Mineração na Amazônia: Estado, Empresas e Movimentos Sociais

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São Luís/Maranhão/Brasil 2010

Centro dos Direitos das Populações da Região de Carajás - Fórum Carajás

Programa: Siderurgia na Amazônia- Projeto “Políticas Públicas e Sustentabilidade da Região de Carajás”. Coordenação Executiva do Fórum Carajás: Antonio Gomes de Morais, Edmilson Pinheiro e Jean Carlos Santos Conselheiros: José Maria Araújo, Izabel Santos Lisboa, José Raimundo Rodrigues, Carlos Augusto Veloso, Maria Carmélia Costa Borges, Fábio Pierre Fontenelle Pacheco, Alberto Cantanhede Lopes, João Fonseca dos Santos, Raimundo José Pereira Ferreira, Josefa Andreza Alves, Maria da Graças Costa Martins, Saulo Pastor dos Santos, Elton Carlos Araújo Alves e Diarmondes Alves Paixão. Apoio: Misereor Textos: Rogério Almeida, Marluze Pastor; Padre Dario Bossi, Padre Edilberto Sena, Gilvandro Santa Brígida, Raimundo Gomes, Manoel Paiva, Airton Pereira, José Batista Afonso. Capa: Carlos Latuff (www.latuff2.deviantart.com) Projeto Gráfico: Linna di Castro Organização: Rogério Almeida (http://rogerioalmeidafuro.blogspot.com/) Colaboração: Cristiane Rocha / Edmilson Pinheiro (Secretario Executivo) Fotos: Rogério Almeida, Nils Vanderbolt, Guto, Murilo Santos, Roberto K-Zau, Gilvandro Santa Brígida, Arquivo Fórum Carajás

Fórum Carajás Avenida João Pessoa, Q. 09, Casa 19- Filipinho CEP: 65040-000 São Luís/MA/Brasil Site: www.forumcarajas.org.br http://twitter.com/forumcarajas http://territorioslivresdobaixoparnaiba.blogspot.com/ http://reentrancias-ma.blogspot.com/ E-mail: forumcarajas@forumcarajas.org.br Fone/fax: (098) 3249-9712

Mineração na Amazônia: Estado, Empresas e Movimentos Sociais Contrário me dê licença para contar essa história Impactos e resistências em Açailândia, profundo interior do Maranhão. Itupanema em meio ao projeto Albras - Alunorte: o desencantamento do mundo. Energia limpa na ponta e desgraça na fonte, resultado de mega hidrelétricas na Amazônia. Geração de energia na Amazônia caso de Estreito em questão. Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia. Grandes projetos no município de Barcarena: conflitos sociais e ambientais A exploração mineral e suas consequências na Amazônia brasileira

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ESTADO, EMPRESAS E MOVIMENTOS SOCIAIS
extrativismo tem regido a economia na Amazônia. O ciclo mais recente é o mineral, iniciado a partir da década de 1950 do século passado, no estado do Amapá, quando o mesmo ainda tinha o status de território. A exploração do manganês na Serra do Navio foi ponta pé inicial. A experiência durou apenas cinco décadas. Ficou apenas o buraco, literalmente. A exploração mineral no Amapá, considerada a primeira na Amazônia, foi ativada pela empresa estadunidense de Daniel Ludwig, a Bethlehem Steel Company em sociedade com o empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Indústria e Comércio de Mineração S/A (ICOMI). O ciclo da mineração ganhou maiores proporções na Amazônia a partir da região de Carajás; com a presença da Vale na extração do minério de ferro na década de 1980, no sudeste do Pará, é com as atividades de prospecção inauguradas no regime militar. O processo da transição democrática descortinou outros cenários na economia, política e na sociedade civil brasileira. Ainda que prepondere o constrangimento econômico e político em processos de definição de instalação de grandes projetos, há alguns avanços no campo normativo. No entanto, tais avanços - se tratados assim - carecem de aperfeiçoamento ou uma refundação. Para a instalação de grandes projetos o empreende-

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dor é obrigado a atender uma série de exigências. Como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), que devem ser apresentados em audiências públicas. Sob um grave problema, a assimetria de forças entre as parte envolvidas: grandes empreendedores versus comunidades tradicionais. O processo é marcado por uma infinidade de limites, que passa pela incorreção e manipulação dos EIA/RIMA, não publicização das informações e a cobertura da mídia marcada pela parcialidade. O que denuncia a fragilidade da democracia nacional, que não universaliza o acesso ao direito. E, que às vezes, exibe as nuances autoritárias do Estado. E por falar em Estado, ele ainda é o principal indutor da economia. Se no período da ditadura o Banco da Amazônia (Basa) e a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) configuraram-se com as principais instituições, nos dias atuais o protagonismo recai sobre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ladeado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A atuação da instituição tem ultrapassado a fronteira nacional. Advoga-se que a mesma exerce um papel estratégico em escala continental. E as agências multilaterais são o centro de gravidade na definição de políticas de desenvolvimento para o Brasil e a América Latina. Observa-se ainda outras diferenças nas políticas para a Amazônia. Na ditadura imperaram os

pólos de produção, madeira pecuária e extrativismo mineral. Enquanto hoje despontam os eixos de integração, transporte multi-modal, comunicação e infraestrutura. É creditado a Eliezer Batista, ex-executivo da Vale, a construção do mapa das riquezas naturais na América do Sul. Batista é pai de Eike, festejado como o novo bilionário nacional. Obra do acaso? Os levantamentos de Batista foram encomendados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). A CAF é um dos agentes do projeto de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Do conjunto de 10 eixos de integração, quatro se destacam, por suas riquezas naturais e possibilidades de conexões: o Amazonas, A Hidrovia Paraná-Paraguay, o Capricórnio e o Andino. O objetivo central, prima em facilitar a circulação de mercadorias. O eixo do Amazonas compreende os seguintes países: Colômbia, Peru, Equador e Brasil. Visa criar uma rede eficiente de transportes entre a bacia Amazônica e o litoral do Pacífico, com vista à exportação. No mundo do Brasil, alguns se arriscam em pontuar que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma miniatura do IIRSA.

Há algo de novo o ‘front’?
Parece que sim. O aprofundamento da pressão sobre as riquezas naturais, a organização das grandes empresas em consórcio, em particular para a construção de hidrelétricas. No Maranhão, Pará e Tocantins surgiram inúmeras frentes de extrativismo mineral. No Pará há registros da amplificação do extrativismo que ultrapassa a celebrada mina de Carajás. A oeste do estado o município de Juriti acaba de entrar no clube dos municípios minerários. Em Juruti a empresa estadunidense, Alcoa explora bauxita. Matéria prima para a produção de alumínio. Num processo de instalação marcado por capítulos nebulosos, que exigiu a mediação do Ministério Público Federal (MPF). Dois ex-secretários de meio ambiente do estado respondem a processos por conta de não atenderem a recomendações do MPF. Já no sudeste a Vale inicio a exploração de 5

cobre no município Canaã dos Carajás, e outros minérios em São Félix do Xingu, Xinguara, Ourilândia do Norte e tantos outros. No município de Barcarena as fábricas de produção de alumina e alumínio da Vale passam por uma ampliação da produção, que dialoga com o aumento da produção de energia da hidrelétrica de Tucuruí e a construção de outras usinas hidrelétricas e mesmo termoelétrica. A energia é o principal insumo das empresas de eletro-intensivo, como as de produção de alumínio. A construção de termoelétrica no município de Açailândia, oeste do Maranhão, a presença da empresa Suzano Celulose, a construção da Ferrovia Norte Sul, bem como a construção da Hidrelétrica de Estreito constituem elementos recentes que reconfiguram a paisagem física, econômica e humana da região. Assim como em São Luís, capital do Maranhão, os portos experimentam uma ampliação. Não se sabe exatamente o que vem ocorrendo na região. Há informações fragmentadas compartilhada nos espaços de encontros e desencontros que as redes de organizações sociais proporcionam. É nesse sentido que nasce o projeto em aglutinar neste livro artigos que atualizem as dinâmicas nos municípios de São Luís, Açailândia e Bacabeira no estado do Maranhão; e no município de Barcarena e regiões sudeste e sudoeste, Carajás e Tapajós/ Xingu no Pará.

MINERAÇÃO NA AMAZÔNIA: ESTADO, EMPRESAS E MOVIMENTOS SOCIAIS reúne sete trabalhos que buscam
pontuar elementos que podem ser considerados novos, e outros nem tanto assim, como a condição colonial. Condição econômica baseado no extrativismo. Os trabalhos iformam que empresas pressionam sobre a terra e os recursos naturais. Indicam os impactos dos investimentos para as áreas e populações afetadas, e questionam o papel do Estado e as ações que as organizações de base promovem para a ampliação de direitos. A Engenheira Agrônoma Marluze Pastor recupera a ação do Fórum Carajás no acompanhamento das frentes de mineração na Amazônia, em particular na região de Carajás. O padre Dario Bossi pontua as questões que afetam o município de Açailândia, e
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oeste do Maranhão, em particular sobre o pólo de gusa, os passivos sociais e ambientais. E as lutas e mobilizações da comunidade de Pequiá. Além de explicar o nascimento da iniciativa Justiço nos Trilhos. Raimundo Gomes, Airton Pereira e José Batista Afonso investigam as recentes tensões no sul e sudeste do Pará, em particular da Vale e as formas de resistência das comunidades tradicionais. O padre Edilberto Sena, do município de Santarém, faz uma leitura que ajuda a entender os novos grandes projetos a oeste do estado, em diálogo com as macro-políticas. Trata-se de uma peça esclarecedora. Manoel Paiva e Gilvandro Santa Brígida, ex dirigentes sindicais no município de Barcarena, esclarecem sobre o embate entre as grandes empresas que operam na cidade. Entre elas a Alunorte e Albras, controladas pela Norsk Hidro (Noruega). Não escapam às análises dos autores a Imerys Rio Capim, Pará Pigmentos e a Rio Campi Caulim. E mesmo os

projetos em andamento, como a construção de uma termoelétrica e a Companhia de Alumina do Pará (CAP). Rogério Almeida, jornalista, aborda o polêmico projeto de extração de bauxita no município de Juruti, no oeste do Pará e a construção da hidrelétrica de Estreito, no município homônimo, no oeste do Maranhão. Os autores dos artigos conhecem com proximidade as realidades aqui tratadas. Apesar de serem realidades ocorridas em estados diferentes estão enlaçadas por questões comuns, como a subordinação da terra ancestral à lógica do capital, a partir da posse privada em detrimento da coletiva. A obra denuncia passivos sociais e ambientais, o poder das empresas e a coerção que o capital acaba provocando para atropelar os marcos legais. E ainda as mobilizações das comunidades ancestrais e de assessoria. As tensões registradas e os constrangimentos para a aprovação dos empreendimentos evidenciam a delicada situação da democracia nacional.

Mesa: O conflito entre a Vale e o Meio Ambiente no Fórum Social Mundial, Belém-PA / 2009 (foto: Fórum Carajás)

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Contrário me dê licença para contar essa história
Marluze Pastor, Engenheira Agrônoma, MSc em Agroecologia é consultora do Fórum Carajás1

história do Fórum Carajás, iniciada em1992, é resultado de iniciativas adotadas pela sociedade civil, para intervir nas políticas, nos projetos e plantas industriais causadores de danos sociais e ambientais. Na época, Fernando Collor de Melo era presidente do Brasil, Edson Lobão e Jader Barbalho eram governadores, respectivamente, do Maranhão e do Pará. Os conflitos de terra nesses estados recrudesciam, entre 1985 e 1995. Neste período foram computadas pela Comissão Pastoral daTerra( CPT) 45 mortes no campo no Maranhão e 67 no Pará. A concentração fundiária estava no seu patamar mais alto, conforme Índice de Gini3 , em torno de 0,85 %; os recursos naturais eram utilizados para acelerar o processo de enriquecimento de grupos econômicos. A região e Carajás era área atrativa para investimentos. Várias siderúrgicas( convidadas pela CVRD) já estavam instaladas: Companhia Siderúrgica do Pará (COSIPAR), (1988) em Marabá a Siderúrgica Viena, (1988) e Vale do Pindaré, (1988) Açailandia.

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A liberdade é para todos nós Não tem censura para calar nossa voz 2

1 Este texto teve a colaboração de Edmilson Pinheiro, Secretario Executivo do Fórum Carajás. 2 Música de Zé Lopes, samba enredo da Favela do Samba em homenagem a César Teixeira. 3 Coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade, quanto mais próximo de um maior a desigualdade

Em Barcarena já estavam a Albrás, (1985) Alunorte, (1978), em São Luís a ALUMAR e a ELETRONORTE, em Tucuruí. Havia também um grande número de fazendas e madeireiras. Nesse contexto o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e outras entidades do Maranhão e do

pesquisadores/as e organizações internacionais de igrejas e ambientalistas, ONGs, associações de moradores, grupos de jovens, grupos de mulheres, organizações de pescadores/as, de professores, seringueiros e quebradeiras de coco entre outras extrativistas.

Fonte: documento do Fórum Carajás

Pará, desencadearam um processo de articulação de grupos sociais atingidos pelas políticas e projetos. A partir daí surgiu a proposta de organizar um seminário internacional sobre os grandes projetos na região, precedido de um conjunto de estudos para permitir uma intervenção qualificada do Movimento Social. Esse processo foi nominado de Seminário Consulta Carajás. Naquele período eram poucas as organizações ambientalistas na região, que se concentravam no Sul e Sudeste do Brasil, atuavam na proteção de ecossistemas naturais, porém havia um distanciamento dessas organizações com outros movimentos, as ambientalistas ignoravam as questões sociais e as demais organizações não incorporavam a qualidade ambiental nos discursos. Eram as ambientalistas compostas por universitários, funcionários/as de órgãos públicos. O Fórum se estrutura enquanto rede socioambiental envolvendo sindicatos urbanos e rurais,
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A primeira ação foi conhecer os projetos, pois era necessário possuir conhecimentos para intervir, discutir o desenvolvimento da região, saber como eram as relações entre a indústria e meio ambiente, analisar seus impactos. Assim uma série de estudos, pesquisas e treinamentos foram realizados com a participação de professores e pesquisadores das Universidades do Pará e do Maranhão e ligados aos movimentos sociais. A pesquisa precisava ser imediatamente útil, os/as pesquisadores/as participavam das reuniões com informações e análises dos dados levantados. Assim, pesquisas científicas tiveram o propósito apoiar na discussão dos problemas localizados, bem como na promoção da capacidade de planejar, de tomar decisões, fortalecer o sentimento de pertencimento e poder de negociação. A pretensão era intervir nas políticas públicas e privadas, mudar o curso da história, relacionar justiça social com meio ambiente, mas, era preciso capacitar as organizações e as lideranças. Foram

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criados grupos de estudos para a construção de um referencial teórico e alternativas para região. As organizações foram habilitadas para participar de conselhos de gestão, comissões, acordos de negociação; foram disseminados conhecimentos e informações sobre os impactos na região utilizando inclusive rádios comunitárias, teatro, música, artes visuais, cursos, oficinas, encontros regionais, nacionais e intencionais. Foram elaborados livros, mapas, revistas e diversos textos (Verificar em referências bibliográficas). O desafio era grande, foi necessário identificar e conquistar parceiros em órgãos públicos, estimular o apoio de legislativos, promover audiências públicas. Assim as relações com as organizações internacionais especialmente com organizações da Alemanha foram fundamentais para iniciar o processo de interlocução e reconhecimento do Fórum, por parte do setor público e privado. Um primeiro projeto foi encaminhado a Pão para o Mundo (BROT FÜR DIE WELT- PPM)4, e Misereor5 com a interveniência da Coordenadora Ecumênica de Serviços (CESE). Naquela oportunidade, a Conferência Conjunta Igreja e Desenvolvimento (Gemeinsame Konferenz Entwicklung und KircheGKKE), organização das igrejas alemãs, que já atuava com programa de diálogo iniciou um novo programa, tendo como centro de atividades a Tanzânia e Brasil sobre justiça internacional e de proteção ao meio ambiente com grupos representativos da sociedade civil da Alemanha, e, no caso do Brasil, com indústrias siderúrgicas alemãs e entidades populares da região de Carajás. Aqui se buscou estabelecer e ampliar relações com organizações internacionais, avançar nas relações Norte-Sul, nos acordos internacionais e na responsabilidade global. Além das organizações da Igreja da Alemanha o Fórum desenvolveu outras relações internacionais com o GREEPEACE, FIAN, KOBRA, Cooperação Técnica Alemã (GTZ), IG Metal, International Rivers Network, PARC-FASE 6. De 1992 até a realização da Mesa Redonda Internacional, em 1995, foram realizados encontros e seminários, oficinas, estudos voltados para a realização de um evento que discutisse os projetos e políticas públicas para região com o Estado, empresas, consumidores internacionais, trabalhadores das empresas, grupos e comunidades atingidas. Vale destacar que o Projeto Ferro Carajás era o carro chefe dos projetos.

As relações internacionais

Primeira fase da articulação, o Seminário Consulta Carajás

Quadro 01: Principais eventos na primeira fase do Fórum Carajás

4 agência de cooperação da Alemanha 5 agência de desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha 6 O Greenpeace é uma organização global e que atua na defendesa do meio ambiente; a FIAN (“Food First Information & Action Network), é uma organização internacional de direitos humanos que trabalha pelo direito a alimentação; a KOBRA ( Kooperation Brasilien) é uma rede de pessoas e grupos de países de língua alemã, de solidariedade ao Brasil; a Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit (GTZ), é uma empresa pública de direito privado, de cooperação internacional; o IG Metall, é sindicato de metalúrgicos da Alemanha; International Rivers Network (IRN), é uma rede internacional de guardiões dos rios; o PARC-FASE é um grupo de Pesquisa e intercâmbio com o Japão.

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Na MRI realizada em maio de 1995 em São Luís/MA, participaram 174 pessoas, autoridades federais e estaduais de órgãos ambientais, do planejamento, e da questão agrária; parlamentares brasileiros e alemães; entidades eclesiásticas brasileiras e alemães; Banco Mundial; representantes de comunidades indígenas; lideranças de entidades sindicais rurais e urbanas; organizações não governamentais brasileiras e alemães. A MRI foi precedida por um cuidadoso processo de organização no que concerne a logística do evento (hospedagem, transporte, regimento interno do evento), como na formação dos participantes do movimento social, coordenação e mediação dos trabalhos. A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) reagiu não participando e incentivando a não participação de empresas e de setores da Igreja Católica. Carvoeiros 7 A usina converte em aço, a paisagem e em cinzas, o coração dos homens O lingote é o filho aceso da usina que oculta no seu fogo a lógica do deserto.

A Mesa Redonda Internacional implantação de fábrica de celulose na região tocantina, a exploração de madeira nativa e a expan(MRI)
são da sojicultura. Aqui se destaca a iniciativa das organizações do Sul do Maranhão, coordenadas pela Associação Camponesa (ACA) e o programa da movimento sindical coordenado pela Federação dos Trabalhadores(as) na agricultura do Estado do Maranhão (FETAEMA) sobre os impactos da sojicultura; • Privatização e desemprego, esse programa aglutinou problemáticas urbanas, tais como impactos sociais, ambientais e econômicos causados pela privatização e terceirização, mineração e siderurgia. A privatização de estatais, terceirização dos serviços e desemprego nas áreas de produção do alumínio e ferro motivaram estudos, audiências públicas na Câmara Federal dos Deputados e Câmara dos Deputados do Pará. Com relação as injustiças ambientais, o Fórum denunciou os danos ambientais causados pelo vazamento de óleo no rio Gapara, pela CVRD e, acompanhou a comunidade São Raimundo do Gapara em maio de 2000. Por outro lado o contínuo e rápido desmatamento para a produção de carvão vegetal no corredor Carajás e as relações de trabalho nas carvoarias levou a realização de Encontro de carvoeiros e carvoeiras em 2002 e acompanhamento da categoria e dos impactos ambientais. • Os caminhos do alumínio, programa que trata sobre a cadeia do alumínio realizou seminários internacionais no Brasil e na Alemanha, intitulados “Diálogo Internacional sobre Alumínio: Responsabilidade Global da Extração ao Consumo” sobre impactos no setor do alumínio. O seminário no Brasil foi realizado no Praia Mar Hotel, São Luis/MA, no período de 23 a 26 de março de 1999. Teve como objetivo a discussão, com os setores envolvidos, dos problemas causados pela exploração da bauxita, geração de energia pela usina hidrelétrica de Tucuruí e produção de alumina e alumínio, com a intenção de encontrar soluções para os problemas sócio-ambientais gerados, com a elaboração de um projeto de desenvolvimento regional sustentável. Nesse grupo temático o destaque foi a criação sindicato de químicos de Barcarena e participação desse sindicato no processo. • Barragens e energia. Estava proposto construção de 14 barragens no Araguaia Tocantins. Como ação de resistência, o Fórum juntamente com outras organizações da região criaram Campanha

A partir da avaliação da MRI o Fórum passa se identificar como Fórum Carajás e se empenha em discutir as políticas a partir de temas regionais, incentivando a incorporação de aspectos de sustentabilidade ambiental e justiça social nas lutas nas atividades das entidades. Elencou como prioridades para atuação as cadeias de produtos identificadas na primeira fase como as mais impactantes: ferro; alumínio; madeira nativa/carvão; eucalipto/celulose. Na avaliação do Fórum realizada 1997 e 1998 aponta dois eixos temáticos como unificadores das diversas lutas e temas que se tornaram programas de trabalho: • Agricultura familiar e grandes projetos, envolve as problemáticas rurais. Os destaques nesse programa foram a questão do eucalipto e a
7 Versos do poema carvoeiro de Pedro Tierra

Segunda fase: as cadeias de produção

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Contra as Barragens do Araguaia e Tocantins através de reuniões, debates, levantamento e sistematização de estudos sobre as barragens, produção de material impresso, seminários regionais, seminário interestadual em Imperatriz/MA e ato público em Itaguatins/TO. • A mulher e os grandes projetos. Esse programa “Mulher e os Grandes Projetos: impactos dos grandes projetos na vida das mulheres’’, objetivava identificar as condições de vida das mulheres frente aos grandes projetos, com ênfase para os aspectos da saúde, trabalho, salário e meio ambiente;bem como dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos por essas mulheres nas empresas, nas organizações e nas comunidades onde vivem; promover a criação de novas organizações de mulheres evidenciando suas atividades. O estudo sobre “Mulher e os Grandes Projetos: Diálogo sobre Gênero e Meio Ambiente na Região do Carajás”, realizado junto às mulheres ao longo de oito meses nas Regiões Ecológicas Litoral/Baixada, Pré-Amazônia Maranhense e Chapadas do Sul do Maranhão e Sudeste do Pará participaram 237 mulheres e 10 homens em oito oficinas realizadas nos municípios de São Luís, Imperatriz, Açailândia, São Raimundo das Mangabeiras, Parauapebas, Presidente Juscelino, Presidente Médici, Rosário e Marabá. Após a realização de oficinas regionais em nove municípios, foi promovido o Seminário Filhas da Terra, Gênero e Meio Ambien-

te na Região Carajás, em dezembro, em São Luís onde participaram 131 pessoas, sendo 96 mulheres e quatro homens trabalhadoras/trabalhadores rurais, de 32 municípios do Maranhão e do Pará, representantes do poder Executivo e legislativo Municipal, representantes da MAMA, dos Conselhos Estadual da Condição Feminina do Pará e do Rio de Janeiro, bem como representantes de órgãos financiadores internacionais CESE, DFID, ELO. • O Programa “BOCA DE FORNO”, jovens rurais, arte e o meio ambiente. O Programa incluiu parcialmente os Estados do Maranhão e Pará envolvendo diretamente 279 pessoas dos seguintes municípios: São Luís, comunidades de Taim, Rio dos Cachorros, Porto Grande, Limoeiro e Vila Maranhão; Itapecuru-mirim; Santa Rita; Morros; Presidente Juscelino; Açailândia; Imperatriz; Cidelândia; São Pedro da Água Branca; João Lisboa; Senador La Roque; Eldorado; Marabá; Tucuruí e Parauapebas. Perfazendo um total de nove oficinas, no período de maio a novembro de 2000, com jovens filhos/ as de pescadores/as e agricultores/as. Nas oficinas buscou, nas expressões, artísticas fazer compreender a Natureza, os impactos ambientais dos grandes projetos bem como incentivou atitudes promotoras da sustentabilidade e autolimitação. O Programa incentivou os projetos Camurim I de formação de jovens em beneficiamento de pescado em 2000, e, o Projeto Camurim II de criação agroflorestal de peixes e crustáceos, em 2001.

