Alumínio na Amazônia 2009

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Copyright © 2009 by Fórum Carajás

Ficha Catalográfica: Márcia Pereira de Abreu Pinheiro Editoração e Impressão: Fort com. Gráfica e Editora Foto de Capa: Sindmetal/Maranhão Tiragem: 1.000 exemplares

ALUMÍNIO ALUMÍNIO NA AMAZÔNIA: SAÚDE DO TRABALHADOR, MEIO AMBIENTE E MOVIMENTO SOCIAL

Alumínio na Amazônia: saúde do trabalhador, meio ambiente e movimento social / Rogério Almeida (organizador). – São Luís: Fórum Carajás, 2009. 154 p.: il.

1.Alumínio – Amazônia. 2. Alumínio – Indústria – Aspectos Ambientais. 3. Alumínio – Indústria – Aspectos sociais. 4. Trabalhadores – Cuidados médicos – Amazônia. 5. Movimentos sociais – Amazônia. I. Almeida, Rogério. CDD 338.47669722
A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright

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Centro dos Direitos das Populações da Região de Carajás Fórum Carajás Programa: Siderurgia na Amazônia- Projeto “Políticas Públicas e Sustentabilidade da Região de Carajás”. Coordenação Executiva do Fórum Carajás: Antonio Gomes de Morais Edmilson Carlos Pinheiro Jean Carlos Santos Apoio: Misereor Textos: Maurílio de Abreu Monteiro, Eder Ferreira Monteiro, Marluze Pastor Santos, Hermano Albuquerque de Castro, Ednalva Maciel Neves, Elio Lopes dos Santos, Manoel Maria de Morais Paiva, Reinaldo Damasceno e Rogério Almeida Organização: Rogerio Almeida (Jornalista) Colaboração: Edmilson Pinheiro Fórum Carajás Avenida João Pessoa, Q. 09, Casa 19- Filipinho CEP: 65040-000 São Luís/MA/Brasil Site: www.forumcarajas.org.br E-mail: forumcarajas@forumcarajas.org.br Fone/fax: (098) 3249-9712

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São Luís - MA 2009
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CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO: PROCESSO INDUSTRIAL E FONTES DE POLUIÇÃO Elio Lopes dos Santos

Agradecimentos

III PARTE Movimentos sociais, saúde do trabalhador, meio ambiente e política

CADEIA PRODUTIVA DE ALUMÍNIO NA AMAZÔNIA: IMPACTOS AMBIENTAIS, SOCIAIS E A PELEJA SINDICAL Manoel Maria de Morais Paiva LINHAS SOBRE A ASSOCIAÇÃO DOS VITIMADOS DAS FÁBRICAS DE ALUMÍNIO DE BARCARENA, PARÁ: SAÚDE E MEIO Reinaldo Damasceno Rogério Almeida

O Fórum Carajás nestes seus 17 anos tem-se consolidado na luta, na resistência e também nas proposições numa região onde os grandes projetos assolam as populações locais. Os estudos, as pesquisas e as informações nascidas no meio desta Articulação têm pautado e subsidiado os mais diversos grupos, organizações e movimentos nos seus embates e na busca por seus direitos. Este livro ora apresentado é apenas uma parcela do que o movimento, academia e pesquisadores vem acumulando nestas ultimas décadas, o que nos enaltece e nos fortalece a cada dia. Agradecemos por mais esta caminhada aos companheiros, colaboradores e pesquisadores: Maurílio de Abreu Monteiro, Eder Ferreira Monteiro, Marluze Pastor Santos, Hermano Albuquerque de Castro, Ednalva Maciel Neves, Manoel Maria de Morais Paiva, Reinaldo Damasceno, Rogério Almeida e a toda equipe do Fórum Carajás.

Este livro não seria possível sem o apoio das comunidades e populações da Região de Carajás, dos químicos, dos metalúrgicos, funcionários e sindicalistas que trabalham e lutam por dias melhores e por mais dignidade na Amazônia. Edmilson Pinheiro Fórum Carajás

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SUMÁRIO

Apresentação I PARTE Contexto do Alumínio na Amazônia AMAZÔNIA: OS (DES) CAMINHOS DA CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO Maurílio de Abreu Monteiro e Eder Ferreira Monteiro

O DIÁLOGO INTERNACIONAL DO ALUMÍNIO Marluze Pastor Sántos

II PARTE Saúde do trabalhador A SAÚDE DOS TRABALHADORES DA CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO Hermano Albuquerque de Castro

A PONTA DO ICEBERG: ESTUDO SOBRE ACIDENTES, “INCIDENTES” E DOENÇAS DE TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DO ALUMÍNIO EM SÃO LUÍS – MA Ednalva Maciel Neves

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representações dos(as) trabalhadores(as) e ex-operários(as), pontuando a peleja em torno de suas demandas sociais, ambientais e políticas. Mais que um registro, pretende-se que esta publicação seja uma ferramenta de base técnica que possa ser usada para a efetivação da garantia dos direitos dos(as) trabalhadores(as) em diferentes frentes: de enfrentamento com o capital privado e junto aos órgãos públicos do setor da saúde e da liberdade de organização sindical, meio ambiente e política. Fórum Carajás

