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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE

DIREITO DA NONA VARA CÍVEL DA COMARCA DE

CUIABÁ, ESTADO DE MATO GROSSO.

“A boa fé se presume; a má fé se prova”

(parêmia milenar)

Autos n.º. 1031502-38.2017.8.11.0041

ENOCK CAVALCANTI DA SILVA, já qualificado nos

autos, por intermédio de seu advogado que ao final assina,

vem mui respeitosamente à presença de Vossa Excelência,

inconformado com a sentença que lhe condenou ao

pagamento a título de danos morais no valor de R$

28.000,00 (vinte e oito mil reais), pelo fato de relatar e

noticiar fatos judiciais atinente a malversação de recursos

públicos, interpor, tempestivamente, com fundamento no


artigo 1009 e seguintes do Código de Processo Civil,

RECURSO DE APELAÇÃO, requerendo, para tanto, que

sejam encaminhadas ao EGRÉGIO TRIBUNAL DE

JUSTIÇA DE MATO GROSSO as inclusas razões recursais

que fundamentam o pedido de reforma, as custas relativas

ao preparo recursal, bem como o seu recebimento em seu

duplo efeito, na conformidade dos artigos 1.012 e 1.013 do

Código de Processo Civil.

Nestes termos,

P. Deferimento.

Cuiabá-MT, 27 de fevereiro de 2019

DIOGO PEIXOTO BOTELHO

OAB/MT 15.172

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE

MATO GROSSO.
PROCESSO Nº. 1031502-38.2017.8.11.0041

APELANTE: ENOCK CAVALCANTI DA SILVA

APELADO: JOÃO DORILEO LEAL

RAZÕES DO RECURSO DE APELAÇÃO

Colenda Câmara,

Nobres Desembargadores,

D. Relator,

Cuida-se de sentença proferida pelo Juízo da nona vara

cível da comarca de Cuiabá/MT, quem acolhendo as razões

e os pedidos formulados na petição inicial, condenou o

Apelante ao pagamento de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil

reais) a título de indenização, em favor do apelado João

Dorileo Leal, fundamentando, para tanto, o seguinte

argumentos:

