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Mineração na Amazônia:

Estado, Empresas e Movimentos Sociais

www.forumcarajas.org.br

São Luís/Maranhão/Brasil
2010
Centro dos Direitos das Populações da Região de Carajás - Fórum Carajás

Programa: Siderurgia na Amazônia- Projeto “Políticas Públicas e Sustentabilidade da Região de Carajás”.

Coordenação Executiva do Fórum Carajás:


Antonio Gomes de Morais, Edmilson Pinheiro e Jean Carlos Santos

Conselheiros: José Maria Araújo, Izabel Santos Lisboa, José Raimundo Rodrigues, Carlos Augusto Velo-
so, Maria Carmélia Costa Borges, Fábio Pierre Fontenelle Pacheco, Alberto Cantanhede Lopes, João Fon-
seca dos Santos, Raimundo José Pereira Ferreira, Josefa Andreza Alves, Maria da Graças Costa Martins,
Saulo Pastor dos Santos, Elton Carlos Araújo Alves e Diarmondes Alves Paixão.

Apoio: Misereor

Textos: Rogério Almeida, Marluze Pastor; Padre Dario Bossi, Padre Edilberto Sena, Gilvandro Santa
Brígida, Raimundo Gomes, Manoel Paiva, Airton Pereira, José Batista Afonso.

Capa: Carlos Latuff (www.latuff2.deviantart.com)

Projeto Gráfico: Linna di Castro

Organização: Rogério Almeida (http://rogerioalmeidafuro.blogspot.com/)

Colaboração: Cristiane Rocha / Edmilson Pinheiro (Secretario Executivo)

Fotos: Rogério Almeida, Nils Vanderbolt, Guto, Murilo Santos, Roberto K-Zau, Gilvandro Santa Brígida,
Arquivo Fórum Carajás

Fórum Carajás
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CEP: 65040-000 São Luís/MA/Brasil
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Fone/fax: (098) 3249-9712
Mineração na Amazônia: Estado, Empresas e
Movimentos Sociais 04
Contrário me dê licença para contar essa história 07
Impactos e resistências em Açailândia, profundo
interior do Maranhão. 22

33
Itupanema em meio ao projeto Albras - Alunorte:
o desencantamento do mundo.

45
Energia limpa na ponta e desgraça na fonte,
resultado de mega hidrelétricas na Amazônia.

Geração de energia na Amazônia caso de Estreito


em questão.
48
54
Grandes Projetos na Amazônia: mineração em
Juruti e a produção de energia.

Grandes projetos no município de Barcarena:


conflitos sociais e ambientais 59
63
A exploração mineral e suas consequências na
Amazônia brasileira
MINERAÇÃO NA AMAZÔNIA:
ESTADO, EMPRESAS E MOVIMENTOS SOCIAIS

O extrativismo tem regido a econo- dor é obrigado a atender uma série de exigências.
mia na Amazônia. O ciclo mais re- Como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Re-
cente é o mineral, iniciado a partir latório de Impacto Ambiental (Rima), que devem ser
da década de 1950 do século passado, no estado do apresentados em audiências públicas. Sob um grave
Amapá, quando o mesmo ainda tinha o status de ter- problema, a assimetria de forças entre as parte en-
ritório. volvidas: grandes empreendedores versus comuni-
A exploração do manganês na Serra do Navio dades tradicionais.
O processo é marcado por uma infinidade
foi ponta pé inicial. A experiência durou apenas cin-
de limites, que passa pela incorreção e manipulação
co décadas. Ficou apenas o buraco, literalmente.
dos EIA/RIMA, não publicização das informações e
A exploração mineral no Amapá, considera-
a cobertura da mídia marcada pela parcialidade. O
da a primeira na Amazônia, foi ativada pela empresa
que denuncia a fragilidade da democracia nacional,
estadunidense de Daniel Ludwig, a Bethlehem Ste-
que não universaliza o acesso ao direito. E, que às
el Company em sociedade com o empresário Augus-
vezes, exibe as nuances autoritárias do Estado.
to Trajano de Azevedo Antunes, dono da Indústria e
E por falar em Estado, ele ainda é o princi-
Comércio de Mineração S/A (ICOMI).
pal indutor da economia. Se no período da ditadura
O ciclo da mineração ganhou maiores pro-
o Banco da Amazônia (Basa) e a Superintendência
porções na Amazônia a partir da região de Carajás; de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) confi-
com a presença da Vale na extração do minério de guraram-se com as principais instituições, nos dias
ferro na década de 1980, no sudeste do Pará, é com atuais o protagonismo recai sobre o Banco Nacional
as atividades de prospecção inauguradas no regime de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
militar. Ladeado pelo Banco Interamericano de Desenvolvi-
O processo da transição democrática des- mento (BID).
cortinou outros cenários na economia, política e na A atuação da instituição tem ultrapassado a
sociedade civil brasileira. Ainda que prepondere o fronteira nacional. Advoga-se que a mesma exerce
constrangimento econômico e político em processos um papel estratégico em escala continental. E as
de definição de instalação de grandes projetos, há agências multilaterais são o centro de gravidade na
alguns avanços no campo normativo. definição de políticas de desenvolvimento para o
No entanto, tais avanços - se tratados assim Brasil e a América Latina.
- carecem de aperfeiçoamento ou uma refundação. Observa-se ainda outras diferenças nas polí-
Para a instalação de grandes projetos o empreende- ticas para a Amazônia. Na ditadura imperaram os
pólos de produção, madeira pecuária e extrativismo cobre no município Canaã dos Carajás, e outros mi-
mineral. Enquanto hoje despontam os eixos de in- nérios em São Félix do Xingu, Xinguara, Ourilândia
tegração, transporte multi-modal, comunicação e do Norte e tantos outros. No município de Barcare-
infraestrutura. na as fábricas de produção de alumina e alumínio da
É creditado a Eliezer Batista, ex-executivo Vale passam por uma ampliação da produção, que
da Vale, a construção do mapa das riquezas naturais dialoga com o aumento da produção de energia da
na América do Sul. Batista é pai de Eike, festejado hidrelétrica de Tucuruí e a construção de outras usi-
como o novo bilionário nacional. Obra do acaso? nas hidrelétricas e mesmo termoelétrica. A energia é
Os levantamentos de Batista foram encomen- o principal insumo das empresas de eletro-intensivo,
dados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). como as de produção de alumínio.
A CAF é um dos agentes do projeto de Integração da A construção de termoelétrica no município
Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). de Açailândia, oeste do Maranhão, a presença da
Do conjunto de 10 eixos de integração, qua- empresa Suzano Celulose, a construção da Ferrovia
tro se destacam, por suas riquezas naturais e pos- Norte Sul, bem como a construção da Hidrelétrica
sibilidades de conexões: o Amazonas, A Hidrovia de Estreito constituem elementos recentes que re-
Paraná-Paraguay, o Capricórnio e o Andino. O obje- configuram a paisagem física, econômica e humana
tivo central, prima em facilitar a circulação de mer- da região. Assim como em São Luís, capital do Ma-
cadorias. ranhão, os portos experimentam uma ampliação.
O eixo do Amazonas compreende os seguin- Não se sabe exatamente o que vem ocorren-
tes países: Colômbia, Peru, Equador e Brasil. Visa do na região. Há informações fragmentadas compar-
criar uma rede eficiente de transportes entre a bacia tilhada nos espaços de encontros e desencontros que
Amazônica e o litoral do Pacífico, com vista à ex- as redes de organizações sociais proporcionam.
portação. É nesse sentido que nasce o projeto em aglu-
No mundo do Brasil, alguns se arriscam em tinar neste livro artigos que atualizem as dinâmicas
pontuar que o Programa de Aceleração do Cresci- nos municípios de São Luís, Açailândia e Bacabeira
mento (PAC) é uma miniatura do IIRSA. no estado do Maranhão; e no município de Barcare-
na e regiões sudeste e sudoeste, Carajás e Tapajós/
Há algo de novo o ‘front’? Xingu no Pará.

Parece que sim. O aprofundamento da pres- MINERAÇÃO NA AMAZÔNIA:


são sobre as riquezas naturais, a organização das ESTADO, EMPRESAS E MOVIMEN-
grandes empresas em consórcio, em particular para TOS SOCIAIS reúne sete trabalhos que buscam
a construção de hidrelétricas. No Maranhão, Pará e pontuar elementos que podem ser considerados no-
Tocantins surgiram inúmeras frentes de extrativis- vos, e outros nem tanto assim, como a condição co-
mo mineral. No Pará há registros da amplificação lonial. Condição econômica baseado no extrativis-
do extrativismo que ultrapassa a celebrada mina de mo.
Carajás. Os trabalhos iformam que empresas pressio-
A oeste do estado o município de Juriti acaba nam sobre a terra e os recursos naturais. Indicam os
de entrar no clube dos municípios minerários. Em impactos dos investimentos para as áreas e popula-
Juruti a empresa estadunidense, Alcoa explora bau- ções afetadas, e questionam o papel do Estado e as
xita. Matéria prima para a produção de alumínio. ações que as organizações de base promovem para a
Num processo de instalação marcado por capítulos ampliação de direitos.
nebulosos, que exigiu a mediação do Ministério Pú- A Engenheira Agrônoma Marluze Pastor recu-
blico Federal (MPF). Dois ex-secretários de meio pera a ação do Fórum Carajás no acompanhamento
ambiente do estado respondem a processos por con- das frentes de mineração na Amazônia, em particu-
ta de não atenderem a recomendações do MPF. lar na região de Carajás. O padre Dario Bossi pontua
Já no sudeste a Vale inicio a exploração de as questões que afetam o município de Açailândia, e

5 Fórum Carajás outubro de 2010


oeste do Maranhão, em particular sobre o pólo de projetos em andamento, como a construção de uma
gusa, os passivos sociais e ambientais. E as lutas e termoelétrica e a Companhia de Alumina do Pará
mobilizações da comunidade de Pequiá. Além de (CAP). Rogério Almeida, jornalista, aborda o po-
explicar o nascimento da iniciativa Justiço nos Tri- lêmico projeto de extração de bauxita no município
lhos. de Juruti, no oeste do Pará e a construção da hidrelé-
Raimundo Gomes, Airton Pereira e José Ba- trica de Estreito, no município homônimo, no oeste
tista Afonso investigam as recentes tensões no sul e do Maranhão.
sudeste do Pará, em particular da Vale e as formas Os autores dos artigos conhecem com proxi-
de resistência das comunidades tradicionais. O pa- midade as realidades aqui tratadas. Apesar de serem
dre Edilberto Sena, do município de Santarém, faz realidades ocorridas em estados diferentes estão en-
laçadas por questões comuns, como a subordinação
uma leitura que ajuda a entender os novos grandes
da terra ancestral à lógica do capital, a partir da pos-
projetos a oeste do estado, em diálogo com as ma-
se privada em detrimento da coletiva.
cro-políticas. Trata-se de uma peça esclarecedora.
A obra denuncia passivos sociais e ambien-
Manoel Paiva e Gilvandro Santa Brígida, ex tais, o poder das empresas e a coerção que o capital
dirigentes sindicais no município de Barcarena, es- acaba provocando para atropelar os marcos legais. E
clarecem sobre o embate entre as grandes empresas ainda as mobilizações das comunidades ancestrais e
que operam na cidade. Entre elas a Alunorte e Al- de assessoria. As tensões registradas e os constran-
bras, controladas pela Norsk Hidro (Noruega). Não gimentos para a aprovação dos empreendimentos
escapam às análises dos autores a Imerys Rio Capim, evidenciam a delicada situação da democracia na-
Pará Pigmentos e a Rio Campi Caulim. E mesmo os cional.

Mesa: O conflito entre a Vale e o Meio Ambiente no Fórum Social Mundial, Belém-PA / 2009 (foto: Fórum Carajás)

Fórum Carajás outubro de 2010 6


Contrário me dê licença para
contar essa história
Marluze Pastor, Engenheira Agrônoma, MSc em
Agroecologia é consultora do Fórum Carajás1

A liberdade é para todos nós


Não tem censura para calar nossa voz 2

A
história do Fórum Carajás, iniciada em1992, é resultado de iniciativas adotadas pela socie-
dade civil, para intervir nas políticas, nos projetos e plantas industriais causadores de danos
sociais e ambientais. Na época, Fernando Collor de Melo era presidente do Brasil, Edson
Lobão e Jader Barbalho eram governadores, respectivamente, do Maranhão e do Pará. Os conflitos de terra
nesses estados recrudesciam, entre 1985 e 1995. Neste período foram computadas pela Comissão Pastoral
daTerra( CPT) 45 mortes no campo no Maranhão e 67 no Pará. A concentração fundiária estava no seu
patamar mais alto, conforme Índice de Gini3 , em torno de 0,85 %; os recursos naturais eram utilizados para
acelerar o processo de enriquecimento de grupos econômicos. A região e Carajás era área atrativa para
investimentos. Várias siderúrgicas( convidadas pela CVRD) já estavam instaladas: Companhia Siderúrgica
do Pará (COSIPAR), (1988) em Marabá a Siderúrgica Viena, (1988) e Vale do Pindaré, (1988) Açailandia.

1 Este texto teve a colaboração de Edmilson Pinheiro, Secretario Executivo do Fórum Carajás.
2 Música de Zé Lopes, samba enredo da Favela do Samba em homenagem a César Teixeira.
3 Coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade, quanto mais próximo de um maior a desigualdade
Em Barcarena já estavam a Albrás, (1985) Alunorte, pesquisadores/as e organizações internacionais
(1978), em São Luís a ALUMAR e a ELETRONOR- de igrejas e ambientalistas, ONGs, associações de
TE, em Tucuruí. Havia também um grande número moradores, grupos de jovens, grupos de mulheres,
de fazendas e madeireiras. organizações de pescadores/as, de professores, se-
Nesse contexto o Grupo de Trabalho Ama- ringueiros e quebradeiras de coco entre outras ex-
zônico (GTA) e outras entidades do Maranhão e do trativistas.

Fonte: documento do Fórum Carajás

Pará, desencadearam um processo de articulação de A primeira ação foi conhecer os projetos, pois
grupos sociais atingidos pelas políticas e projetos. A era necessário possuir conhecimentos para intervir,
partir daí surgiu a proposta de organizar um seminá- discutir o desenvolvimento da região, saber como
rio internacional sobre os grandes projetos na região, eram as relações entre a indústria e meio ambien-
precedido de um conjunto de estudos para permitir te, analisar seus impactos. Assim uma série de estu-
uma intervenção qualificada do Movimento Social. dos, pesquisas e treinamentos foram realizados com
Esse processo foi nominado de Seminário Consulta a participação de professores e pesquisadores das
Carajás. Universidades do Pará e do Maranhão e ligados aos
Naquele período eram poucas as organiza- movimentos sociais. A pesquisa precisava ser ime-
ções ambientalistas na região, que se concentravam diatamente útil, os/as pesquisadores/as participavam
no Sul e Sudeste do Brasil, atuavam na proteção de das reuniões com informações e análises dos dados
ecossistemas naturais, porém havia um distancia- levantados. Assim, pesquisas científicas tiveram o
mento dessas organizações com outros movimentos, propósito apoiar na discussão dos problemas loca-
as ambientalistas ignoravam as questões sociais e as lizados, bem como na promoção da capacidade de
demais organizações não incorporavam a qualida- planejar, de tomar decisões, fortalecer o sentimento
de ambiental nos discursos. Eram as ambientalistas de pertencimento e poder de negociação.
compostas por universitários, funcionários/as de ór- A pretensão era intervir nas políticas públi-
gãos públicos. cas e privadas, mudar o curso da história, relacionar
O Fórum se estrutura enquanto rede socio- justiça social com meio ambiente, mas, era preci-
ambiental envolvendo sindicatos urbanos e rurais, so capacitar as organizações e as lideranças. Foram

Fórum Carajás outubro de 2010 8


criados grupos de estudos para a construção de um referencial teórico e alternativas para região. As or-
ganizações foram habilitadas para participar de conselhos de gestão, comissões, acordos de negociação;
foram disseminados conhecimentos e informações sobre os impactos na região utilizando inclusive rádios
comunitárias, teatro, música, artes visuais, cursos, oficinas, encontros regionais, nacionais e intencionais.
Foram elaborados livros, mapas, revistas e diversos textos (Verificar em referências bibliográficas).

As relações internacionais
O desafio era grande, foi necessário identificar e conquistar parceiros em órgãos públicos, estimular
o apoio de legislativos, promover audiências públicas. Assim as relações com as organizações internacio-
nais especialmente com organizações da Alemanha foram fundamentais para iniciar o processo de interlo-
cução e reconhecimento do Fórum, por parte do setor público e privado.
Um primeiro projeto foi encaminhado a Pão para o Mundo (BROT FÜR DIE WELT- PPM)4, e
Misereor5 com a interveniência da Coordenadora Ecumênica de Serviços (CESE). Naquela oportunidade,
a Conferência Conjunta Igreja e Desenvolvimento (Gemeinsame Konferenz Entwicklung und Kirche-
GKKE), organização das igrejas alemãs, que já atuava com programa de diálogo iniciou um novo progra-
ma, tendo como centro de atividades a Tanzânia e Brasil sobre justiça internacional e de proteção ao meio
ambiente com grupos representativos da sociedade civil da Alemanha, e, no caso do Brasil, com indústrias
siderúrgicas alemãs e entidades populares da região de Carajás. Aqui se buscou estabelecer e ampliar re-
lações com organizações internacionais, avançar nas relações Norte-Sul, nos acordos internacionais e na
responsabilidade global.
Além das organizações da Igreja da Alemanha o Fórum desenvolveu outras relações internacionais
com o GREEPEACE, FIAN, KOBRA, Cooperação Técnica Alemã (GTZ), IG Metal, International Rivers
Network, PARC-FASE 6.

Primeira fase da articulação, o Seminário Consulta Carajás


De 1992 até a realização da Mesa Redonda Internacional, em 1995, foram realizados encontros e
seminários, oficinas, estudos voltados para a realização de um evento que discutisse os projetos e políticas
públicas para região com o Estado, empresas, consumidores internacionais, trabalhadores das empresas,
grupos e comunidades atingidas. Vale destacar que o Projeto Ferro Carajás era o carro chefe dos projetos.

Quadro 01: Principais eventos na primeira fase do Fórum Carajás

4 agência de cooperação da Alemanha


5 agência de desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha
6 O Greenpeace é uma organização global e que atua na defendesa do meio ambiente; a FIAN (“Food First Information & Action Network),
é uma organização internacional de direitos humanos que trabalha pelo direito a alimentação; a KOBRA ( Kooperation Brasilien) é uma rede
de pessoas e grupos de países de língua alemã, de solidariedade ao Brasil; a Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit (GTZ),
é uma empresa pública de direito privado, de cooperação internacional; o IG Metall, é sindicato de metalúrgicos da Alemanha; International
Rivers Network (IRN), é uma rede internacional de guardiões dos rios; o PARC-FASE é um grupo de Pesquisa e intercâmbio com o Japão.

9 Fórum Carajás outubro de 2010


A Mesa Redonda Internacional implantação de fábrica de celulose na região tocan-
(MRI) tina, a exploração de madeira nativa e a expan-
Na MRI realizada em maio de 1995 em São são da sojicultura. Aqui se destaca a iniciativa das
Luís/MA, participaram 174 pessoas, autoridades fe- organizações do Sul do Maranhão, coordenadas
derais e estaduais de órgãos ambientais, do planeja- pela Associação Camponesa (ACA) e o programa
mento, e da questão agrária; parlamentares brasilei- da movimento sindical coordenado pela Federação
ros e alemães; entidades eclesiásticas brasileiras e dos Trabalhadores(as) na agricultura do Estado do
alemães; Banco Mundial; representantes de comu- Maranhão (FETAEMA) sobre os impactos da soji-
nidades indígenas; lideranças de entidades sindicais
cultura;
rurais e urbanas; organizações não governamentais
• Privatização e desemprego, esse programa
brasileiras e alemães. A MRI foi precedida por um
aglutinou problemáticas urbanas, tais como impac-
cuidadoso processo de organização no que concerne
tos sociais, ambientais e econômicos causados pela
a logística do evento (hospedagem, transporte, re-
privatização e terceirização, mineração e siderurgia.
gimento interno do evento), como na formação dos
A privatização de estatais, terceirização dos serviços
participantes do movimento social, coordenação e
e desemprego nas áreas de produção do alumínio
mediação dos trabalhos.
e ferro motivaram estudos, audiências públicas na
A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) rea-
Câmara Federal dos Deputados e Câmara dos Depu-
giu não participando e incentivando a não participa-
tados do Pará. Com relação as injustiças ambientais,
ção de empresas e de setores da Igreja Católica.
o Fórum denunciou os danos ambientais causados
pelo vazamento de óleo no rio Gapara, pela CVRD
Carvoeiros 7 e, acompanhou a comunidade São Raimundo do Ga-
A usina converte em aço, para em maio de 2000. Por outro lado o contínuo
a paisagem e em cinzas, e rápido desmatamento para a produção de carvão
o coração dos homens vegetal no corredor Carajás e as relações de traba-
O lingote é o filho aceso lho nas carvoarias levou a realização de Encontro de
da usina que oculta no seu fogo carvoeiros e carvoeiras em 2002 e acompanhamento
a lógica do deserto. da categoria e dos impactos ambientais.
• Os caminhos do alumínio, programa que
trata sobre a cadeia do alumínio realizou seminários
Segunda fase: as cadeias de produção internacionais no Brasil e na Alemanha, intitulados
A partir da avaliação da MRI o Fórum pas- “Diálogo Internacional sobre Alumínio: Responsabi-
sa se identificar como Fórum Carajás e se empenha lidade Global da Extração ao Consumo” sobre im-
em discutir as políticas a partir de temas regionais, pactos no setor do alumínio. O seminário no Brasil
incentivando a incorporação de aspectos de susten- foi realizado no Praia Mar Hotel, São Luis/MA, no
tabilidade ambiental e justiça social nas lutas nas período de 23 a 26 de março de 1999. Teve como
atividades das entidades. Elencou como prioridades objetivo a discussão, com os setores envolvidos, dos
para atuação as cadeias de produtos identificadas problemas causados pela exploração da bauxita, ge-
na primeira fase como as mais impactantes: ferro; ração de energia pela usina hidrelétrica de Tucuruí
alumínio; madeira nativa/carvão; eucalipto/celulo- e produção de alumina e alumínio, com a intenção
se. Na avaliação do Fórum realizada 1997 e 1998 de encontrar soluções para os problemas sócio-am-
aponta dois eixos temáticos como unificadores das bientais gerados, com a elaboração de um projeto de
diversas lutas e temas que se tornaram programas desenvolvimento regional sustentável. Nesse grupo
de trabalho: temático o destaque foi a criação sindicato de quí-
• Agricultura familiar e grandes projetos, micos de Barcarena e participação desse sindicato
envolve as problemáticas rurais. Os destaques nes- no processo.
• Barragens e energia. Estava proposto
se programa foram a questão do eucalipto e a
construção de 14 barragens no Araguaia Tocantins.
Como ação de resistência, o Fórum juntamente com
7 Versos do poema carvoeiro de Pedro Tierra outras organizações da região criaram Campanha

Fórum Carajás outubro de 2010 10


Contra as Barragens do Araguaia e Tocantins atra- te na Região Carajás, em dezembro, em São Luís
vés de reuniões, debates, levantamento e sistemati- onde participaram 131 pessoas, sendo 96 mulheres
zação de estudos sobre as barragens, produção de e quatro homens trabalhadoras/trabalhadores rurais,
material impresso, seminários regionais, seminário de 32 municípios do Maranhão e do Pará, represen-
interestadual em Imperatriz/MA e ato público em tantes do poder Executivo e legislativo Municipal,
Itaguatins/TO. representantes da MAMA, dos Conselhos Estadual
• A mulher e os grandes projetos. Esse pro- da Condição Feminina do Pará e do Rio de Janeiro,
grama “Mulher e os Grandes Projetos: impactos dos bem como representantes de órgãos financiadores
grandes projetos na vida das mulheres’’, objetivava internacionais CESE, DFID, ELO.
• O Programa “BOCA DE FORNO”, jo-
identificar as condições de vida das mulheres frente
vens rurais, arte e o meio ambiente. O Programa in-
aos grandes projetos, com ênfase para os aspectos
cluiu parcialmente os Estados do Maranhão e Pará
da saúde, trabalho, salário e meio ambiente;bem
envolvendo diretamente 279 pessoas dos seguintes
como dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos
municípios: São Luís, comunidades de Taim, Rio
por essas mulheres nas empresas, nas organizações
dos Cachorros, Porto Grande, Limoeiro e Vila Ma-
e nas comunidades onde vivem; promover a cria-
ranhão; Itapecuru-mirim; Santa Rita; Morros; Presi-
ção de novas organizações de mulheres eviden- dente Juscelino; Açailândia; Imperatriz; Cidelândia;
ciando suas atividades. O estudo sobre “Mulher e São Pedro da Água Branca; João Lisboa; Senador
os Grandes Projetos: Diálogo sobre Gênero e Meio La Roque; Eldorado; Marabá; Tucuruí e Parauape-
Ambiente na Região do Carajás”, realizado junto às bas. Perfazendo um total de nove oficinas, no perío-
mulheres ao longo de oito meses nas Regiões Eco- do de maio a novembro de 2000, com jovens filhos/
lógicas Litoral/Baixada, Pré-Amazônia Maranhense as de pescadores/as e agricultores/as. Nas oficinas
e Chapadas do Sul do Maranhão e Sudeste do Pará buscou, nas expressões, artísticas fazer compreen-
participaram 237 mulheres e 10 homens em oito ofi- der a Natureza, os impactos ambientais dos grandes
cinas realizadas nos municípios de São Luís, Impe- projetos bem como incentivou atitudes promotoras
ratriz, Açailândia, São Raimundo das Mangabeiras, da sustentabilidade e autolimitação. O Programa
Parauapebas, Presidente Juscelino, Presidente Mé- incentivou os projetos Camurim I de formação de
dici, Rosário e Marabá. Após a realização de ofici- jovens em beneficiamento de pescado em 2000, e, o
nas regionais em nove municípios, foi promovido o Projeto Camurim II de criação agroflorestal de pei-
Seminário Filhas da Terra, Gênero e Meio Ambien- xes e crustáceos, em 2001.

