Literário, sem frescuras!

1664ISSN 1664-5243

ESPECIAL UM ANO DE AUTORES: O TALENTO ESTÁ NO VARAL!

Ano 2 - Edição Especial No. 2
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1664ISSN 1664-5243

LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, dezembro de 2010 Edição Especial Autores do Varal

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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL Especial Autores do Varal - Genebra - CH Copyright Vários Autores O Varal do Brasil é promovido, organizado e divulgado pelo site: www.coracional.com Site do VARAL: www.varaldobrasil.ch Textos: Vários Autores Ilustrações: Vários Autores Revisão parcial de cada autor

Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. Se você deseja par cipar do VARAL DO BRASIL NO. 7, envie seus textos até 15 de dezembro de 2010 para: varaldobrasil@bluewin.ch

1664ISSN 1664-5243

Todos os textos publicados no Varal do Brasil receberam a aprovação dos autores. É proibida qualquer reprodução dos mesmos sem os devidos créditos autorais, assim como a citação da fonte. Se desejar receber quaisquer autorizações para reprodução das obras, por favor entre em contato com o Varal do Brasil por e-mail ou pelos sites para obter os dados dos autores. Se você é o autor de uma das imagens que encontramos na internet sem créditos, façanos saber para que divulguemos o seu talento! Os textos dos escritores brasileiros e/ou portugueses que aqui estão como convidados especiais foram re rados da internet. Para conhecer melhor os autores do VARAL DO BRASIL visite www.varaldobrasil.ch

Venha par cipar do livro VARAL ANTOLÓGICO! O primeiro livro impresso da Revista Varal do Brasil! VARAL ANTOLÓGICO Gostaríamos muito de contar com sua presença. 5 páginas por autor (textos e uma biografia) RS 200,00 (duzentos reais por escritor), livro a ser lançado em Santa Catarina. O número de participantes será limitado e cada autor receberá 15 exemplares. Se você gostou da ideia, venha para nossa primeira edição! Todos os detalhes são enviados por email (varaldobrasil@bluewin.ch) e a previsão de lançamento da Antologia é março de 2011.

Contatos com o Varal? varaldobrasil@bluewin.ch

Seu nome estará entre os autores? Venha!

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Abílio Pacheco Agamenon Troyan Alberto Carmo Alessa B Alessandra Neves Alma Lusitana Amarilis Pazini Aires Ana Anaissi Ana Lucas Ana Mariah Anair Weirich Anna Back Anne Smaem André Luis Aquino Ângela Costa Antônio Vendramini Neto Ariana Tomasini Carlos Damião Carlos Dias Carlos Eduardo Bonfá Caroline Freitas Carvalho de Azevedo Casinho Chajafreidafinkelstain Clarice Villac Cláudio Costa Cristiane Stancovik
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Daniel Cravo Silveira Dimythryus Deyse Zarichta Diego Mendes Sousa Dúlcio Ulysséa Júnior Eurico de Andrade Fábio Ramos Fabrício Couto Martins Flávia Assaife Francisco Gregory Júnior Geraldo Pereira Lopes Gilberto Nogueira de Oliveira Gilmar Milezzi Gustavo Henrique Bella Hugo Pontes Icléia Inês Ruckhaber Schwarzer

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Igor Medeiros Oliveira Infeto Irente Zwetsch J. Machado Jaci Santana Jacqueline Aisenman Jandira Torreiro Jane Vieira Gariba Janete Gutierres Jania Souza Jaqueline Campos José Alberto de Souza José Carlos de Paiva Bruno José Valdir Oliveira Ju Petek Ju Virginiana Júlio César Vicente Lariel Frota Lázaro Bulos Lelo Néspoli Lorêny Portugal LSM Luiz Antônio Cardoso Luiz Carlos Amorim Luiz Eduardo Gunther Luiz Otávio Oliani Luzia Ly Sabas Maíra Galhardo Malu Freitas Marcello Ribeiro • • • • • • • • • • • • • • • Marcelo Candido Madeira Marcelo Moraes Caetano Marcio Freitas Márcio José Rodrigues Maria de Fátima Barreto Michels Maria Heloísa Fernandes Marília Kosby Marina Medeiros Matheus Paz Mauro Maciel MS Nelson Dias Oswaldo Begiato Pato do Lago Patrícia Lara

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Paula Barrozo Paulo Roberto Bulos Remor Raimundo Candido Teixeira Filho Renata Gomes de Farias Renata Iacovino Ricardo Reis Rita de Oliveira Medeiros Roberto Gulino Rodrigo Fernandes Pereira Rosane Magaly Martins Roselis Batistar Rui Martins Samantha Verdan Sandra Helena Queiroz Silva Silmara Oliveira Sonia Alcalde Susana Martins Suziley Silva Tetê Crispim Tereza Rodel Thiago Maerki Tino Portes Valdeck Almeida de Jesus Valéria Nogueira Eik Valnice Costa Valquíria Gesqui Malagoli Varenka de Fátima Veronica dos Santos Silva Vicente de Pércia Vicência Jaguaribe Víctor Manoel G. Vilena Victoria Adum • • Vó Fia Walnélia Corrêa Pederneiras

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Tessitura Noturna

Por Abilio Pacheco

Um latido apenas não protege a rua ele precisará sempre que os cães o apanhem e o lancem a outros cães e a outros latidos tal que somados todos (latidos e cães) na noite formem (no arcabouço da matilha) uma redoma protetora em torno da rua.

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A PAZ Por Agamenon Troyan

Estive presente quando você nasceu. Você era uma criança linda, saudável que desaguou seu medo em lágrimas ao ser retirado do seu pequeno mundo. Passou a ser amamentado com amor e carinho; presentes chegaram aos montes, acabando por tomar conta do seu redor. Você passou a engatinhar, descobrir o novo mundo que um dia passaria a conhecer. Sua curiosidade era tamanha que quase aprontou uma confusão. Quando repreendido com palavras sem nexo passava a chorar amolecendo corações. E você foi crescendo... Tornou-se um menino levado; não obedecia mais os pais e só dava ouvidos aos maus conselhos. Suas atitudes revelaram o adolescente que estaria por vir. Enfim a adolescência! Garotas, carros, motos e Rock and Roll. Até aí nada demais; porém mais tarde vieram as Drogas e com ela, a Violência, o Desprezo pela vida, a Fúria adormecida, o Caos. Queria persuadi-lo, mas não pude. Testemunhei sua alma sendo levada pelo Ódio. Hoje, daqui da mais alta montanha, eu observo todos os seus feitos: Guerras, Fome, Pragas, Racismo, Infanticídio, Poluição, Terrorismo, Queimadas, Fanatismo e a Degradação do Meio-Ambiente. Tamanho estrago despertou a fúria da Natureza que respondeu enviando-lhe Terremotos, Tornados, Furacões, Maremotos, Incêndios e Tsunamis. Milhares de mortos, e, mesmo assim, você não se redimiu. Não posso intervir no seu destino. Tenho que permanecer aqui esperando pela sua decisão. Oxalá um dia, quando em seu coração não existir um só resquício de ódio, eu poderei novamente recebê-lo de braços abertos, com o mesmo sorriso quando lhe vi nascer.

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Redondilhas de Paz Por Alberto Carmo
A Paz de andar de mãos dadas ver sorrir a bem amada a emoção compartilhada viver um conto de fadas A Paz dos filhos gerados mentes sãs, sonhos alados ensinar aos mais afoitos nem oito, nem oitentoito A Paz aos mais afobados afagos aos mais tristonhos ternura aos mais assustados ouvir, entender calados A Paz de participar ações pro mundo acalmar pegar lixo e reciclar e a TV desligar A Paz dos rostos amigos dar carinho e bom abrigo escutar ante o perigo migo joio, migo trigo

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APOLÍNEO Por Alessa B
Quisera que te vissem como eu via Depois, à luz da lâmpada macia O púbis negro sobre o corpo branco. (Vinicius de Moraes) Teu corpo esculpido contra a Lua, Apolo soberano em evidência, Da pele um calor que se insinua, Arfando meus desejos, tua essência... Mil graças, eu te rendo seminua, Em preces de ternura e indecência... A serva que te ama e te cultua Com votos de louvor e apetência. No branco dos lençóis as tuas linhas Transpiram convulsões em nós assentes, Que se desembaraçam pelas minhas Em fluxos e refluxos tão crescentes! O gozo frouxo que se adivinha... Nas tuas belas formas tão contentes!

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A PAZ

Enquanto flutuam Com leve brisa E me roça a pele

Por Alessandra Neves
E essa paz Que me toma agora Não sei explicar Paz calma Morna Quase tão melancólica Que a fina chuva Da manhã de outono Quase calma e silenciosa Que a pequena nevasca Ao vento Mas tão estrondosa Como o amanhecer Como o florescer primaveril Essa calma Me traz o Cheiro doce O toque suave O sorriso estonteante É a calma É a paz A felicidade me habita agora E desejo esse Momento Que eternize em minha memória Como o dia Ensolarado Em que caminho Entre algodoeiros

Ah! a paz Que bem ela me faz!

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Invocação à Minha Cidade Por Alma Lusitana
Memoriar com carinho e alento Vou descrever o que penso Sobre esta cidade querida Tão magnificente que é Sendo reconhecida até Sua qualidade de vida. Sou munícipe entristecido Por aqui não ter nascido Por não ser seu filho real Sem medo me vou confessar Esta cidade aprendi a amar Como amo meu Portugal. Nesta minha invocação Estou de alma e coração Embrenhado em afectos Em verdade, sem sigilos Como aqui criei meus filhos Aqui quero criar meus netos. Cidade esbelta, sempre amiga Jamais por mim esquecida Minha nobre companheira Sou feliz por aqui viver Serei sempre e até morrer Fiel, a S. João da Madeira.

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AMAR COMO A PRIMEIRA VEZ

Por Amarilis Pazini Aires
Quero a minha alegria de volta Correr solta pelos campos Esperar a lua nascer E o dia amanhecer. Ler as palavras suaves de amor Deixadas no pedaço de papel Largado no canto especial Onde só eu sei encontrar. Quero o olhar doce Refletindo o brilho Da paixão desperta Do toque de mãos suaves. Quero olhar as estrelas E chorar de emoção Esperando o momento Ao som de uma apaixonante canção. Quero viver de novo A emoção de amar Tremer o corpo todo Na ânsia do encontro. Eu quero amar Como a primeira vez Na descoberta inocente Que ele dure eternamente.

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AS VELHINHAS CARONEIRAS

E ela tem oitenta e oito, Fez no último verão! E eu acabei de pensar, O burro pisou no freio,

Por Ana Anaissi

-Ei, Emília, quem mandou? Mas é muito fofoqueira... Se eu não tivesse sentada,

Aurora desconcentrou, A estrada virou um rodeio.

-Pra onde as senhoras vão? -Para a próxima cidade, A moto caiu com a gente Na maior velocidade.

Te passava uma rasteira.

Pois a moto deu um pinote, Rapaz, eu subi tão alto

-As senhoras vão brigar? Nessa idade e desse jeito? -Viu só, Aurora, o rapaz

Que pude ver lá de cima Aurora beijando o asfalto.

-Quer dizer que aquela moto Destruída lá na estrada... -Era nossa sim senhor Só que deu uma derrapada.

Já cheio de preconceitos?

Foi só essa a hora boa, Depois veio a minha vez;

-Filho, você não viu nada Tá vendo esta contusão? Não foi da queda da moto,

Meu único dente bom Gastou, na trilha que fez.

-Dá pra levar nossa moto Nessa sua caminhonete? É pesada e está quebrada, Mas não dá pra pagar frete.

Emília que deu um tostão!

Porque eu ralei uns dez metros, Ou melhor, eu capinei. Abri caminho no mato E, amigo, eu não parei.

-Devia ter dado mais! Pra aprender a dirigir. Porque foi ultrapassada,

-Mas que coisa surpreendente! Quantos anos vocês tem? -Eu só tenho oitenta e sete, Emília tem mais de cem!

Começou a se exibir. Talvez o Ibama me prenda Quis fazer pega com o carro Mas eu disse: Agora não! Pisou no acelerador No final dessa viagem. Pois arranquei tanta folha Que até mudei a paisagem.

-Ai , mas é tão mentirosa! Não liga não, ela inventa. Eu nem sou tão velha assim, Esse ano eu fiz noventa.

E saiu comendo chão.

E eu pensando, na garupa: Isso aqui não vai dar certo. Aurora já está caduca

Aurora fala mentiras, Eu acho que é compulsão.

E o carro tá muito perto.

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Tentava me segurar Pra que, quando viesse o fim, Sobrasse um número grande De ossos mais perto de mim.

Que eu resolvi confirmar.

Minha única intenção, Era de abrir um canal

-Deixa que eu conto essa parte. Eu, meio desacordada,

Pra sua respiração. -Essa dúvida eu vou ter Pro resto da minha vida. Se queria me salvar Ou me deixar estendida.

Nesse ponto até dei sorte, Só fiquei sem meu dentinho. Talvez tenha sido bom, Ele era mesmo sozinho.

Já vendo a famosa luz E só senti a botinada.

Da luz eu voltei pro escuro, Ou melhor, eu vi Emília;

-Mas dá pra ver direitinho Que estão se recuperando. Vamos esquecer o tombo Que a cidade está chegando.

Na hora me revoltei, Fui desprendendo do chão, Disparei atrás da Aurora Pra tomar satisfação.

Tive uma vaga lembrança Que ela era da família.

E tentei fazer um sinal Que já estava tudo bem,

E por falar em cidade, Têm algum parente aqui? -Não meu filho, só torcida, Somos lá de Muriqui.

Ela ainda estava deitada. Que cena desagradável! Todinha desconjuntada, Essa doida irresponsável!

Tive medo que essa doida Chutasse meus rins também.

Debilmente abri meus olhos E dei de cara com ela.

-Só torcida, como assim? -Você não viu nossas fotos? Somos famosas no mundo Pilotando nossas motos.

Aí fui me aproximando Do jeito que ainda podia, Dei-lhe um chute nas costelas Pra ver se ela se mexia.

Se eu não tivesse acabada, Eu matava essa banguela.

Minha queda foi horrível, Eu fiquei toda quebrada,

-Ô Emília, não exagera. Temos fãs só no Brasil. E na próxima cidade Com certeza mais de mil!

No primeiro chute, nada. Resolvi bater mais forte. Tentei a boca do estômago Só pra ver se dava sorte.

Mas o que traumatizou Foi aquela botinada.

-Ah, Aurora que exagero! Eu salvei você, querida.

-Peraí minhas senhoras, Eu não posso acreditar! As duas correm de moto? -Vai precisar desenhar?

E não é que consegui? Houve um leve murmurar, Mas ele era tão baixinho

Mas um dia vai entender E vai ficar comovida. Quando dei a tal botinada,
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-Caramba, não pode ser! -Só porque somos velhinhas? Já demos alguns troféus Pra nossa cidadezinha.

Deitada em observação.

A comida se espalhou. Só dois pães com mortadela

Bom, vamos deixar pra lá, Que o importante é a corrida. Vai, acelera meu filho,

Foi que a gente aproveitou.

-Então vamos combinar: Eu lhes dou toda a comida, Amanhã eu vejo o treino

-Mas vocês dirigem bem? -Você viu que Aurora não. Mas eu, sou super veloz Quando pego a direção.

Aproveita essa descida.

Amanhã vai ser o treino Pra ver quem larga na frente, Vou ganhar, eu estou mais leve Porque perdi mais um dente!

E depois vejo a corrida.

-Negócio fechado, filho. Pisa no acelerador! Um ventinho nas orelhas Cá pra nós, é inspirador.

-Hum Emília, vai pensando, Quem tem mais troféus sou eu. -Mas na última corrida Acabou roubando o meu.

-Nossa Mãe, mas que loucura, Ninguém vai acreditar! -Vira, vira, vira, vira! Nesse posto tem comida! Vou começar por aqui A ficar abastecida. -Opa, opa, nada disso! Tem que me pagar também. -As senhoras vão comer Essas comidas tão fortes? -Claro! Porque essa corrida Não depende só de sorte. -Mas olha que exploradoras, Dei carona pras senhoras! -Vira, vira, vira, vira! Nesse posto tem comida! Vou começar por aqui A ficar abastecida. -Está bem vocês ganharam. Quanto é que eu pago pra ver? -As senhoras vão comer Essas comidas tão fortes?

Jogou tão sujo comigo Moço, ela quer que eu desista! Deu um jeito no meu freio E jogou óleo na pista.

Eu posso assistir ao treino? -Só se você me pagar!

Pode arregalar o olho, O juiz arregalou. Tudo isso é tão nojento Que até ele duvidou.

Eu arranjo um lugarzinho Pra você ver super bem.

-Porque inventou tudo isso! Uma história sem sentido. -Sem sentidos fiquei eu. Meu pescoço foi partido!

-Tá, meu filho, então vai ver Tudo do lado de fora.

-Tá vendo essa exagerada? Aquilo foi só torção. -Só que eu fiquei cinco meses

-Nada assim tão extravagante, Algo que dê pra comer. Com aquele tombo tremendo,
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-Claro! Porque essa corrida Não depende só de sorte.

-E você não vai comer? -Quando chegar na cidade; Uma comida caseira

Ele vai nos atrasar. -Mas e amanhã, nosso almoço?

Temos que estar preparadas Alguns truques são os piores; As pessoas nos sabotam Porque somos as melhores.

É o melhor pra minha idade. -Põe o cinto e se segura. Já tenho trinta e três anos E prefiro não abusar. -Tá vendo, Emília, esse moço O tempo está muito curto. -Isso que estamos fazendo Será que é um assalto ou um furto?

-Então tá, vamos parar. Dona Aurora também quer? -Sim, mas minha dentadura Só aguenta comer filé!

Que nunca vai “esclerosar”? Nunca sei a diferença... Não vai ser que nem você, Que a gordura tomou conta, Quando não fala besteira, -Porque não faz diferença. Talvez não, no nosso caso, Porque pedimos licença.

Ainda mais depois do tombo, Que ela ficou deslocada. Até mesmo pra falar Tenho que ficar ligada.

Fica com cara de tonta. -Pedimos licença como? Aurora, eu estou esclerosada? Se estou, é só no começo. Eu que saio todo dia -Uai, deixei nossa moto! -Mas não faz muito sentido, O rapaz não teve voto.

Já pensou se ela despenca E a gente não acha mais? Se ganharmos a corrida Eu vou fugir dos jornais!

Com a roupa toda do avesso? E além do mais nossa moto... -Chega, está quase na hora, A corrida é na outra ponta. Nós vamos indo pro carro, Só tem peça com defeito E nem o gênio da lâmpada Conseguiria dar jeito.

-Tudo bem, filé mignon Pras simpáticas velhinhas! -Arroz, farofa e feijão Pra carne não vir sozinha!

Você vai pagando a conta. -Ai, Aurora, facilita! Você quer ou não correr? Se viéssemos com ele, Não ia dar nem pra ver!

-Ei, psiu, você, aí do posto... Bota essa moto no chão? Segura essa chave dela

-E depois a sobremesa: Queijo e muita goiabada! -Por causa da glicemia, Tem que estar equilibrada.

E coloca na ignição.

-Vem aqui Aurora, entra logo! Temos que deixar o moço.

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Chegaríamos no fim E a raiva então subiria Quando víssemos no pódio A besta da nossa tia!

-Então eu vou pilotar, Pois você está proibida!

-Uns quatro nem vão sair, Três vão poder arrancar, Pra logo depois cair.

Depois do que você fez Vai quietinha na garupa. Mas tem uma coisa bem chata, A da titia não deu... Eu ia chegando pertinho -Olha lá, não é uma moto? -Por que tá parada ali? E ela me reconheceu.

-Tia Marga vai correr? -Vai! Ela estava na lista. Ela arranjou um patrocínio De um velho contrabandista.

Vou te ensinar a correr. -É isso que me preocupa.

Ainda alterou a idade dela, De cem pra noventa e sete, E vai chamar a torcida Do tempo que era vedete.

-Ah, pra pararem na estrada, Ou é cocô ou é xixi.

Mandou logo uns dois capangas Tomarem conta da moto. -Deixa, vem se preparar,

-Então freia. Mais pra perto. Tá com a chave aqui também!

Se der, depois eu saboto.

-Coitada, com essa torcida, Melhor ela nem ganhar... Se os velhinhos se empolgarem, Vão todos ficar sem ar.

Vamos montar bem depressa Enquanto não vem ninguém!

- Mas eu tenho uma fofoca... Descobri quem vai com ela O tal do contrabandista!

-Será que fizemos certo Deixando a caminhonete? -Eu obstruí a ignição

-Que festival de banguelas!

-É mas, com ar ou sem ar, Ela é nossa concorrente. Seria muito humilhante Perder pra tia da gente.

Anda, bota o capacete Que eles vão dar o sinal. -Espero ficar com ele

Com um pedaço de chiclete.

Ainda falta meia hora Pra corrida começar. -Ótimo, estamos no prazo,

Até chegar ao final.

-Você então tá devagar! Acelera aí esse trem! Nós ainda precisamos Roubar a moto de alguém!

Me lembrei de uma corrida Que era de dupla também. Ganhamos, só que passamos

Acabamos de chegar!

Vou lá inscrever nossa moto, Colocar na posição. -E eu vou sabotando algumas

Pela faixa a mais de cem.

-Só precisa de uma moto. Vai ser de dupla a corrida.

Pra fazer uma seleção. -E aí, como é que foi lá?
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Seguimos reto na curva, Atravessamos o muro, Na hora pensei num filme: “De volta para o futuro”

Atropelei a mocinha! -Ela que foi displicente.

Sei lá, sou frágil demais. -Você, Emília, top model? Tendo essa cara de ameixa?

Cair com a perna esticada Numa pista de corrida

Você só não come mais Porque a prótese não deixa.

Enquanto se segurava, Seu capacete soltou, Veio parar nos meus dentes, Minha arcada se espalhou.

Cujo prêmio é andar de carro De bombeiro na avenida? -Vixe, olha lá a nossa tia! Acabou de ultrapassar! -Que garota sem noção! E eu não pude fazer nada. Olha só, o contrabandista, Querendo comemorar.