“(...) Da análise dos autos e das alegações, verifica-se que o


requerido alega que “não inventou nada, mas apenas
reproduziu o que foi informado pelas autoridades
responsáveis pelos procedimentos investigatórios e que
consta da delação premiada feita pelo ex-governador Sr.
Silval Barbosa, às quais o próprio Autor da ação, como se
vê, faz e ela referência e...que está a todos disponíveis na
internet”.
O requerido argumenta ter usado como base a delação do ex-
governador Silval Barbosa, dando a esta a dimensão que
julgou merecedora, procurando retratá-la para seus
leitores tal como foram os declaratórios às autoridades
policiais. Que ao narrar tais fatos, não adentrou ao mérito
do julgamento, reservando-se ao dever de informar e
comentar fatos de interesse amplo da sociedade. O
Superior Tribunal de Justiça, à procura de solução que
melhor se ajusta às reflexões precedentes, estabeleceu,
para situações de conflito entre a liberdade de informação
e os direitos da personalidade, entre outros, os seguintes
elementos de ponderação: o compromisso ético com a
informação verossímil, a licitude do meio empregado para
a obtenção da notícia e o interesse público na divulgação
da matéria.
No caso presente, deveria o requerido, a rigor do que dispõe o
artigo 373, II do CPC, comprovar que as matérias
veiculadas em seu canal de reportagens, apenas seguiram
o que foi de fato delatado pelo ex-governador, trazendo aos
autos a íntegra de toda a delação a fim de comprovar que
apenas informou sobre os acontecimentos, o que não foi
feito.
O autor comprovou através de documentos que foram
veiculadas matérias tendenciosas em seu desfavor, e cabia
ao requerido por sua vez, comprovar que as notícias
apenas seguiram o que foi homologado e legitimado pelo
Poder Judiciário, no entanto, não se desincumbiu de seu
ônus probatório, e a procedência da ação é a medida mais
acertada a se tomar.
A matéria divulgada induz os leitores a terem como verídicos os
fatos e nuances ali descritos, sem qualquer comprovação, o
que caracteriza abuso do exercício de informar. A matéria
se refere ao autor, sendo certo que a forma como foi escrita
a reportagem induz e repercute negativamente na vida do
requerente, atingindo-lhe a honra e reputação.
Sobre o tema, o STJ já se posicionou:
Eis o entendimento jurisprudencial em casos similares:
(...)
Considerando que o requerido afirma que apenas veiculou
matéria de conhecimento público, nesse aspecto, cabe
ressaltar que aquele que tem o encargo da disseminação da
informação deve ser responsável pelos danos decorrentes
da mesma, já que o portal no qual o conteúdo é
disponibilizado aufere benefícios econômicos com o
aumento do acesso de usuários.
O requerido não se desvencilhou de seu ônus probatório, uma
vez que não colacionou ao caderno processual provas
mínimas da simples reprodução de suposta delação,
ficando tudo no campo da mera argumentação.
Diante do conjunto probatório lastreado nos autos, tem-se que
o requerido atingiu a credibilidade da parte autora perante
terceiros, resultando em ofensa grave a sua honra objetiva,
ao extrapolar o exercício do direito de liberdade de
imprensa. Notadamente pela vinculação, sem lastro
probatório suficiente e preciso, a esquema fraudulento de
desvio de dinheiro.
Assim, da análise do conjunto fático-probatório, presentes a
lesividade e relevância dos atos praticados pelo
demandado, donde exsurge o seu dever de indenizar, nos
termos do artigo 186 e 953 do Código Civil.
Configurado o ilícito, irrelevante perquirir-se sobre a existência
do dano moral. Não se mensura, com efeito, a intensidade
da dor ou do sofrimento íntimo. Por isso, também já se
manifestou o Eg. STJ, no sentido de que “A jurisprudência
desta Corte está consolidada no sentido de que na
concepção moderna da reparação do dano moral prevalece
a orientação de que a responsabilização do agente se
opera por força do simples fato da violação, de modo a
tornar-se desnecessária a prova do prejuízo em concreto”
(REsp nº 196.024-MG (DJ 2/8/99), relator Ministro Cesar
Asfor Rocha).
Quanto ao valor da indenização em danos morais, o
arbitramento deve levar em conta as circunstâncias do
caso concreto, as condições das partes, o grau de culpa e,
principalmente, a finalidade da reparação do dano moral,
que é a de compensar o dano ocorrido, bem como inibir a
conduta abusiva.
Deve-se atentar, ainda, ao princípio da razoabilidade, a fim de
que o valor não seja meramente simbólico, passível de
retirar o caráter reparatório da sanção, mas, também, de
modo que não seja extremamente gravoso ao ofensor.
Na mesma linha lógica, o professor Carlos Alberto Bittar
explica que:
“(...) a indenização por danos morais deve traduzir-se em
montante que represente advertência ao lesante e à
sociedade de que se não se aceita o comportamento
assumido, ou o evento lesivo advindo. Consubstancia-se,
portanto, em importância compatível com o vulto dos
interesses em conflito, refletindo-se, de modo expresso, no
patrimônio do lesante, a fim de que sinta, efetivamente, a
resposta da ordem jurídica aos efeitos do resultado lesivo
produzido. Deve, pois, ser quantia economicamente
significativa, em razão das potencialidades do patrimônio
do lesante.” ( in Reparação civil por danos morais. São
Paulo: RT, 1993. p. 220) negritei.
A propósito, trago precedente do nosso e. Tribunal:

“APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR


DANOS MORAIS DESCONTO INDEVIDO -
EMPRÉSTIMO CONTRAÍDO POR TERCEIRO
ESTELIONATO - RESPONSABILIDADE DA
INSTITUIÇÃO BANCÁRIA OBRIGAÇÃO DE INDENIZAR
- DANO MORAL - VALOR -
RAZOABILIDADE - HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS -
CRITÉRIO LEGAL - COMPLEXIDADE RELATIVA E
BASE DOCUMENTAL – RECURSOS DESPROVIDOS.
Cabe à instituição bancária conferir adequadamente a
procedência e veracidade dos dados cadastrais no
momento da abertura de conta corrente e da contratação
de empréstimo, sob pena de se responsabilizar pelos danos
que causar a terceiro. O arbitramento e m danos morais
deve levar em conta as circunstâncias do caso concreto, as
condições das partes, o grau de culpa e, principalmente, a
finalidade da reparação do dano moral, que é a de
compensar o dano ocorrido, bem como inibir a conduta
abusiva, à luz do princípio da razoabilidade. Se a causa
tem complexidade relativa e o conjunto probatório é
sustentado em base documental, o percentual mínino para
fixação de honorários atende o critério legal previsto no
art. 20, § 3º do CPC. (TJMT - Ap, 39848/2011 DES.
MARCOS MACHADO j. 17/08/2011) destaquei.
No caso vertente, se tratando de veiculação de notícia
inverídica sobre a parte autora, seguem os seguintes
precedentes do E. Tribunal de Justiça deste Estado:
APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS
MORAIS – PROCEDÊNCIA – VEICULAÇÃO DE
MATÉRIA INVERÍDICA NA INTERNET –
CONFIRMAÇÃO DO ERRO PELA REQUERIDA – DANO
MORAL CONFIGURADO – VERBA INDENIZATÓRIA –
PEDIDO DE REDUÇÃO – DESCABIMENTO –
CONFORMIDADE COM OS PRINCÍPIOS DA
RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE –
RECURSO DESPROVIDO. Configurada a veiculação, na
internet, de notícia inverídica sobre o autor, uma vez que a
própria requerida confirma que cometeu um equívoco ao
noticiar que este era usuário de entorpecentes e que teria
agredido sua genitora, quando na verdade tais fatos foram
praticados pelo seu irmão, escorreita a condenação
empresa de comunicação ao pagamento de indenização.
Nesta hipótese, o dano moral decorre unicamente do ato
ilícito consistente na publicação jornalística contendo
informações erradas. [...]. (TJMT - Ap 52439/2015, DESA.
MARILSEN ANDRADE ADDARIO, SEGUNDA CÂMARA
CÍVEL, Julgado em 14/10/2015, Publicado no DJE
22/10/2015).
RECURSO DE APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO INIBITÓRIA C/C
DANO MORAL - MATÉRIA PUBLICADA EM SITIO DE
NOTÍCIAS NA INTERNET - NARRATIVA
SENSACIONALÍSTA - EXTRAPOLA OS DADOS
TÉCNICOS - ABUSO DO DIREITO DE INFORMAR -
ATO ILÍCITO CARACTERIZADO - DANOS MORAIS -
DEVER DE INDENIZAR - QUANTUM INDENIZATÓRIO
- REDUÇÃO DO VALOR - RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE - HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS ADEQUADOS - RECURSO PROVIDO
PARCIALMENTE. O dano moral resta caracterizado
quando decorrente de reportagem jornalística de conteúdo
sensacionalista, publicada em sitio de notícias mantido na
Internet, que vai além de informativo técnico especializado,
cuja análise do conteúdo afronta a honra do autor,
imputando-lhe condutas ilícitas, sem qualquer prova a
respeito, extrapolando a liberdade de informação e
manifestação do pensamento que não são absolutas ou
ilimitadas. [...]. (TJMT - Ap 71401/2015, DES.
SEBASTIÃO DE MORAES FILHO, SEGUNDA CÂMARA
CÍVEL, Julgado em 07/10/2015, Publicado no DJE
10/11/2015).
Diante do exposto, com fulcro no artigo 487, I do CPC, JULGO
PROCEDENTE o pedido inicial com resolução do mérito,
para CONDENAR o demandado a pagar ao autor o valor
de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil reais) a título de danos
morais, acrescido de juros de 1% a.m. a partir do evento
danoso (Súmula 54 STJ) e correção monetária pelo índice
INPC/IBGE a partir desta data (Súmula 362 STJ).
“(...)

