Apontamentos de Filosofia Antiga I

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As Origens da Filosofia
Do Mito á Filosofia
a) Conceito do mito

No limiar da Filosofia grega há algo em si de não-filosófico, o mito. É a fé da comunidade nas grandes questões do mundo e da vida, dos deuses e homens, que dá ao povo a matéria do seu pensamento e do seu agir. Recebem-na da tradição popular, irreflectida, crente e cegamente. Consoante o nota Aristóteles, o amigo do mito é, apesar disso e a certa luz, também filósofo; por isso que, no mito, preocupa-se ele com problemas que vão ser, por sua vez, objecto da Filosofia. Donde vem o mencionar Aristóteles, de bom grado, quando refere os pressupostos de uma questão filosófica e a busca da sua solução, também as opiniões dos "primitivos", que foram os primeiros a "teologizar" (οι πρωτοι νεολογηαντεζ).

b)

Mitologia de Homero e de Hesíodo

Vêm aqui logo à tona Homero e Hesíodo, com os seus ensinamentos sobre a origem dos deuses (teogonias) e a produção do mundo (cosmogonias). Assim, conforme a mitologia de Homero, devemos procurar a causa primeira de todo devir nas divindades do mar, Oceano e Tetis, e também na água, pela qual os deuses costumam jurar, e que o poeta denomina Estígío. Em Hesíodo aparecem o Caos, o Éter e o Eros como os princípios primeiros de tudo. Mas, ainda outros problemas são abordados: a transitoriedade da vida, a origem do mal, a questão da responsabilidade e da culpa, do destino e da‘ necessidade, da vida e da morte, e semelhantes. Sempre se manifesta aí um pensamento total e completamente imaginoso, visionado pelos claros olhos do poeta, em caso particular e concreto, intuitivamente, para depois universalizar a intuição, e transportá-la para a vida e o mundo em geral, explicando assim a totalidade do ser e do devir.

c)

Orfismo

O Orfismo era uma religião de mistérios no antigo mundo grego, difundido a partir dos séculos VII e VI a.C. Seu fundador teria sido o poeta Orfeu, que desceu ao Hades e retornou. Os órficos também reverenciam Perséfone (que descia ao Hades a cada inverno e voltava a cada primavera) e Dionísio ou Baco (que também desceu e voltou do Hades). Como os mistérios de Elêusis, os mistérios órficos prometiam vantagens no além-vida. Esses cultos de mistérios, que prometiam uma vida melhor após a morte, parecem ter influenciado o início do cristianismo.

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Peculiaridades
O Orfismo diferia da religião grega popular das seguintes maneiras: Caracterizava as almas humanas como divinas e imortais, mas condenadas a viver (por um período) em um círculo penoso de sucessivas encarnações através da metempsicose ou transmigração de almas; Prescrevia uma forma ascética de vida, ou vida órfica, a qual, junto com ritos iniciáticos secretos, deveria garantir não apenas o desprendimento do tal círculo penoso mas também uma comunhão com deus(es); Advertia sobre uma punição pós-morte por certas transgressões cometidas durante a vida; Era fundamentada sobre escritos sagrados com relação à origem dos deuses e seres humanos.

Evidências
As visões e práticas órficas foram testemunhadas por Heródoto, Eurípides e Platão. A maioria das fontes de ensinamentos e práticas órficas é atrasada e ambígua, e alguns estudiosos afirmam que o Orfismo tenha sido na verdade uma construção de uma data mais recente do que se acredita. Porém, os papiros Derveni, descobertos há poucos anos, permitem datar a mitologia órfica em quatro séculos AEC ou até uma data mais antiga que essa. Outras inscrições encontradas testificam a antiga existência de um movimento com as mesmas crenças centrais que foi mais tarde associado com o nome do Orfismo.

Mitologia
As teogonias órficas são trabalhos genealógicos como a Teogonia de Hesíodo, mas os detalhes são diferentes. O relato principal é: Dionísio (na sua encarnação de Zagreus) é o filho de Zeus e Perséfone; ele foi assassinado e fervido pelos Titãs. Zeus lançou um raio nestes e Hermes salvou o coração de Zagreu. As cinzas resultantes geraram a humanidade pecaminosa, composta dos corpos dos Titãs e de Dionísio. A alma do homem (factor dionisíaco) é portanto divina, enquanto o corpo (factor titânico) aprisiona a alma. Declarava-se que a alma retornaria repetidamente à vida, atada à roda do renascimento. O coração de Dionísio é implantado na coxa de Zeus, e este então engravida a mortal Semele com o renascido Dionísio. A Teogonia
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Com sua arte. Orfeu encantou monstros. as sombras dos mortos. o barqueiro Caronte e até os deuses infernais. o mais conhecido dos músicos lendários da Grécia Antiga. rei da Trácia. também perdida. como Empédocles e Píndaro. composta na idade helenística. que havia morrido acidentalmente. é objecto de grande número de mitos um tanto divergentes. só é conhecida através de comentários encontrados em papiros e de referências nos autores clássicos. instrumento este cuja invenção lhe é atribuída. Filho da musa Calíope e de Eagros. e aprendeu a arte com o próprio Apolo. Orfeu participou da famosa expedição dos Argonautas. perdida. Eles aceitaram devolver Eurídice aos vivos desde que 4 . com ela.Protogonos. A Teogonia Rapsódica. Já os Hinos Órficos. e ficou conhecida através de sumários nos escritos de autores neo-platonistas. foi composta no século V AEC. conseguiu até anular o efeito do hipnótico canto das sereias e salvar o navio. A "Teogonia Eudemiana ". Hades e Perséfone. foram compostos no final da era helenística ou início da era imperial romana. na Tessália. apaziguava as ondas com sua música e. vivia perto do Monte Olimpo. também perdida. composta cerca de 500 AEC. Ao ouvi-lo cantar as feras o seguiam. picada por uma serpente. incorporava os trabalhos anteriores. Tornou-se um cantor maravilhoso e tocava divinamente a lira e a cítara. Durante a viagem. 87 poemas hexamétricos de extensão mais curta. A mais famosa lenda de que participa é a da descida ao Hades à procura de sua esposa Eurídice. Mito de Orfeu Orfeu. as árvores se inclinavam em sua direcção e até os homens mais irascíveis se acalmavam. e teria sido o produto de um culto sincrético Baco-Curético.

como castigo por uma culpa original. Agora. Orfeu era mostrado cantando com uma lira ou uma cítara. porém. conceito mencionado igualmente pelos pitagóricos e. Uma literatura esotérica. Devemos. A doutrina dos órficos sobre o destino das almas. morreu esquartejado por um grupo de mulheres enfurecidas. uma bem elaborada teologia e cosmogonia. foi ele quem fez as revelações místicas fundamentais aos iniciados. α) Fuga do mundo — A dogmática dos órficos era contudo coisa totalmente diferente de uma afirmação vital. Eurídice teve que retornar e o desolado músico. sem olhar para trás uma única vez. Sua lira foi transformada pelos deuses em constelação Iconografia e culto de Orfeu Durante o século -VI. Na iconografia grega antiga. A dogmática órfica já possuía. testemunhavam que a sua alma provinha "pura de puros" e "libertou-se do penoso ciclo das reencarnações". Algum tempo depois. 5 . deve passar por uma larga peregrinação até libertar-se dos sentidos.. era possível ouvir com frequência o som de uma lira. dizia-se. Os mosaicos romanos mostravam-no com frequência ao lado de animais selvagens. baseada nos preceitos órficos. exilada nesta terra. A cabeça de Orfeu caiu no mar e chegou até a ilha de Lesbos.o poeta deixasse o Hades. onde os habitantes ergueram-lhe um túmulo de onde. por Platão. floresceu durante o Período Helenístico. também. como a carne e as favas. embevecidos com sua música. por sua vez. mais tarde. as mênades. Atormentado pela dúvida. enterradas com os mortos. encadeada ao corpo. nos diálogos platónicos Górgias.. em geral no momento de sua morte às mãos das bacantes (vasos de figuras vermelhas posteriores a -500). já a alma não é sangue. Via para a colimada purificação do sensível era uma série de proibições de alimentos. oriunda de um outro mundo. espelha-se nos grandes mitos escatológicos. Orfeu foi associado a um culto de mistérios muito popular que preconizava a origem divina da alma e a reincarnação. Segundo a tradição. Orfeu não resistiu e pouco antes de sair olhou para trás. antes. Laminazinhas de ouro. Orfeu foi levado aos Campos Elísiose lá entretinham os bemaventurados com sua música. por razões mal esclarecidas pelas diversas lendas. que aprendera durante sua descida ao Hades. mas espírito. considerála como uma vaga miscelânea de ascese e mística. culto das almas e esperanças no além. voltou ao mundo dos vivos. coisas todas muito estranhas ao povo homérico. depois da morte. Fédon e República. seguido por ela.

elaboradas nos obscuros e não-críticos tempos anteriores. dos quais. escritos teológicos exige ticos dos Vedas. Opõe-lhes aqueles "que falam aduzindo provas (οι διαποδειξεΩζ λεγοντεζ). sempre um património espiritual ariano. Por estes metódicos momentos da dúvida. Em particular o dualismo de corpo e alma. uma forma de vida em fuga do terreno. elaborar por si. como suas intuições conceptuais. 3Ê conhecido como o deus do Tempo eternamente jovem. também era filósofo. do património espiritual do vulgo. ainda sobreviveram na linguagem conceptual filosófica. A Noite gerou um ovo. Tudo isto é intuição de todo fantasiosa e poética. porém. o ovo cósmico. e. surgiu o Céu. Aristóteles disse. porém. O ―Chãos‖ deve compreendê-lo literalmente como o vácuo abissal ou o precipício. da Filosofia. porquê esses "teólogos" arcaicos apenas reproduziam as doutrinas tradicionais sem apresentarem nenhumas provas. e o género imortal de todos os deuses". Com isso quer referir-se aos filósofos. ele uniu uma parte com outra. livre e sem tutela. como resulta dos antigos Gâthas do Zendavesta. Segundo uma fonte mais recente. O dragão produziu uma tríplice seminação: o Éter húmido. Estas ideias teriam sido. da prova e da fundamentação.C. ao lado do mito. que ele não constituía ciência. À crítica do conhecimento filosófico impõe-se aqui a tarefa de 6 . em geral. nos Upanishads.β) Cosmogonia — Ensinava que no princípio existiu o Caos e a Noite. a origem primitiva do Cosmos foi um dragão com cabeça de touro e de leão: no meio. e nos ombros. no planalto do Irã. Tem-se visto na mitologia órfica uma "palmar" tradição oriental. e a Terra.. consorciado com o abismo hiante. Já não se vive numa crença cega. B. com razão. examinando e provando. mas o indivíduo volta-se todo para si mesmo e deve agora. onde tais ideias apareceram cerca de 800 a. e o Oceano. A terra original destas corrupções pode. ter sido a índia. tinha o rosto de um deus. donde nasceu o amor (Eros) alado. por isso. embora há pouco tivesse concedido que o amigo do mito. o Abismo ilimitado e hiante e a nebulosa Escuridão. um ovo cósmico. deu origem ao nosso género e o trouxe fora. quando. porém. Contudo. realmente algo de novo. então. distingue ele o mito. (Met. A Filosofia é. a propósito do mito. a certa luz. Ê uma posição espiritual diferente da do mito. no vasto Tártaro. de novo. e além disso. 4). Também se encontram na religião de Zoroastro. alado e nocturno. do aquém e do além. o que pensa e quer considerar verdadeiro. para a luz. asas. na realidade. antes de ser reduzido à unidade pelo amor. d) O mito e o Logos Muito mais importante. que a questão da origem é a sobrevivência dessas concepções. não devemos perder de vista que as questões formuladas pelo mito. podemos esperar uma verdadeira "convicção". Não havia o género dos mortais. "E este. "uma gota de sangue estrangeiro" na Grécia.

como um caminho apropriado para a sabedoria. As Origens da Filosofia Quadro Político da Grécia Antiga até ao século VII A questão das origens da Filosofia é hoje uma questão clássica mas ainda controvertida.examinar se os presumidos instrumentos racionais‘ ‗de pensamento filosófico também estão. ligados à pastorícia e com uma religião ligada aos fenómenos atmosféricos. o estado aqueu é fortemente burocratizado. com alguma segurança. num sentido positivo. O linear B é a escrita dos Aqueus. Poder-se-á dizer que são povos continentais. os quais já falavam o grego. é o seguinte: Os Aqueus são essencialmente guerreiros e encetam uma expansão pelo Mediterrâneo Oriental. Aproximadamente no ano 2000 a. a seu modo. filosofa. Para a tentarmos compreender vamos recuar até ao momento no qual surgiram os primeiros Gregos. Detecta-se no século XVI uma civilização que vai ser brilhante. Quanto à origem e características dos indo-europeus ainda hoje subsistem dúvidas. Vários são os problemas que se colocam ao seu estudo e para uma parte dos quais só há conjecturas. ao que parece. a hegemonia de Micenas. O que podemos dizer. Constituem uma série de estados entre os quais existe. estabeleceram-se na Grécia povos indo-europeus que nela se fixaram. De maneira que somente o crente na ciência iluminada é que pretende libertar-se do mito. mas porque o espírito ultrapassa o "saber" e abrange o mito. que também o mito.C. todos racionalmente fundados. E isto não somente por uma recusa. ao passo que Aristóteles diz. Talvez não o sejam. com razão. na realidade. 7 . a qual é silábica e não se adapta à palavra oral. a civilização dos Aqueus.

portanto. Um povo rude como o aqueu. É interessante notar-se que a religião dos Aqueus. é muito provável que haja traços orientalizantes no estado aqueu. nos tempos mais recuados. vai-se interessando pelos aspectos artísticos. privilegiava as divindades masculinas mas. agora. Como é sabido a Guerra de Tróia foi encarada. A civilização aqueia mostrou uma abertura ao exterior que é notável e neste aspecto prefigura a Grécia a partir dos finais do século IX. Vejamos. Os Aqueus entraram em contacto com outros povos e entre estes. em contacto com Creta o panteão vai ser enriquecido com divindades femininas. na Antiguidade. O soberano vive num palácio que é uma autêntica cidadela que se ergue na parte alta da cidade. em boa parte. como um conflito de 8 . As religiões que vamos encontrar na Grécia arcaica. antes dos poemas homéricos. Sob o ponto de vista social deve existir uma hierarquia rígida na qual a classe dos guerreiros é a mais importante. outros aspectos. Sob o ponto de vista político o poder está concentrado nas mãos do soberano. é provável que artistas cretenses tivessem trabalhado nalguns estados Aqueus. estão formadas no tempo dos Aqueus. pouco a pouco. Ele governa auxiliado por altos funcionários e uma burocracia controla tudo o que se passa no estado. em contacto com outras civilizações. Os principais deuses encontramse já na civilização aqueia e há divindades que vêm de outras regiões. É estas aberturas que encontramos em relação à religião.Não se conhece bem a organização política e social dos Aqueus. deve destacar-se o cretense. sobretudo. Os contornos da religião grega são nítidos. em especial de Creta. Para terminarmos a parte referente aos Aqueus façamos referência a dois problemas: O primeiro diz respeito à Guerra de Tróia.

A introdução da escrita é um momento alto da civilização grega. as razões do aparecimento da cidade-estado. A escrita. Pouco se sabe da Grécia entre os séculos XI e IX. O segundo problema refere-se ao fim da civilização dos Aqueus. Não deve ter sido um final rápido: é possível que a destruição durasse cerca de um século (do século XII ao século XI). entre os quais citemos Finley e Claude Mossé. são todavia menos frequentes. Só podemos dizer que a destruição foi brutal. deve ter surgido nos meados do século X. As concentrações urbanas praticamente não existem. Mas o que é interessante notar-se é o facto dos Gregos não se terem limitado a importar o alfabeto fenício: para que a escrita correspondesse à linguagem oral os Gregos fizeram as adaptações necessárias. É clara portanto a influência deste povo. a importância da expedição a Tróia foi diminuta. As poleis espalharam-se por todo esse vasto território que constitui a Hélade. ou seja. O que sabemos é que de 9 .grandes proporções. o linear B desapareceu e a arqueologia não tem trazido muitas informações sobre este período. Mas vejamos o que é a polis. Esta. que agora é alfabética. A escrita antecede o aparecimento da polis. Devido à escassez de informações não conhecemos as raízes. segundo Lévêque. O que se poderá dizer é o seguinte: A Grécia fecha-se sobre si própria. Se os contactos com o exterior não terminam. No século XI um monte de ruínas era o que restaria do mundo aqueu. A actividade económica é diminuta. Todavia. Apontamse hoje várias hipóteses parecendo que se está longe de uma certeza. para alguns historiadores. A base da escrita é o alfabeto fenício. teria surgido cerca de 800.

Há. E também vários são os regimes políticos que os Gregos vão conhecer. A actividade económica é intensa.uma forma geral a polis. tem um pequeno território o que a leva a possuir. conviver e trocar ideias. os festivais pan-helénicos. O que vai acontecer ao longo dos tempos é o que se tem chamado a fragmentação do poder político. é uma praça pública. na polis surge a àgora que. nos seus primeiros tempos. igualmente. já. o sinal de uma mentalidade na qual a curiosidade sobre as concepções e a vida pública devem ter. é o lugar central. entre outros. uma pequena população. entre outros. Aparecem os códigos escritos. quase sempre. Ora. assim. Mas a Hélade é o espaço das poleis e no período que estamos a considerar mencionemos duas faixas de colonização 10 . A tendência é para o poder político se dividir por vários magistrados. ainda hoje não é consensual. Na ágora os habitantes podiam encontrar-se. cujo significado inicial. um lugar de destaque. entre os quais o democrático que atinge a sua forma mais avançada na Atenas do século V. proprietários de oficinas. que é a residência do rei. Surge a moeda. navegadores. com grande repercussão na mentalidade grega. Há diferenças entre o estado aqueu e a polis no tocante ao desenho urbanístico: enquanto no primeiro a cidadela. a religião. os seguintes aspectos: A Grécia está francamente aberta ao exterior. colégios e assembleias. A Hélade é. Há grupos sociais em ascensão: comerciantes. um espaço descontínuo onde a unidade é constituída por laços espirituais: a língua. assim. entre o aparecimento da polis e o final do século VII podemos encontrar. uma maior abertura. No final do século VII encontramos a Hélade estendendo-se da extremidade do Mar Negro ao extremo ocidental do Mediterrâneo.

Quadro cultural da Grécia Antiga até ao século VII É frequente ao descrever-se as origens da filosofia falar-se de passagem do mito ao logos. separar o espírito do corpo e viajar. Os homens divinos constituem uma expressão usada pelos gregos. O mito é uma história real. ainda. ou seja. o que fazia que estivessem mais perto da divindade. Para além da dimensão do mito como modelo devemos falar da sabedoria que a ele está ligado. Funciona como algo exemplar: o acto de semear ou de erguer uma casa é imitações de gestos contidos nos mitos. A importância do mito é praticamente indesmentível. ou seja. Pereira). aquele que trata das origens. uma história maravilhosa. Este mito narra a forma como o mundo veio à existência e qual o papel que os deuses desempenharam nesse acto.H. Um dos mais importantes é o cosmogónico. Mas digamos. M.extremamente importantes: o litoral da Ásia Menor e aquela constituída pelo Sul de Itália e a Sicília. era nas sociedades arcaicas uma narrativa verdadeira. Estes homens tinham poderes extraordinários como por exemplo: conhecer o passado e o futuro. A origem do homem era contemplada nesta exposição que era transmitida de geração em geração: o mundo assim como o homem era obra dos deuses. Com ela queriam significar aquelas personalidades que continuando a ser humanas possuíam um dom dado pelos deuses. Comecemos pela questão do mito. Tentaremos mostrar que a expressão passagem do mito ao logos é ambígua e pode deturpar o que historicamente se teria passado. por 11 . O mais antigo corpo de saber que encontramos na Grécia está ligado aos sacerdotes e aos homens divinos.R. que o mito pode ter como personagens não só os deuses como os próprios homens (Cfr. o que para nós é uma fábula.

vezes por longos anos, com o espírito deixando de lado o corpo; descida ao Hades; poderes para deter cataclismos naturais. Para se compreender um pouco melhor uma questão tão delicada convirá mencionar a posição de E. Morin (O Método, III?). O filósofo francês considera que na época em que o mito é relevante as técnicas já existiam, isto é, há uma coexistência de actividades bem diferenciadas. Tal significa que é próprio do espírito humano este duplo enfoque, o que leva o homem a viver não só com a razão mas também com o mito. No caso da Grécia Antiga podemos ver a força do mito mas também manifestações culturais, ligadas essencialmente à literatura, que ampliam e diversificam o campo do Homem. Façamos assim uma referência à cultura Grega desde os poemas homéricos até aos finais do séc. VII. Em primeiro lugar acentuemos a importância da Ilíada e da Odisseia. Nestes poemas viram os Gregos os seus antepassados: os Gregos são os descendentes dos heróis da Guerra de Tróia. Há assim uma dimensão histórica, sempre considerada ao longo dos séculos na Grécia Antiga. Nos poemas homéricos o aspecto religioso é relevante: os episódios relativos aos deuses são numerosos e assim não é para admirar que a sua influência seja grande neste campo. As qualidades ostentadas pelos heróis irão servir de modelo aos Gregos. Assim não é para admirar que Homero fosse considerado o educador da Grécia e os poemas constituíssem a base da paidéia grega. Convirá reflectir um pouco sobre este ponto. Homero será acusado por vários pensadores de contar histórias vergonhosas acerca dos deuses. O ataque de Xenófanes a Homero inicia a querela entre os defensores da paidéia tradicional e os filósofos. Mais tarde, vemos Platão, na República, criticar longamente a paideia tradicional. Se os poemas homéricos são fundamentais todavia não fazem esquecer a Teogonia e os Trabalhos e os Dias de Hesíodo (meados do século VIII).
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Os poemas de Hesíodo constituem um marco na História da Cultura Grega – vejamos alguns aspectos. Será interessante ver que o poeta fala de si próprio na sua obra (o poeta ou poetas dos poemas homéricos não têm uma atitude pessoal). As obras de Hesíodo apresentam outra inovação: o aspecto ético é frisado e assim a justiça é algo de agradável aos deuses. A Teogonia é importante não só porque é um tratado sobre a religião grega mas também pela questão cosmogónica. Há um esforço por parte de Hesíodo em colocar uma certa ordem na religião grega: ao que nos parece tudo indica que o quadro religioso grego era confuso, que as contradições eram abundantes nas biografias dos deuses. Surge, assim, um traço de um novo espírito: há a preocupação em arrumar a matéria religiosa, há uma certa racionalização na tarefa levada a cabo por Hesíodo. Com isto não queremos dizer que se perca o sentido religioso mas sim, que começa a surgir um novo estilo. A narrativa cosmogónica na Teogonia segue o estilo a que fizemos referência. A génese do Universo é relativamente simples e há uma certa aproximação à noção de Natureza sem implicar a perda do estatuto de importância que as divindades possuíam. Mencionemos outro acontecimento da História da Cultura Grega: o aparecimento, nos princípios do século VII, da poesia lírica. O poeta lírico fala de si, descreve os seus sentimentos, torna - - os públicos. É este, sem dúvida, um fenómeno relevante na Cultura Grega. Os quadros que traçamos não nos mostram toda a riqueza da Cultura Grega desde os fins do século IX até aos finais do século VII. Mas parece-nos suficiente para compreender a passagem do século VII para o VI. Relembremos que a parte oriental do mundo grego estava em contacto com algumas civilizações brilhantes (Egipto, Mesopotâmia). A polis, por

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sua vez, implicava uma mobilidade espiritual que a diferenciava do estado oriental. Sob o ponto de vista cultural, a trajectória seguida, implicava uma discussão sobre temas cada vez mais amplos e complexos. Segundo os Gregos nos finais do século VII e primeiras décadas do VI surgiu uma plêiade de personalidades a quem chamaram os sete sábios e cujos nomes variavam de lista para lista. Tales é um dos nomes presentes em todas elas. Os sete sábios, envolvidos em parte pela lenda, são figuras diferenciadas: ao lado de legisladores e governantes surgem, também, aqueles que têm poderes extraordinários. Vejamos algumas das suas características: Os sete sábios estão ligados à defesa da polis ou escrevendo os códigos ou salvando-a de catástrofes por meios extraordinários; O seu saber é condensado em máximas, os apotegmas; Esse saber é público e algumas máximas são gravadas na pedra. Quando chegamos a Tales de Mileto há na Grécia uma longa tradição cultural. Encontramos a inovação que não corta abruptamente essa mesma tradição. Não deve ser por acaso que Tales é um dos sete sábios e o primeiro filósofo. O filósofo surge como o herdeiro do chamane, do sacerdote, do poeta. É detentor do saber como o eram os seus antepassados. Mas agora o saber é oferecido a quem o quiser fruir. É um saber aberto que contrasta, agora, com o círculo fechado do antigo corpo de saber. Há uma dessacralização do saber? A resposta não é fácil. Há mitos e narrativas que perdem velocidade, que se vão tornando mais abstractos, ao longo dos tempos. Mas a religião não perde o seu prestígio e acompanhara sempre o homem grego. Pelo que dissemos, já anteriormente, a expressão passagem do mito ao logos não é muito correcta.

