Características dos quadrinhos - Elipse temporal parte 1

A elipse temporal nos quadrinhos utiliza-se do espaço denominado ³sarjeta´, ou seja, o espaço existente entre dois requadros, entre dois quadrinhos. Esta seria o espaço a ser completado pela imaginação do leitor, espaço que liga o quadro anterior ao posterior, fazendo com que a história tenha uma sequência contínua. Cada hiato que separa a cercadura dos requadros praticamente representam uma elipse. Este corte, em si, já impõe ao leitor uma leitura de imagens ³ocultas ou subentendidas pela narrativa´. Por outro lado, pode-se obter também interessantes surpresas temáticas com grande eficácia. Uma imagem pode parecer ambígua até ser amarrada em uma narrativa. Para entender o quadrinho é necessário entender o que aconteceu antes e o que acontecerá depois. Ou ambos. Isoladamente um quadrinho é difícil de entender. Duas imagens constituem uma narrativa, desde que sejam colocadas como uma sucessão, ou que o leitor as entenda assim. Nas histórias em quadrinhos, o leitor constrói e confirma a narrativa que faz sentido na história. A elipse de tempo aceitável entre duas imagens é explicitada pela capacidade ou não dessas imagens representarem uma continuidade. As transições são possíveis porque o leitor está acostumado a ler o corpo do texto como narrativa.

O leitor procura, então, juntar ambas os quadros para formar uma linearidade. Esta busca para ³fechar´ a narrativa, ou para ³completá-la´ vem da incapacidade humana de perceber toda a ³realidade´ existente. Assim, os seres humanos têm que completar as lacunas existentes, observar apenas as partes perceber o todo.Este processo é chamado de conclusão.

É a conclusão um dos pontos principais dos quadrinhos, onde a sarjeta a responsável pela sua essência. É na sarjeta que a imaginação humana capta duas imagens distintas e as transforma em uma única idéia. O leitor valese de sua experiência para concluir algo que não está nem desenhado e nem escrito, algo que está ausente, que permanece apenas no vácuo da sarjeta.

onde o escritor direciona o leitor através do tempo ou do espaço. quando coloca-se mais quadros para compor a história. ou seja. efetuando uma ação óbvia. transições ação -para-ação. Por último. então. como se o leitor estivesse virando seu rosto e percebendo o lugar com um olho migratório. Quando a conclusão entre os quadros fica mais intensa. o posterior. inúmeros autores se divertem com frequência ao se referir ao fato de leitores lhes falarem de imagens que eles nunca desenharam. ou subtrativos. transições cena-a-cena. O escritor de quadrinhos tem que se preocupar com o nível de flexibilidade de interpretação do leitor. ainda que este processo efetivamente não determine a maneira que a leitura se efetuará. é a arte da ruptura. onde há um mesmo tema direcionando o pensamento do leitor. O que realmente importa é a sarjeta existir. Quanto mais o autor de quadrinhos deseja ter controle sobre o leitor. o detalhe que se insere no meio de uma dada imagem ou sequência. onde são mostrados vários aspectos de um mesmo lugar. Na transição temporal. o que não causa espanto. A arte do quadrinista. onde está tudo posto para o leitor. pois elas nascem da imaginação do leitor. o que está fora do campo de visão do leitor. O autor da obra de quadrinhos precisa criar um elo com seu leitor em que ele concorde e participe ativamente da leitura do quadrinho. o superior ou inferior. as transições non-sequitur. quando retiram-se quadros para que o leitor componha a história. é a arte de fazer o leitor acreditar que existe uma continuidade. ³pouco depois´ etc. e os planos de uma sequência cujo tempo ficcional não corresponda ao tempo da narrativa. . a partir da análise dos dois requadros: o anterior e o posterior. unificados especialmente pelo balão que contém o mesmo discurso personagens diferentes. com resultados variáveis. a mudança de plano que revela uma nova imagem com legendas do tipo ³enquanto isso«´.Elipse temporal parte 2 A elipse é completada pelo leitor. é quase explícita. O tamanho da sarjeta.Características dos quadrinhos . a div isão entre os requadros. onde obtém-se pouca conclusão. mesmo que esta não esteja visualmente representada. Percebemos a mudança da transição espacial. da descontinuidade. escritor deseje algo sem conexão. o que vai negligenciar ³ao redor´ da cena desenhada. com distâncias significativas entre eles. onde podemos destacar a montagem alternada entre planos temporais simultâneos. fazendo com que este reflita um pouco mais. e por fim. a imagem que se completa com o plano precedente. a montagem alternada entre planos temporais simultâneos. então. Podemos dividir como transições momento -a-momento. a mente leitora vai tentar ligar os quadros. a transição espaço-temporal: o plano que indica uma mudança de lugar e tempo ou os planos que indicam uma ação paralela à temática principal de uma dada história ou ainda o corte que marca a passagem de uma realidade concreta para uma realidade abstrata na história. transição aspecto-para-aspecto. mas também. Dificilmente haverá uma sequência entre quadros sem nenhuma ligação entre eles Isto porque. dois ou mais planos que focalizam a mesma situação temática a partir de dois ou mais ângulos diferentes. diversos tipos de transição. criar a elipse não é apenas escolher o que não se vai mostrar entre um requadro e outro. transições tema -para-tema. é a ausência de elementos entre um quadrinho e outro. ser aditivos. Os quadrinhos podem. As transições podem ser percebidas também através das mudanças de tempo entre os requadros. Isto porque os elementos omitidos de uma obra são tão partes dela quanto os elementos explícitos. a interpretação do leitor torna-se mais flexível. menores deverão ser as elipses. mesmo que o . Prova-se verdade esta afirmação quando percebemos histórias em quadrinhos onde apenas um risco separa um requadro do outro. a mudança de plano que revela uma nova imagem com legendas do tipo ³mais tarde´. entretanto. Para o autor de quadrinhos. Há. onde é impossível para o leitor conectar os quadros. segundo o autor. não importa muito. onde há um único tema em progressão.

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