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ADMINISTRADOR EXECUTIVO PAULO FERREIRA DIRECTOR PAULO FAUSTINO EDITOR MÁRIO GUERREIRO | @ editor@mediaxxi.com REDACÇÃO VERA LANÇA | @ redaccao@mediaxxi.com GUILHERME PIRES MARGARIDA PONTE COLABORADORES CÁTIA CANDEIAS DULCE MOURATO HERLANDER ELIAS JOANA SIMÕES PIEDADE PAULA DOS SANTOS CORDEIRO RUI MARTINHO OPINIÃO CARLA MARTINS FRANCISCO RUI CÁDIMA FRANCISCO A. VAN ZELLER REGINALDO RODRIGUES DE ALMEIDA DESIGN TÂNIA BORGES | @ design@mediaxxi.com CONSULTORA DE IMAGEM E COMUNICAÇÃO JOANA GUITA PINTO MARKETING E PUBLICIDADE MARIANA GREGÓRIO | @ PUBLICIDADE@MEDIAXXI.COM ASSINATURAS @ publicidade@mediaxxi.com IMPRESSÃO HESKA PORTUGUESA – INDÚSTRIAS TIPOGRÁFICAS, S.A. – CAMPO RASO 2720-139 SINTRA – TEL.: 21 923 89 00 DISTRIBUIÇÃO VASP/ CTT – CORREIOS DE PORTUGAL SOCIEDADE GESTORA DA REVISTA FORMALPRESS – PUBLICAÇÕES E MARKETING, LDA. ESCRITÓRIOS  RUA PROFESSOR VÍTOR FONTES, Nº 8D, 1600-671 LISBOA  21 757 34 59 |  21 757 63 16 | @ geral@mediaxxi.com  PRAÇA MARQUÊS DE POMBAL, Nº 70, 4000-390 PORTO  |  22 502 91 37

[Sumário]

28
TELEMÓVEIS
O mercado da terceira geração 4 EDITORIAL 6 CANAL DA MANCHA

38
MUSEU DA LÍNGUA
A interactividade em São Paulo
ISCSP

50
PORTUGAL MEDIA
Portalegre em análise

59 CENTROS DE CONHECIMENTO 60 INSTITUIÇÕES DO CONHECIMENTO
ICAM

O audiovisual europeu chegou ao Paraíso

8 SOCIEDADE BIT
TIC, prego a fundo!

10 DOSSIER
Tecnologias de Informação e Comunicação

18 ENTREVISTA
Juvenália Carvalho

61 LEITURAS 63 A INDÚSTRIA DE HOLLYWOOD 66 ENTREVISTA SECTORIAL
Pedro Pina, McCann Worldgroup Portugal

21 ACTUALIDADE SI 22 ACTUALIDADE IMPRENSA 24 ACTUALIDADE PUBLICIDADE E MARKETING 25 ACTUALIDADE RÁDIO 26 ACTUALIDADE TV 27 ACTUALIDADE TECNOLOGIA 32 DINÃMICAS DA COMUNICAÇÃO 34 REPORTAGEM COMUNICAÇÃO
Pistas para o futuro do jornalismo

69 A TV NO FUTURO 71 EMPRESAS XXI
Overtouch

72 CIBERCULTURA

O imaginário pós-fotográfico Literatura digital à europeia

74 EDUCOMUNICAÇÃO 77 IBERMEDIA 78 UNIT 4 AGRESSO
Empresa internacional chega a Portugal

* *

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2

REVISTA FUNDADA POR NUNO ROCHA, EM 1996 DEPÓSITO LEGAL Nº 995 16/96; REGISTO Nº 120427 TIRAGEM: 7000 EXEMPLARES

37 O PAPEL DE CADA UM
Francisco A.Van Zeller

79 ALDEIA GLOBAL 80 A IPTV DA ALCATEL 82
EURO LEX O direito ao bom nome e à imprensa

42 ENTREVISTA CENTRAL
Alberto João Jardim

47 INTEL DEVELOPER FORUM 2006 48 7º ECA 58 AULA ABERTA
A crise da imprensa

84 RESPONSABILIDADE SOCAL NOS MEDIA 85 AGENDA 86 ÚLTIMO OLHAR
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[Editorial]

A IMPRENSA TEM FUTURO

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os últimos meses têm sido publicados vários artigos perspectivando, com alguma leviandade, um futuro “negro” para a imprensa. É claro que os jornais diários já tiveram melhores dias, contudo, vaticinar o fim da imprensa é um exercício completamente especulativo. A recente dinâmica observada nos semanários, induzida pelo lançamento do Sol, parece demonstrar que existe vida para além do audiovisual. Será um sucesso se o Expresso situar a sua circulação média na ordem dos 100 mil a 120 mil exemplares por edição e o Sol conseguir uma circulação média na ordem dos 70 mil a 90 mil exemplares. Até agora os indicadores superam largamente esses números. Mas é expectável que esta performance venha a baixar. No entanto, falta saber se o crescimento observado nos semanários está a ser alicerçado com base na duplicação ou conquista de novos leitores. Se for através da duplicação existe o perigo de, a prazo, estes terem de fazer uma opção, assim como os anunciantes. Caso haja conquista de novos leitores – fantástico! Penso que terá acontecido um misto das duas situações, dada a relativa inelasticidade do nosso mercado. Portugal tem uma grande tradição na leitura de semanários. Os nosso índices de leitura só se podem considerar baixos ao nível dos diários de informação geral. Estamos melhor posicionados nos semanários e revistas. Esta tradição pode ser inclusivamente observada nos jornais regionais, onde não existem diários, excepto na Madeira, com uma circulação média superior a cinco mil exemplares por edição. E nos semanários existem vários jornais com uma circulação média por edição superior a 12 mil exemplares (Região de Leiria, Jornal de Leiria, Reconquista, Jornal do Fundão, O Mirante, entre outros). O impacto da internet será mais acentuado nos diários pela sua facilidade de actualização, o que poderá deixar espaço para as publicações semanais fazerem outra abordagem que a pressão diária não facilita. A imprensa tem um futuro risonho, sobretudo os semanários. Recentemente, um estudo da Newspaper Association of America concluiu que as

editoras americanas de semanários estão a crescer e em boas condições económicas e financeiras. O futuro da imprensa não será marcado pela “morte” do suporte de papel mas sim pela periocidade da informação. Estamos a assistir a um reposicionamento do produto como tem ocorrido noutros PAULO FAUSTINO momentos. A história é composta por DIRECTOR “crises” sucessivas e que acabam por introduzir novas dinâmicas na sociedade. “Vaticinar o fim As decepções podem dar lugar à desco- da imprensa é berta de novas possibilidades. Hoje em um exercício dia fala-se em “crise” por tudo e por na- completamente da. O que está a acontecer agora nos jor- especulativo” nais foi o que aconteceu ao longo da história com outros produtos - houve necessidade de reinvenção das actividades. Muitos produtos estão a tentar reencontrar um novo posicionamento. Um exemplo clássico é a indústria automóvel. Por exemplo, a Ford, nas suas origens, descobriu que a forma mais rentável – através da produção em massa permitia gerar economias de escala – seria criar um só modelo com uma só cor para toda a gente. Com o evoluir dos tempos a Ford teve que se adaptar e gerar economias de gama. Teve que diversificar os seus modelos para satisfazer necessidades diferenciadas dos clientes. É isso que está a acontecer com os media, em particular com a imprensa; observa-se, em simultâneo com a comunicação de massas, uma comunicação para segmentos da sociedade que não querem perder tempo em consumir informação que não lhes interressa. A propósito de sociedade, na entrevista central, Alberto João Jardim, sem “papas na língua”, traça uma análise crítica sobre alguns sectores da sociedade e defende a Madeira com exemplo de pluralismo da informação. Realçe para um artigo que analisa, por dentro, a organização e funcionamento de Hollywood. Destaque ainda para o dossier sobre as TIC, cada vez mais importantes e transversais nas empresas e sociedade em geral.

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[Canal da Mancha]

O AUDIOVISUAL EUROPEU CHEGOU AO PARAÍSO

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sétimo relatório da Comissão Europeia sobre a aplicação dos artigos 4.º e 5.º da Directiva “Televisão sem Fronteiras”, de 14.8.2006, concluiu que a quota de obras europeias na programação televisiva estabilizou na UE a um nível superior a 60 % do tempo total de transmissão em 2004. Perante estes números, a Comissária Europeia do Audiovisual, Viviane Reding, afirmou que “a grande qualidade dos conteúdos audiovisuais europeus, assim como a vitalidade do sector audiovisual ilustra a riqueza da diversidade cultural na Europa”. Quanto a Portugal, o documento refere em particular o caso da TVI, que registou uma boa performance em 2004. Os canais da RTP atingiram os 75% e só a SIC generalista ficou aquém do que a Directiva exige, com 46,3% de produção europeia. Curiosamente, não podendo ser contabilizados noticiários, é um canal de informação, a SIC Notícias, que atinge os 76,1%, tendo a NTV chegado mesmo aos 100 por cento… A crer nas palavras da Viviane Reding, até pode parecer que o Audiovisual europeu e as suas produções alcançaram o Paraíso. Mas olhando para as nossas queridas televisões – e, porque não – para o horário nobre dos nosso canais generalistas, que vemos nós de produções europeias? O que é que nos chega da Europa ao prime-time da televisão portuguesa? Muito pouca coisa, com excepção, naturalmente, da produção local. Diz a Directiva europeia que devem os Estados-membros velar por que os canais de TV reservem a obras comunitárias uma percentagem maioritária do seu tempo de

antena, excluindo o tempo consagrado aos noticiários, a manifestações desportivas, concursos, publicidade, serviços de teletexto ou televenda. Percentagem que deve ter em conta as responsabilidades dos operadores em matéria de informação, educação, cultura e diversão. O problema é que de um modo geral, entende-se no documento por “obras europeias” as obras originárias dos Estados-membros… Dir-se-ia que, nesta matéria, tudo o que vem à rede é peixe. Daí ser vital introduzir novas modalidades de monitorização assente em princípios qualitativos na análise do sistema de quotas. O sistema de quotas, tal como está definido, é um contra-senso dado que se anula a si próprio a partir do momento que se estrutura sobre um princípio meramente quantitativo. Isto é, ao postular que determinados programas e produções – todos, dentro de determinados géneros -, são considerados para a contagem percentual final, assume-se que não há uma escolha pela qualidade intrínseca dos conteúdos, nem tão pouco por uma orientação estratégica que privilegie, por exemplo, o «stock» face ao «fluxo» e muito menos por produções que integrem – e ‘inscrevam’ (no sentido da ‘inscrição’ de José Gil) – uma ideia e uma identidade europeias, quer no plano cultural, quer mesmo no ‘sacrossanto’ plano do ‘grande mercado’ europeu, paradigma referencial da própria Comissão Europeia. A própria noção de quota de ‘obras europeias’, neste contexto, comporta algum ridículo, dada a inexistência do conceito, de consenso, e de exigência em torno desta matéria.

FRANCISCO RUI CÁDIMA
DOCENTE UNIVERSITÁRIO

“O sistema de quotas, tal como está definido, é um contra-senso dado que se anula a si próprio”

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[Sociedade Bit]

TIC, PREGO A FUNDO!

m 1974 a descoberta de Lucy fez grande furor no meio paleontológico internacional. Recentemente, uma nova descoberta com mais de três milhões de anos, revelou os restos dum corpo, aparentemente duma criança com três anos de idade: a forma do calcanhar, um osso aqui e outro além permitiram inovar sobre as formas de locomoção, o tipo de vegetação existente e, consequentemente, a dieta alimentar da época Também na história do tempo presente, Plutão foi destituído da categoria de planeta e passou a ser um Pluton, de acordo com a nova constelação criada pelos especialistas, na qual estão também Charon e UB313, ao mesmo tempo que os registos de violência urbana aumentam com novas práticas: agora é o carjacking, que se caracteriza pelo assalto rápido a viaturas com os passageiros lá dentro. Na Sic Radical continuam a passar episódios duma das sagas mais vistas há cerca de 20 anos na televisão: Espaço 1999, onde se relatam as aventuras da estação espacial Alfa, situada na Lua, depois do nosso satélite ter saído da órbita terrestre, vagueando pelo universo. Uma das séries televisivas mais vistas actualmente dá pelo nome de CSI e tem mais do que um espaço de acção, com equipas diferentes como são os exemplos de Las Vegas ou Nova Iorque. Dan Brown, para lá do Código da Vinci escreveu entre outros, A Conspiração, teia que leva a NASA até ao Árctico, colocando

E

no mundo uma das mais fabulosas mentiras científicas. Aparentemente tão distantes, o que têm estes temas em comum? A presença efectiva do uso das tecnologias de informação e comunicação, por vezes na sua pior vertente, como é o caso do carjacking que já foi encarado como o resultado do estímulo de jogos de vídeo, outras vezes, com a aparência de filmes feitos em casa quando, por exemplo, comparamos as imagens de Espaço 1999 com diferentes apontamentos da ficção de científica. Porém, na altura, os Águias, as imagens da base lunar, as roupas, os equipamentos de comunicação e de imagem, tudo era pós-moderno. Hoje no CSI, somos confrontados com uma equipa dotada dum instinto crucial, apoiada nos avanços da vertente tecnológica. Em resumo, Lucy e Plutão estão nas mãos de cientistas de especialidades opostas mas providos do mesmo dom tecnológico e assim nos darão respostas seguramente bem mais abrangentes do que as tradicionais e politicamente correctas. O próprio Dan Brown, que entrou em força pelo caminho da religião, não deixou a ‘nova religião’ em mãos alheias: em A Conspiração, como em Fortaleza Digital, é a tecnologia que permite a falácia, é a tecnologia que permite corrigir a fraude. O estatuto transversal das TIC é um facto, sejam aplicadas na Ciência, na Sétima Arte ou nos nossos momentos de lazer. Não é um clube a que se queira ou não aderir, é uma exigência social.

REGINALDO RODRIGUES DE ALMEIDA
PROFESSOR UNIVERSITÁRIO SOCIEDADEBIT@SOCIEDADEBIT.COM

“Na Sic Radical continuam a passar episódios duma das sagas mais vistas há cerca de 20 anos na televisão”

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[Dossier/ Tecnologias de Informação e Comunicação]

AS TIC NA EDUCAÇÃO
Tecnologias são cada vez mais importantes no ensino

As práticas educacionais com recurso às TIC têm-se multiplicado, com resultados positivos para alunos e professores
POR MÁRIO GUERREIRO

C

DOSSIER

om a democratização do preço dos computadores pessoais surgiram as suas utilizações no campo do ensino, cada vez mais promovidas pelos Estados e professores como formal de adequar as populações às linguagens tecnológicas do futuro. Lançado em Maio de 2005, o projecto Professores Inovadores da Microsoft (http://www.professoresinovadores.com.pt), tem hoje mais de 7000 professores inscritos. Através de um portal que funciona como rede de partilha de conteúdos e boas práticas educativas entre professores, este projecto tem granjeado cada vez mais adeptos entre os profissionais da educação. “Nos primeiros 15 dias de lançamento do portal já tínhamos 500 inscritos”, recorda a responsável pelo segmento da educação da Microsoft Portugal. Inserido no projecto “Parceiros da Educação”, lançado há dois anos com a assinatura de um protocolo com o Ministério da Educação (ME), o portal Professores Inovadores tem uma área livre onde podem ser consultados conteúdos de apoio às aulas, mas são as áreas privadas que têm ditado o sucesso do projecto. Aí é possível a participação em fóruns e inquéritos sobre os mais variados temas, das comuns disciplinas a assuntos na ordem do dia como as próprias TIC ou a delinquência juvenil. Relembrando a vitalidade de edição da Wikipedia, aos professores é permitido partilharem os mais variados recursos (em formato texto, multimédia ou em forma de apresentações) e ainda editar o trabalho dos restantes colegas de profissão e desta comunidade. Essencialmente virado para o ensino básico e se-

cundário, este projecto teve a sua primeira conferência em Maio, que serviu para juntar alguns dos professores que a ele recorrem, e fomentar a troca de experiências e opiniões “in loco”. Outro sucesso estrondoso. “Tivemos de fechar as inscrições para a conferência, porque já tínhamos 900 inscrições”, um número significativamente superior ao esperado, revela Adelaide Franco. A próxima conferência já está agendada para Maio de 2007. Outro dos principais objectivos do portal passa por permitir a formação contínua dos profissionais da educação, disponibilizando para tal recursos
OS GANHOS PARA A EDUCAÇÃO
Em Março 2005, a conferência “e-Educação: O que tem o sector da educação a ganhar com o desenvolvimento da Sociedade da Informação”, organizada pela Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade de Informação, abordou algumas das vantagens que poderão advir para o sector de um maior uso das TIC. Entre as conclusões a que chegaram oradores como o ex-ministro da Educação, Roberto Carneiro, Carlos Zorrinho, Adelaide Franco, Diogo Vasconcelos e José Dias Coelho, as principais apontaram para uma maior dificuldade de “intrusão das TIC na prática educativa”, do que propriamente o equipamento das escolas com PCs. A conferência da APDSI fez notar também que o valor transformador das TIC é claramente superior ao de outras tecnologias anteriores, como a rádio e a televisão, e que com o recurso a estas novas tecnologias o conceito de turma tende a transformar-se em comunidade de aprendizagem, processo onde se incluem os professores.

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[Dossier/ Tecnologias de Informação e Comunicação]

CASA DA IMAGEM

formativos direccionados a uma aprendizagem constante dos professores. O portal faz uso da tecnologia SharePoint, o que no futuro pode ditar a possibilidade de ligação entre os seus projectos congéneres dinamizados pela Microsoft noutros países, como o Brasil, Japão ou Noruega. O projecto português foi o primeiro do género lançado pela Microsoft. Adelaide Franco refere que o “feedback” recebido da parte dos professores “tem sido muito positivo.Tem havido imensos pedidos de recursos e nota-se que os professores inscritos estão entusiasmados”. As próximas novidades neste portal, que pretende ajudar os professores na adopção de modelos tecnológicos inovadores na escola, passam pela criação de “mais áreas de conteúdos e promoção de mais concursos de produção dos mesmos”. Segundo Adelaide Franco, esta medida destina-se a fomentar uma maior partilha de recursos, dado que os professores ainda “optam mais por usar apenas os conteúdos e não os partilhar”.

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DOSSIER

Compreender as TIC nas escolas O programa Educação e Tecnologias, da Unidade de Investigação, Educação e Desenvolvimento (UIED), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL) surgiu na década de 90 com o objectivo de “conhecer e compreender o que se passa nas escolas e noutras instituições de educação e formação no que diz respeito à utilização de computadores e redes educacionais”, refere o professor responsável, Vítor Teodoro. Outro dos objectivos do programa é também a intervenção nas escolas, através do desenvolvimento de “novas modalidades de utilização de tecnologias, em particular no que diz respeito à utilização de ambientes de computação científica”. O programa da FCT desenvolveu o software Modellus, existente em oito línguas e “utilizado e reconhecido como uma ferramenta importante para a introdução de computação científica em diversos países”. No Reino Unido este software integra o currículo de Física do Institute of Physics, para o ensino secundário. O programa é financiado através do apoio que é fornecido à UIED pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e por programas de investigação nacionais e europeus. Para Vítor Teodoro, o ME tem um programa “com um projecto claro e razoavelmente estruturado e financiado”, e admite que a criação de “condições organizacionais nas escolas seja algo muito difícil”. Para o professor, a melhoria “da autonomia e avaliação das escolas” poderá melhorar e aumentar o uso adequado nas mesmas, desde que acompanhado por uma actualização de equipamentos e software.

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[Dossier/ Tecnologias de Informação e Comunicação]

SITIC COM NOVO CONCEITO
Salão quer dinamizar mercado das TIC

Mais do que uma feira de TIC, o SITIC 2006 pretende ser um espaço de inovação e conhecimento
POR DULCE MOURATO

O

DOSSIER

Salão Internacional de Tecnologias da Informação e Comunicação (SITIC), que se irá realizar de 2 a 5 de Novembro de 2006, vai fazer ressurgir um evento de TIC, por iniciativa da FIL, que pretende demonstrar “o optimismo crescente na Economia e uma renovação do conceito deste tipo de iniciativas que alia tecnologias, investigação, a redução substancial dos custos para os expositores e uma mais-valia para as empresas que assim podem investir mais na divulgação de produtos e serviços e, consequentemente, atrair mais visitantes”. Esta primeira apresentação do SITIC decorreu numa conferência de imprensa que pretendeu dar uma perspectiva geral de um certame diferente de outros. O que distingue o SITIC (face a outras feiras que a precederam) são sete factores: um palco misto composto por uma área para o grande público e outra exclusiva para os profissionais (em ambas, com horários diferenciados, poderão encontrar-se espaços temáticos e apresentação de novidades); uma comissão organizadora constituída por personalidades relevantes do sector que irão contribuir com o seu know how para que o SITIC seja realmente estruturado para e pelo mercado; a aposta na e-health, security e e-gov como os três vectores te-

VANDA JESUS - DIRECTORA DE FEIRA

máticos de inovação e conhecimento de inspiração de novos negócios; um local onde as TIC sejam o pretexto para a apresentação de marcas, de produtos, serviços e de conferências sobre novas tendências e realidades; o reflexo da promoção internacional do evento através do ICEP para angariar expositores e compradores de países como a Espanha, o Brasil e os PALOP; espera-se que seja uma montra ou um cartão-de-visita para as empresas portuguesas tendo em conta a sua internacionalização e, por isso, aproveitar a ocasião para destacar as empresas, personalidades e produtos de excelência, mediante prémios de excelência – os TIC Awards. Com pouco mais de 1200 euros é possível adquirir um pacote especial de participação no SITIC e estar presente numa iniciativa relevante tanto para empresas em crescimento como para grupos internacionais. Luís Ribeiro, administrador da PT Investimentos Internacionais, como presidente da comissão organizadora do SITIC, reforçou esta ideia referindo que as condições para os expositores são bastantes favoráveis e que se continuam a efectuar as diligências necessárias para que as principais empresas do sector a operar em Portugal estejam também presentes. Vanda Jesus, por sua vez, esclareceu que “o SITIC deve reafirmar-se como uma feira de referência do sector e que os objectivos desta primeira edição passam pela presença de mais de 250 empresas ou instituições e por atingir o número de 30 mil visitantes”. E para que isto aconteça foi idealizada uma área mista especialmente vocacionada para o público em geral e, particularmente para as escolas, com uma área de Memórias TIC (uma espécie de museu vivo desde o primeiro PC até hoje), uma casa do futuro, o Future Park, uma área de Modding e uma Lan Party.