Quadro 2: Principais eventos na segunda fase do Fórum Carajás
Evento Audiência Pública da CELMAR, levantamento cartorial das áreas compradas pela CELMAR contestação de áreas adquiridas ilegalmente 5° Encontro Interestadual Audiência com Banco Mundial e IBAMA Seminário Internacional ”Pequeno Produtor e Grandes Projetos” Encontro “Grito de Tucuruí” Seminário sobre os Grandes Projetos no Baixo Parnaíba Audiências com deputados federais e assessores Diálogo Internacional sobre Alumínio: Responsabilidade global da extração ao consumo “Seminário ‘Gênero e meio ambiente” Seminário Carajás: Mineração e Desemprego Reunião sobre grilagem no Parque do Mirador Seminário sobre agricultura familiar Produção de vídeo sobre a expansão da soja em Vão das Salinas Oficina alternativas de sobrevivência Escola 11 Sindical de Balsas Seminário sobre meio Ambiente e Cidadania Local Imperatriz - MA Parauapebas - PA Brasília - DF Balsas - MA Tucuruí - PA Brejo - MA Brasília - DF São Luís - MA São Luís - MA Parauapebas - PA Imperatriz - MA Açailândia - MA Balsas - MA Balsas - MA Capinzal - MA Data 1997 07.e 08.09.96 Dezembro 96 09 a 01.05.97 14.03.97 03.e 04.05.97 Agosto/Setembro 97 Março de 1999 Dezembro de 1999 14, a 16.04. 2000 Fevereiro de 2001 Dezembro de 2001 Maio de 2001 Junho de 2001 Fórum Carajás outubro de 2010 Junho de 2001

Estrutura organizativa
Uma estrutura político-administrativa participativa, as tomada de decisões, desde encontros estaduais e interestaduais, reuniões da coordenação e grupos temáticos eram discutidas por todas as entidades-membro. Os Núcleos facilitavam a socialização das questões e a realização de atividades: • Núcleo de Tucuruí participam organizações de Tucuruí, Novo Repartimento, Tailândia, Breu Branco, • Núcleo de Marabá participam organizações de Marabá, Parauapebas, Eldorado, Paragominas, Curionópolis, • Núcleo de Imperatriz participam organizações de Imperatriz, João Lisboa, Estreito, Cidelândia, • Núcleo de Açailândia participam organizações de Açailândia, Buriticupu e Santa Luzia. A Coordenação era representada por todas as regiões e categorias de organizações integrantes do Fórum: • Associação Agroecológica Tijupá; • Associação de Mulheres do Bico do Papagaio/ TO (ASMUBIP); • Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA); • CÁRITAS Regional de São Luís/MA; • Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU) Imperatriz/MA; • Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP) Marabá/PA; • Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE) Salvador/BA; • Cooperativa Agroextrativista de Paraupebas/PA ,
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• FASE/MARABÁ; • Federação do Tocantins Araguaia (FATA) Marabá/PA; • Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Metais Básicos (METABASE) Carajás/PA; • Movimento Nacional dos Pescadores (MONAPE); • Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB); • Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia e Imperatriz (SIMETAL); • Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão (SIMETAL); • Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Açailândia; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Balsas; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Imperatriz/MA; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de João Lisboa; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Novo Repartimento; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Parauapebas; • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tucuruí. Intercâmbios • Viagem de comitiva alemã para a região de extração do minério de ferro em Carajás, 17 pessoas, representantes dos sindicatos alemães de mineração, setor químico e energético (IGBCE); do setor metalúrgico (IG Metall) da Confederação dos Sindicatos Alemães (DGB), representantes da GKKE e assessores do Fórum Carajás;

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• Seminário envolvendo delegação alemã e 38 dirigentes sindicais brasileiros do setor mineral (CNTSM-CUT) e do setor siderúrgico (CNM-CUT), em Belo Horizonte, Minas Gerais, na sede da Escola Sindical 7 de Outubro. Participaram 10 representantes do Fórum Carajás; • Programa EXPO 2000 del proyecto‚ salud, seguridad y medio ambiente en el local de trabajo’ Alemanha, con la participação de 30 brasileiros, 7 espanhois, 7 suecos e 15 alemãs. Participaram 7 sindicalistas do Fórum Carajás, em outubro de 2000; • Conferência: “concepção de uma cadeia da soja sustentável nas relações Brasil/Alemanha”. Em Loccum na Alemanha, em maio de 2001. Participaram três representantes do Fórum Carajás; • Intercâmbio internacional para um desenvolvimento sustentável (Arbeits- und Studienaufenthalte in Lateinamerika – ASA) objetiva promover troca de experiências entre organismos não governamentais do Brasil e da Alemanha. Jovens alemães participam de algum projeto no Brasil (Fase Sul) um profissional brasileiro desenvolve uma atividade complementar na Alemanha (Fase Norte). O tema principal do intercâmbio é energias renováveis e aprendizagem global em Alemanha e Brasil. Tema priorizado para 2010 – alternativas energéticas e aprendizagem global na Alemanha e Brasil. Salve a Terra8 Salva, Salvaterra vives o teu tempo de guerra não construístes armas plantastes cupuaçu Salva, Salvaterra refinaria te ocupou o teu povo sente dor pau d’arco cai a flor

Terceira fase
A implantação, ampliação e/ou consolidação de refinarias de petróleo, termelétricas, aciária, exploração de minas de bauxita e de ouro e outros empreendimentos que exaurem as riquezas e potencialidades locais, desterritorializa povos e comunidades, entretanto, a oferta de empregos desmobiliza grupos e movimentos o que tornam esse momento um desafio maior. Por outro lado novas organizações se incorporam ao Fórum bem como outros temas, destaca-se as organizações das regiões de cerrado, da Baixada Maranhense e de Barcarena no Pará, que por sua vez passaram a influenciar as prioridades. O Fórum passa a participar de outras organizações e/ou espaços de discussão como Fórum da Amazônia Oriental, Conselho Nacional de Recursos Hídricos,Conselho Estadual de Direitos Humanos , Conselho Estadual de Desenvolvimento Sustentável, Rede de Intervenção em Polítcas Públicas, Rede Manguemar Brasil, Redmanglar internacional , Campanha Justiça nos Trilhos, Fórum do Baixo Parnaiba, Rede de Tecnologia Social, Fórum Estadual de Mulheres, Fórum em Defesa das Populações do Cerrado Sul Maranhense, Associação Brasileira de Ong`s, Rede de Agroecologia do Maranhão, Associação Nacional de Agroecologia, Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Fórum Brasileiro de Ong´s e Movimentos Sociais, Movimento Reage São Luís, Movimento SalvaTerra e Comissão Justiça nos Trilhos. Dentre os principais programas trabalhados pelo Fórum Carajás,destacamos:

Expansão da sojicultura e a fronteira agrícola. Programa de educação ambiental, monitoramento e alternativas para as comunidades afetadas pela expansão da sojicultura, seguem os projetos : • Sonhem: Monitoramento e educação amSalva, Salvaterra biental nos Cerrados Maranhenses, projeto desenQuem salvará tua terra? volvido em comunidades da bacia do Rio Parnaíba, O que será do teu povo? no município de Loreto/MA; • Alternativas para o Cerrado, projeto em deSalva Terra, Salva Terra, Salvaterra senvolvimento pela ACA na região dos Gerais de Balsas; • Ciranda Agroecológica, projeto desenvolvi8 Versos da poesia de Zeca Pereira ou Zeca do Sindicato de Rosário sobre a comunidade Salvaterra de Rosário que foi desapropriada do no município de Mata Roma com jovens quipelo governo do Maranhão para implantação de refinaria Premium lombolas;
da Petrobás

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• Chapada Limpa: desdobramento de uma proposta de conservação ambiental para o Baixo Parnaíba, em desenvolvimento na Reserva Reserva Extrativista Chapada Limpa, no município de Chapadinha; • Comunidade Tradicional e a Sustentabilidade do Extrativismo do Bacuri, projeto em desenvolvimento no município de Urbano Santos; • Arte e Meio Ambiente: educação ambiental para comunidades quilombolas, projeto em desenvolvimento no município de Mata Roma; • O Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, em desenvolvimento em toda a região do Leste Maranhense, parceria com SMDH, CCN e FDBPM. Mineração e siderurgia. O aumento das carvorias para abastecimento do Pólo Siderúrgico Carajás, acarretou novas mudanças ambientais tornando os povos e comunidades tradicionais especialmente vulneráveis. A exemplo dos danos causados pelas 13 empresas do Pólo Siderúrgico Carajás que consomem 7.314.404 ton/ano de carvão e, consequentemente, 13.194.949,46 ton/ano de lenha (IBAMA, 2005). O Fórum acompanha e denuncia essas atividades e seus danos. Participou do Movimento Reage São Luís, contra a implantação de um pólo siderúrgico na Ilha de São Luís, inclusive, com oficina no Fórum Social Mundial; participa da coordenação da Campanha Justiça nos Trilhos; coordena o Movimento Salva Maranhão, de denúncia de irregularidades e mobilização social sobre os projetos que não oferecem

equilíbrio entre crescimento econômico, equidade social, diversidade cultural e a proteção ambiental. Revitalizando os Manguezais, objetiva dar visibilidade aos ecossistemas manguezais, tornando os moradores/as e organizações que vivem nos entornos, capazes de manejar, proteger e impedir a destruição dessas florestas remanescentes. Entre os projetos destacou -se o de Comunicação e Educação Ambiental que tinha como finalidade elaborar propostas e fomentar discussões sobre questões ambientais com comunidades afetadas pelos grandes projetos no interior no interior da Ilha de São Luís durante os anos 2004 e 2005. Desenvolve atualmente o Projeto Bequimão na região da Baixada Maranhense. Rosa Negra, é um projeto do Programa Mulher e os Grandes Projetos: impactos dos grandes projetos na vida das mulheres, objetiva apoiar as alternativas de renda e de organização de mulheres rurais possibilitando a manifestações culturais reforçando e reafirmando a identidade negra e novas relações de gênero. Barragens e Energia, o Fórum acompanha a implantação de barragens na bacia do Araguaia/ Tocantins e Parnaíba denunciando irregularidades e produzindo materiais de apoio as comunidades atingidas. Tem assento na Câmara Técnica de Análise de Projeto (CTAP) do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) intervindo para a melhoria dos planos das bacias hidrográficas das regiões hidrográficas Bacia do Araguaia-Tocantins, Parnaíba e Nordeste Ocidental.

Quadro 3: Principais eventos na terceira fase do Fórum Carajás

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Uma conclusão
O Fórum Carajás superou o modelo tradicional de organização política, na abrangência e diversidade, congrega grupos e organizações populares e sindicais, entidades eclesiais nacionais e parceiros internacionais. A cultura e arte vitalizam todos os processos, facilitando a compreensão das problemáticas e envolvendo artistas das regiões. Em a Filha da Chuva, compilação de poesias que mostrava como o desenvolvimento afeta os sentimentos, as emoções e os valores das pessoas; em Percussão em Movimento, utilizou-se variados sons através de instrumentos e dos próprios corpos para mostrar ao público sons da natureza e dos ambientes em que vivem. Em outros espetáculos como o Recital dos Carvoeiros, o Seminário “Rosa Negra” Mulheres Rurais, Danças e Tambores, homenageava os atingidos e fazedoras de cultura popular. O espaço Cumbuca de Saber é um espaço informal de discussão político/cultural onde foram lançados livros e CDs, no programa Boca de Forno e no concurso “Artístico e Literário Fórum Carajás” o Fórum buscou despertar a criatividade artística nos/as jovens filhos/as de pescadores/as e agricultores/as. O Fórum é uma teia sócio-ambientalista de caráter permanente que assume o enfrentamento de questões específicas e gerais. Proporciona um maior entendimento das relações regionais, urbanos e rurais, integração nas diversas lutas existentes na região e incorporação da proteção ambiental como uma dimensão relevante. Causa impacto na opinião pública, influência organismos estatais de meio ambiente, legislativos, pesquisadores e o empresariado. Os materiais específicos como relatórios, cartilhas, vídeos, fotos e mapas são usados como material didático em escolas de ensino fundametal e médio, como material de apoio a trabalhos de parlamentares e pesquisa acadêmica.

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Foto: Robero K-Zau: Mesa Redonda Internacional -MRI

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Material produzido pelo Fórum Carajás ________________Carajás: Desenvolvimento ou destruição. São Luís: Fórum Carajás,1992

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Luís: Fórum Carajás, 1994

rabá/PA: Fórum Carajás. 1995

______________Jornal On Line

Material consultado

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Organizações participantes do Fórum Carajás
N.º 01 02 03 Nome da organização ABIPA Axixá/TO APOIO - Balsas/MA Associação Agroecológica Tijupá - São Luís/MA Tipo de organização Organização de cooperação agrícola ONG ONG

04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46

Associação de Donas de Casa de Açailândia/MA Associação de Mulheres do Bico do Papagaio/TO – ASMUBIP Associação de Moradores de Boa Vista dos Pinhos/MA Associação de Moradores de Porto Alegre/MA Associação de Moradores da Vila Bom Jardim/MA Associação de Moradores da Vila Tancredo/MA Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco/MA Associação de Mulheres Extrativista de Cidelândia/MA Associação dos Sindicatos Unidos do Médio Meariam/MA – ASUMEM Associação do Trabalhadores Rurais Agroextrativista e Pescadores Artesanais de Tucuruí/PA Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão - ASSEMA/MA
Associação Nossa Senhora do Rosário em Penalva/MA Associação dos Pequenos Produtores Projeto de Assentamento Angelim Caixa de Ararás - Marabá/PA Caixa Agrícola dos Pequenos Produtores de São João do Araguaia/PA Cáritas Regional de São Luís/MA Cáritas Diocesana de Brejo/MA Central Única dos Trabalhadores do Sudeste do Pará Central Agroambiental do Tocantins - CAT - Marabá/PA Centro de Educação e Cultura do Trabalhador rural - CENTRU Imperatriz/MA Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular CEPASP - Marabá/PA Centro de Estudos e Ação Social - CEAS - Salvador/BA Centro de Cultura Negra - São Luís/MA Colônia de Pescadores de Tucuruí/PA Comissão Pastoral da Terra de Marabá/PA Comissão Pastoral da Terra da Palestina/PA Comissão Pastoral da Terra do Maranhão Comissão Pastoral da Terra do Bico do Papagaio/To Comunidade Tucumã - Índios Gavião da Montanha - Área Indígena Mãe Maria- Marabá/PA Conselho Indigenista Missionário - CIMI/MA Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS - Marabá/PA Cooperativa Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Esperantinópolis/MA – COPPAESP Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Lago do Junco/MA Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de Lima Campos/MA – COPPELC Cooperativa de Pequenos Agricultores Agroextrativistas de São Luís Gonzaga/Ma – COPPAES Cooperativa de Pequenos Rurais de Parauapebas/PA Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas de Imperatriz/MA – COPPAI Colônia de Pescadores de Abaetetuba/PA Coordenadoria Ecumênica de Serviços - CESE- Salvador/BA Equipe de Educação Popular de Parauapebas/PA – EEPP Federação do Tocantins Araguaia -FATA - Marabá/PA

Grupo de mulheres Grupo de mulheres rurais Associação de agricultor@s Associação de agricultor@s Associação de bairro Associação de bairro Grupo de mulheres rurais Associação de mulheres Articulação de STTRs Organização de cooperação agrícola ONG rural
Organização de mulheres Associação de agrcultor@s Cooperativa agrícola Cooperativa agrícola Entidade da Igreja Católica Entidades da Igreja Católica Central Sindical ONG ONG ONG ONG urbana Movimento Negro Sindicato de pescadores Entidade da Igreja católica Entidade da Igreja católica Entidade da Igreja católica Entidade da Igreja católica Organização indígena Entidade indigenista da Igreja Articulação de Extrativistas Cooperativa Cooperativa Cooperativa Cooperativa Cooperativa Cooperativa Sindicato de pescadores ONG ecumênica ONG ONG Fórum Carajás outubro de 2010 Federação de STTTR ONG ambientalista

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Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará - FETAGRI GREENPEACE

40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74

Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas de Imperatriz/MA – COPPAI Colônia de Pescadores de Abaetetuba/PA Coordenadoria Ecumênica de Serviços - CESE- Salvador/BA Equipe de Educação Popular de Parauapebas/PA – EEPP Federação do Tocantins Araguaia -FATA - Marabá/PA Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará - FETAGRI GREENPEACE Grupo de Mulheres da Ilha - São Luís/MA Grupo de Trabalho Amazônico Bico do Papagaio/TO - GTA – Bico Grupo de Trabalho Amazônico do Babaçu/MA - GTA – Babaçu Grupo de Trabalho Amazônico Nacional - GTA - Nacional Grupo de Jovens de Oiteiro/MA Grupo de Jovens de Rosário /MA Grupo de Jovens de Cajueiro/MA Grupo de Jovens de Taim /MA Igreja Evangélica Luterana de Balsas/MA Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua Movimento dos Sem Terra de Parauapebas/PA Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade/PA Movimento de Educação de Base - MEB - Imperatriz/MA Movimento de Educação de Base - MEB - Buriticupu/MA Movimento de Educação de Base - MEB - Marabá/PA Movimento de Mulheres do Araguaia -/PA

Cooperativa Sindicato de pescadores ONG ecumênica ONG ONG Federação de STTTR ONG ambientalista Organização feminista Articulação de entidades Articulação de entidades Articulação de entidades Grupo de jovens Grupo de jovens Grupo de jovens Grupo de jovens Igreja evangélica Movimento Movimento Grupo de mulheres Entidade de Igreja Católica Entidade de Igreja Católica Entidade da Igreja Católica Movimento de mulheres Movimento de mulheres Movimento de pescadores Movimento pescadores Movimento Movimento de mulheres rurais Movimento de pescadores Entidade de Igreja Católica Igreja Evangélica Entidade da Igreja Católica STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR

Movimento de Mulheres do Sudeste do Pará - Marabá/PA Movimento dos Pescadores do Maranhão - MOPEMA Movimento dos Pescadores do Pará – MOPEPA Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra Marabá/PA Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu Movimento Nacional dos Pescadores – MONAPE Pastoral da Mulher e da Criança de Buriticupu/MA Paróquia de Confissão Luterana de Belém/PA Pastoral Popular de Marabá/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Barcarena/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Buriticupu /MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Fortaleza de Nogueiras/MA 75 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Açailândia/MA 76 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Altamira/PA 77 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Amarante/MA 78 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Anapurus/MA 79 Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Balsas/MA 80 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Brejo Grande do Araguaia /PA 81 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Breu Branco/MA 82 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Carolina/MA 83 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Eldorado dos Carajás/PA 84 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Esperantinópolis/Ma 85 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Estreito/MA 86 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Imperatriz/MA 87 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Itupiranga/PA 88 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Jacundá/PA 89 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de João Lisboa /MA 90 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Lago da Pedra/MA 91 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de do Junco/MA 92 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Lima Campos/MA 93 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Loreto/MA 94 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Magalhães de Almeida 95 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Marabá/PA 96 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Mata Roma/MA 97 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Novo Repartimento/PA 98 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Palestina/PA 99 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paragominas/PA 100 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Parauapebas/PA 101 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paulo Ramos/MA 102 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pio XII /MA Fórum103 Sindicato de 2010 Carajás outubro dos Trabalhadores /as Rurais de Pitinga/MA 20 104 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Poção de Pedras/MA 105 Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais Riachão/Ma

97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139

Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Novo Repartimento/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Palestina/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paragominas/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Parauapebas/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Paulo Ramos/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pio XII /MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Pitinga/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Poção de Pedras/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais Riachão/Ma Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Domingos de Araguaia/PA Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São João do Araguaia/PA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Luís Gonzaga/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Raimundo das Mangabeiras/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Tasso Fragoso/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Tucuruí Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Cidelândia/PA Sindicato dos trabalhadores/as Rurais de Presidente Médici /MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Nova Colina /MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Santa Rita/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de São Luís/MA Sindicato dos Trabalhadores /as Rurais de Rosário /MA Sindicato dos Urbanitários do Pará - Marabá/PA Sindicato dos Comerciários de Parauapebas/PA Sindicato dos Empregados em Entidades de Assistência Social e Educacional - SENALBA - Imperatriz/MA Sindicato dos Ferroviários Sindicato dos Fotógrafos Açailândia /MA Sindicato dos Jornalistas de Imperatriz/MA Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia e Impera triz MA Sindicato dos Químicos Barcarena/PA Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão Sindicato dos Metalúrgicos do Pará - SIMETAL Sindicato dos Trabalhadores /as da Saúde do Pará -SINTESP Marabá/PA Sindicato dos Trabalhadores /as da Indústria de Metais Básicos METABASE- Carajás/PA Sindicato dos Trabalhadores /as em Educação Pública do Pará SINTEPP- Marabá/PA Sindicato dos Trabalhadores na Indústria e construção Civil de Açailândia/MA Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação do Estado do Pará - Marabá/PA Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Madeireiras de Eldorado/PA Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Madeireiras de Construção Civil de Açailândia/MA Sindicato dos Trabalhadores nas Indústria Madeireiras de Movelaria de Açailândia/Ma SINTRAFE - Marabá/PA Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos Sociedade Paraense de Direitos Humanos

STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR STTR Sindicato urbano Sindicato urbano Sindicato urbano Sindicato operário Sindicato urbano Sindicato urbano Sindicato operário Sindicato operário Sindicato operário Sindicato operário Sindicato urbano Sindicato operário Sindicato urbano Sindicato operário Sindicato operário Sindicato operário Sindicato operário Sindicato operário Sindicato urbano ONG ONG

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Impactos e resistências em Açailândia, profundo interior do Maranhão
Açailândia: terra do açaí
Dário Bossi1, em abril de 2010

s antigos romanos costumavam dizer “nomen omen” (o destino de algo está em seu próprio nome); no caso de Açailândia, cidade do açaí, o ditado foi desmentido e a identidade do município foi rapidamente alterada em “cidade do ferro”. Ainda pior o que aconteceu com uma de suas periferias. Piquiá era o nome que os moradores escolheram, valorizando uma das árvores mais elegantes da região. Mas logo que as empresas chegaram, transformaram o mesmo nome no acrônimo “Parque Industrial Químico Açailândia”! Atrás dessa violação de identidade há uma violência simbólica sobre a vocação de um território e de um povo. Nesse artigo tentaremos detalhar os passos dessa violência e mostrar os movimentos de resistência e organização popular.
1 Missionário Comboniano, residente no município de Açailândia, oeste do Maranhão e militante da campanha ‘Justiça nos Trilhos’- www. justicanostrilhos.org

O

Açailândia tem pouco mais de cem mil habiOs atores do “desenvolvimento” e tantes distribuídos numa área de cerca de 5.806 Km². suas vítimas O Produto Interno Bruto (PIB) é de 1.410.298.000 R$2 . Com o preço do ferro-gusa antes da crise, ape- a. O Projeto Grande Carajás e a Estrada de Fernas uma siderúrgica no município exportava por ano, ro Carajás4 produtos com valor correspondente a mais de 600 milhões de R$3 . O Programa Grande Carajás (PGC), criado pelo Governo Federal em 1980, foi o fator que proPor que a siderurgia guseira decidiu investir piciou a instalação do setor siderúrgico na região. O nessa cidade? PGC surge como um incentivo adicional do governo para os investimentos privados na região amazônica, Açailândia se encontra no eixo de duas im- juntamente com o Projeto Minério de Ferro Carajás portantes rodovias: a BR 010 Belém-Brasília e a BR (PMFC), localizado no município de Marabá (PA)5 e 222, que liga o município a São Luís. O trânsito de controlado pela companhia Vale. O projeto controla caminhões e veículos é intenso. O município é pon- 10,6% do território nacional. O PGC foi considerado to de passagem para várias regiões do país, como a um dos maiores programas de desenvolvimento inNorte e Nordeste. tegrado numa área de floresta tropical úmida. Em Açailândia cruzam-se também duas imA chegada da ferrovia e suas operações cresportantes ferrovias: os 892 Km da Estrada de Ferro centes determinaram boa parte dos investimentos Carajás, que une Parauapebas no Pará com o porto industriais na região. Ao lado da ferrovia, no distride Itaqui em São Luís; e a Ferrovia Norte-Sul, 720 to industrial de Piquiá, instalou-se um grande polo Km de trilhos, até Palmas no Tocantins (parte ainda Petroquímico, estação de redistribuição para Maraestá em construção). Ambas estão cedidas em con- nhão, Pará e Tocantins do combustível que chega de cessão à mineradora Vale, que garante o escoamento navio em São Luís. de mercadorias e recursos e lucra a partir disso. No final dos anos 80 instalaram-se também A abundância de terra livre na região foi des- várias usinas siderúrgicas (atualmente 11 no Pará e de sempre um grande atrativo para os investimen- 7 no Maranhão). Pelo Projeto Grande Carajás, esse tos no território. A bibliografia de estudos sobre a deveria ser o primeiro passo rumo a “um complexo região indica que tudo começou no final da década industrial metal-mecânico”, tendo como primeiro de 1960. Numa seqüência altamente destrutiva, que estágio as indústrias sídero-metalúrgicas. Foi prepassou pelos ciclos da madeira nobre, das serrarias, visto que “os encadeamentos para frente das atividados pastos e gado, do carvão e do eucalipto. des siderúrgicas engendrariam a criação de um parque metal-mecânico, cujo porte ensejaria a criação A região tornou-se interessante também devi- de pelo menos 44 mil empregos diretos no ano de do à relativa riqueza de água: rios, córregos e lagoas 2010”6 hoje desfrutados também pelas empresas instaladas As promessas desse grande investimento inno local. Em razão de tudo isso, a cidade tornou-se dustrial, como quase sempre acontece, nunca se reuma etapa obrigatória do dito desenvolvimento, que alizaram nessas proporções. Açailândia, segundo infelizmente passa por ela sem deixar amadurecer maior pólo de produção siderúrgica, entre os quamuitos frutos no local. Minério e ferro vão e vêm, mas o retorno econômico e o tal de ‘progresso’ para em Açailândia somente nas mãos de poucos. 4 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005 - http://www.carvaocidadao.org.br/ata/relatorio_social.htm 5 CARNEIRO, Marcelo Sampaio. Crítica social e responsabilização empresarial. Análise das estratégias para a legitimação da produção siderúrgica na Amazônia Oriental, Cad. CRH v.21 n.53 Salvador maio/ago. 2008, disponível em www.scielo.br 6 BRASIL. 1989. Secretaria de Planejamento da Presidência da República. Programa Grande Carajás. Secretaria Executiva. Plano-diretor do Corredor da Estrada de Ferro Carajás. Brasília, NATRON. 536p.

