You are on page 1of 112

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJ UBÁ 

Renata Apar ecida Ribeiro Custódio 

ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO 
APLICADA À ODONTOLOGIA – CLÍNICA 
GERAL – UM ESTUDO DE CASO 

Dissertação  submetida  ao  Programa  de  Pós­ 


Graduação  em  Engenharia  de  Produção  como 
requisito  parcial  à  obtenção  do  título  de  Mestre  em 
Ciências em Engenharia de Produção 

Or ientador : Prof. Carlos Eduardo Sanches da Silva, Dr. 

Itajubá 
2006
ii 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJ UBÁ 

Renata Apar ecida Ribeiro Custódio 

ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO 
APLICADA À ODONTOLOGIA – CLÍNICA 
GERAL – UM ESTUDO DE CASO 

Dissertação aprovada por banca examinadora em 22 de dezembro de 2006, conferindo à 


autora o título de Mestre em Ciências em Engenharia de Produção. 

Banca Examinadora: 
Examinador: Prof. José Geraldo Trani Brandão, Dr. 
Examinador: Prof. Carlos Henrique Pereira Melo, Dr. 
Or ientador : Prof. Carlos Eduardo Sanches da Silva, Dr. 

Itajubá 
2006
iii 

Para Antônio Carlos, Ágata e Íris.
iv 

AGRADECIMENTOS 
Tenho  muito  a  agradecer  aos  professores  Luiz  Gonzaga  Mariano  de  Souza  e  Alaor 
José  Borges  de  Campos,  principalmente  pelo  apoio  para  meu  ingresso  nas  ciências  em 
engenharia. 

Ao  prof.  Carlos  Eduardo  Sanches  da  Silva,  agradeço  a  todas  as  orientações  e 
oportunidades  de  estágio­docência  tão  importantes  para  minha  formação  como  professora 
universitária. 

Agradeço  ao  prof.  Carlos  Henrique  Pereira  Mello  pelas  contribuições  ao  longo  dos 
seminários apresentados. 

Agradecimento especial à Dra. Siomara Gonçalves Borges pela acolhida, confiança e 
apoio.  Agradeço  também  à  Marina,  enquanto  auxiliar  extra­bucal,  pelo  esforço  em  buscar 
soluções para facilitar o trabalho odontológico no caso estudado. 

Aos  pacientes  que  a  mim  permitiram  observar  seus  tratamentos  odontológicos,  meu 
muito obrigado. 

Aos representantes da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), da Dabi Atlante, 
da Revista da Faculdade de Odontologia de Passo Fundo e aos professores Francisco Fialho e 
Gilsée Ivan Régis Filho pelo apoio bibliográfico. 

Aos meus pais, sempre na arquibancada. 

A  minha  irmã  Isabel,  engenheira  e  educadora,  que  me  fortaleceu  nos  momentos  de 
cansaço,  mostrando­me  através  de  seu  exemplo  que  apenas  a  dedicação  pode  levar  a 
concretização dos trabalhos. 

Não  posso deixar de agradecer a Angélica, que criou condições para que eu pudesse 
me ausentar de minha casa com tranqüilidade para realizar esta pesquisa. 

Meu  muito  obrigado  aos  amigos  Bernadette,  Felipe,  Marco  Aurélio,  Mari,  Guido, 
Tarcisa, Ivone, Thaís pelo apoio que sem a menor dúvida me deram condições para cumprir 
as várias etapas deste trabalho.

Tudo começa com uma escolha.
vi 

RESUMO 
Esta dissertação se propôs a realizar a análise da atividade do cirurgião­dentista a fim 
de  construir  um  ponto  de  vista  desta  profissão.  Para  tanto  foi  aplicada  a  metodologia  da 
Análise  Ergonômica  do  Trabalho  –  AET,  por  se  tratar  de  um  método  de  abordagem 
ascendente,  que  permite  compreender  como  o  trabalhador  age  e  reage  nas  situações  de 
trabalho. Foi escolhido um caso para estudo, onde o profissional se encontra bem próximo do 
perfil do cirurgião­dentista brasileiro traçado pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas 
Sócio­econômicas  (Inbrape).  Também  foram  identificadas as  estratégias  adotadas para  fazer 
face aos constrangimentos da atividade. O estudo demonstrou haver uma inter­relação entre as 
ações intra­bucais e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho – DORT, mas 
também  evidenciou  um  forte  componente  relacionado  à  organização  do  trabalho  que 
compromete a produtividade e a qualidade de vida do cirurgião­dentista. Por fim, foram feitas 
as  recomendações  ergonômicas  para  o  caso  e  identificados  os  referenciais  que  nortearão  o 
aperfeiçoamento e/ou desenvolvimento do assento odontológico. 

Palavras­chave: ergonomia; AET; cirurgião­dentista; odontologia.
vii 

ABSTRACT 
The purpose of this study  is to analyze the activity of the surgeon­dentist in order to 
construct a point of view of this profession. For in such way the methodology of the Analysis 
Work’s  Ergonomics  ­  AWE  was  applied,  considering  a  method  of  ascending  treatment  that 
allows  understanding  as  the  worker  acts  and  reacts  in  the  work  situations.  A  case  for  study 
was chosen for a professional that  is close to the profile of the Brazilian surgeon­dentist did 
by the Inbrape (Brazilian  Institute of Social Economics Research). Also had been identified 
the strategies adopted to make face to the constraints of the activity. This study demonstrated 
having  interrelations  between  the  intra­mouthed  actions  and  the  Work­related 
Musculoskeletal Disorders – WRMD’s, but also evidenced a strong component related to the 
organization  of  the  work  that  compromises  the  productivity  and  the  quality  of  life  of  the 
surgeon­dentist.  Finally,  the  ergonomic  recommendations  for  the  case  had  been  made  and 
references was identified that will guide the improvement and/or development of the surgeon­ 
dentist seat. 

Key­words: ergonomics; AWE; surgeon­dentist; dentistry.
viii 

LISTA DE FIGURAS 
Figura 1: Chaves de Garengeot, pelicano e fórceps.  8 
Figura 2: Primeira cadeira odontológica.  9 
Figura 3: Chaves de Garengeot.  10 
Figura 4: Base multifatorial do DORT.  25 
Figura 5: esquema gráfico ISO/FDI.  36 
Figura 6: Zonas de alcance.  38 
Figura 7: A tarefa.  41 
Figura 8: Tarefa, atividade e trabalho.  41 
Figura 9: Trena CASTO.  49 
Figura 10: Goniômetro CARCI.  50 
Figura 11: Metodologia AET.  50 
Figura 12: Marcação de consulta.  54 
Figura 13: Planta baixa do consultório.  55 
Figura 14: Medidas do mocho.  56 
Figura 15: Equipo com três pontas.  56 
Figura 16: Pedal de acionamento do motor.  56 
Figura 17: Armários.  57 
Figura 18: Gaveteiro móvel.  57 
Figura 19: Refletor.  57 
Figura 20: Cadeira do paciente.  58 
Figura 21: Cuspideira e sugador.  58 
Figura 22: Fluxograma das 9 etapas prescritas para a execução da prótese – fase moldagem 
definitiva.  59 
Figura 23: Fluxograma das 19 etapas prescritas para a execução da restauração 
fotopolimerizadora.  60 
Figura 24: Primeiro recorte na atividade.  62 
Figura 25: Planta baixa do consultório.  63 
Figura 26: Vista frontal dos armários alto e baixo sob o balcão.  64 
Figura 27: Ação extra­bucal.  66 
Figura 28: Ação intra­bucal.  66 
Figura 29: Organização do trabalho.  67 
Figura 30: Postura fixa na ação intra­bucal.  68 
Figura 31: Postura incorreta dos ombros.  69 
Figura 32: Postura incorreta da cervical vertebral.  69 
Figura 33: Postura incorreta da coluna cervical.  70 
Figura 34: Apoio insuficiente dos pés.  70 
Figura 35: Deslocamento da CD até o sugador.  75 
Figura 36: Pegando material na geladeira  76 
Figura 37: Pegando material no armário  76 
Figura 38: Aplicação do esquema gráfico.  77 
Figura 39: Plano horizontal  79 
Figura 40: Compressão da parte inferior da coxa e angulação do joelho.  79 
Figura 41: Mocho vista lateral.  80 
Figura 42: Angulações da cadeira odontológica em estudo.  81 
Figura 43: Ângulos necessários para relaxamento máximo segundo Lehmann.  81 
Figura 44: Posição de acionamento do sugador.  82 
Figura 45: Zonas de inclinação lateral e flexão do tronco.  83
ix 

LISTA DE QUADROS 
Quadro 1: A evolução da ergonomia  19 
Quadro 2: Base multifatorial do DORT.  25 
Quadro 3: Relação entre trabalho e as entidades nosológicas.  26 
Quadro 4: Estudos pertinentes às condições biomecânicas em profissionais da área 
odontológica.  29 
Quadro 5: Classificação dos movimentos do cirurgião­dentista.  38 
Quadro 6: Etapas da intervenção ergonômica.  43 
Quadro 7: Observações sobre etapas restauração fotopolimerizada.  61 
Quadro 8: Pré­diagnóstico  65 
Quadro 9: Posturas e patologias associadas.  84

LISTA DE ABREVIATURAS 
ABO – Associação Brasileira de Odontologia 
ABENO – Associação Brasileira de Ensino Odontológico 
ACBO – Academia Brasileira de Odontologia 
AET – Análise Ergonômica do Trabalho 
ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária 
CD – Cirurgião­dentista 
CFO – Conselho Federal de Odontologia 
DORT – Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho 
FIO – Federação Interestadual de Odontologia 
FNO – Federação Nacional de Odontologia 
IEA – International Ergonomic Association 
Inbrape – Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sócio­econômicas 
PT – Posto de Trabalho 
PTO – Posto de Trabalho Odontológico 
SELF – Société d’Ergonomie de Langue Française 
UDT – Unidade Dental Tripartida
xi 

SUMÁRIO 
1.  Intr odução  1 
1.1  Considerações iniciais  1 
1.2  Justificativa  2 
1.3  Objetivos Gerais e Específicos  3 
1.3.1  Objetivo Geral  3 
1.3.2  Objetivos Específicos  3 
1.4  Limitações  3 
1.5  Estrutura do Trabalho  3 

2.  Odontologia e Ergonomia  5 
2.1  Considerações iniciais  5 
2.2  Histórico da Odontologia  5 
2.3  Ergonomia  16 
2.3.1  A Ergonomia no Brasil  21 
2.4  Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho do Cirurgião­dentista  23 
2.5  Ergonomia e Odontologia  30 
2.5.1  O posto de trabalho odontológico  32 
2.6  Análise Ergonômica do Trabalho  38 
2.6.1  Considerações iniciais  38 
2.6.2  Objeto de estudo da AET  39 
2.6.3  Tarefa e atividade  40 
2.6.4  A construção da ação ergonômica  42 

3.  Análise Ergonômica do Trabalho aplicada no estudo de caso  47 


3.1  Bases para uma abordagem metodológica  47 
3.1.1  Pressupostos  47 
3.1.2  Instrumentos de estudo  47 
3.1.3  O trajeto metodológico  50 
3.2  Apresentação do caso estudado  51 
3.2.1  A escolha do caso  51 
3.2.2  Análise da demanda  51 
3.2.3  Abordagem global  53 
3.2.4  Pré­diagnóstico  65 
3.2.5  Observação sistemática  65 
3.3  Considerações finais  71 

4.  Análise e diagnóstico  72 


4.1  Análise das observações  72 
4.1.1  A organização do trabalho  72 
4.1.2  O consultório odontológico  77 
4.1.3  As posturas  83 
4.2  Diagnóstico  86 

5.  Recomendações e conclusões  88 


5.1  Recomendações  88 
5.1.1  Horários  88 
5.1.2  Agendamento  88 
5.1.3  Documentos  88
xii 

5.1.4  Materiais  89 


5.1.5  Trabalho a duas mãos  89 
5.1.6  Equipamentos e mobiliário  90 
5.1.7  Quanto à formação de novos profissionais  90 
5.2  Conclusões  91 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  94 

ANEXO A  98 

ANEXO B  99 

ANEXO C  100

1.  Intr odução 


1.1  Consider ações iniciais 
O homem sofre os efeitos positivos e  negativos do trabalho. No que toca aos efeitos 
negativos, estes devem ser analisados para que se possa adequar o trabalho ao homem. Esta 
dissertação  se  propõe  a  estudar  o  posto  de  trabalho  do  cirurgião­dentista,  CD,  pois  o 
odontólogo é sem dúvida uma das profissões  liberais que se submete aos constrangimentos 1 
posturais para a execução de seu trabalho (VILAGRA, 2002). Este profissional trabalha com 
um  campo  visual  bastante  restrito,  a  boca,  e  desenvolve  seu  trabalho  em  uma  superfície 
pequena e de difícil acesso, a faceta de um dente. Para que seu trabalho se cumpra ele adota 
posturas fixas que o irão predispor a adquirir doenças osteomusculares (RASIA, 2004). 

Segundo  Rasia  (2004),  as  pesquisas  realizadas  até  então  com  estes  profissionais  são 
reducionistas, pois se restringem ao envio de questionários aos CDs. Os estudos encontrados 
com o foco voltado para a análise da atividade ainda são incipientes. Deste modo este estudo 
visa construir um ponto de vista da atividade deste profissional  fundamentado na análise do 
trabalho e, sobretudo na relação estabelecida entre as observações, verbalizações, entrevistas, 
análise  de  documentos  e  dados.  Para  tanto  será  utilizada  a  metodologia  da  Análise 
Ergonômica  do  Trabalho  ­  AET  (GUÉRIN  et  al.,  2001)  por  se  tratar  de  método  de 
investigação  que  possibilita  ao  pesquisador  compreender  o  trabalho  a  partir  da  análise  das 
atividades  e  das  situações  de  trabalho,  ou  seja,  confrontando  o  idealizado  com  o  real  e 
buscando  estabelecer  uma  relação  de  fatos  em  situação  de  trabalho  que  esteja  contribuindo 
para  a  ocorrência  de  efeitos  negativos  sobre  a  saúde.  Neste  estudo  a  AET  tem  um  papel 
primordial de evidenciar as causas de desconforto sofridas pelo CD por analisar a estrutura do 
trabalho, as relações do indivíduo consigo mesmo, com outros sujeitos, os instrumentos e os 
objetos (JAMIL, 2004). Para este estudo foi selecionado um caso cujo profissional é do sexo 
feminino, com 22 anos de formada, sem auxiliar e que atua na clínica geral como liberal. Este 
perfil está bastante próximo do perfil traçado pela pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro 
de Estudos  e  Pesquisas  Sócio­econômicos  (Inbrape)  com 614  CDs,  no  ano de 2002, onde  a 
maioria dos profissionais é do sexo feminino (57,5%), trabalha sem auxiliar (56,7%) e atua na 
clínica geral (76,7%). 


A palavra constrangimento origina do latim constringere e significa apertado, aperto, compressão, coação, 
obrigatoriedade, restrição, cerceamento, injunções, etc. em ergonomia ela pode ter o mesmo significado mas 
aplicado ao trabalho humano.

Pretende­se  após  este  estudo  ter  as  referências  necessárias  que  evidenciarão  a 
necessidade  de se  desenvolver  e/ou  aperfeiçoar  instrumentos,  equipamentos bem  como uma 
nova  proposta  de  organização  do  trabalho  deste  profissional  de  modo  a  melhorar  sua 
qualidade de vida. 

1.2  J ustificativa 
A  busca  por  este  tipo  de  pesquisa  foi  motivada  pela  necessidade  sentida  pela 
pesquisadora  de  aprofundar  nos  estudos  dos  fatores  causadores  dos  problemas  músculo­ 
esqueléticos  enquanto  trabalhava  como  fisioterapeuta  em  uma  clínica  de  reabilitação  e 
realizava inúmeros tratamentos de dentistas. Os poucos estudos na área fez com que este tema 
fosse de interesse acadêmico e adequado para uma dissertação. 

Segundo  Michalak­Turcotte  (2000) os  cirurgiões­dentistas ­  CDs  ­  apresentam  dores 


músculo­esqueléticas mais do que outros, enquanto que a prevalência de desconforto e dores 
músculo­esqueléticas atinge um índice de 62% da população em geral, em CDs seu percentual 
atinge  93%.  Esses  profissionais  estão  sentindo  a  diminuição  na  produção  de  serviços  e  a 
necessidade  de  adquirir  estratégias  para  se  adaptarem  ao  trabalho  devido  aos  sintomas  que 
desenvolvem  por  causa  dos  Distúrbios  Osteomusculares  Relativos  ao  Trabalho  ­  DORTs. 
Também Kelsey (1982) e Letho (1990) encontraram em seus trabalhos uma maior freqüência 
de sintomas entre os CDs com relação à população em geral. 

Apesar de estudos sistemáticos que são feitos desde a década de 50 e são responsáveis 
pelas primeiras propostas de modificações no processo de trabalho dos dentistas, inclusive a 
mudança  do  trabalho  da  posição  ortostática  para  a  posição  sentada,  o  conhecimento  sobre 
esses problemas ainda é incipiente (BARRETO & FILHO, 2001). 

Desta  forma, percebe­se  a  necessidade de se  fazer um  estudo deste profissional  para 


compreender  como  o  trabalho  é  executado  e  porque  o  percentual  é  tão  grande  nesta 
população.  Acredita­se  que  um  maior  entendimento  das  estratégias  adotadas  pelo  CDs  dará 
orientações importantes para se atingir os objetivos deste trabalho.

1.3  Objetivos Ger ais e Específicos 


1.3.1  Objetivo Geral 

Estudar  o  posto  de  trabalho  do  cirurgião­dentista  através  da  metodologia  da  Análise 
Ergonômica  do  Trabalho  (AET),  visando  construir  um  ponto  de  vista  da  atividade  desta 
profissão para a construção das recomendações ergonômicas. 

1.3.2  Objetivos Específicos 

a)  Obter  as  referências  necessárias  que  evidenciarão  a  necessidade  de  se  desenvolver 
e/ou  aperfeiçoar  instrumentos  e/ou  equipamentos  que  melhorem  a  qualidade  de  vida  dos 
cirurgiões­dentistas. 

b)  Identificar as estratégias adotadas para reduzir os constrangimentos no trabalho; 

c)  Fazer as recomendações ergonômicas necessárias para o caso estudado. 

1.4  Limitações 
Por  se  tratar  de  um  estudo  de  caso  isolado  não  é  possível  generalizar  os  resultados, 
porém espera­se encontrar os pontos­chave comuns a todos os CDs. Neste trabalho o uso de 
recursos  áudio­visuais  como  meio  de  apoio  à  coleta  de  dados,  ficou  limitado  devido  à 
preocupação em se proteger a privacidade do paciente. 

1.5  Estr utur a do Tr abalho 


O Capítulo 1  situa a dissertação através da relevância,  justificativa, objetivos  geral  e 
específicos, limitações e apresenta a estrutura do trabalho. 

O  Capítulo  2  destina­se  a  revisão  da  literatura  sendo  dividido  em  quatro  partes:  a 
primeira  discorre  sobre  o  histórico  da  odontologia,  como  surgiu  e  se  desenvolveu.  Fica 
evidente que a profissão evoluiu muito tecnicamente, mas não da mesma forma em relação à 
posição de trabalho; a segunda parte destina­se ao histórico da Ergonomia e da sua aplicação 
nas diversas áreas; a terceira parte se refere aos Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao 
Trabalho  –  DORT  –  no  CD;  a  quarta  parte  trata  da  Odontologia  e  Ergonomia  que  visa 
descrever as contribuições ergonômicas no trabalho do CD; a quinta e última parte descreve o 
método  Análise  Ergonômica  do  Trabalho  (AET),  suas  aplicações  e  adequações  para  este 
estudo.

O  Capítulo  3  trata  especificamente  da  aplicação  da  metodologia  AET  no  estudo  de 
caso selecionado. 

A  discussão  dos  dados  e  informações  encontrados  durante  a  análise  ergonômica  e  a 


elaboração do diagnóstico são abordados no capítulo 4. 

O Capítulo 5 traz as recomendações para o caso estudado, as conclusões, bem como as 
sugestões para trabalhos futuros baseados no conteúdo desta dissertação.

2.  Odontologia e Er gonomia 


2.1  Consider ações iniciais 
Este  capítulo  descreve  brevemente  a  evolução  histórica  da  odontologia.  Trata  da 
evolução do instrumental e dos tratamentos utilizados, do trabalho empírico, da formação da 
profissão bem como das leis que foram estabelecidas para controle do exercício profissional. 
Traz também a contribuição da ergonomia na odontologia bem como relaciona os principais 
distúrbios  osteomusculares  a  que  o  CD  está  predisposto.  Refere­se  também  à  história  da 
ergonomia bem como as contribuições desta última para a odontologia. Por fim, apresenta a 
metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho ­ AET. 

Acredita­se  que  os  conhecimentos  atuais  só  adquirem  seu  exato  valor quando  vistos 
dentro de uma dimensão histórica. A história deve ser a explicação dos feitos para estabelecer 
as relações entre causa e efeito. Ela é ponto de partida para novas criações. 

2.2  Histór ico da Odontologia 


O texto a seguir apresenta de forma cronológica um histórico da odontologia desde a 
época dos Sumérios. Não se pretende explorar o assunto em profundidade e sim evidenciar os 
principais eventos que marcaram a odontologia ao longo do tempo (ADA, 2006). 

5000 a.C. Um texto sumério descreve “vermes do dente” como a causa das cáries. 

2600  a.C.  Primeira  referência  a  uma  pessoa  identificada  como  praticante  da  arte 
dentária. Era o egípcio Hesy­Re, frequentemente chamado de 1º. dentista. 

500 ­ 300 a.C. Hipócrates e Aristóteles escreveram acerca da arte dentária incluindo a 
erupção padrão dos dentes, tratamentos de dentes cariados, extração dentária com fórceps e a 
utilização de arames para firmar dentes perdidos e maxilares fraturados. 

Para  Souza  (1917),  poucos  vestígios  são  encontrados  da  arte  dentária  antes  de 
Hipócrates.  Ele  relata  alguns  estudos  arqueológicos  como  de  Boucher  de  Perthes  que 
descobriu  em  Abbeville,  na  França,  um  maxilar  humano,  cujo  terceiro  molar  apresentava 
extensa  cárie.  Também  cita  a  reconstituição  de ossos  fósseis  encontrados  em  uma  gruta  La 
Chapelle aux Saints – França – que revelou ser uma mandíbula de um idoso com unicamente 
dois  caninos.  Conclui­se,  portanto  que  antes  da  idade  da  pedra,  dos  metais  os  homens  já 
conheciam os efeitos das cáries e que ou os dentes caíam ou eram extraídos. O mesmo autor

cita o papiro de Ebers, da civilização egípcia, como sendo um dos primeiros documentos da 
história  da  medicina  e  dá  destaque  onde  se  lêem  algumas  passagens  referentes  às  dores  de 
dentes,  abscessos  e  gengivites.  Provas  fiéis  de  arte  dentária  são  encontradas  nas  múmias do 
Egito:  dentes  ourificados  e  peças  protéticas.  Investigações  realizadas  sobre  maxilares  no 
período  neolítico  demonstram  já  atos  cirúrgicos  e  extrações  dentárias.  O  primeiro  implante 
data do século VII a.C. ao ser identificado na Argélia um crânio feminino  com uma falange 
implantada na região dos pré­molares superiores (GÁRCIA & MÉNDEZ, 2002). 

100 a.C. O romano Celsus escreveu, no seu importante compêndio de medicina, sobre 
a higiene oral, colocação de dentes perdidos, tratamentos para dores de dentes e fraturas dos 
maxilares. 

500  ­  1000  d.C.  Durante  a  Idade  Média,  na  Europa,  a  medicina,  a  cirurgia  e  a 
odontologia eram praticadas pelos monges. 

700  d.C.  Um  texto  chinês  sobre  medicina  menciona  a  utilização  de  “pasta  de prata” 
como um tipo de amálgama. 

1130  ­  1163  Os  Éditos  Papais  proibiram  os  monges  de  executar  qualquer  tipo  de 
cirurgia,  sangria  ou  extração  dentária.  Após  os  Éditos,  os  barbeiros  tomaram  o  lugar  dos 
monges visto que já costumavam ajudá­los nas suas atividades cirúrgicas. 

1210 Surge, na França, uma corporação de barbeiros. Havia dois grupos de barbeiros: 
os  que  foram  treinados  e  educados  para  fazer  cirurgias  complexas  e  os  que  executavam 
serviços rotineiros de barbear, sangria e extração dentária. Estes eram os cirurgiões­barbeiros. 

1220  A Escola  de  Montpellier –  França  –  começou  a  conferir  títulos de doutores da 


faculdade de Medicina, os cirurgiões de Saint­Côme e os cirurgiões­barbeiros. Curiosamente 
existia  uma  superioridade  dos  médicos  que  não  se  abaixavam  para  operar.  Os  cirurgiões 
desprezavam as pequenas cirurgias, entre elas as dentárias que eram deferidas aos cirurgiões­ 
barbeiros (SOUZA, 1917). 

1363  O termo dentista foi criado pelo cirurgião francês Guy Chauliac e apareceu em 
seu livro “Chirugia Magna”. 

1400  Uma  série  de decretos,  na  França,  proíbe os  cirurgiões­barbeiros de praticarem 


todos os atos cirúrgicos excetuando sangria e extração dentária.

1500 No Brasil, a odontologia passa a ser conhecida a partir da carta de Pero Vaz de 
Caminha  que  descreve  os  habitantes  com  bons  rostos,  o  que  pode  indicar  dentes  sadios  e 
bonitos. Crânios encontrados em Lagoa Santa (MG), em regiões litorâneas de São Paulo e do 
Paraná e observações dos primeiros colonizadores indicam que os índios tinham dentes bem 
implantados e com pouquíssimas cáries, mas acentuada abrasão, causada pela mastigação de 
alimentos  duros.  A  tribo  kuikuro,  do  norte  do  Mato  Grosso,  preenchia  cavidades  dentárias 
com resina  de  jatobá  aquecida,  que  cauterizava  a  polpa  e  funcionava  como  uma  obturação, 
depois de endurecida. 

1530  Foi  publicado,  na  Alemanha,  o  primeiro  livro  dedicado  unicamente  à  arte 
dentária.  Escrito  para barbeiros  e  cirurgiões  que  tratam  a  boca, o  livro  fala  de  higiene  oral, 
extração dentária, brocagem de dentes e colocação de obturações em ouro. 