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[Entrevista/ Juvenália Carvalho]

DE ANGOLA PARA O MUNDO
Programa Pérolas do Oceano mostra as potencialidades dos PALOP

Com emissão na RTP África, o programa “Pérolas do Oceano” apresenta a actualidade do continente negro, onde se esconde um mundo de oportunidades
POR PAULO FAUSTINO

A

ngola parece estar a “ferver”. É o país cujo PIB mais cresce no mundo e aquele que mais investimento estrangeiro atrai. A estabilidade política e a paz social parecem ser um dado adquirido. O país pode ser também uma oportunidade para Portugal. O interesse nos investimentos e a cooperação entre Portugal e Angola são recíprocos. Prova disso têm sido as constantes missões políticas e empresarias promovidas por estes dois países. A reflexão sobre as potencialidades de cooperação e desenvolvimento económico e social entre Portugal e os PALOP constitui a temática central do programa Pérolas do Oceano, em exibição para o mundo lusófono na RTP África e para todo o mundo na RTP Internacional. Juvenália Carvalho, apresentadora e responsável do projecto promovido pela produtora Oásis Media, revela alguns segredos do sucesso deste programa.

de Jornalistas (CEFOJOR) em Luanda, onde tirei o primeiro curso. Com este organismo e com as novas universidades privadas que abundam desde a mesma altura em Luanda, tudo se torna mais fácil. Como jornalista foi muito afectada pelo clima de guerra que viveu enquanto estudante? R: A guerra destrói tudo e afecta toda a economia. Prejudica toda a gente. Não morre só quem apanha com uma bala nem é “A guerra acabou e neste só destruído momento está tudo a nascer” o sítio onde cai a bomba. Mas o que é importante é que a guerra acabou, e todo o angolano sabe que acabou para sempre. O fim da guerra é a oportunidade de fazer nascer tudo. Na sua opinião o que poderia ser feito para incentivar a formação de mais jornalistas angolanos? R: Penso que seria importante a troca de experiências entre as escolas de jornalismo estrangeiras, em particular as portuguesas, e as escolas angolanas. O CEFOJOR é um bom exemplo de uma instituição onde se pode e deve apostar. Mas outras escolas poderão ser criadas em mais cidades angolanas. Neste momento está a apresentar o Pérolas do Oceano, um programa que está a ter sucesso um pouco por todo o mundo Lusófono. Como nasceu este projecto? R: Nasceu de uma forma muito simples: pedi a algumas empresas o patrocínio para a elaboração de

Como nasceu a sua paixão pelo jornalismo? R: Foi algo que sempre esteve em mim. A curiosidade, a investigação, a vontade de comunicar existem em mim desde sempre. Quer quando frequentei o ensino médio quer o superior. Estive sempre ligada a projectos de jornalismo. Foi fácil para uma estudante que viveu sempre em Luanda e cresceu com o espectro da guerra ter acesso a uma formação em jornalismo? R: Não. Normalmente é muito difícil para um jovem estudante angolano ser o quer que seja num país que esteve 40 anos adiado na guerra. A guerra acabou e neste momento está tudo a nascer. Há três ou quatro anos nasceu o Centro de Formação

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[Entrevista/ Juvenália Carvalho]

um formato que mostrasse ao mundo lusófono a reconstrução e o crescimento da economia angolana. A ideia foi bem recebida junto dessas empresas e no início deste ano comunicaram-me que podia contar com os valores. Criei com os meus sócios a produtora Oásis Media e fizemos parcerias com outras produtoras e organismos, não tendo qualquer dificuldade em criar o programa, do nada. O objectivo da produtora Oásis Media resume-se à produção deste programa? R: Não. Optámos por criar a produtora para fazer algo diferente: estimular parcerias com outras produtoras, escolas, canais de televisão e outros intervenientes do jornalismo e criar formatos modernos que estimulem o crescimento e desenvolvimento dos países africanos e que de certo modo influenciem a qualidade de vida das populações. No fundo foi “fazer acontecer” um sonho que sempre me acompanhou desde o tempo de estudante. Queremos que a Oásis seja um centro de competência do jornalismo em África. Que tipo de produções estão preparados para fazer? R: Estamos preparados para produzir conteúdos em formato TV, rádio, e ainda escritos para outros parceiros (produtoras, canais TV, etc.). A nossa vantagem é que conhecemos muito bem África e conseguimos dar aos tra“Queremos que a Oásis seja um centro de competência do balhos uma visão realisjornalismo em África” ta. O nosso equipamento é topo de gama. Em termos de capacidade técnica temos a suficiente para produzir um programa como o Pérolas do Oceano e a nossa estratégia passa por estabelecer parcerias e co-produções, sempre que possível. Pérolas do Oceano é um nome abrangente. Qual é exactamente o objectivo do programa? R: O programa tem dois objectivos: o primeiro é mostrar o que está actualmente a acontecer em

Angola. O segundo é unir os PALOP e Portugal numa aliança económica de forma que juntos encontrem novos mercados e prosperem. Estes países são as “Pérolas” e o “Oceano” é a Lusofonia. Por exemplo, Angola é um mercado novo que abriu, cheio de recursos mas com falta de quadros técnicos. Além disso tem uma geração pós-guerra fantástica que procura um parceiro para criar um negócio. Portugal tem quadros óptimos; muitos deles desempregados e empresas a precisar de crescer fora de portas. A juventude portuguesa podia fazer parceria com a juventude angolana, de igual para igual, sem paternalismos nem complexos. Porque não dar as mãos para abordar em conjunto o mercado global através de parcerias? Não serão estas boas soluções para ambos os países? O programa é um fórum de apresentação de casos de sucesso, oportunidades e de discussão sobre este tema. Há ainda os outros PALOP que são importantes nesta aliança e que incluiremos no programa logo que tenhamos oportunidade. O que pode levar um empresário ou um quadro técnico a ir investir ou residir numa zona remota de Angola? R: Sobretudo a vontade de vencer, o lucro e o espírito de aventura. Angola é um mundo de oportunidades. Tudo está por fazer. As paisagens são lindas, o clima é bom, as pessoas são fantásticas. A segurança já é uma realidade. Ao contrário de Portugal, tudo faz falta e há dinheiro para comprar tudo. Ser personagem activa do nascimento de uma nova economia pujante, ser parte activa do

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[Entrevista/ Juvenália Carvalho]

Como perspectiva o desenvolvimento do sector da comunicação social em Angola a curto e médio prazo? R: Imagino que Angola se torne no centro de negócios da região, e Luanda na Capital da informação regional. Agências noticiosas, produtoras, etc., todas quererão ter uma “antena” em Luanda. Quais as principais dificuldades que o sector enfrenta? R: Penso que o principal problema é a colocação de notícias para o exterior: não há canais internacionais de rádio ou TV e os canais estrangeiros, com referi, não facilitam a colocação de conteúdos angolanos, mesmo que de qualidade. nascimento de um novo país, é algo que não pode deixar ninguém indiferente... Quais as principais dificuldades associadas à produção de um programa como o “Pérolas do Oceano”? R: A dificuldade que qualquer produção africana tem de se afirmar e de ser colocada em antena em canais ou estações vistas por empresários. O programa é visto em Portugal apenas na RTP África, que é um canal visto essencialmente pela comunidade africana. No entanto, alguns empresários portugueses que já conhecem o programa, não perdem os seus episódios e usam-nos como ferramentas de trabalho para obterem informações sobre os mercados dos PALOP e dicas sobre potenciais parcerias. De resto, financeiramente o programa está patrocinado. Considera que existe um défice de programas na televisão portuguesa onde seja retratada a actualidade dos países africanos, em particular dos PALOP? R: Sim, sobretudo que acompanhe as actuais mudanças nestes países. Pouca gente sabe que Angola é o país que mais cresce economicamente e as oportunidades que actualmente apresenta. Cabo Verde neste momento é uma das maiores praças financeiras de África e o país africano democraticamente mais estável. Em Angola o “Angola é um mundo de segmento dos oportunidades” media mais popular é a rádio. Tendo em conta o baixo índice de escolarização, considera ser difícil a imprensa escrita desenvolver-se em Angola? R: Penso que como 50% da população tem uma idade inferior a 15 anos a imprensa tem grande futuro e até poderá ser uma alavanca importante para a alfabetização. Um jornal oferecido com artigos pequenos, poderia ser um passo interessante... Ao nível do sector da comunicação social também se tem observado algumas intenções de investimento, quer por parte de empresários locais quer de empresários estrangeiros? R: Sim, de ambos. Os primeiros mais na imprensa escrita e os segundos mais na produção de conteúdos para TV. Que conselhos daria a quem quiser investir no sector dos media em Angola? R: Que não venham com paternalismos nem com a ideia que Angola é uma extensão do seu país, isto sobretudo se forem portugueses (risos). Estudem o mercado e a cultura local, procedendo como se estivessem a abordar outro país não PALOP.

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[Actualidade SI]

“GOOGLE IN A BOX” CHEGA A PORTUGAL
Impresa é primeira empresa nacional a utilizar a tecnologia

O novo motor de pesquisa da empresa norte-americana visa simplificar as pesquisas nos servidores internos e sites das empresas
POR GUILHERME PIRES

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grupo Impresa é a primeira empresa portuguesa a aderir ao novo motor de pesquisa intranet da Google. Com uma dimensão similar a um computador de secretária, o Google In a Box, também conhecido por Google Search Appliance, permite organizar a informação interna das empresas e simplificar a procura de ficheiros nos servidores e terminais informáticos. O objectivo é tornar a pesquisa de informação dentro das organizações tão simples como as buscas realizadas pelos utilizadores comuns no conhecido portal online da Google. “Os funcionários das empresas perdem 25 por cento do tempo de trabalho em pesquisas, pelo que para as empresas é importante simplificar este processo”, defende Roberto Solimene, director europeu da Google para as aplicações empresariais. Apresentada a 12 de Setembro num seminário organizado pela Holos, parceira da empresa norte-americana para o mercado português, a aplicação simplifica as pesquisas através de uma indexação maciça, envolvendo e-mails, sites visitados, aplicações e documentos de 220 formatos. Para já a Impresa disponibiliza o motor apenas nos seus sites de classificados de emprego e mobiliário, que apresentam agora um design mais sim-

ples, com menos caixas e opções para as pesquisas. Em breve será aplicado a todos os sectores do grupo, como o Expresso ou a SIC. Geert Van Hassel, director de classificados da Impresa, revelou que no futuro a tecnologia será também utilizada para a pesquisa de informação interna.Van Hassel garante que os resultados são melhores porque o motor “possui uma filtragem muito leve e elevada simplicidade que tornam a pesquisa mais rápida e eficiente”. Google preferida dos portugueses Carlos Gracia, gestor de vendas da Google para a Península Ibérica, defendeu que a elevada penetração do motor de pesquisa online em Portugal abre boas perspectivas para o sucesso destas aplicações empresariais. “O Google é a página mais visitada em Portugal, com uma penetração de 91 por cento (sete milhões de pessoas)”, indicou Gracia. O elevado índice de utilização torna a tecnologia familiar à maioria das pessoas, pelo que o uso do motor nos servidores das empresas não deverá levantar problemas aos utilizadores. É esta a convicção de Pedro Sousa, CEO da Holos, parceira da Google em Portugal para os pacotes empresariais. “Nem vale a pena darmos formação aos funcionários no que respeita às aplicações Google”, afirmou. Para além da Impresa, a aplicação será em breve utilizada pelo atelier VM-SA Arquitectos, com sede em Évora. A par do motor de pesquisa chegará em breve a Portugal a versão profissional do Google Earth, que integra novas funções e assistência das equipas da Google. A Google Search Aplliance é já utilizada por diversas empresas europeias, como a BMW ou a ST Microelectris, ou até por cidades, como o caso do site institucional de Brighton.

HOLOS

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: REGINALDO ALMEIDA, GEERT VAN HASSEL, SOFIA ALEIXO, ANAND CHITALE, ROBERTO SOLIMENE E PEDRO SOUSA

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[Actualidade Imprensa]

CIDADÃO PAPARAZZO
Bild transforma leitores em colaboradores

O jornal alemão incentiva os seus leitores a serem repórteres fotográficos e têm mesmo direito a um cartão de identificação de colaboradores
POR VERA LANÇA

Q

uem sempre quis ser foto-jornalista tem agora a vida facilitada, pelo menos na Alemanha. O Bild, propriedade do mega-grupo Axel Springer e o jornal mais lido naquele país, fez um convite peculiar aos seus leitores – serem repórteres fotográficos ao serviço do tablóide. O desafio foi lançado em Julho passado e, desde então, a redacção recebeu milhares de fotografias tiradas por leitores comuns. Não há almoços grátis e, por isso, o jornal paga por cada imagem que for publicada entre 100 a 500 euros, consoante a fotografia surja na edição regional ou nacional do tablóide. Munidos com uma máquina fotográfica ou com um simples telemóvel com equipamento de fotografia, os leitores transformam-se em autênticos paparazzi, mas o jornal não deixou nada ao acaso e quer os seus colaboradores identificados. O Bild distribuiu numa das suas edições cerca de dois milhões de cartões com a designação “Presseausweis: Leser-Repor ter”, o que se traduz por “Identificação de Imprensa: Repórter-Leitor”. A ocasião faz o paparazzo e o tablóide não se faz de esquisito nem impõe temáticas ou situações preferenciais a fotografar. Neste caso vale tudo – desde acidentes de trânsito e situações insólitas a imagens de figuras públicas. Aliás, uma das críticas que se ouve na Alemanha é que agora todos podem vigiar todos e que a vida privada das celebridades pode ser exposta quando menos esperam, pois estas são as vítimas preferenciais dos paparazzi amadores.

Leitores gostaram, profissionais criticam A ideia de serem repórteres fotográficos foi muito bem recebida entre os leitores germânicos que aderiram em massa ao desafio que lhes foi lançado, e todos os dias chegam centenas de fotografias ao

jornal. No entanto, esta situação está a ser vista com maus olhos pelos profissionais de comunicação social alemães, principalmente pelos repórteres fotográficos profissionais. A própria Federação Alemã de Jornalistas afirma que esta prática ameaça o emprego dos fotógrafos profissionais, para além de vir desvalorizar o trabalho feito nas redacções. Os responsáveis do Bild defendem-se dando o exemplo de um caso que antecedeu os alemães, nomeadamente o de outro diário também muito popular, neste caso na Noruega, o VG que recorre a esta prática há já alguns anos. A polémica, apesar de ter começado em Julho passado aquando do apelo do tablóide, é ainda muito debatida na Alemanha entre os meios de comunicação. O jornal alemão online Jetzt.de afirmou em Setembro que “em África caçam-se gnus, nos EUA caçam-se tornados e nós [na Alemanha] caçamos as grandes imagens”.

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[Actualidade Publicidade e Marketing]

CHEGOU A ERA DIGITAL
Que perspectivas para o mercado publicitário

Adivinham-se novos impulsos para a publicidade em que as marcas poderão beneficiar de uma conjuntura potenciada pelas novas tecnologias
POR VERA LANÇA
MÁRIO GUERREIRO

O

panorama actual indica que o investimento publicitário mundial poderá aumentar 5.7 % até ao final do ano. A estimativa é traçada pela Carat, que aponta vários factores como o desenvolvimento positivo de muitas economias internas, mas sobretudo, a afirmação da era digital. Para Robert Lerwill, da CEO da Aegis, uma holding da Carat, os suportes digitais lideram o crescimento na maioria dos mercados, o que leva a uma transformação do panorama de marketing, pois o investimento nos media digitais já é uma necessidade para os investidores. Por exemplo, prevê-se que, dentro de dois anos, o investimento publicitário na internet nos Estados Unidos ultrapasse as quantias gastas na imprensa.

AS NOVAS TECNOLOGIAS PERMITEM UM MAIOR ENVOLVIMENTO COM O CONSUMIDOR

Novos suportes, novas ideias A TV móvel é uma das facetas da era digital possibilitada pela adopção do Internet Protocol Television (IPTV) e com as novas plataformas surgem também vários canais que emitem através das redes móveis 3G. A emissora estatal lançou recentemente o primeiro serviço deste género em Portugal. O RTP Mobile está acessível 24 horas por dia e disponibiliza uma grelha de conteúdos dos diversos canais da RTP.Também a SIC Portátil já está a desenvolver a emissão de conteúdos televisivos móveis. Em Inglaterra, por exemplo, está a ser testado um novo serviço IPTV com séries populares que indicam para a disponibilidade dos consumidores em pagar este serviço, para além da assinatura. Com o aparecimento destas novas plataformas de conteúdos, os anunciantes não podem ignorar as

potencialidades das mesmas, o que passa pela adaptação das mensagens publicitárias ao pequeno ecrã, sendo essencial ter em conta que o que funciona no ecrã de televisão convencional, pode não ter os mesmos resultados no ecrã de telemóvel. O próximo desafio dos anunciantes consiste em encontrar novos conceitos que envolvam as audiências móveis. Um estudo realizado pela empresa inglesa Informa Telecoms & Media indica que, até 2011, a TV móvel irá abranger um universo de 210 milhões de pessoas em todo o mundo. Estes novos conceitos de utilização dos media implicam um envolvimento cada vez maior com o consumidor, muito à custa do modelo dos media tradicionais. Enquanto uns anunciantes preferem o branded content ou o marketing experimental, outros lançam-se nas novas vias de comunicação. O digital veio assim potenciar o envolvimento do produto publicitado no dia-a-dia das audiências.

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[Actualidade Rádio]

UMA CERTA QUÍMICA NO AR...
Laboratório de FM

Em Cascais, um apaixonado projecto assume o prazer de comunicar, a independência e o experimentalismo, numa espécie de laboratório radiofónico
POR PAULA DOS SANTOS CORDEIRO

etembro viu nascer um novo projecto de rádio com emissão na região de Lisboa. Sediada em Cascais, na frequência da antiga CSB Rádio, a Química FM (105.4 FM) anuncia-se como financeira e esteticamente independente e, acima de tudo, diferente. De acordo com a informação disponibilizada pelo director de programas, Carlos Simões, a Química FM é uma estação que foge à regra de formatação que predomina no panorama nacional da rádio. A Química não tem playlist e assume uma vocação musical que decorre da experiência e conhecimento de um amplo conjunto de profissionais há muito ligados ao meio, que se juntaram para “devolver à área da Grande Lisboa o amor pela rádio”, com um alinhamento de programas de carácter generalista e “uma considerável dose de programas de autor”. É um projecto financeiramente independente, vocacionado para a divulgação do que é “produzido dentro de um universo que se conven-

S

ORIGINALIDADE DOS AUTORES
Composta essencialmente por programas de autor, a grelha da Química inclui programas como: “Eclética” com Lucinda Sebastião (XFM, Marginal), “77”, um espaço para entrevistas, numa sessão dedicada às raízes e novidades do movimento punk, acompanhado pelo blogue de Billy, o autor, “h2 Jazz” com o músico Pedro Madeleno, “Pastor de Abelhas” de Mário Borges, “Ballet Mecânico” com os Dj’s Yari e Nuno, ou “Cobertor Eléctrico” de João Paulo Almeida e Pedro Vieira.

cionou chamar de alternativo”. A programação consagra espaço à informação, com uma “importante componente de informação cultural”. O pop, a electrónica, a música do mundo, o jazz, reggae e a produção portuguesa estão em destaque, a par com o espaço para “experiências sónicas”. Um dos programas de autor, “Triângulo Escaleno”, já tem um blogue e os podcasts estão igualmente disponíveis em sítio próprio. Da responsabilidade de João Gonçalves e Vítor Junqueira, o programa vai para o ar aos Domingos à noite, numa espécie de reunião de amigos em que um deles, o convidado da semana, fala de si e da música que o rodeia. Outro programa, nas tardes de Domingo, revela uma tendência há muito abandonada pela rádio, a da produção externa. A “Terra Pura”, um programa dedicado às músicas do mundo, ocupa também as emissões da Rádio Zero, projecto online do Instituto Superior Técnico, da Rádio Universitária do Minho e da Antena Miróbriga (Santiago do Cacém). Há ainda um programa semanal da responsabilidade da netlabel portuguesa Test Tube que integra a grande variedade de programas de autor da grelha da Química FM.

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[Actualidade TV]

TELEVISÕES ACORDAM CLASSIFICAÇÕES
Entendimento entre canais privados e público

RTP, SIC e TVI passam a classificar de forma uniforme os seus programas, de acordo com quatro níveis de visionamento por idades
POR MÁRIO GUERREIRO

O

acordo estabelecido entre RTP, SIC e TVI vai criar uma sinalização comum, que estabelece quatro níveis de visionamento de programas. A assinatura deste acordo de auto-regulação entre os directores de programas dos vários canais sucedeu no dia 13 de Setembro. As conversações começaram em Junho e chegaram a bom porto no passado mês de Setembro. A assinatura do acordo no Salão Nobre do Centro Cultural de Belém afigura-se como um marco histórico nas relações entre os três canais, dado que se constitui como a abertura de um diálogo sobre os conteúdos das televisões, e também a primeira vez que Nuno Santos, director de programas da RTP, Francisco Penim, director de programas da SIC José Eduardo Moniz, director-geral da TVI surgiram juntos num evento público, O acordo irá contemplar os programas em si, mas com extensão aos próprios horários de emissão, e promoções dos mesmos. A classificação a dar a cada programa irá ser decidida por comissões multidisciplinares internas e corresponde a quatro níveis. O primeiro engloba os programas direccionados a todos os espectadores e será identificado por um T no canto superior de cada programa. O segundo nível, identificado pela sigla 10 AP define os conteúdos que deverão ser vistos por indivíduos com mais de dez anos. O nível 3 (12AP) irá ser aplicado a programas mais apropriados para quem tem mais de 12 anos e finalmente o quarto e último nível (16) irá referir-se aos programas destinados a idades superiores aos 16 anos. Este acordo de auto-regulação inédito entre os canais privados e público destina-se a facilitar o trabalho dos educadores e insere-se nas recomendações da União Europeia relativamente às

classificações de programas de televisão de uma forma “clara e homogénea”. Os níveis de classificação irão ser o resultado da aplicação de uma série de oito critérios a partir de duas variáveis significativas: comportamento social e temas de conflito. Os critérios são a linguagem, a nudez, o sexo, a agressividade/violência, os comportamentos imitáveis, o medo e as drogas/álcool/tabaco. As classificações das comissões multidisciplinares internas irão ser atribuídas aos programas que não são classificados por outros organismos, como a Comissão de Classificação de Espectáculos. Nesse lote incluem-se os programas de entretenimento, e os conteúdos produzidos pelas próprias estações. Antes da sua exibição, cada programa irá passar a ser analisado por estas comissões à luz dos critérios predefinidos, a fim de receberem a classificação de um dos quatro níveis de visionamento.

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[Actualidade Tecnologia]

BANDA LARGA EM QUALQUER LUGAR
Zapp quer revolucionar o mercado

Com o seu Telemodem Zapp Z020, a Radiomóvel pretende ter uma entrada de rompante no mercado, em especial junto das pequenas e médias empresas
POR DULCE MOURATO

A

Radiomóvel pretende revolucionar o mercado com a banda larga do mais recente Telemodem Zapp Z020, que entra em força no mercado português acompanhado de uma nova campanha publicitária vocacionada para o público em geral e para profissionais e PME’s que necessitem de mobilidade. O Telemodem Zapp Z020 (como o nome indica é um modem USB sem fios) é compatível com processadores Pentium, Dual Core ou equivalente e sistemas operativos Windows XP ou 2000, e Linux. Possui um novo design que engloba duas antenas internas cujos objectivos principais são a captação maximizada do sinal e a optimização da velocidade da ligação - até 2.4 Mbps nas zonas EVDO (Evolução de Dados Optimizados) cobertas pela tecnologia CDMA (Code Division Multiple Access ou Acesso Múltiplo por Divisão de Código) a 450 MHz. De destacar a possibilidade de aceder à Banda Larga móvel Zapp em qualquer lugar do país, excepto nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, e a bateria Power Booster com mais autonomia e diminui-

ção efectiva do consumo de energia. O Telemodem Zapp Z020 (sem custos de aquisição até final de Setembro) segue a máxima da informática (What You See Is What You Get – WYSIWYG) pois assim que é ligado a computadores fixos ou portáteis surgem no ecrã menus de fácil instalação. A Radiomóvel disponibiliza serviços de voz e dados em banda larga desde 1993 e tem larga experiência no mercado das redes Trunking Analógico e TETRA. A partir de 2003 esta empresa tem vindo a investir numa nova rede móvel EVDO, a nível nacional, com tecnologia CDMA abrangendo actualmente várias localidades de Norte a Sul do país. O recente investimento de cinco milhões de euros nesta campanha publicitária “Zapp trabalha melhor em equipa” (realizada em Portugal pela agência Lowe & Partners e que utiliza um mix de meios que abrange televisão, imprensa, mupis, internet e merchandising) vem aumentar as expectativas quanto aos resultados da Radiomóvel a curto e a médio prazo. D.R.

