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O ROUSTAINGUISMO

Embora muitos não concordem, consideramos a doutrina de Roustaing, que admite


o corpo fluídico de Jesus, também tem uma deturpação do Espiritismo. E por que
não dedicamos a ela um capítulo especial, na primeira edição de "Pureza
Doutrinária", que saiu em 1988? Porque não penetráramos ainda, com
profundidade, no assunto e não assimiláramos o pensamento de Herculano Pires:
"A posição científica Kardec opõe-se à posição vulgar de Roustaing - um horrível
vaidoso que se deixa levar pelos Espíritos mistificados aceitando as explicações
mais ridículas e absurdas para esclarecimento de problemas escriturísticos. O
grande advogado não passava de um grande ingênuo". (O Verbo Carne, Edição
Cairbar, página 56, 1973).

1 - Breve histórico

Jean-Baptiste Roustaing era advogado e nasceu Bordeaux (França). Foi


assessorado pela médium Emile Collignon, que lhe transmitiu comunicações
mediúnicas atribuídas aos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas, João), cada
qual comentando seu Evangelho, tudo dirigido por Moisés. Roustaing publicou sua
obra em 1866, intitulada . Quatro Evangelhos", com o subtítulo "Espiritismo Cristão
Revelação da Revelação".

No segundo século da era cristã, surgiu dentro cristianismo a doutrina do


docetismo. Ensinava ela que o corpo de Cristo não era material, e sim aparente e
ele não teria nascido como os homens em geral. No século IV, Apolinário de
Ludicéia, dizia que Jesus não nascera de Maria, não sofrera e só morrera na
aparência.

Roustaing traz de novo essas idéias. Se, como pretende os quatro Evangelhos
fossem comentados agora pelos próprios evangelistas, constituiriam uma obra de
altíssimo valor, que viria reforçar a Codificação. Mas as contradições e erros são tão
grandes que têm prestado um desserviço ao Espiritismo. Por isso, é profundamente
lamentável que a Federação Espírita Brasileira dê tamanho valor a essa doutrina
desagregadora.

No Brasil, os "Quatro Evangelhos" foram introduzidos por Antônio Luiz Sayão, do


Grupo Ismael (RJ), fundado em 1880. Foi ele precursor da Federação Espírita
Brasileira (F.E.B.), que veio a defender ardorosamente o roustainguismo, através
das palavras e ações de todos os seus presidentes: Guillon Ribeiro, Wantuil de
Freitas, Armando de Assis, Francisco Thiesen e Juvanir Borges de Souza. Fecharam
eles os espíritas ingênuos numa gaiola de ouro: nenhuma pessoa poderia ter cargo
diretivo se não fosse roustainguista.

Ismael Gomes Braga, dirigente da FEB, em seu livro "Elos Doutrinários" culpa os
kardecistas pelo fracasso do movimento espírita francês: "Nos lugares onde os
inimigos visíveis e invisíveis de Roustaing venceram a campanha que maquinaram,
o Espiritismo e Kardec entraram em declínio e, ou desapareceram totalmente, ou
estão adormecidos. Está demonstrado, pois, que atacar a obra de Roustaing é, de
fato, atacar e minar o edifício todo da Terceira Revelação, lançar o descrédito sobre
a fonte mesma do espiritismo." ( ... )"Não nos iludamos com esses pretensos
defensores de Kardec. Eles são os únicos inimigos perigosos do espiritismo, por isso
que se dizem espíritas, escrevem e falam em nome da Doutrina e ardilosamente lhe
vão minando os alicerces eternos: os Evangelhos e a Mediunidade". Para ele, os
livros de Roustaing são um curso superior de Espiritismo.
Luciano dos Anjos, em artigo publicado no "Reformador", órgão da FEB, em 1973,
afirma que a FEB é uma instituição extraterrena, nada mais sendo do que uma
projeção de sua verdadeira sede que está no alto. Francisco Thiesen, ex-presidente
da FEB, no "Reformador"de abril de 1987, diz que "Kardequizar é sectarizar".

O "Reformador", como se vê, sempre foi o porta-voz dos roustainguistas da FEB.