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e mudança de mentalidade que se produziu ao longo dos séculos. 15 . há transformações mais ou menos lentas. Mas há também um conjunto de experiências culturais que preparam o terreno para a "aurora da filosofia".O mito não desaparece com a filosofia. sociais e politicas permitem o aparecimento de novas teorias. Existia um quadro politico social e favorável ao aparecimento de um novo tipo de concepção que se afastasse. Convém assinalar que a filosofia surgida na Jónia no século VII E VI não irá constituir um corpo de saber que aniquila-se por completo aquele que tinha vigorado mas devido as transformações económicas. Na longa caminhada não há cortes bruscos. Os primeiros pensadores debruçam -se sobre as origens do universo e do homem. lugar proeminente de novas forças sociais: determinada concepção de estado. Das exposições que fizemos atem agora é importante salientar o seguinte: Não há um corte brusco com o passado. que devemos saudar como um acontecimento cultural de grande importância. questões já albergadas nos grandes mitos cosmológicos. não rompe totalmente com as concepções do mundo e da vida que tinham atravessado muitos e muitos séculos. Nos finais do século VII havia condições para o aparecimento da filosofia. outra cruza-se com ela. pelo menos em parte da mítica e que tentase abarcar todo o real e cujo instrumento predominante fosse a razão. Conclusão Nos finais do século VII e princípio do século VI. A explicação mítica e substituída pela explicação filosófica. há uma determinada evolução constituída por uma série de transformações e um condicionalismo propício ao aparecimento da filosofia. estas durante mais ou menos tempo terão coexistido com as antigas. Um quadro político aberto é uma delas. e por vezes surgir concepções híbridas. O filósofo vai surgir em determinadas condições históricas: abertura da Grécia a outras civilizações. O aparecimento da filosofia. umas vezes enfrenta-a.

) até Sócrates (468-399 a. Caracterizada por múltiplas influências culturais e por um rico comércio. os primeiros filósofos queriam descobrir. O objectivo dos primeiros filósofos era construir uma cosmologia (explicação racional e sistemática das características do universo).C. Os primeiros filósofos gregos tentaram responder à pergunta: Como é possível que todas as 16 . com base na razão e não na mitologia.O Filósofos Pré – Socráticos A passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência racional e filosófica não foi feita de um salto. a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como período pré-socrático. Esses dois tipos de consciência coexistiram na sociedade grega. Os primeiros filósofos buscam a arché. Os pré-socráticos ocuparam-se em explicar o universo e examinavam a procedência e o retorno das coisas. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a. a cidade de Mileto abrigou os três primeiros pensadores da história ocidental a quem atribuímos a denominação de filósofos.). a filosofia teve como berço a cidade de Mileto. incorruptível de todas as coisas. De acordo com a tradição histórica. o princípio absoluto (primeiro e último) de tudo o que existe.C. Anaximandro e Anaxímenes. aqui e agora. Em outras palavras. perene e permanentemente. o princípio substancial (a arché) existente em todos os seres materiais. o fundo imortal e imutável. São eles: Tales. mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo que. no começo e no fim de tudo. que as faz surgir e as governa. situada na Jónia. litoral ocidental da Ásia Menor. É a origem. A arché é o que vem e está antes de tudo. No vasto mundo Grego. dá origem a tudo. o fundamento.

Anaximandro e Anaxímenes. o fogo. litoral ocidental da Ásia Menor. ar. na Jónia. o número. Um princípio único e fundamental que permanecesse estável junto ao sucessivo vir-a-ser. Tales vai dizer que o princípio de tudo é a água. o ar. é chamada a escola de pensamento iniciada no Século VI a. em vez de uma substância única. apesar de assumir diferentes estados como: sólido. Anaximandro e Anaxímenes.C. água. procuraram um princípio a partir do qual se pudesse extrair explicações para os fenómenos da natureza. Tales concluiu que a água é a substância primordial. Anaxímenes. para ele somente a água permanece basicamente a mesma. Tales queria descobrir um elemento tísico que fosse constante em todas as coisas. Os filósofos que fundaram a escola foram: Tales de Mileto. A escola de Mileto e situada na cidade de Mileto. na vila jónia de Mileto. Empédocles. fogo. ou Diógenes de Apolônia (que viveu em Creta). Convém distingui-la da Escola Jónica. os quatro elementos: terra. O princípio primordial de todas 17 . Os Milésios Escola de Mileto ou Milesiana. em todas as transformações dos corpos. principalmente. líquido e gasoso. e representada. continua sempre a mesma? Para tanto. que inclui estes e outros jónios como Heraclito ( de Éfeso). Algo que fosse o princípio unificador de todos os seres. pelos filósofos: Tales de Mileto. a origem única de todas as coisas.coisas mudem e desapareçam e a Natureza. o infinito indeterminado. Tales era considerado "o pai da filosofia" por ser o primeiro pensador grego. Heraclito. apesar disto. Pitágoras. na costa da Anatólia. Anaximandro.

Ele é o marco inicial da filosofia ocidental. actual Turquia. E seus seguidores.C. Considerado. chamado Tales de Mileto. na Ásia menor.A água é a origem de todas as coisas. Além disso. Thalès (grego θαλες Thalễs).Tudo está cheio de Deuses. morreu com 78 anos durante a 58ª Olimpíada. Já para Anaxímenes era o "ar". é o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia. depois dele.C. . porque outros. 3.segundo o historiador grego Diógenes Laércio. seguiram seu caminho buscando o princípio natural das coisas. também. 2. antiga colónia grega. De ascendência fenícia. o primeiro filósofo da "physis" (natureza). Tales considerava a água como sendo a origem de todas as coisas. Tales é apontado com um dos sete sábios da Grécia Antiga. e faleceu aproximadamente em 547 a. embora discordassem quanto à “substância primordial” 18 . Tales de Mileto As 3 afirmações de Tales: 1.A terra flutua na água. nasceu em Mileto. foi o fundador da Escola Jónica.as coisas segundo Anaximandro era o "abeiro". por volta de 625 a.

os ângulos contrários pelo vértice são iguais. Estes deuses constituíam-se na fonte e na essência de todas as coisas do universo. o Céu. honrando-os como deuses. concordavam com ele no que dizia respeito à existência de um ―princípio único" para essa natureza primordial. A Cosmologia de Tales Na época de Tales. Tales foi um dos primeiros pensadores a discordar dessa religião vigente. são iguais os ângulos" Tales observou que. porque o teorema supõe também outros conhecimentos mais simples. os gregos – através de sua mitologia – consideravam os elementos da Natureza (o Sol. O ponto de partida da teoria especulativa de Tales – como 19 . os quais possivelmente Tales não tivesse. para quem os mundos eram infinitos em sua perpétua inter-relação. móveis. conscientes e dotados de sentimentos. que se cortam. melhor é supor que Tales se tenha valido de sua experiência adquirida em cálculos práticos. vontades e desejos. a Terra. num mesmo instante. merecem destaque: Anaxímenes que dizia ser o "ar" a substância primária. Contudo a questão se apresenta pouco clara.) como forças autónomas. o Oceano.(que constituía a essência do universo). as Montanhas. Entre os principais discípulos de Tales de Mileto. Por isso. Teorema de Tales . que de duas linhas rectas. e Anaximandro. cujos princípios eram ditados pela percepção que os homens captavam através de seus sentidos."Quando duas rectas se cortam. etc. a razão entre a altura de um objecto e o comprimento da sombra que esse objecto projectava no chão era sempre a mesma para quaisquer objectos "Este teorema certamente mostra. elevados pela fantasia a seres activos.

por ter observado que o alimento de todas as coisas é húmido e que o próprio calor é gerado e alimentado pela humidade. Aristóteles escreve: ―E afirmam alguns que ela (a alma) está misturada com o todo. se é que disse que a pedra (imã) tem alma. Parece também que Tales. Suas ideias filosóficas são conhecidas graças aos trabalhos de Diógenes Laércio. Simplício e principalmente Aristóteles. talvez. um novo sentido para o universo. supôs que a alma é algo que se move. nenhum deles sobreviveu até nossos dias. Em sua obra . através da razão e da observação.Metafísica. pelo que se conta. pois abandona as explicações religiosas até então vigentes e busca.também de todos os demais filósofos da escola Jónica – foi a verificação da permanente transformação das coisas umas nas outras e sua intuição básica é de que todas as coisas são uma só coisa fundamental. ou que o magnetismo se deve à existência de “almas” dentro de certos minerais. Esse esforço de investigação de Tales no sentido de descobrir uma unidade. porque move o ferro‖. no sentido religioso como as conhecemos actualmente. e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente húmidas e de ter origem na água a natureza das coisas húmidas”. representa uma mudança de comportamento na atitude do homem perante o cosmos. ou um só princípio (arché). mas sim adivinhando intuitivamente a presença de fenómenos naturais inerentes à própria matéria. Embora suas conclusões cosmológicas estivessem erradas podemos 20 . Tales pensou que todas as coisas estão cheias de deuses. que seria a causa de todas as coisas. ele não estava invocando as palavras deus e alma. É por isso que. Ora. Aristóteles nos conta: ―Tales diz que o princípio de todas as coisas é a água. Em seu livro – Da Alma. Daí lhe veio essa opinião. sendo talvez levado a formar essa opinião. Dos escritos de Tales. aquilo de que se originam todas as coisas é o princípio delas. Quando Tales disse que todas as coisas estão cheias de deuses.

Anaximandro tentará outra melhor. sendo repreendido por alguém como lunático: analisava o tempo para descobrir que haveria uma seca.Foram explicados por Tales como flutuação pouco firme da terra sobre a água que a sustenta nos fundamentos. cujo informe deriva da tradição de Teofrasto. com a qual ganhou dinheiro. passa. Quando perguntaram a Tales o que era difícil. Contos Plutarco disse que Tales certa vez olhando para o céu. quando chegou o verão. os produtores de azeite tiveram que pagar a ele pelo uso das prensas.dizer que a Filosofia começou então com Tales. e que ela flutua movente". O terrífico fenómeno do terramoto. a ter uma explicação racional. Sendo um homem prático. Tales previu uma excelente colheita de azeitonas com um ano de antecedência. conseguiu dinheiro para alugar todas as prensas de azeite de oliva da região e. Terramotos . 21 . que ao estabelecer a proposição de que a água é o absoluto. e que ela viaja como navega ao modo de navio. através da escola estóica de Possidónio: "Porque diz Tales. ainda que com falta de acerto. Diz um texto. Usando seu conhecimento astronómico e meteorológico (provavelmente herdado dos babilónios). a partir de Tales. ele respondeu: ―Conhecer a si próprio‖. que o mundo está apoiado sobre a água. provoca como consequência o primeiro distanciamento entre o pensamento racional e as percepções sensíveis. o que levou-o a ganhar uma grande fortuna com esse negócio. que as narrativas míticas apresentavam como punição divina. tropeçou e caiu. Quando lhe perguntaram o que era fácil. Estimulado certamente por esta teoria. ele respondeu: ―Dar conselhos‖. A explicação de Tales significa ao menos um bom começo.

―.. nascido no século VII mas cuja actividade se deve processar essencialmente no século VI... ...... Com isto quer dizer que é a partir da água que o universo. O espaço é aquilo... ..―... O problema colocado por Tales não é novo: é a questão das origens. porque ela tudo rege. Conclusão: Tales.‖.. A necessidade é o que há de mais forte. A mente é isto. .. . ou que se move por si mesma. se vai formar.O mundo é isto. porque ele descobre tudo.‖.". é que Tales afirmou que a Terra é um disco achatado que está a boiar na água..".Principais Fragmentos ―.‖. natural de Mileto..‖. 22 .. O que sabemos.. A pedra magnética possui uma alma porque move o ferro.. ainda. .". Todas as coisas estão cheias de Deuses. porque ele contém tudo. que podemos ver nas cosmogonias. a génese das coisas existentes. O tema da filosofia de Tales é a physis. com tudo o que ele encerra... A alma é uma natureza sempre em movimento. O filósofo quer saber qual é a substância que vai originar o universo. O mais sábio é o tempo.. porque ele é a obra de Deus..―. não deve ter deixado qualquer obra escrita.. Assim não é para estranhar que pouco conheçamos da sua vida e pensamento. Tales vai responder que a origem das coisas é a água. o que lembra as raízes que prendem a Terra ao fundo..―. que de mais rápido existe.―. ..‖... que de mais belo existe.. porque ele é por si mesmo. . A physis é a substância primordial.... É de presumir que Tales tivesse traçado a evolução do universo: simplesmente não temos informação que a documente. Podemos destacar os seguintes pontos: Tales preocupa-se com a forma da Terra..‖. A água é o princípio de todas as coisas.‖. . porque ela corre através de tudo...“. A Terra tem um suporte. que de maior existe.... Deus é o mais antigo dos entes.―..―. .".

Esta concepção insere-se no quadro do politeísmo grego mas há inovação na medida em que os deuses estão mais próximos do Homem. Sabemos que Tales fez pequenas experiências com o âmbar e o imane. Hoje sabemos que a explicação de Tales não é exacta. Outra tese de Tales diz que tudo está cheio de deuses. viu assim que havia corpos que atraíam outros corpos (é possível que estas experiências sejam anteriores ao filósofo). É muito provável que Tales tivesse tido acesso às tábuas astronómicas dos babilónios. o que demonstra a sua grande curiosidade. provocando as inundações. Terminamos com a interessante explicação das cheias do Nilo. estão em todo o lado. É uma afirmação um pouco misteriosa para nós. Tales ficou famoso por outras actividades. Faz a previsão de um eclipse em 585 mas hoje pensa-se que Tales podia prever a data mas não o lugar onde ele era visível. Tales afirmou que os ventos etésios. suporte da Terra. Interessou-se pela matemática mas não se conhecem os seus progressos. Se assim é podemos concluir o seguinte: Os deuses estão à nossa volta.Quando a água. em determinada altura do ano. entra em agitação a Terra estremece – é o terramoto. 23 . o que é exacto é o espírito da explicação dada pelo filósofo. ou seja. O que podemos descortinar é que Tales se interessa com a forma da Terra e pretende dar uma explicação de fenómenos que são importantes para a Humanidade. sopram em direcção à embocadura do Nilo dificultando a entrada das águas do rio no Mediterrâneo: sendo assim o rio transbordaria para as suas margens. É provável que com estes dados Tales chegasse à seguinte conclusão: há forças nos objectos e essas forças são deuses.

Anaximandro de Mileto O Apeiron Anaximandro . Vida . mas ambos morreram mais ou menos no mesmo ano. que se perdeu. Foi geógrafo. Sobre a natureza. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas. É apenas um mundo dentre muitos. natural de Mileto. 14 ou 24 anos mais jovem que o mestre. Supôs a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.c. O mundo se dissolveria nele também. Nasceu na Cidade de Mileto em 610 a. que preveniu o povo de Esparta de um terramoto. Segundo Diógenes Laércio. c. astrónomo e político. infinito e indestrutível..Filho de Praxíades e discípulo de Tales. Anaximandro imaginava a terra como um disco suspenso no ar. que efectivamente faleceu cerca de 545 a. a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste princípio. matemático. é possível fixar. o infinito. Afirmou que a origem de todas as coisas seria o Apeiron.) e logo depois morreu..segundo filosofo da escola jónica. O Apeiron é eterno e indivisível. Ao contrário de Tales não deu à gênese um carácter material. Anaximandro tinha 64 anos por ocasião da 58ª olimpíada (547 a. Diz-se também. Esta informação coincide com a de 24 . Autor do primeiro mapa da história e iniciador da astronomia. Escreveu um livro.c..

Anaximandro foi até Lacedemonia e aconselhou o exército espartano a abandonar a cidade.c. A previsão do terramoto de Anaximandro deve ter acontecido pela experiência a respeito uma vez que Mileto estava dentro de uma zona sísmica. A Tradição considera Anaximandro. Empédocles de Agrigento. as ideias filosóficas seguintes: 25 . em que as regiões conhecidas (Ásia e Europa) formavam segmentos aproximadamente iguais e todo ele rodeado pelo oceano. Diodoro de Éfeso. a comparação deve ser apenas de fundo histórico. administrador e construtor de relógios solares. Além de construir um mapa da terra habitada. fora um filósofo festejado ao mesmo tempo como atleta olímpico. Anaximandro foi político. Previsão de um Terramoto Fez a previsão de um terramoto.Hipólito sobre o nascimento no terceiro ano da 42ª olimpíada (610 a. Mas de qualquer forma. foi Anaximandro quem introduziu os Gnômons na Grécia. Anaximandro desenvolveu. ao escrever a respeito de Anaximandro. sucessor e discípulo de Tales. mas é uma teoria bastante discutível uma vez que os gregos adoptaram essa tecnologia além das doze horas do dia dos babilónicos. Seu mapa-múndi foi um desenho circular.). segundo testemunho de Cícero a cidade inteira foi destruída. Os conhecimentos geográficos de Anaximandro se baseavam nas notícias de navegantes que seriam abundantes e variadas em Mileto. da escola jónica nova. Diógenes Laércio afirma que Anaximandro foi o primeiro a definir um perímetro da terra e do mar. antes de tudo. por conta de quem a fez. um filósofo. professor. diz que [Empédocles] o imitava no gesto e no uso de vestes solenes" 1..e. cuja filosofia devemos interpretar como um desenvolvimento interno do racionalismo de seu mestre. Sendo-lhe uma geração posterior. que foi aperfeiçoada posteriormente por Hecateo de Mileto. Como se sabe. Além disto. como crítica a filosofia de Tales. há que diga que ele foi o inventor dos Gnômons (Relógios Solares). centro comercial e de colonização.

Mas a cosmologia de Anaximandro. O termo Apeiron está composto da partícula privativa a e o término péla (limite. o cosmos. Anaximandro havia afirmado que o principio de todas as coisas existentes não é nenhum de os denominados elementos (água. a dinâmica e temporalidade do mundo) só adquirem uma escala adequada ao compará-las como um desenvolvimento interno dos problemas presentes no racionalismo de Tales. Anaximandro poderia ser interpretado do ponto de vista científico como uma espécie de cosmólogo.a) O Apeiron. sem determinações. O Apeiron O cosmos A Multiplicidade dos mundos O Apeiron . Plutarco) atribuem a Anaximandro ideia de mundos infinitos (simultâneos e sucessivos). Laércio. que não pode ser definida positivamente. fogo). terra. o Apeiron é o conteúdo da arché (origem de toda a matéria). Esta negação está contida em seu significado etimológico. Segundo as fontes procedentes de Teofrasto. principalmente sem qualidades contrárias Este cosmos é dinâmico e temporal que tem sua origem e seu fim no Apeiron. borda). se não alguma outra natureza Apeiron [indefinido o infinito]. Em Anaximandro encontramos um problema semelhante ao de Tales de Mileto. As ideias de Anaximandro (o Apeiron. de tal modo que se poderia afirmar que muitos de suas ideias científicas estão cumprindo funções ontológicas. Etimologicamente Apeiron significa sem limites. A ideia de Apeiron é crítica-negativa. c) A diversidade de mundos. pois em ambos pensadores as actividades científicas e filosóficas recaem na mesma pessoa subjectiva.Segundo fontes de Teofrasto e os textos de Aécio e D. b) O cosmos. Do centro do Apeiron eterno se agrega espécies de elementos. do mesmo modo que Tales poderia ser interpretado como um fisiólogo ou biólogo. Hipólito e Ps. Todas as fontes procedentes de Teofrasto (Simplício. ar. é igual a physis de Tales e está coberta por ideias filosóficas. A ideia de Apeiron pode adquirir 26 . só podem ser entendidas por meio de suas ideias filosóficas.

Assim. Anaximandro conservaria o grupo de transformações de Tales. No racionalismo de Tales o arché aparece sempre determinado nas formas do mundo. e. então o Apeiron de Anaximandro será a negação que. É de suma importância determinar as razões que levaram Anaximandro a opor-se ao projecto racionalista de Tales. O Apeiron nos apresenta assim como a fonte inesgotável de energia que garante a transformação da unidade do cosmos. o grupo de transformações não pode 27 . o discípulo de Anaximandro. São duas as características do Apeiron de Anaximandro: Infinito e Indeterminado. fogo. A água de Tales sim é algo determinado não pode ser arché. Contudo. Quais são as razões que levaram Anaximandro a estabelecer a tese de que o arché infinito não pode ser algo determinado. porém imediato. Apeiron será o que não tem bordas ou extremos. uma cinta). por sua vez. Mas. o Apeiron seria. não pode ser nem água nem nenhum dos denominados elementos (ar. mas não de um modo directo. ar. pois. Agora o projecto de Tales começaria a perder-se quando as formas do mundo começam a mostrarem-se como irredutíveis: os opostos estão separados por fronteiras intransponíveis. porque se uniu a um anel. então o Apeiron seria uma esfera de raio infinito. por onde. círculo pode ser tomado. Se tomarmos como modelo de limitado a água de Tales em quanto determinação do arché. o infinito em extensão espacial. uma lâmina metálica. porém algo indeterminado. A unidade destas formas é a unidade das transformações mutuas unidade por identidade. o circulo. Aristóteles e Aristófanes apontaram a associação do Apeiron com algo circular ou esférico. própria da Escola. o Apeiron não é nenhum dos denominados elementos (água. etc.diferentes sentidos negativos segundo os diferentes parâmetros que fizermos para o limitado. Em quanto infinito o Apeiron é fonte de energia e movimento para que no mundo não cesse a geração e declínio. fogo). ao menos de um modo directo. em seu uso filosófico. além disso. terra). terra. conservará de seu mestre a concepção do arché. O Apeiron aparece assim como uma alternativa ao monismo da substância e. O racionalismo de Tales unido a redutibilidade de algumas formas a outras (o mesmo que o bem e o mal.). sem limites. não pode ser nenhum dos denominados elementos? Segundo Gomperz. se tomamos como parâmetros o limitado dos objectos concretos do mundo das formas (exemplo. Anaxímenes. em termos de discussão interna. se exerce sobre a metafísica de Tales. A transformação de coisas em outras está mediada pelo Apeiron. mas já não será indeterminado como em Anaximandro e sim algo determinado: o ar. os gregos e bárbaros. os amos e os escravos. como referencia do limitado (exemplo: cosmos esférico limitado por uma superfície imersa em um espaço vazio). Esta indeterminação é relativa ao mundo gerado em seu ventre como um embrião na placenta.

servir para explicar a transformação de algumas coisas em outras. Assim, por exemplo, o ar para converter-se em fogo por rarefação (aumento de volume), necessita esquentar-se; As nuvens ao condensarse se convertem em água, mas para elas necessitam esfriar-se, etc. Mas o argumento decisivo é que a condensação e rarefação implicam na limitação do mundo. E se o mundo é finito então nenhuma de suas partes, nenhuma determinação, pode ser elevada a categoria de arché infinito. Mas porque a condensação e rarefação implicam no limite do mundo? Se partirmos da hipótese de que o mundo é infinito, e dizer, que o mundo é composto de infinitas partes [A, B, C,........], então cabem duas possibilidades: 1. Cada parte é algo determinado e finito; mas neste caso a parte se desintegraria na infinidade de transformações; 2. A parte ou determinação é algo infinito, mas então nunca se transformaria em outra parte, pois por mais que condensemos o fogo, sempre obteremos fogo, etc. Por reductio ad impossibilem se estabelece a tese de que o mundo das formas é um mundo finito. Logo se é possível a transformação em mundo das formas, Tanto que elas se absorvem em um Apeiron indeterminado. A crítica directa a Tales leva a estabelecer como primeiro principio o arché algo indeterminado. A interpretação do arché como infinito e indeterminado, do Apeiron como aquele em que todas as formas do mundo, e em particular os opostos, se reabsorvem, como fonte inesgotável de energia que garante a transformação e unidade do cosmos, indica o caminho feito pela ontologia geral. E, sem embargo, também é possível a interpretação do Apeiron nos limites da ontologia especial. As fontes de Simplício, Ps. Plutarco, Hipólito, Aécio, etc. Nos informam que o Apeiron não é nenhum dos denominados elementos, mas ao mesmo tempo nos dizem que o Apeiron é o princípio de todas as cosais existentes. Neste caso o Apeiron não é nenhum elemento determinado mas indeterminado, em que as determinações se apagam e desaparecem. Alguns textos de Aristóteles nos apresentam o Apeiron como uma substancia intermediária, entre todos os elementos, Uma mescla indiferenciada de todas as matérias empíricas.