Por isso, precocemente, Eu tenho essa dentadura. Foi feita por um pedreiro Que deixou uma abertura.

Depois que eu ganhar o prêmio, Vou processar a danada!

-Encosta neles Emília! Me empresta a sua botina. Vou dar um cacete nele

-“Nós” ganharmos o tal prêmio! Ainda falei, mas seu Zé, É dentadura e não casa Por que é que deixou essa porta? Agora o que eu como, vaza! Não se esqueça, se eu quiser Jogo o corpo pro outro lado. -Você não é besta, mulher!

Pra subir a adrenalina.

-Tem que bater na titia. Ela que está dirigindo! -A mamãe não vai gostar.

Se jogar, caímos juntas E o nosso prêmio já era.

-Mas ela não tá assistindo!

-Chega, Aurora, cala a boca! Nós não temos o dia inteiro! Presta atenção na titia E naquele muambeiro.

Você, gorda, vai rolar Mas eu vou pra estratosfera.

“-Não desrespeitem os mais velhos.” -Nunca cansa de falar.

Estou magrinha, top model E a única desvantagem

-Mais velhinhos que nós duas Tem poucos pra respeitar.

Agora é concentração... Vamos! Foi dada a largada! Ai, garota, o que que é isso? Aurora, que presepada!

É que um impulso pequenino Se transforma em uma viagem. Cá pra nós, com a nossa idade, Mais velha, tem só a titia; O meu corpo é tão levinho... E só um desrespeitozinho A gente bem que podia...

Burra, você sabotou A moto da nossa frente.

O vento ainda empurra mais. Vou parar um pouco longe,

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-Então chega de falar, Pé na tábua minha filha! A gente vence a titia E desmancha uma quadrilha!

Sei lá se Deus me castiga.

-Aurora, vou te matar! Ui, socorro, eu estou ardendo!

-Por falar em nossa moto, Você desacelerou, Pude ver na arquibancada

-Olha pra frente, dramática! Estamos quase vencendo!

Porque do contrabandista, Não precisamos ter pena. Vai ser tanta humilhação Que ele vai sair de cena.

Os dois que a gente roubou.

Viva, viva, conseguimos! Nós ganhamos a corrida!

Estavam lá, os dois juntinhos. -Tavam torcendo pra gente? -Pra gente se espatifar,

Corre, corre que os bombeiros Vão salvar a nossa vida!

“Bora”, “bora”, tá encostando... Estamos quase no fim... Já que essa é a última volta. Vai com tudo, manequim...

Vieram ver pessoalmente!

-Vão salvar nos dois sentidos. Queimei metade da bunda!

-Se ganharmos a corrida, Corre logo pros bombeiros. Assim temos proteção

-Capitão, aqui tem tina? E rasa? Que Emília afunda!

-Ao invés de debochar, Por que não presta atenção? Você não me ajuda em nada, Me tira a concentração!

Contra esses dois pistoleiros!

Viva, vitória, vitória! Esse carro não é lindo?

Não estou vendo mais titia Pelo meu retrovisor. -Porque nos ultrapassaram,

-Se eu não tivesse na tina Também estaria curtindo.

-Você viu o que você fez? A moça ainda estava lá; Passou nos dedinhos dela; Não ouviu ela gritar?

Deram um jeito no motor!

-Não vai reclamar agora. Nós ganhamos a corrida!

Também vou usar o meu truque Que faz você correr mais.

-Mas titia vem aí, Se juntou com os homicidas!

-Pensei que fosse você Gritando um viva por nós. Ultrapassamos titia, Nossa moto é mais veloz!

-Aurora, não estou gostando, Não faz besteira aí atrás!

-Também não são tão homicidas... Roubamos eles na estrada!

Uau, estou pegando fogo! -Então acelera abestada!

-Mas tão vindo nos matar,

- Eu nem precisei bater? Ufa, assim mamãe não briga. E, não sei, bater em tia...

Quando cruzarmos a faixa, A tocha vai ser tirada.

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Vai ver deram uma surtada.

Emília, mais um troféu! Nós não somos geniais?

E vão nos denunciar, Confiscar nosso troféu. -Se chegarem muito perto, Nós fazemos um escarcéu.

Sempre somos vencedoras E nem moto temos mais!

-Ah Aurora, que pecado! Nossa moto é uma carcaça

-Bombeiros, vamos mais rápido, Ela está passando mal! Dá pra ligar a sirene Pra afastar o pessoal?

Mas faz parte do cenário Pra termos tudo de graça.

-Vem Emília, estica o braço, Lá vem uma caminhonete. Faz cara de quem caiu.

-Vamos sair da cidade, Precisamos respirar. Esses fãs são sufocantes, Sei lá se vão nos rasgar.

Vamos ganhar mais um frete!

-Pra onde as senhoras tão indo? -Para a próxima cidade.

Estão vendo aquela moto Que está caída no posto? Podem pegá-la pra nós? Nos dariam tanto gosto...

A moto caiu com a gente Na maior velocidade.

-Quer dizer que aquela moto Destruída lá na estrada...

Isso, coloca aqui em cima. Vamos virar pra direita? -Muito obrigada, meninos. E daqui a gente se ajeita.

-Era nossa sim senhor Só que deu uma derrapada...

fim

Podem voltar pra cidade, Deixa a moto aqui caída. Já vamos nos preparar Para a próxima corrida.

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Teatro de Rua Por Ana Lucas
Parei no sinal vermelho, atrás de um carrão. Quinta-feira na hora do almoço, dia de feira, mulherada apressada carregando abacaxi, abóbora, tomate, berinjela, peixe, criança, cachorro, panela. Um bando de gente falando mal do governo na porta do bar. Aí eu vi o senhorzinho parado bem ao lado do carrão, esperando também o sinal abrir, empurrando um carrinho de mão feito de madeira, maior que ele, cheio de papelão e plástico que pegou pela rua. Um homem mirrado e torcido pela idade e pelo sofrimento. Estava lá, erguendo a cabeça com dificuldade para ver as luzes do semáforo. Olhei em volta e acho que só eu mesma reparei nele. O homem olhou para trás e pude ver o seu rosto, muito enrugado e miúdo. Os olhos apertados por causa do sol, o cansaço estampado na boca seca e que já não sorria há muito tempo. Usava um bonezinho colorido com a marca do Ayrton Senna na cabeça. Provavelmente ele nem sabia quem era o Senna. A camisa clara era daquelas baratas, de tecido fino bem porcaria, comprada em loja popular vestida com camiseta por baixo, que era digno. A calça estava puída nos bolsos de trás e a cor verdadeira já desaparecera e se transformara numa espécie de roxo pálido. O velhinho parecia uma assombração mansa, daquelas que surgiam nos cantos das casas antigas sem dizerem nada, e que sumiam logo. Pela calçada passou uma garota comendo um lanche e bebendo o último gole do refrigerante. Ela jogou a latinha no chão assim que a esvaziou e seguiu caminho. O velho já acompanhava a menina com o olhar, torcendo para ela jogar fora a lata, e assim que a dita bateu no cimento, o velho se movimentou com esforço, subiu na calçada, andou, abaixou-se fazendo uma careta e a pegou com todo o cuidado. Olhou para latinha de refrigerante extasiado e voltou para o seu carrinho, guardando o tesouro no meio dos papelões. O catador permanecia invisível para o resto das pessoas. Velho e torcido. O motorista do carrão acabou olhando para o lado e achou o velho. Subiu os vidros e deve ter ligado o ar condicionado. Voltou a se concentrar no semáforo. Um motoqueiro que estava atrás do meu carro notou que o sinal ia mudar e foi deslizando lá para frente, metendo-se entre os veículos, quase atropelando o coitado do catador de papelão. Disse um palavrão para o velhinho, acelerou a moto e passou com o sinal ainda vermelho.

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Galope

Por Ana Mariah
Entre nós, o encontro sempre será eterno mesmo sem palavras, sem toques ou sinais de fumaça. Nas ausências, vejo suas cores, sinto sua ânsia e sonho com teus braços tantas vezes protetores, em outras, impetuosos. Impossível esquecer quem somos. Campos percorridos, entre galopes e passos cadenciados. Cada lado procura diminuir a distância entre corpos e almas.

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A Paz

Por Anair Weirich
Pa... de papelada inútil arquivada. Pa... de panfletagem poética no ar. Pa... de pacífica jornada, Pa... de paz na nossa estrada, Pa... de paz, do levantar ao deitar!

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POEMA A UMA FLOR Anna Back

Tu, que desabrochas na aurora da existência... Tu, que traduzes o que de mais belo a vida pode dar: Tu, filha amada, que vives hoje, Aos quinze anos, a tua primavera, Ouve as palavras que te quero dar! Tu que sonhas, Que ousas querer Tudo o que da vida esperas E que mereces ter. Ouse, sonhe, queira, Aos quinze, tudo é permitido. No doce embalo Do sonho e da quimera! Deus criou maravilhas: Cantos, flores, perfumes, Cores, e amores. E fez surgir a primavera. E plantou para mim, para nós, um jardim... E deu-nos uma flor viva, de alma nobre, Gentil e amiga! Você, a mais encantadora dentre todas, Você, filha querida!

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ERRO Por Anne Smaem
Cometi erros e eles voltam Sempre como fantasmas Me assustando noite e dia Me deixando a pensar Que se piscar os olhos Acontecerá sempre mais um erro.

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Os amantes do circulo – polar Por André Luis Aquino
Deve ser a parte tóxica do meu sangue que faz isso comigo, o meu louco gosto pelas segundas intenções. Amorardente, sempre buscando sangrar pelo umbigo.Nos conhecemos na escola, ainda na infância.E os anos nos juntam e nos separam com tanta freqüência, como se tudo isso estivesse acontecendo ao sabor do vento. Amordormente. Deve ser a parte doce do meu sangue que faz isso com a gente. Naquela época mal nos falávamos; apenas nos olhávamos, enamorados, mas sem coragem de se aproximar. Duas crianças que se apaixonaram uma pela outra, sem que um saiba do sentimento do outro. Amorlouco, deve ser a parte venenosa do meu sangue que faz isso comigo.Quando alguém mente não nos olha nos olhos, pra te confundir eu faço exatamente ao contrário.Uma história de amor que atravessa duas décadas repletas de altos e baixos, cheias de idas e vindas. Amorencontrado, deve ser a parte suave do meu sangue que faz isso com a gente.Medos, amores, ciúmes, tudo isso vai e vem, regido pelo destino, por uma lei aleatória de encontros e desencontros. Amorperdido pela parte do meu sangue malvado. “Eu poderia contar toda a minha vida como um trem de coincidências”. Direção é o meu sexto sentido. Amoreterno é a parte sólida do meu sangue carinhoso.“A vida tem muitos ciclos”. Há coisas que nunca acabam e o amor é uma delas.

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Poema Etílico Por Ângela Costa
Sobre o álcool, sei que é uma alquímica mistura de carbono, água e símbolos. Sei que é algo quimicamente transmutável em comportamento. Causa e consequência de nascimentos e mortes. Sobre a dor, sei que não cabe em copos de licor. Corre talvez pelas mesmas veias da embriaguez, ue alimentam o lado cerebral da paixão. Sobre a paixão, sei que é uma questão de detalhes, um mistério a princípio, um copo de dor no cotidiano. Sobre os detalhes do cotidiano, talvez o álcool ajude às vezes...

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FOLHAS MORTAS

Por Antônio Vendramini Neto
Folhas Mortas. Outrora verdejantes. Agora, caídas no chão. É o poder da natureza. De encantos e belezas. O tempo foi cruel. Como folhas de papel. Escondidas em um livro. Amareladas, cansadas. Folhas não vistas. Eternamente esquecidas. Nos livros, nos gramados. Antes vigorantes. Nos galhos, nos livros. Paisagens delirantes, frases efervescentes. Colírio para os olhos!

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TEUS ERROS POR MIM

Por Ariana Tomasini
Por todos os erros por ti cometidos Peço perdão a mim Por não ter compreendido Mais cedo E assim só guardado Para mim O bem que fizeram Por mim.

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Teu olhar flutuante Por Carlos Damião

Teu olhar vagante pela noite e pelo dia se perde em voos de coisas quietas que se abrigam em suspiros de fartura.

A aragem desarruma o tempo no quanto cada passo leve das nuvens desperta como semente ou pedra num exercício de labirintos e fronteiras – em horas iguais e melodiosas.

Inventário do coração oscilante que se insinua no corpo do poema: um jardim sem rosto germinado pela visitação infantil de asas e brinquedos sonhando afetos na nossa úmida quietude e na alegria mais ardente que em nós se alonga como um aceno flutuante a colorir de ternura estas horas luminosas e indecifráveis.

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POEMA VAGABUNDO

Por Carlos Dias
Este poema não inventei não tem dono nem autor neste espaço o guardei para ele não gritar de dor O encontrei triste e sozinho nas ruelas a vaguear sem querer um caminho ou cantinho para estar É poema vagabundo não procura nem a paz nem respostas para o mundo e as palavras tanto lhe faz Com rima ou por rimar não importa o conteúdo só quer palavras soltar sem significado ou conteúdo Este poema não existe foi um grito que dei com tinta transparente que em mim encontrei

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SILÊNCIO

Por Carlos Eduardo Bonfá

Cilicia O silêncio Que silencia A música Que necessita Encontrar Para ritmar O mundo. Mas O silêncio Éo Cio Do som.

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Posse Por Caroline Freitas
Decifro-te os gestos Num movimento veloz. Te toco em silêncio E tiro-lhe a voz. Te sigo apressada E não deixo rastro. Você olha pra trás Mas é vão. Eu escapo. Na volta eu assopro O calor do sentido. Te olho por dentro E celebro o domínio.

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Poeta não Morre Por Carvalho de Azevedo
Poeta não morre, encanta. Encantado, eleva e enleva a alma. Seduz, corrompe, violenta, depois acalma. Poeta não morre em uma estação do ano Nunca é poente, apenas nascente tecendo sua teia. Nascente, faz-se luz, clareia, impregna, incendeia. Poeta não morre, inda mais na véspera da primavera. Na primavera, espalha perfumes, cores e flores. Poeta nunca vê, inda mais a morte com seus censores. Poeta não morre, brinca de morrer. Encantado, mora com as estrelas faz do céu seu quintal Conversa com os anjos, aprende a ser imortal. Poeta não morre. Brinca de ir embora. Deixa para uns poucos suas tristezas e poesias Para outros suas amarguras, pecados, paixões e alegrias. Poeta não morre. Inda que assim pareça Poeta não tem temores. Poeta vai e volta, no coração de seus amores.

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PASSA PASSADO Por Casinho
Vamos viver pra frente Uma vida contente Desprovida de dor. Passa, passado! Passa, vai embora! Deixa a vida que tenho, não amola! O sabiá gemeu lá na gaiola E, no meu peito, um gemido não de agora. Abro a portinhola. Estás livre, vai agora! Passa, passado! Passa, vai embora! Deixa a vida que tenho, não amola!

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DOS OLHOS

Por CHAJAFREIDAFINKELSZTAIN

Olhar materno... totalmente protetor Olhar poderoso e revelador Se quiser esconder algo... não chegue perto Nem encare Ela logo descobrirá! Todas as mães têm esse poder? Eu tenho... minha mãe... também sempre teve Os olhos verdes límpidos Iluminados Que algumas vezes ficam confundidos com azul singular Tão expressivos Eles falam! Sozinhos marcam o seu rosto Se preciso lembrar dela A primeira ideia vem do olhar Tão vivo e presente Vida você atropelou-a em diferentes momentos e ela... Traz sofrimento marcado no braço Tem a marca de prisioneira de campo de concentração Nunca números foram tão feios... Tem sofrimento marcando o corpo De alguém que lutou e sobreviveu com garra Seu nome bíblico faz jus a sua saga Teve muito pouco de paraíso no seu existir Mas sempre foi uma lutadora Jamais entregou as armas Pensando em ti... hoje Te procurei pelos olhos verdes que combinam A beleza com a sua grandeza E mais que na hora já era necessário fazer tal registro...

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Em tempo

Por Clarice Villac
Os bons tempos têm como ingredientes imaginação, sonho, alegria, aventura...

Podemos criar tempos memoráveis a qualquer tempo !

É só nos empenharmos, com alegria, sonho, imaginação e nos aventurarmos !

Para sentir inspiração basta inspirar o ar renovado de cada amanhecer pirar em busca do ainda utópico e trilhar o caminho da ação !

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DOS PRAZERES Por Cláudio Costa
Assim ela era conhecida lá no bairro. O movimento naquela casa, lá no fundo com um grande jardim atiçava minha curiosidade. Mulher de ancas largas, seios fartos, mas com o olhar triste. Vivia assim, não dos prazeres próprios, mas dando prazeres aos outros. Ainda moleque, naquela terra de ninguém, fui à busca do prazer. Então, naquela noite, descolei uma grana. Ela me deu banho, fez janta, assistimos TV e depois me colocou para dormir. No outro dia estava prontinho para a escola . Ela me deu um beijo na testa e com um lindo sorriso ficou me olhando, parada no portão.

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Rotina

Por Cristiane Sancovik
Na rotina de fechar meus olhos venho aqui todos os dias neste mundo impudico tênue na consciência do reles mortal que sou tele transporto-te comigo para um mundo nubente de compromisso com nós dois confirmando que a felicidade o bem estar de um coração apaixonado sustenta o depois que o simples toque do perfeito desvenda mistérios desmistifica o impossível concretiza o desejo da sensação dolente de um sentimento indescritível envolvendo-te na dimensão exata que é exatamente permanecer comigo no além tendo a certeza de que quando fechas teus olhos sentes o mesmo prazer que eu estou sentindo também.

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POR QUE? Por Daniel Cravo Silveira
Amei teu coração sem saber teu rosto. Amei teu corpo sem jamais sentir-lhe o gosto.

Nem o rastro do perfume me restou... Anjo ou demônio? Fada ou sereia? Por que te ausentas, faltas, não ligas? Por que tantas reticências? Minando, erodindo,

Abri minh’alma a toda a esperança de estar contigo. Sem saber que ela seria, para sempre, justamente o meu castigo!

o que foi construído com tanto cuidado! Sendo assim, desse jeito estranho, destruído. Por que o bálsamo da promessa

Ousei o amor que jamais seria meu. Ousei sonhar a vida novamente!

é passado pela mesma mão que nega a carícia? Por que a desconfiança

De sermos um só. Ser teu amante, teu amigo; cobrindo-te de beijos, adivinhando teus desejos, bastando a mim a paga do teu sorriso. Senti toda a dor da perda. Sem me lembrar de que, nem por um instante sequer, fosses minha. Se por zelo ou desleixo perdi a flor, que jardineiro sou?

envolve esta paixão? E o amor que nasce carrega o estigma da ilusão? Porque a dúvida nunca é desfeita? Os “por quês” nunca respondidos? E a ausência é sempre tua resposta...? Por que?

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Para aconselhar-me Por Deyse Zarichta

Para aconselhar-me, é necessário um pequeno relato, Que diabos colocarei aqui? Coloco toda minha amargura, antes que como fel Passe por minhas veias levando embora todo o sangue Assusta a possibilidade do eterno retorno Acontece sempre Um mesmo início, um mesmo fim, tudo exatamente igual Com suas, irrelevantes, diferenças Lerei essas pequenas notas assim que sentir o perigo Que é fácil identificar Começa com a poesia dos estúpidos Olhares inflamados de desejo e mensagens sutis anunciam, te quero Interessante é passar o tempo jogando com essas peças E apesar de já conhecer o fim, esperar, que dessa vez, ao menos dessa vez Haja controle absoluto da situação É inevitável, e parece até castigo, esse mesmo fim miserável Lágrimas, e uma fraqueza que percorre lentamente cada milímetro do corpo Deixando bem claro que é tudo o que se tem, matéria rejeitada A mesma cena , tão desesperadamente forçada a ser enterrada Agora parece tão mais estúpida, uma vez que já não é acidente, é quase uma escolha Tudo é beleza, romance e história Tudo é a irresponsável vontade de, mais uma vez Levar adiante a estupidez de encenar uma paixão Que acaba inevitavelmente nessa inversão das forças E o que era poder, agora é peso, culpa e dor

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Sêmen de Incêndio Diego Mendes Sousa

um sopro disse-me que amar é vento. o vento é plumbaginoso. o amor: música: vida. aqui, volto ao outono. será o amor regresso ou escarlatim ou devaneio?

na solidão mora o amor e o amor faz-se outono quando apenas amamos. consola-me amar. amar é procurar é perder é morrer. todos amam e amar, é chorar: amar é minha primavera de boêmio é minha cabala é minha máscara. amar em todas as noites só por amar. amar eternamente amar, eu amaria a primeira mulher, sem medida, se amar fosse somente carne, mas amar, amar mesmo, é desespero. é verdade, também, que amar é clarividente no beijo, no sexo, no gozo e, além disso, amar é salivar assim como se consome a laranja, a manga, a ameixa, o figo: a mulher. é lamber o mel na boca. os limões são azedos e a mulher: doçura. amar não é viver azul é sofrer azul e, às vezes, amargar em branco. amar é provar a poesia dos dias, o engano do tempo. amar é voar sob o céu sob a tempestade sob o manto de luz das estrelas e cair, cair, cair, cair... e ressuscitar na derradeira brisa. não há pecado em amar, amar é amar e é tudo e é nada. e se nada é tudo, o tudo é sempre. sempre é amar e amar é fugir. estou perdido entre indagações, confesso.

muitos se suicidam outros esquecem. outros se calam e pesam. Amar é fogo e o Amor: incêndio.

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Chão de gente

Por DIMYTHRYUS
Chão De pedras, histórias Chão duro Chão d’ouro Outrora transparente Diamante Chão de gente Nossa gente Chão de pretos Pregos correntes e gritos ‘çoites, quilombos, estalos Chão de inverno gelado Chão preto De ouro roubado Chão da nossa terra Chão de Ouro Preto Dourado.