1534  ­  1536  Na  época  da  criação  das  capitanias  hereditárias,  com  a  chegada  das 
expedições colonizadoras e a formação dos primeiros núcleos de povoação, chegam ao Brasil 
mestres de ofício de diversas profissões. Eram artesãos entre os quais se incluíam os barbeiros 
que  além  de  cortar  e  pentear  os  cabelos  e  barbear  faziam  curativos  em  muitos  tipos  de 
machucados  e  operações  cirúrgicas  pouco  importantes.  Por  possuírem  grande  habilidade 
manual, passaram a cuidar da boca, fazendo extrações dentárias. O Regimento do Físico­mor 
de Portugal, datado de 25 de fevereiro de 1521 regulou o ofício desses profissionais  (ABO, 
1998).  Neste  período  existiam  as  extrações  dentárias,  com  técnicas  primitivas,  instrumental 
impróprio,  nenhuma  forma  de  higiene  e  nenhum  tipo  de  anestesia.  A  odontologia  era 
praticada  pelo  barbeiro  ou  sangrador  e  suas  técnicas  eram  passadas  sem  qualquer  teoria  a 
partir da oralidade e da vivência. 

1572  Em  Paris  é  publicada  por  Ambroise  Paré  (1510­1590)  “Cinq  Livres  de 
Chirurgie”,  que  tratava  das  variadas  cirurgias  bucais  e  da  odontologia  em  geral.  Este 
enriqueceu  o  instrumental  com  a  invenção  das  chaves  de  Garengot  e  do  pelicano  (tipo  de 
fórceps primitivo com a extremidade semelhante ao bico de pelicano) (Figura 1). Suprimiu os 
métodos  inumanos  anteriores  de  tratar  as  feridas  por  meio de  azeite  quente  e  popularizou o 
uso das ligaduras vasculares para conter as hemorragias. Trabalhou na reimplantação dentária 
e foi o primeiro que utilizou a prótese na fissura palatina. Contribuiu em muito para melhoria 
das técnicas e para elevar o prestígio da profissão (GÁRCIA & MÉNDEZ, 2002).

Figura 1: Chaves de Garengeot, pelicano e fórceps. Fonte: Museu e biblioteca de Odontologia de São Paulo 

Séc.  XVIII  Surgem  os  primeiros  vestígios  de  legislação  brasileira,  regularizando  o 
exercício da arte de curar em todos os seus ramos. Com o paulatino enriquecimento do estado 
de Minas Gerais, incrementado com o início do ciclo do ouro, a Casa Real Portuguesa nomeia 
o  primeiro  cirurgião­mor  desse  estado,  regulamentando  os  práticos  de  toda  metodologia 
dentária.  A  prática  passava  a  contar  agora  com  certo  grau  de  organização,  tanto  que,  nesse 
mesmo período, a Lei 17 de junho de 1782 cria a Real Junta de Proto­Medicato, formada por 
sete  deputados,  médicos  ou  cirurgiões,  para  um  período  de  três  anos,  para  uma  melhor 
fiscalização das colônias portuguesas. A essa junta caberia o exame e a expedição de cartas e 
licenciamento de todos aqueles que tirassem dentes. 

Durante  a  fase  Pré­cientificista  historiadores  destacam  a  Europa  como  o  berço  da 


prática  odontológica,  surgindo  ali  os  primeiros  escritos  sobre  essa  ciência.  Em  1728,  na 
França,  o  médico  Pierre  Fauchard  (1678­1761),  com  seu  livro:  "Le  Chirurgien  Dentiste  au 
Traité des Dents", revoluciona a odontologia, trazendo novos conhecimentos, criando técnicas 
e aparelhos, sendo justamente chamado de "Pai da Odontologia Moderna". 

Nas  últimas  décadas  deste  século,  surgiu  agitando  o  cenário  político  brasileiro, 
Joaquim José da Silva Xavier (1746 ­ 1792), conhecido como Tiradentes, por exercer entre os 
seus múltiplos ofícios, o de dentista. Tiradentes possuía grande  habilidade como operador e 
que não se limitava a isso, também esculpia, provavelmente em marfim ou osso de canela de 
boi,  coroas  artificiais  para  repor  no  lugar  dos dentes  ausentes.  Entre  os objetos  encontrados 
em sua casa, em  Vila Rica, havia cinco pratos de pó de pedra branca, dois frascos de  vidro 
grandes,  duas  garrafas  finas  pequenas,  uma  peneira  de  seda  e  instrumental  de  dentista.  Os

instrumentos  fazem  parte  da  reserva  técnica  do  Museu  Histórico  Nacional  (RJ):  são  dois 
fórceps, duas chaves de extração e uma espátula. É considerado o “Patrono da Odontologia". 

Nessa época não existia o tratamento de canal, os dentes eram extraídos com alavancas 
rudimentares, as obturações eram de chumbo sobre os tecidos cariados e polpas afetadas. As 
próteses eram simples e amarradas com fios aos dentes que haviam sobrado. Dentaduras eram 
esculpidas  em marfim  ou osso.  Dentes  humanos  ou de  animais  eram  utilizados  e retidos  na 
boca por molas. 

1760 O inglês John Baker é o primeiro dentista, treinado sob o ponto de vista médico, 
a praticar a odontologia na América. 

1789 O francês Nicolas Dubois de Chemant recebe a patente para dentes de porcelana. 

1790  Foi  construída  a  primeira  cadeira  (Figura  2)  feita  especificamente  para  o 
paciente, pelo dentista americano Josiah Flagg. Era portátil, de fácil montagem e acoplada a 
uma  caixa  com  a  qual  era  transportada  ao  lugar  onde  o paciente  estava.  Foi  utilizada  entre 
1885 a 1930. 

Figura 2: Primeira cadeira odontológica. Fonte: Reprodução Catálogo Geral S. S. White 1929. 

23  de  maio  de  1800  Foi  criado  o  “Plano  de  Exames”,  que  consistia  em  um 
aperfeiçoamento das formalidades e dos exames. É encontrado nesse ano em documentos do 
Reino  o  vocábulo  “dentista”.  Esse  é  o  início  da  arte  dentária  como  profissão  autônoma  no 
Brasil. 

Início de 1808 Fugindo das forças francesas, o príncipe regente D. João VI, sua corte 
e  a  elite  portuguesa  (15  mil  pessoas)  chegavam  a  Salvador,  tornando­se  o  Brasil,  sede  do 
reino.  Houve  um  grande  surto  de  progresso.  No  hospital  de  São  José,  na  Bahia  criou­se  a 
Escola de Cirurgia, graças à interferência do Dr. José Correa Picanço, físico e cirurgião­mor, 
em nome da Real Junta do Proto­Medicato, mas que em nada beneficiou os dentistas, pois não
10 

só  licenciou  os  profissionais  da  corte  como  expediu  cartas  legalizando  11  barbeiros  de 
Salvador,  todos  negros,  de  baixa  classe  social,  forros  e  até  alguns  escravos  de  poderosos 
senhores. 

Março  de  1808  A  família  real  chega  ao  Rio  de  Janeiro  e  o  cirurgião­mor  iniciou  o 
licenciamento  dos  profissionais  da  Corte,  estendendo  a  fiscalização  por  todo  reino.  As 
autorizações  eram  semelhantes  às  expedidas  aos  barbeiros  baianos.  Igualmente  a  Bahia  os 
barbeiros  e  sangradores  eram  normalmente  escravos  ou  forros.  Utilizavam  "chaves  de 
Garengeo t"  (Figura  3)  enferrujadas  e  infectadas  na  extração  de  dentes  dos  escravos  e  dos 
brancos  sem  recursos  financeiros  com  o  auxílio  de  técnicas  desorientadas,  provocando 
traumatismos  nos  dentes,  lábios,  queixo,  língua,  tecidos  da  boca  e  com  manobras 
intempestivas, tirando também dentes próximos aos que estavam sendo tratados. 

Figura 3: Chaves de Garengeot. Fonte: Museu de Petrópolis 

É  criada  no  Rio  de  Janeiro  a  Escola  Anatômica  e  Médica  no  Hospital  Militar  e  da 
Marinha, no Rio de Janeiro, com um caráter eminentemente pragmático. Em 07 de outubro de 
1809 é abolida a Real Junta do Proto­Medicato, ficando todas as responsabilidades ao encargo 
do físico­mór e do cirurgião­mór, com a colaboração de seus delegados e subdelegados. 

1811 No Brasil, a primeira carta de dentista foi expedida em nome do português Pedro 
Martins de Moura, que dava o direito apenas de "tirar dentes" e não fazia referência a demais 
operações  cirúrgicas  ou  protéticas.  Neste  mesmo  ano,  Sebastião  Fernandes  de  Oliveira, 
natural  da  Vila  de  Vitória,  Espírito  Santo,  foi  o  primeiro  brasileiro  a  receber  sua  carta  de 
autorização. As leis que regulamentavam o ensino da cirurgia (plano de estudos de cirurgia), 
aprovado  pelo  decreto  de  1  de  abril  de  1813,  não  ajudavam  a  arte  dentária.  Os  dentistas 
possuíam  conhecimentos  rudimentares,  sem  escolas,  sem  cursos.  Nenhum  pré­requisito  era 
exigido para obter a carta da profissão de tirar dentes, nem mesmo saber ler. A profissão se 
bipartia:  as  operações  cirúrgicas  tinham  sua  licença  dependendo  do  cirurgião­mor  e,  os
11 

curativos  nos  dentes  com  licença  dependendo  do  físico­mor,  ou  seja,  a  parte  médica  da 
profissão.

1820  José  Correa  Picanço,  cirurgião­mor,  concedeu  ao  francês  Doutor  Eugênio 
Frederico  Guertin,  a  primeira  carta  a  um  dentista  mais  evoluído,  por  ser  diplomado  pela 
Faculdade de Odontologia de Paris, para exercer sua profissão no Rio de Janeiro. Este recebeu 
permissão  para  extrair  dentes,  praticar  todas  as  operações  necessárias  ao  ramo,  fazer 
curativos, etc. Este profissional atingiu elevado conceito, atendendo a maior parte da nobreza, 
inclusive D. Pedro II e familiares. Este verdadeiro dentista trouxe um progresso imensurável, 
principalmente  referente  à  prótese.  Colocava  coroas  metálicas, obturava  dente  com  ouro  ou 
chumbo,  fazia  limpeza  nos  dentes  ou  os  extraia.  Publicou  em  1819  "Avisos  tendentes  à 
conservação  dos  dentes  e  sua  substituição",  sendo,  ao  que  tudo  indica  a  primeira  obra  de 
odontologia  feita  no  Brasil.  Em  seguida  outros  dentistas  franceses  vieram  trazendo  o  que 
havia de melhor na odontologia mundial. 

30 de agosto de 1828 D Pedro I (1798­1834) suprime o cargo de cirurgião­mór, cujas 
funções  passaram  a  serem  exercidas  pelas  Câmaras  Municipais  e  Justiças  Ordinárias.  O 
objetivo dessa mudança era descentralizar a concessão de licenças, mas esbarrava na falta de 
profissionais capacitados a examinar os candidatos em todos os lugares. 

1832 James Snell inventou a primeira cadeira dentária reclinável. 

1839  Foi  publicado  o  American  Journal  of  Dental  Science,  o  primeiro  jornal  sobre 
dentária no mundo. 

1840  Horace Hayden e Chapin  Harris  fundaram a primeira  escola de odontologia de 


todo o mundo: o Baltimore College of Dental Surgery. 

A partir de 1840 Os dentistas franceses foram aos poucos suplantados com a chegada 
de  profissionais  dos  Estados  Unidos,  como  Clintin  Van  Tuyl,  o  primeiro  a  utilizar 
clorofórmio,  em  casos  excepcionais,  para  anestesia.  Em  1849  publica  seu  livro:  "Guia  dos 
dentes são”. Este guia era destinado ao grande público, porém foi aproveitado pelos dentistas 
da época, porque abrangia todos os assuntos odontológicos. 

1840 Foi fundada a American Society of Dental Surgeons.
12 

1846  O dentista  William Morton  fez  a  primeira  demonstração pública,  com  sucesso, 


da utilização da anestesia com éter na cirurgia. 

1850  Criada a Junta de Higiene Pública, em substituição à fiscalização exercida pela 
Câmara  Municipal,  onde  pelas  medidas  saneadoras  possibilitou  à  medicina  uma  enorme 
evolução.  Esta  Junta  era  responsável  por  ações  saneadoras  e  pela  regularização  de 
profissionais  formados  em  universidades  estrangeiras.  Um  ano  depois,  o  decreto  nº.  828, 
artigo 28, determinava que médicos, cirurgiões, boticários, dentistas e parteiras apresentassem 
suas cartas de habilitação à Junta. 

1859 Formação da American Dental Association (ADA). 

1861­1865 Outros dentistas chegam dos Estados Unidos, alguns fugindo da Guerra da 
Secessão.

1866  Lucy  Hobbs,  americana,  foi  a  primeira  mulher  a  conseguir  o  grau de  medicina 
dentária. 

1869  Surge a primeira revista odontológica  no Brasil:  "Arte Dentária", sob a direção 


de João  Borges  Diniz,  dentista  formado pela  Faculdade de Medicina  do  Rio de Janeiro,  e  a 
“Revista Dentária” de 1879 e o “Manual do Dentista” por Cardoso & Cia., que vendia artigos 
de  cirurgia  em  geral.  Nesta  época,  muitos  brasileiros  foram  estudar  nos  Estados  Unidos, 
devido  à  liderança  na  evolução  técnica  e  científica  mundial.  O  primeiro  foi  Carlos  Alonso 
Hastings,  natural  do  Rio Grande, que  estudou  no  Philadélfia  Dental  College,  radicou­se  no 
Rio  de  Janeiro  e  modificou  o  motor  Weber­Ferry,  que  ficou  conhecido  como  motor  de 
Hastings. 

1870  O  ensino  da  odontologia  ganhou  mais  impulso  no  Brasil  a  partir  do  decreto 
7.247, artigo 24, de 19 de abril de 1879, que determinava que a cada faculdade de Medicina 
ficassem anexos uma escola de Farmácia, um curso de Obstetrícia e Ginecologia e um curso 
de Cirurgia Dentária. Estava cada vez mais próxima a criação de um curso de odontologia. 

1871  James  Morrison  revolucionou  a  prática  da  odontologia  ao  patentear  a  broca 
elétrica acionada por pedal. 

1871  O  americano  George  Green  recebe  a  patente  pelo  primeiro  mecanismo  elétrico 
para odontologia: um motor independente associado a uma peça de mão.
13 

1877 Surge a primeira cadeira dentária com mecanismo hidráulico, por Wilkerson. 

4 de julho de 1879 – Brasil – a Decisão do Império nº. 10 concedia aos aprovados no 
curso  de  cirurgia  dentária  o  título  de  Cirurgião­dentista,  mas  o  privilégio  de  “Cirurgião­ 
dentista da Casa Imperial” era outorgado aos nascidos em famílias da alta sociedade, em geral 
formados no exterior. Um levantamento entre 1840 e 1889 nos “Livros da Mordomia Mor da 
Casa Imperial”, observou­se que apenas 32 profissionais foram agraciados com tal privilégio 
por D. Pedro II, estes na sua maioria do Rio de Janeiro. 

1889  Formou­se  pela  Faculdade  de  Odontologia  do  Rio  de  Janeiro,  Isabela  Von 
Sidow, paulista de Cananéia, tornando­se a primeira mulher dentista formada no Brasil. 

1919  A  Reforma  Educacional  deu  origem  à  Deontologia  Odontológica,  onde  os 


princípios, fundamentos e a ética profissional eram estudados, sendo criada também a Cadeira 
de Medicina legal aplicada à arte dentária. 

25 de outubro Ficou sendo o "Dia do Cirurgião­dentista Brasileiro", pois  nesta data 
em  1884,  Vicente  Cândido.  F.  Sabóia  e  Thomas  Gomes  dos  Santos  Filho,  escreveram  um 
texto  dentro  dos  Estatutos  das  Faculdades  de  Medicina  do  Império,  denominado  "Reforma 
Sabóia”,  através  do  decreto  nº.  9311,  onde  constava  pela  primeira  vez,  que  a  odontologia 
formaria um curso independente. 

1880  O  tubo  metálico  flexível  revoluciona  tanto  o  processo  de  fabricação  como  o 
marketing da pasta de dentes. Até aqui, os dentifrícios apenas existiam sob a forma de líquido 
ou de pó e eram feitos por dentistas. Eram vendidos em garrafas, recipientes de porcelana ou 
caixas de papel. O tubo de pasta de dentes, pelo contrário, é produzido em massa nas fábricas, 
o seu marketing é feito em grande escala e é vendido em todos os EUA. 

23  de  fevereir o  de  1880  O  Visconde  de  Sabóia  assumiu  a  direção  da  Faculdade  de 
Medicina  do  Rio  de  Janeiro  e  atualizou  o  ensino  material  e  cientificamente,  criando 
laboratório  de  cirurgia  dentária,  trazendo  aparelhos  e  instrumentos  dos  Estados  Unidos  e 
montou um  laboratório  de  prótese  dentária.  A  Thomas  Gomes  dos  Santos  Filho,  cirurgião­ 
dentista, a odontologia  nacional muito deve, principalmente por ter descoberto a fórmula de 
vulcanite e em seguida produzi­la. 

12 de mar ço de 1881 O decreto nº. 8024, art. 94 do Regulamento para os exames das 
Faculdades  de  Medicina  diz:  “Os  cirurgiões­dentistas  que  quiserem  se  habilitar  para  o
14 

exercício  de  sua  profissão  passarão  por  duas  séries  de  exames:  o  primeiro  de  anatomia, 
histologia  e  higiene,  em  suas  aplicações  à  arte  dentária;  o  outro  de  operações  e  próteses 
dentárias”. 

25 de outubro de 1884 O ensino de odontologia foi oficialmente instituído no Brasil, 
por  intermédio  do Visconde  de  Sabóia.  No  início,  o  ensino  era vinculado às  Faculdades  de 
Medicina do  Rio  de  Janeiro  e  da  Bahia,  programado  em  três  séries.  Ao  concluir  o  curso, o 
aluno recebia o título de Cirurgião­dentista, sem colar grau ou outras formalidades. 

1885  A primeira assistente de odontologia é empregada pelo dentista Edmond Kells. 
As suas funções eram de assistir o dentista durante o tratamento dos pacientes, de limpar os 
instrumentos, fazer o inventário, apontamentos, a contabilidade e a recepção. 

1890  Willoughby  Miller,  um dentista  americano  ao  trabalhar  na  Alemanha,  diz  num 
livro  seu que  a  cárie  dentária  é  originada  por  micróbios.  Isto provocou um  grande  interesse 
pela  higiene  oral  dando origem  a  um  movimento,  ao  nível  mundial,  para promoção de uma 
escovação regular dos dentes e da utilização do fio dental. 

8 de novembr o de 1895 No laboratório da Universidade de Wurzburg, o físico alemão 
Wilhelm  Conrad  Roentgen  (1845­1923)  descobre  o  Raio  X.  Esta  descoberta  trouxe  uma 
grande colaboração nos tratamentos dentários e médicos. 

1896 O dentista Edmond Kells fez a primeira radiografia dentária em pessoa viva nos 
EUA. 

1899  No estado de São Paulo, o ensino de odontologia  surge  ligado à Farmácia. Foi 


inaugurada  a  Escola  Livre  de  Farmácia  e  Odontologia  (entidade  particular),  que  mais  tarde 
acolheria a Faculdade de Medicina e em 1932 passou para rede estadual de ensino. 

1905 O químico alemão Alfred Einhorn formulou a anestesia local com procaína que 
mais tarde ficou com o nome comercial de Novocaína. 

1913 Alfred Fones fundou a primeira Escola de Higiene Oral e ficou conhecido como 
o Pai da Higiene Dental dado que foi o primeiro a utilizar este termo. 

1917 Fundação da Associação Brasileira de Odontologia Nacional, sob a identificação 
de Federação Odontológica Brasileira (ABO, 1998).
15 

1919  O  decreto  promulgado  pelo  Presidente  Epitácio  Pessoa,  transforma  o  curso 


oferecido pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em Faculdade de Odontologia, com 
quatro anos de duração. Entretanto tal reforma só foi executada em 1925 no prédio anexo à 
Faculdade de Medicina e oferecendo um curso de três anos. Em 1947 o curso de odontologia 
passou a ser oferecido em quatro anos, tendo formado sua primeira turma em 1951. 

Anos  30  Surge  a  industrialização  das  cadeiras  odontológicas,  próximas  aos  padrões 
atuais. Nos anos 70, ela toma o formato atual, com mesas e aparelhos auxiliares. 

1930 ­ 1943 Frederick McKay, dentista do Colorado, verificou que níveis elevados de 
flúor  na  água  de  beber  estavam  associados  a  um  baixo  nível  de  cáries  e  a  um  alto  grau  de 
manchas  castanhas  no  esmalte  dos  dentes.  Por  volta  de  1940,  Trendley  Dean  determinou  o 
nível ideal de flúor na água de modo a reduzir as cáries dentárias sem manchar os dentes. 

1938 Surge a primeira escova de dentes feita com fibras artificiais (nylon). 

1945  As cidades  de Newburgh  e  New  York  introduziram  fluoreto de  sódio  nas  suas 
redes públicas de água. 

1950 Começa a ser vendida a primeira pasta de dentes com flúor. 

1957 John Borden introduz a turbina de alta rotação. A Airotor  consegue velocidades 
de 300.000 rpm e foi um sucesso comercial instantâneo. 

1958 Surge uma cadeira dentária totalmente reclinável. 

1960  Os  raios  laser  são  desenvolvidos  e  aprovados  para  procedimentos  em  tecidos 
moles. 

1960 É comercializada a primeira escova de dente elétrica. Foi desenvolvida na Suíça 
depois da 2ª. Grande Guerra e introduzida depois nos EUA. 

1962 Rafael Bowen desenvolve Bis­GMA, a complexa resina utilizada na maior parte 
dos modernos materiais de restauração dos dentes. 

1990  Tem  início  a  era  da  odontologia  associada  à  estética  com  o  aparecimento  de 
novas cores de materiais de restauração, de tratamento para o branqueamento dos dentes e a 
colocação de implantes dentários.
16 

Desde a primeira citação sobre os vermes dos dentes pelos Sumérios (5000 anos a.C.) 
até  os  dias  de  hoje  com  os  sofisticados  tratamentos  curativos,  corretivos  e  estéticos  a 
odontologia  muito  evoluiu  principalmente  no  que  diz  respeito  ao  instrumental,  aos 
equipamentos, a técnica e ao reconhecimento da profissão. No entanto, em relação à postura 
de  trabalho,  o  CD  passou  de  um  atendimento  itinerante,  onde  inclusive  levava  consigo  a 
cadeira odontológica, para o confinamento em salas cada vez menores tornando­se refém de 
todo  o  arsenal  que  utiliza  para  seu  trabalho,  da  técnica  e  do  contexto  atual  de  alta 
competitividade. A ergonomia em muito contribuiu para a evolução da odontologia, tanto em 
relação ao conforto do paciente quanto em relação aos equipamentos e as posturas de trabalho 
do CD. Por isso, conhecer o histórico da ergonomia, seus conceitos e aplicações contribuirá 
para uma ampla abordagem do posto de trabalho odontológico. 

2.3  Er gonomia 
Etimologicamente  o  termo  “ergonomia”  significa  regras,  leis  naturais  (nomos)  do 
trabalho  (ergon ).  O  termo  foi  criado  por  Wojciech.  Jastrzebowski  em  1857  no  seu  artigo 
intitulado  “Ensaios  de  ergonomia  ou  ciência  do  trabalho,  baseados  nas  leis  objetivas  da 
ciência  sobre  a  natureza”.  No  entanto,  foi  apenas  em  16  de  fevereiro  de  1950,  que  Murrel 
propõe o termo ergonomia após consultar estudiosos da língua grega e latina (IIDA, 2005). 
Sanders  &  McCormick  (1993)  consideram  que  a  ergonomia  remonta  a  iniciativas 
empíricas  desde  a  pré­história  em  que  o  homem  buscou  formas  de  adaptar  o  ambiente  ao 
redor  às  suas  necessidades,  transferindo  a  força  de  seu  trabalho  para  animais,  adequando 
instrumentos às suas características anatômicas. 

Com a 2ª. Guerra Mundial (1939 ­ 1945) novos aparatos tecnológicos surgem, aviões 
cada  vez  mais  velozes,  submarinos,  radares  e  tanques  foram  instituídos  rapidamente, 
tornando­se  indispensáveis  nos  campos  de  batalha.  A  nova  realidade  trouxe  uma  série  de 
comandos  complexos  que  somados  ao  clima  de  tensão  excessiva,  pressões  físicas  e 
psicológicas  levavam  os  operadores  a  muitos  erros,  alguns  com  conseqüências  fatais.  Os 
equipamentos  militares  exigiam  dos  operadores  raciocínio  e  decisões  rápidas  em  condições 
críticas, grande quantidade de informações, alta complexidade nas operações, demonstrando­ 
se assim várias incompatibilidades entre o humano e o tecnológico (MORAES, 2005). 

Neste  cenário,  vários  pesquisadores,  entre  eles  o  engenheiro  inglês  K.  F.  Hywell 
Murrel,  o  fisiologista  Floyd  e  o  psicólogo  Welford  empenharam­se  no  estudo  que  buscava 
adaptar os instrumentos bélicos às características e capacidades do militar, visando reduzir as
17 

perdas  humanas  e  materiais.  Além  de  se  agravar  o  conflito  entre  o  homem  e  a  máquina, 
deixam  a  desejar  também  as  formas  tradicionais  de  resolução  dos  mesmos  –  a  seleção  e  o 
treinamento.  Assim  engenheiros  juntam­se  a  psicólogos  e  fisiologistas  para  adequar  a  nova 
tecnologia  não  só  as  características  físicas,  mas  também  psicológicas  e  cognitivas.  Desta 
forma  integram­se  à  análise  outras  variáveis  como  recepção  e  tratamento  da  informação 
(ABRAHÃO & PINHO, 2001). Esta cooperação pluridisciplinar também propunha utilizar as 
descobertas na  indústria ou em qualquer outra atividade civil. Esses pesquisadores em 1949 
formaram  uma  sociedade  a  “Ergonomic  Research  Society”   para  estudar  o  homem  em 
ambiente  de  trabalho.  Os  ergonomistas  voltaram  sua  atenção  para  as  milhares  de  máquinas 
presentes  no cotidiano e descobriram que “muitos dos erros que atormentavam marinheiros, 
soldados e aviadores, existiam – e ainda existem  – nas fábricas, nas estradas, na sinalização 
urbana, nos tratores, caminhões, automóveis e até mesmo num fogão doméstico” (MORAES, 
2005). Muitos projetos inadequados, de incompatibilidade no sistema homem­tarefa­máquina 
como  painéis  com  difícil  interpretação  pelo  operador,  sinais  de  trânsito  que  confundem  os 
motoristas, instrumentos de difícil manuseio são oriundos da falta de estudos para a adaptação 
às características físicas, psíquicas e cognitivas humanas. 

