ENTREVISTA

Jacques Revel*
Jacques Revel é, desde 1995, Presidente da Ecole dês Hautes Études en
Sciences Sociales. Indiscutivelmente relacionado à instituição que preside,
o seu percurso intelectual por vezes confunde-se com a própria história da
revista Annales, nos últimos 30 anos. Tendo ocupado os cargos de secretário
de redação e de co-diretor, entre 1975 e 1981, contribuiu muitas vezes para
os processos de renovação que resultaram, como o de 1989, num balanço
crítico do trabalho historiográfico contemporâneo, proposto como “virada
crítica” da História.
Mas os momentos fortes do trabalho de Revel podem ser evidencia-
dos, ainda, sob diferentes aspectos. O primeiro deles é marcado pelas co-
laborações, materializadas em trabalhos coletivos – com Michel de Certeau,
Dominique Julia ou Arlette Farge – e por uma interlocução importante
com os historiadores italianos – em particular, com Cario Ginzburg e
Giovanni Levi. O segundo aspecto, menos visível talvez, é o trabalho de
orientação de estudos na École desde 1983, que já resultou na formação de
uma geração – jovem, sem dúvida – de historiadores. E o terceiro, relacio-
na-se à sua atuação no exterior, especialmente nos Estados Unidos, onde
tem ensinado, nos últimos anos, como professor convidado nas universi-
dades de Nova York, da Califórnia, em Berkley, e de Michigan.
O seu percurso profissional pode ser traçado, desde o começo dos anos
1970, a partir da prática de pesquisa nos moldes do programa socioeconô-
mico da historiografia francesa, até a formulação de sua proposta de uma
“história social dos modelos culturais”, que intitula até hoje os seminários
que oferece na École.
Se os ecos das primeiras experiências de pesquisa na Itália resultaram
numa colaboração longa com os historiadores italianos, permitiram tam-
bém a perspectiva de observação privilegiada que acompanhou o itinerário
de toda uma geração, dentro e fora da França, que vai do trabalho com os
macromodelos à possibilidade da mícroanálise. É a partir desse e de alguns
Topoi, Rio de Janeiro, mar. 2001, pp. 197-215.
outros lugares de observação privilegiados, legitimamente ocupados, que
Revel falou à revista Topoi.
Como se organiza, na sua opinião, o saber histórico hoje, de um modo geral?
Não é uma pergunta fácil de ser respondida, porque posso dar definições
muito institucionais da organização do trabalho histórico, na escala de um
país como a França, por exemplo. A disciplina é organizada nas universi-
dades de tal maneira que determinadas pressões se exercem na formação dos
historiadores, como é o caso da agrégation. Este concurso de recrutamento
de professores, que acontece ao término do percurso escolar, desempenha
um papel muito importante – não muito positivo, na minha opinião – mas
com tendência a fixar as categorias, uma vez que é, antes de mais nada, um
exercício escolar. Trata-se, portanto, de um papel conservador das formas
do saber. Também há a tese de doutoramento, que mudou muito, visto que
nos últimos 15 anos a França aderiu à tese curta ou semícurta, isto é, ao
formato internacional do Ph.D, onde antes havia essas enormes teses que
eram preparadas durante 10 ou 15 anos. Tudo isso tem uma importância
para as práticas, uma vez que, hoje em dia, os jovens pesquisadores se vêem
livres da tese com 30 ou 35 anos, e começam então uma segunda, depois
uma terceira vida, o que era muito mais raro nas gerações anteriores. Esses
são os primeiros elementos de descrição que se podem comparar com o que
existe fora da França.
Num outro nível, o Comité International des Sciences Historiques propõe
uma organização do conhecimento histórico muito diferente – pode-se no-
tar pelos programas que promove na ocasião de seus grandes congressos. A
quem isso afeta? A um número considerável de historiadores, mas, apesar
de tudo, uma minoria cuja composição e cujo papel seria preciso conhecer.
Se tomarmos como exemplo a minha própria experiência, devo confes-
sar que nunca participei do Congrès International des Sciences Hístoriques,
mesmo sendo há 30 anos historiador profissional. Pode-se levar a vida sem
essas coisas.
Haveria uma organização unificada dos historiadores? Não creio. Há
elementos que mudaram, e acredito que possam ser comuns a muitos de
nossos colegas historiadores, porque correspondem a movimentos “de fun-
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do”. O primeiro deles é um formidável movimento de imernacionaliza-
ção do conhecimento histórico que corresponde à experiência da minha
geração e que é mais evidente ainda para a geração seguinte: nós viajamos
mais do que aqueles que nos precederam, ensinamos mais no exterior,
recebemos muitos colegas e estudantes estrangeiros (numa instituição
como a École, há quase 50% de estudantes estrangeiros, mesmo se o caso
particular desta instituição permanece ainda um pouco excepcional). É
verdade que se pode opor a esta afirmação o fato de que os estilos nacio-
nais de historiografia são bastante bem reconhecidos entre a França e os
Estados Unidos, entre a França e a Alemanha, entre a França e a Itália.
Mas, ao mesmo tempo, os textos que lemos, as questões que levantamos,
os modos de refletir, hoje em dia, são trocados com colegas que estão em
Los Angeles, em Princeton, em Bolonha, em Berlim ou no Rio de Ja-
neiro. Não fazemos as mesmas coisas, mas sabemos, quase que em tempo
real, o que estamos fazendo todos. Dei aulas na Argentina, regularmente,
nesses últimos anos. É um país onde as bibliotecas não são ricas, que é
muito distante da Europa, e que, ao mesmo tempo, me deixa encantado
pelo fato de ter grupos de pesquisadores que sabem muito rapidamente
o que estamos fazendo, que se empenham em traduzir e tomar iniciati-
vas. Falo isso de um país que conheço menos mal que outros, mas é o
caso de muitos lugares; encontram-se experiências comparáveis na Eu-
ropa Central, por exemplo. No entanto, o mercado historiografia) não se
tornou homogêneo, nem tampouco unificado. Há vários mercados su-
perpostos, nos quais os laços entre as pessoas que fazem trocas, que dão,
que recebem, são laços não generalizáveis, a partir de uma fórmula única.
Mas, ao mesmo tempo, as coisas não acontecem unicamente na França,
nos EUA ou no Brasil, e é bom que seja assim. Isso mudou. O que não
quer dizer que exista uma problemática mundial; não acredito nisso. Não
existe uma mundialização, no sentido de globalização. Mas existem cir-
cuitos internacionais, vivos, essenciais, sem dúvida alguma. Isso é um
primeiro ponto.
O segundo aspecto, ao que me parece, é que o conhecimento históri-
co – as modalidades de conhecimento que lhe são próprias – atravessou
um período de forte turbulência, porque muitos dos grandes paradigmas
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sob os quais vivíamos – que não diziam respeito somente à história, mas
à história e às suas relações com as ciências sociais – se desgastaram e não
foram substituídos. Os grandes sistemas funcionalistas não desapareceram
da paisagem intelectual, embora estejam menos consolidados. Mas aquilo
que era evidente e que fundamentava um certo cientismo historiográfico
há 30 anos, quando eu era estudante, quando comecei a ser historiador
profissional, não o é mais. Isso levou a conseqüências muito diferentes. Nos
Estados Unidos, vimos subir, de um modo que considero bastante preocu-
pante, uma onda de relativismo cético, o chamado linguistic turn [virada
lingüística] com aspectos importantes, interessantes e, ao mesmo tempo,
com a idéia de que poderia não haver relações que fundamentam a história
e a verdade, de que tudo estaria contido no mundo dos textos, que tudo
iria do texto ao texto, e seria da ordem de dispositivos retóricos. Encontra-
se aí uma reflexão útil sobre aspectos por muito tempo negligenciados,
mas também uma posição que é, na minha opinião, não aceitável. Mas
criou-se, a partir daí, uma onda de choque muito forte, à qual a França, de
fato, se manteve um pouco à margem – talvez por conta das velhas bases
positivistas da cultura científica francesa. No mundo anglo-saxão, num
sentido bem amplo, isso teve efeitos que considero devastadores, mesmo
se, hoje em dia, o episódio se aproxima do fim. Meu amigo Cario Gínzburg
tocou muito nesse ponto, batalhou muito contra essa tendência relativista e
cética, e estou inteiramente de acordo com o essencial do que ele diz: se não
há uma diferença essencial entre o trabalho do historiador e o trabalho
do autor de ficção, não vale a pena fazer história. Se o nosso ofício não
ambiciona fundar uma relação com o real e a verdade, qualquer que seja
a maneira de se pensar esses termos, mais vale fazer outra coisa, se formos
capazes, ou no pior dos casos, não fazer nada. Mas este é, sem dúvida, um
caso extremo.
Na França, onde os efeitos dessa desestabilização foram menos fortes,
houve, ainda assim, uma revisão crítica sobre algumas de nossas certezas.
Creio que, no total, houve aspectos muito salutares. Por quê? Porque, no
fundo, o período de forte crescimento historiográfico que conhecemos,
digamos, dos anos 1930 aos anos 1980, que foi registrado pelos Annales,
e a emergência da história social – um período, também, de produção de
grandes obras historiográficas – teve ainda como efeito o retorno de uma

