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Ferreira, J. A.

OPINIÃO / OPINION

Resíduos Sólidos e Lixo Hospitalar: Uma Discussão Ética


Solid Waste and Nosocomial Waste: An Ethical Discussion

João Alberto Ferreira1

FERREIRA, J. A. Solid Waste and Nosocomial Waste: An Ethical Discussion. Cad. Saúde Públ.,
Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, Apr/Jun, 1995.
This paper deals with issues pertaining to solid waste. It discusses problems resulting from both
the life style of modern civilization and relationships between the First and Third Worlds, as well
as prospects for the environment if a new ethic of solidarity among human beings and respect for
life is not established Beginning with this overview, the article deals with specific issues of
hospital waste and the interference and impositions of First-World “culture” in the systems for
handling, processing, and disposing of hospital waste in Brazil. The article concludes by
analyzing whether or not such nosocomial waste should be considered hazardous.
Key words: Environment; Solid Waste; Hospital Waste

INTRODUÇÃO “Donde a centralidade nos dias que correm


da questão ética”; uma vez “que o maior ou
A nossa civilização chega ao limiar do sé- menor equilíbrio das forças materiais das
culo XXI como a civilização dos resíduos, mar- quais emergimos como espécie, depende
cada pelo desperdício e pelas contradições de diretamente do nosso agir e, por
um desenvolvimento industrial e tecnológico conseguinte, das nossas escolhas e decisões”
sem precedentes na história da humanidade, (Barbosa, 1992: 03).
enquanto populações inteiras são mantidas à
margem, não só dos benefícios de tal dese-
Embora existam evidências de uma tomada de
nvolvimento, mas das condições mínimas de
consciência dos problemas ambientais, os mo-
subsistência.
vimentos mundiais de proteção da natureza e do
Ao mesmo tempo em que utilizamos os re-
meio ambiente têm uma atuação descoordenada
cursos da biosfera como se fossem inexaurí-
e confusa e sofrem a interferência do sistema
veis, todos os dias lançamos à natureza o de-
safio de ter que assimilar novos produtos arti- político-econômico-capitalista dominante, cuja
ficiais, desconhecidos dos agentes naturais, hegemonia extrapola os limites do mundo oci-
incapazes, portanto, de promover o controle dental e começa a alcançar o mundo todo.
de seus usos e riscos, ultrapassando os limi- Esta “consciência parcial das questões do meio
tes da capacidade dos ciclos naturais e dos ambiente tem-se dado apenas dentro de uma pers-
fluxos de energia. pectiva tecnocrática e, na realidade, o esclareci-
A unificação dos habitantes da Terra pela mento de tais questões depende de uma articula-
globalização dos efeitos no meio ambiente e a ção ético-política entre três registros ecológicos
constatação tecnocientífica da possibilidade – o meio ambiente, as relações sociais e a subjeti-
de responsabilizar-se pelo fim da humanidade, vidade humana” (Guattari, 1989). Ou seja, um de-
colocam o homem moderno frente à questão vir com uma nova ordem social em que o homem
central da vida. se integre ao meio ambiente e as relações sociais
se estabeleçam numa perspectiva de maior equilí-
brio (a questão ética) e a subjetividade humana
1
seja estruturada para formas de atuações mais
Companhia Municipal de Limpeza Urbana. Rua
Major Ávila, 358, Rio de Janeiro, RJ, 205111-140, criativas. “A questão ecológica é essencialmen-
Brasil. te um problema ético” (Schramm, 1992).