Em meados dos anos 50 do século passado a ergonomia surge na França em serviços 
especializados nas indústrias. É importante esclarecer que em virtude da ausência da França 
na aventura tecnológica advinda da exigência militar na II Guerra Mundial, os ergonomistas 
francófonos  foram  conduzidos  a  estabelecerem  uma  problemática  com  menor  influência  da 
abordagem  sistêmica.  Em  1958,  J.M.  Faverge,  J.  Leplat  e  B.  Guiguet  publicam  a  obra 
“ L’adaptation  de  la  machine  à  l’homme”   pela  Presses  Universitaires  de  France.  Mas  sua 
institucionalização só acontece no início dos anos 60 com a criação da Société d’Ergonomie 
de  Langue  Française  (SELF)  que  agrupava  profissionais  da  França,  Suíça,  Bélgica  e 
Luxemburgo. Seu objetivo era o de adaptar o trabalho ao homem, tendo como foco o estudo 
específico  do  trabalho  humano.  Essa  abordagem  francofônica  é  voltada  para  a  atividade 
realizada, centrando­se no estudo da inter­relação entre o homem e o contexto de produção de 
bens e serviços no qual está inserido. Tal pensamento se opôs ao conceito dominante à época: 
a adaptação do homem a sua profissão (BONNARDEL, 1943 apud WISNER, 2004). 

É necessário, de acordo com Wisner (2004), apresentar brevemente as disciplinas que 
contribuíram para a ergonomia nascente como eram naquela época a fim de evitar concebê­las 
como são atualmente. As disciplinas são:
18

·  A fisiologia do trabalho estava baseada nas questões energéticas do trabalho muscular, 
tanto  na  Alemanha,  (Max­Planck  Institüt  für  Arbeitphysiologie  de  Dortmund)  como 
na França (Laboratório de Fisiologia do Trabalho do Conservatoire National des Arts 
et Métiers ­ CNAM). As medidas de consumo de oxigênio, da freqüência cardíaca e da 
temperatura  central  do  corpo  possibilitavam  o  estudo  da  fisiologia  do  trabalho 
muscular  e  os  efeitos  do  calor.  A  eletromiografia  (EMG)  surgiu  mais  tarde.  As 
pesquisas em relação à neurofisiologia do trabalho somente eram relativas à visão e à 
fadiga auditiva.

·  A antropometria voltada para ergonomia estava em conflito com a antropologia física, 
a  qual  tinha  como  problemática  as  teorias  e  metodologias  voltadas  a  caracterizar  os 
esqueletos  das  etnias  vivas  ou  de  escavações.  O  ergonomista  estava  interessado  no 
conhecimento  das  características  de  trabalhadores  vivos.  Portanto,  não  se  conseguia 
um diálogo científico que atendesse as necessidades dos ergonomistas.

·  A  biomecânica  mostrou­se  indispensável  para  os ergonomistas  no que diz  respeito  a 


compreensão  e  modelização  do  gesto  voluntário,  acústica,  efeito  das  vibrações, 
biomecânica  dos  impactos.  Como  na  antropometria  os  diversos  especialistas  em 
mecânica também estavam pouco adaptados às necessidades dos ergonomistas.

·  A  psicologia  usada  na  ergonomia  era  considerada  experimental.  Esta  se  surpreendia 
com a pequena  amostra  necessária  aos  fisiologistas e  estes  ficavam surpresos  com  a 
variabilidade  dos  resultados  encontrados  pelos  psicólogos.  As  questões 
epistemológicas dificultavam o diálogo entre estes profissionais. 

Não  foi  fácil  para  os  “ergonomistas  constituírem  uma  abordagem  comum  dos 
problemas colocados pela prática” (WISNER, 2004), pois o mesmo fenômeno industrial seria 
tratado  como  antropométrico,  biomecânico,  fisiológico  ou  psicológico  de  acordo  com  o 
especialista que fosse consultado. 

Na mesma época se forma nos Estados Unidos a Human Factors Society, a ergonomia 
dos métodos e das tecnologias, centrada na contínua necessidade de adaptação da máquina ao 
homem e que utiliza a ciência para melhorar as condições de trabalho. “O Departamento de 
Defesa  Aérea  dos  EUA  "USAF",  começou  a  financiar  a  atividade,  atitude que  alicerçou  as 
pesquisas, e deu aos militares a vanguarda nos estudos e pesquisas da época. O próprio termo, 
Human Factors, possui uma forte conotação militarista, sendo que os estudos antropométricos
19 

realizados serviram para a construção de aeronaves equipamentos e posteriormente o projeto 
da cápsula espacial. Pela primeira vez os projetos eram feitos de dentro para fora. No entanto, 
sua aplicação na indústria tomou uma conotação de menosprezo, servindo muito pouco para a 
elaboração de novos projetos” (MORAES, 2005). 

Helander  (1997)  apud  Soares  (2004),  caracteriza  a  evolução  da  ergonomia 


demonstrando que a sua história refletiu as mudanças da sociedade e seus anseios, extrapolou 
o ambiente industrial e seu sistema produtivo e incorporou o usuário comum. Esta evolução é 
possível de se observar no Quadro 1: 

Década  Repr esentação 

50  Ergonomia militar 

60  Ergonomia industrial 

70  Ergonomia do consumo 

80  Ergonomia de software e da interação homem­computador 

90  Ergonomia organizacional e cognitiva 

00  Era da comunicação global e da eco­ergonomia 

Quadro 1: A evolução da ergonomia 

A ergonomia é uma disciplina jovem, em evolução, e que vem reivindicando o status 
de ciência como afirma Abrahão & Pinho (2001). Montmollin (1990) a define como a Ciência 
do  Trabalho  ou  por  Wisner  (1990)  uma  arte  alimentada  de  métodos  e  conhecimentos 
resultantes da investigação científica. A arte na qual são utilizados o saber tecnocientífico e o 
saber  dos  trabalhadores  sobre  a  própria  situação  do  trabalho  (WISNER,  1994).  A 
ergonomia está conceitual e eticamente comprometida com o ser humano e deve ser entendida 
como  a  ciência  de  aplicação  dos  conhecimentos  relativos  ao  homem,  ao  processo  e  aos 
produtos,  buscando  o  funcionamento  harmônico  e  seguro  do  sistema  homem­máquina 
(OLIVEIRA et al., 1998). Um dos interesses da ergonomia (ABRAHÃO & PINHO, 2001) é 
saber o que os trabalhadores realmente fazem, como fazem e porque fazem. 

Segundo  a  definição  da  Associação  Internacional  de  Ergonomia  (IEA,  1969): 


ergonomia é o estudo científico da relação entre o homem e seus meios, métodos e ambiente 
de  trabalho.  A  Sociedade  de  Ergonomia  de  Língua  Francesa  em  1988  em  sua  definição
20 

acentua fortemente, segundo Curie (2004), o caráter pragmático de seu objetivo e abordagem: 
ergonomia é a utilização de conhecimentos científicos relativos ao homem e necessários para 
conceber instrumentos, máquinas e dispositivos que possam ser utilizados pelo maior número 
de pessoas,  com o  máximo de conforto, de segurança  e  de  eficiência .  (Wisner  (1996)  apud 
Abrahão  &  Pinho  (2001)  aponta  a  ergonomia  como  uma  disciplina  multidisciplinar  do 
desenvolvimento  mais  recente  da  ciência  e  da  técnica  e  cobre  um  largo  espectro  de 
conhecimentos  (engenharia,  fisiologia,  biomecânica,  antropologia,  psicologia,  sociologia, 
filosofia...).  Uma  disciplina  de  síntese,  convocada  para  fornecer  as  bases  de  ação  em  um 
campo  de ação  em  um campo  onde a  parte  ocupada pelos fatores não  controlados ou  não 
controláveis é importante. Abrahão & Pinho (2001) salientam que a ergonomia incorpora na 
base de seu arcabouço teórico, um conjunto de conhecimentos científicos vindos de diversas 
áreas  (Antropometria,  Fisiologia,  Psicologia,...)  e os  aplica  com  vistas às  transformações do 
trabalho.  Consideram  como  critério  de  avaliação  do  trabalho  três  eixos:  a  segurança,  a 
eficiência  e  o  bem  estar  dos  trabalhadores  nas  situações  de  labor.  Maggi  &  Tersac  (2004) 
reforçam as colocações acima quando dizem que a ergonomia (francofônica) busca articular o 
conhecimento  obtido  de  diversos  campos  científicos  distintos.  Conhecimentos  que  quando 
confrontados e articulados de forma integrada contribuem para a tecnologia e organização 
do trabalho na definição da melhoria desta realidade (ABRAHÃO & PINHO, 2001). 

Oliveira  et  al.  (1998)  classificam  a  ergonomia  em  dois  tipos  fundamentais  e  que  às 
vezes se superpõem:

·  Ergonomia do produto: concepção de produtos com atenção voltada para a utilização 
que  terão  por  parte  dos  consumidores.  Para  isso  é  necessário  o  conhecimento  das 
características e necessidades dos usuários para atendê­los com conforto e segurança;

·  Ergonomia  da  produção:  ocupa­se  do  conforto  e  segurança  dos  trabalhadores.  É 


necessário conhecimento técnico para a incorporação dos princípios ergonômicos aos 
processos de trabalho. 

Wisner (1987) classificou a ergonomia de acordo com a ocasião em que ela atua. São 
elas:

·  Ergonomia  de  concepção:  quando  a  contribuição  ergonômica  acontece  durante  o 


projeto do produto, da máquina, ambiente ou sistema;
21

·  Ergonomia  de  correção:  quando  a  ergonomia  é  aplicada  a  situações  reais  para  se 
resolver  problemas  que  se  refletem  na  segurança,  fadiga  excessiva,  doenças  do 
trabalhador ou quantidade e qualidade da produção;

·  Ergonomia  de conscientização:  quando  a  ergonomia  objetiva  a  capacitar  os  próprios 


trabalhadores  para  a  identificação  e  correção  dos  problemas  do  dia­a­dia  ou  aqueles 
emergenciais;

·  Ergonomia de participação: é a que procura envolver o próprio usuário (trabalhador ou 
consumidor) do sistema na solução de problemas ergonômicos. 

Wisner  (1995)  afirma  que  a ergonomia  sustenta­se hoje  em  dois pilares:  um de base 


comportamental, que apreende as variáveis que determinam o trabalho pela via da análise do 
comportamento e outro subjetivo que qualifica e valida os resultados. Ambos têm o propósito 
de  transformar  as  condições  e  a  relação  do  homem  com  o  trabalho.  A  ergonomia  busca 
produzir  conhecimentos  sobre  o  trabalho,  as  condições  e  a  relação  do  homem  com  sua 
atividade  e  formular  conhecimentos,  ferramentas  e  princípios  suscetíveis  de  orientar 
racionalmente  a  ação  de  transformação  das  condições  de  trabalho.  A  produção  do 
conhecimento e a racionalização da ação constituem o eixo principal da pesquisa ergonômica 
(ABRAHÃO & PINHO, 1999). 

2.3.1  A Er gonomia no Brasil 


Moraes  &  Soares  (1989)  afirmam  que  a  implantação da  ergonomia  no  Brasil  se  deu 
junto às engenharias e ao desenho industrial. Tiveram como fundamento de suas especulações 
teóricas  e  aplicações  práticas  a  adoção  dos  manuais  de  Grandjean  (1975),  Murrel  (1975), 
Sanders & McCormick (1987) e Woodson (1981). Moraes & Soares (1989) afirmam que não 
se aplicava naquela época os experimentos de laboratório, mas apenas se propunham algumas 
modificações com bases nos dados destas referências bibliográficas. Duas novas abordagens 
passaram  a  ser  aplicadas  a  partir  do  enfoque  baseado  na  psicologia,  as  pesquisas 
experimentais  sobre  o  comportamento  do  motorista  desenvolvidas  na  USP  campus  de 
Ribeirão  Preto,  e  os  trabalhos  com  ênfase  numa  análise  sócio­técnica  desenvolvidos  na 
Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. 

Com o surgimento dos livros de Chapanis (1962, 1972) e Miester (1971, 1985) uma 
nova abordagem metodológica com ênfase na observação sistemática do trabalho, análise da 
tarefa,  medidas  do  ambiente  e  levantamentos  antropométricos  passaram  a  fazer  parte  do
22 

escopo do ergonomista brasileiro (Soares, 2004). O acesso à bibliografia francesa em especial 
os  livros  de  Montmollin  (1986),  Sperandio  (1984)  e  Wisner  (1987),  acrescentou  novas 
ferramentas e métodos de intervenção da ergonomia no Brasil. 

O  desenvolvimento  da  ergonomia  no  Brasil  foi  influenciado  pela  Ergonomia  da 
Atividade,  praticada  nos  países  de  língua  francesa  e  foi  difundida  a  partir  dos  anos  70 por 
Alain Wisner, devido à formação de diversos mestres e doutores em ergonomia e por meio de 
suas  várias  viagens  ao  Brasil  (LIMA  &  JACKSON  FILHO,  2004).  Ainda  para  Ferreira  & 
Mendes (2003) a Ergonomia da Atividade é uma abordagem científica que investiga a inter­ 
relação  entre  os  indivíduos  e  o  contexto  de  produção  de  bens  e  serviços  (espaço  físico, 
organizacional  e  social).  Ela  analisa  as  contradições  presentes  nesta  inter­relação  e,  em 
conseqüência,  as  estratégias  individuais  e  coletivas  de  mediação  operatórias  que  são 
forjadas para responder à diversidade de exigências existentes nas situações de trabalho . 

O interesse por essa corrente da ergonomia, segundo Lima & Jackson Filho (2004), foi 


sua proposta teórico­metodológica e a prática de resolver e tratar os problemas das condições 
de  trabalho  a  partir  da  compreensão  das  atividades  do  trabalhador,  do  seu  “trabalhar”, 
mostrando a inteligência prática dos trabalhadores, a importância do coletivo e a necessidade 
de desenhar sistemas de produção a partir da visão ampla do homem, usualmente reduzida a 
suas componentes físicas. 

Apesar desta forte influência, podem­se distinguir duas linhas ergonômicas presentes 
no  Brasil:  uma  dos  métodos  e  das  tecnologias,  mais  antiga  e  caracteristicamente  americana 
(anglo­saxônica),  centrada  na  contínua  necessidade  de  adaptação  da  máquina  ao  homem, 
chamada de human  factors e outra mais recente de origem européia (francofônica), que tem 
como  foco  o  estudo  específico  do  trabalho  humano,  visando  adaptá­lo  ao  homem.  Essa 
abordagem francofônica é voltada para a atividade realizada, centrando­se no estudo da inter­ 
relação  entre  o  homem  e  o  contexto  de  produção  de  bens  e  serviços  no  qual  está  inserido. 
Essas  duas  abordagens  da  ergonomia  (MONTMOLLIN,  1990)  não  são  contraditórias,  mas 
complementares,  uma  vez  que  a  anglo­saxônica  realiza  suas  pesquisas,  muitas  vezes,  em 
laboratório,  e  a  francofônica  em  situações  reais  de  trabalho  para  verificar  os  aspectos  que 
constituem fatores de desgaste para o trabalhador.
23 

2.4  Os Distúr bios Osteomuscular es Relacionados ao Tr abalho 


do Cir ur gião­dentista 
Como  ponto  de  partida,  entende­se  DORT  como  uma  síndrome  relacionada  ao 
trabalho, caracterizada pela ocorrência de  vários sintomas concomitantes ou não, tais como: 
dor, parestesia, sensação de peso, fadiga,  geralmente  nos membros superiores, mas podendo 
acometer  também  os  membros  inferiores.  Estes  sintomas  resultam  da  combinação  da 
sobrecarga das estruturas anatômicas do sistema osteomuscular com a falta de tempo para sua 
recuperação. A sobrecarga pode ocorrer seja pela utilização excessiva de determinados grupos 
musculares em movimentos repetitivos com ou sem exigência de esforço localizado, seja pela 
permanência  de  segmentos  do  corpo  em  determinadas  posições  por  tempo  prolongado, 
particularmente quando essas posições exigem esforço ou resistência das estruturas músculo­ 
esqueléticas contra a gravidade. A necessidade de concentração e atenção do trabalhador para 
realizar  suas  atividades  e  a  tensão  imposta  pela  organização  do  trabalho,  são  fatores  que 
interferem de forma significativa para a ocorrência do DORT (BRASIL, 2003). 

O  DORT  não  se  caracteriza  por  uma  patologia  aguda.  É  de  início  insidioso  onde  o 
indivíduo  apresenta  dor  normalmente  ao  final  da  jornada  de  trabalho  ou  quando  faz  um 
esforço maior. Em seguida, os sintomas são mais persistentes mesmo fora do trabalho. Caso 
as condições de trabalho não mudem os sintomas passam a afetar as atividades da vida diária, 
como pendurar roupa no varal, segurar uma panela, parafusar, girar uma maçaneta, secar os 
cabelos,  etc.  À  dor  e  ao  desconforto  são  somados  outros  sintomas  e  sinais  como  o  edema, 
perda da força e o calor local. 

É  importante  saber  que  quando  um  diagnóstico  de  DORT  é  indicado  significa  que 
existe  uma  síndrome  já  bem  conhecida  da  medicina  (ortopedia,  reumatologia  e  clínica 
médica), decorrente do uso excessivo das estruturas osteomusculares por condições especiais 
e  inadequadas de  trabalho  (OLIVEIRA  et  al.,  1998),  ou  seja,  a  patologia  desenvolvida  pelo 
trabalhador possui sua origem no trabalho. Sem este nexo causal uma patologia não pode ser 
caracterizada  como  DORT para  fins  legais.  Essas  patologias  não  têm um  tratamento difícil, 
mas possuem uma má evolução, diminuindo o desempenho profissional, caso não se aborde 
de forma efetiva o fator causador. 

Como  se  pode  observar  no  histórico  da  odontologia,  a  profissão  evoluiu  muito 
tecnicamente, seja no que diz respeito aos materiais ou aos instrumentos. Nos últimos tempos 
esta  evolução  tem  sido  cada  vez  mais  rápida  devido  às  pesquisas  mais  intensas  que  tentam 
atender  a  uma  demanda  cada  vez  maior  com  o  objetivo  de  se  aumentar  a  produtividade  e
24 

diminuir os custos. Dentro de um contexto global, segundo Saquy e Pécora (1994), o trabalho 
torna­se  mais  dependente  da  técnica,  o  que  aumenta  de  forma  assustadora  o  número  de 
acidentes e doenças profissionais. No que toca ao CD, existe um grande risco de desenvolver 
tais doenças devido ao uso e dependência também cada vez maiores da técnica para exercer 
com êxito sua profissão e se tornar mais competitivo. 

A ANVISA (BRASIL, 2006), em seu documento “Serviços Odontológicos: Prevenção 
e Controle de Riscos” considera como riscos ocupacionais a possibilidade de perda ou dano e 
a probabilidade de que tal perda ou dano ocorra. Implica, pois, na probabilidade de ocorrência 
de um evento adverso. Segundo o documento, os riscos mais freqüentes a que estão sujeitos 
os profissionais que atuam em assistência odontológica são:

·  Os físicos: ruído, vibração, radiação ionizante e não­ionizante, temperaturas extremas, 
iluminação  deficiente ou  excessiva,  umidade  e  outros.  São  causadores desses  riscos: 
caneta de alta rotação, compressor de ar, equipamento de RX, equipamento de laser, 
fotopolimerizador, autoclave, condicionador de ar, etc.

·  Os químicos: poeiras, névoas, vapores, gases, mercúrio, produtos químicos em geral e 
outros.  Os  principais  causadores  desses  riscos  são:  amalgamadores,  desinfetantes 
químicos  (álcool,  glutaraldeído,  hipoclorito  de  sódio,  ácido  peracético,  clorexidina, 
entre outros) e os gases medicinais (óxido nitroso e outros).

·  Os ergonômicos: postura incorreta, ausência do profissional auxiliar e/ou técnico, falta 
de capacitação do pessoal auxiliar, atenção e responsabilidade constantes, ausência de 
planejamento, ritmo excessivo, atos repetitivos, entre outros.

·  Os mecânicos ou de acidente: entre os mais  freqüentes, podemos citar: espaço físico 
subdimensionado,  arranjo  físico  inadequado,  instrumental  com  defeito  ou  impróprio 
para  o  procedimento,  perigo  de  incêndio  ou  explosão;  edificação  com  defeitos; 
improvisações na instalação da rede hidráulica e elétrica; ausência de EPI e outros.

·  Por ausência de conforto no ambiente de trabalho: sanitário em número insuficiente e 
sem separação por sexo, falta de produtos de higiene pessoal, como sabonete líquido e 
toalha  descartável  nos  lavatórios,  ausência  de  água  potável  para  consumo,  não 
fornecimento de uniformes, ausência de ambientes arejados para lazer e confortáveis 
para descanso, ausência de vestiários com armários para a guarda de pertences, falta 
de  local  apropriado  para  lanches  ou  refeições,  falta  de  proteção  contra  chuva,  entre 
outros.
25

·  Os  biológicos:  a  probabilidade  da  ocorrência  de  um  evento  adverso  em  virtude  da 
presença de um agente biológico. Sabe­se que as exposições ocupacionais a materiais 
biológicos  potencialmente  contaminados  constituem  um  sério  risco  aos  profissionais 
da  área  da  saúde  nos  seus  locais  de  trabalho.  Estudos  desenvolvidos  nesta  área 
mostram que os acidentes envolvendo sangue e outros fluidos orgânicos correspondem 
às exposições mais freqüentemente relatadas. 

Pode­se  observar  que  os  riscos  são  inúmeros,  porém  aqueles  que  estão  fortemente 
ligados  ao  desenvolvimento  do  DORT  são  os  biomecânicos  (postura,  força,  compressão 
mecânica, repetitividade, habilidade) que estão enquadrados nos riscos ergonômicos. Oliveira 
et al. (1998) afirmam que o DORT é o resultado do uso abusivo dos músculos e tendões, por 
movimentos rápidos, repetitivos e de força, em ações estáticas e posturas inadequadas. 

A abordagem dos aspectos biomecânicos do DORT é mais freqüentemente valorizada 
talvez pelo fato de serem facilmente observados e mensurados. No entanto, Lym & Carayon 
(1995)  mapearam  a  base  multifatorial  do  DORT  que  somados  aos  fatores  biomecânicos 
evidenciam que o caminho para amenizar esta problemática não pode se limitar apenas a um 
destes fatores. A Figura 4 deixa bem clara a etiologia do DORT segundo estes autores. 

Etiologia 
Str ess 
psicológico 

DORT
Fator es 
psicossociais  Fator es 
er gonômicos 

Figura 4: Base multifatorial do DORT. Fonte: adaptado de Oliveira et al. (1998). 
O exercício da profissão leva o CD a utilizar de forma intensa os membros superiores 
o  que  pode  gerar  patologias  específicas  de  acordo  com  sua  especialidade.  Contudo,  Rasia 
(2004) aponta além das posturas fixas, o estresse como um componente que pode acentuar as 
patologias do trabalho. Aliados a isto também se encontram as características hereditárias e o 
estilo de vida adotado por cada um. 

Segundo  Smith  (1996),  há  oito  fatores  de  risco  que  interferem  na  possibilidade  de 
ocorrência  de  distúrbios  osteomusculares  nos  membros  superiores  relacionados  ao  trabalho. 
São eles: 
26

·  A freqüência dos movimentos do membro superior: índice de repetição e duração da 
exposição;

·  A postura das articulações do braço (mão, punho, cotovelo, ombro) e do pescoço;

·  A força necessária para realizar a tarefa ou a carga que cria forças na musculatura e 
nos tecidos;

·  A vibração;

·  As condições ambientais;

·  As características da organização do trabalho;

·  As condições psico­sociológicas;

·  Os fatores de risco de ordem individual, tal como o sexo. 

A instrução normativa do INSS descreve de forma exemplificada a relação entre 


o trabalho e algumas entidades nosológicas no Quadro 2. 

Lesões  Causas  Exemplos  Alguns 


ocupacionais  diagnósticos 
diferenciais 

Bursite do  Compressão do  Apoiar o  Gota, contusão 


cotovelo  cotovelo contra  cotovelo em  e artrite 
(olecraniana)  superfícies duras  mesas  reumatóide 
Contratura de  Compressão  Operar  Heredo­familiar 
fáscia palmar  palmar associada  compressores  (Contratura de 
à vibração  pneumáticos  Dupuytren) 
Dedo em Gatilho  Compressão  Apertar  Diabetes, artrite 
palmar associada  alicates e  reumatóide, 
à realização de  tesouras  mixedema, 
força  amiloidose. 
Epicondilites do  Movimentos com  Apertar  Doenças 
Cotovelo  esforços estáticos  parafusos,  reumáticas e 
e preensão  desencapar  metabólicas, 
prolongada de  fios, tricotar,  hanseníase, 
objetos,  operar  neuropatias 
principalmente  motosserra.  periféricas, 
com o punho  contusão 
estabilizado em  traumas. 
flexão dorsal e nas 
prono­supinações 
com uso de força. 
Quadro 2: Relação entre trabalho e as entidades nosológicas (continua). Fonte: Brasil (2003).
27 

Lesões  Causas  Exemplos  Alguns 


ocupacionais  diagnósticos 
difer enciais 

Síndrome do  Flexão extrema do  Apoiar  Epicondilite 


Canal Cubital  cotovelo com  cotovelo ou  medial, seqüela 
ombro abduzido.  antebraço em  de fratura, 
Vibrações.  mesa  bursite 
olecraniana 
forma T de 
Hanseníase. 
Síndrome do  Compressão da  Carimbar  Cistos sinoviais, 
Canal de Guyon  borda ulnar do  tumores do 
punho.  nervo ulnar, 
tromboses da 
artéria ulnar, 
trauma, artrite 
reumatóide e 
etc. 
Síndrome do  Compressão sobre  Fazer  Cervicobraquial 
Desfiladeiro  o ombro, flexão  trabalho  gia, síndrome 
Torácico  lateral do pescoço,  manual sob  da costela 
elevação do braço.  veículos,  cervical, 
trocar  síndrome da 1ª. 
lâmpadas,  costela, 
pintar  metabólicas, 
paredes, lavar  Artrite 
vidraças,  Reumatóide e 
apoiar  Rotura do 
telefones  Supra­ 
entre o ombro  espinhoso. 
e a cabeça. 
Síndrome do  Esforço manual  Carregar  Síndrome do 
Pronador  do antebraço em  pesos,  túnel do carpo 
Redondo  pronação.  praticar 
musculação, 
apertar 
parafusos. 
Síndrome do  Movimentos  Digitar, fazer  Menopausa, 
Túnel do Carpo  repetitivos de  montagens  trauma,tendinite 
flexão, mas  industriais,  da gravidez 
também extensão  empacotar.  (bilateral), 
com o punho,  lipomas, artrite 
principalmente se  reumatóide, 
acompanhados  diabetes, 
por realização de  amiloidose, 
força.  obesidade 
neurofibromas, 
insuficiência 
renal, lupus 
eritematoso, 
condrocalcinose 
do punho. 
Quadro 2: Relação entre trabalho e as entidades nosológicas (continua). Fonte: Brasil (1993).
28 

Lesões  Causas  Exemplos  Alguns 


ocupacionais  diagnósticos 
diferenciais 
Síndrome do  Compressão da  Carregar 
Interósseo  metade distal do  objetos 
Anterior  antebraço.  pesados 
apoiados no 
antebraço 
Tendinite do  Elevação com  Carregar  Bursite, 
Supra –  abdução dos  pesos sobre o  traumatismo, 
espinhoso  ombros associada  ombro  artropatias, 
a elevação de  doenças 
força.  metabólicas. 
Tenossinovite de  Estabilização do  Apertar botão  Doenças 
De Quervain  polegar em pinça  com o  reumáticas, 
seguida de rotação  polegar  tendinite da 
ou desvio ulnar do  gravidez 
carpo,  (particularment 
principalmente se  e bilateral), 
acompanhado de  estiloidite do 
força.  rádio 
Tendinite da  Manutenção do  Carregar  Artropatia 
Porção Longa do  antebraço  pesos  metabólica e 
Bíceps  supinado e fletido  endócrina, 
sobre o braço ou  artrites, 
do membro  osteofitose da 
superior em  goteira bicipital, 
abdução.  artrose acrômio­ 
clavicular e 
radiculopatias 
C5­C6. 
Tenossinovite  Fixação  Digitar,  Artrite 
dos extensores  antigravitacional  Reumatóide, 
operar mouse 
dos dedos  do punho.  Gonocócica, 
Osteoartrose e 
Movimentos 
Distrofia 
repetitivos de 
Simpático– 
flexão e extensão 
Reflexa 
dos dedos. 
(síndrome 
Ombro ­ Mão). 
Quadro 2: Relação entre trabalho e as entidades nosológicas. Fonte: Brasil (1993). 