Como se observa, basicamente, o Apelante foi condenado


ao pagamento de vultosa quantia por ter, em tese, não ter

comprovado a veracidade dos fatos noticiados em seu Blog

jornalístico. Vale dizer, “O requerido não se desvencilhou

de seu ônus probatório, uma vez que não colacionou ao

caderno processual provas mínimas da simples reprodução

de suposta delação, ficando tudo no campo da mera

argumentação”.

Todavia, Excelências, data venia, o Juízo sentenciante

incorreu em equívoco na análise dos autos e das provas

documentais instruídas, pois, ao contrário da lógica

delineada no decisum, o Apelante não procedeu nenhum

juízo de valor depreciativo e muito menos criou factoides

ou fatos para atingir a honra do Apelado. Conforme está

sobejamente carreado aos autos e amplamente

popularizado, não pelo Apelante, mas, sim, pelo Ministério

Público Estadual e Procuradoria Geral da República, os

fatos noticiados que dizem respeito ao Apelado tem como


origem a delação, segundo palavras do Min. Luiz FUX,

monstruosa, do ex-Governador Silval Barbosa.

Com efeito, será demonstrado a seguir que a sentença

condenatória cível é injusta, despida de densidade jurídica e

cerceadora da atividade jornalística, de modo que a sua

reforma é medida de justiça e a bem do interesse público

que se impõe.

1. Das razões recursais:

a.1) Da origem do fato noticiado:

Ínclitos Julgadores, segunda consta dos autos, sendo fato

incontroverso, a origem do fato relatado e divulgado pelo

Apelante é indicada pelo Apelado na petição inicial, “Se é

certo que algumas acusações inverídicas constam da delação

premiada realizada pelo ex-governador Silval Barbosa ...”


A partir dessa arguição, invariavelmente, já no nascedouro

da ação cível conclui-se que o fato relatado na

PAGINADOE não foi criado, inventado, esboçado ou

mesmo articulado pelo Apelante, conforme conclusão

levada a efeito na sentença proferida. Ainda na fase

embrionária da ação cível verifica-se que o Apelante se

limitou a reproduzir o que foi informado pelas

autoridades responsáveis e o que consta da delação

premiada feita pelo ex-Governador Silval Barbosa e

nada mais! São informações que atualmente estão em

domínio público e ao alvedrio crítico e valorativo de toda a

sociedade.

Com efeito, diante de tal constatação resta demonstrado o

grave equívoco do eixo central que estrutura toda a

sentença que se busca reforma – “O requerido não se

desvencilhou de seu ônus probatório, uma vez que não


colacionou ao caderno processual provas mínimas da

simples reprodução de suposta delação, ficando tudo no

campo da mera argumentação” –, afinal, quem comprovou

a origem do fato noticiado foi o próprio Apelado na sua

petição inicial, ou seja, tudo é decorrente da delação

monstruosa de Silval Barbosa!

A notícia abebera-se numa única fonte e nisso, como se

mostrou, coincidem ambas as partes. A delação de Silval

Barbosa, consta do Termo de Declaração anexo nº 32,

incluído no volume III, do Anexo I da Notícia de Fato - NF-

PGR 1.00.000.010999/2016 - 15, prestada em 11 de maio

de 2017, às 14h59min, na sede da Procuradoria da

República em Mato Grosso e depois constante do Termo de

Delação Premiada, anexo 2, pagina 92, homologada pelo

Ministro Luiz Fux do STF.

Digno de registro, pois, é termo de declaração em que o


Delator noticia o crime envolvendo João Dorileo Leal, ora

apelado, in verbis:
Eis, então, a origem do fato noticiado!

a.2) Da existência dos fatos declinados na

delação de Silval Barbosa:


É incontroverso que a origem do fato reportado pelo

Apelante decorre da delação de Silval Barbosa. Também, é

comprovada a ocorrência do fato envolvendo o Apelado

pelo ex-Governador Silval Barbosa.