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Resíduos Sólidos

Não é possível discutir-se a crise ética sem Tecnologias de uso intensivo de mão-de-
considerar a dualidade perversa do mundo atu- obra, aumento da produção de alimentos, água
al, dividido em países de Primeiro Mundo e Paí- potável, esgotamento sanitário, educação,
ses de Terceiro Mundo. É nos países pobres do atendimento primário da saúde extensivo a
Terceiro Mundo que, como diz Carneiro Leão toda a população, são parâmetros que devem
(1992), está materializada a “principal diferença referenciar o modelo de desenvolvimento do
frente ao mundo desenvolvido”, a “miséria radi- Terceiro Mundo.
cal, uma miséria que está fora de toda e qualquer Schramm (1992: 238), aponta “indícios pre-
possibilidade de escolha”. ocupantes sobre a questão ética nos modos de
agir do Norte (países centrais) e a ampliação
do fosso entre riqueza e pobreza de seres e
“Estamos numa crise ética porque a nossa
nações”. Os recentes movimentos sociais na
História se encontra dentro de um processo
América Latina sinalizam a urgência de uma
de reformulação de seus princípios de base
nova ética. “Talvez o traço mais marcante da
(...) mas, para nós, essa crise da ética se
civilização moderna tenha sido a idéia de que
insere dentro do contexto das provocações,
o ser humano é tão mais humano quanto mais
dos desafios, das necessidades do chamado
ele domina a natureza e os outros homens”
país subdesenvolvido, país do Terceiro
(Unger, 1991: 48).
Mundo ou América Latina”
Nos rastros desta forma de existir, estão os
(Carneiro Leão, 1992: 217)
volumes cada vez maiores e mais visíveis dos
seus restos, resíduos que denunciam uma
As modificações comportamentais e a nova civilização que se percebe como centro onto-
ordem social à luz de uma ética de preservação da lógico do universo e que, por isso mesmo, jul-
humanidade, dependem, sobretudo, da mudança ga poder manipular o planeta como se dele não
no consumo dos países desenvolvidos. Por ou- fizesse parte.
tro lado, dependem também da compreensão cor-
reta das questões do ambiente e da vida pelos OS RESÍDUOS SÓLIDOS
países pobres, que passariam a agir no sentido de
um desenvolvimento dentro das limitações e das Estima-se que nos Estados Unidos sejam
necessidades da sua própria realidade. produzidos cerca de 800 mil t/dia (1992) dos cha-
Há que desenvolver formas de se contrapor mados resíduos domiciliares. No Brasil, a pro-
às ações dos países desenvolvidos que atuam dução de resíduos domiciliares é da ordem de
na direção da exportação, para os países periféri- 100 mil t/dia (1992). Os municípios do Rio de
cos, de um padrão de vida inacessível para a Janeiro e São Paulo geram cerca de 6.000 t/dia e
maioria absoluta da população, que transferem 11.500 t/dia (1992) respectivamente. A produ-
resíduos perigosos maquiados em matéria-prima ção mundial é estimada entre um e dois bilhões
e industrias de tecnologia suja que, além de au- de toneladas de resíduos por ano.
mentar a rentabilidade dos investimentos, man- No Brasil, não se dispõem de dados precisos
têm ativa, no Primeiro Mundo, uma indústria de sobre a produção e qualidade da maior parte dos
processos, produtos e equipamentos de contro- resíduos sólidos. O que se sabe, pela constatação
le de poluição, que de outro modo já estariam da presença de resíduos de forma indiscriminada
obsoletos. “A ecologia sem desenvolvimento no ambiente, além daqueles dispostos em siste-
repartido, é a face do pensamento inigualitá- mas sob controle, é que as quantidades são eleva-
rio que organiza um novo modo de exploração das e os problemas decorrentes, bastante graves.
do mundo pobre” (Paraire, 1992: 11). A reflexão sobre resíduos, conduz à per-
“Há que se pensar um modo de realização cepção da existência de tecnologia e políticas
da comunidade humana do Terceiro Mundo originárias dos países desenvolvidos.
diferente do modelo desenvolvimentista esta- Nos últimos anos, assistimos à implementa-
belecido de acordo com os parâmetros, os pa- ção dos recipientes descartáveis – latas, vidros,
radigmas das nações industrializadas” (Car- e embalagens plásticas – na América Latina, que
neiro Leão, 1992) aumentam o consumo de energia, inundam o

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Ferreira, J. A.

ambiente com material não-passível de decom- O volume de recursos necessários ao geren-