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atitude contra a qual Durkheim e Simiand, no começo do século, e Bloch
e Febvre, mais tarde, tinham construído seus próprios projetos. Não estou
certo de que seja preciso falar aqui de “positivismo”, pois o termo é, ao mes-
mo tempo, impreciso e cômodo demais. Digamos que a própria dinâmi-
ca da pesquisa, a multiplicação de suas frentes pioneiras, a normalização
inevitável de práticas científicas tenderam, ínsensivelmente, a substituir um
abordagem positiva por uma abordagem voluntarista, construtivista, ex-
perimentalista, que havia sido a ambição da sociologia durkheimiana, dos
primeiros Annales e de outros. As hipóteses analíticas sobre a realidade so-
cial, as categorias usadas pelos historiadores – mas a observação não é válida
somente para eles – tenderam a ser consideradas como coisas. Foram sendo
pouco a pouco reificadas. Parece-me que foi contra isso que se forjou, de
saída, a reação crítica dos 15 ou 20 últimos anos, a que chamamos, nos
Annales, tournant critique [virada crítica], Mas ela não foi privilégio dos
Annales, nem mesmo, é claro, da história dentre as ciências sociais. A maio-
ria delas parece-me ter tentado dar essa “virada crítica”.
Nesse sentido, como pode ser definida a sua relação, como historiador, com a
tradição dos Annales?
Esta não é uma questão muito fácil: é um pouco como perguntar a
um peixinho vermelho o que sente em relação ao aquário em que vive.
Fui formado num espíritro próximo dos Annales; fui o principal respon-
sável pela revista durante seis anos, entre 1975 e 1981, e desde então sou
um dos diretores, ou seja, faço parte do pequeno grupo que se reúne a
cada mês para debater as escolhas da revista, para escolher os artigos etc.
Minha proximidade é, portanto, grande e – por que não dizer ? – também
são grandes a minha ligação e a minha fidelidade. No entanto, de uns 20
anos para cá, muitas coisas mudaram nos Annales e também, é claro, em
torno da revista. Desejei essas mudanças, tomei parte delas e não me ar-
rependo disso.
Gostaria de começar dizendo – mesmo se esta convicção que exprimi
muito cedo tenha me valido algumas inimizades – que não existe, no meu
entender, a “escola dos Annales”, enquanto muitos utilizam esse modo
cômodo de chamá-la. O movimento historiográfico fundado pela revista
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de Bloch e Febvre baseou-se em convicções gerais ambiciosas e, ao mesmo
tempo, simples: por um lado, a de que a história é uma ciência social, que
não é evidente em muitas tradições historiográficas. E por outro lado, a de
que as disciplinas que compõem as ciências sociais tendem a se cruzar, a
si confrontar, a se enriquecer mutuamente. Mas isso é um programa cuja
realização pode ser pensada de maneira bastante diversa. Para Durkheim
os durkheimianos, no começo do século, este confronto devia ser orga-
nizado em torno de um conjunto de regras de métodos unificados – as re-
gras do método sociológico que Durkheim acabara de codificar em 1894
– e as diferentes disciplinas tendiam a se fundir no seio de uma únicí dis-
ciplina, a sociologia. A mesma estratégia prescritiva retorna, meio século
mais tarde, no momento estruturalista. Diante dela, a solução proposta
pelos Annales, desde a sua fundação em 1929, aparece como muito mais
modesta e, principalmente, como mais empírica: é o modelo do emprésti-
mo e da bricolage, “olhemos se na caixa de ferramentas do vizinho há
algo que nos interessa e tentemos”. Isto foi, creio, a força – e sem dúvida
também o limite – do movimento dos Annales, concebendo, assim, um
dispositivo empírico, móvel, aberto, permitindo pôr à prova, rejeitar ou
adotar aquilo que, por direito, pertencia ao bem comum das ciências so-
ciais. Tudo isso, é claro, não funda realmente uma ambição teórica, nem
uma escola. Mas, tal como se apresentava, este programa alimentou uma
formidável energia há quase 75 anos. Fernand Braudel dizia isso à sua
maneira, sempre engraçada, explicando que a posição central da história,
que ele reivindicava encontrar-se no seío das ciências sociais, se justificava
aos seus olhos pelo fato da história ser a menos formal, a menos teórica
dessas ciências – e acho que de certa forma ele tinha razão.
Disso resultou uma grande capacidade de adaptação. Os Annales não
pararam de redefinir sua posição, ao mesmo tempo em função da evolução
interna da disciplina-mãe, a história, e também porque as relações entre a
história e as ciências sociais – que também existiam no seio do conjunto
das ciências sociais – mudaram. Trata-se de uma história extraordinaria-
mente complicada cujos detalhes seria preciso acompanhar de perto. Vou
me remeter a um único traço significativo para me fazer entender melhor.
No período que vai do fim dos anos 1940 aos anos 1970 – que, na França,

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corresponde aos “Trinta gloriosos” e no resto do mundo a um momento
de crescimento otimista –, num momento em que se via também a rea-
lização de uma política voluntarista das ciências sociais e pensava-se que
a interdisciplinaridade existia por si só, que era uma espécie de direito
científico. Na verdade, as relações eram muito difíceis, e tavez até desas-
trosas. Mas Braudel, cujo pensamento e ação política dominaram nessas
três décadas e que não hesitava em considerar a crise como uma condição
normal para as ciências sociais – basta ver o célebre artigo sobre a longa
duração, publicado em 1958 – estava convencido de que essa história tão
difícil só podia terminar, bem visto que as disciplinas sociais visavam em
comum, para além de suas diferenças tempestuosas, a um mesmo objeto:
o homem em sociedade. (É sem dúvida daí que vem a fortuna, que per-
sistiu por muito tempo, do sintagma “ciência do homem”, na França.)
Havia um empenho em organizar esse futuro integrador numa perspec-
tiva que era, ao mesmo tempo, otimista e funcionalista.
Tudo mudou nos últimos 20 ou 25 anos. Para o cinqüentenário dos
Annales, em 1979, publiquei um artigo que recusava a idéia de um “para-
digma” dos Annales e tentava mostrar que tinham sido múltiplos, suc-
essivos, que os Annales tinham se tranformado várias vezes e que ainda
se transformariam; era isso que eu defendia. Não agradei a todos, mas
alguns, como Braudel, que não compartilhavam da minha análise, con-
fiaram em mim. Para a minha geração, e mais ainda para a seguinte, a
interdisciplinaridade não existe por si só, não pode ser invocada como
resposta já pronta. Por quê? Por várias razões que terei de abordar muito
rapidamente. Porque a maioria das ciências sociais está, hoje, menos se-
gura quanto ao seu perímetro de ação, suas negociações, seus direitos:
para se convencer, basta comparar os argumentos e os programas de 30
anos atrás e as retomadas críticas que se multiplicaram nos últimos anos.
Porque, em segundo lugar, a idéia de uma inteligibilidade global do social,
tão fortemente presente nos anos de otimismo (tratava-se, Finalmente, de
uma versão intelectual da ideologia do progresso), resistiu mal à crise
mundial; uma crise de que sabemos definir apenas os contornos e for-
mas, para não falar de seus mecanismos. Nossas sociedades se tornaram,
de certo modo, mais opacas para si mesmas, e as ciências sociais também
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tiveram de rever suas ambições cognitivas e interpretativas em baixa. Elas
sempre encontraram, em contrapartida, um verdadeiro estímulo ao tra-
balho, um convite a renovar os termos de suas análises, e é um motivo
para alegrar-se. Mas o trabalho se tornou mais setorial, mais atento às
complexidades e às contradições. E ainda existe uma última razão que,
creío, permite compreender o fato de a interdisciplinariedade ter se tor-
nado problemática, o que não deve ser visco como impossível. Bernard
Lepetit, de quem fui muito próximo nos Annales, a partir da metade dos
anos 1980 até a sua morte prematura em 1996, publicou um breve artigo,
forte e sutil, que se intitulava “Por uma prática restrita da interdiscipli-
nariedade” (Revue de Synthèse, 1990), cujos termos continuo a partilhar.
Nesse artigo, ele observava que o modelo da integração disciplinar – a
integração, proposta por Braudel, entre história e economia, nos anos
1930, ou a integração em parte realizada, por exemplo, entre história e
antropologia, nos anos 1970 – tinha limites. Observava, ainda, que para
que houvesse uma circulação e uma troca entre duas ou várias disciplinas,
era preciso, ao contrário, poder jogar com a diferença de pontos de vis-
ta que cada uma delas autorizava: para que a corrente elétrica circule, é
necessário que exista uma diferença de potencial. Com essas observações
falsamente simples, parece-me que Lepetit voltava ao programa original
dos Annales, A “virada crítica” que a revista desejou assumir no final dos
anos 1980, instigada por Lepetit e por mim, queria dizer precisamente
isso. Não representava uma opção teórica, mesmo estando convencidos de
que não seria sempre possível refugiarmo-nos por detrás dos sacrossantos
direitos do empirismo organizador, Mas o essencial do que recomendáva-
mos era um retorno à experimentação, se possível calculada e consciente
de si mesma, de seus meios e também de seus limites. Alguns amigos nos
acompanharam – alguns porque, aliás, seus trabalhos individuais foram
levados adiante, sem que esperassem por nós. Certamente, não cabe a
mim dizer se a operação foi bem-sucedida, nem até que ponto. É verdade
que ela não está concluída, e seus termos já devem, sem dúvida alguma,
ser reformulados. Mas é assim que as coisas avançam, nunca exatamente
como esperamos (os historiadores deveriam saber disso por experiência).
Em todo caso, a experiência terá sido, para nós, uma maneira um pouco
diferente de colocar e de pensar a relação entre história e ciências soci-

ais, mas não um abandono. É preciso lembrar que, em 1993 decidimos
renunciar ao velho subtítulo inventado por Febvre e Braudel, sobretudo
após a guerra – “Economias, sociedades, civilizações” - – para firmarmos
“Annales. História, ciências sociais”, o que era uma maneira de reivindicar
a nossa fidelidade. Mas tentamos fazê-lo em termos um pouco diferentes
daqueles que nos precederam.
Qual é o papel, particularmente o papel político-institucional, da École dês
Hautes Études en Sciences Sociales hoje?
A École foi, em sua origem, uma emanação dos Annales. Ela foi a
tradução institucional, 15 anos depois, do projeto de integração discipli-
nar ou de confrontação disciplinar dos Annales (que também foi, no iní-
cio, uma revista situada às margens da universidade). A École–criada em
1948 como a 6
a
seção da École Pratique dês Hautes Études – foi, durante
muito tempo, uma instituição bastante frágil, uma instituição de papéis,
sem paredes, com poucos cargos, sem nada além de convicções e projetos.
Esquecemos dela durante um bom tempo, pois, desde os anos 1960-1970,
ela existe, e existe fortemente. Assim, houve uma mudança de natureza das
coisas. Porém, no fundo, o que a École faz, o que lhe é dado fazer, é traduzir
nas políticas científicas – a sua organização interna, os seus programas, as
suas modalidades de trabalho – o confronto entre as ciências sociais, ou ain-
da, dar uma forma a esse confronto. Segundo o seu projeto, a École é feita
para isso. Pode realizá-lo mais facilmente do que uma universidade, porque
é uma instituição que permanece bastante leve, dedicada à pesquisa e à
formação para a pesquisa e que não é, portanto, encarregada de fazer tudo,
pois não tem uma vocação enciclopédica. Pode inaugurar programas com
bastante facilidade, pode fechá-los (e deveria fazê-lo com maior freqüência).
Pode acolher propostas mais facilmente do que outras instituições porque
continua sendo um dispositivo surpreendentemente versátil.
De que forma se expressa essa política? Em primeiro lugar, através das
formas de debate entre colegas, os professores-pesquisadores da EHESS,
mas também os seus parceiros científicos na França e fora da França. Disso
resulta, uma desordem generosa, proposições que afluem, que são por vezes
contraditórias, mas cujo interesse é que sejam ouvidas, que circulem sempre.
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Há uma troca: muitos vêm me falar de seus projetos e o meu papel, como
presidente, é lhes dedicar atenção, fazer com que os projetos repercutam,
facilitar os contatos. Tudo isso é possível, é claro, porque o nosso meio
é um lugar de forte “interconhecimento” no seio de uma instituição que
não é excessivamente grande. Em seguida, vem o momento das arbitra-
gens, em que é preciso fixar prioridades. A École e o seu presidente podem
se apoiar num Conselho científico, que se encarrega de instruir as propos-
tas, de avaliar os programas, de efetuar um trabalho de conhecimento. E
ainda, é claro, a política de recrutamentos, determinada pela Assembléia
que reúne o conjunto dos professores-pesquísadores, e exerce um papel
decisivo, visto que implica, relativamente em longo prazo, o futuro da
instituição.
Em relação àqueles de qualquer universidade norte-americana de rep-
utação média, os nossos meios continuam limitados, e imagino que eles
possam parecer mera bricolage. Enquanto responsável da École por alguns
anos, eu desejaria mais, é claro, e me empenho em melhorar as coisas, numa
medida que ainda é modesta. Mas continuo certo de que a força da École
está em outro lugar: na sua capacidade de proposição e de experimentação.
Não são tantos os casos de instituições científicas, relativamente leves, que
se deixam reorganizar tão tranqüilamente a partir de inovações; nem tam-
pouco os casos de meios que aceitem não serem formados por si mesmos,
mas que cada vez mais – e a evolução é surpreendente no que diz respeito
às equipes de pesquisa – funcionem em rede.
A partir ao que acaba de ser dito sobre a evolução dos Annales e sobre a crítica
do projeto de história social que lhe é associada, como pode ser situada a sua
proposta de “história social dos modelos culturais”, que intitula o seu seminário
na EHESS?
Para a orientação de estudos que me foi confiada no começo dos anos
1980, há quase 20 anos, eu havia retido esse título: “História social dos
modelos culturais”. Por volta da mesma época, Roger Chartier propunha
o de “Sócio-história das práticas culturais”. Não voltei recentemente a falar
disso com ele, mas imagino que para ele, assim como para mim, esses títu-
los sobre os quais havíamos então refletido e discutido muito e que nos
pareciam ir no mesmo sentido, tinham um significado mais urgente naque-

