JOSÉ MURILO DE CARVALHO FORMAÇÃO DAS ALMAS

RESENHA
A obra trata do processo de legitimação do regime republicano por meio dos símbolos. Esses símbolos seriam responsáveis pela adesão, não só dos setores dominantes, quando do povo à república, e ganhariam corpo em reflexo do ideário de cada corrente republicana, a saber, a liberal à americana, a jacobina à francesa e a positivista. UTOPIAS REPUBLICANAS O autor, no primeiro capítulo, apresenta o conflito existente entre a aspiração da liberdade pelos modelos antigo e moderno. De acordo com o primeiro, a liberdade se daria pela ampla participação do povo nos negócios do Estado, à semelhança da república romana. Para tal liberdade ser possível, era necessária a virtude, tal qual Maquiavel apontou. O segundo modelo é o moderno, ou seja, a soberania se dá através da representação, já que o homem, envolvido com os seus negócios, não tem mais tempo ou disposição para se envolver nos negócios políticos. Tem-se o predomínio do interesse individual e da busca de felicidade pessoal. Fonte de inspiração para esse modelo foi o utilitarismo de Hume. Esse modelo, de acordo com o qual o público é a soma dos interesses individuais, apresenta dificuldades para a concepção do coletivo. Hamilton o molda, afirmando que além do interesse pessoal, há o amor à glória e a fama, que pode ser um conciliador entre o privado e o público. Esse pensamento consiste no modelo liberal americano. MODELOS O modelo liberal americano, visto como o de uma nação sem patriotas, é a visão de uma coleção de indivíduos em busca de uma organização política que garantisse seus interesses. Esse modelo serviu melhor aos proprietários rurais, principalmente os paulistas, mineiros e gaúchos, para os quais o federalismo era o aspecto mais importante. Em oposição a ele, mais se aproximando da concepção de liberdade antiga, foi o modelo de república francês, à imagem da primeira República, ou seja, da fase jacobina, com ampla participação popular. Essa modelo foi encampado pelos setores desafetos à monarquia (profissionais liberais, comerciantes, jornalistas, professores, estudantes, setores urbanos), excluídos do processo produtivo ou que tinham suas possibilidades de ascensão política e social limitadas pelo sistema. Tais empecilhos eram por eles atribuídos ao regime monárquico. O modelo positivista se apresentou como uma forma de criar a governabilidade, ou seja, tornar a república um sistema viável de governo. Esse pensamento se aproximava da visão de Benjamin Constant, mas se afastava deste na rejeição do governo parlamentar. Os positivistas ortodoxos desejavam a ditadura monocrática, republicana, conservador, no sentido de um governo da ordem cuja tarefa é fazer a transição para a sociedade positiva. Introduzia o comtismo as formas de vivência comunitária (integração de todos na sociedade), a família, a pátria e a humanidade. Fugia do individualismo mas também não colocava a vontade geral de Rousseau em seu lugar. O positivismo procurou o progresso, a separação entre a Igreja e o Estado, um Executivo forte, a incorporação do proletariado à sociedade moderna, tudo encampado pelo Estado. Curiosamente, foi abraçado sobretudo pelos militares pelo fato de terem formação técnica e pela ânsia pelo desenvolvimento industrial. Murilo ressalta que os grupos republicanos que buscam uma saída para a Monarquia acabavam dando ênfase ao Estado, no que o autor chama de ESTADANIA, graças à tradição estatista portuguesa, em que todos dependiam do Estado para obter renda e abrir perspectivas de carreira. Segundo ele, a inserção de todos eles na política se dava mais pela porta do Estado do que pela afirmação de um direito de cidadão. Explica a dificuldade brasileira na adaptação aos dois modelos de liberdade a inexistência no Brasil do sentimento de pertencer a uma nação ainda quando da proclamação da República. A busca de uma identidade coletiva para o país, de uma base para a construção da nação, seria tarefa que iria perseguir a geração intelectual da época, diante do desencanto com o novo regime político. AS PROCLAMAÇÕES DA REPÚBLICA