Logo, não foi o Apelante quem envolveu o Apelado no fato

noticiado!

Não foi o Apelante quem declinou o nome, a honra, a moral

em fato criminoso, mas, sim, Silval Barbosa!

Nessa senda, interessante registrar que quando da

publicação do artigo/notícia envolvendo o Apelado, no dia

03 do mês de setembro do 2017, o jornalista e Apelante

exerceu o direito/dever de informar fatos de interesse da

sociedade que foram repassados das autoridades para a

imprensa, de forma que Enock Cavalcanti não inventou

fatos para difamar ou caluniar a imagem do Apelado.


Portanto, o fato noticiado não deriva do imaginário, como

quis fazer crer a sentença, do Apelante. O fato noticiado

existe e é de autoria de Silval Barbosa!

a.3) Da veracidade do fato noticiado:

Diz a sentença o seguinte, in verbis:

“(...) No caso presente, deveria o requerido, a rigor do que

dispõe o artigo 373, II do CPC, comprovar que as

matérias veiculadas em seu canal de reportagens, apenas

seguiram o que foi de fato delatado pelo ex-governador,

trazendo aos autos a íntegra de toda a delação a fim de

comprovar que apenas informou sobre os acontecimentos,

o que não foi feito.

O autor comprovou através de documentos que foram

veiculadas matérias tendenciosas em seu desfavor, e cabia

ao requerido por sua vez, comprovar que as notícias


apenas seguiram o que foi homologado e legitimado pelo

Poder Judiciário, no entanto, não se desincumbiu de seu

ônus probatório, e a procedência da ação é a medida mais

acertada a se tomar.

A matéria divulgada induz os leitores a terem como verídicos

os fatos e nuances ali descritos, sem qualquer

comprovação, o que caracteriza abuso do exercício de

informar. A matéria se refere ao autor, sendo certo que a

forma como foi escrita a reportagem induz e repercute

negativamente na vida do requerente, atingindo-lhe a

honra e reputação.(...)”

Pelo que se depreende da fundamentação levada a efeito no

decisum, constata-se que o mui digno Magistrado processou

o raciocínio lógico jurídico da seguinte forma, em síntese:

“Deveria o Apelante comprovar o fato noticiado em sua

página/blog, e como tal não foi comprovado, as alegações

do Autor merecem procedência!”


Pois bem, conforme demonstrado no itens acima (a.1 e a.2),

ao contrário do aludido na sentença, o Apelante comprovou

de onde surgiu o fato noticiado e, ainda, destacou na

reportagem que tudo decorria da delação de Silval

Barbosa!

Assim, no que diz respeito a origem e a existência do fato

noticiado não restam dúvidas quanto a sua procedência!

E mais, o Apelante anexou aos autos cópia de Ação Civil

Pública em que o Ministério Público objetiva a condenação

do Apelado por suposto ato ilícito do Apelado no

denominado escândalo das gráficas! Ou seja, como concluir

que o Apelante não se desincumbiu de comprovar a origem

e a existência do fato noticiado em seu Blog?

Por sua vez, superada a constatação da origem e da

existência do fato, é preciso registrar que não é ônus da


prova do Apelante comprovar a veracidade das delações de

Silval Barbosa.

Não é ônus do Apelante comprovar a veracidade do suposto

empréstimo de R$ 4.000.000,000 (quatro milhões de reais)

junto ao BicBANCO e repassado à João Dorileo Leal!

Quem deve se desincumbir do ônus da prova é o Ministério

Público Federal em ação própria para tanto! A conclusão

pela veracidade do fato noticiado é uma reserva da Justiça,

não do Apelante como tentou fazer crer a sentença

objurgada!

a.4) Da conotação jornalística ao fato noticiado:

Depreende-se da leitura do fato noticiado no BLOG do

Apelante que houve a correta utilização dos sinais

linguísticos e do vernáculo português na instrumentalização


de suas expressões.