Há cerca de 8 anos, em manobra política, a FEB levou, para vice-presidentes, dois
espíritas paulistas, de enorme valor e dignidade, ambos kardecistas. Esperávamos
que eles conseguissem abrandar, se não as idéias, pelo menos as táticas
roustainguistas, mas estamos vendo que não o conseguiram, ou não quiseram. A
FEB passou a assediar, por meios os mais variáveis, as poucas Entidades, como a
USE-SP que se mantinham fora de seus domínios. Esperemos seu novo vôo, rumo
ao Conselho Espírita Internacional.

2 - Afirmações de Roustaing

Basei-me nas seguintes fontes:

Durval Ciamponi, em seu excelente livro "Alternativas da Humanidade (Na era do


Espírito)", Edições FEESP, 1996, faz um estudo resumido das 'teses
roustainguistas'. Gélio Lacerda da Silva aborda longamente o assunto, no seu livro
"Conscientização Espírita", Editora Opinião E, 1995. Wilson Garcia já havia sido
muito feliz na pesquisa para "O Corpo Fluídico", Editora Correio Fraterno, 1987. E
não nos esqueçamos do livro que fez furor em 1973: "O Verbo e a Carne", de
Herculano Pires e Júlio Abreu Filho. Em 1999, Nazareno Tourinho publicou uma
excelente crítica: "As Tolices e Pieguices da Obra de Roustaing", Correio Fraterno.

Vamos então, às principais afirmações do livro "Os Quatro Evangelhos".

1 - Jesus, sendo um Espírito Crístico, não teve um corpo carnal, mas um corpo
fluídico, com todas as aparências de matéria.

2- A gravidez de Maria foi aparente: "Foi obra do Espírito Santo (noção católica),
porque foi obra dos Espíritos do Senhor e, como tal, aparente e fluídica, de maneira
a produzir ilusão, a fazer crer numa gravidez real". Quer dizer: Maria participou de
uma grande farsa. "Os espíritos prepostos à preparação do aparecimento do
Messias na Terra reuniram em torno de Maria fluidos apropriados que lhe operaram
a distensão do abdômem e o entumesceram." ( ... )"Seu parto foi igualmente obra
do Espírito Santo, porque também foi obra dos Espíritos do Senhor e só se deu na
aparência, tal como a gravidez." Vejam-se o misticismo e a arrogância, fazendo os
"Espíritos do Senhor" virem fazer os partos aqui na Terra ...

3 - O leite mamado por Jesus era devolvido pelos espíritos ao sangue da mãe, sem
que ela o soubesse.

4 - O corpo fluídico justifica atos da vida de Jesus, como andar sobre as águas e
desaparecer do sepulcro.

S - Os Espíritos crísticos, puríssimos, não podem encarnar, por isso, Jesus não
poderia ter corpo de matéria.

6 - Tudo, na vida de Jesus, foi apenas aparente, havendo ilusão para todos os que
o seguiam.
7- Deveria vir o "Espírito Regenerador", representando o Consolador prometido por
Jesus, com o papel do Espírito Santo da Igreja Romana. Esta afirmação reduz a
zero a universalidade da missão do Espiritismo e as manifestações mediúnicas. "Os
vossos médiuns só entrarão no gozo completo de suas faculdades medianímicas
quando estiver entre os homens o Regenerador, Espírito que desempenhará a
missão superior de conduzir a humanidade ao estado de inocência, isto é, ao grau
de perfeição a que ela tem de chegar". ( ... )" Debaixo da influência e da direção do
Regenerador, caminha o chefe da Igreja Católica, a qual será, então, católica na
legítima acepção desse termo, pois estará em vias de tornar-se universal, como
sendo a Igreja de Cristo."

8 - Afirmam os seguidores de Roustaing que Humberto de Campos enfatiza a


participação dele na obra da Codificação.

"O Mundo Maior decidiu que Kardec contaria com a coordenação de uma plêiade de
auxiliares de sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas
individualidades de ]ean-Baptiste Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de
Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que
apresentaria a estrada científica; e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos
mundos."