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O Cosmos - A segunda ideia de Anaximandro, que chega aos nossos
dias é a ideia de cosmos. o termo kósmo se traduz geralmente por ―mundo‖ e por ‖natureza‖ (no contexto de ―mundo natural‖). Na evolução semântica do termo kósmo pode-se distinguir os seguintes estados:

a) Seu significado etimológico é ―ordem ou disposição‖ de certa coisa (por exemplo, uma tropa de cavalos) e no de ―ornamento‖ (por exemplo, o ornamento feminino, de onde provém cosmética). Segundo Heidegger, este segundo significado deve interpretar-se como beleza, noção ligada transcendentalmente a ideia de ser. b) Ordem do mundo; c) O Mundo como uma ordem; d) O Mundo em geral sem especial referencia à estrutura ordenada 12. Anaximandro havia efectuado o passo de (a) a (b) ou (c). Este passo só é possível através da experiência ou representação de uma ordem concreta no primeiro sentido de (a). Mas o que é ordenação concreta? Este se refere ao problema dos modelos (sociais, políticos, militares, ou tecnológicos) da ideia de cosmos. Para Paul Vernant, o cosmos de Anaximandro seria o emblema da nova polis democrática em que o príncipe o monarca havia sido substituído pelo equilíbrio de forças democráticas que se contrapesam em torno a um centro: o àgora. Mas, além dos modelos sociopolíticos de este tipo, existem também os modelos tecnológicos que parecem gozar de una maior potência explicativa. Esta interpretação foi sugerida por Gomperz. A experiência tecnológica da roda seria a corrente de transmissão para construção da ideia de cosmos. Assim, por exemplo, Anaximandro assina trajectórias circulares aos astros, enquanto corpos isolados, mas enquanto fragmentos de rodas de fogo envoltas em uma espécie de câmara de ar. A roda nos apresenta assim como esquema inteligível de continuidade ou conservação dos astros. Em todo caso o ágora pode ser considerado como um reforço do conceito de roda. Na geração deste cosmos, o gérmen do quente e frio foi segregado do eterno . A geração do cosmos a partir do Apeiron se produz não por alteração do elemento, mas ao separar os opostos: quente/frio, seco/húmido. O essencial do Apeiron de Anaximandro não é que se determine nos elementos e sim em uma ordem de elementos, formando um cosmos, mas um cosmos enantiológico, um sistema de oposições. O cosmos de Anaximandro é a unidade metafísica do mundo das formas, mas esta unidade se realiza de um modo diferente como ocorria no mundo de Tales. O monismo da substancia de Tales unidade do mundo é a unidade própria das formas que desaparecem umas em outras. Em troca, o monismo da ordem de Anaximandro, a unidade do cosmos é a unidade das formas que aparecem: não de outras, mas do Apeiron. O cosmos é, pois, a unidade que as formas devem manter para subsistir

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como tais formas. Esta unidade é já um conceito M3, que no se absorve em nenhum corpo (M1), nem em nenhuma mente (M2). O cosmos enantiológico forma um sistema de relações, uma estrutura, que se realiza em todos os campos, sobre todo o elo astronómico. Neste sentido Anaximandro, antecipando-se aos pitagóricos, é o primeiro em iniciar a análise matemática da natureza, estabelecendo relações numéricas entre os corpos celestes e o raio da Terra tomado como unidade:
 

Relaciones do raio da Terra com sua altura (a altura é igual a um terço do diâmetro); Relações da distância entre anéis com o raio terrestre (o anel das estrelas e dos planetas em 9 raios, da lua 18 raios, e o anel do sol em 27 raios).

O cosmos de Anaximandro é um sistema de relação temporal, pois a partir de onde há geração para as coisas, há ali também a produção da destruição, segundo a necessidade de acordo com a disposição do tempo. A dinâmica do cosmos se desenvolve conforme duas fases: a primeira é a formação do cosmos a partir do Apeiron, a segunda fase é a do retorno de todas as coisas ao Apeiron. O cosmos é um sistema de relação temporal, pois seus términos não procedem de si mesmos (da transformação de uns em outros), e sim do Apeiron. Anaximandro explica a formação do cosmos a partir do Apeiron em duas etapas: Na primeira etapa se explica a formação da Terra. Na segunda serão a da formação das Esferas os anéis. Do ventre do Apeiron eterno se segrega um gerador do calor e do frio. Frio e calor são o primeiro par de opostos. O calor dá lugar ao fogo a massa ígnea que rodeia totalmente o frio como casca e fruta. Esta esfera ígnea tem um movimento circular. O frio por sua vez se determina em outro par de opostos: o sólido e o húmido. O sólido dá lugar a Terra. O húmido se determina em líquido (água) e gasoso (ar). Os quatro elementos (fogo, terra, água e ar) que formam nosso cosmos foram gerados — segundo a disposição do tempo — a partir das qualidade opostas. Formação da Terra. o movimento circular da esfera ígnea dá lugar a um redemoinho que origina a Terra a partir do frio. A terra tem forma cilíndrica, como uma coluna de pedra e o homem habita uma de suas superfícies planas. A altura da Terra é um terço de seu diâmetro no princípio, a Terra está rodeada de água (de humidade) por todas as partes, mas o calor do fogo transforma parte da água em ar, e o resto se converte em mar, caindo livre parte da terra que, sem embargo, propende a secar-se completamente: o mar é um resíduo da humidade primitiva. Depois uma parte da humidade se evaporou por causa do sol e se converteu em ventos; enquanto a parte que cai nos lugares ocos da
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a Terra tem que permanecer em seu lugar. Por outra parte. porque a massa gasosa ao aquecer penetra na esfera ígnea. também. o da lua. 2) Os primeiros homens necessitariam de uma protecção especial (biológica) que substituiria os cuidados maternos actuais. as forças de atracão que actuam desde os distintos lugares da abóbada se compensam entre si. A obstrução destes orifícios produziria segundo Anaximandro. os homens e mulheres primitivos nasceram já adultos. pois. este movimento acaba neutralizado. Que por ser secado pelo sol. por estar no centro. ao crescimento. movimentando-se em um espaço infinito. Formação das esferas. diminui e acaba secando. O que nós denominamos corpos celestes não são outra coisa que o fogo que nós percebemos através destes orifícios. A Terra está no centro do universo. O sol é o maior (distante da Terra 27 raios). Na lama esquentada pelo sol se originaram uns poucos peixes ou animais semelhantes aos peixes em cujo interior se haviam desenvolvido os homens que permaneceram ali até o amadurecimento. excepto o homem que necessita. não haveria sobrevivido.terra. Origem dos animais e do homem. A argumentação de Anaximandro deveria ser a seguinte: 1) Todos os seres podem valer-se por si mesmos ao nascerem. 31 . depois o da lua (18 raios) seguido das estrelas fixas e dos planetas (9 raios). Estes anéis estão envoltos por uma massa atmosférica opaca e obscura. Este rompimento se produz por causa do movimento da própria esfera ígnea ou. Anaximandro fundamenta esta tese no seguinte: se o homem houvesse chegado ao mundo na forma que chega actualmente. sobre a origem dos animais. de um grande período de cuidados maternos. Anaximandro enuncia uma tese evolucionista. os eclipses e as fases da lua. A cobertura ígnea rodeia e tudo mais se desgarra para formar anéis separados. suspendida livremente. Os primeiros animais surgem da lama que se vai secando mediante o calor do sol e estavam recobertos de uma pele ouriçada e espinhosa para proteger-se do mundo circundante Com ele enuncia uma tese lamarquista-darwinista da defesa das espécies frente a seu meio ambiente e da troca da forma das espécies em virtude das mudanças produzidas nesse meio. Assim. Anaximandro parte da ideia de movimento e deduz dela o repouso da Terra. Existem três classes de anéis: o do sol. e dos planetas e estrelas fixas. sem estar sustentada por nada. mediante generatio aequivoca. pois. As mudanças das condições de vida (a mudança fazia o elemento seco) ocasionam o desaparecimento da casca que rodeava estes seres. mas apresentam orifícios ou aberturas através dos quais brilha o fogo que aprisionam. é mar.

5) Logo os homens primitivos não chegaram ao mundo na forma que chegam actualmente. 32 .3) Se houvessem tido essa protecção. A impossibilidade de um cosmos eterno. Por ele diz Anaximandro que o mundo é injusto e por ele (segundo o texto de Simplício) as coisas voltam de novo ao Apeiron segundo a ordem do tempo A Multiplicidade dos Mundos . O próprio sistema conduz a sua destruição e absorção no Apeiron. seu desaparecimento pela conversão de todo o calor. mas um equilíbrio instável. e do sol particularmente . e no fim significa aniquilação. Por ele o Apeiron nos apresenta como a conjunção de duas impossibilidades: 1. a espécie humana não teria resistido. Os anéis de fogo. em fogo.A dinâmica do cosmos de Anaximandro nos mostra que este tem um começo e um fim. Produzir-se-ia assim uma espécie de morte térmica do universo. enquanto gira vão determinando uma evaporação da água terrestre. se poderia dizer que o cosmos de Anaximandro leva em seu ventre a morte entrópica. O Apeiron apresenta dialecticamente no princípio e no fim do cosmos. 2. A impossibilidade da criação e aniquilação. O cosmos de Anaximandro é um equilíbrio — uma ordem. Mas o principio é diferente da ideia do Nada e de criação. uma entropia mínima. 4) Mas a espécie humana resistiu. A dinâmica do cosmos em sua segunda fase consiste no retorno de todas as coisas ao Apeiron. que terminará por secar a terra (sufocando a vida que há nela) e assim acabará com o próprio ar que envolve os anéis. porque não há perfeita e constante retribuição (segundo o critério do racionalismo de grupo) de uns términos a outros. Em termos mais modernos.

em realidade. Para tanto a pluralidade de mundos coexistentes romperia a unidade do Apeiron em quanto esta se funda por referencia al cosmos. A sucessão infinita de mundos pode ser entendida de duas maneiras: 1. A sucessão entre dois mundos é uma continuidade cósmica. W. Efectivamente. pois a unidade do Apeiron se mantém por referência a singularidade de cada mundo. Capelle. Defendem a multiplicidade sucessiva de mundos Zeller e Cornford (Principium Sapientiae) quem demonstraram a falácia de muitos dos argumentos de Burnet e conseguiram que a interpretação de Zeller desfrutasse do favor geral. Mas a multiplicidade dos mundos pode ser entendida como simultânea ou como sucessiva. Entre mundo e mundo existiriam hiatos extracósmicos (Apeiron). Sem embargo a multiplicidade sucessiva de mundos se parece compatível com o monismo. Isso conduz à tese de que. O cosmos em que estamos começa e acaba. O principal problema que questiona a pluralidade dos mundos é sua compatibilidade com o monismo. Anaximandro concebe o Apeiron fora do tempo. pois acreditava (Anaximandro) que o princípio das coisas singulares era infinito e dava origem a mundos inumeráveis. A unidade do Apeiron implica na unidade do cosmos. 33 . observação de nosso mundo sugere mais a pluralidade simultânea (a multiplicidade dos astros) que a sucessiva. e Santo Agostinho não deixou de contrapor o pluralismo de Anaximandro e o monismo de Tales. Burnet. mas integramente orientado no cosmos. Como continuidade cósmica. que não podemos conhecer em si e por isso nos apresenta como indeterminado. então o fim do cosmos tem que dar origem a novos mundos. e o Apeiron dá lugar a novos mundos que começam e acabam. Como hiatos acósmicos (metakósmia).Se o cosmos não é eterno e a aniquilação desse cosmos não é possível. Defendem a pluralidade simultânea Santo Agostinho. não existe propriamente uma pluralidade nem sucessiva nem simultânea de mundos (ideia de continuo que havíamos atribuído a Tales de Mileto). e outros. 2. sobre tudo Kirk e Raven ao manifestar que. se o Apeiron dá origem a infinitos mundos coexistentes no tempo (simultâneos). mas esta unidade chocar-se-ia com a multiplicidade simultânea de mundos singulares. então não é possível incluir Anaximandro no monismo milesiano. em caso de atribuir a multiplicidade de mundos a Anaximandro. Mas se a sucessão entre dois mundos se mantém no plano cósmico então existe uma continuidade de cosmos. A ideia de intermundia (metakósmia) é uma ideia limite de cosmos.

quase sempre. É uma atitude que acompanha. M. O Fragmento de Anaximandro "O ilimitado é a origem dos seres. em prosa e cujo título é Acerca da Natureza. Escrever em prosa era abandonar os padrões mais elevados e. mais jovem do que este. no caso de que a multiplicidade de mundos isolados constitui um cosmos que tem como limite a ideia de meta cosmos. 34 . em contrapartida. Tudo isto merece algumas considerações. ficou famoso na Antiguidade por ter desenhado um mapa. Mas é interessante notar-se que. Em segundo o facto de o livro ser em prosa mostra uma audácia da parte de Anaximandro. mesmo que o título seja posterior.Mas a Ideia de metakósmia tampouco é incompatível com a de simultaneidade. Foi um companheiro de Tales. ele corresponde ao domínio tratado pelo filósofo. a Filosofia. de acordo com o decreto do tempo] como ele se exprime. isto é. É relevante o facto de Anaximandro ter escrito um livro em prosa. H. O universo cultural é dominado pela poesia no tempo do filósofo. natural de Mileto. E a fonte da geração das coisas existentes é aquela na qual a destruição também acontece [segundo a necessidade porquanto pagam castigo e retribuição uns aos outros. Em primeiro lugar o pensamento de Anaximandro torna-se público. O título não é de completa confiança: é possível que o título original se perdesse e mais tarde se atribuísse esta designação genérica às obras dos présocráticos." (Trad. Anaximandro escreveu um livro. pela sua injustiça. Rocha Pereira) Conclusão: Anaximandro. Anaximandro conferia à prosa a dignidade de poder constituir o veículo do saber. nestes termos um tanto poéticos. pode ser abordado por quem tenha curiosidade para tal.

a este respeito façamos as seguintes observações: As características do Apeiron são tão importantes que são dignas para aplicar à Divindade. em seguida a parte fria ocupa o centro e a quente vai envolvê-la. Para Anaximandro. A arquitectura do universo de Anaximandro é a seguinte: 35 . para Anaximandro o termo embora conserve o sentido de qualquer coisa sem limites tem uma dignidade que não possui na linguagem vulgar. Porém. Esta última característica é fundamental para se compreender o que é o Apeiron. separou-se do apeiron uma massa capaz de produzir o quente e o frio. progressiva.Vejamos agora a doutrina de Anaximandro. na medida em que a physis é infinita. O termo Apeiron aparece na linguagem vulgar grega: nela significa algo sem limites. Este não é uma substância determinada como a água. da parte fria e a evaporação vai ter como resultado a fragmentação da esfera de fogo. em determinada altura. A substância primordial para Anaximandro é algo sem limites e indeterminada. mas também não é uma mistura de substâncias. embora escassa. por exemplo. é esta situação que vai provocando a secagem. Indiquemos igualmente a identificação da Divindade com a substância primordial. Ora. O filósofo debruçou-se sobre o mesmo problema do seu antecessor: o que é a physis? E Anaximandro dá a resposta: a substância primordial é o apeiron. O filósofo está interessado na génese do Universo e sobre este tema temos alguma documentação. É importante assinalar que a substância primordial é increpada e imperecível: temos aqui patente a importância e a dignidade do Apeiron que existe desde sempre e existirá para sempre. Se a Divindade é a substância primordial não é antropomórfica o que mostra a inovação introduzida por Anaximandro. inacabado e por isso não é perfeito ou belo. Se fosse uma substância determinada destruiria todas as outras.

" (Trad. atravessaram uma certa evolução. devido à escassez de terra firme. pela sua injustiça. E a fonte da geração das coisas existentes é aquela na qual a destruição também acontece [segundo a necessidade porquanto pagam castigo e retribuição uns aos outros. Esta explicação é relevante pois mostra que Anaximandro dá resposta a fenómenos particulares inserindo-os numa teoria geral. as primeiras palavras de um filósofo que chegaram até nós. os astros são constituídos por rodas ou anéis (das estrelas. Deixemos para o fim o fragmento de Anaximandro. A Terra está imóvel. A maior ou menor obstrução dos orifícios explica os eclipses e as fases da Lua. Podemos fazer as seguintes observações: Os seres vivos não tiveram sempre o mesmo aspecto. nestes termos um tanto poéticos. Rocha Pereira). H. de acordo com o decreto do tempo] como ele se exprime. da Lua e do Sol) cheias de fogo. Vamos transcrevê-lo no contexto do comentador (Simplício) que o conservou: "O ilimitado é a origem dos seres. Há uma adequação entre os seres vivos e o ambiente. Segundo Anaximandro os seres vivos nasceram da lama e nos primeiros tempos.A Terra tem uma forma cilíndrica. No que diz respeito ao tema das origens façamos. M. 36 . O homem foi idêntico aos outros seres e em determinada altura veio para terra firme e perdeu a sua carapaça espinhosa. eram peixes ou semelhantes aos peixes. envoltas por uma película opaca e com aberturas pelas quais sai a luz. ainda referência à dos seres vivos. sem necessitar de qualquer suporte porque está equidistante de todos os outros pontos. no centro.

podemos perguntar se fará sentido que coisas inanimadas. É provável que Anaximandro utilizasse termos poéticos. injustiça. um dia seja destruído para outro se formar. Assinalemos. O filósofo poderia querer dizer que a noite para surgir necessitava que o dia desaparecesse assim como a uma estação sucedia outra. segundo Anaximandro.As palavras de Anaximandro estão entre parênteses rectas. é um universo regido pela necessidade e não pelo acaso. por exemplo. por fim. Todavia. 37 . Numa primeira leitura e seguindo a letra do fragmento podemos concluir que se trata de um quadro ético-jurídico: termos tais como castigo. cometam qualquer injustiça e por isso tenham de ser castigadas. E é também muito possível que este universo. para descrever um determinado quadro. decreto do tempo parecem indiciar esta interpretação. O que queremos afirmar é que as coisas actuais não permitem o aparecimento de outras e é necessário que essas desapareçam para que outras venham à existência. que para o milésio o universo é regido por normas (os decretos do tempo). como diz Simplício.

e também mais cedo foi destruída. e que a matéria possui diferentes graus de solidez. foi discípulo de Anaximandro. continuou próspera. Era companheiro de Anaximandro. filho de Eurístrato. Sardes.Anaxímenes de Mileto O Ar Anaxímenes de Mileto é o terceiro e último importante filósofo da escola jónica antiga.. A respiração é um processo vivificante. Ele via que no céu existem nuvens. Dedicou-se à meteorologia. foi o primeiro a considerar que a lua recebe a luz do sol. ele é contudo citado com frequência para dizer que foi sua a proposição do ar como elemento básico na formação de tudo. e ele nos mantém unidos. Hegel diz que Anaxímenes ensina que nossa alma é ar.Anaxímenes de Mileto. A substância Primordial volta a ser uma coisa determinada como em Tales. Vida . 38 . assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. possivelmente no ano 585 a. mesmo quando reduzida à parte da satrapia persa instalada com domínio sobre toda a Jónia.C. no mesmo ano do eclipse predito por Tales. Embora pouco se saiba de sua vida. Anaxímenes identificou o ar talvez porque tenha visto seu movimento incessante. Mileto. e que a vida e o ar andam juntos. ainda por algum tempo. na maioria dos casos. capital do reino Lídio. Espírito e ar são a mesma coisa. no quadro ainda da fase Milesiana. Nasceu quando Anaximandro tinha 25 anos.C. Anaxímenes nasceu. fora conquistada mais cedo pelos persas em 546 a. dependemos dela durante toda a nossa vida. quando Mileto ainda era florescente cidade independente e liderava as cidades da confederação jónica.

com simplicidade e sobriedade". o racionalismo de Anaximandro é um racionalismo aberto pois a transformação de umas coisas em outras só é possível por meio do Apeiron. proponente da água e de Anaximandro do infinito. e no qual elas todas se decompõem. Restam somente três reduzidos fragmentos dos escritos de Anaxímenes de Mileto.O ar como primeiro e infinito elemento. como o Apeiron de Anaximandro. O idioma grego se falava em 4 dialectos básicos. se tornou o principal. Nada mais se sabe sobre sua vida e profissão. que. A influência de Anaxímenes ocorreu sobre os mais diversos filósofos. Anaxágoras. O ar 39 . sendo que o jónico. Estes se devem às citações feitas por Plutarco e Aécio. Diógenes de Apolónia. Mais provável. uma vez que não existiam livros de facto. mas determinado. O ar como elemento Cosmologia Ar como primeiro elemento na composição da matéria . Por Anaxímenes se constata que a ciência e a filosofia. Demócrito. a partir de cuja complexificação se formam todas as coisas.O verdadeiro significado de Anaxímenes está em haver dado continuidade à ciência e à filosofia em curso. ao qual tinha como poético. Divergindo de Tales. Anaxímenes propõe como arché o ar que é um principio infinito. Supõe-se que escreveu um livro pois segundo as informações de Diógenes Laércio ―escreveu em dialecto jónico em um estilo simples e conciso‖. Em Anaxímenes assistimos novamente o racionalismo cercado do grupo de transformações. a observação sobre a simplicidade e sobriedade do estilo de Anaxímenes pode indicar diferença com aquele de Anaximandro. muito próximo do acádico. De outra parte. entretanto. como por exemplo Pitágoras. "Escreveu em língua jónica. agora Anaxímenes propõe o ar como elemento fundamental da natureza. Por isso podemos interpretar a filosofia de Anaxímenes como uma espécie de síntese entre Tales e Anaximandro. Melisso. Se Diógenes Laércio avaliou o estilo de Anaxímenes. o qual subsiste por si só e é consequentemente divino. isto pode significar que o livro do filósofo Anaxímenes de Mileto ainda se conservava ao seu tempo. poderia ter conhecido a obra. A ideia fundamental continua a mesma. já nascidas. de Atenas. como a água de Tales. Vale lembrar que naquela época os autores se utilizavam de papiros. é que a informação tenha vindo através de Teofrasto. prosperam definitivamente por fora das tradições dogmáticas mitológicas. o acádico. foi também a língua de importantes obras. por sua vez. de que tudo se forma a partir de um elemento primeiro.