2 IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, 2006. 3 www.vienairon.com.br – Exportação anual de 500.000 ton de ferro gusa, com um preço antes da crise de 750 $ por tonelada.

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tro localizados ao longo da EFC, no final do ano de 2007 empregava no setor de transformação (principal mas não unicamente siderúrgico) somente 2.568 pessoas!7 Ao contrário, como veremos logo a seguir, o impacto sócio-ambiental desses novos empreendimentos na região foi enorme. A ferrovia influiu pesadamente sobre o desenvolvimento da região e determinou a construção de uma cadeia completa de extração e elaboração do ferro. A cadeia é voltada para a exportação, com agregação de valor muito baixa para o povo maranhense. A economia extrativa é marcada por várias contradições: por exemplo, o contraste entre os valores que diariamente passam pelos trilhos e a miséria de muitos barracos que há anos permanecem à beira da ferrovia em condições indignas de seres humanos. No ano passado a Vale transportou cerca de 100 milhões de toneladas de minério. Ao preço de 2009, uma tonelada de minério custava R$71,00. Portanto, a cada dia Vale transporta mediamente 333.000 toneladas, por um valor de R$ 21,3 milhões. Isto quer dizer que a cada dia passam em frente do povo de Açailândia cerca de R$50 milhões. Considerando que essa exportação é desonerada de impostos, por conta da Lei Kandir, pode-se imaginar os níveis de lucro da grande companhia multinacional. Vamos conhecer mais de perto os trilhos da Estrada de Ferro Carajás (EFC), sobre os quais desde abril de 2008 corre o maior trem do mundo: 330 vagões, cerca de 3.500 metros de extensão e capacidade para transportar 40 mil toneladas. Quatro locomotivas para cada trem, uma frota total de 205. A cada dia passa uma média de 10 trens de minério. Mais dois ou três de soja; e dois ou três com outros produtos, como minério para siderúrgicas e combustível para o pólo petroquímico, etc. Sem falar dos trens vazios que voltam de São Luís para serem recarregados na mina. Ao contrário, o trem de passageiros, - uma obrigação da Vale pela concessão estadual de uso da ferrovia - é garantido somente uma vez a cada dois dias. No fim de 2009, antes da representação

escrita do Sindicato dos Ferroviários ao Ministério Publico do Estado (MPE) e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a rotina da viagem era marcada pelo atraso. Havia queixas ainda sobre a postura pouco ética da companhia para com os passageiros. Os moradores na beira dos trilhos não conseguem conviver com o barulho provocado pelos trens. Um incômodo permanente. As casas mais próximas dos trilhos sofrem com rachaduras. Os acidentes são freqüentes, com um número significativo de mortes por atropelamento de pessoas e animais. Até o instante não existe uma política específica da empresa para lidar com esse problema. Segundo Relatório de Sustentabilidade da própria empresa, o número de acidentes de trem nos últimos anos foram 59 (2005), 63 (2006) e 46 (2007). A vida das pessoas, pelo jeito, é menos importante do que o transporte de minério, que tem mais ‘peso’. Uma análise desse tipo é confirmada também pelo fenômeno dos “Meninos do trem”. Trata-se de meninos e meninas que viajam de maneira irregular nos trens de minério da Companhia Vale ao longo da Estrada de Ferro Carajás. São crianças e adolescentes que têm acesso de maneira clandestina ao trem, viajando de Marabá ou Parauapebas até São Luís, ou vice-versa. Quando descobertos pela segurança da Companhia, são entregues ao Conselho Tutelar mais próximo, cuja tarefa será de fazer o registro de ocorrência e devolvê-los (a custo da Vale) às suas famílias em seus municípios de origem. O fenômeno tem crescido consideravelmente a cada ano e tem complicado muito a atuação ordinária dos Conselhos Tutelares da região. O MPE entrou com uma representação a respeito, com o título “Meninos do Trem da Vale – Situação de Risco”8 . Os meninos do trem estão expostos a toda sorte de perigos. Desde a contaminação pelo minério, até as condições climáticas diversas, além da viagem sem a proteção ou orientação de um adulto responsável. “Pelos vagões do trem de ferro, quem leva a carga são os meninos. Com uma realidade que os expulsa, em péssimas condições socioeconômicas, em

7 Ministério do Trabalho e Emprego/Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

8 Procedimento n. 116/05 – Ministério Público do Estado do Maranhão

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Estados com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), sem a atenção dos órgãos competentes, sem políticas públicas específicas para a criança e o adolescente e sem acesso aos bens básicos para uma vida digna, resta a estes meninos e meninas pegar carona naquele que parece ter sido um dos motivos de tamanha desordem social. O trem de carga, que carrega minérios e meninos, parece anunciar através do seu apito que esta carga está pesada demais, especialmente para os meninos do trem” 9. A perspectiva da duplicação dos trilhos, já planejada e em fase de realização, assusta os moradores de Açailândia e do corredor inteiro, devido à evidente duplicação de todos os problemas até agora mencionados. b. As usinas siderúrgicas Em Açailândia encontram-se cinco empresas siderúrgicas: Viena Siderúrgica (capital próprio, em operação desde 1988), Simasa e Pindaré (Grupo Queiróz-Galvão, 1993), Gusa Nordeste (Grupo Ferroeste, 1993), Fergumar (Grupo Aterpa, 1996). A tabela seguinte dá as dimensões das usinas, com dados de 2006 (em itálico os dados de algumas siderúrgicas de Marabá):
Nº de funcionários próprios 234 218 650 560
243 500

Desde suas instalações, as guseiras da região de Carajás receberam colaboração financeira através de recursos públicos oriundos do Fundo de Investimentos do Nordeste (FINOR) e do Fundo de Investimentos da Amazônia (FINAM). Uma vez aprovados os projetos, seus signatários recebiam até 75% do valor total indicado como necessário à implantação do parque industrial e à aquisição de áreas destinadas ao desenvolvimento de supostos projetos de “manejo florestal” ou de reflorestamento10. A aprovação dos projetos exigiu só formalmente uma série de condicionantes ligadas ao licenciamento ambiental. É muito difícil conseguir junto à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA) os documentos de licenciamento. Nossa equipe de pesquisa reiterou o pedido à SEMA e a visitou várias vezes antes de conseguir dados somente de três das cinco siderúrgicas, recebendo inclusive três processos de licenciamento vencidos e não renovados. Parece claro que, pela facilidade de instalação e a ausência/cumplicidade do poder público, as siderúrgicas da região de Carajás acumularam enormes lucros ao longo dos últimos anos. No período entre 2000 e 2008 o volume de ferro gusa exportado duplicou, mas o valor dessa exportação quase decuplicou, passando de cerca de US$ 165 milhões em
Produção média anual de ferro gusa (em ton) 216.000 216.000 564.000 480.000
400.000 180.000

Consumo médio anual de 3 carvão(emm ) 480.000 540.000 1.440.000 900.000
1.057.000 360.000

Siderúrgica

Nº de alto fornos 2 2 5 5
2 2

Relação consumo/ produção 2,22 2,50 2,55 1,88
2,64 2,00

FERGUMAR GUSA NORDESTE SIMASA/ PINDARÉ VIENA
FERRO GUSA CARAJÁS USIMAR

Fonte: Pesquisa de Campo IOS. Elaboração: Instituto Observatório Social.

9 SOUZA, Emilene Leite. “De passagem”. Universidade Federal do Maranhão/UFMA Imperatriz - CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, SAÚDE E TECNOLOGIA/CCSST 2009

10 MONTEIRO, Maurílio de Abreu . Siderurgia na Amazônia Oriental brasileira e a pressão sobre a floresta primária. In: II Encontro da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade - ANPPAS, 2004, Indaiatuba-SP. Anais do II Encontro da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. Indaiatuba : ANNPAS, 2004. v. 1. p. 1-19

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2000 para US$ 1,5 bilhão em 2008. Este crescimento tornou-se possível pelo salto do preço médio do ferro gusa exportado, que passou de US$ 99,6/ton para US$ 445,6/ton no mesmo período”11. Também em tempos de crise, apesar de um discurso preocupado e resignado à solução inevitável da demissão dos funcionários, as siderúrgicas não pararam de vender e lucrar. Carneiro e Ramalho (2009) sinalizam que, até o final de 2008, uma pequena redução na quantidade exportada, pouco mais de 67 mil toneladas, foi mais do que compensada pelo valor exportado, com um aumento de cerca de 498 milhões de dólares quando comparado ao ano anterior. Ainda conforme os dados de Carneiro e Ramalho (2009), os dados oficiais das exportações brasileiras, demonstram de forma inequívoca que as empresas guseiras do Pará e Maranhão finalizaram o ano de 2008 com grandes lucros. Sem dúvida, as demissões podiam ser evitadas ou atrasadas, sem que o peso da crise pesasse somente sobre as costas dos mais fracos. Além de desempregada, a população compartilha o pesado impacto sobre o meio ambiente. É ela
Área Siderúrgica adquiri da para plantio (em ha) FERGUMAR GUSA NORDESTE SIMASA/ PINDARÉ VIENA
FERRO GUSA CARAJÁS USIMAR

nativas – corresponde a um desmatamento de pelo menos 600 m² de matas primárias. Em 2005, por exemplo, as empresas siderúrgicas da região de Carajás produziram 4 milhões de toneladas de ferro-gusa12, o que corresponderia ao consumo de 240.000 hectares de mata nativa. Naquele ano, conforme dados da Associação das Siderúrgicas de Carajás – ASICA, a percentagem de origem do carvão vegetal era de 49,6% da mata nativa e 50,4% de reflorestação com espécies exóticas. Portanto, somente em 2005, as siderúrgicas da região de Carajás queimaram para produzir carvão cerca de 120.000 hectares de mata nativa. Vamos fazer um outro exemplo no caso do eucalipto. Para produzir uma tonelada de ferro gusa precisa de 3,8 m³ de eucalipto (ou 5,8 m³ de mata nativa). A siderúrgica Viena atualmente produz 500.000 toneladas de ferro gusa por ano; precisaria portanto, uma vez que se tornar auto suficiente com seu parque de monocultura, de 54.000 hectares de eucalipto ao ano, 1,6% da superfície do Maranhão. Veja na tabela a seguir as previsões que as empresas fizeram em 2005 a respeito da interrupção do corte de mata nativa (fonte: ASICA).
% de carvão produzido em carvoarias próprias 0% 0% 20% 55%
100% 0%

Área plantada (em ha) 6.000 10.000 17.500 20.000
32.000 0

Ano meta para ser auto-suficiente Não há previsão 2010 2012 2011
Já é Não há previsão

10.000 27.000 56.000 52.000
75.000 3.000

quem socializa os desastres ambientais ao longo de mais de duas décadas. Dados tabulados por Monteiro (2004), indicam que para produção de uma tonelada de ferro-gusa são necessários 875 kg de carvão vegetal, cuja produção, por sua vez, requer a utilização de pelo menos 2.600 kg de madeira seca, que – quando se utiliza lenha originária de matas
11 CARNEIRO, M e RAMALHO, R. A crise econômica mundial e seu impacto sobre as empresas de ferro-gusa: algumas informações sobre o desempenho recente das empresas guseiras e o desemprego no município de Açailândia. 2009.

Nos últimos anos, com a intensificação da fiscalização nas fazendas pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, as empresas siderúrgicas da região foram acusadas pelo Ministério Público Federal de se beneficiarem da escravidão para produzir o ferro gusa. Muitas delas tiveram que pagar quantias elevadas em indenizações para os trabalhadores que produzem o carvão.

12 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005.

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Em 1999, visando adequar o trabalho desenvolvido nas carvoarias, as siderúrgicas do estado do Maranhão firmaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e à Procuradoria Regional do Trabalho, envolvendo, também, empreiteiros e fornecedores .Hoje13, percebe-se uma melhoria efetiva das condições de trabalho nas carvoarias, mesmo assim ainda existem numerosas carvoarias clandestinas. Além do desmatamento e do trabalho escravo, há em Açailândia o grave problema da poluição, que afeta povoados inteiros, parcialmente preexistentes à instalação das siderúrgicas. É o caso de Piquiá de Baixo. Em abril de 2008 a Associação Comunitária de Pequiá de Baixo procurou o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CDVDH) e a Paróquia São João Batista. A parceria visa enfrentar o problema da poluição provocada pelas siderúrgicas no distrito industrial. A Associação Comunitária há tempo buscava denunciar a situação, batendo sem sucesso à porta de diferentes instituições. A aliança dos moradores de Piquiá de Baixo com o CDVDH e a Paróquia São João permitiu coordenar melhor as ações, partindo da oportunidade de um primeiro processo instituído contra uma das siderúrgicas: a Gusa Nordeste. De fato, em novembro de 2005, 21 famílias moradoras de Piquiá de Baixo ( mais próximas fisicamente à empresa) denunciaram por danos a poluição produzida pela a siderúrgica Gusa Nordeste, exigindo indenização. Depois de quase quatro anos, apesar da pressão e do apoio popular, repetidas vezes solidário à causa daquelas famílias, os procedimentos legais ainda não se concluíram. Com o objetivo de verificar a existência de relação entre os casos denunciados pelas famílias14 com as atividades da empresa, a juíza da segunda vara da Comarca de Açailândia encomendou uma perícia ambiental nas dependências da empresa e nas residências das famílias . Esse estudo somou-se a um outro, encomendado pelo CDVDH, a respeito da poluição hídrica pelas siderúrgicas15.
13 Relatório Social Instituto Carvão Cidadão, 2005. 14 Relatório de Perícia Ambiental apresentado à Segunda Vara Judicial da Comarca de Açailândia, dr. Ulisses Brigatto Albino, Imperatriz 2007. Perícia realizada dia 05 de Dezembro de 2006. 15 Estudo preliminar da situação ambiental da população de Piquiá, eng. Mariana de la Fuente Gómez, Açailândia 2007.

Os estudos demonstram várias formas de poluição geradas pelas usinas. As águas de resfriamento, por exemplo, são bombeadas do ribeirão Piquiá, escorrem pela superfície externa dos alto fornos e logo voltam ao rio Piquiá aquecidas e contendo ferro e outros solutos, passando nesse percurso pelos quintais das casas próximas às siderúrgicas. Além de problemas ao meio ambiente, o processo pode gerar contaminação para os moradores por meio da alimentação. O excesso de ferro armazenado e não absorvido pelo organismo pode gerar graves conseqüências para o fígado e as células cardíacas das pessoas. Pela ausência de uma rede de captação das águas fluviais internas ao pátio, toda a escória de ferro e carvão da produção acaba escorrendo também no mesmo riacho logo abaixo dos empreendimentos. A escória vitrificada não é devidamente tratada, mas descartada no ambiente, podendo gerar intoxicação de plantas, animais e pessoas. O vento levanta a poeira e o “pó de balão”. O pó é uma sobra da produção amontoada em cúmulos ao lado das casas. O próprio britador que reduz a sobra em partícula do fino levanta muita poeira, que cai em cima das casas. No fim de 2009, uma das cinco siderúrgicas encontrou uma maneira de evitar esses depósitos. Outro aspecto relevante: nenhuma das chaminés dos 14 alto fornos das siderúrgicas possui filtro de manga. À fumaça acrescenta-se partícula do fino de carvão que se levanta em grandes nuvens pretas toda vez que a combustão não é regular e precisa “desentupir” o forno. Recentemente a Gusa Nordeste instalou uma termelétrica alimentada pelas próprias emissões de seus fornos. Isso lhe garante a produção de energia elétrica para uso interno e, posteriormente, a possibilidade de obter recurso com a venda de créditos de carbono. Apesar disso, o sistema não consegue conter todas as emissões das chaminés dos alto fornos, e o povo continua tendo sua dívida de oxigênio. Em setembro de 2001, mais um acidente terrível humilhou e fez violência sobre o povo. Aconteceu com Gilcivaldo, 7 anos, em busca de alguns pedaços de carvão para esquentar a comida em seu barraco. Avançou demais no monte de ‘munha’, uma escória incandescente depositada pelos caminhões das siderúrgicas, numa área livre e não protegida, ao lado do povoado.
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A munha esfria-se em superfície, mas se mantém muito quente logo abaixo. O amontoado de escória amoleceu e as pernas do adolescente acabaram se queimando até a bacia. Depois de 20 dias de agonia, Gilcivaldo faleceu. Acidentes desse tipo aconteceram também com outras pessoas e animais que acabaram se queimando e prejudicando a pele e às vezes parte das pernas. Por causa de toda essa injustiça, o povo de Piquiá de Baixo vive revoltado e luta há anos por direitos e moradia. Quase todos os moradores estão de acordo em sair do lugar. Negociam com as usinas e o poder público o deslocamento do povoado para uma nova região. A mediação é do Ministério Público e a assessoria do CDVDH e da Paróquia São João Batista. Sobre a situação ainda ambígua das siderúrgicas na região de Carajás, Monteiro (2004:1) dispara que:
Em que pese a produção siderúrgica ainda hoje estar presente no discurso de diversos e amplos segmentos sociais como elemento de modernização regional, ela cumpre um papel distinto, conquanto amplia a pressão sobre a mata primária, caotiza diversos espaços urbanos; reforça segmentos sociais que articulam a sua lógica produtiva à exploração predatória dos recursos naturais, como os madeireiros, ou com grupos sociais para os quais a grande propriedade fundiária é fonte de poder social, como os fazendeiros; amplia as tensões no campo e os conflitos fundiários; e intensifica os esquemas de submissão da força de trabalho à baixa remuneração e a condições de trabalho insalubres.

cessárias aproximadamente 450 mil toneladas/ano de ferro gusa em estado líquido, transportado por caminhões especiais que saem da Gusa Nordeste e das outras siderúrgicas de Açailândia. Para a produção do aço precisará esquentar ulteriormente o ferro gusa. O processo acontecerá inteiramente (ao dizer dos empresários) pela queima de oxigênio líquido, material muito caro que deverá vir do sul do País. Para o esfriamento do processo de produção, serão necessários 200 m³ de água por hora. O Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) da aciaria garante que toda essa água será mantida em constante circulação interna e bombeada através de poços artesianos. A construção da usina deve durar três anos e a estimativa de geração de emprego gira em torno de 1.000 postos. Existe a promessa de geração de mais 1.000 empregos entre diretos e indiretos, no ápice da produção. Os movimentos populares acolhem com satisfação a aciaria, pois ela traz o tão esperado início da verticalização da produção no contexto local, permitindo a valorização do trabalho maranhense e dos recursos de nosso subsolo. Porém existem inúmeras dúvidas e inquietudes. Uma das maiores recai sobre os investimentos para a construção desse novo empreendimento. O Banco do Nordeste irá financiar 300 milhões de reais somente na primeira fase. Por que, perguntam os movimentos numa carta aberta à cidade - tão grande investimento sem ter resolvido ainda os graves problemas de poluição e impacto que o resto das atividades está gerando há vinte anos? Mais uma vez a lógica do lucro incondicional parece prevalecer acima de qualquer outro direito.

c. A aciaria – um capítulo recente
Em maio de 2008 o Estado do Maranhão e a Gusa nordeste de Açailândia assinaram um protocolo de intenções para a instalação de uma aciaria na cidade. O novo empreendimento prospecta a produção de 500.000 toneladas anuais de tarugo de aço (Billet), que tem tanto uso industrial doméstico como para exportação. O Billet é o semi acabado utilizado como matéria-prima para a laminação de aços longos (vergalhões, fio máquina, perfis, barras mecânicas etc.). Para produzir a capacidade total, serão ne-

d. Os fornos de Califórnia
Ao lado do assentamento Califórnia, com mais de 1.800 moradores assentados há 13 anos, instalou-se em 2005 o empreendimento da Ferro Gusa Carajás (FGC). A empresa controlada pela Vale se dedica à produção de carvão vegetal destinado a alimentar a siderúrgica da Vale em Marabá. O empreendimento é conhecido como Unidade de Produção de Redutor (UPR), que é o carvão para siderurgia. A Licença de Instalação foi emitida pelo Processo nº. 2334/03, prevendo um pátio de carbonização composto por 64 fornos retangulares e uma

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estimativa de produzir 94 ton/ dia de redutor (carvão vegetal) . Na realidade, foram construídos 72 fornos retangulares e 7 fornos de tamanho menor (fornos a meia laranja), ocupando ao todo uma área de 1.185m². Cada forno retangular tem capacidade para 102m³ de madeira enfornada, ou 83m³ de carvão cada. Cada queimador de gás é planejado por oito fornos, portanto deveriam ter sido implementados 9 queimadores de gases. Na realidade, atualmente existem somente 2 queimadores. O primeiro começou a funcionar em novembro de 2008, o segundo em fevereiro de 2009. Atualmente, ambos estão quebrados e não funcionam. Pode-se concluir, então, que de 2005 até 2009 os moradores do assentamento Califórnia respiraram a fumaça emitida por todos os fornos em funcionamento. Recentemente, a FGC fechou metade dos fornos para diminuir as emissões. Ao dizer da empresa, isso foi devido à preocupação pela poluição. Sabe-se porém que a escolha deve-se à redução de produção de ferro gusa em decorrência da crise mundial. Atualmente funcionam só 4 das 11 unidades que alimentavam a siderúrgica da Vale em Marabá. A perspectiva em médio prazo para a FGC de Marabá é queimar carvão mineral da África. A medição da qualidade do ar nem sempre foi efetiva. No Plano de Gestão da Qualidade, o artigo previa a execução de um programa de avaliação da qualidade do ar e de acompanhamento da operação do queimador. Con-

forme o Relatório de Controle Ambiental, para a avaliação da qualidade do ar deveria ser monitorado o parâmetro ‘partículas totais em suspensão’ (PTS). Para isso, deveria ser instalado um equipamento do tipo Hi-Vol a jusante da área do empreendimento, com relação à direção predominante dos ventos. Também nesse caso, foi somente em 2008 que dois medidores foram instalados. Até outubro do mesmo ano, a SEMA nunca 29

recebeu um relatório oficial sobre a poluição do ar; só chegaram alguns relatórios por e-mail. A própria Secretaria Estadual de Meio Ambiente não quis levar até o fim a ação contra a FGC. Apenas notificou a firma novamente em outubro de 2008, mas nunca recebeu resposta a essa notificação, nem assumiu nenhuma providência por isso. Há exemplos em profusão. Os assentados entregaram um laudo médico à SEMA dando conta

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de vários problemas respiratórios, de pele e de vista em função da fumaça dos fornos, especialmente para com idosos, bebês e crianças. No decorrer dos três anos de difícil convivência com a carvoaria, a comunidade de Califórnia por diversas vezes encaminhou denúncias ao Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), ao Ministério Público Estadual e Federal, à Vigilância Ambiental, às Secretarias Municipais de Saúde e de Meio Ambiente. Representantes do assentamento estiveram várias vezes em audiências com representantes destes órgãos cobrando providencias, chegando inclusive a convidar estes para duas assembléias no assentamento. Ninguém da representação pública compareceu. O povo de Califórnia é conhecido pelo histórico de luta. Em março de 2008 os assentados, com o apoio do MST, promoveram um ato político de ocupação simbólica da fazenda Monte Líbano e de interrupção temporária da BR 010. O ato tornou-se notícia nacional e facilitou a mobilização dos órgãos públicos e da fiscalização da área. Infelizmente, ainda hoje em muitos casos o povo consegue se fazer escutar pelo governo somente engrossando a voz.