O Apelante, digno e experimentado jornalista, na tessitura

de sua reportagem teve o cuidado de ourives na ministração

de suas palavras, pois, abordou o fato noticiado dando voz a

quem de fato procedeu/realizou a denúncia envolvendo o

Apelado.

Excelências, o Apelante inaugurou sua

reportagem/artigo/coluna fazendo clara e evidente

referência à delação de Silval Barbosa, senão vejamos:

“Parece que o ex-governador Silval Barbosa resolveu


reforçar a campanha promovida atualmente pelo Grupo
Gazeta de Comunicação – Seja um Delator Cidadão – e
incluiu o nome do diretor de A Gazeta na delação
premiada apresentada junto ao Supremo Tribunal
Federal, como possivelmente envolvido no esquema de
propinas que atualmente está sendo denunciado em Mato
Grosso.”
Evidente, ainda, que o Apelante cuidou de utilizar o

advérbio “possivelmente” para não incorrer num juízo

peremptório acerca do fato imputado por Silval Barbosa à

Joao Dorileo Leal!

Outrossim, nos demais parágrafos a seguir do artículo, o

Apelante valeu-se de classes gramaticais que não indicam a

tessitura de uma valoração negativa em relação a pessoa do

Apelado, mas, sim, reverberando aquilo que foi delatado

por Silval Barbosa na chamada Delação Monstruosa!

Vejamos:

“O dono da empresa de comunicação Grupo Gazeta, João

Dorileo Leal, segundo conta o exgovernador Silval, no

anexo 2 página 92 em sua delação, teria recebido R$ 4

milhões do Governo do Estado, por meio de uma operação

fraudulenta, sem a prestação efetiva do serviço junto ao


Poder Público. A delação premiada do ex-governador

Silval foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal

(STF), através do ministro Luis Fux, e o empresário João

Dorileo Leal terá certamente que se explicar na Justiça, em

face da ação do Ministério Público Federal. Em seu

relato, Silval conta que a gráfica Milenium, pertencente

ao Grupo Gazeta, do empresário Dorileo, teria prestado

serviços gráficos à campanha majoritária do grupo

político de Silval ao Governo de Mato Grosso, em 2010.

Além do ex-governador, Dorileo atendeu a candidatos

estaduais e federais da coligação encabeçada pelo PMDB.

Após o período eleitoral, Silval disse que ficou devendo

R$ 4 milhões a Dorileo, e que o dono do Grupo Gazeta

passou a cobrá-lo insistentemente.

A saída para quitar a dívida, relata o ex-governador, teria sido

fazer um empréstimo junto ao Bic Banco, de

aproximadamente R$ 4 milhões, em nome do Grupo


Gazeta. Esse valor, conforme a delação, foi repassado a

Dorileo em forma de uma prestação de serviço nunca

executado, de acordo com o que garantiu Silval em sua

delação. O repasse, a mando de Silva, teria sido feito pelo

Secretário de Estado de Comunicação à época, Osmar

Carvalho.”

As expressões “segundo conta”, “em seu relato”,

“Silval disse”, “relata o ex”, “conforme a delação” e

“de acordo com o que garantiu Silval”, referenciaram,

claramente, os dizeres de Silval Barbosa, e jamais foi um

produto criativo do subscritor do artículo, ora Apelante,

como postulou o Apelado em sua inicial e como

equivocadamente anuiu a sentença objurgada!

Quem afirmou que o Apelado, Sr. Dorileo Leal (sic)

locupletou-se de recursos públicos oriundos de caixa 2 e


demais mazelas típicas do submundo da política, não foi o

Apelante! Não foi o Jornalista!