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Pra onde eu vá

Por Dúlcio Ulysséa Júnior

Pensar em mim impossível Sem antes em ti Não tenho outra morada Se não for ai Como conseguir viver Sem que te tenha aqui

Mesmo que eu vá Aqui, ali, lá ou acolá E volte pra cá Não irei conseguir sem que cá Aqui pra mim não estiver

Carrego você pra aqui, pra ali, pra cá, pra acolá Para qualquer lugar Onde eu possa ir ou imaginar

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Bembem padece de amor Por Eurico de Andrade
O Raimundo barbeiro estava quase indo à falência. A machaiada de Tabuí fizera da sua barbearia ponto de encontro predileto, onde se ficava sabendo de tudo. Quem tava ficando rico ou pobre, quem gostava de quem, quem apanhou de quem, quem tava saindo com quem... E o Raimundo brabo com a falta da freguesia que refugava de tanto falatório. Freguês que se aventurasse ali, mal saía, a ficha tava completa e era assunto por uma semana. Até que um dia o barbeiro resolve espantar o azar. Zequinha Bembem, o açougueiro simplório, o mais conversador de todos, contador de papo, inventor de histórias, metido a brabo e a paquerador, era quem mais divertia a turma da barbearia. Raimundo acha de aprontar com o Bembem para ver se espalhava aquela homaiada da sua barbearia e a freguesia voltava. Escreveu bilhete com letrinha delicada, caprichando na língua pátria. "Zequinha, tô pachonada por ocê. Sou sua fãn ocurta. Quero marcá incontro. Guarda segredo." E colocou o bilhete debaixo da porta do açougue, já tarde da noite, para não correr o risco de ser visto. No dia seguinte, mal o Raimundo abre a barbearia, lá vem o Zequinha Bembem correndo, eufórico. - Remundo, óia só! Ela tá paixonada por mim, sô! E Raimundo leu o bilhete que ele mesmo escrevera, mostrando espanto. - Mas ocê não tá guardano o segredo que ela pediu, ô Bembem! - Só tô contano procê, Remundo! - Óia, é bom ocê não contá para mais ninguém não, sô! Cê num conhece aquele ditado que diz que quem tiver segredo, não conte pra mulher casada, pois ela conta pro marido e ele pro seu camarada? Segredo tem perna curta, home! Ainda bem, Bembem, que sou homem de pouca fala! E quem será ela? - Sei não... Pode sê a... E Bembem teceu uma longa lista das possíveis pretendentes. De solteiras donzelas a casadas que jogavam água fora da bacia, até a beatas convictas e juramentadas. - Ah, Remundo! É dessa vez que eu disincravo, sô! Vai s'imbora, solidão!... Bembem passou o dia inquieto, rindo a toa, doido para enfronhar conversa de amor. Como

ninguém deu trela, ele se calou. E Raimundo, só de butuca, querendo ver até quando o homem guardava segredo. Antes de ir para casa, comecinho da noite, escreve outro bilhete, novamente com letrinha delicada "Beimbeim, meu amor. Quero mim revelá procê amanhã de noite ao beco do Mijo 9 in ponto. Se eu demorá um poco, mim espera. Vái sozinho. De camisa branca pra mode eu vê ocê no iscuro. Nem paletó, nem blusa e nem xapéu. Oia o segredo viu? Sua amada". Deixa-o debaixo da porta do açougue e vai pra casa esconder-se do frio entre as colchas e coxas da patroa. De manhãzinha, lá vem o Bembem correndo de novo, emocionado e sem fala, escondendo papelzinho rosa no bolso. - Remundo, ela me escreveu de novo, sô! - Ih, é? Dexovê! - Na-na-ni-na-não! Desta veiz não! Vô guardá segredo. É pedido dela. - Deixa de sê bobo, sô! Cumpoco cê tá pensando que eu quero passá ocê pra trás? - Né isso não, Remundo! Amanhã eu conto procê, tudo, no seu tintim, viu? Ah!... Esta noite vai acontecê coisas!... - suspirou ele, revirando o zoinho. Raimundo viu o amigo pra lá de emocionado. Os olhos brilhando, a respiração ofegante e ele não parava um instante sequer, saltitante feito tiziu. Bembem, naquele dia, não abriu o açougue e nem matou vaca. Ficou zanzando pela rua, ruminando seu segredo, vendo passarinho verde, doido pra contar para alguém, mas se segurando nos trancos, em respeito ao pedido da amada desconhecida. À noite, a barbearia funcionou até bem mais tarde. O Raimundo, pedindo boca de siri, contou pra mais de uns quinze a história do Bembem. E todo mundo ficou sabendo o que iria acontecer. Um pouquinho antes das nove, tá a turma toda abafada, dentro da barbearia, tiritando de frio, cada um mais encapotado que o outro, esperando Bembem passar. Para chegar ao beco do Mijo, aquele era o único caminho. Cinco pras nove, um avisa lá vem o home! Bembem vem, em manga de camisa branca, banho tomado, perfumado e barba feita, olhando desconfiado para a porta da barbearia, de onde saia luz e bafo de macho. Assim que vai passando, encolhido pelo frio e para não ser visto,

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alguém grita lá de dentro ô Bembem, ondé cocê vai, sô? Vamo chegá, home! O açougueiro, pego de surpresa, treme nas bases, sente batedeira, perde o tesão incontido e começa a suar frio. - Tá com frio não, Bembem? - Vô ali! Tô não! - responde o moço às duas perguntas de uma vez. - Vem cá, Bembem! Vamo tomá uma pra esquentar o peito, home! - insiste o outro. - Depois em venho, tá? Larga deu! Dexeu em paz! E isala no mundo, ganhando a escuridão do beco do Mijo. Nessa hora, o Raimundo barbeiro entra em ação. Pega sua bicicleta velha, de nome magricela, bastante escangalhada, e sai também em direção ao beco do Mijo. Passa pelo Bembem e finge não conhecê-lo. Dá uns cinco minutos de prazo e volta. Repete a ida e a vinda mais umas duas vezes, enquanto o Bembem se espreme entre um muro e um poste de luz sem luz, imaginando que não seria visto e nem reconhecido pelo barbeiro. Praguejava pros seus botões, querendo saber o que o Raimundo fazia por ali, àquela hora da noite. E, emocionado, espera, espera, espera... Tremendo de frio. Até que, da emoção, após mais de uma hora, passa à raiva e resolve ir embora. O povo, estranhamente, - Bembem achou -, naquele frio, continuava na barbearia. Puto da vida, resolve pular dois muros do quintal do Alfredão, correndo risco de mordida de cachorro, para não ser mais visto por aquele bando de vagabundos. Passa no seu açougue, já quase 11 da noite para procurar sinal da amada. E acha. Papelzinho cheiroso, cor de rosa, com letrinha delicada, dizia: "Meu bem. Me perdoa gostozão. Num deu pra mim falá cocê. Si ocê num sabe, sou muié casada e o tarado do Remundo barbero tá disconfiado e aresorveu dá em riba deu e a siguieu fazeno preposta obissena de sequisso. Como num quero ficá malafamada, adeus". Bembem não esperou pelo dia seguinte. Saiu de si e deixou, no coração, lugar para homem brabo. Pegou faca de sangrar vaca e foi pra barbearia. A turma, incentivada pelo Raimundo, esperava. - Cadê aquele disgraçado do Remundo? Remundo!... Traidô! Vem cá fora procê vê o quequié bão pa tosse! Cê tá dano inriba de-

la, né, fedaputa?!... Entrou em campo a turma do deixa disso e foram segurar o Zequinha Bembem. Começaram os empurra-empurras e os sopapos. E uns passaram a descontar nos outros as mágoas de antigamente, as fofocas mal ditas e as falas bem ditas, dando e levando bordoada. Cada um por si e Deus por todos. O fuzuê foi feio, em plena rua, beirando a meia-noite. Na refrega, alguém sumiu com a faca do açougueiro, desapareceram a peruca do alfaiate Cirilo e a dentadura do Laerte. Quando chegou o Divino soldado, o Toim Zaroio procurava, tateando o chão, os seus óculos fundo de garrafa e ninguém entendeu porque o Mané Falafina, o qualira da cidade, mais conhecido como arame liso, perdeu a calça e tava sentado no colo do Xinco Mangüara num cantinho mais escuro. Com o Divino, tudo acalmou quando, franzino e baixinho, ele teve que gritar, dando pulinhos e tiros pro alto para impor sua vontade. - Cês num tão veno a otoridade aqui não, ô? Pára cuisso, cambada de fedaputa! Ao ouvir os tiros e sentir cheiro de autoridade, cada um foi saindo de fininho pra caçar seu canto, fugindo de ver o sol nascer quadrado. E Raimundo, o único que não tomou parte da confusão no meio da rua, fechou sua barbearia em paz, enquanto os da turma, alguns de olho inchado, boca sangrando e cuspindo dente, ficaram de nariz torcido e de mal uns com os outros. Era o que queria Raimundo, para atrair de novo a freguesia.

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Incertezas Por Fábio Ramos
Corredores escuros Avenidas desertas, cidade morta Todos julgam-se amigos, companheiros E, mesmo assim Tudo é em vão, tudo é inútil O tempo é só, incrédulo da própria realidade O tempo é só... É só ele em seu silêncio Sussurrando apenas aos sábios, as almas puras Tudo o que sente, o que pensa No vem e vai, nada fica, tudo um dia partirá A felicidade é por pouco tempo Ela chega , encanta, e desaparece Some em meio à sonhos, ilusões... Pensamentos... Quem sabe, O segredo de ser feliz, é desaparecer Partir junto a ela, sem rumo, sem direção Mesmo que... Uma vida toda, um passado por inteiro fique para traz Mesmo que o destino torne-se incerto E, o caminho obscuro, surpreso Mesmo que tudo e todos Contra o destino reajam, o julguem Porque tudo vale, tudo se pode Quando em meio a tantas incertezas A razão de todas as loucuras Seja um eterno amor...

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Os juízes Por Fabrício Couto Martins
E os pastores farão sua oração, Os crédulos requererão sua recompensa, Os descrentes pedirão o que pensam merecer, Os juízes esperarão para ver, Os condenados perecerem, E os juízes esperarão Pela condenação Que também tem para receber.

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O que é Felicidade? Me diz.

O que é felicidade? Me diz. É a leveza e doçura ao caminhar?

Flávia Assaife

É a mão suave a acarinhar? É a voz macia a sussurrar?

O que é felicidade? Me diz. É um contentamento que liberta sentimento? É ventura que aumenta a temperatura? É o bem-estar que se sente ao amar?

O que é felicidade? Me diz. É secar a lágrima que desce quando os lábios sorriem? É o murmúrio das palavras? Arrepio? É êxtase? Euforia?

O que é felicidade? Me diz. É o quebrar das ondas a beira-mar? É a brisa que sopra a refrescar? É o cheiro do mato que o vento insiste em compartilhar? O que é felicidade? Me diz. Talvez seja ser o que se quis Viver sem medo de ser infeliz Sonhar os sonhos e pedir bis Tornar a realidade uma matriz O que é felicidade? Me diz. É o cheiro do café fresquinho ao acordar? É a fina sinfonia dos colibris a cantarejar? É a euforia de um novo despertar? Isto tudo e tudo mais é que faz você feliz!

O que é felicidade? Me diz. É ter prazer em realizar? É a força interior para prosseguir? É o aroma exalado por uma flor?

O que é felicidade? Me diz. É ser o que sempre se quis? É nunca estar por um triz? É ter amigos e cor na vida?

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ENCRUZILHADA Por Francisco Gregory Junior
São seis horas da manhã, Agoniza o velho à minha frente. A esperança já se faz ausente, Sentimentos confundem minha mente. Persiste o martírio doloroso De um homem não mais vivo. Coração a bater forte em seu peito, Tendo sua alma já o deixado há algum tempo. Martírio de uma velha companheira, Negando-se a aceitar a perda definida, Passando a clamar por ato difícil de ser feito, Fosse eu capaz ou tivesse esse direito. Como abreviar este fim, Desligar aparelhos, interromper infusões? De um modo, certo achava, De outro modo, me negava. Um misto de alívio e dor, finalmente. A morte veio, final de uma história até frequente, Não fora o velho doente o pai, Não fora eu, seu filho, o médico assistente.

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Fala poeta! Por Geraldo Pereira Lopes

Brother; Um grande poeta de cunho internacional assim se expressou: tudo, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Um outro poeta não menos internacional do que o primeiro disse: eles passarão e eu passarinho. Um terceiro poeta, catarinense de Timbó, não menos internacional que os dois primeiros, buscou no mais profundo dos seus sentimentos — percepção, nos dando de brinde: menor que meu sonho, não posso SER! Busco um quarto poeta, que ousa fazer a ponte entre esses (03) três ícones da Poesia Internacional e acrescenta: ainda que me sonho possa me tornar marginal, diante da ignorância, da hipocrisia do olhar alheio, que vive por demais centrado no seu próprio umbigo e quando dele se afasta, vai exatamente em direção ao seu próprio quintal e realiza um belo jardim e a partir daí, começa a receber N elogios. Se o seu quintal é assim, imaginem o tamanho da casa. Esquecendo que o seu quintal, a sua casa, nada mais são que o seu próprio umbigo ampliado. Portanto, se temos a capacidade de realizar para nós mansões, vamos auxiliar outrem a conquistarem a sua dignidade-cidadania, a sua moradia, para que no mundo haja HARMONIA! Se quisermos entender e praticar a mensagem, vamos caminhar para um 2.010 bem melhor para todos. Pois, pois, pois, tudo que tu possa imaginar tem que ter (SER) uma palavra chave no campo prático da vida: harmonia. Quando o mundo, (as pessoas — "autoridades" teorizam em demasia e praticam minimamente), passamos a presenciar na prática, o que estamos a presenciar diuturnamente sem limites: injustiças sociais, agressões ao meio ambiente, a vida em geral de forma por demais assustadora, comprometedora. Pois, tudo que sobra lá e sempre querendo mais e o pouquinho que aqui precisa e satisfaz, vai — vem sempre ficando pra trás. Muitos gritos sufocados, muitos sangue derramado, muitas fontes de luz procurando ocultar os crimes, muitos seres abandonados. Agora, foi dado o recado, depois, (...) Da minha obra musical: Temos Que Domar a Fome. Portanto amigos amigos, é urgente, urgentíssimo, divulguem por favor: o que mantém todos os equilíbrios sociais, são exatamente as diferenças. Agora, quando são elas, as diferenças muito acentuadas, elas causam efeitos contrários — causam implosão. Por isso estamos a presenciar com bastante frequência, alterações climáticas catastróficas em vários níveis e também as sociais, porque nos distanciamos em demasia do aprimoramento das relações das relações, que é com (SER) teza a humana, que tem desdobramentos nas demais relações com tudo e com todos os outros seres que compõem nosso pequeno universo de percepção. Silêncio se faz..., eco, se procura..., e eu, simplesmente poeta o poeta do SER!

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O ESTRANHO Por Gilberto Nogueira de Oliveira
Vivia num quarto trancado Fazendo, ninguém sabe o que? Talvez flores Talvez uma bomba atômica Seria um gênio? Seria um louco? Ninguém o compreendia Quem sabe ele descobriria A formula da alegria? Não saía para nada Lá dentro, comia Lá dentro, digeria Ninguém sabe como. Um dia a porta abriu E todos correram para ver... Não havia nada Nem ele mesmo Provavelmente, ele consumiu-se

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O GARANHÃO DE FLORIANÓPOLIS Por Gilmar Milezzi
Esta é a história de Lírio, um sujeito muito popular entre as mulheres da Ilha de Florianópolis no início da década de 70. Nas praias de Coqueiros, Itaguaçu e Bom-Abrigo ele reinava absoluto, para admiração e inveja de seus companheiros de farra. Não tinha prá ninguém: onde houvesse empregadas domésticas, mocinhas com os hormônios em ebulição e solitárias já não tão mocinhas assim dando sopa, lá estava o Lírio fazendo a festa. Mas aquilo não lhe subia à cabeça. Havia algo que o atormentava em a sua decantada virilidade. Ninguém sabia, mas a fama de garanhão que o acompanhava, embora justa e merecida, tinha uma mácula. Algo que ele escondia tanto quanto possível, temendo o implacável julgamento da malta invejosa. Ele temia, sobretudo, o desprezo que adviria e que o acompanharia no ostracismo a que certamente seria condenado. Parecia inacreditável, mas ele tinha realmente motivos para preocupar-se. Por alguma razão, que só os deuses poderiam explicar, o seu ímpeto de garanhão só se manifestava com mulheres feias. Quanto mais feia fosse a mulher, mais ele se empenhava em conquistar seus favores. E tinha ainda um outro detalhe: Lírio adorava mulher de pés grandes. Quando descobria que a dita cuja calçava mais de 40, era um delírio. Já com as mulheres bonitas, ele sentia uma indiferença atroz do seu velho companheiro de batalhas. Não havia nada que acordasse o, antes, impávido colosso.

ras nas noites de verão. Disposto a mudar sua vida, Lírio foi à luta. Num baile do clube Limoense, ele conheceu Aline, uma loura espetacular recém chegada de Blumenau. A atração foi mútua e eles dançaram a noite inteira, com direito a alguns amassos dissimulados. Todavia, a moça era de respeito e não deu mole para o incorrigível conquistador. Experiente no trato com as mulheres, Lírio logo percebeu que devia refrear seu temperamento ardoroso e esmerar-se no galante papel de um cavalheiro cheio de boas intenções. Apesar dessas restrições iniciais, ou por causa delas, começaram a namorar várias semanas depois daquele primeiro encontro. Depois de algum tempo, ele já frequentava a casa dos pais de Aline, e ela já não se mostrava tão puritana quando eles trocavam carícias na parte escura da varanda da casa dela, onde tinha até uma lâmpada providencialmente queimada Tudo parecia perfeito.

Contudo, Lírio vivia apavorado com o momento em que teria que fazer jus à fama que granjeara durante tanto tempo. E, se dependesse do entusiasmo da moça, esse momento não tardaria a chegar. As carícias foram se tornando mais ousadas e a moça mais exigente. Lírio, por outro lado, desconversava quando as coisas se tornavam mais quentes, na tentativa de ocultar suas dificuldades sob o manto do respeito que lhe dedicava. Aquele era um bom pretexto, mas não ia durar muito. Ele precisava Sujeito simpático, e de grande traquejo social, encontrar uma forma de superar a ausência de Lírio era bastante popular nas rodas de samba reação que lhe afligia nos momentos mais calorosos. Pesquisando discretamente, ouviu falar do bar do Nino, em coqueiros, e das noitadas numa benzedeira que vivia na costa da Lagoa regadas a caipirinha do Bar das Pedras, na praia de Itaguaçu. Nessas ocasiões, podia ser da Conceição, e que sabia preparar uma garravisto rodeado de belas mulheres, mas sempre fada que era tiro e queda para o problema que terminava a noite nos braços de uma mocréia o afligia. A queda ele dispensava, naturalmenqualquer. Essa era a vida do Lírio. E seria uma te, mas foi procurar a mulher. vida boa, se ele se conformasse com o que tinha. Mas no fundo da alma, ele se ressentia e sonhava com o dia em que teria nos braços uma daquelas lindas meninas que frequentavam as boates do Lira Tênis Clube e do Painei-

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Após ouvir uma atrapalhada explicação sobre o problema de um suposto amigo, a tal benzedeira preparou uma beberagem para ele, composta de vinho, ovo de pata, amendoim e algumas ervas estranhas de que ele nunca tinha ouvido falar. O resultado daquela mistura foi um litro de um líquido marrom escuro, de aspecto não muito atraente. A benzedeira entregou-lhe a garrafada com instruções para que ele a enterrasse numa noite de lua cheia e a deixasse de repouso por três dias. Após isso, Lírio deveria tomar um cálice daquela beberagem todos os dias antes de dormir. Quando o conteúdo da garrafa acabasse, seu problema estaria resolvido. Alguns dias depois que ele começou aquele “tratamento”, Aline o encontrou. Estava entusiasmada com a possibilidade de ficar sozinha em casa no fim de semana, em razão de seus pais irem para Blumenau. Era a oportunidade que eles tanto desejavam, segundo a moça, e com a qual ele apressou-se a concordar, sem muito entusiasmo. Lírio, que já estava ficando confiante na eficácia da garrafada, começou a ficar apavorado com a aproximação do fim de semana. Estava tão inseguro, que quando a sexta-feira chegou, ele tomou o restante do conteúdo da garrafa de uma vez antes de ir ao encontro de Aline. Todo aquele líquido no estômago o fez sentir-se um tanto estranho, mas não fez caso disso. Resoluto, foi para a casa dela, martelando na mente aquele velho mantra: “Seja o que Deus quiser”. No caminho ele se acalmou, e quanto mais pensava em Aline, mais sentia suas calças apertarem. Estava funcionando, pensou entusiasmado. Apressou o passo, pois sentia que não devia perder tempo. Mal ela abriu a porta, Lírio a agarrou. Tal era o seu ímpeto que Aline sorriu toda feliz com a reação que tinha provocado no amado. Aquilo dissipava as dúvidas que a estavam incomodando ultimamente quanto ao que ele sentia por ela. Pelo jeito não ia dar tempo nem para degustar o jantarzinho caprichado que ela havia feito. Isso não a incomodava, é claro. A ordem dos fatores não alterava o produto e aquela noite prometia. Foram atravessando a sala deixando peças de roupa pelo caminho, dando a Lírio a certeza que havia conseguido dissipar o bloqueio que tanto lhe atormentava. Graças à benzedeira e

a garrafada que ela lhe dera. Mentalmente anotou o compromisso de levar um presente para a mulher. Foi com esse pensamento que sentiu o primeiro espasmo do intestino. Suas entranhas pareciam estar entrando em colapso, como se tivesse tomado litros de algum tipo de laxante. No segundo espasmo sentiu que deveria correr para o banheiro. Antes que desse um passo, veio o terceiro espasmo, e ele percebeu que não havia tempo para mais nada. Aline olhou para ele perplexa, ainda sem compreender o que estava acontecendo. Depois, tapou o nariz e correu para o banheiro. Lírio ficou só, com sua dignidade esvaindo perna abaixo. Aquilo era o fim, pensou. Mas o fim ainda não havia chegado. A porta da sala se abriu naquele momento atroz, e o pai de Aline entrou para pegar a carteira de motorista que havia esquecido. Felizmente para Lírio, sua desgraça foi também a sua salvação, pois o que seria difícil explicar foi creditado a um mal estar súbito acarretado pela sua emergência intestinal. Todavia, o namoro com Aline não prosperou. Depois daquele vexame, ele decidiu nunca mais se arriscar com beberagens estranhas e voltou para os braços das feias e mal amadas da ilha.