Apresentação A intervenção militar ao apagar das luzes da década de 1960 e início da década de 1970 cimentou a trilha do saque rumo às terras e aos recursos naturais nela existentes na Amazônia. Com o aporte do Estado, o capital privado nacional e internacional se alastrou sobre imensas áreas na região, equivocadamente considerada um vazio demográfico. Uma indiferença aos habitantes originais, os(as) indígenas. A sanha sobre os recursos naturais engendrou um vasto leque de passivos das mais variadas ordens, que espocam como chagas, a repetir a experiência ibérica nas Américas em tempos coloniais. Na trilha do saque germinam concentração de poder político e econômico, grilagem de terras, mortes, devastação da floresta, trabalho escravo, prostituição infantil, desastres ambientais, introdução de monoculturas e cultivos de espécies exóticas e indiferença/silêncio da mídia. O balanço nas dimensões sociais e ambientais dos diferentes ciclos econômicos, baseados em variadas formas de extrativismo poderia ser pior? A lógica do que é conhecido como grandes projetos: a exploração madeireira, o extrativismo mineral, a pecuária, a construção de empresas de gusa, a fomentação de empresas de eletro intensivo (fábricas de alumínio), a construção de hidrelétricas e a edificação de portos é a transferência de riquezas para além-mar. Trata-se do que os economistas chamam de economia de enclave, onde as mazelas são socializadas entre os nativos: camponeses, quebradeiras de coco babaçu, pescadores, indígenas, coletores, ribeirinhos, quilombolas e tantas outras categorias que dão colorido à diversidade social da Amazônia.

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A inquietação sobre a questão não é nova. Há pelo menos duas décadas, numerosas interrogações povoam o ambiente: É a condição periférica a nossa sina? Desenvolvimento para quem? Que projeto de desenvolvimento desejam os que habitam a Amazônia? O horizonte das políticas públicas para a região não soa animador. Uma visita aos planos nota-se uma manutenção das lógicas pretéritas. Há um conjunto de obras de infra-estrutura que objetivam a integração do continente sul-americano através de eixos de integração: energia, transporte e comunicação. A base é animar a circulação de mercadorias, ao invés dos pólos de produção: madeira, pecuária e minérios, dos tempos ditatoriais. Especialistas sugerem que é necessário mensurar economicamente a Amazônia para que a gula do capital não a subjugue. É possível uma outra globalização? Em dias idos, o geógrafo Milton Santos alertou para o aumento da sanha dos grandes conglomerados sobre as terras e os recursos naturais renováveis ou não, nas periferias do mundo. O mundo de cá parece fatiado para os grandes. A presente publicação que ora se apresenta busca lançar um pouco de luz sobre um dos passivos sociais originados das grandes empresas do setor de alumínio na região. O foco reside na saúde do (a) trabalhador(a) nas fábricas de alumínio do Pará, Albras e Alunorte, sob o controle do grupo Vale; e da Alumar, empresa do grupo Alcoa, com sede no Maranhão. A publicação pontua ainda aspectos ambientais, com registros de acidentes industriais. A demanda agora registrada em livro foi ponto de diferentes encontros da rede Fórum Carajás ocorridos dentro e fora do país. Representantes dos(as) trabalhadores(as) das duas fábricas sempre sublinharam o passivo na área da saúde da categoria no interior das fábricas e a imensa dificuldade em se conseguir estabelecer o nexo

causal das doenças com a atividade laboral. Limites que passam pela má fé de profissionais em níveis privado e público, além do poder das empresas em questão. A publicação se encontra dividida em três partes. A primeira contempla a construção do contexto do processo da produção do alumínio na Amazônia e o debate do assunto no interior da rede Fórum Carajás. Os pesquisadores Maurílio Monteiro ao lado do jovem Eder Monteiro fazem a contribuição inicial. Já o segundo artigo da seção é produzido pela ex-coordenadora da rede, Marluze Pastor, que recupera a linha do tempo do debate no interior da rede. Três especialistas se debruçam sobre a temática central do livro, a saúde do trabalhador, são eles Hermano Albuquerque de Castro, médico do trabalho e doutor em Saúde Pública, coordenador do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) – Fiocruz/MS; que trata da problemática a partir de pesquisa realizada com trabalhadores nas fábricas do grupo Vale da cadeia de produção de alumínio localizadas no município de Barcarena, Pará. Já o levantamento da doutora Ednalva Neves, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) trata da questão na fábrica Alumar, do grupo ALCOA, localizada no Maranhão. O trabalho do professor Elio Lopes dos Santos, técnico do Ministério Público Federal e professor da Faculdade de Engenharia Química e coordenador do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho da Universidade de Santa Cecília, de Santos (Unisanta), consiste em analisar os poluentes e seus efeitos na cadeia de transformação do minério. Já terceira enfoca a trajetória de algumas representações dos (as) trabalhadores(as) e ex-trabalhadores(as) das fábricas de alumínio no Pará. Os mesmos fazem a reconstrução das trajetórias das

