FMU-Faculdades Metropolitanas Unidas CURSO DE DIREITO PAULO ROBERTO SANTOS–50 ROBSON KATSURAGI–62 ULISSES TAVARES LEITE–66 2° SEMESTRE–3102D

PATERNIDADE SÓCIO AFETIVA

São Paulo

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2010

PAULO ROBERTO SANTOS–50 ROBSON KATSURAGI–62 ULISSES TAVARES LEITE–66

PATERNIDADE SÓCIO AFETIVA

Trabalho semestral apresentado à FMUFaculdades Metropolitanas Unidas, junto ao Curso de Direito, como requisito obrigatório para a disciplina Psicologia Jurídica, sob orientação da Profa. Evani Zambom Marques da Silva.

São Paulo

4 2010 .

faz-se relevante uma abordagem da repercussão do sistema unificado da filiação na ordem jurídica nacional. Filiação. Palavras-chave: Igualdade.RESUMO A Constituição Federal de 1988 provocou uma importante alteração no Direito de Família através do princípio da igualdade da filiação. Desta forma. que influenciou na determinação de uma nova paternidade. Direito. bem como às decisões judiciais que formam o atual entendimento dos Tribunais regionais. Introduziu no ordenamento jurídico uma mudança de valores nas relações familiares. no caminho de consagração do tema da presente pesquisa bibliográfica. além dos seus efeitos quanto aos direitos pessoais e patrimoniais. fruto do “afeto”. Imprescindível a menção à posição dos doutrinadores brasileiros. objeto de análise no presente trabalho. .

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Key words: Equality. It has introduced to the legal sistem a change in familie relashionship values. that affected a new kind of parenthood. .ABSTRACT The Federal Constitution of 1988 developed an important change in Family Law trought the begining of equality between the offspring. Offspring. the relevant point questioned in this project. born from affection. it is important to discuss a new approach of the united offspring sistem’s repercussion in the national legal order. It is fundamental to mention the position of brasilian authors in this matter. as well as the legal decisions that make the current understanding of the local Courts of Law. in order to find the success of the subject in the present bibliographic research. Thus. and discuss its effects in estate and personal rights. Rights.

.................27 Notas.......................................................................................................................................09 Proteção Integral da família e dos menores.............................................................................................................................................07 • • Reconhecimento do aspecto sócio afetivo da paternidade..............18 Conclusão........................................................................................................30 ...............................SUMÁRIO Introdução............................................................................................................................................................................06 Paternidade Sócio Afetiva.....................28 Referências...........................................................................................................................................................

com base na pesquisa exposta no presente trabalho acadêmico. será especificado que uma verdadeira relação parental entre pais e filhos. deve ser aquela que busque sempre e apenas o bem-estar da criança ou adolescente. têm a tese de que a criança deve ser somente educada por seu pai biológico ou até mesmo jurídico. já que há também juristas e doutrinadores que. ficará esclarecido o conceito de Paternidade Sócio Afetiva e suas diversas características. Todavia. se esclarecerá que a opinião e vontade do infanto-juvenil deve sim ser levada em consideração em uma possível briga judicial referente à sua guarda. ou seja. o “afeto” será o pilar para o destino e criação da criança (assim como diz o Estatuto da Criança e do Adolescente).6 INTRODUÇÃO Por meio deste. descartando assim a “vontade” do menor. Com o desenvolver do assunto. opostamente aos dizeres da constituição. . a comparação com a “paternidade jurídica e biológica” se tornará imprescindível para que cheguemos a uma conclusão referente ao destino do jovem. isto é.

por escritura pública ou testamento.) a opção da unidade da filiação. "Do Reconhecimento dos Filhos".. Como a Constituição manteve o casamento como fonte da família. E mesmo que aja proibição de distinção. natural e automático do casamento presente em todas as legislações (. A nosso ver. posteriormente. Das núpcias pode ser reconhecido. em matéria de reconhecimento. não se pode mais estabelecer. como resultante necessário. sem que disso resulte ofensa ao princípio da igualdade. mesmo o . desde que ambos se manifestem. (1) O Capítulo que tratava do reconhecimento dos filhos ilegítimos. Reconhecido por apenas um deles. no ato do casamento. distintas as relações matrimonializadas das não matrimonializadas.7 PATERNIDADE SÓCIO AFETIVA Antes de se expor o conceito da paternidade sócio afetiva. não fez desaparecer a distinção existente entre filhos legítimos e ilegítimos... tendo por base o princípio da igualdade entre os filhos nascidos fora do casamento e os filhos nascidos dentro do casamento. hipóteses taxativas. no de 2002. segue o exame da presunção pater is est como resíduo diferenciador entre os filhos provenientes do casamento e os não provenientes. Simplesmente deve caber o direito ao reconhecimento do filho. pelos pais. hoje. no Código de 1916. posto que não persistam razões para a denominação ilegítimo. é necessário ressaltar um de seus pontos fundamentais na vida em sociedade: a discriminação dos pais com seus herdeiros que são nascidos fora do casamento. não há forma de elidir as diferenças que continuam a existir: (. O reconhecimento da verdadeira identidade impõe-se como direito declarado pela unidade da filiação: Parece-nos que. abolida do nosso direito. e seus respectivos filhos. passou a ser denominado.) Sendo assim. o outro poderá fazê-lo. mantendo-se assim.. ao serem compreendidos no amplo conceito de família. eis que provém de diferentes realidades sociológicas. o que a Constituição não permite é o tratamento discriminatório.