O ar ao rarefazer-se aumenta o volume e se converte em fogo. São por tanto as mudanças quantitativas (aumento o diminuição de volume) que produzem as diferenças qualitativas. todas as demais). o fogo e.como arché substitui a água de Tales. ocupa uma vasta região do mundo já desenvolvido e penetra todas as coisas: A omnipresença extensiva do ar empírico é maior que a da água. Anaxímenes para explicar a formação dos corpos compostos não necessita remontar-se ao ar como princípio. O ar é infinito e “envolve todo o cosmos” pois o ar empírico parece não ter limites. A partir das notícias de Simplício (as demais coisas se produzem a partir destas substâncias) e de Cícero (Anaxímenes disse que o ar é infinito. já 40 . Segundo Hipólito 4 o ar ―quando é perfeito é imperceptível à visão‖. mas determinado. Se isto for verdade. um princípio activo e em movimento (empurra os barcos. O ar é.). além disso. O ar é infinito. terra) que compõem os demais corpos. mas as coisas dele nascem finitas: a terra. etc. Em segundo lugar o ar tem carácter divino ―Anaxímenes diz que o ar é Deus‖ e se compara com a alma. a água. a partir destas. se fazendo mais subtil‖. Para Anaxímenes o ar. Por esse motivo ele não escolheu o fogo. Anaxímenes os constroem por meio da condensação e da rarefação: comprimido e condensado é frio e rarefeito é quente. a terra ou a água. movimenta as ondas. Anaxímenes seria o pioneiro da ideia de elemento. Anaxímenes introduz um princípio gradualista ao passo da quantidade à qualidade: natura non facit saltus. mas determinado. A condensação e a rarefação são atribuídas por Simplício tanto a Tales como a Anaxímenes. Em primeiro lugar l invisibilidade do ar. é um Apeiron (infinito). segundo informações de Hipólito o ar se manifesta distintamente ao condensar-se. Anaxímenes encontrou no ar empírico uma série de propriedades que desempenhariam melhor que os outros elementos as funções de arché. Além disso. vento. ar. Em Anaximandro o arché é infinito e indeterminado. Além do mais os dois opostos (quente e frio) que Anaximandro extraía do ápeiron. Mas a determinação do ar é mais abstracta a os sentidos que a água: é invisível como o Apeiron. água. nuvens. mas por sua vez incorpora algumas das propriedades do Apeiron de Anaximandro. Melhor que a água o ar constitui a matéria adequada para o racionalismo do grupo de transformações. Ao condensar-se diminui o volume e se transforma em água e em terra. bastando fazê-lo a partir de substâncias básicas ou elementos simples (fogo. como arché.

O sol gira ao redor da terra em um plano horizontal e se oculta porque o cobrem as partes mais elevadas da terra e porque aumenta a distância em relação a nós. Cosmologia As informações que temos da cosmologia de Anaxímenes são escassas e. a lua e os demais astros ígneos cavalgam sobre o ar e são planos. Em outras ocasiões suas opiniões se acercam mais da verdade que as de seu mestre Anaximandro. Os astros não se movem de baixo da terra. por geral. Assim mantém a tese de que a lua reflectia a luz do sol. 41 .que esta ideia não foi anunciada formalmente até Empédocles: conhecer racionalmente os fenómenos não significa explicar as coisas por seus últimos princípios (por exemplo. o sol. a terra. Assim. manifestam opiniões bastante ingénuas. que os eclipses do sol e de lua acontecem quando estes corpos são ocultados por outros corpos celestes. a partir do ar) mas a partir dos elementos. mas ao redor dela ―como gira um chapéu ao redor de nossa cabeça‖.

.. por exemplo.. Do ar nascem todas as coisas existentes. ainda. que é ar. São dois aspectos que vêm de Anaximandro. O Ar é Deus. escreveu um livro em prosa.. Anaxímenes... as que foram e as que serão.. que a bruma para Anaxímenes é infinita e é a divindade suprema. acentuemos que a noção de infinito pertence ao património filosófico milésio. num estilo simples.''.. a bruma rarefazendose ao máximo transforma-se em fogo e na condensação máxima dá origem as pedras.Fragmentos I ―. Assim. ou seja. Estamos perante uma resposta subtil a um problema difícil. Conclusão: O terceiro milésio. O que se pode perguntar agora é o seguinte: conhecendo Anaxímenes as críticas do seu antecessor às substâncias determinadas porque é que o terceiro milésio escolheu a bruma? É aqui que entra uma explicação francamente engenhosa.. e o ralo e frouxo é quente. Segundo Anaxímenes a substância primordial transforma-se nas várias substâncias que vão formar as coisas através do processo de rarefacção e de condensação.. 42 .. os deuses e as coisas divinas. segundo testemunho que chegou até nós. assim também todo o Cosmo. soberanamente nos mantém unidos.‖.. sopro e ar mantém. Acerca da Natureza.O sol é largo como uma folha. a passagem da substância primordial (neste caso determinada) às outras substâncias. IV ―... O ar contraído e condensado da matéria é frio. O tema principal para este pensador é o mesmo dos seus antecessores: a physis..‖.". A substância primordial é a bruma para Anaxímenes. Como nossa alma. Anotemos. III ―.. II ―.

e os astros que circulam em redor da Terra são corpos ígneos. surgiu a Terra. Desta forma será mais prudente procurar o sentido geral da passagem preservada por Écio: A bruma é o lugar do nascimento e da destruição das coisas existentes.Segundo Anaxímenes o universo deve a sua génese ao processo de rarefacção e condensação. e a bruma que cerca (sustenta) o mundo. A alma embora esta seja vital ou sensitiva. Anaxímenes desejava reafirmar também o principio que a bruma é estrutura de tudo quanto existe. De facto a substancia primordial não é só a origem como a estrutura das coisas existentes. Assim. Diremos apenas que há uma analogia entre a alma humana. O fragmento que chegou até nós. assente na bruma. deveria estar integrado na mesma substancia primordial. atribuído a Anaxímenes não merece grande confiança devido às interpolações que sofreu. é por assim dizer que a estrutura do corpo e é ela que nos faz mover com que a actividade humana seja possível. Quanto ao fragmento parece que alma de que nos fala o filosofo é vital e sensitiva ou seja o que nós hoje chamamos vida. Desta forma parece que a alma que o fragmento fala não é intelectual. que é bruma. 43 . é coerente com a doutrina de Anaxímenes. A alma dá o movimento ao corpo humano e a bruma sustenta o universo. mas segundo pensamos. é algo extremamente importante e tal como possui a dignidade de ser composta pela substancia primordial. A bruma cerca e sustenta todo o universo. Não é para espantar que a alma seja constituída por bruma (possivelmente no seu estado puro) já que esta está presente em todas as coisas. A afirmação de que a alma é a bruma não nos deve espantar pois tal ideia que nos parece constituir o sentido de todo o fragmento. é perfeitamente admissível que o milésio considerasse que a alma fosse constituída por bruma já que o homem também sendo uma coisa existente. achatada.

"Xenófanes. Depois de se referir às suas doutrinas.Xenófanes de Cólofon Filósofo grego. passou a ser considerado o fundador da escola do mesmo nome. Seus escritos são em metro épico. L. se ainda sei dizer a verdade a cerca disto" (D. Fixando-se finalmente em Eleia. Socion o fez contemporâneo de Anaximandro. 18-19). A partir de uma análise se determinam mais alguns esclarecimentos. segundo outros foi discípulo de Boton de Atenas. Diz-se ainda que se opôs às opiniões de Tales e Pitágoras. Segundo alguns. de Arquelao. e atacou também a Epimênides. filho de Déxio. 44 . e pela reduzindo a diversidade e o movimento às impressões subjectivas dos sentidos. ou como dizem alguns. castigador com homéricos embustes. contra Hesíodo e Homero. era de Colófon. Foi banido de sua cidade natal. antes já eram passados outros vinte e cinco anos. como elegias e Jambos. que emigrou da Jónia para o Ocidente. não foi discípulo de ninguém. retoma Diógenes Laércio as informações biográficas: "Xenófanes escreveu dois mil versos sobre a fundação de Altabosco [Colófon] e a colonização de Elea na Itália. IX. ou de acordo com Apolodoro. Esta se fez famosa por defender a unidade e imutabilidade do ser. Viveu em Zancle. e em Catânia. Foi elogiado por Timon assim: Xenófanes. não altivo. de Ortomenes. como testemunhou por suas próprias palavras: Sessenta e sete são agora os anos em que me agito em cuidados pela terra grega. denunciando o que eles diziam sobre os deuses.. A curta biografia legada por Diógenes Laércio sobre Xenófanes é praticamente só o que sabe a seu respeito. Atingiu uma longa idade. Ele mesmo cantava seus versos.

que teria depois transformado em poema de saudade. L. e. Agora o artista empobrecido. o rei Ciro derrota a Creso da Lídia (capital Sardes).Infere-se dos dados conhecidos que Xenófanes tenha nascido pela volta de 570 a. cheios de orgulho. no Tratado da velhice. Expulso. que sucedeu a Aliates em 571 conquistou a vizinha Éfeso. nocivos.c. IX.e. morais 45 . se aprimora como pensador e crítico. ao ponto de ter sobrevivido a estes. radicando-se finalmente em Elea. Lê-se também em Demétrio de Falera. A esta nova situação parece estar coerente uma referência de uma elegia de Xenófanes aos seus compatriotas colofônios. e em Panécio o Estóico. quando diz que: "Com os lídios aprenderam os modos relaxados.Depois de sua fase jovem de até 25 anos (e o poeta se revela sobretudo nesta idade). dirigiam-se ao agorá. revestidos de púrpura.C. Uma longa vida no Ocidente . Os versos para Colófon significa haver actuado em sua terra pelo tempo suficiente para formar vivências. que citaremos oportunamente. não teria sido bem visto pelos novos senhores da Ásia Menor. e. Não tendo sido um homem rico e nem mestre de uma escola. Xenófanes de Colófon. 3) (Atheneu XII. antes de experimentarem a odiosa tirania. falecido por volta de 545 a.C. gotejantes de artificiosos bálsamos" (Frag. não menos de mil cada vez. Acredita-se houvesse sido vendido como escravo e posto em liberdade pelos pitagóricos Parmenisco e Orestades" (D.C.C. O clima em que tudo isto se dá. Por sua vez os versos sobre Elea confirmam sua estadia significativa nesta. pois em 548 a. depois de passar por Zancle e Catânia cidades da Sicília. envaidecidos de seus bem amaneirados cabelos. como deixa calcular pelos seus versos. Vida Vida acidentada no Oriente .Floresceu na sexagésima olimpíada 540-537 a. teria vivido mais 67 anos perambulando por terras gregas. em 548 a. à qual até ali estavam submetidos os efésios. Para ter sido discípulo de Anaximandro... 526 A). Da tranquilidade. os persas. Creso. Pouquíssimo mais se encontra em outros doxógrafos. Resulta ter alcançado 92 anos. O fato de haver enterrado seus próprios filhos outra vez confirma sua longa idade. 20). que enterrou os filhos com as próprias mãos. quando. por ocasião da conquista persa. o cantor afoito. terá sido mandado andar e cantar por outras terras.. deveria também ter nascido cerca do ano 470 a. o colofônio exilado foi um pregador de civismo e de pensamentos filosóficos.c Teria deixado a Ásia Menor aos 25 anos quando já não era considerada terra grega. rei da Lídia [Ásia Menor].C. a conquistara o rei Ciro da Pérsia. principal cidade a cujo grupo pertence Colófon. admite dizer que tenha sido compelido a sair de sua pátria. por conseguinte o ano de 475 a.

Simplício. vindo finalmente a ser expressamente afirmada a posição de Xenófanes como fundador da escola de Elea: "Xenófanes. Dado como mais antigo em relação a Parménides.Não é clara a posição de Xenófanes 570 . reagindo contra os aspectos mais ingénuos da religiosidade mítica. ensinou um pensamento novo. através de um importante instrumento de comunicação. nas citações de outros autores. 46 . e ainda como o mais antigo unicista. com predominância de elegias e sátiras. Aristóteles. e de mais além… (Sofista. Anterior a Parménides . Aécio. por causa de sua arte. se diz. Mas é sobretudo em informações doxográficas que encontramos suas doutrinas tipicamente eleáticas. feita século e meio depois: "Xenófanes. que o tenha sido. seu discípulo…" (Metafísica 986 b 21-22). pois Parménides foi. mas não o declara directamente fundador da escola. Desta sorte influenciou aos de sua época. Perderam-se.475 a.C. elas vêm de Platão. não se refere a este como fundador da Escola de Elea. o fundador da escola eleata…" (Teodoreto IV. Receptivo. o do canto e da recitação.e religiosos. se faz sem contradição. Mas os versos fragmentários se prestam para estabelecer o clima religioso e moral em que se situava. a atribuição de fundador da escola. Hipólito. As poucas informações colocam portanto a Xenófanes antes de Parménides. in Aécio). 242 d). As informações vagas se repetem nos doxógrafos. sendo todavia muito plausível. representadas por meia dúzia de páginas de versos. Apoia-se na afirmativa de Aristóteles. todavia. 5. Obras Restaram apenas fragmentariamente. Diógenes Laércio. os versos referentes à fundação mesma de Colófon e Elea. Sexto. como fundador da escola de Eleia. Em Platão o texto também é fugidio: "Lá a nossa gente de Elea. que vem de Xenófanes. que se limitou a dizer que Parménides fora discípulo de Xenófanes. o mais antigo partidário da unidade.

ora se 47 . 5). 18). Xenófanes propõe a terra. dizendo que esta multiplicidade é apenas o efeito aparente dos sentidos. 32). eu digo que ele considera a terra e a água" (Filopono. mas é com o velho rapsodo que tiveram início. O ser é indicado por qualificativos como uno. Heráclito o fogo. Física 188. Tales propusera como primeiro elemento a água. 314).Doutrinas: A terra como elemento | Metafísica é a Glória de Xenófanes | Unidade do Ser | Subjectivismo e Relativismo | Ser Uno | Antropomorfismo | Entidades Divinas Secundárias | Ética | Entidades Divinas Secundárias | Cosmogonia | Meteorologia A terra como elemento .Tal como os primeiros jónicos. alteado este ser acima do meramente sensível. A base desta afirmação a estabeleceu Xenófanes mediante considerações metafísicas. "Pois todos nascemos da terra e da água" [Frag. mas simplesmente como um todo entitativo. estabeleceu a unidade em si mesma da coisa que existe. não se dividindo e não se multiplicando. divino. e também de Epimênides" (D. Anaximandro o infinito. 33] (Sexto. IX. imutável. a intuiu já não somente como sendo esta matéria sensível. eterno. "Pois tudo vem da terra e na terra tudo finda" [Frag. Também diz: "Terra e água é tudo quanto vem a ser e cresce" [Frag.Partindo para uma nova interpretação da diversidade múltipla da natureza. As relações entre o uno e o múltiplo são diferentes das que se supunham até então: "Opõe-se às opiniões de Tales e Pitágoras. Física 125. Unidade do ser . instituído como resultado de uma especulação abstracta. nem se transformando e nem se movendo. O ser é uno e imutável. 27). 29] (Simplício. – eis como se pode entender o texto já citado anteriormente. Laércio. Contra os matemáticos X. não há rigidez na proposição de Xenófanes. como se fossemos crianças. a investigação de Xenófanes foi primeiramente à busca de uma natureza elementar a partir da qual se formariam todas as coisas. A metafísica é a glória de Xenófanes . infinito. Num diálogo de Platão se exprime pitorescamente o Estrangeiro de Eleia: "Cada qual parece que nos conta um conto. assim apreendido pela inteligência. Todavia. 27] (Aécio IV. Diz um que são três os seres que ora se combatem.Percebendo a unidade da natureza – à que chama terra. Anaxímenes o ar. Seus sucessores avançarão as especulações. As coisas são simplesmente ser. "Porfírio afirma que Xenófanes considera princípios o seco e o húmido.

lá a nossa gente de Eleia. Xenófanes e Melisso. junta-se e os casa. Pelo contrário. ela é finita. então. ou quente e o frio. Mas.convertem em amigos. que vem de Xenófanes. Concluída a exposição das doutrinas pluralistas do ente. o húmido e o seco. 48 . dizer que Parménides alcança a unidade formal do ser. cujas concepções são. Quanto a Xenófanes. infinita. a água) e a unidade formal (por definição). Eles não procedem à maneira de certos fisiólogos. a partir do qual as coisas derivam. não há nada claro. Estes filósofos. e de mais além. está suficientemente conhecida pelo que precedeu. admite em suas doutrinas que um único é o ser. 986b 20-25). Esclarece que não se trata de um princípio primordial. sobre monismo fundamental. "O pensamento dos velhos filósofos. Enquanto os fisiólogos admitem o movimento no todo. os partos e a criação dos filhos. Xenófanes tem a visão da unidade. Prossegue Aristóteles distinguindo entre unidade material (aquela adquirida por um elemento de determinada espécie. de suas leis. 986b 13). dos quais assistimos as bodas. Pretende. não engendra todas as coisas a partir do Uno considerado como matéria. sem maiores esclarecimentos. dizendo que são apenas dois. Suas doutrinas são outras. 10). Parménides parece raciocinar aqui com mais penetração" (Metafísica. o mais antigo adepto da unidade (pois se diz que Parménides foi seu discípulo). Há ainda outros que professaram que o todo é uma só realidade. em verdade. Transcende à unidade material. os filósofos de que falamos pretendem. estabelecendo o ser como um. de suas transformações cíclicas. designando tudo" (Platão. para o segundo. b. "Parménides concebeu a unidade quanto à definição e Melisso a unidade material. mas a excelência da exposição não alcança o mesmo nível junto de todos. por exemplo. asseverou que o Uno é Deus. a saber. "A discussão de suas doutrinas não entra no quadro do presente exame de causas. nem a conformidade com os fatos" (Aristóteles. Metafísica. pelo contrário. deverão ser postos à margem da presente investigação. muito grosseiras. Mas. Quanto a Xenófanes não teria alcançado precisão de conceitos sobre o assunto. que admitiram a pluralidade dos elementos da natureza. através da unidade da natureza. comentando as da unidade. Na verdade. adquirida pela unidade simplesmente do ente. para o primeiro. visto que não parece ter entendido a natureza de uma e de outra destas causas. e completamente dois deles. ao passo que não Melisso. Adverte Aristóteles contudo que Xenófanes não aprofundou a doutrina da unidade do ente. 986. observando o universo material em conjunto. continua o Mestre do Liceu. como dissemos. que o todo é imóvel" (Metafísica. Outro. Sofista 242 c-d).

Parece haver estado próximo do vago cepticismo depois praticado por outros: "Não há homem algum que claramente visse. o semelhante. haveria de nascer. "Teofrasto assevera que Xenófanes admite um só princípio. que a menção desta doutrina mais convém a outro domínio. se nascesse do dissemelhante. Conscientizou-se Xenófanes sobre a dificuldade do problema levantado. Poet. na verdade. e nenhum haverá jamais que claramente tivesse visto. Teofrasto. o carácter subjectivo e relativo do conhecimento. Porque. que o vazio é um não -. VII 49. não podendo haver nele movimento. que faziam do elemento primordial um ser divino. nem imóvel). Não é infinito. com efeito. ora Deus é o que há de mais sublime e a tudo superior quanto ao poder. em Herodiano Gramático. I. Assim demonstra a ingenerabilidade e a eternidade. 49 .tem implicações gnosiológicas. Diante da diversidade oferecida pelos sentidos. este um e tudo é Deus. no dizer de Xenófanes. nem esse saberia: sobre tudo recai a opinião" (Sexto. não pode exercer este efeito (de gerador) sobre o semelhante. Ora.O unicíssimo de Xenófanes. 8. muito mais doces diriam [os homens] são os figos" (Frag. .qualquer seja a avaliação de sua profundidade. Sobre particularidades da linguagem. considerando o ser como um e tudo (nem finito. 41. O ser uno é caracterizado como divino – a tudo superior . alguns dos antigos. os eleatas advertem que é preciso ficar com a razão. Contra os matemáticos.5).Subjectivismo e relativismo . nasceria do que não é.Repete aqui Xenófanes o pensamento dos Milésios. ou simplesmente de um monismo materialista. 2 p. 110. E isto é importante anotar. pois não tem início. e saiba dos deuses e de tudo quanto eu falo. porquanto não há vazio separado" (Da geração e corrupção. ou do dissemelhante. pois ainda que alguém viesse a pronunciar o melhor possível a lavra definitiva. 825a 2). que ao da história natural. porquanto não convém mais a um que a outro o gerar e o ser gerado. Trata-se. Declara que é um. Alegando. estaria repartido em igualdade o poder entre todos. Do mesmo modo elimina o movimento e o repouso. . Sobre esta ponderação dos eleatas informou genericamente Aristóteles: " Achavam. nem fim e porque (só) os múltiplos seres se limitam reciprocamente. pois um panteísmo monista. ou do semelhante. nem meio. Aud. nem infinito. diz ele. nem móvel. Plut. porque o infinito é o não ser. Sobre a relatividade advertiu Xenófanes que: "Se Deus não tivesse feito o dourado mel. De outra parte. que o ser é um e imóvel. o que nasce. Concorda. se vários entes houvesse. que oferece a unidade e a imobilidade do ser.17 E). por ser o mais poderoso de todos. 38. É ingénito.

que o uno. 22. quando se diz – E sempre se mantém no mesmo lugar. 23 p. Em outro passo: "… dizia Xenófanes que tantos são ímpios os que afirmam que os deuses nasceram. ou não. Ainda que se pudesse pôr restrições a tudo o que houvera o mesmo Xenófanes dito sobre a natureza divina. Aconselhou-os a que não lamentassem. dizendo – e sem custo tudo move por força do próprio pensamento (Simplício. Aqui importa relembrar o texto de Platão em que o Estrangeiro ridiculariza o que se diz dos deuses e adverte para a doutrina do ser: "Mas lá a nossa gente de Eleia.1460 b 35). pois neste caso podem um em outro se transmutar. mas sim a estabilidade sem movimento e sem repouso. sem mover-se. em seu tratado A cerca de Deus. entenda-se não a imobilidade que se opõe à mobilidade. A mais antiga advertência contra o antropomorfismo teológico Destacou-se Xenófanes pelo seu combate aos conceitos antropomórficos da divindade. assim as dizem os homens" (Poética. que vem de Xenófanes. que em outro não se torna. 1399 b 5). nem convém à sua natureza que se mova para cá e para lá [Frag. 25 p. sem uma correcta noção filosófica de divindade. e lamentá-la como uma defunta. como as histórias que se contam dos deuses. Por conseguinte. o movimento convém mais ao múltiplo. e de mais além. O mérito teológico de Xenófanes também foi reconhecido por Aristóteles: "Os poetas representam a opinião dos homens. demonstra a limitação e a forma esférica dizendo que semelhante é o ente por todos os lados. admite em suas doutrinas que um único ser é o que designa tudo" (Sofista 242 d). Até seu tempo. De ambos os modos se diz que em determinado tempo não existiram" (Retórica. nem outro nele se torna. oferecer sacrifícios a Leucotéia. o de uma análise ontológica a partir do ser. seria limitado e esférico.porque o imóvel é o não ser. como os que asseveram que eles morreram. no sentido de haver melhor falado sobre Deus. mas se a consideravam como um ser humano. encontrava-se no recto caminho. Essas narrativas talvez não sejam verdadeiras. II.22ss). "Perguntaram os cidadãos de Eleia a Xenófanes se deviam. 24]. se como deusa a veneravam. foi Xenófanes o melhor dos profetas. no entretanto. atribui a ele [Xenófanes] a declaração de que o princípio é infinito e imóvel. não lhe deveriam 50 . ocorridas sobretudo na religião tradicional. nem melhores. Também afirma que ele pensa todas as coisas. Nicolau Damasceno. Claramente sua doutrina é a que ele é infinito e ilimitado. Conforme Alexandre (de Afrodísio). Nenhuma teologia é boa. talvez as coisas sejam como pareciam a Xenófanes. Física.