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produzidas, respectivamente, pelas empresas Alumínio Brasileiro S.A. (Albras) e a Alumina do Norte S.A. (Alunorte). Mesmo nos anos 1990, o Estado nacional brasileiro, já sem o poder de centralização e recursos financeiros de que dispunha nos anos 1980, patrocinou planos como o “Brasil em Ação” (1996-1999) e o “Avança Brasil” (2000-2003), e recorreu, naquele momento, ao discurso da eficiência das forças de mercado como propulsoras de desenvolvimento regional e indicou a necessidade da criação de eixos estruturadores de desenvolvimento regional. Estes, por sua vez, seriam reforçados pelo aporte infra-estrutural para que corredores multimodais estimulassem o dinamismo regional. Naquele contexto, uma vez mais, o município de Barcarena assumiu destaque nos planos do governo central como um local-chave dos “eixos de integração nacional”. No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a visão oficial, expressa pelo “Plano Plurianual 2004-2007”, indicava que se fosse dada máxima prioridade para o controle da inflação e a elevação do saldo da balança comercial. Isto implicou dispensar tratamento privilegiado aos agentes econômicos que para exportar não necessitem realizar grandes importações, como no caso das grandes empresas mínero-metalúrgicas, sendo que, neste especial, teve significância simbólica a presença do presidente Lula na cerimônia que comemorou a ampliação da fábrica da Alunorte, em 25 de fevereiro de 2006. No Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciando pelo presidente Lula no primeiro ano de seu segundo mandato (2007), as obras de ampliação do Porto de Barcarena foram indicadas com uma das prioridades em termos nacionais. Assim, as diferentes tentativas estratégicas de modernização patrocinadas pelo Governo Federal na Amazônia oriental tiveram, de formas diversas, repercussão decisiva para a implantação e ampliação da indústria de alumínio em Barcarena.

I PARTE Contexto do Alumínio na Amazônia

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AMAZÔNIA: OS (DES) CAMINHOS DA CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO * Maurílio de Abreu Monteiro** Eder Ferreira Monteiro***

1 A indústria do alumínio em Barcarena: decorrência de estratégias modernizantes Durante os governos militares, as estratégias de modernização para a Amazônia intensificaram o ritmo e alteraram a forma pela qual se desenvolviam na região os processos de reestruturação espacial, de mudanças demográficas e econômicas. O Governo Federal lançou os fundamentos de intervenção do Estado na economia como forma de favorecer o desenvolvimento. Para tanto, foram escolhidas áreas que deveriam concentrar espacialmente capitais, receber a maior parte dos incentivos e de aporte infra-estrutural. Barcarena, no Estado do Pará, foi um dos municípios escolhidos para receber indústrias de transformação da bauxita (minério de alumínio) em alumina e em alumínio primário. Em função das ações do Estado nacional, o município de Barcarena se tornou um importante exportador de commodities minerais, com destaque para o alumínio primário e a alumina,

∗ A elaboração deste trabalho contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). ∗∗ Doutor em Ciências: Desenvolvimento Socioambiental, professor do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA). E-mail: maurílio_naea@ufpa.br. ∗∗∗ Graduado em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA). **** Publicado pelo NAEA

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para o que, segundo a empresa, foram realizados investimentos que superam US$ 1,6 bilhão. 3 Indústria do alumínio e promessas modernizantes Com a implantação da Albras, criou-se uma gama de novas relações sociais, ambientais e econômicas na região, transformando com isso a realidade e a paisagem até então existentes. Como se indicou, a atuação do Estado nacional brasileiro e a do capital transnacional foram fundamentais para a instalação dessa nova realidade na região. A estruturação da indústria de alumínio sofre pressões que guardam ligações estreitas com reestruturações das bases financeiras e produtivas da economia mundial e que se refletem nas dinâmicas estabelecidas entre o capital e o trabalho. Algumas destas pressões e mudanças delas decorrentes, no âmbito da Albras, são discutidas a seguir. O apoio à edificação de gigantescas plantas industriais destinadas à produção de alumínio guardou, e ainda guarda, sintonia com um recorrente discurso sobre o desenvolvimento da Amazônia; nele se afirma que, em face das “grandes dimensões”, dos “enormes problemas existentes” e mesmo do reconhecimento da existência de “gigantescas potencialidades”, a tarefa de modernização da Amazônia só é capaz de ser realizada por grandes capitais. Esta visão ideologizada acerca do processo de modernização da região se presta muito bem a justificar expressões como a de “civilização do alumínio”, presente na reportagem da revista Veja, de 5 de janeiro de 2000 (FERRAZ, 2000), assinada pelo jornalista Silvio Ferraz, que a utiliza para caracterizar o ambiente social que envolve a relação entre a Albras, seus funcionários e a sociedade local. A reportagem busca ressaltar os avanços ocorridos na relação entre

2 Macrocenário da implantação da indústria do alumínio na Amazônia A instalação de fábricas de alumínio primário na Amazônia oriental brasileira se deu no contexto de reestruturação da indústria mundial de alumínio, no qual os governos militares se empenhara para que, paralelamente à exploração das reservas de bauxita, fossem também regionalmente produzidas alumina e alumínio primário, o que se fez por meio da adoção de uma série de medidas que favoreceram os capitais interessados na valorização da bauxita, da alumina e do alumínio primário. Como parte destes esforços, criou-se, em 1973, a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. A. (Eletronorte), com a finalidade de viabilizar a implantação de usinas capazes de aproveitar o potencial hidroelétrico da região, tarefa indispensável para a transformação industrial da alumina em alumínio. Assim, logo após a sua criação, a Eletronorte assumiu a coordenação da construção da Usina Hidroelétrica de Tucuruí. O acordo inicialmente firmado entre a CVRD e a Light Metals Smelters Association (LMSA), empresa japonesa, em 1974, estimava, em valores da época, que seriam necessários investimentos de US$ 2,5 bilhões para se implantar na Amazônia uma fábrica de alumina com capacidade de produção para 1,3 milhão de toneladas anuais, que supririam a demanda de uma outra unidade voltada à produção de alumínio primário. Destes investimentos, 28% deveriam ser destinados à participação na construção da Usina Hidroelétrica de Tucuruí, e 8% para obras de infra-estrutura (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE; LIGHT METALS SMELTERS ASSOCIATION, 1974, p.17). Em 1975, os sócios japoneses questionaram a viabilidade da sua participação no empreendimento, especialmente devido aos