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Aceito a noite longa

Por Gustavo Henrique Bella
Aceito a noite lenta de horas vagas Grisalhos cabelos surgem com a névoa branca Lembranças cintilantes no céu passado E aquela mão roga por um toque Recebe uma face em meio a noite O tempo que sofre entre as horas negras Grita pelo nome de alguém que passa Apenas um eco na escuridão faminta Levando beijos que serpenteiam o coração Cravando presas de veneno amargo Derrubando os fortes e consumindo os fracos Irônica vida de encantos tolos Fortes palavras ditas a esmos Sem salvação ou redenção São apenas as presas encontram o tempo E a noite longa ganha força ante as horas Consumindo o corpo e diluindo a alma.

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Por Hugo Pontes

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RESPEITO Por Icléia Inês Ruckhaber Schwarzer

Respeito tua opinião Respeito tua decisão Somente quero que saibas Que respeito meu coração Nesta ilusão deixei meus sonhos me levar Onde somente em pensamentos eu posso chegar Desta louca paixão vi em meus olhos brotar As lagrimas que temem em rolar Lembrando dos doces momentos Da ilusão da minha alma Da alegria de um dia te amar Hoje em minha alma Teus rastos persistem em ficar Mesmo que eu queira Não consigo te evitar Saudades, dor ilusão Lamentos do meu coração

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Cotidiano cruel Por Igor Medeiros Oliveira
Ele acorda. Lava-lhe a face. Esconde o colarinho de baixo da gola do terno. Nos tempo antigos, mostrava-se o colarinho com orgulho, batendo no peito. Era o ídolo da garotada. Comprava bala, pirulito, entre várias guloseimas para eles. Agora, se mostrasse o colarinho, era vaiado. Atiravam-lhe tomates podres e fétidos em sua idosa face. Mira-se no espelho. Um típico e respeitável cidadão. Trajava um terno escuro, com botões de detalhes dourados. Uma camisa de linho egípcio, alvíssima, e uma charmosa gravata vermelha. Os bigodes, já lhe arrancavam a juventude do rosto." Se eu tirar, fica pior" sempre dizia à esposa. Os cabelos outrora eram um emaranhado amazônico, agora mais pareciam pasto de gado velho. Vai no seu respeitável escritório e abre seu e-mail. Recebe um proposta: R$ 100 000,00 para alterar o plano-diretor. Se ele cedesse, ninguém descobriria. Ele estava acima da lei. Ele era a lei. Mas ele nunca aceitara nenhuma proposta corrupta. Mas R$ 100 000,00? Sai pra tomar um café, de colarinho escondido. Encontra mendigos moribundos, fundindo-se às calçadas de sua cidade. Uma criança lhe pede esmola, e ele tira da carteira cinquenta reais. O "mini-deliquente" lhe mostra a arma, e lhe alvejando, sai em disparada. Seu cadáver tomba ao chão, ferido pelo povo que nunca feriu. Aparado pelo chão que sempre protegeu. E vislumbrando a tão ignorada sombra da morte sobre seus olhos, esclarece-lhe a mente. Não aceitaria a proposta. E com o sangue vertendo-lhe a vida, morre, o último "homem" da Terra.

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Perfume do Sol Infeto

Cadê o perfume do sol, que eu trouxe para você? Seu aveludado. Céu laminado. Não está mais aqui! Olhos nos olhos. Na mente. Dente nos dentes. Semente. Você caiu e me arrastou. Quem se mistura com farelos. Por porcos são comidos. Eu sou um porco e aspiro uma carreira de você. Esse mato seco, não molha mais minha alma. Vou sentar numa pedra. Com uma cartela de drágeas de alguma paroxetina. Menina, mulher, vadia, santificada. Advogada do diabo. Numa liturgia na encruzilhada. Faz o que quer, mas não me diz nada. No meu quintal e no meu coração, você não nasce mais. Onde estão suas sementes? Baby, Baby! Onde estão suas sementes? Onde está o perfume do sol que te dei? O perfume do sol, não é mais azul.

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A GAIVOTA

Por Irene-Zwetsch

Voa longe a gaivota, segue o curso, sua rota. Voa firme, alto, livre Lá embaixo, quem se importa? Seu traçado belo, rápido de infinitos mergulhos Proclama aos ventos Asas abertas, uma ode à liberdade. Voa tranquila, gaivota, Voa sem medo, sem rota Vai levando tua leveza Vai depressa, não te importes Que nós, aqui embaixo Sonharemos teu percurso E nas asas de nossos sonhos Te seguiremos, rumo à eternidade azul.

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Como se fosse doçura Por J. Machado
Quanto tempo temos até o entardecer? As horas passam seguidas de histórias. Serão nossos momentos contados? Quem escreverá a ata com tantos fatos? A poesia é amarga. Escrevo o amargo como se fosse doçura! Então sinto um sabor agridoce. A própria vida! Nada é tão doce. Nada é tão azedo. As nuvens passam apressadas. Parece que fogem! Nem meus olhos acompanham tanto voar. São os ventos do sul. Enquanto olho para o céu, te espero. Talvez você venha num cavalo branco.

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Êxtase Por Jaci Santana
Amar-te e querer-te. Este é o meu mais sublime desejo. São vagos delírios de posse e arrebatamento. Esta sôfrega paixão que por um momento, traiu-me sem perdão. Meu olhar perdido em ti, flagrou-me hipnotizada em teus meneios, olhando-te se movendo com uma agilidade estonteante. Teu olhar divagando... E tuas mãos... O corpo tocando, com tal doçura e leveza que, em êxtase, a este proibido sentimento entreguei-me. Este frio! Este tremor! Este arrepio! Que minha atormentada alma, sozinha, gemia além do esperado. Em meio à multidão, em meu fervoroso pensamento, estavas tu, ali, presente. E no tilintar de partidos corações, estava o meu, entre os seios pudentes, repletos de desejos ardentes e segredos inocentes. E ao longe, abria-se a várzea enegrecida, tímida e nebulosa, a espreitar a lúgubre noite. Dentro de mim, vozes ecoavam sóbrias e tristes. Insanos sorrisos disfarçavam o pranto vertido, Pois, já não eras parte de mim.

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O QUE TE EQUILIBRA? Por Jacqueline Aisenman
O que te equilibra? Sério, responde. Se não responder pra mim, responde pra ti mesmo. O que te equilibra? Vem de dentro ou vem de fora? O que te dá aquele sentimento de que os dias passaram (e bem) sem que tenhas que ter lembrado deles a cada manhã ao acordar, ao sair da cama? O que te equilibra e te dá aquela sensação de quase dever cumprido talvez não no final de cada dia, mas no momento de olhar alguma foto, ou simplesmente de olhar para trás. O que te equilibra é uma pessoa, um hábito, uma crença, um remédio, um trabalho, um alimento, um animal, um lugar, um sonho, uma esperança...? O que te equilibra? O que te faz caminhar sorrindo pelo fio da vida, esta corda de circo que mais alta não poderia estar, com os braços abertos, o sorriso no rosto, até chegar do outro lado? Neste circo, onde não podes olhar para baixo para saber se a rede está lá embaixo para te amparar, se o público irá te aplaudir ou esta torcendo para que caias... onde o outro lado nada mais é do que a outra ponta, idêntica ponta de onde saístes em caminhada destemida e quase cega... O que te equilibra? O que te dá a força de manter o equilíbrio? Vem de dentro ou vem de fora? Veio a ti ou fostes buscar? Te dá o verdadeiro equilíbrio ou apenas a ilusão de estar equilibrado? É de concreto, é um tapete, é uma nuvem, o que está sob os teus pés? Qual a sua solidez? O que te equilibra poderia te desequilibrar se desaparecesse hoje? E para onde te levaria o desequilíbrio?

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AS ARMAS NÃO MATAM Por Jandira Torreiro
Perguntam-me: ”Porque eu jejuo às sextas feira Faço-o pela conversão dos pecadores, ela erradicação da violência no mundo Num tom solene argumentam: "Deus não quer sacrifícios, quer misericórdia”.! Conheço bem a expressão. Fiquei me perguntando: Deus quer minha misericórdia, minha compaixão com a miséria alheia! Mas, por mais que tenha compaixão, que use de misericórdia, por mais que eu faça algo por meu semelhante, sozinha jamais será o suficiente para atingir o que eu busco. A erradicação da violência no mundo, Para esta pandemia que se alastra do Ocidente ao Oriente do norte ao sul do planeta, só existe um antídoto, "o AMOR ” o amor que levou Jesus a se sacrificar por nós, a dar a vida por seus irmãos. E para que todos tenham consciência da necessidade deste antídoto é necessário muita oração, jejum e penitencia. Enquanto os homens não crerem no mistério da paixão e ressurreição de Cristo, e que pelo Seu Sangue derramado passamos a ser uma só família, que temos Seu DNA do amor , que somos todos irmãos independentemente de cor, raça, ou credo!

tre torcedores fanáticos de futebol. Continua a guerra entre as gangues do narcotráfico, usando armas de fogo que certamente não foram recolhidas, multiplicam-se as guerras entre nações, A mídia noticia um novo matricídio por um jovem desesperado. Um namorado ciumento queima viva sua namorada adolescente As mortes proliferam., continuam os homicídios de mendigos queimados vivos, a perseguição e morte de travestis, numa ostensiva discriminação social . Continuo dizendo! As Armas Não Matam! Quem mata são pessoas, movidas por problemas sociais, falta de escolas, de trabalho e até falta de comida!, Problemas psicológicos, desamor, desagregação familiar, e problemas espirituais desconhecem o amor de Deus, o dom divino de perdoar e de pedir perdão. Enquanto o homem permanecer longe de Deus, desconhecendo ignorando o Seu imenso amor de mãe por nós, continuará a hegemonia da violência, principalmente quando estamos sendo espectadores de um traumatizante espetáculo de impunidade na Nação! Sabemos que a pena imposta ao ladrão é menor que a pena imposta ao homicida, mas há agravantes e atenuantes Desviar da nação os impostos arrecadados e pagos às vezes com sacrifício pela população crente que sua contribuição seria utilizada para o bem estar social, na construção de estradas, de escolas aparelhamento de hospitais, contratação e capacitação de pessoal, e depois vir a saber que aqueles impostos escorrem por valeriodutos, sem que os infratores sejam punidos

Quando o governo se decidiu fazer uma caça as armas, como estratégia de Combate a violência, a população se alegrou! Acreditava que com as armas recolhidas, os assaltos os homicídios diminuiriam, mas logo o povo se deu conta que ficaria desarmado à mercê dos bandidos que sempre têm um jeitinho de conFaçamos pois, nós cristãos, não importa seguir armas e assim disse não no plebiscito. a religião, todos cremos num Deus misericordiAinda se estava no processo e dentro do prazo oso imparcial e bom. Façamos juntos um dia de recolhimento Eis que continuam as notícias por semana de jejum, para que tão grave e disde homicídios mesmo sem arma de fogo, al- seminada pandemia que se intensifica e se guns com cunho de perversidade muito além aprofunda a cada dia. Seja erradicada definitido imaginável, como aquele matricídio e parri- vamente do planeta! cídio praticados por uma adolescente, com ajuda do namorado e futuro cunhado, Continuam as mortes nas boates ,onde pais pensam estar seguro seu filho e até o leva ali, sem sequer desconfiarem que aquela seria a última vez que o estariam transportando, pois às vezes ele não volta mais ao lar, vítima da crueldade de outrem Continuam as mortes no campo entre os sem terra, e sem teto, mesmo sem uso da arma de fogo. Continuam as mortes en-

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“Sobre Viver” com Arte:

Um conclame aos Artistas que vivem na terra de Anita Por Jane Vieira Gariba
Olá leitor e leitora! Sabe, eu muito pensei antes de começar a redigir este texto, a convite de nossa maravilhosa consultora. Logo me veio à mente: vou à Internet e “pesco” algumas idéias pra desenvolvê-lo... Depois, fica fácil concluí-lo. Conversa! Foi então, que decidi realizar alguma atividade pré-concebida para o dia que me fizesse refletir e encontrar um caminho onde minhas palavras discorreriam. E assim, nasceu! Erguendo meus braços abertos, ao vento, quase na ponta dos pés, com uma das mãos escorada a uma fina linha de nylon e a outra carregando centenas de fios de algodão coloridos, me libertei! Principalmente, quando utilizei recursos básicos da Física, num conjunto de alavancas perfeitas, feitas de fragmentos de madeira e arame. Isso! Foi assim, estendo roupas no varal que minhas ideias brotaram. Comecei pensando, porque hoje em dia está tão difícil escolher entre o “ser” e o “ter”? Conheço centenas de pessoas que “tem” filhos, mas não “são” pais. “Têm” uma infinidade de cursos, mas não “são” capazes de transformá-los em vivências. “Tem” posses, mas não “são” donos. “Tem” diplomas universitários (=educação), mas não “são” educados. Enfim, são centenas de vezes que podemos citar estes verbos... Em vão. E o que isso tem a ver com a Arte? Já explico: É que em muitos e muitos momentos durante nossa vida, somos bombardeados pelo “ter”. Exigem-nos ter carreira. Ter moradia. Ter transporte. Ter família formada. Ter alicerce. Somos empurrados a construir um futuro que muitas vezes não é o qual sonhávamos. Por que tanta pressa para viver? Porque o dia se torna tão carregado de obrigações? Que tempo reservamos para “sermos” felizes contagiando quem nos cerca? É aí que entra a Arte de Viver... De sobreviver com a Arte! O artista é encantado pela vida. Necessita retirar esse imo de felicidade todos os dias. E nas terras de Anita, isso brota nas esquinas. Não importa vivermos marginalizados pelos trocadilhos da sociedade, porque nossa essência é a vida. O “ter” se esbarra no nosso “ser” nos tornando mais fortes. Mais amantes do que somos. Não precisamos “ter” um título para nos sentirmos artistas, porque já somos artistas da vida. Não digo aqui, que não precisamos estudar. Necessitamos! Sempre! O que não precisamos é viver amarrados a uma posse, seja ela de qual natureza for. E hoje, especialmente, conclamo aos artistas que vivem na terra de Anita a se unirem. A exporem suas obras. A participarem de um circuito de Arte Lagunense, criando referência no sul do nosso Estado.

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EU SÓ QUERIA UM AMIGO

Por Janete Gutierres
Eu só queria ter um bom amigo, Que pudesse me ouvir. Que pudesse olhar em meus olhos E sentir a dor que consome meu coração. Que pudesse ser fiel e doce, que estivesse Comigo nos momentos que mais precisasse. Que me defendesse e me amasse. Que lutasse por mim nos momentos difíceis. Que pudesse pegar as minhas mãos entre as Suas e me consolar. Eu só queria ter um amigo que pudesse Caminhar ao meu lado, Que eu pudesse ter a certeza que ele Estaria lá, e não me deixaria só. Um amigo verdadeiro. Eu só queria um amigo.

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Nos Braços do Carnaval Jania Souza
De serpentina, baiana ou Pierrô Vou mergulhar nos braços da folia Só peço a Deus, nosso Senhor Sua prazerosa e constante companhia Para desfilarmos entre as cores da alegria Na diversidade de musicalidade E fazer do sonho puro A maior realização do nosso astral. Vou pular, vou amar, vou sorrir Vou voar nos braços da felicidade Entregar-me a Momo com o Galo da Madrugada E levar comigo a plena liberdade Para viver a espera do próximo carnaval.

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CARTAS DE AMOR Por Jaqueline Campos

Você me disse uma vez Que após alguns anos Eu não me lembraria do seu nome. Mas ao reconhecê-la na rua Descobri que você entrou em mim.

Outro dia, num repente Juntei todas as nossas cartas de amor (Eu não tive coragem de reler) Mas levei todas, cuidadosamente E acendi uma fogueira por nós...

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UM FADO À FRANCISCO JOSÉ Por José Alberto de Souza
“Vienen a ser novedades las cosas que se olvidaran.” LOPE DE VEJA O cais vazio. Uma figura solitária. Os armazéns enfileirados. O vento nordeste. Ondas na amurada. O sol nascente. Gaivotas. As águas no horizonte. Um lugarejo além-mar. A luz fraca do acetileno. O cascalho das ruas estreitas. Lua minguante. Alvas casas de portas e janelas coloridas. As cordas percutidas de uma guitarra. O canto dolente de um fado. FRANCISCO JOSÉ: Partir, Ter de te dizer adeus E sentir falta dos lábios teus.

(Um bêbado apoiado no poste grita na noite, conversa com seres imaginários que não o percebem; estes falam entre si.) BÊBADO: Nunca que vocês tiram ela de mim, metam-se e eu acabo com sua raça de bastardos. OS OUTROS (afagam-se, olhares perdidos, braços e pernas confundindo-se na massa): Ninguém nos compreende, temos mais de aproveitar a onda. (Ruído de um grilo, o ronco saindo de uma veneziana, gemidos, o ranger de uma cama, cascata tamborilando no urinol.) FRANCISCO JOSÉ: O que resta após despedida Nada mais é do que saudade, Lembrança daqueles momentos Que tivemos de felicidade.

(A orquestra ajustada, violinos ao fundo, o coro na frente, a guitarra quase humana.) VIOLINOS (discretos): Sonhemos, é eterna a nossa noite. O CORO (altissonante): Grande coisa amar desse jeito. A GUITARRA (chorando): Tenham pena de mim... (A mariposa na direção do facho no sentido da luz gira a bolsa, provoca os passantes.) FRANCISCO JOSÉ: Partir, Ter de te abandonar Com a esperança de voltar. (A réstia vermelha e tênue escapando através da porta entreaberta, cadeiras arrastadas, a trajetória de uma garrafa no ar, um corpo caindo na laje fria, crianças adormecidas na calçada).

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O CALHORDA (sacudindo a poeira da queda): Mas que gente mais estúpida; precisavam me tratar assim só porque dancei com a garota do chefão. O PORTEIRO (dedo no meio dos lábios, tapinha nas costas dele): Psiu, não vai acordar os coitadinhos. (Clareia o dia, as lanternas se apagam, janelas batem abrindo aos pares, carroças surgem de todos os cantos, ferraduras tiram faíscas das pedras, o lugarejo some do pensamento.) FRANCISCO JOSÉ (solta todos os agudos): Vou m’embora pra bem longe de ti Com o coração em pedaços Pois minha maior vontade Seria querer-te em meus braços.

Faça parte dos autores do VARAL! Traga a sua arte para a revista, para o site, para o primeiro livro impresso da revista! Entre em contato conosco pelo email varaldobrasil@bluewin.ch

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Chegada Por José Carlos Paiva Bruno
Clarão do meu destino, Surpresa em revelar... Espraiada d’emoção, Mais perfeita oração. Cambaleando e perseguindo, Sonho imaculado, Gládio desesperado, Éden alcançado! Suprema felicidade, Ardente flâmula, Brado afortunado, Arauto do coração... Ritmo frenético, Por vezes patético, Despenseiro da angústia... Que nos leva, como ladrão. Pra longe da verdade, Sorriso da eternidade, Esquivança da razão, Calma da carne e d’alma... Poesia da paixão, Pois que o caminhar, Desnuda minha existência, Precedente ao chegar!