Quadro 2: Principais eventos na segunda fase do Fórum Carajás


Evento Local Data
Audiência Pública da CELMAR, levantamento Imperatriz - MA 1997
cartorial das áreas compradas pela CELMAR
contestação de áreas adquiridas ilegalmente
5° Encontro Interestadual Parauapebas - PA 07.e 08.09.96
Audiência com Banco Mundial e IBAMA Brasília - DF Dezembro 96
Seminário Internacional ”Pequeno Produtor e Balsas - MA 09 a 01.05.97
Grandes Projetos”
Encontro “Grito de Tucuruí” Tucuruí - PA 14.03.97
Seminário sobre os Grandes Projetos no Baixo Brejo - MA 03.e 04.05.97
Parnaíba
Audiências com deputados federais e assessores Brasília - DF Agosto/Setembro 97
Diálogo Internacional sobre Alumínio: São Luís - MA Março de 1999
Responsabilidade global da extração ao consumo
“Seminário ‘Gênero e meio ambiente” São Luís - MA Dezembro de 1999
Seminário Carajás: Mineração e Desemprego Parauapebas - PA 14, a 16.04. 2000
Reunião sobre grilagem no Parque do Mirador Imperatriz - MA Fevereiro de 2001

Seminário sobre agricultura familiar Açailândia - MA Dezembro de 2001


Produção de vídeo sobre a expansão da soja em Balsas - MA Maio de 2001
Vão das Salinas
Oficina alternativas de sobrevivência Escola 11 Balsas - MA JunhoCarajás
Fórum de 2001outubro de 2010
Sindical de Balsas
Seminário sobre meio Ambiente e Cidadania Capinzal - MA Junho de 2001
Estrutura organizativa • FASE/MARABÁ;
• Federação do Tocantins Araguaia (FATA)
Uma estrutura político-administrativa par- Marabá/PA;
ticipativa, as tomada de decisões, desde encontros • Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de
estaduais e interestaduais, reuniões da coordenação Metais Básicos (METABASE) Carajás/PA;
e grupos temáticos eram discutidas por todas as en- • Movimento Nacional dos Pescadores (MO-
tidades-membro. NAPE);
• Movimento Interestadual de Quebradeiras de
Os Núcleos facilitavam a socialização das Coco Babaçu (MIQCB);
questões e a realização de atividades: • Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia e
• Núcleo de Tucuruí participam organizações Imperatriz (SIMETAL);
de Tucuruí, Novo Repartimento, Tailândia, Breu • Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão (SI-
Branco, METAL);
• Núcleo de Marabá participam organizações • Sociedade Maranhense dos Direitos
de Marabá, Parauapebas, Eldorado, Paragominas, Humanos;
Curionópolis, • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
• Núcleo de Imperatriz participam organizações Rurais de Açailândia;
de Imperatriz, João Lisboa, Estreito, Cidelândia, • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
• Núcleo de Açailândia participam organiza- Rurais de Balsas;
ções de Açailândia, Buriticupu e Santa Luzia. • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais de Imperatriz/MA;
A Coordenação era representada por todas as • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
regiões e categorias de organizações integrantes do Rurais de João Lisboa;
Fórum: • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
• Associação Agroecológica Tijupá; Rurais de Novo Repartimento;
• Associação de Mulheres do Bico do Papagaio/ • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
TO (ASMUBIP); Rurais de Parauapebas;
• Associação em Áreas de Assentamento no Es- • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
tado do Maranhão (ASSEMA); Rurais de Tucuruí.
• CÁRITAS Regional de São Luís/MA;
• Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Intercâmbios
Rural (CENTRU) Imperatriz/MA; • Viagem de comitiva alemã para a região de
• Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria extração do minério de ferro em Carajás, 17 pessoas,
Sindical e Popular (CEPASP) Marabá/PA; representantes dos sindicatos alemães de mineração,
• Coordenadoria Ecumênica de Serviços setor químico e energético (IGBCE); do setor meta-
(CESE) Salvador/BA; lúrgico (IG Metall) da Confederação dos Sindicatos
• Cooperativa Agroextrativista de Paraupebas/PA , Alemães (DGB), representantes da GKKE e asses-
sores do Fórum Carajás;

Fórum Carajás outubro de 2010 12


• Seminário envolvendo delegação alemã e Terceira fase
38 dirigentes sindicais brasileiros do setor mineral
(CNTSM-CUT) e do setor siderúrgico (CNM-CUT), A implantação, ampliação e/ou consolidação
em Belo Horizonte, Minas Gerais, na sede da Escola de refinarias de petróleo, termelétricas, aciária, ex-
Sindical 7 de Outubro. Participaram 10 representan- ploração de minas de bauxita e de ouro e outros
tes do Fórum Carajás; empreendimentos que exaurem as riquezas e poten-
• Programa EXPO 2000 del proyecto‚ salud, cialidades locais, desterritorializa povos e comuni-
seguridad y medio ambiente en el local de trabajo’ dades, entretanto, a oferta de empregos desmobiliza
Alemanha, con la participação de 30 brasileiros, 7 grupos e movimentos o que tornam esse momento
espanhois, 7 suecos e 15 alemãs. Participaram 7 sin- um desafio maior.
dicalistas do Fórum Carajás, em outubro de 2000; Por outro lado novas organizações se incor-
• Conferência: “concepção de uma cadeia da poram ao Fórum bem como outros temas, destaca-se
soja sustentável nas relações Brasil/Alemanha”. Em as organizações das regiões de cerrado, da Baixada
Loccum na Alemanha, em maio de 2001. Participa- Maranhense e de Barcarena no Pará, que por sua
ram três representantes do Fórum Carajás; vez passaram a influenciar as prioridades. O Fórum
• Intercâmbio internacional para um desen- passa a participar de outras organizações e/ou espa-
volvimento sustentável (Arbeits- und Studienaufen- ços de discussão como Fórum da Amazônia Oriental,
thalte in Lateinamerika – ASA) objetiva promover Conselho Nacional de Recursos Hídricos,Conselho
troca de experiências entre organismos não gover- Estadual de Direitos Humanos , Conselho Estadual
namentais do Brasil e da Alemanha. Jovens alemães de Desenvolvimento Sustentável, Rede de Interven-
participam de algum projeto no Brasil (Fase Sul) ção em Polítcas Públicas, Rede Manguemar Brasil,
um profissional brasileiro desenvolve uma atividade Redmanglar internacional , Campanha Justiça nos
complementar na Alemanha (Fase Norte). O tema Trilhos, Fórum do Baixo Parnaiba, Rede de Tecno-
principal do intercâmbio é energias renováveis e logia Social, Fórum Estadual de Mulheres, Fórum
aprendizagem global em Alemanha e Brasil. Tema em Defesa das Populações do Cerrado Sul Mara-
priorizado para 2010 – alternativas energéticas e nhense, Associação Brasileira de Ong`s, Rede de
aprendizagem global na Alemanha e Brasil. Agroecologia do Maranhão, Associação Nacional de
Agroecologia, Rede Brasileira de Justiça Ambiental,
Fórum Brasileiro de Ong´s e Movimentos Sociais,
Salve a Terra8 Movimento Reage São Luís, Movimento SalvaTerra
e Comissão Justiça nos Trilhos.
Salva, Salvaterra
vives o teu tempo de guerra Dentre os principais programas trabalhados
não construístes armas pelo Fórum Carajás,destacamos:
plantastes cupuaçu
Expansão da sojicultura e a fronteira agrí-
Salva, Salvaterra cola. Programa de educação ambiental, monitora-
refinaria te ocupou mento e alternativas para as comunidades afetadas
o teu povo sente dor
pela expansão da sojicultura, seguem os projetos :
pau d’arco cai a flor
• Sonhem: Monitoramento e educação am-
Salva, Salvaterra biental nos Cerrados Maranhenses, projeto desen-
Quem salvará tua terra? volvido em comunidades da bacia do Rio Parnaíba,
O que será do teu povo? no município de Loreto/MA;
Salva Terra, Salva Terra, Salvaterra • Alternativas para o Cerrado, projeto em de-
senvolvimento pela ACA na região dos Gerais de
Balsas;
8 Versos da poesia de Zeca Pereira ou Zeca do Sindicato de Rosá-
• Ciranda Agroecológica, projeto desenvolvi-
rio sobre a comunidade Salvaterra de Rosário que foi desapropriada do no município de Mata Roma com jovens qui-
pelo governo do Maranhão para implantação de refinaria Premium lombolas;
da Petrobás

13 Fórum Carajás outubro de 2010


• Chapada Limpa: desdobramento de uma equilíbrio entre crescimento econômico, equidade
proposta de conservação ambiental para o Baixo social, diversidade cultural e a proteção ambiental.
Parnaíba, em desenvolvimento na Reserva Reserva
Extrativista Chapada Limpa, no município de Cha- Revitalizando os Manguezais, objetiva dar
padinha; visibilidade aos ecossistemas manguezais, tornando
• Comunidade Tradicional e a Sustentabilida- os moradores/as e organizações que vivem nos en-
de do Extrativismo do Bacuri, projeto em desenvol- tornos, capazes de manejar, proteger e impedir a
vimento no município de Urbano Santos; destruição dessas florestas remanescentes. Entre os
• Arte e Meio Ambiente: educação ambiental projetos destacou -se o de Comunicação e Educa-
para comunidades quilombolas, projeto em desen- ção Ambiental que tinha como finalidade elaborar
volvimento no município de Mata Roma; propostas e fomentar discussões sobre questões
ambientais com comunidades afetadas pelos grandes
• O Programa Territórios Livres do Baixo
projetos no interior no interior da Ilha de São Luís
Parnaíba, em desenvolvimento em toda a região do
durante os anos 2004 e 2005. Desenvolve atualmente
Leste Maranhense, parceria com SMDH, CCN e
o Projeto Bequimão na região da Baixada Maranhense.
FDBPM.
Rosa Negra, é um projeto do Programa Mu-
Mineração e siderurgia. O aumento das
lher e os Grandes Projetos: impactos dos grandes pro-
carvorias para abastecimento do Pólo Siderúrgico
jetos na vida das mulheres, objetiva apoiar as alterna-
Carajás, acarretou novas mudanças ambientais
tivas de renda e de organização de mulheres rurais
tornando os povos e comunidades tradicionais espe- possibilitando a manifestações culturais reforçando
cialmente vulneráveis. A exemplo dos danos causa- e reafirmando a identidade negra e novas relações de
dos pelas 13 empresas do Pólo Siderúrgico Carajás gênero.
que consomem 7.314.404 ton/ano de carvão e, conse-
quentemente, 13.194.949,46 ton/ano de lenha (IBA- Barragens e Energia, o Fórum acompanha
MA, 2005). O Fórum acompanha e denuncia essas a implantação de barragens na bacia do Araguaia/
atividades e seus danos. Tocantins e Parnaíba denunciando irregularidades e
Participou do Movimento Reage São Luís, produzindo materiais de apoio as comunidades atin-
contra a implantação de um pólo siderúrgico na Ilha gidas. Tem assento na Câmara Técnica de Análise de
de São Luís, inclusive, com oficina no Fórum Social Projeto (CTAP) do Conselho Nacional de Recursos
Mundial; participa da coordenação da Campanha Hídricos (CNRH) intervindo para a melhoria dos pla-
Justiça nos Trilhos; coordena o Movimento Salva nos das bacias hidrográficas das regiões hidrográficas
Maranhão, de denúncia de irregularidades e mobi- Bacia do Araguaia-Tocantins, Parnaíba e Nordeste
lização social sobre os projetos que não oferecem Ocidental.

Quadro 3: Principais eventos na terceira fase do Fórum Carajás

Fórum Carajás outubro de 2010 14


15 Fórum Carajás outubro de 2010
Uma conclusão

espaço informal de discussão político/cultural onde


O Fórum Carajás superou o modelo tradi- foram lançados livros e CDs, no programa Boca de
cional de organização política, na abrangência Forno e no concurso “Artístico e Literário Fórum
e diversidade, congrega grupos e organizações Carajás” o Fórum buscou despertar a criatividade
populares e sindicais, entidades eclesiais nacionais artística nos/as jovens filhos/as de pescadores/as e
e parceiros internacionais. agricultores/as.
O Fórum é uma teia sócio-ambientalista de
A cultura e arte vitalizam todos os processos,
caráter permanente que assume o enfrentamento
facilitando a compreensão das problemáticas e en- de questões específicas e gerais. Proporciona um
volvendo artistas das regiões. Em a Filha da Chuva, maior entendimento das relações regionais, urbanos
compilação de poesias que mostrava como o desen- e rurais, integração nas diversas lutas existentes na
volvimento afeta os sentimentos, as emoções e os região e incorporação da proteção ambiental como
uma dimensão relevante. Causa impacto na opinião
valores das pessoas; em Percussão em Movimento,
pública, influência organismos estatais de meio
utilizou-se variados sons através de instrumentos e ambiente, legislativos, pesquisadores e o empre-
dos próprios corpos para mostrar ao público sons sariado.
da natureza e dos ambientes em que vivem. Em Os materiais específicos como relatórios, car-
outros espetáculos como o Recital dos Carvoeiros, o tilhas, vídeos, fotos e mapas são usados como mate-
Seminário “Rosa Negra” Mulheres Rurais, Danças e rial didático em escolas de ensino fundametal e médio,
Tambores, homenageava os atingidos e fazedoras de como material de apoio a trabalhos de parlamentares
cultura popular. O espaço Cumbuca de Saber é um e pesquisa acadêmica.

Foto: Robero K-Zau: Mesa Redonda Internacional -MRI

Fórum Carajás outubro de 2010 16


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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17 Fórum Carajás outubro de 2010


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Fórum Carajás outubro de 2010 18


Organizações participantes do Fórum Carajás

N.º Nome da organização Tipo de organização


01 ABIPA Axixá/TO Organização de cooperação
agrícola
02 APOIO - Balsas/MA ONG
03 Associação Agroecológica Tijupá - São Luís/MA ONG
04 Associação de Donas de Casa de Açailândia/MA Grupo de mulheres
05 Associação de Mulheres do Bico do Papagaio/TO – Grupo de mulheres rurais
ASMUBIP
06 Associação de Moradores de Boa Vista dos Pinhos/MA Associação de agricultor@s
07 Associação de Moradores de Porto Alegre/MA Associação de agricultor@s
08 Associação de Moradores da Vila Bom Jardim/MA Associação de bairro
09 Associação de Moradores da Vila Tancredo/MA Associação de bairro
10 Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Grupo de mulheres rurais
Junco/MA
11 Associação de Mulheres Extrativista de Cidelândia/MA Associação de mulheres
12 Associação dos Sindicatos Unidos do Médio Meariam/MA – Articulação de STTRs
ASUMEM
13 Associação do Trabalhadores Rurais Agroextrativista e Organização de cooperação
Pescadores Artesanais de Tucuruí/PA agrícola
14 Associação em Áreas de Assentamento no Estado do ONG rural
Maranhão - ASSEMA/MA
15 Associação Nossa Senhora do Rosário em Penalva/MA Organização de mulheres
16 Associação dos Pequenos Produtores Projeto de Assentamento Associação de agrcultor@s
Angelim
17 Caixa de Ararás - Marabá/PA Cooperativa agrícola
18 Caixa Agrícola dos Pequenos Produtores de São João do Cooperativa agrícola
Araguaia/PA
19 Cáritas Regional de São Luís/MA Entidade da Igreja Católica
20 Cáritas Diocesana de Brejo/MA Entidades da Igreja Católica
21 Central Única dos Trabalhadores do Sudeste do Pará Central Sindical
22 Central Agroambiental do Tocantins - CAT - Marabá/PA ONG
23 Centro de Educação e Cultura do Trabalhador rural - CENTRU - ONG
Imperatriz/MA
24 Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular - ONG
CEPASP - Marabá/PA
25 Centro de Estudos e Ação Social - CEAS - Salvador/BA ONG urbana
26 Centro de Cultura Negra - São Luís/MA Movimento Negro
27 Colônia de Pescadores de Tucuruí/PA Sindicato de pescadores
28 Comissão Pastoral da Terra de Marabá/PA Entidade da Igreja católica
29 Comissão Pastoral da Terra da Palestina/PA Entidade da Igreja católica
30 Comissão Pastoral da Terra do Maranhão Entidade da Igreja católica
31 Comissão Pastoral da Terra do Bico do Papagaio/To Entidade da Igreja católica
32 Comunidade Tucumã - Índios Gavião da Montanha - Área Organização indígena
Indígena Mãe Maria- Marabá/PA
33 Conselho Indigenista Missionário - CIMI/MA Entidade indigenista da Igreja
34 Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS - Marabá/PA Articulação de Extrativistas
35 Cooperativa Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Cooperativa
Esperantinópolis/MA – COPPAESP
36 Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Lago Cooperativa
do Junco/MA
37 Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Lima Cooperativa
Campos/MA – COPPELC
38 Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de São Cooperativa
Luís Gonzaga/Ma – COPPAES
39 Cooperativa de Pequenos Rurais de Parauapebas/PA Cooperativa
40 Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas de Cooperativa
Imperatriz/MA – COPPAI
41 Colônia de Pescadores de Abaetetuba/PA Sindicato de pescadores
42 Coordenadoria Ecumênica de Serviços - CESE- Salvador/BA ONG ecumênica
43 Equipe de Educação Popular de Parauapebas/PA – EEPP ONG
44 Federação do Tocantins Araguaia -FATA - Marabá/PA ONG
19 Fórum Carajás outubro de 2010
45 Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará - FETAGRI Federação de STTTR
46 GREENPEACE ONG ambientalista
40 Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas de Cooperativa
Imperatriz/MA – COPPAI
41 Colônia de Pescadores de Abaetetuba/PA Sindicato de pescadores
42 Coordenadoria Ecumênica de Serviços - CESE- Salvador/BA ONG ecumênica
43 Equipe de Educação Popular de Parauapebas/PA – EEPP ONG
44 Federação do Tocantins Araguaia -FATA - Marabá/PA ONG

45 Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará - FETAGRI Federação de STTTR


46 GREENPEACE ONG ambientalista
47 Grupo de Mulheres da Ilha - São Luís/MA Organização feminista
48 Grupo de Trabalho Amazônico Bico do Papagaio/TO - GTA – Bico Articulação de entidades
49 Grupo de Trabalho Amazônico do Babaçu/MA - GTA – Babaçu Articulação de entidades
50 Grupo de Trabalho Amazônico Nacional - GTA - Nacional Articulação de entidades
51 Grupo de Jovens de Oiteiro/MA Grupo de jovens
52 Grupo de Jovens de Rosário /MA Grupo de jovens
53 Grupo de Jovens de Cajueiro/MA Grupo de jovens
54 Grupo de Jovens de Taim /MA Grupo de jovens
55 Igreja Evangélica Luterana de Balsas/MA Igreja evangélica
56 Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua Movimento
57 Movimento dos Sem Terra de Parauapebas/PA Movimento
58 Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade/PA Grupo de mulheres
59 Movimento de Educação de Base - MEB - Imperatriz/MA Entidade de Igreja Católica
60 Movimento de Educação de Base - MEB - Buriticupu/MA Entidade de Igreja Católica
61 Movimento de Educação de Base - MEB - Marabá/PA Entidade da Igreja Católica
62 Movimento de Mulheres do Araguaia -/PA Movimento de mulheres

63 Movimento de Mulheres do Sudeste do Pará - Marabá/PA Movimento de mulheres


64 Movimento dos Pescadores do Maranhão - MOPEMA Movimento de pescadores
65 Movimento dos Pescadores do Pará – MOPEPA Movimento pescadores
66 Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra Marabá/PA Movimento
67 Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu Movimento de mulheres rurais
68 Movimento Nacional dos Pescadores – MONAPE Movimento de pescadores
69 Pastoral da Mulher e da Criança de Buriticupu/MA Entidade de Igreja Católica
70 Paróquia de Confissão Luterana de Belém/PA Igreja Evangélica
71 Pastoral Popular de Marabá/PA Entidade da Igreja Católica
72 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Barcarena/PA STTR
73 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Buriticupu /MA STTR
74 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Fortaleza de STTR
Nogueiras/MA
75 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Açailândia/MA STTR
76 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Altamira/PA STTR
77 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Amarante/MA STTR
78 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Anapurus/MA STTR
79 Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Balsas/MA STTR
80 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Brejo Grande do STTR
Araguaia /PA
81 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Breu Branco/MA STTR
82 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Carolina/MA STTR
83 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Eldorado dos STTR
Carajás/PA
84 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Esperantinópolis/Ma STTR
85 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Estreito/MA STTR
86 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Imperatriz/MA STTR
87 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Itupiranga/PA STTR
88 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Jacundá/PA STTR
89 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de João Lisboa /MA STTR
90 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Lago da Pedra/MA STTR
91 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de do Junco/MA STTR
92 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Lima Campos/MA STTR
93 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Loreto/MA STTR
94 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Magalhães de Almeida STTR
95 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Marabá/PA STTR
96 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Mata Roma/MA STTR
97 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Novo Repartimento/PA STTR
98 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Palestina/PA STTR
99 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paragominas/PA STTR
100 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Parauapebas/PA STTR
101 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paulo Ramos/MA STTR
102 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pio XII /MA STTR
Fórum103
Carajás outubro de
Sindicato dos2010 20
Trabalhadores /as Rurais de Pitinga/MA STTR
104 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Poção de Pedras/MA STTR
105 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais Riachão/Ma STTR
97 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Novo Repartimento/PA STTR
98 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Palestina/PA STTR
99 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paragominas/PA STTR
100 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Parauapebas/PA STTR
101 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paulo Ramos/MA STTR
102 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pio XII /MA STTR
103 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pitinga/MA STTR
104 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Poção de Pedras/MA STTR
105 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais Riachão/Ma STTR
106 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Domingos de STTR
Araguaia/PA
107 Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São João do Araguaia/PA STTR
108 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Luís Gonzaga/MA STTR
109 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Raimundo das STTR
Mangabeiras/MA
110 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Tasso Fragoso/MA STTR
111 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Tucuruí STTR
112 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Cidelândia/PA STTR
113 Sindicato dos trabalhadores/as Rurais de Presidente Médici /MA STTR
114 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Nova Colina /MA STTR
115 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Santa Rita/MA STTR
116 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Luís/MA STTR
117 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Rosário /MA STTR
119 Sindicato dos Urbanitários do Pará - Marabá/PA Sindicato urbano
120 Sindicato dos Comerciários de Parauapebas/PA Sindicato urbano
121 Sindicato dos Empregados em Entidades de Assistência Social e Sindicato urbano
Educacional - SENALBA - Imperatriz/MA
122 Sindicato dos Ferroviários Sindicato operário
123 Sindicato dos Fotógrafos Açailândia /MA Sindicato urbano
124 Sindicato dos Jornalistas de Imperatriz/MA Sindicato urbano
125 Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia e Impera triz MA Sindicato operário
126 Sindicato dos Químicos Barcarena/PA Sindicato operário
127 Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão Sindicato operário
128 Sindicato dos Metalúrgicos do Pará - SIMETAL Sindicato operário
129 Sindicato dos Trabalhadores /as da Saúde do Pará -SINTESP - Sindicato urbano
Marabá/PA
130 Sindicato dos Trabalhadores /as da Indústria de Metais Básicos - Sindicato operário
METABASE- Carajás/PA
131 Sindicato dos Trabalhadores /as em Educação Pública do Pará - Sindicato urbano
SINTEPP- Marabá/PA
132 Sindicato dos Trabalhadores na Indústria e construção Civil de Sindicato operário
Açailândia/MA
133 Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação do Sindicato operário
Estado do Pará - Marabá/PA
134 Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Madeireiras de Sindicato operário
Eldorado/PA
135 Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Madeireiras de Sindicato operário
Construção Civil de Açailândia/MA
136 Sindicato dos Trabalhadores nas Indústria Madeireiras de Sindicato operário
Movelaria de Açailândia/Ma
137 SINTRAFE - Marabá/PA Sindicato urbano
138 Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos ONG
139 Sociedade Paraense de Direitos Humanos ONG

21 Fórum Carajás outubro de 2010


Impactos e resistências em Açailândia,
profundo interior do Maranhão

Açailândia: terra do açaí

Dário Bossi1, em abril de 2010

O
s antigos romanos costumavam dizer “nomen omen” (o destino de algo está em seu pró-
prio nome); no caso de Açailândia, cidade do açaí, o ditado foi desmentido e a identidade
do município foi rapidamente alterada em “cidade do ferro”.
Ainda pior o que aconteceu com uma de suas periferias. Piquiá era o nome que os moradores esco-
lheram, valorizando uma das árvores mais elegantes da região. Mas logo que as empresas chegaram, trans-
formaram o mesmo nome no acrônimo “Parque Industrial Químico Açailândia”!
Atrás dessa violação de identidade há uma violência simbólica sobre a vocação de um território e de
um povo. Nesse artigo tentaremos detalhar os passos dessa violência e mostrar os movimentos de resistên-
cia e organização popular.

1 Missionário Comboniano, residente no município de Açailândia, oeste do Maranhão e militante da campanha ‘Justiça nos Trilhos’- www.
justicanostrilhos.org
Açailândia tem pouco mais de cem mil habi- Os atores do “desenvolvimento” e
tantes distribuídos numa área de cerca de 5.806 Km². suas vítimas
O Produto Interno Bruto (PIB) é de 1.410.298.000
R$2 . Com o preço do ferro-gusa antes da crise, ape- a. O Projeto Grande Carajás e a Estrada de Fer-
nas uma siderúrgica no município exportava por ano, ro Carajás4
produtos com valor correspondente a mais de 600
milhões de R$3 . O Programa Grande Carajás (PGC), criado
pelo Governo Federal em 1980, foi o fator que pro-
Por que a siderurgia guseira decidiu investir piciou a instalação do setor siderúrgico na região. O
nessa cidade? PGC surge como um incentivo adicional do governo
para os investimentos privados na região amazônica,
Açailândia se encontra no eixo de duas im- juntamente com o Projeto Minério de Ferro Carajás
portantes rodovias: a BR 010 Belém-Brasília e a BR (PMFC), localizado no município de Marabá (PA)5 e
222, que liga o município a São Luís. O trânsito de controlado pela companhia Vale. O projeto controla
caminhões e veículos é intenso. O município é pon- 10,6% do território nacional. O PGC foi considerado
to de passagem para várias regiões do país, como a um dos maiores programas de desenvolvimento in-
Norte e Nordeste. tegrado numa área de floresta tropical úmida.
Em Açailândia cruzam-se também duas im- A chegada da ferrovia e suas operações cres-
portantes ferrovias: os 892 Km da Estrada de Ferro centes determinaram boa parte dos investimentos
Carajás, que une Parauapebas no Pará com o porto industriais na região. Ao lado da ferrovia, no distri-
de Itaqui em São Luís; e a Ferrovia Norte-Sul, 720 to industrial de Piquiá, instalou-se um grande polo
Km de trilhos, até Palmas no Tocantins (parte ainda Petroquímico, estação de redistribuição para Mara-
está em construção). Ambas estão cedidas em con- nhão, Pará e Tocantins do combustível que chega de
cessão à mineradora Vale, que garante o escoamento navio em São Luís.
de mercadorias e recursos e lucra a partir disso. No final dos anos 80 instalaram-se também
A abundância de terra livre na região foi des- várias usinas siderúrgicas (atualmente 11 no Pará e
de sempre um grande atrativo para os investimen- 7 no Maranhão). Pelo Projeto Grande Carajás, esse
tos no território. A bibliografia de estudos sobre a deveria ser o primeiro passo rumo a “um complexo
região indica que tudo começou no final da década industrial metal-mecânico”, tendo como primeiro
de 1960. Numa seqüência altamente destrutiva, que estágio as indústrias sídero-metalúrgicas. Foi pre-
passou pelos ciclos da madeira nobre, das serrarias, visto que “os encadeamentos para frente das ativida-
dos pastos e gado, do carvão e do eucalipto. des siderúrgicas engendrariam a criação de um par-
que metal-mecânico, cujo porte ensejaria a criação
A região tornou-se interessante também devi- de pelo menos 44 mil empregos diretos no ano de
do à relativa riqueza de água: rios, córregos e lagoas 2010”6
hoje desfrutados também pelas empresas instaladas As promessas desse grande investimento in-
no local. Em razão de tudo isso, a cidade tornou-se dustrial, como quase sempre acontece, nunca se re-
uma etapa obrigatória do dito desenvolvimento, que alizaram nessas proporções. Açailândia, segundo
infelizmente passa por ela sem deixar amadurecer maior pólo de produção siderúrgica, entre os qua-
muitos frutos no local. Minério e ferro vão e vêm,
mas o retorno econômico e o tal de ‘progresso’ para
em Açailândia somente nas mãos de poucos. 4 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005 - http://www.car-
vaocidadao.org.br/ata/relatorio_social.htm
5 CARNEIRO, Marcelo Sampaio. Crítica social e responsabilização
empresarial. Análise das estratégias para a legitimação da produção
siderúrgica na Amazônia Oriental, Cad. CRH v.21 n.53 Salvador
2 IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, maio/ago. 2008, disponível em www.scielo.br
2006. 6 BRASIL. 1989. Secretaria de Planejamento da Presidência da Repú-
3 www.vienairon.com.br – Exportação anual de 500.000 ton de ferro blica. Programa Grande Carajás. Secretaria Executiva. Plano-diretor
gusa, com um preço antes da crise de 750 $ por tonelada. do Corredor da Estrada de Ferro Carajás. Brasília, NATRON. 536p.