posição biológica e convergem com a estratégia ciamento dos resíduos sólidos é de grande pro-
da propaganda, na formação de uma cultura con- porção. Apesar disso, o que se vê é o plane-
sumista. Esta implementação oculta uma estra- jamento de soluções técnicas de custos eleva-
tégia de mais de dez anos das principais indús- dos e uma omissão de informações fundamen-
trias de embalagens no país (e na América Lati- tais, que levam a distorções e inadequações
na) e dos seus principais clientes, que vêm sub- gritantes. Cidades que adquirem veículos
sidiando programas “ambientalistas” de recicla- compactadores cuja manutenção é inacessível e
gem daquelas embalagens. onde as ruas não permitem o tráfego dos mes-
As embalagens descartáveis só foram possí- mos; implantação de usinas de reciclagem e
veis (e seu crescimento depende disso), a partir compostagem que se revelam onerosas
da reciclagem de uma parcela significativa das operacionalmente e que não resolvem o proble-
mesmas, pela não-disponibilidade de matéria- ma da destinação final dos resíduos, terminando
prima (e/ou viabilidade econômica) após ser atin- por serem fechadas.
gido um certo estágio de produção – principal- O programa de despoluição da Baía de Gua-
mente sílica e alumínio. Ou seja a ação dos ambi- nabara, no Rio de Janeiro, confirma esta tendên-
entalistas alimenta a “helicóide” da produção das cia ao priorizar, como destino final dos resíduos
embalagens descartáveis, e do consumo. As pro- sólidos nos municípios envolvidos, usinas de
jeções falam em triplicar as 60 milhões de latas reciclagem e compostagem e incineradores para
fabricadas por mês (1993) no Brasil, até 1995. resíduos hospitalares.
A produção de 15 latas de cerveja consome, A relação de custos para sistemas de desti-
aproximadamente, o equivalente em energia a nação final de resíduos é, de forma geral, bas-
um litro de gasolina. “A quantidade de energia tante favorável a aterros sanitários que, se pro-
elétrica consumida a cada ano nos Estados jetados e operados corretamente, não interferem
Unidos para a fabricação destes recipientes de com o meio ambiente e seguramente são mais
bebida, mesmo contando-se aquelas latas reci- adequados às condições do Terceiro Mundo.
cladas, seria suficiente para suprir as necessi- A questão da destinação final dos resíduos
dades elétricas de uma cidade como Curitiba” traz consigo a polêmica sobre a classificação de
(D’Avignon, 1993: 26). resíduos e a determinação do potencial de risco
O uso intensivo de energia para a produção que possam apresentar para o meio ambiente.
de alumínio repercute na sociedade como um A classificação de resíduos é uma atividade
todo, que deve (deveria) então, a nosso ver, ser complexa e, em muitos casos, ainda indefinida
destinado a fins mais nobres, do que à produção mesmo nos países desenvolvidos. Quanto mais
de latas de bebidas. perigoso é considerado o resíduo, maiores os
A promoção da principal produtora de latas cuidados necessários e, como conseqüência,
no país, premiando os esforços dos alunos de maiores os custos envolvidos.
escolas primárias na obtenção de quantidades As instituições de controle e proteção do
de “matéria-prima” para reciclagem é um exem- meio ambiente, adotam, em geral, o critério de
plo dessa estratégia. Que falem os educadores: considerar o resíduo como perigoso em caso
o programa trabalha a subjetividade da criança de dúvida. Nada contra esse princípio, face às
em direção a uma atitude ambientalista ou refor- dificuldades de classificação de resíduos. Con-
ça a vocação consumista? tudo, o enquadramento equivocado de um re-
síduo na categoria perigoso, pode trazer como
“Enquanto as sociedades industrializadas conseqüência custos elevados para o seu
dispensam paulatinamente todo e qualquer gerenciamento, com a utilização de recursos
ordenamento cultural que não esteja a que, numa sociedade onde os mesmos são es-
serviço da voracidade de seu crescimento, de cassos e as prioridades muitas, poderiam ser
seu desenvolvimento e de seu progresso, aos melhor aproveitados.
poucos vão sendo aniquiladas as fisionomias Não se pode, em qualquer circunstância, es-
originais da convivência humana” (Carneiro quecer os 30 milhões de brasileiros, miseráveis
Leão, 1992: 224) radicais, no agir técnico, político e social.