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[Telemóveis – O mercado 3G]

OPERADORAS SALTAM PARA O 3.5G
Redes de telecomunicações apostam no futuro

As principais operadoras vão incrementar a sua aposta na rede 3.5G nos próximos dois anos. As estimativas mais optimistas prevêm que em 2008 os serviços móveis HSDPA atinjam velocidades semelhantes ao fixo
POR GUILHERME PIRES

A

Vodafone, TMN e Optimus estão a reforçar a aposta na tecnologia de comunicações móveis de terceira geração e meia. Para já o principal investimento é o desenvolvimento de novos terminais e ser viços 3.5G através de High Speed Downlink Packet Access (HSPDA). O objectivo comum passa por aumentar a base de clientes da nova geração, que devido aos múltiplos serviços multimédia permite ganhos na facturação anual. Uma aposta seguida de perto também por algumas das principais empresas do sector, como a Nokia, Motorola ou LG. O serviço 3.5G da TMN foi lançado em Julho através do Samsung Z 560. Segundo a operadora “a terceira geração e meia já está lançada e a evolução natural será para maiores velocidades, mas a partir de determinado limite o importante é levar os clientes a tirarem proveito dos serviços e conteúNOKIA E MOTOROLA EM PARCERIA NA MOBILE TV
A Nokia e Motorola estão a cooperar na investigação da interoperabilidade dos serviços de televisão para os telemóveis através da norma Digital Vídeo Broadcasting - Handheld (DVB-H). O acordo estabelecido no início de Setembro visa unificar e fomentar o desenvolvimento desta tecnologia, de forma a melhorar a qualidade de difusão e tornar o serviço mais apelativo para os utilizadores. O novo protocolo é em tudo semelhante ao estabelecido em Fevereiro entre a Nokia e a Eriksson, que visa também a estandardização da emissão digital terrestre da televisão móvel. Em Portugal, a Vodafone encontra-se a realizar testes da DVB-H em parceria com a Media Capital e a Nokia (através dos Nokia N92).

dos já existentes”. A aposta incide por isso na rede 3.5G, em particular no que respeita ao acesso ao e-mail e à internet de banda larga, à Mobile TV e à diversificação de conteúdos. Com 750 mil clientes registados no início de Setembro, os planos da TMN passam por alcançar a meta do milhão de utilizadores 3G até ao final do ano, auspiciando cobrir mais 140 cidades com a tecnologia HSDPA. Também a Vodafone pretende alargar a cobertura da rede 3.5G a 150 cidades, até ao final de 2006. Com um investimento previsto de 10 a 15 milhões de euros nos próximos dois anos para o HSDPA, a Vodafone prepara-se para lançar um interface inovador que permite realizar zapping no telemóvel e está a avaliar a possibilidade de criar pacotes temáticos de canais para o Mobile TV. De acordo com a operadora o objectivo passa por garantir, nos próximos três anos, 1,5 milhões de clientes 3.5G, para um aumento de facturação anual de 40 a 50 milhões de euros. Os serviços de terceira geração e meia da Vodafone

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[Telemóveis – O mercado 3G]

cobrem hoje 81 cidades do norte a sul do País, chegando também à Madeira. Para a Vodafone as comunicações móveis “entraram agora na fase de expansão e irão ter uma fatia de mercado muito relevante nos próximos dois anos, suportada no 3.5G e mais tarde no 4G”. Com o lançamento de novos modems USB, a rede de banda larga das três operadoras atinge agora os 3,6 Mbps, velocidade de transmissão já 7,5 vezes superior à 3G. De acordo com a TMN, nos próximos dois anos a evolução tecnológica para 3,5G vai permitir atingir os 14,4 Mbps, “reduzindo em muito os tempos de espera a que as redes 2G e 3G nos tinham habituado”. HSPDA em destaque nas empresas produtoras As principais empresas produtoras de terminais móveis presentes no mercado português estão também a incrementar a aposta no desenvolvimento da tecnologia de terceira geração e meia. A Nokia acaba de apresentar em

Portugal o N73 e o N93, ambos com tecnologia 3.5G, através dos quais pretende aumentar a interacção com elementos multimedia como a fotografia e o video. Estes terminais incluem um browser para a internet que utiliza uma nova tecnologia – o Mini Map – para tentar ultrapassar as dificuldades de navegação. José Horta e Costa, director Multimedia Iberia da Nokia frisa que “o browsing é uma das áreas em grande ex-

pansão na Europa, à qual os consumidores estão a aderir muito bem e na qual estamos a apostar”. O Mini Map é compatível com web feeds (RSS), facilitando o acesso aos conteúdos escolhidos pelos utilizadores. A Motorola Portugal está também a preparar o lançamento de uma nova gama de terminais, que estarão disponíveis em breve no mercado. Entre eles deverá estar o RAZR em versão Unlicensed Mobile Access (UMA). A LG avança apenas que a colocação de novos equipamentos em Portugal “seguirá de perto a disponibilização dos diversos produtos no mercado europeu”. A aposta nos novos terminais é um reflexo dos resultados positivos da tecnlogia 3G em Portugal. Pedro Reis, director de marketing da Motorola Portugal, indica que a tecnolgia 3G suscitou “uma grande curiosidade junto do mercado português, em alguns segmentos acima da média europeia”. Para o responsável, a área dos conteúdos poderá influenciar a forma como a tecnologia continuará a crescer nos próximos tempos. Quanto mais atractiva, mais interesse irá captar junto das pessoas. António Aleixo, director de vendas da divisão de moD.R. bile communica-

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[Telemóveis – O mercado 3G]

tions da LG, indica que existem ainda constrangimentos a uma maior aceitação, como os custos dos equipamentos e serviços. De acordo com a LG, o design dos terminais, a largura de banda e os serviços agregados serão no futuro próximo factores importantes para o sucesso dos novos produtos. O Futuro: um bilião de clientes de 3G em 2010 Nos próximos quatro anos a mudança definitiva da tecnologia 2G para 3G será repentina e não terá a habitual fase de transição. A conclusão é da Strategy Analytics, firma norte-americana de estudos de modelos de negócio que, numa análise do mercado internacional, indica que as tecnologias 3G estão a entrar num período de crescimento sustentado. Num relatório apresentado no início de Setembro a empresa prevê que os utilizadores de tecnologias de telefones móveis de terceira geração deverão chegar aos 167 milhões já no final de 2006. Em 2010 o mercado global deverá ascender a um bilião de utilizadores. O aumento da procura nos Estados Unidos da América e o lançamento dos serviços 3G na China e Índia em 2007 são a principal razão para o crescimento exponencial do mercado. Segundo a Strategy Analytics, centros de grande densidade populacional como o Brasil, Paquistão e Rússia deverão receber estas tecnologias até 2009. A partir do final da década “o mercado 3G irá por isso receber mais de 250 milhões de novos clientes todos os anos”.

TELEMÓVEIS COM SÉRIES DE ANIMAÇÃO
A BenQ Mobile está a desenvolver conteúdos televisivos únicos para os seus terminais 3G. Concebida para um ecrã de pequenas dimensões, a série “Dog&bone” é uma das primeiras a ser filmada e produzida em exclusivo para telemóveis. As limitações tecnológicas implicam que a série não possua sequências rápidas, planos panorâmicos ou diálogos longos. O primeiro episódio já está disponível para download e será pré-instalado no modelo BenQSiemens M81. A conhecida série “Os Simpsons” será também adaptada ao mais pequeno ecrã através do 3,5G.

Apesar destes indicadores a rede 4G começa a ser a aposta de alguns dos principais fabricantes. O mercado global das comunicações móveis atravessa uma fase de constante desenvolvimento, em que a investigação vai já para além da terceira geração e meia. Tecnologias de quarta geração como a WiMax estão já em testes nos EUA e Coreia do Sul e poderão revolucionar os modelos de negócio. A União Internacional das Telecomunicações indica que a nova tecnologia vai permitir a transmissão de dados a partir de telemóveis ao nível dos 100 megas por segundo, o que poderá despoletar a utilização compulsiva de conteúdos multimédia. A esta velocidade os terminais móveis poderão comportar serviços de televisão de alta definição e comunicações bi-direccionais (acesso à internet e vídeochamadas num único sinal). O objectivo é ultrapassar as dificuldades sentidas por muitas das operadoras em tornar lucrativos os serviços 3G. A sul-coreana Samsung, uma das empresas que está na linha da frente para o 4G, indicou no início de Setembro que o lançamento da quarta geração de telemóveis deverá ocorrer em 2010. Em consórcio com a Sprint Nextel, Morotola e Intel, a Samsung prevê investir 2,4 mil milhões de euros até 2008 no desenvolvimento de redes 4G que recorram à tecnologia WiMax. De acordo com Pedro Reis, a investigação nas áreas de comunicação por internet protocol (WiFi) e no 4G é também uma das apostas da Motorola, que para já se concentra “na efectivação e desenvolvimento da tecnologia 3.5G”.

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[Dinâmicas]

Lusomundo Media pondera gratuito

Sociedade Optimizada pelos Media apresentada
O último livro de Herlander Elias, “A Sociedade Optimizada pelos Media” foi apresentado no dia 13 de Setembro, na FNAC do Chiado. Á audiência, o também autor de “Ciberpunk - ficção e contemporaneidade”, referiu algumas das visões sobre o mundo que permeiam esta obra bilingue; desde a massiva simbolização mediática do 11 de Setembro à importância que os mass media têm no consumo e nas escolhas das pessoas.

O grupo Lusomundo Media, pertencente à Controlinveste, não coloca de parte a hipótese de vir a lançar um jornal gratuito generalista e está mesmo a considerar essa possibilidade. A ser lançado, o novo título virá concorrer directamente com os outros dois generalistas gratuitos que já se encontram no mercado, o Destak (da Cofina) e o Metro (da Media Capital) e, inicialmente, terá distribuição em Lisboa.

Hill & Knowlton EMEA é a melhor para trabalhar
A Hill & Knowlton Europe, Middle East and Africa (EMEA) foi nomeada como a melhor agência de consultoria de comunicação e relações públicas para se trabalhar na Europa pelo estudo anual feito pela Holmes Report. Esta consultora ficou à frente das restantes multinacionais em critérios de estudo como o compromisso para com a entidade empregadora em termos de construção de uma carreira, o empenhamento em contratar trabalhadores qualificados, o equilíbrio conseguido entre as exigências profissionais e pessoais ou a confiança na capacidade de gestão.

Programas nacionais lideram

Durante os primeiros sete meses do ano, os programas produzidos em Portugal representaram 55% do total de programas emitidos nos quatro canais que emitem em sinal aberto. Os dados da Marktest revelam, ainda, que os programas oriundos dos Estados Unidos constituem uma percentagem de apenas 23% da emissão da RTP1, 2:, SIC e TVI, enquanto que os programas produzidos dentro da União Europeia representam apenas 7.5% da programação emitida no espaço temporal em questão. Já a emissão de programas de produção brasileira ficou-se pelos 5% do total de programas emitidos em sinal aberto.

Prémio de Design 2006 já tem júri
A 9ª edição do Prémio de Design, do jornal Briefing da Media Capital, já seleccionou os membros do júri que irão votar os melhores trabalhos nesta âmbito, destinado a designers gráficos e ilustradores profissionalmente activos em Portugal. Entre os membros do júri estão Ricardo Sena Lopes (Ogilvy), António Bezerra (McCann Erikson), Pedro Janela (By), entre outros. A edição de 2006 tem os patrocínios da Heska Portuguesa e da Hewlett Packard.
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[Dinâmicas]

A Linden Lab, empresa proprietária do jogo online Second Life, detectou uma falha no seu sistema de segurança que poderá comprometer os dados pessoais dos quase 680 mil utilizadores inscritos no mundo virtual em que o jogo se desenrola.Todos os utilizadores deste jogo receberam um aviso da Linden Lab, onde eram informados sobre a falha de segurança e lhes era pedido para que alterassem as suas passwords. A base de dados da empresa sobre os membros desta comunidade online inclui nomes reais, moradas, passwords e alguma informação sobre os cartões de crédito dos utilizadores.

Falha de segurança no Second Life

Jornais perdem terreno para edições online
Segundo dados avançados pela Marktest, os jornais de tiragem nacional perderam cerca de 173 mil leitores para versões da imprensa online apenas no primeiro trimestre de 2006. No total, já são cerca de 1,6 milhões os portugueses que lêem edições electrónicas de publicações, em detrimento das versões impressas. Segundo este estudo, a percentagem da população que tem este tipo de hábito de leitura é de 16%.

Sony preocupada com imagem no mercado
Depois de se ter sido obrigada a retirar do mercado milhões de baterias de computadores da Dell e da Apple, devido ao risco de sobreaquecimento e incêndio, e de atrasar o lançamento europeu da PlayStation 3 para Março de 2007, a Sony começa a sentir dúvidas sobre a sua reputação no mercado. O departamento que tem levantado mais problemas à empresa tem

Amazon disponibiliza downloads
A Unbox, novo serviço da Amazon, vai permitir o download de filmes e séries televisivas, variando o custo entre um a 15 dólares cada. Esta plataforma de distribuição de conteúdos multimédia disponibilizada pela maior loja online irá concorrer directamente com o iTunes. A Unbox disponibilizará milhares de títulos dos seis maiores estúdios de Hollywood, entre os quais a 20th Century Fox e a Warner, e cadeias de televisão, como a CBS e a FOX. A Amazon garante que a qualidade dos produtos disponibilizados é semelhante à de um DVD. A Marktest está em fase de estudo de uma nova metodologia de medição de audiências para sites da internet. Ainda na etapa de testes, o novo método poderá arrancar já em 2007 e virá substituir a metodologia Netpanel, actualmente utilizado pela Marktest para medir o volume de acessos aos sites de publicações online. No entanto, o Netpanel apenas contabiliza as visitas efectuadas a partir de ligações domésticas, excluindo os acessos efectuados a partir de outros locais exteriores ao computador de casa.

Marktest analisa novo método de estudo

sido a secção de jogos, uma vez que com o atraso de quatro meses da chegada da nova consola à Europa, a Sony não poderá competir com os produtos concorrentes da Microsoft (Xbox 360) e da Nintendo (Wii) na época de compras natalícias, quando estas empresas apostam em grandes campanhas de marketing.

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[Reportagem de comunicação – Excelência no jornalismo]

O FUTURO ESTÁ ONLINE
Os novos caminhos do jornalismo passam pelo mundo digital

Nos principais mercados internacionais os meios de comunicação online começam a ganhar terreno aos jornais impressos, mas em Portugal o sector ainda está nos primeiros passos
POR GUILHERME PIRES E VERA LANÇA

O

s meios de comunicação tradicionais estão a ter cada vez mais dificuldade em resistir à concorrência económica dos novos media. A perda das audiências mais jovens para os conteúdos online, o declínio da circulação de jornais e revistas nos EUA e a redução de pessoal nas redacções de órgãos como o New York Times ou Los Angeles Times são sinais do tempo que apontam para uma transformação profunda na indústria. As conclusões são da organização norte-americana

Project for Excellence in Journalism, que apresenta o panorama jornalístico no relatório “The state of the news media 2006”. De acordo com o documento, o modelo tradicional do jornalismo está a dar espaço a outros modelos mais rápidos, rentáveis e baratos. Os novos media trouxeram, directa ou indirectamente, novas realidades, novos comportamentos e paradoxos. “Existe hoje um número cada vez maior de meios de comunicação a cobrir um número cada vez menor de assuntos”, sublinham os autores. A limitação de tempo de acção que a internet impõe aos “old media” está na origem deste cenário, a par da redução do tamanho das redacções. A dúvida mais relevante para os media tradicionais é perceber quanto tempo irá demorar até que as plataformas online se transformem no motor económico do sector. Em paralelo, a partilha do investimento publicitário começa a ser desfavorável à imprensa - e o impacto será ainda maior quando os principais anunciantes migrarem em definitivo para o online. Para Luís Sobral, director do jornal online Maisfutebol.iol.pt, este cenário produz ainda um situação paradoxal. “Agora que os meios impressos precisam de redacções maiores, que sejam capazes de fazer produtos com maior profundidade e qualidade, sucede precisamente o contrário”, frisa. Mas existe ainda espaço para que o mercado ultrapasse esta crise.

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[Reportagem de comunicação – Excelência no jornalismo]

Jornalismo online ainda nos primeiros passos Apesar de haver muito espaço para o mercado online português crescer, os órgãos têm ainda que melhorar a oferta de conteúdos e a exigência informativa. Para Miguel Martins, editor multimédia do Expresso, o sector está ainda muito agarrado às breaking news. A maioria dos conteúdos da versão online dos principais jornais portugueses são uma réplica do material das agências, opinião partilhada pelo director da Sic Online, Pedro Soares. “Temos de criar sites completos, que despertem no cidadão a vontade de navegar, partilhar experiências e envolver-se emocionalmente com o texto e o jornalista”, defende. O ano passado foi “muito bom” para o projecto liderado por Pedro Soares. Se em 2004 os anunciantes revelaram pouca disposição para apostar no online, em 2005 o investimento foi substancial. “Este é o momento certo para arriscar, porque o mercado tende a aumentar o investimento publicitário nas plataformas digitais”, frisa. Em 2005 o share de publicidade da SIC Online chegou aos 1,2 por cento, o que representa um investimento de 7,5 milhões de euros. Este ano o valor deverá duplicar. “Os anunciantes reconhecem as vantagens da publicidade online, através da

qual conseguem medir o impacto da campanha no target diferenciado”, sublinha Pedro Soares. O crescente investimento publicitário não é, todavia, comparável aos valores registados na televisão ou na imprensa escrita. A inexistência de uma entidade supra-marca que audite o mercado e registe audiências aceites por todas as empresas desmotiva os anunciantes. Até ao final do ano ou no início de 2007 deverá nascer uma plataforma de entendimento entre os principais órgãos do mercado para a criação de uma entidade responsável pelo registo das audiências. O mercado online português tem no entanto outros problemas estruturais. “Temos um mercado pequeno, com poucas empresas, que gera receitas modestas e no qual o Sapo.pt tem ainda um peso muito grande”, explica Pedro Soares. Mesmo assim, para o director da SIC Online o panorama português é animador. “Temos meios com redacções vocacionadas só para este tipo de jornalismo e existe cada vez mais público a aderir aos sítios”, sublinha. O Maisfutebol.iol.pt, o primeiro jornal desportivo online português, teve também resultados positivos em 2005. A subida da audiência para cerca de nove milhões de visitas de página em Dezembro é um marco assinalável, mas 2006 está a ser ainda melhor. “Tivemos três enviados-especiais no Mundial 2006, criámos um site específico para cobrir o evento e lançámos mais quatro livros sobre futebol, sempre com a Primebooks”, sublinha Luís Sobral, director do Maisfutebol. O sucesso do jornal online foi garantido através de controlo de custos e diversificação das receitas, com o recurso a publicidade, venda de conteúdos e edição de livros. Para além da colaboração com o jornal Metro e vários órgãos de comunicação do grupo Media Capital, o Maisfutebol teve já uma rádio de desporto online, suspendida por “ainda não haver mercado”. Para o director do Maisfutebol, a escassez de meios e as curtas receitas publicitárias dificultam a existência de uma agenda própria para os media online, mas os problemas estão a ser ultrapassados. “A penetração da internet está a crescer e isso tra-

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[Reportagem de comunicação – Excelência no jornalismo]

rá novos utilizadores e capacidade para melhorar o trabalho. Estou seguro que até 2010 teremos novos projectos muito interessantes”, sublinha Luís Sobral. Expresso aposta na convergência de plataformas De acordo com o relatório do Project for Excellence in Journalism, para se adaptarem aos novos modelos de imprensa, os media tradicionais “têm de realizar um trabalho mais transparente e alargar as suas áreas de incidência”. O novo projecto multimédia do Expresso vai nesse sentido. O objectivo é fomentar a cidadania participativa e integrar o trabalho de todos os jornalistas da redacção nas matérias disponibilizadas no site. Ao contrário dos exemplos referidos, a versão online do Expresso teve um ano menos positivo em 2005, resultado de alguma estagnação, pouca abertura à comunidade web portuguesa e relação distante com a redacção. Miguel Martins iniciou as suas funções de editor multimédia do semanário em Maio passado, para reestruturar a secção e consolidar o novo conceito. O primeiro passo foi acabar com o “Expresso Online” e integrar os dois projectos numa única marca. Com uma nova homepage desde o dia 1 de Julho, o Expresso.pt apresenta hoje um conceito similar ao de alguns dos media online de maior prestígio e inovação, como o Guardian.co.uk ou o Nytimes.com. Para além de disponibilizar conteúdos multimédia que complementam os artigos publicados na versão impressa, como vídeos, entrevistas em audio ou galerias de fotografias, o site assume agora o papel de fazer a primeira abordagem às cachas que surgem durante a semana. “As melhores estórias têm de sair de imediato, não aguentam mais do que 24 ou 48 horas”, afirma Miguel Martins. Trata-se de um projecto que implica a mudança de mentalidades dentro do próprio semanário, um processo lento por natureza. A meta é o segundo semestre de 2007. “Espero que nessa altura toda a redacção venha da rua e aposte de imediato em nós, como plataforma para os conteúdos que não

podem esperar até Sábado”, frisa Miguel Martins. O projecto implicou a integração da secção multimédia na redacção do Expresso. O semanário tem hoje seis jornalistas dedicados em exclusivo ao online, que são “embaixadores” nas diversas secções para garantir que o site está a par das opções editorais da versão em papel. Para o editor multimédia do Expresso, a internet está a revitalizar a imprensa escrita e não a reduzir a sua esperança de vida. “Os jornais impressos terminam mais depressa por falta de recursos naturais, por escassez de papel, do que por pressão dos media online. No futuro poderão tornar-se produtos mais selectivos, muito próximos do que são hoje as revistas, e as cachas serão deixadas para os sites”, conclui. Enquanto que nos principais mercados – Reino Unido, EUA, França – os cidadãos já estão familiarizados com a partilha de informação e pressão junto dos media, em Portugal dão-se ainda os primeiros passos. “Temos de ter mais recursos, mais jornalistas a trabalhar apenas na integração e análise do trabalho dos cidadãos, a perceber o feedback das notícias”, explica Pedro Soares. A crescente aposta dos media nas plataformas online, o desenvolvimento da blogosfera portuguesa e da sua influência junto dos principais órgãos de comunicação é apenas o início de uma revolução inevitável.

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[Opinião/ Francisco A. van Zeller]

O PAPEL DE CADA UM

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s trinta anos de liberdade de expressão de que Portugal goza, associados ao seu desenvolvimento económico, instituíram um panorama de oferta de vários suportes mediáticos que não tem precedentes na nossa história. Não vale a pena aprofundar o tema do impacto e do poder dos media, as análises continuam a ser feitas por especialistas com regularidade. Vale a pena, isso sim, constatar que, de há anos para cá, têm vindo a ser disponibilizados um maior conjunto de instrumentos para que deixemos de ser meros consumidores passivos de media, passando a ter um papel mais activo – pelo menos reactivo – na definição dos seus conteúdos e das suas fronteiras. Sem ser exaustivo, destaco a possibilidade de qualquer um poder enviar um e-mail directamente ao autor de uma notícia e ou de uma coluna de opinião para debater ou criticar; de escrever para um provedor de leitores ou espectadores – como é o caso do Público, e mais recentemente da RDP e RTP, nesta última com direito a programa semanal de televisão; de participar activamente no universo dos blogues, alguns deles oriundos dos próprios meios de comunicação, outros criados por especialistas em media; de intervir através das associações do sector, como é o caso da ACMedia (Associação dos Consumidores de Media) que funciona como uma espécie de DECO para a comunicação social; destaco ainda a oportunidade de qualquer cidadão português poder reclamar junto da nova entidade reguladora, a ERC, que ainda por cima tem – supostamente – mais meios para poder responder com maior eficácia às muitas solicitações de uma sociedade mediática.

As principais razões deste fenómeno “interactivo”, que se vai tornando mais e mais complexo à medida que as plataformas se multiplicam, são a massificação da tecnologia, que está a alterar a forma como nos relacionamos e por isso também a forma como nos relacionamos com os media, e a noção geral – da sociedade, dos governos e dos próprios meios – de que uma democracia civilizada não pode passar sem o envolvimento dos seus cidadãos nos conteúdos veiculados (há também outra razão um pouco menos generosa: críticas, comentários e debates oriundos dos cidadãos comuns significam por vezes conteúdos gratuitos para os meios). Como consequência, está a alterar-se o (des)equilíbrio da relação entre o emissor e o consumidor. O canal que existe entre ambos torna-se bidireccional, ao invés da difusão unilateral e omnipotente de conteúdos. Podemos agora com maior facilidade e influência intervir em eventuais atentados ao nosso bom-nome e à nossa privacidade, corrigindo injustiças graves. Podemos condicionar a emissão de programas de rádio ou televisão. Podemos, no limite, cancelar publicidade associada a um qualquer conteúdo de entretenimento, já que também os anunciantes – financiadores de todos os media – estão cada vez mais preocupados com a opinião dos cidadãos, afinal os seus clientes. As capacidades estão ao nosso dispor. No entanto, nem a tecnologia, nem as associações ou entidades reguladoras, nem os meios, adivinham o que nos vai na alma sobre o que diariamente consumimos nos media. É, por isso, o papel de cada um de nós, sempre que se justificar, envolvermonos e manifestarmos a nossa posição.

