais um terreno que favorecia consideravelmente o poder politico. Porque essa suposta democracia afectiva, longe de li- bertar ¢ dar direitos, seguia o modelo do familiarismo que fecha- va, aprisionava, encolhia os espiritos’ numa em que eles cultivavam a ilusfo da igualdade ¢ da fraternidade. [lusio tanto mais fécil de fabricar quanto a célula era atapetada com afectos. (© «pil» como tratamento fraterno é um indice — que se vai perdendo — desse tipo de familiarismo igualitirio. Que parece ‘mesmo escapar a0 fechamento, ¢ abrir para uma subjectivagao colectiva. «O p&, ou 0 «pa» com uma certa entoasio no fim das, frases 6 um tratamento sedutor de aproximagio, de reconheci- mento de uma igualdade, para além do estatuto social — 0 n0s- so Presidente da Repiblica, Jorge Sampaio, empregava constan- temente 0 «pao. No entanto, 0 «psi designa um sujeito que no imo, nem parente, nem camarada de uina corporago ou de ‘grupo associative. Enquanto to elacional generalizado, resulta da introdugio ling 1m factor impessoal sguagem familiarista e, no seio do fechamento, de um «fora» de- mocritico. 56 José Gil Hi qualquer coisa deste tipo no mecanismo de funcionamen- to da «malta» — também em vias de extinglo. A «malta» no é # horda selvagem, mas também no se molda a0 familiarismo. esmagava,) a relagdo social no precisava de espago pi 3 publicamente, 0 familiarismo cimen- wubava) tudo o que era suposto funcionar no rande complexidade. Por exemplo, que im no espaco pifblico-privado do famili , enquanto dispositivo de subjectivagio, o gregaris- mo portugues? iséssemos mais profundamente, constatariamos que to afectivo» se exprimia publicamente em muito menor Que 0 substrato emoc ‘megal6mano. Por outro lado, 0 espago em que se exercia o familiarismo ‘comportava uma extensa zona de sombra, Uma zona de clandes- tinidade do desejo. Com efeito, nfo nos referimos aqui a clan- destinidade politica, mas a um outro tipo de existéncia furtiva. . inserigdo do individuo. Nao que af acontecesse de facto qu Portugal, Hoje: O Medo de Existir 3 [No tempo do salazarismo e, paradoxalmente,em parte contra a éemocracia afectiva do sujeito individval-socialcriou-se uma ou- tra vida de expansio dos afectos. Mais do que afectos, tatava-se, no fundo, de desejo. A clandestnidade, nas condiges do regime politico-moral do Estado Novo, obrigava o desejo a dstorgdes, a ¢stratégias, a intensificagdes que levariam a um longo estudo. Di- ‘gamos apenas que o proprio espago urbano se fracturava em dois, ‘desenvolvendo-se na zona clandestina uma outra cidade, com ou- tros sujitos, outtos oSdigos de comportamento, vivendo como aque uma liberdade ao avesso € uma Vida amnorosa intensissima (Um exemplo entre mil: durante a meia hora que demorava a ia do Tejo, entre as mulheres que vinham do Barreiro pa- ‘em Lisboa, e que se compunham e maquilhavam no ainda ensonadas, € os homens que tomavam invariavel- mente & mesma hora o mesmo cacilheiro, nasciam mil intrigns, sexuais ¢ amorosss, fora do casamento que duravam anos. A ur- géncia do desejo era amplificada pela clandestinidade geral que (© Estado moral repressivo impunha.) Indiquemos um ultimo aspecto da afectividade social do tem- pelo familiarismo surgiam como 0s tic quer coisa que transformasse a experiéncia pessoal, ou que ,0 abafada, logo Ihe eram retiradas as condi- esse e produrisse sentido, Porque, para nada havia safda (um «fora»). No entanto,o ambiente afectivo reinante, a textua afectiva da atmosfera entre as pessoas era tio pregnante que se criavaailusio {de uma inscrigdo. Era ali, na familia, que a vida tomava sentido. Eram os lacos pessoais, sentimentais, que alicergavam a amizade, ‘ou o simples contacto entre os seres, que «contava na vida», Ou seja, aquele estranho efeito do afecto activo (como a alegria ¢ 0 amor) que consiste em dara lusto da imotalidade (po iss0 0 Ut timo deseo ea Ultima esperanga do moribundo é senti-se