Ademais, as constatações levadas a efeito pelo Apelante na

reportagem dizem respeito à fatos conhecidos da ambiência

jornalística e da sociedade mato-grossense. Nesse sentido,

são os parágrafos a seguir transcritos, in verbis:

“Notável, no caso do Dorileo, é que a sua citação na chamada

“delação monstruosa” do Silval, não mereceu, até aqui,

nenhuma citação nos veículos do Grupo Gazeta de

Comunicação e nos demais veiculos de comunicação da

Grande Cuiabá e de Mato Grosso. O pacto do silêncio

beneficia Dorileo.

Recorde-se que o recente envolvimento do empresário João

Dorileo Leal, no chamado Escandalo das Gráficas,

apurado pela chamada Operação Imperador, que chegou a

levar para a prisão o exdeputado estadual e corrupto


confesso José Geraldo Riva, também tem sido abafado pela

mídia tradicional de Mato Grosso.

Como se observa são constatações dignas de quem possui o

mínimo de criticidade dos fatos atinentes ao interesse

público! Ora, realmente, muito embora a Delação

Monstruosa de Silval Barbosa ter repercussão da mídia

nacional, inclusive fazendo referências ao caos

experimentado pela população mato-grossense decorrentes

da má gestão dos recursos públicos, infelizmente, a citação

de Dorileo Leal na referida delação não teve o seu devido

noticiamento em outros veículos de comunicação

responsáveis, inclusive, por boa parte dos recursos

publicitários do governo...

Com efeito, não se pode tratar como algo ilícito a denúncia

da timidez de veículo de comunicação, colegas, em

denunciar fatos de relevante interesse público.


Ademais, no que toca a menção na reportagem acerca do

escândalo das gráficas, novamente, o Apelante apenas

reporta a existência fática e jurídica de ação cível com a

finalidade de apurar desmandos e malversação de recursos

públicos! Nada mais! Quem teve a iniciativa de imputar

fatos ilícitos ao Apelado foi o Ministério Público no

exercício de seu mister, e não o ora Apelante!

E, por fim, no que pertine aos dois últimos parágrafos do

artigo, a toda evidencia, ali, estão reportados, também, fatos

que até os minerais sabem! É indiscutível que o Apelado

construiu seu vasto campo de comunicação na década de

90, donde, neste período foram levados ao debate público o

escândalo da SECOM, o chamado SECOMGATE! E mais,

já está nos anais da história os efeitos atômicos da operação

“Arca de Noé”, bem como os rumores que se avizinharam

quando da nova gestão do então, recém-eleito governador,


Blairo Maggi assumiu o Estado.

“João Dorileo Leal é empresário hegemônico na área de

Comunicação, em nosso Estado, e atualmente, detém o

controle de duas emissoras de televisão na capital – TV

Record e TV Pantanal – e pelo menos três emissoras de

rádio – Gazeta FM, Capital FM e Cultura FM, além de

outros variados negócios.

A construção do poderio econômico do Joao Dorileo Leal,

notadamente durante a administração do então governador

Dante de Oliveira e do seu chefe da Casa Civil, Antero

Paes de Barros, já lhe valeu outros processos na Justiça

comum e na Justiça Federal, tendo sido alvo do chamado

Escandalo Secomgate, e da Operação Arca de Noé, que

apurou seu possivel envolvimento com a organização

criminosa comandada pelo Comendador João Arcanjo

Ribeiro, alvo de denúncia do então procurador da

República Jose Pedro Taques, aceita pelo entao juiz federal


Júlier Sebastião da Silva.

Quando disputou o Governo do Estado pela primeira vez, uma

das bandeiras que sustentaram a campanha do sojicultor

Blairo Maggi, em tom de ironia, foi a “privatização” de A

Gazeta. Maggi chegou a apontar relação promiscua do

grupo de comunicação comandado por Dorileo com o

governo comandado por Dante e Antero. Depois, acabou

estabelecendo conciliação com A Gazeta.”

Não há, assim, da leitura detida do artículo nenhuma

menção desonrosa, difamatória ou desabonadora/violadora

dos direitos da personalidade do Apelado, de forma que não

se justifica a condenação do Apelante por suposto dano

moral sofrido pelo Apelado!