FRANCISCO A. VAN ZELLER
SECRETÁRIO-GERAL DA CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

“Podemos agora com maior facilidade e influência intervir em eventuais atentados ao nosso bom-nome e à nossa privacidade, corrigindo injustiças graves”

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[Museu Brasileiro da Língua Portuguesa]

PORTUGUÊS INTERACTIVO
Museu mostra de forma original a história da língua portuguesa

É um ponto de encontro com a língua portuguesa e sua história, em São Paulo. A interactividade é a principal aposta para mostrar a amplitude da língua de Camões
POR RUI MARTINHO

Desde a data da sua inauguração, a 21 de Março, 170 000 pessoas já visitaram o Museu da Língua, em São Paulo”, revela o director executivo da instituição António Carlos de Moraes Sartini. O museu ocupa três andares da Estação da Luz, uma das principais estações de metropolitano de São Paulo, cruzada diariamente por 300 mil pessoas. A Estação da Luz foi ponto de chegada dos 2,3 milhões de imigrantes que, entre 1882 e 1934, se crê terem dado entrada em São Paulo, para alimentar o boom da exploração de café, pelo que a sua escolha para sede do Museu se reveste de um particular simbolismo. Os grandes objectivos do Museu da Língua, segundo Moraes Sartini, passam por “celebrar a língua portuguesa, mostrar ao público a sua incrível diversidade e valorizar o tratamento estético e artístico de que é alvo, não só por parte dos grandes autores e poetas, mas também pelo cidadão comum no seu quotidiano”. A instituição, um equipamento cultural da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, aposta na interactividade com o visitan-

te, como forma de “mostrar ao utilizador que é ele o dono da língua portuguesa, que uma língua só se mantém viva porque as pessoas a utilizam diariamente”, revela o director. Ivo Castro, professor de Linguística na Faculdade de Letras de Lisboa e especialista em História da Língua Portuguesa, considera que o museu corresponde a uma “leitura brasileira da língua”, facto que não o incomoda, pois “cada nação tem o direito e a necessidade de fazer a sua própria leitura”. Anteriormente existia mesmo “uma visão excessivamente portuguesa da língua”. O linguista forneceu materiais para o Museu da Língua sobre a distribuição da língua portuguesa em África e na Ásia (incluindo crioulos) e as comunidades de emigrantes que falam português. Subscrevendo as declarações da ministra portuguesa da cultura Isabel Pires de Lima, ao considerar “nacionalista” a visão da língua presente no museu de São Paulo, considera no entanto que “esta visão, apesar de nacionalista do ponto de vista brasileiro, me parece relativamente aberta, multicultural e cosmopolita”, facto que considera “muito positivo”.

CASA DA IMAGEM

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O director executivo do Museu da Língua, António Carlos Moraes Sartini assume sem problemas a perspectiva adoptada pela sua instituição face à língua. “A nossa língua é a mesma (só existe uma Língua Portuguesa), no entanto, no Brasil, esta língua sofreu influências diversas: línguas indígenas, línguas africanas e línguas dos imigrantes (italianos, arabes, japoneses, espanhóis e tantos outros). Estas influências, presentes na língua, estão presentes em nossa cultura como um todo”. As diferenças do Português do Brasil Ivo Castro, cuja História da Língua Portuguesa foi recentemente editada em Itália pela Bulzoni Editore, considera as diferenças entre português europeu e português brasileiro “um facto natural e incontornável”. Na sua opinião “a descontinuidade territorial entre Portugal e o Brasil não podia deixar de provocar comportamentos linguísticos diferentes nas duas comunidades”. Três motivos principais explicam este fenómeno. Em primeiro lugar, “a base demográfica diferente da população do Brasil”. A explosão da emigração para o Brasil a partir do século XIX introduz pela primeira vez, em terras de Vera Cruz, outras nacionalidades europeias para além da portuguesa, sobretudo espanhóis, italianos e alemães, para quem a língua de Camões é uma língua estrangeira. “Esses imigrantes do século XIX e do século XX aprenderam o português em adultos como língua segunda. A segunda geração aprendeu o português como língua primeira, mas dentro de fa-

A DEFESA DO ERRO LINGUÍSTICO
“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/ Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo/ Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/ Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear a sintaxe lusíada”, escreve o poeta brasileiro Manuel Bandeira, em 1930. A defesa das particularidades da variante brasileira do português, discutivelmente sentida como infracção da norma portuguesa, é um dos pontos chaves do Modernismo brasileiro. Em 1922, Oswald de Andrade, a partir de São Paulo, tinha proclamado no “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”: “A Língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”. Na verdade, actualmente, a Linguística não contempla o conceito de “erro”, preferindo falar de “variação linguística”, uma característica universal de todas as línguas.

MÁRIO GUERREIRO

mílias que tinham uma aquisição do português fragmentada, parcelar, e com pesada interferência das suas línguas primeiras. Isto significa que os descendentes dos imigrantes europeus falam um português do Brasil com algumas dificuldades a nível da aquisição, o que explica algumas diferenças pesadas em relação ao português europeu”. Mais determinante ainda afigura-se a influência do elemento negro, muito importante na composição étnica da população brasileira. “Durante o século XVI, XVII, XVIII e uma boa parte do XIX, o principal elemento populacional novo no Brasil veio dos escravos africanos, que entravam no país falando um crioulo de base portuguesa, que a pouco e pouco perdiam devido ao contacto com a pequena classe dominante de proprietários portugueses. O passado crioulo do português falado pelos africanos é outro poderoso motivo que afecta uma larga secção da população brasileira”. Através da miscigenação todas estas influências se cruzam, no país essencialmente mestiço que é o Brasil. O “fraco investimento cultural de Portugal nas suas colónias” é outro dos motivos que influenciam a constituição do português do Brasil, embora, na opinião de Ivo Castro, de menor peso que os dois primeiros factores apontados. Portugal não criou

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qualquer universidade no Brasil. A inexistência de Tribunais da Inquisição acarretou a impossibilidade prática de produzir e imprimir livros na colónia, agravada pela ausência de tipografias anteriores à instalação da corte no Rio de Janeiro. “Se fizermos a comparação com a colonização espanhola, no México, no Peru e nas Filipinas, em meados do século XVI, já há universidades e tipografias a imprimir livros e tribunais a tratar das autorizações necessárias, bem como colégios para as crianças terem uma educação espanhola. É claro que esta deslocalização para a colónia dos investimentos principais da cultura era possível – não vamos ser ingénuos – não porque os espanhóis fossem democráticos, mas porque possuíam uma máquina militar tão poderosa no local, que se podiam dar ao luxo de deixar a cultura germinar, porque o exército estaria a tomar conta. Além disso, depararam no México e no Peru com civilizações sofisticadas, que requeriam abordagens adequadas. Em relação ao Brasil, houve um investimento mínimo na transposição dos mecanismos culturais, o que teve como consequência um grande desequilíbrio entre as capacidades culturais da metrópole e as da colónia e, consequentemente, no século XIX, com a independência do Brasil, uma irritação brasileira em relação à metrópole muito superior à que as antigas colónias espanholas costumam ter em relação a Espanha. E, portanto, um diálogo futuro comprometido entre Portugal e o Brasil, quando entre Espanha e as suas antigas colónias esse diálogo não está nada comprometido.” Diferendo ortográfico é fruto de “gaffe” portuguesa “A questão ortográfica entre Portugal e o Brasil é um bom exemplo da irritação brasileira face à metrópole e da forma como Portugal não geriu bem o ascendente que tinha em relação ao Brasil”, afirma Ivo Castro. “O diferendo nasce de uma ‘gaffe’ diplomática portuguesa. Em 1911, Portugal codifica pela primeira vez a sua ortografia. Até então a ortografia era de tipo etimologizante, bastante afastada da realidade fonética e não estava codificada, pelo que permitia uma grande variedade de

IVO CASTRO NO GABINETE LEITE VASCONCELLOS DA FACULDADE DE LETRAS

grafias. A comissão de linguistas encarregue pela República de fazer uma ortografia, produziu um documento tecnicamente muito bom. Mas ninguém pensou que era preciso perguntar aos brasileiros se aceitavam aquela ortografia! Os brasileiros ficaram muito ofendidos e fizeram uma anti-ortografia, ou seja, escolheram soluções propositadamente diferentes. Desde essa altura, tem havido sempre tentativas de conciliação e aproximação que, por um motivo ou outro, nunca batem certo. Em 1986, as autoridades dos dois países estiveram de acordo em fazer uma ortografia única. Mas, desta vez, ao contrário do que aconteceu em 1911, foram os linguistas que não estiveram à altura da tarefa e produziram um documento tecnicamente muito fraco. Depois houve mais duas versões, muito diferentes uma da outra, a última de 1990, assinada no Brasil e em Portugal, mas a discussão em torno da unidade ortográfica já tinha tantos anos e já tinha sido tão intensa que, na realidade, nenhum governo se sentiu com coragem para dar o passo seguinte e pôr a ortografia a funcionar. O que acontece é que já passaram dezasseis anos, a ortografia de 1990 continua na gaveta e ninguém de facto dá pela sua falta. O que é prova suficiente de que a coabitação de duas ortografias, uma própria do Brasil e a outra própria de Portugal e restantes países lusófonos, deve ser encarada como situação irreversível, que temos de assumir e levar para a frente”.

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[Entrevista Central/ Alberto João Jardim]

“O JORNALISMO É UMA ARTE”
Alberto João Jardim critica situação actual dos media

A actual situação dos media nacionais, a actuação do Governo Socialista e o balanço do trabalho de Cavaco Silva, temas que Jardim aborda a sua maneira característica e frontal
POR PAULO FAUSTINO E GUILHERME PIRES

presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, continua a ser uma das figuras mais polémicas da política nacional. Em entrevista, não deixa de criticar o que considera ser um jornalismo subserviente ao Estado, e às críticas de quem diz não existir uma verdadeira liberdade de imprensa na Madeira, responde com a afirmação de que é maior o pluralismo de opinião no arquipélago que no continente.

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possuem simultaneamente uma actividade política, incluindo governativa? R: O problema não está nestes. Está na gritante falta de pluralismo em matéria de sistema político. Que diferenças observa entre o jornalismo actual e o passado? R: Evoluiu para pior. O jornalismo de “causas” dos primeiros dez anos pós-25 de Abril, foi substituído pelo jornalismo de “interesses” económicos ou partidários. Numa entrevista afirmou que se não fosse político gostaria de ser jornalista. O que é que o atrai nessa profissão? R: A liberdade, as causas, a objectividade e a sinceridade que deviam existir sempre. No continente tem havido um aceso debate sobre a relação do jornalismo com a política. Os casos de Manuel Maria Carrilho e Rui Rio são exemplos paradigmáticos que revelam um profundo desagrado destes responsáveis políticos sobre a forma como os jornalistas têm coberto determinados assuntos. Qual é a sua opinião estes casos? R: Tal como na Justiça, criou-se o preconceito anti-democrático de que os jornalistas são “intocáveis” e que cabe aos políticos “ouvir e calar”. Quando se ensina em “escolas” de jornalismo, patéticas e politicamente sectárias, que só o negativo é notícia e o positivo não é para ser narrado, está a formar-se uma sociedade doente, que não tem

Como analisa o panorama actual do jornalismo português? R: Como em tudo, há o bom e o mau, há jornalistas competentes e isentos, como há militantes políticos com carteira profissional. A concentração capitalista no sector traduz-se em jogos de interesses dos proprietários e no pagamento destes de um “imposto revolucionário” à pseudo-“esquerda” marxista, permitindo a esta a utilização dos meios, desde que não os incomode e que publique o que aos respectivos proprietários interessa empresarialmente. Em Portugal, dado como se processa a formação do grande capital, os grandes capitalistas proprietários destes meios de “informação” estão com qualquer Governo, desde que lhes interesse, e ajudam-no a derrubar quando já os não satisfaz. Por isso, o único semanário de âmbito nacional que é de oposição, é O Diabo. De resto, ao contrário das democracias europeias, não há comunicação social de oposição, de âmbito nacional. Qual a sua opinião sobre os comentadores políticos, nomeadamente na televisão, que

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condições para ir a parte alguma. Assim como as Escolas de Belas Artes ou de Música forçosamente não fazem grandes pintores, escultores ou músicos, também as escolas de Jornalismo, só por si, não fazem jornalistas. O Jornalismo é uma Arte. Ou se tem capacidade, incluso ética, ou não se tem. Encontra os mesmos problemas ou questões nos meios de comunicação da Madeira? R: Na Madeira, há muito mais pluralismo na Comunicação Social. Como na Europa democrática, as tendências de cada meio estão suficiente e transparentemente caracterizadas pela opinião pública. Pensa que o sector está mal regulado? R: O problema está na própria regulação, a qual acaba sempre tutelada por gente directa ou indirectamente indicada pelos Partidos. Em Portugal temos os Tribunais, o que dispensa tais “órgãos reguladores”. Pensa que a intervenção das instâncias políticas no sector da comunicação é importante para a sua correcta regulação? R: Esta intervenção resulta cúmplice do péssimo estado da comunicação social em Portugal. Na sua opinião o que poderia ser feito para melhorar o jornalismo português? R: Uma lei que dê primado aos Direitos, Liberdades e Garantias de cada cidadão sobre o arbítrio dos meios de comunicação social, e a remissão para os Tribunais de toda a matéria conflituosa. A Rádio Jornal da Madeira, propriedade do Governo Regional, foi processada pelo ICS por emitir em cadeia com estações privadas que não cumprem as obrigações definidas pela Lei da Rádio. Esta situação mantém-se? R: Francamente, desconheço o assunto. Mas, num país de “pensamento único” ideologicamente im-

posto acerca do sistema político e à mercê do grande capital colaboracionista, percebe-se o ódio à empresa Jornal da Madeira. Na Madeira existem cinco rádios que estão integradas num grupo empresarial. Quais os impactos positivos e negativos que esta situação pode gerar para os cidadãos da Madeira? R: Na Madeira não se pode falar de concentração, essas cinco rádios são locais e entre muitas outras. O Governo Regional investe na sobrevivência do pluralismo de opinião. Alguns estudiosos dos media realçam que a comunicação social está muito politizada. Concorda com esta perspectiva? R: Não está politizada, está quase toda monopolizada sob um “pensamento único”, situacionista, defensor de um regime político mescla de jacobinismo, marxismo, corporativismo e capitalismo selvagem. Os meios de comunicação social devem, na sua opinião, marcar uma posição editorial sobre um ou outro partido, ou, pelo

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contrário, devem ser totalmente isentos? R: Acho que o Estado tem de garantir a existência de um pluralismo editorial que represente as principais correntes de opinião. Considera suficiente a oferta jornalística existente no Arquipélago da Madeira? R: É excessiva e não sobreviveria, também, sem os apoios do Estado e da Região Autónoma, apesar de empenhos capitalistas no sector. Considera haver espaço para mais meios de comunicação social? Existe algum plano para estimular o desenvolvimento dos media na Madeira? R: É uma experiência de sucesso, em desenvolvimento, e que o País deveria adoptar. É um “choque tecnológico”, não no papel e sim no terreno, de há mais de uma década. Considera haver uma oferta satisfatória ao nível do ensino superior na região? R: O Ensino Superior continua da responsabilidade da República, pois o Governo socialista violou os compromissos do Estado, também neste ponto, com pretexto em programa partidário. Daí que o

Ensino Superior na Região, padeça de todos os males, de que padece a nível nacional. Gosta mais da informação em suporte audiovisual ou impressa? R: Prefiro a impressa. Tem mais qualidade do que a falta de profundidade, mediocridade, e superficialidade, por vezes meras “propagandas”, dos suportes audiovisuais. Como ocupa os seus tempos livres? R: Leio, escrevo, vou aos concertos, nado, jogo ténis (com 63 anos, já não sou tão veloz), exposições infelizmente raras vezes, e gosto muito de me divertir, embora a patetice do regime não o ache politicamente correcto. Quais são hoje os principais desafios para a Região Autónoma da Madeira? R: Sobreviver à vergonhosa e sectária perversidade socialista para com a Madeira; continuar o Desenvolvimento Integral (a região cresce, em média, cinco pontos anuais); preparar a revisão constitucional de 2009 contra os resquícios colonialistas; fazer da Madeira a Singapura do Atlântico, sempre mantendo a Unidade Nacional e

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sem o regime da dita Singapura. Após 36 anos no poder, receia que se se distanciar da actividade política activa da região se possa abrir caminho para um Governo socialista na Madeira? R: Olhe, ao ritmo de progressão que os socialistas “sobem” na Madeira – e às vezes tornam a descer – nem daqui a vinte anos formam Governo. A direcção nacional dos socialistas, em vez de procurar destruir uma parcela de Portugal que funciona, devia tentar perceber as razões pelas quais os “camaradas” locais passam pelo vexame de já terem perdido trinta e nove eleições. O que falta hoje ao espaço político em Portugal? R: Qualidade e um novo sistema político-constitucional, democrático e eficiente. Que tipo de intervenção poderá ter um Presidente da República na área da comunicação social? R: Não tem que intervir fora das suas competências constitucionais. Tem é de fazer pedagogia democrática. Por falar em Presidente da República, a um ano e meio de distância da decisão de dissolução do XV Governo Constitucional, como analisa essa decisão de Jorge Sampaio? R: Foi um golpe de Estado constitucional, um frete sem paralelo na União Europeia e que manchou os dois mandatos. Apoiou Cavaco Silva para a Presidência da República, como vê estes primeiros meses de mandato? R: Positivos. Muitas têm sido as críticas à maneira como o PSD se tem posicionado na oposição. Considera que o seu partido tem feito um bom trabalho como oposição ao

Governo socialista até ao momento? R: É matéria para análise partidária interna. Quais considera serem os principais atributos para ser bom líder político? A auto-estima pela região ou país é importante? R: Não mentir, dizendo “não” quando é preciso dizê-lo; fazer obra que gere Desenvolvimento Integral; defender intransigentemente o mandato que o Povo soberano confiou. No seu discurso político observa-se uma frontalidade pouco habitual na abordagem dos temas por parte da classe política. O que é para si um discurso politicamente correcto? R: É a trampa que anda por aí... É um dos políticos com mais anos no activo. É, por isso, um observador privilegiado da sociedade portuguesa. Quais as principais transformações económicas e sociais que ocorreram em Portugal nos últimos 30 anos? Estamos melhor ou pior? R: Portugal está melhor do que nas ditaduras salazarista e comuno-gonçalvista. Mas porque fez da actual Constituição, “religião oficial do Estado”,

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tecnicamente bem apetrechados, agora é com quem tiver iniciativa. Temos a maior percentagem “per capita” de museus em todo o Pais, devidamente articulados com as actividades escolares. Temos uma excelente Orquestra Clássica com à volta de cinquenta elementos, quando na União Europeia há uma Orquestra destas por cada milhão de habitantes. Temos um Teatro Experimental que é apoiado.Temos iniciativas editoriais apoiadas pelo Governo Regional. Nos trinta anos de Autonomia, as praças e ruas encheram-se de peças escultóricas, etc., desculpe, não estou em campanha eleitoral. O problema é remarmos num sentido de mudança de mentalidades, e a comunicação social actuar em medíocre sentido contrário, cultivando o gosto pelo reles. A cultura deve ser paga, totalmente subsidiada ou um mix das duas situações? R: A região deve apoiar a criatividade cultural – não a cópia estrangeirada – que tenha qualidade e que suscite o interesse do Povo ( a nossa Orquestra Clássica toca nas mais diversas povoações rurais, com grande entusiasmo e adesão popular). A Região não se deve deixar “chular” por “intelectuais da bica”, que nunca algo criaram e que debitam lérias lidas algures, ou que querem enfiar o que ninguém está para aturar. Gostava de ser presidente da República ou primeiro-ministro? Já alguma vez foi convidado, nos últimos 15 anos, para algum cargo político no Continente? R: De tais tentações estou livre, nunca fui convidado e mesmo que fosse assim, não o dizia – o sector politicamente correcto do PSD que acaba sempre por enterrar o Partido, não gosta de mim – quero terminar os meus dias na Madeira, onde tenho sido feliz. Qual a figura nacional que mais admira, em qualquer campo da sociedade? Quem são os seus mentores políticos? R: Admiração, Francisco Sá Carneiro. Mentores, a Sabedoria do Povo Madeirense.

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perdeu oportunidades irrecuperáveis e piorou as mentalidades através da mediocridade massificada. Em termos culturais, o que mudou em Portugal? O que falta fazer neste domínio? R: A censura do fascismo e dos comunistas, foi substituída pelo sectarismo político. O pouco dinheiro disponível foi gasto com porcarias estrangeiradas e que não têm a adesão do Povo. Secundarizou-se a Cultura e o pensamento criados em Portugal. O Estado, em vez de investir na qualidade e nos Valores nacionais, é chulado por uma casta medíocre. Que políticas está a desenvolver na Madeira na área da cultura? R: Hoje, semanalmente, há mais eventos culturais na Madeira do que no Porto. Todos os Concelhos foram infraestruturados com centros culturais

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[Intel Developer Forum]

INTEL PROJECTA FUTURO
Processador “quad-core” em Novembro

Em São Francisco, o gigante da informática discutiu o seu futuro e deixou algumas pistas sobre a estratégia a curto prazo
POR MÁRIO GUERREIRO

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a 10ª edição Intel Developer Fórum (IDF), que decorreu em São Francisco, nos EUA, a empresa revelou o seu empenho em continuar a liderar no mercado das soluções informáticas em silício. Um dos primeiros passos irá ser o lançamento em Novembro do primeiro processador de quatro núcleos (“quad-core”) para PCs e servidores de alta performance. O presidente e CEO da Intel, Paul Otellini apresentou o plano da empresa para uma posição de liderança no mercado tecnológico, referindo a cada vez maior importância do silício no sector. “A indústria está a sofrer a mudança mais profunda das últimas décadas, estando a entrar numa era em que o desempenho e a eficiência energética são factores críticos em todos os segmentos de mercado e em todos os aspectos relacionados com computação”, disse. Abordando as mais recentes tendências no uso de computadores pessoais, Otellini referiu a necessidade premente de processadores mais eficientes. “Um único ‘stream’ do You Tube seria o suficiente para bloquear o PC existente há alguns anos atrás”, lembrou Otellini. Os novos sistemas operativos, a maior exigência gráfica dos jogos, o vídeo online e de alta-definição tendem a aumentar a exigência relativamente aos processadores: “À medida que o vídeo de alta-definição começa a expandir-se, as pessoas vão necessitar de um desempenho oito vezes superior, apenas para fazer a encriptação.” Para Otellini, a “tecnologia do silício está no centro da solução” para a satisfação das actuais exigências dos utilizadores.

PCs “cool” e “sexy” A edição de 2006 do IDF, com a habitual presença

de milhares de engenheiros e técnicos foi também o palco para o repto original da Intel para que os designers e fabricantes de PCs desenhem modelos sexy e com estilo, para a próxima geração de computadores especialmente pensados para o entretenimento multimédia. Eric Kim, vice-presidente e director-geral do Digital Home Group da Intel apresentou o Intel Core Processor Challenge, um concurso aberto a todo o mundo e que irá oferecer mais de um milhão de dólares aos autores do PC doméstico mais pequeno e com mais estilo apresentado à Intel, e que faça uso da tecnologia da empresa. Os sistemas apresentados irão ser avaliados pelo júri de acordo com o seu estilo, acústica, funcionalidades e características. “A nossa intenção é fazer a indústria pensar de forma inovadora, pensar os PCs como algo ‘sexy’, pequeno, de forma simples, optimizando-os para entretenimento multimédia”, referiu Eric Kim. “Estamos a investir na mão que nos alimenta”, reconheceu o executivo da Intel, que deve ainda a maior fatia do seu volume de negócios aos utilizadores domésticos.