o sistema legal que provocou a exclusão da filiação dita ilegítima. abre as portas para alterações axiológicas do meio. o que. Essa observação revela que o afeto. antes atrelada à defesa da família calcada no casamento. atentando para a realidade afetiva que liga um filho a um pai. Se a regra é constitucional não pode o legislador ordinário estabelecer limitações.8 filho da prostituta tem direito a reconhecimento e exames laboratoriais existem para comprovar a paternidade. apesar de um ente abstrato. em muitos casos é o mais apto a revelar quem são os pais. Ou seja. cuidam da presunção de paternidade dos filhos havidos por fecundação artificial homóloga. não previa tais situações. parece mesmo desnecessário: o filho tem o direito de postular contra o genitor o seu reconhecimento. O novo Código. E basta. a origem genética de uma pessoa. então. A presunção de paternidade. biológica e sócia afetiva. IV e V do artigo 1597 do novo Código. Deve-se ressaltar que a segunda cede espaço. Os incisos III. com precisão quase absoluta. a partir de então. o que constitui inovação em face ao direito anterior que. à proteção da legitimidade da filiação e à intenção de manter a autoridade do marido. aspecto aparentemente mais incerto. gradativamente. permitindo que os verdadeiros genitores sejam revelados através de um laudo de DNA que estabelece. que levam à busca do verdadeiro sentido da filiação. diferenciando assim a paternidade sócia afetiva da paternidade jurídica. se tornou inútil já que. naturalmente. no entanto. no entanto. o aspecto sócio afetivo da filiação. pois "A verdadeira paternidade decorre mais de amar e servir do que de fornecer material genético" (3) . à . com base no comportamento das pessoas que integram a relação pai-mãe-filho. levou à reflexão do que seria a verdadeira paternidade. não contém dispositivo expresso sobre o direito do filho ao seu reconhecimento. três verdades podem ser destacadas na busca da real filiação: as verdades jurídica. concepção artificial homóloga e inseminação artificial heteróloga. Cria-se. até então considerada a do ponto de vista biológico. (2) A desconformidade da paternidade jurídica estabelecida pelo Código de 1916 com o real. A tecnologia derrubou a supremacia da verdade jurídica como forma de estabelecimento da paternidade.

posto que estes não podiam buscar o reconhecimento de sua própria identidade. visto que. resta afirmar que o afeto deve ser apreciado por tomar lugar de destaque no reconhecimento das relações paterno-filiais. por ser dever de a ciência jurídica progredir concomitantemente ao ser humano. prejudicando a vida dos filhos havidos fora do casamento. impõe a construção de um novo sistema de filiação. A filiação jurídica. nos dias atuais. Essa inovação de alvo objeto de proteção deve ser considerada. consistente na própria valoração do sujeito. a toda criança. busca-se amparar as pretensões de declaração da paternidade na justiça brasileira atual. a Constituição Federal ordena um tratamento igualitário a qualquer tipo de filiação. derivada da ficção que visava garantir o que a doutrina jurídica conservadora denominava de paz das famílias legítimas. Sob a justificativa de regulamentar a ordem social. permitindo a identificação da figura paterna através do amor. com base na verdade jurídica afastada da verdade biológica e sócia afetiva. Produto do meio. Entretanto. assegurando o direito. desvelo e serviço com que se entrega ao seu filho. A alteração da percepção jurídica de família trazida pela Constituição e acompanhada pelos diplomas que se seguiram. de conhecer suas . "A alteração de valores sentida na sociedade não mais tolera o estabelecimento de filiações fictas. tornando a família instrumento de realização de quem a compõe. a lei formalizou os vínculos afetivos.9 terceira. as evoluções genéticas científicas permitem maior transparência nas relações de filiação. eliminava a incerteza acerca da paternidade do marido em relação aos filhos havidos de sua esposa com o escopo de manter a moral imposta na sociedade do início do século. Reconhecimento do aspecto sócio afetivo da paternidade. na época. Como garantia. Dessa forma. a ciência não era capaz de determinar a ascendência genética." (4) A concepção eudemonista traduz a verdade sócia afetiva. Por fim. possibilitando a identificação consangüínea do genitor e atribuindo-lhe a responsabilidade da paternidade.

preponderando à simples contingência dada pela biologia. torna-se necessário saber como operá-la. por vezes. Pertinente a observação de Madaleno feita antes da entrada em vigor do Novo Código e que hoje se confirma: . não assegura a construção de laços sólidos de solidariedade e responsabilidade. infelizmente. "Ora. A filiação estabelecida por esta via. o DNA trouxe um elevado grau de cientificidade ao juízo probatório. nem sempre confiáveis (já que a ciência ainda estava em evolução). caracterizadores da relação entre pai e filho. na certidão de nascimento. antes. e a conseqüente possibilidade de reivindicação de direitos patrimoniais. uma verdadeira relação afetiva entre o pai e seu descendente.10 origens. em razão das conseqüências que podem surgir para as partes envolvidas advindas desta situação. não se pode negar que o vínculo relacional entre pai e filho não se cria através de um documento. de parte da criança. é mais importante captar a função da família na formação da personalidade dos seus membros. sua identidade biológica e civil e seus parentes consangüíneos. Aquilo que. depoimentos de testemunhas e exames de sangue. Os meio probatórios que se realizavam nos processos desencadeados pelas ações de estado. (5) A ciência desvendou os segredos da genética e da hereditariedade. a partir de então. nota-se a importância do afeto. Nesse ponto. reconhece-se a aptidão da ciência de identificar a origem genética dos indivíduos. nos dias de hoje. não é suficiente a simples descoberta da verdadeira paternidade. se com o DNA a paternidade é reconhecida sem que restem dúvidas. não significará nada mais do que a menção. passou a ser diagnosticado e solucionado com uma mínima margem de erro. Desta forma. possibilitando determinar esses vínculos de filiação sob o aspecto biológico. o que. há que se indagar a respeito dos efeitos decorrentes desta. Todavia. Assim. da paternidade. deve-se ter. se julgava com base em aparências. limitavam-se a indícios. contradizendo assim as idéias do nosso antigo Código. No entanto. Por assim dizer. até a pouco tempo. ou seja. é preciso querer ser pai ou ser mãe e. é necessário se sentir como filho" (6).