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O PEÃO ROMÂNTICO DO TORDILHO Mara e loiras engarrafadas suadas de calor e NEGRO frio, também enunciavam tudo de bom a confraria do Te e Regiane. As loiras gaseifiPor José Valdir Oliveira cadas e suadas de tanto gelo eram tragadas entre conversas, piadas e risadas, acompaNa semana em que as areias da praia nhadas sobremaneira de alguns cow-boys de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro do litro verde. Na verdade, nessa ocasião, o amanheceram cravadas com 700 certo era que já estávamos quase todos em(setecentas) cruzes pretas, representando briagados conjugadamente pelo teor alcoó700 vidas ceifadas pela violência urbana so- lico tequilar e pela alegria de aguardar o mente desde o inicio do ano. Fato repugmelhor da festa, numa rara e feliz oportuninante e sinistro que desencadeou no país dade de se testemunhar o amor de um houm misto de espanto e de indignação pelo mem por uma mulher. De se dizer ao mundesvalor da vida. Na Palhoça, no entanto, do sem a vergonha “quer, quer, quer!!!! para contrabalançar o horror da vida e aca- Quer casar comigo”, fazendo-se assim, acrelantar nosso contentamento, teve lugar, ditar que ainda há uma esperança de camiuma singular e dis nta declaração de amor nhar pela vida acompanhado de uma paixão de um homem por uma mulher, declarando mulher. Nessa breve cerimônia de anunciaao mundo dos vivos que nem tudo está per- ção das bodas, o quase noivo Té corria e dido e que a violência não é a única forma sorria entre as mesas ora passando a mão possível do relacionamento humano. Para na cabeça, ora na barriga, servindo os aminossa felicidade tal alento de esperança e gos e calibrando alguns drinques para dride dignidade fez-se na noite em que o nosso blar a emoção sofreada até o ponto alto da amigo Té, o peão român co do tordilho ne- noite. A escolhida, rainha da festa e também gro, veio lá das bandas do paredão, convi- quase noiva se desdobrava entre a família e dou os parentes e amigos para dizer a todos os amigos. Tudo já indicava que o pedido de naquele dia quão grande e verdadeira é sua noivado estava preste a acontecer, o Fábio, paixão pela musa, namorada, mulher e ago- agora cidadão içarense já havia aprovado o ra noiva Regiane. Os convidados aos poucos churrasco, o Zé da Marise ba a o pé, o Diniz foram chegando e foram se acomodando dizia que a cerveja ali na festa estava gelada, nas cadeiras e mesas,cumprimentando os o Sérgio nem falava tão alto, o Alaor da Tâpresentes, saudando o noivo, a noiva e fa- nia soltava sua risada pouco conhecida, o miliares. O som do Tom, irmão do Té rolava Odair, para os amigos, o carreirinha, passava o sertanejo român co, indicando que a noi- a mão sobre sua volumosa cabeleira olhava te seria de arrebatadoras emoções e de co- para a Márcia pro Maneca e pra dona Célia, rações rasgados. Uma dupla de loiras, loira pensa vo indagava, hoje que esse noivado

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noivado sai. Enquanto isso alheio a toda essa mul a vidade, o Adriano Velho dormia sentado numa cadeira debaixo de um bico de calha sem se importar com o aguaceiro que desabava sobre Palhoça. Foi tanta água, após longos dias de poeira que só poderia ser cumplicidade dos anjos para regar e celebrar o noivado. O clima era perfeito, mas ainda nha gente que chegava, era o Bolão o do noivo e a Miriam, o Guto, ainda pensando no dominó, com a Soaria, juntamente com o Irminho, que com as mãos para o alto exclamava “obrigado Jesus!” Nada mais havia a protelar o feito! Quando então de forma solene o Tom, irmão do noivo, D J da ocasião, faz soar: Aleluia!, Aleluia!!!! Aleluia!!!!! Proclamando pelos trompetes eletrônicos toda a pompa que a circunstância exigia para esse ato solene. Agora, nesse momento,todas as atenções se voltavam para o palco improvisado. Ato con nuo, lá, estava todo garboso o audacioso Té, de pronto chamou a amada a sua companhia, os pais, os irmãos, e se o espaço fosse maior talvez ainda es vessem chamando alguns. Ele estava decidido, mas a companhia dos amigos e parentes nesses momentos sempre ajuda muito, socializa a coragem e a alegria. Na expecta va, e parafraseando uma música dos anos 70, a platéia toda aplaudia e só desejava ser feliz, ansiosa aguardando ansiosa o pedido de noivado. Doce ilusão esperar que o pedido de noivado viesse logo de pronto, na verdade, após o protocolo inicial, o quase noivo que não fechava a boca sorrindo e que coçava a barriga sobre a cami-

seta, inclinou a cabeça para o lado da noiva que refreava o con do o choro. E como não havia mais o que protelar, o Té respirou fundo e passou a narrar o breve relacionamento de dez anos com Regiane,dizendo: antes de qualquer coisa, vou contar uma história para vocês. Vocês sabem né, eu a Regiane nos conhecemos, estamos juntos e somos companheiros desde o tempo em que eu estava na 6ª série e ela na 5ª série, no primeiro grau. Eu olhei pra ela, ela olhou pra mim e foi daquele jeito né. Quando chegou o fim do ano perguntei a professora se eu nha reprovado? A professora me respondeu que sim e eu disse então, é isso que me dá felicidade. Dessa forma quis o des no que eu reprovasse para estudarmos juntos. Daí eu cheguei pra Regiane tal e coisa e tal, ficamos umas duas vezes e pedi com brevidade para namorarmos. Regiane me disse sim, que por ela tudo bem, mas o pai dela somente deixava namorar depois dos quinze anos – eu disse tudo bem, não tem importância, sou mesmo meio fora da lei. Aí quando ela fez quinze anos eu fui à festa na casa do pai dela. E desde essa época, estamos sempre juntos, superamos todos os conflitos e as crises da adolescência, con nuamos unidos na experiência de um relacionamento mais maduro e adulto, e, estamos hoje aqui na presença dos parentes e amigos para consagrar, através desse noivado, o nosso desejo de seguirmos enamorados pegados um no outra vida a frente. Ao findar toda essa especial narra va de vida e sonho, a fala do pai da noiva foi abafada

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pelos aplausos, diante dessa muito bela e louca palhocense história de amor. O ato heróico, pedido formal de noivado finalmente estava realizado. Finalmente as alianças se enlaçaram nas mãos de Té e Regiane. Somando-se a tudo isso para a coroação do evento, Dna Aparecida, mãe do Té muito emocionada, pegou a todos de surpresa, trazia nas mãos duas tacinhas de cristal conformando a champagne espumante, as mesmas tacinhas que há muitos anos atrás haviam celebrado o casamento dos avos do Té, o Senhor, Evádio e a Dna Edite. E que na casa desses permaneceu como testemunha silenciosa para em algum momento quanto chamada recontasse àquela e, refizesse a historia de outros personagens. Não há quem não diga qual linda história de amor nos faz sen r mais humano, quando uma paixão assim acontece para lavar a almas dos amantes, como também dos medrosos e insa sfeitos. Esse brinde a vida deve, pois, ser como uma praga, uma pandemia

repe damente espalhada aos gritos, aos confins da solidão do mundo inú l e estéril do co diano que nos tem abreviado os sen dos e o gosto de viver. Ave seja! O peão român co do tordilho negro com sua inseparável amada, que recitem ao mundo a forma normal e infinita da convivência apaixonada, sinalizando sempre que o júbilo da eternidade temporária não dispensa a coragem de apostar no que lhe parece bom e no entendimento que esse bom é o outro e como tal é o diferente, muito embora, desavisadamente pela vida procuremos o sempre igual...

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AHHH ... POESIA ....

Por Ju Petek
A poesia cabe na palma da mão deixa rastros no chão A poesia voa num balão embala uma canção A poesia pode o mar navegar a ventania enfrentar e mesmo que naufragar elevar-se ao amar A poesia atravessa um oceano eleva-se ao céu atinge a estratosfera e se perde na imensidão da pureza do teu olhar A poesia é a pureza que recito é sentir teu coração de tocar-te com palavras de querer-te em letras de estar contigo nesse instante ... de pura poesia

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Indomável pensamento Por Ju Virginiana
Meu pensamento voa, vaga Arrisca e se perde em ti Constrói sua morada E em segredo Brinca, sonha e ri Acorda calado E em silêncio Deixa uma lágrima cair Vaga, divaga, Insiste, desiste E ali volta a residir Fica, demora, devora Para e não quer sair Aquece, endoidece Dilacera, explode E não me deixa dormir Indomável pensamento Domina meu coração de menina Cavalga em seu poder Sua imagem passeia em mim Desnuda meu ser Seu nome chama pelo meu E baila no salão do sonho E o sono não vem O pensamento insiste, Não desiste Exausta me entrego, deixo fluir E o pensamento voa, vaga E paira definitivamente em ti.

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HOMEM E ANIMAL Por Júlio César Vicente
De Laguna vem um belo exemplo de cumplicidade entre homem e animal. Quando os golfinhos ajudam pescadores a encher a rede de tainhas, a parceria vira um espetáculo para encantar turistas. Quando os golfinhos dão o sinal, as tarrafas começam a cair em sequência. O espetáculo da pesca com o auxílio de golfinhos só existe em três lugares do mundo: na costa da Austrália, na Mauritânia, no continente africano, e em Laguna, Santa Catarina. É na temporada da tainha, que a parceria se torna mais frequente e os pescadores passam o dia inteiro na água à espera dos cardumes trazidos pelos golfinhos. Com o auxílio dos golfinhos, os pescadores chegam a capturar mais de 80 tainhas de uma só vez. A convivência cria intimidade e cada golfinho é chamado pelo nome. “Os pescadores conseguem não só identificar os indivíduos, mas quais os comportamentos que eles estão tendo que indicam a presença ou não de peixes na área. Esse nível de interação é único e ocorre somente na Lagoa de Santo Antônio”. Em 1997, os golfinhos foram declarados patrimônio natural de Laguna

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O CÃO DE ASAS DE LUZ Por Lariel Frota

Nos momentos mais difíceis De lágrimas, conflitos e dor Se aproxima mansamente Assusta seu mal odor. É velho, magro sarnento Espanta pela feiura Mas por mágico momento Sua figura repugnante Chama a atenção, e o problema Se esquece por breve instante. Enxotado a pedradas Ninguém lhe nota o olhar Doce, meigo paciente Carrega na feia figura Na magreza, no fétido odor O que só a alma pura É capaz de ver, o amor Xingado, chutado, ferido Menosprezado, esquecido Sua sina calado conduz Mas na hora do descanso Voa com asas de luz!!!!

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Cidade branca Por Lázaro Bulos

Despertei-me na branca cidade, E até não me lembro da minha idade. Até não me lembro quem eu sou É a minha vida que só me deixou. E todo o dia, sem esperança, Sem a inocência de uma criança, Ando ignorante sem ter objetivos Neste paraíso de ridículos artifícios. Será que essas mentiras estão no roteiro? Ou sou eu o único cego que não vejo, Que não vejo perdidos nossos desejos? Então tentei olhar além do nevoeiro Mas meu olhar se perdeu em novo erro Vi em volta de mim e vi um mundo inteiro, Um mundo que pede sua própria morte Um mundo que não tem, tristeza, nenhuma sorte.

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Ocaso Por Lelo Néspoli
Na Praça do Pôr do Sol, o homem e o seu cão observavam fixamente o horizonte. Quando foram notados pela primeira vez, eles causaram certa estranheza pelo jeito curioso como se postavam na praça. Ninguém os via chegando nem deixando o local. Porém essa imagem de estranhamento que os frequentadores tinham dos dois foi esmaecendo até passar despercebida. Com o tempo, parecia que homem e cão faziam parte do cenário junto aos bancos, arbustos e pinheiros. O cachorro não era de raça, mas também não se podia dizer que era um vira-latas; era astuto e tinha certa aparência que lembrava os coiotes. Porte médio, sua pelagem era lisa e acinzentada, nele se destacando as orelhas, as patas e o focinho que eram negros. Postado ao lado direito do homem, com a cabeça entre as patas mantinha os olhos bem abertos, quieto, sempre olhando para onde o homem olhava. O homem tinha cabelos grisalhos, os olhos fundos, castanhos e circunspectos, encravados na face vincada. Suas rugas eram como linhas de tempo, todas remetendo a algum lugar do seu passado. O que os frequentadores da praça mal sabiam eram as reflexões de que se ocupava o homem. Uma dizia respeito à dualidade entre a circularidade e a linearidade do tempo. Porque – pensava -, se por um lado existiam inúmeros fatos e fenômenos que se repetiam – afinal, não estava o Sol a se pôr sempre ao final de todo dia? -, por outro, se contrapunha um tempo que atuava como uma seta encaminhando tudo em uma só direção até o ponto de não retorno, irreversível. A segunda dizia respeito ao tempo cosmológico e biológico. O tempo cosmológico, resultado da evolução cósmica iniciada a bilhões de anos, é infinito. As estrelas morrem, outras nascem e o universo se renova constantemente. Nesse turbilhão, nosso destino foi habitar um planeta que é um grão de areia na imensidão do Universo. A existência da vida terrestre também seria fruto da aleatoriedade e da evolução, mas finita, dependente de hipóteses diversas, como por exemplo, enquanto durasse o combustível solar. Buscar outros planetas onde a vida seria aprazível conspirava contra o tempo da existência humana. Assim - pensava o homem - não há ponto de fuga, somos eternos prisioneiros em nosso pálido ponto azul. Todo fim de tarde, via-se o homem imerso em suas reflexões ser seguido pelo cão. Nesse período observavam um ponto brilhante que parecia ir sendo puxado pelo Sol em seu mergulho no horizonte. Muitos na praça exaltavam - “Que bela estrela”! - se referindo ao planeta Vênus, a estrela vespertina, como os antigos o chamavam. Quando caia a noite, eclipsada pela poluição e pela intensa luminosidade da metrópole paulistana, a visão noturna não era mais a mesma. Mesmo assim, homem e cão não se importavam e ficavam esquadrinhando o firmamento apinhado de estrelas. Longe de conhecerem o passado do homem e do seu cachorro, aqueles que de início os observaram com visível interesse faziam especulações acerca daquele excêntrico personagem: “um astrônomo”, “um místico”, mas para muitos ele era apenas um “ser errante”. Que sentimentos poderiam provocar no homem essas opiniões tão contraditórias? E o que se podia dizer do seu fiel cão? Alheios às diferentes opiniões, homem e cão seguiam acompanhando o ciclo das estações. A partir do outono a frequência à praça diminuía. Vênus já não era mais visto à tarde, aparecendo antes do nascer do Sol como ‘estrela d´alva’. Com o início da primavera a praça florescia e as pessoas iam retornando e tomando conta do lugar novamente.
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Num sábado já em pleno verão quem chegava à praça experimentava uma estranha sensação, como se algo estivesse fora do lugar. Tudo parecia estar como antes: os fotógrafos clicavam, os desenhistas preparavam seus esboços, alguns liam, enquanto outros simplesmente aproveitavam o dia ensolarado. Sem que pudessem explicar, nesse entardecer ninguém deixava a praça. Talvez pressentissem e esperassem algo acontecer. Quando o Sol desceu no horizonte e a noite foi chegando, ouviu-se um som agudo, longo e estridente. Instantaneamente, os olhares se voltaram para local de onde vinha aquele lamento e puderam observar o cão em pé sobre o banco, cabeça levantada, as orelhas eriçadas, uivando como um velho lobo e com os olhos bem abertos olhava para onde o homem sempre olhava. Somente então todos perceberam que o homem já não se encontrava mais ao lado do cão.

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OUTONO Por Lorêny Portugal
Quando o lilases e os róseos pintam ipês, e bordam o capim-gordura das encostas do caminho, é o desamor que vem chegando. Os cheiros da canela, do cardamomo, do anis-estrelado que vêm do fogão de lenha entranham as vísceras, fazem doer o coração. Assim, de manso, tiram o sorriso dos lábios, mandam os olhos chorar. Não vou fazer mais bordados, nem sianinhas, nem bicos de crochê, nem colcha de retalhos. Nem lerei os peixes da Adélia que por muitas vezes povoaram meus sonhos de um casamento feliz. Nem os cotovelos se encontrarão ou se baterão, assim... de leve. No meio de caminho, as flores róseas e lilases se intensificam. Aqui, ali, na mata ao longe, às vezes indecisos, sozinhos, Eretos, fugidios, sem firmeza. Sofrimento de amor é bonito de se ter! Há quem diga que o olhar perde o viço. Mas buscam longe - lugar da solidão. Vê com as tintas do infinito onde os olhos buscam o perdão. Sofrimento de amor é colcha de retalhos em cada parte, um verde, em cada som, um riso, em cada quadro o alguém para se lembrar.

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LONGE DE SER CIENTÍFICO

Por LSM

Tenho saudade dos sentimentos bons provocados em mim, não de quem ou o que os provoca. Só algo tão abstratamente definido (ou indefinido) quanto o fato de sentir pode estar conectado com o “sentir falta”, conexão essa que a matéria não seria, de forma alguma, capaz de fazer parte. Essa relação e esse conjunto de sentimentos que é a saudade é quase indescritível para quem sente, e ainda mais para quem tenta desvendá-la sem senti-la, quem busca na matéria explicação para o abstrato. Impossível de ser analisada em laboratório, é exclusivamente sentida. Essa peculiar palavra da língua portuguesa expressa em apenas três sílabas o que na maioria das línguas faz-se necessário o uso de duas ou três palavras. I miss you, tu me manques, te extraño.Saudade. Tão simples e pequena, tão abrangente quanto ao significado. Saudade é um sentimento de vazio que consome quem sente, e é ainda pior para aqueles que não podem sentir de novo aquilo de faz falta. É como se a cada instante a vontade de voltar no tempo e reviver fosse maior, à medida que ele passa. Sinto falta do que me fez bem porque não me deixou, no momento, sentir falta de mais nada. Saudade é um círculo vicioso de substituições de razões para senti-la, e a ela estamos sempre sujeitos, já que vivemos. Vem e nunca passa, só se renova; se passa, faz-nos falta sentir falta, o que é puro pleonasmo. E é tão humana, essa tal de saudade, que sufoca e logo em seguida, ao sentir de novo, faz de tudo melhor. É ela que deixa um vazio e logo o preenche para esvaziá-lo de novo. Enche e esvazia o quê, nem eu sei, assim como ninguém sabe. Pode ser algo como um espaço incurável dentro do ser humano, onde sentimentos são guardados e nem mesmo os mais brilhantes cientistas, aliados a toda a tecnologia, um dia virão a localizar.

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SOLIDÃO Por Luiz Antônio Cardoso
Propensos a quereres semelhantes, tendo a poesia inata em nossas mentes, tínhamos o infinito... e como amantes seríamos estrelas reluzentes. Mas eis que seus desejos, tão arfantes, fizeram dos meus sonhos, tão descrentes, migalhas de lembranças arquejantes, fenecendo em processos deprimentes. Recusaste o poeta que há em mim, e todos os meus versos, que sem fim, esculpiram o amor que eu quis te dar... e decretaste enfim, a solidão, para me acompanhar à imensidão... onde hei de eternamente te esperar!

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A PAZ QUE EU QUERO Luiz Carlos Amorim
Pra que a guerra? Pra que revolta, ódio, dor, ganância? Eu quero a paz, serenidade, amor, quero asas povoando o céu... Quero crianças correndo em meu caminho, quero ouvir risos em todos os lugares, quero sorrisos no rosto do irmão... A paz, ah, a paz... Não vá embora, amiga escorraçada. Fica um pouquinho mais... Inda há crianças por aqui, anjos pequeninos, brancos, negros, amarelos, pardos, anjos que te têm nas asas, como pássaros em liberdade andando pelo chão para depois voar... Vem que eu te quero, paz. Não deixe que eu morra pelo ódio, não importa quando eu vá. Quero morrer com uma flor na mão, na outra mão um toque de criança e nos olhos um sorriso teu... Sorriso de vitória por estar aqui, amiga paz, até que eu vá e até depois que eu tenha ido... Pois há de haver, mesmo que eu não esteja mais aqui, pássaros no céu, crianças pelo chão, flores a desabrochar e corações abertos. Paz, teu tempo é sempre, teu lugar é aqui!

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TER E PERDER Por Luiz Eduardo Gunther
Há uma música saindo da casa daquela mulher, junto com o aroma de uma comida qualquer. É preciso prestar atenção: essa melodia, esse aroma, podem transformar todo seu dia. É preciso considerar o que se tem como frágil/provisório: tudo o que vale de repente se pode perder.

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RESGATE

Por Luiz Otávio Oliani
como posso resgatar o que não existe em mim? ao beijar a solidão eu me dispo por inteiro da escória que é o homem na inútil tentativa de ser Deus por um minuto

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SOMOS CONTIGO Por Luzia
Somos quem pisa com teus pés o chão. Mas também quem te dissolva e não em vão. Somos quem ouve tuas preces na escuridão. E os que silenciam sem jamais largar a tua mão. Somos a lanterna oculta em teus bolsos de prontidão. Mas aguardamos sempre as pilhas vindas do teu coração. Somos quem somos e os nomes nada são. A importância está em tua condição... De amar junto a nós. De orar junto a nós. De elevar junto a nós

O pensamento a todo o cosmos, O que somos fora e dentro de ti. Porque são o mesmo e não estamos a esmo Contigo, Guiando-te.

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Requiem aeternam Por Ly Sabas
De quê morreste tu, meu coração, assim tão de repente? De que sonhos inconfidentes, De que desejos inconfessáveis? O que levaste, coração, para o infinito? Se não um verso sem rima, haicaístico, Se não uma frase capenga de emoção? O que deixaste, meu coração, como legado? Se nem ao menos cometeste um pecado, Se não sofreste nenhuma ingratidão? Caminhas agora, coração, acabrunhado, Por prosas áridas de sentimentos emaranhados, Por contos tristes desprovidos de paixão. De quê morreste coração, tão de repente?

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Chão Por Maíra Galhardo
O pão da vida Temperado com o sal da terra O que será do nosso amanhã? Se já não conseguimos mais colher nossos frutos Não há mais raízes, princípios, vontades, virtudes... Estamos sem chão Para que a vida cresça em nós Para que vejamos Deus em tudo e todos Nos nossos pensamentos, palavras e atitudes

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Por Malu Freitas

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Ela e eu Por Marcello Ribeiro
Uma canção quer nascer no meio dessa gritaria. Versos cantados medido, vozes na porta do meu edifício Quando vou te ouvir dizer: Não falo tua língua. Soam faróis e buzinas, sobram perdas nessa confusão

Uma nação quer crescer no meio dessa covardia. Vozes caminhos contidos, versos na parede do meu edifício Como vai entender? Não falo tua língua. Soam faróis e buzinas , sonho perder essa confusão

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Um dia de sol em Zurique Por Marcelo Candido Madeira
Nos dias de inverno, em Zurique, ter um dia de sol é uma raridade. Como a cidade é situada entre vales, a margem de um imenso lago, é comum pairar sobre nossas cabeças uma grossa névoa dias a fio, semanas, ou até meses, sem exagero. Às vezes, podemos observar a grande bola ardente por detrás das nuvens, sem óculos escuros, ou mesmo, sem apertar os olhos. Quando o sol aparece, as pessoas na rua param e sentam-se para aproveitar um pouquinho de vitamina D. Aqui em casa fico de olho na janela, atento a sua chegada. Geralmente é coisa rápida, ele surge meio tímido, sem aviso prévio. Nesses casos, ponho minhas roupas de inverno e me preparo para sair. Primeiro o minhocão, uma meia grossa, a calça, depois uma malha fina e pegajosa no corpo, uma camisa de manga comprida e...Pronto, ao olhar de novo pela janela o sol já se foi. Desisto. Com um frio desses, é melhor ficar em casa. Tiro primeiro a calça, o minhocão, a meia grossa, depois a camisa e quando eu menos espero, eis que surge novamente o sol, um solzinho de nada. Visto primeiro o minhocão, a meia grossa, a calça de um tecido grosso, depois a camisa de manga comprida, uma suéter de lã e por fim, um casacão, calço a bota, jogo sobre o pescoço o cachecol, afundo um gorro na cabeça, puxa... Enfim, estou pronto. Confiro pela janela e lá está ele. Vejo se está tudo bem antes de sair, tudo fechado, fogão desligado e ao olhar de novo pela janela o sol já não está mais lá. Maldição. Sinto um calor desgraçado com toda a indumentária dentro de casa e decido ficar. Tiro a bota, o cachecol, o gorro, o minhocão, a calça, já estou suando de calor...Abro as janelas e entra um frio lancinante. Fecho as janelas. E não deixo de reparar que o sol voltou. Ele acanhado parece zombar de mim. Agora me apresso, visto tudo o mais rápido que posso, o minhocão, a meia, a calça, a camisa, a suéter, o casacão, a bota, o cachecol, o gorro...Corro para a porta. Chego à rua e sinto um solzinho mixuruca acalentar o meu rosto. Fecho os olhos e logo bate um frio de lascar, abro um olho e depois o outro e me desespero. É tudo sombra. E um vento impiedoso começa a perfurar os meus ossos. Corro para casa. Entro esbaforido, tranco a porta e já sinto um calor. Tiro tudo. Vou até a janela na esperança de vê-lo novamente, mas é tudo breu. Escureceu. Agora, só me resta esperar pelo dia seguinte. Amanhã, ele não me escapa!