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[7ª Encontro de Comunicação Autárquica]

CRISE NA IMPRENSA
O local fica para depois

Os media regionais e os gabinetes de comunicação autárquica têm cada vez mais dificuldades em aceder ao campo mediático. A solução passa por uma nova estratégia de comunicação e o investimento nos media locais
POR GUILHERME PIRES

A

s notícias sobre a realidade das autarquias portuguesas estão a perder espaço nos media nacionais. Para além da dificuldade em aceder aos noticiários televisivos, os acontecimentos regionais e locais são cada vez menos reflectidos nos principais jornais diários e semanários portugueses. Quando o são, em regra referem-se apenas a casos de escândalo no poder local. Este cenário prejudica a já complicada tarefa dos técnicos de comunicação das autarquias em mediatizar a informação que produzem. A disputa jornalística iniciada a 16 de Setembro pelos dois principais semanários portugueses parece para já não influenciar a cobertura dos acontecimentos locais. Enquanto que no Sol não existe qualquer secção dedicada em exclusivo a factos das regiões ou localidades portuguesas, no renovado Expresso a secção País Real cabe apenas numa página, com uma a três notícias e um conjunto de breves. Esta é uma realidade que se reflecte em grande parte da imprensa nacional portuguesa “porque quem trabalha desses meios concentra-se P M/SIR CACÉ em particular nos proIAGO SANT blemas do país e não CM das regiões”, referiu João Céu e Silva, jornalista do Diário de Notícias, durante o sétimo Encontro de Comunicação Autárquica (ECA). Conscientes deste cenário, os responMARCELO REBELO DE SOUSA

O MAIS CONCORRIDO DE SEMPRE
A sétima edição do Encontro de Comunicação Autárquica foi a mais participada de sempre, com a presença de 148 profissionais de diversas áreas (jornalismo, assessoria de imprensa, comunicação institucional e docência) e a inscrição de 52 municípios, na sua maioria do sul do País. O evento foi transmitido na íntegra para a comunidade portuguesa online pela TvNet. Em 2007 o ECA muda-se para Portimão, enquanto que a nona edição será organizada pela Câmara Municipal de Évora.

sáveis pela comunicação das autarquias têm de aproveitar os espaços dedicados às “estórias” pela imprensa, que constituem o nicho de mercado para a comunicação regional nos espaços nobres do jornalismo português. A ideia foi defendida no ECA por Judite de Sousa, moderadora do painel de dia 20 de Setembro, que acrescentou que a solução pode passar por “tornar a informação local mais sexy”. Na opinião da jornalista da RTP, os comunicados de imprensa e as notícias regionais devem envolver nos acontecimentos personalidades que por si só são notícia e colocar as “estórias” em sintonia com os temas mais mobilizadores, como a saúde ou a educação. É fundamental que a informação seja despolitizada, caso contrário perde credibilidade. “Se os comunicados de imprensa assimilarem estas tendências talvez consigam fazer vingar os seus objectivos”, concluiu. Cabe então aos assessores personalizar a relação com os jornalistas, de forma a tornar mais exequível a colaboração com as redacções e facili-

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[7ª Encontro de Comunicação Autárquica]

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: JOÃO CÉU E SILVA, JUDITE DE SOUSA E RICARDO PINTO

tar a elaboração das notícias de acordo com o meio a que se destinam: TV, rádio ou imprensa. Este trabalho tem, no entanto, de ser acompanhado pelo desenvolvimento dos media regionais. O jornalista Ricardo Jorge Pinto, presente no ECA, defende que “o problema reside na falta de órgãos de comunicação regionais que supram as necessidades de informação dessas zonas”. A comunicação autárquica pode ser notícia, mas “tem de o ser para as populações que vivem nas regiões em causa”, frisa o jornalista do Expresso. Nova estratégia para inverter crise Na opinião de Marcelo Rebelo de Sousa, o cenário traçado por João Céu e Silva é uma realidade indesmentível que se deve, também, à “crise profunda” dos media regionais e à emergência de uma cultura contrária ao poder local. O orador convidado para o primeiro dia do ECA considera que as autarquias esO SECTOR EM DEBATE
A crise dos media regionais foi apenas um dos vários tópicos focados no 7º ECA. Ao longo do evento foram ainda debatidas a aplicação das novas tecnologias aos gabinetes de comunicação, as expectativas dos profissionais do sector e a medição do grau de satisfação dos munícipes. Os cinco painéis de debate contaram com a presença de oradores como os jornalistas Judite de Sousa, Ricardo Pinto ou João Céu e Silva, os docentes Marcelo Rebelo de Sousa, Eduardo Camilo ou José Vidal de Oliveira, e diversos responsáveis de gabinetes de comunicação.

tão a ser transformadas em bodes expiatórios, porque “sob a aparente defesa da descentralização o país está com um discurso centralista”. Os cortes no financiamento às autarquias são uma das consequências desta conjuntura. “Os sucessivos governos, de direita ou esquerda, têm contribuído para uma imagem de descrédito do poder local, para disfarçarem a dificuldade em conter a despesa na administração central”, referiu o mediático professor de Direito. A solução passa pela elaboração de uma nova estratégia de comunicação das autarquias, que vise “a convocação de todos os sectores da sociedade para a excelência do poder local”. Realizado a 20 e 21 de Setembro em Santiago do Cacém, o ECA 2006 reuniu membros de serviços de comunicação de 52 municípios, jornalistas e professores universitários.A ausência de formação específica para a comunicação autárquica na maioria dos cursos de jornalismo e ciências da comunicação portugueses é um dos problemas identificados pelos profissionais do sector. “A comunicação nas autarquias é fundamental e o investimento que é realizado está de acordo com a realidade dos munícipios”, sublinhou Susana Resende, oradora no segundo dia do ECA. “Contudo, não conseguimos encontrar uma definição do que deve ser e como deve actuar um técnico a trabalhar numa câmara municipal, pelo que temos de saber que formação precisamos e que será mais apropriada ao nosso público”, concluiu.

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CM SANTIAGO CACÉM/SIRP

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QUANDO PORTALEGRE É NOTÍCIA
O distrito conta com uma imprensa escrita variada

Dar visibilidade ao que é da terra é a missão de muitas publicações do Alto Alentejo “porque se não, nada nos diferencia dos outros”
POR MARGARIDA PONTE

m terras do Alto Alentejo, a população está, com um bissemanário, dois semanários e quatro quinzenários, bem servida de notícias. Todas as quartas e sábados sai em Portalegre, o jornal líder de audiências no distrito, o Fonte Nova. Na região, a concorrência ao jornal que conta com 21 anos é, para Isabel Mendes, responsável pela publicidade, “quase nula”. Também da cidade capital de distrito, o semanário o Distrito de Portalegre, criado em 1884, é uma publicação centenária que procura “aprofundar os assuntos” e não se resumir a ser um jornal que inclui anúncios e falecimentos, descreve a funcionária Paula Marmelo. Depois de uma mudança de direcção há dois anos, o jornal tem vindo a sofrer alterações, uma delas é a publicação a cores da capa e páginas centrais.

E

res e criado em Ponte de Sôr há 51 anos, tem procurado nos últimos cinco profissionalizar-se. “Hoje tem uma estrutura própria, fixa, um corpo redactorial e uma área comercial”, descreve o director, acrescentando que o jornal privilegia a região com uma página por cada concelho vizinho. Estratégia que “tem dado frutos” pois “ficamos a 2 ou 3 pontos do jornal Fonte Nova, ultrapassando o Linhas de Elvas”, diz Fernando Albuquerque. O futuro do jornal passa agora por chegar a semanário. Mas isso envolve “mais gente e mais papel”, explica. Apesar dos entraves, refere que com uma estrutura leve, conseguem ser um projecto viável e muito graças “ao trabalho de equipa, à polivalência e à imaginação das pessoas, aspectos importantes numa estrutura pequena e débil financeira-

Informar nos outros concelhos Criado em 1950, o Linhas de Elvas é, segundo o jornalista Nuno Barraco, o semanário com maior audiência no distrito, que define como um jornal de referência. Pertencendo à Rede Expresso, é um jornal que “procura ter mais rigor na informação”, conclui. Também de Elvas, o Despertador é um jornal mais recente, com 13 anos, e que funciona apenas com uma jornalista, Susana Barraco. As 16 páginas deste quinzenário desdobramse entre noticiário local, opinião e desporto. Ecos do Sôr é um quinzenário descrito pelo seu director comercial, Fernando Albuquerque como um “oásis na região”. A funcionar com dois jornalistas e colaborado-

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Imprensa*
TÍTULO ORIGEM JORNALISTAS **TIRAGEM DISTRIBUIÇÃO SITE

A Mensagem (Mensal) Boletim Paroquial (3/ ano) Ecos do Sor (quinzenal) Fonte Nova (bissemanal) Despertador (quinzenal) Linhas de Elvas (semanal) Jornal de Nisa (quinzenal) Mensageiro de Alter (mensal)

Crato Comenda Ponte de Sor Portalegre Elvas Elvas

0 2 2 1 3

1600 700 3150 3000 1500 7500

Concelho, assinaturas e região limítrofe, País e Mundo Paróquia, assinaturas Concelho, assinaturas e região limítrofe.

-

www.ecosdosor.net

Venda directa no www.jornalfontenova.com distrito e assinaturas Concelho e assinaturas todo País e Mundo -

Venda directa no concelho e www.linhasdeelvas. noutros pontos e assinaturas net Concelhos Nisa e Portalegre e assinaturas Concelho, assinaturas e região limítrofe, País e Mundo Concelhos de Arronches, Monforte, Campo Maior, Portalegre e algumas zonas de Espanha Cidade, assinantes País e Mundo Venda directas nos concelhos de Campo Maior e Elvas e assinaturas -

Portalegre Alter do Chão

0 0

1500 1700

Notícias de Arronches Arronches (mensal)

1

4000

www.noticiasdearronches.com

O Distrito de Portalegre Portalegre (semanal) Região em Notícias Campo Maior de Campo Maior (quinzenal)

1

1750

-

3

1500

-

*FONTE: EMPRESAS, FICHAS TÉCNICAS E SÍTIOS INSTITUCIONAIS; **Nº MÉDIO POR EDIÇÃO.

mente”. O Ecos do Sôr distingue-se por ser o único jornal com um suplemento cultural mensal, o O2 que inclui temas como poesia, literatura, música, internet, ambiente e restauro. Já em Campo Maior, é a Santa Casa da Misericórdia desta localidade alentejana que de-

tém a rádio local, RCM, e, desde há quatro meses, o quinzenário Região em Notícias de Campo Maior, aproveitando assim as sinergias entre estes dois órgãos que partilham a mesma redacção de três jornalistas. Com uma tiragem de 1500 exemplares, o jornal tem tido algum sucesso, explica o

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director institucional, João Carrilho, acrescentado que agora o objectivo é ampliar a publicação para fora do concelho. O Jornal de Nisa, quinzenário criado em 1998, tem como uma das suas preocupações “fazer a ponte com as gentes do concelho” de Nisa que emigraram para França onde o jornal tem muitos assinantes, explica o director, Mário Mendes. Procura “reflectir a realidade do concelho”, abordando problemas sociais como os relacionados com os idosos. Um caso de sucesso no jornal é uma página dedicada ao Património local “que é muito lida”, diz Mário Mendes. “Há que dar visibilidade aquilo que é nosso, se não, não vale a pena e nada nos diferencia dos outros”, conclui. Ainda de referir a existência, em Arronches, do único jornal gratuito do distrito, o Notícias de Arronches criado há quatro anos por Fernando Marques. Jornais a contas com a publicidade Exemplo de um caso de sucesso, o Linhas de Elvas conta com três jornalistas na sua redacção e tem uma tiragem de 7500 exemplares. A sobrevivência deste jornal e a angariação de anunciantes “não são difíceis”, diz Nuno Barraco. Por seu lado, o Distrito de Portalegre vive de pu-

blicidade que “tem melhorado, mas tem de ser com alguma insistência”, diz Paula Marmelo. No Jornal de Nisa são os colaboradores permanentes e o director que seguram este quinzenário, diz o responsável Mário Mendes. “É possível angariar [publicidade] mas com muitas dificuldades porque o comércio local é frágil”, descreve o responsável. O director do único jornal de Nisa refere ainda que o apoio do Estado é o porte-pago, uma ajuda valiosa já que, refere, “sem isso seria muito difícil, teríamos de encarecer a assinatura o que é injusto para quem compra o jornal”, explica. De Ponte de Sôr chegam-nos ecos de um caso de sucesso. “A publicidade tem sido a base do desenvolvimento e tem corrido muito bem”, diz Fernando Albuquerque.“A comunidade tem entendido o projecto do jornal”, explica. Além da publicidade institucional e dos anúncios “porque os clientes precisam”, o Ecos do Sôr tem clientes que anunciam para ajudar o jornal da terra. Conclusão? “Há 5 anos que não paramos de subir”, diz. Isabel Mendes diz que ao Fonte Nova o que vale é a sua marca já que “é muito difícil angariar publicidade. As pessoas não compreendem que anunciar é não esquecer. Isto não é caridade, é um serviço”, conclui.

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NO AR COM O ALTO ALENTEJO
São cinco as rádios que informam e animam o distrito

Ponte de Sôr, Elvas, Campo Maior e Portalegre são os concelhos com emissoras locais que têm enfrentado as adversidades comuns às rádios do Interior
POR MARGARIDA PONTE

D

os 15 concelhos pertencentes a Portalegre, apenas quatro têm rádio local. Na sede de distrito, é a Rádio Portalegre, propriedade de uma cooperativa, que há 17 anos informa grande parte do Alentejo, focando-se sobretudo na informação regional e na animação. “O facto de irmos ao encontro da região e dos seus problemas e darmos o que as pessoas gostam de ouvir” são, para César Azeitona, responsável pela área comercial

da estação, os segredos para o sucesso. Há duas rádios sedeadas em Elvas, a Rádio Elvas e uma emissora regional da Renascença, a Voz Elvas que funciona com três jornalistas e emite para todo o concelho e arredores. Além da emissão regular da empresa-mãe, a estaMÁRIO GUERREIRO

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ção tem produção noticiosa generalista de cariz local e entretenimento que engloba música portuguesa, discos pedidos e passatempos. De Ponte de Sôr, a RTL é uma estação que tem como objectivo “levar às pessoas a informação local, regional e mesmo nacional”, descreve o seu director, Marçal Correia. Mais recente, a Rádio Campo Maior, criada há quatro anos, tem já, nas palavras do seu director institucional, João Carrilho, “uma receptividade muito boa”. Para o responsável, a estação “deve contribuir para o desenvolvimento da região, aproximar as pessoas e fazer chegar ao cidadão toda a informação útil”. Na região pode ainda ser sintonizada a Rádio S. Mamede que emite actualmente a RDS, Rádio Difusão do Seixal.

Anunciar nas rádios de Portalegre “A nível económico está complicado”, lamenta-se o director da RTL que conta apenas com um jornalista. “Temos pouca gente a trabalhar por causa disso”, acrescenta. Sandra Almeida, a responsável pela área da publicidade da Voz Elvas, diz que “ser parte do Grupo Renascença não ajuda” na angariação de anunciantes para a rádio. “Não há qualquer diferença, as empresas compram pela programação e pelo trabalho”, acrescenta a responsável. Mas há casos de sucesso. “Sendo líder, é meio caminho andado”, diz César Azeitona da Rádio Portalegre. Por seu lado, a RCM tem anunciantes da terra e mesmo de Espanha “onde fazemos muitas compras”, explica o director da estação. “A publicidade tem chegado para pagar as despesas”, conclui. Por seu lado, a Rádio Elvas atravessa, segundo as palavras de Dinis Carvalho, uma fase difícil. “Nunca demos prioridade à publicidade do país vizinho, mas pensamos que essa talvez seja a única solução”, conclui.

Rádio*
TÍTULO ORIGEM JORNALISTAS NOTICIÁRIOS/DIA DISTRIBUIÇÃO SITE

RCM (95.9) RE Rádio Elvas (91.5)

Campo Maior Elvas

3 5 1 4 3

7 7 3 9 4

Concelho

www.radiocampomaior.com

Concelho, raio de 60 km www.radioelvas.com Concelho, zonas limítrofes Distrito e distritos limítrofes -

RTL Rádio Ponte de Ponte de Sôr Sôr (96.0) Rádio Portalegre (100.5) Rádio Renascença – Voz Elvas (99.8) Portalegre Elvas

www.radioportalegre.pt www.rr-elvas.com

Concelho e zonas limítrofes

*FONTE: EMPRESAS E SÍTIOS INSTITUCIONAIS.

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COMUNICAR NO ALTO ALENTEJO
Portalegre conta apenas com uma escola de ensino superior do Jornalismo

Criado há 12 anos, o curso de Jornalismo e Comunicação é o único em todo o Alto Alentejo a formar profissionais numa região onde são necessários
POR MARGARIDA PONTE

O

Instituto Politécnico de Portalegre (IPP) conta na sua Escola Superior de Educação com a única licenciatura na área da Comunicação em Portalegre. Com uma média de entrada a rondar os 13 valores, 13,1 em 2005, o curso tem 40 vagas para as quais só se pode candidatar quem tiver realizado o exame de Filosofia, Português ou Sociologia. Criado no ano lectivo 1994/95 como bacharelato, o curso sofreu alterações curriculares em 1997/98, passando a partir desse ano a ser licenciatura. O curso em Jornalismo e Comunicação é uma licenciatura bietápica que se desenvolve ao longo de três anos mais um e divide-se entre os ramos de Jornalismo e de Relações Públicas e Publicidade, variantes que são escolhidas no 3º ano de formação. Descrito no site oficial do instituto como um “curso que pretende abordar os aspectos teóricos, deontológicos e, sobretudo, práticos das profissões ligadas à informação e à comunicação”, tem visto as suas vagas sempre ocupadas nos últimos três anos. No que respeita ao plano curricular, o curso do IPP dá um amplo espaço à vertente prática com disciplinas como Oficina de Comunicação, Projecto de Comunicação e Técnicas de Marketing. O que também é comprovado pelos dois momentos de estágio ao longo da licenciatura, um no final do 3º ano que envolve o trabalho em diversas instituições, sobretudo órgãos de comunicação social, durante 480 horas e outro no final do 4º ano por 240 horas.

Actividades extra-curriculares O blog de Jornalismo da ESEP é um dos locais online onde alunos e professores trabalham em conjunto o debate e a crítica das questões relacionados com a

área jornalística. “Desde a imagem da pivot do telejornal do dia anterior até ao lançamento de um livro, passando por uma notícia de jornal que suscitou alguma polémica ou uma experiência vivida no campo jornalístico, tudo pode ser incluído neste blog”, isto e mais pode ser lido em www.esep.pt/blogs/. Outro projecto da escola é o ESEP Jornal Digital, jornal online elaborado pelos alunos do curso de Jornalismo e Comunicação e coordenado por professores da ESEP. Segundo a definição oficial, “o ESEP Jornal tem como principal objectivo proporcionar aos alunos de jornalismo daquela instituição, um espaço no qual possam colocar em prática os conceitos teóricos apreendidos” no curso. A área de interesse do site, que pode ser consultado em www.esep.pt/jornal, em termos geográficos é o distrito de Portalegre e “todos os assuntos que com a região se relacionem”.

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[Aula Aberta]

A CRISE DA IMPRENSA

CARLA MARTINS *JORNALISTA E DOCENTE UNIVERSITÁRIA

“Hoje, os principais títulos estão integrados em grupos de media”

uito se tem escrito ultimamente sobre a crise da imprensa. O desaparecimento do Independente – cerca de um ano depois de o mesmo destino se ter abatido sobre A Capital e O Comércio do Porto – vieram reavivar este debate, bem como o nascimento do Sol e animada guerra de tiragens ao fim de semana. Até ao 25 de Abril de 1974, os principais títulos concentravam-se nas mãos de grupos financeiros e industriais. Hoje, os principais títulos estão integrados em grupos de media. Mas o panorama do sector, da perspectiva da oferta, mudou substancialmente. Desde finais dos anos 70 surgiram novos títulos como o Correio da Manhã, o Tal&Qual, o Independente, o Público, o 24 Horas. As newsmagazines Visão, Focus e Sábado foram criadas depois de 1990. Muitas outras publicações deixaram de existir – algumas nem chegaram a ter tempo de respirar e fazer história. Um aspecto manteve-se aparentemente inalterado – os fracos hábitos de leitura de imprensa dos portugueses. Apesar de este ser um dado adquirido que mereceria um mais rigoroso estudo, são evidentes as atitudes culturais e educacionais endémicas que contribuem para este estado de coisas. Portugal, por outro lado, é um país pequeno – embora este argumento seja falível considerando que países com menor população adulta, como Suécia, Áustria, Dinamarca ou Finlândia, registam índices de circulação de jornais muito mais elevados.

M

O impacto das novas tecnologias digitais – e a crescente satisfação da procura de informação nestes meios – é um dos mais relevantes factores que se traduzem no desinteresse pelos títulos em papel. O surto dos diários gratuitos ter-se-á também reflectido numa quebra de circulação – os diários Destak e Metro registaram, em 2005, uma circulação média superior a 120 mil exemplares cada, com uma distribuição limitada a Lisboa, Setúbal e Porto. Comparando os indicadores de circulação dos principais jornais portugueses entre 2000 e 2005, verifica-se um declínio em praticamente todos os segmentos. Nem os jornais desportivos escaparam a esta tendência. Exceptuam-se, entre os generalistas, o Correio da Manhã e o 24 Horas (este último dobrou a circulação em cinco anos). Estes números revelam um padrão de preferência. O que é significativo. O conteúdo e forma mais apelativos podem ter conduzido muitas pessoas a ler jornais – e estas provavelmente nunca chegarão a identificar-se com outro tipo de publicações. A quebra do número de leitores de outros jornais – nomeadamente, os de “referência” – poderá explicar-se pela razão oposta – a não identificação com as sucessivas reformas gráficas e editoriais. Há novos leitores; outros deixaram de o ser. A responsabilidade do ganho e da perda de leitores cabe, em primeiro lugar, aos próprios jornais.

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[Centros de Conhecimento]

COMUNICAÇÃO NO ISCSP
Licenciatura combina Jornalismo e Comunicação Estratégica

No ISCSP, da Universidade Técnica de Lisboa, os alunos de Ciências da Comunicação licenciam-se levando consigo uma abrangência sociológica multidisciplinar
POR VERA LANÇA

C

riada em 1980, como Licenciatura em Comunicação Social, o actual curso de Ciências da Comunicação (CC) no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) estrutura-se segundo o modelo 3+2. Os alunos podem fazer a sua licenciatura, que tem uma forte matriz sociológica e faculta uma formação multidisciplinar e aberta, vocacionada para Jornalismo e Comunicação Estratégica, seguida do Mestrado em Comunicação Social nestas duas vertentes de especialização. “É uma estrutura que me parece muito interessante e com um vasto leque de cadeiras de opção”, diz João Bettencourt da Câmara, coordenador da licenciatura e professor no ISCSP. Estas cadeiras de opção são orientadas para as áreas de jornalismo de actualidade internacional, político e online, e marketing, publicidade e relações públicas. No ISCSP, os alunos de CC beneficiam, ainda, de um protocolo celebrado com o CENJOR onde podem fazer três ateliers, nomeadamente de imprensa, rádio e televisão, adaptados aos conteúdos programáticos da licenciatura. João Bettencourt da Câmara realça que “os alunos da licenciatura foram classificados pela última Comissão de Avaliação Externa 2004/2005 com a nota A e, dos que saíram para o mercado de trabalho entre 1999 e 2003, mais de um terço tem encontrado emprego na sua área de formação no espaço de um mês”. Segundo o coordenador é importante que a licenciatura proporcione um elevado grau de satisfação profissional e facilite a flexibilidade e agilidade dos licenciados no processo de adaptação às exigências do mercado de trabalho. Para além da licenciatura e mestrado, o ISCSP dispõe de outros graus de formação académica nesta área.

O ISCSP INAUGUROU AS INSTALAÇÕES DA AJUDA EM 2001

Em termos de pós-graduações, os alunos podem optar entre os cursos de Marketing, Comunicação e Marketing Político ou Produção de Televisão. Com a adopção do Processo de Bolonha, o ISCSP decidiu criar o Doutoramento em CC, processo que já arrancou internamente, o que permite aos alunos fazer uma formação segundo o modelo 3+2+3. Envolver os alunos Uma das grandes apostas do ISCSP passa pela organização de eventos, em que os alunos são chamados a intervir. Para além das pontuais conferências e seminários, realizam-se todos os anos as Jornadas de Comunicação, cuja organização está a cargo do núcleo de estudantes de CC que, aliás, tem por objectivo representar a licenciatura e organizar projectos e eventos ligados ao âmbito do curso. Além disso, os alunos podem também integrar as equipas do ISCO, o jornal do ISCSP, e da Rádio Burnay, a rádio dos ISCSPianos que tem o nome do Palácio Burnay, onde o instituto começou a funcionar em 1906.