a paternidade real . estimulando a mútua assistência no parentesco e na conjugalidade: (. apenas na tutela formal dos integrantes aglutinados. o amor paterno e a natural dedicação ao filho revelam uma verdade afetiva. na medida em que não protegem a filiação por afeto. nestes tempos de busca de maior autenticidade das relações. traduz sua ampla preocupação com a valorização do afeto como objeto fundamental dos núcleos de convivência interpessoal. uma vez que dá prevalência à pesquisa da verdade biológica. olvidando-se de ressaltar o papel fundamental da verdade sócio afetiva. até porque.11 A Carta Política de 1988 garante a todos os filhos o direito à paternidade. denominada filiação sociológica. mas este é o sutil detalhe. formando verdadeiros laços de afeto que nem sempre estão presentes na filiação biológica. (7) Para que não haja referência explícita.. é imprescindível a noção de filiação através do afeto. realmente não exercem a completa igualização. para esses caracteres a Constituição e a gênese do futuro Código Civil nada apontam. por certo. no Capítulo VII. seguem como filhos legítimos os que descendem do amor e dos vínculos puros de espontânea afeição e. pois que se limita ao exame processual e incondicional da verdade biológica sobre a verdade jurídica. nos dias que correm. (8) Sendo assim.) a paternidade tem um significado mais profundo do que a verdade biológica.. Entretanto. posto exigir doravante a afirmação da importância jurídica do afeto como expressão da dignidade da pessoa humana. adota um comportamento jurídico perigoso. uma paternidade que vai sendo construída pelo livre desejo de atuar em interação paterno-filial.. Deve-se definir esses novos contornos para compreender melhor esta seara que começa a nortear as relações entre pais e filhos: (.. é importante ressaltar que a Constituição Federal de 1988. a mais importante de todas as formas jurídicas de paternidade. onde o zelo. pois.) suporte emocional do indivíduo através da ambiência familiar não se exterioriza mais. efetiva posse do estado de filho. deixando profunda lacuna no roto discurso da igualdade.

Ou seja. da afetividade ou da definição legal. fruto dos vínculos e das relações de sentimento que vão sendo cultivados durante a convivência com a criança. A partir de então. o doador de sêmen e. o pai de fato. vem a ser fecundada com o sêmen de terceira pessoa identificável. portanto. denominada ficção jurídica ou ficta. separam-se de fato. deduz-se que "Modernamente. o companheiro da mulher. será aquele que tem uma relação paterno-filial calcada na posse de estado de filho. ainda. Com base nesse preceito. sendo o pai biológico. passando a ex-cônjuge a viver em união estável com outro homem. de acordo com a verdade sócio afetiva da relação. Em uma análise constitucional das três verdades da filiação. mas revelando-se o sócio afetivo. e sim cultural.12 não é biológica. a falta de coincidência entre esses três pilares pode gerar complexidade. revelando esses três fatores uma relação psicoafetiva (11). Porém. Após isso. a dedicação e a assistência são elementos tão importantes na identificação da real paternidade quanto um sobrenome proveniente de uma relação consangüínea. encontrar a paternidade sócio afetiva. cujo marido é estéril (não podendo ter filhos). restando apenas à verdade genética e a sócio afetiva" (10). não mais se admite o estabelecimento da filiação legal. saudável e apta à gestação. o qual dá à criança tratamento de filho. torna-se pertinente a análise do caso de uma mulher casada. eis que a desbiologização da paternidade encontra respaldo exatamente no fortalecimento dessa noção: . diante das reformas do Direito de Família. conclui-se a possibilidade de existência de uma paternidade jurídica sem a biológica. de uma paternidade biológica sem que exista a jurídica e o sócio afetivo. o amor. Com o consentimento deste. sem a presença de nenhuma das outras. (9) Após isso. o pai jurídico do filho será o ex-marido. Pode-se. A dúvida reside na prevalência da consangüinidade. Denota-se proporcional o crescimento da dimensão da posse do estado de filho à inviabilidade de absorção total da verdadeira filiação pela premissa biológica.

a despatrimonialização das relações entre pais e filhos. acima de tudo. moldado pelos laços de amor e solidariedade. que até a pouco tempo. No entanto. destaca-se a família nuclear. contudo. (12) A Carta Magna redefiniu a ideia de família com base em valores que se referem à paternidade sócio afetiva. Nessa linha. como fatos. no Direito de Família contemporâneo. que vieram a determinar três premissas a caracterizar a matéria da filiação: a funcionalização das entidades familiares à realização da personalidade de seus membros. cujo significado é muito mais profundo do que o do elo biológico. sobretudo ao fundamento da dignidade da pessoa humana. Por conseqüência. é preciso lembrar que não diz respeito apenas àquilo que denominamos de amor. Isto demonstra a existência de vários modelos de paternidade. a admissão de mais um modelo deste elo a exclusão de que a paternidade seja. mas. que passaram a ser subordinadas a outros valores. antes de tudo. o elo que une pais e filhos é. biológica. norteavam o Direito de Família. especificamente com relação ao afeto. (13) A nova ordem constitucional elevou valores ao ápice do ordenamento jurídico. Ambos são comumente referidos como dados. e. embora sejam abstrações de difícil determinação. Ambos estão presentes em todos os momentos de nossa vida. a todos os sentimentos que nos unem. e a desvinculação entre os relacionamentos dos genitores e a proteção conferida aos filhos. não significando. por critérios interpretativos humanizados. Estes fatores implicam na "repersonalização" das relações de família e objetivam a realização sentimental da pessoa no grupo familiar: .13 Devido à constitucionalização. vive-se um momento em que há duas vozes soando alto: a voz do sangue (DNA) e a voz do coração (AFETO). sim. que se distingue de todos os outros padrões familiares pelo seu peculiar sentido de solidariedade que une os membros da unidade doméstica pela espontânea vontade: O afeto e a família são dois conceitos com características muito parecidas e se encontram intimamente ligados. sócio afetivo. se faz necessária a substituição dos fundamentos axiológicos rigidamente normativos.