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tro localizados ao longo da EFC, no final do ano de escrita do Sindicato dos Ferroviários ao Ministério
2007 empregava no setor de transformação (princi- Publico do Estado (MPE) e à Agência Nacional de
pal mas não unicamente siderúrgico) somente 2.568 Transportes Terrestres (ANTT), a rotina da viagem
pessoas!7 Ao contrário, como veremos logo a seguir, era marcada pelo atraso. Havia queixas ainda sobre
o impacto sócio-ambiental desses novos empreendi- a postura pouco ética da companhia para com os
mentos na região foi enorme. passageiros.
A ferrovia influiu pesadamente sobre o de- Os moradores na beira dos trilhos não conse-
senvolvimento da região e determinou a construção guem conviver com o barulho provocado pelos trens.
de uma cadeia completa de extração e elaboração Um incômodo permanente. As casas mais próximas
do ferro. A cadeia é voltada para a exportação, com dos trilhos sofrem com rachaduras. Os acidentes são
agregação de valor muito baixa para o povo mara- freqüentes, com um número significativo de mortes
nhense. A economia extrativa é marcada por várias por atropelamento de pessoas e animais. Até o ins-
contradições: por exemplo, o contraste entre os va- tante não existe uma política específica da empresa
lores que diariamente passam pelos trilhos e a mi- para lidar com esse problema. Segundo Relatório de
séria de muitos barracos que há anos permanecem Sustentabilidade da própria empresa, o número de
à beira da ferrovia em condições indignas de seres acidentes de trem nos últimos anos foram 59 (2005),
humanos. 63 (2006) e 46 (2007). A vida das pessoas, pelo jeito,
No ano passado a Vale transportou cerca de é menos importante do que o transporte de minério,
100 milhões de toneladas de minério. Ao preço de que tem mais ‘peso’.
2009, uma tonelada de minério custava R$71,00. Uma análise desse tipo é confirmada também
Portanto, a cada dia Vale transporta mediamente pelo fenômeno dos “Meninos do trem”. Trata-se de
333.000 toneladas, por um valor de R$ 21,3 milhões. meninos e meninas que viajam de maneira irregular
Isto quer dizer que a cada dia passam em frente do nos trens de minério da Companhia Vale ao longo da
povo de Açailândia cerca de R$50 milhões. Conside- Estrada de Ferro Carajás. São crianças e adolescen-
rando que essa exportação é desonerada de impostos, tes que têm acesso de maneira clandestina ao trem,
por conta da Lei Kandir, pode-se imaginar os níveis viajando de Marabá ou Parauapebas até São Luís,
de lucro da grande companhia multinacional. ou vice-versa. Quando descobertos pela segurança
Vamos conhecer mais de perto os trilhos da da Companhia, são entregues ao Conselho Tutelar
Estrada de Ferro Carajás (EFC), sobre os quais des- mais próximo, cuja tarefa será de fazer o registro de
de abril de 2008 corre o maior trem do mundo: 330 ocorrência e devolvê-los (a custo da Vale) às suas
vagões, cerca de 3.500 metros de extensão e capa- famílias em seus municípios de origem.
cidade para transportar 40 mil toneladas. Quatro lo- O fenômeno tem crescido consideravelmente
comotivas para cada trem, uma frota total de 205. A a cada ano e tem complicado muito a atuação ordi-
cada dia passa uma média de 10 trens de minério. nária dos Conselhos Tutelares da região. O MPE en-
Mais dois ou três de soja; e dois ou três com outros trou com uma representação a respeito, com o título
produtos, como minério para siderúrgicas e combus- “Meninos do Trem da Vale – Situação de Risco”8 .
tível para o pólo petroquímico, etc. Os meninos do trem estão expostos a toda sorte de
Sem falar dos trens vazios que voltam de São perigos. Desde a contaminação pelo minério, até as
Luís para serem recarregados na mina. condições climáticas diversas, além da viagem sem
Ao contrário, o trem de passageiros, - uma a proteção ou orientação de um adulto responsável.
obrigação da Vale pela concessão estadual de uso “Pelos vagões do trem de ferro, quem leva a
da ferrovia - é garantido somente uma vez a cada carga são os meninos. Com uma realidade que os ex-
dois dias. No fim de 2009, antes da representação pulsa, em péssimas condições socioeconômicas, em

7 Ministério do Trabalho e Emprego/Cadastro Geral de Empregados 8 Procedimento n. 116/05 – Ministério Público do Estado do Mara-
e Desempregados. nhão

Fórum Carajás outubro de 2010 24


Estados com baixo Índice de Desenvolvimento Hu- Desde suas instalações, as guseiras da re-
mano (IDH), sem a atenção dos órgãos competentes, gião de Carajás receberam colaboração financeira
sem políticas públicas específicas para a criança e o através de recursos públicos oriundos do Fundo de
adolescente e sem acesso aos bens básicos para uma Investimentos do Nordeste (FINOR) e do Fundo de
vida digna, resta a estes meninos e meninas pegar Investimentos da Amazônia (FINAM). Uma vez
carona naquele que parece ter sido um dos motivos aprovados os projetos, seus signatários recebiam até
de tamanha desordem social. O trem de carga, que 75% do valor total indicado como necessário à im-
carrega minérios e meninos, parece anunciar através plantação do parque industrial e à aquisição de áreas
do seu apito que esta carga está pesada demais, es- destinadas ao desenvolvimento de supostos projetos
pecialmente para os meninos do trem” 9. de “manejo florestal” ou de reflorestamento10.
A perspectiva da duplicação dos trilhos, já A aprovação dos projetos exigiu só formal-
planejada e em fase de realização, assusta os mora- mente uma série de condicionantes ligadas ao licen-
dores de Açailândia e do corredor inteiro, devido à ciamento ambiental. É muito difícil conseguir junto
evidente duplicação de todos os problemas até agora à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA) os
mencionados. documentos de licenciamento. Nossa equipe de pes-
quisa reiterou o pedido à SEMA e a visitou várias
b. As usinas siderúrgicas vezes antes de conseguir dados somente de três das
cinco siderúrgicas, recebendo inclusive três proces-
Em Açailândia encontram-se cinco empre- sos de licenciamento vencidos e não renovados.
sas siderúrgicas: Viena Siderúrgica (capital próprio, Parece claro que, pela facilidade de instala-
em operação desde 1988), Simasa e Pindaré (Gru- ção e a ausência/cumplicidade do poder público, as
po Queiróz-Galvão, 1993), Gusa Nordeste (Grupo siderúrgicas da região de Carajás acumularam enor-
Ferroeste, 1993), Fergumar (Grupo Aterpa, 1996). mes lucros ao longo dos últimos anos. No período
A tabela seguinte dá as dimensões das usinas, com entre 2000 e 2008 o volume de ferro gusa exportado
dados de 2006 (em itálico os dados de algumas side- duplicou, mas o valor dessa exportação quase decu-
rúrgicas de Marabá): plicou, passando de cerca de US$ 165 milhões em

Consumo médio
Nº de Produção média Relação
Nº de alto - anual de
Siderúrgica funcionários anual de ferro consumo/
fornos
próprios gusa (em ton) 3 produção
carvão(emm )
FERGUMAR 2 234 216.000 480.000 2,22
GUSA NORDESTE 2 218 216.000 540.000 2,50
SIMASA/ PINDARÉ 5 650 564.000 1.440.000 2,55
VIENA 5 560 480.000 900.000 1,88
FERRO GUSA CARAJÁS 2 243 400.000 1.057.000 2,64
USIMAR 2 500 180.000 360.000 2,00
Fonte: Pesquisa de Campo IOS. Elaboração: Instituto Observatório Social.

10 MONTEIRO, Maurílio de Abreu . Siderurgia na Amazônia Orien-


tal brasileira e a pressão sobre a floresta primária. In: II Encontro da
Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ambiente e
9 SOUZA, Emilene Leite. “De passagem”. Universidade Federal do Sociedade - ANPPAS, 2004, Indaiatuba-SP. Anais do II Encontro da
Maranhão/UFMA Imperatriz - CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ambiente e
SAÚDE E TECNOLOGIA/CCSST 2009 Sociedade. Indaiatuba : ANNPAS, 2004. v. 1. p. 1-19

25 Fórum Carajás outubro de 2010


2000 para US$ 1,5 bilhão em 2008. Este crescimen- nativas – corresponde a um desmatamento de pelo
to tornou-se possível pelo salto do preço médio do menos 600 m² de matas primárias.
ferro gusa exportado, que passou de US$ 99,6/ton Em 2005, por exemplo, as empresas siderúr-
para US$ 445,6/ton no mesmo período”11. gicas da região de Carajás produziram 4 milhões de
Também em tempos de crise, apesar de um toneladas de ferro-gusa12, o que corresponderia ao
discurso preocupado e resignado à solução inevitá- consumo de 240.000 hectares de mata nativa. Na-
vel da demissão dos funcionários, as siderúrgicas quele ano, conforme dados da Associação das Si-
não pararam de vender e lucrar. Carneiro e Ramalho derúrgicas de Carajás – ASICA, a percentagem de
(2009) sinalizam que, até o final de 2008, uma pe- origem do carvão vegetal era de 49,6% da mata na-
quena redução na quantidade exportada, pouco mais tiva e 50,4% de reflorestação com espécies exóti-
de 67 mil toneladas, foi mais do que compensada cas. Portanto, somente em 2005, as siderúrgicas da
pelo valor exportado, com um aumento de cerca de região de Carajás queimaram para produzir carvão
498 milhões de dólares quando comparado ao ano cerca de 120.000 hectares de mata nativa.
anterior. Vamos fazer um outro exemplo no caso do
Ainda conforme os dados de Carneiro e Ra- eucalipto. Para produzir uma tonelada de ferro gusa
malho (2009), os dados oficiais das exportações precisa de 3,8 m³ de eucalipto (ou 5,8 m³ de mata
brasileiras, demonstram de forma inequívoca que as nativa). A siderúrgica Viena atualmente produz
empresas guseiras do Pará e Maranhão finalizaram o 500.000 toneladas de ferro gusa por ano; precisaria
ano de 2008 com grandes lucros. Sem dúvida, as de- portanto, uma vez que se tornar auto suficiente com
missões podiam ser evitadas ou atrasadas, sem que seu parque de monocultura, de 54.000 hectares de
o peso da crise pesasse somente sobre as costas dos eucalipto ao ano, 1,6% da superfície do Maranhão.
mais fracos. Veja na tabela a seguir as previsões que as
Além de desempregada, a população compar- empresas fizeram em 2005 a respeito da interrupção
tilha o pesado impacto sobre o meio ambiente. É ela do corte de mata nativa (fonte: ASICA).

Área
% de carvão
adquiri da Área plantada Ano meta para ser
Siderúrgica produzido em
para plantio (em ha) auto-suficiente
carvoarias próprias
(em ha)
FERGUMAR 10.000 6.000 0% Não há previsão
GUSA NORDESTE 27.000 10.000 0% 2010
SIMASA/ PINDARÉ 56.000 17.500 20% 2012
VIENA 52.000 20.000 55% 2011
FERRO GUSA CARAJÁS 75.000 32.000 100% Já é
USIMAR 3.000 0 0% Não há previsão

quem socializa os desastres ambientais ao longo de Nos últimos anos, com a intensificação da
mais de duas décadas. Dados tabulados por Mon- fiscalização nas fazendas pelo Grupo Especial de
teiro (2004), indicam que para produção de uma Fiscalização Móvel, as empresas siderúrgicas da re-
tonelada de ferro-gusa são necessários 875 kg de gião foram acusadas pelo Ministério Público Fede-
carvão vegetal, cuja produção, por sua vez, requer a ral de se beneficiarem da escravidão para produzir o
utilização de pelo menos 2.600 kg de madeira seca, ferro gusa. Muitas delas tiveram que pagar quantias
elevadas em indenizações para os trabalhadores que
que – quando se utiliza lenha originária de matas
produzem o carvão.

11 CARNEIRO, M e RAMALHO, R. A crise econômica mundial e


seu impacto sobre as empresas de ferro-gusa: algumas informações
sobre o desempenho recente das empresas guseiras e o desemprego
no município de Açailândia. 2009. 12 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005.

Fórum Carajás outubro de 2010 26


Em 1999, visando adequar o trabalho desen- Os estudos demonstram várias formas de po-
volvido nas carvoarias, as siderúrgicas do estado do luição geradas pelas usinas. As águas de resfriamen-
Maranhão firmaram um Termo de Ajustamento de to, por exemplo, são bombeadas do ribeirão Piquiá,
Conduta (TAC) junto ao Ministério Público do Tra- escorrem pela superfície externa dos alto fornos e
balho (MPT) e à Procuradoria Regional do Trabalho, logo voltam ao rio Piquiá aquecidas e contendo fer-
envolvendo, também, empreiteiros e fornecedores ro e outros solutos, passando nesse percurso pelos
.Hoje13, percebe-se uma melhoria efetiva das condi- quintais das casas próximas às siderúrgicas.
ções de trabalho nas carvoarias, mesmo assim ainda Além de problemas ao meio ambiente, o pro-
existem numerosas carvoarias clandestinas. cesso pode gerar contaminação para os moradores
Além do desmatamento e do trabalho escravo, por meio da alimentação. O excesso de ferro arma-
há em Açailândia o grave problema da poluição, que zenado e não absorvido pelo organismo pode gerar
afeta povoados inteiros, parcialmente preexistentes graves conseqüências para o fígado e as células car-
à instalação das siderúrgicas. É o caso de Piquiá de díacas das pessoas. Pela ausência de uma rede de
Baixo. Em abril de 2008 a Associação Comunitária captação das águas fluviais internas ao pátio, toda
de Pequiá de Baixo procurou o Centro de Defesa a escória de ferro e carvão da produção acaba es-
da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CD- correndo também no mesmo riacho logo abaixo dos
VDH) e a Paróquia São João Batista. A parceria visa empreendimentos.
enfrentar o problema da poluição provocada pelas A escória vitrificada não é devidamente tra-
siderúrgicas no distrito industrial. tada, mas descartada no ambiente, podendo gerar
A Associação Comunitária há tempo buscava intoxicação de plantas, animais e pessoas. O vento
denunciar a situação, batendo sem sucesso à porta levanta a poeira e o “pó de balão”. O pó é uma sobra
de diferentes instituições. A aliança dos moradores da produção amontoada em cúmulos ao lado das ca-
de Piquiá de Baixo com o CDVDH e a Paróquia São sas. O próprio britador que reduz a sobra em partícu-
João permitiu coordenar melhor as ações, partindo la do fino levanta muita poeira, que cai em cima das
da oportunidade de um primeiro processo instituído casas. No fim de 2009, uma das cinco siderúrgicas
contra uma das siderúrgicas: a Gusa Nordeste. encontrou uma maneira de evitar esses depósitos.
De fato, em novembro de 2005, 21 famílias Outro aspecto relevante: nenhuma das cha-
moradoras de Piquiá de Baixo ( mais próximas fi- minés dos 14 alto fornos das siderúrgicas possui
sicamente à empresa) denunciaram por danos a po- filtro de manga. À fumaça acrescenta-se partícula
luição produzida pela a siderúrgica Gusa Nordeste, do fino de carvão que se levanta em grandes nuvens
exigindo indenização. Depois de quase quatro anos, pretas toda vez que a combustão não é regular e pre-
apesar da pressão e do apoio popular, repetidas ve- cisa “desentupir” o forno.
zes solidário à causa daquelas famílias, os procedi- Recentemente a Gusa Nordeste instalou uma
mentos legais ainda não se concluíram. termelétrica alimentada pelas próprias emissões de
Com o objetivo de verificar a existência de seus fornos. Isso lhe garante a produção de energia
relação entre os casos denunciados pelas famílias14 elétrica para uso interno e, posteriormente, a possi-
com as atividades da empresa, a juíza da segunda bilidade de obter recurso com a venda de créditos de
vara da Comarca de Açailândia encomendou uma carbono. Apesar disso, o sistema não consegue con-
perícia ambiental nas dependências da empresa e ter todas as emissões das chaminés dos alto fornos, e
nas residências das famílias . Esse estudo somou-se o povo continua tendo sua dívida de oxigênio.
a um outro, encomendado pelo CDVDH, a respeito Em setembro de 2001, mais um acidente ter-
da poluição hídrica pelas siderúrgicas15. rível humilhou e fez violência sobre o povo. Acon-
teceu com Gilcivaldo, 7 anos, em busca de alguns
pedaços de carvão para esquentar a comida em seu
13 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005.
14 Relatório de Perícia Ambiental apresentado à Segunda Vara Judi- barraco. Avançou demais no monte de ‘munha’, uma
cial da Comarca de Açailândia, dr. Ulisses Brigatto Albino, Impera- escória incandescente depositada pelos caminhões
triz 2007. Perícia realizada dia 05 de Dezembro de 2006.
15 Estudo preliminar da situação ambiental da população de Piquiá,
das siderúrgicas, numa área livre e não protegida, ao
eng. Mariana de la Fuente Gómez, Açailândia 2007. lado do povoado.

27 Fórum Carajás outubro de 2010


A munha esfria-se em superfície, mas se cessárias aproximadamente 450 mil toneladas/ano
mantém muito quente logo abaixo. O amontoado de de ferro gusa em estado líquido, transportado por
escória amoleceu e as pernas do adolescente acaba- caminhões especiais que saem da Gusa Nordeste e
ram se queimando até a bacia. Depois de 20 dias das outras siderúrgicas de Açailândia. Para a produ-
de agonia, Gilcivaldo faleceu. Acidentes desse tipo ção do aço precisará esquentar ulteriormente o ferro
aconteceram também com outras pessoas e animais gusa. O processo acontecerá inteiramente (ao dizer
que acabaram se queimando e prejudicando a pele e dos empresários) pela queima de oxigênio líquido,
às vezes parte das pernas. material muito caro que deverá vir do sul do País.
Por causa de toda essa injustiça, o povo de Para o esfriamento do processo de produção,
Piquiá de Baixo vive revoltado e luta há anos por serão necessários 200 m³ de água por hora. O Rela-
direitos e moradia. Quase todos os moradores estão tório de Impacto Ambiental (RIMA) da aciaria ga-
de acordo em sair do lugar. Negociam com as usinas rante que toda essa água será mantida em constante
e o poder público o deslocamento do povoado para circulação interna e bombeada através de poços ar-
uma nova região. A mediação é do Ministério Pú- tesianos. A construção da usina deve durar três anos
blico e a assessoria do CDVDH e da Paróquia São e a estimativa de geração de emprego gira em torno
João Batista. de 1.000 postos. Existe a promessa de geração de
Sobre a situação ainda ambígua das siderúr- mais 1.000 empregos entre diretos e indiretos, no
gicas na região de Carajás, Monteiro (2004:1) dis- ápice da produção.
para que: Os movimentos populares acolhem com sa-
tisfação a aciaria, pois ela traz o tão esperado iní-
Em que pese a produção siderúrgica ainda hoje cio da verticalização da produção no contexto local,
estar presente no discurso de diversos e amplos permitindo a valorização do trabalho maranhense e
segmentos sociais como elemento de moderni- dos recursos de nosso subsolo.
zação regional, ela cumpre um papel distinto,
Porém existem inúmeras dúvidas e inquietu-
conquanto amplia a pressão sobre a mata pri-
des. Uma das maiores recai sobre os investimentos
mária, caotiza diversos espaços urbanos; refor-
ça segmentos sociais que articulam a sua lógica
para a construção desse novo empreendimento. O
produtiva à exploração predatória dos recursos Banco do Nordeste irá financiar 300 milhões de re-
naturais, como os madeireiros, ou com grupos ais somente na primeira fase. Por que, perguntam os
sociais para os quais a grande propriedade fun- movimentos numa carta aberta à cidade - tão grande
diária é fonte de poder social, como os fazendei- investimento sem ter resolvido ainda os graves pro-
ros; amplia as tensões no campo e os conflitos blemas de poluição e impacto que o resto das ativi-
fundiários; e intensifica os esquemas de submis- dades está gerando há vinte anos?
são da força de trabalho à baixa remuneração e a Mais uma vez a lógica do lucro incondicional
condições de trabalho insalubres.
parece prevalecer acima de qualquer outro direito.

c. A aciaria – um capítulo recente d. Os fornos de Califórnia
Em maio de 2008 o Estado do Maranhão e Ao lado do assentamento Califórnia, com
a Gusa nordeste de Açailândia assinaram um pro- mais de 1.800 moradores assentados há 13 anos, ins-
tocolo de intenções para a instalação de uma acia- talou-se em 2005 o empreendimento da Ferro Gusa
ria na cidade. O novo empreendimento prospecta a Carajás (FGC). A empresa controlada pela Vale se
produção de 500.000 toneladas anuais de tarugo de dedica à produção de carvão vegetal destinado a ali-
aço (Billet), que tem tanto uso industrial doméstico mentar a siderúrgica da Vale em Marabá. O empre-
como para exportação. O Billet é o semi acabado endimento é conhecido como Unidade de Produção
utilizado como matéria-prima para a laminação de de Redutor (UPR), que é o carvão para siderurgia.
aços longos (vergalhões, fio máquina, perfis, barras A Licença de Instalação foi emitida pelo Pro-
mecânicas etc.). cesso nº. 2334/03, prevendo um pátio de carboni-
Para produzir a capacidade total, serão ne- zação composto por 64 fornos retangulares e uma

Fórum Carajás outubro de 2010 28


estimativa de produzir 94 ton/
dia de redutor (carvão vegetal) .
Na realidade, foram construídos
72 fornos retangulares e 7 for-
nos de tamanho menor (fornos a
meia laranja), ocupando ao todo
uma área de 1.185m². Cada forno
retangular tem capacidade para
102m³ de madeira enfornada, ou
83m³ de carvão cada.
Cada queimador de gás é
planejado por oito fornos, portan-
to deveriam ter sido implementa-
dos 9 queimadores de gases. Na
realidade, atualmente existem
somente 2 queimadores. O pri-
meiro começou a funcionar em
novembro de 2008, o segundo
em fevereiro de 2009. Atualmen-
te, ambos estão quebrados e não
funcionam.
Pode-se concluir, então,
que de 2005 até 2009 os mora-
dores do assentamento Califórnia
respiraram a fumaça emitida por
todos os fornos em funcionamen-
to. Recentemente, a FGC fechou
metade dos fornos para diminuir
as emissões. Ao dizer da empre-
sa, isso foi devido à preocupação
pela poluição. Sabe-se porém
que a escolha deve-se à redução
de produção de ferro gusa em de-
forme o Relatório de Controle recebeu um relatório oficial sobre
corrência da crise mundial. Atu-
Ambiental, para a avaliação da a poluição do ar; só chegaram al-
almente funcionam só 4 das 11
qualidade do ar deveria ser mo- guns relatórios por e-mail. A pró-
unidades que alimentavam a si-
nitorado o parâmetro ‘partículas pria Secretaria Estadual de Meio
derúrgica da Vale em Marabá. A
totais em suspensão’ (PTS). Para Ambiente não quis levar até o fim
perspectiva em médio prazo para
isso, deveria ser instalado um a ação contra a FGC. Apenas no-
a FGC de Marabá é queimar car-
equipamento do tipo Hi-Vol a ju- tificou a firma novamente em ou-
vão mineral da África.
sante da área do empreendimento, tubro de 2008, mas nunca recebeu
A medição da qualidade
com relação à direção predomi- resposta a essa notificação, nem
do ar nem sempre foi efetiva. No
nante dos ventos. assumiu nenhuma providência
Plano de Gestão da Qualidade, o
Também nesse caso, foi so- por isso.
artigo previa a execução de um
mente em 2008 que dois medido- Há exemplos em profusão.
programa de avaliação da quali-
res foram instalados. Até outubro Os assentados entregaram um lau-
dade do ar e de acompanhamento
do mesmo ano, a SEMA nunca do médico à SEMA dando conta
da operação do queimador. Con-

29 Fórum Carajás outubro de 2010


de vários problemas respiratórios, agosto a fábrica paulista Suzano caia sobre Açailândia. Uma terra
de pele e de vista em função da Celulose estará consolidando o marcada por uma distorcida visão
fumaça dos fornos, especialmente seu programa de retirada compul- de desenvolvimento.
para com idosos, bebês e crian- sória de comunidades tradicionais
ças. da região dos cocais e do Tocan- As respostas organizadas
No decorrer dos três anos tins. (…) O complexo de planta- do povo
de difícil convivência com a ção do eucalipto envolve, só na
carvoaria, a comunidade de Ca- região dos cocais, 21 cidades e Apesar dos conflitos, ou
lifórnia por diversas vezes enca- atinge centenas de povoados, co- talvez exatamente em função
minhou denúncias ao Instituto munidades tradicionais: quilom- deles, o povo de Açailândia, as
Brasileiro dos Recursos Naturais bolas e agricultores familiares, comunidades e movimentos não
Renováveis (IBAMA), ao Minis- atingindo principalmente seu desanimam e tentam se organizar.
tério Público Estadual e Federal, modo de viver, produzir e repro- Um primeiro sinal disso é a re-
à Vigilância Ambiental, às Secre- duzir-se socialmente.” . sistência teimosa dos moradores
tarias Municipais de Saúde e de A própria empresa utilizou de Piquiá de Baixo e de Califór-
Meio Ambiente. Representantes a expressão “bota-fora” em seu
nia. Humildes e iniciantes na luta,
do assentamento estiveram várias termo de referencia (Projeto SPC
mas corajosos e até agora muito
vezes em audiências com repre- 1008). Um dos principais motivos
unidos.
sentantes destes órgãos cobrando que leva a Suzano a instalar-se no
A própria arte se coloca a
providencias, chegando inclusive Maranhão é o grande volume de
serviço dessa resistência e tenta
a convidar estes para duas assem- água necessário para atender às
moldar junto ao povo um sonho
bléias no assentamento. Ninguém demandas de produção de celulo-
concreto de libertação. Os jovens
da representação pública compa- se. O medo dos moradores da re-
do grupo Juventudes pela Paz (Ju-
receu. gião é o que vai acontecer de suas
paz) montaram uma peça a partir
O povo de Califórnia é reservas de água e da esperança
conhecido pelo histórico de luta. das histórias e dos contos dos mo-
cada vez mais fraca de refloresta-
Em março de 2008 os assentados, radores de Piquiá . Ver-se repre-
mento com espécies nativas.
com o apoio do MST, promove- sentados no corpo e nas vozes de
As florestas vendidas à Su-
ram um ato político de ocupação outros redobra as energias e espe-
zano eram anteriormente da Vale.
simbólica da fazenda Monte Líba- ranças dos lutadores daquele bair-
Somam 84.500 hectares de terra,
no e de interrupção temporária da ro, e multiplica na consciência de
sendo 34.500 hectares plantados
BR 010. O ato tornou-se notícia outros uma luta que deve ser de
com eucaliptos. A implantação
nacional e facilitou a mobilização todos e todas.
de mais esta indústria de celulose
dos órgãos públicos e da fiscali- Um outro eixo de denúncia
tem como objetivo elevar a capa-
zação da área. Infelizmente, ainda e proposta articulada de alternati-
cidade de produção de celulose e
hoje em muitos casos o povo con- vas é a campanha “Justiça nos Tri-
papel, das atuais 4,3 milhões de
segue se fazer escutar pelo gover- lhos”, que tem em Açailândia uma
toneladas por ano até 7,2 milhões
no somente engrossando a voz. de suas bases e pontos de divulga-
de toneladas.
ção. A campanha visa desmasca-
Os investimentos da Suza-
e. A Suzano e o deser- rar a violência da companhia Vale
no podem chegar a US$ 700 mi-
to verde e seus impactos sócio-ambientais.
lhões entre 2008 e 2015 na forma-
Além disso, propõe mecanismos
No meio de todos esses ção florestal no Maranhão . São
concretos de repartição do lucro
conflitos sócio-ambientais, o que Luiz do Paraitinga (SP), Nazária
ao longo dos trilhos e articula as
os movimentos temiam se fez (PI), Santa Quitéria (MA), Euná-
vítimas da multinacional em nível
concreto: a Suzano chegou. A em- polis (BA): a lista de municípios
de Brasil e exterior. Nasceu no
presa logo alcançou certa fama na e territórios em conflito com a Su-
final de 2007 sob a coordenação
região. “No período de 05 a 31 de zano é grande. Inquieta imaginar
de Missionários Combonianos,
que talvez mais esse desafio re-