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BRUNO AMARAL

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[Instituições do Conhecimento]

ICAM É SINÓNIMO DE CINEMA
Instituto é o principal pilar financeiro do cinema português

O ICAM tem como objectivo o fomento e desenvolvimento das actividades cinematográfica, audiovisual e multimédia, enquanto indústrias culturais
TEXTO E FOTO POR VERA LANÇA

ob a tutela do Ministério da Cultura, o Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM) tem a sua missão definida na garantia da diversidade e da qualidade das produções de cinema, audiovisual e multimédia portuguesas, três vertentes que, hoje em dia, se conjugam. O ICAM é, por excelência, o promotor nacional da diversidade e identidade cultural nestes domínios, sempre com um olho na inovação e na criação artística. Desta forma não é apenas a indústria de conteúdos que beneficia das políticas do ICAM, mas também a cultura e língua portuguesas, uma vez que este organismo promove igualmente cooperações europeias e internacionais nos domínios em que actua. A nova Lei do Cinema e do Audiovisual, cujo decreto-lei foi aprovado a 16 de Agosto passado, prevê que as atribuições do ICAM sejam reforçadas, entre outros, com um fundo de apoio. “Trata-se de um fundo de apoio à produção destinado a apoiar obras com maior potencial de rentabilidade comercial, embora saibamos que o mercado português seja manifestamente insuficiente para que as empresas de produção de cinema possam ter lucros avultados. A ideia é que este fundo possa criar uma base sustentável de empresas de produção” afirma José Pedro Ribeiro, presidente do ICAM.

S

JOSÉ PEDRO RIBEIRO, PRESIDENTE DO ICAM

Das curtas às longas Em 2005, o instituto apoiou financeiramente 45 filmes e outros tantos projectos num total de 7.3 milhões de euros. “Se não existisse o ICAM, também não existiria cinema português porque quase todas as obras realizadas em Portugal têm o nosso apoio financeiro”, diz o presidente do instituto. Mas os apoios do ICAM não se destinam apenas a um tipo de produção em particular, nem são con-

cedidos apenas a uma área específica – desde a produção (que inclui a escrita de argumentos) à promoção, passando pela distribuição e exibição das obras, o ICAM concede apoios em todas as fases e as políticas de atribuição de apoios aplicamse às longas, médias e curtas metragens, às obras de animação, às séries e aos documentários de criação. Além disso, para fazer chegar o cinema português a mais pessoas, o instituto tem desenvolvido mais recentemente alguns programas, nomeadamente a rede de exibição alternativa, o programa de itinerância cinematográfica e apoios aos cineclubes. Apesar do pouco público que as obras portuguesas têm, o ICAM não vê isso como uma prioridade. “A análise ao cinema português não pode ser apenas numérica, porque as obras que o ICAM apoia são analisadas numa perspectiva mais cultural e artística e não numa lógica de rentabilidade”, afirma José Pedro Ribeiro, que vê com bons olhos o facto de em Portugal não se copiar o cinema norte-americano.

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Organizações, Cidadãos e Qualidade Ivo Domingues RésXXI/Formalpress
Ivo Domingues é doutorado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e investigador e consultor nas áreas da Gestão da Qualidade e da Gestão de Recursos Humanos e autor deste livro, editado pela Rés XXI/Formalpress, que resulta da complicação de vários textos publicados no Caderno Management do Semanário Económico.Trata-se de uma observação atenta de um cidadão a várias organizações que fazem parte do seu dia-a-dia. Ao longo de seis capítulos o autor aborda temas como as orientações e práticas de gestão de qualidade, a qualidade em serviços privados e públicos, bem como a qualidade em comércio e em educação.
POR VERA LANÇA

[Leituras]

A Fonte Não Quis Revelar – Um estudo sobre a produção das notícias Rogério Santos Campo das Letras
Ao longo de seis capítulos, Rogério Santos, doutorado em Ciências da Comunicação, analisa o jornalismo e as notícias – a actividade e o produto – e as relações necessárias entre jornalistas e as suas fontes de informação. O autor dá respostas sobre o funcionamento das organizações noticiosas, e o que as distingue entre si, e sobre as relações profissionais que aí se estabelecem. Este livro, da Colecção Campo dos Media e editado pela Campo das Letras, segue todo o processo de construção noticiosa e esclarece a imperatividade que os promotores têm de produzir novos eventos que agucem o interesse destas organizações.
POR VERA LANÇA

A Televisão ‘Light’ Rumo ao Digital Francisco Rui Cádima Rés XXI/Formalpress
A televisão ‘light’ e o ‘telelixo’ são dois dos temas que Francisco Rui Cádima, Doutorado em Comunicação Social, aborda nesta sua reflexão sobre a temática da qualidade dos conteúdos televisivos, sob o prisma da sua importância para a Cidadania. Um tema que se afigura como uma consequência inevitável da tentativa de examinar o peso socio-cultural que a televisão assume no momento em que a migração da televisão analógica para o digital está na ordem do dia. Ao longo deste livro, da Colecção Media XXI, editado pela Rés XXI/Formalpress, o autor faz ainda um périplo por outros temas, como é o caso da regulação sectorial e da qualidade do serviço público de televisão. Francisco Rui Cádima frisa, ainda, a actual tendência para o esquecimento da televisão como o mais poderoso dos meios de comunicação – embora esteja subaproveitado – para a construção de uma ordem social e cultural.
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[Leituras]

Mediatizados – Como os media moldam o nosso mundo e o modo como o vivemos Thomas de Zengotita Bizâncio
Thomas de Zengotita é editor da Harper’s, revista norte-americana de literatura, política, cultura e arte, e autor deste livro da Colecção Sínsteses, editado pela Bizâncio em Portugal. Em sete capítulos, o autor faz uma reflexão sobre a cultura pós-moderna e sobre os media. A sua análise engloba vários aspectos de forma transversal e faz uma autêntica visita guiada aos vários sectores da sociedade actual, fortemente mediatizada.Thomas de Zengotita analisa o dia-a-dia comandado pelos media em que milhões de pessoas estão limitadas a uma realidade restritiva, consequência directa desta tendência global que é a mediatização de todos os acontecimentos. Desde o funeral da princesa Diana ao visionamento do terrorismo à escala mundial, o autor foca os mais variados aspectos de forma sofisticada e satírica.
POR VERA LANÇA

Guia de Acesso às Fontes de Informação do Parlamento Europeu Ana Sofia Morais Colecção Media XXI
Ana Sofia Morais dá neste livro dicas preciosas para quem necessita ou quer aceder a toda a informação disponibilizada pelo Parlamento Europeu. Actualmente, esta instituição europeia fornece informação em vários formatos (texto, imagem e multimédia) para os cidadãos europeus e jornalistas dos 25. Através deste guia, são identificadas as melhores práticas para aceder à informação que se pretende, sem se ficar perdido nos meandros do site do Parlamento Europeu, e ajuda-se a compreender as diferenças entre os vários tipos de comunicação desta instituição.
POR MÁRIO GUERREIRO

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[A indústria de Hollywood]

HOLLYWOOD POR DENTRO
A indústria cinematográfica norte-americana passo a passo

Antes de chegarem às salas, as produções de Hollywood passam por vários processos para minimizar o risco de insucessos e rentabilizar ainda mais um negócio de milhões
TEXTO POR VERA LANÇA FOTOS POR PAULO FAUSTINO

P

or detrás das produções de Hollywood existe toda uma poderosa máquina. Não é apenas a escolha certa do elenco ou uma grande estrela como personagem principal que garantem a qualidade do filme. O sucesso de qualquer produção não começa a partir do momento em que é projectado na tela, mas há todo um planeamento onde se inserem a estratégia criativa e estudos de mercado; um investimento de que as produtoras não abdicam.

Ser criativo na estratégia Antes de qualquer filme chegar ao grande público, a máquina de Hollywood já está a funcionar há muito tempo. Das várias etapas, a estratégia criativa de divulgação é uma das mais importantes no trabalho de produção cinematográfica. O poder da publicidade é uma das armas mais poderosas para garantir que os filmes não fracassem nas bilheteiras. No livro “Marketing to Moviegoers”, o jornalista

OS GRANDES ESTÚDIOS
São sete os gigantes de Hollywood, imbatíveis desde os anos 20 do século XX – a Warner/New Line, Walt Disney Miramax, Universal, Sony/Columbia, Twentieth Century Fox, Paramount e Metro-Goldwyn-Mayer produzem cada um entre doze a 25 filmes por ano. Juntos, estes estúdios recordistas mundiais da indústria geram anualmente lucros de mais de 41 biliões de dólares e garantem 97% das receitas de bilheteira nos EUA. O seu poder deve-se, em parte, à venda directa dos seus filmes às empresas de projecção cinematográfica de todo o mundo, capacidade que as maiores empresas cinematográficas europeias não têm sequer nos países vizinhos.

Robert Marich desmantela o processo por que os filmes passam, antes de chegarem ao mercado, e afirma: “Num mundo ideal, a publicidade dos filmes deveria ser uma simples extensão dos próprios filmes. Mas, frequentemente, não é o caso”. Muitas vezes, é o trabalho de publicidade em si que dita a qualidade que o filme vai ter para o público. Uma produção que poderia estar condenada à partida, por várias razões, como um guião desinteressante, pode tornar-se num grande sucesso. Há factores que garantem uma certa predisposição do público, como filmes baseados em livros de sucesso ou actores de renome. No entanto, segundo Marich, estes são apenas “ganchos de marketing” porque cada filme é uma marca em si que tem de ser posicionada e promovida no mercado, um processo caro e difícil. O slogan certo é outro gancho que pode colocar o filme numa posição única no mercado. A publicidade tem como função dar uma cara ao filme e torná-lo apelativo, e

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[A indústria de Hollywood]

nos primeiros dias após a estreia, a criatividade contida na mensagem do slogan pode ditar o seu sucesso. Mas os produtos de publicidade mais importantes são os anúncios televisivos e os trailers que vão ser exibidos nas salas de cinema. São as peças que, realmente, levam o público às salas de cinema e não podem ser simples despertadores de emoções, têm que transmitir o sentido da história, o núcleo duro do filme. A campanha de lançamento de uma grande produção implica um investimento entre 15 a 35 milhões de dólares em publicidade nos meios de comunicação. Nesta fase, os estúdios apostam muito nas ideias de empresas criativas exteriores ao estúdio, sendo contactadas várias empresas que apresentam os seus projectos e apenas é escolhido o que mais lhes agradar. Aliás, em Hollywood existem cerca de 7 mil empresas ligadas ao sector do cinema, 90% das quais têm menos de dez funcionários e trabalham para as grandes produtoras. No entanto,

cada vez mais os grandes estúdios estão a contratar criativos que possam tratar dos trailers e dos anúncios para reduzir os custos que implicam. Estudar as características do mercado A estratégia criativa de um filme é desenvolvida a pensar nas características do principal alvo da produção, que é determinado antes da filmagem, no entanto, a abordagem de marketing pode ser alterada à medida que o filme vai tomando a sua forma final. Marich afirma que a identificação da principal audiência é essencial porque esta é a mais fácil de motivar para o filme, daí que o conceito de marketing tenha que ser desenvolvido a pensar nela. É na fase dos estudos de mercado, feitos com base numa amostra de pessoas (representante da população geral) que, segundo Marich, é obtida informação representativa do universo populacional. Em Hollywood, esta é uma ferramenta muito utilizada pelos grandes estúdios desde finais dos anos

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[A indústria de Hollywood]

BOLLYWOOD E… NOLLYWOOD
A produção da indústria cinematográfica indiana, muitas vezes referida como a indústria de Bollywood, gera lucros na ordem dos oito biliões de dólares por ano. Enquanto nos EUA são produzidos cerca de 600 filmes por ano, a produção indiana é de cerca de 1000, e atrai cerca de 3.600 milhões de cinéfilos às salas de cinema, mais mil milhões de pessoas que os filmes norte-americanos. Na Índia, mais de dois milhões de pessoas trabalham na indústria cinematográfica, onde a esmagadora maioria dos filmes são musicais, que tem como valor máximo reforçar a cultura indiana, promovendo o respeito pelos mais velhos e valores tradicionais. Durante muito tempo, a Índia foi o maior produtor cinematográfico do mundo, mas recentemente foi ultrapassada pela Nigéria, que nos últimos quinze anos desenvolveu uma indústria altamente produtiva com cerca de 1200 filmes por ano, geradora de uma receita de 200 milhões de dólares anuais, a terceira maior no mundo cinematográfico, depois de Hollywood e Bollywood. No entanto, a qualidade dos filmes nigerianos fica muito aquém dos padrões americanos ou indianos. Sem qualquer subsidio estatal, em duas semanas, com apenas uma média de cerca de 15.000 dólares por filme e recorrendo a uma pequena câmara digital, uma produção de Nollywood fica pronta. A maior parte destes filmes, cuja temática preferida é o sobrenatural, são escoados em DVD a três dólares cada, uma vez que o país quase não tem salas de cinema e se estima que cerca de um terço dos 140 milhões de habitantes do país tenha leitor de DVD em casa.

dessas empresas, e são os pequenos departamentos de investigação dos grandes estúdios que fazem a pesquisa preliminar sobre os objectivos de marketing a explorar. Inversamente, e na perspectiva de Marich, estes estudos são muitas vezes utilizados como defesa em caso de fracasso de um filme, podendo as produtoras afirmar que a investigação conduzida apontava para o cenário favorável. Geralmente, os estudos de mercado, que numa grande custam entre US$500.000 a US$1.500.000, são tidos como algo tranquilizante neste meio que nem sempre oferece segurança profissional. Um dos elementos mais importantes destas investigações são as projecções-teste, em que algumas pessoas seleccionadas vêem o filme antes deste sair para o mercado. A reacção destas pessoas ao produto é muito importante e pode determinar factores como por exemplo a filmagem de outro final ou a eliminação de personagens. Nem sempre o filme testado é o mesmo que chega ao público. Promover e proteger a indústria É indiscutível que os filmes de Hollywood dominam o mercado cinematográfico global mas os grandes estúdios não deixam que esse sucesso venha apenas da força das suas produções, afirma Janet Wasko, professora da Universidade de Oregon, EUA, no livro “How Hollywood Works”. A garantia do sucesso fica a cargo das verbas exorbitantes que são investidas na promoção, onde até a cobertura mediática, que envolve todo o meio, desde as críticas à vida pessoal dos actores, deixa claro que há uma forte relação de interdependência entre as duas partes, pois uma não vende sem a outra.Wasko defende que em Hollywood são aplicadas várias estratégias para proteger os interesses da indústria não apenas nos EUA, mas também no resto do mundo, como os festivais e prémios cinematográficos. Se ainda nos anos 70 começaram as preocupações com a publicidade, o século XXI trouxe consigo a importância da promoção na internet, o novo medium por excelência onde a promoção tem a vantagem de poder ser personalizada ao mais pequeno pormenor para cada um dos internautas.

70 para definir o público-alvo do filme e avaliar que anúncios e trailers poderão criar maior impacto. Também os estudos de mercado costumam ser contratados a empresas exteriores, mas os grandes estúdios têm executivos que coordenam a investigação

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[Entrevista Sectorial / Pedro Pina]

O FUTURO É A COMUNICAÇÃO DIGITAL
Pedro Pina, CEO da McCann Worldgroup em Portugal

O director da McCann revela-se crítico das medidas propostas pelo Governo para o sector da publicidade
POR MÁRIO GUERREIRO | FOTOS POR VERA LANÇA

A

pós dez anos como director-geral do Clix, Pedro Pina abraça agora o desafio de dirigir a McCann Worldgroup em Portugal. Como CEO da empresa, que é um sinónimo de publicidade e marketing a nível global, o objectivo principal é tomar de assalto o território da comunicação digital, e no final fazer da McCann uma “referência” para a indústria e uma “escola de profissionais” que se querem os melhores do mercado.

três a cinco anos vamos estar a facturar mais na internet do que com a televisão. E temos de ganhar competências para operarmos nesse mercado. Em empresas como a McCann será que essa bagagem de décadas pode retardar a adaptação a novas linguagens e tecnologias? R: Sim, sem dúvida. Creio que as grandes empresas de publicidade como a McCann não se actualizaram. São das mais conservadoras, das que arriscam menos e as que estão menos à vontade na área digital.Têm as suas âncoras nos anos 90, e âncoras nessa década não têm as telecomunicações e as novas tecnologias como “driver” fundamental na área da comunicação. Mas isso vai ter que mudar. Essa dificuldade de movimentação foi reforçada pelos próprios directores de marketing e comunicação, que também não se actualizavam. Hoje em dia há mais gente que consome a internet do que programas de televisão, rádio, ou até “outdoors” e no entanto o investimento nestes continua a ser maior do que na internet. Há uma mudança geracional e nós tencionamos contribuir para isso. O que poderá o Pedro Pina trazer para a McCann? R: A grande contribuição que a minha experiência no “A McCann é por Clix traz a este nível é sensi- vezes chamada bilizar o meu “management” de ministério da e a minha equipa que temos publicidade e o de ser um “player” importan- seu ADN te na comunicação digital. A confunde-se minha experiência no lado com a formação do Clix já me dava a ver que da indústria” a indústria da publicidade es-

Como surgiu este desafio de liderar uma empresa histórica como a McCann? R: Foi por convite da Vera Nobre da Costa. Quinze anos da minha vida foram como cliente e sempre estive como director de marketing ou marketeer em empresas que dependiam muito de comunicação. O Clix, que foi a minha última posição, pertencia a um “player” importante do ponto de vista da comunicação, e é uma indústria onde me sinto muito à vontade, mas do lado do cliente. Por isso o salto foi uma novidade. É uma indústria que sempre segui, e que gostava muito de experimentar, e achei que era uma oportunidade. Como é tomar as decisões numa empresa que é sinónimo de marketing e publicidade por todo o mundo? R: É uma responsabilidade enorme. A McCann é por vezes chamada de ministério da publicidade e o seu ADN confunde-se com a formação da indústria. O grande desafio é utilizar essa herança histórica como uma plataforma positiva para se actualizar e para estar a par e passo com os valores contemporâneos. E nesse sentido estamos a dar passos significativos no desenvolvimento da nossa actividade digital. Projecto que entre os próximos

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[Entrevista Sectorial / Pedro Pina]

tava muito incipiente a esse nível e por outro lado também me apercebia que os próprios anunciantes também estavam muito incipientes em termos do digital. Sabia porque o próprio Clix era uma plataforma de publicidade e convencer anunciantes a porem publicidade era um inferno. Essa experiência permite-me agora ser um factor de conversão e um motor de transformação deste lado. Quais os momentos que recorda como os mais frutuosos ou os mais difíceis durante os anos em que esteve no Clix? R: Os anos que passei no Clix foram dos mais extraordinários que eu tive na minha carreira, por vários motivos.Tinha uma equipa maravilhosa com quem me dava um gozo tremendo trabalhar. Foi graças a eles que foi possível conquistar o que conquistámos. E depois estávamos inseridos no universo Sonae, que é um grupo extraordinário, cuja gasolina é a meritocracia. É de uma gestão feita com rigor e disciplina como eu vi em poucas empresas internacionalmente.

Com desafios como a regulação do sector… R: Foi um desafio que levava muito a sério. Acho que esta questão está a ter um desfecho interessantíssimo, com a Sonae a chegar à conclusão que não há condições para haver concorrência e que a única maneira de resolver o problema é fazendo uma OPA sobre a PT. E há algum projecto que recorde com especial carinho durante os anos no Clix? R: A criação da marca, sem dúvida. Trago também com carinho o momento do vale das sombras por que passámos numa determinada altura quando tivemos que converter a empresa da internet grátis para uma empresa séria e comprometida com a banda larga. Esse “turnaround” foi dos momentos em que realmente não via a luz ao fundo do túnel. Não tínhamos nenhuma ajuda das entidades reguladoras e houve ali uns meses em que julguei mesmo que a situação era terrível e que era preciso fazer um “requiem” de uma marca maravilhosa como o Clix. Há que louvar o trabalho do grupo de profissionais brilhantes que ainda hoje estão no Clix. E tivemos a sorte de ter um accionista como a Sonae que é de uma resiliência como não existe em Portugal. Lembro-me da Cofina, por exemplo, numa determinada altura… o Paulo Fernandes disse algo do género “a internet é uma ilusão” e desistiu. E a Sonae é uma empresa admirável porque até deitar a toalha ao chão tenta tudo o que é possível. Tendo em conta a sua experiência de vários anos fora do país, que diferenças encontra entre a organização das empresas nacionais e as próprias características do mercado? R: Em Portugal há um problema de escala grave. Somos muito pequeninos, e isso parece ser um problema mais para Portugal do que para outros países. Depois há também esse problema de escala vincado na cabeça. Basta ver a Finlândia, a Dinamarca ou a Irlanda que são países parecidos connosco e que não se atemorizaram por ser pequenos, porque o que perdem em tamanho ganham em agilidade. Isso depois revela-se em tudo e

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inevitavelmente na qualidade da gestão das empresas que às vezes não é extraordinária. Arriscam pouco e há pouca gente capaz de ter rasgos. Mas o mercado depois cuida isso, porque premeia sempre quem arrisca e tem coragem. Se não forem as empresas portuguesas cá, serão com certeza as empresas internacionais. Como vê actualmente o mercado publicitário em Portugal? R: Completamente estagnado e não o vejo a sair deste estado. Na cadeia de valores o mercado da publicidade é o último a sentir sinais de melhorias económicas. Se a economia arrancar, esse sinal há-de chegar ao mercado da publicidade. Frequentemente os jornalistas perguntam-me o que é necessário ao mercado da publicidade para sair deste estado eu digo sempre “vá perguntar por favor ao engenheiro José Sócrates ou ao doutor Teixeira dos Santos” (risos). E a culpa não é só do Governo. Há este hábito irritante de pedir ao Governo para fazer tudo, mas isto tem a ver com o Governo, que é um “enabler” neste caso, mas também com os empresários. A luz ao fundo do túnel depende do crescimento da economia. Não cabe nem aos anunciantes nem à indústria publicitária fazer mais nada para activar este mercado. É um mercado que há-de ser sempre um espelho da saúde da economia, que neste momento não está bem. Na ordem do dia está também o projecto de um novo Código do Consumidor... R: Isso é uma coisa que vejo com enorme cepticismo e que não compreendo. Não vejo qual a necessi-

dade de se criar uma entidade reguladora, num mercado que não precisava de nenhuma intervenção deste tipo. O Estado tem mais com que se preocupar do que andar a criar entidades reguladoras ou legislação numa daquelas poucas áreas onde as coisas até funcionavam bastante bem. Esta é das poucas indústrias e sector de actividade que não pede ajuda nenhuma ao Governo. Honestamente, vive sozinha com uma auto-regulação que funciona bem em média. É das poucas que não vai para os media pedir ajuda ao Governo. Esta é a chamada ajuda não pedida e que não é bem vinda. Basta ver o que têm dito os “players” da indústria, ninguém está contente com esta possibilidade. “Qualquer dia os Quais serão as princinossos pais consequências anunciantes vão para a indústria das começar a medidas propostas pelo recorrer a Estado? agências em R: Vai ser mais uma carga Espanha” tributiva para o Estado, que nem vai ter mais receitas líquidas. Essas receitas vão ser devoradas na criação de uma estrutura que ainda não se percebe quais serão as competências. E já sabemos que o Estado é incapaz de criar estruturas leves e funcionais. Existe o perigo de estarmos a criar um monstro que irá devorar o dinheiro de uma indústria débil e estagnada. Assim corremos o risco de nos irmos tornando cada vez menos competitivos até que qualquer dia os anunciantes e investidores vão começar a recorrer a agências de compra de espaço de meios ou de publicidade em Espanha para não pagarem os impostos em Portugal, como já acontece com a gasolina. Que futuro pretende para a McCann? R: Quero que seja uma referência para a publicidade e uma escola de profissionais. Um “player” importante e estrutural para a indústria e uma escola onde as pessoas possam podem vir aprender os cânones da comunicação. Quero que os meus concorrentes vejam buscar aqui os melhores profissionais, como acontecia com a McCann há algum tempo atrás. Esse é o nosso lugar natural.