De futuro. Xenófanes não foi um monoteísta em sentido pleno. isto é bom" (Final do Frag. também Heráclito. 26 p. Combateu Xenófanes. têm figura. em tão remota época se despojasse inteiramente do lastro cultural da religiosidade helénica de seu povo. "Muitos actos ilícitos eles contam dos deuses: roubos. "Os etíopes se afiguram os deuses. Aristóteles não sacrificarão totalmente a ideias das deidades individuais e subalternas. em Atebeo X. Fragmentos dos Silos apresentam a mesma linguagem satírica de Xenófanes contra as imaginações antropomórficas. VII. desde que não sejam aventados como uma necessidade ontológica. Platão.sacrificar" (Ibidem. 11] (Sexto. V. os trácios. vestes e voz" (Clemente de Alexandria. "Homero e Hesíodo imputaram aos deuses tudo quanto entre os homens e indecoroso e censurável: roubos. 289). como Xenófanes. a figuração humana dos deuses. não foi um monista em sua totalidade. Os argumentos contra esta opinião foram expostos e defendidos com êxito por Freudenthal em sua obra Ueber die Theologie 51 . ao que parece. "Xenófanes havia sido considerado antigamente como o primeiro monoteísta grego. adultérios. Strômata. com pele negra e nariz achatado. Entidades divinas secundárias. que um homem. 22). A conceituação politeísta de Xenófanes está bem clara neste fragmento: "Um só Deus. 109). o maior entre os deuses e os homens. A noção de um deus supremo e único nesta condição. tal como eles. ainda não exclui a admissão de deuses como entidades secundárias e criaturas como os anjos. O mesmo contexto politeísta se reencontra nos versos. 12] (Ibidem. Contra os matemáticos. Por esta outra via os deuses foram admitidos por Xenófanes. 193). com olhos azuis e cabelos loiros" [Frag. 462 C). IX.23] (Clemente de Alexandria. Seria demais. "Mas crêem os mortais que os deuses nasceram. enganos recíprocos" [Frag. mas não os deuses simplesmente em si mesmos. e que. I. 16] (Ibidem. 109). II. enganos recíprocos" [Frag. Strômata V. adultérios. Por isso se tem contestado a afirmação de outros tempos de que Xenófanes fosse o primeiro monoteísta. como este: "Ter sempre veneração pelos deuses. 1400 b 5). 1. Ou melhor. Não há conflito entre combater o antropomorfismo religioso e a admissão de divindades secundárias. diferente na forma e no pensamento dos mortais" [frag.

pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso. revela actos nobres como a memória que tem e o desejo de virtude sem nada falar de titãs. no centro está um altar todo recoberto de flores. tudo dentro de uma ética aberta. em que participa. vinho doce. nem de gigantes. que promete jamais faltar.2] (em Ateneo X. IX. 19). É preciso que alegres os homens primeiro cantem os deuses com mitos piedosos e palavras puras. Pouco proveito adviria à cidade. peculiares às religiões tradicionais. trabalho a que nós devemos muito. . plena de alegria ergue-se uma cratera. ficções criadas pelos antigos. e injusto. Sobre a alma "Xenófanes foi o primeiro a declarar.." (Th. Um sentir geral de tolerância . Ter sempre veneração pelos deuses. Depois de verter libações e pedir forças para realizar o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -. Laércio. A Ética . ao lado estão pães tostados e sumptuosa mesa carregada de queijo a espesso mel. Mesmo que haja entre o povo um pugilista hábil. O argumento decisivo contra o pretendido monoteísmo de Xenófanes está contido no único verso: um só deus. 1] (em Ateneo X. a qual certamente é favorecida pela imaginação politeísta. outro oferece odorante mirra numa salva. este. de mais prezar a força que a sabedoria. Pensadores gregos. nem de centauros. entre os deuses. canto e graça envolvem a casa. à mão está outro vinho. nota ao item Xenófanes). agradável e pura. isto é bom" [Frag. as mãos de todos e as taças. 52 .Se observa no pensamento religioso e moral de Xenófanes. 462 C). importa não desatender ao fato de que Xenófanes foi também um poeta. e ao mesmo tempo que recomenda moderações: "Agora o chão da casa está limpo. se não fores muito idoso. não é excesso beber quanto te permita chegar à casa sem guia. ou até na corrida (que mais estimada é a rapidez que a força). Não é isso que lhe aumenta tesouros da cidade" [Frag. fresca é a água. Depois de se referir ao fato de ser apreciado como mais ilustre aquele que vence nos jogos.nem por isso o povo andará mais bem governado. nas quais nada há de útil. 413 F).des Xenophanes. ou de lutas civis violentas. não sendo nem fanático e nem contrário ao culto popular dos deuses. e que a alma é um sopro" (D.de Xenófanes se mantém ainda nas frases sentenciosas. Insensato costume. quem quer que vitorioso saia das másculas competições. se algum cidadão vencesse as margens do Pisa. Este é o clima de um longo fragmento elegíaco. Gompers. ou quem vença no pentatlo e na luta. Breslau. um cinge as cabeças com grinaldas de flores. e neste sentido poderia ter usado por vezes a linguagem poética. bebendo. nas jarras cheirando flor. que tudo está destinado a perecer. Não obstante. envolvidas em considerações episódicas. 1866. É louvar-se o homem que. adverte: "A sabedoria de certo é mais nobre que o vigor dos homens e dos cavalos..

assim o diz Xenófanes de Colófon" (Aristóteles. são inflamações e extinções" (Aécio II. 2. IV. Xenófanes crê que a terra se mistura com o mar. forma as nuvens. sem mitos. condensando-se em névoa. assevera que o todo é um. Depois com a teoria do ser uno. Xenófanes apresentou uma filosofia da natureza não menos curiosa. e depois. ingénito.4). diz que da Terra tudo nasce" (Teodoreto. nem o céu a cingem. nascimentos e ocasos. a doce separa-se pela subtileza própria. Nesta condição inicial terá desenvolvido uma cosmologia em que os elementos seriam a terra e a água. 53 . como já o quis invectivar de incoerência.14). continuando pela água doce.Já se encontra formulado em Xenófanes. a terra é ilimitada. mas eterno e absolutamente imóvel.Cosmogonia e cosmologia Não obstante sua nova maneira de interpretar a variedade dos entes como sendo fundamentalmente um unicíssimo. que vai aumentando dia a dia. I. Não deve todavia condenar a Xenófanes de contradição com sua tese da unidade do ente ao estabelecer una interpretação cosmológica à natureza. 4. "Muitos afirmam que a parte inferior da terra se prolonga indefinidamente. o fundador da seita eleática. e que de início pensasse apenas como os jónicos. sobre um ser material. esférico e limitado. na antiguidade. Não temos informações sobre a evolução cronológica do pensamento de Xenófanes. apresentará uma teoria do céu astronómico. das chuvas. 5 em Aécio). Por mais hipotéticas que sejam as teorias de Xenófanes sobre os astros. Mas não é impossível que seu unicíssimo fosse uma evolução ulterior. Refutação. olvidado destas doutrinas.13. pela evaporação. mas depois. 294a 21). cai a chuva e sopram os ventos" (Aécio. e prosseguindo a condensação. E assim já na antiguidade os eleatas desenvolveram a doutrina da aparente variedade e movimento do ser. Do céu. "Nasce o sol por via de aglomeração de partículas inflamadas. dos rios e de novo do mar. esta cosmologia somente se manteria como aparência sensível. Teodoreto: "Xenófanes. 14). elas representam algo muito mais evoluído que a interpretação mítica e mitológica então dominante. III. também o idealista Emanuel Kant. infinito O mar é salgado porque nele convergem muitas matérias amálgamas. No futuro. 13. finalmente pela formação das nuvens. Um conceito adiantado da meteorologia . Ocorre ali a visão da natureza como um sistema de leis. Um círculo de acções ocorreria a começar da água salgada. e nem o ar. asseverando que ela radica no infinito. "Supurada a água do mar. "Todos os dias os astros se apagam e todas as noites se reacendem como carvões. Com o tempo nele se dissolvera" (Hipólito.

Contra os matemáticos. respectivamente. 19). V. o maior entre os deuses e os homens.Um só Deus. Górgias 3. Mas é ele. todo inteiro pensa. VII ". e se pudessem com as mãos pintar ou produzir obras de arte.. De Meliso. como responsáveis pela imagem degradada dos deuses: ladrões. sob o ponto de vista formal.. pintariam as figuras dos deuses. 4. IX 144). só pode haver uma divindade (Pseudo-Aristóteles. 30] (Aécio. O filósofo atacou duramente os grandes poetas da Grécia.. só pode ser uma única (. B11). VI ".3) IV ". esculpiriam os corpos deles. 24. nem o curso dos rios. pois nem existiriam as nuvens sem o vasto mar.. porém não respira.Se a divindade é a mais forte de todas as coisas.. de acordo com o próprio aspecto" [Frag. Homero e Hesíodo. o todo ouve. eternidade" (D. pensamento. os siloi.4). os cavalos semelhantes aos cavalos. nem a chuva dos céus. como se fossem homens..Todo inteiro vê.23] (Clemente de Alexandria.. inteligência. O todo vê. 109). Strômata V. Fragmentos I ". IX. não poderia ser o mais forte e o melhor de tudo.. II "... Isto mostra que os filósofos.2).). 54 .. V ".Diz então Xenófanes: "Fonte da água é o mar.Deus é uma substância esférica sob nenhum aspecto parecido com o homem. Xenophonte. Não importa a qual dê prioridade. os quais contêm o seu pensamento filosófico. que gera as nuvens. os cavalos e os leões. 15] (Ibidem... os bois semelhantes aos bois. diferente na forma e no pensamento dos mortais" [frag. 24] (em Sexto. adúlteros e mentirosos (cfr. Laércio. todo inteiro ouve" [Frag.O sol provém de nuvens inflamadas. III ".. O importante é que formula o sistema de uma explicação. Ele é ao mesmo tempo todas as coisas.. pois se houvesse dois ou mais deuses.. 110).. os ventos e os rios" [Frag. o vasto mar.Se mãos tivessem os bois. III. e outro sol renasce no Oriente" (Aécio. tanto empregam a prosa como a poesia. frag.. e fonte dos ventos. provenientes de exalações húmidas" Conclusão: Xenófanes compôs poesias satíricas. A terra e a água são as fontes sempre presentes nas explicações de Xenófanes. Xenófanes ficou famoso pelas críticas à religião tradicional e pela sua concepção de Divindade.O sol apaga-se. Portanto. II.

travava. B16 e B15 ampliam e inovam em relação aos frags. A filosofia. bovinas. que se contrapunha à tradicional. Mostra uma preocupação metodológica. cujos pilares eram Homero e Hesíodo. ao antropomorfismo. uma das suas grandes batalhas: a apresentação de uma nova paidéia." (trad. O que é importante anotar é que para Xenófanes os deuses antropomórficos não são universais. Vamos. H. B11 é reforçado em B14 (roupagem e corpo. através do ridículo. idênticos aos homens). citados anteriormente. ainda de falar. os cavalos desenhariam imagens equinas dos deuses.O antropomorfismo dos deuses já criticado no frag. M. Rocha Pereira) Este fragmento é para nós importante por duas razões: É a nova crítica. B15: "Mas se os bois [os cavalo] ou os leões tivessem mãos ou pudessem pintar ou esculpir como os homens. B 16 chama a atenção para o facto de os Etíopes e os Trácios fazerem os deuses à sua imagem. Os frags. e os bois. com Xenófanes. um pouco mais à frente. Teremos. agora. e pintariam a forma e o corpo dos deuses como eles o têm de modo que cada [espécie] teria o seu aspecto físico. da noção de universal. O frag. não obstante a sua pequena tradição. por exemplo. 55 . transcrever o frag. na medida em que estamos perante uma argumentação por absurdo.

B34). Jaeger) que já estava presente em Tales de Mileto. È um ponto importante porque abre um debate na filosofia grega que terá de levar em linha de conta este problema. O último aspecto é reforçado pelo frag. B18 Xenófanes afirma que os deuses não deram a conhecer todas as coisas nos primeiros tempos da Humanidade. Para ele o homem não pode atingir a verdade. Encontramos aqui uma preocupação pela teologia natural (aspecto da filosofia pré-socrática posto em relevo por W. possivelmente. pensa tudo. eu pense que o filósofo se mova. No frag. Este deus está imóvel e não necessita de fazer qualquer esforço para dominar todas as coisas (frag. Façamos ainda duas observações: O deus de Xenófanes tem um carácter universal. 56 . B 26+25). embora.Xenófanes não ficou pela crítica ao antropomorfismo: apresentou. A teoria do conhecimento de Xenófanes apresenta uma série de aspectos que deveremos por em relevo: o filósofo coloca a dicotomia verdade-opinião considerando que o homem só alcança a última. * O tema do conhecimento é extremamente importante para Xenófanes. a sua concepção de divindade. num quadro politeísta. Há uma questão ainda em aberto acerca da possível posição monoteísta de Xenófanes. ouve tudo. E com grande subtileza afirma que se alguém dissesse a verdade não saberia que a tinha dito: o filósofo. também. só tem acesso à opinião. o homem ao longo dos tempos através da indagação descobre o que é melhor. B24: vê tudo. defenderia. pode ser encarado sob o mesmo aspecto por quaisquer homens (pertençam ou não a sociedades diferentes). que tal sucedia porque não existe um critério da verdade (para estes aspectos veja-se o frag. Assim. B23). isto é. ainda. fala de um deus com o máximo poder e que não possui traços antropomórficos (frag.

Parte-se do princípio de que a numeração é a estabelecida por Diels – Kranz. segundo espero. A numeração que utilizamos (Diels-Kranz) permite ao leitor.passagens relativas ao filósofo. Xenófanes. mostra a grande envergadura de Xenófanes. por exemplo. 34 D-K. por exemplo. frag. frag. Isto significa que o homem não está em regressão mas sim em marcha para aquilo que é melhor. frag. verificar os fragmentos assim como as traduções das quais são passíveis. Xenófanes. Pela numeração e secção. 34. com facilidade. Trata-se de outro tema que será debatido por filósofos posteriores. Esta numeração foi estabelecida por Diels na sua grande obra onde compilou as passagens referentes aos pré-socráticos. Creio que o mais simples é numerar os fragmentos ou indicar também a secção. C. 57 . Pela numeração e iniciais de Diels – Kranz.passagens duvidosas. por exemplo. o qual afirmava que a primeira sociedade tinha vivido numa autêntica beatitude. obra esta revista por Kranz. O que disse.fragmentos da sua obra. B. Segundo a obra de Diels-Kranz são apresentadas três secções: A. Nota Adicional No capítulo dedicado a Xenófanes surge uma numeração atribuída aos fragmentos do filósofo. o qual não ignorou a cosmologia. B34. Em contrapartida o filósofo considera que o esforço consegue obter o progresso. tema que não tratei nestas linhas.Xenófanes defende o progresso da Humanidade opondo-se assim ao mito da Idade de Ouro. Os fragmentos atribuídos aos filósofos podem ser apresentados da seguinte maneira: Pela simples numeração. Xenófanes.

que foi sua aluna.C. Pitágoras foi o fundador de uma escola de pensamento grega Biografia Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. na cidade de Samos.Pitágoras de Samos As coisas são números Pitágoras de Samos (do grego Πυθαγόρας) foi um filósofo e matemático grego que nasceu em Samos entre cerca de 570 a. pois mãe ao consultar a pitonisa soube que a criança seria um ser excepcional. e 571 a. contudo. ou 497 a. Acredita-se que tenha sido casado com a física e matemática grega Theano. fundou uma escola mística e filosófica em Crotona (colónia grega na península itálica). A sua biografia está envolta em lendas. já que ele foi objecto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. Aliás. Diz-se que o nome significa altar da Pítia ou o que foi anunciado pela Pítia. Pitágoras foi o criador da palavra "filósofo". Parece certo.C. que o Filósofo e matemático grego nasceu no ano de 496 a.C. Supõe-se que ela e as duas filhas tenham assumido a escola pitagórica após a morte do marido. e morreu em Meta ponto entre cerca de 496 a.C. 58 . como referentes às viagens e aos contactos com as culturas orientais.C. cujos princípios foram determinantes para evolução geral da matemática e da filosofia ocidental cujo principais enfoques eram: harmonia matemática. doutrina dos números e dualismo cósmico essencial.

Nessa cosmo visão também concluíram que a terra é esférica..Pitágoras cunhado em moeda Os pitagóricos interessavam-se pelo estudo das propriedades dos números . no alterar-se das estações e no movimento circular e perfeito das estrelas. que é o princípio fundamental que forma todas as coisas é o número. criando a teoria da harmonia das esferas (o cosmos é regido por relações matemáticas). Para esta escola existiam quatro elementos: terra. Alguns pitagóricos chegaram até a falar da rotação da Terra sobre o eixo. água. noções opostas (limitado e ilimitado) respectivamente números pares e ímpares expressando as relações que se encontram em permanente processo de mutação. ar e fogo. por isso o mundo poderia ser chamado de cosmos.C. onde morreu provavelmente em 496 a. Foi expulso de Crotona e passou a morar em Metaponto. lei. Evidências disso estariam no dia e noite.é constituído então da soma de pares e ímpares. A escola de Pitágoras Segundo o pitagorismo. 59 . termo que contem as ideias de ordem. Pitágoras e os pitagóricos investigaram as relações matemáticas e descobriram vários fundamentos da física e da matemática.para eles o número (sinónimo de harmonia) era considerado como essência das coisas . a essência. considerando o número o elo entre estes elementos. estrela entre as estrelas que se movem ao redor de um fogo central. e substância. mas a maior descoberta de Pitágoras ou dos discípulos (já que há obscuridades que cerca o pitagorismo devido ao carácter esotérico e secreto da escola) deu-se no domínio da geometria e se refere às relações entre os lados do triângulo rectângulo. de correspondência e de beleza. Assim. Os pitagóricos não distinguem forma. A observação dos astros sugeriu-lhes a ideia de que uma ordem domina o universo. ou 497 a. A descoberta foi enunciada no teorema de Pitágoras.C.

Durante o século IV a. a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Já as fracções mais complicadas. nos dará o som mais grave . possui algumas propriedades interessantes. A filosofia baseou uma doutrina chamada Filosofia explanatória Cristo-Pitagorica. depois a terça parte e depois a quinta parte conseguiremos os intervalos de quinta e terça em relação à fundamental. Segundo alguns historiadores. produzem sons agradáveis. os pitagóricos acreditavam na esfericidade da Terra e dos corpos celestes. A chamada SÉRIE HARMÔNICA. no mundo grego. quando tangida.O pentagrama era o símbolo da Escola Pitagórica O símbolo utilizado pela escola era o pentagrama. O nome está ligado principalmente ao importante teorema que afirma: Em todo triângulo rectângulo. Descobriu ainda que fracções simples das notas. Os sons harmónicos. pelas intersecções dos segmentos desta diagonal. verificou-se. que. com o que explicavam a alternância de dias e noites. um dos 60 . E assim sucessivamente. produzem sons desagradáveis. e na rotação da Terra. À medida que subdividimos a corda obtemos sons mais altos e os intervalos serão diferentes. A escola pitagórica era conectada com concepções esotéricas e a moral pitagórica enfatizava o conceito de harmonia. Pitágoras descobriu em que proporções uma corda deve ser dividida para a obtenção das notas musicais no início. que é proporcional ao original exactamente pela razão áurea. uma revivescência da vida religiosa. Um pentagrama é obtido traçando-se as diagonais de um pentágono regular.C. tocadas com a nota original. é obtido um novo pentágono regular. práticas ascéticas e defendia a metempsicose. tocadas juntamente com a nota original. Além disto..e a partir dela. sem altura definida. como descobriu Pitágoras. gerar-se-á a quinta e terça através da reverberação harmónica. Prendendo-se a metade da corda. sendo uma tomada como fundamental (pensemos numa longa corda presa a duas extremidades que.

água. Assim. sendo esta coisa o que é por causa deste valor. Eles descobriram propriedades interessantes e curiosas sobre os números. Os números não seriam. portanto. etc. Entre estes o mais importante era o número triangular 10. Principais descobertas Além de grandes místicos. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. Dentre estes cultos. dois abaixo deste. Teria chegado à concepção de que todas as coisas são números e o processo de libertação da alma seria resultante de um esforço basicamente intelectual. por várias vezes. que os pitagóricos desenhavam com um α em cima. α αα ααα αααα A tétrada. era um dos símbolos principais do seu conhecimento avançado das realidades teóricas. 1. Este número era visto como um número místico uma vez que continha os quatro elementos fogo. Números figurados Os pitagóricos estudaram e demonstraram várias propriedades dos números figurados. o mundo não seria composto dos números 0. Pitágoras seguia uma doutrina diferente. um teve enorme difusão: o Orfismo (de Orfeu). os tiranos estimulavam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. ar e terra: 10=1 + 2 + 3 + 4. e servia de representação para a completude do todo. uma coisa manifestaria externamente a estrutura numérica. Dioniso guiaria este ciclo de reencarnações. ou seja. mas dos valores que eles exprimem. depois três e por fim quatro na base. A purificação resultaria de um trabalho intelectual. podendo ajudar o homem a libertar-se dele. Representação toda perfeita em si de qualquer um dos lados que se observe. assim. os pitagóricos eram grandes matemáticos. originário da Trácia. a alma migrava para outro corpo. neste caso. a alma como uma unidade harmónica. enquanto o corpo se degenerava. ou seja. e que era uma religião essencialmente esotérica. tétrada em português. chamado pelos pitagóricos de tetraktys. Os seguidores desta doutrina acreditavam na imortalidade da alma. os símbolos.. 2. a fim de efectivar a purificação. mas os valores das grandezas.factores que concorreram para esse fenómeno foi a linha política adoptada pelos tiranos: para garantir o papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia. 61 .