e. A Suzano e o deserto verde
No meio de todos esses conflitos sócio-ambientais, o que os movimentos temiam se fez concreto: a Suzano chegou. A empresa logo alcançou certa fama na região. “No período de 05 a 31 de
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agosto a fábrica paulista Suzano Celulose estará consolidando o seu programa de retirada compulsória de comunidades tradicionais da região dos cocais e do Tocantins. (…) O complexo de plantação do eucalipto envolve, só na região dos cocais, 21 cidades e atinge centenas de povoados, comunidades tradicionais: quilombolas e agricultores familiares, atingindo principalmente seu modo de viver, produzir e reproduzir-se socialmente.” . A própria empresa utilizou a expressão “bota-fora” em seu termo de referencia (Projeto SPC 1008). Um dos principais motivos que leva a Suzano a instalar-se no Maranhão é o grande volume de água necessário para atender às demandas de produção de celulose. O medo dos moradores da região é o que vai acontecer de suas reservas de água e da esperança cada vez mais fraca de reflorestamento com espécies nativas. As florestas vendidas à Suzano eram anteriormente da Vale. Somam 84.500 hectares de terra, sendo 34.500 hectares plantados com eucaliptos. A implantação de mais esta indústria de celulose tem como objetivo elevar a capacidade de produção de celulose e papel, das atuais 4,3 milhões de toneladas por ano até 7,2 milhões de toneladas. Os investimentos da Suzano podem chegar a US$ 700 milhões entre 2008 e 2015 na formação florestal no Maranhão . São Luiz do Paraitinga (SP), Nazária (PI), Santa Quitéria (MA), Eunápolis (BA): a lista de municípios e territórios em conflito com a Suzano é grande. Inquieta imaginar que talvez mais esse desafio re30

caia sobre Açailândia. Uma terra marcada por uma distorcida visão de desenvolvimento. As respostas organizadas do povo Apesar dos conflitos, ou talvez exatamente em função deles, o povo de Açailândia, as comunidades e movimentos não desanimam e tentam se organizar. Um primeiro sinal disso é a resistência teimosa dos moradores de Piquiá de Baixo e de Califórnia. Humildes e iniciantes na luta, mas corajosos e até agora muito unidos. A própria arte se coloca a serviço dessa resistência e tenta moldar junto ao povo um sonho concreto de libertação. Os jovens do grupo Juventudes pela Paz (Jupaz) montaram uma peça a partir das histórias e dos contos dos moradores de Piquiá . Ver-se representados no corpo e nas vozes de outros redobra as energias e esperanças dos lutadores daquele bairro, e multiplica na consciência de outros uma luta que deve ser de todos e todas. Um outro eixo de denúncia e proposta articulada de alternativas é a campanha “Justiça nos Trilhos”, que tem em Açailândia uma de suas bases e pontos de divulgação. A campanha visa desmascarar a violência da companhia Vale e seus impactos sócio-ambientais. Além disso, propõe mecanismos concretos de repartição do lucro ao longo dos trilhos e articula as vítimas da multinacional em nível de Brasil e exterior. Nasceu no final de 2007 sob a coordenação de Missionários Combonianos,

Fórum Carajás, Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, Fórum Reage São Luís, Cáritas Maranhão, Sindicato dos Ferroviários e CUT. A campanha alcançou em breve tempo os atingidos pela Vale em MA, MG, PA, RJ, Peru, Argentina, Chile, Equador, Moçambique e Canadá . Ainda em Açailândia, em tempos de crise e desemprego, uma aliança entre movimentos sociais permitiu a criação do “Movimento Popular em favor da Justiça e da Dignidade Humana”. Trata-se de uma rede de entidades, associações de moradores, sindicatos, comunidades cristãs em busca de encaminhamentos locais para minimizar o impacto da crise e buscar alternativas e enriquecimentos para o modelo produtivo de Açailândia, marcado pela fragilidade e pouca diversificação. Esse movimento organizou em maio de 2009 um grande seminário sobre crise e desemprego. Um marco importante no município para provocar uma reflexão comum sobre temas tão delicados. Último sinal de esperança e de organização popular é a Rede de Cidadania. Ela existe há dois

anos e junta lideranças populares do município., onde a construção da cidadania, do controle social e de todos os mecanismos de participação acontecem de forma interativa, mediante a pesquisa coletiva e a troca de saberes. Será desse curso e a partir dessa rede que Açailândia terá novos conselheiros de direito, mais preparados/as e fortalecidos pelas alianças transversais que deverão se tecer nos próximos meses. “Que desenvolvimento é esse?” - perguntava o povo de Piquiá de Baixo com seus cartazes na manifestação em frente ao Fórum da Comarca de Açailândia. É a pergunta que ressoa ao longo de todo esse texto: qual é o mundo que sonhamos e que gostaríamos de entregar para nossos filhos? E os moradores, filhos primogênitos desse jovem município de somente 26 anos, que mundo receberam no começo da cidade? O que sobrou de tanta riqueza natural? Em que direção queremos trilhar o tal de ‘progresso’? Voltará o município a ser a “cidade do açaí”, à sombra dos saudosos piquiás?

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foto: Nils Vanderbolt

Referências
IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, 2006 www.vienairon.com.br – Exportação anual de 500.000 ton de ferro gusa, com um preço antes da crise de 750 $ por tonelada

CARNEIRO, M e RAMALHO, R. A crise econômica mundial e seu impacto sobre as empresas de ferro-gusa: algumas informações sobre o desempenho recente das empresas guseiras e o desemprego no município de Açailândia. 2009.

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Itupanema em meio ao projeto Albras – Alunorte: o desencanto do mundo
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Gilvandro Ferreira Santa Brígida

literatura sobre os grandes projetos na Amazônia sinaliza sobre os passivos sociais e ambientais. Os mais comuns são a pressão sobre os recursos naturais, o deslocamento de populações consideradas tradicionais, o inchaço das cidades, a elevação do preço da terra e de aluguéis. Assim o foi a experiência na comunidade conhecida como Itupanema, no município de Barcarena, norte do Pará. O município abriga as principais indústrias da cadeia produtiva do alumínio do Brasil. O presente artigo tenta fazer o registro sobre o processo da presença das empresas Albrás e Alunorte, vinculadas a Vale (a Vale Transferiu em Maio/2010 todas as suas participações na Albrás, Alunorte e da Companhia de Alumina do Pará-CPA para a Norsk Hydro) e a desagregação social e ambiental em Itupanema, numa peleja marcada pela desigualdade entre as partes envolvidas. O trabalho coletivo na terra é uma prática social desenvolvida secularmente pelos agricultores/ribeirinhos e extrativistas da Amazônia. Entre as particularidades tem-se a distribuição de tarefas por gêneros ou por faixa etária. A reprodução das práticas é produto de socialização no meio familiar. A relação de colaboração permite que os grupos familiares enfrentem as adversidades.

A

1 Sou bacharel e licenciado pleno em Ciências Sociais, com ênfase em Sociologia. UFPA.

As famílias praticam a agricultura de subsistência, na qual o agricultor procura assegurar para sua família o alimento necessário. E só depois comercializa o que sobrou. Esse processo de comércio era realizado de vez em quando através da “marretagem ”.2 O processo de urbanização no município coaduna-se com a chegada do projeto ALBRAS/ALUNORTE, na década de 1980. As empresas integram o portfólio da Vale, hoje Norsk Hydro. As radicais transformações consistiram na expulsão de grupos familiares de seus sítios, na desagregação das famílias camponesas, onde a terra perde a condição de fornecedor de meio de subsistência, para transformar-se em mercadoria. Tudo começou antes. Lá nos anos 1970. A pressão sobre a terra e as riquezas vegetais e minerais, através dos grandes projetos, agrava os embates sociais e a agressão ao meio ambiente na região amazônica. Os grandes projetos constituem-se em principal instrumento da política desenvolvimentista concebida pelo governo militar de 1964. Tal política ressalta o potencial dos recursos naturais da região, em particular as riquezas minerais e a hidrográfica. Aos olhos dos estrategistas, a Amazônia não passava de vazio demográfico. Indígenas, ribeirinhos, quilombolas e tantas outras variações do campesinato local nunca existiam na cabeça dos militares. Os problemas ocasionados por esse modelo de desenvolvimento só serão medidos nos anos posteriores, a partir do deslocamento das famílias de suas terras e convívio com questões até então totalmente desconhecidas. A luta pela terra: grandes corporações versos comunidades tradicionais Nos anos 1980 instala-se em Barcarena o complexo de alumínio ALBRAS/ ALUNORTE, parte do programa grande Carajás, provocando a desapropriação de aproximadamente quinhentas famílias. O modelo de projeto instalado em Barcarena não internaliza riqueza no local. Assim explicam os tratados das academias. A Associação dos Desapropriados de Barcarena nasce anos mais tarde. Emerge pela necessi-

dade de fazer frente ao processo de expansão e de desenvolvimento econômico das empresas e contra a pauperização imposta aos antigos moradores do espaço onde a fábrica se instalou. O problema da desapropriação volta à cena nos anos 1990, com a instalação das empresas do projeto Caulim – Pará Pigmentos S/A e Rio Capim Caulim S/A, também vinculada ao grupo Vale. Em 1993, a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Pará (CDI) desapropriou famílias que moravam na localidade de Ponta da Montanha. Os moradores do local, situado em frente ao rio Pará, foram transferidos para a área do Curuperé, situada nos limites da Vila do Conde3. A comunidade da Montanha cedeu lugar para a construção do terminal portuário de exportação do caulim. Esta ocupação causou profundas transformações na estrutura produtiva, e no modo de vida da população residente nas áreas atingidas. E principalmente quando estas mudanças não cessaram por completo, pois a cada dia surgem novos desafios. Entre eles como as “comunidades” atingidas devem criar novas estratégias de organização e de sobrevivência, diante da força do capital que se implanta na Amazônia, em particular em Bacarena. Barcarena registra novas tensões entre moradores tradicionais e empresas do grande capital em fase de instalação no município, como a refinaria chamada Companhia de Alumina do Pará (CAP)4. O projeto adota um processo de expulsão mais sofisticado e cruel do que há trinta anos. A instalação da CAP tem derrubado casas dos moradores locais. Assim ficam impedidos de voltar. A expulsão dos moradores assemelha-se a um regime de exceção. Há resistências, ainda que débeis. Mas, o isolamento e as técnicas de terror promovidas pela empresa acabam por fazer com que os moradores deixem suas casas em troca de indenizações miseráveis, que não garantem a compra de outro imóvel com as mesmas características do anterior. O que assusta neste modelo é que tudo é feito com a conivência do estado, ou seja, institucionalizado. Como resultado deste modelo tem-se a pauperização crescente do trabalhador rural, embora havendo algumas exceções.
3 Considerada conglomerado urbano de Barcarena, onde outras famílias de antigos posseiros já habitavam. 4 O projeto transferido da Vale para a empresa norueguesa Norsk Hidro (20%) e deve produzir 1,9 milhão de tonelada/ano na primeira fase e 7,4 toneladas no apogeu da produção. U$$2,2 bilhões devem ser investidos. A previsão é a produção se inicie em 2011.

2 O processo consistia na mobilização de moradores para otimizar o transporte de mercadorias até Belém.

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O Município de Barcarena 30 km separam o município de Barcarena de Belém, em linha reta. Na verdade, encontra-se separado de Belém pelo rio Pará e pela ilha das Onças, sem os quais poderia ser visualizado a partir de Belém. O município está estruturado para efeito administrativo com a seguinte configuração geopolítica: Barcarena, sede e Distrito de Murucupi – (Vila dos Cabanos, Vila do Conde, Vila de São Francisco, Vila de Itupanema, Vila Nova e Vila do Laranjal). Segundo ROCQUE (1994), reza a tradição, que o nome “Barcarena” se originou do fato de ter existido, naquela localidade, quando ainda era uma Missão Gibirié, uma barca muito grande denominada Arena. Apesar da deterioração da barca, as pessoas continuavam chamando aquela área de “Barcaarena”; simplificando, então, para a denominação “Barcarena”. Esta denominação foi usada para batizar o local que ainda existia em uma enseada pedregosa, coberta por uma grande casa chamada “Casa das Canoas”, do lado esquerdo da Matriz. Sua elevação à categoria de “Vila” aconteceu mediante a promulgação da Lei Estadual nº 94, de 10 de maio de 1897, ocorrendo sua instalação em 02 de janeiro de 1898, conforme determinado no Decreto nº 513, de 13 de dezembro de 1897. Somente em 1956 foi reconhecida sua composição territorial, formada por dois distritos: Barcarena (sede) e Murucupi, permanecendo esta configuração territorial até os dias de hoje. VILA DE ITUPANEMA E A ORGANIZAÇÃO SOCIAL TRADICIONAL A Vila de Itupanema está situada na região Noroeste do município de Barcarena, à margem direita do rio Pará. A Vila corresponde a um pequeno núcleo urbano, servindo de área residencial de população ocupada em atividades agrícolas, pesca e pequeno comércio. Uma pequena parcela destes moradores trabalha nas empresas prestadoras de serviços para a ALBRAS – Alumínio Brasileiro S/A, e a ALUNORTE – Alumina do norte do Brasil entre outras. Itupanema constitui uma antiga ocupação, como a sede de Barcarena e a Vila do Conde. Dife35

rindo das ocupações mais recentes, que surgiram em função do projeto ALBRAS – ALUNORTE, como: Laranjal, bairro Pioneiro bairro Novo e Romeu Teixeira (CHAGAS, 2002). Entretanto, não se pode deixar de frisar que a expansão de Vila de Itupanema, deu-se em função da implantação do projeto Albrás e Alunorte. A Vila de Itupanema tinha seus mais antigos registros de moradores vinculados à Freguesia de Beja, ou São Miguel de Beja, não se sabe ao certo. Segundo os moradores mais antigos a denominação “Itupanema” deriva do nome de uma praia, cuja enseada chamava-se Panema. Na frente dessa praia havia uma grande quantidade de pedras, que os índios e os moradores chamavam de “Itu” (que em Tupi Guarani significa grande). Na época os pescadores e todos os navegantes que seguiam rumo a Belém, paravam na praia de Panema, usando-a como abrigo, a fim de se protegerem dos temporais e marés fortes, além de reduzir o tempo e agilizar a viagem. Os navegantes acostumaram-se a dizer: “vamos parar aqui na praia de Itu-panema”, a partir daí denominou-se a vila surgida posteriormente, revela Odineide Valente, líder comunitária. A origem de Itupanema, em si, não seria relevante, não fosse à insistência do mito de origem, a demonstrar a existência de uma tradição, que tem o papel de legitimadora de direito a terra, em oposição aos invasores recém-chegados. A partir da década de 80 a população da Vila de Itupanema cresceu, pois, à vila original foram agregados dois outros núcleos: Vila Nova e Vila União. A primeira criada para abrigar as pessoas que residiam nas terras onde foram instaladas as empresas Albrás e Alunorte. E posteriormente por trabalhadores atraídos pelo projeto e, embora não conseguindo se inserir neste, permaneceram nas proximidades das fábricas. O bairro de Vila Nova surgiu em 1982, quando a ALBRAS reservou uma grande área para transferir a população que residia nos sítios onde estão localizadas as instalações das fábricas e a zona portuária. Assim como a área do núcleo urbano, onde foram construídas as casas para os trabalhadores da Albrás e Alunorte. A partir daí o bairro vem tendo um crescimento totalmente desordenado, sem neFórum Carajás outubro de 2010

nhum planejamento por parte do poder público. O Centro Comunitário de Vila Nova ficou com a responsabilidade de organizar o loteamento das pessoas que chegavam ao lugar. O bairro da Vila União é o mais extenso e o mais densamente ocupado. Na mesma proporção estão os problemas, em virtude do seu acelerado crescimento, não há saneamento básico e infra-estrutura urbana. Este bairro se tornou uma grande área de ocupação, que foi muito combatida pelas empresas Albrás e a Companhia de Desenvolvimento de Barcarena (Codebar), que tentou de todas as maneiras evitar a ocupação, usando inclusive a força policial. Vários líderes comunitários foram presos durante a ocupação, mas as empresas não conseguiram evitar o assentamento. O que vemos hoje na Vila União é o retrato do descaso de uma administração avessa aos interesses da população. A Vila de Itupanema, durante muito tempo, teve um povoamento muito lento, constituindo-se, portanto, em um pequeno vilarejo de sitiantes rurais. Na década de 80, seu crescimento era ainda relativamente baixo. O aumento da população, assim como a expansão territorial acontece a partir do início da década de 90. Momento em que a vila recebe muitas pessoas excluídas do Projeto ALBRAS, e também trabalhadores oriundos da construção da Alunorte, que ajudam a fundar inúmeras áreas periféricas em Itupanema. Após o assentamento das pessoas interessadas, e com pouco tempo novas ocupações voltaram a acontecer. Foram impulsionadas pela migração de mineiros, maranhenses, gaúchos, entre outros. Para os antigos moradores de Itupanema é clara a aversão aos trabalhadores oriundos de outros estados, tratados como “os de fora”. Eles são responsabilizados pelos problemas provocados no lugar após a implantação das Empresas. Entre eles: roubo, prostituição, formação de gangues, etc, assemelhando-se à situação relatada por Norbert Elias (op. cit.). Os movimentos migratórios em Itupanema refletem, como em toda a Amazônia, o que ocorre no seu espaço, como reflexo do processo de ocupação territorial e de mobilização da força de trabalho. Esta força de trabalho muitas vezes sem a qualificação exigida para trabalhar diretamente nas empresas, acaba ficando em áreas próximas ao projeto.
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E constituem-se em bolsões de reserva de mão-deobra barata e disponível para qualquer serviço pouco qualificado. BECKER, B. (1991) destaca o papel desta população flutuante, no sentido de viabilizar as grandes obras, os grandes projetos. Entretanto, há outro lado da questão a ser ressaltada. Esta população, que é atraída para área deste tipo, promove, também, um problema de natureza social pelo fato de não ser assimilada, em sua maior parte, nestes empreendimentos. Na medida, também, em que as atividades econômicas praticadas tradicionalmente nesta área (extrativismo vegetal, pesca, pequena agricultura) estão em crise, não podendo absorver outras pessoas. Boa parte dos moradores mais antigos de Vila de Itupanema possuía sítios nas áreas ocupadas pela ALBRAS e pela ALUNORTE. A CODEBAR e a Companhia de Desenvolvimento Industrial (CDI) desapropriaram os terrenos localizados à beira do rio Pará. Nestes sítios eles trabalhavam nas roças, nas quais plantavam mandioca, milho, arroz, feijão, melancia, amendoim, como também pescavam, caçavam e coletavam muitas frutas. Entre elas: pupunha, bacuri, uxi, cupuaçu, biriba, piquiá, entre outros, e ainda extraíam carvão. Estes moradores se referem com muito pesar a estas perdas, pois não perderam simplesmente seus sítios, mas, como dizem na região, formas de sobrevivência. Pois de lá tinham como adquirir alimentos básicos importantes, sem estas alternativas, passaram a comprar estes produtos ou consumi-los em menor quantidade, e até deixar de consumir os de menor importância na dieta alimentar. Tem-se assim mais uma questão, a segurança alimentar. Os moradores destas áreas ocupadas pela ALBRAS – ALUNORTE moveram uma ação na justiça através da Associação em Defesa de Barcarena (ADEBAR) exigindo indenizações pelos seus sítios, já que apenas uma parte da população recebeu indenização. Esta ação se estende há quase trinta anos, sem resultado favorável para os moradores. Segundo alguns dos antigos moradores, após a instalação da ALBRAS e da ALUNORTE; ocorreu uma diminuição significativa na quantidade e tamanho dos peixes, que costumavam pescar nos “pesqueiros” (locais onde os peixes se concentra-

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vam), e que também, são encontrados, com freqüência, peixes mortos na orla, mais próximo ao terreno daquelas empresas. Entre os anos de 2003 a 2008 aconteceram vários acidentes ambientais nas praias de Itupanema, com o registro da mortandade de peixes. Fato registrado nos jornais de grande circulação do Estado, e também através de informações do Sindicato dos Químicos de Barcarena. A entidade representa os trabalhadores da Alunorte, empresa responsável por algumas das contaminações. O processo de redefinição do território no município de Barcarena tem inúmeras implicações, a exemplo do que ocorreu para a construção do núcleo urbano ou Vila dos Cabanos. A expulsão das populações tradicionais para a implantação do processo industrial inviabilizou a agricultura familiar. A pequena dimensão dos lotes na Vila Nova, local de reassentamento dos moradores, onde atualmente se encontra a área do projeto Albrás/Alunorte é revelador sobre assunto. As áreas foram entregues totalmente desmatadas, sem as plantas e árvores frutíferas da região e o solo impróprio para o plantio. Atualmente apenas uma pequena parcela da população de Itupanema se dedica às atividades agrícolas, embora morando na área urbana. Exercem um misto de atividades, pelo que pode ser observado, trabalhando em pequenas roças e também praticando atividade de natureza urbana, como pequenas vendas, e fazendo “bicos” diversos como estratégia de sobrevivência. Isso mostra o quanto é importante o apego a terra. Mesmo com todas as intervenções praticadas, a pequena agricultura, embora de forma restrita ainda resiste. A pesca artesanal também é considerada uma atividade fundamental para a sobrevivência da população local. Existem poucos pescadores, em torno de trinta famílias que resistem nesta atividade. Como já citado, a quantidade de peixe sofreu redução em função das contaminações e o constante trânsito de navios que trazem e levam matéria prima para as empresas. Na visão capitalista trazida junto com as empresas, vida rural é parte do passado, e por isso há uma necessidade urgente em urbanizar Barcarena. A população local, no planejamento dos grandes projetos, aparece como um entrave, como um obstáculo 37

para o desenvolvimento da região, que deve ser removido em nome do progresso. Hoje na Vila de Itupanema o passado é representado pela igreja católica que esta localizada na Praça Matriz, a escola Presidente Dutra que data de 1950 e o cemitério da cidade. Fora isso, tudo mudou, o lugar calmo e bucólico está presente apenas na memória dos antigos moradores. A realidade de Itupanema é apresentada de forma mais crua pelos filhos dos agricultores, que no momento das desapropriações eram crianças. Hoje, adultos, não encontram terra suficiente para plantar. Por isso não podem ser agricultores, nem tão pouco pescadores, já que a pesca ficou inviável com a criação do Porto da Vila do Conde e as contaminações ambientais ocorridas no rio Pará. Por outro lado, também não tiveram a oportunidade de estudar para adquirir uma profissão. A geração de jovens de hoje não possui, a princípio, as condições adequadas para pleitear um emprego na região. Restou para estas duas gerações o direito de assistir ao crescimento espantoso das empresas ALBRAS/ALUNORTE e perceber o quanto o sonho de trabalhar ficou distante. Durante estes longos anos de projeto não foi apresentado qualquer projeto de inclusão para os jovens de Itupanema. Percebemos o crescimento da violência, prostituição infantil, o alcoolismo e a mendicância no município, são problemas tipicamente urbanos. Do outro lado, as empresas da Vale apresentam os melhores índices de crescimento econômico de sua história, principalmente as apresentadas neste artigo. Hoje as empresas da área de alumínio são as “meninas de ouro” da Vale, mas as comunidades, em nenhum momento são lembradas. As empresas esquecem a divida social, que em três décadas de projeto em solo Barcarenense se amplifica. Ao longo dos anos de exploração de Alumínio e Alumina na região, o que tem ficado é o rejeito enterrado na terra que alimentava os filhos e filhas de Itupanema. Memória e Desencantamento A história oral pode fornecer elementos difíceis de serem encontrados em documentos ou livros. Pode fornecer informações novas, bem como a chave explicativa de fatos. Apesar dos depoimentos que envolvem a memória, se constituírem em história construída a posteriori, contém marcos temporais
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pessoais e coletivos que permitem contar a história de outra maneira. Nos relatos, encontramos certa idealização do passado e uma construção dramática do passado mais recente, no entanto, trabalhar os depoimentos relacionalmente (BOURDIEU, 1989) permite evitar a naturalização dos depoimentos. Memória de Itupanema - a linha da história através do olhar de um pescador O depoimento do pescador aposentado Eurico, que mora na região desde 1928, ajuda a elucidar o processo de redefinição da realidade de Itupanema. O pescador rememora que em 1940 o número de famílias era pequeno, a iluminação garantida através do querosene, as casas cobertas de palha e o lazer vinha de bandas do vizinho município de Abaetetuba. Aqui o pescado era farto, não tinha bandidagem. Cada um tinha a sua roça, seu forno de farinha, lembra Eurico. Conforme o pescador, o quadro começou a ser alterado a partir da década de 1950. E se agravou com a instalação das empresas da Vale. Sobre a redução do peixe pondera que: “a Alunorte despeja aquele licor dela. Com essa soda cáustica, morre muito peixe. Morreu muito. Hoje tem gente aqui que passa até fome. Tem apenas alguns pés de manga”. As transformações se aceleram em 1985, sublinha o pescador. Além do processo de reconfiguração do território da região, Eurico salienta o papel coercitivo da empresa. Segundo Eurico, a Albras tem mandado até prender quem entra em áreas controladas pela empresa e proibir a produção de carvão: Gilvandro - Por que as empresas da Vale proibiram de fazer carvão? Eurico - Por que é tudo dela isso aí. Enganaram o pessoal que está até para Brasília. São 580 famílias que estão na justiça O dinheiro está lá nós já demos 50 cruzeiros e mais 50 para o advogado, está correndo há mais de dez anos. E nada foi resolvido. Teve gente que pegou 20 cruzeiros de indenização, o que dá isso? Gilvandro - Mas o que foi esses 20 cruzeiros? Para que? Eurico - Para pagar a casa e o terreno. Nós lá em cima trabalhávamos com o japonês, Tako Yamada. Ele disse: Eu dou 800. O terreno é grande. Mede
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100 por 200 metros que eu vejo para ti. Foi ai que eles foram na casa do Dr. César... Gilvandro - César Bentes? Eurico - Sim, eu fui também. Olha, viram os pés de planta, os seis fornos, duas tarefas de roça, uma casa de farinha e a casa. Ele disse : vamos pagar só o forno, com a casa da farinha e as roças. O sítio com as casas fica pra depois. Vamos dar 20. Eu disse: não, 60. Aí fiquei com 60. Fiquei com dinheiro. Eles primeiro davam cheque. Aí peguei os 60, 20 e depois 40. Aí não pagaram. Fui chamado em Barcarena. Não veio o da casa, só o do forno com a roça e a casa de farinha. Tem um dinheiro para a gente lá. Mas nunca mais veio. Gilvandro - Vocês entraram na justiça? Eurico - Foi o advogado que botou, mas está lá em Brasília... O padre está no meio, também. Gilvandro - Qual padre? Eurico - Eu me esqueço o nome do padre. Acho que é o padre Primo. Gilvandro - Na época ele estava aqui em Itupanema? Eurico - Sim. Na época ele estava aqui. Gilvandro - A igreja tinha terra, também? Eurico - Ele estava a favor da gente. Gilvandro - Ah, ele ajudou. Gilvandro - Como foi essa organização de vocês para entrar na justiça contra a Albras? Eurico - Eles vieram de Belém, o meu concunhado tinha também um terreno, deu cincoenta, encheu o centro paroquial lá de Barcarena. Eles falaram isso custa muito a justiça talvez uns três ou quatro anos, já tem mais de 20 anos e nada. Este dinheiro esta lá em Brasília. Gilvandro - Quantas famílias na sua época foram desapropriada? Eurico - Quinhentas e oitenta, agora já botaram oitocentas, novecentas, mas é mentira é somente quinhentas e oitenta famílias. Gilvandro - Quinhentas e oitenta famílias foram desapropriadas aqui em Itupanema? Eurico - Praticamente sem nada, pois deram uma besteirazinha, compraram terreno aí na Vila Nova onde estão morando, outros estão lá pro CDI, lá pra colônia. Gilvandro - A Vila Nova eram pessoas que moravam lá no núcleo urbano?