à educação. concretizados no Estatuto da Criança e do Adolescente. Estes se . de adultos nada demonstram. elevados ao cargo de fundamento da República . vilipendiando as relações parentais da prole com seus pais não guardiães. pessoas que.069/90 e 8. de intensidade variável. incisos II e III . o afeto é a matéria-prima fundamental nas relações de filiação. senão uma constante distorção na forma como educam e usam sua prole. em seu artigo 4º. Neste conceito. ao esporte. contudo constante. Nossa constituição proíbe ainda. o filho de direito ou de fato. concebe-se esta como uma comunidade de afeto. à cultura. a qualquer tempo. a efetivação dos direitos referentes à vida. quando dispõe: É dever da família. com absoluta prioridade. fragilizando sua estrutura moral.14 Aliás. à saúde. da comunidade. que permitam o reconhecimento de relacionamentos que possam ser nomeados de "família sócio afetiva". à liberdade e à convivência familiar e comunitária. à profissionalização. não afastando assim. à dignidade. comprometendo sua natureza humana.e do princípio da prevalência dos interesses do menor. A abstração destes termos conduz à busca de elementos identificáveis nas práticas dos grupos sociais. ao lazer. (14) A CF (Constituição Federal) de 1988 e as Leis nº 8. com ingerências ilícitas e movidas apenas por suas mesquinhas deficiências e carências pessoais. quando se prioriza os interesses do menor e rompe-se com as definições biológicas e formais de família. à alimentação. Assim como já dispõe o artigo 27 do Estatuto da Criança e do Adolescente que "o reconhecimento do estado de filiação é direito personalíssimo.art. indisponível e imprescritível.560/92 tornaram a paternidade biológica imprescindível e fundamental. pode investigar a paternidade contra o pai genético. ao respeito. oxigênio e sobrevida que responde pela adequada formação moral e psíquica dos filhos que são postos neste agitado mundo dos adultos. podendo ser exercitado contra os pais ou seus herdeiros. sem qualquer restrição". por vezes. já que o filho. da sociedade em geral e do Poder Público assegurar. 1º. além de determinar o cumprimento dos princípios da dignidade da pessoa humana e da cidadania. qualquer discriminação entre filhos.

A paternidade sócio afetiva é constituída pela reunião de três elementos clássicos: o tratamento. O status de filho pode ser revelado pela posse de estado. que constitui a imagem social. fatos exteriores que . o que faz supor a existência do laço de filiação. publicamente. dando-lhe proteção e afeto. a utilização pela pessoa do nome daquele que considera pai. imprescritível e não admite transação . Ela se exterioriza pelos fatos. que lhe atribui determinados efeitos jurídicos. tendo em vista que assume pacificamente a função de genitor. ou seja. como atos que expressem a vontade de tratar como faria um pai. alimenta e protege uma criança. revela-se a posse de estado de filho. tratando-o como filho frente a terceiros e demonstrando seus nobres sentimentos.impossível nas ações declaratórias por serem exclusivas do direito público. suas conseqüências são o nome e a indivisibilidade. Quando os ascendentes dispensam atenção ao filho. educando-o. Todo ser tem características que determinam sua individualidade na sociedade. com ele. que educa. criando-o. Cabe destacar que o estado de filho é irrenunciável. que corresponde ao comportamento. e sendo o filho assim reputado pelos que. fazendo transparecer a todos que é o pai. e a fama. pois não há modo mais expressivo de reconhecimento do que um pai tratar o seu filho como tal. independentemente da revelação do fator biológico. Então. sendo legítimo. pode-se dizer a respeito desse argumento que. poderia justificar não considerar-se como pai aquele homem que ama. posto que tal declaração torna-se erga omnes por integrar a personalidade jurídica e definir sua classificação social. Uma vez declarado o estado de filiação jurídica. convivem. constituindo a posição jurídica da qual decorre um conjunto de direitos e obrigações.15 exteriorizam na posse de estado de filho. Essas características compõem o estado da pessoa e são consideradas pela lei. concedendo-lhe direitos e impondo-lhe deveres.

reveladas pela convivência. o seu caráter notório e incontestável. A constância na posse de estado não é somente a permanência: é. o tempo surge como fator determinante da posse de estado de filho.a pessoa aparenta à sociedade ser filho do pretendido pai. Ora. pelo menos de constância.16 revelam uma relação de paternidade com notoriedade . trazendo a idéia de continuidade. a continuidade e a ausência de equívoco na relação entre pai e filho. devendo esse fato ser contínuo e apresentar certa duração que revele estabilidade. senão de continuidade. refletido pela relação paterno-filial". Cabe esclarecer também que não há hierarquia entre eles. Sendo assim. Ainda que não seja imprescindível o fator nome. isso. pois "Dificilmente se encontrará expressão mais eloqüente de tratamento do que o chamamento de filho e a aceitação do chamamento de pai". Busca-se a publicidade. como uma condição da constância assim definida. produto do sentimento. aparece. Há. (17) . A jurisprudência tem acrescentado a ausência de equívocos e vícios. na ‘posse de estado’. o “chamamento” é uma característica muito forte na relação filial. "Por isso. antes de tudo. (15) A notoriedade se manifesta na objetiva visibilidade da posse de estado no ambiente social. (16) A publicidade normalmente reflete-se na convicção da paternidade pela opinião pública. pois. um estado. sempre haverá de coincidir a verdade exterior (objetiva). como a troca de filhos na maternidade e até mesmo o seqüestro de uma criança para fins de adoção. que existam os demais elementos citados. pois ainda se consideram outras qualidades que devem constituir o papel de filho. constituem os elementos do que se denominou posse de estado de filho. não descaracteriza a posse de estado. ditada pela realidade dos fatos. posto que outros elementos também revelam a base da paternidade. a continuidade entendida como a coerência dos fatos constitutivos da posse e ausência de contradição entre eles. sem dúvida. bastando apenas. O fato de o filho nunca ter usado o nome do pai. Essas circunstâncias. com a verdade interior (subjetiva).