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elevados custos referentes à construção da Usina Hidroelétrica de Tucuruí e à montagem da infra-estrutura para dar suporte aos projetos. Para manter os capitais japoneses como partícipes do empreendimento, no processo de negociações, o governo brasileiro eximiu os parceiros da responsabilidade de qualquer participação na edificação da usina para a geração de energia elétrica e assumiu, integralmente, a responsabilidade com todos os custos referentes à construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Assim, como parte destas novas formas de investimento em “países em desenvolvimento”, que se generalizaram mundialmente na década de 1970, consolidou-se, em 1978, a Albras, uma associação entre a CVRD e a substituta da LMSA, a Nippon Amazon Aluminiun Corporation (NAAC), que representava um consórcio, mais amplo, que envolvia 33 empresas e o próprio Estado nacional japonês que, participou com 49% do empreendimento, cabendo o restante à empresa brasileira. Para a produção da alumina, criou-se a Alunorte, na qual a participação do consórcio japonês seria menor do que na Albras, e deveria ser equivalente a 39,2% do empreendimento. No ano de 1980, os favores patrocinados pelo governo brasileiro ao empreendimento foram ampliados através da assinatura de um contrato entre a Eletronorte e a Albras, garantindo acesso ao fornecimento de energia elétrica a preços não vinculados aos custos de geração e transmissão da energia, mas sim ao valor do alumínio no mercado mundial. Estabeleceu-se no contrato de fornecimento três fórmulas de cálculo dos valores da energia, cabendo à Albras optar pela que mais lhe fosse benéfica. De tal contrato, com duração de 20 anos, resultou o fornecimento de energia com custos abaixo dos de produção, implicando num subsídio em favor da Albras. Este contrato vigorou desde 1984 e foi encerrado em junho de 2004.

Sob tais condições, e com o apoio e aval estatal ao empreendimento, a Albras foi instalada no distrito industrial de Barcarena, em uma área com cerca de 320 ha, próxima ao terminal portuário. O Governo Federal, por meio da Portobras, construiu o porto de Vila do Conde para atender às demandas de carga e descarga derivadas da produção do alumínio. Ele foi edificado em uma área de 430 ha à margem direita do rio Pará, no local então denominado Ponta Grossa, com condições para receber navios de grande calado. Já a implantação da malha viária que serviria ao projeto foi efetivada pelo Governo Estadual. Os custos inicialmente previstos para a implantação daquela unidade industrial apta a valorizar 320 mil toneladas de alumínio primário por ano, foram estimados em US$ 1,343 bilhão, em valores da época. Na negociação que envolveu a implantação da Albras, estabeleceu-se uma relação debt/equity de 70/30 (VIVACQUA; ANDRADE; MACHADO, 1981, p. 25). Uma decisão que implicou a necessidade de se recorrer a empréstimos que ultrapassaram a cifra de US$ 1 bilhão e que foram efetivados, em sua maioria, em moeda japonesa, endividamento que elevou imensamente os custos financeiros da unidade de transformação industrial, fazendo com que se acumulassem em seus balanços sucessivos prejuízos vinculados a despesas realizadas com custeio da dívida. A Albras foi implantada em duas fases, cada uma com capacidade para produzir 160 mil toneladas por ano de alumínio. A fase I foi inaugurada em outubro de 1985. Em fevereiro de 1991 se completou a instalação da fase II. E em dezembro do mesmo ano foi finalizado o processo de melhorias tecnológicas que possibilitaram a elevação da produção a um patamar de 350 mil toneladas por ano. Disto resultou um ritmo ascendente de produção de alumínio primário,

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Gráfico 02: Número de empregados e produtividade física. Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª região (1986-2006).

É necessário ir além das aparências manifestas nestes números e estatísticas, amplamente divulgadas em uma grande variedade de documentos da empresa, e investigar parte do conteúdo a ela subjacente e, em parte, materializada pela relação entre a empresa e seus funcionários. No caso da Albras, estes números (Gráfico 02) são a manifestação mais visível de uma reestruturação produtiva aos moldes das que ocorriam noutras partes do planeta e que impunham relações de trabalho fortemente caracterizadas pela flexibilização das relações trabalhistas e pela terceirização de atividades. A reestruturação produtiva na Albras proporcionou um grande impacto na estrutura da força de trabalho e teve um grande preço para os trabalhadores do setor. A partir dos anos 1990, sob o novo modelo, o número de trabalhadores diretamente contratados pela Albras foi sendo sistematicamente reduzido. Assim, enquanto os índices de

empresa e empregados nos últimos anos, assim como suas ações que beneficiam algumas das comunidades existentes em Barcarena. Assim, o recurso à expressão “civilização do alumínio” guarda sintonia ideológica com as expectativas de se atingir uma rápida modernização e desenvolvimento da região através da extração e a transformação industrial de minerais na Amazônia oriental (MONTEIRO, 2005). Figurando na lista das maiores empresas do país, a empresa passou a vincular o crescimento da produção e faturamento (Gráfico 01) e as mudanças decorrentes da sua operação como sendo resultado da “civilização do alumínio”, em especial no âmbito da produção de riquezas, da responsabilidade social e ambiental, da qualidade no trabalho e da assistência junto às comunidades que cercam a área da empresa. A evocação da dimensão civilizatória do empreendimento ganha reforço discursivo pelo fato de a empresa passar a ser uma das maiores e mais produtivas empresas dedicadas à produção de alumínio primário do mundo (EXAME, 2000; 2001; 2002; 2003).