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Sonho de Sete de Setembro Por Marcelo de Oliveira Souza
Glorifiquemos a Independência com orgulho e satisfação Um País gigante, de influência Formador de opinião. Políticos de sapiência Que ama o povo e a educação Exaltando nossa bandeira Símbolo da Nação! A virtude da igualdade Em cada segmento A saúde com recorde de desenvolvimento Curando a ferida aberta sem sofrimento. Respeito mutuo e contentamento Uma grande virada no nível de vida Bloqueando os ressentimentos. O Brasil que é campeão Não só no futebol Que era homenageado e gritado Por desempregados e desdentados. Celeiro do mundo Exportador de Tecnologia O Brasil potente Cheio de alegria. Acorde ! é só hoje que podemos sonhar Amanhã tudo permanece igual!

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Homenagem ao Hino da Marinha Brasileira (“A canção do marinheiro”) Por Marcelo Moraes Caetano

Qual cisne branco que em noite de lua Mostra suas asas sob o céu azul, Minha fragata, num sonho, flutua, Beijando os mares de norte a sul.

E a minha pátria, tão vasta e sozinha, Chorosa pela falta de seus filhos, Mas já regresso, ó pátria mãe minha, Vê que voltamos, como estribilhos.

Sob os coqueiros das tuas enseadas Hei de regar a sede dos teus seios, Que dá nas deusas marinhas e aladas, Carentes das tuas mãos, dos teus esteios.

Belo regresso, pelas madrugadas, Que já decerto viram sol inteiro, Vamos voltando, entre as águas salgadas: Cada marujo, um lindo brasileiro.

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Casa via Consolação Por Marcio Freitas
São rápidos olhares Tempo é curto e custa caro Passos apressados Metrô lotado Aqui em cima o calor, o frio... Um carro parado À frente um importado passa lentamente Um negro sujo, contente E um fusca branco dando-lhe a vez Mulheres bem vestidas Homens também Chicletes pela calçada Bancas de revista sem good news Folhetos diversificados Caiu um do meu lado Mais suja a cidade! A Paulista marcada de ponta a ponta de cigarro Festival de cores e pigarros Consigo ver o ar que respeito e aspiro Nos dois sentidos Sem nenhum sentido Mais um celular na mão pela boca Negócio? Esposa? Mesada das crianças? Amante? Bem, não tenho nada com isso Já tenho compromisso Basta um instante E com a mente de um pequeno gigante Vejo café, garoa, Oswald de Andrade Poema pílula É cada uma do Oswald

Mês que vem tem feriado Um dia sem sufoco Litoral afogado Quanto avisto a Pamplona, felizmente Mulheres bonitas, elegantes Por baixo da seda seus segredos Ou talvez cigarro na bolsa Uma ponta de sol deixa o MASP mais charmoso E o relógio urbano acusa frio Mas tenho calor na espinha Só para não esquecer Deixei colado em minha porta Que hoje é noite de luar.

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MARIA DO BENONI E O MENINO JESUS

Por Márcio José Rodrigues
São tempos de natal. Hoje pergunto-me se ainda existe espaço para que Jesus nasça nos corações de uma sociedade hipnotizada pela posse dos bens materiais, conforto, individualismo, poder e aplauso. Lembrei-me da cena surpreendente que um casal pitoresco fez acontecer no centro da cidade, faz algum tempo. Benoni, analfabeto, doente, mendigo, desprezado e marginalizado, cômico, por ser torto, levando a sua Maria grávida, num carrinho de mão, a caminho do hospital Senhor Bom Jesus dos Passos. Uma Maria do ventre cheio do seu fruto, um Menino Jesus marginal prestes a nascer nos braços do Jesus dos Passos, conduzidos por um José sem jumento nem estrela. Mulheres e homens perplexos paravam à beira da calçada assistindo à inusitada cena daquela mulher que mal conseguia cobrir a imensa barriga com o curto e roto vestido, desconfortavelmente reclinada na concha do carrinho, tentando com esforço, manter o tronco um pouco ereto, mal sustentado nos cotovelos; as pernas dobradas como se fosse dar à luz ali mesmo. Ele, andando em frente, o rosto crispado da imensa ansiedade de saber da pressa, parecendo nem perceber a nossa presença e nem sequer pedindo ajuda, as pernas trôpegas, o corpo arqueado e as mãos firmes agarradas como tenazes aos varais da improvisada ambulância. Ela sorria daquele sorriso humilhado dos indefesos, quase a nos pedir desculpas por ser tão pobre ou por estar usando a nossa rua para desfilar sua miséria, como fazem os que sentem vergonha até de chorar. Sentimos pena, algum remorso , achamos graça? Nem sei. Mas, penso que nenhuma mulher teria tido uma prova de amor tão eloquente, como aquela Maria suja e ridícula, deitada num carrinho de mão, o olhar angustiado observando as pessoas, como se tentasse desesperadamente gritar o seu drama, ou quem sabe, proclamar sua glória. Talvez até provocasse a inveja em muitas outras que porventura nunca tivessem merecido tal declaração do seu homem. Ou como se Benoni estivesse a ministrar uma aula a homens que nunca chegaram a fazer uma declaração de amor heroico e sem restrições, assim, à sua mulher. Patéticos, grandiosos, inesquecíveis

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A fuga da abelha rainha Por Maria de Fátima Barreto Michels
Majestade do mel sei que planejas te mudar e, desta vez, não permitirás que te sigam. Percebo... São outras as tuas intenções. Já não te alimentam mais geleia e própolis, que outrora te satisfizeram... Exausta, tentas despistar teu séquito, o qual sem rumo descobre-se, em orfandade. Tua natureza de apontar floradas, ninguém esquecerá... e o mel que nos deixas de herança, contem uns sais que não deterioram. Eu que bem te vi um dia com o cetro... Agora, acompanho em preces teu voo derradeiro, para a Flor Maior. Quando sumires de vez na imensidão, operárias nos revezaremos. Abelhas, é de nossa natureza honrar tua doçura. Compreendo. Segues para lá, onde o mel já está pronto.

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ABSOLUTA Por Maria Heloísa Fernandes
Coração inquieto Amores e dissabores Não é eterno! Percebo-te a chorar! A lágrima quente que rola Minha alma consola Solidão, decepção, Desilusão! Você indecisa Lamenta, chora, pisa Descontente com o mundo Absoluto! Profundo! Agora em meu canto Que canto, encanto e te ofereço Não te iludo te reconheço Sei que sou quem procuras. Se um dia quiseres Admire a linha do horizonte Há um mundo único De amor a te ofertar. Hoje te gosto! Sussurro, suspiro! Em ti aspiro Meu amor! Pedra preciosa, afanosa no lapidar Receberás mil flores! Conquistas muitos amores! Mas único e seguro? Somente o meu!

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Oração ao caos Por Marília Kosby
Enquanto existires Caos Serás da minha vida o único porto E farás de mim o teu preciso norte Te empresto as minhas roupas Invisto contra ti as minhas armas brancas de negra Guardo o teu caminho Bendito caos Eu te prometo Mas me sejas brando como eu te sou vigia E me sejas doce como eu te sou cultora Caos Bendito seja o fogo que me ateias Benditos sejam os amanhãs de onde despontas

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Fotos

Por Marina Medeiros

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Alvorecer Por Matheus Paz

Rasgos são traços

Esboço do pescoço que rasga com a barba que se traça

Montanhas escuras

Alvorece lá no morro a manhã fuzilada

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Chove lá fora e aqui Por Mauro Maciel
Quando chove como agora no Rio de Janeiro, então toda a cidade chora em um só tempo; Tempo fechado, foge o azul, no céu fito o cinzento. Faz vento e o quando esfria, levando a calmaria. Nesse lamento essa cidade mulher é senhora quieta, parada, silenciosa quando chora. Despindo tristezas de pedra no seu corpo negro, da gávea de granito, da embarcação que ancora. Os dois irmãos monolíticos avistam a boca do mar, carpindo as outras pedras, num estrondo repetido. Pedra do pão, pedra do sal, pedra bonita. Rampa dos embarcados no ar das gaivotas. Com sua firmeza escorregadia de perigo a solta. Pedra feita de açúcar é almirante negro da baía. Tem em seu peito as esquadras do porto e as chibatas da revolta, Com os pés cravados na areia, lavados na espuma derramada a força cândida. O açoite verde de mata atlântica minguante vem e também pisa o mar. Levitando no limo do surfe, a esgrima fina das marés e dos corpos em luta. Trapezistas em suas tábuas de equilíbrio são canoas de pescadores em humana ousadia, vorazes e velozes dominadores de ondas em harmonia. Das costas negras marinadas, grandes corcovas rígidas, o granito Tijuca ronda. Com a imponência e a firmeza de guerreiro solidário, em vigília maciça, atento a tudo à sua volta. Legião de pedras formam a grande muralha milenar em guarda. Vidigal e Rocinha avistam tudo do alto com os seus olhos humanos. São faróis habitados por gente simples, também eles equilibristas na coragem das encostas íngremes, tal qual a natureza de suas próprias vidas. Em tudo chove, em todos chove enorme, caudalosa a cidade escorre. Como mulher Marina que se pintou, é cinza agora e aborreceu a todos. Trazendo seu nevoeiro parado, chorosa, mascarada, colombina fria. Vazia é outra, quando traz os seus olhos pintados dessa cor tão desolada. Todos resistem desajeitados, tentando não se molhar na chuva ao serem quase Paulistas. Mas não é possível, não adianta a deselegância discreta, pura intolerância tola do poeta diante dessa magoa urbana de névoa. A cidade é marinha de cais e maresia, então soluça no aguaceiro. Promessas de sol restarão lapidadas na memória, mesmo que não cumpridas. Pessoas e praias ficam guardadas para o depois, pura birra da natureza. Nessa hora aparecem os lamentos do dilúvio lavando os braços tropicais do Cristo, sempre abertos a todos e a qualquer tempo. Com sua face também de pedra, ele reclama do esconderijo de nuvens a que é imposto, nesse calvário acanhado de cidade molhada, resguardada e vestida.

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Mais que vestida, encapuzada nos casulos de guarda-chuvas e mantos e capas e panos, escondendo o calor dos sonhos de pele, de cidade desejada e quente, na realidade do fastio da correnteza de águas exageradas. O Corcovado é um guardião da baía de Guanabara, feia e fria agora, observador acabrunhado que a tudo vê, tudo nota calado. Também calada toda a cidade em águas, numa postura combinada sem palavras, aguardando que a tristeza morra nos caminhos tortos da Niemeyer. Onde o oceano tem raiva, e irado rebate na pérgula, gritando mágoas incontidas. Demarcam os seus espaços terra e água, água e gente, gente e pedra, desaparecendo nas espumas brancas de força bruta e quente, como aguardente. Ondas de dor arrebentando nessas pedras, que apanham pregadas como fieis penitentes, arpoados com o arpão do sal e o iodo da cura, padecentes em ebulição de fervura, torturadas pelas águas. O mar invade tudo, lambendo o corpo nu da pedra do arpoador solitária, com sua língua branca é íntimo deixando-a úmida. Numa solidão confusa dos que namoram e brigam, mas não se separam nunca, as pedras é firme no caminho enquanto o tudo é água movente. Tudo fica calado, fica pra outra hora, tudo se atrasa, fica engarrafado. Para a tarde no trânsito enquanto não houver outra tarde ensolarada de depois, do futuro, de outro dia, outra meteorologia, outro tempo, outra vida, outra verdade comum a claridade do equador. Como o sentimento profundo e mudo de fim de amor, quando o coração fica calado, preservando-se, porque quando acaba o amor resta o silêncio, o tempo é adestrado ao silêncio triste. A tristeza é o butim da solidão. A cidadela de festas guarda na intimidade das suas paredes concretas a ausência, tudo é memória, tudo é o fim, só o silêncio fala seu minuto de glória. Resguardando as avenidas das pernas e corpos, nos chiados dos pneus e espelhos d'agua espirrados, nos barulhos de poças. Onde estarão suas moças? Onde estarão que não as vejo? Com seus sorrisos de olhos abraçando as esquinas do sol. Quando chove assim no Rio ele as perde, ficam

raras ou poucas, cheias de botas e roupas, tecem pressa nos cabelos das escovas progressivas. Preservadas no mofo armário dos apartamentos, reclusas dos ventos, nos velhos casacos de inverno falsos, nos escritórios de papel e máquinas. Nas ruas os comandos apregoam as sombrinhas de dez reais, preciosas chinesas do contrabando. Nas bocas dos vendedores da chuva. Escondidas das águas seus corpos somem, com eles vão também seus trejeitos. Esvai o fascínio feminino, tudo esta em desamparo, em desalinho. Descompondo a paisagem natural das praias, o deserto de areia é abandono. Exílio o temporário das morenas do caminhar despojado das calçadas portuguesas, também essas feitas de pedras recortadas e juntas. Devaneios, desejos e encantos são lavados, ficando cinza, tudo é griz, a cidade mingua embalsada nesse engano. O amor não se propaga e quase finda, até que venha o sol e reponha cor em cena com seu giz de luz e brilho. Sem suas moças o Rio fica perdido, tudo fica perdido sem sua gente, o Rio tem alma fêmea, é cidade feminina. Sem elas definitivamente não vale a pena, sem elas a natureza esfria e não serena. Mas se isto é tudo, eu não posso ir embora, chove lá fora.

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POEMA Por MS

O dia está clareando E eu não acordei ainda Minh’alma dorme Meu coração palpita Meu pensamento voa E eu... Eu não acordei ainda Meu corpo se movimenta Minha mente fica clara A vida está acordada O dia está claro Só falta eu...Eu não acordei ainda Versos, sussurrem para minha alma Desperte-a

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O QUE SE FOI E O QUE FICA Por Nelson Dias
Parte de quem parte Permanece Não se desvanece Ilude-se ao partir Que nada deixou O vento leva as folhas Os galhos envelhecem A raiz permanece O importante ficou Parte de quem fica Parte junto sem ser vista Diluída em saudade infinita E a parte que fica Sente a falta da parte que lhe falta Que se completa na parte que se foi E dessa mudança que nada mudou A parte que permanece Dela não se esquece Sonha com a parte toda Mas se contenta Com a parte que ficou.

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Por Oswaldo Antônio Begiato

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MEUS PAÍSES, MINHAS CASAS Por Pato do Lago
Eu amo o meu país Brasil Lá longe com as praias azuis E com as verdes matas E o povo tão gentil. Mas eu amo também com carinho A Suíça que me acolheu Com os seus queijos e as montanhas E um povo amável. Por isto eu digo que tenho dois países Tenho duas casas e um só coração

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"Acordando os sonhos" Por Patrícia Lara
A rede de metáforas onde me deitei, estreita, não coube todas as imagens que projetei. O chumbo da lógica pesou na imaginação de leves fios e foi necessário renunciar. Corajosa, me pus na abstração dos sonhos e acordei para nunca mais sonhar.

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Paulo Barrozo apresenta: Thiago Arancam
Vou lhes falar desse Grande Tenor, Mundialmente conhecido, Amigo Querido e que acompanhei o começo da carreira. Filho de Sergio, um Amigo nosso de Londrina, cantava para nós em reuniões feitas na chácara de seu pai e em outras reuniões que organizávamos na casa de Amigos como um Lindo Show que organizamos da casa des Mes Chers Amis Thelma e Chico Gregori que foi uma revelação para os londrinenses !!!! Me lembro ainda quando falava com ele ao telefone e ele com Aquela Voz Divina cantava para mim “Amigos para Sempre...”, só de pensar me arrepio inteira... E eu sempre lhe dizia... “Você será um Grande Sucesso Mundial, tenho certeza disso, Mon Chéri !!!! “ Cada vez que o ouvíamos cantar, me emocionava... Era impossível conter as lágrimas !!!! Agora Voilà Thiago Aracam, aquele menino Querido, Doce e Super Educado virou um Astro Internacional, aclamado pelos Grandes Tenores !!!! Um pouquinho do seu curriculum : Começa seus estudos musicais em São Paulo em 1998 na "Escola Municipal de Música" e continua na "Faculdade de Música Carlos Gomes" onde se forma em "Canto Erudito" em 2003. Participa do V Concurso Internacional de Canto Erudito Bidu Sayão em 2004, onde vence o "Prêmio Revelação" e a bolsa de estudo do projeto "VITAE". Logo depois é convidado a frequentar a conceituada "Accademia de Canto Lírico do Teatro alla Scala" de Milão, sob direção da famosa soprano Leyla Gencer, tornando-se o primeiro Brasileiro a ingressar nesta Accademia. Aqui encontra o atual maestro de técnica vocal, Vincenzo Manno. Estreia em concerto lírico no "Alla Scala" dia 27 de Fevereiro de 2005 e participa depois de diversos concertos e produções de opera. Em 2007 apresentase em uma tournée com a "Orchestra Sinfônica do Friuli-Venezia Giulia": quatro concertos de árias de Zarzuela e de canções clássicas Espanholas, e no dia 24 de Junho, diploma-se em "Canto Lírico" no Teatro alla Scala de Milão. Recebe, em Bolzano, Itália, o prestigioso premio pela melhor voz lírica emergente 2007/2008, "Premio Alto Adige – Talento Emergente della Lirica 2007/2008", pela "Associação Amigos da Lirica L’Obiettivo" de Bolzano. Em Dezembro, debuta na opera "Le Villi" de G. Puccini, interpretando Roberto, no Teatro Coccia de Novara e no Teatro Sociale de Mântua. Em 2008 participa de uma tournée nos Emirados Árabes, com a orquestra da Accademia do Teatro alla Scala e de dois concertos de grande sucesso com a Orquestra Camerata Brasil de Brasília, sob a regência do maestro Sílvio Barbato. Em ocasião das comemorações do dia da Independência, se apresenta na Embaixada do Brasil em Roma.

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Participa do conceituado concurso lírico internacional Operalia 2008, organizado pelo tenor Placido Domingo, onde ganha três prêmios: PREMIO ZARZUELA, PREMIO DO PUBLICO e SEGUNDO PREMIO OPERA. Escolhido por Placido Domingo, estréia o papel de Don Josè (Carmen, de Georges Bizet) em Novembro, no Washington National Opera, (EUA), ao lado da mezzosoprano Denyce Graves e regido pelo maestro Julius Rudel. Em 2009 debuta Cavaradossi (Tosca, de Giacomo Puccini) em Frankfurt, Conte Maurizio (Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea) no Teatro Regio di Torino, Radames (Aida, de Giuseppe Verdi) em Sanxay, (França), e se apresenta em Londres em um recital em St. John's (Rosenblatt Recitals). Alguns de seus prêmios : "Prêmio Revelação" do V Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão 2004. "Prêmio Alto Adige – Talento Emergente della Lirica 2007/2008", pela "Associação Amigos da Lirica L’Obiettivo" de Bolzano, durante as comemorações da Operetta "La musa leggera". "Operalia 2008" - Primo Prêmio Zarzuela "Don Placido Domingo", Primo Prêmio Audience (do público), e Segundo Prêmio Opera. Hoje casado com a Linda Michela e residindo na Itália é nosso Orgulho Nacional !!!!!

FAÇA PARTE DO PRIMEIRO LIVRO IMPRESSO DA REVISTA VARAL! VARAL ANTOLÓGICO

5 páginas por autor (textos e uma biografia) RS 200,00 (duzentos reais por escritor) Lançamento em março de 2011 em Florianópolis, SC, Brasil. O número de participantes será limitado e cada autor receberá 15 exemplares. Se você gostou da ideia, venha para nossa primeira edição! Todos os detalhes são enviados por e-mail (varaldobrasil@bluewin.ch) e a previsão de lançamento da Antologia é março de 2011.

Alguma dúvida? Pergunte! Escreva para varaldobrasil@bluewin.ch

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PAZ

Paulo Roberto Bulos Remor
Estar em paz é ter Deus no coração, na vida, em seus caminhos. Estar em paz é em Cristo ter paz, amor, caridade, justiça, verdade. Estar em paz é ter sabedoria no bem viver, bem querer. Estar em paz, no mundo, paz mundial, o projeto para o futuro de todos nós. Estar em paz, em nosso interior, bem para a alma. Estar em paz é conhecer a si mesmo, sem reservas. Estar em paz é viver a vida, intensamente, com coragem, com valores morais e éticos. Estar em paz é cultivar bons hábitos como o da leitura, cinema, teatro. Estar em paz é ter fé em dias melhores, sem violência, corrupção, sem crimes de quaisquer espécies. Estar em paz é acreditar em nossos governantes para que possamos viver em melhores condições de vida, vida digna, sem pobreza, sem maldade, construindo não só o bem do nosso país mas do mundo todo. Estar em paz é preservar o meio ambiente. Estar em paz é amar a seu irmão, a seu próximo. Estar em paz é ter amor em nossos lares, com os parentes, amigos, vizinhos. Estar em paz é ter uma casa para morar com tranquilidade e harmonia.. Estar em paz é ter um salário justo para sustentar suas famílias. Estar em paz nos mínimos detalhes, nas minúcias, nos pequenos afazeres da vida diária. Estar em paz é enamorar-se apaixonadamente, é amar, entregar-se, cúmplice do amor, do carinho a dois. Estar em paz é ajudar os outros sem esperar recompensas. Estar em paz é, enfim, amar, amar, amar.