Eles que teriam convencido Deodoro e evitado que o episódio não passasse de quartelada. Tratava-se de construir uma versão oficial dos fatos . Os republicanos tratariam de minimizar a participação do Exército. por isso. pois só ele tinha condições de galvanizar a tropa pela liderança que ele exercia. a Abolição. Tiradentes simbolizava a Independência. em oposição a Frei Caneca. Os civis pouco influíram. e seria bem aceito em todas as camadas e classes do novo regime. . Para legitimar o movimento republicano. representando a batalha entre a República e a Monarquia. A figura de Deodoro não seria aceita. Essa corrente republicana. Eles reconhecem a importância do Marechal. instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Nesse vão surgem as versões republicana.a luta pelo estabelecimento do mito de origem. desejavam uma ditadura republicana. de mártir. fornecendo os elementos ideológicos à revolução. Herói que se preze tem que ter a cara da nação. ou seja. chamada de socrática em oposição à democrática. aquela não-positivista partidária de uma república representativa à maneira americana. Quintino aparecia como aquele que fez Deodoro se decidir. Era fundamental que a presença de republicanos históricos constasse do próprio evento. um ato estritamente militar. Os argumentos de Norberto. As hesitações de Benjamin se dão pelo fato de ele ser positivista e se opor ao militarismo. encarnações de idéias e aspirações. Quintino sugere até que a Questão Militar fora tática republicana de agitar os quartéis contra o governo. Outro fator é o fato de a Inconfidência jamais ter ocorrido.Depois da proclamação da República os vários grupos envolvidos no golpe tratariam de criar a versão que mais lhes atenderia aos interesses. mediante a eliminação dos privilégios da burguesia. O deodorismo foi encampado pelos setores militares desvinculados da propaganda republicana. De acordo com essa versão. A república sociocrática dos positivistas era incompatível com a república liberal à americana dos republicanos paulistas. pelos oficiais superiores que tinham lutado na guerra do Paraguai. fulcros de identificação coletiva. daí a propagação de vários mitos sobre a atuação de cada peça na derrubada da monarquia. Pedro I. que rebaixava Tiradentes a uma figura secundária no movimento inconfidente. a República não poderia aparecer como um simples ato militar. a fim de evitar a ironia de uma proclamação alheia ao esforço que desenvolviam havia tantos anos. Eles se agruparam em torno da figura de Quintino Bocaiúva. sob a liderança de Deodoro. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico. muitos deles envolvidos na Questão Militar. Não negavam a presença militar. Para o grupo que colocou Benjamin Constant como a principal figura da proclamação da República. Murilo também atribui ao fator geográfico. Os deodoristas dizem que nada teria sido feito sem o Marechal. um certo messianismo. Esse grupo de republicanos históricos se opõem mais à figura de Benjamin do que de Deodoro. A ele se deveu o fato de o 15 de Novembro ter ido além de uma quartelada destinada a derrubar o ministério. corporativo. pontos de referência. representante da propaganda republicana em 1870 e redator do manifesto. TIRADENTES: UM HERÓI PARA A REPÚBLICA Carvalho explica que os heróis são símbolos poderosos. refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo coletivamente valorizado. desde positivistas a jacobinos e republicanos liberais. um professor. Daí a ampla aceitação da figura de Tiradentes como herói nacional. mas ressaltam sua hesitação diante da revolução. Essa versão foi defendida pelos positivistas ortodoxos. por causa do jacobinismo que o sustentou. O principal conflito se deu entre a sua figura e a de D. Benjamin era apenas um professor desconhecido de boa parte da tropa aquartelada. com o objetivo de promover a república social. Queriam os positivistas garantir todas as liberdades espirituais e promover a incorporação do proletariado à sociedade. sendo. O ditador republicano seria vitalício e escolheria seu sucessor. por tão identificada com a monarquia. Tem de responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva. geraram forte oposição por parte daqueles que aproximavam Tiradentes de Cristo. A República foi. portanto. oficiais não positivistas. a legitimidade de Tiradentes. a República. deodorista e da república sociocrática. com o Congresso cumprindo apenas papel orçamentário. mas queriam transformá-los num mero instrumento dos republicanos. Para esse grupo. Floriano também não se encaixa. e não um fim para a ação. era o ato final da Questão Militar. Queriam a salvação da pátria. O esforço de promoção desses heróis resultou em muito pouco. da Escola Superior de Guerra. ficando Tiradentes no papel de vítima. colocando-se como responsáveis pela atuação destes. sendo o Exército para ele um meio. nem a de Benjamin Constant. o estar em Minas. que não era nem líder popular nem militar. de um projeto de Brasil. o portador de uma visão da história. ele aparece como um teórico.

A alegoria se dissolvia na falta de uma comunidade de imaginação ou se fragmentava em sentidos contraditórios e invertidos. cedeu diante da pressão jacobina. O símbolo perfeito seria a virgem-mãe. Floriano. por isso maior disputa entre as correntes ideológicas. tornando-se essa representação dominante. Para estes. por ser a mulher quem melhor representava o altruísmo. Na concepção da bandeira positivista os ortodoxos seguiram as indicações de Comte com o acréscimo das divisas ‘Ordem e Progresso’. por sugerir uma humanidade capaz de se reproduzir sem a interferência externa. na ocasião. de expressar a emoção cívica dos membros de uma comunidade nacional. a figura feminina não conseguiu se firmar como alegoria cívica no Brasil. não sendo do gosto de Floriano. permanecendo o antigo. sob a alegação de que o símbolo nacional deve ser uma ligação entre o passado e o presente. venceu a tradição. Sobre a bandeira. . sua base de sustentação e.REPÚBLICA-MULHER: ENTRE MARIA E MARIANNE Murilo explica que. Aponta como outras dificuldades a falha dos dois lados: do significado. ambas refutadas por Murilo. mas foi defendido e justificado por Teixeira Mendes. contudo. apesar das tentativas dos positivistas. BANDEIRA E HINO: O PESO DA TRADIÇÃO Carvalho explica que a adoção da bandeira e do hino tinha que ser feita por lei. no qual inexistia a mulher cívica. os caricaturistas passaram logo a ridicularizar a República. a mulher representava a humanidade. venceu a facção positivista. José Murilo atribui à inexistência de uma comunidade de imaginação entre o símbolo e o que ele representa. Para Murilo. O modelo foi criticado por representar uma facção. Freyre sugeriu que a representação da República por uma mulher poderia ser favorecida por causa do patriarcalismo de Pedro II ou pela mariolatria católica. diferentemente do que ocorreu na França. A bandeira positivista teve melhor aceitação do que a mitificação dos heróis e do que a figuração feminina da República. no qual a República se mostrava longe dos sonhos de seus idealizadores. um símbolo nacional deve ter a capacidade de traduzir o sentimento coletivo. Diante das insatisfações com o novo regime. se devendo ao fato de que ela incorporou elementos da tradição imperial. e do significante. retratando a mulher que a representa como uma meretriz. No caso do hino. mobilizada pelos positivistas. tanto na realidade como em sua representação artística.

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