Gráfico 01: Evolução da produção das vendas da Albras. Fonte: Site da Albras. Acesso em 20 abr. 2007.

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4 Flexibilização produtiva e resistência dos trabalhadores A presença da Albras na lista das empresas mais produtivas do segmento tem articulação com um processo iniciado ainda no fim da década de 1980: sua reestruturação produtiva e administrativa. Naquele momento (1989) a empresa iniciou mudanças em seu modelo de gestão, implantando um novo programa de gestão da força de trabalho e do processo produtivo, que utiliza a metodologia do Total Quality Control (TQC – Controle de Qualidade Total), no estilo japonês. A adoção desde modelo de gestão ressaltou, em grande medida, a percepção dos sócios nipônicos sobre a condução de negócios. Adotaram-se mudanças que tinham por objetivo ampliar o potencial produtivo da planta, adequando-a às novas dinâmicas do mercado mundial. Essa reestruturação proporcionou mudanças significativas na distribuição e configuração de seu quadro funcional, tendo sido provavelmente a Albras a primeira grande empresa na Amazônia Oriental a introduzir o novo paradigma de gestão, proporcionando a “flexibilização” de seu processo produtivo, reorganizando “os postos de trabalho, mantendo as atividades centrais (focais) em seu quadro funcional e terceirizando as demais, e, finalmente, a aplicação de outros métodos de trabalho que incorporem a incerteza e novos padrões de temporalidade com dados fundamentais para obter constantes melhorias no processo de produção, na qualidade do produto, o que exige do trabalhador uma predisposição para um aperfeiçoamento constante” (EXAME, 2003, p. 19-20). Eunápio Dutra do Carmo (2000), em seu trabalho sobre gestão do trabalho na Albras, ressalta as transformações ocorridas na empresa no início dos anos 1990, quando o novo modelo de gestão TQC passou a ser empregado. Trata-se de um modelo de gerenciamento que se baseia na liderança, gestão de pessoas, desenvolvimento tecnológico

e gestão de processos. Com isso a empresa buscava adequar-se aos padrões internacionais obtendo maior competitividade. A adesão ao TQC provocou uma reestruturação no quadro funcional da Albras, extinguindo antigos postos de trabalho e criando outros novos:
A redução do número de empregados não é o único elemento para apontarmos o momento de reestruturação pelo qual passa a empresa. Há também outros elementos que irão direcionar para a mesma compreensão. Porém é certo que este é um dos mais marcantes (EXAME, 2003, p. 55).

O modelo TQC representou na visão da empresa a introdução de técnicas gerenciais e de produção que integram, do ponto de vista da empresa, o “movimento internacional pela qualidade” (CARMO 2000, p. 64), ao qual muitas empresas se adequaram. Sua implantação como novo modelo de gestão na Albras provocou mudanças significativas nas estruturas da empresa e uma reformulação considerável em seu quadro funcional. A política de redução do pessoal diretamente empregado e a ampliação da terceirização permitiram que, enquanto os índices de produtividade seguissem escalas crescentes, caísse o número de trabalhadores em números absolutos. Para sustentar sua produção, em 1990 a empresa empregou, em média, 2356 empregados, que foram responsáveis por uma produção anual de 82 toneladas de alumínio por trabalhador diretamente contratado. Em 2006, o número médio de empregados tinha caído para 1357 e a produtividade anual por trabalhador tinha sido elevada para 336 toneladas (Gráfico 02).

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férias (presente em 71 processos), Adicional de insalubridade (presente em 67 processos), FGTS (presente em 69 processos) e demais diferenças concectárias (presente em 58 processos). No julgamento desses casos, a Albras foi muitas vezes acusada de “se furtar ao pagamento das parcelas trabalhistas” postuladas nos processos. Percebendo a gravidade da situação, a Albras começou a fazer acordos de indenização com os trabalhadores das empresas terceirizadas. Apesar de não assumir o vínculo empregatício, a empresa pagava aos trabalhadores valores referentes aos seus direitos trabalhistas, declarando esse ato como “mera liberalidade” de sua parte. A partir dos 375 processos trabalhistas analisados em detalhes, observou-se uma proporção de sete vezes mais homens envolvidos do que mulheres, confirmando o fato do trabalho no setor metalúrgico ser dominado, ainda, pela presença masculina. Os processos analisados e detalhes apresentam reivindicações de trabalhadores ocupantes de vários postos na hierarquia funcional da empresa, sendo encontrados 90 tipos diferentes de objetos reclamados, havendo, como já se indicou, processos que continham mais de um objeto.