9 - Vem agora o absurdo dos absurdos, defendido por Roustaing. Trata-se dos
"criptógamos carnudos". Para ele, os espíritos "ateus" sofrem o castigo da primitiva
encarnação humana, transformando-se em larvas, que Roustaing denomina
"criptógamos carnudos". Seriam uma espécie em que se encarnam espíritos
humanos que regrediram aos planos vegetal e animal. Em Botânica, criptógamos é
o termo usado para designar os vegetais que possuem órgãos reprodutores ocultos.
O acréscimo "carnudo" faz lembrar músculos, carne, e por isso, os remete ao reino
animal. Nesses seres encarnariam espíritos humanos que regridem ao reino vegetal
ou animais extremamente elementares.

Roustaing assim os descreve: "São corpos rudimentares.

O homem aporta a essas terras no estado de esboço, como tudo que se forma nas
terras primitivas. O macho e a fêmea não são nem desenvolvidos, nem fortes, nem
inteligentes. Mal se arrastando nos seus grosseiros invólucros, vivem, como os
animais, do que encontram no solo e lhes convenha. As árvores e o terreno
produzem abundantemente para a nutrição de cada espécie. Os animais carnívoros
não os caçam. A previdência do Senhor vela pela encarnação de todos. Seus únicos
instintos são os da alimentação e os da reprodução".

No livro "O Verbo e a Carne", na página 43, Herculano Pires comenta: "Essa é a
revelação da revelação. Roustaing copia e desfigura Kardec, acrescentando aos
seus ensinos os maiores absurdos. Note-se que essas criaturas estranhas, em
forma de larvas e lesmas, são encarnação de espíritos humanos que haviam
atingido alta evolução sem passar pela encarnação humana. Depois de
desenvolverem a razão em alto grau e de haverem colaborado com Deus nos
processos da Criação, chegando mesmo a orientar criaturas humanas, voltam à
condição de criptógamos carnudos.

Mas por que falam os reveladores em substâncias humanas? Por que não
simplificam as coisas dizendo simplesmente que esses espíritos decaídos vão
encarnar-se em lesmas? Por que é preciso enganar os espiritistas que aceitam
Kardec e sabem que a evolução espiritual é irreversível, que o espírito humanizado
não pode regredir ao plano animal?"
Encontramos em Léon Denis, "Depois da Morte", 9º edição, FEB, página 124: "A
alma se elabora no seio dos organismos rudimentares. No animal, está apenas em
estado embrionário: no homem adquire o conhecimento e não pode mais
retrogradar".

Os antigos egípcios e outros admitiam que a alma humana pode reencarnar em


corpo de animais como punição a falhas cometidas. Nisto consiste a metempsicose,
não aceita pelo Espiritismo, que só admite reencarnação em corpos humanos. A
metempsicose é esclarecida por Kardec, em "O Livro dos Espíritos", perguntas 611,
612 e 613.

3 - REFUTAÇÃO DE ROUSTAING

O combate às idéias de Roustaing já é antigo: Deolindo Amorin e Carlos


Imbassahy, no Rio de Janeiro, nas décadas de 1950 e 1960; José Herculano Pires e
Júlio Abreu Filho, de 1960 a 1975 (em São Paulo); mais recentemente, Durval
Ciamponi e Gélio Lacerda da Silva, de Vitória, ES, que publica "Conscientização
Espírita", EME editora, 1995, livro claro, didático e muito corajoso.

Vamos tentar refutar, item por item, os argumentos falaciosos dos roustainguistas,
mas nada melhor do que iniciar citando os ensinos poderosos do Codificador, que
constituem nosso esclarecimento, nossa luz, nosso farol. Representam não a
opinião sem validade de um homem, fanatizado e presunçoso, que quer impingir
suas idéias como se fossem os ensinos dos quatro evangelistas, mas sim, a opinião
coletiva de Espíritos de alta evolução, que trouxeram a Doutrina Espírita.

1- Corpo Fluídico . Vejamos o que diz "A Gênese"· Capítulo XV . item 65: "A
permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: aquele que precede e
aquele que segue sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o
nascimento, tudo se passa com sua mãe como nas condições comuns da vida. A
partir do nascimento até sua morte, tudo em seus atos, sua linguagem e nas
diversas circunstâncias de sua vida, apresenta os caracteres inequívocos de sua
corporeidade. Depois de sua morte, ao contrário, tudo revela nele o ser fluídico. A
diferença entre os dois estados é tão fundamentalmente traçada que não é possível
assemelhá·las ...