Fórum Carajás outubro de 2010 30


Fórum Carajás, Sociedade Maranhense de Direitos anos e junta lideranças populares do município.,
Humanos, Fórum Reage São Luís, Cáritas Mara- onde a construção da cidadania, do controle social e
nhão, Sindicato dos Ferroviários e CUT. A campa- de todos os mecanismos de participação acontecem
nha alcançou em breve tempo os atingidos pela Vale de forma interativa, mediante a pesquisa coletiva e
em MA, MG, PA, RJ, Peru, Argentina, Chile, Equa- a troca de saberes. Será desse curso e a partir dessa
dor, Moçambique e Canadá . rede que Açailândia terá novos conselheiros de di-
Ainda em Açailândia, em tempos de crise e reito, mais preparados/as e fortalecidos pelas alian-
desemprego, uma aliança entre movimentos sociais ças transversais que deverão se tecer nos próximos
permitiu a criação do “Movimento Popular em fa- meses.
vor da Justiça e da Dignidade Humana”. Trata-se de “Que desenvolvimento é esse?” - pergun-
uma rede de entidades, associações de moradores, tava o povo de Piquiá de Baixo com seus cartazes
sindicatos, comunidades cristãs em busca de enca- na manifestação em frente ao Fórum da Comarca
minhamentos locais para minimizar o impacto da de Açailândia. É a pergunta que ressoa ao longo de
crise e buscar alternativas e enriquecimentos para todo esse texto: qual é o mundo que sonhamos e que
o modelo produtivo de Açailândia, marcado pela gostaríamos de entregar para nossos filhos? E os
fragilidade e pouca diversificação. Esse movimento moradores, filhos primogênitos desse jovem muni-
organizou em maio de 2009 um grande seminário cípio de somente 26 anos, que mundo receberam no
sobre crise e desemprego. Um marco importante no começo da cidade? O que sobrou de tanta riqueza
município para provocar uma reflexão comum sobre natural? Em que direção queremos trilhar o tal de
temas tão delicados. ‘progresso’?
Último sinal de esperança e de organização Voltará o município a ser a “cidade do açaí”,
popular é a Rede de Cidadania. Ela existe há dois à sombra dos saudosos piquiás?

foto: Nils Vanderbolt

31 Fórum Carajás outubro de 2010


Referências
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IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de mica mundial e seu impacto sobre as empresas de
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www.vienairon.com.br – Exportação anual de nho recente das empresas guseiras e o desemprego
500.000 ton de ferro gusa, com um preço antes da no município de Açailândia. 2009.
crise de 750 $ por tonelada
Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005
Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005 Relatório de Perícia Ambiental apresentado à Se-
- http://www.carvaocidadao.org.br/ata/relatorio_so- gunda Vara Judicial da Comarca de Açailândia, dr.
cial.htm Ulisses Brigatto Albino, Imperatriz 2007. Perícia re-
alizada dia 05 de Dezembro de 2006
CARNEIRO, Marcelo Sampaio Crítica social e res-
Estudo preliminar da situação ambiental da popu-
ponsabilização empresarial. Análise das estratégias
lação de Piquiá, eng. Mariana de la Fuente Gómez,
para a legitimação da produção siderúrgica na
Açailândia 2007
Amazônia Oriental, Cad. CRH v.21 n.53 Salvador
maio/ago. 2008, disponível em www.scielo.br
Trabalho sim, Poluição não! - Carta aberta à cidade
de Açailândia e às autoridades sobre a nova aciaria
BRASIL. 1989. Secretaria de Planejamento da Pre-
em construção no Piquiá - Paróquia São João Ba-
sidência da República. Programa Grande Carajás.
tista, Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Hu-
Secretaria Executiva. Plano-diretor do Corredor da
manos, Sindicato dos Metalúrgicos, Associação dos
Estrada de Ferro Carajás. Brasília, NATRON. 536p
Moradores de Piquiá, Centro Comunitário Frei Tito,
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais,
Ministério do Trabalho e Emprego/Cadastro Geral Sintrasema, Sindimotaa, Associação Rádio Comu-
de Empregados e Desempregados. nitária Açailândia

Procedimento n. 116/05 – Ministério Público do es- Parecer Técnico da Superintendência de Fiscaliza-


tado do Maranhão ção, Licenciamento e Defesa dos Recursos Naturais
da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mara-
SOUZA, Emilene Leite. “De passagem”. Univer- nhão - Antônio Cesar Carneiro de Souza e Cláudia
sidade Federal do Maranhão/UFMA Imperatriz Cristina Ewerton Dominice, abril de 2008
- CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, SAÚDE E
TECNOLOGIA/CCSST 2009 CARNEIRO, Denilton - Povos, comunidades tra-
dicionais, políticas étnicas e desenvolvimento sus-
MONTEIRO, Maurílio de Abreu . Siderurgia na tentável. http://www.ecodebate.com.br/2009/08/15/
Amazônia Oriental brasileira e a pressão sobre a fabrica-de-celulose-promovera-bota-fora-nas-regio-
floresta primária. In: II Encontro da Associação es-dos-cocais-e-tocantins-no-maranhao-artigo-de-
Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Am- denilton-santos-carneiro/. Capturado no dia 15 de
biente e Sociedade - ANPPAS, 2004, Indaiatuba-SP. agosto de 2009.
Anais do II Encontro da Associação Nacional de Pós
Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. Peça teatral “E ao pó voltaremos” - direção Xico
Indaiatuba : ANNPAS, 2004. v. 1. p. 1-19 Cruz – Açailândia 2009

Fórum Carajás outubro de 2010 32


Itupanema em meio ao projeto
Albras – Alunorte: o desencanto do mundo
1
Gilvandro Ferreira Santa Brígida

A
literatura sobre os grandes projetos na Amazônia sinaliza sobre os passivos sociais e ambien-
tais. Os mais comuns são a pressão sobre os recursos naturais, o deslocamento de populações
consideradas tradicionais, o inchaço das cidades, a elevação do preço da terra e de aluguéis.
Assim o foi a experiência na comunidade conhecida como Itupanema, no município de Barcarena,
norte do Pará. O município abriga as principais indústrias da cadeia produtiva do alumínio do Brasil. O pre-
sente artigo tenta fazer o registro sobre o processo da presença das empresas Albrás e Alunorte, vinculadas
a Vale (a Vale Transferiu em Maio/2010 todas as suas participações na Albrás, Alunorte e da Companhia
de Alumina do Pará-CPA para a Norsk Hydro) e a desagregação social e ambiental em Itupanema, numa
peleja marcada pela desigualdade entre as partes envolvidas.
O trabalho coletivo na terra é uma prática social desenvolvida secularmente pelos agricultores/ribei-
rinhos e extrativistas da Amazônia. Entre as particularidades tem-se a distribuição de tarefas por gêneros
ou por faixa etária. A reprodução das práticas é produto de socialização no meio familiar. A relação de
colaboração permite que os grupos familiares enfrentem as adversidades.

1 Sou bacharel e licenciado pleno em Ciências Sociais, com ênfase em Sociologia. UFPA.
As famílias praticam a agricultura de subsis- dade de fazer frente ao processo de expansão e de
tência, na qual o agricultor procura assegurar para desenvolvimento econômico das empresas e contra
sua família o alimento necessário. E só depois co- a pauperização imposta aos antigos moradores do
mercializa o que sobrou. Esse processo de comércio espaço onde a fábrica se instalou.
era realizado de vez em quando através da “marreta- O problema da desapropriação volta à cena
gem ”.2 nos anos 1990, com a instalação das empresas do
O processo de urbanização no município co- projeto Caulim – Pará Pigmentos S/A e Rio Capim
aduna-se com a chegada do projeto ALBRAS/ALU- Caulim S/A, também vinculada ao grupo Vale. Em
NORTE, na década de 1980. As empresas integram 1993, a Companhia de Desenvolvimento Industrial
o portfólio da Vale, hoje Norsk Hydro. As radicais do Pará (CDI) desapropriou famílias que moravam
transformações consistiram na expulsão de grupos na localidade de Ponta da Montanha. Os moradores
familiares de seus sítios, na desagregação das famí- do local, situado em frente ao rio Pará, foram trans-
lias camponesas, onde a terra perde a condição de feridos para a área do Curuperé, situada nos limites
fornecedor de meio de subsistência, para transfor- da Vila do Conde3. A comunidade da Montanha ce-
mar-se em mercadoria. deu lugar para a construção do terminal portuário de
Tudo começou antes. Lá nos anos 1970. A exportação do caulim.
pressão sobre a terra e as riquezas vegetais e mine- Esta ocupação causou profundas transforma-
rais, através dos grandes projetos, agrava os emba- ções na estrutura produtiva, e no modo de vida da
tes sociais e a agressão ao meio ambiente na região população residente nas áreas atingidas. E princi-
amazônica. palmente quando estas mudanças não cessaram por
Os grandes projetos constituem-se em prin- completo, pois a cada dia surgem novos desafios.
cipal instrumento da política desenvolvimentista Entre eles como as “comunidades” atingidas devem
concebida pelo governo militar de 1964. Tal política criar novas estratégias de organização e de sobrevivên-
ressalta o potencial dos recursos naturais da região, cia, diante da força do capital que se implanta na Ama-
em particular as riquezas minerais e a hidrográfica. zônia, em particular em Bacarena.
Aos olhos dos estrategistas, a Amazônia não passava Barcarena registra novas tensões entre morado-
de vazio demográfico. Indígenas, ribeirinhos, qui- res tradicionais e empresas do grande capital em fase
lombolas e tantas outras variações do campesinato de instalação no município, como a refinaria chamada
local nunca existiam na cabeça dos militares. Companhia de Alumina do Pará (CAP)4. O projeto ado-
Os problemas ocasionados por esse mode- ta um processo de expulsão mais sofisticado e cruel do
lo de desenvolvimento só serão medidos nos anos que há trinta anos. A instalação da CAP tem derrubado
posteriores, a partir do deslocamento das famílias de casas dos moradores locais. Assim ficam impedidos
suas terras e convívio com questões até então total- de voltar. A expulsão dos moradores assemelha-se a
mente desconhecidas. um regime de exceção.
A luta pela terra: grandes corporações Há resistências, ainda que débeis. Mas, o iso-
versos comunidades tradicionais lamento e as técnicas de terror promovidas pela em-
presa acabam por fazer com que os moradores dei-
xem suas casas em troca de indenizações miseráveis,
Nos anos 1980 instala-se em Barcarena o
que não garantem a compra de outro imóvel com as
complexo de alumínio ALBRAS/ ALUNORTE,
mesmas características do anterior. O que assusta
parte do programa grande Carajás, provocando a
neste modelo é que tudo é feito com a conivência do
desapropriação de aproximadamente quinhentas fa-
estado, ou seja, institucionalizado. Como resultado
mílias. O modelo de projeto instalado em Barcarena
deste modelo tem-se a pauperização crescente do tra-
não internaliza riqueza no local. Assim explicam os
balhador rural, embora havendo algumas exceções.
tratados das academias.
A Associação dos Desapropriados de Barca-
rena nasce anos mais tarde. Emerge pela necessi- 3 Considerada conglomerado urbano de Barcarena, onde outras famí-
lias de antigos posseiros já habitavam.
4 O projeto transferido da Vale para a empresa norueguesa Norsk Hi-
dro (20%) e deve produzir 1,9 milhão de tonelada/ano na primeira
2 O processo consistia na mobilização de moradores para otimizar o fase e 7,4 toneladas no apogeu da produção. U$$2,2 bilhões devem
transporte de mercadorias até Belém. ser investidos. A previsão é a produção se inicie em 2011.

Fórum Carajás outubro de 2010 34


O Município de Barcarena rindo das ocupações mais recentes, que surgiram em
função do projeto ALBRAS – ALUNORTE, como:
30 km separam o município de Barcarena de Laranjal, bairro Pioneiro bairro Novo e Romeu Tei-
Belém, em linha reta. Na verdade, encontra-se sepa- xeira (CHAGAS, 2002). Entretanto, não se pode
rado de Belém pelo rio Pará e pela ilha das Onças, deixar de frisar que a expansão de Vila de Itupane-
sem os quais poderia ser visualizado a partir de Be- ma, deu-se em função da implantação do projeto Al-
lém. O município está estruturado para efeito admi- brás e Alunorte.
nistrativo com a seguinte configuração geopolítica: A Vila de Itupanema tinha seus mais antigos
Barcarena, sede e Distrito de Murucupi – (Vila dos registros de moradores vinculados à Freguesia de
Cabanos, Vila do Conde, Vila de São Francisco, Vila Beja, ou São Miguel de Beja, não se sabe ao certo.
de Itupanema, Vila Nova e Vila do Laranjal). Segundo os moradores mais antigos a deno-
Segundo ROCQUE (1994), reza a tradição, minação “Itupanema” deriva do nome de uma praia,
que o nome “Barcarena” se originou do fato de ter cuja enseada chamava-se Panema. Na frente dessa
existido, naquela localidade, quando ainda era uma praia havia uma grande quantidade de pedras, que
Missão Gibirié, uma barca muito grande denomina- os índios e os moradores chamavam de “Itu” (que
da Arena. Apesar da deterioração da barca, as pes- em Tupi Guarani significa grande).
soas continuavam chamando aquela área de “Bar- Na época os pescadores e todos os navegan-
caarena”; simplificando, então, para a denominação tes que seguiam rumo a Belém, paravam na praia
“Barcarena”. Esta denominação foi usada para bati- de Panema, usando-a como abrigo, a fim de se pro-
zar o local que ainda existia em uma enseada pedre- tegerem dos temporais e marés fortes, além de re-
gosa, coberta por uma grande casa chamada “Casa duzir o tempo e agilizar a viagem. Os navegantes
das Canoas”, do lado esquerdo da Matriz. acostumaram-se a dizer: “vamos parar aqui na praia
Sua elevação à categoria de “Vila” aconteceu de Itu-panema”, a partir daí denominou-se a vila
mediante a promulgação da Lei Estadual nº 94, de surgida posteriormente, revela Odineide Valente,
10 de maio de 1897, ocorrendo sua instalação em 02 líder comunitária.
de janeiro de 1898, conforme determinado no De- A origem de Itupanema, em si, não seria re-
creto nº 513, de 13 de dezembro de 1897. Somente levante, não fosse à insistência do mito de origem, a
em 1956 foi reconhecida sua composição territorial, demonstrar a existência de uma tradição, que tem o
formada por dois distritos: Barcarena (sede) e Muru- papel de legitimadora de direito a terra, em oposição
cupi, permanecendo esta configuração territorial até aos invasores recém-chegados.
os dias de hoje. A partir da década de 80 a população da Vila
de Itupanema cresceu, pois, à vila original foram
VILA DE ITUPANEMA E A ORGANIZA- agregados dois outros núcleos: Vila Nova e Vila
ÇÃO SOCIAL TRADICIONAL União. A primeira criada para abrigar as pessoas
que residiam nas terras onde foram instaladas as
A Vila de Itupanema está situada na região empresas Albrás e Alunorte. E posteriormente por
Noroeste do município de Barcarena, à margem di- trabalhadores atraídos pelo projeto e, embora não
reita do rio Pará. A Vila corresponde a um peque- conseguindo se inserir neste, permaneceram nas
no núcleo urbano, servindo de área residencial de proximidades das fábricas.
população ocupada em atividades agrícolas, pesca O bairro de Vila Nova surgiu em 1982, quan-
e pequeno comércio. Uma pequena parcela destes do a ALBRAS reservou uma grande área para trans-
moradores trabalha nas empresas prestadoras de ser- ferir a população que residia nos sítios onde estão
viços para a ALBRAS – Alumínio Brasileiro S/A, e localizadas as instalações das fábricas e a zona por-
a ALUNORTE – Alumina do norte do Brasil entre tuária. Assim como a área do núcleo urbano, onde
outras. foram construídas as casas para os trabalhadores da
Itupanema constitui uma antiga ocupação, Albrás e Alunorte. A partir daí o bairro vem tendo
como a sede de Barcarena e a Vila do Conde. Dife- um crescimento totalmente desordenado, sem ne-

35 Fórum Carajás outubro de 2010


nhum planejamento por parte do poder público. O E constituem-se em bolsões de reserva de mão-de-
Centro Comunitário de Vila Nova ficou com a res- obra barata e disponível para qualquer serviço pou-
ponsabilidade de organizar o loteamento das pesso- co qualificado.
as que chegavam ao lugar. BECKER, B. (1991) destaca o papel des-
O bairro da Vila União é o mais extenso e o ta população flutuante, no sentido de viabilizar as
mais densamente ocupado. Na mesma proporção es- grandes obras, os grandes projetos. Entretanto, há
tão os problemas, em virtude do seu acelerado cres- outro lado da questão a ser ressaltada. Esta popu-
cimento, não há saneamento básico e infra-estrutura lação, que é atraída para área deste tipo, promove,
urbana. Este bairro se tornou uma grande área de também, um problema de natureza social pelo fato
ocupação, que foi muito combatida pelas empresas de não ser assimilada, em sua maior parte, nestes
Albrás e a Companhia de Desenvolvimento de Bar- empreendimentos. Na medida, também, em que as
carena (Codebar), que tentou de todas as maneiras atividades econômicas praticadas tradicionalmen-
evitar a ocupação, usando inclusive a força policial. te nesta área (extrativismo vegetal, pesca, pequena
Vários líderes comunitários foram presos durante a agricultura) estão em crise, não podendo absorver
ocupação, mas as empresas não conseguiram evitar outras pessoas.
o assentamento. O que vemos hoje na Vila União é o Boa parte dos moradores mais antigos de
retrato do descaso de uma administração avessa aos Vila de Itupanema possuía sítios nas áreas ocupadas
interesses da população. pela ALBRAS e pela ALUNORTE. A CODEBAR e
A Vila de Itupanema, durante muito tempo, a Companhia de Desenvolvimento Industrial (CDI)
teve um povoamento muito lento, constituindo-se, desapropriaram os terrenos localizados à beira do
portanto, em um pequeno vilarejo de sitiantes rurais. rio Pará. Nestes sítios eles trabalhavam nas roças,
Na década de 80, seu crescimento era ainda relativa- nas quais plantavam mandioca, milho, arroz, feijão,
mente baixo. O aumento da população, assim como melancia, amendoim, como também pescavam, ca-
a expansão territorial acontece a partir do início da çavam e coletavam muitas frutas. Entre elas: pupu-
década de 90. Momento em que a vila recebe muitas nha, bacuri, uxi, cupuaçu, biriba, piquiá, entre ou-
pessoas excluídas do Projeto ALBRAS, e também tros, e ainda extraíam carvão.
trabalhadores oriundos da construção da Alunorte, Estes moradores se referem com muito pe-
que ajudam a fundar inúmeras áreas periféricas em sar a estas perdas, pois não perderam simplesmente
Itupanema. seus sítios, mas, como dizem na região, formas de
Após o assentamento das pessoas interessa- sobrevivência. Pois de lá tinham como adquirir ali-
das, e com pouco tempo novas ocupações voltaram mentos básicos importantes, sem estas alternativas,
a acontecer. Foram impulsionadas pela migração de passaram a comprar estes produtos ou consumi-los
mineiros, maranhenses, gaúchos, entre outros. Para em menor quantidade, e até deixar de consumir os
os antigos moradores de Itupanema é clara a aversão de menor importância na dieta alimentar. Tem-se as-
aos trabalhadores oriundos de outros estados, trata- sim mais uma questão, a segurança alimentar.
dos como “os de fora”. Eles são responsabilizados Os moradores destas áreas ocupadas pela AL-
pelos problemas provocados no lugar após a implan- BRAS – ALUNORTE moveram uma ação na justi-
tação das Empresas. Entre eles: roubo, prostituição, ça através da Associação em Defesa de Barcarena
formação de gangues, etc, assemelhando-se à situa- (ADEBAR) exigindo indenizações pelos seus sítios,
ção relatada por Norbert Elias (op. cit.). já que apenas uma parte da população recebeu inde-
Os movimentos migratórios em Itupanema nização. Esta ação se estende há quase trinta anos,
refletem, como em toda a Amazônia, o que ocorre sem resultado favorável para os moradores.
no seu espaço, como reflexo do processo de ocupa- Segundo alguns dos antigos moradores, após
ção territorial e de mobilização da força de trabalho. a instalação da ALBRAS e da ALUNORTE; ocor-
Esta força de trabalho muitas vezes sem a qualifi- reu uma diminuição significativa na quantidade e
cação exigida para trabalhar diretamente nas em- tamanho dos peixes, que costumavam pescar nos
presas, acaba ficando em áreas próximas ao projeto. “pesqueiros” (locais onde os peixes se concentra-

Fórum Carajás outubro de 2010 36


vam), e que também, são encontrados, com freqüên- para o desenvolvimento da região, que deve ser re-
cia, peixes mortos na orla, mais próximo ao terreno movido em nome do progresso.
daquelas empresas. Hoje na Vila de Itupanema o passado é repre-
Entre os anos de 2003 a 2008 aconteceram sentado pela igreja católica que esta localizada na
vários acidentes ambientais nas praias de Itupane- Praça Matriz, a escola Presidente Dutra que data de
ma, com o registro da mortandade de peixes. Fato 1950 e o cemitério da cidade. Fora isso, tudo mu-
registrado nos jornais de grande circulação do Esta- dou, o lugar calmo e bucólico está presente apenas
do, e também através de informações do Sindicato na memória dos antigos moradores.
dos Químicos de Barcarena. A entidade representa A realidade de Itupanema é apresentada de
os trabalhadores da Alunorte, empresa responsável forma mais crua pelos filhos dos agricultores, que no
por algumas das contaminações. momento das desapropriações eram crianças. Hoje,
O processo de redefinição do território no adultos, não encontram terra suficiente para plantar.
município de Barcarena tem inúmeras implicações, Por isso não podem ser agricultores, nem tão pouco
a exemplo do que ocorreu para a construção do nú- pescadores, já que a pesca ficou inviável com a cria-
cleo urbano ou Vila dos Cabanos. A expulsão das ção do Porto da Vila do Conde e as contaminações
populações tradicionais para a implantação do pro- ambientais ocorridas no rio Pará. Por outro lado,
cesso industrial inviabilizou a agricultura familiar. também não tiveram a oportunidade de estudar para
A pequena dimensão dos lotes na Vila Nova, local adquirir uma profissão. A geração de jovens de hoje
de reassentamento dos moradores, onde atualmen- não possui, a princípio, as condições adequadas para
te se encontra a área do projeto Albrás/Alunorte é pleitear um emprego na região. Restou para estas
revelador sobre assunto. As áreas foram entregues duas gerações o direito de assistir ao crescimento es-
totalmente desmatadas, sem as plantas e árvores fru- pantoso das empresas ALBRAS/ALUNORTE e per-
tíferas da região e o solo impróprio para o plantio. ceber o quanto o sonho de trabalhar ficou distante.
Atualmente apenas uma pequena parcela da Durante estes longos anos de projeto não foi
população de Itupanema se dedica às atividades apresentado qualquer projeto de inclusão para os
agrícolas, embora morando na área urbana. Exercem jovens de Itupanema. Percebemos o crescimento
um misto de atividades, pelo que pode ser observa- da violência, prostituição infantil, o alcoolismo e
do, trabalhando em pequenas roças e também prati- a mendicância no município, são problemas tipica-
cando atividade de natureza urbana, como pequenas mente urbanos.
vendas, e fazendo “bicos” diversos como estratégia Do outro lado, as empresas da Vale apresen-
de sobrevivência. Isso mostra o quanto é importante tam os melhores índices de crescimento econômico
o apego a terra. Mesmo com todas as intervenções de sua história, principalmente as apresentadas nes-
praticadas, a pequena agricultura, embora de forma te artigo. Hoje as empresas da área de alumínio são
restrita ainda resiste. as “meninas de ouro” da Vale, mas as comunidades,
A pesca artesanal também é considerada uma em nenhum momento são lembradas. As empresas
atividade fundamental para a sobrevivência da po- esquecem a divida social, que em três décadas de
pulação local. Existem poucos pescadores, em torno projeto em solo Barcarenense se amplifica. Ao lon-
de trinta famílias que resistem nesta atividade. Como go dos anos de exploração de Alumínio e Alumina
já citado, a quantidade de peixe sofreu redução em na região, o que tem ficado é o rejeito enterrado na
função das contaminações e o constante trânsito de terra que alimentava os filhos e filhas de Itupanema.
navios que trazem e levam matéria prima para as Memória e Desencantamento
empresas. A história oral pode fornecer elementos difí-
Na visão capitalista trazida junto com as em- ceis de serem encontrados em documentos ou livros.
presas, vida rural é parte do passado, e por isso há Pode fornecer informações novas, bem como a cha-
uma necessidade urgente em urbanizar Barcarena. A ve explicativa de fatos. Apesar dos depoimentos que
população local, no planejamento dos grandes pro- envolvem a memória, se constituírem em história
jetos, aparece como um entrave, como um obstáculo construída a posteriori, contém marcos temporais

37 Fórum Carajás outubro de 2010


pessoais e coletivos que permitem contar a história 100 por 200 metros que eu vejo para ti. Foi ai que
de outra maneira. Nos relatos, encontramos certa eles foram na casa do Dr. César...
idealização do passado e uma construção dramáti- Gilvandro - César Bentes?
ca do passado mais recente, no entanto, trabalhar os Eurico - Sim, eu fui também. Olha, viram os pés
depoimentos relacionalmente (BOURDIEU, 1989) de planta, os seis fornos, duas tarefas de roça, uma
permite evitar a naturalização dos depoimentos. casa de farinha e a casa. Ele disse : vamos pagar
Memória de Itupanema - a linha da história só o forno, com a casa da farinha e as roças. O sítio
através do olhar de um pescador com as casas fica pra depois. Vamos dar 20. Eu dis-
O depoimento do pescador aposentado Euri- se: não, 60. Aí fiquei com 60. Fiquei com dinheiro.
co, que mora na região desde 1928, ajuda a elucidar Eles primeiro davam cheque. Aí peguei os 60, 20 e
o processo de redefinição da realidade de Itupanema. depois 40. Aí não pagaram. Fui chamado em Barca-
O pescador rememora que em 1940 o número de rena. Não veio o da casa, só o do forno com a roça
famílias era pequeno, a iluminação garantida através e a casa de farinha. Tem um dinheiro para a gente lá.
do querosene, as casas cobertas de palha e o lazer vi- Mas nunca mais veio.
nha de bandas do vizinho município de Abaetetuba. Gilvandro - Vocês entraram na justiça?
Aqui o pescado era farto, não tinha bandida- Eurico - Foi o advogado que botou, mas está lá em
gem. Cada um tinha a sua roça, seu forno de farinha, Brasília... O padre está no meio, também.
lembra Eurico. Conforme o pescador, o quadro co- Gilvandro - Qual padre?
meçou a ser alterado a partir da década de 1950. E Eurico - Eu me esqueço o nome do padre. Acho
se agravou com a instalação das empresas da Vale. que é o padre Primo.
Sobre a redução do peixe pondera que: “a Alunorte Gilvandro - Na época ele estava aqui em Itupane-
despeja aquele licor dela. Com essa soda cáustica, ma?
morre muito peixe. Morreu muito. Hoje tem gente Eurico - Sim. Na época ele estava aqui.
aqui que passa até fome. Tem apenas alguns pés de Gilvandro - A igreja tinha terra, também?
manga”. As transformações se aceleram em 1985, Eurico - Ele estava a favor da gente.
sublinha o pescador. Gilvandro - Ah, ele ajudou.
Além do processo de reconfiguração do ter- Gilvandro - Como foi essa organização de vocês
ritório da região, Eurico salienta o papel coercitivo para entrar na justiça contra a Albras?
da empresa. Segundo Eurico, a Albras tem mandado Eurico - Eles vieram de Belém, o meu concunhado
tinha também um terreno, deu cincoenta, encheu o
até prender quem entra em áreas controladas pela
centro paroquial lá de Barcarena. Eles falaram isso
empresa e proibir a produção de carvão:
custa muito a justiça talvez uns três ou quatro anos,
já tem mais de 20 anos e nada. Este dinheiro esta lá
Gilvandro - Por que as empresas da Vale proibiram
em Brasília.
de fazer carvão?
Gilvandro - Quantas famílias na sua época foram
Eurico - Por que é tudo dela isso aí. Enganaram o
desapropriada?
pessoal que está até para Brasília. São 580 famílias
Eurico - Quinhentas e oitenta, agora já botaram oi-
que estão na justiça O dinheiro está lá nós já demos
tocentas, novecentas, mas é mentira é somente qui-
50 cruzeiros e mais 50 para o advogado, está corren- nhentas e oitenta famílias.
do há mais de dez anos. E nada foi resolvido. Teve Gilvandro - Quinhentas e oitenta famílias foram de-
gente que pegou 20 cruzeiros de indenização, o que sapropriadas aqui em Itupanema?
dá isso? Eurico - Praticamente sem nada, pois deram uma
Gilvandro - Mas o que foi esses 20 cruzeiros? Para besteirazinha, compraram terreno aí na Vila Nova
que? onde estão morando, outros estão lá pro CDI, lá pra
Eurico - Para pagar a casa e o terreno. Nós lá em colônia.
cima trabalhávamos com o japonês, Tako Yamada. Gilvandro - A Vila Nova eram pessoas que mora-
Ele disse: Eu dou 800. O terreno é grande. Mede vam lá no núcleo urbano?