Com  o  intuito  de  esclarecer,  mas  não  de  esgotar  o  assunto,  pretende­se  destacar  as 
principais patologias ou regiões corpóreas que o CD está predisposto a desenvolver. 

Segundo Michelin et al. (2000) e Laderas & Felsenfeld (2002), os distúrbios que mais 
acometem os CDs são: a síndrome do túnel do carpo, as tendinites e os problemas de pescoço 
e coluna. Segundo uma pesquisa realizada por Rio & Rio (2000) com 450 dentistas na cidade 
de  Belo  Horizonte,  92,12%  sentiram  nos  últimos  12  meses  dor  ou  incômodo  físico 
relacionados  ao  exercício  da profissão  e  96,85% consideram  a  profissão  estressante.  Gobbi 
(2003),  em  sua  pesquisa  com  165  CDs  de  uma  cidade  no  interior  de  São  Paulo,  encontrou
29 

referência a algum tipo de sintoma osteomuscular nos últimos 12 meses em 92,7%, sendo que 
as  regiões  mais  afetadas  foram  a  cervical  (67,3%),  punhos  e  mãos  (63%),  lombar  (62,4%), 
torácica  (61,2%)  e  ombros  (58,8%).  Resultados  próximos  destes  foram  encontrados  por 
Finsen et al. (1998), onde 65% dos entrevistados em sua pesquisa na Dinamarca apresentavam 
algum tipo de dor ou desconforto também nas regiões do pescoço e/ou ombros. No entanto, 
para  Régis  Filho  et  al.,  (2005)  as  regiões  mais  afetadas  pelo  DORT  são  ombro/braço 
(39,40%),  punho/mão  (18,30%)  e  pescoço  (17,20%).  Neste  mesmo  trabalho  os  autores 
afirmam que o CD pertence a um grupo profissional exposto a risco considerável de adquirir 
algum  tipo  de  DORT  desde  que  alguns  fatores  (força  excessiva,  posturas  incorretas,  alta 
repetitividade  de  um  mesmo  padrão  de  movimento,  compressão  mecânica  dos  tecidos, 
características pessoais) estejam presentes. 

Michelin  et  al.  (2000)  também  cita  uma  alta  prevalência  de  dores  lombares, 
desconforto  no  pescoço  e ombro.  Burke  et  al.  (1997)  apontaram  a  aposentadoria  prematura 
por  DORT  em  29,5%  da  população  de  393  CD  pesquisados.  Por  fim,  Murphy  (1997) 
sintetizou as pesquisas realizadas ao longo de 40 anos segundo o público­alvo e região afetada 
pela dor ou desconforto. É o que se pode observar no Quadro 3: 

Pesquisador (es)  Ano  População alvo  Par te do cor po afetada 


Eccles & Powell  1955/1956  CDs  Punho/mãos 
Murtomaa  1982  CDs e auxiliares  Extremidades inferiores 
Diakow & Cassidy  1984  CDs  Região lombar 
Anderson  1984  Trabalhadores manuais  Pescoço 
Katevuo  1985  CDs  Coluna cervical 
Shugars  1987  CDs  Diversos locais 
Melrad  1990  CDs  Pescoço/Cervical 
Rundcrantz  1990  CDs  Ombros/Pescoço 
Stock  1991  Profissionais  da  área  Braços 
odontológica 
Oberg  1993  Higienista dental  Pescoço/Ombros 
Stockstill  1993  CDs  Extremidades superiores 
Conrad  1993  Higienista dental  Punhos 
Liss  1995  Higienista dental  Diversos locais 
ADA  1995  CDs e higienistas  Diversos locais 
Marklin  1996  CDs  Região lombar 
Quadro 3: Estudos pertinentes às condições biomecânicas em profissionais da área odontológica (Murphy, 
1997).   Fonte: Rasia (2004).
30 

Segundo  Murphy  (1997),  os  fatores  de  risco  para  desenvolver  o  DORT  foram 
identificados  e  podem  ser  demonstrados  pela  não  adoção  dos  princípios  ergonômicos, 
incluindo, dentre diversas causas, o posto de trabalho, as ferramentas, o paciente, as técnicas 
de trabalho (uso do espelho), a organização e o ambiente de trabalho. No entanto, não estão 
limitados  somente  a  uma  causa  independente,  apresentando  assim,  razão  multifatorial, 
concordando,  portanto  com  Lym  &  Carayon  (1995).  Os  dados  acima  confirmam  a 
necessidade de se compreender melhor a gênese destes distúrbios e a atividade do CD. 

2.5  Er gonomia e Odontologia 
As  primeiras  contribuições  da  ergonomia  no  campo  da  odontologia  destinaram­se  a 
melhorar  as  condições  de  trabalho  dos  CDs,  criando  e  aperfeiçoando  as  ferramentas, 
instrumentos  e  mobiliário  utilizado  por  esses  profissionais.  A  abordagem  human  factors  ou 
anglo­saxônica  é  muito  forte  nos  estudos  ergonômicos  voltados  para  essa  área.  De  fato,  na 
revisão  da  literatura  sobre  ergonomia  na  odontologia  ainda  é  incipiente  os  estudos  com  a 
abordagem francofônica, ou seja, estudos ergonômicos voltados para a análise da atividade. 
Embora  seja  citada no  histórico  da odontologia  a  construção da  primeira  cadeira  em 
1790,  feita  especificamente  para  os  pacientes,  pelo  dentista  americano  Josiah  Flagg,  para 
Barros (1993) a primeira grande novidade no campo da ergonomia voltada para a odontologia 
se  dá  com  a  construção  da  cadeira  operatória  do  tipo  Relax,  em  1944,  sendo  inspirada  nas 
poltronas para pilotos de bombardeiros B­29, que proporcionaram ao dentista trabalhar com o 
paciente  na  posição  sentada  ou  reclinada  e  com  o  mínimo  de  tensão  possível.  Em  seguida, 
surgiram  as  demais  inovações,  tais  como  o  primeiro  mocho  giratório,  o  Posture­Confort­ 
Stool,  e  a  técnica  para  sucção  de  alta  potência,  Washed­Field­Technique,  permitindo  que  o 
dentista  executasse  seu  trabalho  com  o  campo  operatório  limpo,  boa  visibilidade  e  sem 
maiores  interrupções.  Outra  grande  contribuição  (MARQUAT,  1980)  foi  à  concepção  do 
equipo  dividido,  split  unit  concept,  que  separava  os  elementos  do  equipo  do  CD  dos 
elementos da assistente, ao invés de estarem todos juntos, como era originalmente. 
Contudo  foi  o  artigo  referente  à  Ergonomia  em  Odontologia  publicado  por  Eccles  e 
Powell no Reino Unido que introduziu os conceitos de ergonomia para odontologia na década 
de  50  (MURPHY,  1997).  Em  1959,  foi  realizado  um  grande  workshop  sobre  problemas 
físicos  relacionados  ao  trabalho  odontológico  na  Western  Reserve  University  School  of 
Dentistry,  Cleveland,  Ohio  (LALUMANDIER  et  al.,  2001  apud  RASIA  2004).  Esse 
workshop  foi  realizado  para  avaliar  as  posturas  e  movimentos  dos  CDs  em  seu  trabalho
31 

clínico, sendo então publicado em 1963 o primeiro artigo norte­americano sobre Ergonomia e 
Odontologia (MURPHY, 1997). 
Posteriormente,  em  1965,  outros  estudos  foram  realizados  pela  Pierre  Fauchard 
Academy,  que  confirmaram  que  um  terço  dos  CDs  sofria  com  problemas  nas  costas. 
Kilpatrick  e  colaboradores  identificaram  as  regras  posturais  e  de  procedimentos  na  década 
seguinte  e  determinaram  normas  para  o  trabalho  odontológico  na  posição  sentada 
(LALUMANDIER et al., 2001 apud RASIA, 2004). 
De 1970 até a atualidade, as universidades têm trabalhado os conceitos e práticas  na 
atividade odontológica como a lógica nos procedimentos, o “trabalho a quatro mãos”, human 
factors e ergonomia odontológica propriamente dita (LADERAS & FELSENDELD, 2002). 
A  University  of  British  Columbia ,  no  início  da  década  de  1980,  realizou  pesquisas 
buscando  investigar  a  lógica  nos  procedimentos  clínicos,  baseado  em  um  modelo  postural 
individual (RUCKER  & SUNELL, 2002). Os trabalhos iniciaram com estudos de exercícios 
proprioceptivos para determinar as preferências posturais do profissional e adoção de posições 
para  controle  físico  e  visual  na  atividade  de  movimento  fino,  baseado  nas  necessidades 
músculos­esqueléticas individuais, anatômicas e fisiológicas. Utilizou­se para isso estratégias 
operacionais as quais tentavam neutralizar as limitações que talvez tenham sido impostas pelo 
equipamento específico e pela experiência psicomotora prévia. 

Atualmente  os  CDs  desenvolvem  suas  atividades  profissionais  com  sofrimento 


psíquico e físico. Atuam em um contexto macrossocial de alta competitividade, aumento da 
produtividade  e  redução  de  custos.  O  estresse  derivado  deste  contexto  tem  sido  bastante 
significativo.  Neste  cenário  é  que  a  ergonomia  odontológica  busca  adequar  o  trabalho 
odontológico às características do ser humano, propiciando saúde e produtividade no trabalho 
e na vida. É a aplicação dos conceitos da ergonomia à prática odontológica, com o objetivo 
de racionalizá­la, de acordo com as características do trabalho odontológico  (RIO &  RIO, 
2000),  possibilitando  ao  profissional  evitar  posturas  e  movimentos  não  produtivos  e  anti­ 
anatômicos,  evitando  a  fadiga  e  o  desgaste  desnecessário,  produzindo  mais  e  melhor  e 
proporcionando  maior  conforto  e  segurança  ao  paciente.  Segundo  os  mesmos  autores  a 
ergonomia odontológica visa principalmente:

·  Propiciar maior conforto no trabalho;

·  Prevenir o estresse e a fadiga visual, física e psíquica;
32

·  Prevenir  sintomas  (dor,  dormência,  perda  de  força)  e  afecções  músculo­esqueléticas 


relacionadas ao trabalho;

·  Prevenir o aparecimento de varizes dos membros inferiores. 

Para  Djerassi  (1971)  apud  Castro  &  Figlioli  (1999),  a  ergonomia  aplicada  à 
odontologia  tem  como  objetivo  obter  meios  e  sistemas  para  diminuir  o  estresse  físico  e 
mental, prevenir as doenças ocupacionais, buscando uma produtividade mais expressiva. 

Seguindo  a  linha  Human  Factors  busca­se  a  racionalização  do  trabalho  (POI  & 
TAGLIAVINI,  1999)  com  a  organização  dos  procedimentos  clínicos,  conceitos  sobre 
gerenciamento empresarial, noções sobre ergonomia, divisão da área de trabalho e postura de 
trabalho,  odontologia  a  quatro mãos  e  preservação da  saúde do  profissional.  Para  Castro  & 
Figlioli (1999), os princípios ergonômicos, os conceitos de racionalização dos procedimentos 
odontológicos  e  sua  respectiva  aplicação  são  fundamentais  para  alcançar  a  simplificação  do 
trabalho, a prevenção da fadiga e o maior conforto tanto para equipe quanto para o paciente. 

2.5.1  O posto de tr abalho odontológico 


Para  bem  se  compreender  a  atividade  do  CD  antes  de  tudo  é  importante  introduzir 
alguns conceitos acerca do posto de trabalho. 

Segundo  Iida  (2005),  o  posto  de  trabalho  (PT)  é  a  configuração  física  do  sistema 
homem­máquina­ambiente.  É  uma  unidade  produtiva  envolvendo  um  homem  e  o 
equipamento que ele utiliza para realizar o trabalho, bem como o ambiente que o circunda. 

Para Rio & Rio (2000), o PT do CD é constituído pelos seguintes elementos:

·  Cadeira odontológica;

·  Mocho do dentista;

·  Refletor;

·  Equipo;

·  Unidade suctora (sugador e cuspideira);

·  Unidade auxiliar.
33 

Para  Barros  (2006),  o  PT  é  formado  por  duas  unidades  dentárias  tripartidas  (UDT), 
sendo que, cada UDT é dividida também em três unidades: 

a)  Unidade do paciente:

·  Cadeira odontológica.

·  Encosto para nuca e ombros. 

b)  Unidade do CD:

·  Dois aparelhos de corte de alta rotação com as pontas;

·  Dois aparelhos de corte de baixa rotação com as pontas (micromotor);

·  Um  aparelho  auxiliar  específico  de  acordo  com  a  especialidade  exercida  pelo 
profissional;

·  Uma seringa tríplice (água, ar e spray);

·  Armário fixo;

·  Armário móvel;

·  Uma bandeja auxiliar acoplada ao equipo;

·  Um mocho;

·  Comandos eletrônicos de todos os aparelhos no pé direito. 

c)  Unidade da auxiliar intra­bucal:

·  Armários fixos;

·  Unidades suctoras de baixa e alta potência;

·  Seringa tríplice;

·  Funil (cuspideira móvel);

·  Armário ou bandeja auxiliar;
34

·  Mocho;

·  Comandos eletrônicos de todos os aparelhos nos pés;

·  Aparelhos  auxiliares  acionados,  comandados,  corrigidos  e  fornecidos  pela  auxiliar 


extra­bucal quando presente na equipe. 

Neste trabalho, a unidade produtiva do caso estudado se enquadra no conceito de Rio 
& Rio (2000), uma vez que é utilizado apenas uma UDT e sem uma equipe de auxiliares extra 
e intra­bucal. 

Em  relação  à postura que  deve  ser  adotada,  a  posição  sentada  é  considerada  a  mais 
favorável para exercer a atividade odontológica, pois o gasto energético é menor que em pé. 
Barros (2006) cita a pesquisa de E. Atzler que em seu manual de fisiologia afirma que uma 
pessoa sentada consome 4% de energia e uma pessoa em pé 12%. Quando se adota a postura 
em  pé  e  inclinada  este  consumo  energético passa  para 55%.  De  acordo com  Barros  (2006), 
inicialmente o trabalho odontológico era executado com o CD em pé e sem auxiliar. Finsen et 
al.  (1998)  constatou  que  82%  dos  dentistas  na  Dinamarca  trabalhavam  principalmente 
sentados, 13%  em  pé  e  o  restante  alternava  essas posições.  Segundo  Iida  (2005),  a  posição 
sentada  exige  atividade  muscular  do  dorso  e  do  ventre  para  manter  esta  postura  e  a  ligeira 
inclinação  para  frente  a  torna  mais  natural  e  menos  fatigante  do  que  a  ereta.  Em  relação  à 
posição  em  pé,  a  sentada  tem  a  vantagem  de  liberar  as  pernas  para  tarefas  produtivas  e 
facilitar  a  realização  de  trabalhos  delicados  com  os  dedos.  Isto  vem  de  encontro  com  a 
atividade  do  CD  que  precisa  ao  mesmo  tempo  utilizar  o  pedal  para  acionar  o  motor  e  de 
precisão motora e visual para intervir no dente. Dul & Weerdmeester (2001) vêem a postura 
sentada também como menos fatigante que a postura em pé, contudo recomendam que não se 
deva ficar por tempo prolongado na posição sentada. Este fato se torna mais importante para 
as  atividades  que  exijam  um  acompanhamento  visual  onde  o  pescoço  e  as  costas  ficam 
inclinados para frente e  são submetidos à tensão. Por fim, recomendam que quando a tarefa 
exige um tempo prolongado sentado, deve­se alternar com outras tarefas que permitam andar 
ou ficar em pé. De encontro a esta recomendação Barros (2006) sugere duas UDT para que o 
CD  possa  alternar  as  posturas  sentada,  em  pé  e  andando.  No  entanto,  isto  apenas  se  torna 
possível quando se possui uma equipe de auxiliares. 

Levando em consideração a racionalização do trabalho, a maneira mais favorável de se 
trabalhar (BARROS, 2006) em odontologia é com o “trabalho a 4 mãos”. Desde 1943, Klein
35 

demonstrou que um CD utilizando uma auxiliar atendia 33% de pacientes a mais que um CD 
sem auxiliar. Em 1946, Waterman trabalhando com uma auxiliar bem preparada aumentou em 
50% sua produtividade e com duas auxiliares aumentou para 75% (BARROS, 2006). Segundo 
Finkbeiner (2000), o “trabalho a quatro mãos” abrange um conceito de trabalho em conjunto 
por uma habilidade individual precisa dentro de padrões ergonomicamente delineados com o 
intuito  de  promover  produtividade  da  equipe  odontológica,  qualidade  nos  cuidados  com  o 
paciente, ao mesmo tempo em que busca o bem­estar dos profissionais que compõem o grupo. 
Tal  sistema  de  trabalho  apenas  é  interessante  quando  o  mesmo  minimiza  movimentos 
indesejados  e  acelera  a  maioria  dos  procedimentos.  A  delegação  de  funções  simples  ao 
auxiliar traz resultados altamente satisfatórios no balanço final. 
Atualmente,  é  absurda  a  idéia  de  um  CD  trabalhar  sem  um  auxiliar,  mas  há 
profissionais  que  ainda  o  fazem  (BARROS,  1995).  A  técnica  de  transferência  de 
instrumentos, comumente utilizada na medicina, aumenta a produtividade e é pouco utilizada 
na  odontologia.  O  “trabalho  a  quatro  mãos”  não  se  configura  na  simples  transferência  de 
instrumental de um profissional para o outro e nem no aumento substancial de velocidade no 
atendimento.  Mais  do  que  isso,  esse  sistema  é  o  caminho  para  um  trabalho  inteligente  e 
eficiente. 
Para muitos CDs e assistentes (FINKBEINER, 2000) é rotina afirmar que executam o 
“trabalho  a  4  mãos”.  No  entanto,  os  relatos  de  estresse  físicos  são  evidentes,  devido  à 
utilização  inadequada  de  equipamentos  e  técnicas,  pois  há  desconhecimento  dos  conceitos 
básicos  do  “trabalho  a  4  mãos”.  Os  dentistas  podem,  ainda,  serem  observados  realizando 
torções e virando­se para alcançar instrumentos ao seu lado. Se o assistente não está repondo 
constantemente todo o instrumental necessário e/ou os equipamentos não estão ao alcance do 
assistente, o verdadeiro “trabalho a 4 mãos” não está sendo praticado. 
Com  o  objetivo  de  orientar  a  atividade  odontológica  é  que  a  Internacional 
Organization  for  Standardization  (ISO)  e  a  Federation  Dentaire  Internacionale  (FDI) 
descreveram esquematicamente o sistema de trabalho para esta classe. O esquema se baseia 
em  um  relógio  imaginário  colocado  sobre  o  posto  de  trabalho  odontológico  onde  se  pode 
indicar a posição a ser adotada pelo CD e seu auxiliar durante o atendimento do paciente (POI 
& TAGLIAVANI, 1999; CASTRO & FIGLIOLI, 1999). No centro deste sistema encontra­se 
o campo operatório. O paciente com a cabeça voltada para as 12 horas e os pés para 6 horas. 
A posição do CD e do auxiliar será então denominada de acordo com o número para o qual as 
costas  deste profissional  estejam  voltadas.  A  Figura 5  mostra o esquema  gráfico  com o  CD 
em 9h e seu auxiliar em 3h.
36 

Figura 5: esquema gráfico ISO/FDI. Fonte: Porto (1994). 

Além disso, toda a atividade do tratamento está em volta do paciente (FINKBEINER, 
2000).  Essa  área  de  trabalho  pode  ser  dividida  em  4  zonas  ou  regiões  de  atividade.  Essa 
orientação  também  é  realizada  com  um  mostrador  de  relógio.  Deste  modo,  tem­se  para 
profissionais destros a região:
·  do operador: estende­se das 7 às 12 horas;
·  do assistente: das 2 às 4 horas;
·  de transferência: entre 4 e 7 horas;
·  estática: entre 12 e 2 horas. 
Normalmente,  o  CD  destro  posiciona­se  em  7,  9  ou  11  horas.  As  posições  mais 
vantajosas  para  execução do trabalho  odontológico  são  em 9  e 11  horas.  A posição 9  horas 
(CASTRO & FIGLIOLI, 1999; BARROS, 2006) permite ao CD ampla visualização direta das 
faces  dos  dentes  inferiores  e  superiores,  assim  como  da  maioria  das  regiões  da  boca.  Sua 
vantagem  em  relação  à  posição  de  7  horas  é  que  se  houver  inclinação  do  tronco,  esta  será 
frontal  e  não  lateral,  além  de  manter  os  braços  junto  ao corpo. Em 11 horas, o profissional 
trabalha  com  visão  indireta,  principalmente  das  faces  palatinas  dos  dentes  anteriores 
superiores,  sendo  orientada  para  utilização  de  instrumentos  manuais  e  turbina  de  baixa 
rotação. 
Pesquisa  realizada  com  CDs  dinamarqueses  apontou  a  posição  de  10  horas  como  a 
mais  adotada,  enquanto  que  as  posições  de  9  e  11  horas  apresentaram­se  em  segundo  e 
terceiro  lugar  respectivamente  na  preferência  dos  pesquisados.  Nessa  mesma  pesquisa, 
somente 2% dos profissionais trabalham sem auxiliares em tempo integral. Já 34% utilizam 
auxiliares  em  mais  de  50%  de  suas  atividades  e  18%  clinicam  com  auxiliares  em  todos  os
37 

procedimentos (FINSEN et al, 1998). No Brasil, sabe­se que 56,7% dos CDs trabalham sem 
auxiliar (CFO, 2002). 
As sugestões para um posicionamento correto da equipe sugerem que o CD deve estar 
sentado  em  posição  de  9  horas,  com  o  paciente  reclinado  em  posição  supina  e  o  auxiliar 
posicionado em 3 horas com pequenas variações à esquerda e à direita. Barros (2006) acredita 
que  nesta  posição  o  CD  pode  atuar  em  qualquer  dente,  em  qualquer  face  com  visão  direta 
concordando, portanto com Castro & Figlioli (1999). O auxiliar (POLLACK, 1996) também 
deve ter acesso total ao campo operatório, para que o serviço técnico torne­se mais preciso. 
Todos  os  aparelhos  (equipos,  periféricos,  bandeja  auxiliar  com  instrumentais  e  materiais 
necessários,  armários  ou  gavetas  de  armários,  suctor,  terminal  de  computador)  e  o  campo 
operatório devem estar em um plano horizontal imaginário que passa a altura do cotovelo do 
CD quando ergonomicamente sentado. A tolerância de variação de altura para este plano é de 
até 15 cm acima do mesmo. 
Para Castro & Figlioli (1999), a visão direta para o auxiliar pode ser alcançada com o 
posicionamento entre 1 e 3 horas, podendo também adotar a posição de 5 horas. No entanto a 
posição  de  3  horas  permite  que  o  auxiliar  tenha  uma  visão  direta  do  campo  operatório, 
desempenhando muito bem o afastamento e sucção, obtendo­se menor fadiga e assim, melhor 
rendimento.  Esse  posicionamento  é  ideal  quando  o  CD  trabalha  em  9  ou  11  horas.  Para  os 
profissionais canhotos as posições devem ser invertidas com as do auxiliar. 
Tanto  o  CD  quanto  seu  auxiliar  necessita  do  máximo  suporte  lombar  oferecido  por 
seus respectivos mochos (POLLACK, 1996; POLLACK­SIMON, 2000). O auxiliar necessita 
estar  a  uma  altura  de 10  a  15  centímetros  a  mais que  a  visão  do  CD  com um suporte  para 
descanso  dos  pés.  A  posição  elevada  permite  uma  visualização  do  campo  operatório  acima 
das  mãos  do  profissional,  enquanto  ocorre  a  assistência.  Além  disso,  o  paciente  também 
participa da adoção de posturas que facilitem o trabalho do CD. Sempre se deve solicitar ao 
paciente que altere a posição de sua cabeça para melhor visualização e estabilidade do campo 
operatório. 
Para  reorganizar  os  materiais  com  objetivo  de  atingir  as  condições  de  trabalho 
favoráveis é interessante exemplificar os movimentos desempenhados no dia­a­dia pelos CDs. 
Barros  (1999)  classificou  os  movimentos  desempenhados  pelo  CD  em  5  tipos,  conforme  é 
mostrado no Quadro 4:
38 

Movimento  Exemplo 
1  Somente dos dedos  Pegar um rolete de algodão. 
2  De dedos e punho  Manipular um instrumento manual. 
3  Dedos, punho e cotovelo  Alcançar a caneta de alta­rotação. 
4  Todo o braço e ombro  Alcançar materiais além da área de trabalho, sem fazer torção da coluna. 
5  Torção completa do  Virar­se para alcançar um equipamento. 
tronco 
Quadro 4: Classificação dos movimentos do cirurgião­dentista. Fonte: Barros (1999). 