Nesse caso. .17 A publicidade. Lamenta-se. afirma-se possível considerar a posse de estado de filho como causa suficiente para demandar o reconhecimento da filiação e. na atualidade. que o legislador brasileiro não contemple. pode vir a ser a mais determinante das provas de existência de uma filiação. revelando uma situação que enseja proteção. construir o caminho que levará à normatização com integração plena e expressa da Posse de Estado dentro do nosso sistema jurídico. biológica. considerando-a implicitamente integrada ao sistema jurídico através desse dispositivo que serviu como guia na determinação da verdadeira paternidade. em nosso Código Civil de 1916. no artigo 349. para. (19) Sendo assim. posto que somente esta seja capaz de garantir a verdadeira estabilidade de alguém perante a sociedade. O relacionamento diário o reconhece como filho e a base emocional construída assegura-lhe um pleno e diferenciado desenvolvimento como ser humano. inciso II. a doutrina procura enquadrá-la como um fato. com base na jurisprudência. ela exprime a realidade. a posse de estado como suporte fático para construir a filiação quando a inexistência ou insuficiência de título se fazem presentes. Assim. havia uma hipótese interessante que previa a utilização de qualquer meio de prova em direito admitida para provar a filiação legítima. a declaração da paternidade. Tal importância pode elevar esse elemento até mesmo a pressuposto de análise de uma ação de investigação de paternidade. expressamente. sobressaindo essa noção como referencial na determinação de uma paternidade responsável. desde que subordinada à existência de manifestantes presunções resultantes de fatos já certos. entretanto. antigamente. pois "se o investigante é tratado como filho do suposto pai e nessa reputação vive motivo não há para não incluir esse fato entre os fundamentos da ação investigatória. Mas caberá ao aplicador do direito acolher esta realidade. por ventura. e sócio afetiva. com isso." (18) Embora não haja atualmente expresso em lei algo referente à "posse de estado de filho".

226.18 Proteção Integral da família e dos menores Nossa Constituição Federal de 1988 trouxe a noção de Estado Social de Direito. proclamando a Doutrina da Proteção Integral. Constitucionalmente. objetivando a realização do indivíduo. vínculos afetivos e comunhão de interesses. A constitucionalização das relações familiares trouxe a repersonalização do Direito de Família. Para isso. É o que ocorre com o direito de proteção integral à família.família mono parental.Dos Direitos e Garantias Fundamentais. bem como a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes . e. desmembrandoo nos artigos 3º. 227 da CF busca a plena eficácia de outros direitos fundamentais fora do rol. agora. assim entendido o agrupamento de pessoas envolvidas por laços de sangue. em que pese fora do rol. 4º e 5º. tratou o direito ao estabelecimento da filiação. assim como os Direitos Fundamentais da Criança e do Adolescente. Ou seja. Alguns destes estão localizados fora do seu Título II .união estável. é considerado fundamental dada à relevante importância que exerce no desenvolvimento da sociedade neste momento histórico. a Carta Magna. já que a define como a base da sociedade. garante especial proteção do Estado à família. para a concretização desse direito fundamental deve ser considerada família seja a união legalizada pelo casamento ou aquela decorrente de longo tempo de convivência . O Estatuto da Criança e do Adolescente reproduz o dispositivo constitucional. e não mais individuais. dadas relações são intersubjetivas. o art. buscando a criação dos direitos fundamentais no plano material. Assim. para a criança. é acompanhada na sua concretização pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. todas são merecedoras de proteção do Estado Social democrático de Direito como núcleo familiar. enfatizando a igualdade entre os filhos e a necessidade de garantir. seu interesse. Todavia. e sua característica de efetivação do princípio da dignidade da pessoa humana. que organizou toda a matéria relativa à proteção da infância e da adolescência. que. em seu art. própria dos direitos fundamentais. em que ficam evidentes as Garantias de Direitos da população infanto- .

prevê-se que criança e adolescente são titulares de "direito à liberdade. atribuição do nome e exercício pleno do pátrio poder. e nesses três elementos cabe à dignidade a primazia. trazendo assim. gerando assim os direitos de filho e os deveres de pai que consistiam num complexo de obrigações de sustento. social e cultural.” (20) Dentre os Direitos Fundamentais reproduzidos pelo Estatuto. espírito e meta do Estatuto. a trilogia da proteção integral. por ser o coroamento da construção ética estatutária. valorizando esta convivência quer na família natural. impondo a prioridade para as políticas sociais públicas como dever da família. educação. o Estado garante a proteção à família sob suas diversas formas de constituição e ampara a figura da substitutiva finalizando ao bem-estar da infanto-juventude. "A trilogia liberdade-respeito-dignidade é o cerne da Doutrina da Proteção Integral. A proteção integral da família apresentase como um meio de alcance e garantia da Doutrina da Proteção Integral das crianças e adolescentes. Já no artigo 15º do Estatuto. espiritual. da sociedade civil e do Poder Público. . moral. pois a presunção de paternidade permitia determinar a identidade do pai. mental.19 juvenil. desde o nascimento. seu artigo 19 dispôs que "toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família". Assim. Isto se deve às crianças e adolescentes possuírem características específicas devido a sua peculiar condição de pessoas em vias de desenvolvimento físico. procurando ressaltar e prevalecer a importância da vida em família como ambiente natural para o desenvolvimento daqueles que ainda não atingiram a vida adulta. No sistema codificado os filhos do matrimônio desfrutavam de uma situação privilegiada. garante-lhes o usufruto de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana com prioridade absoluta. ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento". Tendo como meta a concretização do Direito Fundamental à convivência familiar. quer na substituta.