Evidenciado está a natureza informativa da reportagem, e

não de cunho opinativo ou mesmo valorativo! É hialina a

moldura descritiva do texto reportado pelo Apelante aos


leitores que acompanham seu BLOG.

Não houve, enfim, qualquer conotação pejorativa do relato

prestado por Silval Barbosa e transmitido pelo Jornalista

em sua PAGINADOE!

Enock Cavalcanti, jornalista e blogueiro, não falseou fatos,

apenas replicou o que as autoridades informaram a

imprensa e isso não foi dito pelo Apelante mas, sim, dito e

afirmado sob juramento por Silval Barbosa em sua Delação

às autoridades Federais.

2. Considerações finais:

Demonstrada, comprovada e discutida a origem, existência

e eventual veracidade do fato noticiado na reportagem

veiculada pelo Apelante, inclusive destacando sob os

auspícios das regras gramaticais que não houve qualquer

tessitura de opinião valorativa de cunho depreciativo ou

mesmo desonroso.
Nessa senda, cumpre registrar que as afirmativas do

Apelado não passam, de sofismas capengas. Ora “não há

interesse público ou jornalístico” no artigo punido pela

sentença? Há pleno interesse público, pois a notícia sobre

esse fato escandaloso trata-se de serviço dos mais

relevantes para a sociedade e para o Judiciário.

Ademais, como se demonstrou, os fatos já eram, por

ocasião da publicação do artigo, públicos e notórios,

registros da História recente de Mato Grosso.

O Apelante agiu conforme baliza a Constituição no que

regula a veiculação de reportagens e a liberdade de reportar

fatos que já estão no domínio público, de forma que

inexiste qualquer ato ilícito à justificar a condenação

imposta pelo Juízo de primeira instancia.

Por fim, digno de registro é o entendimento do colendo


Supremo Tribunal Federal, na lição, sempre precisa do

Ministro Celso de Mello:

“(...) Uma vez dela ausente o “animus injuriandi vel

diffamandi”, tal como ressalta o magistério doutrinário

(Cláudio Luiz Bueno de Godoy, “A Liberdade de Imprensa

e os Direitos da Personalidade”, p. 100/101, item n. 4.2.4,

2001, Atlas; Vidal Serrano Nunes Júnior, “A Proteção

Constitucional da Informação e o Direito à Crítica

Jornalística”, p. 88/89, 1997, Editora FTD; René Ariel

Dotti, “Proteção da Vida Privada e Liberdade de

Informação”, p. 207/210, item n. 33, 1980, RT, v.g.), a

crítica que os meios de comunicação social dirigem às

pessoas públicas, especialmente às autoridades e aos

agentes do Estado, por mais acerba, dura e veemente

que possa ser, deixa de sofrer, quanto ao seu concreto

exercício, as limitações externas que ordinariamente

resultam dos direitos da personalidade. [ADPF 130-7


– DF]. (...)

3. Dos Pedidos:

Diante do exposto, requer seja recebidas e processadas as

razões de apelação para o fim de conhecê-lo e reexaminar o

conjunto probatório instruído nos autos e dar provimento ao

recurso reformando-se in totum a sentença que condenou o

Apelante ao pagamento a título de indenização por danos

morais no valor de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil reais).

No entanto, caso não seja o entendimento de Vossas

Excelências em dar provimento ao apelo recursal,

subsidiariamente requer a minoração do valor fixado a

título de indenização por danos morais no patamar que

arbitrarem devido e justo, levando-se em consideração o

ofício que Apelante e Apelados exercem no esteio

jornalístico de Mato Grosso.


Por fim, para fins recursais às instancias extraordinárias,

desde já prequestiona os artigos 5º, inciso IX e X, e 220,

§2º, ambos da Constituição Federal, e artigos 186 e 188,

ambos do Código Civil e artigo 373 do Código de Processo

Civil.

Nestes termos,

P. Deferimento.

Cuiabá, 1º de março de 2018.

DIOGO PEIXOTO BOTELHO

OAB/MT 15.172