Pitágoras percorreu por 30 anos o Egipto. A partir da descoberta da raiz de 2 foram descobertos muitos outros números irracionais. 62 . Fenícia e talvez a Índia e a Pérsia. Síria. é o próprio número.2.2. Os divisores de 28 são: 1. Então. Babilónia.14 e 28. que surgiu exatamente da aplicação do teorema de Pitágoras em um triângulo de catetos valendo 1: Os gregos não conheciam o símbolo da raiz quadrada e diziam simplesmente: "o número que multiplicado por si mesmo é 2".4. 1 + 2 + 4 + 7 + 14 = 28. Exemplos: 1.Números perfeitos A soma dos divisores de determinado número com excepção dele mesmo. Pitágoras provou que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. onde acumulou ecléticos conhecimentos: astronomia. Os divisores de 6 são: 1. 1 + 2 + 3 = 6. 2. ciência. Um problema não solucionado na época de Pitágoras era determinar as relações entre os lados de um triângulo rectângulo. matemática. O primeiro número irracional a ser descoberto foi a raiz quadrada do número 2.3 e 6. filosofia. Teorema de Pitágoras Uma das formas de demonstrar o Teorema de Pitágoras. Então. misticismo e religião.7.

os outros discípulos o expulsaram da Escola e o afogaram no mar. destacam-se: Prática de rituais de purificação e crença na doutrina da metempsicose. ascetismo e obediência à hierarquia da Escola. os pitagóricos não aceitavam qualquer solução numérica para x² = 2. os planetas movem-se em diferentes velocidades nas várias órbitas ao redor da Terra. Proibição de beber vinho e comer carne (portanto é falsa a informação que os discípulos tivessem mandado matar 100 bois quando da demonstração do denominado Teorema de Pitágoras). quando o infeliz Hipasus de Metapontum propôs uma solução para o impasse. Foi uma entidade parcialmente secreta com centenas de alunos que compunham uma irmandade religiosa e intelectual. Grande celeuma instalou-se entre os discípulos de Pitágoras a respeito da irracionalidade do 'raiz de 2'. indispôs-se com o tirano Polícrates e emigrou para o sul da Itália. advogavam a reencarnação e a imortalidade da alma. uma descoberta notável de que os intervalos musicais se colocam de modo que admitem expressões através de proporções aritméticas. 63 . axiomas. Dada a conotação mística atribuída aos números. embora nem sempre verdadeiras: a Terra é esférica. Austeridade. Classificação aritmética dos números em pares. Na Música. Pela cuidadosa observação dos astros. teoremas e provas. octaedro. Entre os conceitos que defendiam. de um corpo para outro. isto é. na ilha de Crotona. Samos. Na Astronomia. na transmigração da alma após a morte. pois só admitiam números racionais. comenta-se que. Aí fundou a Escola Pitagórica. de dominação grega. segundo o qual a estrutura intrincada da Geometria é obtida de um pequeno número de afirmações explicitamente feitas e da acção de um raciocínio dedutivo rigoroso" (George Simmons). ideias inovadoras. primos e facturáveis.Quando retornou à sua cidade natal. Lealdade entre os membros e distribuição comunitária dos bens materiais. Utilizando notação algébrica. ímpares. "Criação de um modelo de definições. cristalizou-se a ideia de que há uma ordem que domina o Universo. Música e Astronomia. Portanto. tetraedro. Purificação da mente pelo estudo de Geometria. Aritmética. Aos pitagóricos deve-se provavelmente a construção do cubo. a quem se concede a glória de ser a "primeira Universidade do mundo". A Escola Pitagórica e as actividades se viram desde então envoltas por um véu de lendas. dodecaedro e a bem conhecida "secção".

Ao biografar Pitágoras. 4. Pensamentos de Pitágoras 1. quase 100 anos após a morte de Pitágoras. A melhor maneira que o homem dispõe para se aperfeiçoar. Pensem o que quiserem de ti. A Evolução é a Lei da Vida. Todas as coisas são números. o que escuta recolhe.) registra que o mestre vivia repetindo aos discípulos: ―todas as coisas se assemelham aos números‖."o papel primordial para o estabelecimento da Matemática como disciplina racional". 6. Não é livre quem não obteve domínio sobre si. 10. na Idade Média. Mas não é fácil negar aos pitagóricos . é aproximar-se de Deus. A vida é como uma sala de espectáculos: entra-se. 2. 9. há séculos cunhou-se uma frase: "Se não houvesse o 'teorema Pitágoras'. mas os homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos 64 . A Escola Pitagórica ensejou forte influência na poderosa verba de Euclides. 8.assevera Carl Boyer . 300 d. Jâmblico (c. a Unidade é a Lei de Deus. na Renascença e até em nossos dias com o Neopitagorismo. O que fala semeia. Ajuda teus semelhantes a levantar a carga. e os primeiros trabalhos sobre o mesmo deve-se a Filolau. Nada deixou escrito. mas não a carregues. A sabedoria plena e completa pertence aos deuses. 5. 7. já que tudo o que dele sabemos deve-se à tradição oral. não existiria a Geometria". Entretanto é difícil separar o histórico do lendário. faz aquilo que te parece justo. vê-se e sai-se. uma vez que deve ser considerado uma figura imprecisa historicamente. o Número é a Lei do Universo. Arquimedes e Platão. Educai as crianças e não será preciso punir os homens.Pitágoras é o primeiro matemático puro. na antiga era cristã. 3. 11. A despeito de algum exagero.C. Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem.

Pitágoras de Samos Com Pitágoras de Samos a filosofia muda de quadrante geográfico. Em determinada altura a facção democrática da Cidade revoltou-se e massacrou os pitagóricos. Pitágoras foi um deles e refugiou-se em Metaponto. A escola pitagórica chegou a dominar. não obstante ter sido uma figura histórica. aparece. onde funda uma escola. na Grande Grécia. Essencialmente duas razões concorrem para tal facto: 65 . nestas vertentes mas há dois aspectos que ainda devemos mencionar: Pitágoras. sob o ponto de vista político. A escola pitagórica é a primeira a ser fundada na Grécia. Foram poucos os que escaparam. A índole da escola pitagórica é religiosa e de investigação. Conhecer o que pertenceu a Pitágoras e às várias gerações dos seus discípulos é tarefa muito difícil. Este emigrante instala-se em Crotona. rodeado pelo maravilhoso. Há uma ligação entre o pitagorismo e os mistérios órficos. cedo. Este pensador aparece com traços xamanísticos o que mostra claramente a presença do antigo corpo de saber no campo filosófico. onde veio a falecer. A escola desenvolve-se. A purificação da alma e o seu destino são preocupações fundamentais mas a sua contribuição filosófica é relevante e os pitagóricos ficarão célebres pelos seus estudos de matemática. a cidade de Crotona. Vários testemunhos indicam que se tratava de uma escola relativamente fechada. Durante bastante tempo afirmou-se que o Orfismo influenciou o pitagorismo mas hoje coloca-se a hipótese de ter sido o pitagorismo a influenciar o Orfismo.

Para Pitágoras se a alma não fosse pura durante a vida terrena. A Doutrina de Pitágoras: Pelo que acabamos de ver torna-se difícil fazer a reconstituição do pensamento de Pitágoras a nossa exposição irá incidir em primeiro lugar sobre o problema da alma e em segundo sobre as suas actividades no campo da matemática A Pitágoras poder-se-á atribuir três teses que estão ligadas entre si: (a) Imortalidade da alma (b) transmigração da alma (c) o parentesco dos seres animais. Compreende-se agora o sentido da terceira tese de Pitágoras. até atingir a purificação. ela teria de reencarnar noutros corpos ou humanos ou de outros animais. 66 . É importante referir que a transmigração esta ligada a uma concepção ética a alma impura por castigo tem de penetrar noutro corpo. após a morte do corpo. Se a alma humana pode estar presente nos corpos de vários animais isso faz com que eles sejam parentes do homem. A afirmação da imortalidade da alma é importante. A tradição religiosa não tinha sido muito clara quanto a este ponto: a alma sobrevivia à morte do corpo mas não se podia garantir a sua imortalidade.Por uma questão de respeito os pitagóricos atribuíram teorias posteriores ao próprio fundador. Isto é a transmigração pressupõe a imortalidade já que a alma passando por corpos diversos (humanos ou de outros animais) vai sobrevivendo a esses mesmos a corpos. A transmigração das almas constitui uma inovação a salientar. Uma literatura abundante sobre a Escola é muito posterior a Pitágoras e aos seus primeiros discípulos.

E Porque? Uma vez que a alma humana pode habitar corpos de outros animais (o homem incluído) Então existe um parentesco entre os animais não é pois de admirar que a morte de qualquer animal provocada por qualquer homem.Se o tema da imortalidade da alma e a transmigração da alma estão ligados como já vimos o parentesco dos seres animais decorre em 2 aspectos. A partir de agora. seja considerada um pecado. as facas eram o veiculo para a alma sair do Hades para o mundo exterior. Pitágoras descobriu provadamente ao medir num monocórdio os comprimentos da corda correspondentes aos sons que os principais intervalos musicais se podem exprimir em proporções numéricas simples entre os 4 primeiros números inteiros. * Como já dissemos. até aos finais do século V. é difícil discernir o que pertence às várias gerações dos pitagóricos. E assim não é para espantar a proibição de matar e consumir a carne dos animais e também surge um vegetal como tabu – a fava hoje parece-nos ridículo tal prescrição mas segundo os pitagóricos enquanto os animais poderiam albergar uma alma humana. a nossa exposição abarca um período que vai. 67 . A escola pitagórica tinha um conjunto de regras que deviam ser observadas entre as quais avultavam a que diziam respeito aos animais. praticamente. A descoberta levada por Pitágoras teve uma grande ressonância não só dentro da escola como também fora dela assim também os pitagóricos consideravam que a a soma dos quatro primeiros números a década tinha uma importância decisiva no ponto de vista científico e foi tão considerada que os pitagóricos juravam sobre ela. Segundo Kirk e Raven as duas doutrinas cientificas mais fundamentais e universais O dualismo essencial entre o limite e limitado E o segundo a equação de coisas e números. A década de uma forma geral era representada por 10 pontos dispostos de tal forma que tinham a composição de um triângulo equilátero.

Mas é difícil na posição aristotélica que abarca cerca de um século de actividades. ver o que pertenceu aos diferentes períodos do pitagorismo. Todavia é importante é importante realizar uma tentativa através da escola ate aproximadamente meados do século v e que pertenceu a escola do tempo de Filolau e de Eurito. Já tivemos a ocasião que e muito difícil destrinçar o que pertenceu as diferentes gerações de pitagóricos. Os Primeiros Pitagóricos Tratar da escola pitagórica e das suas origens até meados do século V constitui uma das tarefas mais difíceis do historiador de filosofia grega. Este sendo mais jovem que Pitágoras não pode ser considerado seguramente um discípulo deste filosofo. Vamos mostrar 3 aspectos que mostram uma envergadura filosófica de ser sublinhada: 68 . Seja como for o que é importante é o facto das concepções de alcméon se encontrarem em consonância com a escola pitagórica. É de salientar que o texto mais importante para a reconstituição da doutrina pitagórica é constituído por uma longa passagem da metafísica de Aristóteles.x xx xxx xxxx Como veremos é provável que Pitágoras e os seus primeiros discípulos que os números são corpúsculos ou átomos da matéria os quais constituíam as coisas. Alcméon de Crotona Vamos fazer uma referência a Alcmeon de Crotona que ficou célebre como medico e cultor da investigação filosófica. O próprio Aristóteles não tem a certeza se foram os pitagóricos que influenciaram o médico de Crotona ou se deu o contrario.

Em segundo o aspecto que vamos referir é a imortalidade da alma. no segundo apenas surgem as conjunturas. Vejamos primeiro os seus elementos: 69 . O que é divino está em movimento como o sol.Em primeiro lugar a sua teoria sobre a saúde teve uma larga voga. A alma é imortal devido a semelhança que ela possui com as coisas imortais. Quando este equilíbrio se rompe ou seja um dos elementos fica em supremacia surge então a doença. A tábua dos opostos é ainda hoje tema de discussão. Ora como a alma está em movimento ela é imortal como são os corpos que a mencionamos. Que saibamos esta é a primeira tentativa de demonstração da imortalidade da alma. baseadas não já numa simples crença mas de razões de ordem filosófica. È uma oposição que vai ser sustentada por vários pré-socráticos ou seja aquela entre a altheia ( verdade suprema ) e a doxa (crença comum ou opinião) A Tábua dos opostos Um dos pontos fulcrais do pensamento pitagórico esta contido na celebre tábua dos opostos. Os pitagóricos defendem a existência de dois princípios ou substâncias opostas o limite e o ilimitado a partir dos quais o universo virá à existência. Enquanto no primeiro aparece a certeza e a clareza. a lua e as estrelas por exemplo. Para ele a saúde é o equilíbrio ente os opostos como põe exemplo o amargo e doce. O ultimo aspecto diz respeito ao conhecimento divino e ao conhecimento humano.

serão modalidades do primeiro par de opostos. Qual o sentido desta tábua? Esta é a questão mais difícil. Em primeiro lugar trata-se de uma tábua com dez pares de opostos e em segundo o primeiro par é constituído pelos dois princípios ou substâncias fundamentais para os pitagóricos (Limite e Ilimitado). todavia. Em cada coluna o termo fundamental é o primeiro sendo os nove restantes variações do primeiro. a do Ilimitado. É muito possível que os pitagóricos pretendessem descrever a realidade e mostrar os seus diferentes aspectos que. A coluna do Limite é positiva.LIMITE Impar Uno Direito Macho Imóvel Recto Luz Bom Quadrado ILIMITADO Par Múltiplo Esquerdo Fêmea Móvel Curvo Trevas Mau Rectangular Façamos algumas considerações. negativa. 70 .

O universo é constituído por um fogo central (que ilumina o Sol e a Lua) e por nove astros visíveis aos quais os pitagóricos juntaram a antiterra (astro invisível) para perfazer o número dez que para eles era o número perfeito. Assim pretendeu-se ver uma matematização do universo . Mas ainda o que vai provocar grande polémica a escola considerou indistintamente. Por outras palavras significam as coisas são conjuntos de corpúsculos (átomos). Assim podemos dizer que as coisas existentes são formadas por aglomerados de números. números e pontos da geometria. ao crescer foi penetrado pelo ilimitado o qual estava no seu exterior e que o fragmentou em corpúsculos. os números. Aristóteles vai afirmar que esses números são partes constituintes das coisas. 71 . Ora com o próprio Pitágoras e as primeiras gerações de pitagóricos. A cosmologia Os pitagóricos da primeira metade do século v apresentaram como era lógico a sua concepção cosmológica. Os Pitagóricos não introduziram distinção entre átomos.As Coisas são números Um dos temas mais importantes do pitagorismo é sem dúvida a tese que ficou famosa "as coisas são números". Os Números como corpúsculos são assinalados de forma bem explicita pelo próprio Aristóteles bem informado sobre as teorias pitagóricas. mas para que tal acontecesse ser necessária a concepção abstracta dos números. os pontos geométricos e os corpúsculos materiais. Podemos dizer que o princípio gerador do universo é duplo pois será o par de opostos limite e ilimitado que estará na sua génese O limite desenvolveu-se como uma semente que se desenvolve e. Todavia o numero para os pitagóricos eram algo de material um corpúsculo ou átomo de matéria. como a aritmética e a geometria fizeram sem dúvida progressos assinaláveis no mundo grego. a matemática.

Uma teoria considerava que a alma era um conjunto de partículas de pó que estão em suspensão e que depois entrariam no corpo humano . È subtil esta teoria porque os pitagóricos argumentavam que o facto de não se ouvir essa harmonia era devido a habituação a que desde o nascimento dos homens estavam submetidos. desde crianças. a qual deve ser posterior. possivelmente é a primeira concepção defendida pela Escola. da qual foram grandes cultores trouxe-lhes. todavia. A força e o prestígio da Escola pitagórica ultrapassaram o século V devido às suas concepções filosóficas. Aspecto curioso é a chamada harmonia das esferas que consistia na música provocada pelo movimento dos astros.É possível que esta cosmologia remonte ao tempo de Filolau. Vamos encontrar outra teoria. * 72 . mais elaborada. habituados a ela. A base desta teoria era a seguinte: se um corpo é lançado provoca um ruído e se não ouvimos a música dos astros é porque estamos. A alma surge como o princípio da harmonia do corpo. Não é para admirar que se debruçassem sobre a natureza da alma. A questão da alma Como já dissemos o tema da alma ocupou um lugar de destaque nas preocupações dos pitagóricos. A matemática. grandes problemas atestados na polémica entre eleatas e pitagóricos.

em fogo. em permanente transformação. Assim. Para Heráclito o princípio das coisas é o fogo. e a razão do real. elemento primordial. Tudo flui e nada fica como é. cidade da Jônia. Heráclito imaginava a realidade dinâmica do mundo 73 . Para ele. Coisa alguma é estável. Deus se manifesta na natureza. O fogo transforma-se em água. Sucessivamente. rainha e princípio de todas as coisas‖. O logos é o princípio cósmico. os antigos poetas e os filósofos de seu tempo. que são um tanto confusos. a inteligência. impulsionado pela luta de forças contrárias. Tudo segue seu curso. não participou da política e desprezou a religião. Grande representante do pensamento dialético. Chama a atenção. a terra transforma-se em água e a água. descendente do fundador da cidade. e que esse se processa através de contrários. não no ser. O escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua. É o primeiro pré-socrático com um número razoável de pensamentos. sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Desprezava a plebe. Daí sua escola filosófica ser chamada de mobilista (=movimento). Afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo perpétuo. É pela luta das forças opostas que o mundo se modifica e evolui. A verdade se encontra no devir . Foi muito crítico. Tanto o bem como o mal são necessários ao todo. Todas as coisas mudam sem cessar. e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois. além da pluralidade. abrange o todo e é crivado de opostos. que significa contínuas transformações. afirmava que ―a luta é a mãe. o obscuro. para os opostos. e por isso tem o nome de Heráclito. Concebia a realidade do mundo como algo dinâmico. a vida era um fluxo constante. A lei fundamental do Universo é o devir.Heraclito de Éfeso O devir Nasceu em Éfeso.

que o liga à família de Codros. Vida . certamente com alguns desmandos. Trata-se. com chamas vivas e eternas. acontecida nos anos 504 . quando Ciro houvera conquistado Sardes. o teria defendido de maneira tão radical quanto lhe foi atribuído. que se rebelara. ainda que não atingido por toda a massa. sobretudo no que se referia ao saber.Foi um melancólico que tinha aversão à sociedade. e logo também as cidades da Jônia... permite calcular vagamente o restante da cronologia de sua vida. assim fosse a teria ensinado a Hesíodo e a Pitágoras. esta condição pessoal contribuiu para que se criassem ficções biográficas. rei de Atenas e chefe da emigração jônica e fundador de Éfeso.e. e evitava a sua convivência preferindo a solidão. pois de um tempo em que as cidades da Jônia grega já se encontravam integradas no império persa. Mileto.c. como por exemplo por ocasião das festas de Deméter. Este fato poderia ter sensibilizado sua aversão à massa popular. Heráclito pertenceu à nobreza de Éfeso. gozava Heráclito do direito de posição de destaque.sob a forma de fogo. nem mesmo o mobilismo de que falou. ou. A fonte principal das notícias biográficas de Heráclito se encontra em Diógenes Laércio. Porque "nisto só consiste a sabedoria.c.c. por ocasião de atos públicos. tornado esse apelido comum. filho de Bloson. de acordo com outra tradição.. renunciou Heráclito suas prerrogativas em favor de seu irmão 7.e.e. ou o tenebroso".500 a. e vivido até pelo ano 480 a. portanto ao tempo de Heráclito.e. 74 . desde 546 a. Não restam elementos para determinar o ano de nascimento de Heráclito. governando o constante movimento dos seres. Timeo de Fliunte. que não podemos hoje tomar como precisas. que tinha consciência da acessibilidade do homem ao saber. Em seu tempo o partido aristocrático fora aliado do poder.c. Tinha em si mesmo alto apreço frente aos demais. Mas se sabe onde nasceu e quando floresceu: "Heráclito. nasceu em Éfeso. Descendendo da nobreza. Esta ligação com a 69ª olimpíada. Floresceu na 69ª olimpíada" 4. Heráclito foi um sábio.e. além das menções dispersas em Aristóteles e outros antigos. foi destruída em 494 a. que o deixaram pessimista. então exercendo democraticamente o poder. de Heronte . Talvez desiludido dos homens e de outra parte como sábio desprendido dos formalismos. conhecer a mente que governa todas as coisas através de tudo e que Homero devia ter sido excluído das competições e açoitado e igualmente Arquíloco" .c. aos lídios. foi o primeiro a chamá-lo de "Heráclito o obscuro.c. Poderá ter nascido por volta de 540 a. Formou um alto conceito de si mesmo em seu livro onde diz: a erudição não ensina a sabedoria. Já agora o grande rei da Pérsia se chamava Dario 486 a. nem o de sua morte.e. e por sua vez a Xenófanes e Hecateo 5.