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Eurico - Não eram do Murucupi, do centro que cha- Eurico - Ah, é muito difícil com a Alunorte. Disse:
mavam assim. olha pra Alunorte e a Albrás dez ou quinze barcos
Gilvandro - Aonde é a Albras e a Alunorte hoje? com redes é o mesmo que dar um doce pra uma
Eurico - Não na Albrás e Alunorte era o pessoal do criança. Não é nada.
Conde, era muita gente do Conde. Era a turma que - eu vou lhe explicar logo aqui na Albrás e na Alu-
morava aqui pra trás. norte, uma barcada desses com alumínio, paga tudo
Gilvandro - Onde foram desapropriadas as terras? e ainda sobra. Dá muito resultado isso.
Eurico – Foi. Gilvandro - Quem falou foi o Funcionário da Alu-
Gilvandro - E ai formou a Vila Nova? norte?
Eurico - Formou a Vila Nova, e aqui pra trás foi a Code- Eurico - Sim, ele disse vamos ver como é. Ficaram
bar que desapropriou. Depois invadiram. de vir e não vieram mais.
Gilvandro - O Jardim cabano era terras de vocês? Gilvandro - Essa reunião foi com os pescadores?
Eurico - É todinho invadido. Eurico - Foi só com os pescadores.
Gilvandro - Eram terras dos moradores? Gilvandro - Existe colônia dos pescadores em Itu-
Eurico - Pra cá os Valentes, pra lá era de outros mo- panema?
radores. Eurico - Não, tem em Barcarena. Na sede tinha um
Gilvandro - Itupanema basicamente era da família rapaz aqui. Mas, só fazia cadastrar os pescadores.
Valente, ou tinham outras famílias? Gilvandro - Quem é o presidente da comunidade?
Eurico - Aqui atrás tinha a família Valente, ali em Eurico - Era o seu Morais e o Pancho. Agora eles
baixo os Cruz. Não era muita gente. Era bem dizer estão fora porque vai ter eleição que é pra ver quem
mais ou menos uns quinze. Com os filhos era mais. é fica de novo.
Gilvandro - Não se faz mais farinha, carvão, não se Gilvandro - Existe outro centro comunitário?
tem mais terra? Eurico - Tem o outro centro da Vila Nova.
Eurico - Tem, mas eles tomaram. Gilvandro - E como é a relação de Itupanema com
Gilvandro - Tem terra, mas não é mais dos mora- os moradores de Vila Nova? Como é que vocês se
dores? entendem?
Eurico - Ficaram com as terras. Nós tivemos duas Eurico - Isso aí é tudo Itupanema. Lá só botaram o
audiências. Uma lá na câmara que foi o pessoal da apelido de Vila Nova, mas é tudo Itupanema. Tem
Alunorte, deixa estar por ali falou e tal. Ai do Muru- uma igreja lá. Uma festa do livramento acontece em
cupí ganharam. Estão ganhando 15 cestas básicas. maio. A nossa é em setembro, Nossa Senhora das
Gilvandro - Da época da contaminação? Dores é a padroeira.
Eurico - São agora os daqui de fora não, veio o pes- Gilvandro - E a Vila União?
soal da Alunorte ai. Veio pessoal da ação social, as Eurico - Vila União é pra trás da invasão
duas secretárias. A Michelle, que é a presidente fi- Gilvandro - Invasão?
cou de vir mais não veio, pois vinha o presidente da Eurico - É invasão. O Moraes falou se ganhasse a
colônia. eleição, ele ia fazer um troço muito bacana. Ele me
disse: olhe seu Eurico eu vou fazer minha prestação
Gilvandro - Mais pra falar com os pescadores?
de conta aqui então eu falei: vamos ver se ele vai
Eurico - É... que elas ainda disseram: cesta básica
fazer mesmo. Entra prefeito sai prefeito aqui não faz
era bom. Amanhã a gente vem aqui pra conversar.
nadinha. O Laurival Cunha só botou água.
Eu disse não, é o seguinte: por que isso aí, vai ser
Gilvandro - As Empresas desenvolvem algum tra-
todo o tempo, vai chegar um tempo da gente pisar
balho na comunidade?
na praia e encher o pé todo de piche. Vai ter mais
Eurico - Se fez alguma coisa foi a Albrás.
fábrica aqui, já estão fazendo outra pra bando de
Gilvandro - O que ela fez?
Conde de novo.
Eurico - Há... isso aqui, né?
Gilvandro - Como é a situação dos pescadores
Gilvandro - Bloquete?
hoje?
Eurico - Bloquete. Ajeitou a praça. Em Vila Nova

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fez uma, como é que chama essa coisa de bater reram, outros já trabalham em outro serviço.
bola? Gilvandro - Trabalham onde?
Gilvandro - Quadra. Eurico - Fazem bico por aí e vão vivendo a vida.
Eurico - E a Igreja lá que eles ajudaram a forrar o Gilvandro - Bico?
telhado ficou bonito. Nós não temos ajuda de nada, Eurico - Trabalho de carpinteiro e pedreiro. Não
o prefeito não ajuda em nada. tem emprego pra eles.
Gilvandro - O senhor passou toda estas mudanças Gilvandro - Mudaram de profissão para poder so-
depois que vieram as empresas, a vida aqui do povo breviver?
de Itupenema, como ficou? Eurico - Sim. Agora os quinze que tem aí tem que
Eurico - Em parte piorou. O pessoal daqui não tem ser da pesca mesmo.
trabalho. Quando aparece ele pedem dois, três anos Gilvandro - Eles continuam pescando?
de experiência. Daqui não tem quatro pessoas na Al- Eurico - Sim.
brás. Gilvandro - Eles possuem barco?
Gilvandro - Aqui de Itupanema? Eurico - Não. Só canoa pequena.
Eurico - Da Vila Nova parece que tem dois. Daqui Gilvandro - Canoa pequena?
agora não tem nenhum. Eurico - Arranjam normalmente da bóia. Então,
Gilvandro - Tem muito jovem aqui na idade de tra- esse da Alunorte disse: Olha o barco servia pra vo-
balhar? cês. Era bom o barco porque daria pra pegar peixe
Eurico - Tem. O que não tem é emprego. mar afora.
Gilvandro - Não tem emprego? Gilvandro - Pra poder pegar peixe maior, seu Euri-
Eurico - Se você vai numa firma atrás de emprego, co, tem que ter um barco maior?
eles mandam para o Serviço Nacional de Emprego Eurico - Um barco pelo menos para duas toneladas.
(SINE). Lá eles distribuem senhas. E mandam voltar Gilvandro - Para poder ir mais fora?
no outro dia. Lá no SINE eles distribuem sopa para Eurico - Sim, para poder ir lá pra baixo.
as pessoas desempregadas. Tem gente que vai só pra Gilvandro - Porque tem que ir mais fora?
beber aquela sopa e volta. Eurico - Porque não tem peixe aqui na beira?
Gilvandro - Há muito desemprego aqui em Itupa- Gilvandro - Não tem mais peixe?
nema? Eurico - É Pra baixo mesmo, daqui mais duas horas
Eurico - Muito desemprego. Principalmente o pes- de viagem. Lá pra baixo. Pra gente topar com peixe.
soal que mora na beirada que vive da pesca. O pre- Aqui perto não tem mais. Tem besteira de peixe.
feito podia nos ajudar. Gilvandro - Antes do projeto Albrás/ Alunorte dava
Gilvandro - Como seu Eurico? muito peixe aqui em Itupanema?
Eurico - Assim, com uma cesta básica para as famí- Eurico - Dava muito... deixa eu ver... Faz trinta
lias. Eu não. Eu e a minha mulher já estamos apo- anos. Foi na década de 70. Tinha dia de 18 geleiras
sentados pela pesca. Hoje tem gente passando fome na boca do arrozal. Enchia duas, três, quatro e ia
aqui. embora.
Gilvandro - Quantos pescadores existem ainda aqui Gilvandro - Pra onde seu Eurico?
em Itupanema? Eurico - Tudo pra Belém. Gente de lá do Pacoval.
Eurico - Quinze. Gente de Soure, Vigia, Icoaraci, Mosqueiro, Marudá
Gilvandro - Quinze pescadores ou quinze famí- e até de Bragança. Tudo pescava nesta área. Tinha
lias? muito peixe aqui.
Eurico - Só quinze pessoas. Gilvandro - Qual o peixe que dava?
Gilvandro - Só quinze que pescam, e os outros? Eurico - Piramutaba. Muita piramutaba. Dava piraí,
Eurico - Temos pouco pescador aqui. peixe pra 80 quilos. E começou tudo.
Gilvandro - Mais antigamente tinha muito pesca- Gilvandro - Começou o que?
dor? Eurico - As Empresas... Sumiu o peixe, de uma hora
Eurico - Tinha um bocado de pescador. Uns já mor- pra outra. Sumiu pouquinho, a piaba não veio mais.

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Gilvandro - Dava muita piaba? Eurico - Não deu certo. Não fizeram a caixa d’agua.
Gilvandro - O senhor que em sua Itupanema pre- Só as tubulações. Enganaram a gente.
senciou fartura depois viu também o sumiço dos Gilvandro - Tem água em Itupanema?
peixes. O que o senhor acha que poderia resolver Eurico - Tem, tem bastante água. Lá é da Compa-
este problema aqui dos pescadores e suas famílias? nhia de Saneamento do Pará (Cosanpa).
Senhor falou que as empresas vão permanecer em Gilvandro - Quer dizer que lá já foi a prefeitura que
Barcarena? fez no caso e não dá água?
Eurico - Sim daí pra frente não vai diminuir mais não. Eurico - Não. É da Cosanpa. Vem direto pra lá
Gilvandro - O que o senhor acha que pode resolver Gilvandro - Funciona o abastecimento?
a vida desses trabalhadores que estão aí sofrendo Eurico - Agora aqui é de poço. Nós pagamos 5,00
por conta da falta do peixe? para o presidente da comunidade. Agora lá na Vila
Eurico - Uma coisa eu disse no dia da reunião que Nova eles pagam 7,50 no correio para a Cosanpa.
fizeram com a Alunorte. O barco era bom. E depois Gilvandro - E os jovens hoje, o senhor tem filhos?
do barco era fazer um cadastro dos quinze pesca- Eurico - Os meus filhos já têm famílias.
dores para receber um salário mínimo pra ajudar as Gilvandro - Como é que você vê os jovens aqui em
famílias. Itupanema sem essa oferta de emprego?
Gilvandro - Melhoraria a vida deles? Eurico - Já tem muito molecote. Olha outra coisa
Eurico - É. Cadastrava os quinze pescadores que que vou dizer os meninos daqui com dez, doze anos
tem aí pra pegar aquele salário mínimo todo mês, se tinham seus fornos, seu carvão, eles pescavam, fa-
não os barcos. ziam roças e ajudavam muito os pais. Depois que
Gilvandro - O senhor acha que os barcos poderiam Albrás veio. Veio maranhense, piauiense, vem de
ser comprados pelas empresas? tudo e a maconha veio no meio. Muitos desses é da
Eurico - Sim, porque isso cada vez mais vai ficar maconha.
pior. Gilvandro - Muita droga?
Gilvandro - O senhor costuma conversar com os
Eurico - Gangue no meio. São poucas as famílias
outros pescadores ?
que tem filhos legais. Alguns estudam, quando tem
Eurico - Sim.
uma folga metem um pererê.
Gilvandro - Tem acontecido contaminação aqui?
Gilvandro - O que o senhor acha que seria necessá-
Eurico - Teve umas duas vezes no tempo do inver-
rio para melhorar a vida desses jovens?
no. Ali tem uma “baciona” , que tem o licor. Vem a
Eurico – Olha, eles botaram karatê pra luta. Tinham
bauxita bota soda caustica e aí vasa pro rio. Mata o
que botar era uma oficina
peixe. É tui, é piabinha, doradinha, pescada, arraia.
Gilvandro - Oficina.
Deu até na televisão.
Eurico - Uma oficina para aprender negócio de mó-
Gilvandro - Ocorreram outras contaminações?
veis. Uma escola pra aprender mecânica. Essas coi-
Eurico - A primeira vez foi uma balsa que foi pro
sas assim seria muito bom.
fundo. Não sei quantos litros de óleo que derramou
Gilvandro - Profissionalizante?
no rio. Apareceu também na televisão. Eles deram
Eurico - Seria bom para os meninos. Eles pegavam
quatrocentos e poucos mil. A presidente da comuni-
gosto e iam trabalhar.
dade foi esperta. Ela disse o seguinte: nós estamos
Gilvandro - Nunca aconteceu nem um curso profis-
precisando de água em Itupanema. Eles deram em
sionalizante aqui?
serviço.
Eurico - Nada. Um tempo que apareceu para ele-
Gilvandro - Não indenizaram os pescadores?
tricista e encanador. Alguns jovens daqui fizeram e
Eurico - Esse dinheiro era pra dar ao menos 1000
pegaram emprego. O menino, o filho do meu com-
para cada um, e ficasse com o resto. Eles fizeram o
padre Vanildo é eletricista. O Elizeu é eletricista.
serviço na Vila Nova que não prestou.
Ainda tem mais quatro ou cinco eletricistas e alguns
Gilvandro - Eles fizeram a caixa d’água e não deu
encanadores. Os cursos deviam acontecer sempre.
certo?

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Gilvandro - Essas pessoas de fora são mais ou me- Eurico - Para Vila Nova, não só as pessoas que tava
nos de qual estado? daí mesmo. O de lá de onde era Alunorte/Albrás fo-
Eurico - Piauí, Maranhão, Parnaíba e Rio Grande ram tudo para Bacuri, Colônia Nova, CDI, Massara-
do Norte. pó, e agora criam peixes. Está bom lá pra eles. Falei
Gilvandro - E como vocês se relacionam com as com uma comadre... Ah compadre, graças a Deus.
pessoas de fora? Tem Rio Capim, para subir em cima do terreno deles
Eurico - Agente se dá. Conversa com eles. São ba- pagaram 40 mil, e ainda deram um lugar para eles.
canas. O pessoal tem cooperativa para lá: maracujá. Agora
Gilvandro - O senhor falou em sítios, como eram peixe. Vão fazer gaiola para criar peixe.
esses sítios? Gilvandro - Aqui em Itupanema, sr. Eurico, tinha
Eurico - Sítio é quando tem Açaizeiro, Mangueira, condição de fazer esse trabalho, tipo cooperativa?
Abacabeira. Eurico - Aqui não adianta mais.
Gilvandro - Mas era vocês que plantavam mesmo? Gilvandro – Qual o motivo?
Eurico - Agente tinha sítios plantados. A Albrás to- Eurico - A terra está tomada. Olha, aqui para bai-
mou conta de tudo. xo tem mais ou menos 4 km. Daqui até no Caripi a
Gilvandro - Vocês vendiam pra quem? Albrás não deixa tirar nem uma vara. Não tem nin-
Eurico - Vendia pro marreteiro, que levava pra Be- guém aí. Nem um morador.
lém. Gilvandro - Mas porque, o que ela alega?
Gilvandro - E dava algum dinheiro? Eurico - Porque é dela.
Eurico - Dava. Deus o livre. Esse que veio aqui ago- Gilvandro - Mas ela faz algum trabalho?
ra o compadre Bené dava era duas viagem por sema- Eurico - Meio Ambiente. Não pode derrubar. Não
na. Ele ia cheio de pupunha, uxi, abacate, cupuaçu. pode morar. Lugar até pra lá que já é CODEBAR a
Itupanema era o 1° produtor de cupuaçu daqui. pessoa pode até entrar, fazer uma casinha. Mas aqui
Gilvandro - Era mesmo? não. Deus me livre. E o pescador que fez lá uma
Eurico - Era sim, laranja dava muito, acabou tudo. casa, pescava camarão. Há muitos anos lá. Chegou
Eu me sinto meio triste. Tanta gente passando fome a Albrás. Tira sua casa daí, que não pode. Deram
aí. Não tem nada. Era muito farto aqui o que estra- dinheiro para ele, comprou telha para ele e tábua.
gou foi isso aí. Fez a casinha dele. Ele vendeu, foi embora. Aí um
Gilvandro - As empresas? rapazinho fez uma puxada na praia. Foram lá. Quei-
Eurico - É lá no Conde tá tudo seco. O menino dis- maram a barraca dele. E ele era pescador.
se: a minha mãe vem morar pra cá, o vento joga pra Gilvandro - Mas quem queimou a barraca dele?
lá todinho a fumaça das empresas. Os açaizeiros tão Eurico - O pessoal da Albrás
todo vermelho na beirada. Olha não era tão calor Gilvandro - Que ano foi isso?
agora é mais calor que de antigamente porque a po- Eurico - Está fazendo uns cinco anos.
luição sobe se pega com o sol e dispara muito calor. Gilvandro - E era pescador aqui de Itupanema?
Gilvandro - O senhor se sente muito triste por Eurico - Filho da Ilha. Mas casou com uma mulher
tudo? daqui, que a mulher ficou até aí. Não pode. Quando
Eurico - É porque tem gente que não tinha nenhum chegou uns dias aí estava queimada a casa. Era uma
ganho e ia pra fora pegar um peixe. Dez quilos de pena. Era uma puxada de palha.
pescada eu pegava de linha de mão. Se eu botasse a O depoimento de seu Eurico é de grande ri-
rede era de vinte quilos. Agora pega um quilo, dois queza e mostra como os moradores de Itupanema
é triste mesmo. Não tem fruta pra vender. Tem que vivenciaram o processo de desapropriação, implan-
comprar a farinha. Tem que comprar o carvão. tação e operação das fábricas. Alguns dos muitos
Gilvandro - O sr. estava falando sr. Eurico das pes- pontos levantados são dignos de nota e serão co-
soas que foram remanejadas do Conde e das pesso- mentados a seguir.
as que moravam aqui.Eles vieram pra cá, para Vila A memória permite a reconstrução de paisa-
Nova? gens perdidas. seu Eurico descreve vividamente as

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árvores, os botecos, os lampiões, as casas de palha uma lógica nativa baseada nas relações com a natu-
e a banda que alegrava as festas. Talvez não haja reza, mas também é o instrumento de reivindicação.
qualquer imagem desta paisagem, mas a descrição A ideia da compensação dos danos perpassa as rela-
de seu Eurico permite a reconstrução da paisagem. ções com a empresa. A poluição coloca a empresa
Nota-se o interlocutor trabalha como é fre- em dívida, por isso podem ser cobrados desde os
quente encontrarmos nos depoimentos de pessoas barcos ao salário mínimo, à infraestrutura urbana ou
que vivenciaram grandes perturbações, uma cons- o reparo da igreja.
trução feita de oposições, marcada pela temporali- Por outro lado, a empresa manipula as obras,
dade de um evento: a chegada das fábricas. Assim, disputando espaço de poder com a prefeitura do mu-
antes, a natureza distribuía copiosamente seus frutos nicípio. A implantação das indústrias de alumina e
e o peixe abundava nos rios. Um passado que, por alumínio não atendeu a expectativa de desenvolvi-
melhor que tenha sido, é vivido de forma idealizada. mento da grande maioria da população de Barcare-
Por outro lado, o depois fica imerso na tragédia e é na. Pois esses projetos fizeram uma opção por um
marcado pela falta, pelo bem limitado, pela fome.
modelo fundamentado nos princípios capitalistas e
A fome parece ser a categoria crítica definidora do
privilegiaram alguns grupos econômicos, em detri-
antes e do depois.
mento da agricultura familiar tradicionalmente utili-
Outra categoria associada ao depois é o “en-
zado na região.
gano”. As empresas enganam, enquanto que o antes
era marcado pela confiança e pela solidariedade. O Estes agricultores receberam pouco apoio,
evento das desapropriações - que mais foram expro- uma vez que nenhuma política foi criada para mini-
priações ou expulsões - é o marco temporal central e mizar os impactos provocados pelo modelo de pro-
o seu promotor lembrado por muitos pelo nome. dução trazido para o município, constatando que a
A construção mais reveladora se dá em torno agricultura familiar sempre ocupou um lugar secun-
da poluição. Essa é apropriada e descrita segundo dário na sociedade brasileira (Wanderley, 1996).

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Referência

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Energia limpa na ponta e desgraça na
fonte, resultado de mega hidrelétricas na
Amazônia

Edilberto Sena1

O consumismo capitalista, tanto nacional com internacional, olha a Amazônia com olhos de cifrão,
eldorado, lucro, mesmo que para isso aconteça o saque, a destruição e os impactos sociais e ambientais.
Como o alarme mundial, por causa do aquecimento climático, se intensificou nos últimos 20 anos: o sis-
tema fantasiou o chamado desenvolvimento sustentável para continuar o saque do eldorado amazônico. A
partir do ano 2.000 o saque se intensificou, mineradoras, agronegócio, madeireiras, fazendas de gado e
também mais recente, as obras do tal Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

1 Rádio Rural de Santarém e Frente em defesa da Amazônia.


Como entender o PAC do tes dos países da América do Sul, balhando no programa de cinco
governo federal, num momento sob inspiração do Banco Intera- hidrelétricas no Tapajós/Jaman-
histórico em que se discute os mericano de Desenvolvimento, o xim há mais de 10 anos, silen-
efeitos das mudança climáticas BID. Tal plano tem o objetivo de ciosamente e sem dialogar com
no planeta e a Amazônia é um dos interligar os países da América do as populações ribeirinhas e da re-
pontos chaves para esse controle? Sul desde o oceano Atlântico ao gião do Baixo Amazonas que será
Será ele o prosseguimento do an- Pacífico, através de corredores de toda impactada pelas obras fara-
terior “Avança Brasil” do gover- circulação de transportes de pro- ônicas. Apenas nos dois últimos
no FHC? E se for, o que parece, dutos ainda abundantes neste con- anos, alguns grupos do movimen-
o que estará por trás desses pro- tinente e ansiosamente procurados to popular organizado descobri-
gramas megalomaníacos, mesmo pelos países do G-8 e os emergen- ram que a coisa era urgente para o
quando se fala em defesa da Ama- tes que estão crescendo, apesar da Ministério das Minas e Energia e
zônia, controle do desmatamento crise econômica mundial. a Eletronorte. Os estudos já esta-
e coisas parecidas? É neste contexto que se vam bem adiantados e nunca eles
Como não há transparência deve compreender os grandes chamaram a sociedade regional
da parte das autoridades federais, projetos do PAC. Entre outros, e menos ainda os moradores, os
é preciso se buscar causas que cinco hidrelétricas só na bacia do indígenas e os responsáveis pelas
são camufladas por presentinhos rio Tapajós, num total de cerca de áreas de conservação que serão
amansadores da população regio- 15 mil mega wattz de energia, que atingidas pelas barragens.
nal. Daí, o PAC reserva alguns o presidente da república costu- Segundo dados da Eletro-
milhões de reais para saneamento ma alardear que é abundância de norte o cronograma está assim
básico aqui e ali, alguns milhões energia limpa. Grupos da socieda- montado: o estudo de viabilidade
para alguns programas ambientais de civil organizada em Santarém, já foi feito, agora chega o pedido
aqui e por ali, tudo para as popu- Itaituba, entre os índios Munduru- de licença para o EIA RIMA, se
lações se iludirem que o PAC veio cus e até em coordenações de uni- possível ainda antes do fim deste
para melhorar a vida dos nativos. dades de conservação no entorno ano. Em 2.012 deve ser dada a li-
Santarém, por exemplo, tem pre- da bacia to rio Tapajós se pergun- cença de operação, depois de fala-
vistos R$ 75 milhões do PAC para tam – energia limpa e abundante ciosas audiências públicas, como
saneamento básico da cidade. para quem? Indagado quatro me- foram as de Belo Monte dias atrás.
ses atrás em Brasília por um inter- E assim por diante, de forma que
Porém, do total previsto
locutor da Amazônia, o ministro se não houver entraves, até o ano
(504 bilhões de reais) para ser
do meio ambiente, Carlos Minc 2.018 as primeiras turbinas esta-
gasto em cinco anos, até 2012,
desviou a resposta e só disse rão gerando 6.000 megawatts em
dois terços serão gastos em gran-
que era para o desenvolvimento São Luiz do Tapajós.
des projetos tais como, rodovias, da Amazônia. O interlocutor riu Em recente encontro em
hidrovias, ferrovias, hidrelétricas ironicamente do ministro que se Itaituba (21/08) a convite do Con-
e telecomunicações. Então, os re- fazia de bobo, porque sabia que selho Consultivo do Parque Na-
cursos do PAC na maior parte, não a resposta honesta seria – para cional da Amazônia, estiveram
são para beneficiar as populações atender às empreiteiras que con- em confronto duas exposições,
em si, mas o crescimento econô- trolam os contratos de construção com visões opostas de Amazô-
mico. E todas essas obras estão de barragens no Brasil inteiro e, nia e de desenvolvimento. Três
previstas num outro plano maior principalmente atender à fome de técnicos da Eletronorte (dois de
e mais abrangente de crescimen- eletricidade intensiva das grandes Brasília e um de Manaus) compa-
to econômico, o IIRSA (Iniciati- empresas mineradoras que estão e receram para expor o cronograma
va de Integração da Infraestutura vão se instalar na região, especial- e as vantagens das construções
Regional Sul-Americana), criado mente no oeste do Pará. de cinco hidrelétricas na bacia do
já no ano 2.000 entre os presiden- A Eletronorte já vem tra- Tapajós. Logo após, apresentei

Fórum Carajás outubro de 2010 46


um contraponto àquela exposição já as questões políticas das obras nizou uma exposição a ser feita
que chamei de propaganda para só o governo podia responder. num confronto com pessoal da
“inglês ver”. Eles mostraram as Como ele costuma dizer, Eletronorte em sessão especial na
vantagens das hidrelétricas para o “nunca antes neste país...” um Câmara de Vereadores em Santa-
crescimento econômico “do Bra- presidente decidiu enfiar goela rém, em outubro.
sil” (Alcoa, Rio Tinto, Vale, Cai- abaixo, dez mega hidrelétricas na Na primeira semana de no-
ma e demais empresas explorado- Amazônia, sem respeitar os mo- vembro, membros da FDA estarão
ras de minérios na Amazônia). radores da região. Estes são en- na missão Cururu, entre os índios
Mostraram eles um docu- traves ao crescimento, indígenas, Mundurucus em três dias de en-
mentário bem feito, ilustrativo de ribeirinhos, quilombolas, ONGs e contro. A organização dos frades
como as hidrelétricas no Tapajós Ministério Público Federal. Para e freiras franciscanos, que estão
serão modelo mais moderno, com ele o que interessa é o PAC a ser-
há cem anos na missão entre os
mínimos impactos ambientais e viço do grande Plano IIRSA. Os
Mundurucus, está organizando os
sociais. Oito ou dez minutos de entraves que possam aparecer
encontros com lideranças indíge-
propaganda que me fez lembrar a devem ser afastados com lei, ou
nas para refletir sobre os danos e
estratégia de Goebels e Hitler na novas normas.
invasões que as cinco hidrelétri-
Alemanha nazista (uma mentira No momento atual, um
cas farão nas terras e costumes
repetida muitas vezes parece ver- movimento está iniciando em de-
deles.
dade...). Depois descobrimos que fesa dos rios Tapajós e Jamanxin.
Assim alguns movimentos
o próprio presidente Luiz Inácio Três encontros já aconteceram em
determinou que todas as embai- Itaituba e um em São Luiz do Ta- populares estão sensibilizando as
xadas brasileiras tivessem uma pajós, desde novembro de 2008. comunidades, cidades e povos so-
cópia do filmete para mostrar a Três seminários fora promovidos bre a gravidade dos projetos hidre-
todos os visitantes e contatos, em pelo movimento BR.163 susten- létricos promovidos pelo governo
línguas diferentes. tável em aliança com o Movimen- “Brasil de Todos” contra a Ama-
Isto é, o presidente parece to popular Frente em Defesa da zônia e seus povos. Infelizmente
estar preocupado com as lutas que Amazônia (FDA), de Santarém. O ainda é pequena a participação
a sociedade civil está assumindo mais recente encontro foi promo- popular. Mesmo organizações de
em Belo Monte, Jirau, Santo An- vido pelo Conselho Consultivo do moradores, sindicatos, professo-
tonio e Tapajós. Surpreendente- Parque nacional da Amazônia. res continuam indiferentes, como
mente, os três técnicos não contes- Em Santarém foram reali- se os projetos hidrelétricos, como
taram minhas argumentações que zados dois seminários, organiza- os outros grandes projetos não os
mostravam a desgraça para os ha- dos pela Diocese de Santarém em atingissem. Outros raciocinam
bitantes da região, caso as hidre- aliança com a Frente em Defesa como se aqueles viessem trazer
létricas venham a ser construídas. da Amazônia. Encontros já foram empregos e desenvolvimento. Mas
Apenas, em certo momento um realizados na cidade de Aveiro, a luta continua como continua em
disse que eles são técnicos e só nas comunidades Tauaraí e Pinhel, Porto Velho e no Xingu. Tapajós
respondiam a questões técnicas, no baixo Tapajós. A FDA orga- viverá.