produtividade da empresa cresceram, o número de funcionários, ao contrário, decresceu (Gráfico 02). A empresa passou a adotar discursos diferenciados, tanto para a sociedade quanto para os trabalhadores. Afirmava que “qualidade no trabalho é uma etapa essencial nessa nova atitude de mudanças”; a empresa alegava que, em 1995, foi abolida a obrigação de ponto dos seus operários, eliminando, também, “a humilhante revista nos portões” (FERRAZ, 2000), e com outras medidas que seguiam o mesmo objetivo, presenciou o salto de sua produtividade. Parece óbvio que isso foi o “natural resultado do estabelecimento de um nível de relação patrão-empregado” (FERRAZ, 2000). Nestes termos, as alterações mais significativas nas relações entre os trabalhadores e a empresa, nas mais de duas décadas de sua existência, decorreram de um processo de mudança que teve como referência temporal o último ano da década de 1980, quando a empresa começou a adotar políticas buscando flexibilizar suas estruturas produtivas. Tais alterações acarretaram conflitos e tensões entre os trabalhadores e a empresa que, em alguma medida, foram captados pelas reclamações trabalhistas movidas contra a Albras. Assumindo os processos trabalhistas como um componente capaz de sinalizar elementos da reação dos trabalhadores aos processos de reestruturação produtiva, foram levantadas todas as reclamações trabalhistas dos empregados contra a Albras. Um levantamento que cobriu mais de 18 anos de história daquela empresa (1986-2003), sendo localizados um total de 1.245 processos (Gráfico 03). Dos 1.245 processos localizados, 377 encontravam-se nas varas do trabalho da cidade de Belém. Os outros processos estavam distribuídos nas 25 varas da justiça trabalho do Estado do Pará. Em Abaetetuba, encontra-se a maioria dos processos contra a Albras (941

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processos). Dos processos, em sua totalidade, 375 foram analisados um a um, com o intuito de buscar elementos para reconstruir as tensões entre trabalhadores e a direção da empresa.

Gráfico 03: Número de reclamações trabalhistas movidas contra a Albras (1986-2003) Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª região (1986-2006).

O levantamento permitiu evidenciar que o ano de 1991, quando foram registradas 177 reclamações trabalhistas, e o ano de 1997, no qual houve 229 reclamações, foram os anos de maior incidência de reclamações contra a Albras. Trata-se, evidentemente, de indicadores da resistência dos trabalhadores, a diversos aspectos, da reestruturação produtiva empreendida pela empresa. O rápido crescimento no volume de reclamações trabalhistas nos anos de 1990 e 1991 (Gráfico 03) está diretamente relacionado à reestruturação produtiva iniciada pela empresa que teve como uma de suas conseqüências o estabelecimento de uma tendência de redução do número trabalhadores diretamente vinculados à Albras (Gráfico 02).

A ampliação do número de processos trabalhistas contra a Albras ocorrido no ano de 1997 (Gráfico 03) tem relação com o processo de reestruturação, especialmente com a adoção, pela empresa, da estratégia de terceirização de atividades. A análise dos processos daquele ano indicou que o maior número de reclamações trabalhistas contra a Albras está relacionado à atuação de funcionários de empresas que prestavam serviços àquela. Portanto, o cenário de 1997 foi diferente daquele dos anos de 1990 e 1991, quando se verificou um crescimento de reclamações trabalhistas motivado por ações empetradas contra a empresa por empregados até então diretamente vinculados à Albras. Assim, a maioria dos processos referentes aos anos de 1996 e 1997 corresponde a reclamações contra empresas que prestavam serviços à Albras. Nas pesquisas dos processos arquivados na vara do trabalho do município de Abaetetuba, foram encontradas demandas contra quatorze empresas que prestavam serviços à Albras. Naqueles processos, a Albras foi chamada a integrar o processo como litisconsorte.1 Dos 137 processos contra a Albras analisados no TRT de Abaetetuba, em nível de detalhe, 87 correspondiam às empresas terceirizadas. Era grande o número de objetos das ações referentes, sobretudo ao não cumprimento, pelos empregadores, de direitos básicos dos trabalhadores. Naqueles processos os trabalhadores, no geral, apresentavam mais de uma demanda por ação, sendo mais comum a alegação do não pagamento pela empresa de: Aviso prévio (presente em 72 processos), 13° salário (presente em 65 processos),
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Termo jurídico utilizado quando uma empresa é intimada a fazer parte do processo e dividir responsabilidades com a empresa reclamada, por ter sido beneficiada de alguma forma dos serviços dos trabalhadores dessa empresa. Nos processos relacionados às empresas prestadoras de serviços à Albras e à Alunorte, estas são constantemente convocadas a integrarem o processo.