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[TV no Futuro]

DIGITAL – A SEGUNDA VIDA DA TELEVISÃO
Caixa mágica em transformação devido às novas tecnologias

Os novos serviços de televisão digital estão a inverter a lógica da experiência televisiva, conferindo ao espectador um poder que nunca teve. A fragmentação das audiências irá alterar toda a estrutura do negócio
POR GUILHERME PIRES

I

magine uma televisão que lhe apresenta apenas os programas que deseja ver, à hora que mais lhe convém e segundo o formato que prefere. Seja pela internet, serviço terrestre ou satélite, com conteúdos nacionais, europeus ou do outro lado do Atlântico. E que facilmente os descarrega para um leitor portátil de vídeo, computador ou telemóvel. Parece difícil… mas em breve deixará de parecer. Os dispositivos que estão a chegar irão alterar a forma como a indústria aproveita os conteúdos e retirar espaço à publicidade. Com o desenvolvimento da Televisão Digital Terreste (TDT) e Televisão por Internet (IP-TV) a relação entre a indústria e os consumidores está a sofrer uma alteração sem paralelo. Ao disponibilizar serviços interactivos e maior variedade de programas, estas plataformas permitem ao espectador escolher certos conteúdos (filmes, documentários, séries) e programá-los de acordo com a sua vontade. A par com os programas televisivos podem ainda ser facultados jogos de vídeo. Os espectadores têm também a possibilidade de alterar a banda sonora e os ângulos da câmaO QUE É A TELEVISÃO DIGITAL?
Ao contrário da rede analógica, em que o sinal tem a forma de uma onda contínua, a televisão digital é transmitida através de bits, em séries de zeros e uns. A tecnologia apresenta uma elevada compressão de imagem e recorre a técnicas de modulação, tendo por isso melhor qualidade e um maior realismo. A TDT requere apenas a utilização de um terço do espectro frequencial. A sua total integração deixará espaço livre a ser aproveitado para radiodifusão digital ou telecomunicações móveis.

ra, bem como solicitar informação adicional (dados sobre actores ou participantes em concursos, bem como estatísticas em eventos desportivos). Parte da revolução digital prende-se ainda com a vastíssima oferta online de conteúdos televisivos, em motores de busca como o Google Video ou o You Tube, redes de televisão peer-to-peer ou plataformas como o podcast e vlogging. O fácil acesso a todo o tipo de programas e disponibilização em telemóveis, consolas e leitores de video portáteis ajuda a fragmentar ainda mais as audiências. Fragmentação que nasceu com a massificação dos canais temáticos da rede por cabo. Audiências fragmentadas: o fim do negócio tradicional Os modelos de negócio para as redes de televisão estão assim cada vez mais complexos e tendem a complicar-se ainda mais no futuro próximo. A fragmentação dos espectadores através do serviço de programação on demand significa o fim da difu-

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[TV no Futuro]

são televisiva em massa. De acordo com o relatório “The end of television as we know it”, do Institute for Business Value da IBM, a tendência a longo prazo “é a formação de nichos de audiência que podem resultar no impensável – uma audiência de uma pessoa apenas”. Com os serviços interactivos de televisão digital os espectadores podem também recusar ou saltar os anúncios publicitários. Uma das preocupações centrais dos anunciantes é perceber se as mudanças nos hábitos dos consumidores irão alterar a rentabilidade da publicidade na televisão. Segundo o relatório da IBM, até 2012 as receitas dos anunciantes deverão decrescer entre os 2,4 por cento previstos na Alemanha e os seis por cento no Reino Unido. O futuro pode passar pela “criação de mensagens publicitárias interactivas, adaptação às várias plataformas móveis de difusão e identificação de segmentos e sub-segmentos específicos”. A fragmentação do mercado sente-se em particular nos países mais desenvolvidos, onde os consumidores têm uma grande capacidade financeira. De acordo com o estudo “Television networks in the 21st century”, da Deloitte, a liderança mundial das redes digitais cabe aos EUA. No início de 2006 quase 50 por cento dos lares norte-americanos tinham um receptor digital, existindo cerca de três milhões de assinantes de TDT. No caso dos serviços por satélite ou cabo os números são ainda mais expressivos, com 53 milhões de subscrições. Os norte-americanos lideram ainda noutras tecnologias, como a televisão de alta definição (HDTV), gravadores digitais de video (DVR) e o video on demand (Vod).
PORTUGAL NO FUNDO DO PELOTÃO
Dos Estados-Membros que ainda não implementaram a rede de TDT, Portugal é o mais atrasado. A Irlanda está a desenvolver um teste maciço ao mercado e na Noruega a rede foi já atribuída à operadora NTV, que deverá iniciar as operações em 2007. Caso seja lançado até ao final do ano, o concurso português para a TDT poderá abrir o caminho para o lançamento, em 2007, das primeiras emissões experimentais. Para já decorrem ensaios técnicos no pólo de Aveiro do Instituto de Telecomunicações.

UE quer sistema digital completo em 2012 No velho continente o serviço digital está disponível através de todas as principais plataformas – terrestre, por satélite, cabo e via internet – embora nem todos os países disponham das quatro tecnologias. A União Europeia pretende que até 2012 os Estados-Membros substituam por completo o sistema analógico de televisão pelo digital. Segundo dados da UE a presença da nova rede difere bastante entre cada Estado-Membro, ficando a média pelos 25 por cento de penetração. A liderança pertence ao Reino Unido, com a presença de televisão digital em 64 por cento dos lares. De acordo com a Digitab, na Europa Ocidental apenas Portugal, Noruega e Irlanda não têm televisão digital terrestre (ver caixa). O último Estado-Membro a aderir à TDT foi a França, arrancando com 17 emissões em Março. Em Espanha o sistema começou no final de 2005 com 20 canais, cinco deles da televisão estatal. Entre os 25 Estados-Membros existem 47 milhões de receptores digitais, dos quais 26 mil têm capacidade interactiva.

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JOANA VALADARES

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[Empresas XXI]

PRODUTOS COM VALOR ACRESCENTADO
Overtouch desafia o mercado com novas soluções de marketing

Apostada em formas inovadoras de comunicar com clientes e consumidores, a Overtouch alia o marketing relacional ao marketing interactivo com recurso aos novos media
POR VERA LANÇA

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otenciar a comunicação com os consumidores através de soluções de marketing alternativas e inovadoras que minimizam o risco de falhar o target pretendido é o objectivo da Overtouch. Esta empresa sedeada em Lisboa prima pela diferença que oferece aos seus clientes – soluções implementadas em touchscreens. Fernando Moura, responsável de projecto da Overtouch, define este conceito como “algo inovador que ainda não foi tentado em Portugal e que pode trazer grande valor acrescentado aos nossos clientes”. Na opinião de Fernando Moura, no mercado nacional têm surgido algumas empresas de “new media,” principalmente associadas e limitadas aos plasmas e ao seu know how. “Os nossos touchscreens podem fazer exactamente o mesmo que os plasmas, ou seja, transmitir um sinal de vídeo, mas associam-lhe várias funcionalidades extra, o que valoriza o produto”, acrescenta. A Overtouch pretende destacar-se no mercado dos new media com a ofer ta de Demopoints, Infopoints e Sellpoints em touchscreens personalizáveis e totalmente adaptados ao cliente. Estas soluções são autênticos pontos interactivos que podem ser instalados em eventos pontuais ou de forma permanente em locais determinados pelo cliente. Segundo Fernando Moura, Portugal é um mercado com po-

tencial. “Em termos de concorrência, esta existe apenas no estrangeiro, como nos Estados Unidos ou em alguns países europeus, o que nos dá uma vantagem competitiva nacional que queremos aproveitar para nos catapultar também para o exterior do país”, afirma. Contacto directo com o público Ao aliar sistemas fiáveis de interacção a um conceito apelativo e de fácil compreensão, a Overtouch pretende tirar partido do instinto natural que as pessoas têm para tocar nas coisas, neste caso, no touchscreen. É desta forma que a empresa está a acrescentar valor às soluções de marketing que eram até agora oferecidas no mercado, valor esse que se traduz no contacto directo e na interacção com o consumidor que, ao tocar no ecrã, assimila os conteúdos que lhe são transmitidos. Isto permite criar dados estatísticos de grande utilidade para o cliente, que fica a conhecer as preferências e interesses do consumidor pelos conteúdos disponibilizados. Deste modo, o cliente pode melhorar o seu processo de decisão relativo ao produto que oferece ao público em função das características específicas do seu target recolhidas in loco. Para satisfazer as necessidades dos seus clientes, a Overtouch, idealizada em 2005 e pioneira neste “salto tecnológico” em Portugal, aposta num forte departamento de programação aliado a um departamento de design inovador e jovem.

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[Cibercultura]

O IMAGINÁRIO PÓS-FOTOGRÁFICO
Regresso à fotografia digital

Na era da computação e dos novos media, a base da fotografia é alvo de renovações gráficas de luxo, em busca de um poder das imagens
POR HERLANDER ELIAS JORNALISTA E INVESTIGADOR EM CIBERCULTURA

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om a fotografia herda-se um tipo de memória técnica fabulosa, mas é no cinema que o “realismo” fotográfico atinge o seu apogeu com a introdução do movimento. Mais de um século depois, na era da computação, dos novos media e dos videojogos, as imagens de síntese presenteiam-nos com grafismos de luxo estruturados sobre a base da fotografia. O segredo desta mudança no grande arquivo visual da cultura é que a fotografia é invocada como a técnica que permite obter imagens que servem de matéria-prima à tecnologia 3D. É fácil compreender que a imagem de computador tridimensional toma o realismo de emprestado da fotografia. Estamos sim numa época em que todo um imaginário pós-fotgráfico se estrutura, pois as imagens com que lidamos, os grafismos televisivos, as páginas de publicidade e os efeitos especiais de cinema, geram um universo que é fotográfico e que ao mesmo tempo não é. Veja-se por exemplo que depois de Sin City, de Robert Rodriguez (2005), a diferença entre

RENAISSANCE

fotografia, animação, 3D, cinema e vídeo caseiro mudou radicalmente. O mais engraçado é que optar pelo estilo de imagem a preto e branco veio reinstalar de novo a imagem de aspecto clássico, vintage, e isto numa época de sofisticação exagerada e de artificialismo popular inexorável. É neste ponto precisamente que se instalam novas obras, novos produtos de media que procuram exibir a época clássica da imagem na fase hipertecnológica em que nos encontramos, como se de um resgate se tratasse. O caso de Renaissance, de Christian Volckman (2006), é esse, pois dispõe de animação no estado da arte, a um nível deslumbrante, e que junta mais vídeo e 3D com aspecto de fotonovela animada. Por outro lado representa algo inovador até no argumento, mostrando no ano 2054 uma labiríntica cidade de Paris governada por forças policiais, onde a presença de gigantes consórcios de cosmética, estética e farmacêutica lutam pelo poder de manipular os consumidores. Tudo se baseia em controlar a juventude e a beleza acessível. Na Paris de Renaissance a cidade é somente um campo de registo, onde tudo é gravado e monitorizado, como acontece em A Scanner Darkly, de Richard Linklater (2006). Outro exemplo fantástico de como o imaginário pós-fotográfico se nota cada vez mais explícito em filmes/animações, é o caso de Code Hunters1, uma animação realizada por Bem Hibon (2006) na Blink Ink para a MTV Ásia através da Áxis Animation2. Neste trabalho, Hibon consegue gerar em computador, ora com inspiração de cinema, ora com inspiração de videojogo, correndo os clichés da fotografia do cinema clássico, uma curta metragem de sete minutos, de ficção científica, em anime, completamente inspirada no género de filmes de cowboys. Ao que parece este projecto é

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[Cibercultura]

o prólogo para algo maior e promissor. Na verdade a apresentação na MTV Asia Awards foi apenas um aperitivo. No universo da imagem portátil, desta feita uma banda desenhada gratuita de imagens fixas, concebida para a PSP da Sony e para PC, de seu nome NYC 2123 – Dayender (2006)3, há igualmente um retorno ao género fotográfico. Reza a história que depois de um devastador Tsunami Manhattan, em Nova Iorque, transforma-se numa ilha fortificada, entre outras tantas à sua volta, devido à subida do nível médio da água do mar. Neste cenário as personagens ciberpunk surgem como vultos, fotogramas a preto e branco que ocupam poses notáveis e preenchem cenografias de ficção científica raramente pontuadas com cor. Neste projecto os desenhos a preto e branco de Paco Allen são feitos a partir de referências fotográficas, o que lhes confere um aspecto muito real. O abuso dos contrastes transforma a linguagem gráfica da banda desenhada em algo realista e ao mesmo tempo parece que se contempla uma fotonovela baseada num filme, dada a abordagem cinematográfica, cativante e inovadora. Não podemos também esquecer que este retorno à fotografia é uma espécie de tendência retro, que teve início em The Matrix, dos irmãos Wachowsky (1999), com o então novo processo digital de Bullet Time, que permitiu filmar uma cena de acção em 360º à volta de Keanu Reeves. Com o emprego desta técnica foi possível fazer em vídeo, graças a uma série de máquinas fotográficas estrategicamente colocadas em torno do actor, uma filmagem impossível com câmara de filmar, quer no espaço, quer no tempo. A fotografia foi a base do virtual. O mesmo acontece com todos os projectos de filmes em que se lhes confere um aspecto cartoon, tal como A Scanner Darkly ou American Splendor, de Shari Springer Berman, Robert Pulcini (2003); e igualmente nos jogos de vídeo que buscam inspiração na banda desenhada; de que servem exemplo Max Payne, da Remedy Entertainment Ltd (2001), Need For Speed Underground2 da EA Games (2004) ou mais recentemente Gangs of London da Team Soho (2006). Em A Scanner Darkly a maior parte das cenas foram pintadas por cima em computador depois do

filme já estar editado, as restantes cenas foram simplesmente alteradas com filtros de imagem. Mas a referência é sempre fotográfica. Relativamente a American Splendor, o filme foca a vida de um autor de BD, estando o próprio filme também em BD, com balões, imagem fixa, vinhetas, pranchas, etc. No caso de Max Payne, Need For Speed Underground 2 e Gangs of London, o que acontece é que os criadores destes videojogos contrataram autores de BD para fazer imagens em Photoshop com base em fotografias de modelos e actores profissionais especialmente contratados para o efeito. O resultado é um conjunto de imagens híbridas, que são reais e ao mesmo tempo falsas, ora banda desenhada, ora fotografia, ora animação. O que é notável é como é que as tecnologias digitais de imagem, as tecnologias gráficas, vieram permitir que se regressasse à fotografia, de uma forma muito mais sofisticada do que pelo vídeo, a televisão ou o cinema clássico.
1Ver site online: http://xplsv.tv/movie.php?id=638. 2 Consulte o site: www.axisanimation.com. 3 O comic NYC 2123 divide-se em várias vinhetas

que compõem páginas de grafismos que o utilizador visualiza, uma a uma, na consola portátil da Sony ou num computador normal. Basta ir ao site e fazer download dos ficheiros zip que agregam as várias imagens de cada capítulo. E capítulo a capítulo obtém-se a história completa. Esta banda desenha está disponível online em: http://nyc2123.com.

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BEAT VIDEO GRAPHIC DESIGN H. ELIAS

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[Educomunicação]

LITERACIA DIGITAL À EUROPEIA
Aprender a navegar na internet

Recentemente lançado pelo Conselho da Europa, o novo Manual de Literacia da Internet ensina pais e professores a navegarem na internet
POR CÁTIA CANDEIAS * MESTRANDA EM CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

Como se instala a internet?”, ou “Como posso bloquear o acesso a determinados sites?”, são algumas das perguntas a que o novo manual, dirigido a pais e professores, dá resposta. De acordo com o Conselho da Europa, um dos objectivos desta iniciativa é que o conjunto das dicas “ofereçam aos professores e pais o conhecimento suficiente que lhes permita partilhar a descoberta através das tecnologias da comunicação”. O guia assinala também assuntos do foro ético e apresenta ideias de actividades que podem ser praticadas na sala de aula ou em casa. No fundo, trata-se de contribuir para o esclarecimento de dúvidas e aproximar os mais velhos da geração net com que convivem diariamente, facilitando a comunicação entre as duas partes. Uma medida especialmente positiva para a Portugal, onde se regista um fosso geracional acentuado entre pais e filhos no que respeita às novas tecnologias.

“Pela primeira vez na história da Humanidade, as crianças são uma autoridade na grande revolução que está a afectar todas as instituições da sociedade”, afirma Don Tappscott (2000). “Estas são as primeiras crianças a crescerem rodeadas por tecnologia digital que para eles não significa nada de especial. A tão chamada Geração Net significa: e-mail, chat, jogar, aprender, comprar, trabalhar e inventar o seu próprio mundo virtual”, acrescenta. Ultrapassar o fosso de gerações Apesar de os discursos públicos sobre a internet em Portugal se centrarem na retórica do progresso e na lógica liberal, são vários os indicadores que revelam como temos ainda uma grande percentagem da população activa e adulta que não se relaciona com as novas tecnologias, nem acede à internet. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, no primeiro trimestre de 2005, o número de agregados domésticos com computador não atingia metade da população, ficando-se pelos 43%; sendo que apenas um terço da população acedia à internet a partir de casa, ou seja, 32%. Estes dados mostram como estamos ainda longe da massificação da banda larga, apesar de todos os discursos políticos e governamentais indicarem o contrário. O desinteresse pela tecnologia (58%), o preço (53,2%) e a falta de habilitações (52%) foram apontados pela maioria da população inquirida como as principais razões para não acederem à internet. As crianças e jovens, ao contrário dos adultos, estão cada vez mais familiarizados com as novas tecnologias, um processo que ocorre cada vez mais cedo. Os novos ambientes mediáticos em que

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[Educomunicação]

VERA LANÇA

se movem, as condições de acesso e o nível de instrução contribuem bastante para que sejam hoje os filhos que ensinam aos pais como mexer no computador. Como revelaram os resultados do Inquérito à Utilização de Tecnologias de Informação e da Comunicação nas Famílias, do INE, o uso do computador e o acesso à internet corresponderam às actividades mais praticadas pelos jovens entre os 16 e os 24 anos (78,1% dos indivíduos). Verificamos assim como todos estes dados revelam a existência de um fosso geracional acentuado no nosso país. Uma discrepância que pode ser explicada por vários factores, entre eles os baixos níveis de escolaridade da população portuguesa. Apesar de o nível de investimento que o Estado Português faz na educação ser próximo da média europeia, os índices de abandono e de insucesso escolar continuam a ser superiores aos dos congéneres europeus. Assim, ainda que se verifiquem alguns progressos entre as gerações mais novas, Portugal é ainda o país da Europa com a menor percentagem de indivíduos com ensino superior. Registe-se também que, em 2001, a taxa de analfabetismo estava ainda próxima de um décimo da população (9%).

Prevenir os riscos online A falta de instrução e o desinteresse pelas novas tecnologias por parte de uma grande franja dos pais portugueses contribui para a fraca consciência dos riscos que a internet pode assumir para os seus filhos internautas. Esse facto tem contribuído para uma postura liberal dos pais quer em relação aos conteúdos a que os filhos têm acesso, quer aos mecanismos restritivos que aplicam, normalmente mais relacionados com o tempo dispendido online do que propriamente com regras de utilização. É nesse contexto que o Programa Information Society, apoiado pela Comissão Europeia desenvolveu, em parceria com a London School of Economics o projecto EU Kids Online: European Research on Cultural, Contextual and Risk Issues in Children’s Safe Use of the Internet and New Media. O EU Kids Online, que culminará em 2009, presta uma especial atenção à forma como as crianças e os jovens dos 18 países envolvidos utilizam a internet. Participam no projecto liderado por Sonia Livingstone os seguintes países: Áustria, Bélgica, Bulgária, República Checa, Dinamarca, Estónia, França, Alemanha, Grécia, Islândia, Noruega, Polónia, Portugal, Eslovénia, Espanha, Suécia, Holanda e Reino Unido. Com este projecto, já disponível em www.eukidsonline.net, pretende analisar-se a pesquisa realizada em cada país e os seus diferentes contextos (de pesquisa académica, políticos, económicos, sociais e culturais). Numa fase posterior, o objectivo é reunir um conjunto de recomendações a nível europeu, no sentido da segurança da criança, da literacia mediática e do conhecimento dos riscos que a internet apresenta.

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A página online da Universidade de Granada disponibiliza desde o passado mês de Setembro a biblioteca particular de José Saramago em Lanzarote. A biblioteca do escritor é composta por mais de 20 mil exemplares e inúmeros manuscritos pessoais e pode ser consultada na internet graças ao acordo assinado entre o Nobel da Literatura e aquela universidade espanhola. O objectivo do acordo é prestar assessoria técnica na planificação, organização e funcionamento da biblioteca pessoal de Saramago, estando uma equipa de documentalistas a efectuar o processo de catalogação e digitalização das obras. Inicialmente, cerca de 1.800 exemplares digitalizados poderão ser consultados online.

[Ibermedia]

SEPI e RTVE criam nova corporação
A Sociedade Estatal de Participaciones Industriales (SEPI) e a Direcção Geral da RTVE assinaram a escritura de constituição da nova Corporação RTVE. A administradora da Corporação será Cármen Caffarel, actual directora geral da RTVE, até que seja eleito o corpo administrativo pelo Parlamento espanhol. Espera-se que esta eleição ocorra dentro dos próximos meses, uma vez que a nova entidade deverá estar operacional já no início de 2007.

Biblioteca de Saramago online Vigilância dos dados de comunicações em Espanha

A Organização de Consumidores e Usuários (OCU) pediu ao Governo espanhol que vigie a futura utilização dos dados de comunicações móveis por parte das operadoras telefónicas. O pedido prende-se com a elaboração de um anteprojecto de lei que prevê que as operadoras de serviços móveis sejam obrigadas a identificar os usuários dos cartões de telemóveis e que os dados das comunicações que efectuam sejam mantidos por um período de um ano. A OCU está preocupada com o facto da compra dos cartões de telemóvel deixar de ser um acto anónimo que passará a ser uma recolha de dados sobre o cliente, e cujo uso pelas operadoras deve ser controlado. Para esta organização é necessário que a normativa especifique que tipo de utilização pode ser dada às informações recolhidas e que controlo se pode efectuar, de modo a evitar abuso do uso da informação.

Senado rejeita moção sobre regulação da radiodifusão
O senado espanhol rejeitou uma moção apresentada pelo Partido Popular em que propunha que o governo daquele país fomentasse o pluralismo do audiovisual, principalmente em relação à radiodifusão. A votação declinou a moção com 124 votos contra, 113 a favor e uma abstenção. O PP apresentou esta moção dentro do Plano Técnico Nacional de Frequência Modulada, que incluía a planificação de 886 novas emissoras comerciais e 235 rádios públicas autónomas em FM.