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Fastio Por Raimundo Candido Teixeira Filho
Ultimamente, tenho carregado demasiado peso: ausências indefinidas, presenças indesejadas e saudade de um doce sal que jamais provei! A vontade de conter o mundo me franze as sobrancelhas neste nevoeiro denso a me reter num abraço. Necessito verter um vômito inorgânico que se acumulou em minhas prateleiras: aclamações induzidas, anulações forçadas e as crenças ilusórias que retraíram meu ser!

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Metrópole

Por Renata Gomes de Farias
Em algum lugar que não esta em destaque no mapa e mesmo que estivesse quem iria se preocupar em saber do nome de todas as pessoas que ali residem. Inúmeros rostos e passos deixados nas ruas lamacentas nos dias de chuva ou fazendo poeira nos dias de sol forte. Em cada janela uma sombra um vulto nas noites escuras com gatos boêmios a cantar nos muros. Cada veneziana um segredo, cada cortina uma sedução e em cada janela suada um choro. Nas ruas entre uma e outra esquina passava alguém e seus passos ecoavam em um silêncio sepulcral, um cheiro de medo vinha trazido com vento e nele olor de perfume barato. Ao amanhecer tudo ia criando volume e movimento, crianças a caminho da escola, homens e mulheres apressados como se estivessem sempre atrasados, carros parados e o salseiro estabelecido, buzinas, motos, fumaça, desordem, caos... Este lugar morre e renasce todo o dia a cada amanhecer, transborda vida a cidade, a metrópole, e tudo vai depois para os jornais, onde muitas vezes as noticias não são boas, quase nunca. Trancar-se e ignorar o que se chama realidade nem sempre é inteligente, mesmo que sua realidade seja outra, seu lugar é também o de outros. Entre tantas coisas sempre existe uma praça e nela crianças que chegaram para espalhar sorrisos para quem os quer ver, pássaros a construir ninhos, mães dando a luz, o mar quebrando na areia e alguém caminhando sobre a espuma da praia. Parado no sinal vermelho ergue os olhos e vê uma pipa lá ao alto, colorida dançando ao bel-prazer do seu dono o vento, na calçada uma mãe de mãos dadas conversa animada com sua pequenina filha que leva na guia um lindo cachorrinho. São estes os verdadeiros nomes de cada um seu estado de espírito e como ele encaminha seu dia, escondido atrás de uma janela ou caminhando despretensiosamente no lugar que mais gosta ir e sem se importar o que irá enfrentar para chegar lá.

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Não lembrava Por Renata Iacovino
Não lembrava o que é passar dia assim à deriva sem ninguém pra amar. Não lembrava o que é deixar o gosto da saliva à beira mar. Não lembrava que o não estar me incentiva a me escancarar. Não lembrava que Dele me ausentar é uma iniciativa pra reencarnar.

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ABUTRE Por Ricardo Reis
No quadro de minha janela no azul esmaecido cruzam sinais. Eis que ressoam sentidos do que nunca houvera sido. Corta o quadro o voo planador de abutre vil sobre a cidade. Eis que renovam desejos do destino apetecido. Afora não haja destino não mais só acaso e necessidade.

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SALVE TETÊ Por Rita de Oliveira Medeiros

Salve Tetê! Sempre cheia de charme, Sempre tão repleta de graça! O amor pelos teus sempre esteve contigo e conosco também! Bendita fostes tu entre todas as mães que a vida me deu e benditos os teus frutos, nossos amigos, que o teu acolhimento transformou em nossos irmãos! O universos agora te recebe de volta, pois dele tu saíste! E se realmente, somos feitos de poeira de estrelas, agora és uma delas novamente! Amém

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UM APELO EXTREMO Por Roberto Gulino

“A paz começa, precisamente, onde termina a ambição.“ - Edward Young, poeta inglês, 1683/1765 ( Homenagem ao poeta Eno Theodoro Wanke ( 1929/2001) que clamou pela paz no soneto APELO, traduzido para mais de 160 idiomas). Lamentável que o mundo afugente um apelo do poeta que clama um resíduo de paz, entre a guerra maldita e o infortúnio que traz, muito além do martírio em frontal pesadelo. Mas tem sempre um conflito, apesar do desvelo que pelo ar a flanar carregamos mordaz, contra nossa vontade e sem força capaz que de dentro se expurgue esse mal a varrê-lo. Paz... eterna utopia entre os puros de ardor, desprezada entre a força e vaidade do mundo, mascarando a ganância enfeitada de amor. E por ser essa paz um desejo profundo, dela plante a semente onde estás, com fervor, que será um começo eficaz e fecundo.

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nossa simpática representante em Genebra, Jacqueline Aisenman, que recentemente contou em seu blog a aventura estudantil Por Rodrigo Fernandes Pereira que teve com a aplicação de uma prova pelo “professor que roda a gente porque dá a pior "Sempre fui um grande devorador de jornais. nota de todas.” Houve épocas, ainda adolescente e sem in- Naquele ano eu iniciava os estudos num noternet, que lia seis diferentes diários. E sem- vo Colégio, o CEAL, cursando o Primeiro pre gostei de política. Tenho sangue Bitten- Ano do Segundo Grau. No dia 26 de abril eu court, pois neto de Almerinda Bittencourt Fer- tinha prova de História com a professora Marnandes, integrante do clã Bittencourt de Ima- ta Remor. ruí. Acredito que versava sobre ‘Revolução InSempre e desde cedo, fiz campanhas políti- dustrial’ (hoje os dois livros de História por ela cas, sendo que a mais remota, penso, para indicados ajudam ao meu filho Guilherme, de Mário José Remor/Joãozinho, que disputaram 11 anos, nos estudos, embora ele prefira o vitoriosamente o Paço Municipal de Laguna. 'santo Google)'. Sempre fui politizado e participativo, escre- Obviamente que não tive tempo para estuvendo cartas e comentários para jornais, re- dar. Estava cansado, com sono, pois tinha vistas e blogs. ficado até tarde 'colado' no radinho. Sempre fui bom aluno. Em algumas épo- Na sala de aula eu sentava na carteira atrás cas, excelente. Em matérias como História, do meu colega Carlos Alberto Tesch. As proGeografia, OSPB (sic!) Educação Moral e Cí- vas foram entregues e eu imediatamente covica, sempre estive dentre os melhores da mecei a tentar colar dele. Lembro-me que classe. sentávamos numa fila de carteiras junto à paDepois dessa introdução e a propósito rede que fazia divisa com o corredor. Codo post do dia 22 de julho último, "Uma Pro- mo não era versado na estripulia, não conseva de Fogo" , in http:// guia ser discreto. Ao contrário, olhava sem certaslinhastortass.blogspot.com/, recordei- pudores e desastrosamente sobre os ombros do meu colega. me da seguinte passagem de minha vida. Era abril de 1984. Campanha pelas 'Diretas Fui advertido uma vez pela gentil professora. Já'. A imprensa já não podia mais esconder o Mais adiante fui advertido uma segunda vez. assunto. Mas era muito tímida e havia censu- E ainda sem ter escrito nada, não tive dúvira, como lembra o jornalista Moacir Perei- das em me levantar e disse-lhe algo assim: ra no seu livro "O Golpe do Silêncio". "-D. Marta, não estudei. Fiquei acompanhando pelo rádio os fatos que se sucederam onNo dia 25 daquele mês - mesmo dia e mês em que teve início dez anos antes a Revolu- tem em Brasília por conta da votação da ção dos Cravos em Portugal - estava prevista ‘Emenda das Diretas’. Peço-lhe desculpas. a primeira votação na Câmara dos Deputados Se a senhora puder me ministrar a prova da "Emenda Dante de Oliveira", que preten- noutro dia, tudo bem. Caso contrário, é justo dia restabelecer as Eleições Diretas no Brasil que eu tire zero." para Presidente da República. Pelo mês do ano, deve ter sido a primeira prova. Não tinha ainda muita afinidade com Eu estava muito interessado no assunto e acompanhei direto de Brasília, durante todo o os colegas, oriundo que era da Escola Básidia 25, inclusive à noite, aqueles episódios ca Jerônimo Coelho, na qual orgulhosamente que integram a nossa história. Como eram cursei todo o Primeiro Grau. lacônicas as notícias na televisão, usei um radinho. Sigo, agora, para o tema central desta crôni-

"DIRETAS JÁ!

PROVA AMANHÃ!!! ca, provocado em minhas memórias pela

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Petulância semelhante diante dum professor, com certeza, não era comum. Mas D. Marta, como sempre educada, disse que depois falaria comigo e eu me retirei da sala. Mais tarde conversamos. Pedi novamente desculpas. Ela aceitou e me aplicou noutra ocasião uma prova oral, na qual tirei dez. Voltando à Brasília, a Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada por apenas 22 votos. Mas foi uma Vitória de Pirro do Governo. De nada adiantou a violência instalada naqueles dias na Capital Federal pelo General Newton Cruz, Comandante Militar do Planalto, montado em seu cavalo branco. A ditadura estava na iminência de ser sepultada. Na votação ocorrida no Colégio Eleitoral em 1985, ano seguinte, o candidato da situação foi derrotado, com a esmagadora vitória de Tancredo Neves, na nossa última eleição indireta para a Presidência da República. Nascia então, a "Nova República". O ato do jovem de 14 anos, que preferiu escutar no rádio momentos vitais para a redemocratização do Brasil, ao invés de estudar para a prova do dia seguinte, hoje não é recriminado pelo pai de família e advogado de 41 anos. Foi uma escolha calculada, acreditem!

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RISCO IMINENTE Por Rosane Magaly Martins

Há cada vez mais dentro, introspecta Há alguns espaços inocupados Cantos escuros com imagens riscadas Embaixo de tudo há tapetes úmidos No centro da sala sombra do espectro de piano E os silêncios que circundam o passado Esferas descem as escadas imóveis O pó encobre o olhar pela janela A chuva é mais longa que o tempo de sol Enquanto as palavras não ditas espreitam-na seus chinelos gastos ficam por ali ao lado do gato embalsamado Há um risco em viver dentro de si com tempo de higienizar as vísceras como se pérolas fossem traumas doces Ar rarefeito, narinas ferozes anseiam ventos pele seca, rugosa e fria aguarda trancafiadas carícias sob olhares do escuro que oculta o corpo inerte Busca o pulso, o relógio quebrado e queda-se Nuances restritas e confinadas do que não fora E a certeza da nenhuma possibilidade de reproduzir-se.

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O NOVE CABALISTICO Por Roselis Batistar
Por que o nove me persegue? Sete mais dois Quatro mais cinco Se o meu afinco é somar inicios ? Se no principio do setenta e dois Te via pois como eterno amado Com um bocado de prendas de afoito? Mas era o um com o oito O que somava a terrivel adiçao final!

Eu nao via o mal Posto que cresciam as rosas Agora destruidas pelo três mais seis Consumidas pelo hipotético Pela imagética pétala da ingenuidade?

Nao havia idade na bola do nove So havia um poste que levava à bolha Aquela unica vara que eu subia Com a certeza da alegria Como sorria boba a um futuro incerto.

Agora vem o belo alçapao ligeiro Saido das luzes da tenebrosa cova Que me abrigava entao! Despencada eu estava! E para surpresa desta presa eterna Moras num nove estranho: Soma sem tamanho, Que acende mas sucumbe A pobre corola minha!

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É DIRETO NO QUEIXO Por Rui Martins
Era junho 2006 e recebi um e-mail do Eliakim, que não conhecia, só de ter visto na tevê Manchete quando ia ao Brasil, me convidando para integrar o grupo de jornalistas do Direto da Redação. Até hoje não sei como lhe veio essa ideia, pois vivo numa espécie de periferia das grandes capitais europeias e já fazia quatro anos que recebera meu bilhete azul da CBN, certamente, como disse o paraibano, escritor e colega, Carlos Aranha, por ter incomodado o pessoal com minhas provas de processo penal contra o então candidato a governador Paulo Maluf. Coincidentemente, minha entrada na CBN como correspondente tinha o título de Direto da Europa. Cria do Estadão da Major Quedinho, já não era mais seu correspondente, sabe-se lá porquê, mesmo se o jornal, na minha época, convivia com gente de esquerda e mesmo comunista, pois lá fui contemporâneo de Vladinir Herzog e Miguel Urbano Rodrigues e foi lá que Arrudão me levou à Fulgor, editora do PC, para publicar meu livro A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, explicando sociologicamente o surgimento do ídolo Roberto Carlos, pelo vazio criado no Brasil gerado pela ditadura militar. Sem CBN e Estadão, sentia que logo seria esquecido pelos ex-leitores e ouvintes. Nossa profissão é tão efêmera quanto os jornais, que envelhecem em um dia, e quanto os boletins de rádio, lançados ao vento. De minha passagem pelo Pasquim, logo no começo de meu exílio, nada restou. Foi com certa surpresa que, numa livraria de São Paulo, constatei não haver nenhum de meus textos, de 69/70, na antologia do Pasquim.

gos). Nada também restou da Última Hora – Rio, de Samuel Wainer, cuja sucursal dirigi, dois anos, na avenida São Luiz, ao lado da sucursal do JB. A UH-Rio, jornal popular de esquerda, que hoje nos faz tanta falta, morreu há décadas e, ironia do destino, seu vizinho em Sâo Paulo, também acaba de morrer. Ressuscitei para o Estadão, graças ao Luiz Fernando Emediato, em 86, numa viagem que fiz ao Brasil para ficar com meu pai, que pouco vira durante o exílio, já doente, e que morreu à minha frente. De Santos, onde estava, telefonei ao Emediato, e passei a escrever cartas de Genebra, para depois fazer parte da equipe do Caderno 2, cobrir festivais de cinema e de dança, falar de livros e fazer entrevistas. Com a saída do Evaldo Mocarzel, sucessor de Emediato, me foi encerrado esse capítulo. Como dizia, recebi o convite do colega Eliakim, quando só escrevia para o Expresso, depois de alguns anos no Público, ambos de Lisboa. E estava nas livrarias, com certo sucesso, o livro sobre segredo bancário suíço, as contas do Maluf e minha demissão da CBN – O Dinheiro Sujo da Corrupção, pela Geração Editorial, criada e dirigida pelo Emediato. Teria sido o livro, a causa do convite ? Não sei, nunca perguntei e nem vou perguntar ao Eliakim. Mas, minha entrada no Direto coincidiu com uma atividade benévola que iria se desenvolver e me levar a assumir uma bandeira antes nunca imaginada – a de dar visibilidade na mídia aos emigrantes, praticamente ignorados no Brasil .

Minhas duas primeiras colunas, em junho e julho 2006, neste Direto da Redação foram sobre a injustiça criada pela reforma da Constituição de 88, num parágrafo aprovado pela Constituinte em 1994 – tinham retirado a nacionaliDespedido do Estadão, em 68, depois de ter dade brasileira nata dos filhos dos brasileiros organizado o Encontro com a Liberdade, com nascidos no Exterior. antigos companheiros como Narciso Kalili, David de Moraes, Ivan de Barros Bela, Audálio Com isso, cerca de 300 mil crianças filhas de Dantas, no Teatro Paramount, em São Paulo, brasileiros se tornariam apátridas em 2012 tinha ao meu lado na mesa, Mario Martins, pai (cerca 18 a 20 mil por ano) em países como do atual ministro Franklin (não somos parentes, descendemos todos de portugueses e gale125

como Alemanha, Suíça e Japão, enquanto as A seguir, as associações e grupos formados nascidas nos EUA perderiam os laços com o em torno dos emigrantes, muitas das quais disso vivem, assim como doleiros, despachantes, Brasil pois seriam só americanas. advogados e recém-chegados em busca de Da denúncia na mídia, a campanha pelos brasi- prestígio, rejeitam um órgão institucional emileirinhos apátridas virou movimento social de grante autônomo e independente do Itamaraty. cidadania com lideranças em diversos países Por sua vez, o MRE, criou uma alternativa híbride emigração e graças ao ex-senador cearen- da para o órgão institucional e não abre mão da se, Lúcio Alcântara, ao ex-deputado Carlito tutela sobre os emigrantes, frustrando os que Merss, hoje prefeito de Joinvile, e Rita Camata, esperavam, nesse setor do governo Lula, o adex-deputada e provável futura senadora, surgiu vento de alguma coisa concreta, como as Sea proposta de emenda constitucional 272/00, cretarias da Mulher, da Igualdade Racial, dos vitoriosa e hoje Emenda 54/07, que restituiu à Direitos Humanos. nacionalidade brasileira aos filhos dos nosso emigrantes. Em lugar de um Conselho de transição para um órgão institucional, surgiu um conselho consultiO Direto teve ação de ponta-de-lança nessa vo, inútil mas com função de vitrina, destinado fase final da campanha, da qual participaram a dar assessoria ao Itamaraty em matéria de colegas jornalistas de tendências diversas e de emigração, e uma Conferência anual de emidiversos órgãos de imprensa, porque a causa grantes, que, por vergonha de usar a palavra era consensual. De um lado Cláudio Humberto emigrantes, o Itamaraty chama pomposamente assustava o MRE em suas colunas, por sua de Brasileiros no Mundo, destinada a coletar vez Caros Amigos denunciava a falha que iria um rosário de reivindicações sem o compromisfavorecer advogados e despachants. E a vitória so de serem atendidas. dos brasileirinhos acabou por nos levar a outra trincheira – em favor dos pais dos brasileiri- Além de sua função de mídia livre, o Direto populariza, assim, para os brasileiros do continennhos. te, a questão emigrante, enquanto nem ComuFoi o surgimento do projeto pelo que poderia nique-se e nem o Observatório da Imprensa ser um Estado dos Emigrantes, pois 4 milhões encontraram uma fórmula para divulgar o que de emigrantes brasileiros dispersos pelo mun- vai pela mídia emigrante, engatinhando em aldo, já constituíam um verdadeiro Estado. Seria guns países mas viva e atuante nos EUA. preciso, porém, parlamentares emigrantes em Brasília, possibilidade que nos deu o senador Quando aceitei o convite de Eliakim, lá se vão Cristovam Buarque, com sua proposta de quatro anos, longe estaria de imaginar que o emenda constitucional criando deputados emi- Direto teria tanta influência na transformação do jornalista observador em militante pela caugrantes. sa da emigração. E isso vem a calhar, pois o O projeto, hoje amadurecido com o formato de Direto da Redação, editado em Miami, é tamuma Secretaria de Estado da Emigração ou bém um emigrante. dentro de um super-Ministério das Migrações, incluindo migração, imigração e emigração, não E a grande vantagem desta tribuna eletrônica é é consensual como foi a causa dos Brasileiri- que me sinto livre o suficiente para denunciar, nhos. Houve um primeiro choque quando se provocar e desferir soexigiu laicidade do parte do governo, na I Con- cos diretos no queixo, ferência de Emigrantes no Itamaraty, para se sem compromisso religioso ou partidário. evitar o controle religioso sobre a emigração.

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FOTOS Samantha Verdan

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PRISIONEIRA Por Sandra Helena Queiroz Silva
Vesti minha túnica humana E fiquei prisioneira do mundo Feito de enganos onde canto e Exalto-me. E tu que nunca reparas Nem sabes que sou alma rara. Sei que me medes, me pesas, Observas-me, me destilas, Revolto-me, fujo e entristeço. Crio asas e voo no silêncio Como a abelha de flor em flor Fabricando mel sem ter colmeia... Nasci livre, como o vento, Eu quero, apesar da minha idade, Que este amor sufocado Ainda se expanda E dentro da minha ternura Nestes instantes de beleza calma Presa a este amor confuso Meu ser se transfigura Porque sinto que o amor é luz E a mais alta manifestação do ser.

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Um dia de Alice Por Silmara Oliveira

Dá vontade voltar a ser criança! E porque não? O mundo das crianças é bem diferente do nosso. O mundo das crianças é mais livre, mais despreocupado, mais inocente, mais divertido e mais leve. Imaginário. Alice era assim. imaginava tudo o que podia. Exercitava sua imaginação e sua curiosidade pela vida. Sua coragem fortalece quem a segue. e porque também não somos Alice? Alice é criança e conhece o que nenhum adulto conhece (ou se esquece?). Alice conhece a simplicidade da vida. A alegria dos seres e das coisas. Nós adultos somos meros Coelhos Brancos ou Ratos cheios de medos, somos Lagartos julgadores ou Lagartas egoístas, Duquesas orgulhosas e imponentes, um Gato de Cheshire que aparece e desaparece sem se importar com ninguém, somos loucos como o Chapeleiro Maluco e matamos o tempo sem o aproveitar, somos Arganaz que dorme e permanece dormindo a grande parte do tempo, somos autoritários e impulsivos como a Rainhas de Copas, somos acusados como o Valete de Copas e somos acomodados como o Rei de Copas e vivemos a nos considerar vítimas do destino como a Tartaruga Fingida. O que podemos fazer? Vamos viver como Alices pelo menos um pouquinho por dia, vamos correr, brincar, rir, cantar, cair em tocas de coelhos por pura curiosidade, vamos crescer, vamos diminuir, vamos chorar até quase se afogar nas lágrimas e aprender a nadar para novas descobertas. Vamos tomar um chá no país das maravilhas? Ser criança é ser Alice.