47 Fórum Carajás outubro de 2010


Geração de energia na Amazônia-
caso de Estreito em questão1

Rogério Almeida2

O presidente Lula inaugurou no dia 04 de outubro de 2008 a segunda casa de força da hidrelétrica de
Tucuruí, no sudeste do Pará. A UHE de Tucuruí é a maior hidrelétrica genuinamente nacional e foi erguida
no rio Tocantins há 24 anos para alimentar com energia subsidiada empresas de produção de alumínio no
Pará, Albrás e Alunorte, do grupo Vale e a Alumar, no Maranhão, da estadunidense Alcoa. 75% da produção
de energia de Tucuruí vão para a exportação e o estado possui uma das tarifas domésticas mais caras do país.
O derradeiro reajuste foi de 16%.

1 Reportagem publicada originalmente no blogue FURO em novembro de 2008 e reproduzida no site do www.forumcarajas.org.br, que apoio
o trabalho.
2 Colaborador da rede Fórum Carajás, mestre em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA/
UFPA).
A segunda casa tem potên- tituto Brasileiro de Geografia e O custo da obra é estimado
cia instalada de 4,1 mil megawatts. Estatística (IBGE). Ainda confor- em 2.5 bilhões de reais para que
Junto com a primeira casa de for- me o IBGE, até 2001 a população Estreito gere 1.087 MW de ener-
ça a potência instalada de Tucuruí total do município era calculada gia. Os barramentos no rio devem
vai ser de 8,3 mil megawatts. O em torno de 22.930, bem antes do ultrapassar a casa das 50 unidades
maior empreendimento do setor início da obra, fevereiro de 2007. entre grandes e Pequenas Centrais
de energia encontra-se em cons- O município de Estreito Hidrelétricas (PCH’s). As PC’s
trução no mesmo rio, na fronteira encontra-se numa região repleta produzem no máximo 3 mil kw.
do estado Maranhão com o To- em implantação de grandes proje- Ambientalistas que tratam sobre
cantins, no município de Estreito. tos púbicos e privados. A cidade barragens advertem que caso se
A construção de hidrelétri- dista 100 km do pólo de soja con- sacramente o planejamento esta-
cas na Amazônia integra um por- siderado um dos mais importantes tal, o rio Tocantins deve se trans-
tfólio de projetos baseados no uso do país, na cidade de Balsas, sul formar num grande lago, onde os
intensivo dos recursos naturais da do Maranhão e tem como vizinha impactos ambientais e cumulati-
região. O modelo de desenvol- Aguiarnopólis, cidade do norte do vos são imensuráveis.
vimento tem na concentração da Tocantins e fica mais de 500 km A radical alteração do ciclo
terra, renda e do poder político da capital do estado, São Luís. Os de reprodução dos peixes, des-
e econômico seus pilares e ativa economistas tratam o modelo eco- truição da mata ciliar e inundação
tensões entre populações conside- nômico de enclave, traduzindo, de florestas nativas que abrigam
radas tradicionais e grandes cor- não dinamiza a economia local. animais silvestres são alguns dos
poração do capital mundial. Além do pólo de soja, im- impactos pontuados. Empreendi-
No caso de Estreito, tais pactam o município a implanta- mentos de grande porte tendem a
projetos tensionam com comuni- ção da ferrovia Norte-Sul, a am- atrair grandes contingentes de mi-
dades indígenas Krahô, Apinajé, pliação da BR-010 e a construção grantes. 5.500 operários da cons-
no estado do Tocantins, e Gavião do maior projeto hidrelétrico do trução civil estão no canteiro de
e Krikati no Maranhão. Na fron- país, a hidrelétrica de Estreito, no obras atualmente. Cabe interro-
teira há ainda pescadores, extrati- rio Tocantins. Não muito distante gar: para onde essa população irá
vistas e camponeses, ladeados por dali, no município de Açailândia, após a conclusão da obra, prevista
reservas como a Serra das Mesas um pólo de gusa dinamiza uma para 2010?
do lado maranhense e um sítio de cadeia de destruição ambiental e Estreito e Carolina no Es-
árvores fossilizadas no Tocantins. de trabalho escravo para a produ- tado do Maranhão, e Aguiarnópo-
A hidrelétrica de Estreito prestes ção do carvão vegetal. lis, Babaçulândia, Barra do Ouro,
a completar o segundo ano em Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins,
fevereiro de 2009, avança sobre O grotão e o planeta Itapiratins, Palmeirante, Palmei-
o rio. ras do Tocantins e Tupiratins se-
O empreendimento da rão os municípios afetados direta-
Estreito em questão – um UHE de Estreito pluga o grotão mente pela obra.
mapa de enclaves marcado por inúmeras chacinas As cidades abaladas pelo
de camponeses ao resto do mun- empreendimento tendem a ter os
A BR-010 corta o muni- do através da geração de energia. preços da terra, do aluguel e venda
cípio de Estreito, oeste do Mara- O empreendimento pertence ao de imóveis inflacionados. As pe-
nhão. A cidade há três anos tinha Consorcio Ceste, que aglutina as riferias proliferam ladeadas pela
uma população estimada em 10 grandes corporações do quilate marginalidade, aumento de con-
mil habitantes localizados na sede da Camargo Corrêa (4.44%), AL- sumo de álcool e a criminalidade.
de um total de 26.490, conforme COA (25.49%), Vale (30%) e a Até três anos atrás no município
os dados do ano de 2007 do Ins- belga Suez-Tractebel (40.07%). de Estreito não se via mendigos

49 Fórum Carajás outubro de 2010


nas ruas. Um passeio na rodovi- Por conta da indiferen- gia da bomba de irrigação, revela
ária local indica a alteração dessa ça dos diretores da Tractebel em Rixen.
realidade. relação às populações atingidas Um grupo de 42 famílias
Carros das empresas sina- a CPT mobilizou a visita de um na época vivia debaixo da lona
lizados com uma bandeira verme- grupo de representantes de ONGs preta na periferia de Minaçu. Os
lha com um X, homens fardados belgas. Os militantes internacio- belgas denunciaram que eles fica-
de variadas indumentárias que nais puderam conhecer o cotidiano ram sem comida, sem água potá-
indicam a variedade de empresas das famílias que foram expulsas vel e sem emprego. A “moradia”
que atuam no canteiro de obras da de suas terras, e os desdobramen- ficava a 500 metros de uma área
barragem, ônibus que os carregam tos do lago que surgiu depois da de mineração de amianto, em um
agora fazem parte da paisagem na construção da barragem. terreno que a própria prefeitura
cidade. O trabalho é terceirizado. Rixen em um artigo expli- cedeu.
A hidrelétrica de Estreito cita que a indenização proposta Em outro local de visita
encontra-se em croquis dos plane- aos atingidos pela barragem fi- da equipe as terras férteis vira-
jadores de velha data. Localiza-se cou no patamar de R$ 5.300,00. ram brejos por conta da proxi-
na bacia Araguaia-Tocantins, con- O militante da CPT adverte que midade com o lago da barragem.
siderada a maior em potencial de Tornou-se impossível produzir os
muitos não aceitaram esse valor
geração de energia hidroelétrica alimentos para sustento da famí-
considerado uma “mixaria”. No
do Brasil. Tal modelo de empre- lia. O cheiro de fermentação e os
Ministério Público de Brasília e
endimento ratifica uma economia mosquitos completavam o quadro
em Goiânia um documento enu-
baseada no uso intensivo dos re- crítico.
mera 804 famílias cadastradas
cursos naturais, ou seja, extrativa.
como atingidas.
O hoje ministro das Minas Desenvolvimento para
O reassentamento é uma
e Energia, Edson Lobão, reco- quem?
das questões mais delicada no
nhecido pelos serviços prestado
processo de implantação de hi-
à ditadura, integrante do ninho O Banco Nacional de De-
drelétricas. Em geral não se con-
da família Sarney, ainda quando senvolvimento Econômico e So-
senador foi um dos mais fervoro- segue reproduzir as mesmas con-
cial (BNDES) é o principal agen-
sos defensores da implantação da dições de reprodução de vida das
te financiador da obra, ou seja, a
hidrelétrica de Estreito. Dono de origens dos trabalhadores rurais.
sociedade financia um modelo de
meios de comunicação na região Esse tem sido um questionamento
desenvolvimento arcaico. Não se-
Tocantina, cedeu os veículos que constante, e a construção de La-
ria mais prudente o Estado induzir
controla para que alardeassem as jeado e Serra da Mesa, erguidas
um modelo de desenvolvimento
“benesses” da instalação do em- no estado do Tocantins ratificam
contrário, em setores intensivos
preendimento. a tese sobre a questão.
em tecnologia, por exemplo?
A equipe de belgas visi-
Artigo no jornal Le Mon-
A Tractebel em Goiás tou uma área de 26 famílias reas-
de Diplomatique Brasil, edição
sentadas pela empresa Tractebel.
de outubro de 2008, do profes-
Bento Rixen, da Comissão Apesar de boa casa e uma parce-
sor João Roberto Lopes Pinto, da
Pastoral da Terra (CPT) de Goi- la de 20 ha, eles não estão bem.
Pontifícia Universidade Católica
ás em artigo publicado em 2003, Entrevistados reclamam que só é
(PUC/RJ), baseado em relatórios
numa publicação do Fórum Cara- possível produzir em um hecta-
do próprio BNDES, indica que tal
jás, “Escritos sobre a água” alerta re. Posto ter de manter a reserva
opção de desenvolvimento inten-
sobre os passivos sociais e am- ambiental e a impossibilidade de
siva no uso dos recursos naturais,
bientais provocados pela empre- plantar sobre os morros. Segundo
induz a um crescimento menor de
sa na construção da hidrelétrica a família, a plantação tem de ser
renda e da produtividade, onde
de Cana Brava, nos município de irrigada, entretanto, eles não pos-
prevalecem a ocupação informal,
Minaçu e Cavalcante. suem dinheiro para pagar a ener-

Fórum Carajás outubro de 2010 50


precária e de baixa qualificação. são Mundial de Barragens (Banco deste do Pará nos município de
Gozam da gentileza do Estado Mundial, construtores, atingidos Xinguara, Rio Maria, Redenção e
o setor da mineração, celulose e por barragens, pesquisadores) São Félix do Xingu.
etanol. verificaram-se: Mamão, Pedra Rica, Ca-
Tal modelo de desenvol- a) Alagamento e saliniza- muru são alguns dos garimpos em
vimento induzido pelo Estado ção afetam um quinto das terras que Francisco passou. Num deles
tende a fortalecer ainda mais as irrigadas no mundo, incluindo ganhou um pouco de dinheiro com
desigualdades existentes no país. terras irrigadas por grandes bar- o ouro encontrado. Fala que não
Nesse sentido um conjunto de ragens e apresentam graves im- guardou muito da sorte que teve
organizações sociais e políticas pactos de longo prazo, muitas na década de 1980. “Dinheiro de
organizaram a frente “Platafor- vezes permanentes, sobre a terra, garimpo parece que é amaldiçoa-
ma BNDES,” explica o artigo do a agricultura e a subsistência da
do. Nunca durou muito”, reflete o
professor Pinto. A frente deseja população;
moto-taxista. Francisco informa
pressionar o governo para que b) as grandes barragens
que passou no maior garimpo a
reoriente a política do BNDES provocam impactos cumulativos
céu aberto do mundo, o de Serra
em favor de um desenvolvimento sobre a água, inundações naturais
Pelada, mas não ficou por lá.
que busque a superação das desi- e a composição de espécies quan-
gualdades e promova os direitos do várias barragens são implanta- Ele lembra de pessoa que
sociais. das em um só rio (caso da bacia “bamburou“ (achou muito ouro)
Pinto reflete que a Plata- Araguaia-Tocanstins); c) as gran- até 300 quilos de ouro. Teve for-
forma argumenta que se faz ne- des barragens provocam destrui- tuna em fazendas de gado e casas,
cessário, entre outros pontos, a) ção da floresta e locais selvagens, como o caso de um garimpeiro
fortalecer a economia de base o desaparecimento de espécies e que mora em Estreito conhecido
camponesa e familiar, que garan- a destruição das áreas de captação como Índio. O afortunado é do
te produção para o mercado in- à montante devido à inundação da município de Codó. Quando ele
terno; b) descentralizar o crédito área do reservatório; pegou o dinheiro comprou uma
e que fomente a diversificação d) as grandes barragens penca de carros e invadiu a cida-
produtiva e a inovação técnica; c) provocam o deslocamento de 40 de natal exibindo o “sucesso” em
incentivar a participação pública a 80 milhões de pessoas em todo terras paraense, conta Francisco.
em obras de infraestrutura social, o mundo; muitas das pessoas des- Nas idas e vindas de Fran-
como uma política de saneamento locadas não são reconhecidas (ou cisco ao Pará em busca de riqueza
básico. cadastradas) como tal e, portanto, perdeu dois irmãos. A perda mais
não são reassentadas ou indenizadas.
trágica foi a do caçula. Francisco
Comissão Mundial de
lembra que o irmão tinha apenas
Barragens Adverte Histórias de garimpeiros
16 anos, e que era muito generoso
com as pessoas ao redor. Mas, a
Entre os anos de 1997 a Na região as histórias de
realidade do garimpo não permite
2000 uma comissão realizou es- venturas e desventuras sobre a
tal atitude.
tudos sobre a construção de bar- busca de riqueza fácil em garim-
ragens em todo o mundo. Tucuruí pos no Pará é generosa. Francis- Após achar uma peque-
foi o caso selecionado na América co foi o moto-taxista que serviu na porção de ouro foi tocaiado e
Latina. A construção de barragens como guia na ensolarada Estreito. morto por parceiros de farra em
do Brasil é responsável por 40% Ele soma uns 40 anos e é filho de bebidas e cabarés. Um outro ir-
do valor da dívida externa. En- migrantes do Ceará, estado que mão não tem notícia faz mais de
tre os impactos da construção de nunca chegou a retornar após ter 15 anos. Francisco acredita que
barragens como a de Estreito os ficado adulto. O nosso guia pe- ele mora em Redenção, sudeste
estudos organizados pela Comis- rambulou pelos garimpos do su- do Pará.

51 Fórum Carajás outubro de 2010


A busca pelas fotos ta. O jeito é parar e apreciar a pai- impedir que a passagem dos ribei-
sagem. rinhos quando usam dinamite na
Falo a Francisco do inte- No portinho algumas em- obra. Segundo ele, as explosões
resse em fazer fotos da obra da barcações. Uma barraca comercia- são comuns no raiar do dia e no
UHE de Estreito. Ele sugere que liza bebidas. Moradores se diver- apagar da tarde.
alugue uma canoa. Somente ela tem no rio e tomam umas pingas.
pode levar você até o local onde As casas são humildes. Destoam Há luz nos grotões?
a construção começou. Numa via- do gigantismo da obra vizinha. A
gem até um portinho tenho sorte, A instalação da hidrelétri-
arquitetura de compensado e co-
ca de Estreito coleciona inúmeros
deparo-me com José Antônio por bertura de palha socorre os mora-
capítulos. Os relatórios de impac-
volta das 11h da manhã de um dia dores nos dias de chuva. Antônio
tos sócio-ambientais amplamente
escaldante. Antônio entre outras limpa a merda dos porcos da ca-
criticados, as ações nos Minis-
atividades é pescador, feirante e noa e iniciamos a viagem. Ainda
térios Públicos do Maranhão e
dono de sítio. de onde saímos é possível avistar
Estreito, mobilizações do Movi-
Passou toda a manhã numa o local.
mento dos Atingidos por Barra-
exaustiva viagem, onde foi buscar Dragas, barcos de vigilân- gens (MAB), apoiados pelo MST,
a esposa e uns porcos para criar cia, numa paisagem onde é possí- atentado à bala de um gerente de
no sítio que tem na periferia do vel se avistar babaçuais e outros operações contra militantes con-
município de Estreito. Acusando tipos de vegetação antecipam a trários a instalação da barragem,
cansaço resistiu em pegar a em- nossa chegada. A passagem de greve de operários do canteiro de
preitada de uma viagem que du- uma embarcação veloz conhecida obras por conta da péssima quali-
rou mais de uma hora ida e volta como voadeira forma banzeiros e dade da comida e assédio moral
faz a nossa canoa sacudir no meio de um gerente, que acabou sendo
no caudaloso Tocantins até o can-
do Tocantins. Antônio sugere cui- espancado pelos operários.
teiro da obra. A viagem ganha em
dado. O progresso, geração de
emoção posto o motor da canoa
O pescador avisa que os emprego e desenvolvimento são
padecer de panes quando esquen-
vigilantes do barco ficam ali para os argumentos dos alinhados na
defesa do projeto. Qualquer voz uma confusão sobre o papel do bém um atingido pela própria
que destoe de tal perspectiva é tra-
Estado e o da empresa. São ofer- obra que ajudou a erguer.
tada como ressonância de forças tados ainda em parcerias com o Carvalho lembra que o di-
externas que não desejam o pro- Serviço Nacional de Aprendiza- nheiro que ganhou não conseguiu
gresso do país. É comum a ojeriza
gem Industrial (SENAI), cursos comprar nem metro de terra de-
a movimentos sociais e manifes- de panificação e costura. pois. “Com a terra a gente comia
tações de xenofobia a análises e Não raro os boletins inun- todos os dias, ganhava um dinhei-
ONG´s internacionais que fazem dam suas páginas com depoimen- rinho e podia trabalhar a família
oposição ao modelo do empreen- tos de famílias que já foram desa- por muito tempo. Dinheiro não é
dimento. propriadas pelo Consórcio. Tudo tudo na vida”, arremata o senhor.
é flor nesse jardim? Uma série de
Isso foi verificado desde Ele alerta que a média de inde-
o processo de audiências públi- reportagens de Beatriz Camargo, nização tem sido de 30 mil reais.
pública no site Repórter Brasil,
cas. A força da “grana” coopta de Ele teme pelos idosos. “Tenho um
no mês de julho indicam que não.
clérigos a políticos, passa pelo in- colega que mora só. Vai ser desa-
centivo a criação de associaçõesSobre a especulação imobiliária, brigado. Tem uns 80 anos. O que
a série indica que houve pressão ele vai fazer aqui na cidade?”, in-
de fachada, como o caso da As-
por parte de pessoas de empresas terroga o sindicalista.
sociação de Atingidos pela Barra-
gem, entre outras. As audiênciasterceirizadas na compra de imó-
veis, com vistas a serem desa- Construção civil - sindi-
que seriam um espaço de debate
propriados com um melhor preço cato em construção
possuem ares de congresso de
pelo consórcio.
“partido único”, isso na capital ou
A não inclusão dos povos Delfino Araújo é o presi-
interior.
indígenas como setores que po- dente do recém criado Sindicato
dem ser afetados pela constru- da Construção Civil de Estreito,
A propaganda é a alma
ção é um outro ponto. O certo é que tem 140 sócios como funda-
do negócio? dores. Ele explica que o registro
que desde o começo do processo
há uma série de temas nublados. para a criação do sindicato foi
Os boletins do Ceste ce- publicado no Diário Oficial em
Enquanto isso as obras avançam
lebram uma série de ações junto fevereiro deste ano. O sindicato
sobre o rio, sobre as histórias das
aos mais diversos segmentos da ainda está em fase de construção,
populações locais, a reconfigurar
sociedade. Um posto de atendi- é o que se conclui após a conversa
uma região prenhe em conflitos
mento ao migrante localizado na na disputa pele terra e os recursos com o dirigente.
pequena rodoviária indica para naturais nela existentes. Araújo ainda não sabe
que as pessoas façam ficha no quantificar quantas empresas es-
Sistema Nacional de Emprego Sindicato dos Trabalha- tão no canteiro de obras da hidre-
(SINE), sempre com filas enor- dores Rurais (STR) létrica e nem o número preciso de
mes. Escritórios do consórcio se operários. Ele informa que já so-
espraiam em cidades estratégicas Raimundo Carvalho, co- licitou os dados para o setor res-
nos dois estados. nhecido como Cabeça Branca, ponsável.
dirigente sindical rural de Estrei- Sobre a paralisação de
Os jornais do consórcio to, explica que no começo todo 11 dias dos operários no mês de
celebram ainda cursos que pas- mundo achava que a barragem ia julho, Araújo relata que as con-
sam pela “inclusão digital” com a ser boa. Aos poucos o povo vai dições precárias de trabalho e a
Colônia de Pescadores- Z-35, que aprendendo que não é bem assim. ração foram os motivadores. O di-
se manifestou contra o acampa- Carvalho foi operário na constru- rigente alerta que o sindicato ne-
mento do MAB, doação de ambu- ção da barragem de Boa Esperan- cessita tomar pé dos dados, para
lância, doação de computadores a ça, no rio Parnaíba, no estado do que possa garantir uma interven-
unidades de saúde. O que traduz Piauí na década de 1960, e tam- ção qualificada.