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Eurico - Não eram do Murucupi, do centro que chamavam assim. Gilvandro - Aonde é a Albras e a Alunorte hoje? Eurico - Não na Albrás e Alunorte era o pessoal do Conde, era muita gente do Conde. Era a turma que morava aqui pra trás. Gilvandro - Onde foram desapropriadas as terras? Eurico – Foi. Gilvandro - E ai formou a Vila Nova? Eurico - Formou a Vila Nova, e aqui pra trás foi a Codebar que desapropriou. Depois invadiram. Gilvandro - O Jardim cabano era terras de vocês? Eurico - É todinho invadido. Gilvandro - Eram terras dos moradores? Eurico - Pra cá os Valentes, pra lá era de outros moradores. Gilvandro - Itupanema basicamente era da família Valente, ou tinham outras famílias? Eurico - Aqui atrás tinha a família Valente, ali em baixo os Cruz. Não era muita gente. Era bem dizer mais ou menos uns quinze. Com os filhos era mais. Gilvandro - Não se faz mais farinha, carvão, não se tem mais terra? Eurico - Tem, mas eles tomaram. Gilvandro - Tem terra, mas não é mais dos moradores? Eurico - Ficaram com as terras. Nós tivemos duas audiências. Uma lá na câmara que foi o pessoal da Alunorte, deixa estar por ali falou e tal. Ai do Murucupí ganharam. Estão ganhando 15 cestas básicas. Gilvandro - Da época da contaminação? Eurico - São agora os daqui de fora não, veio o pessoal da Alunorte ai. Veio pessoal da ação social, as duas secretárias. A Michelle, que é a presidente ficou de vir mais não veio, pois vinha o presidente da colônia. Gilvandro - Mais pra falar com os pescadores? Eurico - É... que elas ainda disseram: cesta básica era bom. Amanhã a gente vem aqui pra conversar. Eu disse não, é o seguinte: por que isso aí, vai ser todo o tempo, vai chegar um tempo da gente pisar na praia e encher o pé todo de piche. Vai ter mais fábrica aqui, já estão fazendo outra pra bando de Conde de novo. Gilvandro - Como é a situação dos pescadores hoje?

Eurico - Ah, é muito difícil com a Alunorte. Disse: olha pra Alunorte e a Albrás dez ou quinze barcos com redes é o mesmo que dar um doce pra uma criança. Não é nada. - eu vou lhe explicar logo aqui na Albrás e na Alunorte, uma barcada desses com alumínio, paga tudo e ainda sobra. Dá muito resultado isso. Gilvandro - Quem falou foi o Funcionário da Alunorte? Eurico - Sim, ele disse vamos ver como é. Ficaram de vir e não vieram mais. Gilvandro - Essa reunião foi com os pescadores? Eurico - Foi só com os pescadores. Gilvandro - Existe colônia dos pescadores em Itupanema? Eurico - Não, tem em Barcarena. Na sede tinha um rapaz aqui. Mas, só fazia cadastrar os pescadores. Gilvandro - Quem é o presidente da comunidade? Eurico - Era o seu Morais e o Pancho. Agora eles estão fora porque vai ter eleição que é pra ver quem é fica de novo. Gilvandro - Existe outro centro comunitário? Eurico - Tem o outro centro da Vila Nova. Gilvandro - E como é a relação de Itupanema com os moradores de Vila Nova? Como é que vocês se entendem? Eurico - Isso aí é tudo Itupanema. Lá só botaram o apelido de Vila Nova, mas é tudo Itupanema. Tem uma igreja lá. Uma festa do livramento acontece em maio. A nossa é em setembro, Nossa Senhora das Dores é a padroeira. Gilvandro - E a Vila União? Eurico - Vila União é pra trás da invasão Gilvandro - Invasão? Eurico - É invasão. O Moraes falou se ganhasse a eleição, ele ia fazer um troço muito bacana. Ele me disse: olhe seu Eurico eu vou fazer minha prestação de conta aqui então eu falei: vamos ver se ele vai fazer mesmo. Entra prefeito sai prefeito aqui não faz nadinha. O Laurival Cunha só botou água. Gilvandro - As Empresas desenvolvem algum trabalho na comunidade? Eurico - Se fez alguma coisa foi a Albrás. Gilvandro - O que ela fez? Eurico - Há... isso aqui, né? Gilvandro - Bloquete? Eurico - Bloquete. Ajeitou a praça. Em Vila Nova
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fez uma, como é que chama essa coisa de bater bola? Gilvandro - Quadra. Eurico - E a Igreja lá que eles ajudaram a forrar o telhado ficou bonito. Nós não temos ajuda de nada, o prefeito não ajuda em nada. Gilvandro - O senhor passou toda estas mudanças depois que vieram as empresas, a vida aqui do povo de Itupenema, como ficou? Eurico - Em parte piorou. O pessoal daqui não tem trabalho. Quando aparece ele pedem dois, três anos de experiência. Daqui não tem quatro pessoas na Albrás. Gilvandro - Aqui de Itupanema? Eurico - Da Vila Nova parece que tem dois. Daqui agora não tem nenhum. Gilvandro - Tem muito jovem aqui na idade de trabalhar? Eurico - Tem. O que não tem é emprego. Gilvandro - Não tem emprego? Eurico - Se você vai numa firma atrás de emprego, eles mandam para o Serviço Nacional de Emprego (SINE). Lá eles distribuem senhas. E mandam voltar no outro dia. Lá no SINE eles distribuem sopa para as pessoas desempregadas. Tem gente que vai só pra beber aquela sopa e volta. Gilvandro - Há muito desemprego aqui em Itupanema? Eurico - Muito desemprego. Principalmente o pessoal que mora na beirada que vive da pesca. O prefeito podia nos ajudar. Gilvandro - Como seu Eurico? Eurico - Assim, com uma cesta básica para as famílias. Eu não. Eu e a minha mulher já estamos aposentados pela pesca. Hoje tem gente passando fome aqui. Gilvandro - Quantos pescadores existem ainda aqui em Itupanema? Eurico - Quinze. Gilvandro - Quinze pescadores ou quinze famílias? Eurico - Só quinze pessoas. Gilvandro - Só quinze que pescam, e os outros? Eurico - Temos pouco pescador aqui. Gilvandro - Mais antigamente tinha muito pescador? Eurico - Tinha um bocado de pescador. Uns já morFórum Carajás outubro de 2010

reram, outros já trabalham em outro serviço. Gilvandro - Trabalham onde? Eurico - Fazem bico por aí e vão vivendo a vida. Gilvandro - Bico? Eurico - Trabalho de carpinteiro e pedreiro. Não tem emprego pra eles. Gilvandro - Mudaram de profissão para poder sobreviver? Eurico - Sim. Agora os quinze que tem aí tem que ser da pesca mesmo. Gilvandro - Eles continuam pescando? Eurico - Sim. Gilvandro - Eles possuem barco? Eurico - Não. Só canoa pequena. Gilvandro - Canoa pequena? Eurico - Arranjam normalmente da bóia. Então, esse da Alunorte disse: Olha o barco servia pra vocês. Era bom o barco porque daria pra pegar peixe mar afora. Gilvandro - Pra poder pegar peixe maior, seu Eurico, tem que ter um barco maior? Eurico - Um barco pelo menos para duas toneladas. Gilvandro - Para poder ir mais fora? Eurico - Sim, para poder ir lá pra baixo. Gilvandro - Porque tem que ir mais fora? Eurico - Porque não tem peixe aqui na beira? Gilvandro - Não tem mais peixe? Eurico - É Pra baixo mesmo, daqui mais duas horas de viagem. Lá pra baixo. Pra gente topar com peixe. Aqui perto não tem mais. Tem besteira de peixe. Gilvandro - Antes do projeto Albrás/ Alunorte dava muito peixe aqui em Itupanema? Eurico - Dava muito... deixa eu ver... Faz trinta anos. Foi na década de 70. Tinha dia de 18 geleiras na boca do arrozal. Enchia duas, três, quatro e ia embora. Gilvandro - Pra onde seu Eurico? Eurico - Tudo pra Belém. Gente de lá do Pacoval. Gente de Soure, Vigia, Icoaraci, Mosqueiro, Marudá e até de Bragança. Tudo pescava nesta área. Tinha muito peixe aqui. Gilvandro - Qual o peixe que dava? Eurico - Piramutaba. Muita piramutaba. Dava piraí, peixe pra 80 quilos. E começou tudo. Gilvandro - Começou o que? Eurico - As Empresas... Sumiu o peixe, de uma hora pra outra. Sumiu pouquinho, a piaba não veio mais.

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Gilvandro - Dava muita piaba? Gilvandro - O senhor que em sua Itupanema presenciou fartura depois viu também o sumiço dos peixes. O que o senhor acha que poderia resolver este problema aqui dos pescadores e suas famílias? Senhor falou que as empresas vão permanecer em Barcarena? Eurico - Sim daí pra frente não vai diminuir mais não. Gilvandro - O que o senhor acha que pode resolver a vida desses trabalhadores que estão aí sofrendo por conta da falta do peixe? Eurico - Uma coisa eu disse no dia da reunião que fizeram com a Alunorte. O barco era bom. E depois do barco era fazer um cadastro dos quinze pescadores para receber um salário mínimo pra ajudar as famílias. Gilvandro - Melhoraria a vida deles? Eurico - É. Cadastrava os quinze pescadores que tem aí pra pegar aquele salário mínimo todo mês, se não os barcos. Gilvandro - O senhor acha que os barcos poderiam ser comprados pelas empresas? Eurico - Sim, porque isso cada vez mais vai ficar pior. Gilvandro - O senhor costuma conversar com os outros pescadores ? Eurico - Sim. Gilvandro - Tem acontecido contaminação aqui? Eurico - Teve umas duas vezes no tempo do inverno. Ali tem uma “baciona” , que tem o licor. Vem a bauxita bota soda caustica e aí vasa pro rio. Mata o peixe. É tui, é piabinha, doradinha, pescada, arraia. Deu até na televisão. Gilvandro - Ocorreram outras contaminações? Eurico - A primeira vez foi uma balsa que foi pro fundo. Não sei quantos litros de óleo que derramou no rio. Apareceu também na televisão. Eles deram quatrocentos e poucos mil. A presidente da comunidade foi esperta. Ela disse o seguinte: nós estamos precisando de água em Itupanema. Eles deram em serviço. Gilvandro - Não indenizaram os pescadores? Eurico - Esse dinheiro era pra dar ao menos 1000 para cada um, e ficasse com o resto. Eles fizeram o serviço na Vila Nova que não prestou. Gilvandro - Eles fizeram a caixa d’água e não deu certo? 41

Eurico - Não deu certo. Não fizeram a caixa d’agua. Só as tubulações. Enganaram a gente. Gilvandro - Tem água em Itupanema? Eurico - Tem, tem bastante água. Lá é da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). Gilvandro - Quer dizer que lá já foi a prefeitura que fez no caso e não dá água? Eurico - Não. É da Cosanpa. Vem direto pra lá Gilvandro - Funciona o abastecimento? Eurico - Agora aqui é de poço. Nós pagamos 5,00 para o presidente da comunidade. Agora lá na Vila Nova eles pagam 7,50 no correio para a Cosanpa. Gilvandro - E os jovens hoje, o senhor tem filhos? Eurico - Os meus filhos já têm famílias. Gilvandro - Como é que você vê os jovens aqui em Itupanema sem essa oferta de emprego? Eurico - Já tem muito molecote. Olha outra coisa que vou dizer os meninos daqui com dez, doze anos tinham seus fornos, seu carvão, eles pescavam, faziam roças e ajudavam muito os pais. Depois que Albrás veio. Veio maranhense, piauiense, vem de tudo e a maconha veio no meio. Muitos desses é da maconha. Gilvandro - Muita droga? Eurico - Gangue no meio. São poucas as famílias que tem filhos legais. Alguns estudam, quando tem uma folga metem um pererê. Gilvandro - O que o senhor acha que seria necessário para melhorar a vida desses jovens? Eurico – Olha, eles botaram karatê pra luta. Tinham que botar era uma oficina Gilvandro - Oficina. Eurico - Uma oficina para aprender negócio de móveis. Uma escola pra aprender mecânica. Essas coisas assim seria muito bom. Gilvandro - Profissionalizante? Eurico - Seria bom para os meninos. Eles pegavam gosto e iam trabalhar. Gilvandro - Nunca aconteceu nem um curso profissionalizante aqui? Eurico - Nada. Um tempo que apareceu para eletricista e encanador. Alguns jovens daqui fizeram e pegaram emprego. O menino, o filho do meu compadre Vanildo é eletricista. O Elizeu é eletricista. Ainda tem mais quatro ou cinco eletricistas e alguns encanadores. Os cursos deviam acontecer sempre.

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Gilvandro - Essas pessoas de fora são mais ou menos de qual estado? Eurico - Piauí, Maranhão, Parnaíba e Rio Grande do Norte. Gilvandro - E como vocês se relacionam com as pessoas de fora? Eurico - Agente se dá. Conversa com eles. São bacanas. Gilvandro - O senhor falou em sítios, como eram esses sítios? Eurico - Sítio é quando tem Açaizeiro, Mangueira, Abacabeira. Gilvandro - Mas era vocês que plantavam mesmo? Eurico - Agente tinha sítios plantados. A Albrás tomou conta de tudo. Gilvandro - Vocês vendiam pra quem? Eurico - Vendia pro marreteiro, que levava pra Belém. Gilvandro - E dava algum dinheiro? Eurico - Dava. Deus o livre. Esse que veio aqui agora o compadre Bené dava era duas viagem por semana. Ele ia cheio de pupunha, uxi, abacate, cupuaçu. Itupanema era o 1° produtor de cupuaçu daqui. Gilvandro - Era mesmo? Eurico - Era sim, laranja dava muito, acabou tudo. Eu me sinto meio triste. Tanta gente passando fome aí. Não tem nada. Era muito farto aqui o que estragou foi isso aí. Gilvandro - As empresas? Eurico - É lá no Conde tá tudo seco. O menino disse: a minha mãe vem morar pra cá, o vento joga pra lá todinho a fumaça das empresas. Os açaizeiros tão todo vermelho na beirada. Olha não era tão calor agora é mais calor que de antigamente porque a poluição sobe se pega com o sol e dispara muito calor. Gilvandro - O senhor se sente muito triste por tudo? Eurico - É porque tem gente que não tinha nenhum ganho e ia pra fora pegar um peixe. Dez quilos de pescada eu pegava de linha de mão. Se eu botasse a rede era de vinte quilos. Agora pega um quilo, dois é triste mesmo. Não tem fruta pra vender. Tem que comprar a farinha. Tem que comprar o carvão. Gilvandro - O sr. estava falando sr. Eurico das pessoas que foram remanejadas do Conde e das pessoas que moravam aqui.Eles vieram pra cá, para Vila Nova?
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Eurico - Para Vila Nova, não só as pessoas que tava daí mesmo. O de lá de onde era Alunorte/Albrás foram tudo para Bacuri, Colônia Nova, CDI, Massarapó, e agora criam peixes. Está bom lá pra eles. Falei com uma comadre... Ah compadre, graças a Deus. Tem Rio Capim, para subir em cima do terreno deles pagaram 40 mil, e ainda deram um lugar para eles. O pessoal tem cooperativa para lá: maracujá. Agora peixe. Vão fazer gaiola para criar peixe. Gilvandro - Aqui em Itupanema, sr. Eurico, tinha condição de fazer esse trabalho, tipo cooperativa? Eurico - Aqui não adianta mais. Gilvandro – Qual o motivo? Eurico - A terra está tomada. Olha, aqui para baixo tem mais ou menos 4 km. Daqui até no Caripi a Albrás não deixa tirar nem uma vara. Não tem ninguém aí. Nem um morador. Gilvandro - Mas porque, o que ela alega? Eurico - Porque é dela. Gilvandro - Mas ela faz algum trabalho? Eurico - Meio Ambiente. Não pode derrubar. Não pode morar. Lugar até pra lá que já é CODEBAR a pessoa pode até entrar, fazer uma casinha. Mas aqui não. Deus me livre. E o pescador que fez lá uma casa, pescava camarão. Há muitos anos lá. Chegou a Albrás. Tira sua casa daí, que não pode. Deram dinheiro para ele, comprou telha para ele e tábua. Fez a casinha dele. Ele vendeu, foi embora. Aí um rapazinho fez uma puxada na praia. Foram lá. Queimaram a barraca dele. E ele era pescador. Gilvandro - Mas quem queimou a barraca dele? Eurico - O pessoal da Albrás Gilvandro - Que ano foi isso? Eurico - Está fazendo uns cinco anos. Gilvandro - E era pescador aqui de Itupanema? Eurico - Filho da Ilha. Mas casou com uma mulher daqui, que a mulher ficou até aí. Não pode. Quando chegou uns dias aí estava queimada a casa. Era uma pena. Era uma puxada de palha. O depoimento de seu Eurico é de grande riqueza e mostra como os moradores de Itupanema vivenciaram o processo de desapropriação, implantação e operação das fábricas. Alguns dos muitos pontos levantados são dignos de nota e serão comentados a seguir. A memória permite a reconstrução de paisagens perdidas. seu Eurico descreve vividamente as

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árvores, os botecos, os lampiões, as casas de palha e a banda que alegrava as festas. Talvez não haja qualquer imagem desta paisagem, mas a descrição de seu Eurico permite a reconstrução da paisagem. Nota-se o interlocutor trabalha como é frequente encontrarmos nos depoimentos de pessoas que vivenciaram grandes perturbações, uma construção feita de oposições, marcada pela temporalidade de um evento: a chegada das fábricas. Assim, antes, a natureza distribuía copiosamente seus frutos e o peixe abundava nos rios. Um passado que, por melhor que tenha sido, é vivido de forma idealizada. Por outro lado, o depois fica imerso na tragédia e é marcado pela falta, pelo bem limitado, pela fome. A fome parece ser a categoria crítica definidora do antes e do depois. Outra categoria associada ao depois é o “engano”. As empresas enganam, enquanto que o antes era marcado pela confiança e pela solidariedade. O evento das desapropriações - que mais foram expropriações ou expulsões - é o marco temporal central e o seu promotor lembrado por muitos pelo nome. A construção mais reveladora se dá em torno da poluição. Essa é apropriada e descrita segundo

uma lógica nativa baseada nas relações com a natureza, mas também é o instrumento de reivindicação. A ideia da compensação dos danos perpassa as relações com a empresa. A poluição coloca a empresa em dívida, por isso podem ser cobrados desde os barcos ao salário mínimo, à infraestrutura urbana ou o reparo da igreja. Por outro lado, a empresa manipula as obras, disputando espaço de poder com a prefeitura do município. A implantação das indústrias de alumina e alumínio não atendeu a expectativa de desenvolvimento da grande maioria da população de Barcarena. Pois esses projetos fizeram uma opção por um modelo fundamentado nos princípios capitalistas e privilegiaram alguns grupos econômicos, em detrimento da agricultura familiar tradicionalmente utilizado na região. Estes agricultores receberam pouco apoio, uma vez que nenhuma política foi criada para minimizar os impactos provocados pelo modelo de produção trazido para o município, constatando que a agricultura familiar sempre ocupou um lugar secundário na sociedade brasileira (Wanderley, 1996).