Os movimentos (BARROS, 1999) que englobam as classes 1, 2 e 3 formam o que é 
considerada a área ótima para o trabalho com as duas mãos (Figura 6). 

Figura 6: Zonas de alcance. Fonte: Iida (2005). 

Esta área é denominada área de pega normal e o  campo operatório deve estar dentro 
deste espaço para evitar que o profissional realize movimentos incorretos. 
As faculdades de odontologia são os melhores locais para aprendizagem ergonômica e 
dos  princípios  de  utilização  dos  equipamentos  para  otimizar  o  trabalho.  No  entanto,  essas 
entidades  freqüentemente  oferecem  equipamentos  antigos  os  quais  apresentam  uma 
configuração mais eficiente para instrução do que para a prática (RUCKER, 2000; BARROS 
1999).  Além  disto,  normalmente  adota­se  o  trabalho  a  2  mãos  durante  o  período  de 
aprendizado  na  maioria  das  faculdades,  o  que  dificulta  ainda  mais  a  assimilação  de  um 
trabalho ergonomicamente correto (FINKBEINER, 2000; RUCKER, 2000). 

2.6  Análise Er gonômica do Tr abalho 


2.6.1  Considerações iniciais 
Segundo  Wisner  (2004),  a  AET  surgiu  nos  trabalhos  de  Pacaud  nas  suas  pesquisas 
sobre  os  carteiros  de  registro  da  SNCF   (1946),  (Societé  National  des  Chemins  de  Fer   –
39 

Sociedade  Nacional  das  Ferrovias)  em  que  ela  mostra  que  todas  as  operações  são  de  uma 
extrema  variedade,  não  acontecem  a  partir  de  uma  ordem  pré­estabelecida,  mas  se 
entrelaçam  e  algumas  são  abandonadas  momentaneamente,  em  benefício  de  outras  mais 
urgentes e imperativas. Em seu trabalho com operadoras de informações telefônicas Pacaud 
(1949),  releva  quatorze  tipos  de  dificuldades  que  as  operadoras  deviam  resolver.  Embora 
tenha inaugurado esta prática ela não teorizou a respeito, o que foi retomado de maneira mais 
abrangente  por Ombredane e  Faverge  na obra  “A  Análise  do Trabalho”  publicado  em 1955 
(WISNER, 1994) onde esses autores escrevem: 

Certos  aspectos  significativos  da  tarefa  estão  previstos  e  inscritos  nos  ensinamentos  próprios  da 
formação profissional; outros há,  em número indefinido, que não estão previstos e estão sujeitos à descoberta 
do  trabalhador.  Acrescentemos  que  esta  descoberta  não  leva  necessariamente  a  uma  clara  tomada  de 
consciência  por  parte  do  trabalhador  e  que  está  na  origem  de  impressões  e  macetes  que  atribuímos  de  bom 
grado a algum dom natural do homem. 

Wisner  (1994)  evidencia  que  neste  texto  estão  claramente  descritas  as  razões  que 
exigem  a  realização  de  análises  do  trabalho,  observações  feitas  diretamente  no  campo, 
dirigindo­se não somente às ações, mas também às observações e às tomadas de informações 
pelos trabalhadores. Contudo, foi a partir de Thereau e Pinsky que a AET foi mais claramente 
identificada e descrita. 

A AET é considerada um método de abordagens ascendentes (Bottom up ) se opondo 
ao  método  experimental  (descendente  ou  top  down ),  e  é  utilizada  para  responder  a  uma 
questão  precisa  e  é  orientada  para  a  proposição  de  soluções  operatórias.  Sua  característica 
fundamental,  segundo  Wisner  (2004),  é  de  ser  um  método  destinado  a  examinar  a 
complexidade,  sem  colocar  em prova  um  modelo  escolhido a priori. A  AET  aparece  como 
ferramenta  essencial  de  orientação  da  intervenção  ergonômica  e  não  leva  somente  às 
transformações ergonômicas, mas também às contribuições essenciais para a organização do 
trabalho,  à  definição  dos  postos  de  trabalho,  à  formação  das  transferências  de  tecnologias, 
dentre outros. 

2.6.2  Objeto de estudo da AET 
O traço fundamental da ergonomia anglófona é que ela visa melhorar os instrumentos 
técnicos e os meios de trabalho, de onde se tem que o objeto desta linha é em primeiro lugar o 
equipamento,  portanto  privilegia  as  pesquisas  em  laboratório.  No  caso  da  ergonomia 
francofônica  o  objeto  é  o  trabalho  (WISNER,  2004),  o  conhecimento  das  atividades  de 
trabalho.  Sua  intervenção  em  situações  especificas  é  efetuada  diretamente  nos  locais  de
40 

trabalho  (MAGGI,  2006).  Ao  contrário  das  técnicas  de  tempos  e  métodos  tradicionais  que 
reduz  o  trabalho  a  uma  somatória  de  gestos  isolados  e  passíveis  de  serem  divididos, 
reelaborados e recompostos, a AET vai buscar como o trabalhador enquanto um ser integral 
age, raciocina e utiliza sua inteligência para fazer face às  variabilidades e imprevistos que a 
ele se apresentam nas situações de trabalho (SALERNO, 1998). Para Iida (2005), a AET visa 
ampliar  os  conhecimentos  da  ergonomia  para  analisar,  diagnosticar  e  corrigir  uma  situação 
real de trabalho. 

A situação real de trabalho é o campo no qual a atividade do homem é exercida. Então 
se  tem  que  a  atividade  do  homem  no  trabalho  é  orientada  em  vista  de  um  determinado 
resultado. Esta atividade é organizada  no interior de um grupo social e exercida de maneira 
regular. O resultado desta atividade que é econômica e produtora de utilidade social necessita 
de  coordenação  do  conjunto  das  atividades  humanas,  no  sentido  de  produzir  o  que  é  útil. 
Neste sentido, a atividade de trabalho é a maneira como esse resultado é obtido, isto é, a ação 
ou forma de trabalhar na matéria, de manejar um instrumento, maneira como uma coisa criada 
pelo  homem  foi  executada  (FIALHO  &  SANTOS,  1995).  Portanto,  a  ergonomia  tem  por 
objeto de estudo o trabalho e o cerne deste objeto é a própria atividade de trabalho (GUÉRIN 
et al., 2001). 

2.6.3  Tar efa e atividade 


Neste momento é interessante introduzir o conceito de tarefa para que se possa fazer 
uma distinção deste do de atividade. Guérin et al. (2001) explicam e exemplificam: quando se 
pergunta a um trabalhador sobre seu trabalho, ele fala a princípio sobre os resultados a obter 
de  seu  trabalho  (ele  embala  produtos,  ela  costura  vestidos,  ela  atende  desempregados,  ele 
dirige  trens,...)  e  em  seguida  dos  meios  de  que  dispõe  (eu  disponho  de  caixas  de  papelão, 
bandejas plásticas, um rolo de filme PVC, tenho uma máquina de costura, tenho um fichário, 
uso o telefone,...). Na realidade eles estão se referindo às tarefa que cumprem. Então, têm­se a 
tarefa como os resultados antecipados a partir das condições determinadas. Esquematicamente 
isto é demonstrado na Figura 7:
41 

Condições 
deteminadas 

TAREFA 

Resultados 
antecipados 

Figura 7: A tarefa. Fonte: Guérin et al., (2001). 

Ainda para estes mesmos autores, o conceito de atividade é dado como a maneira que 
os  resultados  são  obtidos  e  os  meios  utilizados.  Complementando  o  esquema  mostrado  na 
Figura 7, tem­se então a Figura 8: 
Tr abalho 
r eal
Trabalho 
prescr ito 

Condições 
r eais 

Condições 
deteminadas 
ATIVIDADE DE 
TAREFA  TRABALHO 

Resultados 
antecipados 
Resultados 
efetivos 

Figura 8: Tarefa, atividade e trabalho. Fonte: Guérin et al., (2001). 

Pode­se concluir, portanto que existem três realidades:

·  a tarefa como resultado antecipado fixado em condições determinadas;

·  a atividade de trabalho como realização da tarefa;

·  o trabalho como unidade da atividade de trabalho, das condições reais e dos resultados 
efetivos dessa tarefa. 
42 

Portanto,  tem­se  que  a  análise  ergonômica  da  atividade  é  a  análise  das  estratégias, 
entendidas  aqui  como  regulação,  antecipação,  usadas  pelo  operador  para  administrar  a 
distância entre “o que é pedido” (trabalho prescrito) e “o que a coisa pede” (trabalho real). A 
tarefa é imposta ao operador. Ela é exterior ao operador, determina e constrange sua atividade, 
mas  ao  mesmo  tempo  é  indispensável  para  que  ele  possa  operar.  A  atividade,  segundo 
Ferreira  &  Mendes  (2003),  tem  um  caráter  mediador,  apresentando  uma  dinâmica  de 
“mutações”, em que o indivíduo transforma o contexto e ao mesmo tempo é transformado por 
ele. 

2.6.4  A constr ução da ação er gonômica 


A  análise  da  atividade  de  trabalho,  segundo  Guérin  et  al.  (2001),  tem  sua 
particularidade: não existe modelo único de ação ergonômica e sim alguns princípios comuns 
importantes.  É  ao  longo  do  desenvolvimento  da  ação  que  o  ergonomista  constrói  sua 
compreensão  da  situação  de  trabalho,  apreende  a  realidade  em  sua  especificidade  inclusive 
frente  aos  imprevistos  e  a  diversidade  de  demandas  e  dos  objetos  da  ação  ergonômica.  A 
análise  da  atividade  de  trabalho  tem  essa  especificidade:  não  pode  ser  uma  abordagem 
baseada simplesmente na aplicação de ferramentas pré­construídas.  Ela é um processo onde o 
ergonomista entra, no qual fica imerso. É ao longo do desenvolvimento do processo que ele 
constrói  sua  compreensão  da  situação  de  trabalho  e  estrutura  de  maneira  adequada  seus 
conhecimentos. 

Sendo  a  AET  um  método  destinado  a  analisar  a  complexidade  das  situações  de 
trabalho,  ninguém  pode  pretender  fazer  uma  abordagem  somente  com  sua  competência. 
Portanto, é necessário fazer um certo recorte do campo de conhecimento e da ação. Cada um 
se  coloca  em  função  deste  recorte  sem  ignorar  que  a  dimensão  de  trabalho  pela  qual  se 
interessa não é independente das outras. 

O  método  AET  (GUÉRIN  et  al.,  2001)  tem  como  foco  o  estudo  da  atividade  e  não 
possui  rigidez  em  suas  etapas,  ao  contrário,  permite  uma  flexibilização  de  acordo  com  a 
situação real de trabalho. Os autores apresentam o esquema geral da abordagem ergonômica 
como sendo uma construção que se elabora e toma forma ao longo do desenrolar da ação  e 
cada ação é singular. Existe, porém um conjunto de fases que vão estruturar a construção da 
ação ergonômica, onde a importância de cada uma, o que compreendem as idas e vindas entre 
elas, é específica de cada ação ergonômica.
43 

O  esquema  do  Quadro  5  mostra  as  etapas  que  compõem  a  AET.  A  intervenção  em 
ergonomia é um processo singular que tem seu início a partir de uma demanda socialmente 
estabelecida. Os contornos e as formas dessa intervenção vão se transformando no confronto 
com a realidade de trabalho, determinando a seqüência das etapas e os recortes da realidade. 
A  AET,  com  todas  as  suas  etapas,  implica  em  decompor  para  apreender  a  atividade  para 
recompô­la  sob  novas  bases,  considerando  a  análise  de  trabalho  real  e  a  participação  do 
trabalhador no processo (ABRAHÃO, 1993). 

Das primeiras formulações de demanda à identificação dos 
fatores gerais em jogo: análise da demanda e do contexto, 
reformulação da demanda. 

Exploração do funcionamento da empresa e de 
seus traços: características da população, da 
produção, indicadores relativos à eficácia e à 
saúde. Hipóteses de nível 1: escolha das 
situações a analisar. 

Análise do pr ocesso técnico e 
das tar efas 

Inter ação 
Obser vações globais da atividade  com 
(obser vações aber tas)  os 
oper ador es, 
papel 
Formulação  das 
de um  entr evistas 
pré­diagnóstico  e das 
Hipóteses  ver balizações 
de  Definição 
Nível 2  de um plano de 
obser vações 
Observações 
sistemáticas 
Tratamento dos 
dados 
Validação

Diagnóstico: 
­ diagnóstico local incidindo sobre a(s) situação(ões) 
analisada(s) em detalhe; 
­ mas igualmente diagnóstico global incidindo sobre 
o funcionamento mais geral da empresa. 

Quadro 5: Etapas da intervenção ergonômica. Fonte: Guérin et al. (2001). 
44 

Para Guérin et al. (2001), a AET pode ser organizada da seguinte forma: 

a)  A análise da demanda 
A  ação  ergonômica  inicia­se  a  partir  de  uma  demanda,  aqui  entendida  como  uma 
solicitação,  um  pedido.  Frequentemente,  a  demanda  é  um  incômodo  que  se  apresenta 
cotidianamente e é quase sempre colocada em termos de problemas a resolver, isolados de seu 
contexto.  Portanto,  é  necessário  reformular  a  demanda  inicial  e  hierarquizar  os  diferentes 
problemas  colocados,  articulá­los  entre  si  e,  às  vezes  apontar  outros.  Deve­se  detectar  a 
natureza  dos  outros  problemas  potenciais  interrogando­se  sobre  o  grau  de  importância 
daqueles que foram apontados e reformular a demanda inicial numa problemática de natureza 
ergonômica centrada na atividade de trabalho (GUÉRIN et al., 2001). Nesta fase, os primeiros 
dados  da  situação  de  trabalho  são  levantados,  permitindo  a  formulação  das  hipóteses  de 
primeiro nível (hipóteses de  nível 1 ou preliminares) a serem consideradas na realização do 
estudo:  tipo  de  tecnologia  utilizada,  organização  do  trabalho  implantada,  principais 
características  do pessoal  disponível,  principais  aspectos  sócio­econômicos da  empresa e  os 
diversos  pontos  de  vista  a  respeito  do  problema  formulado  na  demanda  (FIALHO  & 
SANTOS,  1995).  As  hipóteses  elaboradas  nesta  etapa  levarão  a  escolha  das  situações  de 
trabalho  que  devem  ser  analisadas  em  detalhe  para  se  obter  elementos  que  respondam  às 
questões levantadas. 

b)  Obser vações globais da atividade 


Uma  primeira  visita  à  situação  de  trabalho  permite  compreender  a  natureza  das 
questões levantadas e como os problemas se manifestam concretamente para os operadores. 
Estas  primeiras  observações  abertas  tentam  compreender  o  processo  técnico  e  as  tarefas 
confiadas  aos  operadores,  mas  também  observar  as  estratégias  adotadas  por  eles  e  colher 
comentários.  É o  primeiro  contato que determina  as possibilidades  posteriores  de  acesso  ao 
posto  de  trabalho  e  também  é  uma  oportunidade  para  informar  os  motivos  da  ação 
ergonômica. Deve­se ter em mente os elementos que motivam a demanda e fazer as relações 
entre os constrangimentos da situação de trabalho, a atividade desenvolvida pelos operadores 
e  as  conseqüências  dessa  atividade  para  a  saúde  e  para  a  produção.  Essas  articulações 
permitirão formular um pré­diagnóstico ou hipóteses de nível 2. Esta hipótese normalmente é 
estruturada da seguinte maneira: “parece que tais fatores levam os operadores a trabalhar de 
tais maneiras, o que pode explicar tais conseqüências”. É a partir deste pré­diagnóstico que se 
vai estabelecer um plano de observação para verificar, enriquecer e demonstrar tais hipóteses.
45 

c)  Diagnóstico 
A partir dos registros de observações e das explicações fornecidas pelos operadores é 
que o diagnóstico pode ser dado. Ao se ater à atividade real se compreenderá as dificuldades 
encontradas em  um determinado  lugar e  se  identificará  os  pontos que devem  ser  objeto das 
transformações  dessas  situações  de  trabalho.  Por  fim,  é  a  partir  deste  diagnóstico  que  se 
realizam as recomendações e se propõe um acompanhamento do processo de transformação. 

Para Fialho & Santos (1995), o plano metodológico da AET pode ser dividido em três 
etapas, a saber: 

a)  Análise das referências bibliográficas. 

b)  Análise ergonômica do trabalho, que está dividida em três fases:

·  Análise da demanda:  nesta  fase  se define o problema a  ser estudado a partir de uma 


negociação  com  os  vários  atores  sociais  envolvidos.  A  partir  dos  primeiros  dados 
coletados da situação de trabalho é possível se formular as hipóteses de nível 1;

·  Análise  da  tarefa:  a  partir  das  hipóteses  de  nível  1  faz­se  a  análise  das  condições de 
trabalho e uma descrição minuciosa dos diversos componentes do sistema. Todos estes 
dados poderão confirmar ou recusar as hipóteses formuladas;

·  Análise  da  atividade:  é  a  análise  dos  comportamentos  de  trabalho  (posturas,  ações, 
gestos,  comunicações,  direção  do  olhar,  movimentos,  verbalizações,  raciocínios, 
estratégias,  resoluções  de  problemas,  modos  operativos,  tudo  o  que  possa  ser 
observado  ou  inferido  a  respeito  da  conduta  do  trabalhador)  que  serão  confrontados 
com  os  dados  obtidos  na  fase  anterior  e  permitirão  elaborar  um  pré­diagnóstico  da 
situação de trabalho. 

c)  Síntese ergonômica do trabalho: que está dividida em duas fases.

·  Estabelecimento do diagnóstico da situação de trabalho;

·  Elaboração do caderno de encargos de recomendações. 

A obra destes últimos autores é pragmática, pois traz a metodologia AET em forma de 
manual ou roteiro a ser seguido pelos profissionais na análise do posto de trabalho. Por outro 
lado,  a  obra  de  Guérin et  al.  (2001)  propõe o  estudo  e  entendimento  do  método  da  AET  e
46 

além  de  discutir  o  método  em  si  referencia  inúmeros  exemplos.  Portanto,  este  último  foi 
escolhido como livro de referência principal para o desenvolvimento desta pesquisa.
47 

3.  Análise Er gonômica do Tr abalho aplicada no estudo 


de caso 
3.1  Bases par a uma abor dagem metodológica 
3.1.1  Pressupostos 
Neste capítulo será apresentado o caminho metodológico percorrido para abordar o caso 
escolhido. Ferreira (2002) destaca cinco pressupostos que ditam alguns cuidados a se tomar para 
não comprometer a eficiência e a eficácia da AET. São eles:

·  Situação­problema: é a própria demanda e que segundo o autor nada mais é que a ponta 
do  iceberg,  pois  mascara  com  freqüência  seus  reais  determinantes.  A  reformulação  da 
demanda através dos recortes e da hierarquização de suas causas por meio da busca de 
informações pertinentes é um procedimento incontornável desta reformulação. Ela serve 
de bússola da AET, pois orienta a trajetória de investigação.

·  Par ticipação:  é  determinante  para  os  resultados  confiáveis  da  AET,  pois  sem  a 
participação  dos  atores  sociais  envolvidos  com  a  demanda  a  realização  da  análise  da 
atividade fica comprometida.

·  Infor mação:  o  acesso  à  informação  deve  ser  irrestrito,  contudo  baseado  nas  regras 
deontológicas.

·  Var iabilidade:  nas  dimensões  interindividual  (gênero,  idade,  dimensões  corporais, 


personalidade,  história  pessoal,  experiências  e  vivências)  e  intra­individual  (leva  em 
conta  o  estado  fisiológico,  cognitivo  e  afetivo  dos  indivíduos  e  que  se  modificam  ao 
longo de uma jornada influenciando suas ações).

·  Atividade: o que faz, porque faz e como o faz é o centro de interesse da AET. 

3.1.2  Instr umentos de estudo 


Para  se  analisar  um  caso  através  da  AET  lança­se  mão  de  vários  instrumentos  que 
facilitarão a apreensão da atividade e promoverão as recomendações adequadas que serão feitas. 
Tais instrumentos são: 

a)  Obser vações livres


48 

As observações livres tiveram início logo no primeiro contato com a CD para verificar se 
a  mesma  estava  próxima  do  perfil  do  CD  brasileiro.  Uma  vez  constatado  que  sim  e  a 
profissional  estar  de  acordo  em  participar  da  pesquisa,  as  primeiras  visitas  foram  agendadas. 
Nesta primeira reunião foram apresentados os objetivos da pesquisa e dois esquemas resumidos 
da metodologia AET (ANEXO A e B). Nesta mesma reunião foi formulada a demanda inicial. 
Algumas  questões foram  colocadas para  a  CD para  se  ter uma  compreensão  maior do  serviço 
prestado por ela, tais como: quais são os tratamentos que realiza, se possui auxiliar, se planejou 
o  consultório,  se  atende  por  convênios,  se  possui  alguma  queixa  de  dor  ou  desconforto 
relacionado  ao  trabalho,  se  usa  visão  direta  ou  indireta  e  qual  postura  adota  durante  o 
tratamento. Ao término desta, novas visitas foram programadas, tendo como critério a aceitação 
da  presença  da  pesquisadora  no  consultório  por  parte  do  paciente.  A  preocupação  com  o 
conforto  e a  privacidade  do paciente  foi  um  aspecto que  apareceu  logo  na primeira  reunião  e 
demonstrou ser uma forte premissa. 
As  visitas  subseqüentes  tiveram  como  objetivo  a  observação  livre  de  cada  tipo  de 
tratamento  a  fim  de  verificar  qual  elemento  era  mais  relevante  para  cada  um  deles.  Antes 
mesmo de relatar tais atendimentos, é interessante citar os outros instrumentos utilizados. 

b)  Análise documental 
A coleta de informações se deu também através da consulta de documentos internos, tais 
como:
·  Agenda: utilizada para marcação das sessões e lembretes;
·  Ficha clínica: onde a cada sessão é anotado o procedimento realizado e as observações 
para aquele caso;
·  Caderno de controle de atendimentos: onde é registrado o nome, a data inicial e final 
do último tratamento. Este controle é feito mensalmente.
·  Arquivo: situado no mezanino, onde as fichas clínicas ficam guardadas em envelopes 
e ordenadas por datas de nascimento. 
A consulta a estes documentos revelou uma parte da organização do trabalho. Todas as 
anotações  são  manuscritas  pela  própria  CD  durante  ou  ao  final  da  sessão  ou  ainda  após  o 
expediente quando a profissional chega mesmo a levar para casa as fichas clínicas para terminar 
de completá­las.
49 

c)  Obser vações sistemáticas 


As  observações  sistemáticas  tiveram  início  logo  que os procedimentos  foram descritos 
pela  CD  e  identificados  pela  pesquisadora  durante  as  observações,  confirmando  a 
obrigatoriedade da seqüência dos procedimentos  para se executar os tratamentos. Por se tratar 
da  metodologia  AET  cada  etapa  do  procedimento  foi  considerada  uma  tarefa  a  ser  cumprida, 
pois  existe  uma  seqüência  obrigatória  que  não  pode  ser  modificada  quando  conveniente.  A 
partir desta descrição das tarefas foi possível prosseguir no conhecimento das situações reais de 
trabalho e realizar os recortes necessários. 

d)  Entr evistas semi­estr uturadas 


Estas entrevistas foram preparadas em vários momentos da pesquisa com o objetivo de 
se conhecer cada vez mais a organização do trabalho e compreender o porquê de alguns gestos, 
posturas, ações, decisões, modificações no modo operatório, enfim apreender o trabalho real. 

e)  Ver balizações 


Para  Guérin  et  al.  (2001),  a  atividade  não  pode  ser  reduzida  ao  que  é  observável.  O 
raciocínio,  o  tratamento  das informações,  o  planejamento  das  ações  só  podem  ser  realmente 
apreendido  por  meio  das  explicações.  As  verbalizações  podem  aparecer  ao  longo  de  uma 
entrevista, durante uma observação e revelam normalmente alguma restrição do trabalho. 

f)  Equipamentos utilizados para registros de dados 
Para  mensuração  do  espaço  físico  e  elementos  que  o  compõem,  foram  utilizadas  uma 
trena  marca  CASTO  3m  x  19  mm  (Figura  9),  máquina  fotográfica  HP  3.3  MP  e  goniômetro 
CARCI (Figura 10). 

Figura 9: Trena CASTO.
50 

Figura 10: Goniômetro CARCI. 

Não  foram  realizadas  filmagens  dos  tratamentos  para  preservar  a  privacidade  do 
paciente. Também não foram mensurados os níveis de ruído, iluminação, temperatura, umidade 
do  ar  e  ventilação  por  não  estarem  presentes  na  demanda  e  por  não  serem  considerados 
relevantes durante a pesquisa. 

3.1.3  O tr ajeto metodológico 


O trajeto metodológico seguido está baseado no esquema geral da abordagem de Guérin 
et al., (2001). A Figura 11 descreve resumidamente as fases que serão apresentadas. 

Análise da 
atividade 

Abordagem  Pr é­diagnóstico 
global  Hipóteses nível 2 
Hipóteses 
nível 1  Definição de 
Análise  um plano de 
da  obser vação 
demanda
Obser vações 
sistemáticas  Diagnóstico 
Tr atamento 
dos dados 
Validação 

Recomendações 

Figura 11: Metodologia AET. Fonte: adaptado de Guérin et al. (2001) pela autora. 
51 

3.2  Apr esentação do caso estudado 


3.2.1  A escolha do caso 
O profissional escolhido para este estudo foi uma cirurgiã­dentista, clínica  geral, de 46 
anos, formada há 22 anos e que atua em consultório próprio situado em uma clínica médica na 
cidade de Itajubá ­ MG há 7 anos. 

Este  caso  foi  selecionado,  pois  a  profissional  está  bem  próxima  do  perfil  do  CD 
brasileiro  traçado  pela  pesquisa  encomendada  à  Inbrape  pelas  entidades 2  nacionais  de 
odontologia no ano de 2002. 

Na  Tabela  1  foram  destacados  os  principais  índices  desta  pesquisa  que  nortearam  a 
escolha realizada: 

Cr itér io adotado  Caso escolhido 

57,5% sexo feminino  Sexo feminino 

76,7% clínico geral  Clínica geral 

89,6% autônomo  Autônoma 

56,7% sem auxiliar  Sem auxiliar 

Tabela 1: critérios adotados para escolha do caso estudado. 

3.2.2  Análise da demanda 
a)  A demanda inicial 
A demanda inicial foi formulada logo na primeira visita onde também tiveram início as 
observações  livres.  Após  sanar  algumas  dúvidas  por  parte  da  profissional,  foi  formulada  a 
seguinte demanda inicial: 

“Diante da noção de  ergonomia acadêmica, diante do grupo heterogêneo  de pacientes, com labirintite, 


idosos, gestantes, não dá para por em prática as posições de Threndelemburg e de 9h. Eu adquiri a insegurança 
da visão indireta. A anatomia dos dentes é muito parecida podendo diminuir a precisão do trabalho”. 