53 Fórum Carajás outubro de 2010


Grandes Projetos na Amazônia:
mineração em Juruti e a produção
de energia1
Rogério Almeida

1.500 pessoas ocuparam no dia 28 de janeiro de 2009 uma área de operação da empresa estaduniden-
se Alcoa, no município de Juruti, oeste do Pará. No local é explorada uma mina de bauxita, matéria-prima
para a produção de alumina que é em seguida transformada em alumínio.
O empreendimento fica na bacia do Amazonas. Um bilhão de reais deve ser aplicado para produzir

1 Trabalho publicado no site www.plataformabndes.org.br em fevereiro de 2009


quatro milhões de toneladas do ção de Impacto Ambiental apre- ram seus lotes atravessados pela
minério. Desse total de investi- sentada, em 1999, pela empresa ferrovia, que receberam por inde-
mento a sociedade brasileira vai Engevix Engenharia S. A., que nização R$ 0,24/metro quadrado,
entrar com 500 milhões através atestava de modo fraudulento a por força de um acordo entre o
do Banco Nacional de Desenvol- viabilidade ambiental da explora- sindicato e a empresa, enquanto
vimento Econômico e Social (BN- ção do potencial hidroelétrico no reivindicavam R$ 3,00. O porto
DES) a juros módicos. rio Pelotas, afluente do rio Uru- está colado à cidade sede do mu-
A companhia é uma das guai, informa nota do MAB. nicípio de Juruti, de onde várias
maiores mineradoras do mundo No caso do Pará, os mili- famílias estruturadas social e eco-
e opera em 32 países nos quatro tantes denunciam os danos aos re- nomicamente no bairro Terra Pre-
continentes. No Maranhão man- cursos hídricos, redução do pesca- ta foram expulsas.
tém uma empresa de produção de do, impedimento do direito de ir e Gerdeonor Pereira, diri-
lingotes de alumínio. A Alumar, vir dos ribeirinhos, diminuição da gente no Projeto de Assentamento
desde a década de 1980, em so- coleta da castanha do Brasil, andi- Extrativista (PAE) Juruti Velho,
ciedade com a BHP Billiton e que roba e outras fontes de proteína e informa que 80% do minério es-
deverá incrementar a produção recursos da flora usados para fins tão no PAE. O militante informa
de 368 mil para 420 mil tonela- medicinais. que pelo menos 50 mil hectares
das. Por isso o interesse na mina O projeto representa tam- de floresta devem ser derrubados.
de Juruti, que também vai eman- bém um risco de morte aos traba- “O projeto trouxe para a
cipar a Alcoa do fornecimento da lhadores, por conta da construção cidade umas 15 mil pessoas. O
Mineração Rio do Norte, da Vale, da ferrovia que escoará o minério. município não tem estrutura para
que extrai a bauxita no município Eles explicam que não há túneis cuidar desse povo com moradia,
de Oriximiná, na mesma região. ou desvios nos trechos que cor- saúde e escola. Hoje a empresa
Além das frentes de mineração o tam os projetos de assentamento já iniciou as demissões porque
baixo Amazonas tem em pauta a impactados pela obra. as construções estão em fase de
construção de hidrelétricas no rio Durante a ocupação, a tro- conclusão. Para onde esse povo
Tapajós e é impactado pela mono- pa de choque da Polícia Militar foi vai”, interroga Pereira? Há infor-
cultura de grãos e pelo porto da acionada. Os policiais usaram gás mes que por conta de migração o
Cargill. de pimenta e bombas de gás lacri- município passou por dois surtos
Além de negócios no Ma- mogêneo contra os manifestantes. de hepatite. A fase de construção
ranhão e agora no Pará, a Alcoa Crianças e mulheres foram atingi- é considerada onde a prefeitura
também é acionista majoritária das. Afinal, quem é o inimigo? mais fatura com arrecadação do
do consórcio Baesa, responsável Documento sistematizado Imposto Sobre Serviço (ISS). A
pela usina hidrelétrica de Barra por Raimundo Gomes da Cruz estimativa é de um milhão por
Grande, localizada na região Sul Neto, sociólogo que visitou as mês desde 2006.
do país. Junto com o grupo Vo- comunidades atingidas, escla- A presença da empresa
torantim, a Alcoa foi denuncia- rece que a mina está localizada também incrementou o mercado
da pela violação das Diretrizes numa área de floresta densa, nas de prostituição, drogas, especula-
para Empresas Multinacionais cabeceiras do lago Juriti Grande, ção imobiliária e ocupações.
da Organização para Cooperação caracterizada por três platôs. A Os passivos socioambien-
e Desenvolvimento Econômico ferrovia atravessa dois projetos tais já experimentados nas 60
(OCDE). de assentamento de agricultores, comunidades onde vivem cerca
A Alcoa e o grupo Voto- criados pelo Instituto Nacional de de quatro mil famílias num total
rantim foram denunciados pelo Colonização e Reforma Agrária aproximado de nove mil pessoas
Movimento de Atingidos de Bar- (INCRA). foram omitidos nos estudos de
ragens (MAB) no ano de 2005. As Um deles é o Socó, com impactos ambientais, realizados
empresas aproveitaram a Avalia- 420 famílias, das quais 43 tive- pela empresa CNEC Engenharia

55 Fórum Carajás outubro de 2010


e apresentado pela Alcoa para ob- Assim a Alcoa, como a 6 - na AID existem espé-
ter a licença. Cargil que produz grãos no mu- cies vegetais (castanheiras, pau-
A CNEC é a mesma em- nicípio vizinho de Santarém, que cravo, pau rosa) protegidas pela
presa que realizou os estudos ergueu um porto ao arrepio da lei, legislação ambiental;
para a construção da hidrelétrica finaliza a construção de rodovia, 7 - na AID existem os ecos-
de Estreito, onde a Alcoa é sócia ferrovia, porto e tanques de con- sistemas de várzeas.
da Vale, da Suez Energy, da BHP tenção de rejeitos para a extração Negociações - Após a mo-
Billiton e da Camargo Correa. do minério. bilização da população atingida
A hidrelétrica de Estreito O MPF e o MPE consi- pelo grande projeto de minera-
está sendo erguida no rio Tocan- deram que o Instituto Brasileiro ção que deve durar entre 80 a 100
tins, fronteira do Maranhão com dos Recursos Renováveis e do anos, uma rodada de negociação
o estado do Tocantins e é conside- Meio Ambiente (IBAMA) deve- foi realizada entre 9 a 11 de feve-
rado o maior empreendimento do ria licenciar o projeto Juruti e não reiro, no município pólo da região,
setor no Brasil. No caso de Estrei- a Secretaria de Meio Ambiente, Santarém.
to, entre as omissões consta que como ocorreu: Os elementos que Além dos atingidos pelo
as áreas indígenas nos dois esta- demonstram a necessidade de que projeto, participaram dos deba-
dos, Krahô, Apinajé, no estado do o licenciamento se dê no âmbito tes o representante da Alcoa na
Tocantins, e Gavião e Krikati no federal são: América Latina, Franklin Feder,
Maranhão não serão afetadas pela 1 - a área na qual estão lo- os Ministérios Públicos, Prefei-
obra. Informação que foi contes- calizadas as minas de bauxita per-
tada pelas comunidades indígenas tura de Juruti e representantes
tence à União, tendo sido objeto do Governo do Estado. A rodada
e pelos defensores dos direitos
de arrecadação administrativa e, teve várias divisões. Dia de de-
humanos.
hoje, encontra-se em processo de bate com todos os envolvidos na
As omissões nos relatórios
regularização fundiária, tendente questão, dia dedicado ao debate
que indicam os impactos ambien-
a permitir a fixação dos clientes entre os atingidos e a empresa e
tais da exploração da bauxita do
da reforma agrária;
Pará estão entre as motivações da uma rodada de negociação encer-
2 - todas as atividades para
ação movida na justiça pelos Mi- ra com a participação de Walmir
a obtenção da bauxita (escavações
nistérios Públicos Federal e Es- Ortega, então Secretário de Meio
e deposição de rejeitos nas cavas)
tadual (MP) desde 2005. Nestes Ambiente do Pará, informa Perei-
termos, a Alcoa funciona na ile- ocorrerão sobre o aquífero Alter-
ra.
galidade em terras do Pará, posto do-Chão, importante reserva de
Reivindicações – A Asso-
as contestações dos MP sobre o água doce que atravessa dois es-
ciação das Comunidades de Juruti
processo de licenciamento da ex- tados (Pará e Amazonas);
Velho exige entre outras coisas,
ploração de bauxita. 3 - o porto está localizado
a participação de 1,5 % nos lu-
O não cumprimento da às margens do rio Amazonas, rio
cros da empresa, investimentos
recomendação dos MP também internacional, sem que tal impac-
em educação, saúde e moradia
resvala no governo do estado do to tenha sido nem mesmo correta-
e a definição de uma agenda de
Pará. Gabriel Guerreiro, deputa- mente mensurado ou nem sequer
compromisso. Gerdeonor Pereira
do estadual (PV) e Walmir Orte- estudado;
4 - todo o Projeto Juruti esclarece que a primeira reivindi-
ga, ambos ex-secretários do meio
está contido na bacia hidrográfi- cação já foi atendida.
ambiente, respondem por impro-
ca do Amazonas, sob jurisdição Tal tipo de empreendimen-
bidade administrativa. O primeiro
pela aprovação da licença de ope- federal; to na Amazônia coloca em lados
ração da Alcoa e o segundo pela 5 - há o registro de 73 ocor- opostos grandes corporações com
manutenção, contrariando a reco- rências de sítios arqueológicos na staff de capacidade internacional
mendação dos MP, que decidiram Área de Influência Direta (AID), de negociação e populações con-
pela suspensão. até esta fase; sideradas tradicionais. Tanto no

Fórum Carajás outubro de 2010 56


caso do Pará como na fronteira particular para fazerem coro pró- nenhum veículo informou que a
do Maranhão com o Tocantins, a empreendimento nas audiências mesma opera de forma ilegal. O
empresa apresenta um discurso públicas onde são apresentados os destaque conferido recaiu sobre
de redenção da pobreza através estudos de impactos ambientais. a nota da empresa sobre os possí-
do grande empreendimento, que A empresa também não veis prejuízos.
Tanto no caso da usina de
deve ser seguido como se fosse se descuida em “convencer” os
Estreito, como no caso da explo-
um mantra da prosperidade. meios de comunicação locais da
ração mineral em Juruti, o fato foi
A cooptação de políticos e sua nobre causa. É raro algum ve- verificado. Qualquer questiona-
agentes que representem algum ículo de comunicação dar visibi- mento que soe a ambientalismo é
tipo de liderança consta como lidade sobre as mazelas dos gran- logo satanizado. E os portadores
agenda da ação da empresa, em des projetos. No caso da Alcoa de inquietações sobre os impactos
socioambientais tratados como agentes que defen-um dos agentes do projeto de Integração da Infraes-
dem o “atraso” do lugar. trutura Regional Sul-Americano (IIRSA).
O processo de licenciamento das obras e Do conjunto de 10 eixos de integração, qua-
tro se destacam, por suas riquezas naturais e pos-
as populações tradicionais locais são classificados
como os grandes entraves pelos empreendedores. sibilidades de conexões: o Amazonas, o Hidrovia
Os mesmos podem ter em breve as suas demandas Paraná-Paraguay, o Capricórnio e o Andino. O obje-
tivo central prima em facilitar a circulação de mer-
aceitas no que tange ao processo de licenciamento
de obras na Amazônia. Ao menos, se depender do cadorias.
esforço de Mangabeira Unger, que deseja azeitar o O eixo do Amazonas compreende os seguin-
já delicado processo. tes países: Colômbia, Peru, Equador e Brasil e visa
O desenvolvimento e o progresso formam acriar uma rede eficiente de transportes entre a bacia
amazônica e o litoral do Pacífico, com vista à expor-
dorsal do discurso de defesa dos grandes empreen-
tação.
dimentos, que segundo as empresas, vai fazer ger-
minar como se fosse leite e mel, o emprego e a fortu- Nesse sentido o BNDES exerce protagonis-
mo continental, financiando obras de integração
na nos rincões. Numa clara linha de desinformação
sobre a lógica que conforma tais empreendimentosalém de nossas fronteiras. Outro ator importante no
longa metragem de extração das riquezas do conti-
nas periferias do planeta, o enclave. Ou seja, o saque
dos recursos naturais. nente é o Banco Interamericano de Desenvolvimen-
to (BID).
Mineração na Amazônia e os eixos de inte- No mundo do Brasil, alguns se arriscam em
gração do continente pontuar que o Programa de Aceleração do Cresci-
mento (PAC) é uma miniatura do IIRSA.
O extrativismo tem regido a economia na
Antes do fim
Amazônia. O ciclo mais recente é o mineral, inicia-
do a partir da década de 1950, no estado do Amapá,
No dia 16 de setembro de 2009 o Pará viveu
quando o mesmo ainda tinha o status de território.
um dia histórico. Em Belém o aparato policial foi
A exploração do manganês na Serra do Navio
usado contra populares numa audiência pública so-
foi o pontapé inicial, e que em apenas cinco décadas
bre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte. Já no
se exauriu, restando apenas o buraco, literalmente.
município de Juruti a governadora Ana Júlia Carepa
A exploração mineral no Amapá, considerada a pri-
(PT) cortava a fita do projeto de mineração de bau-
meira na Amazônia, foi protagonizada pela empresa
xita da Alcoa. Além de cortar a fita a governadora
estadunidense de Daniel Ludwig, a Bethlehem Steel plantou uma árvore. Uma exacerbação do marke-
Company em sociedade com o empresário Augusto ting.
Trajano de Azevedo Antunes, dono da Indústria e Os dois projetos estão localizados na mesma
Comércio de Mineração S. A. (ICOMI). região, sudoeste do estado. Numa foto de um diário
O ciclo da mineração ganhou maiores pro- local a governadora aparece amparada pelo repre-
porções na Amazônia a partir da região de Carajás sentante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder.
com a presença da Vale na extração do minério de Ainda na mesma foto destaque para o ministro das
ferro na década de 1980, no Pará. Minas e Energia, Edson Lobão, uma figura íntima
É creditado a Eliezer Batista, ex-executivo do senador José Sarney. Desde o regime de exceção.
da Vale, a construção do mapa das riquezas naturais Essa tal de governabilidade...
na América do Sul. Batista é pai de Eike, festejado Mais irônico, o Instituto de Pesquisa Aplica-
como o novo bilionário nacional. Obra do acaso? Os da (IPEA), acabava de apresentar relatório onde in-
levantamentos de Batista foram encomendados pela dica que a produção de alumínio é um desastre para
Corporação Andina de Fomento (CAF). A CAF é região amazônica.

Fórum Carajás outubro de 2010 58


Grandes projetos no município
de Barcarena: conflitos sociais e
ambientais

Manoel Maria de Morais Paiva1

Meu nome é Manoel Paiva. Sou engenheiro ambiental e ex - presidente do Sindicato dos Químicos
de Barcarena. Atualmente coordeno a Organização Não Governamental (ONG) Ecologia Sócio Ambiental
da Amazônia (Ecosaam), com sede em Barcarena/Pará. E acumulo a direção da CTB e estou presidente do
diretório municipal PC do B.
Resido em Barcarena desde 25 de setembro de 1985. Faz 25 anos que convivo com o projeto Albras
e Alunorte. Entre 1985 a 1995 fui funcionário da Albras, trabalhando como operador de manuseio, forno e
ponte rolante, até julho de 1995.
Em agosto de 1995 passei a trabalhar como funcionários da Alunorte. Em 2001 foi eleito presi-
dente do Sindicato dos Químicos, que representa os trabalhadores da planta química da Alunorte. Fiquei
liberado até 2007, quando perdemos a eleição para chapa que a Empresa Alunorte montou.
Em todos esses anos o que menos se viu em todas as ações das empresas em Barcarena, foi justi-

1 ex-presidente do Sindicato dos Químicos de Barcarena, engenheiro ambiental. mmmpaiva@yahoo.com.br (91) 37544965 / 88713621}
ça. Desde a implantação do pólo E as pessoas que não tiveram a pela exuberância de suas riquezas,
Industrial de Barcarena o capital oportunidade de conhecer a fortu- minérios, rios, floresta e biodiver-
tem atropelado as comunidades, na dos rios. Os grandes projetos sidades. Tudo dentro de um equi-
trabalhadores e o meio ambiente. na Amazônia têm deslocado co- líbrio que garante a sustentabili-
O poder do recurso financeiro tem munidades centenárias, subtrain- dade dos ecossistemas terrestres e
preponderado. O passivo social e do chances de ao menos reclamar. aquáticos.
ambiental que ficará para Amazô- Os protagonistas das nossas dores Não queremos dizer com
nia, ao final desse ciclo será in- nunca aparecem em cena. isso que vamos envelopar a Ama-
calculável. Hoje são centenas de A saúde do trabalhador é zônia. Mas, não podemos mais
homens e mulheres mutilados em delicada. Há um montante signi- aceitar sermos meros exportado-
todos os sentidos, em decorrência ficativo de operários reclamando res de matérias primas para países
dos ataques aos seus direitos. seus direitos. E outros que não desenvolvidos. Ditos do primeiro
Temos capital suficiente têm a mesma iniciativa. Por conta mundo, à custa do sofrimento do
para articular um grande debate da estratégia do calar. A regra con- nosso povo.
sobre a situação de cada comuni- siste em empregar filhos, filhas ou O saque aos nossos re-
dade afetada pelos grandes pro- parentes dos ex-funcionários para cursos tem se repetido desde os
jetos. Sejam eles da Vale, Alcoa, que os mesmos fiquem presos no tempos coloniais. Desde o des-
MMX ou CCM. Necessitamos cordão umbilical da fábrica. Por cobrimento, até os dias de hoje.
apresentar propostas que possam conta do medo do desemprego Os ciclos econômicos saqueiam
garantir a permanência de famí- agonizam calados. Dores que eles nossas riquezas e não deixam
lias tradicionais em seu habitat. dividem somente com as famílias. para nosso povo reflexos positi-
E as suas terras, suas raízes, suas A demissão é um fantas- vos. Foi assim com ciclo com do
culturas, sua identidade e meio ma constante. O futuro para as pau brasil, borracha, ouro e pe-
ambiente. empresas quem faz é o próprio dras preciosas. E agora entramos
Os passivos sociais e am- trabalhador, quando deposita seu na era dos minérios primários. Os
bientais se repetem a cada projeto. INSS, descontado em seu contra mesmos são tratados aqui para se-
O que acresce são a crueldade e – cheque todo mês. Pois todo tra- rem exportados, sem o perigo de
a injustiça. Podemos citar como balhador que chega a essa condi- contaminação pela geração de re-
exemplos os ribeirinhos do rio ção de aposentadoria é um peso a jeitos perigosos. Até que tentaram
Murucupi. Os mesmos tiveram de menos para as empresas, que não sangrar o coração da Amazônia
deixar suas casas, por não pode- garantem absolutamente nada com a Estrada de Ferro Madeira
rem mais usar o rio em decorrên- aos trabalhadores por mais que Mamoré. A natureza não permitiu.
cia da contaminação da água. O os trinta e não sei quantos anos Onde estão os primeiros
rio foi a garantia por muitos anos para a aposentadoria tenham si- habitantes das comunidades que
da segurança alimentar e fonte de dos trabalhados somente naquela existiam nas proximidades do
renda de milhares de ribeirinhos, empresa. Deveria haver leis que projeto Albras /Alunorte? Deve-
pescadores, camaroeiros. Era co- garantissem pelo menos plano de riam no mínimo ter um endereço
mum em tempos de abastança a saúde vitalício para trabalhadores que servisse como referência para
presença de turistas que encosta- que prestaram serviços por cinco, o resgate de sua cultura. Famílias
vam nas tabernas para beber uma dez ou vinte anos para grandes inteiras foram esfaceladas para
pinga, cerveja ou comer um tira empresas. dar espaço para a construção das
gosto. Pois ao se aposentar o tra- grandes fabricas de alumina, alu-
A matemática dos grandes balhador gasta metade do seu ren- mínio e caulim.
socializa a miséria e os desastres dimento com medicação, princi- O povo do Pará tem fama
sociais e ambientais. A máxima palmente na cultura do nosso país de ser um povo hospitaleiro, ale-
de geração de emprego desapare- que quanto mais velho mais caro. gre, falante e de fácil relaciona-
ce quando se faz um paralelo com A Amazônia, em espe- mento. Mas, o que percebemos
os desempregados indiretamente. cial o Estado do Pará, se destaca hoje no semblante das pessoas

Fórum Carajás outubro de 2010 60


Gilvandro, Damasceno e Manoel Paiva durante lançamento do livro Alumínio na Amazônia em Belém(PA) - foto: arquivo Fórum Carajás

que foram remanejadas das suas Essa questão da terra não a pesca e agricultores em áreas
comunidades não é o das referên- é muito diferente dos conflitos agricultáveis. Para evitar que haja
cias acima. A atitude hoje é des- agrários. Esses que a mídia ten- conflitos no repasse das ativida-
confiança, revolta, sentimento de ta reproduzir de forma distorcida, des as novas gerações.
terem sido enganadas e desprezadas. quando “satanizam” os integran- Muitos dos remanejados
O projeto não trouxe a elas tes do MST. A questão é mais para a implantação dos grandes
nenhuma perspectivas de melho- complexa e envolve os gover- projetos não conseguem assimi-
ria de vida. Como as empresas ha- nos federal, estadual e municipal. lar, nem aceitar as ofertas feitas
viam propagado. Em particular os Além de políticas públicas que pelos grupos de interessados pelo
responsáveis pelas mentiras que possam garantir a distribuição de projeto. Há registros de pessoas
convenceram os moradores tra- terras e incentivo à produção da ganhando muito bem pra fazer a
dicionais a saírem de suas terras. agricultura familiar. menor oferta possível às famílias.
Terras que passaram centenas de É preciso levar em con- Muitas delas quase sempre des-
anos sem ter um dono. O direi- ta que cada comunidade vive de providas de informações das reais
to da propriedade privada se so- acordo com suas disponibilidades intenções acabam ficando entre-
brepôs a posse ancestral da terra. e facilidades. Portanto não podem gue a própria sorte.
Com os s grandes projetos apare- ser avaliadas e deslocadas para O estado que deveria dis-
ceram donos de todo que é lado: qualquer lugar. É necessário res- ponibilizar profissionais capacita-
União, Estado, Município e até as peitar cada atividade lucrativa de dos para fazer as primeiras abor-
próprias empresas que estão che- sustento das famílias. Por exem- dagem, e servir como o mediador
gando e as aqui instaladas. plo: pescador em área propicia não o faz. A perspectiva nos im-

61 Fórum Carajás outubro de 2010


postos que o projeto poderá gerar, liberação do financiamento para a nos. Prova recente disso foram
acaba deixando de lado as comu- efetivação de um projeto social. as manifestações contrárias a im-
nidades a serem remanejadas. Um exemplo: a gestão pas- plantação da usina termoelétrica,
Em tal contexto as comu- sada do Sindicato dos Químicos e a não permissão para aceitar o
nidades tornam-se alvo fácil pe- exigiu das empresas a construção lixo do município de Abaetetuba.
rante a pressão das grandes empre- das casas para os operários. Tudo Dois projetos que não jus-
sas. Quando existe resistência de acertado no acordo coletivo que tificam seu licenciamento. Se le-
uma ou outra família, as empresas obriga a empresa a construir ca- varmos em conta as discussões
usam de estratégias. Cooptam as sas aos trabalhadores. Por conta sobre aquecimento global, onde o
pessoas mais esclarecidas, como disso a Caixa Econômica exigiu Brasil apresentou em Copenhagen,
se essas fossem funcionárias das um projeto social, que foi decidi- na Dinamarca sua contribuição
empresas. Os empreendedores fo- do entre empresa e construtora. A para diminuição do aquecimento
mentam visitas a outras empresas, escolha foi troca de lajotas e a cor do planeta, usar carvão mineral é
geralmente em outros estados. O de pintura. Tentamos descobrir remar contra maré. Maior contri-
objetivo é que elas possam ser as qual foi o projeto apresentado a buinte para emissão de gases do
futuras formadoras de opinião e Caixa Econômica Federal, porém efeito estufa.
defendam os interesses das em-
até o final de nossa gestão não nos Além da pressão sobre as
presas.
foi informado. É assim que fun- terras das populações originárias,
Após o convencimento é
ciona. as contaminações ambientais têm
comum as empresas enviarem as
Os próximos anos se de- sido denunciadas constantemente.
comunidades de interesse delas
senham como de grandes confli- Sinalizo isso como avanço da so-
olheiros (as). A missão consiste
tos. Pois estão em processo de ciedade civil organizada local. Os
em realizarem levantamento das
licenciamento dois grandes pro- crimes ambientais são aos órgãos
debilidades das políticas publicas,
jetos: o da termoelétrica e o da competentes. Tem sido freqüente
e necessárias ao atendimento das
Companhia de Alumina do Pará acidentes nos locais de operações
pessoas. A partir desse diagnósti-
(CAP). Todos dois ainda sobre das grandes empresas. Algumas
co passam a fazer um grande ma-
conflitos não resolvidos. Alguns vezes por conta da perda de con-
rketing para vender a imagem de
uma empresa cidadã. Geralmente moradores chegam até a acusar trole do processo das empresas.
criam cooperativas para reciclar Outras vezes por conta do descaso
o Governo Estadual de receber
lixo, criação de animais, confec- com a segurança, o que podemos
dinheiro da Vale, e ainda não ter
ção de uniformes, fabricação de qualificar como consciente.
repassados aos moradores que
papel reciclado, produção de brin- Não podemos ver a Ama-
precisam deixar a área. A termoe-
quedos com restos de madeiras zônia como uma alternativa para
létrica a carvão mineral, esta com
das fábricas e outros. As iniciati- geração de artefatos primária de
o Estudo de Impacto Ambien-
vas sobrevivem até atenderem os interesse do capital internacional.
tal (EIA) e Relatório de Impacto
interesses das empresas. Acima de qualquer especulação
Ambiental (RIMA), questionado financeira precisamos saber se o
As empresas nunca per-
pelo ministério publico. Mas que projeto será bom também para
mitem que as próprias comunida-
pela prepotência da Vale já existe nossa terra, nossa água, nossa
des toquem o projeto. As iniciati-
até peças da estrutura da usina em gente. Saber se realmente have-
vas são na verdade uma exigência
dos agentes financiadores, como depósitos de Vila do Conde. rá retorno em forma geração de
Banco Nacional do Desenvolvi- Na década de 70, eles emprego e renda, com respeito às
mento Econômico e Social (Bn- faziam da maneira deles, hoje ou comunidades tradicionais, ribei-
des), Caixa Econômica Federal, discutem com a sociedade ou não rinhos, pescadores, agricultores,
Banco da Amazônia (Basa) e a fazem. Pois o povo não perdeu caçadores e operários. E princi-
Superintendência de Desenvolvi- oportunidade de buscar conheci- palmente para preservação das
mento da Amazônia (Sudam). E mento para jogar um papel impor- espécies entre elas o homem e a
outros agentes que condicionam a tante nas decisões de seus desti- mulher.

Fórum Carajás outubro de 2010 62


A exploração mineral e suas
consequências na Amazônia brasileira 1
Airton dos Reis Pereira [1]
José Batista Gonçalves Afonso [2]
Raimundo Gomes Cruz Neto [3]

1 – Introdução

Hoje, o que mais se ouve é que as grandes empresas são meios essenciais ao desenvolvimento eco-
nômico e tecnológico do país. Na propaganda e nos discursos oficiais de governantes e de políticos influen-
tes elas são apresentadas como símbolo do desenvolvimento, do progresso e da geração de empregos. E
por estarem atreladas a mercados bem mais amplos que os regionais e por serem estratégicas no marketing
internacional, não por acaso, recebem gigantescos investimentos do Estado.