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Resíduos Sólidos

LIXO HOSPITALAR • “Normas da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas: NBR-10004; NBR-12807;
Vamos fazer um recorte no universo dos resí- NBR-12808; NBR-12809; NBR-12810”.
duos, para abonos a questão dos resíduos hos- • “Legislação de vários municípios, esta-
pitalares. São os resíduos produzidos em unida- belecendo a incineração dos resíduos
des de saúde, constituídos de lixo comum (pa- hospitalares: Rio de Janeiro, São Paulo,
pel, restos de jardim, restos de comida de refei- Belo Horizonte, Porto Alegre, entre ou-
tórios e cozinhas etc), resíduos infectantes ou tros” (1989).
de risco biológico (sangue, gaze, curativos, agu- • “Portaria no 063 de 1979 do Ministério do
lhas etc) e resíduos especiais (químicos, farma- Interior, tratando da obrigatoriedade da
cêuticos e radioativos). incineração dos resíduos hospitalares
Há, no Brasil, mais de 30 mil unidades de saú- (em 1991 o Conama desobrigou a incine-
de, produzindo resíduos e, na maioria das cida- ração do lixo hospitalar)”.
des, a questão da destinação final dos resíduos
urbanos não está resolvida. Predominam os va- A inadequação de tal enfoque, verifica-se na
zadouros a céu aberto. prática, com a quase total ausência de incinera-
Da mesma forma que para os resíduos sóli- dores para lixo hospitalar instalados e/ou em ope-
dos em geral, as propostas de gerenciamento ração no Brasil, e no pequeno número de unida-
para os resíduos hospitalares tem-se funda- des de saúde que manuseiam seus resíduos den-
mentado em padrões do Primeiro Mundo. tro de padrões considerados satisfatórios.
A questão central que se coloca é sobre a Avaliação feita em sete hospitais de Campo
periculosidade ou não dos resíduos hospitala- Grande – Mato Grosso do Sul, concluiu: “os sis-
res. Embora esta seja uma questão não-resolvida, temas de manipulação dos resíduos hospita-
os países desenvolvidos adotam uma política lares continuam negligenciados e tão precári-
cautelosa e consideram tais resíduos como resí- os como há décadas atrás” (Moraes, 1988: 39).
duos que exigem tratamento especial (perigosos, Parte dos resíduos eram incinerados a céu
patogênicos, patológicos, entre outras denomi- aberto e o restante era disposto no aterro de lixo
nações). A recomendação de incineração dos do município.
resíduos, ou de parte deles, é uma constante. Em Florianópolis “a maioria absoluta dos
Uma pesquisa realizada em 1986 nos Estados hospitais não tem normas adequadas de manu-
Unidos revelou que, embora em apenas cinco seio interno dos resíduos hospitalares. Como
estados os medical wastes fossem considerados regra geral as unidades hospitalares desconhe-
perigosos, do ponto de vista legal, em todos os cem o volume e a qualidade dos resíduos que
estados a autoclavagem ou a incineração eram produzem e o destino dado aos mesmos” (Pi-
recomendadas ou obrigatórias. nheiro, 1993: 36).
No Brasil os resíduos hospitalares estão ain- Recentemente, os jornais noticiaram sobre
da pouco estudados. catadores, comendo carne humana de resíduos
Dois documentos: “Management of Waste hospitalares dispostos inadequadamente em
from Hospitals – WHO” (1983) e “EPA Guide for vazadouro a céu aberto, em Pernambuco.
Infections Waste Management(1986), serviram A escassez de recursos para o setor de saúde
de referência básica para a maior parte dos tra- e a dificuldade dos hospitais em implementar sis-
balhos elaborados no Brasil, com vistas ao ge- temas de manuseio dos resíduos, exigem das
renciamento dos resíduos hospitalares. Esta in- comunidades técnocientífica e política (?), repen-
fluência é nítida nos documentos que se seguem, sar a questão.
Em alguns municípios, dos quais São Paulo e
onde os resíduos hospitalares ou parte deles são
Rio de Janeiro são dois exemplos maiores, a ado-
considerados perigosos.
ção de usinas de reciclagem e compostagem para
• “Subsídios para Organização de Siste- tratamento e destino do lixo urbano e a dúvida
mas de Resíduos em Serviços de Saú- sobre a periculosidade dos resíduos hospitala-
de – Centro de Vigilância Sanitária – res, levaram à implementação de sistemas dife-
Suds – SP” (1989). renciados específicos para sua coleta, com ele-

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Ferreira, J. A.

vação dos custos operacionais, e a utilização de uma exceção), considerados diferentes do