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le momento do que hoje – mesmo se essa observação valha talvez mais para
mim do que para ele. “História social”, “sócio-história”: tratava-se, antes
de mais nada, de uma maneira de estabelecer uma distância em relação
à história das mentalidades que havíamos encontrado na nossa formação
de historiadores, uma vez que tínhamos passado muito tempo criticando,
ao lado de outros – como o medievalista Jean-Claude Schmitt –, nos anos
1970. Quais eram as acusações que fazíamos à história das mentalidades?
Sem dúvida, a de ser muito fácil e peremptoriamente “englobante”; de
postular, a princípio, a unidade de um horizonte cultural (ou “mental”)
não demonstrável, supostamente partilhado pelo conjunto dos atores so-
ciais de um momento histórico dado; de correr o risco de reificar, com o
termo “utensilhagem mental”, os recursos culturais, pensando-os de forma
independente das situações e das práticas. Nesse sentido, reagíamos contra
a concepção que havia sido defendida e ilustrada por Lucien Febvre em
grandes livros, do fim dos anos 1920 aos anos 1950, e também contra a
de Robert Mandrou, seu sucessor direto. Mas tomávamos distância, por
outro lado, em relação ao primeiro Foucault, autor que dominou a nossa
juventude intelectual; ou, no mínimo, tomávamos distância em relação à
leitura, que era então a nossa, de A História da loucura, O Nascimento da
clínica e de As palavras e as coisas. Com o termo épistémé, ele também co-
locava a existência de vastos sistemas culturais fundados em dispositivos
discursivos partilhados. Reagíamos, em segundo lugar, contra a antropolo-
gia histórica, cujo sucesso foi extremamente grande, do fim dos anos 1960
até meados dos anos 1980, convictos de que, com outros meios, com um
equipamento conceituai mais sofisticado, ela propunha uma versão mais
jovial da história das mentalidades (em parte, estávamos enganados).
O que nos interessava – o que, creio, continua nos interessando –, era
refletir sobre a articulação do cultural e do social. Não éramos os únicos,
é evidente. Em 1975, a leitura do primeiro livro publicado de Natalie
Zemon Davis, Society and Culture in Early Modern France, provocou um
verdadeiro choque: não parecia com nada do que conhecíamos, e discuti-
mos longamente sobre o livro. Aconteceu o mesmo, no ano seguinte, em
relação a O queijo e os vermes, de Cario Ginzburg. De quê dispúnhamos,
de verdadeiramente nosso? De uma poderosa tradição de história social,
na qual havíamos sido formados, aquela que ensinava Ernest Labrousse na
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Sorbonne e na École des Hantes Études e que havia mobilizado, nos últimos
30 anos, em grande número, os melhores pesquisadores das gerações que
precediam a nossa. Essa tradição de história social, mais durkheimiana
que marxista, se refletia em dados pesados, em largos agregados estatís-
ticos, e era pensada, sobretudo, em termos de distribuições. Escolhia-se
uma população suficientemente numerosa; depois, na distribuição das
propriedades que caracterizavam-na, esforçava-se para identificar limites.
Isso foi feito inicialmente com o estudo de dados econômicos (este foi
o objeto de dois grandes livros de Labrousse sobre a economia do An-
tigo Regime); em seguida, passaram a ser abordados os dados sociais; ao
longo dos anos 1960, chegou-se aos dados culturais, o “terceiro nível”,
como chamava, com um termo contestável, o infatigável coordenador
de pesquisa que era Pierre Chaunu. Estava-se lidando, de fato, com uma
construção por andares, e, sem que nunca fosse explicitado, tomou-se
o hábito de pensar um nível em relação ao outro, ou, mais exatamente,
de indexar o social sobre o econômico, depois o cultural sobre os outros
dois. Há diversos testemunhos dessa concepção, dos quais um dos mais
significativos seja, talvez, a pesquisa sobre “Livro e sociedade no século
XVTII”, dirigida por François Furet, e para a qual contribuíram diver-
sos especialistas notáveis, nos anos 1965-1970: trazia uma massa de e-
lementos novos, mas as categorias distributivas elaboradas nos deixavam
insatisfeitos. Um pouco mais tarde, e em parte seguindo a publicação,
deu-se início a um vasto debate em torno da noção, tão em moda naquele
momento, de “cultura popular”. Dessa discussão participaram muitos de
nós, porque ela nos dava a oportunidade de manifestar as nossas insatisfa-
ções e talvez também de precisar as nossas propostas. Lançamo-nos nesse
debate com um certo ardor, e fomos também ajudados. O grande livro de
Bourdieu, A distinção, publicado em 1979, nos ofereceu uma demonstra-
ção crítica de uma força incomparável e, seria possível dizer, confirmou-
nos a idéia de que a nossa camaradagem era mais voltada para a sociolo-
gia do que para a antropologia. O que nos interessava, era precisamente
compreender como os conjuntos culturais (mentali-dades, modelos, siste-
mas, etc.) se decompunham sob o prisma das práticas. Chartier, que era
provavelmente mais próximo de Bourdieu do que eu, se preocupou em
caracterizar estratégias – dos leitores, dos livreiros, do mundo do livro –

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no domínio que o interessava principalmente. Foi o momento em que
me aproximei da micro-história italiana, porque o que me interessava era
ligar uma prática a uma situação, a um contexto de ação, a um mundo
relacionai. Mas o que, creio, nos era comum, era no fundo a redescoberta
da ação e dos atores, do que em inglês chama-se agency, que pode dificil-
mente ser traduzido para o francês, e que liga o conjunto das ações, das
disposições para a ação e uma experiência social particular. É nesse sen-
tido que o projeto de uma história social assim redefinido passava, a partir
daí, a fazer sentido para nós.
Uma reflexão como esta não poderia deixar de ter certas conseqüên-
cias, cuja dimensão fomos progressivamente percebendo. Interrogamo-nos
muito sobre a pertinência das categorias sociais que havíamos encontrado
já prontas na nossa bagagem, e que os sociólogos que líamos nos haviam
ensinado a criticar. Mas ao fim e ao cabo, foi sobre as formas e as razões
da agregação social que nos questionamos. Resumi a questão de maneira
um pouco agressiva demais, perguntando: “por que há o social ao invés
de não haver nada?” Era evidentemente uma formulação demasiadamente
brutal, mas acredito ter compreendido, então, que era necessário juntar as
questões da constituição das categorias sociais e a das gêneses sociais que
elas transcrevem provisoriamente. Foi aí que, sem dúvida alguma, a leitura
de Norbert Elias foi decisiva: não mais o autor que havíamos lido à luz de
Foucault e de Goffman, dez anos mais cedo, mas o sociólogo, o historia-
dor, pouco importa, que, em A Sociedade de corte, procura caracterizar o
que é uma configuração social, ou seja, um conjunto dinâmico de relações
entre protagonistas no seio de um conjunto, quer se trate do mundo dos
cortesãos em Versalhes, nos séculos XVII e XVIII, ou dos assalariados de
uma fábrica, no século XX. A lição que cada um de nós tirou disso pode ter
sido bastante diferente. O que permanece em comum, creio, é ter levado o
projeto de uma história social da cultura suficientemente a sério para que o
termo “social” se tornasse o lugar central de nossa interrogação.
Seria a partir desta reflexão que se situaria o seu trabalho crítico sobre a micro-
história? Como situá-lo hoje?
Sim, é claro. Mas é preciso assinalar, creio, o fato de que esta reflexão
foi trazida pelas transformações do mundo social no qual vivíamos. Esses
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anos, que foram anos de crise mundial, prejudicaram, como já disse, as
grandes ideologias funcionalistas. Eles nos ensinaram, de um modo mui-
tas vezes bastante duro, a não mais olhar a sociedade como um conjunto
integrador, onde cada um encontrava seu lugar funcional, mais feliz ou
menos feliz; a olhar um mundo social onde os fenômenos de desfiliação se
multiplicavam, onde a decomposição e a recomposição das formas sociais
se impunham ao olhar. Não acredito que, um historiador, mesmo espe-
cializado num período antigo, como é o meu caso, possa fazer bom uso
desse tipo de análise quando reflete sobre sociedades apresentadas, muito
facilmente, como integradotas, e até mesmo holísticas. Chego agora à
micro-história.
Meu encontro com a micro-história não foi previsto, mas ela sur-
giu, se assim posso dizer, no momento certo. Vivi muito tempo na
Itália, nos anos 1970, e lá retornei com freqüência. Através de encon-
tros fortuitos, relacionei-me com historiadores italianos e, em particu-
lar, com o grupo que iria se reunir em torno da revista Quaderni Storici:
Cario Ginzburg, que conheci primeiro e bem cedo, depois Giovanni
Levi, Cario Poni, Eduardo Grendi, e, em seguida, o meio – bastante
restrito, para dizer a verdade – que se concentrou em torno deles,
alguns amigos de sua geração e, cada vez mais, jovens historiadores em
formação. Eles possuíam trajetórias muito diversas. Sua cultura profis-
sional não era comparável, nem suas referências teóricas maiores. Mas
estavam livres de qualquer tipo de afiliação e estavam também insa-
tisfeitos com o estado das coisas, num país em que, ao contrário da
França, a história social – o que quer que esta palavra signifique – era
então pouco valorizada, em que a pesquisa não estava organizada. Em
um pequeno artigo publicado, em 1979, nos Quaderni Storici, sob o
título “II nome e il come”, Ginzburg e Poni descreveram muito bem
esta situação e as estratégias de pesquisa que sugeria frente aos imensos
recursos dos arquivos italianos. Minha própria experiência era, evi-
dentemente, muito diferente. Eu vinha de um país, com os Ánnales
das três primeiras gerações, onde o projeto de uma histótia social havia
sido poderosamente formulado, depois reformulado; onde a pesquisa,
feita de modo volunta-rista, havia sido organizada no seio do CNRS
ou de instituições como a École des Hautes Études, e outras ainda; onde