amado), 58 José Gil ‘como se de uma inscriedo eterna’se tratasse, agia fortemente no familiaismo portugués. Porque sentiamos afectos (temura, cari- "ho, preacupaso dos outros por nés, docu, solidariedade, etc.) estévamos salvos, De qué? Precisamente, do desaparecimento sem deixar rasto, da existéncia que se sabe sem vestigios no futuro, apagando-se assim toda a sua presenga no presente. Salvos da no- -inserigio, quer dizer, radicalmente, da morte. Mecanismo que se assemelha a0 do neurotico obsessive que ‘r€ que os seus pensamentos valem por acgdes (0 desejo de agit ‘equivale a uma acgio efectuada) ‘A sdemocracia afectiva», o famil colhos vistos da vida portuguesa. ‘Numa sociedade em transigio, nada veio ainda ocuparo lugar desse tipo de afectividade social. A medida que se ddimenta a democracia politica, a subjectivagio correspondente (0 sujeito dos direitos democriticos) nao se constituiu ainda, nem os diteitos de cidadania, nem os simples reflexos de civis- ‘mo foram interiorizados pelo portugués do pés-25 de Abril. [Nesta situagao instével, 0 corpos e os esptitos nfo se abriram a0 novo espago que'aliberdade politica devia crar. A abertura produziu-se @ um nivel formal ¢ 0s corpos continuaram fechados. Porque, como acabmos de ver, a democracia dos afectos do tem- 1 do salazarismo, longe de abrir os corpos, mantinha-os semi- cerrados, adormecidos numa ilusio de lago afectivo formador € criativo, mas efectivamente clandestino ¢ imaginério — porque 0 espago piblico nao dava vazio ao desenvolvimento ¢ ao trabalho do desejo. ‘0 25 de Abril nao libertou os corpos, sendo formalmente, co- ‘mo nfo alargou 0 horizonte dos espiritos, sendo teoricamente, Nao foram os extraordindrios e temerétios printipios de liber- dade substancial que 0s varios «processosrevoluciondrios» pro- puseram ¢ quiseram inscrever (pelo menos na Cor que transformaram 0 espaco dos corpos encolhido pelo medo ¢ os hdbitos de submissio interiorizados durante dé- ccadas, A democracia formal criou as condigdes para a sua trans- formagio mas ndo a realizou, Depois de varias experitncias vo- ismo esto a afastarse a Portugal, Hoje: O Medo de Existr 9 luntaristas de abertura — logo abortadas ou engolidas pela pré- tica e pelo discurso politicos — 08 corpos e 0s espiritos vol ram aos velhos padres arquissedimentados. Simplesmente, agora os corpos afectivos aparecem esgotados pelo investimento continuo e intenso no «trabalho revolucioné- rio». Mais recentemente, a partir do fim dos anos 80 — a afec~ de social de antigamente ¢ o familiarismo sofreram gol 1s com a desestruturagio da familia e com um ac: alvez, na hist6ria de Portugal, o enriquecimento |. para uma grande parte dos cidadios, e a saida situagdo geral de pobreza em que o pais vivera du- se, mais iva séculos. Ainda que a pobreza continue a atin ‘ou menos dois milhdes de portugueses... Para compreendermos melhor este ltimo factor de transfor- rmagio das mentalidades, num processo ainda em curso de aban- dono da pequenez da Conquista de uma outra dimensio, con- sideremos um pequeno exemplo: a modificagao brusca de uma economia femiliar de poupanga para uma economia de consumo enfentand event sgragas futuras (doengas, acidentes), aumentos de despesas (filhos, festas, ete:) num pals em que ndo existiam praticamente seguran- ‘sociale apoio A saide; € a ambiglo de se elevar a um nivel de 0 José Gil Vida um pouco melhor. A poupanca néo se praticava unicamente nas classes populares, abrangiagusse sem excepyfo as classes m ava poupar? Restringir 0 desejo ao mimo indis- para criar um epé-de-meia». O que impressiona, hoje, ontinuidade obstinata, a paixto quase, com que upavase na comida, na roupa, na casa, nos di- vertimentos, nos prazeres da vida de toda a ordem. Umas calgas Podiam durar dez ou vinte anos mesmo, eos sapatos outros tan tos; remendav das da cozinha para as ver- s da companhia. Nio se deixa- etc imaginar as consequéncias