amigos e inclusive na rua. amor e ensino. pois "Não é um espermatozóide que define o que é um pai e nem o fato de uma mãe gestar um filho em seu ventre que garante a maternidade. no ideal de família nuclear. substituindo. a sabedoria popular já reconhecera tal vínculo. vizinhos. A Constituição lançou dois princípios estruturais daquilo que se denomina de "nova filiação": o primeiro. Assim. um pai. estabeleça uma relação de filiação. O Direito de Família reconheceu esse “fato social” através da Doutrina da Proteção Integral.20 Nos dias atuais. pela qual o melhor pai ou mãe nem sempre é aquele que procriou. trazendo profundas mudanças em especial ao Direito de Família. igualmente. babá. decorrem de vontade e não de uma ficção posta pela lei: A Constituição Federal de 1988 representou importante marco na trajetória do Direito Civil pátrio. os quais passam a ter reconhecidos e garantidos direitos próprios a sua condição de pessoas em desenvolvimento. § 6º). da plena igualdade entre os filhos (insculpido no art. Há muito tempo. tios. promovendo à determinada "constitucionalização do Direito Civil". (22) Reflexo imediato e espontâneo da proteção apontada é a admissão da chamada paternidade sócio afetiva. professores. em especial da criança. portanto. 227. 227 da CF). mas aquele que exerce tal função. avós. desde que lá. somos deixados levar a constatar que família não é apenas um conjunto de pessoas em que uma parceria entre os cônjuges como pais biológicos esteja configurada. estabelecendo uma nova ordem. dá o pão. Também não veremos brotar da letra fria da lei." (21) Os deveres de pai. uma mãe. capaz de permitir a realização dos direitos fundamentais da pessoa humana. acreditando que pai é quem cria. ou uma família para um filho. o vínculo biológico pelo grande vinculo afetivo. . mas uma relação de valorização entre seus membros. e o segundo . porque o afeto é o único em muitos casos. provocando um verdadeiro abalo estrutural do sistema jurídico. uma criança poderá encontrar sua família em seus pais.que é o que mais interessa no caso em comento consiste na adoção pela Constituição Federal da doutrina da proteção integral da criança e do adolescente (art.

Todavia. entende-se que o ato de adoção não é um ato garantido pela burocracia. passa a creditar uma estrutura familiar para além da biologia. resguardando seus direitos e respeitando suas peculiaridades. justamente.21 A partir de então. genética ou biologia. e podem passar uma atitude de negação de existência do filho. A adoção é um ato de amor e responsabilidade. no abandono material. desigualdades e discriminações. Para tanto é necessário maturidade psicológica. ordenação marcada pela relação de seus pais (23) Com isso. buscando interpretá-lo à luz dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade e. exteriorizando-se na violência doméstica. torna-se necessário e imprescindível que os operadores do Direito de Família (juízes de direito e promotores. nem sempre aquele que gera se interessa por seu herdeiro de direito e. Realmente. os casos de paternidade biológica não desejada e outros que se revelam um total fracasso sob a ótica humana. um dos momentos mais importantes na vida de uma pessoa é aquele em que o homem e a mulher tornam-se pai e mãe. É um encontro. leis. ao completo desprezo pelo seu destino. Infelizmente. na ruptura de compromissos e na incessante necessidade de intervenção judicial para a minimização dos confrontos. Desde os primórdios da humanidade. há de aceitar-se que muitos pais e mães genéticos. produzido pelo dom e não há lei que garanta o dom do amor e do afeto. Deparando-se o Direito com esses casos. das disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente. sempre buscando a melhor solução para a criança. um acontecimento. ainda. pois no futuro não há muito jeito de se desvencilhar da ordem simbólica que a precedeu. porque a . mostram que os pais nem sempre estão preparados. visto que se inicia uma nova etapa em suas vidas de responsabilidade pelo destino do novo ser (filho). por exemplo) compreendam a dimensão constitucional atribuída a este ramo. prefeririam que seu filho não tivesse sido gerado. ainda sim vicejam os conflitos e proliferam os dissídios entre homem e mulher e pais e filhos. devendo zelar pela sua formação frente à própria família e à sociedade. o que lamentavelmente é determinante na formação moral da criança. à época de uma legislação abolicionista de preconceitos.

como o caso do seguinte acórdão: Estando a criança no convívio do casal adotante há mais de nove anos. a não ser que. incorporando elementos que permitam um maior conhecimento do psiquismo. A família é um lugar de amparo primeiro do ser humano quando se depara com questões da vida e. é inconcebível retirá-la da guarda daqueles que reconhece . pois novos desafios surgirão. O Direito de Família codificado e mesmo em face de crescente constitucionalização deve considerar. na sua aplicação. Criar condições para que.22 criança encontra-se em fase de desenvolvimento de suas potencialidades. não existirá maiores dificuldades para ela. do seu jeito as marcas em sua subjetividade daquilo que em cada caso nomeará como a minha família. sendo apaternidade exercida com a responsabilidade exigida pela lei. Se há um pai sociológico que. desse modo. ainda que insuficiente para ultrapassar uma possível decepção por que venha a passar. transcrito na memória que não podemos prescindir. quando adulto. não é o pai biológico. É deste corpo familiar. já tendo com eles desenvolvido vínculos afetivos e sociais. o pai biológico queira estabelecer sua filiação e colocar a criança sob seus cuidados. em um determinado momento. pois dificilmente será abandonada ou esquecida. é necessária a sua recuperação e formação moral para. reciprocidade e comunhão reverenciados na legislação. esteja englobada em uma estrutura familiar é garantir seu interesse maior. A infância é o tempo privilegiado dessa inscrição. portanto. pois é neste tempo que a criança receberá. os intensos paradoxismos das turbações emocionais do indivíduo. porventura. merecendo. em seu processo de constituição enquanto sujeito. este fato não acarretará em maiores problemas para a criança. (25) Nas hipóteses em que o pai sociológico é também o pai biológico da criança. encarar a vida e seguir em frente. em prol da efetividade dos objetivos de solidariedade. (24) É indiscutível a relevância do papel familiar no processo de estruturação mental da criança. proteção e assistência especiais.