A luta dramática do filósofo contra a doença foi descrita de maneira muito realista. ou Fórum. entretanto. tendo o fogo como elemento principal. Ora. Retirando-se do templo de Ártemis. Eu. como outros sábios do seu tempo. O mais provável é que Heráclito influenciasse sobre Hípaso. "Foi excepcional desde sua infância. Contento-me com pouco. Heráclito possui afinidades com este pensamento. e jogando os dados com as crianças. como Sócion. e que desenvolveu um racionalismo. isto é. e que se dirigindo para o Ocidente. do que ter parte em vossa vida civil?" . e os adolescentes postos para fora da cidade. Mas não terá deixado de aproveitar os conhecimentos de outros. fundou a escola de Elea. quando este pouco é para a minha mente" Heráclito aos 60 anos vitimado pela hidropisia. em que se criticava o antropomorfismo dos conceitos sobre Deus.Pronunciando-se sobre assuntos políticos. Negou-se ao rei Dário quando o convidou a ir para entre os persas. se ocupou com uma espécie de panteísmo hilozoista. mas dizia que indagava a si próprio e aprendera tudo por si mesmo. Alguns. Acaso não é melhor fazer isto. Quando adulto declarava tudo saber. declarou muito positivamente: "É necessário que o povo lute em defesa da lei como por sua muralha". e que por isso ambos tenham pensamento afim. Convidado por Dário. na àgora. porque expulsaram a Hermodoro. Heráclito muito desenvolveu a partir de própria pesquisa. não posso seguir para a Pérsia. dizendo: ―Todos os efesinos adultos deviam ser condenados à morte. Quanto ao pitagórico Hípaso. caso haja alguém deveria ir viver em outro lugar e com outros". e 75 . Heráclito. Quando jovem usava dizer que nada sabia. Heráclito não se deu a viagens. que é de Metaponte (Itália) cultivou uma doutrina que contém elementos tanto pitagóricos como jônicos. Ao que parece. Tudo o mais que disse da política e seus episódios tem a forma agressiva e contestatória. Reprovava amargamente aos efesinos a expulsão de seu amigo Hermodoro. entregues por falta de juízo à avareza e à sede de popularidade. que ignoro todas as fraquezas e não desejo outra coisa senão horror ao esplendor. disse: Porque estais atónitos? Perversos. escreveu-lhe em resposta: “Todos os homens sobre a terra se afastam da verdade e da justiça. Sabe-se que Xenófanes era de Colófon. De ninguém foi discípulo. Ora.Heráclito também persuadiu o tirano Melancome a deixar o poder. Que ninguém aqui se destaca pela sua virtude. notoriamente inteligente. seu benfeitor. asseveram que ele foi discípulo de Xenófanes". e quando os efesinos se reuniram em torno e o observavam. foi enterrado como os nobres em lugar público. outra cidade jónica.

meteuse sob o calor do esterco num estábulo. Dionísio. adoeceu de hidropisia. na idade de sessenta anos. houvesse uma pequena biblioteca junto ao templo. E como o negassem. que o cobrissem com esterco de boi. sendo obrigado a retornar à cidade. para que senão os adeptos se acercassem dele. dividido em três exposições: sobre o todo. depois de informar sobre o escrito de Heráclito. o tornou mais obscuro intencionalmente. entre outros os seguintes: Eu sou Heráclito. Houve muitos comentários de sua obra. Cleantes e Esfero o Estóico. de acordo com alguns. Diógenes Laércio. no segundo dia faleceu. um homem vale trinta minas. logo lhe fez também a resenha doutrinária: "O livro que lhe atribuem se estende sobre a natureza. E como não o entendessem. e não fosse desestimado pelo vulgo”. extrair a água. esperando que evaporasse a água que o atormentava. Como ali só se alimentasse de ervas. Hermipo conta o facto de outro modo. e. mas para os que me podem compreender. Existem vários epigramas 16 acerca de Heráclito. comprimindo-lhe os intestinos. Mas havendo-se criado em torno do livro a seita dos heraclíteos. inclusive Antístenes e Heráclides do Ponto. uma multidão 76 . porquanto foi um hábito posterior atribuir a filósofos antigos um livro com semelhante denominação. Como o remédio não trouxesse resultado. estendeu-se ao sol e ordenou aos seus empregados. a teologia. O texto certamente existiu como provam os poucos fragmentos que dele restaram. Ou teria ali depositado simplesmente. se era possível. Teria ele perguntado aos médicos. o devoraram os cães. Para mim. Este livro o depositou no templo de Ártemis. Mas não se pode afirmar directamente que foi este o título. não tendo podido retirar-se de sob o esterco. se podiam mudar a chuva em secura. Fez aos médicos a enigmática pergunta. Neantes de Císico alega que. por deformado. irreconhecível. Obras : Heráclito escreveu um livro Sobre a natureza. que o tornavam como que um escrito sagrado. A circunstância de o haver depositado no famoso templo de Ártemis (ou Diana) de Éfeso permite supor houvesse tratado de coisas transcendentais. logo morreu. porque me torturais ignorantes? Não é para vós que eu trabalhei. este fato prova que Heráclito formou discípulos e que o livro continha elementos religiosos.poderá não ser verdadeira em todos os detalhes: Por fim passou a odiar os homens e se retirou para as montanhas. a política. lá ficou. e ainda Pausânias denominado o Heraclitista. Assim deitado. Nicomedes. Este último afirma que o tratado de Heráclito não é sobre a natureza. e foi sepultado na praça pública. e. e entre os gramáticos Diódoto. mas sobre o governo e que a parte física serve como ilustração.

segundo um tal Croton. por alguns é As Musas. sabe-se que era mencionada também com outros títulos. e a partir dele tudo se explica por transformações. sociais Fogo como 1º Elemento | O Devir Universal | Causa e Lei | O Monismo Heraclito | A Alma e Suas Funções | Doutrinas Morais de Heráclito Fogo como primeiro elemento na composição da matéria . Heráclito costumava afirmar que havia uma lei natural ordenadora para todo o universo. além disso o fogo é sempre móvel. o caminho brilhará mais que a luz solar 17. mas Diódoto a chama Um leme para governar a vida. de onde decorre sua dinâmica. Ainda sobre a obra de Heráclito. mas se um iniciado vos guia. Mesmo Sócrates ficara perplexo. outros. em O mergulhador. o resto suponho igual. a seguir seu monismo. de concórdia e discórdia. finalmente. Ciência dos costumes. Outro epigrama: Não vos precipiteis em adquirir o livro de Heráclito de Éfeso. Heráclito ficou famoso também pela dificuldade de entendimento. obviamente não como um Deus da mitologia.não vale nem uma só. A ordenação se dá dialecticamente. conta Diógenes Laércio que como Eurípides desse uma obra de Heráclito a Sócrates e lhe pedindo a opinião a respeito ele contestou: . Costumava chamar essa lei natural também de Logos. e Complemento e ornato de uma certa medida para todas as coisas. trevas e impenetrável obscuridade o rodeiam. o qual dizia que era preciso ser um mergulhador de Delos para não afogar-se nesta obra. conceitos psicológicos. que a primeira informação parece sugerir haver sido Sobre a natureza. que 77 . Nesta visão complexa da realidade total do universo de Heráclito se distinguem aspectos. conceitos éticos. O título dado para ela. Diz Seleuco o gramático que. mas para entendê-lo é necessário um mergulhador de Delos. Eis o que vos digo.Heráclito afirmava que o princípio constitutivo de todas as coisas é o fogo. desde o fundo do palácio de Proserpina. por outros Sobre a natureza.O que compreendi é excelente. mas algo que fosse o organizador de toda a existência do universo. Didacticamente consegue-se expor em separado o pensamento cosmológico de Heráclito. ora ele denominava essa lei como Deus. em direcções contrárias. o caminho é difícil. o livro havia sido levado pela vez primeira à Grécia por um certo Crates.

o fogo. e de novo reduzido ao fogo em cada ciclo de tempo. vindo a se produzir por rarefação e condensação. dilatando-se a terra. Heráclito e Hípaso de Metaponte vêem no fogo o princípio de todos os seres. A transformação é um caminho para cima e para baixo. Todas as coisas se produzem pelo conflito de opostos e o seu conjunto flui como um rio. Tudo o que se realiza é limitado e forma um só universo. para Hípaso de Metaponte e Heráclito de Éfeso. como o fogo. enquanto Heráclito preferiu um elemento mais caracterizado na natureza. que se acende e com medida se apaga". Da extinção deste. e se converte em água. contraindo-se em si mesma a parte mais espessa (do fogo). lhe dão a preferência como princípio. estas são as suas doutrinas: o fogo é o princípio. Mas depois novamente o fogo faz 78 . e isto é determinado pelo destino. nasce a terra. Anaxímenes e Diógenes colocarão o ar como anterior à água. ou elemento e todos os seres são uma transformação do fogo. nenhum dos deuses e nem dos homens o fez. é e será fogo sempre vivo. Este infinito tem as mesmas feições do Apeiron de Anaximandro de Mileto. e. por virtude do fogo. É o fogo de Heráclito concebido com as feições do indefinido ou infinito. E a água ao contrair-se se converte em terra. ao passo que. ao invés. começando pelo princípio constitutivo cosmológico. e isto determina. a tendência à destruição pelo fogo. o mesmo para todos. Tudo nasce do fogo e no fogo tudo finda. nasce a água. porque. “Este mundo. Este é o caminho para baixo. Da evaporação desta se dá origem ao ar. entre os corpos simples. Parte por parte. E ele é gerado alternativamente do fogo.importa abordar sucessivamente. o primeiro elemento é o fogo. "Aqui está um sumário de suas doutrinas. Dentre os opostos. o nascimento do mundo. E tudo está cheio de almas e divindades. um deles se chama guerra e discórdia e o outro. Pela contracção o fogo se humedece. E. por toda a eternidade. se chama concórdia e paz. As coisas todas se produzem segundo o destino. Curiosamente Anaximandro não está incluído entre aqueles aos quais Heráclito criticou. Todas as coisas são compostas de fogo e no fogo se resolvem. depois. todas as coisas são geradas. Mas não dá explicação clara. Mas Anaximandro permaneceu na concepção mais abstracta do infinito. o cosmo e todos os corpos pelo fogo parecem na conflagração. Entram em harmonia através de um movimento de opostos.

Por causa da constatação da universal transformação de tudo. A aparência exterior do fogo parece conduzir à interpretação hilemorfista: então Heráclito à mesma maneira como Anaximandro. desde que melhor explicasse a hipótese da geral mobilidade. pela substituição substancial das formas. Tudo nasce do fogo por condensação e rarefação. dentre as quais importa começar pela forma desta alteração contínua. que seria o fogo. estas expressões não deixam clara a tese do mobilismo. Uma passagem de Platão sugere exactamente isto: "Não declarou Heráclito que tudo está em movimento? E que nada permanece parado? Comparando a realidade ao curso de um rio. o fogo. O mobilismo incorre em várias perguntas. referente às mudanças. quer por complexificação. sendo ele a única natureza substancial. e então o fogo se transformaria ao modo hilemorfista. Dar-se-ia a alteração mais fundamentalmente na mesma estrutura do elemento em mudança ao modo do hilemorfismo (por substituição das determinações)? Ou se daria ao modo do atomismo (por disposição das partes.O devir universal das coisas era a principal preocupação de Heráclito. Este é o caminho para cima O Devir Universal . ele disse: duas vezes no mesmo rio não colocarás teu pé" O "tudo flui. e da água o restante da série. “Hipaso de Metaponte e Heráclito de Éfeso também admitem um só (princípio) movente e limitado (finito). senão pelo contexto. Afirmando enfaticamente que tudo flui e nada permanece. com quem já se assemelha por ter substituído o Apeiron indeterminado. e concordaria fosse outro este elemento básico. são tipicamente atomistas. e tudo se resolve no fogo. cuja maior parte resulta da exalação do mar. nesta outra parte. tudo se troca por fogo. sem que elas mesmas individualmente se alterassem. quer por simples condensação e rarefação)? É difícil de decidir qual fora a precisa maneira de pensar de Heráclito. "condensação" e "rarefação". porém. Não insiste Heráclito no mesmo fogo. a partir dele derivariam todas as coisas. que o terceiro e último filósofo de Mileto concebia como simples rarefação e condensação das partículas.expandir-se a terra. por um elemento semelhante pela mobilidade. De outra parte. que volta a produzir a água. induziu que fosse o fogo o elemento principal. e fogo por 79 . Pois diz Heráclito. teria prenunciado o hilemorfismo aristotélico. através de uma geral mobilidade. Ou seguiu a Anaxímenes. Qualquer fosse o componente básico. Ou seguiu inteiramente a Anaximandro. ou tudo está em movimento" contém o sentido hilemórfico da mudança da forma. usadas com referência à Heráclito. Porquanto se apresenta eminentemente móvel.

Há também os que sustentam que a corrupção é alternada. Do mar renasce a terra e o que entre a terra e o céu se encontra. pois isto é próprio dos mortos. que este (o transitório). o sémen da ordenação cósmica. que é o mesmo para todos. aquele que consiste de toda a substância. metade terra e metade turbilhão ígneo. que se alumia por medida e por medida se apaga" Lê-se em Aristóteles: "Todos os físicos admitem que o céu foi gerado. e que este processo é infinito.tudo. corruptível. quando ensina que um cosmo é eterno e outro transitório. Clemente de Alexandria com suas palavras fez a seguinte afirmação: Heráclito de Éfeso. mas no mesmo instante. como qualquer outra natureza composta. o que ele denomina: Mar. "Não é possível descer duas vezes ao mesmo rio. Tal é a doutrina de Empédocles de Agrigento e de Heráclito de Éfeso" 80 . "Heráclito suprimiu o repouso e a estabilidade no todo. aflui e reflui.Este cosmo. Atribui o movimento a todas as coisas: Eterno às eternas. se volve em humor. nem tocar duas vezes uma substância transitória no mesmo estado: por via da impetuosidade e da velocidade da transmutação. outros. que. dizendo: . ora num sentido. sabendo ele. Mas que ele tenha considerado como eterno o cosmo. transitório às transitórias . Mas que Heráclito também ensinava a geração e a corrupção do cosmo. nem mais tarde. e do mar. se congrega e se desagrega. uns o proclamam eterno. A ordem do cosmos e sua transformação em tempo limitado obedece a uma necessidade prefixada". por assim dizer. o que significa que é o fogo. todavia. sempre foi. é e será um fogo eternamente vivo. nem Deus nem homem algum o fez. mediante o qual o Logos ou Deus rege o todo. ou noutro. provam-no estas palavras suas: “Transmutações de fogo: primeiro o mar. no que respeita à organização. ou melhor. nem de novo. Mas de que maneira o cosmo regressa à ordem primordial e como se dá a deflagração. a medida da mesma lei que prevalecia antes que este se transmutasse em terra". isso claramente o exprime assim: (a terra) derrama-se qual mar. se junta e se disjunta" . o qual é. não é diverso daquele (o eterno) que possui certa estrutura. segundo Heráclito. avança e retrocede. estruturado como quer que seja. isto claramente o revela. transmudado em ar.

mostravam outras características a serem examinadas. de um logos inserido naturalmente. Encontramos no velho Platão. Heráclito conduz à frente a interpretação dinâmica do ente. Tais doutrinas sobre as leis da dinâmica das coisas apenas se encontram em embrião nos anteriores filósofos Milésios. Admitiam estes a transformações a partir de causas dinâmicas. Os novos apresentam hipóteses sobre as causas da mudança ou da transformação. Se algumas versões anteriores comentam Heráclito entendendo a lei na forma de destino. absurdos. fatais. ou seja. além disto. suas direcções para cima e para baixo. Qualquer fosse o princípio primordial. Ela marcará a diferença entre os jónicos antigos e os novos. embora asseverando que assim é sempre.A ideia de causa e de lei natural para as transformações é um aspecto novo desenvolvido pela filosofia de Heráclito. As causas do devir. uma referência à doutrina da geração e corrupção alternada: "Certas musas da Jónia e da Sicília (Heráclito e Empédocles) deliberaram que o mais seguro é combinar as duas teses e dizer que o ser é uno e múltiplo. míticos. Orientou desta sorte as especulações filosóficas e cientificas para um campo que lhes é mais peculiar. Heráclito ainda se preocupa com uma certa ordem racional. e que denominava logos (inteligência ou razão). 81 . O pensamento mítico também se ocupa de causas. porém as mais moderadas. ou emprestam a estas palavras um sentido de lei racional. por efeito de poderes gratuitos ou fortuitos. discordando sempre concordam. importava saber como se dinamizava. portanto de uma lei. e muito pouco da dinâmica das mesmas. mantendo sua coesão pelo ódio e a amizade. como por exemplo. é a lei natural a reger as coisas.de guerra e paz. Efectivamente. Não aconteceriam casos. deu oportunidade a equívocos. Para Heráclito o logos é a lei natural racionalmente entendida operando a partir de dentro do mundo.Causa e Lei . como se ele admitisse deuses ou almas à maneira órfica ou ao modo do estoicismo eclético ulterior. todavia só das causas mágicas. Os antigos cuidavam da estrutura. lhe deformam o pensamento. num sentido de diversificação do fogo primordial e num de retorno a ele. . Não se preocupando apenas com o componente estático primordial. como da vontade que se expressa em palavras e cria o mundo em um momento ou em poucos dias. levou sua preocupação para a causa do comportamento dinâmico do mesmo. sem mencionar os autores. todavia o carácter racional da lei. assim dizem as musas mais decididas. não lhes emprestaram. Em outras palavras. de explosão e de apagamento.

como em Anaxímenes. ora o todo é um amigo. Deus.O monismo materialista é essencial à filosofia de Heráclito. quando se comporta como água. O mesmo corpo é vivo. Não há verdadeiramente ser morto. Os textos referentes ao monismo panteísta.também afirmam que alternadamente. O fogo contém a propriedade eminente da racionalidade. 82 . se encontram com relativa profusão. ora múltiplo e inimigo por obra de não sei que discórdia". enquanto facho de fogo. Neste contexto se interpreta a afirmação: "Heráclito diz que o sol é um facho inteligente". também não há esta distinção entre o corpo e alma. cresce e dominou no macrocosmo do corpo humano. pois também ali havia deuses". agora Heráclito simplesmente passa a denominar de outro modo o princípio universal de tudo. a qual denominou logos. ou os deuses. isto é uma substância material com funções espirituais. O movimento inferior não é senão um apaziguamento da vitalidade do fogo universal. A presença do logos se faz sobretudo no espaço etéreo. devem ter pensamento. até que um dia não mais se manifesta. e foi o seu lado mais profundo entre Deus e o mundo. Em Do ar. terra e outros materiais. entre o logos e o fogo. Mas como o logos é espiritual. isto exactamente confere com a vida. procurando-o. sem haver todavia desaparecido. por virtude de Afrodite. Dali como que se dilata para o homem sobre a terra. A vida é rítmica. o fogo. diminui as suas manifestações nos movimentos para baixo e cresce naqueles para cima. A alma plena não é senão o instante alto do logos em acção. combinado com o logos universal e a alma. ao aquecer-se à lareira e vendo que uns forasteiros se detiveram. em virtude da dominância do movimento para baixo. por exemplo a de pensar. Se tudo se move. o monismo materialista de Heráclito é um materialismo espiritual. Os astros. devia também estar ali. a morte é o instante em que o logos já não se manifesta. O monismo Heraclito . Se tudo é um ser e se Deus se confunde com o ser. sobretudo o sol. mandou que entrassem sem receio. somente podem ser concebidos como integrantes deste elemento de base. Mas são inteligíveis apenas se levarmos em conta o contexto geral em que se situa o autor. em tudo existente como propriedade essencial. que nele resida como substância autónoma. Também o logos. Assim também o corpo não contém dualisticamente uma vida. Assim se entende o episódio narrado por Aristóteles: "Heráclito. ou seja. pois.

. que contudo não está separado. a qual em ambos os casos é homogénea" ". mas a dos seres viventes deriva da exalação tanto de fora como de dentro deles mesmos. O pensamento como um emergir da razão divina contida em todos nós. . senão. Heráclito indaga: "Se há deuses. que é da mesma natureza". "Heráclito diz que a alma do Cosmo é a exalação das coisas húmidas que nele há.. o logos. conscientemente. após a morte. A quando em manifestações especiais. dali pode reacender-se. Ainda que a água seja o fogo em instante decrescente. que em outras circunstâncias poderão retomar-se. Não tem sentido para Heráclito o conceito mítico da divindade separada. por Sexto Empírico. diz Heráclito que a alma humana. regressa à alma do Cosmo. Repudiando a religião mítica. mas apenas cessam funções. É como que o contacto com o fogo universal. como se de fora viesse. uma vez que ela é (idêntica à) exalação. Desta sorte. o tornarem-se água. 83 . e morte da água. Verdadeiramente nada morre. na vigília. da qual tudo o mais provém. A respiração e a nutrição reacendem constantemente o fogo da vida. Compõem Heráclito a sua sentença. que a vida cessa de se manifestar. Nada mais diz."Heráclito declara que a alma é o princípio primordial. escrevendo aproximadamente isto: "Morte das almas. num emergir e regredir das manifestações da vida. mas da terra renasce a água. A ressurreição de que fala Heráclito deve ser entendida dentro de seu conceito monista de funções que sobem e descem. nem da doutrina órfica da alma separada. Uma vez separada do corpo. Coerentemente.segundo Heráclito. e que ele está em fluxo perpétuo" . o volver-se em terra. a água pode ser alimento da alma. É como que o contacto como o fogo universal. e assim nos tornamos inteligentes.foi descrito um tanto imaginosamente. não os venerais como deuses". Alma e Suas Funções -Alma é o fogo em fluxo perpétuo. e da água a alma".. retorna ao logos universal. inconscientemente. o logos. Ele acrescenta que este princípio é o que há de mais incorporal. a respiração e a nutrição reacendem constantemente o fogo da vida. sem todavia desaparecer a condição substancial do fogo elementar de algum dia explodir na ekpyrosis. no sono. porque os chorais? Mas se os chorais. ao mesmo tempo que retransmitia suas ideias sobre o antigo autor: Esta razão divina penetra em nós pela respiração.

diz: Este logos. a inteligência que está em nós.Pois enquanto dormimos e cerrados permanecem os poros dos nossos sentidos.eles que experimentaram palavras e obras. aludindo de certo modo ao circundante. porém. afirma-se a mobilidade geral e o ente. outra vez porém advertindo para o engano dos sentidos. pelo motivo oposto. Acto contínuo. assim também. quanto a um só ocorra. reunida pelo maior número de poros (dos nossos sentidos) torna-se semelhante ao todo (do universo penetrado pelo logos). o devir generalizado do ente impediria o conhecimento preciso das coisas. A escola eleática (de Xenófanes e Parménides.eis a faculdade da verdade segundo Heráclito. quão pouco se lembram do que fizeram dormindo. Eis porque logo no princípio do seu livro Da natureza. parecem não ter experiência alguma dele. será. aparta-se do que a rodeia. também para Heráclito. . pelo contrário. mas. ela retoma o contacto com o circundante e readquire as faculdades racionais. ele a considera como faculdade (da verdade). Tal como os carvões que junto ao fogo se transformam e ardem. a parte que do circundante em nosso corpo reside. . olhando através dos poros dos sentidos. incrível será. Na vigília. Os demais homens. como para os mencionados físicos (Parménides e Empédocles) a sensibilidade era suspeita. se extinguem uma vez apartados dele. tão pouco sabem o que fazem despertos. Pois que lhe parecia ser o homem dotado de duas faculdades para o conhecimento da verdade. ao passo que. pelo contrário. Em consequência desta separação perde a capacidade de memória que antes possuía. aprecia o valor gnosiológico de ambas as formas de conhecimento. Senão e Melisso) adverte para a imobilidade e unidade do ente. dele separada. Este logos comum e divino. e pouco depois acrescenta: Distingue Heráclito entre sentidos e inteligência. pelo contrário. A experiência sensível 84 . quer antes de o haverem escutado. ainda que exista sempre. os homens são incapazes de entendê-lo. Pois ainda que tudo aconteça segundo este logos. em Heráclito. por participações do qual nós somos lógicos. . o que provaria o engano dos sentidos ao apresentarem como móvel e múltiplo. distinguindo a natureza de cada uma delas .sensibilidade e razão (ou logos). A razão (logos). tais como eu as exponho. Agora. e só como que por uma espécie de raiz. Acontece em Heráclito aquele vago cepticismo que perpassa toda a filosofia pré-socrática e que alcança principalmente as faculdades sensíveis. Por conseguinte tudo quanto a todos comumente pareça (claro). e. a respiração mantém o liame. enquanto participe do logos divino. quer após o terem ouvido. quase irracional se torna. e explicando-a tal qual é. Por estas palavras expressamente afirma que nós tudo fazemos e pensamos. crível.

para cima e para baixo. como diz Heráclito. umas consideram injustiça. "O cavalo.. para a excitação e para o apaziguamento. ocorrem no mesmo ente. A relatividade do ente. Mas não é impróprio. como diz Heráclito: para Deus todas as coisas são belas. "Aqueles que falam com inteligência. outras justas”. mas para a divindade nada disso é horrendo. Em virtude do movimento em direcções opostas. Pois todas as leis humanas se alimentam em uma só lei divina. o cão e o burro têm prazeres diversos e. sabemo-lo.. mas sempre com uma certa relatividade. "Dizem que é próprio dos deuses o regozijarem-se com o espectáculo das batalhas. ainda com muito mais firmeza. "Heráclito. Batalhas e combates parecem-nos horríveis. o obscuro diz.de tudo é composto o um. de um. por causa da mobilidade do todo. do conhecimento. ainda exigem deles uma recompensa que não merecem. como uma cidade em sua lei. destes. boas e justas. devem apoiar-se no que é comum a todos. de alguns fez deuses. A felicidade não é buscada nas mesmas coisas. Diz Heráclito: os médicos. escravos. os doentes de toda a maneira. mais grato aos burros é o pasto que o ouro" . pois só um e o mesmo efeito conseguiram: bens e males". da moral decorre da doutrina da mobilidade intrínseca do ente. torturando. tudo". de todo o rei. 85 . Aqui está directamente indicada a moral natural. é ingénito e gerado. já que esta domina quanto quer e é suficientemente para todos e ainda tem de sobra" . e dos diferentes nasce a mais bela harmonia". pois todas as acções generosas são próprias para regozijar. os contrários em busca de equilíbrio. e daqueles. queimando. o que é concordante e o que é discordante. de outros fez homens. os homens porém. "Heráclito diz que os contrários conferem. homens livres" . cortando. "Bem e mal são uma e a mesma coisa. que as conexões são completo e incompleto. Com efeito. dizendo ele: Prélio é o pai de todas as coisas. o que produz a consonância e o que produz a dissonância. . criatura e criador.reprova-a dizendo textualmente: más testemunhas os olhos e os ouvidos para os homens com almas de bárbaros. os burros prefeririam a palha ao ouro. Sobre classes sociais: "Que o pai entre todos os seres gerados. Os valores são apreciados diversamente.