ABO (Associação Brasileira de Odontologia), ABENO (Associação Brasileira de Ensino Odontológico), 
ACBO (Academia Brasileira de Odontologia), CFO (Conselho Federal de Odontologia), FIO (Federação 
Interestadual de Odontologia) e FNO (Federação Nacional de odontologia).
52 

b)  O que está em jogo (les enjeux) 
A reformulação da demanda se deu a partir do conhecimento dos elementos que estavam 
em  jogo  nesta  situação­problema  colocada  inicialmente.  Foram  identificadas  as  seguintes 
questões:
·  Ergonomia: a princípio nesta demanda fica claro que a profissional faz pouco uso da 
posição  mais  indicada,  tanto  para  o  paciente  quanto  para  ela,  ou  seja,  supina  e  9h 
respectivamente.  Ela  refere  também  não  usar  a  visão  indireta  com  auxilio  do 
espelhinho o que indica que deve realizar muitas inclinações e rotações do tronco para 
ter  a  visão  direta.  Ela  refere  que  na  faculdade  era  avaliada  segundo  a  ergonomia 
empregada. Os alunos eram policiados se  faziam uso da visão indireta. Contudo, ela 
revela que possui noções da ergonomia correta de trabalho, mas que não as segue. A 
afirmação abaixo deixa isto evidente. 
Quando se começa a trabalhar sozinha, a gente faz diferente. 
Desta  forma  a  profissional  se  adapta  ao  posto  e  às  necessidades  do  paciente  em 
detrimento do conforto próprio para atingir o resultado satisfatório. Ela refere ter tido 
uma  epicondilite  direita  que  a  afastou  do  trabalho  por  três  meses  e  no  momento 
apresenta  uma  epicondilite  esquerda,  dores  no  cóccix,  dor  lombar  lado  direito  e 
ardência  em  todo  o  ombro,  lado  direito  e  esquerdo,  além  de  dores  de  cabeça 
freqüentes.
·  Bem  estar   do  paciente:  esta  demanda  também  aponta  uma  preocupação  com  o 
conforto  do  paciente  e  que  ao  longo  das  observações  realizadas  ficou  confirmada 
como  uma  forte  premissa.  A  profissional  se  preocupa  com  todos  os  aspectos  que 
envolvem o paciente. Ela diz: 

Eu atendo meu paciente de forma holística. 

Para ela a prioridade é o bem estar do paciente. Ela relata que existe paciente que fica 
uma sessão toda falando. 

Tem que dar atenção ao paciente. Tem que ser um pouco psicóloga. Isto é importante, 
pois na próxima ele estará mais relaxado e eu poderei trabalhar com mais facilidade.

·  Sucesso  do tratamento: o  sucesso do trabalho  está  ligado  à precisão que a  CD  tem 


que  ter  durante  o  procedimento.  Ela  relata  que  quando  faz  um  trabalho  de  escultura 
fica  com  todo  o  corpo  tenso.  O  sucesso  também  está  vinculado  ao  bem  estar  do
53 

paciente que assim colabora com o tratamento permanecendo mais tranqüilo, seguro e 
confiante. 

c)  Reformulação da demanda 
A  fim  de  responder  à  demanda  (situação­problema)  colocada  pela  profissional  e 
considerando  as  questões  nela  embutidas,  a  pesquisadora  optou  por  conduzir  a  pesquisa  de 
forma a identificar as restrições deste posto de trabalho, que fazem com que a CD não siga as 
normas  básicas  de  ergonomia  odontológica  e  que  expõe  a  mesma  aos  riscos  de  desenvolver 
dores  músculo­esqueléticas.  Ainda  de  outra  forma,  como  a  profissional  se  expõe  e  como  se 
preserva  destas  restrições,  ou  seja,  quais  são  as  estratégias  adotadas  por  ela  para  fazer  face  a 
estes  constrangimentos.  A  opção  por  este  caminho  se  justifica  pelo  fato  da  profissional 
apresentar dores osteomusculares como já foi citado. 

3.2.3  Abordagem global 
Dando seqüência na pesquisa, procurou­se conhecer a estrutura do consultório. 

a)  A organização do trabalho 
Os atendimentos são realizados de segunda a sexta­feira das 8:00 às 11:00 e das 13:00 às 
17:00. A jornada semanal é, portanto de 35 horas. 

O agendamento, na  grande maioria das  vezes, é realizado pela própria CD e para cada 


sessão  é  reservada  uma  hora.  A  clínica  da  qual  o  consultório  faz  parte,  dispõe  de  duas 
secretárias que também fazem o agendamento nos horários em que a CD não está presente. Nos 
horários normais de atendimento da profissional elas se limitam a transferir a ligação telefônica 
para o consultório para que o paciente converse diretamente com a mesma. A CD optou por este 
sistema  de  agendamento,  pois  refere  que  as  secretárias  não  foram  treinadas  para  receber  e 
orientar  os  pacientes  odontológicos  Na  Figura  12  é  possível  verificar  como  este  processo 
acontece.
54 

1ª. sessão par a 
CD ver ifica o  or çamento é feita. 
caso e faz ou não  Aber tur a de uma ficha 
a mar cação  clínica. Paciente decide 
se ir á ou não r ealizar  o 
tr atamento.
O paciente 
aguar da par a 
falar  com a CD 
ou a ligação é 
tr ansfer ida 

Se sim, 
mar cação das 
sessões. 
Paciente fa z o 
contato com a 
secr etár ia 
pessoalmente ou 
por  telefone 
Execução do 
tr atamento 

Figura 12: Marcação de consulta. 

A  profissional  além  de  atender  a pacientes  particulares  (cerca  de 50%)  também  atende 
seus antigos pacientes de convênio pelo custo operacional. Desde 2003 se desligou do convênio 
por questões econômicas. Refere que a partir desta mudança passou a trabalhar menos e ter um 
faturamento maior. Concluiu, portanto que não vale a pena ser credenciada. 

Em  relação  aos  materiais,  eles  estão  distribuídos  nas  gavetas  do  gaveteiro  móvel,  nas 
prateleiras  do  armário  alto  (portas  da  esquerda  e  portas  de  vidro),  dentro  da  geladeira  e  na 
primeira gaveta à direita no balcão. 

b)  O consultór io odontológico 


O atual consultório tem uma área total de 12,82 m² (3,74 X 3,43) e ainda mais 6,68 m² 
(3,43 X 1,95) de mezanino. Foi projetado na época para um trabalho a duas mãos. A partir do 
ano de 1999 passou a ter uma auxiliar após um problema de epicondilite direita que a obrigou a 
se afastar do trabalho por três meses. No entanto, há 2 anos está sem esta profissional. Refere 
que  os  custos  são  altos  para  se  ter  um  funcionário,  contudo  programa  a  contratação  de  uma 
pessoa por saber que este custo é compensatório pela qualidade do trabalho e pela saúde. 

A  estrutura  física  está  demonstrada  na  Figura  13  que  mostra  a  planta  baixa  do 
consultório: 
55 

Janela de vidro 

69 
Escada  EQUIPO 
mezanino 
69 
r efletor  
96 
mocho 
sugador  
128  Base  balcão 
40 
230 
Liga/desl  X 
85 

Raio  230 

111  pedal 

60  57 
Mesa 
com 
compu 
tador   75 
e  65  57 
telefone 

100  76 
135  90 
86 
343
253 
Figura 13: Planta baixa do consultório. 

Nesta planta podem ser observados:

·  Os elementos da CD indicadas com as setas vermelhas: 

Ø  Mocho 
56 

5  13 

14
36

46 

Figura 14: Medidas do mocho. 

Ø  Equipo 

Figura 15: Equipo com três pontas. 

Ø  Comando eletrônico no pedal 

Figura 16: Pedal de acionamento do motor. 
57 

Ø  Armário fixo 

Figura 17: Armários. 

Ø  Armário móvel 

Figura 18: Gaveteiro móvel. 
Ø  Refletor. 

Figura 19: Refletor.
58

·  Os elementos do paciente são indicados pelas setas verdes: 

Ø  A cadeira odontológica e o apoio para a cabeça 

Figura 20: Cadeira do paciente.

·  Os elementos do auxiliar são indicados pela seta azul: 

Ø  O sugador 

Detalhe

Figura 21: Cuspideira e sugador. 

c)  Os documentos colocados à disposição

·  Agenda

·  Ficha clínica;

·  Caderno de controle de atendimentos. 

Os  documentos  embora  todos  preenchidos  à  mão,  são bem organizados. No  entanto,  a 


CD não possui uma estatística de quantos pacientes são particulares e custo operacional, quantos 
fazem tratamento protético, preventivo, restaurador ou estético. Existe somente uma estimativa. 
59 

d)  Tratamentos realizados 

Em seu consultório ela oferece os seguintes tratamentos:

·  Restaurações fotopolimerizadas (resinas): realizados com maior freqüência;

·  Restaurações de amálgama: realizados com menor freqüência;

·  Reabilitação protética;

·  Prevenção;

·  Odontologia  com  ênfase  na  estética  (clareamento,  troca  de  restaurações  de  amálgama 
por de resina, redução de espaço interdental). 

Para  cada  tipo  de  tratamento  foi  feito  um  fluxograma  com  as  etapas  obrigatórias 
seguidas pela dentista para sua execução. Por se tratar da metodologia AET, cada etapa desta 
está  sendo  considerada  uma  tarefa  a  ser  cumprida,  ou  seja,  as  etapas  precisam  ser 
obrigatoriamente  realizadas  numa  determinada  ordem  para  a  realização  do  tratamento 
odontológico  e  não  podem  ser  alteradas  por  conveniência.  A  seguir,  para  efeito  de 
exemplificação, segue o fluxograma de uma das fases do tratamento de prótese (Figura 22) e 
outro correspondente ao tratamento de restauração fotopolimerizada (Figura 23). 

O tratamento protético é realizado nos casos onde  houve perda de dentes ou quando 
um  dente  precisa  de  uma  grande  restauração  e  o  mesmo  não  oferece  apoio  para  uma 
restauração fotopolimerizada, por exemplo. 


Preparação do  9  8 
paciente  Cimentação do  Moldagem do 
provisório  antagonista 


Remoção do  7 
provisório / do  Moldagem 
cimento provisório 

6
3  4  5  Afastamento 
Moldagem da  Anestesia da  Isolamento  gengival com fio 
gengiva  superfície gengiva  relativo  retrator 

Figura 22: Fluxograma das 9 etapas prescritas para a execução da prótese – fase moldagem definitiva. 
60 

O tratamento de restauração fotopolimerizada é realizado diante de uma lesão cariosa 
ou diante do interesse do paciente pela estética. 

16
1  Escultura 
Preparação do 
paciente 
17  15 
Uso do carbono de  Remoção das 
dupla face e  cunhas, da matriz e 
2  escultura  do isolamento 
Aplicação da 
relativo 
pomada anestésica 

18 
Teste com fio dental  14 
3  para verificar  Uso do aparelho 
Anestesia infiltrativa  fotopolimerizador 
excessos 
40 segundos 

4  19 
Remoção da cárie  Polimento final  13 
Colocação da resina 
e/ou obturação 
em pequenos 
fragmentos 


Isolamento relativo 
com algodão  12 
Caso necessário uso 
de uma matriz para a 
reconstrução das 
6  laterais do elemento 
Preparo e inserção  e cunhas na região 
do forramento  gengival 

7  11 
Aplicação do ácido  Uso do aparelho 
fosfórico  fotopolimerizador 
20 segundos 


Lavagem com água  9  10 
para a remoção do  Refazer o  Aplicação do 
ácido  isolamento relativo  adesivo escolhido 

Figura 23: Fluxograma das 19 etapas prescritas para a execução da restauração fotopolimerizadora. 

O  Quadro  6  contém  as  observações  acerca  das  etapas  com o propósito de  facilitar  a 


compreensão do fluxograma. 
61 

Etapa  Obser vações sobr e algumas etapas 


1  Receber o paciente, acomodá­lo na cadeira e colocar as proteções (babador, toalha, guardanapo). 
2  Aplicar o anestésico tópico com auxílio de pinça e algodão na região onde será feita a anestesia. 
3  Aplicar a anestesia com auxilio de seringa e agulha. 
4  Utilização da caneta de alta rotação para remoção da cárie e/ou obturação. 
5  Isolamento  relativo  nada  mais  é  que  colocar  os  roletes  de  algodão  ao  redor  do  dente  para  se 
manter a região seca. 
6  O forramento é o material que antecede a resina, visando maior proteção do elemento dentário. 
7  Aplicação  do  ácido  fosfórico  no  elemento  dentário  para  aumentar  a  porosidade  do  esmalte  e  da 
dentina. 
8  Usa­se sempre o sugador simultaneamente. 
10  O adesivo é um material que irá ficar entre a resina e o dente. 
11  Aumenta o poder de aderência do adesivo. 
12  A matriz é uma espécie de banda ou cinta de metal ou plástico que é colocada ao redor do dente 
para auxiliar na reconstrução das paredes do dente. 
13  A colocação da resina em pequenos fragmentos evita a contração indesejada do material. 
14  Uso  do  fotopolimerizador  por  40  segundos  é  feito  após  a  inserção  de  cada  fragmento  para 
endurecê­lo. 
16  Eliminação do excesso de resina com caneta de alta e baixa rotação. 
17  Usando um carbono de dupla face para marcar os pontos altos, esculpe a resina de acordo com a 
oclusão do paciente. Usam­se brocas especiais para tal procedimento; 
18  É testado o uso do fio dental comprovando se não há excesso de material nas proximais do dente; 
19  Realização  do  polimento  com  brocas  com  pontas  abrasivas,  de  borracha,  com  tiras  de  lixa  de 
granulações diversas. Por fim é usada uma pasta para polimento.
Quadro 6: Observações sobre etapas restauração fotopolimerizada. 

Entre todos os tratamentos, a CD considera o de prótese o mais desgastante pelo custo 
para ela  e  para  o paciente,  por  isto  se  preocupa muito  com  a  execução  e  com  a  satisfação  do 
paciente com o resultado final. 

Foi observada uma sessão de cada tratamento e constatado que o tratamento de prótese 
de  fato  é bastante  desgastante  pela  preocupação  com o  resultado  e pelos  muitos  movimentos 
para  manipulação  dos  materiais,  por  isso  muitos  gestos  para  acessar  as  gavetas,  o  balcão,  o 
equipo, ligar e desligar o sugador (este procedimento é adotado para se poupar o compressor 
que já parou por sobrecarga), muitos movimentos com o mocho, de sentar e levantar para pegar 
material  no  armário  alto  e  sobre  o  balcão.  Contudo,  o  tratamento  de  restauração 
fotopolimerizada  também apresenta  uma  grande  manipulação  de  materiais  e  é  realizado  com 
maior  freqüência,  embora  seja  realizado  sem  a  mesma  preocupação  relativa  ao  custo  do 
tratamento protético. 

e)  A escolha da situação 
Após  a  observação  de  todos  os  tratamentos,  foi  realizado  o  primeiro  recorte  da 
atividade  da  CD  para  prosseguir  a  análise  (Figura  24).  Foram  escolhidos  os  tratamentos  de 
prótese dentária e restauração fotopolimerizada segundo os critérios destacados no esquema da 
Figura 24. 
62 

Observação 
prevenção 
Estética 

Restauração  Restauração 
amálgam a  resina 
P rótese 

Custo  Resultado  M aior 


freqüên cia 
Satisfação 
M ateriais 

1º. recorte na atividade 

Figura 24: Primeiro recorte na atividade. 

É extremamente importante ressaltar que não foi possível utilizar recursos áudio­visuais 
durante as observações para preservar a privacidade do paciente, preocupação permanente da 
CD. Os dois tipos de tratamento foram acompanhados e os dados contabilizados e registrados. 
Segue  um  dos  gráficos  (Gráfico  1)  que  representa  a  atividade  odontológica  através  da 
freqüência com que as ações aconteceram: 

Ações realizadas durante o tratameno de prótese 
fa se prova do núcleo metálico 
intervir na boca 
80  utilizar equipo 
Fr eqüência 

68 70  utilizar balcão 
70 
abrir portas esq 
60  abrir portas vidro 
abrir/fechar 1a. Gaveta D 
50  abrir/fechar 2a. Gaveta D 
abrir/fechar 3a. Gaveta D 
40 
abrir/fechar 4a. Gaveta D 
30  abrir/fechar 1a. Gaveta Central 
abrir/fechar 2a. Gaveta Central 
20  14 
11  abrir/fechar 3a. Gaveta Central 
10  7  9  7  abrir/fechar 4a. Gaveta Central 
1  3  5  1 

1  1 
0  0  0  0  abrir/fechar geladeira 
0  deslocar até sugador 
Ações 
1  acionar pedal 
reposicionar refletor 
atender telefone 

Gráfico 1: Tratamento de prótese.
63 

Ao ler o gráfico considerar que cada vez que o dentista acessava uma gaveta, ou ia até a 
boca do paciente, ou até o equipo, por exemplo, foi contabilizada uma ação. Pode­se verificar 
no  gráfico  uma  grande  intervenção  intra­bucal  (68)  e  uma  grande  utilização  do  equipo  (70). 
Para  estas  ações  a  CD  realizava  inúmeras  rotações  de  tronco,  mais  acentuadas  a  direita.  Em 
relação a utilização do balcão, ela necessitava afastar o mocho, girar para a direita e se levantar 
quando não permanecia sentada e se esticava para alcançar algum material. Foi observada uma 
grande utilização do gaveteiro central que apesar de possuir rodízios permaneceu imóvel sob o 
balcão. Outra ação que chamou a atenção foi  a de deslocamento até o sugador para ligá­lo e 
desligá­lo. A maioria destes deslocamentos foi realizada deslizando o mocho até a posição de 3 
horas e outras levantando do mesmo e se deslocando até o dispositivo liga e desliga. Por fim, 
foram  observados  muitos  reposicionamentos  do  refletor  para  evitar  que  o  paciente  bata  a 
cabeça  quando  for  cuspir  e  para  trazer  o  foco  de  luz  sobre  o  equipo  para  melhorar  a 
visualização  de  uma  peça  que  está  esculpindo.  Na  Figura  25  a  planta  do  consultorio  é 
reapresentada com destaque para os itens observados: 
Janela de vidro

69 

Escada  EQUIPO 
69  mezanino 

refletor  
128 
96 
sugador  
Base  ba lcão 
40 
Liga/desl  X
85 

Raio 

230 

111  pedal 

60  57 
Mesa 
com 
75 
compu 
tador  65  57 

telefone 
100  76 
135 
86 

Figura 25: Planta baixa do consultório. 
64 

Na Figura 25 é importante destacar a localização do dispositivo liga/desliga no sugador 
e a distância entre a mesa e o apoio de cabeça para o paciente que fica bastante reduzida – 57 
cm – quando se faz uso da inclinação total da cadeira dificultando a passagem com o mocho. 

Na Figura 26, o destaque é para a altura das prateleiras internas do armário alto e para o 
lado de abertura da porta da geladeira. 

Prateleiras 
(Portas esquer da) 

Por tas  Por tas 


de  de 
vidr o  vidro  193 

170 

145

Auto  L 
clave  i  87,5 

Geladeira  o 

53  64  71  78 

230 
Figura 26: Vista frontal dos armários alto e baixo sob o balcão. 
65 

3.2.4  Pré­diagnóstico 
A partir das observações pode­se elaborar o seguinte pré­diagnóstico (Quadro 7): 
Mas leva fr equentemente 
Em função:  A CD faz:  Isto car acter iza: 
a pr ofissional a:
· da disposição dos  · uma grande utilização do equipo  · uma sessão sem  · realizar inúmeras 
materiais nas  e do balcão para manipular os  uma seleção  inclinações e  rotações de 
gavetas e armários; materiais; prévia dos  tronco e deslocamentos 
materiais. com o mocho o que 
· do controle liga e  · uma grande utilização dos  provoca uma fadiga 
desliga do sugador; gaveteiros para procurar/pegar o  física e dores lombo­ 
material necessário; sacrais e uma perda de 
· das regulagens do 
refletor; · vários deslocamentos com o  tempo na procura do 
mocho para ligar e desligar o  material desejado;
· do pequeno espaço  sugador;
existente entre o  · evitar um super 
apoio de cabeça da  · várias mudanças da posição do  aquecimento do 
cadeira do paciente  refletor quando o paciente se  compressor;
e a mesa. senta para cuspir e quando  · garantir a segurança, 
necessita de luz sobre o equipo; conforto do paciente e 
· utilização insuficiente da  sucesso do tratamento 
inclinação da cadeira do 
paciente.

Quadro 7: Pré­diagnóstico. 

Este pré­diagnóstico apresenta uma explicação para o problema levantado inicialmente 
na  demanda.  A  partir  deste  ponto  serão  escolhidos  os  métodos  mais  adequados  para  se 
trabalhar nos recortes que serão realizados na atividade. 

3.2.5  Obser vação sistemática 


As  observações  sistemáticas  foram  realizadas  com  base  no  pré­diagnóstico.  Foi 
traçado um plano de observação que resultou na seguinte configuração. 

a)  Os recor tes 


Para  esta  fase  inicial  foi  escolhida  a  variável  tempo  das  ações  para  se  compreender 
como  elas  se  distribuem  ao  longo  de  uma  sessão.  Uma  planilha (ANEXO  C)  foi  preparada 
para  se  poder  acompanhar  a  transição  de  uma  ação  para  outra  bem  como  o  intervalo  entre 
elas. 
Após  a  observação  foi  possível  realizar  um  segundo  recorte  na  atividade  e  chegar  a 
classificá­las em dois tipos:

·  O recor te das ações 
Ø  as extra­bucais: são todas as ações que acontecem fora da boca do paciente, como por 
exemplo: pegar a caneta de alta rotação, pegar o jato de ar/água, pegar um rolete de
66 

algodão,  pegar  um  instrumental  sobre  o  equipo,  pegar  um  material  na  geladeira,  na 
gaveta,  no  armário  alto,  pegar  o  aparelho  fotopolimerizador,  o  jato  de  bicarbonato, 
atender  ao  telefone,  deslocar­se  até  o  sugador,  etc.  A  foto  da  Figura  27  mostra  um 
destes tipos de ação extra­bucal. 

Figura 27: Ação extra­bucal. 

Ø  intr a­bucais:  são  todas  as  ações  de  intervenção  na  boca  do  paciente,  como  por 
exemplo: usar a caneta de alta rotação, explorar a boca com o espelhinho, avaliar um 
dente,  colocar  um  rolete  de  algodão,  esculpir,  aplicar  uma  anestesia,  inserir  um 
material (resina, amálgama, ácido fosfórico, adesivo, etc.), dar um jato de água/ar, etc. 
A foto da Figura 28 ilustra uma ação intra­bucal. 

Figura 28: Ação intra­bucal. 

A seguir o Gráfico 2 que resume a observação do tempo das ações extra e intra­bucais.
67 

Ações extra e intra bucal 

52%   extra­bucal 
in tra­bucal 

48%

Gráfico 2: Tempo das ações intra e extra­bucais.

·  Análise do tempo das ações 
Embora  a  diferença  de  tempo  seja  pequena  ela  passa  a  ser  significativa  quando  se 
considera  que  a  ação  extra­bucal  tem  uma  relação  direta  com  a  organização  do  trabalho: 
distribuição dos materiais, posicionamento dos equipamentos periféricos, etc. Na foto da Figura 
29 é possível perceber este aspecto ao se observar a posição do equipamento fotopolimerizador 
sobre o balcão: 

Figura 29: Organização do trabalho. 

No entanto, as ações intra­bucais tem uma relevância maior em relação às extra­bucais, 
pois elas estão diretamente relacionadas às posturas estáticas, ou seja, quando a CD intervêm na 
boca ela fixa sua postura para aumentar a precisão manual e para focar o ponto do dente onde 
68 

ela atua. Esta postura está sempre associada à tensão muscular seja pela manutenção da mesma 
seja  pelo  contexto  de  apreensão  em  executar  uma  atividade  onde  o  paciente  na  maioria  das 
vezes apresenta medo, expectativa ou dor. Além disto, a postura estática é uma das responsáveis 
pelo desenvolvimento dos DORT. Uma outra questão que também é importante ressaltar que, na 
atividade odontológica, a ação intra­bucal é a que agrega valor ao tratamento, portanto mais um 
motivo  para  reconhecer  a  relevância  desta  ação.  A  foto  da  Figura  30  exemplifica  esta 
consideração. 

Figura 30: Postura fixa na ação intra­bucal. 

Na foto da Figura 30 a CD mantém sua postura para intervir com a mão direita e segurar 
o sugador com a esquerda, além de manter a cabeça fixa permitindo assim a visão do dente em 
tratamento. 

A partir destas observações foi possível realizar o terceiro recorte na atividade e eleger 
as  ações  intra­bucais  como  foco  de  estudo.  As  observações  se  seguiram  ainda  sobre  os 
tratamentos  de  prótese  e  restaurações  fotopolimerizadas.  As  seguintes  posturas  foram 
identificadas como sendo as que mais são adotadas durante as ações intra­bucais:
69 

Figura 31: Postura incorreta dos ombros. 

Na  foto  da  Figura  31  pode  ser  observada  uma  abdução  do  ombro  além  de  45º.  Esta 
abertura dos braços é considerada excessiva uma vez que além desta graduação passa­se a ter a 
contração dos músculos supra­espinhoso e trapézio superior, que compromete a coluna cervical 
e cintura escapular. Também pode ser observada nesta foto a ausência de apoio para a coluna 
lombar. 

Figura 32: Postura incorreta da cervical vertebral. 

Na foto  da Figura 32  observa­se uma flexão acentuada da coluna  vertebral sendo mais 


acentuada  ao  nível  da  cervical.  Pode­se  perceber  também  nesta  postura  a  ausência  de  apoio 
lombar.
70 

Figura 33: Postura incorreta da coluna cervical. 

Na  Figura  33,  verifica­se  a  inclinação  da  cabeça  para  a  direita  com  rotação  para  a 
esquerda. Esta postura é bastante presente, pois a CD adota a postura de trabalho de 10h e utiliza 
a visão direta do dente. Sendo assim necessita realizar tal rotação da coluna cervical. 

Figura 34: Apoio insuficiente dos pés. 

Por  fim,  na  Figura  34,  constata­se  que  a  base  de  apoio  do  corpo  está  muito  reduzida 
devido  ao  mau  posicionamento  dos  pés.  Também  se  verifica  a  ausência  de  apoio  da  coluna 
lombar.
71 

3.3  Consider ações finais 


Após  a  análise  das  posturas  foi  possível  identificar  as  principais  posturas  que  são 
adotadas durante os 52% de tempo de uma sessão. São elas:

·  Abdução de ombros;

·  Flexão da coluna vertebral sendo mais acentuada na região cervical que leva a falta de 
apoio para a coluna lombar;

·  Inclinação da cabeça para a direita com rotação para a esquerda;

·  Apoio insuficiente dos pés caracterizado por extensão acima de 120º do joelho esquerdo 
e flexões menores que 90º do joelho direito. 