de um tal regime de vida. Redugo do espago de expansio dos corpos, dos movie mentos prdprios de exploragao, de investimento afectivo, de li ‘berdade corporal, de espontaneidade do desejo. Controlo perma- nente, autodisciplina mutiladora da vontade de vida (e da vida da vontade). Além do desenvolvimento de um cert {que limita a generosidade e a solidariedade, t © moldado a estes imperatives, a poupanga impunha uma vigi- lfncia permanente sobre os gastos, uma desconfianca arreigada evar. Os portugueses criaram. rma dois pares de olhos para verem melhor, para se es- atrés de uma mascara avaliando e descortinando cal- ‘mamente 0 avesso do visfvel (¢ as segundas intengdes dos ou- tos — sociedade docemente paranéica). Cultivaram também ‘um certo tempo de prudéncia, de ndo-precipitagio, uma lentidao que dava ensejo a nunca se deixar apanhar pelo imprevisto. Portugal, Hoje: O Medo de Existr 6 CCuriosamente, este tempo subjectivo néo implicava uma vas- ta duragdo, com a capacidade de tecer planos e projects a longo ue a poupanga era uma actividade continuamente pe- tempo subjectivo formou-se também de burscos, de ‘onde nada acontecia. Um tempo envolvente, que hante Aaquele, salttante, dos comportamentos de superficie). Um tem po eternamente «adiado>, «terttorializador no adiamento. "k economia da poupanga correspondeu, pois, um encolhi- mento brutal do espago do corpo, agora abrigado na sua ade~ quada pequenez, ¢ um esteitamento do horizonte da conscién- cia, eda inteligéncia cada vez mais condenada as estratégias da ‘cesperteza» e do «desenrasque>. Encolhimento e estreitamento ue, sedimentando-se a pouco e pouco, anquilosaram e enquis- taram corpos e espfrtos, para finalmente neles se incorporarem ‘com eles se confundirem ‘Compreende-se como a nova ordem cavaquista veio, primeiro, revolucionar éstes dda poupanga se fica do consumismo e do desperdicio. A pequenez tradicional sucedeu uma escala variével que vai do grande ao descomunal, Mas nem por isso 0 espago ¢ o tempo fisicos, que assim muda- ‘vam, deram lugar a um novo espago do corpo e a um tempo sub- Jectivo expandido, Por exemplo, véem-se hoje casos deste tipo: um easal (de novos-ricos, ainda hi pouco de recursos modestos) manda cons- truir uma grande vivenda e, 20 lado, um quarto e uma cozinha de pequenas dimensbes. Vive nestes,¢ a grande casa fica va- 2a, Justficam o seu comportamento dizendo que «é para no sujar a cast, 0 eenriquecei!» cavaquista provocou talvez as primeiras bre- ‘chas profundas na experiéncia do espago e do tempo do povo por- tugués desde hi séculos. Se no a modificou ainda, inicio um processo que, vndo de fora, ating estratos de habitos e mentali- dades que comegaram enfim a deslocar-se, Porque foi 0 préprio espago exteriot — rodoviério, urbanistico, teritorial — que s0- e José Gil freu transformagées radicais. Ao mesmo tempo, os corpos portu- agueses foram, muito lentamente, adquirindo novos gestos, per- dendo velhas estereotipias. Eles proprios vio modificando 0 seu ‘metabolismo interno, © horizonte do espirito © do pensamento leva mais tempo a abrir-se © a alargar-se. Curiosamente, © processo de transforma- «940 representa uma violencia que irrompe de f pentinamente, atficialmente.A Unio Europeia j entrou em nés « modificou o nosso mapa geogrifico, as nossas les, a nossa eco- nomi, fez desaparecer muitos comportamentos ancestrais, per- turbou a nossa afectividade social, deslocando-a, pervertendo-a, abolindo-a em miltiplos casos. Mas se a Europa entrou em nés, 'nds ainda nfo entrémos na Europa. As tansformagbes econdtti- ‘case teenol6gicas que a Comunidade Europeia impie a0 n0s50 pats, nés respondemos com uma resisténcia (sobretudo passiva) que se apoia em velhas estratégias de «inteligéncia de sobrevi- constituindo uma verdadeira barrera 20 «desenvolvimenton.. Por isso 0 pats ndo se desenvolveu realmente, durante estes anos de riqueza que nos foi oferecida