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existia, desde os anos 1950, grandes programas de pesquisa que tinham
demonstrado a sua eficácia, l no entanto, era o momento em que, junto
com outros, eu começava a me interrogar sobre o modelo de história
social vigente, sobre as categorias analíticas que empregava, sobre a
construção dos objetos que o havia tornado familiar. Já falei disso há
pouco. Foi em torno deste ponto, se posso assim dizer, que me deparei
com as preocupações e as interrogações do grupo dos micro-historia-
dores em formação.
É evidente que não encontrei neles uma nova ortodoxia, já que era
exatamente o contrário do que eu procurava, mas sim uma reflexão e uma
série de instrumentos críticos. Não se tratava para mim, aliás, de rejeitar
em bloco a tradição labroussiana na qual tinha sido formado; era exata-
mente o contrário. Eu havia desenvolvido na Itália pesquisas de história
“econômica e social”, como se dizia então, fundadas sobre longos exames
seriais – mas era também o caso de vários dos meus amigos italianos, como
Grendi, Poni, Levi, entre outros. Eu havia acabado de me engajar, jun-
tamente com Dominique Julia e Roger Chartier, num programa de pes-
quisa sobre as universidades da Europa dos séculos XVI e XVII, fundado
sobre a exploração de uma fonte massiva, porém austera, as matrículas de
inscrição dos estudantes, que nos ocupou uma boa parte dos anos 1980.
Mas é precisamente no curso desse tipo de trabalho que nos interrogá-
vamos sobre o “como fazer?”; por vezes também sobre o “o que fazer?”.
Os quadros que nos eram mais familiares, aqueles da monografia regional
ou urbana, o estudo de um grupo sócio-profissional, os recortes instituí-
dos, tudo deveria agora, segundo nos parecia, ser discutido. No entanto,
a história social havia progredido há decênios nesses quadros analíticos, a
partir de então instituídos pela tradição universitária e por uma pesquisa
que tinha fartamente demonstrado a sua eficácia.
O que nos propunha a micro-história era menos uma fórmula alter-
nativa – ainda que alguns a tenham concebido desta forma – do que uma
oportunidade para refletir de maneira crítica sobre as práticas da história
social. Em todo caso, foi assim que a recebi. E certo que ela não foi a
única das oportunidades críticas – já evoquei Elias, Foucault, Bourdieu,
e seria fácil estender a lista–, mas foi uma delas, uma das mais eficazes e,
no meu caso pessoal, a mais decisiva, pois me parecia permitir colocar
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questões de fundo sobre o que é uma sociedade histórica e sobre a manei-
ra pela qual se pode analisá-la. De saída, todos sabemos, há uma metáfora
visual que encontra-se associada a um procedimento de conhecimento:
variando o foco de uma objetiva, não fazemos apenas com que um objeto
apareça maior ou menor, fazemos com que apareçam configurações dife-
rentes, descontínuas, do social. Porque, até então, a história social tinha
sido essencialmente macrossocial – ela o era, para dizer a verdade, sem
saber e sem que isso fosse realmente questionado –, ela não havia real-
mente se interrogado sobre as escalas de observação, a não ser do ponto
de vista da representação estatística. A história social “geral”, a da França
por exemplo, a da Europa, a do mundo, um dia, poderia ser imaginada
como o produto da acumulação e da síntese de uma imensa coleção de
estudos monográficos de todos os níveis. Nos anos 1970, os dois grandes
mestres de sua geração, Fernand Braudel e Ernest Labrousse, dirigiram
uma História econômica e social da França concebida dessa maneira. A
concepção e, se quisermos, a aposta dos micro-historiadores caminhavam
exatamente no sentido inverso. Eles partiam da idéia de que no nível
micro, não se vê modelos reduzidos de realidades gerais, mas que pode-
se, antes de mais nada, perceber agenciamentos particulares da realidade
social. O livro de Levi, L’Eredità immateriale [A herança imaterial] (1985),
é, aos meus olhos, aquele que melhor explicita o projeto. Poderia ser,
aparentemente, uma monografia sobre vilarejos, como existem centenas:
o estudo do vilarejo de Santena, em Piemont, entre 1650 e o começo do
século XVIII. Mas não se trata precisamente disso, mesmo se Levi fez os
mesmos exames exaustivos, e ainda foi além daqueles recomendados pela
história social clássica. A partir do material reunido, ele poderia ter feito
grandes distribuições socioeconômicas, sócio-profissionais, que permitis-
sem descrever a configuração de um grupo social; ele poderia ter estabele-
cido, baseando-se em fichas familiares reconstituídas, a história demográ-
fica de seu vilarejo. Mas não era isso que o interessava. Seu esforço se deu
no sentido de reconstruir, a partir de uma exploração intensiva da docu-
mentação existente, o mundo relacionai dos habitantes de Santena e de se
interrogar sobre a maneira pela qual essa rede complexa e fluida de rela-
ções permitia compreender a organização de formas de agregação social
ou de troca: as linhas de frente familiares constituídas frente à incerteza

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biológica ou econômica; as relações de proximidade ou de distâncias es-
tabelecidas em torno do mercado da terra e que permitem a compreen-
são de sua morfologia e funcionamento; a circulação e a capitalização da
informação, recurso raro e precioso numa sociedade antiga, que explica a
emergência dos poderes inesperados e invisíveis à longa distância. Era um
outro mundo. Não um mundo onde nada teria acontecido, ou apenas
coisas sem importância – um adversário italiano dos micro-historiadores
acusou-os de “estender um microfone para formigas” –, mas um mundo
onde podia-se tentar compreender as modalidades singulares da “grande
história”, como é chamada. Durante muito tempo comentei este livro e
não quero fixar a minha atenção sobre ele mais tempo, ainda mais porque
ele representa apenas uma das vias propostas pela micro-históría, aquela,
digamos, de que me sinto mais próximo. Mas o exemplo pode ajudar a
compreender de que forma a proposta micro-histórica nos permitia re-
tornar aos nossos próprios hábitos de pensamento e questioná-los. Posso
dar um exemplo pessoal disto. Na metade dos anos 1980, por diversão,
me lancei com Arlette Farge no estudo de um pequeno dossiê, cujo es-
sencial das fontes havia sido reunido por ela: a história de uma revolta
parisiense em 1750, provocada por desaparecimentos de crianças, em que
a polícia era acusada – justamente, aliás – de ser responsável. Em torno
deste episódio, relativamente clássico, de desvio do controle policial so-
bre a cidade e de extorsão – esses temas continuam nos sendo, creio eu,
familiares – se desenvolveram não somente uma forte comoção coletiva,
acarretada por uma sensibilidade exasperada em relação à infância, mas
também todo um imaginário aparentemente delirante, provocando um
questionamento do rei, acusado de tomar – ele mesmo ou um de seus
familiares – banhos de sangue para tratar a lepra de que sofreria. Não
éramos os primeiros a estudar este dossiê um pouco estranho, tratado na
maior parte das vezes como um episódio de desregramento popular, ou
ainda – no caso de Michelet – como uma repetição das jornadas revolu-
cionárias, quarenta anos mais tarde. Nada mais difícil de se compreender
– e, antes de tudo, de se descrever – do que uma ação coletiva: os ro-
mancistas nos ensinaram isso, há bastante tempo, de Stendhal a Flaubert
e Tolstoi. Tentamos mostrar que, estudando bem de perto os gestos, as
palavras, as situações sobretudo, poderíamos fazer com que aparecesse
uma ordem – não, ordens – na desordem e na violência dos comporta-
mentos. É por isso que chamamos este livro de Logiques de lafoule [Lógicas
da multidão] (1988). Procurávamos outra coisa além disso. Quando se
reflete sobre um acontecimento desse tipo, brutal, espetacular, mas no
fundo não tão importante assim, tende-se com freqüência a pensar que
o que o explica é uma atualização repetitiva das práticas, das representa-
ções, das crenças. Mais uma vez, nossa intenção era exatamente o con-
trário. Tentamos mostrar que essa revolta, em diversos aspectos, podia ser
legitimamente comparada a muitas outras; ela havia sido para aqueles
que tinham sido seus atores uma ocasião singular de produzir um sen-
tido, de dar concretamente uma significação a uma situação concreta, à
medida que se desenrolava, Esta verdade muito simples – que os atores
elaboram um significado para as situações com as quais se confrontam –
pode apenas ser lida de muito perto, seguindo o detalhe freqüentemente
ínfimo dos comportamentos.
Essa ambição foi seguida e aprofundada em trabalhos importantes de
jovens historiadores italianos, muitos dos quais vieram trabalhar conosco
na França. Refiro-me aos trabalhos de Simona Cerutti sobre o mundo das
corporações em Turin no século XVIII, de Sabina Longa sobre o mundo
social do exército piemontês, ao estudo que desenvolveu Maurizio Gribaldi
sobre os modos de entrada dos rurais no mundo industrial e urbano no
começo do século XX, e a muitos outros ainda- Não acredito, no entanto,
que a micro-história proponha uma fórmula definitiva, nem mesmo van-
tagens absolutas. Porque, durante muito tempo, essa questão das escalas de
observação não havia sido colocada, descobriram-se os benefícios heurís-
ticos que era possível tirar dela. Porque tínhamos nos situado, sem refletir
muito, na escala macro, percebemos o que podia trazer a escala micro. Mas
o que me parece mais importante do que essa alternativa é o princípio da
variação de escala, ou seja, o inventário, forçosamente empírico, e a explo-
ração dos níveis de organização do social entre o micro e o macro, o que
nos permitirá o acesso à apreensão mais complexa das configurações sociais.
O segundo aspecto que me parece essencial para a proposta micro-histórica
é a ênfase dada à importância dos fenômenos processuais e, correlativa-
mente, das realidades relacionais na produção destas configurações. Aqui,
mais uma vez, o nível micro não apresenta uma vantagem definitiva, na
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minha opinião: as grandes análises de Norbert Elias ou ainda o livro maior
de E. P Tompson, e Making of the English Working Class [A invenção da
classe operária inglesa] (1963), demonstraram-no na escala macro. A passa-
gem ao micro nos obrigou, de certa forma, a levar em conta, mais uma vez,
essa perspectiva que renova profundamente, creio, as vias da análise social.
A última inovação sobre a qual gostaria de insistir, e que é para mim a mais
importante, é a redescoberta dos atores e da ação. Não se trata aqui de uma
escolha filosófica, mas da tomada de consciência do que deveria ser evi-
dente: assim como nós, os atores do passado foram permanentemente con-
frontados com escolhas, colocados com os seus recursos próprios e também
com as restrições que os atores sofriam, num espaço socialmente marcado.
A escala micro é a única que permite, ao que me parece, abordar concre-
tamente essa dimensão de escolha – que não é sempre explícita, e menos
ainda explicitada – nos poucos casos privilegiados em que se pode tentar
reconstruir as coordenadas.
Sobre esses temas, refletimos e trabalhamos bastante, tateando. De um
seminário que coordenei há alguns anos resultou um livro coletivo, Jeux
d’échelles [Jogos de escalas] (1996), que foi traduzido no Brasil, em 1998, e
que tenta dar conta dessa reflexão. Ela não está de forma alguma esgotada,
e certamente não fornece uma versão definitiva da micro-história. O que
esse trabalho pode e quer manifestar, em contrapartida, é que a proposta
micro-históríca é apenas uma etapa – mas espero que seja uma – numa re-
flexão mais geral sobre o que se pode ambicionar ser a história social. Seu
interesse permanece o de ter sido, no momento certo, um incomparável
instrumento crítico.
Notas
*Entrevista feita por Andréa Daher. Transcrição e tradução de Ana Luiza Beraba.