Estas  posturas  desencadeiam  dor,  desconforto,  fadiga  e  predispõem  a  profissional  a 


adquirir as doenças músculo­esqueléticas.
72 

4.  Análise e diagnóstico 
4.1  Análise das obser vações 
Este  capítulo  tem  por  objetivo  discutir  os  dados  coletados,  identificando  os  elementos 
restritivos  (constrangimentos)  e  estratégias  adotadas  para  contorná­los.  Após  esta  análise,  o 
diagnóstico para o caso estudado será formulado. 

Para  facilitar  a  análise,  o  texto  foi  dividido  nos  seguintes  tópicos:  a  organização  do 
trabalho, o consultório odontológico e as posturas de trabalho. 

4.1.1  A organização do trabalho 
a)  Horár ios 
A CD faz questão de agendar um paciente por hora e não mais do que isto, salvo alguma 
urgência que segundo ela a agita. 

Ela  não  realiza  pausas  programadas  durante  a  jornada,  mas  aproveita  os  atrasos  do 
paciente para tomar um café, uma água e andar um pouco pela clínica. Quando não existe este 
intervalo  circunstancial  ela  refere  tomar  água  até  mesmo  quando  não  está  com  sede  somente 
para poder parar um pouco. 

b)  Agendamento 

O agendamento é realizado pela CD durante seu horário de trabalho. Isto garante que o 
paciente tenha o atendimento segundo o padrão da profissional.  Em relação a ela mesma fazer o 
agendamento ela diz: 

Se eu mesma não fizer isto as meninas (duas secretárias da clínica) não vão conseguir 
manobrar lá fora e aí eu vou perder muito mais. 

A  interrupção  de  um  atendimento  para  atender  ao  telefone  gera  normalmente  um 
desconforto  para  a  CD,  e  apesar  da  aceitação  deste  fato  por  parte  do  paciente  que  está  na 
cadeira, a mesma reconhece que ele não gosta, mas que colabora com ela. 

O paciente não gosta, mas entende. 

Esta  aceitação  também  se  deve  ao  bom  nível  de  relacionamento  que  a  profissional 
estabelece  com  seu  paciente  desde  a  marcação  da  primeira  consulta,  passando  pela  primeira 
avaliação onde se discute o diagnóstico, o tratamento, o orçamento, a intenção do paciente e o
73 

tipo  de  pagamento.  Normalmente  não  inicia  um  procedimento  na  primeira  sessão.  Para  a  CD 
este primeiro contato é fundamental para estabelecer uma relação de confiança. 

Neste momento, a CD tem tido o auxílio de uma pessoa no período da tarde. Este auxílio 
se  caracteriza  mais  como  o  de  uma  auxiliar  extra­bucal,  que  se  limita  a  fazer  algum 
agendamento segundo a orientação da profissional, pegar algum material, ir ao protético, fazer o 
serviço externo, realizar a desinfecção dos materiais e organizar o consultório. Normalmente os 
instrumentais usados na parte da manhã são lavados e esterilizados no início da parte da tarde 
por esta pessoa. 

c)  Documentos

·  Cader no  de  controle  de  atendimentos:  todos  os  documentos  são  manuscritos  e  bem 
organizados. Para a CD, a forma como organiza os dados permite que ela encontre o que 
deseja  com  facilidade. Ela  faz  referência  em  relação  à busca  de uma  informação  neste 
caderno: 

Eu sempre encontro o que quero. 

Neste caderno de controle de atendimentos ela tem o nome do paciente, a data de início e 
do final do tratamento. Estes dados fazem com que a CD saiba se um paciente finalizou, 
interrompeu  o  tratamento  ou  não  deu  continuidade  no  mesmo.  Esta  informação  é 
baseada  na  presença  do  registro  da  data  final  e  não  existe  nenhuma  observação.  Ela 
verifica  o  nome,  a  data  e  relembra  o  porquê  daquele  paciente  ter,  por  exemplo, 
interrompido  o  tratamento.  De  onde  se  tem  um  desconhecimento  dos  números 
estatísticos de casos de abandono e conclusão de tratamento. Um dos meios de controle 
que  ela  possui  para  saber  se  existe  alguma  pendência  é  de  que,  se  uma  ficha  está  no 
arquivo de baixo e não no arquivo do mezanino é porque o paciente está em tratamento, 
ou ainda  não efetuou o pagamento, ou porque está esperando uma posição do paciente 
para decidir se irá ou não realizar o tratamento. 

Da mesma forma a profissional não tem este mesmo controle estatístico para os tipos de 
tratamento, lucro, custo de materiais por tratamento, pacientes particulares e com custo 
operacional, adultos, crianças, idosos, gestantes e especiais. Ela refere que seu controle 
financeiro do consultório também deixa a desejar.
74

·  Fichas clínicas: as fichas clínicas dos pacientes também são feitas à mão e a profissional 
muitas vezes leva as fichas para casa para completá­las quando não é possível fazer isto 
a tempo no consultório. 

Hoje acordei mais cedo para deixar as fichas em dia e não dei conta. 

Eu levo as fichas para casa, mas elas voltam do mesmo jeito. 

O  fato  de  ter  uma  ficha  desatualizada  gera  por  vezes  uma  angústia  por  não  poder 
esquecer de anotar uma observação importante na ficha de um paciente. 

Vou anotar que estou usando este medicamento com ele para saber disto na próxima vez 
que ele voltar. Quando uso este medicamento não posso usar um outro. 

Para  não  comprometer  tempo  de  sessão  do  paciente  a  CD  leva  as  fichas  para  casa.  O 
trabalho fica desta forma estendido à vida privada. 

d)  Música ambiente 
Um  recurso  utilizado  pela  CD  para  favorecer  o  relaxamento  do  paciente  é  de  colocar 
músicas calmas. Segundo ela a música também a tranqüiliza. 

A música relaxa o paciente e a dentista também. 

e)  Mater iais 

Os materiais necessários a um tipo de atendimento estão localizados em vários lugares. 
As  bandejas  clínicas,  por  exemplo,  ficam  na  estufa  que  está  no  mezanino.  A  cada  sessão  é 
necessário subir para buscar uma. Ela dispõe de 8 bandejas de rotina, sendo: 2 para orçamento 
(uma pediátrica e outra adulto), 3 clínicas, 1 para amálgama e 2 bandejas de cirurgia (extração 
de dente decíduo ou drenagem). Segundo a CD, os cuidados com as bandejas são desgastantes. 
Ela verbaliza: 

Esta parte é desgastante, porque precisa lavar, secar para não manchar o inox... 

A esterilização leva de 40 minutos à 1 hora e 30 minutos, dependendo do material. Ela 
possui  a  autoclave  que  fica  em  baixo,  mas  prefere  utilizar  a  estufa  porque  acredita  ser  mais 
eficaz na esterilização. 

Além da bandeja clínica, a resina necessária para as restaurações fotopolimerizadas fica 
na  geladeira  e  é  retirada  durante  a  sessão.  Grande  parte  dos  materiais  fica  armazenada  no
75 

armário alto por terem uma embalagem volumosa que não cabe no gaveteiro móvel, o que faz 
com que  a  CD  se  desloque  muitas  vezes  durante  uma  sessão,  sente  e  levante  do  mocho  para 
pegar este tipo de material. Todos os demais instrumentais e materiais de uso ficam nas gavetas 
do gaveteiro móvel e na primeira gaveta do balcão à direita. 

f)  Trabalho a duas mãos 
O trabalho odontológico é executado a duas mãos e esta escolha leva a CD a adotar uma 
posição  de  trabalho  intermediária,  10h  ou  11h,  onde  ela  precisa  estar  perto  do  paciente,  do 
sugador, bem  como dos  materiais.  Isto  faz  com que  ela  conduza uma  sessão  com um  grau de 
tensão  maior  do  que  se  ela  tivesse  um  auxiliar,  fato  que  favoreceria  sua  concentração  no 
tratamento. Ela relata que quando tinha auxiliar sua qualidade de vida era outra. 

Nas  fotos  a  seguir  (Figura  35,  Figura  36  e  Figura  37)  pode  ser  observada 
respectivamente a  CD  fazendo  a  função de  auxiliar, deslocando­se  até  o  sugador para  ligá­lo, 
em pé pegando um material no armário alto e abrindo a geladeira, por exemplo. 

Figura 35: Deslocamento da CD até o sugador.
76 

Figura 36: Pegando material na geladeira 

Figura 37: Pegando material no armário 

Como se pode verificar  nas  fotos, a CD tem que se deslocar para pontos diferentes em 


função  do  material  que  necessita  e  do  sugador.  Este  sistema  de  trabalho  passa  a  ser,  portanto 
desgastante para a profissional.
77 

4.1.2  O consultór io odontológico 


a)  A posição de trabalho 

O  consultório  foi  avaliado  segundo  a  norma  ISO/FDI  e  o  conceito  de  PTO  de  Barros 
(2006), que orienta o posicionamento dos equipamentos bem como do CD no consultório. 

A  CD  deste  estudo  adota  preferencialmente  em  seu  trabalho  a  posição  de  10h  para 
trabalhar  na  maioria  das  faces  dos  dentes.  Esta  posição  é  adotada  porque  também  favorece  o 
deslocamento  até  o  sugador  e  permite  que  ela  segure  a  mangueira  do  mesmo  a  mantendo  na 
boca  do  paciente.  Na  foto  da  Figura  38,  tem­se  a  visualização  de  um  esquema  gráfico 
sobreposto ao consultório para facilitar esta análise. 

12h 
1h 
11h 

2h 
10h 

9h 
3h 

C  4h 
8h 

5h 
7h 
6h

Figura 38: Aplicação do esquema gráfico. 

Para facilitar a análise serão seguidos alguns itens de orientação: 
78

·  Círculo A 
Nesta  área  o  CD,  o  auxiliar  bem  como  todo  o  material,  instrumental  e  terminais  de 
equipamentos  em  uso  devem  estar  presentes,  pois  esta  área  é  considerada  o  espaço  ideal  de 
pega. Neste caso, pode­se verificar que as pontas do equipo bem como os materiais da gaveta 
que aparece aberta e que contém os materiais  em uso estão fora deste espaço. Esta disposição 
leva a CD a realizar inúmeras rotações do tronco para a direita para pegar as pontas do equipo 
bem como materiais na gaveta.

·  Círculo B 
Dentro desta área está o espaço máximo de pega. 

Nela  devem  estar  o  corpo  do  equipo,  o  armário  móvel  e  o  sugador.  As  gavetas  dos 
armários quando abertas devem cair dentro deste círculo. No caso acima o corpo do equipo está 
parcialmente posicionado dentro da área indicada como correta. Por outro lado o sugador com 
seu  dispositivo liga/desliga  e  a  mangueira  estão  de  acordo para  um  trabalho a  quatro  mãos,  a 
saber.

·  Círculo C 
Nesta  área  devem  estar  a  pia  e  o  corpo dos  armários  fixos.  Verifica­se  que  estes  itens 
estão praticamente dentro da área citada. 

b)  Os equipamentos

·  Mocho 
Ø  Os  rodízios:  durante  as  observações  foi  verificado  que  a  CD  realizava  um  grande 
esforço para se deslocar com o mocho. Esta impressão foi confirmada pela profissional, 
que rapidamente verificou os rodízios e constatou que eles não estavam em bom estado e 
logo  em  seguida  os  substituiu  por  outros  novos.  A  mudança  dos  rodízios  trouxe  uma 
alteração  da  forma  de  trabalhar  deixando  a  CD  mais  ágil  e  realizando  deslocamentos 
com  uma  grande  redução  do  esforço.  A  mudança  também  teve  uma  repercussão  nas 
dores do cóccix que desapareceram em seguida. 

Ø  Medidas: em relação à altura do assento, ele está um pouco acima do ideal, pois a CD 
possui  38  cm de distância  do  solo  até  a fossa  poplítea  (região  posterior do  joelho)  e  o 
assento está a 46 cm. Esta diferença de altura leva a uma compressão da parte posterior 
da  coxa,  o  que  compromete  a  circulação  sanguínea.  Segundo  Barros  (2006),  a  fossa
79 

poplítea  deve  estar  um pouco  à  frente  da borda  anterior do  assento  e  neste  caso  ela  se 
encontra 16 cm além da borda quando bem posicionada no mocho (Figura 39). 

Plano 
hor izontal 
= 15 cm 

16 cm 

68 cm 
38 cm  90º ­ 120º 
aceitável 

Figura 39: Plano horizontal (elaborada pela autora). 

Um outro fator que também colabora para dificultar a circulação sanguínea nesta região 
é a extensão do joelho. Uma variação aceitável é de 90º a 120º. Na Figura 40 é possível 
visualizar esta distância e a angulação excessiva do joelho esquerdo de 130º. 

130º

Figura 40: Compressão da parte inferior da coxa e angulação do joelho. 

Ø  Revestimento:  foi  observada  que  a  CD  procurava  sempre  se  acomodar  melhor  no 
mocho. Uma fala da profissional veio de encontro a esta observação: 
80 

Não sei o que acontece, mas eu fico escorregando neste mocho. Deve haver algum 
material antiderrapante para revestimento. 

De fato o revestimento não é antiderrapante, mas esta situação está mais relacionada ao 
tamanho do assento como foi visto e à regulagem do encosto que será falado em seguida. 

Ø  Regulagens:  o  mocho  permite  regulagens  de  altura  do  assento,  no  entanto  esta  altura 
permanece sempre a mesma e não é ajustada de forma a não comprimir a coxa em sua 
face posterior. O encosto também pode ser regulado no sentido de afastar e aproximar do 
dorso.  Foi  constatado  que  o  encosto  encontra­se  muito  próximo  da  coluna  lombar  de 
forma a reduzir a área do assento e por conseqüência a área de contato da bacia com o 
mocho  e  favorecer  o  escorregamento  do  qual  a  profissional  se  queixou  anteriormente 
(Figura 41). 

Figura 41: Mocho vista lateral.

·  Cadeira odontológica 
Ø  Inclinação:  a  cadeira  permite  colocar  o  paciente  na  posição  supina,  pois  sua 
inclinação  varia  de  110º  a  170º  de  flexão  dos  quadris  (Figura  42).  A  angulação  dos 
joelhos é fixa em 160º o que não favorece um grande relaxamento do paciente quando 
na  posição  deitado.  Barros  (2006)  cita  em  seu  trabalho  os  estudos  de  Lehmann  que 
identificou a posição que o corpo fica mais relaxado, ou seja, deitado com um ângulo 
de 135º de flexão de joelhos e quadris e a cabeça no mesmo nível dos joelhos (Figura 
43).
81 

joelho 
170º 
160º
quadril 

Figura 42: Angulações da cadeira odontológica em estudo. 

joelho 
135º 
135º 
quadril 

Figura 43: Ângulos necessários para relaxamento máximo segundo Lehmann. Fonte: adaptado de Barros (2006). 

Portanto, de acordo com este estudo, a cadeira do paciente não promove o relaxamento 
total do paciente.

·  Gaveteir o 
A  CD  faz uso deste gaveteiro em todas as sessões que realiza, mas  não se utiliza da 
parte  superior  do  mesmo,  tão  pouco  o  movimenta  sendo  que  é  um  armário  móvel.  Utiliza 
todas  as  gavetas  para  guardar  materiais  e  instrumentais  e  durante  uma  sessão,  abre  e  fecha 
muitas vezes as gavetas para procurar um item que necessita. Durante uma observação de uma 
sessão  de  restauração  fotopolimerizadora  foram  contabilizados  27  vezes  a  ocorrência  deste 
evento. 
O  gaveteiro  em  relação  ao  plano  horizontal  está  dentro  dos  limites  de  tolerância 
máxima, ou seja, altura do cotovelo + 15 cm. Neste caso, têm­se: 68 + 15 = 83 cm para altura 
máxima do plano horizontal. A parte superior do gaveteiro se encontra a 78 cm de altura e a 
primeira gaveta a 71 cm, portanto, dentro desta zona de tolerância.

·  Equipo 
Este equipamento é fundamental para o tratamento, pois traz nele os motores de alta e 
baixa  rotação  bem  como  a  seringa  de  jato  de  água  e  ar.  Serve  também  de  apoio  para 
instrumentais, materiais e para o manuseio dos mesmos. 
82 

Durante  a  observação  verificou­se  a  queda  da  caneta  de  alta  rotação  do  suporte  do 
equipo algumas vezes. A CD afirmou que a braçadeira da caneta necessita de um ajuste para 
que isto não ocorra, pois o custo de uma caneta é bastante elevado. 
A área da bandeja, utilizada para o manuseio de material e de apoio possui 76 cm de 
altura  e  a  região  de  pega  das  canetas  está  a  66  cm  de  altura.  Considerando  um  plano 
horizontal de trabalho entre 68 e 83 cm, verifica­se que apenas a área de pega das canetas está 
um pouco abaixo do ideal.

·  Sugador  
O sugador é parte integrante da unidade do auxiliar, por isso fica situado à esquerda do 
paciente (junto à cuspideira), local onde deve estar o auxiliar que trabalha com um CD destro. 
No caso estudado, o sugador também se encontra à esquerda do paciente embora a CD 
não possua auxiliar. Um outro fator agravante é o seu acionamento que além de estar situado 
no  próprio  equipamento  possui  um  dispositivo  de  liga  e  desliga  giratório  que  ela  utiliza 
sempre  com  a  mão  esquerda  fazendo  movimentos  de  prono­supinação.  É  importante 
relembrar que ela possui uma epicondilite esquerda. Observar destaque na Figura 44. 

Figura 44: Posição de acionamento do sugador. 

Portanto além da profissional ter que se deslocar até o sugador para pegar a mangueira 
ela também precisa  ir até ele para reposicioná­la, ligar e desligar o mesmo. Isto implica em 
deslocamentos  desnecessários,  perda  de  tempo  e  comprometimento  do  membro  superior 
esquerdo, pois a CD abduz e flete o ombro para alcançar o dispositivo e realiza uma rotação 
interna e externa de todo o membro superior.
83 

4.1.3  As postur as 


a.  As posturas durante os procedimentos dos tr atamentos 

Em relação aos procedimentos para realizar os tratamentos, ela refere que eles  não são 
feitos de forma automática, pois uma atenção é necessária para executá­los. Por isso a postura 
durante a intervenção intra­bucal se torna mais importante no que diz respeito ao grau de tensão 
associado. 

Segundo Finkbeiner (2000), existem alguns  ângulos que devem ser respeitados para se 
prevenir  os  DORT.  Segundo  a  autora  estes  distúrbios  aparecem  quando  estas  angulações  são 
excessivas e mantidas por longos períodos. Ela cita três zonas de trabalho que estão destacadas 
nas fotos da Figura 45.

·  a primeira que é a aceitável (em verde);

·  a segunda que é a zona comprometedora (em amarelo);

·  e a terceira, a zona prejudicial. 

Figura 45: Zonas de inclinação lateral e flexão do tronco. 

A natureza do trabalho do CD requer a adoção de posturas longe do eixo central. Isto é 
mais  importante  durante  a  intervenção  intra­bucal  onde  a  tensão  e  a  duração  são  fatores  de 
agravamento.  No  caso  estudado,  foram  identificadas  as  posturas­padrão  adotadas  pela  CD.  O 
Quadro  8  traz  uma  relação  destas  posturas­padrão,  acompanhadas  das  fotos  ilustrativas  e  das 
doenças a que elas predispõem.
84 

Postur as  Patologias  Sinais e sintomas 


apr esentados pela CD 
Cabeça e tr onco 
Flexão 

Inclinação 

Síndrome  Cefaléias freqüentes; 

do  Contratura muscular em 
região de trapézios; 
desfiladeiro 
Lombalgia; 
torácico. 
Coccialgia. 

Rotação 

Quadro 8: Posturas e patologias associadas (continua).
85 

Postur as  Sinais e sintomas 


Patologias 
apr esentados pela CD 
Membr os super ior es 
Flexão de ombro 
Epicondilite do cotovelo;  Dor e contratura muscular 
em toda região de ombro 
Síndrome do canal cubital;  direito e esquerdo; 

Síndrome do pronador redondo;  Epicondilite do cotovelo 
esquerdo. 

Abdução de ombro 

Tendinite do supra­espinhoso;  A abdução é mais 
acentuada no ombro 
esquerdo devido a 
sustentação da mangueira 
do sugador ou uso de 
outro instrumental com a 
mão esquerda. Esta 
posição favorece o 
aparecimento da tendinite 
do supra­espinhoso. 

Flexão e pronação de cotovelo e punho 
Propensão a desenvolver 
a Tenossinovite de De 
Tenossinovite de De Quervain.  Quervain por manter o 
polegar em pinça enquanto 
segura o sugador. 

Tenossinovite dos extensores  Também para tenossinovite 
dos extensores por fixação 
dos dedos.  anti­gravitacional do punho. 

Quadro 8: Posturas e patologias (continua).
86 

Postur as  Patologias  Sinais e sintomas 


apr esentados pela CD 
Membr os infer ior es 
Extensão de joelho esquerdo 
Varizes  Possui varizes discretas e 
não refere dor no 
momento. 

Quadro 8: Posturas e patologias 

4.2  Diagnóstico 
Nesta  etapa, após haver percorrido o trajeto metodológico da AET, é possível  elaborar 
um diagnóstico para o caso. Para Guérin et al. (2001) o diagnóstico aponta os fatores a serem 
considerados  para  permitir  uma  transformação  da  situação  de  trabalho.  Segue  então  o 
diagnóstico: 

Independente  do  tratamento,  encontram­se  presentes  as  posturas  estáticas  durante  a 


intervenção intra­bucal, pois elas dão condições para focar o ponto a ser tratado e suporte para 
aumentar  a  precisão  manual.  Este  fato,  associado  à  ausência  de  uma  auxiliar,  leva  a  CD  a  se 
posicionar em 10h para que possa estar próxima  ao sugador, segurar e manter a mangueira na 
boca do paciente. Nesta posição a profissional necessita abduzir e fletir o ombro esquerdo para 
posicionar o membro superior sobre a cabeça do paciente, realizar uma inclinação lateral direita 
do tronco e da cabeça, bem como uma rotação desta última para a esquerda para obter a visão 
direta da face do dente. Ligado a este fato, está o pequeno espaço existente entre a escrivaninha 
e o apoio de cabeça da cadeira odontológica quando na posição supina, ou seja, 57 cm, o que 
leva a utilizar uma inclinação menor da cadeira, pois necessita passar por trás da mesma com o 
mocho para acessar o sugador. Esta situação é encontrada mesmo quando o paciente não possui 
restrições  físicas (labirintite,  gravidez,  senilidade,  etc.),  pois  a  análise  demonstra  ser  o  espaço 
físico uma forte restrição que interfere no modo operatório. Associados a estes fatores existe a 
organização  do  trabalho  que  leva  a  profissional  a  realizar  inúmeros  deslocamentos  e
87 

movimentos  desnecessários  para  procurar  o  material  desejado  nos  armários  e  gaveteiro, 


provocando fadiga física. A CD faz um uso excessivo do balcão por conta desta organização. 

Para desenvolver um trabalho tranqüilo e satisfatório, o bem estar do paciente é um fator 
importante.  Para  se  conseguir  atingir este  estado a  profissional  dedica uma  sessão  inteira  para 
avaliação  de  novos  pacientes,  esclarecimento  do  caso,  orientação,  formas  de  pagamento  e 
programação do número de sessões. Este primeiro contato diminui a expectativa do paciente e o 
prepara para a próxima  sessão  na qual  a  CD utiliza  de recursos  como música  ambiente  calma 
para o seu relaxamento.
88 

5.  Recomendações e conclusões 
5.1  Recomendações 
A partir do estudo foi possível formular as recomendações necessárias para abordar o 
caso. Algumas destas recomendações são básicas e outras específicas. 

5.1.1  Hor ár ios 


A  CD  faz  uma  boa  gestão  de  sua  agenda,  no  entanto  ela  pode  prever  na  mesma  os 
momentos  para  atualização  de  fichas  e  pausas  para  descanso.  Os  horários  podem  ser 
flexibilizados e não necessariamente exatos. 

Ela deve estar atenta para os dias onde estão previstos atendimentos mais desgastantes 
como os  de prótese  dentária  e  prever  um  intervalo para descanso  após  a  sessão, bem  como 
agendar no início da manhã ou da tarde, momento em que se encontra mais descansada. 

5.1.2  Agendamento 
Para  eliminar  o  incômodo  de  interrupções  com  telefonemas  durante  a  sessão,  um 
treinamento para as secretárias externas ao consultório poderia ser eficaz  na medida em que 
elas  tivessem  conhecimento  sobre  os  tipos  de  tratamento,  tempo  necessário  para  cada  um 
deles,  agendamento  de urgências,  etc.  Em  caso  de  dúvidas  as  secretárias  poderiam anotar  o 
recado  e  a  profissional  retornar  a  ligação  em  um  intervalo  programado  para  este  fim, 
preferencialmente  na parte da tarde quando conta com a presença da auxiliar extra­bucal. A 
idéia é de que além de representar a profissional as secretárias filtrem as ligações, solicitando 
a mesma somente quando for necessário. 

5.1.3  Documentos 
Apesar de organizados os documentos não estão fornecendo as estatísticas necessárias 
a uma boa gestão financeira. 

A introdução de uma estatística do número de sessões por mês, por tipo de tratamento, 
idade  de  pacientes  (crianças,  adultos  e  idosos),  casos  especiais,  casos  de  interrupção  ou 
abandono,  número  de  orçamentos,  lucro  por  tratamento  poderá  ser  um  importante  fator  de 
decisão  para  a  escolha  de  tratamentos  a  realizar  segundo  a  relação  custo­benefício  físico  e 
financeiro,  bem  como  o  direcionamento  de  investimentos  futuros  (equipamento,  cursos  de 
formação, contratação de auxiliar intra­bucal, etc.). 

Em relação às fichas clínicas, a atualização diária é importante para que informações 
não  sejam  esquecidas. Por  isto,  recomenda­se,  além  dos  momentos  destinados  a  este  fim,  o
89 

uso de um gravador onde se possa registrar diariamente as  informações e depois transcrevê­ 
las para as fichas. 

5.1.4  Mater iais 


O uso da autoclave deve ser priorizado para a esterilização dos materiais odontológicos 
por se encontrar melhor localizada dentro do consultório em relação à estufa. 