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Referência
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Energia limpa na ponta e desgraça na fonte, resultado de mega hidrelétricas na Amazônia
Edilberto Sena1

O consumismo capitalista, tanto nacional com internacional, olha a Amazônia com olhos de cifrão, eldorado, lucro, mesmo que para isso aconteça o saque, a destruição e os impactos sociais e ambientais. Como o alarme mundial, por causa do aquecimento climático, se intensificou nos últimos 20 anos: o sistema fantasiou o chamado desenvolvimento sustentável para continuar o saque do eldorado amazônico. A partir do ano 2.000 o saque se intensificou, mineradoras, agronegócio, madeireiras, fazendas de gado e também mais recente, as obras do tal Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

1 Rádio Rural de Santarém e Frente em defesa da Amazônia.

Como entender o PAC do governo federal, num momento histórico em que se discute os efeitos das mudança climáticas no planeta e a Amazônia é um dos pontos chaves para esse controle? Será ele o prosseguimento do anterior “Avança Brasil” do governo FHC? E se for, o que parece, o que estará por trás desses programas megalomaníacos, mesmo quando se fala em defesa da Amazônia, controle do desmatamento e coisas parecidas? Como não há transparência da parte das autoridades federais, é preciso se buscar causas que são camufladas por presentinhos amansadores da população regional. Daí, o PAC reserva alguns milhões de reais para saneamento básico aqui e ali, alguns milhões para alguns programas ambientais aqui e por ali, tudo para as populações se iludirem que o PAC veio para melhorar a vida dos nativos. Santarém, por exemplo, tem previstos R$ 75 milhões do PAC para saneamento básico da cidade. Porém, do total previsto (504 bilhões de reais) para ser gasto em cinco anos, até 2012, dois terços serão gastos em grandes projetos tais como, rodovias, hidrovias, ferrovias, hidrelétricas e telecomunicações. Então, os recursos do PAC na maior parte, não são para beneficiar as populações em si, mas o crescimento econômico. E todas essas obras estão previstas num outro plano maior e mais abrangente de crescimento econômico, o IIRSA (Iniciativa de Integração da Infraestutura Regional Sul-Americana), criado já no ano 2.000 entre os presidenFórum Carajás outubro de 2010

tes dos países da América do Sul, sob inspiração do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. Tal plano tem o objetivo de interligar os países da América do Sul desde o oceano Atlântico ao Pacífico, através de corredores de circulação de transportes de produtos ainda abundantes neste continente e ansiosamente procurados pelos países do G-8 e os emergentes que estão crescendo, apesar da crise econômica mundial. É neste contexto que se deve compreender os grandes projetos do PAC. Entre outros, cinco hidrelétricas só na bacia do rio Tapajós, num total de cerca de 15 mil mega wattz de energia, que o presidente da república costuma alardear que é abundância de energia limpa. Grupos da sociedade civil organizada em Santarém, Itaituba, entre os índios Mundurucus e até em coordenações de unidades de conservação no entorno da bacia to rio Tapajós se perguntam – energia limpa e abundante para quem? Indagado quatro meses atrás em Brasília por um interlocutor da Amazônia, o ministro do meio ambiente, Carlos Minc desviou a resposta e só disse que era para o desenvolvimento da Amazônia. O interlocutor riu ironicamente do ministro que se fazia de bobo, porque sabia que a resposta honesta seria – para atender às empreiteiras que controlam os contratos de construção de barragens no Brasil inteiro e, principalmente atender à fome de eletricidade intensiva das grandes empresas mineradoras que estão e vão se instalar na região, especialmente no oeste do Pará. A Eletronorte já vem tra46

balhando no programa de cinco hidrelétricas no Tapajós/Jamanxim há mais de 10 anos, silenciosamente e sem dialogar com as populações ribeirinhas e da região do Baixo Amazonas que será toda impactada pelas obras faraônicas. Apenas nos dois últimos anos, alguns grupos do movimento popular organizado descobriram que a coisa era urgente para o Ministério das Minas e Energia e a Eletronorte. Os estudos já estavam bem adiantados e nunca eles chamaram a sociedade regional e menos ainda os moradores, os indígenas e os responsáveis pelas áreas de conservação que serão atingidas pelas barragens. Segundo dados da Eletronorte o cronograma está assim montado: o estudo de viabilidade já foi feito, agora chega o pedido de licença para o EIA RIMA, se possível ainda antes do fim deste ano. Em 2.012 deve ser dada a licença de operação, depois de falaciosas audiências públicas, como foram as de Belo Monte dias atrás. E assim por diante, de forma que se não houver entraves, até o ano 2.018 as primeiras turbinas estarão gerando 6.000 megawatts em São Luiz do Tapajós. Em recente encontro em Itaituba (21/08) a convite do Conselho Consultivo do Parque Nacional da Amazônia, estiveram em confronto duas exposições, com visões opostas de Amazônia e de desenvolvimento. Três técnicos da Eletronorte (dois de Brasília e um de Manaus) compareceram para expor o cronograma e as vantagens das construções de cinco hidrelétricas na bacia do Tapajós. Logo após, apresentei

um contraponto àquela exposição que chamei de propaganda para “inglês ver”. Eles mostraram as vantagens das hidrelétricas para o crescimento econômico “do Brasil” (Alcoa, Rio Tinto, Vale, Caima e demais empresas exploradoras de minérios na Amazônia). Mostraram eles um documentário bem feito, ilustrativo de como as hidrelétricas no Tapajós serão modelo mais moderno, com mínimos impactos ambientais e sociais. Oito ou dez minutos de propaganda que me fez lembrar a estratégia de Goebels e Hitler na Alemanha nazista (uma mentira repetida muitas vezes parece verdade...). Depois descobrimos que o próprio presidente Luiz Inácio determinou que todas as embaixadas brasileiras tivessem uma cópia do filmete para mostrar a todos os visitantes e contatos, em línguas diferentes. Isto é, o presidente parece estar preocupado com as lutas que a sociedade civil está assumindo em Belo Monte, Jirau, Santo Antonio e Tapajós. Surpreendentemente, os três técnicos não contestaram minhas argumentações que mostravam a desgraça para os habitantes da região, caso as hidrelétricas venham a ser construídas. Apenas, em certo momento um disse que eles são técnicos e só respondiam a questões técnicas,

já as questões políticas das obras só o governo podia responder. Como ele costuma dizer, “nunca antes neste país...” um presidente decidiu enfiar goela abaixo, dez mega hidrelétricas na Amazônia, sem respeitar os moradores da região. Estes são entraves ao crescimento, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, ONGs e Ministério Público Federal. Para ele o que interessa é o PAC a serviço do grande Plano IIRSA. Os entraves que possam aparecer devem ser afastados com lei, ou novas normas. No momento atual, um movimento está iniciando em defesa dos rios Tapajós e Jamanxin. Três encontros já aconteceram em Itaituba e um em São Luiz do Tapajós, desde novembro de 2008. Três seminários fora promovidos pelo movimento BR.163 sustentável em aliança com o Movimento popular Frente em Defesa da Amazônia (FDA), de Santarém. O mais recente encontro foi promovido pelo Conselho Consultivo do Parque nacional da Amazônia. Em Santarém foram realizados dois seminários, organizados pela Diocese de Santarém em aliança com a Frente em Defesa da Amazônia. Encontros já foram realizados na cidade de Aveiro, nas comunidades Tauaraí e Pinhel, no baixo Tapajós. A FDA orga-

nizou uma exposição a ser feita num confronto com pessoal da Eletronorte em sessão especial na Câmara de Vereadores em Santarém, em outubro. Na primeira semana de novembro, membros da FDA estarão na missão Cururu, entre os índios Mundurucus em três dias de encontro. A organização dos frades e freiras franciscanos, que estão há cem anos na missão entre os Mundurucus, está organizando os encontros com lideranças indígenas para refletir sobre os danos e invasões que as cinco hidrelétricas farão nas terras e costumes deles. Assim alguns movimentos populares estão sensibilizando as comunidades, cidades e povos sobre a gravidade dos projetos hidrelétricos promovidos pelo governo “Brasil de Todos” contra a Amazônia e seus povos. Infelizmente ainda é pequena a participação popular. Mesmo organizações de moradores, sindicatos, professores continuam indiferentes, como se os projetos hidrelétricos, como os outros grandes projetos não os atingissem. Outros raciocinam como se aqueles viessem trazer empregos e desenvolvimento. Mas a luta continua como continua em Porto Velho e no Xingu. Tapajós viverá.

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Geração de energia na Amazôniacaso de Estreito em questão1
Rogério Almeida2

O presidente Lula inaugurou no dia 04 de outubro de 2008 a segunda casa de força da hidrelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará. A UHE de Tucuruí é a maior hidrelétrica genuinamente nacional e foi erguida no rio Tocantins há 24 anos para alimentar com energia subsidiada empresas de produção de alumínio no Pará, Albrás e Alunorte, do grupo Vale e a Alumar, no Maranhão, da estadunidense Alcoa. 75% da produção de energia de Tucuruí vão para a exportação e o estado possui uma das tarifas domésticas mais caras do país. O derradeiro reajuste foi de 16%.

1 Reportagem publicada originalmente no blogue FURO em novembro de 2008 e reproduzida no site do www.forumcarajas.org.br, que apoio o trabalho. 2 Colaborador da rede Fórum Carajás, mestre em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA/ UFPA).

A segunda casa tem potência instalada de 4,1 mil megawatts. Junto com a primeira casa de força a potência instalada de Tucuruí vai ser de 8,3 mil megawatts. O maior empreendimento do setor de energia encontra-se em construção no mesmo rio, na fronteira do estado Maranhão com o Tocantins, no município de Estreito. A construção de hidrelétricas na Amazônia integra um portfólio de projetos baseados no uso intensivo dos recursos naturais da região. O modelo de desenvolvimento tem na concentração da terra, renda e do poder político e econômico seus pilares e ativa tensões entre populações consideradas tradicionais e grandes corporação do capital mundial. No caso de Estreito, tais projetos tensionam com comunidades indígenas Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão. Na fronteira há ainda pescadores, extrativistas e camponeses, ladeados por reservas como a Serra das Mesas do lado maranhense e um sítio de árvores fossilizadas no Tocantins. A hidrelétrica de Estreito prestes a completar o segundo ano em fevereiro de 2009, avança sobre o rio.

tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda conforme o IBGE, até 2001 a população total do município era calculada em torno de 22.930, bem antes do início da obra, fevereiro de 2007. O município de Estreito encontra-se numa região repleta em implantação de grandes projetos púbicos e privados. A cidade dista 100 km do pólo de soja considerado um dos mais importantes do país, na cidade de Balsas, sul do Maranhão e tem como vizinha Aguiarnopólis, cidade do norte do Tocantins e fica mais de 500 km da capital do estado, São Luís. Os economistas tratam o modelo econômico de enclave, traduzindo, não dinamiza a economia local. Além do pólo de soja, impactam o município a implantação da ferrovia Norte-Sul, a ampliação da BR-010 e a construção do maior projeto hidrelétrico do país, a hidrelétrica de Estreito, no rio Tocantins. Não muito distante dali, no município de Açailândia, um pólo de gusa dinamiza uma cadeia de destruição ambiental e de trabalho escravo para a produção do carvão vegetal. O grotão e o planeta

O empreendimento da Estreito em questão – um UHE de Estreito pluga o grotão mapa de enclaves marcado por inúmeras chacinas de camponeses ao resto do munA BR-010 corta o muni- do através da geração de energia. cípio de Estreito, oeste do Mara- O empreendimento pertence ao nhão. A cidade há três anos tinha Consorcio Ceste, que aglutina as uma população estimada em 10 grandes corporações do quilate mil habitantes localizados na sede da Camargo Corrêa (4.44%), ALde um total de 26.490, conforme COA (25.49%), Vale (30%) e a os dados do ano de 2007 do Ins- belga Suez-Tractebel (40.07%). 49

O custo da obra é estimado em 2.5 bilhões de reais para que Estreito gere 1.087 MW de energia. Os barramentos no rio devem ultrapassar a casa das 50 unidades entre grandes e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s). As PC’s produzem no máximo 3 mil kw. Ambientalistas que tratam sobre barragens advertem que caso se sacramente o planejamento estatal, o rio Tocantins deve se transformar num grande lago, onde os impactos ambientais e cumulativos são imensuráveis. A radical alteração do ciclo de reprodução dos peixes, destruição da mata ciliar e inundação de florestas nativas que abrigam animais silvestres são alguns dos impactos pontuados. Empreendimentos de grande porte tendem a atrair grandes contingentes de migrantes. 5.500 operários da construção civil estão no canteiro de obras atualmente. Cabe interrogar: para onde essa população irá após a conclusão da obra, prevista para 2010? Estreito e Carolina no Estado do Maranhão, e Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro, Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins, Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e Tupiratins serão os municípios afetados diretamente pela obra. As cidades abaladas pelo empreendimento tendem a ter os preços da terra, do aluguel e venda de imóveis inflacionados. As periferias proliferam ladeadas pela marginalidade, aumento de consumo de álcool e a criminalidade. Até três anos atrás no município de Estreito não se via mendigos
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nas ruas. Um passeio na rodoviária local indica a alteração dessa realidade. Carros das empresas sinalizados com uma bandeira vermelha com um X, homens fardados de variadas indumentárias que indicam a variedade de empresas que atuam no canteiro de obras da barragem, ônibus que os carregam agora fazem parte da paisagem na cidade. O trabalho é terceirizado. A hidrelétrica de Estreito encontra-se em croquis dos planejadores de velha data. Localiza-se na bacia Araguaia-Tocantins, considerada a maior em potencial de geração de energia hidroelétrica do Brasil. Tal modelo de empreendimento ratifica uma economia baseada no uso intensivo dos recursos naturais, ou seja, extrativa. O hoje ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, reconhecido pelos serviços prestado à ditadura, integrante do ninho da família Sarney, ainda quando senador foi um dos mais fervorosos defensores da implantação da hidrelétrica de Estreito. Dono de meios de comunicação na região Tocantina, cedeu os veículos que controla para que alardeassem as “benesses” da instalação do empreendimento. A Tractebel em Goiás Bento Rixen, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Goiás em artigo publicado em 2003, numa publicação do Fórum Carajás, “Escritos sobre a água” alerta sobre os passivos sociais e ambientais provocados pela empresa na construção da hidrelétrica de Cana Brava, nos município de Minaçu e Cavalcante.
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Por conta da indiferença dos diretores da Tractebel em relação às populações atingidas a CPT mobilizou a visita de um grupo de representantes de ONGs belgas. Os militantes internacionais puderam conhecer o cotidiano das famílias que foram expulsas de suas terras, e os desdobramentos do lago que surgiu depois da construção da barragem. Rixen em um artigo explicita que a indenização proposta aos atingidos pela barragem ficou no patamar de R$ 5.300,00. O militante da CPT adverte que muitos não aceitaram esse valor considerado uma “mixaria”. No Ministério Público de Brasília e em Goiânia um documento enumera 804 famílias cadastradas como atingidas. O reassentamento é uma das questões mais delicada no processo de implantação de hidrelétricas. Em geral não se consegue reproduzir as mesmas condições de reprodução de vida das origens dos trabalhadores rurais. Esse tem sido um questionamento constante, e a construção de Lajeado e Serra da Mesa, erguidas no estado do Tocantins ratificam a tese sobre a questão. A equipe de belgas visitou uma área de 26 famílias reassentadas pela empresa Tractebel. Apesar de boa casa e uma parcela de 20 ha, eles não estão bem. Entrevistados reclamam que só é possível produzir em um hectare. Posto ter de manter a reserva ambiental e a impossibilidade de plantar sobre os morros. Segundo a família, a plantação tem de ser irrigada, entretanto, eles não possuem dinheiro para pagar a ener50

gia da bomba de irrigação, revela Rixen. Um grupo de 42 famílias na época vivia debaixo da lona preta na periferia de Minaçu. Os belgas denunciaram que eles ficaram sem comida, sem água potável e sem emprego. A “moradia” ficava a 500 metros de uma área de mineração de amianto, em um terreno que a própria prefeitura cedeu. Em outro local de visita da equipe as terras férteis viraram brejos por conta da proximidade com o lago da barragem. Tornou-se impossível produzir os alimentos para sustento da família. O cheiro de fermentação e os mosquitos completavam o quadro crítico. Desenvolvimento quem? para

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é o principal agente financiador da obra, ou seja, a sociedade financia um modelo de desenvolvimento arcaico. Não seria mais prudente o Estado induzir um modelo de desenvolvimento contrário, em setores intensivos em tecnologia, por exemplo? Artigo no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, edição de outubro de 2008, do professor João Roberto Lopes Pinto, da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ), baseado em relatórios do próprio BNDES, indica que tal opção de desenvolvimento intensiva no uso dos recursos naturais, induz a um crescimento menor de renda e da produtividade, onde prevalecem a ocupação informal,

precária e de baixa qualificação. Gozam da gentileza do Estado o setor da mineração, celulose e etanol. Tal modelo de desenvolvimento induzido pelo Estado tende a fortalecer ainda mais as desigualdades existentes no país. Nesse sentido um conjunto de organizações sociais e políticas organizaram a frente “Plataforma BNDES,” explica o artigo do professor Pinto. A frente deseja pressionar o governo para que reoriente a política do BNDES em favor de um desenvolvimento que busque a superação das desigualdades e promova os direitos sociais. Pinto reflete que a Plataforma argumenta que se faz necessário, entre outros pontos, a) fortalecer a economia de base camponesa e familiar, que garante produção para o mercado interno; b) descentralizar o crédito e que fomente a diversificação produtiva e a inovação técnica; c) incentivar a participação pública em obras de infraestrutura social, como uma política de saneamento básico. Comissão Mundial de Barragens Adverte Entre os anos de 1997 a 2000 uma comissão realizou estudos sobre a construção de barragens em todo o mundo. Tucuruí foi o caso selecionado na América Latina. A construção de barragens do Brasil é responsável por 40% do valor da dívida externa. Entre os impactos da construção de barragens como a de Estreito os estudos organizados pela Comis-

são Mundial de Barragens (Banco Mundial, construtores, atingidos por barragens, pesquisadores) verificaram-se: a) Alagamento e salinização afetam um quinto das terras irrigadas no mundo, incluindo terras irrigadas por grandes barragens e apresentam graves impactos de longo prazo, muitas vezes permanentes, sobre a terra, a agricultura e a subsistência da população; b) as grandes barragens provocam impactos cumulativos sobre a água, inundações naturais e a composição de espécies quando várias barragens são implantadas em um só rio (caso da bacia Araguaia-Tocanstins); c) as grandes barragens provocam destruição da floresta e locais selvagens, o desaparecimento de espécies e a destruição das áreas de captação à montante devido à inundação da área do reservatório; d) as grandes barragens provocam o deslocamento de 40 a 80 milhões de pessoas em todo o mundo; muitas das pessoas deslocadas não são reconhecidas (ou cadastradas) como tal e, portanto, não são reassentadas ou indenizadas. Histórias de garimpeiros Na região as histórias de venturas e desventuras sobre a busca de riqueza fácil em garimpos no Pará é generosa. Francisco foi o moto-taxista que serviu como guia na ensolarada Estreito. Ele soma uns 40 anos e é filho de migrantes do Ceará, estado que nunca chegou a retornar após ter ficado adulto. O nosso guia perambulou pelos garimpos do su51

deste do Pará nos município de Xinguara, Rio Maria, Redenção e São Félix do Xingu. Mamão, Pedra Rica, Camuru são alguns dos garimpos em que Francisco passou. Num deles ganhou um pouco de dinheiro com o ouro encontrado. Fala que não guardou muito da sorte que teve na década de 1980. “Dinheiro de garimpo parece que é amaldiçoado. Nunca durou muito”, reflete o moto-taxista. Francisco informa que passou no maior garimpo a céu aberto do mundo, o de Serra Pelada, mas não ficou por lá. Ele lembra de pessoa que “bamburou“ (achou muito ouro) até 300 quilos de ouro. Teve fortuna em fazendas de gado e casas, como o caso de um garimpeiro que mora em Estreito conhecido como Índio. O afortunado é do município de Codó. Quando ele pegou o dinheiro comprou uma penca de carros e invadiu a cidade natal exibindo o “sucesso” em terras paraense, conta Francisco. Nas idas e vindas de Francisco ao Pará em busca de riqueza perdeu dois irmãos. A perda mais trágica foi a do caçula. Francisco lembra que o irmão tinha apenas 16 anos, e que era muito generoso com as pessoas ao redor. Mas, a realidade do garimpo não permite tal atitude. Após achar uma pequena porção de ouro foi tocaiado e morto por parceiros de farra em bebidas e cabarés. Um outro irmão não tem notícia faz mais de 15 anos. Francisco acredita que ele mora em Redenção, sudeste do Pará.
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A busca pelas fotos Falo a Francisco do interesse em fazer fotos da obra da UHE de Estreito. Ele sugere que alugue uma canoa. Somente ela pode levar você até o local onde a construção começou. Numa viagem até um portinho tenho sorte, deparo-me com José Antônio por volta das 11h da manhã de um dia escaldante. Antônio entre outras atividades é pescador, feirante e dono de sítio. Passou toda a manhã numa exaustiva viagem, onde foi buscar a esposa e uns porcos para criar no sítio que tem na periferia do município de Estreito. Acusando cansaço resistiu em pegar a empreitada de uma viagem que durou mais de uma hora ida e volta no caudaloso Tocantins até o canteiro da obra. A viagem ganha em emoção posto o motor da canoa padecer de panes quando esquen-

ta. O jeito é parar e apreciar a paisagem. No portinho algumas embarcações. Uma barraca comercializa bebidas. Moradores se divertem no rio e tomam umas pingas. As casas são humildes. Destoam do gigantismo da obra vizinha. A arquitetura de compensado e cobertura de palha socorre os moradores nos dias de chuva. Antônio limpa a merda dos porcos da canoa e iniciamos a viagem. Ainda de onde saímos é possível avistar o local. Dragas, barcos de vigilância, numa paisagem onde é possível se avistar babaçuais e outros tipos de vegetação antecipam a nossa chegada. A passagem de uma embarcação veloz conhecida como voadeira forma banzeiros e faz a nossa canoa sacudir no meio do Tocantins. Antônio sugere cuidado. O pescador avisa que os vigilantes do barco ficam ali para

impedir que a passagem dos ribeirinhos quando usam dinamite na obra. Segundo ele, as explosões são comuns no raiar do dia e no apagar da tarde. Há luz nos grotões? A instalação da hidrelétrica de Estreito coleciona inúmeros capítulos. Os relatórios de impactos sócio-ambientais amplamente criticados, as ações nos Ministérios Públicos do Maranhão e Estreito, mobilizações do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), apoiados pelo MST, atentado à bala de um gerente de operações contra militantes contrários a instalação da barragem, greve de operários do canteiro de obras por conta da péssima qualidade da comida e assédio moral de um gerente, que acabou sendo espancado pelos operários. O progresso, geração de emprego e desenvolvimento são os argumentos dos alinhados na

defesa do projeto. Qualquer voz que destoe de tal perspectiva é tratada como ressonância de forças externas que não desejam o progresso do país. É comum a ojeriza a movimentos sociais e manifestações de xenofobia a análises e ONG´s internacionais que fazem oposição ao modelo do empreendimento. Isso foi verificado desde o processo de audiências públicas. A força da “grana” coopta de clérigos a políticos, passa pelo incentivo a criação de associações de fachada, como o caso da Associação de Atingidos pela Barragem, entre outras. As audiências que seriam um espaço de debate possuem ares de congresso de “partido único”, isso na capital ou interior.

uma confusão sobre o papel do Estado e o da empresa. São ofertados ainda em parcerias com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), cursos de panificação e costura. Não raro os boletins inundam suas páginas com depoimentos de famílias que já foram desapropriadas pelo Consórcio. Tudo é flor nesse jardim? Uma série de reportagens de Beatriz Camargo, pública no site Repórter Brasil, no mês de julho indicam que não. Sobre a especulação imobiliária, a série indica que houve pressão por parte de pessoas de empresas terceirizadas na compra de imóveis, com vistas a serem desapropriados com um melhor preço pelo consórcio. A não inclusão dos povos indígenas como setores que podem ser afetados pela construA propaganda é a alma ção é um outro ponto. O certo é do negócio? que desde o começo do processo há uma série de temas nublados. Os boletins do Ceste ceEnquanto isso as obras avançam lebram uma série de ações junto sobre o rio, sobre as histórias das aos mais diversos segmentos da populações locais, a reconfigurar sociedade. Um posto de atendiuma região prenhe em conflitos mento ao migrante localizado na na disputa pele terra e os recursos pequena rodoviária indica para naturais nela existentes. que as pessoas façam ficha no Sistema Nacional de Emprego Sindicato dos Trabalha(SINE), sempre com filas enor- dores Rurais (STR) mes. Escritórios do consórcio se espraiam em cidades estratégicas Raimundo Carvalho, conos dois estados. nhecido como Cabeça Branca, dirigente sindical rural de EstreiOs jornais do consórcio to, explica que no começo todo celebram ainda cursos que pas- mundo achava que a barragem ia sam pela “inclusão digital” com a ser boa. Aos poucos o povo vai Colônia de Pescadores- Z-35, que aprendendo que não é bem assim. se manifestou contra o acampa- Carvalho foi operário na construmento do MAB, doação de ambu- ção da barragem de Boa Esperanlância, doação de computadores a ça, no rio Parnaíba, no estado do unidades de saúde. O que traduz Piauí na década de 1960, e tam53

bém um atingido pela própria obra que ajudou a erguer. Carvalho lembra que o dinheiro que ganhou não conseguiu comprar nem metro de terra depois. “Com a terra a gente comia todos os dias, ganhava um dinheirinho e podia trabalhar a família por muito tempo. Dinheiro não é tudo na vida”, arremata o senhor. Ele alerta que a média de indenização tem sido de 30 mil reais. Ele teme pelos idosos. “Tenho um colega que mora só. Vai ser desabrigado. Tem uns 80 anos. O que ele vai fazer aqui na cidade?”, interroga o sindicalista. Construção civil - sindicato em construção Delfino Araújo é o presidente do recém criado Sindicato da Construção Civil de Estreito, que tem 140 sócios como fundadores. Ele explica que o registro para a criação do sindicato foi publicado no Diário Oficial em fevereiro deste ano. O sindicato ainda está em fase de construção, é o que se conclui após a conversa com o dirigente. Araújo ainda não sabe quantificar quantas empresas estão no canteiro de obras da hidrelétrica e nem o número preciso de operários. Ele informa que já solicitou os dados para o setor responsável. Sobre a paralisação de 11 dias dos operários no mês de julho, Araújo relata que as condições precárias de trabalho e a ração foram os motivadores. O dirigente alerta que o sindicato necessita tomar pé dos dados, para que possa garantir uma intervenção qualificada.
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Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia1
Rogério Almeida 1.500 pessoas ocuparam no dia 28 de janeiro de 2009 uma área de operação da empresa estadunidense Alcoa, no município de Juruti, oeste do Pará. No local é explorada uma mina de bauxita, matéria-prima para a produção de alumina que é em seguida transformada em alumínio. O empreendimento fica na bacia do Amazonas. Um bilhão de reais deve ser aplicado para produzir
1 Trabalho publicado no site www.plataformabndes.org.br em fevereiro de 2009

quatro milhões de toneladas do minério. Desse total de investimento a sociedade brasileira vai entrar com 500 milhões através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a juros módicos. A companhia é uma das maiores mineradoras do mundo e opera em 32 países nos quatro continentes. No Maranhão mantém uma empresa de produção de lingotes de alumínio. A Alumar, desde a década de 1980, em sociedade com a BHP Billiton e que deverá incrementar a produção de 368 mil para 420 mil toneladas. Por isso o interesse na mina de Juruti, que também vai emancipar a Alcoa do fornecimento da Mineração Rio do Norte, da Vale, que extrai a bauxita no município de Oriximiná, na mesma região. Além das frentes de mineração o baixo Amazonas tem em pauta a construção de hidrelétricas no rio Tapajós e é impactado pela monocultura de grãos e pelo porto da Cargill. Além de negócios no Maranhão e agora no Pará, a Alcoa também é acionista majoritária do consórcio Baesa, responsável pela usina hidrelétrica de Barra Grande, localizada na região Sul do país. Junto com o grupo Votorantim, a Alcoa foi denunciada pela violação das Diretrizes para Empresas Multinacionais da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A Alcoa e o grupo Votorantim foram denunciados pelo Movimento de Atingidos de Barragens (MAB) no ano de 2005. As empresas aproveitaram a Avalia-