que acontece ao término do percurso escolar.T    outros lugares de observação privilegiados. de um modo geral? Não é uma pergunta fácil de ser respondida. Trata-se. Num outro nível. porque correspondem a movimentos “de fun- . por exemplo. o que era muito mais raro nas gerações anteriores. portanto. antes de mais nada. Este concurso de recrutamento de professores. e começam então uma segunda. uma vez que é. que mudou muito. depois uma terceira vida. um exercício escolar. Tudo isso tem uma importância para as práticas. o Comité International des Sciences Historiques propõe uma organização do conhecimento histórico muito diferente – pode-se notar pelos programas que promove na ocasião de seus grandes congressos. A disciplina é organizada nas universidades de tal maneira que determinadas pressões se exercem na formação dos historiadores. como é o caso da agrégation. na escala de um país como a França. que Revel falou à revista Topoi. porque posso dar definições muito institucionais da organização do trabalho histórico. uma vez que. e acredito que possam ser comuns a muitos de nossos colegas historiadores. visto que nos últimos 15 anos a França aderiu à tese curta ou semícurta. A quem isso afeta? A um número considerável de historiadores. mesmo sendo há 30 anos historiador profissional. Há elementos que mudaram. na minha opinião – mas com tendência a fixar as categorias. o saber histórico hoje. ao formato internacional do Ph. apesar de tudo. Se tomarmos como exemplo a minha própria experiência. de um papel conservador das formas do saber. mas. uma minoria cuja composição e cujo papel seria preciso conhecer. isto é. devo confessar que nunca participei do Congrès International des Sciences Hístoriques. Também há a tese de doutoramento.D. Pode-se levar a vida sem essas coisas. na sua opinião. Como se organiza. Haveria uma organização unificada dos historiadores? Não creio. legitimamente ocupados. Esses são os primeiros elementos de descrição que se podem comparar com o que existe fora da França. hoje em dia. onde antes havia essas enormes teses que eram preparadas durante 10 ou 15 anos. desempenha um papel muito importante – não muito positivo. os jovens pesquisadores se vêem livres da tese com 30 ou 35 anos.

entre a França e a Itália. os textos que lemos. O que não quer dizer que exista uma problemática mundial. que dão. há quase 50% de estudantes estrangeiros. sem dúvida alguma. por exemplo. Há vários mercados superpostos. Mas existem circuitos internacionais. em Bolonha. O primeiro deles é um formidável movimento de imernacionalização do conhecimento histórico que corresponde à experiência da minha geração e que é mais evidente ainda para a geração seguinte: nós viajamos mais do que aqueles que nos precederam. É um país onde as bibliotecas não são ricas. as questões que levantamos. Mas. Falo isso de um país que conheço menos mal que outros. porque muitos dos grandes paradigmas . nos EUA ou no Brasil. nesses últimos anos. Isso mudou. Não existe uma mundialização. em Berlim ou no Rio de Janeiro. que recebem. Isso é um primeiro ponto. é que o conhecimento histórico – as modalidades de conhecimento que lhe são próprias – atravessou um período de forte turbulência. O segundo aspecto. nos quais os laços entre as pessoas que fazem trocas. e é bom que seja assim. hoje em dia. o que estamos fazendo todos. No entanto. essenciais. que se empenham em traduzir e tomar iniciativas. são laços não generalizáveis. mesmo se o caso particular desta instituição permanece ainda um pouco excepcional). não acredito nisso. Não fazemos as mesmas coisas. mas sabemos. nem tampouco unificado. os modos de refletir. mas é o caso de muitos lugares. Dei aulas na Argentina. no sentido de globalização. Mas. encontram-se experiências comparáveis na Europa Central. ao mesmo tempo. ensinamos mais no exterior. a partir de uma fórmula única. vivos. recebemos muitos colegas e estudantes estrangeiros (numa instituição como a École. são trocados com colegas que estão em Los Angeles. ao mesmo tempo. regularmente. É verdade que se pode opor a esta afirmação o fato de que os estilos nacionais de historiografia são bastante bem reconhecidos entre a França e os Estados Unidos. ao mesmo tempo. que é muito distante da Europa. e que.E         J   R   do”. as coisas não acontecem unicamente na França. entre a França e a Alemanha. ao que me parece. o mercado historiografia) não se tornou homogêneo. em Princeton. me deixa encantado pelo fato de ter grupos de pesquisadores que sabem muito rapidamente o que estamos fazendo. quase que em tempo real.

uma revisão crítica sobre algumas de nossas certezas. isso teve efeitos que considero devastadores. Nos Estados Unidos. ou no pior dos casos. mais vale fazer outra coisa. o episódio se aproxima do fim. na minha opinião. mas também uma posição que é. ainda assim. não o é mais. um caso extremo. quando comecei a ser historiador profissional. digamos.T    sob os quais vivíamos – que não diziam respeito somente à história. com a idéia de que poderia não haver relações que fundamentam a história e a verdade. Mas aquilo que era evidente e que fundamentava um certo cientismo historiográfico há 30 anos. Por quê? Porque. Encontrase aí uma reflexão útil sobre aspectos por muito tempo negligenciados. houve. Isso levou a conseqüências muito diferentes. e a emergência da história social – um período. a partir daí. mas à história e às suas relações com as ciências sociais – se desgastaram e não foram substituídos. Na França. embora estejam menos consolidados. uma onda de choque muito forte. ao mesmo tempo. não fazer nada. o chamado linguistic turn [virada lingüística] com aspectos importantes. também. Se o nosso ofício não ambiciona fundar uma relação com o real e a verdade. houve aspectos muito salutares. e seria da ordem de dispositivos retóricos. Mas este é. qualquer que seja a maneira de se pensar esses termos. de produção de grandes obras historiográficas – teve ainda como efeito o retorno de uma . quando eu era estudante. num sentido bem amplo. hoje em dia. Meu amigo Cario Gínzburg tocou muito nesse ponto. No mundo anglo-saxão. de um modo que considero bastante preocupante. que foi registrado pelos Annales. interessantes e. não vale a pena fazer história. Os grandes sistemas funcionalistas não desapareceram da paisagem intelectual. uma onda de relativismo cético. que tudo iria do texto ao texto. dos anos 1930 aos anos 1980. no fundo. de fato. sem dúvida. Creio que. batalhou muito contra essa tendência relativista e cética. no total. o período de forte crescimento historiográfico que conhecemos. se formos capazes. e estou inteiramente de acordo com o essencial do que ele diz: se não há uma diferença essencial entre o trabalho do historiador e o trabalho do autor de ficção. onde os efeitos dessa desestabilização foram menos fortes. Mas criou-se. de que tudo estaria contido no mundo dos textos. mesmo se. à qual a França. se manteve um pouco à margem – talvez por conta das velhas bases positivistas da cultura científica francesa. não aceitável. vimos subir.

Minha proximidade é. a que chamamos. pois o termo é. as categorias usadas pelos historiadores – mas a observação não é válida somente para eles – tenderam a ser consideradas como coisas. muitas coisas mudaram nos Annales e também. grande e – por que não dizer ? – também são grandes a minha ligação e a minha fidelidade. ou seja. em torno da revista. a normalização inevitável de práticas científicas tenderam. como historiador. construtivista. nos Annales. a reação crítica dos 15 ou 20 últimos anos. a multiplicação de suas frentes pioneiras. No entanto. Desejei essas mudanças. no começo do século. As hipóteses analíticas sobre a realidade social. mais tarde. a substituir um abordagem positiva por uma abordagem voluntarista. O movimento historiográfico fundado pela revista . é claro. de uns 20 anos para cá. tournant critique [virada crítica]. é claro. A maioria delas parece-me ter tentado dar essa “virada crítica”. tomei parte delas e não me arrependo disso. impreciso e cômodo demais. ao mesmo tempo. faço parte do pequeno grupo que se reúne a cada mês para debater as escolhas da revista. para escolher os artigos etc.E         J   R   atitude contra a qual Durkheim e Simiand. Nesse sentido. nem mesmo. entre 1975 e 1981. fui o principal responsável pela revista durante seis anos. enquanto muitos utilizam esse modo cômodo de chamá-la. Parece-me que foi contra isso que se forjou. Foram sendo pouco a pouco reificadas. Gostaria de começar dizendo – mesmo se esta convicção que exprimi muito cedo tenha me valido algumas inimizades – que não existe. no meu entender. portanto. dos primeiros Annales e de outros. como pode ser definida a sua relação. experimentalista. tinham construído seus próprios projetos. Digamos que a própria dinâmica da pesquisa. da história dentre as ciências sociais. ínsensivelmente. que havia sido a ambição da sociologia durkheimiana. e desde então sou um dos diretores. Fui formado num espíritro próximo dos Annales. e Bloch e Febvre. de saída. Mas ela não foi privilégio dos Annales. Não estou certo de que seja preciso falar aqui de “positivismo”. a “escola dos Annales”. com a tradição dos Annales? Esta não é uma questão muito fácil: é um pouco como perguntar a um peixinho vermelho o que sente em relação ao aquário em que vive.