Os materiais devem estar distribuídos nas gavetas do gaveteiro móvel de acordo com a 
freqüência de uso e tipo de tratamento, sendo que a 1ª. e a 2ª. gavetas devem ser eleitas para 
os  materiais  de  maior  manuseio  por  estarem  estas  dentro  do  plano  horizontal  de  ação.  Em 
seguida  a  3ª.  e  4ª.  gavetas  devem  ser  escolhidas  nesta  ordem  para  o  armazenamento  de 
materiais menos utilizados mas necessários. 

Quanto  aos  materiais  que  estão  no  armário  alto,  a  primeira  prateleira  deve  ser 
destinada aos materiais necessários a maioria dos tratamentos. 

Modificar o lado de abertura da porta da geladeira de forma que abra para a esquerda 
facilitando desta forma o acesso aos produtos no seu interior. 

Inserir  uma  luz  direcionada  sobre  o  equipo  para  facilitar  a  visão  dos  materiais  que 
manipula sobre ele e não necessitar deslocar o refletor. 

5.1.5  Tr abalho a duas mãos 
Adotar o  verdadeiro  conceito  de  trabalho  a  quatro  mãos  é  sem  dúvida  uma  solução 
para redução do estresse e aumento da produtividade, no entanto as adequações para reduzir a 
fadiga,  a  exposição  aos  riscos  ocupacionais  e  para  um  trabalho  a  duas  mãos  dentro  do 
contexto atual são as seguintes: 

Afastar  a  cadeira  odontológica  do  balcão  cerca  de  30  cm  de  forma  a  aumentar  o 
espaço  e  permitir  que  acesse  a  geladeira  ou  o  armário  alto  quando  o  equipo  estiver 
posicionado ao lado da cadeira. 

Eliminar a escrivaninha de trás da cadeira odontológica. 

Retirar  o  gaveteiro  móvel  debaixo  do  balcão  e  posicioná­lo  atrás  da  cadeira 
odontológica. 

Adaptar um  dispositivo  liga  e  desliga  do  sugador  junto  ao  equipo  ou  no  pedal,  bem 
como um suporte para encaixar a mangueira do sugador junto ao equipo. 

Reduzir o tamanho do fio do pedal.
90 

Posicionar o equipo paralelamente a cadeira de forma que este fique com as pontas das 
canetas voltadas para a CD. 

Eliminar a cadeira do computador e adquirir um novo mocho que possa servir ao uso 
esporádico do computador e a auxiliar extra­bucal no período da tarde. 

Fazer uso da inclinação total da cadeira quando não houver restrições para o paciente. 

Tornar o paciente mais colaborativo durante a sessão de forma a solicitar mudanças da 
posição da cabeça para melhorar a visibilidade das faces dos dentes e não realizar inclinações 
excessivas do tronco e da cabeça. 

Fazer uso de lupa própria para o trabalho odontológico para diminuir o esforço visual. 

Por fim, iniciar um treinamento da auxiliar extra­bucal para assistência intra­bucal. 

5.1.6  Equipamentos e mobiliár io 


Realizar manutenção preventiva dos equipamentos e mobiliário. 

Trocar o revestimento do mocho por um material antiderrapante. 

Regular o encosto do mocho de forma que fique para trás 5 cm e permita que a CD se 
acomode melhor no assento. 
Trocar os rodízios do gaveteiro. 

Regular as gavetas do gaveteiro para que fiquem mais macias para abrir e fechar. 

Ajustar a braçadeira do equipo correspondente à caneta de alta rotação. 

Realizar uma revisão no compressor. 

5.1.7  Quanto à for mação de novos pr ofissionais 


É  extremamente  importante  que  os  conhecimentos  ergonômicos  sejam  bem 
sedimentados  ainda  durante  a  formação  acadêmica.  Um  verdadeiro  conceito  de  trabalho  a 
quatro mãos deveria ser introduzido desde a faculdade de forma que o aluno possa atuar como 
auxiliar  intra­bucal  e  como  CD.  Acredita­se  que  esta  formação  de  base  é  de  grande 
importância para a verdadeira adoção deste conceito na vida profissional.
91 

5.2  Conclusões 
Esta dissertação teve como um dos seus objetivos específicos fazer as recomendações 
ergonômicas necessárias para o caso estudado. Este fim foi atingido, pois as recomendações 
abrangem  tanto  as  atividades  extra­bucais  quanto  as  intra­bucais  favorecendo  a  adoção  de 
posturas  mais  adequadas,  a  redução  da  fadiga,  a  otimização  do  espaço,  enfim  abordam  a 
organização do trabalho de forma ampla e os aspectos biomecânicos. 

Um outro objetivo específico foi de identificar as estratégias adotadas para reduzir os 
constrangimentos  no  trabalho.  Os  constrangimentos  identificados  e  as  estratégias 
correspondentes são apresentados no Quadro 9: 

Constr angimentos  Estr atégias 

Medo da dor   Para ter controle sobre o medo da dor a CD precisa ter a confiança do paciente e 


respeitar  o  limiar  desta  dor  durante  uma  intervenção.  A  conquista  da  confiança  do 
paciente tem início no agendamento pela própria CD, passa pela sessão de uma hora que 
é  destinada  a  consulta  inicial  e  culmina  com  a  realização  do  tratamento  em  si  onde  a 
profissional  procura  promover  um  ambient e  descontr aído  através  da  conversa  e  de 
música  ambiente  relaxante.  Em  relação  à  dor,  ela  estabelece  inicialmente  um  código 
gestual  (levantar  a  mão  esquerda)  para  que  o  paciente  avise  quando  sentir  o  menor 
incômodo. O paciente sabe que  a CD está atenta  em relação ao aparecimento da dor  e 
que não irá abusar. Um pequeno descuido pode despertar este mecanismo de defesa do 
paciente e comprometer a confiança do mesmo na profissional. 

Pr ecisão manual  Como  a  intervenção  intra­bucal  requer  uma  precisão  manual,  a  CD  adota 
postur as estáticas. Para  promover o  próprio relaxamento durante e entre as sessões, a 
CD  coloca  música  ambiente tr anqüila e  anda pela  clínica  entr e  as  sessões par a  se 
movimentar . 

Per feccionismo no  Para garantir a qualidade do atendimento desde o primeiro contato até a conclusão 


atendimento  do  tratamento,  a  CD  faz  questão  de  r ealizar   o  agendamento  dos  pacientes,  função 
esta que poderia ser delegada às duas secretárias externas ou totalmente à auxiliar extra­ 
bucal no período da tarde sem comprometer ou interromper uma sessão. 

Ger enciamento do  O  período  de  uma  hor a par a cada paciente ameniza  a  tensão, pois  o tempo de 
Tempo  procedimento  pode  sofrer  variações  de  acordo  com  o  tratamento  e  dificuldades 
encontradas  no  decorrer  da  sessão  e  comprometer  o  horário,  o  que  agita  em  muito  a 
profissional.  Ela  sabe  que  poderia  realizar  um  maior  número  de  tratamentos  por  dia, 
mas refere que o custo pessoal é muito alto e que prefere esperar a ser esperada. 

Localização do  O equipamento é projetado para um trabalho a quatro mãos para um CD destro. O 
sugador   sugador,  portanto  encontra­se  do  lado  esquerdo  do  paciente,  local  onde  deve  estar  a 
auxiliar  intra­bucal.  Neste  caso  para  acioná­lo  a  CD  se  posiciona  em  10  hor as  local 
onde pode intervir na boca, utilizar o equipo e o sugador. 

Campo oper atór io  Atuar  com  precisão  manual  em  uma  faceta  de  um  dente  exige  uma  boa 
r estr ito  visualização do local. Para isso, a CD faz uso de uma lupa adaptada para a odontologia 
e da visão dir eta, pois refere que esta favorece a precisão manual. 

Quadro 9: Constrangimentos e estratégias adotadas
92 

O  terceiro  e  último  objetivo  específico  era  de  obter  as  referências  necessárias  que 
evidenciarão a necessidade de se desenvolver e/ou aperfeiçoar instrumentos e equipamentos 
que  melhorem  a  qualidade  de  vida  dos  cirurgiões­dentistas.  Neste  estudo,  foi  possível 
verificar  que a  posição sentada  é  a  de  menor  gasto  energético  (4%)  e a  adoção de posturas 
estáticas aumenta a precisão manual durante as intervenções intra­bucais e favorece a precisão 
visual.  Para  atender  a  estas  condições  necessárias  ao  atendimento,  o  mocho  se  torna  um 
elemento chave neste cenário, merecendo, portanto ser repensado de maneira a promover uma 
postura mais ergonômica ao profissional com o objetivo de minimizar os efeitos indesejáveis 
das  posturas  estáticas  –  os  DORT.  Alguns  elementos  foram  identificados  e  merecem  uma 
reflexão para se repensar o conceito de assento ergonômico para o CD. São eles:

·  Apoio lombar: para diminuir a tensão na musculatura da coluna vertebral;

·  Apoio para membros superiores: para que os braços não fiquem suspensos;

·  Estabilidade/aderência: para que não se deslize sobre o assento e sobre o solo durante 
um procedimento;

·  Mobilidade: para que favoreça o deslocamento quando necessário;

·  Adaptabilidade:  para  que  permita  a  variabilidade  postural  e  a  quebra  do  padrão 


postural estático. 

O  objetivo  geral  desta  dissertação  era  de  estudar  o  posto  de  trabalho  do  cirurgião­ 
dentista através da metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET), visando construir 
um  ponto  de  vista  da  atividade  desta  profissão  para  a  construção  das  recomendações 
ergonômicas.  A AET mostrou­se um método bastante adequado para o estudo e compreensão 
da atividade promovendo desta forma que as adequações atendessem às necessidades da CD. 

Ao  se  conhecer  as  determinantes  desta  atividade,  os  constrangimentos  e  estratégias 
adotados  pela  CD  para  amenizá­los,  bem  como  as  doenças  osteomusculares  a  que  o 
profissional  se  expõe,  foi possível  construir  um ponto de  vista  desta  profissão  caracterizada 
como:

·  Estressante: por exigir um controle do medo da dor, não apenas por parte do paciente, 
mas também por parte da CD que teme que ela apareça;
93

·  Perfeccionista:  pela  busca  do  sucesso  no  tratamento  e  satisfação  do  paciente.  O 
desgaste  proveniente  da  busca  pela  perfeição  desde  o  agendamento  até  a  manutenção  da 
clientela colabora ainda mais para o aumento de tensão já existente nas posturas estáticas;

·  Restritiva:  pela  intervenção  em  pequena  área,  pela  exigência  de  precisão  manual  e 
visual, pela adoção de posturas estáticas, e pela questão econômica que priva o profissional de 
ter sua equipe de auxiliares intra e extra­bucais. 

Estes três elementos também são encontrados na literatura. Por outro lado, a CD deste 
estudo  apresenta  uma  grande  satisfação  em  ter  escolhido  a  odontologia.  Acredita­se  que  a 
satisfação profissional se dá através da realização de um procedimento bem feito e do controle 
da dor e do medo. Esta é a gratificação que compensa o custo negativo inerente à atividade. 

Tendo  como  base  o  conteúdo  desta  dissertação,  seguem  algumas  sugestões  para 
trabalhos futuros:

·  a simulação em software específico, como o Promodel, por exemplo, pode trazer uma 
contribuição para a organização do trabalho;

·  estudo do assento para o CD, no que diz respeito aos elementos mínimos necessários 
para fornecer uma posição ergonômica;

·  a formação acadêmica relativa à ergonomia odontológica e ao conceito de trabalho a 4 
mãos;

·  a  análise  ergonômica  do trabalho  da  especialidade  odontopediatria,  por  ser a  criança 


um paciente especial no que diz respeito a dor e ao tempo de tolerância à intervenção 
intra­bucal.
94 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
1.  ABO.  História  da  Odontologia.  50  anos  da  ABO  Nacional.  Revista  da  Associação 
Brasileir a de Odontologia. Edição 32. v.6, n.5, out­nov, 1998. 
2.  ABRAHÃO,  J.I.  Er gonomia:  Modelo,  Métodos  e  Técnicas.  Brasília:  Instituto  de 
Psicologia, UnB, 1993. 
3.  ABRAHÃO,  J.I.,  &  PINHO,  D.  L.  M.  Teoria  e  prática  ergonômica:  seus  limites  e 
possibilidades.  In:  M.  G.  T.  Paz  &  A. Tamayo  (Orgs.),  Escola,  saúde e  tr abalho:  estudos 
psicológicos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. 
4.  ABRAHÃO,  J.I.,  PINHO,  D.L.M.;  As  tr ansformações  do  trabalho  e  desafios 
teór ico­metodológicos  da  Ergonomia,  2001.  Disponível  em:  <http//www.scielo.com.br> 
Acesso em 14/11/2004. 
5.  AMERICAN  DENTAL  ASSOCIATION  (ADA)  Disponível  em:  < 
http://www.ada.org/public/resources/history/index.asp> Acesso em: 05/02/2006. 
6.  BARRETO,  S.M.  &  FILHO,  S.B.S.  Atividade  ocupacional  e  prevalência  de  dor 
osteomuscular em cirurgiões­dentistas de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil: contribuição 
ao debate sobre os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. Cadernos de Saúde 
Pública, v.17, n.1, jan/fev, 2001. 
7.  BARROS, O.B. Ergonomia 2 – O Ambiente Físico de Trabalho, a Produtividade e a 
Qualidade de Vida em Odontologia. São Paulo: Pancast, 1993. 
8.  BARROS, O.B. Er gonomia 3 – Auxiliares em Odontologia – ACD – THD – TPD ­ 
APD. São Paulo: Pancast 1995. 
9.  BARROS, O.B. Ergonomia 1 – A Eficiência ou Rendimento e a Filosofia Correta de 
Trabalho em Odontologia. São Paulo: Pancast, 1999. 
10.  BARROS,  O.B.  PTO:  Posto  de  Tr abalho  Odontológico.  Maringá:  Editora  Dental 
Press, 2006. 
11.  BRASIL. Instrução Normativa INSS/DC Nº 98 ­ DE 05 de dezembro de 2003 – DOU 
de 10/12/2003. Disponível em: < 
http://www81.dataprev.gov.br/sislex/imagens/paginas/38/inss­dc/2003/anexos/IN­DC­98­ 
ANEXO.htm> Acesso em 03102006. 
12.  BRASIL.  Ministério  da  Saúde.  Agência  Nacional  de  Vigilância  Sanitária.  Ser viços 
Odontológicos: Pr evenção e Controle de Riscos. Brasília: Ministério da Saúde. 2006. 
13.  BURKE, F.J., MAIN, J.R. & FREEMAN, R. The practice of dentistry: an assessment 
of reasons for premature retirement. The Br itish Dental J ournal, v.182, n.7,1997. 
14.  CASTRO,  S.L.  &  FIGLIOLI,  M.D.  Ergonomia  aplicada  à  dentística.  Avaliação  da 
postura  e  posições  de  trabalho  do  CD  destro  e  da  auxiliar  odontológica  em  procedimentos 
restauradores. J or nal Brasileir o de Clínica Odontológica Integrada, v.3, n.14, 1999. 
15.  CONSELHO  FEDERAL  DE  ODONTOLOGIA.  Perfil  do  Cirurgião­Dentista. 
Disponível em: <http://www.abeno.org.br> Acesso em 17 ago. 2004. 
16.  CURIE, J. Condições da pesquisa científica em ergonomia. In: DANIELLOU, F. et al, 
A  er gonomia  em  busca  de  seus  pr incípios:  debates  epistemológicos.  São  Paulo:  Edgard 
Blucher, 2004.
95 

17.  DJERASSI, E. Some problems of the occupational diseases of dentists. Inter national 


Dental  J our nal,  v.21,  p.252­269,  1971  apud  Castro,  S.  L.,  Figlioli,  M.  D.  Ergonomia 
aplicada a dentística. Avaliação da postura e posições de trabalho do CD destro e da auxiliar 
odontológica em procedimentos restauradores.  J or nal Br asileiro de Clínica Odontológica 
Integrada, v.3 n.14, p.56­62, 1999. 
18.  DUL  J.  e  WEERDMEESTER  B.  Ergonomia  Pr ática.  3ª  reimpressão.  São  Paulo: 
Edgard Blucher, 2001. 
19.  FERREIRA, M.C. & MENDES, A.M. Trabalho e Riscos de Adoecimento: O Caso 
dos Auditores­Fiscais da Previdência Social Brasileira. Brasília: LPA, 2003. 
20.  FERREIRA  M.C.  O  sujeito  forja  o  ambiente,  o  ambiente  forja  o  sujeito:  inter­ 
relaçãoindivíduo­ambiente  em  ergonomia  da  Atividade.  Texto  de  apoio  pedagógico. 
Laboratório de Ergonomia. UnB, 2002. 
21.  FIALHO,  F.;  SANTOS,  N.  Manual  de  análise  er gonômica  no  trabalho.  Curitiba: 
Genesis, 1995. 
22.  FINKBEINER,  B.L.  Four­Handed  Dentistry  Revisited.  The  J ournal  of 
Contemporary Dental Pr actice, v. 1, n.4, Fall Issue, 2000. 
23.  FINSEN,  L.,  CHRISTENSEN,  H.  &  BAKKE,  M. Musculoskeletal  disorders  among 
dentists and variation in dental work. Applied Ergonomics, v.29, n.2, 1998. 
24.  GARCÍA,  R.  P.  O.;  MÉNDEZ,  M.  M.  J.  Breve  historia  dela  cirugía  bucal  y 
máxilofacial. Revista Humanidades Médicas.  v.2, n.4,  enero­abril, 2002. 
25.  GOBBI,  G.  B.  Sintomas  músculo­esqueléticos  r elacionados  ao  trabalho  em 
cirurgiões­dentistas. Dissertação de mestrado – Faculdade de Ciências Médicas. UNICAMP, 
Campinas, 2003. 
26.  GUÉRIN  et  al.  Compr eender   o  tr abalho  para  tr ansfor má­lo.  São  Paulo:  Edgard 
Blücher, 2001. 
27.  IIDA, Itiro. Er gonomia: projeto e produção. 2ª. edição. São Paulo: Edgard Blücher, 
2005. 
28.  JAMIL,  A.C.C.  O  teletrabalho  e  a  significação  do  espaço  na  constituição  da 
competência  e  gestão  da  carga  de  trabalho:  um  estudo  das  interações  na  atividade  dos 
analistas  de  dossiês  de  processos  habitacionais  numa  instituição  bancária.  Dissertação  de 
mestrado – UFMG, Belo Horizonte, 2004. 
29.  KELSEY,  J.  L.  Epidemiology  of  Musculoskeletal  Disor der s.  New  York:  Oxford 
University Press, 1982. 
30.  LADERAS,  S.  &  FELSENDELD,  A.  L.  Ergonomics  and  the  dental  office:  an 
overview  and  consideration  of  regulatory  influences.  J ournal  of  the  Canadian  Dental 
Association, v.30, n.2, 2002. 
31.  LETHO,  T.  U.;  RONNEMAA,  T.;  AALTO,  T.  &  HELENIUS,  H.  Y.  M. 
Roentgenological  arthrosis  of  the  hand  in  dentists  with  reference  to  manual  function. 
Community Dentistry and Or al Epidemiology, v.18, p.37­41, 1990. 
32.  LIMA,  F.P.A.;  JACKSON  FILHO,  J.M.  Prefácio  da  tradução  brasileira.  In: 
DANIELLOU,  F.  et  al.,  A  ergonomia  em  busca  de  seus  princípios:  debates 
epistemológicos. São Paulo: Edgard Blucher, 2004.
96 

33.  LYM  S.Y.  &  CARAYON  P.  Psichosocial  and  work  stress  and  perspective  on 
musculoskeletal  discomfort.  In:  International  scientific  conference  on  prevention  of 
musculoskeletal disorders, Anais 175­7, Montreal, 1995. 
34.  MAGGI, B. Do Agir Organizacional. São Paulo: Edgard Blücher, 2006. 
35.  MAGGI  B.  &  TERSAC.  G.  O  tr abalho  e  a  abor dagem  er gonômica.  In: 
DANIELLOU,  F.  et  al,  A  ergonomia  em  busca  de  seus  princípios:  debates 
epistemológicos. São Paulo: Edgard Blucher, 2004. 
36.  MICHELIN, C.F., MICHELIN, A.F. & LOUREIRO, C.A. Estudo epidemiológico dos 
distúrbios  musculoesqueletais  e  ergonômicos  em  CDs.  Revista  da  Faculdade  de 
Odontologia de Passo Fundo, v.5, n.2, p.61­67, 2000. 
37.  MICHALAK­TURCOTTE,  C.  Controlling  dental  hygiene  work­related 
musculoskeletal disorders: the ergonomic process. The J our nal of Dental Hygiene, 74 (1), 
41­  48,  2000.  Disponível  em  <http://www.dimensionsofdentalhygiene.com>.  Acesso  em 
10/11/2004. 
38.  MONTMOLLIN, M. L’Ergonomie. Paris: La Découverte, 1990. 
39.  MORAES, A. Quando a primeira sociedade de ergonomia  faz 50 anos, a IEA chega 
aos  40,  a    Associação  Brasileira  de  Ergonomia  debuta  com  16.  Disponível  em:  < 
http://lableui.vilabol.uol.com.br/Fhistorico.html> Acesso em 16/02/2005. 
40.  MORAES, A.; SOARES, M. M.. Ergonomia no Br asil e no mundo: um quadro, uma 
fotografia. Rio de Janeiro: ABERGO/UNIVERTA, 1989. 
41.  MURPHY,  D.C. Ergonomics  and  dentistry.  New  York  State  Dental  J ournal,  v.63, 
n.7, p.30­34, 1997. 
42.  OLIVEIRA,  C.  R.  et  al.  Manual  Prático  de  LER.  2ª  ed.  Belo  Horizonte.  Health, 
1998. 
43.  POI,  W.  R.,  TAGLIAVINI,  R.  L.  Organização  do  trabalho  em  clínica  integrada. 
Revista da Associação Brasileir a de Odontologia Nacional, v. 7, n. 4, p. 209­212, 1999. 
44.  POLLACK,  R.  Dental  office  ergonomics:  how  to  reduce  etress  factors  and  increase 
efficiency. J ournal of the Canadian Dental Association, v. 62, n. 6, p. 508­510, 1996. 
45.  POLLACK­SIMON,  R.  All  the  right  moves:  Integranting  technology  &  ergonomics 
into your patient care environment. Dentistry Today, v. 19, n. 10, p. 112­117, 2000. 
46.  PORTO, F. A. O Consultór io Odontológico. São Carlos: Scritti, 1994. 
47.  RASIA,  D.  Quando  a  Dor   é  do  Dentista!  Custo  Humano  do  Trabalho  de 
Endodontistas e Indicadores de Dort.  Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília – 
UnB, 2004. 
48.  RÉGIS FILHO, G. I.; Michels, M.; SELL, I. LERs: Lesões por Esfor ços Repetitivos 
em Cir ur giões­dentistas. Itajaí: UNIVALI, 2005. 
49.  RIO,  L.  M.  S.  P.;  RIO,  R.  P.  Manual  de  Er gonomia  Odontológica..  1ª  ed.  Belo 
Horizonte: Conselho Regional de Odontologia de Minas Gerais, 2000. 
50.  RUCKER, L. M. Technology meets ergonomics in the dental clinic: new toys for old 
games. J ournal of the Amer ican College of Dentists, v. 67, n. 2, p. 26­29, 2000. 
51.  RUCKER,  L.M.  &  SUNELL,  S.  Ergonomic  risk  factors  associated  with  clinical 
dentristry. J our nal of Califor nia Dental Association, v. 30, n. 2, p. 139­148, 2002.
97 

52.  SALERNO,  M.  S.  Análise  Ergonômica  do  Tr abalho  e  Pr ojeto  Organizacional: 
uma  discussão  compar ada.  Boletim  Técnico  da  Escola  Politécnica  da  USP, Departamento 
de Engenharia de Produção. São Paulo: EPUSP, 1998. 
53.  SANDERS,  M.  S.  &  McCORMICK,  E.  J.  Human  factor s  in  engineer ing  and 
design. 7a ed. New York: McGraw­Hill, 1993. 
54.  SAQUY  P.  C.  e  PÉCORA  J.  D.  A  Er gonomia  e  as  Doenças  Ocupacionais  do 
Cirurgião­dentista. Ribeirão Preto: Dabi Atlante, 1994. 
55.  SMITH  M.  J.  Considerações  psicosociais  sobre  os  distúrbios  osteomusculares 
relacionados  ao  trabalho  (DORT)  nos  membros  superiores.  Disponível  em 
<http://www.ergonomia.com.br> Acesso em 30/08/2006. 
56.  SOARES,  M.  M.  21  anos  da  ABERGO:  a  Ergonomia  brasileira  atinge  a  sua 
maior idade. ABERGO – Associação Brasileira de Ergonomia, 2004. 
57.  SOUZA, A. C. Pr óthese Dentaria. 5ª edição. Rio de Janeiro, 1917. 
58.  VILAGRA,  J.  M.  Análise  da  pr evalência  de  distúr bios  músculo­esqueléticos  em 
acadêmicos  do  curso  de  Odontologia:  consider ações  com  enfoque  pr eventivo  de 
LER/DORT. Dissertação de mestrado. UFSC, 2002. 
59.  WISNER,  A.  Questões  epistemológicas  em  er gonomia  e  em  análise  do  trabalho. 
In:  DANIELLOU,  F.  et  al.,  A  ergonomia  em  busca  de  seus  princípios:  debates 
epistemológicos. São Paulo: Edgard Blucher, 2004. 
60.  WISNER,  A.  Ergonomie  et  analyse  ergonomique  du  travail:un  champ  de  l’Art  de 
l’Ingénieur et une méthodologie générale des  sciences humaines. Per for mances Humaines 
& Techiniques, Nº hors serie Seminarie Paris 1 (Septembre), p. 74­78, 1995. 
61.  WISNER, A. A inteligência do trabalho. São Paulo: Fundacentro, 1994. 
62.  WISNER,  A.  La  méthodologie  en  ergonomie:  d'hier,  à  aujourd'hui.  Per formaces 
Humaines & Techniques, v. 50, p. 32­38, 1990. 
63.  WISNER,  A.  Por  dentro  do  trabalho.  Ergonomia:  método  &  técnica.  São  Paulo: 
FTD/Oboré, 1987.
98 

ANEXO A – Análise Er gonômica do Tr abalho 

Demanda 

Abor dagem global 

Atividade 

Obser vação 
sistemática 

Diagnóstico
99 

ANEXO B – Esquema ger al do método da análise 
er gonômica 
Análise da Demanda 

Abordagem global 
Análise estr utural 

Análise da Atividade do Tr abalho 
Observação global da atividade 

For mação de um Pr é­ 


diagnóstico  Definição de um 
Hipóteses  plano de 
obser vação 

Obser vações sistemáticas 
Tr atamento dos dados 
Diagnóstico 

Recomendações 

Realização 
Validação
100 

ANEXO C – Planilha par a obser vação do tempo das ações