ção de Impacto Ambiental apresentada, em 1999, pela empresa Engevix Engenharia S. A., que atestava de modo fraudulento a viabilidade ambiental da exploração do potencial hidroelétrico no rio Pelotas, afluente do rio Uruguai, informa nota do MAB. No caso do Pará, os militantes denunciam os danos aos recursos hídricos, redução do pescado, impedimento do direito de ir e vir dos ribeirinhos, diminuição da coleta da castanha do Brasil, andiroba e outras fontes de proteína e recursos da flora usados para fins medicinais. O projeto representa também um risco de morte aos trabalhadores, por conta da construção da ferrovia que escoará o minério. Eles explicam que não há túneis ou desvios nos trechos que cortam os projetos de assentamento impactados pela obra. Durante a ocupação, a tropa de choque da Polícia Militar foi acionada. Os policiais usaram gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Crianças e mulheres foram atingidas. Afinal, quem é o inimigo? Documento sistematizado por Raimundo Gomes da Cruz Neto, sociólogo que visitou as comunidades atingidas, esclarece que a mina está localizada numa área de floresta densa, nas cabeceiras do lago Juriti Grande, caracterizada por três platôs. A ferrovia atravessa dois projetos de assentamento de agricultores, criados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Um deles é o Socó, com 420 famílias, das quais 43 tive55

ram seus lotes atravessados pela ferrovia, que receberam por indenização R$ 0,24/metro quadrado, por força de um acordo entre o sindicato e a empresa, enquanto reivindicavam R$ 3,00. O porto está colado à cidade sede do município de Juruti, de onde várias famílias estruturadas social e economicamente no bairro Terra Preta foram expulsas. Gerdeonor Pereira, dirigente no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Juruti Velho, informa que 80% do minério estão no PAE. O militante informa que pelo menos 50 mil hectares de floresta devem ser derrubados. “O projeto trouxe para a cidade umas 15 mil pessoas. O município não tem estrutura para cuidar desse povo com moradia, saúde e escola. Hoje a empresa já iniciou as demissões porque as construções estão em fase de conclusão. Para onde esse povo vai”, interroga Pereira? Há informes que por conta de migração o município passou por dois surtos de hepatite. A fase de construção é considerada onde a prefeitura mais fatura com arrecadação do Imposto Sobre Serviço (ISS). A estimativa é de um milhão por mês desde 2006. A presença da empresa também incrementou o mercado de prostituição, drogas, especulação imobiliária e ocupações. Os passivos socioambientais já experimentados nas 60 comunidades onde vivem cerca de quatro mil famílias num total aproximado de nove mil pessoas foram omitidos nos estudos de impactos ambientais, realizados pela empresa CNEC Engenharia
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e apresentado pela Alcoa para obter a licença. A CNEC é a mesma empresa que realizou os estudos para a construção da hidrelétrica de Estreito, onde a Alcoa é sócia da Vale, da Suez Energy, da BHP Billiton e da Camargo Correa. A hidrelétrica de Estreito está sendo erguida no rio Tocantins, fronteira do Maranhão com o estado do Tocantins e é considerado o maior empreendimento do setor no Brasil. No caso de Estreito, entre as omissões consta que as áreas indígenas nos dois estados, Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão não serão afetadas pela obra. Informação que foi contestada pelas comunidades indígenas e pelos defensores dos direitos humanos. As omissões nos relatórios que indicam os impactos ambientais da exploração da bauxita do Pará estão entre as motivações da ação movida na justiça pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual (MP) desde 2005. Nestes termos, a Alcoa funciona na ilegalidade em terras do Pará, posto as contestações dos MP sobre o processo de licenciamento da exploração de bauxita. O não cumprimento da recomendação dos MP também resvala no governo do estado do Pará. Gabriel Guerreiro, deputado estadual (PV) e Walmir Ortega, ambos ex-secretários do meio ambiente, respondem por improbidade administrativa. O primeiro pela aprovação da licença de operação da Alcoa e o segundo pela manutenção, contrariando a recomendação dos MP, que decidiram pela suspensão.
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Assim a Alcoa, como a Cargil que produz grãos no município vizinho de Santarém, que ergueu um porto ao arrepio da lei, finaliza a construção de rodovia, ferrovia, porto e tanques de contenção de rejeitos para a extração do minério. O MPF e o MPE consideram que o Instituto Brasileiro dos Recursos Renováveis e do Meio Ambiente (IBAMA) deveria licenciar o projeto Juruti e não a Secretaria de Meio Ambiente, como ocorreu: Os elementos que demonstram a necessidade de que o licenciamento se dê no âmbito federal são: 1 - a área na qual estão localizadas as minas de bauxita pertence à União, tendo sido objeto de arrecadação administrativa e, hoje, encontra-se em processo de regularização fundiária, tendente a permitir a fixação dos clientes da reforma agrária; 2 - todas as atividades para a obtenção da bauxita (escavações e deposição de rejeitos nas cavas) ocorrerão sobre o aquífero Alterdo-Chão, importante reserva de água doce que atravessa dois estados (Pará e Amazonas); 3 - o porto está localizado às margens do rio Amazonas, rio internacional, sem que tal impacto tenha sido nem mesmo corretamente mensurado ou nem sequer estudado; 4 - todo o Projeto Juruti está contido na bacia hidrográfica do Amazonas, sob jurisdição federal; 5 - há o registro de 73 ocorrências de sítios arqueológicos na Área de Influência Direta (AID), até esta fase; 56

6 - na AID existem espécies vegetais (castanheiras, paucravo, pau rosa) protegidas pela legislação ambiental; 7 - na AID existem os ecossistemas de várzeas. Negociações - Após a mobilização da população atingida pelo grande projeto de mineração que deve durar entre 80 a 100 anos, uma rodada de negociação foi realizada entre 9 a 11 de fevereiro, no município pólo da região, Santarém. Além dos atingidos pelo projeto, participaram dos debates o representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder, os Ministérios Públicos, Prefeitura de Juruti e representantes do Governo do Estado. A rodada teve várias divisões. Dia de debate com todos os envolvidos na questão, dia dedicado ao debate entre os atingidos e a empresa e uma rodada de negociação encerra com a participação de Walmir Ortega, então Secretário de Meio Ambiente do Pará, informa Pereira. Reivindicações – A Associação das Comunidades de Juruti Velho exige entre outras coisas, a participação de 1,5 % nos lucros da empresa, investimentos em educação, saúde e moradia e a definição de uma agenda de compromisso. Gerdeonor Pereira esclarece que a primeira reivindicação já foi atendida. Tal tipo de empreendimento na Amazônia coloca em lados opostos grandes corporações com staff de capacidade internacional de negociação e populações consideradas tradicionais. Tanto no

caso do Pará como na fronteira do Maranhão com o Tocantins, a empresa apresenta um discurso de redenção da pobreza através do grande empreendimento, que deve ser seguido como se fosse um mantra da prosperidade. A cooptação de políticos e agentes que representem algum tipo de liderança consta como agenda da ação da empresa, em

particular para fazerem coro próempreendimento nas audiências públicas onde são apresentados os estudos de impactos ambientais. A empresa também não se descuida em “convencer” os meios de comunicação locais da sua nobre causa. É raro algum veículo de comunicação dar visibilidade sobre as mazelas dos grandes projetos. No caso da Alcoa

nenhum veículo informou que a mesma opera de forma ilegal. O destaque conferido recaiu sobre a nota da empresa sobre os possíveis prejuízos. Tanto no caso da usina de Estreito, como no caso da exploração mineral em Juruti, o fato foi verificado. Qualquer questionamento que soe a ambientalismo é logo satanizado. E os portadores de inquietações sobre os impactos

socioambientais tratados como agentes que defendem o “atraso” do lugar. O processo de licenciamento das obras e as populações tradicionais locais são classificados como os grandes entraves pelos empreendedores. Os mesmos podem ter em breve as suas demandas aceitas no que tange ao processo de licenciamento de obras na Amazônia. Ao menos, se depender do esforço de Mangabeira Unger, que deseja azeitar o já delicado processo. O desenvolvimento e o progresso formam a dorsal do discurso de defesa dos grandes empreendimentos, que segundo as empresas, vai fazer germinar como se fosse leite e mel, o emprego e a fortuna nos rincões. Numa clara linha de desinformação sobre a lógica que conforma tais empreendimentos nas periferias do planeta, o enclave. Ou seja, o saque dos recursos naturais.

um dos agentes do projeto de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americano (IIRSA). Do conjunto de 10 eixos de integração, quatro se destacam, por suas riquezas naturais e possibilidades de conexões: o Amazonas, o Hidrovia Paraná-Paraguay, o Capricórnio e o Andino. O objetivo central prima em facilitar a circulação de mercadorias. O eixo do Amazonas compreende os seguintes países: Colômbia, Peru, Equador e Brasil e visa criar uma rede eficiente de transportes entre a bacia amazônica e o litoral do Pacífico, com vista à exportação. Nesse sentido o BNDES exerce protagonismo continental, financiando obras de integração além de nossas fronteiras. Outro ator importante no longa metragem de extração das riquezas do continente é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No mundo do Brasil, alguns se arriscam em Mineração na Amazônia e os eixos de intepontuar que o Programa de Aceleração do Crescigração do continente mento (PAC) é uma miniatura do IIRSA. Antes do fim No dia 16 de setembro de 2009 o Pará viveu um dia histórico. Em Belém o aparato policial foi usado contra populares numa audiência pública sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte. Já no município de Juruti a governadora Ana Júlia Carepa (PT) cortava a fita do projeto de mineração de bauxita da Alcoa. Além de cortar a fita a governadora plantou uma árvore. Uma exacerbação do marketing. Os dois projetos estão localizados na mesma região, sudoeste do estado. Numa foto de um diário local a governadora aparece amparada pelo representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder. Ainda na mesma foto destaque para o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, uma figura íntima do senador José Sarney. Desde o regime de exceção. Essa tal de governabilidade... Mais irônico, o Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA), acabava de apresentar relatório onde indica que a produção de alumínio é um desastre para região amazônica.

O extrativismo tem regido a economia na Amazônia. O ciclo mais recente é o mineral, iniciado a partir da década de 1950, no estado do Amapá, quando o mesmo ainda tinha o status de território. A exploração do manganês na Serra do Navio foi o pontapé inicial, e que em apenas cinco décadas se exauriu, restando apenas o buraco, literalmente. A exploração mineral no Amapá, considerada a primeira na Amazônia, foi protagonizada pela empresa estadunidense de Daniel Ludwig, a Bethlehem Steel Company em sociedade com o empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Indústria e Comércio de Mineração S. A. (ICOMI). O ciclo da mineração ganhou maiores proporções na Amazônia a partir da região de Carajás com a presença da Vale na extração do minério de ferro na década de 1980, no Pará. É creditado a Eliezer Batista, ex-executivo da Vale, a construção do mapa das riquezas naturais na América do Sul. Batista é pai de Eike, festejado como o novo bilionário nacional. Obra do acaso? Os levantamentos de Batista foram encomendados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). A CAF é
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Grandes projetos no município de Barcarena: conflitos sociais e ambientais
Manoel Maria de Morais Paiva1 Meu nome é Manoel Paiva. Sou engenheiro ambiental e ex - presidente do Sindicato dos Químicos de Barcarena. Atualmente coordeno a Organização Não Governamental (ONG) Ecologia Sócio Ambiental da Amazônia (Ecosaam), com sede em Barcarena/Pará. E acumulo a direção da CTB e estou presidente do diretório municipal PC do B. Resido em Barcarena desde 25 de setembro de 1985. Faz 25 anos que convivo com o projeto Albras e Alunorte. Entre 1985 a 1995 fui funcionário da Albras, trabalhando como operador de manuseio, forno e ponte rolante, até julho de 1995. Em agosto de 1995 passei a trabalhar como funcionários da Alunorte. Em 2001 foi eleito presidente do Sindicato dos Químicos, que representa os trabalhadores da planta química da Alunorte. Fiquei liberado até 2007, quando perdemos a eleição para chapa que a Empresa Alunorte montou. Em todos esses anos o que menos se viu em todas as ações das empresas em Barcarena, foi justi-

1 ex-presidente do Sindicato dos Químicos de Barcarena, engenheiro ambiental. mmmpaiva@yahoo.com.br (91) 37544965 / 88713621}

ça. Desde a implantação do pólo Industrial de Barcarena o capital tem atropelado as comunidades, trabalhadores e o meio ambiente. O poder do recurso financeiro tem preponderado. O passivo social e ambiental que ficará para Amazônia, ao final desse ciclo será incalculável. Hoje são centenas de homens e mulheres mutilados em todos os sentidos, em decorrência dos ataques aos seus direitos. Temos capital suficiente para articular um grande debate sobre a situação de cada comunidade afetada pelos grandes projetos. Sejam eles da Vale, Alcoa, MMX ou CCM. Necessitamos apresentar propostas que possam garantir a permanência de famílias tradicionais em seu habitat. E as suas terras, suas raízes, suas culturas, sua identidade e meio ambiente. Os passivos sociais e ambientais se repetem a cada projeto. O que acresce são a crueldade e a injustiça. Podemos citar como exemplos os ribeirinhos do rio Murucupi. Os mesmos tiveram de deixar suas casas, por não poderem mais usar o rio em decorrência da contaminação da água. O rio foi a garantia por muitos anos da segurança alimentar e fonte de renda de milhares de ribeirinhos, pescadores, camaroeiros. Era comum em tempos de abastança a presença de turistas que encostavam nas tabernas para beber uma pinga, cerveja ou comer um tira gosto. A matemática dos grandes socializa a miséria e os desastres sociais e ambientais. A máxima de geração de emprego desaparece quando se faz um paralelo com os desempregados indiretamente.
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E as pessoas que não tiveram a oportunidade de conhecer a fortuna dos rios. Os grandes projetos na Amazônia têm deslocado comunidades centenárias, subtraindo chances de ao menos reclamar. Os protagonistas das nossas dores nunca aparecem em cena. A saúde do trabalhador é delicada. Há um montante significativo de operários reclamando seus direitos. E outros que não têm a mesma iniciativa. Por conta da estratégia do calar. A regra consiste em empregar filhos, filhas ou parentes dos ex-funcionários para que os mesmos fiquem presos no cordão umbilical da fábrica. Por conta do medo do desemprego agonizam calados. Dores que eles dividem somente com as famílias. A demissão é um fantasma constante. O futuro para as empresas quem faz é o próprio trabalhador, quando deposita seu INSS, descontado em seu contra – cheque todo mês. Pois todo trabalhador que chega a essa condição de aposentadoria é um peso a menos para as empresas, que não garantem absolutamente nada aos trabalhadores por mais que os trinta e não sei quantos anos para a aposentadoria tenham sidos trabalhados somente naquela empresa. Deveria haver leis que garantissem pelo menos plano de saúde vitalício para trabalhadores que prestaram serviços por cinco, dez ou vinte anos para grandes empresas. Pois ao se aposentar o trabalhador gasta metade do seu rendimento com medicação, principalmente na cultura do nosso país que quanto mais velho mais caro. A Amazônia, em especial o Estado do Pará, se destaca 60

pela exuberância de suas riquezas, minérios, rios, floresta e biodiversidades. Tudo dentro de um equilíbrio que garante a sustentabilidade dos ecossistemas terrestres e aquáticos. Não queremos dizer com isso que vamos envelopar a Amazônia. Mas, não podemos mais aceitar sermos meros exportadores de matérias primas para países desenvolvidos. Ditos do primeiro mundo, à custa do sofrimento do nosso povo. O saque aos nossos recursos tem se repetido desde os tempos coloniais. Desde o descobrimento, até os dias de hoje. Os ciclos econômicos saqueiam nossas riquezas e não deixam para nosso povo reflexos positivos. Foi assim com ciclo com do pau brasil, borracha, ouro e pedras preciosas. E agora entramos na era dos minérios primários. Os mesmos são tratados aqui para serem exportados, sem o perigo de contaminação pela geração de rejeitos perigosos. Até que tentaram sangrar o coração da Amazônia com a Estrada de Ferro Madeira Mamoré. A natureza não permitiu. Onde estão os primeiros habitantes das comunidades que existiam nas proximidades do projeto Albras /Alunorte? Deveriam no mínimo ter um endereço que servisse como referência para o resgate de sua cultura. Famílias inteiras foram esfaceladas para dar espaço para a construção das grandes fabricas de alumina, alumínio e caulim. O povo do Pará tem fama de ser um povo hospitaleiro, alegre, falante e de fácil relacionamento. Mas, o que percebemos hoje no semblante das pessoas

Gilvandro, Damasceno e Manoel Paiva durante lançamento do livro Alumínio na Amazônia em Belém(PA) - foto: arquivo Fórum Carajás

que foram remanejadas das suas comunidades não é o das referências acima. A atitude hoje é desconfiança, revolta, sentimento de terem sido enganadas e desprezadas. O projeto não trouxe a elas nenhuma perspectivas de melhoria de vida. Como as empresas haviam propagado. Em particular os responsáveis pelas mentiras que convenceram os moradores tradicionais a saírem de suas terras. Terras que passaram centenas de anos sem ter um dono. O direito da propriedade privada se sobrepôs a posse ancestral da terra. Com os s grandes projetos apareceram donos de todo que é lado: União, Estado, Município e até as próprias empresas que estão chegando e as aqui instaladas.

Essa questão da terra não é muito diferente dos conflitos agrários. Esses que a mídia tenta reproduzir de forma distorcida, quando “satanizam” os integrantes do MST. A questão é mais complexa e envolve os governos federal, estadual e municipal. Além de políticas públicas que possam garantir a distribuição de terras e incentivo à produção da agricultura familiar. É preciso levar em conta que cada comunidade vive de acordo com suas disponibilidades e facilidades. Portanto não podem ser avaliadas e deslocadas para qualquer lugar. É necessário respeitar cada atividade lucrativa de sustento das famílias. Por exemplo: pescador em área propicia 61

a pesca e agricultores em áreas agricultáveis. Para evitar que haja conflitos no repasse das atividades as novas gerações. Muitos dos remanejados para a implantação dos grandes projetos não conseguem assimilar, nem aceitar as ofertas feitas pelos grupos de interessados pelo projeto. Há registros de pessoas ganhando muito bem pra fazer a menor oferta possível às famílias. Muitas delas quase sempre desprovidas de informações das reais intenções acabam ficando entregue a própria sorte. O estado que deveria disponibilizar profissionais capacitados para fazer as primeiras abordagem, e servir como o mediador não o faz. A perspectiva nos imFórum Carajás outubro de 2010

postos que o projeto poderá gerar, acaba deixando de lado as comunidades a serem remanejadas. Em tal contexto as comunidades tornam-se alvo fácil perante a pressão das grandes empresas. Quando existe resistência de uma ou outra família, as empresas usam de estratégias. Cooptam as pessoas mais esclarecidas, como se essas fossem funcionárias das empresas. Os empreendedores fomentam visitas a outras empresas, geralmente em outros estados. O objetivo é que elas possam ser as futuras formadoras de opinião e defendam os interesses das empresas. Após o convencimento é comum as empresas enviarem as comunidades de interesse delas olheiros (as). A missão consiste em realizarem levantamento das debilidades das políticas publicas, e necessárias ao atendimento das pessoas. A partir desse diagnóstico passam a fazer um grande marketing para vender a imagem de uma empresa cidadã. Geralmente criam cooperativas para reciclar lixo, criação de animais, confecção de uniformes, fabricação de papel reciclado, produção de brinquedos com restos de madeiras das fábricas e outros. As iniciativas sobrevivem até atenderem os interesses das empresas. As empresas nunca permitem que as próprias comunidades toquem o projeto. As iniciativas são na verdade uma exigência dos agentes financiadores, como Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes), Caixa Econômica Federal, Banco da Amazônia (Basa) e a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). E outros agentes que condicionam a
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liberação do financiamento para a efetivação de um projeto social. Um exemplo: a gestão passada do Sindicato dos Químicos exigiu das empresas a construção das casas para os operários. Tudo acertado no acordo coletivo que obriga a empresa a construir casas aos trabalhadores. Por conta disso a Caixa Econômica exigiu um projeto social, que foi decidido entre empresa e construtora. A escolha foi troca de lajotas e a cor de pintura. Tentamos descobrir qual foi o projeto apresentado a Caixa Econômica Federal, porém até o final de nossa gestão não nos foi informado. É assim que funciona. Os próximos anos se desenham como de grandes conflitos. Pois estão em processo de licenciamento dois grandes projetos: o da termoelétrica e o da Companhia de Alumina do Pará (CAP). Todos dois ainda sobre conflitos não resolvidos. Alguns moradores chegam até a acusar o Governo Estadual de receber dinheiro da Vale, e ainda não ter repassados aos moradores que precisam deixar a área. A termoelétrica a carvão mineral, esta com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), questionado pelo ministério publico. Mas que pela prepotência da Vale já existe até peças da estrutura da usina em depósitos de Vila do Conde. Na década de 70, eles faziam da maneira deles, hoje ou discutem com a sociedade ou não fazem. Pois o povo não perdeu oportunidade de buscar conhecimento para jogar um papel importante nas decisões de seus desti62

nos. Prova recente disso foram as manifestações contrárias a implantação da usina termoelétrica, e a não permissão para aceitar o lixo do município de Abaetetuba. Dois projetos que não justificam seu licenciamento. Se levarmos em conta as discussões sobre aquecimento global, onde o Brasil apresentou em Copenhagen, na Dinamarca sua contribuição para diminuição do aquecimento do planeta, usar carvão mineral é remar contra maré. Maior contribuinte para emissão de gases do efeito estufa. Além da pressão sobre as terras das populações originárias, as contaminações ambientais têm sido denunciadas constantemente. Sinalizo isso como avanço da sociedade civil organizada local. Os crimes ambientais são aos órgãos competentes. Tem sido freqüente acidentes nos locais de operações das grandes empresas. Algumas vezes por conta da perda de controle do processo das empresas. Outras vezes por conta do descaso com a segurança, o que podemos qualificar como consciente. Não podemos ver a Amazônia como uma alternativa para geração de artefatos primária de interesse do capital internacional. Acima de qualquer especulação financeira precisamos saber se o projeto será bom também para nossa terra, nossa água, nossa gente. Saber se realmente haverá retorno em forma geração de emprego e renda, com respeito às comunidades tradicionais, ribeirinhos, pescadores, agricultores, caçadores e operários. E principalmente para preservação das espécies entre elas o homem e a mulher.

A exploração mineral e suas consequências na Amazônia brasileira 1
Airton dos Reis Pereira [1] José Batista Gonçalves Afonso [2] Raimundo Gomes Cruz Neto [3]

1 – Introdução Hoje, o que mais se ouve é que as grandes empresas são meios essenciais ao desenvolvimento econômico e tecnológico do país. Na propaganda e nos discursos oficiais de governantes e de políticos influentes elas são apresentadas como símbolo do desenvolvimento, do progresso e da geração de empregos. E por estarem atreladas a mercados bem mais amplos que os regionais e por serem estratégicas no marketing internacional, não por acaso, recebem gigantescos investimentos do Estado.
1 Trabalho publicado originalmente no Relatório Sobre Violência da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 2009.

Na Amazônia brasileira, grandes empresas do ramo da mineração são beneficiadas com infra-estrutura (estradas, ferrovias, hidrovias, portos, energia, etc.) financiadas com dinheiro público, créditos subsidiados, isenção de impostos, etc. Controlam a “coisa pública”, os principais meios de comunicação e extensos territórios, onde exercem gestão autônoma criando enclaves que causam impactos sobre a organização social regional e o meio ambiente. Para essas empresas, a Amazônia assume um alto valor estratégico, pois ao controlar recursos e o espaço regional, fortalecem sua hegemonia. O crescimento da produção industrial nos últimos anos e o consequente aumento do valor dos principais minérios no mercado internacional tem provocado uma corrida cada vez mais acelerada do capital internacional sobre as reservas minerais existentes. Na Amazônia esse processo é extremamente visível. São dezenas de projetos de exploração mineral em funcionamento e tantos outros em fase de instalação, resultado de uma política nacional vergonhosa e entreguista que coloca o país na condição de mero fornecedor de matéria-prima e de subserviência aos interesses do capital internacional. São projetos que evidenciam poucas possibilidades de incremento à economia local e têm trazido sérios prejuízos às comunidades de camponeses e ao meio ambiente.