este programa alimentou uma formidável energia há quase 75 anos. Disso resultou uma grande capacidade de adaptação. tal como se apresentava. explicando que a posição central da história. móvel. Para Durkheim os durkheimianos. que ele reivindicava encontrar-se no seío das ciências sociais. a si confrontar. a força – e sem dúvida também o limite – do movimento dos Annales. simples: por um lado. um dispositivo empírico. Os Annales não pararam de redefinir sua posição. Mas. a de que a história é uma ciência social. a de que as disciplinas que compõem as ciências sociais tendem a se cruzar. a história. não funda realmente uma ambição teórica. e também porque as relações entre a história e as ciências sociais – que também existiam no seio do conjunto das ciências sociais – mudaram. No período que vai do fim dos anos 1940 aos anos 1970 – que. nem uma escola. a sociologia. Isto foi. Fernand Braudel dizia isso à sua maneira. Mas isso é um programa cuja realização pode ser pensada de maneira bastante diversa. no momento estruturalista. que não é evidente em muitas tradições historiográficas. ao mesmo tempo. concebendo. é claro. na França. permitindo pôr à prova. Diante dela. assim. a se enriquecer mutuamente. como mais empírica: é o modelo do empréstimo e da bricolage. aberto. este confronto devia ser organizado em torno de um conjunto de regras de métodos unificados – as regras do método sociológico que Durkheim acabara de codificar em 1894 – e as diferentes disciplinas tendiam a se fundir no seio de uma únicí disciplina. rejeitar ou adotar aquilo que. . no começo do século.T    de Bloch e Febvre baseou-se em convicções gerais ambiciosas e. Trata-se de uma história extraordinariamente complicada cujos detalhes seria preciso acompanhar de perto. Tudo isso. desde a sua fundação em 1929. por direito. creio. ao mesmo tempo em função da evolução interna da disciplina-mãe. Vou me remeter a um único traço significativo para me fazer entender melhor. pertencia ao bem comum das ciências sociais. principalmente. a solução proposta pelos Annales. sempre engraçada. meio século mais tarde. aparece como muito mais modesta e. “olhemos se na caixa de ferramentas do vizinho há algo que nos interessa e tentemos”. a menos teórica dessas ciências – e acho que de certa forma ele tinha razão. E por outro lado. A mesma estratégia prescritiva retorna. se justificava aos seus olhos pelo fato da história ser a menos formal.

Porque a maioria das ciências sociais está. Por quê? Por várias razões que terei de abordar muito rapidamente. não pode ser invocada como resposta já pronta. mais opacas para si mesmas. num momento em que se via também a realização de uma política voluntarista das ciências sociais e pensava-se que a interdisciplinaridade existia por si só. resistiu mal à crise mundial. publiquei um artigo que recusava a idéia de um “paradigma” dos Annales e tentava mostrar que tinham sido múltiplos. em 1979. e as ciências sociais também . Porque. bem visto que as disciplinas sociais visavam em comum. as relações eram muito difíceis. Para a minha geração. que era uma espécie de direito científico. em segundo lugar. Para o cinqüentenário dos Annales. de uma versão intelectual da ideologia do progresso). para além de suas diferenças tempestuosas. e mais ainda para a seguinte. hoje. que persistiu por muito tempo. suas negociações. de certo modo. cujo pensamento e ação política dominaram nessas três décadas e que não hesitava em considerar a crise como uma condição normal para as ciências sociais – basta ver o célebre artigo sobre a longa duração. que os Annales tinham se tranformado várias vezes e que ainda se transformariam. basta comparar os argumentos e os programas de 30 anos atrás e as retomadas críticas que se multiplicaram nos últimos anos. Não agradei a todos. Finalmente. Mas Braudel. Na verdade. mas alguns. menos segura quanto ao seu perímetro de ação. seus direitos: para se convencer. a um mesmo objeto: o homem em sociedade. do sintagma “ciência do homem”. publicado em 1958 – estava convencido de que essa história tão difícil só podia terminar. uma crise de que sabemos definir apenas os contornos e formas. a idéia de uma inteligibilidade global do social. e tavez até desastrosas.E         J   R   corresponde aos “Trinta gloriosos” e no resto do mundo a um momento de crescimento otimista –. que não compartilhavam da minha análise. na França.) Havia um empenho em organizar esse futuro integrador numa perspectiva que era. como Braudel. para não falar de seus mecanismos. tão fortemente presente nos anos de otimismo (tratava-se. confiaram em mim. otimista e funcionalista. (É sem dúvida daí que vem a fortuna. Nossas sociedades se tornaram. sucessivos. Tudo mudou nos últimos 20 ou 25 anos. era isso que eu defendia. ao mesmo tempo. a interdisciplinaridade não existe por si só.

sem dúvida alguma. publicou um breve artigo. Elas sempre encontraram. que para que houvesse uma circulação e uma troca entre duas ou várias disciplinas. Mas o trabalho se tornou mais setorial. a experiência terá sido. Observava. ainda. permite compreender o fato de a interdisciplinariedade ter se tornado problemática. poder jogar com a diferença de pontos de vista que cada uma delas autorizava: para que a corrente elétrica circule. não cabe a mim dizer se a operação foi bem-sucedida. Mas o essencial do que recomendávamos era um retorno à experimentação. É verdade que ela não está concluída. mais atento às complexidades e às contradições. sem que esperassem por nós. seus trabalhos individuais foram levados adiante. nem até que ponto. uma maneira um pouco diferente de colocar e de pensar a relação entre história e ciências soci- . por exemplo. que se intitulava “Por uma prática restrita da interdisciplinariedade” (Revue de Synthèse. se possível calculada e consciente de si mesma. forte e sutil. Com essas observações falsamente simples. a partir da metade dos anos 1980 até a sua morte prematura em 1996. ele observava que o modelo da integração disciplinar – a integração. nos anos 1930. ou a integração em parte realizada. Não representava uma opção teórica. cujos termos continuo a partilhar. era preciso. um convite a renovar os termos de suas análises. o que não deve ser visco como impossível. Bernard Lepetit. de seus meios e também de seus limites. parece-me que Lepetit voltava ao programa original dos Annales. entre história e economia. Mas é assim que as coisas avançam. ser reformulados. Em todo caso. de quem fui muito próximo nos Annales. para nós. entre história e antropologia. 1990). mesmo estando convencidos de que não seria sempre possível refugiarmo-nos por detrás dos sacrossantos direitos do empirismo organizador. Certamente.T    tiveram de rever suas ambições cognitivas e interpretativas em baixa. aliás. é necessário que exista uma diferença de potencial. creío. instigada por Lepetit e por mim. ao contrário. em contrapartida. Nesse artigo. nos anos 1970 – tinha limites. E ainda existe uma última razão que. A “virada crítica” que a revista desejou assumir no final dos anos 1980. queria dizer precisamente isso. um verdadeiro estímulo ao trabalho. proposta por Braudel. e é um motivo para alegrar-se. nunca exatamente como esperamos (os historiadores deveriam saber disso por experiência). Alguns amigos nos acompanharam – alguns porque. e seus termos já devem.

que são por vezes contraditórias. Disso resulta. em 1993 decidimos renunciar ao velho subtítulo inventado por Febvre e Braudel. no fundo. ela existe. Esquecemos dela durante um bom tempo. em sua origem. ou ainda.E         J   R   ais. as suas modalidades de trabalho – o confronto entre as ciências sociais. mas cujo interesse é que sejam ouvidas. o que era uma maneira de reivindicar a nossa fidelidade. e existe fortemente. Pode acolher propostas mais facilmente do que outras instituições porque continua sendo um dispositivo surpreendentemente versátil. sociedades. Porém. Pode inaugurar programas com bastante facilidade. pode fechá-los (e deveria fazê-lo com maior freqüência). uma instituição bastante frágil. sem nada além de convicções e projetos. Mas tentamos fazê-lo em termos um pouco diferentes daqueles que nos precederam. durante muito tempo. desde os anos 1960-1970. é traduzir nas políticas científicas – a sua organização interna. Ela foi a tradução institucional. uma revista situada às margens da universidade). uma instituição de papéis. com poucos cargos. proposições que afluem. De que forma se expressa essa política? Em primeiro lugar. pois não tem uma vocação enciclopédica. dedicada à pesquisa e à formação para a pesquisa e que não é. o que lhe é dado fazer. que circulem sempre.– para firmarmos “Annales. A École–criada em 1948 como a 6a seção da École Pratique dês Hautes Études – foi. mas não um abandono. História. . Pode realizá-lo mais facilmente do que uma universidade. da École dês Hautes Études en Sciences Sociales hoje? A École foi. a École é feita para isso. sem paredes. uma desordem generosa. sobretudo após a guerra – “Economias. uma emanação dos Annales. ciências sociais”. portanto. Qual é o papel. Segundo o seu projeto. o que a École faz. dar uma forma a esse confronto. os professores-pesquisadores da EHESS. pois. os seus programas. do projeto de integração disciplinar ou de confrontação disciplinar dos Annales (que também foi. encarregada de fazer tudo. mas também os seus parceiros científicos na França e fora da França. porque é uma instituição que permanece bastante leve. houve uma mudança de natureza das coisas. Assim. 15 anos depois. através das formas de debate entre colegas. no início. particularmente o papel político-institucional. É preciso lembrar que. civilizações” .

determinada pela Assembléia que reúne o conjunto dos professores-pesquísadores. Não voltei recentemente a falar disso com ele. esses títulos sobre os quais havíamos então refletido e discutido muito e que nos pareciam ir no mesmo sentido. de avaliar os programas. de efetuar um trabalho de conhecimento. que intitula o seu seminário na EHESS? Para a orientação de estudos que me foi confiada no começo dos anos 1980. Não são tantos os casos de instituições científicas. e exerce um papel decisivo. mas que cada vez mais – e a evolução é surpreendente no que diz respeito às equipes de pesquisa – funcionem em rede. Enquanto responsável da École por alguns anos. eu desejaria mais. vem o momento das arbitragens. relativamente em longo prazo. é lhes dedicar atenção. há quase 20 anos. Roger Chartier propunha o de “Sócio-história das práticas culturais”. é claro. relativamente leves. e me empenho em melhorar as coisas. como pode ser situada a sua proposta de “história social dos modelos culturais”. assim como para mim.T    Há uma troca: muitos vêm me falar de seus projetos e o meu papel. Em relação àqueles de qualquer universidade norte-americana de reputação média. o futuro da instituição. que se encarrega de instruir as propostas. facilitar os contatos. visto que implica. mas imagino que para ele. que se deixam reorganizar tão tranqüilamente a partir de inovações. Por volta da mesma época. numa medida que ainda é modesta. tinham um significado mais urgente naque- . Tudo isso é possível. nem tampouco os casos de meios que aceitem não serem formados por si mesmos. eu havia retido esse título: “História social dos modelos culturais”. E ainda. A partir ao que acaba de ser dito sobre a evolução dos Annales e sobre a crítica do projeto de história social que lhe é associada. e imagino que eles possam parecer mera bricolage. a política de recrutamentos. Mas continuo certo de que a força da École está em outro lugar: na sua capacidade de proposição e de experimentação. A École e o seu presidente podem se apoiar num Conselho científico. Em seguida. é claro. é claro. como presidente. fazer com que os projetos repercutam. os nossos meios continuam limitados. em que é preciso fixar prioridades. porque o nosso meio é um lugar de forte “interconhecimento” no seio de uma instituição que não é excessivamente grande.