1 Trabalho publicado originalmente no Relatório Sobre Violência da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 2009.
Na Amazônia brasileira, A exploração mineral na que essa prática seja mais inten-
Amazônia brasileira não é algo re-
grandes empresas do ramo da mi- sa e de efeitos trágicos às comu-
cente, muitos foram os garimpos
neração são beneficiadas com in- nidades camponesas em quatro
de extração de ouro, diamante e
fra-estrutura (estradas, ferrovias, grandes pólos: “Amapá” com a
cristal, nas margens dos rios Ara-
hidrovias, portos, energia, etc.) exploração de bauxita, manga-
guaia, Tocantins, Tapajós, Xingu
financiadas com dinheiro público, nês, caulim e ouro; “Oeste do
e Madeira e em vários de seus
créditos subsidiados, isenção de Pará” com a extração da bauxita
afluentes. Há casos de “ciclos”
impostos, etc. Controlam a “coisa pela Aluminium Limited of Ca-
de extração aurífera, embora
pública”, os principais meios de nadá (Alcan) e a Mineração Rio
de forma isolada e fragmentada
comunicação e extensos territó- do Norte (MRN); “Carajás”, com
ainda no período colonial como,
rios, onde exercem gestão autôno- a exploração de ferro, manganês,
ma criando enclaves que causampor exemplo, no Amapá e Mato cobre, níquel e ouro por diversas
Grosso. Mas a partir do final da
impactos sobre a organização so- empresas, entre elas a Compa-
década de 1950 e início dos anos
cial regional e o meio ambiente. nhia Vale do Rio Doce, a Vale, e
1960 tornou-se uma prática quase
Para essas empresas, a Amazônia “Paragominas” com a retirada de
que intensiva como, por exemplo,
assume um alto valor estratégico, bauxita e caulim pela Vale e Pará
com a descoberta da província
pois ao controlar recursos e o es- Pigmentos S/A.
aurífera do médio rio Tapajós e
paço regional, fortalecem sua he- É visível que a Amazônia
gemonia. de cassiterita, em Rondônia e em tem um peso significativo na ativi-
São Felix do Xingu (PA).
O crescimento da produ- dade de extração e transformação
ção industrial nos últimos anos e Na década de 1980, as ati- mineral realizada em território
o consequente aumento do valorvidades auríferas se intensifica- brasileiro, considerando a ocor-
ram nos estados do Pará, Roraima
dos principais minérios no mer- rência na região de diversos mi-
e Rondônia. No Pará os garimpos
cado internacional tem provocado nerais que influenciam na balança
de ouro em Serra Pelada, Cumaru
uma corrida cada vez mais acele- comercial do país, sendo o Pará o
e nos arredores de Itaituba e Jaca-
rada do capital internacional sobre segundo maior estado exportador
reacanga atraíram milhares de ga-
as reservas minerais existentes. de minérios [6]. Em 2008, a ex-
rimpeiros de quase todas as partes
Na Amazônia esse processo é ex- tração do nióbio colocou o Brasil
do Brasil [4].
tremamente visível. São dezenas em 1º lugar no ranking internacio-
de projetos de exploração mineral A exploração mineral de nal, em 2º com a extração do ferro,
forma empresarial teve início em
em funcionamento e tantos outros manganês e alumínio (bauxita), e
meados da década de 1940 com
em fase de instalação, resultado em 5º com o caulim e o estanho.
a extração de manganês pela em-
de uma política nacional vergo- O estado do Amazonas participa
presa Indústria e Comércio de Mi-
nhosa e entreguista que coloca o com 12% do nióbio extraído no
nérios S/A (ICOMI), no Amapá.
país na condição de mero forne- Brasil, e com 60% do estanho. Já
Em 1947 essa empresa assinou
cedor de matéria-prima e de sub- o minério de ferro de Carajás, no
contrato de concessão para explo-
serviência aos interesses do capi- sudeste paraense, ocupa o 2º lugar
ração mineral e em 1953, assinou
tal internacional. São projetos que na extração nacional, colocando o
o contrato de concessão para a
evidenciam poucas possibilidades Pará atrás apenas de Minas Gerais
de incremento à economia localatividade portuária e ferroviária, [7].
considerado o marco zero da ex-
e têm trazido sérios prejuízos às A tendência para 2009, de-
comunidades de camponeses e aoploração mineral na Amazônia pendendo das condições da crise
meio ambiente. [5]. na economia mundial, é de que
Atualmente, embora se haja um crescimento significativo
2 - Exploração mineral: possa constatar que a exploração na extração da bauxita, cobre, ní-
da garimpagem à atividade em- mineral esteja espalhada por toda quel, fosfato e ferro, considerando
presarial a Amazônia, é possível considerar a entrada em operação das minas

Fórum Carajás outubro de 2010 64


de cobre e níquel, da Vale, em Ca- Vale considerar que a pes- para dentro da região, sem que a
rajás, a mina de bauxita da Alcoa, quisa, extração e transformação população da Amazônia tenham a
em Juruti, e o salto da extração mineral no estado do Pará ocor- oportunidade de discutir e opinar
de ferro de Carajás de 96 milhões rem em quatro principais regiões: sobre a viabilidade, necessidade e
de toneladas em 2008, para 126 no Oeste, envolvendo os municí- conseqüências desses empreendi-
milhões de toneladas, em 2009. pios de Oriximiná, Juruti, Monte mentos.
Há de se considerar ainda que na Alegre, Alenquer e Óbidos; no O que se percebe é que o
Amazônia, enquanto a extração Nordeste, compreendendo os impacto da mineração é localiza-
mineral responde por 25% do municípios de Paragominas, São do, desestruturante e ao mesmo
total das exportações, a transfor- Domingos do Capim e Barcare- tempo estruturante, ao modo que
mação (ferro gusa, alumina e alu- na; no sudeste destaque para os interessa às empresas. Desestru-
mínio) responde por 21%. [8]. É municípios de Marabá, Cuirionó- tura as comunidades locais (urba-
importante ressaltar ainda que o polis, Parauapebas e Canaã dos nas ou rurais), além de provocar a
extrativismo mineral representou migração de milhares de pessoas.
Carajás; e no Sul, os municípios
59,2% dos 8 bilhões de dólares Diversas são aquelas que chegam
de Xinguara, Ourilândia do Nor-
produzidos pela indústria mineral de outras regiões do país acredi-
te, Tucumã, São Félix do Xingu,
do estado do Pará. tando que as atividades dessas
Rio Maria, Floresta do Araguaia,
Tratando-se de reservas empresas vão melhorar as suas
Santa Maria das Barreiras e Con-
conhecidas, o Brasil ocupa o ter- vidas. É visível o aumento, sem
ceição do Araguaia.
ceiro lugar no ranking mundial controle, da população no entor-
em bauxita, com depósitos con- no dos projetos mineralógicos.
3 – As conseqüências Não só os núcleos urbanos próxi-
centrados em três distritos princi-
pais: Trombetas (médio Amazo- mos dessas áreas passam por rápi-
A extração e transforma- das e indesejáveis transformações
nas), Almeirim (baixo Amazonas)
ção mineral na Amazônia efetiva- com o crescimento populacional,
e Paragominas-Tiracambú (plata-
da pelas principais empresas do como também surgem outros
forma Bragantina). Já os depósi-
ramo: a Companhia Vale, a Anglo aglomerados urbanos. O emprego
tos de caulim estão distribuídos
Americana, a ALCOA, a Albras, esperado não aparece. Para sobre-
em três principais distritos: Ma-
a Aluminum Limited of Canadá, viver muitos são aqueles que se
naus (médio Amazonas), Almei-
a Alunorte, Rio Tinto, a Mine- enveredam nos trabalhos tempo-
rim (baixo Amazonas) e Capim
ração Rio do Norte, Companhia rários e informais. Assim, grande
(plataforma Bragantina). O ouro
Brasileira de Alumínio (CBA), é o contingente de trabalhadores e
e cassiterita estão distribuídos pe-
Imerys Rio Capim Caulim S/A, trabalhadoras itinerantes, de vida
las mais diversas áreas da região
Caulim da Amazônia S/A (CA- marcada pela provisoriedade e
amazônica. Serra Pelada, no su-
DAM/Vale), ICOMI, Pará Pig- mobilidade, e de mão-de-obra po-
deste do Pará, por exemplo, ain-
mentos S/A (PPSA/Vale), X Trata livalente que lutam cotidianamen-
da representa grande potencial
e Caraíba Metais, com o apoio e te pela sobrevivência. Os efeitos
aurífero, fato que causa entreve-
incentivo dos governos estaduais até então incontroláveis, nessas
ros entre a Vale e cooperativas
e federal vem se dando de forma regiões, têm sido a elevação do
de garimpeiros, no município de
espoliatória e predatória, desterri- índice de violência com destaque
Curionópolis. As jazidas de ferro
torializando populações tradicio- para os homicídios, comércio de
em Carajás, com seus 18 bilhões
nais e degradando o meio ambien- drogas, prostituição e acidentes
de toneladas de minério, corres-
te. É notória a poluição do ar, do de trânsito [10].
pondem à maior concentração de
solo e das bacias hídricas, além A própria Vale encaminhou
alto teor já localizada no planeta,
do desflorestamento, destruição uma pesquisa nesses municípios e
distribuídas em quatro setores
de habitat natural, de animais sil- constatou que entre 2000 e 2005
principais: Serra Norte, Serra Sul,
o crescimento populacional foi
Serra Leste e Serra de São Félix vestres e de sítios arqueológicos
de 22,9% e a projeção de cresci-
ou Serra Arqueada. [9]. São projetos dirigidos de fora

65 Fórum Carajás outubro de 2010


mento do ano de 2005 para o ano ras indígenas, que ocupam hoje biodiversidade.
de 2010 será de 92,9%. No ano 22% do território amazônico. [12] Por outro lado, o impacto
de 2000 essa área contava com Como exemplo dos danos cau- da mineração é estruturante ao
334.386 habitantes, em 2005, com sados a esses povos, no sudeste modo que interessa às empresas.
423.361. Na projeção para o ano do Pará, os índios Gaviões tive- Elas se aproveitam da conivência
de 2010, se forem desenvolvidos ram as suas terras atravessadas e submissão do Estado, das pre-
todos os investimentos previstos, pela rodovia BR-222, pela linha cárias condições em que vive a
segundo esta pesquisa, essa área de transmissão de energia elétri- maioria da população dos muni-
contará com 817.268 habitantes [11]. ca de alta tensão da Eletronorte, cípios onde elas se instalam, para
Os migrantes que ali che- que sai de Tucuruí rumo ao nor- através da manipulação da consci-
gam diariamente, sem alternativa, deste brasileiro, e pela Estrada ência das pessoas, com o discurso
se aventuram na formação de no- de Ferro Carajás. Agora se vêem da chegada do desenvolvimento e
vos bairros (ocupações) compos- na iminência de ter parte do seu do progresso, criar um ambiente
tos por casas, às vezes precárias, território inundada pela hidrelé- favorável para sua implantação e
sem água encanada e sem esgoto trica de Marabá, no rio Tocantins. domínio. Desse modo, os gover-
sanitário. São, em sua maioria, Os Xikrins do Cateté estão sendo nantes municipais, governadores
trabalhadores pobres, analfabe- ameaçados pela Vale a partir da dos estados e não raros deputados
tos ou de baixa escolaridade, sem execução dos projetos Salobo, de e políticos influentes assumem o
profissão definida. extração de cobre, no município discurso e a defesa dessas empre-
Os povos indígenas es- de Marabá, e pelo projeto de ex- sas além de lhes possibilitar infra-
tão sendo cercados, não somen- tração de níquel na Serra do Puma, estrutura, colaboração financeira
te pelos latifúndios e exploração em Ourilândia do Norte. Além de e isenções tributárias, com vistas
madeireira, mas também pela ex- impactar diretamente sobre esses a fornecer-lhes condições com-
ploração mineral. O próximo alvo povos que ali habitam, são sérios petitivas e asseguratórias ao bom
do setor minerário é conseguir a os riscos de degradação ambien- funcionamento dos seus empreen-
liberação da mineração em ter- tal com alterações significativas à dimentos.
Uma das situações emble- de Barcarena (PA), têm causado Cinturão Verde, município de
máticas que até hoje tem gerado enormes prejuízos às comunida- Marabá. Os serviços de prospec-
consequências negativas ao meio des locais com o carreamento de ção efetivados pela empresa têm
ambiente e à população local é a poluentes compostos com dióxido contaminado nascentes de águas
exploração do manganês, em Ma- de alumino e soda cáustica para e danificado estradas e cercas de
capá, no estado do Amapá. De- os cursos d’água. A Pará Pigmen- arame dos camponeses. A Mine-
pois da retirada de quase todo o tos S/A (PPSA) é outra empresa ração Buritirama S/A, instalada
minério, crateras de até 170 me- que tem causado sérios danos am- dentro desse mesmo assentamen-
tros de profundidade ficaram a bientais às comunidades no norte to vem contaminando as águas dos
céu aberto. Enormes também são do estado do Pará. O beneficia- igarapés Bandeira e Grotão com a
os estoques de rejeitos. “Calcula- mento de caulim, no município de exploração do manganês. Traba-
se, que em Santana, estão estoca- Ipixuna tem contaminado cursos lhadores têm reclamado que no
das cerca de 70.000 toneladas de d’água afetando tragicamente as período chuvoso os rejeitos pro-
rejeito provenientes do processo comunidades ribeirinhas. A Vale venientes da lavagem do minério
de pelotização e que apresenta tem trazido sérios prejuízos às têm alcançado os cursos d’água,
um percentual de arsênio supe- comunidades de quilombolas de impossibilitando o seu uso.
Jambuaçú e outras comunidades Em 2003, a mineradora
rior ao encontrado no minério in
dos municípios de Acará e Mojú Canico do Brasil, da Specific In-
natura. A Fundação Evandro Cha-
com a construção de 180 quilô- ternational Scientific Cooperation
gas (Belém), depois de inúmeros
metros de mineroduto (transporte Activities (INCO), empresa cana-
exames laboratoriais, recomenda
de bauxita) e linhas de transmis- dense, proprietária dos direitos
a imediata retirada desses rejei-
são de energia elétrica. Não só a
tos para que não se tenha risco de minerários do projeto de extração
produção agrícola foi prejudicada,
contaminação de qualquer natu- de níquel nas serras do Onça e do
mas vilas e povoados foram im-
reza às pessoas ou comunidades Puma, no município de Ourilân-
pactados diretamente pelos em-
próximas a estes locais”. [13] dia do Norte, sul do Pará, expul-
preendimentos.
Em Oriximiná (PA), a Mi- sou 82 famílias através de compra
Casos notórios são tam-
neração Rio Norte (MRN) que ilegal dos lotes nos projetos de
bém aqueles causados pela Vale
explora as reservas de bauxita assentamentos Campos Altos e
no sudeste do Pará. A explora-
nesse município, provocou de- Tucumã, danificou reservas flo-
ção do ouro no igarapé Bahia es-
gradação do meio ambiente com restais, contaminou os igarapés
palhou substâncias químicas na
os rejeitos da mineração a partir região por conta do uso de soda e desestruturou a comunidade
da emissão de partículas sólidas e cáustica e cianeto para a separa- com os serviços de pesquisas. Em
material estéril, como argila, bau- ção do minério da rocha primária. 2006, a Vale adquiriu o controle
xita fina e areia. O maior desastre Não muito distante, a empresa do projeto e continuou causando
foi causado no lago do Batata. As construiu uma barragem de con- danos ambientais, econômicos e
populações locais, formadas em tenção no igarapé Gelado para o sociais, inviabilizando a vida de
sua maioria por camponeses e ri- barramento de rejeitos oriundos centenas de famílias assentadas
beirinhos foram alijadas de seus da exploração do minério de ferro que ainda resistem nos referidos
direitos sobre as áreas de casta- na Serra de Carajás. Em 1992 esta assentamentos. Agora essa em-
nhais que ficam ao norte da Flo- barragem transbordou e inundou presa pleiteia a expulsão de mais
resta Nacional de Sacará-Taquera, áreas de camponeses da região 93 famílias assentadas. A direção
onde a mineradora está situada. causando sérios prejuízos econô- nacional do Instituto de Coloniza-
Já a Alumínio Brasil S/A (AL- micos e ambientais. Desde então ção e Reforma Agrária (INCRA)
BRAS) e a Alumina Norte Brasil são ameaçados por outras inunda- tem sido totalmente conivente
S/A (ALUNORTE), grandes pro- ções. Recentemente esta empresa com os desmandos da empresa e
dutoras nacionais de alumina e tem causado danos aos assenta- omisso no que diz respeito aos di-
alumínio instaladas no município dos do Projeto de Assentamento reitos dos trabalhadores rurais.

67 Fórum Carajás outubro de 2010


As empresas de mineração ciar as compensações pelos danos onde a empresa iniciou trabalhos
na Amazônia são beneficiadas ambientais, sociais e econômicos para a extração de níquel. Os
pela Lei Complementar nº 87, de causados em seu território com a trabalhadores só deixaram o lo-
1996, também conhecida como construção de um mineroduto que cal depois que representantes da
Lei Kandir. Como elas exportam leva bauxita de Paragominas para Companhia se dispuseram a dis-
produtos considerados matérias- Barcarena. cutir com a comunidade os pro-
primas são isentas de pagar Im- Na região de Carajás, em blemas sociais e ambientais cau-
postos sobre Circulação de Mer- junho 2003, os índios Xicrin com sados por ela.
cadorias (ICMS). Os valores dos flechas e bordunas ocuparam as No final de janeiro de 2009,
royalties ou da Contribuição Fi- instalações do Projeto Sossego, em Juruti, oeste do Pará, trabalha-
nanceira pela Exploração de Re- da Vale, em Canaã dos Carajás, no dores atingidos pela extração e
cursos Minerais (CFEM) repassa- sul do Pará. Eles exigiam a cons- transformação de bauxita pela mi-
do pelas empresas aos municípios trução de uma estrada até a aldeia, neradora ALCOA iniciaram ferre-
são extremamente baixos. Eles escola e casas. Haviam-se com- nha luta pelos seus direitos. Uma
variam entre 1 e 3% do fatura- pletado dez anos de promessas manifestação que começou com
mento líquido. Como os cálculos não cumpridas da empresa às al- 800 trabalhadores, terminou com
são feitos pelas próprias empresas deias Cateté e Djudjecô [15]. Em 2.500. A manifestação que durou
mineradoras, a União, o Estado e outubro de 2006, os Xicrin ocupa- uma semana, resultou numa ne-
os municípios são lesados. O mu- ram por mais de três dias a mina gociação entre os trabalhadores
nicípio de Parauapebas (PA), após de ferro de Carajás na tentativa de e o representante da empresa en-
uma auditoria, identificou que foi obrigar a Vale a negociar valores volvendo órgãos estaduais e os
lesado pela Vale em mais de 700 referentes a direitos dos índios, ministérios públicos estadual e
milhões, como a Vale não se pro- em decorrência dos impactos so- federal.
põe pagar, a reclamação está na fridos pelo projeto Ferro Carajás. Se por um lado é possível
justiça [14]. No final de 2007 e início de 2008, perceber que os amazônidas e os
povos indígenas e trabalhadores movimentos sociais vêm toman-
4 – Resistências rurais ligados ao Movimento dos do consciência dos impactos dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra projetos de mineração, por outro,
Em quase todas as regiões (MST) e à Via Campesina fize- lideranças e suas organizações so-
onde se desenvolvem trabalhos ram várias manifestações com frem com o processo crescente de
de extração e de transformação ocupações dos trilhos da Estrada difamação, ameaças e criminali-
mineral pelas grandes empresas de Ferro de Carajás administrada zação, orquestrado pelas minera-
do ramo, com apoio quase que in- pela Vale. Essas ações culmina- doras, grupos políticos ligados a
condicional do Estado, os movi- ram com a criação do Movimento elas, os meios de comunicação e o
mentos sociais têm demonstrado dos Trabalhadores na Mineração poder judiciário. Devido a Prela-
alguma reação. Os camponeses, (garimpeiros) e o lançamento de zia do Xingu, através do seu bispo
sobretudo, têm implementado, um manifesto intitulado Manifes- Dom Erwin Klauter, ter se colo-
embora que em âmbito local, di-
to da Mobilização dos Campone- cado em defesa das comunidades
versas ações contrárias a esta ló-
ses de Marabá. indígenas e contra a construção
gica perversa do capital.
Em setembro de 2008, no da hidrelétrica de Belo Monte, no
Na região Guajarina, pro-
município de Ourilândia do Norte, Rio Xingu, o religioso vem sen-
ximidades de Belém, as comuni-
mais de 200 trabalhadores rurais do vítima de uma campanha de
dades quilombolas do Jambuaçu,
dos Projetos de Assentamento difamação movida pelos meios
no ano de 2006, após muitos dias
Tucumã e Campos Altos, interdi- de comunicação ligados à Vale e
de mobilização e protesto, derru-
taram, por três dias, uma estrada tem sido ameaçado de morte ten-
baram uma torre de transmissão de
usada pela Vale, que dá acesso à do, inclusive, que andar protegido
energia elétrica da Vale para que
área de mineração da Serra Onça, por policiais militares.
a empresa concordasse em nego-

Fórum Carajás outubro de 2010 68


No Sudeste do Pará, o ad- 5 – Considerações Finais corporações todo seu aparato jurí-
vogado da CPT, José Batista Gon- dico e policial, para facilitar a im-
çalves Afonso, que atua na defesa As características do ca- plantação dos empreendimentos
dos trabalhadores e lideranças pitalismo são as mesmas em e seu funcionamento ao mesmo
indiciadas ou processadas em de- qualquer parte do mundo: con- tempo que reprime e repreende os
corrência de conflitos com a Vale, centração dos meios de produ- movimentos sociais que venham
foi vítima de uma condenação pela ção; desenvolvimento das forças a se opor a esta lógica.
Justiça Federal de Marabá, em ju- produtivas; exploração da força É necessário e urgente fazer
nho de 2008. Ele foi condenado de trabalho; acumulação da mais- com que os bens naturais da Ama-
a uma pena de 2 anos e 5 meses valia por poucos; e geração de po- zônia sejam colocados à disposição
de prisão sem direito à pena alter- breza e miséria para a maioria. de seus povos e não para aumentar
nativa. Acredita-se que a pesada Na Amazônia, a expansão os lucros das grandes empresas. Os
condenação imposta pelo juiz foi minérios, ao contrário do que vem
da exploração mineral, como foi
em razão da atuação do advoga- acontecendo até o momento, devem
demonstrada, nada mais é do que
do em defesa dos trabalhadores e gerar benefícios para as populações
a expansão do próprio capitalis-
contra os interesses da Companhia. locais e diminuir as desigualdades e
mo destruidor e perverso, que ex-
Nessa mesma região, em setembro a pobreza. Não é justo e nem lícito
propria e explora intensivamente
de 2008, uma liderança do MST que as empresas com direta partici-
a terra, as águas, as florestas e a
e duas lideranças do Movimento pação do Estado continuem causan-
força dos trabalhadores.
dos Trabalhadores na Mineração do sérios prejuízos às comunidades
São projetos baseados no
(garimpeiros) foram condenadas camponesas e ao meio ambiente.
extrativismo, de curta duração, Não interessa para a socie-
pelo mesmo juiz ao pagamento
que não agregam riquezas para as dade amazônica a extração e trans-
de uma multa de 5 milhões e 200
mil reais por elas terem participa- localidades, mas desestruturam re- formação mineral, na forma de
do de mobilizações que resultaram lações de trabalho, comunidades saque como está sendo feita, com
na interdição da Estrada de Ferro e desterritorializam pessoas num a geração de crateras que jamais
Carajás. Contrariando o que diz a processo de estruturação de uma possam ser recuperadas. Não inte-
própria Lei, o juiz atribui às três sociedade do caos: aglomerados ressa os rejeitos tóxicos, as matas
pessoas uma condenação que, te- populacionais com alto índice de devastadas, o solo e águas poluídas.
ria que ser aplicada a cada uma das desemprego, criminalidade, com Pelo contrário, torna-se um desafio
quinhentas pessoas que participa- péssimas condições de habitação, a desconstrução do atual modelo
ram da interdição. A explicação do saneamento básico e educação. imposto pelo capital e a construção
juiz é que eles eram lideranças e, O Estado, entreguista e ar- de um modelo sustentável e racio-
por esta razão, deveriam ser con- recadador de migalhas na defesa nal de aproveitamento dos recursos
denados. do capital, coloca à disposição das minerais na Amazônia.
6 – Bibliografia

CRUZ NETO, Raimundo Gomes da. Impacto so- [5] Fórum Paraense de Desenvolvimento. 50 anos de minera-
cioambiental da mineração na região de Carajás, ção na Amazônia. Belém: Cejup, 2003.
Marabá: CEPASP, 2008 (Fotocópia).
[6] A situação dos minérios mais extraídos na Amazônia é esta:
CVRD e Diagonal. Diagnostico Integrado em So- em primeiro lugar, o ferro, que em 2008, respondeu por 35,2%
cioeconomia para os empreendimentos da CVRD. do total nacional. Em segundo lugar, a alumina (bauxita) com
2006. 17,6%, em terceiro, o alumínio com 15,1% e em quarto, o co-
bre com 11,3%. O manganês da Mina do Azul, em Carajás,
CORREIO DO TOCANTINS, Marabá, 10 a e da Buritirama, em Marabá, contribuíram com mais de 50%
12/01/2009. da extração nacional, dos 2,4 milhões de toneladas extraídas
em 2008. O estado do Pará é ainda responsável por 100% da
INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO extração nacional do caulim, 85% da bauxita, 60% do cobre
(IBRAM). Informações e Análises da Economia e 10% do ouro (Companhia Vale do Rio Doce. Relatório de
Mineral Brasileira, 3ª edição, IBRAM, 2008. Produção, 2008).

__________. Indústria da Mineração, IBRAM, Ano [7] O município de Parauapebas, no sudeste paraen
III, nº. 20, 2008. se, participou com 35,8% (minério de ferro), Barcarena com
33,3% (alumina e alumínio), Canaã dos Carajás com 10% (co-
FÓRUM PARAENSE DE DESENVOLVIMENTO. bre), Marabá com 7,1% (ferro gusa e manganês), Oriximiná
50 Anos de Mineração na Amazônia, Belém: Cejup, com 6,3% (bauxita), contribuindo significativamente para o
2003. crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. O muni-
cípio de Belém participou com 28,21%, para o PIB do estado,
O LIBERAL, Belém, 13/06/03. em segundo lugar, Barcarena com 8,03%, Parauapebas com
6,72%, Marabá com 5,91%, Ananindeua com 5,56%, Canaã
SANTOS, Breno Augusto dos. Recursos Minerais dos Carajás com 1,58% e Oriximiná com 1,42%.
da Amazônia, 2002.
[8] Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Informa-
SCHMINK, Marianne and WOOD, Charles H. ções e Análises da Economia Mineral Brasileira, 3ª edição,
Contested Frontiers in Amazonia. New York: Co- IBRAM, 2008.
lumbia University Press, 1992.
[9] O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
_______________________________________ Naturais Renováveis (IBAMA) já lavrou 56 autos de infração
contra a Vale, desde que foi privatizada, o que resultou em 37
[1] Historiador e Agente da Comissão Pastoral da Terra, em milhões de reais em multas não pagas.
Marabá.
[10] Os registros mostram que na área de influência da Vale, no
[2] Advogado e Agente da Comissão Pastoral da Terra, em sudeste paraense (municípios de Marabá, Parauapebas, Canaã
Marabá. dos Carajás, Eldorado dos Carajás, Curionópolis, Ourilândia
do Norte e Tucumã), as mortes por causas violentas aumenta-
[3] Sociólogo e Agrônomo do Centro de Educação, Pesquisa e ram em 23% de 2007 para 2008, considerando os corpos que
Assessoria Sindical e Popular. passaram pelo Instituto Médico Legal (IML) de Marabá. No
ano de 2008, os municípios de Marabá e Parauapebas foram os
[4]Marianne Schmink and Charles H. Wood Contested Fron- que mais registraram mortes por assassinato. Marabá saltou de
tiers in Amazonia. New York: Columbia University Press, 187 assassinatos, em 2007, para 266, em 2008, e Parauapebas,
1992. saltou de 62, em 2007, para 94, em 2008 [10].

Fórum Carajás outubro de 2010 70


[11] CVRD e Diagonal Urbana Consultoria. Diagnóstico [14] Em 1997, do faturamento de mais de 2 bilhões de dólares
Integrado em Socioeconomia para os empreendimentos da das empresas com a movimentação da bauxita extraída, em
CVRD. 2006. Oriximiná, e da produção de alumínio, em Barcarena, somente
30 milhões de dólares foram recolhidos aos cofres públicos, o
[12] Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei que representa apenas 1,5% do faturamento. Em 2008, o reco-
1610/96 com o objetivo de regulamentar o art. 231 da Consti- lhimento de 700 milhões de reais representou somente 1,44%
tuição Federal que impede a atividade em território indígena. do faturamento. Significa que nem os 2%, como manda a Lei
que determina o valor da CFEM, para o caso da bauxita, está
[13] (Fórum Paraense de Desenvolvimento. 50 Anos de Mine- sendo cumprido.
ração na Amazônia, Belém: Cejup, 2003).
[15] O LIBERAL, Belém, 13/06/03.

LINKS DE INTERESSE

www.forumcarajas.org.br
www.justicanostrilhos.org
http://relicariominado.blogspot.com
http://rogerioalmeidafuro.blogspot.com
http://mineracaosudesteparaense.wordpress.com
www.faor.org.br
www.forumsocialpanamazonico.org
www.justicaambiental.org.br
http://racismoambiental.net.br
http://atingidospelavale.wordpress.com
www.gta.org.br

71 Fórum Carajás outubro de 2010


Visita de Sussane (Assessora de mineração/MISEREOR ) ao Escritó- Reunião do Grupo Salvaterra em Rio do Cachorros, São
rio do Fórum Carajás. Luís/MA

Carvoarias no Baixo Parnaíba Maranhense Mineração Aurizona em Godofredo Viana/MA

Integrantes do Fórum Carajás, Sindmetal e pesquisadores alemães (ASA) em Alcoa em Juruti/PA


visita a Alcoa.

Fórum Carajás outubro de 2010 72