A coesão não existe nos corpos fluídicos; a vida, neles não repousa no
funcionamento de órgãos especiais e neles não se podem produzir desordens
análogas; um instrumento cortante em qualquer outro, ali penetra como num
vapor, sem lhe ocasionar lesão alguma. Eis porque os seres fluídicos designados
por agêneres não podem ser mortos.

Depois do suplício de Jesus, seu corpo lá ficou, inerte e sem vida; foi sepultado
como os corpos comuns, e todos puderam vê-lo e tocá·lo. .. Se Jesus pôde morrer,
é que tinha corpo carnal".

Vamos agora ao livro "Obras Póstumas", de Kardec, capítulo V - Dupla natureza de


Jesus, página 105: "O que devia ser humano em Jesus era o corpo, a parte
material, e neste ponto de vista, compreende-se que ele tenha sofrido como
homem". No capítulo VIII desse livro, Kardec lembra João I, 1 a 14: "E o verbo se
fez carne e habitou entre nós; e vimos a sua glória, como filho unigênito do Pai,
cheio de graça e verdade". "Jesus podia, pois, ser encarregado de transmitir a
palavra de Deus sem ser Deus, como um embaixador transmite as palavras do seu
soberano, sem ser o soberano."

Ainda em ''A Gênese" - Capítulo XV - item 2, diz Kardec:


"A superioridade de Jesus sobre os homens não era relativa às qualidades
particulares do seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de
maneira absoluta, e ao seu perispírito alimentado pela parte mais quintessenciada
dos fluidos terrestres".

Perante afirmações tão categóricas da Codificação, é de se admirar que os


dirigentes da FEB teimem em negar que Jesus tenha tido um corpo material.

2 - O leite mamado por Jesus - A aceitação de que ele era devolvido pelos espíritos
ao sangue da mãe é de um absurdo verdadeiramente irritante. Mais tarde, quando
jovem e adulto, ele se alimentava como as outras pessoas. O que acontecia com
esses alimentos? Seriam desmaterializados? Por que recorrer a hipóteses
estapafúrdias? Será desonroso crer que ele tinha um corpo orgânico como o nosso?

3 - Andar sobre as águas - Não é preciso recorrer à fé para aceitar que Jesus
pairasse acima das águas, mesmo tendo corpo material. Em "A Gênese" - capítulo
XIV - item 42, encontramos: "Jesus, mesmo vivo, pôde aparecer sobre a água sob
uma forma tangível, enquanto seu corpo carnal se encontrava alhures; é a hipótese
mais provável".

Kardec escrevia e os Espíritos ensinavam, há 150 anos. Mas ele mesmo insistia em
que "o Espiritismo caminhará com a ciência". E caminhou. A própria física moderna
trouxe-nos explicações, impossíveis naquela época, e que hoje são banais, citando
ocorrências em que a força de atração da gravidade é vencida. Assim é que, dentro
dos "sputniks", os astronautas flutuam no ar.

4-Desaparecer do sepulcro - Hoje há numerosos trabalhos, livros e revistas que


tratam do "fenômeno de transporte". Citemos o mais importante deles:
"Fenômenos de Transporte", Ernesto Bozzano, 2ª edição, FEESP, 1982, prefácio de
Deolindo Amorin. Nele Bozzano, grande sábio italiano e que escreveu numerosas
obras espíritas, estuda com grande agudeza o assunto, citando fenômenos obtidos
em plena luz. Se os Espíritos podem efetuar transporte de objetos e alguns
médiuns podem levitar, por que Jesus, com seu enorme poder sobre a matéria não
poderia fazê-lo?