ele também colocava a existência de vastos sistemas culturais fundados em dispositivos discursivos partilhados. em segundo lugar. nos anos 1970. supostamente partilhado pelo conjunto dos atores sociais de um momento histórico dado. no ano seguinte. a leitura do primeiro livro publicado de Natalie Zemon Davis. seu sucessor direto. Com o termo épistémé. de verdadeiramente nosso? De uma poderosa tradição de história social. Em 1975. é evidente. de correr o risco de reificar. que era então a nossa. Não éramos os únicos. por outro lado. cujo sucesso foi extremamente grande. Aconteceu o mesmo. de uma maneira de estabelecer uma distância em relação à história das mentalidades que havíamos encontrado na nossa formação de historiadores. reagíamos contra a concepção que havia sido defendida e ilustrada por Lucien Febvre em grandes livros. estávamos enganados). em relação a O queijo e os vermes. ela propunha uma versão mais jovial da história das mentalidades (em parte. e também contra a de Robert Mandrou. ao lado de outros – como o medievalista Jean-Claude Schmitt –. contra a antropologia histórica. “sócio-história”: tratava-se.E         J   R   le momento do que hoje – mesmo se essa observação valha talvez mais para mim do que para ele. na qual havíamos sido formados. antes de mais nada. Society and Culture in Early Modern France. Quais eram as acusações que fazíamos à história das mentalidades? Sem dúvida. Mas tomávamos distância. com um equipamento conceituai mais sofisticado. Nesse sentido. tomávamos distância em relação à leitura. autor que dominou a nossa juventude intelectual. convictos de que. provocou um verdadeiro choque: não parecia com nada do que conhecíamos. no mínimo. de postular. continua nos interessando –. Reagíamos. a de ser muito fácil e peremptoriamente “englobante”. do fim dos anos 1920 aos anos 1950. uma vez que tínhamos passado muito tempo criticando. aquela que ensinava Ernest Labrousse na . pensando-os de forma independente das situações e das práticas. a unidade de um horizonte cultural (ou “mental”) não demonstrável. com o termo “utensilhagem mental”. O que nos interessava – o que. do fim dos anos 1960 até meados dos anos 1980. ou. e discutimos longamente sobre o livro. a princípio. “História social”. de A História da loucura. em relação ao primeiro Foucault. os recursos culturais. era refletir sobre a articulação do cultural e do social. creio. de Cario Ginzburg. com outros meios. De quê dispúnhamos. O Nascimento da clínica e de As palavras e as coisas.

e para a qual contribuíram diversos especialistas notáveis. Há diversos testemunhos dessa concepção. como chamava. com um termo contestável. em termos de distribuições. dirigida por François Furet. ao longo dos anos 1960. porque ela nos dava a oportunidade de manifestar as nossas insatisfações e talvez também de precisar as nossas propostas. deu-se início a um vasto debate em torno da noção. A distinção. de fato. em seguida.T    Sorbonne e na École des Hantes Études e que havia mobilizado. dos livreiros. e era pensada. a pesquisa sobre “Livro e sociedade no século XVTII”. passaram a ser abordados os dados sociais. modelos. mas as categorias distributivas elaboradas nos deixavam insatisfeitos. O que nos interessava. O grande livro de Bourdieu. e fomos também ajudados. em largos agregados estatísticos. de “cultura popular”. se refletia em dados pesados. etc. nos ofereceu uma demonstração crítica de uma força incomparável e. o “terceiro nível”. sistemas. mais durkheimiana que marxista. nos últimos 30 anos. de indexar o social sobre o econômico. Estava-se lidando. tomou-se o hábito de pensar um nível em relação ao outro.) se decompunham sob o prisma das práticas. Lançamo-nos nesse debate com um certo ardor. se preocupou em caracterizar estratégias – dos leitores. Um pouco mais tarde. depois o cultural sobre os outros dois. sobretudo. o infatigável coordenador de pesquisa que era Pierre Chaunu. era precisamente compreender como os conjuntos culturais (mentali-dades. Essa tradição de história social. seria possível dizer. Isso foi feito inicialmente com o estudo de dados econômicos (este foi o objeto de dois grandes livros de Labrousse sobre a economia do Antigo Regime). Chartier. na distribuição das propriedades que caracterizavam-na. que era provavelmente mais próximo de Bourdieu do que eu. do mundo do livro – . sem que nunca fosse explicitado. dos quais um dos mais significativos seja. e. esforçava-se para identificar limites. depois. mais exatamente. os melhores pesquisadores das gerações que precediam a nossa. confirmounos a idéia de que a nossa camaradagem era mais voltada para a sociologia do que para a antropologia. em grande número. Dessa discussão participaram muitos de nós. publicado em 1979. e em parte seguindo a publicação. com uma construção por andares. Escolhia-se uma população suficientemente numerosa. chegou-se aos dados culturais. tão em moda naquele momento. ou. talvez. nos anos 1965-1970: trazia uma massa de elementos novos.

Resumi a questão de maneira um pouco agressiva demais. o historiador.E         J   R   no domínio que o interessava principalmente. perguntando: “por que há o social ao invés de não haver nada?” Era evidentemente uma formulação demasiadamente brutal. Interrogamo-nos muito sobre a pertinência das categorias sociais que havíamos encontrado já prontas na nossa bagagem. pouco importa. a partir daí. das disposições para a ação e uma experiência social particular. ou seja. a fazer sentido para nós. quer se trate do mundo dos cortesãos em Versalhes. dez anos mais cedo. é ter levado o projeto de uma história social da cultura suficientemente a sério para que o termo “social” se tornasse o lugar central de nossa interrogação. era no fundo a redescoberta da ação e dos atores. é claro. a leitura de Norbert Elias foi decisiva: não mais o autor que havíamos lido à luz de Foucault e de Goffman. creio. a um contexto de ação. mas acredito ter compreendido. creio. creio. sem dúvida alguma. Foi aí que. o fato de que esta reflexão foi trazida pelas transformações do mundo social no qual vivíamos. porque o que me interessava era ligar uma prática a uma situação. e que liga o conjunto das ações. nos séculos XVII e XVIII. a um mundo relacionai. Foi o momento em que me aproximei da micro-história italiana. É nesse sentido que o projeto de uma história social assim redefinido passava. Mas é preciso assinalar. A lição que cada um de nós tirou disso pode ter sido bastante diferente. do que em inglês chama-se agency. então. e que os sociólogos que líamos nos haviam ensinado a criticar. que. foi sobre as formas e as razões da agregação social que nos questionamos. nos era comum. Esses . no século XX. que era necessário juntar as questões da constituição das categorias sociais e a das gêneses sociais que elas transcrevem provisoriamente. procura caracterizar o que é uma configuração social. um conjunto dinâmico de relações entre protagonistas no seio de um conjunto. Mas o que. O que permanece em comum. cuja dimensão fomos progressivamente percebendo. Mas ao fim e ao cabo. em A Sociedade de corte. mas o sociólogo. ou dos assalariados de uma fábrica. Uma reflexão como esta não poderia deixar de ter certas conseqüências. que pode dificilmente ser traduzido para o francês. Seria a partir desta reflexão que se situaria o seu trabalho crítico sobre a microhistória? Como situá-lo hoje? Sim.

onde a pesquisa. com o grupo que iria se reunir em torno da revista Quaderni Storici: Cario Ginzburg. jovens historiadores em formação. que foram anos de crise mundial. havia sido organizada no seio do CNRS ou de instituições como a École des Hautes Études. num país em que. as grandes ideologias funcionalistas. onde a decomposição e a recomposição das formas sociais se impunham ao olhar. a não mais olhar a sociedade como um conjunto integrador. muito facilmente. Vivi muito tempo na Itália. Cario Poni. prejudicaram. Meu encontro com a micro-história não foi previsto. muito diferente. um historiador. no momento certo. como já disse. onde . onde cada um encontrava seu lugar funcional. possa fazer bom uso desse tipo de análise quando reflete sobre sociedades apresentadas. e lá retornei com freqüência. com os Ánnales das três primeiras gerações. Eu vinha de um país. como é o meu caso. de um modo muitas vezes bastante duro. evidentemente. em seguida. Eduardo Grendi. mais feliz ou menos feliz. e. e até mesmo holísticas. cada vez mais. mesmo especializado num período antigo. a história social – o que quer que esta palavra signifique – era então pouco valorizada. Minha própria experiência era. se assim posso dizer. mas ela surgiu. o meio – bastante restrito. Através de encontros fortuitos.T    anos. depois reformulado. Sua cultura profissional não era comparável. Não acredito que. em que a pesquisa não estava organizada. para dizer a verdade – que se concentrou em torno deles. em 1979. que conheci primeiro e bem cedo. ao contrário da França. Eles nos ensinaram. como integradotas. onde o projeto de uma histótia social havia sido poderosamente formulado. Mas estavam livres de qualquer tipo de afiliação e estavam também insatisfeitos com o estado das coisas. nem suas referências teóricas maiores. nos anos 1970. Chego agora à micro-história. feita de modo volunta-rista. nos Quaderni Storici. em particular. Ginzburg e Poni descreveram muito bem esta situação e as estratégias de pesquisa que sugeria frente aos imensos recursos dos arquivos italianos. alguns amigos de sua geração e. depois Giovanni Levi. Eles possuíam trajetórias muito diversas. relacionei-me com historiadores italianos e. e outras ainda. a olhar um mundo social onde os fenômenos de desfiliação se multiplicavam. sob o título “II nome e il come”. Em um pequeno artigo publicado.