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[Evento]

UNIT 4 AGRESSO EM PORTUGUÊS
Empresa internacional chega a Portugal

Estabelecida há mais de 20 anos, a Unit 4 Agresso acaba de abrir uma filial Portuguesa, liderada por João Capitolino, que oferece soluções de gestão empresarial destinadas aos mercados verticais
TEXTO E FOTO POR VERA LANÇA

A

Unit 4 Agresso, empresa líder na Europa em soluções de gestão para empresas e organismos públicos centrados em pessoas e projectos, tem como áreas de actividade a gestão de tesouraria, gestão do imobilizado, contabilidade e controlo de gestão, reconciliação contabilística e gestão de salários. Esta empresa internacional, que conta com mais de 2500 pessoas nos seus quadros e mais de um milhão de utilizadores dos seus produtos, está actualmente presente em doze países, após ter aberto a sua filial em Portugal. A apresentação da filial portuguesa contou com a presença Ab van Marion, director da divisão de negócios de software, Ton Dobbe, director internacional de produto, Antonio Ribano, director de vendas, Jose Sanchez, director geral da Unita 4 Agresso em Espanha, e João Capitolino, director geral da empresa em Portugal. A aposta desta empresa no mercado nacional iniciou-se com a compra da Intelligent Business em Abril passado, investimento que rondou os 300 mil euros. “A principal ra-

zão de aproximação à Agresso foi a desconfiança do mercado face a uma pequena empresa como nós éramos e quando competíamos com determinado software, o cliente não encontrava garantias. Agora temos uma nova postura junto dos clientes porque fazemos parte de uma empresa internacional com uma estratégia global”, diz João Capitolino. Produtos adaptáveis Segundo Ton Tobbe, o ponto forte da Unit 4 Agresso é o facto das soluções que oferece terem agilidade e flexibilidade. “Temos concorrentes como a Microsoft, a SAP ou a Oracle, mas o mercado de soluções ERP está adormecido porque as empresas investem em soluções que ficam obsoletas em poucos anos. A nossa diferença consiste na agilidade dos nossos produtos que podem ser readaptados às empresas, pois estas desenvolvem-se e crescem”, afirma Ton Tobbe. “Nós desenvolvemos o BLINC – Business Living in Change, com a nossa agilidade pós-integração. Os nossos produtos não têm prazo de expiração”. Um dos cuidados que a empresa teve foi a adaptação à realidade portuguesa, tendo em conta os aspectos fiscais, contabilístico e bancário. Segundo João Capitolino, para quem a integração na Unit 4 Agresso traz a grande vantagem de haver mais proximidade da filial com o editor do software, o volume de negócios esperados para os primeiros doze meses de actividade é de 500 mil euros e espera-se que o “break-even” seja atingido no espaço de dois anos. Ab van Marion mostrou-se confiante com este investimento da empresa, que no geral espera vir a ter um crescimento entre 15 a 20%. “Estamos seguros de que teremos sucesso no mercado português a curto prazo”, afirmou.

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: JOSE SANCHEZ, AB VAN MARION, TON TOBBE, JOÃO CAPITOLINO E ANTONIO RIBANO

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[Aldeia Global]

O grupo RTL terminou a sua participação no mercado radiofónico holandês. A última estação de rádio do grupo nos Países Baixos, a RTL FM, deixou de emitir naquele país no início de Outubro. O canal radiofónico perdeu a totalidade das suas frequências terrestres em Julho passado, emitindo apenas por cabo, satélite e internet nos últimos meses de actividade. O grupo justificou esta decisão com o facto de não poder suportar mais perdas no mercado radiofónico, e afirmou também que aquele núcleo se tinha tornado desajustado da estratégia global da RTL devido à sua pequena dimensão actual.

RTL finaliza serviço de rádio nos Países Baixos

Telecom Italia prepara venda da TIM
A Telecom Italia, uma das maiores empresas italianas, prepara-se para uma grande viragem empresarial. O conselho administrativo do grupo deu luz verde para a

venda da TIM, o braço lucrativo de comunicações móveis da Telecom Italia e líder no país. O futuro da Telecom Italia deverá passar por uma aliança com a NewsCorp, do magnata Rupert Murdoch, e pela aposta na distribuição de conteúdos audiovisuais através da rede telefónica. A venda da TIM poderá estar directamente relacionada com o saneamento das dívidas do grupo, que ascendem a mais de 41 milhões de euros.

Os mais recentes dados da Internet World Stats, para o primeiro semestre de 2006, revelam que, em termos de penetração populacional, os EUA lideram no ranking mundial de utilizadores de internet (67%), seguidos pela Oceânia e Austrália (53%). A Europa surge apenas em terceiro lugar em termos uso da rede pela população, com 36%. Os asiáticos ficam-se com uma percentagem de penetração de utilização da internet de apenas 10%, atrás da América Latina e das Caraíbas (15%), mas à frente do continente africano (3%). No entanto, o facto de mais de metade da população mundial viver na Ásia faz deste continente líder mundial, uma vez que representa 37% dos utilizadores globais, à frente dos outros continentes.

EUA com maior percentagem de penetração na internet

Alibaba.com aspira à internacionalização
O principal site de comércio electrónico chinês, Alibaba.com, estabeleceu o prazo de cinco anos para se internacionalizar. O número de clientes do site registou um aumento positivo no último ano, o que levou a empresa a considerar a expansão até à Índia, ao sudeste asiático e, também, até à Europa, fez saber Porter Erisman, vicepresidente do departamento de marketing da Alibaba.com. A empresa, de que a Yahoo! detém 40% das acções, conta com 13 milhões de membros nacionais e a versão inglesa do site trouxe outros 2.3 milhões de clientes espalhados por 200 países.
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[IPTV da Alcatel]

IPTV SEGUNDO A ALCATEL
Empresa quer continuar no caminho da inovação

A Alcatel é actualmente líder de mercado na oferta de serviços triple play e aposta na IPTV como a televisão do futuro
POR MÁRIO GUERREIRO

ário Martins, responsável de vendas-aplicações/CAT do grupo de comunicações fixas da Alcatel Portugal, acredita que as vantagens da televisão de alta definição irão tornar esta tecnologia mais comum entre os utilizadores, a breve trecho.

M

Em que consiste o serviço de transmissão de video streaming (IPTV) sobre redes IP, disponibilizado pela Alcatel? R: Na definição de IPTV, é importante salientar que não se trata de TV através da internet. O serviço IPTV é transmitido através de uma rede IP privada e não da internet pública. Essas redes privadas utilizam a tecnologia IP, mas de uma maneira diferente. Numa rede IP privada especialmente concebida para a IPTV, os operadores de telecomunicações podem garantir a qualidade da experiência do cliente, para além de assegurar um serviço ininterrupto.O serviço de IPTV posiciona-se claramente como um serviço concorrencial ao serviço de televisão por Cabo, sendo que a plataforma IPTV que a Alcatel integra nos seus projectos é baseada na componente aplicativa da plataforma IPTV da Microsoft. Em termos do mercado nacional, quais são os principais entraves à utilização de tecnologias como a IPTV? R: Os principais entraves à entrada e massificação de serviços de IPTV advêm de dois factores: Débitos disponíveis nas casas de consumidores que permitam o transporte de mais de uma “stream” de vídeo em simultâneo (ex.: visionamento de mais de um canal de televisão em simultâneo). E ainda custo inicial do investimento para o arran-

que do serviço; embora para um Service Provider, parte substancial deste investimento já tenha sido realizada caso seja utilizado um serviço de acesso internet baseado em ADSL e uma rede IP de suporte ao referido serviço. Os investimentos adicionais estão relacionados com o Headend de vídeo, a plataforma IPTV e o eventual investimento na rede de acesso do operador de forma a aumentar a largura de banda disponível ao consumidor. A IPTV poderá ser o futuro da televisão? Que vantagens acrescenta à televisão actual? R: O interesse dos consumidores passa pelo lançamento de serviços novos e cativantes, aplicações inovadoras e uma melhor experiência global e não propriamente pela tecnologia de rede. Para compreender melhor o interesse dos utilizadores, a Alcatel procedeu a um estudo com o objectivo de obter uma maior percepção das suas necessidades. Chegámos à conclusão que os consumidores desejam uma experiência mais enriquecedora e personalizada, que possa integrar-se de forma transparente nas suas necessidades de comunicação, informação e entretenimento. Neste último domí-

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[IPTV da Alcatel]

nio, são unânimes em afirmar que desejam controlar as suas escolhas de visualização, por exemplo, mudar de uma programação que é emitida por um mecanismo de transmissão em que as estações de televisão determinam o conteúdo e o horário da programação para um modelo de recepção em que são os consumidores que decidem o horário, o local e o conteúdo que vêem. Este estudo também evidenciou algumas frustrações dos utilizadores, nomeadamente, a lentidão da mudança de canal associada às emissões por cabo digital ou satélite, o desafio de encontrar os programas preferidos num guia de programação electrónico (EPG), a dificuldade de navegação nos menus e a incapacidade de programar a gravação de um programa favorito. Foram precisamente estes os fundamentos de base da solução IPTV da Alcatel. Quais os principais benefícios para o utilizador em nome individual que recorre aos serviços de operador equipado com a plataforma IPTV da Alcatel? R: Com base nos comentários recebidos durante o nosso estudo, o desenvolvimento da solução de IPTV foi orientado de modo a incluir os seguintes benefícios para o consumidor. Como é o caso da programação com temporização personalizada: o utilizador assume o controlo do seu horário de programação, movendo programas do “horário nobre” para o “horário pessoal”; e da mudança instantânea de canal: zapping mais rápido entre canais; navegação mais simples (através do EPG): é mais fácil encontrar, ver e gravar os seus programas preferidos, função de vídeo pessoal gravado (fazer pausa ou voltar atrás na emissão televisiva em directo) e capacidade de vídeo a pedido ou video-on-demand (seleccionar e encomendar um filme sem ter de sair de casa). Os custos da modernização das redes instaladas podem ser um obstáculo a um maior recurso às tecnologias IPTV? É possível assistir a TV por IP em televisores convencionais? R: A nível internacional, existem já serviços de
MÁRIO MARTINS, RESPONSÁVEL DE VENDAS - APLICAÇÕES / CAT GRUPO DE COMUNICAÇÕES FIXAS DA ALCATEL PORTUGAL

Triple Play (baseados em arquitecturas de rede xDSL tradicionais) implementados e de inegável sucesso. No entanto, para garantir todo o potencial dos novos serviços que a tecnologia actual pode proporcionar (VoD personalizado, broadcast em alta definição e Community TV) será necessária uma transformação gradual das redes actuais de modo a garantir maiores débitos ao consumidor. Esta transformação implica uma reorganização da arquitectura de rede existente que cubra os novos requisitos do Triple Play em áreas como home networking, acesso, agregação, EDGE, transporte e plataformas de serviços. Destas áreas, a reconversão da rede de acesso é a que exige um plano de execução mais elaborado e maior investimento. Assim, e apesar de ser já possível o lançamento de serviços base Triple Play, entendemos que os níveis de cobertura em termos geográficos e qualitativos que permitirão a entrega de serviços multimédia de valor acrescentado (voz, internet de alta velocidade e televisão e vídeo de alta definição) exigem a reconversão da rede de acesso. Em relação aos televisores, será possível utilizar qualquer tipo de televisor para serviços de IPTV recorrendo a uma set-top box para aceder ao serviço.

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[Euro Lex]

O DIREITO AO BOM NOME E A IMPRENSA
Tribunal Europeu dos Direitos do Homem

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem vindo a decidir várias batalhas entre liberdade de imprensa e direito à informação versus direito à honra. Direitos que não se querem irreconciliáveis
POR JOANA SIMÕES PIEDADE

Q

uando chamado a pronunciar-se sobre questões que envolvem a liberdade de expressão, de imprensa e o direito à informação por um lado, e o direito à honra, ao bom nome e reputação, à imagem, à intimidade e princípio da presunção de inocência, por outro, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem vindo a revelar a tendência para fazer prevalecer os primeiros. Entre os direitos e liberdades fundamentais consagrados tanto na Constituição Portuguesa, como em textos internacionais a começar pela Convenção Europeia dos Direitos do Homem, não existe qualquer hierarquia, o que significa que todos eles têm igual valor, quando abstractamente considerados. Assim sendo, o primado do direito de informar sobre algum dos outros direitos com igual dignidade que ele afronte, terá de resultar duma avaliação das circunstâncias no caso concreto. Portugal tem somado sucessivas condenações em Estrasburgo por violação do ar tigo 10º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, ou seja, por violação da liberdade de expressão, de onde assoma a liberdade de imprensa. Num caso resolvido no final de 2005 o Estado Português foi condenado por violação da liberdade de expressão no processo de um jornalista que tinha sido condenado por difamação nas instâncias portuguesas. Nesse processo, o queixoso era director do jornal regional de Bragança “A Voz do Nordeste” que por ter publicado um artigo no qual mencionava a existência de “métodos de tipo

mafioso” e omissões deliberadas por parte do director adjunto de um jornal concorrente foi condenado por difamação e ao pagamento de uma indemnização. Posteriormente, e depois de esgotadas os meios de recurso a nível nacional (ver caixa), recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que lhe veio a dar razão. De acordo com o acórdão proferido pelos juízes de Estrasburgo o caso em apreço tinha por base uma polémica entre dois jornalistas sobre uma questão “claramente do interesse geral” e, continua o acórdão, a fundamentação apresentada nos tribunais portugueses não seria suficiente para alicerçar

O ARTIGO 10º DA CONVENÇÃO EUROPEIA DOS DIREITOS DO HOMEM
“1- Qualquer pessoa tem direito a liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de transmitir informações ou ideais sem que possa haver ingerência de quaisquer autoridades públicas e sem considerações de fronteiras. (…) 2- O exercício destas liberdades, (…) pode ser submetido a certas formalidades, condições, restrições ou sanções, previstas pela lei, que constituam providências necessárias, numa sociedade democrática, para a segurança nacional, (…) a prevenção do crime, a protecção de honra ou dos direitos de outrém, para impedir a divulgação de informações confidenciais, ou para garantir a autoridade e a imparcialidade do Poder Judicial.”

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uma condenação por difamação. Já em 2000, Portugal tinha sido condenado pelo Tribunal Europeu de Direitos do Homem por causa da violação da liberdade de imprensa por tribunais nacionais. Na época jornalista do Público, Vicente Jorge Silva, intentou uma acção contra o Estado Português em Estrasburgo da qual saiu vencedor. Os juízes violadora da liberdade de imprensa a condenação penal do jornalista por alegado, mas inexistente, crime de difamação. Num outro acórdão é referido que “a liberdade jornalística compreende também o possível recurso a uma certa dose de exagero, ou até mesmo de provocação”. O Tribunal tem consubstanciado as suas decisões no facto de “a liberdade de imprensa ser essencial à prática da democracia”. Os direitos de informar e ser informado, ambos integrantes do direito à informação representam assim direitos fundamentais do cidadão e “cumprem uma função social”, de esclarecimento dos cidadãos. No sentido de proteger a sobreposição da informação relativamente à reputação, veja-se um outro caso solucionado pelo Tribunal Europeu este mês. Os factos remontam a 1996, quando dois jornais suecos relacionaram um cidadão britânico com o assassinato do primeiro-ministro sueco Olof Palm (1986). Uma vez que nada disso foi provado, o indivíduo processou os jornais exigindo uma indemnização por ofensa ao bom nome e reputação. Não alcançando os seus intentos nos tribunais suecos recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em 2002. Este mês, quatro anos volvidos, o acórdão de Estrasburgo não dá ra-

zão ao queixoso e absolve a Suécia, justificando que “o interesse público na publicação da informação sobrepunha-se ao direito do queixoso da protecção da sua reputação”. Esta decisão parece vir aquecer o debate sobre a valoração que tem vindo a ser feita destes direitos. Até porque as limitações à liberdade de imprensa, em ordem a “salvaguardar o rigor e a objectividade da informação, a garantir os direitos ao bom nome, à reserva da intimidade da vida privada, à imagem e à palavra dos cidadãos” estão acolhidas, também na Convenção, nas diversas leis internas, incluindo em Portugal, o próprio Estatuto do Jornalista e o seu Código Deontológico. Apresentar uma queixa Em primeiro lugar, convém saber que o TEDH só pode apreciar queixas por violação dos direitos e liberdades garantidos pela Convenção ou Protocolos adicionais, desde que o queixoso tenha esgotado, no seu país, todos os meios de recurso ou quaisquer vias judiciais ou administrativas que a lei lhe faculta para tentar reparar a violação. Para além disto, os actos violadores dos direitos de quem pretende apresentar queixa têm de ser praticados ou da responsabilidade do Estado. Ficam, em princípio, fora do âmbito da Convenção, os actos violadores dos Direitos do Homem praticados por particulares, em que o Estado não possa, directa ou indirectamente, ser por eles responsabilizado. Mais informações através do site do Tribunal em www.echr.coe.int.

O QUE É O TEDH?
Portugal ao ratificar, em 1978, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, ficou a fazer parte do sistema internacional considerado mais avançado na protecção dos direitos e liberdades fundamentais. A Convenção consagra um conjunto de direitos de diversa natureza (civis, políticos, económicos e culturais), e instituiu um mecanismo de garantia da aplicação desses mesmos direitos, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

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[Estudo / Responsabilidade Social nas Empresas de Media]

FRACA TRADIÇÃO EM PORTUGAL
Empresas não têm cultura de responsabilidade social

Fenómeno relativamente recente apenas em algumas empresas de media nacionais, a Responsabilidade Social Empresarial tem de ser estendida a todo o sector
TEXTO E FOTOS POR VERA LANÇA

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s lacunas são muitas, mas a principal será o reduzido número de empresas de media que se preocupa com a cultura da Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Ainda há muito por fazer na comunicação social, que tem responsabilidades muito específicas junto da sociedade, inerentes à sua actividade. São estas as conclusões a que chegou Helena Costa, docente na Universidade Moderna, no trabalho “Práticas de Responsabilidade Social Empresarial: Uma abordagem às empresas de media”. compromissos de RSE tem várias motivações, mas a maioria das empresas tem fins lucrativos que não permitem que haja distanciamento das expectativas colocadas nos resultados. Uma boa forma de garantir isso seria, segundo a docente, o combate à perda de audiências através da garantia da sua credibilidade perante a própria sociedade. Todos estes aspectos apontam para a necessidade de adoptar mais e novas práticas de RSE, o que implica uma incorporação dos impactos directos e indirectos da actividade da empresa na sua política de gestão, a criação de compromissos para com os stakeholders, para além da definição de instrumentos de avaliação da implementação das RSE. Identificar os problemas sociais mais urgentes e encontrar a solução para os mesmos é uma das metas que as empresas de media devem traçar, e isso implica o envolvimento do topo da empresa em todo o processo de definição e acção da RSE. Helena Costa afirma que, a médio e longo prazo, os media terão necessariamente que assumir compromissos claros de RSE.

Governação corporativa com pouca RSE Em 2003, Por tugal surgia em 21º lugar no “National Corporate Responsibility Index”, publicado pela AccountAbility, atrás de todos os membros da EU, à excepção da Grécia, e, desde então, pouco mudou. Na sua maioria, são as empresas cotadas em bolsa que têm adoptado práticas de governação corporativa, que implicam o cumprimento dos princípios de RSE. Em Portugal, três grandes grupos de media têm cotação em bolsa – a Impresa, a Cofina e a Media Capital – e as práticas de governação corporativa são aqui aplicadas. No entanto, estes grupos não fazem Relatórios de RSE e não têm Códigos de Ética ou regulamentos de RSE. A tendência que se verifica em Portugal é que a governação corporativa se centra na gestão corrente da empresa, pois apenas são elaborados Relatórios sobre o Governo das Sociedades, o que leva Helena Costa a afirmar que os media não adoptam compromissos explícitos nem com o público nem com as questões ambientais, sociais e culturais, ou seja, os stakeholders. A necessidade de levar os meios de comunicação social a assumir

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[Agenda XXI]

Novembro, 2006
SITIC – Salão Internacional de Tecnologias da Informação e Comunicação Data: 02 e 05 Novembro 2006 Local: FIL - Lisboa Organizador: Associação Industrial Portuguesa/Feira Internacional de Lisboa Inscrições on-line em: http://www.sitic.fil.pt II Seminário Internacional Media, Jornalismo e Democracia: Jornalismo e Actos de Democracia Data: 13 e 14 Novembro 2006 Local: Escola Superior de Comunicação Social do IPL - Lisboa Organizador: Centro de Investigação Media & Jornalismo Mais informações em: http://www.sopcom.pt/index.html BPM & Business Intelligence Impacting Business and Processes Performance by Applying BI to Operational Decisions Data: 14 de Novembro de 2006 Local: Hotel Le Meridien, Lisboa Organizador: IDC Portugal Mais informações em: http://www.idc.pt/site/cgibin/idc_evento_01.asp?eventoid=46 Curso de Marketing e Comunicação para Instituições Católicas Formador: Francisco Pérez-Latre Data: 15 (Lisboa) e 16 (Porto) de Novembro Duração: 1 dia Organização: Ntime/UAL Inscrições em: curso.instituicoescatolicas@gmail.com III Congresso Ibérico de Comunicação Comunicação e Desenvolvimento Cultural na Península Ibérica. Desafios da Sociedade da Informação Data: 14 Novembro 2006 Local: Sevilha, Espanha Organizador: Universidade de Sevilha – Faculdade de Comunicação Inscrições em www.us.es/cibercom/ Mais informações em: http://www.sopcom.pt/index.html

Curso de Mediatraning Formador: Paulo Faustino, Pedro Luiz de Castro, Pedro Pinto Lisboa: 9 e 10 de Novembro Leria: 21 e 21 de Novembro Porto: 23 e 24 de Novembro Organizador: Ntime Inscrições em: curso.mediatraning@gmail.com Fórum Mundial de Marketing e Vendas 2006 Data: de 20 a 21 de Novembro de 2006 Local: Centro de Congressos de Lisboa Organizador: HSM Mais informações em: info.lisboa@hsm-es.com Conferência Performance: Estudos Data: 2, 8, 15, 22 e 29 de Novembro; 13 de Dezembro (18h30) Local: Pequeno Auditório Culturgest Entrada gratuita (levantamento de senha de acesso 30 minutos antes de cada sessão, no limite dos lugares disponíveis) Coprodução: AEAPDFBAUL / Culturgest V ENEJC - Encontro Nacional de Estudantes de Jornalismo e Comunicação Data: de 3, 4 e 5 de Novembro de 2006 Local: Leiria Organizador: alunos do curso de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Leiria. Mais informações em: http://www.5enejc.blogspot.com/

Dezembro, 2006
Ciclo Falar de Imagens - Direito de Imagens: Direito à Imagem Data: 16 de Novembro, 19:00 horas Local: Almedina Atrium Saldanha Organização: José Carlos Abrantes e Almedina Nippon Koma - Festival de Cinema Japonês Data: de 4 a 9 de Dezembro (seg-sáb)das 18h30 e 21h30 Local: Pequeno Auditório Culturgest · 2 Euros (Preço único) Comissariado: ACT

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[Último Olhar]

Óculos radicais com câmara
A Rip Curl acaba de lançar no mercado o Third Eye GoggleCamera, uns óculosmáscara equipados com uma câmara de filmar de alta resolução. Esta criação foi completamente pensada para os praticantes dos desportos radicais, pelo que é resistente ao choque, impermeável e disponibiliza quatro modalidades de foco. A câmara, cuja dimensão é de 8x2 cm, pesa apenas 60 gramas e possibilita a recolha de imagens com qualidade durante a prática de desporto. A preocupação da Rip Curl foi que o Third Eye aliasse a qualidade às linhas desportivas modernas.

O site sul coreano Ohmynews, o portal emblemático de jornalismo feito pelo cidadão comum, que chegou em Setembro ao Japão, aspira agora entrar noutros mercados. As prioridades de Oh Yeeon Ho, fundador e director do site são a China, Itália e América Latina. Actualmente, o Ohmynews é publicado em coreano, inglês e japonês e conta com a colaboração 43.000 jornalistas-cidadãos no seu país de origem e perto de 2000 no Japão. As notícias enviadas para o site são apenas publicadas após serem confirmadas por uma equipa do Ohmynews e os seus autores recebem uma pequena quantia como gratificação.

Samsung com chip com 32 gigas iTV da Apple em 2007
A Apple anunciou o lançamento do novo serviço pago de downloads de filmes, da Disney, Pixar e Touchstone, já para o início de 2007. O novo aparelho, o iTV, poderá ser adquirido pelo preço de 236 euros, mas inicialmente apenas nos Estados Unidos. Este serviço, entrará em concorrência com a Amazon, que disponibiliza conteúdos semelhantes. O iTV foi apresentado juntamente com o novo modelo do iPod da Apple, muito mais pequeno e melhorado face à versão anterior.

A Samsung apresentou o primeiro chip de memória flash NAND com uma capacidade de 32 GB. Fabricado com recurso a tecnologia de 40 nanómetros, este dispositivo pode guardar informação sem necessitar de ligação a uma fonte de energia. Esta versão representa um grande salto em relação ao modelo apresentado pela mesma empresa há um ano – um chip de 16 GB fabricado com tecnologia de 50 nanómetros. A utilização deste tipo de chips de memória está muito difundida junto dos utilizadores de dispositivos móveis.
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Jornalismo de cidadão a nível global

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