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e do agir social em praticamente todas as formações sociais do planeta. Enfim, deles decorreram dinâmicas responsáveis pela “europeização” ou “ocidentalização” do globo, que se denominam de modernização – termo supostamente menos carregado de conteúdo etnocêntrico. Advoga-se que empreendimentos como a Albras têm, em si, um papel modernizador, pois são parte de um processo normalmente associado à crescente destruição das formas tradicionais de estruturação social, à ascensão do moderno capitalismo industrial e à crescente integração produtiva dos serviços e bens ambientais e da tecnificação da produção social. A modernização, então, é pensada como um conjunto de permanentes transformações políticas, sociais, econômicas e culturais que se inter-referenciam reciprocamente, vistas como intrinsecamente positivas e como se representassem, sobretudo, o amadurecimento das sociedades, mesmo tendo tais mudanças vingando integralmente em pouquíssimas frações da economia moderna. As multifacetadas manifestações da modernização, em termos da organização social, estão associadas à ampliação de poderes públicos; à consolidação e legitimação do Estado; à construção de uma rede de instituições na sociedade civil; à progressiva especificidade funcional na esfera política; e à introdução de mecanismos de racionalização crescente de todos os setores da sociedade. A modernização, assim, deveria, supostamente, conduzir ao entrelaçamento de estruturas alta e crescentemente tecnificadas, capazes de ampliar permanentemente o acervo de bens e o volume de serviços socialmente disponíveis. Todavia, estudos recentes sobre as conseqüências da implantação das plantas industriais instaladas em Barcarena têm apontado para a ampliação da concentração de renda; concentração, em espaços muito limitados, da melhoria das condições de vida; e,

Gráfico 04: Relação dos pedidos mais freqüentes nos processo. Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª região (1986-2006). 29

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A reivindicação mais freqüente dos trabalhadores era a de diferenças pecuniárias de diversas ordens. Esta reclamação era seguida, em termos de freqüência, por horas extras não pagas (8%), não se limitando apenas as horas extras no período normal de trabalho, pois, além das horas da jornada de trabalho regular, é freqüente também o pedido de horas extras face ao diálogo de segurança, com 18 processos. Os pedidos de equiparação salarial também foram um dos mais freqüentes, representando 5,5% dos objetos de reivindicação dos trabalhadores. Era requerido pelos funcionários lesados, pois, apesar de exercerem as mesmas atividades que um outro colega, percebiam que seus rendimentos eram menores. Não era raro encontrar reclamações onde um operador de forno pedia equiparação salarial a seu superior, alegando exercer a mesma função deste na área em que trabalhava. Outra reclamação freqüente encontrada nos processos se refere às chamadas horas extras “in intineri”. O número de processos em que se percebe a presença de pedidos de parcelas de horas extras “in itinere”, 3,4% dos pedidos, revela a visão que os empregados têm desse tipo de conjunto habitacional. Os pedidos de horas extras “in itinere” correspondem ao tempo gasto pelos trabalhadores no percurso entre suas residências e o local onde fica a fábrica. Para eles, esse tempo deve ser computado na jornada de trabalho, pois, ao residirem em um conjunto de propriedade da fábrica e tomarem condução em um veículo fornecido pela mesma, alegando também não haver outra forma de transporte, estão sujeitos aos horários estabelecidos pela empresa. Outros objetos recorrentes nas reclamações dizem respeito aos adicionais por insalubridade (4,9% pedidos) e por periculosidade (2,8%

pedidos). Nos processos os trabalhadores são enfáticos em ressaltar o perigo a que estão expostos diariamente em seu ambiente de trabalho, mesmo aqueles que não trabalham diretamente em áreas consideradas insalubres pela empresa; todavia, detalham o risco que correm ao transitarem por certos ambientes no qual se detecta certos riscos à sua integridade física. Aqui, é importante ressaltar o grau de perigo aos quais os trabalhadores se consideram submetidos, já que a empresa possui uma escala de ampliação de pagamento para os trabalhadores sujeitos à situação de maior risco, onde, logicamente, aqueles que trabalham em contato maior com o risco ou perigo recebem uma porcentagem maior desse beneficio em seus rendimentos. Para os funcionários, esse valor sempre é maior do que o concedido pela empresa ao serem dispensados; quanto maiores forem os riscos de morte, maior os rendimentos conseguidos. A redução dos processos trabalhistas (Gráfico 03) parece também sinalizar a derrota da resistência mais organizada dos trabalhadores e representar a afirmação de um novo modelo de gestão da força de trabalho, que reduziu o número de trabalhadores diretamente vinculados à empresa, estabeleceu mecanismos de recompensas individuais, mas, sobretudo, fragilizou a organização sindical e seu poder de intervenção. 5 Os limites das promessas modernizantes A gestação e os desdobramentos dos processos que envolveram a produção de alumínio na Amazônia oriental brasileira, em última instância, decorrem dos profundos e significativos processos de transformação que introduziram novas formas de organização da capacidade e potencialidade produtivas, de estruturação institucional

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OS CAMINHOS DO ALUMÍNIO Marluze Pastor Santos1

Resumo O documento é uma síntese histórica do Programa de diálogo sobre a cadeia de alumínio na Amazônia desenvolvido por organizações brasileiras e alemãs no período de 1999 a 2003. Foi elaborado a partir de documentos existentes sobre o Programa e informações de participantes. Na parte introdutória relata fatos motivadores da criação do programa, destacando as conseqüências da exploração, produção e comercialização do alumínio para comunidades que vivem no entorno das fábricas e trabalhadores. A segunda parte trata do desenvolvimento e resultados do Programa, os eventos e estudos que foram realizados que contribuíram sobremaneira para a qualificação das organizações envolvidas. Na terceira parte a autora analisa o programa, as ações implementadas e seus desdobramentos.