outro destino para os mesmos (até o presente, lixo domiciliar, antes e depois da disposição,
em aterros). Já se discute, ainda que em âmbito têm pouca base científica”
limitado, a instalação de incineradores centrais (Collins & Kenedy, 1992: 05)
para resíduos hospitalares.
Usinas de incineração têm custos estratos-
Na conclusão de um artigo sobre tratamento
féricos para os orçamentos públicos terceiromu-
de resíduos hospitalares Plassais (1993) indaga:
ndistas. Apesar disso, Porto Alegre, Curitiba,
“mas este tipo de resíduo gera algum risco epi-
Americana, Guarulhos, entre outras, estudam
demiológico para a população”?
(1992) a incineração dos resíduos hospitalares.
No Relatório Preliminar sobre Gerenciamento
E o meio ambiente? Não pretendemos reduzir
de Resíduos Hospitalares nos Estados Unidos,
sua importância, pelo contrário, consideramos
enviado ao Congresso em 1990, a EPA “reco-
que a oportunidade que temos nos países sub-
nhecia que, a maioria dos especialistas na área,
desenvolvidos, de não perder a corrida contra o
eram de opinião de que os mesmos não apre-
meio ambiente (o homem como integrante do
sentam riscos à população, mesmo quando são
mesmo), reside em não reproduzirmos os mode-
mal gerenciados ou impropriamente dispostos”
los vigentes nos países desenvolvidos.
(Dugan, 1992: 349).
Na parte final deste trabalho vamos alimentar
a polêmica sobre a periculosidade ou não dos
“Entre os trabalhadores que atuam na
resíduos hospitalares.
limpeza e remoção dos resíduos hospitalares,
a preocupação com AIDS e Hepatite B
A PERICULOSIDADE
transmitidas pelos resíduos aumentou
consideravelmente, embora não exista
Os resíduos hospitalares, comparados aos
comprovação epidemiológica de tal
domiciliares, são mais, menos ou igualmente pe-
transmissão” (Turnberg & Frost, 1990: 1262)
rigosos?
A literatura sobre o assunto tende a minimi-
“A percepção pública dos riscos associados
zar a periculosidade, mais especificamente, a
aos resíduos hospitalares, gerou a
condição infecciosa dos resíduos hospitalares.
promulgação de legislação baseada mais em
Nos Estados Unidos, até 1986 a EPA “afir-
histeria e motivação política que em fatos
mava que não existia definição universalmente
científicos” (Keene, 1991: 682)
aceita para resíduos infecciosos”.
Além disso a EPA “ainda não estabeleceu
A legislação de vários países, de certo modo,
regulamentação para gerenciamento de resí-
confirma essa abordagem.
duos infecciosos, que teria efeito de lei, nem
O “Guide Sur L’elimination des Déchets Hospi-
trouxe a público qualquer evidência de que
taliers” do Ministério da Solidariedade, da Saúde e
haveria de fato uma relação entre o gerencia-
da Proteção Social da França, classifica os resídu-
mento ou o mau gerenciamento de resíduos
os de cirurgias, de laboratórios de anatomopatolo-
hospitalares infecciosos e doenças infecciosas
gia, de bacteriologia, de virologia, de bioquímica e
produzidas na população que tenha estado em
de unidades de isolamento, como resíduos de ris-
contato com tais resíduos” (Dugan, 1992: 348).
co. Como método de disposição de tais resíduos, o
A preocupação da população com os resíduos
Guide autoriza apenas a incineração.
hospitalares tem aumentado principalmente após
No Japão, a segregação dos resíduos infec-
o advento da AIDS. “Entretanto, existem ainda
ciosos é estabelecida na legislação, bem como a
dúvidas na compreensão dos modos de trans-
esterilização em incineradores (ou em autocla-
missão dos agentes associados a doenças ori-
ves) antes de serem dispostos no solo.
ginárias do sangue” (Li & Jenq, 1993: 145).
O Manual de Planejamento para resíduos dos
serviços de saúde elaborado pela “Federation
“A maioria, se não todos os receios do of Swedish County Councils” (1993), considera
público sobre os riscos de infecção por que o risco de infecção é pequeno se os resídu-
resíduos de serviços de saúde (agulhas são os são manuseados corretamente.