5-Espíritos puríssimos não podem encarnar - Encontramos em A Gênese", capítulo


XIV - item 9, o seguinte:

"Os Espíritos superiores podem vir aos mundos inferiores e mesmo aí se encarnar.
Dos elementos constitutivos do mundo em que entram eles extraem os materiais
do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao ambiente onde se encontram. Fazem
como grande senhor que deixou suas belas roupas para vestir-se
momentaneamente com trajes plebeus, sem que, por isso, deixe de ser grande
senhor. É assim que Espíritos das ordens mais elevadas podem se manifestar aos
habitantes da Terra, ou encarnar-se entre eles, em missão". "Os Espíritos
chamados a viver naquele meio dele extraem seu perispírito; mas
conforme seja o próprio Espírito mais ou menos purificado, seu perispírito
se forma de partes mais puras ou mais grosseiras do fluido próprio ao
mundo no qual se encarna."

Durval Ciamponi, no livro "Alternativas da Humanidade", esclarece à


página 98: "Quando um Espírito superior encarnar entre os homens na
Terra, seu perispírito será mais sutilizado que dos aborígenes. A natureza
do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento
moral do Espírito".
Aqui entram os roustainguistas com uma novidade: "Há mundos fluídicos,
destinados à habitações de espíritos que, desde o estado de infância e
instrução, nunca faliram, e que, conservando-se sempre puros na senda do
progresso, progridem no estado fluídico. Mundos materiais - Diversos
mundos destinados à encarnação dos espíritos falidos e, como tais,
sujeitos à encarnação humana". (Citação de Herculano Pires).

Fantasia que divide os espíritos entre pobres e plebeus; os protegidinhos


que nunca "pecaram" (isto só aconteceria se fossem liberados das provas)
e aqueles que, jogados em ambientes desfavoráveis, teriam tido seus
fracassos. Esquecem a grande Lei da Evolução, que nos mostra que os
mundos fluídicos representam a fase superior do desenvolvimento dos
mundos materiais.

6-Tudo na vida de Jesus, foi apenas aparente - Durval Ciamponi responde


por mim: "Se tudo nele era só aparência, todos os atos de sua vida, o
anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras,
sua oração a Deus para que alistasse o cálice de seus lábios, sua paixão,
sua agonia, tudo, até seu último grito no momento de entregar o Espírito,
não teria sido senão um vão simulacro para enganar com relação à sua
natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia
indigna de um homem honesto e simples, quanto mais, e por mais forte
razão, de um ser também superior, numa palavra teria abusado da boa fé
dos seus contemporâneos e da posteridade". (página 99)

7-Jesus não sofreu dor física, somente dor moral

Roustaing não deixa dúvidas quando afirma que Jesus não sofreu dores físicas ou
orgânicas e que seu sofrimento foi apenas moral. Reconhecemos que a dor moral
tenha sido bem maior que a dor corporal, dado o comando que tinha sobre a
matéria. Não precisaria sofrer a dor material, que é, para os homens, a
oportunidade de resgate e útil para a evolução.

O sofrimento de Jesus foi perante a ignorância e incompreensão do povo e até de


seus seguidores mais próximos. Não perceberam a grandiosidade de sua missão.
Esperavam um salvador guerreiro e não um ser dizendo que "meu reino não é
deste mundo". "Se, quando vos falo das coisas terrenas, ainda assim não credes,
como creríeis se eu vos falasse das celestiais?"

Em Mateus, 17: 17, encontramos: "ó geração incrédula e perversa! Até quando
estarei convosco? Até quandos vos sofrerei?"

"Havendo, pois, Cristo padecido na carne, armai-vos também vós outros desta
mesma consideração: que aquele que padecer na carne cessou seus pecados." (l ª
Epístola de São Pedro - Capo 4-1)

8- Espírito Regenerador - Roustaing se coloca na posição daqueles crentes de


outras religiões que ainda esperam a vinda do Messias prometido, restringindo o
valor da missão de Jesus, que precisa ser completada por outros Messias. Para os
espíritas, o Consolador prometido já veio e é o Espiritismo.