de bandeja (claro, com contrapartidas dest nem revolugdes radica senvolvimento), nem ia administragio, de reforma fiscal, ‘ou da satide. Perdemos — estamos a perder — uma ‘oportunidade nica, E 0 nosso frigiltecido econémico esboroa- -se dia ap6s dia, Portugal arisca-se a desaparecer. Se, neste momento inicial do século xxi, a um esforeo ‘Portugal, Hoje: O Medo de Exist 8 ropeias, do que saber que as nossa produsestém grande «co «li fora». Olé fora» continua longe de n6s. Ora, todo esse esforgo redundaré em puro beneficio vio, em simples praticagio do ego nacional, enquanto nfo increvermos também as ultras esrangeiras na nossa propria cultura, Como. poderemos fazer se no conseguimos sequer inscrevermo-nos a ‘ds,na nossa era, na nossa striae na nose existécia? E por fue somos o pals da nio-inscrgGo que tanta dificuldade tem em se inscrever na Europa; e que com tio fracas forgas se Ihe ope, fenquanto agial ineversivelmente se inscreve com voléacia no nosso terri. ‘A entrada de Portugal na Unido Europeia — de dentro para fora — processa-se, pois, través de mil ambiguidades. No meio da grande perturbagio act ‘8 desiraigo do pais arcaico rovoca, agarramo-ios a automatismos afectivos, & tentagao da corrupeiio (esperteza) por velhos habitos de impunidade de cl se, inércia, a0 compatrio (vestigios degenerados da anti mocracia afectiva) enfim néo jf 20 familirismo, que explodiu ‘como meio envolvente, mas & familia desfeita ainda pertine ‘como ideal imaginétio que se remenda todos os dias com a aju- da de psiquiatras, psicélogos, psicanalistas. ‘A economia afectiva dos corpos mudou, enquanto os modelos ‘mentais comrespondentes ndo desapareceram ainda. © mapa ma- terial (emogréfico, comunicacional, urbanistice) do nosso pats ‘modificou-se e, com ele, o mapa dos nossos investimentos afec- tivos. A ptisagem ¢ um corpo. Mas o horizonte espiritual do nos- 50 povo inteio, dos nossos homens politicos e dos nossos go- vemnantes, com excep de certos artistas e homens de cultura, continua a ser o de antigamente, nfo tendo sequer integrado as transformagSes da cartografia do espago fisico e do tempo, Afectivamente, aydamos gerdidos. Como toda a Europa, mas a nossa maneira. Talvez im pouico menos do que a Europa, por- 0S a que nos agarramos. Enquanto contiauarmos. ‘vavel que 0 horizonte ment inhar de dentro para fora é pro: argue por choques sucessivos, 4 José Gil acabando por fazer deslizar o pensamento pelas vias largas que nos unirdo & Europa, Até que as fronteiras da nossa nacionali- dade se desvanegam e Portugal se torne um pequeno terrtério desaparecido de um antigo e desbotado mapa-mundo, De que € que se tem medo? ‘Umeseritor italiano que conhece muito bem Portugal dizia hé ‘uns anos: «uma estranha semistica rege este pais. Um portugués pergunta a outro: “Aonde vais este fim-de-semana?” O outro re’ponde: “ ‘Por aqui», «por a ‘esignam lugares indeterminados, tr- .. Jectos aleatérios, sem direcgtio nem fronteiras, mas bem preci- ‘Sos para os portugueses. Curiosamente, o «por af refere-se a passear ao acaso, chei- rar o ar, deixar vir asi as coisas visiveis, sentar-se num café a ler 0 jornal, provocar sem divida calmos encontros esperada- mente inesperados com outros que também andam «por af». (Uma outra expresso tipica do viver desta estranha pseudo. ‘contigéncia do deambular lustano 6: «se ealhar...») A austncia de fronteiras confere ao deambular um‘carscter aventurofo, mas sem risco. O mapa mental correspondente 20s trajectos a efectuar possui uma textura plistice, mébil. O pensa- to pode ir para a esquerda como para a direita, perde-se por instantes, esquece-se, acorda novamente, embala-se, durante horas, neste movimento composto quenas sequéncias — estadias minimas — continuamente des- continuas. um ritmo estranho, em que mal se toca nas coisas, fem que mal se pensa nelas: 0 pensamento passa por entre, mes- rio quando com elas entra em contacto.