A exploração mineral na Amazônia brasileira não é algo recente, muitos foram os garimpos de extração de ouro, diamante e cristal, nas margens dos rios Araguaia, Tocantins, Tapajós, Xingu e Madeira e em vários de seus afluentes. Há casos de “ciclos” de extração aurífera, embora de forma isolada e fragmentada ainda no período colonial como, por exemplo, no Amapá e Mato Grosso. Mas a partir do final da década de 1950 e início dos anos 1960 tornou-se uma prática quase que intensiva como, por exemplo, com a descoberta da província aurífera do médio rio Tapajós e de cassiterita, em Rondônia e em São Felix do Xingu (PA). Na década de 1980, as atividades auríferas se intensificaram nos estados do Pará, Roraima e Rondônia. No Pará os garimpos de ouro em Serra Pelada, Cumaru e nos arredores de Itaituba e Jacareacanga atraíram milhares de garimpeiros de quase todas as partes do Brasil [4]. A exploração mineral de forma empresarial teve início em meados da década de 1940 com a extração de manganês pela empresa Indústria e Comércio de Minérios S/A (ICOMI), no Amapá. Em 1947 essa empresa assinou contrato de concessão para exploração mineral e em 1953, assinou o contrato de concessão para a atividade portuária e ferroviária, considerado o marco zero da exploração mineral na Amazônia [5]. Atualmente, embora se 2 - Exploração mineral: possa constatar que a exploração da garimpagem à atividade em- mineral esteja espalhada por toda a Amazônia, é possível considerar presarial 64

que essa prática seja mais intensa e de efeitos trágicos às comunidades camponesas em quatro grandes pólos: “Amapá” com a exploração de bauxita, manganês, caulim e ouro; “Oeste do Pará” com a extração da bauxita pela Aluminium Limited of Canadá (Alcan) e a Mineração Rio do Norte (MRN); “Carajás”, com a exploração de ferro, manganês, cobre, níquel e ouro por diversas empresas, entre elas a Companhia Vale do Rio Doce, a Vale, e “Paragominas” com a retirada de bauxita e caulim pela Vale e Pará Pigmentos S/A. É visível que a Amazônia tem um peso significativo na atividade de extração e transformação mineral realizada em território brasileiro, considerando a ocorrência na região de diversos minerais que influenciam na balança comercial do país, sendo o Pará o segundo maior estado exportador de minérios [6]. Em 2008, a extração do nióbio colocou o Brasil em 1º lugar no ranking internacional, em 2º com a extração do ferro, manganês e alumínio (bauxita), e em 5º com o caulim e o estanho. O estado do Amazonas participa com 12% do nióbio extraído no Brasil, e com 60% do estanho. Já o minério de ferro de Carajás, no sudeste paraense, ocupa o 2º lugar na extração nacional, colocando o Pará atrás apenas de Minas Gerais [7]. A tendência para 2009, dependendo das condições da crise na economia mundial, é de que haja um crescimento significativo na extração da bauxita, cobre, níquel, fosfato e ferro, considerando a entrada em operação das minas

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de cobre e níquel, da Vale, em Carajás, a mina de bauxita da Alcoa, em Juruti, e o salto da extração de ferro de Carajás de 96 milhões de toneladas em 2008, para 126 milhões de toneladas, em 2009. Há de se considerar ainda que na Amazônia, enquanto a extração mineral responde por 25% do total das exportações, a transformação (ferro gusa, alumina e alumínio) responde por 21%. [8]. É importante ressaltar ainda que o extrativismo mineral representou 59,2% dos 8 bilhões de dólares produzidos pela indústria mineral do estado do Pará. Tratando-se de reservas conhecidas, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking mundial em bauxita, com depósitos concentrados em três distritos principais: Trombetas (médio Amazonas), Almeirim (baixo Amazonas) e Paragominas-Tiracambú (plataforma Bragantina). Já os depósitos de caulim estão distribuídos em três principais distritos: Manaus (médio Amazonas), Almeirim (baixo Amazonas) e Capim (plataforma Bragantina). O ouro e cassiterita estão distribuídos pelas mais diversas áreas da região amazônica. Serra Pelada, no sudeste do Pará, por exemplo, ainda representa grande potencial aurífero, fato que causa entreveros entre a Vale e cooperativas de garimpeiros, no município de Curionópolis. As jazidas de ferro em Carajás, com seus 18 bilhões de toneladas de minério, correspondem à maior concentração de alto teor já localizada no planeta, distribuídas em quatro setores principais: Serra Norte, Serra Sul, Serra Leste e Serra de São Félix ou Serra Arqueada.

Vale considerar que a pesquisa, extração e transformação mineral no estado do Pará ocorrem em quatro principais regiões: no Oeste, envolvendo os municípios de Oriximiná, Juruti, Monte Alegre, Alenquer e Óbidos; no Nordeste, compreendendo os municípios de Paragominas, São Domingos do Capim e Barcarena; no sudeste destaque para os municípios de Marabá, Cuirionópolis, Parauapebas e Canaã dos Carajás; e no Sul, os municípios de Xinguara, Ourilândia do Norte, Tucumã, São Félix do Xingu, Rio Maria, Floresta do Araguaia, Santa Maria das Barreiras e Conceição do Araguaia. 3 – As conseqüências A extração e transformação mineral na Amazônia efetivada pelas principais empresas do ramo: a Companhia Vale, a Anglo Americana, a ALCOA, a Albras, a Aluminum Limited of Canadá, a Alunorte, Rio Tinto, a Mineração Rio do Norte, Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Imerys Rio Capim Caulim S/A, Caulim da Amazônia S/A (CADAM/Vale), ICOMI, Pará Pigmentos S/A (PPSA/Vale), X Trata e Caraíba Metais, com o apoio e incentivo dos governos estaduais e federal vem se dando de forma espoliatória e predatória, desterritorializando populações tradicionais e degradando o meio ambiente. É notória a poluição do ar, do solo e das bacias hídricas, além do desflorestamento, destruição de habitat natural, de animais silvestres e de sítios arqueológicos [9]. São projetos dirigidos de fora 65

para dentro da região, sem que a população da Amazônia tenham a oportunidade de discutir e opinar sobre a viabilidade, necessidade e conseqüências desses empreendimentos. O que se percebe é que o impacto da mineração é localizado, desestruturante e ao mesmo tempo estruturante, ao modo que interessa às empresas. Desestrutura as comunidades locais (urbanas ou rurais), além de provocar a migração de milhares de pessoas. Diversas são aquelas que chegam de outras regiões do país acreditando que as atividades dessas empresas vão melhorar as suas vidas. É visível o aumento, sem controle, da população no entorno dos projetos mineralógicos. Não só os núcleos urbanos próximos dessas áreas passam por rápidas e indesejáveis transformações com o crescimento populacional, como também surgem outros aglomerados urbanos. O emprego esperado não aparece. Para sobreviver muitos são aqueles que se enveredam nos trabalhos temporários e informais. Assim, grande é o contingente de trabalhadores e trabalhadoras itinerantes, de vida marcada pela provisoriedade e mobilidade, e de mão-de-obra polivalente que lutam cotidianamente pela sobrevivência. Os efeitos até então incontroláveis, nessas regiões, têm sido a elevação do índice de violência com destaque para os homicídios, comércio de drogas, prostituição e acidentes de trânsito [10]. A própria Vale encaminhou uma pesquisa nesses municípios e constatou que entre 2000 e 2005 o crescimento populacional foi de 22,9% e a projeção de cresciFórum Carajás outubro de 2010

mento do ano de 2005 para o ano de 2010 será de 92,9%. No ano de 2000 essa área contava com 334.386 habitantes, em 2005, com 423.361. Na projeção para o ano de 2010, se forem desenvolvidos todos os investimentos previstos, segundo esta pesquisa, essa área contará com 817.268 habitantes [11]. Os migrantes que ali chegam diariamente, sem alternativa, se aventuram na formação de novos bairros (ocupações) compostos por casas, às vezes precárias, sem água encanada e sem esgoto sanitário. São, em sua maioria, trabalhadores pobres, analfabetos ou de baixa escolaridade, sem profissão definida. Os povos indígenas estão sendo cercados, não somente pelos latifúndios e exploração madeireira, mas também pela exploração mineral. O próximo alvo do setor minerário é conseguir a liberação da mineração em ter-

ras indígenas, que ocupam hoje 22% do território amazônico. [12] Como exemplo dos danos causados a esses povos, no sudeste do Pará, os índios Gaviões tiveram as suas terras atravessadas pela rodovia BR-222, pela linha de transmissão de energia elétrica de alta tensão da Eletronorte, que sai de Tucuruí rumo ao nordeste brasileiro, e pela Estrada de Ferro Carajás. Agora se vêem na iminência de ter parte do seu território inundada pela hidrelétrica de Marabá, no rio Tocantins. Os Xikrins do Cateté estão sendo ameaçados pela Vale a partir da execução dos projetos Salobo, de extração de cobre, no município de Marabá, e pelo projeto de extração de níquel na Serra do Puma, em Ourilândia do Norte. Além de impactar diretamente sobre esses povos que ali habitam, são sérios os riscos de degradação ambiental com alterações significativas à

biodiversidade. Por outro lado, o impacto da mineração é estruturante ao modo que interessa às empresas. Elas se aproveitam da conivência e submissão do Estado, das precárias condições em que vive a maioria da população dos municípios onde elas se instalam, para através da manipulação da consciência das pessoas, com o discurso da chegada do desenvolvimento e do progresso, criar um ambiente favorável para sua implantação e domínio. Desse modo, os governantes municipais, governadores dos estados e não raros deputados e políticos influentes assumem o discurso e a defesa dessas empresas além de lhes possibilitar infraestrutura, colaboração financeira e isenções tributárias, com vistas a fornecer-lhes condições competitivas e asseguratórias ao bom funcionamento dos seus empreendimentos.

Uma das situações emblemáticas que até hoje tem gerado consequências negativas ao meio ambiente e à população local é a exploração do manganês, em Macapá, no estado do Amapá. Depois da retirada de quase todo o minério, crateras de até 170 metros de profundidade ficaram a céu aberto. Enormes também são os estoques de rejeitos. “Calculase, que em Santana, estão estocadas cerca de 70.000 toneladas de rejeito provenientes do processo de pelotização e que apresenta um percentual de arsênio superior ao encontrado no minério in natura. A Fundação Evandro Chagas (Belém), depois de inúmeros exames laboratoriais, recomenda a imediata retirada desses rejeitos para que não se tenha risco de contaminação de qualquer natureza às pessoas ou comunidades próximas a estes locais”. [13] Em Oriximiná (PA), a Mineração Rio Norte (MRN) que explora as reservas de bauxita nesse município, provocou degradação do meio ambiente com os rejeitos da mineração a partir da emissão de partículas sólidas e material estéril, como argila, bauxita fina e areia. O maior desastre foi causado no lago do Batata. As populações locais, formadas em sua maioria por camponeses e ribeirinhos foram alijadas de seus direitos sobre as áreas de castanhais que ficam ao norte da Floresta Nacional de Sacará-Taquera, onde a mineradora está situada. Já a Alumínio Brasil S/A (ALBRAS) e a Alumina Norte Brasil S/A (ALUNORTE), grandes produtoras nacionais de alumina e alumínio instaladas no município

de Barcarena (PA), têm causado enormes prejuízos às comunidades locais com o carreamento de poluentes compostos com dióxido de alumino e soda cáustica para os cursos d’água. A Pará Pigmentos S/A (PPSA) é outra empresa que tem causado sérios danos ambientais às comunidades no norte do estado do Pará. O beneficiamento de caulim, no município de Ipixuna tem contaminado cursos d’água afetando tragicamente as comunidades ribeirinhas. A Vale tem trazido sérios prejuízos às comunidades de quilombolas de Jambuaçú e outras comunidades dos municípios de Acará e Mojú com a construção de 180 quilômetros de mineroduto (transporte de bauxita) e linhas de transmissão de energia elétrica. Não só a produção agrícola foi prejudicada, mas vilas e povoados foram impactados diretamente pelos empreendimentos. Casos notórios são também aqueles causados pela Vale no sudeste do Pará. A exploração do ouro no igarapé Bahia espalhou substâncias químicas na região por conta do uso de soda cáustica e cianeto para a separação do minério da rocha primária. Não muito distante, a empresa construiu uma barragem de contenção no igarapé Gelado para o barramento de rejeitos oriundos da exploração do minério de ferro na Serra de Carajás. Em 1992 esta barragem transbordou e inundou áreas de camponeses da região causando sérios prejuízos econômicos e ambientais. Desde então são ameaçados por outras inundações. Recentemente esta empresa tem causado danos aos assentados do Projeto de Assentamento 67

Cinturão Verde, município de Marabá. Os serviços de prospecção efetivados pela empresa têm contaminado nascentes de águas e danificado estradas e cercas de arame dos camponeses. A Mineração Buritirama S/A, instalada dentro desse mesmo assentamento vem contaminando as águas dos igarapés Bandeira e Grotão com a exploração do manganês. Trabalhadores têm reclamado que no período chuvoso os rejeitos provenientes da lavagem do minério têm alcançado os cursos d’água, impossibilitando o seu uso. Em 2003, a mineradora Canico do Brasil, da Specific International Scientific Cooperation Activities (INCO), empresa canadense, proprietária dos direitos minerários do projeto de extração de níquel nas serras do Onça e do Puma, no município de Ourilândia do Norte, sul do Pará, expulsou 82 famílias através de compra ilegal dos lotes nos projetos de assentamentos Campos Altos e Tucumã, danificou reservas florestais, contaminou os igarapés e desestruturou a comunidade com os serviços de pesquisas. Em 2006, a Vale adquiriu o controle do projeto e continuou causando danos ambientais, econômicos e sociais, inviabilizando a vida de centenas de famílias assentadas que ainda resistem nos referidos assentamentos. Agora essa empresa pleiteia a expulsão de mais 93 famílias assentadas. A direção nacional do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) tem sido totalmente conivente com os desmandos da empresa e omisso no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores rurais.
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As empresas de mineração na Amazônia são beneficiadas pela Lei Complementar nº 87, de 1996, também conhecida como Lei Kandir. Como elas exportam produtos considerados matériasprimas são isentas de pagar Impostos sobre Circulação de Mercadorias (ICMS). Os valores dos royalties ou da Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) repassado pelas empresas aos municípios são extremamente baixos. Eles variam entre 1 e 3% do faturamento líquido. Como os cálculos são feitos pelas próprias empresas mineradoras, a União, o Estado e os municípios são lesados. O município de Parauapebas (PA), após uma auditoria, identificou que foi lesado pela Vale em mais de 700 milhões, como a Vale não se propõe pagar, a reclamação está na justiça [14]. 4 – Resistências Em quase todas as regiões onde se desenvolvem trabalhos de extração e de transformação mineral pelas grandes empresas do ramo, com apoio quase que incondicional do Estado, os movimentos sociais têm demonstrado alguma reação. Os camponeses, sobretudo, têm implementado, embora que em âmbito local, diversas ações contrárias a esta lógica perversa do capital. Na região Guajarina, proximidades de Belém, as comunidades quilombolas do Jambuaçu, no ano de 2006, após muitos dias de mobilização e protesto, derrubaram uma torre de transmissão de energia elétrica da Vale para que a empresa concordasse em negoFórum Carajás outubro de 2010

ciar as compensações pelos danos ambientais, sociais e econômicos causados em seu território com a construção de um mineroduto que leva bauxita de Paragominas para Barcarena. Na região de Carajás, em junho 2003, os índios Xicrin com flechas e bordunas ocuparam as instalações do Projeto Sossego, da Vale, em Canaã dos Carajás, no sul do Pará. Eles exigiam a construção de uma estrada até a aldeia, escola e casas. Haviam-se completado dez anos de promessas não cumpridas da empresa às aldeias Cateté e Djudjecô [15]. Em outubro de 2006, os Xicrin ocuparam por mais de três dias a mina de ferro de Carajás na tentativa de obrigar a Vale a negociar valores referentes a direitos dos índios, em decorrência dos impactos sofridos pelo projeto Ferro Carajás. No final de 2007 e início de 2008, povos indígenas e trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e à Via Campesina fizeram várias manifestações com ocupações dos trilhos da Estrada de Ferro de Carajás administrada pela Vale. Essas ações culminaram com a criação do Movimento dos Trabalhadores na Mineração (garimpeiros) e o lançamento de um manifesto intitulado Manifesto da Mobilização dos Camponeses de Marabá. Em setembro de 2008, no município de Ourilândia do Norte, mais de 200 trabalhadores rurais dos Projetos de Assentamento Tucumã e Campos Altos, interditaram, por três dias, uma estrada usada pela Vale, que dá acesso à área de mineração da Serra Onça, 68

onde a empresa iniciou trabalhos para a extração de níquel. Os trabalhadores só deixaram o local depois que representantes da Companhia se dispuseram a discutir com a comunidade os problemas sociais e ambientais causados por ela. No final de janeiro de 2009, em Juruti, oeste do Pará, trabalhadores atingidos pela extração e transformação de bauxita pela mineradora ALCOA iniciaram ferrenha luta pelos seus direitos. Uma manifestação que começou com 800 trabalhadores, terminou com 2.500. A manifestação que durou uma semana, resultou numa negociação entre os trabalhadores e o representante da empresa envolvendo órgãos estaduais e os ministérios públicos estadual e federal. Se por um lado é possível perceber que os amazônidas e os movimentos sociais vêm tomando consciência dos impactos dos projetos de mineração, por outro, lideranças e suas organizações sofrem com o processo crescente de difamação, ameaças e criminalização, orquestrado pelas mineradoras, grupos políticos ligados a elas, os meios de comunicação e o poder judiciário. Devido a Prelazia do Xingu, através do seu bispo Dom Erwin Klauter, ter se colocado em defesa das comunidades indígenas e contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, o religioso vem sendo vítima de uma campanha de difamação movida pelos meios de comunicação ligados à Vale e tem sido ameaçado de morte tendo, inclusive, que andar protegido por policiais militares.

No Sudeste do Pará, o advogado da CPT, José Batista Gonçalves Afonso, que atua na defesa dos trabalhadores e lideranças indiciadas ou processadas em decorrência de conflitos com a Vale, foi vítima de uma condenação pela Justiça Federal de Marabá, em junho de 2008. Ele foi condenado a uma pena de 2 anos e 5 meses de prisão sem direito à pena alternativa. Acredita-se que a pesada condenação imposta pelo juiz foi em razão da atuação do advogado em defesa dos trabalhadores e contra os interesses da Companhia. Nessa mesma região, em setembro de 2008, uma liderança do MST e duas lideranças do Movimento dos Trabalhadores na Mineração (garimpeiros) foram condenadas pelo mesmo juiz ao pagamento de uma multa de 5 milhões e 200 mil reais por elas terem participado de mobilizações que resultaram na interdição da Estrada de Ferro Carajás. Contrariando o que diz a própria Lei, o juiz atribui às três pessoas uma condenação que, teria que ser aplicada a cada uma das quinhentas pessoas que participaram da interdição. A explicação do juiz é que eles eram lideranças e, por esta razão, deveriam ser condenados.

5 – Considerações Finais As características do capitalismo são as mesmas em qualquer parte do mundo: concentração dos meios de produção; desenvolvimento das forças produtivas; exploração da força de trabalho; acumulação da maisvalia por poucos; e geração de pobreza e miséria para a maioria. Na Amazônia, a expansão da exploração mineral, como foi demonstrada, nada mais é do que a expansão do próprio capitalismo destruidor e perverso, que expropria e explora intensivamente a terra, as águas, as florestas e a força dos trabalhadores. São projetos baseados no extrativismo, de curta duração, que não agregam riquezas para as localidades, mas desestruturam relações de trabalho, comunidades e desterritorializam pessoas num processo de estruturação de uma sociedade do caos: aglomerados populacionais com alto índice de desemprego, criminalidade, com péssimas condições de habitação, saneamento básico e educação. O Estado, entreguista e arrecadador de migalhas na defesa do capital, coloca à disposição das

corporações todo seu aparato jurídico e policial, para facilitar a implantação dos empreendimentos e seu funcionamento ao mesmo tempo que reprime e repreende os movimentos sociais que venham a se opor a esta lógica. É necessário e urgente fazer com que os bens naturais da Amazônia sejam colocados à disposição de seus povos e não para aumentar os lucros das grandes empresas. Os minérios, ao contrário do que vem acontecendo até o momento, devem gerar benefícios para as populações locais e diminuir as desigualdades e a pobreza. Não é justo e nem lícito que as empresas com direta participação do Estado continuem causando sérios prejuízos às comunidades camponesas e ao meio ambiente. Não interessa para a sociedade amazônica a extração e transformação mineral, na forma de saque como está sendo feita, com a geração de crateras que jamais possam ser recuperadas. Não interessa os rejeitos tóxicos, as matas devastadas, o solo e águas poluídas. Pelo contrário, torna-se um desafio a desconstrução do atual modelo imposto pelo capital e a construção de um modelo sustentável e racional de aproveitamento dos recursos minerais na Amazônia.

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[6] A situação dos minérios mais extraídos na Amazônia é esta:

CVRD e Diagonal. Diagnostico Integrado em So- em primeiro lugar, o ferro, que em 2008, respondeu por 35,2% cioeconomia para os empreendimentos da CVRD. do total nacional. Em segundo lugar, a alumina (bauxita) com 17,6%, em terceiro, o alumínio com 15,1% e em quarto, o co2006.
bre com 11,3%. O manganês da Mina do Azul, em Carajás,

CORREIO DO TOCANTINS, Marabá, 10 a 12/01/2009. INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO (IBRAM). Informações e Análises da Economia Mineral Brasileira, 3ª edição, IBRAM, 2008. __________. Indústria da Mineração, IBRAM, Ano III, nº. 20, 2008.

e da Buritirama, em Marabá, contribuíram com mais de 50% da extração nacional, dos 2,4 milhões de toneladas extraídas em 2008. O estado do Pará é ainda responsável por 100% da extração nacional do caulim, 85% da bauxita, 60% do cobre e 10% do ouro (Companhia Vale do Rio Doce. Relatório de Produção, 2008). [7] O município de Parauapebas, no sudeste paraen se, participou com 35,8% (minério de ferro), Barcarena com 33,3% (alumina e alumínio), Canaã dos Carajás com 10% (co-

FÓRUM PARAENSE DE DESENVOLVIMENTO. bre), Marabá com 7,1% (ferro gusa e manganês), Oriximiná 50 Anos de Mineração na Amazônia, Belém: Cejup, com 6,3% (bauxita), contribuindo significativamente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. O muni2003.
cípio de Belém participou com 28,21%, para o PIB do estado,

O LIBERAL, Belém, 13/06/03. SANTOS, Breno Augusto dos. Recursos Minerais da Amazônia, 2002.

em segundo lugar, Barcarena com 8,03%, Parauapebas com 6,72%, Marabá com 5,91%, Ananindeua com 5,56%, Canaã dos Carajás com 1,58% e Oriximiná com 1,42%. [8] Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Informa-

SCHMINK, Marianne and WOOD, Charles H. ções e Análises da Economia Mineral Brasileira, 3ª edição, Contested Frontiers in Amazonia. New York: Co- IBRAM, 2008. lumbia University Press, 1992.
[9] O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos

_______________________________________
[1] Historiador e Agente da Comissão Pastoral da Terra, em Marabá.

Naturais Renováveis (IBAMA) já lavrou 56 autos de infração contra a Vale, desde que foi privatizada, o que resultou em 37 milhões de reais em multas não pagas. [10] Os registros mostram que na área de influência da Vale, no

[2] Advogado e Agente da Comissão Pastoral da Terra, em Marabá. [3] Sociólogo e Agrônomo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular. [4]Marianne Schmink and Charles H. Wood Contested Fron1992. Fórum Carajás outubro de 2010

sudeste paraense (municípios de Marabá, Parauapebas, Canaã dos Carajás, Eldorado dos Carajás, Curionópolis, Ourilândia do Norte e Tucumã), as mortes por causas violentas aumentaram em 23% de 2007 para 2008, considerando os corpos que passaram pelo Instituto Médico Legal (IML) de Marabá. No ano de 2008, os municípios de Marabá e Parauapebas foram os que mais registraram mortes por assassinato. Marabá saltou de saltou de 62, em 2007, para 94, em 2008 [10].

tiers in Amazonia. New York: Columbia University Press, 187 assassinatos, em 2007, para 266, em 2008, e Parauapebas,

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[11] CVRD e Diagonal Urbana Consultoria. Diagnóstico Integrado em Socioeconomia para os empreendimentos da CVRD. 2006. [12] Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei tuição Federal que impede a atividade em território indígena. [13] (Fórum Paraense de Desenvolvimento. 50 Anos de Mineração na Amazônia, Belém: Cejup, 2003).

[14] Em 1997, do faturamento de mais de 2 bilhões de dólares das empresas com a movimentação da bauxita extraída, em Oriximiná, e da produção de alumínio, em Barcarena, somente 30 milhões de dólares foram recolhidos aos cofres públicos, o que representa apenas 1,5% do faturamento. Em 2008, o recodo faturamento. Significa que nem os 2%, como manda a Lei que determina o valor da CFEM, para o caso da bauxita, está sendo cumprido. [15] O LIBERAL, Belém, 13/06/03.

1610/96 com o objetivo de regulamentar o art. 231 da Consti- lhimento de 700 milhões de reais representou somente 1,44%

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Visita de Sussane (Assessora de mineração/MISEREOR ) ao Escritório do Fórum Carajás.

Reunião do Grupo Salvaterra em Rio do Cachorros, São Luís/MA

Carvoarias no Baixo Parnaíba Maranhense

Mineração Aurizona em Godofredo Viana/MA

Integrantes do Fórum Carajás, Sindmetal e pesquisadores alemães (ASA) em visita a Alcoa.

Alcoa em Juruti/PA

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