vêm a juízo querendo anular o ato. Apenas a falta de maior percepção quanto a esse novo paradigma axiológico pode justificar certas perplexidades frente às decisões judiciais que retiram crianças de seus pais de afeto. há que se salvar os direitos do filho do afeto e de quem criou e mantém uma relação completa na qual mostra-se um "verdadeiro" pai. sempre que. a esta altura da vida. questionarem-se do sentido da expressão: bem-estar da criança. como no caso do seguinte acórdão: . para entregá-las a seus pais genéticos. pela qual. Tempos depois. Portanto. surgem querendo reivindicá-la. Seria desumano obrigar a criança a abandonar seu verdadeiro lar para ir viver com aqueles desconhecidos que. carinho e tratamento são elementos que revelam no comportamento a base da paternidade. Evidenciado que o vínculo afetivo da criança. em detrimento dos pais biológicos. sem sequer. retirá-lo do convívio de seus pais afetivos é excluir o único pai e a única mãe. (27) Cuidados e prevenções na alimentação e na instrução. deve-se prestigiar a paternidade sócio afetiva sobre a paternidade biológica. o único carinho e afeto que teve até hoje. dando-lhe um prenome e colocando nele o seu sobrenome. encontra-se bem definido na pessoa dos apelados. muitas pessoas não conseguindo suportar os trâmites processuais para adotar uma criança. como se seu filho fosse. de repente. assim apontar o superior interesse da criança. ou seja.23 como pais. Outra questão de grande repercussão em nossos tribunais e posteriormente em nossa constituição é a prática ilegal conhecida como "adoção à brasileira". e é disso que um filho precisa. pois se apresentam aptos a comprovar a veridicidade biológica da filiação. no conflito entre ambas. mormente quando os pais biológicos demonstraram por ela total desinteresse. que resignam pedindo a guarda novamente. acabam registrando o menor. (26) Trata-se de ação de adoção proposta pelo casal que detém a guarda do menor. Nessa situação.

(28) Ou seja. relacionamentos sociais de amizade e profissionais . não tutelaria a dignidade humana. atestada em exame de DNA. passados muitos anos. na esteira do entendimento consagrado na Súmula nº 149/STF. propriedades. os ilícitos e as negligências utilizadas em benefício do próprio apelado. se alguém é irregularmente inscrito no registro civil como sendo filho verdadeiro. A ação negatória de paternidade é imprescritível.DECISÃO REFORMADA .daqueles que adotam. estando baseada na tendência de personificação do direito civil. dentários.TUTELA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA . ao contrário.24 NEGATÓRIA DE PATERNIDADE . os adotantes venham a juízo e. Se fosse tal ato consentido. o que imperaria seriam os interesses . apagando-lhe todo o histórico de vida e condição social. mediante ação negatória de paternidade. previdenciários. menor. herança patrimonial advinda da falecida mãe formal. 2.CONFRONTO ENTRE A VERDADE BIOLÓGICA E A SÓCIO-AFETIVA .PROCEDÊNCIA . sua condição perante a sociedade curitibana. No mesmo acórdão há um trecho que elucida a forma como foi solucionada a causa pelo egrégio Tribunal. há de prevalecer à situação que melhor tutele a dignidade da pessoa humana. busquem a dissolução do vínculo de parentesco mediante prova da não-paternidade biológica. profissão. com outro nome. histórico escolar. No confronto entre a verdade biológica. proteger-se-ia as artimanhas. nada impede que. Documentos. 3. em razão de aspectos formais inerentes à irregular ‘adoção à brasileira’.1. aniquilar a pessoa. por critérios meramente formais. hospitalares. e não as necessidades da pessoa adotada. registros médicos. que é emanação do direito da personalidade. cursos de graduação. decorrente da denominada ‘adoção à brasileira’ (isto é. vê a família como instrumento de realização do ser humano. da situação de um casal ter registrado. e a verdade sócio-afetiva. já que a demanda versa sobre o estado da pessoa. mas.‘ADOÇÃO À BRASILEIRA’ . A paternidade sócio-afetiva. importando ser transcrito para demonstrar a real abrangência da situação: Toda a história de vida do recorrente foi estruturada sobre o nome e a história que possui.geralmente patrimoniais . nem faria justiça ao caso concreto. como se deles filho fosse) e que perdura por quase quarenta anos.

Esta analogia deve-se ao fato de a adoção não existir apenas para promover a satisfação daqueles que adotam. por motivos geralmente patrimoniais. Num primeiro momento quando foi registrado falsamente e. (29) Do mesmo modo deve-se encarar o caso do homem que. na verdade. que o recorrente é vítima das artimanhas do apelado para obtenção de vantagens ilícitas e contrárias ao Direito por duas vezes. um homem que houvesse assumido a paternidade de um filho que não fosse seu. relacionando-se com a mãe da criança. se estaria permitindo que. que não corresponde à verdade genética. num segundo. tudo que o apelante possui carrega o nome e a condição dada pelo autor/apelado. acima de tudo. à semelhança da adoção. histórico escolar. Não é razoável que a pessoa "adotada" seja vítima daqueles que se beneficiam da "adoção à brasileira". considera-se que este reconhecimento.25 advindos de Clubes como o Graciosa Country Clubonde há notoriedade. deverá saber que este ato surtirá efeitos e não poderá ser desconstituído até que o filho. Foi-lhe imposto e que constitui sua própria condição humana e social. mas. visar à constituição de família substituta ao menor. porque. prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. sendo a vontade do agente a de adotar e. portanto. pudesse em uma possível separação conjugal. De outro modo. enfim. e tome a iniciativa de desfazer o vínculo da filiação. registra-a como se seu filho biológico fosse. demonstre o interesse. e somente ele. assemelha-se à adoção. considera-se que é irrevogável tal reconhecimento. o responsável pela falsidade quer retirar-lhe o status que não pediu. Constata-se. toda a história da pessoa se estrutura em torno de seu nome (documentos. para que possa desenvolver-se.). quando. pretendam menosprezar seu nome e sua condição social. Afinal. feito pelo companheiro ou marido da mãe. etc. buscar a exoneração da responsabilidade que assumiu frente à criança. a qualquer momento. agora. Daí ser o estado de . Se ele reconhece com liberdade e autonomia o filho do outro como sendo seu. de todas as formas. Com isso. e realizar-se como ser humano. relacionamentos profissionais e sociais de amizade.