e ainda mais forte. sociais e políticos se encontram nos fragmentos de Heráclito e em informações doxográficas. como destituída de inteligência e raciocínio: que senso e intelecto é o deles? Deixam-se guiar por poetas errantes e amestrar pela multidão. porque todas as leis humanas se nutrem de uma só. . o pouco. a filosofia de Heráclito contém o princípio racional. "Lei também é obedecer ao plano do uno".prevê mesmo tais questões. a política. "Saber pensar é a mais alta virtude. que tudo governa. deve tornar-se forte com o (logos) comum a todos. apesar de menos cuidado pelos présocráticos. tudo excedendo". a teologia. mal deixa a entrever um sistema. O estudo dos temas humanos. . não sabem que muitos são os maus. que comanda o todo. Teria negado o princípio de contradição? Ao dizer que o contrários se unem. Por isso o mesmo Aristóteles ressalva a Heráclito de haver negado o princípio de contradição: "Não é possível conceber jamais que a mesma coisa é e não é. do que dez mil. podendo quanto ser. tem um primeiro importante sinal em Heráclito ao declarar: "Eu me busquei a mim mesmo"."Pois justamente também o nobre Heráclito vitupera a turba. não se é obrigado pensar" . não havendo ultrapassado muito além dos dizeres sentenciosos da moral popular religiosa tradicional. divina. como um menino a um homem". "Quem queira falar com inteligência. como certos acreditam que Heráclito o tenha dito: porque o que se diz. que são antes de tudo filósofos da natureza física.o todo. Entretanto. se for melhor".Conceitos éticos. ao ponto de opor o ser e o nada. poucos os bons” . parece não ter pensado no alcance total dos termos. de outra parte. como uma cidade com a lei. É similar à advertência do templo de Delfos "conhece-te a ti mesmo" assumida com efectividade por Sócrates. sem tudo bastando. "O homem infantil ouve a Deus falar. A divisão do seu livro em três partes. Doutrinas Morais de Heraclito . estando influenciada pelo seu geral mobilismo e relativismo. 86 . obedecendo-lhe". "Um vale mais para mim. Entretanto. que se conservou dos ensinamentos morais de Heráclito. e a sabedoria consiste em dizer a verdade e agir em conformidade com a natureza. ao qual tudo o mais obedece.

senão que é novo continuamente". somos e não somos". teve Heráclito oportunidades de abordar e definir temas políticos. "O sol.. . não somente é novo cada dia. como sucedeu em Éfeso. atingindo portanto a ele mesmo. O conceito de sociedade como resultante de um pacto social e a partir de onde se julgaria sua forma de governo. "O sol tem o tamanho de um pé humano". e nem lhe faltava coragem para isto. Fundando-se na diferença entre os homens. homens imortais. O povo que não a atinge. como diz Heráclito. A cosmogonia e astronomia é similar aos dos primeiros jónicos.Governo aristocrático. III ―. O povo se atém ao sensível. Do aceso das refregas resultam alguns dos pensamentos de Heráclito e que chegaram até nós apenas fragmentariamente.. nem mesmo inteligência. Esta afirmação se deve entender no contexto do mobilismo Heraclito. também defensor do absolutismo ilustrado. todavia ajustada ao princípio primordial do fogo e ao seu devir. Principais fragmentos: I "Os homens são deuses mortais e os deuses. inclusive a revisão dos conceitos. e nem passará mais tarde pela de Platão. II "Nos mesmos rios entramos e não entramos. ó efésios. conforme a capacidade do próprio povo. "As transformações do fogo são: em primeiro lugar o mar. expulsa os virtuosos.é coisa que não passa pela cabeça de Heráclito. Heráclito defendeu a aristocracia como forma do poder. e do mar a metade se transformou em terra e a outra metade em torvelinho ígneo. quando uns poucos se elevam ao poder raciocinativo do logos. Com ironia falou: "Que não vos falte a riqueza. "O mais belo universo é somente um montão de desperdícios reunidos ao azar. O movimento se processa através de contrários. para que fique demonstrada vossa má conduta". A circunstância de haver sido alijado do poder o partido dos nobres. proporcionou mais uma vez a discussão e a necessidade de defesa. Ligado à nobreza de Éfeso. Poucos são os que alcançam a virtude." 87 . viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". A terra se torna mar líquido e é medida com o mesmo logos que existia antes de se tornar terra".

um homem vale trinta minas... A filosofia já tem os contornos do que vai ser a sua natureza: é uma reflexão independente. VIII ". volta à prosa mas esta é oracular.. da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia.Bem dizia Heráclito: homens são deuses e deuses são homens. Tudo se faz por contraste.‖. como nós estaremos mudados.. o que torna a filosofia heracliteana de difícil compreensão.Pois justamente também o nobre Heráclito vitupera a turba. porque o logos é um só.‖...‖.. porque os chorais? Mas se os chorais.. Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. IX ".. comparado com Deus parece um macaco em sabedoria. próxima dos apotegmas.... poucos os bons.".. nunca formando propriamente uma comunidade. não sabem que muitos são os maus. Se a crítica a Homero e a Hesíodo não surpreende porque já tinha sido feita por Xenófanes o ataque a filósofos merece uma rápida consideração.. O mais sábio dos homens... VII ―.. não os venerais como deuses. VI ". Ambos os pensadores têm a sua actividade em pleno século V e a sua influência vai ser nítida.‖. beleza e tudo o mais. X ". XI "O mais belo dos macacos é feio se compara com a raça dos homens.....‖ V ―. Para mim.. Heraclito.. tanto rio. pois da segunda vez. Quanto à posição de Heraclito gostaríamos de focar três pontos preliminares: Há um ataque aos grandes poetas e a alguns pensadores (Pitágoras e Xenófanes).. 88 . Mais vale apagar o orgulho que um incêndio. como destituída de inteligência e raciocínio: que senso e intelecto é o deles? Deixamse guiar por poetas errantes e amestrar pela multidão. os seus cultores são solitários em embates com os seus colegas. Conclusão: Com Heraclito e Parménides a filosofia pré-socrática atinge o seu auge... uma multidão não vale nem uma só.IV ―.. autor de um Acerca da Natureza..".Se há deuses.

Segundo penso para Heraclito o Logos é a estrutura das coisas existentes e o que permite explicitá-las. os fragmentos que chegaram até nós tornam a tarefa mais árdua. B32).O interesse e a defesa por uma religião depurada é patente em Heraclito (cfr. B 1. outras duas noções fundamentais no pensamento heracliteano. O Logos não é a palavra do filósofo mas algo que lhe é independente e exterior. sendo ele que constitui a ordem do mundo (cfr. igualmente a sua unidade. ora. ao Logos que. B30). existe. a ênfase posta na unidade liga-se. no fundo. como vimos. Tema caro a Heraclito é a diferença entre o homem e os deuses. frag. frag. Todas as coisas acontecem segundo o Logos: este orienta e dirige tudo quanto existe. fazendo. A Divindade é o uno. O filósofo inscreve-se numa linha do pensamento grego cuja preocupação é a moralidade. B5). é algo de comum. O filósofo reata aqui um tema contido no antigo corpo de saber. por outro todas as coisas formam uma unidade. O Logos é algo de comum. É. Quanto ao Fogo aparece como algo de eterno. Por um lado o Logos é o que é comum a todas as coisas. assim. uma clivagem entre os homens comuns e o filósofo. Para Heraclito há um abismo entre a sabedoria do deus e a do homem: é a concepção do saber humano como algo que pouco vale.B2 e B50). a sabedoria única (cfr. É minha opinião que o Logos se identifica com a Divindade e o Fogo. portanto a dignidade da religião. A filosofia de Heraclito já era difícil de interpretar na Antiguidade quando o seu livro ainda estava completo. Por isso vamos tentar apresentar os traços mais relevantes desta noção em Heraclito: O homem vulgar desconhece o Logos. frag. que se acende e se extingue com medida. O nosso ponto de partida vai ser a noção de Logos (frags. a consciência de que a razão tem limites estreitos e que para além dela se abre a imensidão do desconhecido. ao que nos parece. 89 . É conhecida a dificuldade em traduzir a palavra grega logos.

90 . Divindade e Fogo. o chamado fluir constante não se opõe à concepção de unidade que apresentei anteriormente. sem cessar. Até este momento acentuei a tónica da unidade numa filosofia mais conhecida pela noção de fluir constante. O que quero dizer é que esta luta de contrários. identificar Logos. é inteligente. passe a expressão. B118). e isso deve ser o mais comum. o substrato das coisas não é afectada. Embora Heraclito seja mais conhecido pelo filósofo do Logos ou do fluir constante todas as suas reflexões se fazem no âmbito da cosmologia. podem transformar-se em água. As almas. Ora. pela mudança que se vai operando. ao que me parece. B36. segundo penso. ou seja. O Efésio considera que a alma é fogo. como já dissemos. o que permite. neste pensador o Fogo surge com a função tradicional da physis e a sua identificação com a Divindade não é nova. Por seu lado as almas virtuosas (porque são secas) sobrevivem à morte do corpo (veja-se os frags. Heraclito conjuga a unidade com o movimento: o que é importante é verificar que o essencial é a unidade. O que há de inovador nesta perspectiva? A substância primordial dos Milésios torna-se mais complexa em Heraclito. Ao que me parece é a origem e a estrutura do Universo assim como a forma de que se reveste que constitui a base da sua filosofia (embora no campo estritamente cosmológico Heraclito não seja muito original). mostrando que ela possui várias facetas o que a torna mais complexa. o que constitui a sua morte.Como podemos ver este Fogo tem uma norma interna. A novidade constitui no facto de Heraclito analisar mais profundamente esta noção. Por fim façamos uma referência ao tema da alma. devendo estar ligada ao Fogo universal. a qual não é posta em causa. B25. este fluir. é superficial. Heraclito ficou célebre pela luta dos contrários.

91 . Heraclito ao defender que nem todas as almas são imortais mostra claramente as divergências e a ambiguidade deste tema desde os poemas homéricos.O facto de Heraclito se ter debruçado sobre a questão da alma mostra-nos o seguinte: É um tema importante a partir de Pitágoras. A exposição que fizemos teve de deixar de lado alguns aspectos da filosofia de Heraclito em que ele mostra toda a sua pujança e que nos ajuda a compreender a influência que vai ter ao longo da Filosofia Grega.

460 a. . O mundo sensível é uma ilusão. a doutrina de Parménides sustenta o seguinte: Unidade e a imobilidade do Ser. dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa). Ao mesmo tempo. Não-Gerado e Imutável. já que uma tradição distinta afirma ter sido o filósofo pitagórico Amínias (ou Ameinias) quem despertou a vocação filosófica de Parménides. Foi o fundador da escola eleática.Parmenides de Eleia Parménides de (cerca de 530 a.C. o pensamento de Parménides é tradicionalmente visto como o oposto ao de Heráclito de Éfeso mas verifica-se que essa oposição é relativa aos pitagóricos e não a Heraclito de Éfeso . Itália.) nasceu em Eléia. ou seja. Devido a essas características. para alguns estudiosos: Parménides fundou a 92 . Eterno. O Pensamento de Parménides Seu pensamento está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a Natureza. alguns vêem no poema de Parménides o próprio surgimento da ontologia.C. De modo simplificado. daquilo onde não há nenhuma certeza. hoje Vélia. Há uma tradição que afirma ter sido Parménides o discípulo de Xenófanes de Cólofon mas não há certeza sobre o facto. O Ser é Uno. Os outros representantes da escola eleática são Zenão de Eleia e Melisso de Samos.

Tomava outros opostos: leve-pesado. activo-passivo. quente. estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio. forçosamente admite que só uma coisa é. frio.. o outro ao não-ser.metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não. A esfera negativa era apenas uma negação da esfera positiva. admitindo ao mesmo tempo a unidade formal e a pluralidade sensível. O passivo uma negação ao activo. fogo-terra. é um caminho totalmente impensável. vida-morte. isto é. Por exemplo. nem declará-lo. e para ele essa segunda qualidade nada mais era do que a negação da primeira. Parménides desenvolvia um pensamento completamente antagônico: “Toda a mutação é ilusória”. que não é e é forçoso que não seja. Parménides vai então afirmar toda a unidade e imobilidade do Ser. Pois não poderás conhecer o que não é. Ao invés das expressões ―positiva‖ e ―negativa‖. Aristóteles expõe esse pensamento de Parménides: “Julgando que fora do ser o não-ser é nada. a esfera negativa não continha as propriedades que existiam na esfera positiva.Ser. esforçava-se em encontrar essa oposição fundamental em toda a Natureza. masculino-feminino. o ser. passivo. vale dizer. o caminho que é e não pode não ser.. Parménides comparava as qualidades umas com as outras e as ordenava em duas classes distintas. Por fim. terra. ele dizia: ―Vamos e dir-te-ei – e tu escutas e levas as minhas palavras. cada um apenas como negação do outro. O não-ser era apenas uma negação do ser. Os únicos caminhos da investigação em que se pode pensar: um. Diferenciava qualidades positivas e negativas e.” 93 . comparou a luz e a escuridão. é a via da Persuasão. a saber. Parménides usa os termos metafísicos de ―ser‖ e ―não-ser‖. Fogo e Terra. quentefrio. feminino. a qualidade negativa. e nenhuma outra. o feminino uma negação do masculino e. constrangido a seguir o real. masculino. O pesado era apenas uma negação do leve. Enquanto Heráclito ensinava que tudo está em perpétua mutação. Fixando sua investigação na pergunta: ―o que é‖. O frio era uma negação do quente. o que corresponde à luz era a qualidade positiva e o que corresponde à escuridão. morte). podemos achar um mesmo todo para os dois e esta oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor. esse digo-te. vida) e aquela das qualidade negativas (escuridão. Mas. e aplicava a mesma comparação do modelo luz-escuridão.” Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e Parménides. fogo. Destes (dois princípios) ele ordena um (o quente) ao ser. o outro. Assim. ele tenta vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações. activo. pois acompanha a Verdade. No seu livro: Metafísica. nosso mundo dividia-se em duas esferas: aquela das qualidades positivas (luz. Mas ser e não-ser são imutáveis e imóveis.

para mostrar que a sua filosofia podia ser expressa por uma divindade. situada nesse vasto espaço que é a Grande Grécia. A interpretação deste facto é difícil e controvertida. A dificuldade de uma tradução. Aproveito esta Nota para chamar a atenção do leitor para a diversidade de traduções do texto de Parménides. outros em verso.Parménides de Eleia Nota Introdutória Na exposição do pensamento de Parménides de Eleia seguimos a tradução de M. via da verdade e via da opinião. É um sentimento de grande religiosidade que anima uma parte dos pré-socráticos. Rocha Pereira (Hélade). Façamos algumas considerações sobre a forma como se exprime Parménides: A forma pela qual os pré-socráticos se exprimem é diferenciada: uns escrevem em prosa. O poema pode ser dividido em três partes: prelúdio. pode levar-nos a interpretações diversificadas da doutrina do Eleata. Com Parménides voltamos de novo ao quadrante ocidental da Hélade. Parménides coloca as suas palavras na boca de uma deusa. 94 . Penso que o filósofo quis dar o máximo de dignidade à sua doutrina: assim. Na sua juventude foi discípulo de um pitagórico e perto da sua maturidade escreveu um poema que contém a sua doutrina filosófica. H. O filósofo é natural da Eleia. relativamente consensual. Tal significa que as passagens traduzidas do Poema de Parménides se devem à Autora citada. surge o discurso proferido pela deusa. O facto de Parménides escrever em verso mostra o prestígio de que gozava a poesia.

agora.Vejamos. como tentaremos mostrar. O final da viagem é a mansão da Divindade que em determinada altura lhe diz o seguinte: ". Os vv.Força é pois que saibas tudo: O ânimo inabalável da rotunda Verdade e a opinião dos mortais. em que não há confiança verdadeira No entanto aprenderás isso também. B1 constituem. Teremos de ver mais tarde porque é que Parménides não se pode contentar só com o conhecimento da verdade. 95 . Na passagem transcrita podemos ver que o filósofo deve possuir não só o conhecimento da verdade mas também a opinião dos mortais. vv. O prelúdio mostra claramente a ligação com o mais antigo corpo de saber. frag. tudo passando através de todas as coisas. 28-32 do frag.. a viagem espiritual de Parménides que tendo como guias as filhas do Sol passa por uma encruzilhada onde se encontram os portões do caminho da Noite e do Dia (frag. alguns aspectos do Poema de Parménides. O prelúdio tem um interesse que não é meramente formal. como as aparências deviam ser de um modo aceitável.. na nossa opinião uma das chaves para a interpretação global do Poema. 1 v. 28-32) Tentemos aclarar alguns pontos: A viagem descrita no prelúdio faz-nos lembrar as deambulações da alma de um xamane. 11). Ele apresenta uma viagem." (frag. Ainda no prelúdio são indicadas as duas vias que vão ser objecto dos dois discursos da Deusa. B2). B 1. Uma via afirma a existência de o que é e a não existência de o que não é (cfr.

surdos e cegos.. 4-9). fazer duas observações: Os termos o que é e o que não é podem ser traduzidos. B6 coloca um problema de interpretação. no qual vagueiam os mortais que nada sabem. B6." (frag.daquele também. Segundo penso não há uma terceira via mas sim uma variante da via da opinião. relativamente solitário.Podemos. Parménides. É mais provável que seja uma escola ou circulo o alvo de Parménides. multidão sem discernimento que julgam que ser e não ser ora valem o mesmo. Todavia as expressões homens de duas faces. O frag. O poema de Parménides marca a ruptura com a escola pitagórica à qual tinha pertencido. São estas duas traduções que vamos utilizar. pela boca da Deusa... Segundo pensamos o Eleata desejaria mostrar a distância que agora o separa da sua antiga escola. multidão não parecem dirigir-se a um filósofo. Tem-se pretendido ver nestes versos um terceiro caminho sendo Heraclito o alvo do filósofo de Eleia. como Heraclito. irá afirmar que a primeira via é a verdadeira e a segunda deverá ser afastada porque o não-ser não pode ser conhecido nem declarado. Depois de ter falado dos dois caminhos Parménides pretende afastar o seu leitor ". ora não valem. A expressão homens de duas faces pode aplicar-se aos pitagóricos defensores do par Limite -Ilimitado. A via da verdade ocupa o frag. surdos e cegos a um tempo. Uma última consideração sobre os versos transcritos. Pois a incapacidade lhes dirige no peito a mente errante. homens de duas faces. largamente controvertido. E eles são levados. B4 ao v. B8. por ser e não-ser. respectivamente. ainda hoje. vv. A 96 .49 do frag.. estupefactos. desde já.

Em primeiro lugar o ser é incriado e imperecível porque "é completo. Não nos é possível dar uma ideia da argumentação cerrada de Parménides nem do seu espírito que me parece dogmático. concebeu-o. v. como finito. Parménides ao considerar o ser como completo. B8. o chamado mundo sensível não têm sentido e não tem realidade.digressão de Parménides teria como objectivo por em relevo aqueles que seriam os seus grandes adversários. ele é completo segundo Parménides. B8. Porém. Este aspecto vai contra a descontinuidade defendida pelos pitagóricos. O ser é também homogéneo. B8. v. Sob o ponto de vista etimológico infinito. Desta forma os termos geração e destruição não têm qualquer sentido (frag. Ora. por seu lado a finitude está em oposição à infinitude defendida pelos milésios. portanto.32). Vejamos. B8 (vv. E como nada falta ao ser. O não-ser não tem razão para existir. seria contraditório que dele nascesse o ser. isto é. 22-28).1-49) vai indicar as características do ser. é contraditório porque admite que o ser vem do não-ser seria considerar que o não-ser possuía o ser. uma das passagens mais controvertidas do Poema: 97 . tem de ser finito (frag. inabalável e sem fim" (frag. Da mesma forma o ser não pode perecer porque então o não-ser viria à existência o que é um absurdo porque tinha de se admitir que o ser possuía o não-ser. algumas considerações são indispensáveis: a argumentação de Parménides a favor da existência do ser e da não existência do não-ser é brilhante. agora. convirá levar em linha de conta a continuidade do ser. em grego. contínuo e imóvel (frag. Veremos mais tarde as consequências desta oposição. ao considerar erróneos os termos geração e destruição Parménides vai considerar o movimento como ilusório. vv. 21). B8. v. isto é. O frag. como perfeito.4). significava também imperfeição porque era algo de não acabado. Se o não-ser existisse no princípio.

O discurso sobre a opinião vai desde o frag. B8. parte esta que nos chegou muito fragmentada.]" (frag. B8. 50-52) Esta passagem vai auxiliar-nos a compreender o sentido geral do Poema de Parménides. Mas segundo penso não é a melhor interpretação. v. a partir de agora. Sobre a humana opinião aprende. 8. O que vamos encontrar no caminho da opinião é uma cosmologia de tipo tradicional. O pensar tem um determinado objecto que é o ser. Os dois princípios (as substâncias primordiais) que vão 98 . se o real é o ser e se não existe mais nada para além dele só poderá chamar-se pensamento o acto que incide sobre o ser. escutando a ordem ilusória das minhas palavras. Neste momento o que nos vai interessar é a ordem ilusória que a deusa seguirá na última parte do Poema. vv. rigorosamente não há o pensar. É com estas palavras que se vai iniciar o discurso da deusa sobre o caminho da opinião: "Com isto cesso o meu discurso digno de fé e o meu pensar] acerca da verdade. O que está aqui em causa é a natureza do pensar."O que pode ser pensado e o pensar são o mesmo" (frag.50 ao frag.34) Frequentes vezes esta passagem tem sido interpretada como a identificação do ser com o pensar. Ou seja. em nossa opinião. Possivelmente Parménides considerava que o pensar não é algo que se defina com facilidade. B19. v. quando não há a incidência sobre o ser. Em contrapartida.

problema este de grande relevo a partir da segunda metade do mesmo século. isto é. Vamos transcrever. B19). se assim é qual a função do discurso da opinião? 99 . B15a). O grande problema reside na articulação entre o caminho da verdade e o da opinião. Segundo nos parece para Parménides os dois caminhos são incompatíveis: os frags. segundo a aparência. distinguem-se pelas diferentes denominações. A natureza da linguagem é permitir a compreensão das coisas por nomes distintos. vv. as coisas se criaram e ora existem. um frag. V o problema da linguagem já se punha. B1. 55-59). 50-52. Mas. B8. Para Parménides. O frag. para uma breve análise. segundo a via da opinião. apontam nessa direcção. B19 mostra como nos inícios do séc. que a Terra está presa através de raízes aquáticas (frag. As coisas têm um nascimento e uma morte (frag. que já citámos. vv. Embora esta passagem pertença ao caminho da opinião ela é extremamente importante pois tem por objectivo a natureza da linguagem.dar origem às coisas são a luz e a escuridão (cfr. vv.] e depois disto crescerão e chegarão ao seu termo. igualmente. os nomes correspondem às coisas. frag. A compreensão global da filosofia parmenidiana é difícil e estamos muito longe de um consenso. A cada uma delas os homens puseram um nome distintivo" (frag. B19) e sabemos. 28-32 e B8. da última parte do Poema: "Assim.

por vezes.Penso que a última parte do Poema é um exercício. É inovador em relação aos seus antecessores e levanta uma série de problemas relevantes: a questão do ser. Assim. Como veremos. realizado por Parménides. a ilusão do movimento. um jogo. A posição de Parménides é importante na História da Filosofia. a desvalorização do mundo sensível. que podem passar por verdadeiros. O filósofo quereria mostrar que a opinião pode dar azo a discursos enganosos. ou defendendo-o ou atacando-o os filósofos posteriores não o poderão ignorar. a opinião é difícil de refutar porque dá a sensação de verdadeira. 100 .

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