9-Brasil, Coração do Mundo- "A colocação de Humberto de Campos sobre


"Brasil, Coração do Mundo" era, também um pouco emocional-libertária, porque os
Espíritos não têm pátria; sua pátria é o Universo (Bahia Espírita, FEEB, Ano XVI, nº
68, Set. - Out. ,1985). Divaldo: "A expressão 'Pátria do Evangelho' não é da
Doutrina Espírita. Está inserta numa obra de Humberto de Campos e trata-se de
uma colocação emocional do literato que ama sua pátria". (Conscientização
Espírita)

Avaliação da "Revelação da Revelação"

Herculano Pires, em "O Verbo e a Carne", à página 56, pergunta: "Quais os motivos
da penetração de Roustaing no Brasil? Como e por que ele conseguiu enraizar-se
na chamada 'casa mater'? Por que nos defrontamos agora com uma recrudescência
dessa pseudo-doutrina? Parece-nos que tudo se resume numa questão de formação
religiosa, tendo por fundo a formação nacional brasileira e o período medieval do
nosso desenvolvimento nacional. O roustainguismo chegou ao Brasil num momento
crítico, quando a nossa cultura estava sendo abalada por várias infiltrações
européias. Entre essas, o Espiritismo, que chegara da Franca e empolgara alguns
espíritos cultos na segunda metade do século XIX. O roustainguismo se apresentou
como integrado ao Espiritismo e tocava de perto a sensibilidade mística de alguns
ex-católicos. A obra trazia um grande alívio aos espíritas místicos, pois quebrava a
frieza racional da obra de Kardec e restituia ao Cristo a sua condição sobrenatural.

Para homens profundamente religiosos, como Bezerra de Menezes, Antônio Luiz


Sayão, Bittencourt Sampaio e outros, cujos escritos atestam o predomínio do
sentimento religioso sobre a razão crítica, a obra de Roustaing surgia como uma
tábua de salvação, livrando-os do racionalismo kardeciano. Era a volta ao
maravilhoso, ao Cristo místico, divino no espírito e no corpo. Dessa maneira,
Roustaing devolvia a essas criaturas as ilusões perdidas da religião lírica que as
embalara desde a infância.

Não é fácil compreendermos hoje o clima religioso em que o Espiritismo se


desenvolveu entre nós. Houve, naturalmente, a dissidência racionalista, constituída
por elementos que tendiam para o aspecto racional da doutrina. Daí a divisão
acentuada por Canuto de Abreu (na FEB) entre espíritas místicos e científicos".

Essas são as explicações racionais e imorredouras de Herculano Pires, esse grande


pensador espírita, que eu não poderia deixar de citar, fazendo-as minhas.

No Esboço Histórico da Federação Espírita Brasileira, publicado em 1911, são


citados os confrades que, no dia 1 º de janeiro de 1884, fundaram uma "sociedade
para estudo científico do espiritismo", incorporando o jornal "O Reformador", que
vinha sendo editado por Elias da Silva. Veja-se o objetivo desta Federação (mudado
depois).

Anjo Ismael - Nos centros Espíritas do Rio de Janeiro, antes da Fundação


da FEB, havia referências ao "Anjo Ismael", que se transferiu
definitivamente para a FEB, tendo como uma das mais importantes
finalidades incentivar o estudo dos Quatro Evangelhos. Propuseram que a
designação dos dirigentes fosse feita pelos Espíritos, em cada sociedade
espírita. Esqueciam-se eles de que a tarefa dos Espíritos é instruir-nos e
aconselhar-nos, não se trasnformar em cabos eleitorais. Entretanto, não se
tomou conhecimento do que consta nas "Obras Póstumas" de Kardec.

Antes de vir para a FEB, o "luminoso espírito de Ismael", para substituir o


primitivo Grupo Confúcio, fundado em 1873, criou a "Sociedade Deus,
Cristo e Caridade", criada a 23-3-1876 e dirigida por Bittencourt Sampaio.
O Grupo Ismael também se incorporou à FEB. Foi então que a FEB tomou
os Quatro Evangelhos como guia máximo no Espiritismo, de valor superior
à Codificação, pois os ensinos recebidos proviriam diretamente dos
próprios evangelistas, assistidos por Moisés.
A 3 de agosto de 1885, é guindado à presidência da FEB o grande espírita,
médico e político dr. Adolpho Bezerra de Menezes; respeitado por todos,
veio a acabar com a luta entre místicos e científicos, pacificando a
Federação. Desencarnou a 11 de agosto de 1900.