Não se tratava para mim. juntamente com Dominique Julia e Roger Chartier. pois me parecia permitir colocar . as matrículas de inscrição dos estudantes. era o momento em que. Eu havia acabado de me engajar. No entanto. se posso assim dizer. a partir de então instituídos pela tradição universitária e por uma pesquisa que tinha fartamente demonstrado a sua eficácia. Os quadros que nos eram mais familiares. era exatamente o contrário. Mas é precisamente no curso desse tipo de trabalho que nos interrogávamos sobre o “como fazer?”. Levi. como Grendi. por vezes também sobre o “o que fazer?”. grandes programas de pesquisa que tinham demonstrado a sua eficácia. Eu havia desenvolvido na Itália pesquisas de história “econômica e social”. num programa de pesquisa sobre as universidades da Europa dos séculos XVI e XVII. no meu caso pessoal. já que era exatamente o contrário do que eu procurava. e seria fácil estender a lista–. os recortes instituídos. o estudo de um grupo sócio-profissional. sobre as categorias analíticas que empregava. mas foi uma delas. segundo nos parecia. fundadas sobre longos exames seriais – mas era também o caso de vários dos meus amigos italianos. É evidente que não encontrei neles uma nova ortodoxia. entre outros. uma das mais eficazes e. de rejeitar em bloco a tradição labroussiana na qual tinha sido formado. Foucault. desde os anos 1950. como se dizia então. l no entanto. Poni. fundado sobre a exploração de uma fonte massiva. foi assim que a recebi. aliás. junto com outros. a história social havia progredido há decênios nesses quadros analíticos. tudo deveria agora. porém austera. E certo que ela não foi a única das oportunidades críticas – já evoquei Elias. que nos ocupou uma boa parte dos anos 1980.E         J   R   existia. que me deparei com as preocupações e as interrogações do grupo dos micro-historiadores em formação. ser discutido. Em todo caso. mas sim uma reflexão e uma série de instrumentos críticos. Foi em torno deste ponto. a mais decisiva. aqueles da monografia regional ou urbana. O que nos propunha a micro-história era menos uma fórmula alternativa – ainda que alguns a tenham concebido desta forma – do que uma oportunidade para refletir de maneira crítica sobre as práticas da história social. eu começava a me interrogar sobre o modelo de história social vigente. Bourdieu. sobre a construção dos objetos que o havia tornado familiar. Já falei disso há pouco.

se quisermos. O livro de Levi. que permitissem descrever a configuração de um grupo social. Eles partiam da idéia de que no nível micro. até então. a história demográfica de seu vilarejo. aos meus olhos. ele poderia ter estabelecido. a aposta dos micro-historiadores caminhavam exatamente no sentido inverso. ela não havia realmente se interrogado sobre as escalas de observação. é. a partir de uma exploração intensiva da documentação existente. L’Eredità immateriale [A herança imaterial] (1985). Fernand Braudel e Ernest Labrousse. antes de mais nada. ele poderia ter feito grandes distribuições socioeconômicas. mas que podese. o mundo relacionai dos habitantes de Santena e de se interrogar sobre a maneira pela qual essa rede complexa e fluida de relações permitia compreender a organização de formas de agregação social ou de troca: as linhas de frente familiares constituídas frente à incerteza . a da Europa. como existem centenas: o estudo do vilarejo de Santena. Poderia ser. os dois grandes mestres de sua geração. não fazemos apenas com que um objeto apareça maior ou menor. poderia ser imaginada como o produto da acumulação e da síntese de uma imensa coleção de estudos monográficos de todos os níveis. perceber agenciamentos particulares da realidade social. entre 1650 e o começo do século XVIII. aquele que melhor explicita o projeto. mesmo se Levi fez os mesmos exames exaustivos. Nos anos 1970. do social. A concepção e. aparentemente. e ainda foi além daqueles recomendados pela história social clássica. a do mundo. um dia. para dizer a verdade. Mas não era isso que o interessava. A história social “geral”. não se vê modelos reduzidos de realidades gerais. Mas não se trata precisamente disso. há uma metáfora visual que encontra-se associada a um procedimento de conhecimento: variando o foco de uma objetiva.T    questões de fundo sobre o que é uma sociedade histórica e sobre a maneira pela qual se pode analisá-la. sem saber e sem que isso fosse realmente questionado –. De saída. dirigiram uma História econômica e social da França concebida dessa maneira. sócio-profissionais. todos sabemos. Seu esforço se deu no sentido de reconstruir. fazemos com que apareçam configurações diferentes. A partir do material reunido. a história social tinha sido essencialmente macrossocial – ela o era. descontínuas. baseando-se em fichas familiares reconstituídas. uma monografia sobre vilarejos. Porque. a da França por exemplo. em Piemont. a não ser do ponto de vista da representação estatística.

mas também todo um imaginário aparentemente delirante. Não um mundo onde nada teria acontecido. em que a polícia era acusada – justamente. quarenta anos mais tarde. relativamente clássico. poderíamos fazer com que aparecesse . Nada mais difícil de se compreender – e. Mas o exemplo pode ajudar a compreender de que forma a proposta micro-histórica nos permitia retornar aos nossos próprios hábitos de pensamento e questioná-los. Em torno deste episódio. as relações de proximidade ou de distâncias estabelecidas em torno do mercado da terra e que permitem a compreensão de sua morfologia e funcionamento. Posso dar um exemplo pessoal disto. de se descrever – do que uma ação coletiva: os romancistas nos ensinaram isso. a circulação e a capitalização da informação. me lancei com Arlette Farge no estudo de um pequeno dossiê. de Stendhal a Flaubert e Tolstoi. ainda mais porque ele representa apenas uma das vias propostas pela micro-históría. cujo essencial das fontes havia sido reunido por ela: a história de uma revolta parisiense em 1750. antes de tudo. há bastante tempo. estudando bem de perto os gestos. acusado de tomar – ele mesmo ou um de seus familiares – banhos de sangue para tratar a lepra de que sofreria. Era um outro mundo. as situações sobretudo. de desvio do controle policial sobre a cidade e de extorsão – esses temas continuam nos sendo. ou apenas coisas sem importância – um adversário italiano dos micro-historiadores acusou-os de “estender um microfone para formigas” –. por diversão. Tentamos mostrar que. recurso raro e precioso numa sociedade antiga. tratado na maior parte das vezes como um episódio de desregramento popular. aliás – de ser responsável.E         J   R   biológica ou econômica. Não éramos os primeiros a estudar este dossiê um pouco estranho. ou ainda – no caso de Michelet – como uma repetição das jornadas revolucionárias. provocada por desaparecimentos de crianças. que explica a emergência dos poderes inesperados e invisíveis à longa distância. de que me sinto mais próximo. creio eu. Durante muito tempo comentei este livro e não quero fixar a minha atenção sobre ele mais tempo. as palavras. mas um mundo onde podia-se tentar compreender as modalidades singulares da “grande história”. aquela. familiares – se desenvolveram não somente uma forte comoção coletiva. acarretada por uma sensibilidade exasperada em relação à infância. Na metade dos anos 1980. como é chamada. digamos. provocando um questionamento do rei.

de Sabina Longa sobre o mundo social do exército piemontês. no entanto. durante muito tempo. Essa ambição foi seguida e aprofundada em trabalhos importantes de jovens historiadores italianos. muitos dos quais vieram trabalhar conosco na França. nem mesmo vantagens absolutas. essa questão das escalas de observação não havia sido colocada. brutal. É por isso que chamamos este livro de Logiques de lafoule [Lógicas da multidão] (1988). ela havia sido para aqueles que tinham sido seus atores uma ocasião singular de produzir um sentido. o que nos permitirá o acesso à apreensão mais complexa das configurações sociais. Quando se reflete sobre um acontecimento desse tipo. e a exploração dos níveis de organização do social entre o micro e o macro. forçosamente empírico. Porque tínhamos nos situado. descobriram-se os benefícios heurísticos que era possível tirar dela. mais uma vez.Não acredito. Procurávamos outra coisa além disso. Esta verdade muito simples – que os atores elaboram um significado para as situações com as quais se confrontam – pode apenas ser lida de muito perto. das representações. percebemos o que podia trazer a escala micro. seguindo o detalhe freqüentemente ínfimo dos comportamentos. podia ser legitimamente comparada a muitas outras. Aqui. ordens – na desordem e na violência dos comportamentos. ao estudo que desenvolveu Maurizio Gribaldi sobre os modos de entrada dos rurais no mundo industrial e urbano no começo do século XX. mas no fundo não tão importante assim. ou seja. que a micro-história proponha uma fórmula definitiva. de dar concretamente uma significação a uma situação concreta. Refiro-me aos trabalhos de Simona Cerutti sobre o mundo das corporações em Turin no século XVIII. correlativamente. nossa intenção era exatamente o contrário. na . na escala macro. o inventário. Mais uma vez. espetacular. O segundo aspecto que me parece essencial para a proposta micro-histórica é a ênfase dada à importância dos fenômenos processuais e. Mas o que me parece mais importante do que essa alternativa é o princípio da variação de escala. à medida que se desenrolava. e a muitos outros ainda. Tentamos mostrar que essa revolta. tende-se com freqüência a pensar que o que o explica é uma atualização repetitiva das práticas. das crenças. o nível micro não apresenta uma vantagem definitiva. em diversos aspectos.T    uma ordem – não. das realidades relacionais na produção destas configurações. Porque. sem refletir muito.

creio. é a redescoberta dos atores e da ação. em 1998. A passagem ao micro nos obrigou. e menos ainda explicitada – nos poucos casos privilegiados em que se pode tentar reconstruir as coordenadas. P ompson. De um seminário que coordenei há alguns anos resultou um livro coletivo. Transcrição e tradução de Ana Luiza Beraba. tateando. as vias da análise social. Ela não está de forma alguma esgotada. demonstraram-no na escala macro. Notas *Entrevista feita por Andréa Daher. e que é para mim a mais importante. um incomparável instrumento crítico. Jeux d’échelles [Jogos de escalas] (1996). Seu interesse permanece o de ter sido. essa perspectiva que renova profundamente. Não se trata aqui de uma escolha filosófica. refletimos e trabalhamos bastante. O que esse trabalho pode e quer manifestar. é que a proposta micro-históríca é apenas uma etapa – mas espero que seja uma – numa reflexão mais geral sobre o que se pode ambicionar ser a história social. . e Making of the English Working Class [A invenção da classe operária inglesa] (1963). em contrapartida. e que tenta dar conta dessa reflexão. num espaço socialmente marcado. A última inovação sobre a qual gostaria de insistir. colocados com os seus recursos próprios e também com as restrições que os atores sofriam. Sobre esses temas. ao que me parece. os atores do passado foram permanentemente confrontados com escolhas.E         J   R   minha opinião: as grandes análises de Norbert Elias ou ainda o livro maior de E. a levar em conta. de certa forma. mas da tomada de consciência do que deveria ser evidente: assim como nós. abordar concretamente essa dimensão de escolha – que não é sempre explícita. mais uma vez. e certamente não fornece uma versão definitiva da micro-história. no momento certo. que foi traduzido no Brasil. A escala micro é a única que permite.