que. não pode ter arrancado todo o seu histórico de vida e condição social. Nos casos apresentados prevaleceu à relação jurídica estabelecida. diante dos fatos. sendo que em torno deste nome construiu a sua imagem e personalidade. pois. de uma opção pelo ser humano. o filho criado e educado por seu pai social como fulano de tal. há de prevalecer. quando colocado em confronto com direitos patrimoniais. isto não tutelaria a dignidade humana. em nome da tutela da dignidade da pessoa humana. que vê a felicidade pessoal e a coletiva como bens jurídicos mais relevantes. mas saiba visualizar a função humana e social da propriedade. mesmo na inexistência de ligação genética entre os pais e o filho. refletiram e concluíram que toda a vida do filho foi estruturada sobre o nome e o estado que possui. Isto porque os julgadores.26 filiação uma inerência do direito à personalidade. permitindo que o Direito Civil não seja eminentemente patrimonialista-individualista. (30) Ou seja. Trata-se. em detrimento do ter. . por estar ela inserida em um contexto axiológico mais amplo.

não podem ser tomadas como critérios absolutos. ou seja. está com base no “melhor” para o menor. suas características sociais. no intuito de protegê-la. . escolher entre uma filiação jurídica e uma filiação biológica. buscando assim. Por certo que as duas verdades . respeita-se acima de tudo. uma delas poderá ser desconsiderada em favor da outra. a paternidade que lhe dará maior suporte para o desejado bem-estar em suas relações familiares. éticas. formando assim. culturais e mentais). entende-se que o maior critério hierárquico para se estabelecer o destino do infantojuvenil. Em certas situações. em relação à família que terá sua posse (responsável por sua educação e afeto.biológica e afetiva . desde que para assegurar seu bem-estar. Com isso. sempre o melhor caminho para a criança ou adolescente.27 CONCLUSÃO Conclui-se do exposto que o interesse da criança deverá ser o fundamento de toda decisão que disser respeito a sua vida familiar e poderá permiti-la. eventualmente.são meios para buscar-se o respeito aos interesses da criança. portanto.

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Direito da Criança e do Adolescente: uma Proposta Interdisciplinar. 335. Des. Luiz Felipe Brasil Santos . 20. Revista Brasileira de Direito de Família.Rel Des. 28 de dezembro de 2001. Belo Horizonte : IBDFAM. p. 21 BARROS. 17 BOEIRA.ibdfam. Cível. BOEIRA.29 16 BOEIRA. Apelação Cível 108./set. 25 BARROS. 26 TJRS . v. p. 12.ibdfam.110 . Posse do Estado de Filho. v. Paternidade. Tânia da Silva. Accácio Cambi . n. n. Rio de Janeiro : Renovar. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado.2001. Fernanda Otoni de. 83. 1999. Comarca de Santa Bárbara do Sul.Ac. Processo nº 3. apud PEREIRA./ago. jul.417-9 . Porto Alegre. 27 BRAUNER. 29 TJPR.Rel. p. Interfaces e Conexões do Direito de Família. 28 TJPR.set. Surgido com o Exame do DNA.11. O Paradoxo da Verdade Biológica e Sócio-Afetiva na Ação Negatória de Paternidade. Paternidade Sócioafetiva. p. 55. 2000. Jornal Síntese. 6. São Paulo : Malheiros. Relacionamento Interfamilial. 2000. 30 CAMBI.br> Acesso em: 20. 70.12.110 .J. 1996. 14:02.2010. 28 dez.br> Acesso em: 20. 2000.Ação de investigação de paternidade. p. Do Direito do Pai: sobre a Paternidade no Ordenamento Jurídico. Disponível em: <http://www. dez. 12.J. Rio de Janeiro : Forense.2001. v.AC 70003110574 . n. p. Porto Alegre: Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul.com. 32. Fernanda Otoni de. Bernardo Ramos. 19. Bertoldo Mateus de. 21. Revista de Sentença. GOMES. Investigação de Paternidade. 4. v. 80. 215. p. Civ. 2001. . 2000. cit. Bernardo Ramos. 1. Cível .J. Novos Contornos do Direito de Filiação: a Dimensão Afetiva das Relações Parentais.com.. Deodato. 78. Orlando. 2002. cit. 22 Juiz prolator: Carlos Frederico Finger. p. 15:50. Eduardo. Ac.2ª C. 1993.2001. p. Accácio Cambi.417-9 . 23 BARROS. 78. 14. Sobre o Interesse maior da Criança para além da Biologia: a Família. Porto Alegre : Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. Del Rey Revista Jurídica. . 59.Rel.. Sobre o Interesse Maior da Criança para Além da Biologia: a Família. maio. na Hipótese de "Adoção à Brasileira". Direito de Família. 8. 26.set. . A/Z. 18 19 20 RIVERA. op.2ª C. p. Bernardo Ramos. Apelação Cível 108. Porto Alegre : Síntese/IBDFAM.2010. jan. op. jun.12. p.7ª C. 20. 1992. 24 OLIVEIRA FILHO. Revista da AJURIS. Disponível em: <http://www. Maria Cláudia Crespo. Des.910 . Fernanda Otoni de. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 8.

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