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Às mães sem nome Por Sonia Alcalde

Mãe, três vezes santa: na dor, na renúncia e no sacrifício. Frase ressaltada numa escultura em Rio Grande. Não sei se ainda existe por lá, mas ficou eternizada em minha memória. Era o ano de 1970. A visão dessa escultura instigou-me rever a responsabilidade de ter filhos. Quanto de mim daria para que eles crescessem protegidos, nutridos em amor e normas que os tornassem independentes? Não tinha noção, a referência era a dedicação de minha mãe, com a figura do pai sempre presente, do seu jeito: provedor, parceiro nos trabalhos domésticos, de jogar dama, dominó e banco imobiliário. Contador de histórias, de causos da família, com inserções da mãe. Adorávamos ouvilos, enquanto ela servia a sopa. À noite, só de legumes, mais apropriada, dizia. Vez por outra, quando corria um ar frio a la carioca, era sopa “levanta defunto”, de feijãomanteiga, com risos e prosas. Hoje, ela se refere a esta sopa como “levanta forças”, para não apressar sua hora. Mãe que fazia meus vestidos, colocava-me sobre a mesa para acertar a barra da saia godê. Mãe que tomava tabuada na mesa da cozinha, ensinava a fazer bolo português, rabanada, carne assada, bolo de batata... Mãe que nas férias aceitava encomenda de viandas para ter mais dinheiro e confeccionar fantasia de nega maluca, borboleta, escrava, colombina, bate-bola... Mãe que cuidava de tias doentes, sobrinhos, vizinho dementado... Mãe que lutava por crianças carentes, abrigando-as, dando -lhes o melhor de si. Mãe que se revelou compositora cantando a dor da saudade quando o amor partiu. Minha mãe. O tempo passou, meus filhos nasceram, cresceram, já se multiplicaram. Acho que alguma coisa acertei, não com tanta dor e sacrifício. Certa renúncia, sim, a começar pelo sono interrompido. Foi o que me chamou mais atenção, ainda que amenizado pelo cuidado paterno. Quando casaram, parecia ter encerrado esse capítulo até minha mãe vir morar conosco. O ciclo está fechando. Num desses dias, de madrugada, levantou-se e caiu. O estrondo ecoou pela casa, corremos para socorrê-la... Ainda bem que foi mais o susto. Emocionada, envolvi-a em meus braços, beijei seus cabelos brancos. Lembrei de outras mães, desprotegidas. Vejo-me no espelho/ lembro aquelas que me antecederam/ a que surgiu de mim/ as que me ajudam com amizade./ Ouso ir mais longe/ sinto gemidos/ daquelas que não conseguem/ ver seus filhos crescer./ Queria meu peito estender-lhes/ um pou-

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QUEM Por Susana Martins
Ela tem a vibração certa para cada um que lhe cruza o caminho. Ela caminha através da leveza das dores sentidas, do passado sofrido. Ela sustém tantos perigos e é tão forte, por vezes... Prende, por horas, alguém que pensou apenas passar pela sua presença. Quase nunca se acovarda, é tão frágil... Tão abismo... Que num suspiro traz o tudo do dito. Ela abarca soluções, tem doçura e coragem diante do perigo. Ela se aventura e nos leva aonde sozinhos não iríamos. Ela faz coisas absurdas serem simples, ela complica a vida! Ela segura tão forte cada mão insegura. Pelos laços, ela liga pontos díspares e contrários. Ela é contradição: por vezes cumpre juras, em outras nem se quer lembra-se do prometido. Ela desata os nós e resolve problemas... Ela se cala e confessa não ter saída. Ela assume covardias, mas, dissimula verdades. Ela não diz quase nada quando grita. Ela diz tudo pelo silêncio. Ela fabrica perguntas desnecessárias com a mesma facilidade que tem de não levar a sério algumas respostas. Ela não é de vidro. Se pudéssemos dar-lhe um colorido ela seria o violeta. Através do que ela escreve alguns encontram saídas, outros se perdem num labirinto e ela continua a brincar com as letras. Ela tem um novo diário, mais sério, mais tristonho, mais adulto, menos enigmático. Ela, hoje em dia, é menos. Menos afobada, menos sonhadora, ela é menos do menos. As vezes, ela molha o olhar com alguma coisa úmida que sai de dentro de si... ela permitiu essa coisa úmida sair das pálpebras e experimentou o sabor desse líquido tão sagrado que poucas vezes saiu do seu dentro; foi uma luta, tão dolorida e sofrida, que ela sentiu praticamente o coração diluir-se por entre esse fluido; quando provou desse líquido ela sentiu o salgado doce do seu sofrimento. Ela é forte, ela é imbatível, inquebrável e tão sensível! Ela agrega toda a liberdade possível por entre as asas prateadas dos voos que alça... Ela constrói um abismo com uma única palavra e com outra é capaz de elevar um coração ao paraíso. Ela tem o seu inferno, o seu anjo, o seu horror, o seu abismo, ela é tão treva... Ela é uma multidão! Tão solitária quanto sua presença. Ela desenha novos traços, entre novas cores, mas, ela finaliza no preto e branco. Na verdade, ela é sépia... Mas, agrega um brilho incomparável. Ela sabe que é única. Ela olha, de quando em vez, no espelho ou na margem e sussurra - dentro do meu ouvido - “eu!”.

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O pai das telecomunicações Por Suziley Silva
É este o título e a homenagem que deve merecer o ilustre padre inventor e cientista nascido na segunda metade do século XIX aos 21 de janeiro de 1861 nesta cidade de Porto Alegre. No ano de 2011 completará 150 anos do nascimento daquele sacerdote que foi o quarto filho de uma família de quatorze irmãos cujos pais, Inácio José Ferreira de Moura e Sara Mariana Landell de Moura, possuíam ascendência inglesa. Pe. Roberto Landell de Moura era antes de mais nada um livre pensador; um profícuo inventor; um cientista nato. E as provas estão, aí, para que todos vejam e constatem. Foram inúmeras contribuições e inovações. Basta citar algumas apenas: foi o pioneiro na radio emissão e telefonia por rádio (por isso é o patrono dos radioamadores do Brasil); precursor na transmissão de imagens (a televisão) teletipo à distância e tantos outros trabalhos, pesquisas e estudos. Aliás, o padre em questão era detentor de um balizado arcabouço teórico aliado a um espantoso lado pragmático que o orientava na construção e na operacionalização de suas úteis invenções. Landell fazia acontecer a necessária união entre teoria e prática. Pois o sacerdote gaúcho “teorizava a vida e vivenciava a teoria”. Além disso, por vocação ministerial e mística era um ardoroso pastor que amava os seus fiéis com estimada e paternal atenção. Todavia, os grandes homens, geralmente, não são compreendidos por seus pares. Não são compreendidos nem apoiados pelas autoridades que pouco caso dispensam aqueles que pelo espírito, pela mente, pelas ideias inovadoras, encontram-se muito à frente do seu tempo e lugar. E com o Pe. Landell de Moura não foi diferente. O peregrino das ciências físicas e metafísicas não recebeu nenhum suporte e aos 67 anos, em 30 de junho de 1928, faleceu, anonimamente, no Hospital da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre, acometido por uma tuberculose. Pelo pouco que li a respeito da figura carismática do Pe. Landell, ainda que houvessem os que o consideravam um “louco e desvairado”, (julgamento próprio das mentes pequenas que não enxergam um palmo à frente do próprio nariz, que dirá erguerem as cabeças enterradas na areia do próprio chão das suas ignorâncias para longe avistarem o horizonte da genuína sabedoria...), ele foi um homem, um sacerdote, um pastor, um ser humano, também, muito querido pelas pessoas que com ele conviveram ou de alguma forma se encontraram com aquele “apóstolo do Cristo”. E é por estas razões, por sua inteligência inventiva provada e comprovada em suas descobertas e invenções de muita utilidade para a humanidade, pela personalidade carismática e caridosa, por todo seu esforço, estudo, pesquisa e ciências, é que com muita alegria anunciamos o início desde, ontem, do acontecimento de eventos alusivos a comemoração no ano que vem do sesquicentenário do seu nascimento. Convocamos, ainda, a população de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, de todos os Estados do Brasil, a aderirem a um abaixo-assinado elaborado pelo Movimento Landell de Moura (MLM), composta por radioamadores, preenchendo o formulário na http://www.mlm.landelldemoura.qsl.br/abaixo_assinado.html e clamando bem alto SIM façamos justiça à memória daquele brilhante brasileiro com o reconhecimento pelas autoridades nacionais e internacionais da mais que merecida, ainda que póstuma, atribuição da nota que de fato ele, magistralmente, o foi, a saber: o Pai das Telecomunicações!! Façamos a nossa parte. Sintonizemos as ondas do nosso “rádio” interior e lhe prestemos esta justa homenagem.

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Tereza Rodel Garimpando Poesias

CORPOS SUADOS

Tua mão macia tocou minha alma Teus lábios doces roçaram os meus Teus seios nus no meu peito fizeram meu coração Bater mais forte, e esse amor tão puro tal qual, Branda luz no escuro, me fez a mente confundir e nesse momento tão sublime em que nada do corpo é pecado...... Nos abraços de meus braços, No calor do corpo teu. A meiguice do teu tocar, A meninice do teu olhar... A sensação tão doce do teu amor. O perfume sutil da essência da vida no ar. E o tato dos meus dedos Na tua pele macia me fazia cavalgar neste campo farto sob o fascínio da Canção alucinante do prazer. A boca molhada de beijos, falando coisas de aventura Me levou as alturas e me senti em ti na intimidade dos teus segredos. (Poesia de Demétrio Nazário Verani – Orleans (SC))

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Prisma Caótico

Por Tetê Crispim

Ecos agudos calam a sinfonia do mundo, Faces sem brilho deixam cair lágrimas, Olhos sem direção fixam apenas no chão, Mentes em multidão seguem em reunião, Num prisma caótico onde domina reflexo, Vozes ecoam sem nexo, Falso sorriso convexo, Façanhas da submissão, Xepas de festim substituem o pão, Resultam promessas xaropes de êxito, Armas na mão do soldado inflexível, Corpos exaustos Clamam por justiça, Choro profundo no vale da destruição, Flores no acaso mexem com o coração, Um prisma convicto emite um facho, Flui cantares de esperança na alma,

Gritos sem medo, Ideias em cheque, Renovam a construção.

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Despedida Por Thiago Maerki
Sinto muito, mas terei que partir Para outras terras distantes não sei o quanto... Não quero que chorem Que caiam em pranto Quando eu partir Não sei para onde irei, mas tenho que partir Fugir do meu próprio eu Para um lugar em que não possa encontrar-me... Sei que ninguém sentirá minha falta Quando eu partir Preciso fugir Sair de mim Ver pores-do-sol Solitário como um corpo jogado aos vermes Quando eu fugir Quando eu partir Distante, para não sei onde Que eu não deixe saudades E leve todas as minhas lembranças Quando eu partir E assim como um vocábulo apagado Há muito tempo não invocado Eu veja o que fui E o que deixei de ser Quando eu parti

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Varais Por Tino Portes
Pequenino, Observava A mulher que eu mais amava Sob o sol a estender Sob a chuva a recolher Tanta roupa no varal Pequenino, Admirava Como o bambu não arriava Sob o peso a suspender Sob o tempo a escorrer Como as roupas no varal Pequenino, Eu nem pensava Nem com isto me animava: Que eu iria versos escrever Pra noutro varal suspender Que não fosse do bambuzal

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Amor com ela Por Valdeck Almeida de Jesus
Ela me quer Ela me ama Ela me beija E não reclama. Dá-me a vida Faz-me feliz Ajuda-me sempre Sempre me quis. Ela me adora Não me deixa só Por mim ela desata Da vida o nó. Não a ajudo Não a recompenso Faço pouco por ela Só em mim penso. Ela é a natureza. Eu sou o homem.

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Rosas vermelhas

Por Valéria Nogueira Eik A rosa vermelha e o sorriso cativante foram entregues ao inal do dia. Amé lia, olhos baixos, fez um muxoxo de menina e tentou alongar a má goa. Encarou o riso inocente e esqueceu as palavras rudes da noite anterior. A rosa era tã o linda! Duas rosas vermelhas foram entregues no inı́cio da noite por um sorriso suplicante. Amé lia exibia um pequeno corte na boca. Derramou soluços incontidos e mais algumas lá grimas. Olhou as rosas. Sorriu tristemente. Desculpou a ressaca matinal. Trê s rosas vermelhas foram entregues, quando duas ou trê s estrelas salpicavam o pedaço de cé u que se condensava diante da janela. Amé lia, deitada na cama, invadida por todas as dores, relutava em perdoar. O sorriso dele, quase paternal, delineava motivos e a absolviçã o das culpas. Quatro rosas vermelhas foram entregues quando a madrugada cobria a cidade. Amé lia, amontoada no chã o, ainda recolhia os cacos do pró prio corpo. O riso infantil implorava por perdã o e afagos. Cinco rosas vermelhas foram entregues, quatro ou cinco dias depois, por um par de olhos desesperados. Amé lia, de malas prontas, queria ir, queria icar. As marcas arroxeadas e a pele costurada começavam a ganhar tons suaves. E suaves icaram as dú vidas. Seis rosas vermelhas foram entregues por um sorriso impessoal. Amé lia, agasalhada por outras tantas lores e pelo brilho das velas, nã o pô de ver nem perdoar.

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Amando... Por Valnice Costa
Não quero palavras copiadas para expressar meus sentimentos. Não quero palavras clonadas, pois cairão no esquecimento! Quero palavras criadas. Quero palavras inspiradas. Quero palavras produzidas pelo mais puro e profundo argumento: o Amor! Um sentimento. Uma postura. Um desejo. Um querer. Uma canção. Uma conquista. Uma lembrança eterna. Uma inspiração! Uma Força Divina maior que o universo, enchendo o peito da metida a fazer verso! Criando nas pessoas o desejo de amar. Ame... Sinta. Posicione-se. Deseje. Queira. Cante. Conquiste. E lembre-se eternamente desse grande argumento maior que o universo: O Amor, que na Força de Deus enche o peito das pessoas que desejam amar. Fale de amor.

Esqueça a dor. Cante o amor. Inspire outros a amar. Doe o seu sorriso. Presenteie com flores. Chova ou faça sol, ame. Amar não é favor. Amar é doar-se com amor! Ame as pessoas, os animais, a vida, o presente, pois seu passado não volta mais. Ame as crianças, os velhos, a natureza. Sabendo que amar não é fraqueza! Ame a Deus sobre todas as coisas e a “mim” como a ti mesmo, pois estes mandamentos são cheios de sentimentos e das melhores intenções também!

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Regresso Por Valquiria Gesqui Malagoli
Perguntaste a mim, que meus pés molhava neste mar sem fim, para o que eu olhava... Eu, ah, olhava ao longe sem pensar em nada, imitando um monge de vista ilibada. (– Que descanso imenso mora onde eu não penso!) Só fui retornar porque me chamaste, e ao que perguntaste, respondi: “pro mar!”

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O Homem é uma peça de reciclagem Por Varenka de Fátima
Reciclar, reciclar, reciclar O homem pode ser como um automóvel Que montamos e desmontamos peça por peça Quando nasce nu, sem folhagem Traz apenas a herança hereditária Que pode ser curada e reciclada. Reciclar, reciclar, reciclar Despido de conceitos sociais Começa a educação no berço Para não estancar e virar lobisomem Passa pela escola primaria, social, educação física Artes em geral, espiritual e florestal. Reciclar, reciclar, reciclar O homem tem que estudar a vida toda Para se formar em direito, farmácia, Em medicina que com sua evolução Reciclar o homem com cirurgia plástica Com o bisturi pode reciclar total Reciclar, reciclar, reciclar O medico e o material cirúrgico auxiliam Em colocar e retirar o que se quer do corpo Reciclando e rejuvenescendo o homem Por preços aquecíveis Como a Floresta Amazonas e o Brasil.

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CANTO SILENCIOSO Por Veronica dos Santos Silva

Canto a música cativa, quase um acalanto lembra olhares, toques e encantos de um tempo mágico, lá de trás Canto ao som do silêncio companheiro destes tempos de guerra É uma fase que se encerra... trégua pacífica deste confronto Canto sem acordes, sem melodia sem instrumentos, acompanhamentos só nostalgia... É por isso que meu canto está ainda, preso Ouça-o...

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nos balaios nos tabuleiros debaixo da tua lingua? Por Vicente de Pércia - Miséria que vem a galope A matéria forte vinda como vento Que fazer com a casa desarrumada? sacode as narinas. Com os olhos críticos do branco? Surge no corpo Com os preconceitos edemáticos? acarinha as coxas quentes Tudo isso não são peripécias do acaas ancas fortes so, sob um peitinho de seda preta são afeições, que chama pra longas navegações fervor, que recebe a dádiva do céu e da lua. gosto, A proteção de todos os Orixás. sentenças... Um peixe vermelho faz tremer os são para dar arras ao temperamento olhos negros do negro às visitações incessantes. enfeitiçando tudo... Dobrado no dia e na noite e seu tronco feito relâmpago o transporte de antigos segredos capaz de afagar os cinco cantos do do sonho bebido em bronze, prata e mundo ouro, espelha realeza. sustento das palavras não ditas Que ora despojada luta contra a sede lembranças das que ficaram. e a fome. Aqui não temos assoalhos compridos No tamborimento dos teus dedos nem jarros para de flores com água o contar das estrelas mudada frequentemente. o bater de todos os atabaques. Só a proteção do céu existe; Obá! pra males físicos, morais e espirituais. Obá!...Obá!... Em potes os ingredientes para o aluá. Não ponhas nada fora. Axé! A tina da barrela de cinza pra lavar Axé!...Axé!... a bacia de areia molhada pra lixívia. Expandam-se os males com garrafiVisíveis e invisíveis formas; nhas com água e galho de arruda colocado no centro da terra do mar da mesa do fogo caixotes do ar. cuias Fertilizando e enraizando a nova terra. tigelas de barro latas de doce do senhor deixadas. - Pra todas bandas a inocência Se chegue ao Quintal de Nagô! Negrinha, que escondes atrás da porta? em baixo das tuas palhas nos rasgões do tecido surrado nos cestos

QUINTAL DE NAGÔ

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Ela Por Vicência Jaguaribe
Ela apareceu de repente. Eu não a esperava. Tenho perdido o hábito de olhar o calendário. Apareceu esplêndida Num céu sem nuvens. Ela, só. Quis alcançá-la enquanto dirigia. Mas ela, indiferente, escondeu-se Por trás de uma árvore. Acelerei. Mas um prédio Substituiu a árvore. E outro prédio mais apareceu. E a sucessão de prédios Foi mais rápida do que eu. Quando, finalmente, Ficamos frente a frente E eu pude encará-la, Tive que dobrar à esquerda. Constrange-me dizê-lo: - Perdi-a numa curva do caminho.

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Guerrilheira Por Víctor Manoel G. Vilena

Guerrilheira de meus ardentes desejos, do silêncio e do tempo... Tua luta é minha paixão Tua arte carinhosa cheia de ardores é meu refúgio no tempo dos meus sonhos e apetites... Guerrilheira da beleza, Guerrilheira do fogo e da paixão, com teus cantos vitoriosos, a guerra você declara com amor, que espera impassível nas trincheiras do fogo, para combater no campo de batalha a insurgência do desamor, e com sons de fanfarra de ardentes desejos, você marcha ao campo de batalha conquistando territórios de prazer.

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UM SONHO...PARIS Por Vó Fia

Solange era o nome daquela menina linda, ela era o encanto de sua família e também dos amigos, porque era loirinha, pele rosada, dentinhos clarinhos e enormes olhos azuis, mas mesmo em sua infância ela já demonstrava ser uma pessoinha sonhadora, vivia imersa em sonhos e muitas vezes, se esquecia da vida . Seus sonhos cresceram com ela e no colégio era uma aluna inteligente, porém desatenta, parecia estar sempre em outra galáxia, mas como era muito gentil e alegre, os professores não se zangavam, mas não facilitavam e suas notas eram sempre baixas, porque notas não se ganha sem merecimento. Já adulta Solange continuou sonhando acordada, mas agora seu sonho era sempre o mesmo e se concentrava em Paris, que ela conhecia através de leituras, imagens fotográficas e filmes sobre a desejada Cidade Luz; sem condições financeiras ela jamais visitou a cidade e se contentava em sonhar. O tempo todo ela fantasiava viagens e passeios maravilhosos em Paris, fechada em seu quarto ela fechava os olhos e se sentia as margens do Rio Sena, de mãos dadas com um hipotético namorado a luz do luar, ao som de lindas canções cantadas por Edith Piaf, mas na vida real ela não tinha ninguém ao seu lado. Vivendo nesse mundo irreal ela quase não saia de casa e apesar de ser linda, nunca namorou e era motivo de piadas dos conterrâneos pela sua mania por Paris, porque além de sonhar ela falava sobre a cidade, como se conhecesse tudo por lá, citava o Museu do Louvre, a Catedral de Notre Dame e muito mais A areia do tempo correndo e Solange sonhando com Paris e se esquecendo de viver, com sua obsessão incurável ela só conversava sobre esse assunto e as pessoas passaram a se afastar dela; cada vez mais solitária, ela foi definhando e aos quarenta anos de idade parecia uma velha decrépita, mas não desistia de sonhar Viveu mais dois anos e por fim morreu só em seu quarto e ao ser encontrada pela família, segurava com as duas mãos uma miniatura da Torre Eiffel, como símbolo de uma paixão doentia e anormal por uma cidade nunca vista realmente, mas sempre desejada; Solange tinha tudo para ser feliz, mas viveu e morreu só com seus sonhos

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Lenço branco

com o verde das montanhas... mas também pode não ser con-

Por Walnélia Corrêa Pederneiras
deixo no traço da escrita aquilo que Verso e que também pode ser Inverso,não importa. Se a letra em palavras diz ou capta, é questão de momento inspirado Tudo ou Nada pode ser diferença mas pode ser sinônimo... Nem sempre é verde a folha pode ser seca ou branca de simples papel ou traço em hediondo espaço Dizer da dor às vezes quer dizer observá-la sim, ela a Dor por que interpretá-la dentro do verso se foi captada fora?!.. muito embora esteja dentro no Aqui e Agora... ...é melhor que deixe o poeta sem julgá-lo em seus vestidos de festa ou desnudado de qualquer compromisso situação ou tempo Deixe que ele continue em acenos feitos de letras como se fossem "lenços brancos" em contraste

traste afinal, a cor é relativa...lenço verde, lenço azul, é o gesto é a escrita, é o ato da escrita em momento inspirado... e o é passa a ser É. Deixe que ele continue livre sem estilos ou metas Simplesmente vive e morre mil vezes, sem que isso interfira no caminho traçado chamado Vida de cada Ser... Muito embora tenha um nome marcante e assinante, para escrever necessita do impessoal, da transparência do Ser. Permita que o poeta acabe o verso assim, sem querer...

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Seja você também um dos autores do Varal! Traga seus textos, traga sua arte! Publique na revista, no livro impresso ou no site! Informações : varaldobrasil@bluewin.ch

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