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Resíduos Sólidos

Estabelece ainda que os resíduos infeccio- Nos Estados Unidos, aproximadamente 196
sos devem ser segregados na fonte e aponta da fração seca dos resíduos municipais são de
como o mais apropriado método de processar fraldas descartáveis, que geram uma concen-
resíduos infecciosos, a incineração. tração de fezes nos resíduos de cerca de 0,5 Kg
A Norma Brasileira NBR-12809 sobre Manu- por tonelada de resíduo.
seio de Resíduos de Serviços de Saúde estabele- Embora a principal discussão se de sobre os
ce a segregação dos resíduos infectantes. resíduos infecciosos, também os resíduos quí-
Alguns autores tratam da relação entre resíduos micos devem ser considerados quanto ao as-
domiciliares e resíduos de serviços de saúde. pecto dos riscos para a saúde humana e para o
Referindo-se a resíduos, contendo sangue e meio ambiente. Ácidos, solventes, formaldeído,
que podem ser associados a AIDS e Hepatites, remédios e outros materiais perigosos podem ser
Collins & Kenedy (1992:01) afirma que “as unida- encontrados tanto nos resíduos hospitalares,
des de saúde não são as únicas fontes de tais quanto nos domiciliares.
materiais. Grande número de fraldas descartáveis Savage & Sharpe (1987) investigaram uma
e papel higiênico são descartados como resídu- amostra de resíduos municipais em King Coun-
os domiciliares”. ty, USA, para avaliar a presença de resíduos
Em 1991, Fedorak & Rogers observaram que potencialmente perigosos. Os resultados estão
os “resíduos domiciliares podem contribuir com no Quadro 1.
grandes quantidades de microorganismos origi- Uma investigação no lixo do Rio de Janeiro,
nados de lenços de papel, papel higiênico, fezes por exemplo, certamente revelaria a presença de
de animais domésticos, fraldas descartáveis e todos estes itens, não necessariamente nas mes-
de restos de comida”. mas proporções.

QUADRO 1. Resíduos Perigosos em Resíduos Municipais (t/ano)

Produtos Remédios
de e
Limpeza Solventes Tintas Óleos Ácidos Pesticidas Mercúrio Cosméticos
438,9 974,9 3165,8 617,8 25,2 114,3 1,8 49,3

Concluindo, queremos reafirmar a convicção recusa de considerar a responsabilidade de


de que precisamos de soluções técnicas para más (o grifo é nosso) escolhas tecnológicas,
nossos problemas, dentro da racionalidade de impostas por uma civilização específica a
nossas necessidades e possibilidades. Um pri- outros povos, servindo-se do argumento
meiro passo será ampliarmos os conhecimentos irreplicável da universalidade dos
sobre os resíduos em geral e os hospitalares em problemas e da unicidade da raça humana”
particular, para então desenvolvermos, com mais (Paraire, 1992: 17)
segurança, uma proposta de gerenciamento ade-
quada à nossa realidade.
AGRADECIMENTOS
“A inadaptação das análises da ecologia
moderna à dimensão do problema ecológico O autor agradece a Dr. Fermin Roland
é grave. Mais, ela é a prova de uma certa Schramm, Dr. Wilmar Barbosa e Miriam Lan-
obstinação: a recusa de examinar a crise genbach, os comentários e críticas ao texto inici-
ecológica como uma totalidade de al e a Dra. Ana Maria Tambellini pela revisão
síndromes notáveis num ambiente fechado, a final do texto.

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995 319
Ferreira, J. A.

RESUMO GUATTARI, F., 1989. As Três Ecologias. São Paulo:


Papirus.
FERREIRA, J. A. Resíduos Sólidos e Lixo KEENE, J. H., 1991. Medical Waste: A Minimal
Hospitalar: Uma Discussão Ética. Cad. Saúde Hazard. Infection Control and Hospital Epi-
Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, demiology, 12: 682-685.
abr/jun, 1995. LI, C. S. & JENQ, F. T., 1993. Physical and Chemical
Composition of Hospital Waste. Infection Control
O presente artigo trata da questão dos and Hospital Epidemiology, 14: 145-150.
resíduos sólidos, discutindo os problemas
Ministère de La Solidarité, de La Santé et de La
decorrentes de um modo de ser e de agir, Protection Sociale, 1992. Guide Sur L’Elimination
resultante das relações entre Primeiro Mundo e Des Déchets Hospitaliers. Bulletin Officiel, 88/
Terceiro Mundo e as perspectivas para o meio 89. (Guide Technique, 2)
ambiente se não ocorrer uma ética renovada de MORAES, J. R. B., 1988. Resíduos Sólidos Gerados
solidariedade entre seres humanos e de em Estabelecimentos Hospitalares de Médio e
respeito à vida. A partir dessa visão mais geral, Grande Porte, no Município de Campo Grande –
o artigo trata, então, das questões específicas MS. Relatório de Pesquisa. V Curso Descentra-
dos resíduos hospitalares, as interferências e lizado de Saúde Pública. Rio de Janeiro: Escola
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nos sistemas de manuseio, tratamento e PARAIRE, P., 1992. L’Utopie Verte. France: Hachette.
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