Após Bezerra, pacificador e tolerante, o roustainguismo passou a imperar


na FEB; para ser dirigente ou conselheiro, era preciso ser roustainguista. A
FEB proibia a realização de qualquer Congresso, no Brasil, sem seu
consentimento. Mas em alguns Estados (São Paulo, Paraná, Rio Grande do
Sul, principalmente) começou-se a esboçar a libertação da ditadura
febiana. Assim realizou-se, de 31 de outubro a 5 de novembro de 1948, o
Congresso Brasileiro de Unificação, patrocinado pela então corajosa USE e
combatido pela FEB.

Em abril de 1962, na cidade de Curitiba, realizou-se o 1 º Simpósio Espírita


Centro-Sulino, com a presença das delegações de São Paulo, Paraná,
Guanabara, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tomaram-se
resoluções importantes para a condução do movimento espírita no Brasil.
Enfatizou-se o aspecto tríplice da Doutrina: aspectos de ciência, filosofia e
religião. Alertou-se o meio espírita brasileiro "acerca da diluição
progressista da conceituação doutrinária, a que os trabalhos dos
movimentos paralelos podem, conscientemente ou não chegar". (...) "O
espírita deve evitar a adesão irrefletida ou menos avisada a movimentos
ou produções literárias que direta ou indiretamente colidam com o
momento espírita .

O Pacto Áureo - A 5 de outubro de 1949, realizou-se, no Rio de Janeiro, o


acordo geral visando a unificação do Espiritismo no país e a criação de um
Conselho Federativo Nacional apoiado por espíritas de todo o Brasil. Não
foi apoiado por pensadores isolados como Herculano Pires, que escreveu:
''A USE submeteu-se ao Conselho Federativo Nacional, órgão da FEB. A
reforma estrutural da USE suicida-se num pacto de ouro, entregando-se
aos rabinos do Templo". (Jornal Mensagem, dezembro de 1976)

Todos nós nos entusiasmamos com o Pacto. Esperávamos um Conselho


Federativo realmente representativo de todo o Brasil, autônomo,
funcionando com toda liberdade e sem compromissos com Roustaing. Não
percebemos que ele era um Departamento da FEB e, como tal, a ela
subordinado. Não víamos que um Conselho, representando
democraticamente todas as Federações estaduais, não poderia ser
subordinado a uma Federação criada e dirigida por moradores do Rio de
Janeiro, intitulada "brasileira", mas sucessora de um só centro espírita.

Uma Federação dos Sindicatos dos Metalúrgicos do Brasil precisa ser


formada pela união dos sindicatos de todos os Estados em Assembléia para
tal convocada. Tal Federação não pode ser departamento de um Sindicato.

Uma Associação Médica Brasileira é formada por Associações dos vários


estados, as quais são a ela subordinadas. Não se concebe a AMB como
departamento de uma Associação Estadual.

A Confederação Brasileira de Futebol resulta da união das federações


estaduais de futebol. Não teria cabimento a CBF ser um departamento do
São Paulo Futebol Clube, ou do Vasco da Gama.
Pois bem. O Conselho Federativo Nacional, que congrega as entidades
espíritas de todos os Estados do Brasil, é subordinado à FEB. Seus
membros não têm a menor autonomia. Seria triste, se não fosse ridículo.

Terminamos este capítulo com as corajosas palavras de Herculano: "É


dever dos espíritas sinceros combater a mistificação roustainguista neste
alvorecer da Era Espírita no Brasil. Ou arrancamos o joio da seara ou
seremos coniventes na deturpação doutrinária, que continua
maliciosamente a ser feita. O Cristo agênere é a ridicularização do
Espiritismo, que se transforma num processo de deturpação mitológica do
Cristianismo. A doutrina do futuro nega-se a si mesma e mergulha nas
trevas mentais do passado. O homem espírita verdadeiro e esclarecido
converte-se no homem da era ante-cristã, no crente simplório das velhas
mitologias". (O Verbo e a Carne, página 60)

Esta é a nossa posição, apoiado nas Obras Básicas de Allan Kardec e nos
estudos de seus mais fiéis seguidores, contra o roustainguismo, uma das
piores deturpações do Espiritismo.

Ary Lex