sobretudo, o crescimento da pobreza (RIBEIRO, 2006). Outros estudos demonstram que estratégia de terceirização da Albras (CORÔA FILHO, 2005) e de outras empresas localizadas em Barcarena (LIMA, 2005; COELHO, 2006) não tem se prestado à transferência de tecnologia para seus contratados e fornecedores, não representando, neste especial, uma perspectiva de enraizamento social do crescimento econômico verificado no município. Torna-se, portanto, mais necessário refletir sobre os limites das promessas modernizantes vinculadas à implantação da indústria de alumínio na região. Em especial, porque a implantação da Albras acalentou, em diversos e amplos segmentos sociais, expectativas de rápida modernização local. Uma convicção que se expressou, ao longo do tempo, em diversas práticas governamentais, vários planos estatais de desenvolvimento, discursos e ações de partidos de distintos matizes políticos, posicionamentos e intervenções de sindicatos, tanto patronais quanto de trabalhadores etc. Uma convicção que, portanto, mobilizou e ainda mobiliza uma pluralidade de atores sociais empenhados, na maioria das vezes com sucesso, em verem transformadas industrialmente as reservas minerais da região de Barcarena, como alternativa para desenvolvimento social.

Palavra chave: alumínio, cadeia de produção, diálogo do alumínio.

1 Marluze é agrônoma, MSc em agroecologia, foi coordenadora do Fórum Carajás quando da MRI e do Programa do Alumínio. marluzepastor@yahoo.com.br

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Referências Bibliográficas CARMO, Eunápio Dutra do. Gestão do trabalho na indústria de alumínio Albras: a noção de qualidade e seus interlocutores. Belém: NAEA/UFPA, 2000. p. 64. COELHO, Edineide Santos. Flexibilização produtiva e desenvolvimento local: A rede de subcontratação da Alunorte. 2006. Dissertação (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento) Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2006. CÔROA FILHO, Vicente Uparajara. Redes de subcontratação e desenvolvimento local: A atuação da Albras no arranjo produtivo de Barcarena. 2005. Dissertação (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento) - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2005. COMPANHIA VALE DO RIO DOCE; LIGHT METALS SMELTERS ASSOCIATION. Projeto alumínio na Região Amazônica. Brasília, 1974. (Relatório Preliminar) EXAME. Maiores e melhores empresas do Brasil. Edições de jun. 2000; jul. 2001; jul. 2002; jul. 2003. FERRAZ, Silvio. A Civilização de Alumínio. Revista Veja, ed. 1630, ano 33, n. 1, p. 68-69, 5 jan. 2000.

LIMA, Marco Antônio Silva. Relações inter-firmas em Barcarena/ PA: um estudo das práticas de inovação e cooperação na rede de fornecedores e subcontratados da IRCC. 2005. Dissertação. (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento) - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2005. MONTEIRO, Maurílio de Abreu. Mineração industrial na Amazônia e suas implicações para o desenvolvimento regional. Novos Cadernos NAEA, Belém, v. 8, n. 1, p. 141-187, jun. 2005. RIBEIRO, Lílian Lopes Ribeiro. Impacto da atividade minerometalúrgica na qualidade de vida em Barcarena entre 1991 e 2000: uma análise intramunicipal a partir dos indicadores sócioeconômicos. 2006. Dissertação (Mestrado em Planejamento do desenvolvimento) - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2006. VIVACQUIA; Paulo Augusto et al. O Brasil e o alumínio. Atuação da CVRD. Mineração e Metalurgia, Rio de Janeiro, v. 45, n. 428, jun. 1981.

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áreas degradadas, criação de reserva para conservação da biodiversidade, ampliação dos benefícios (impostos, empregos), liberação de recursos naturais imobilizados pelas empresas e ampliar a discussões Norte/Sul. Foi iniciado em 1995 com um intercâmbio entre organizações e trabalhadores do Brasil e da Europa, essa primeira atividade teve lugar em outubro de 1995 com o objetivo de conhecer as empresas, o ambiente de trabalho, as relações com os trabalhadores e as relações no entorno das fábricas. Uma comissão formada por representantes do Fórum Carajás, pesquisadores brasileiros, representantes da Conferência Conjunta das Igrejas Católica e Evangélica Alemãs sobre Desenvolvimento (GKKE), Associação de Indústria de Alumínio da Alemanha visitaram a Mineração Rio do Norte (MRN), a Usina Hidrelétrica de Tucurui, Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A (ELETRONORTE), o Consórcio de Alumínio do Maranhão S/A ALUMAR). Visitaram também o Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tucuruí, Associação de Remanescentes de Quilombos de Oriximiná/PA (ARQMO) e o Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão (SINDMETAL-MA). Essa atividade permitiu conhecer o caminho do alumínio, a importância das empresas e impactos. Formaram-se então duas equipes de trabalho, uma no Brasil coordenada pelo Fórum Carajás e outra na Alemanha, coordenada pelo GKKE, para articular com organizações da região, com comunidades atingidas pelos processos de produção, trabalhadores (as) das empresas de alumínio e moradores (as) do entorno das fábricas; identificação de pesquisadores, organizações e estudiosos sobre o tema; articulação com as empresas, com organizações de paises compradores dos produtos e com legislativos. Participaram do Programa organizações sindicais, associações de moradores, organizações quilombolas (Quadro 1), empresas alemãs

INTRODUÇÃO Em março de 1995, foi realizada em São Luís do Maranhão uma Mesa Redonda Internacional (MRI), evento central de uma articulação criada por Ongs da região de Carajás2, sindicatos, pesquisadores, organizações de mulheres, associações, em 1992, com o propósito de abordar e reconstruir políticas públicas e privadas para que proporcionassem democratização dos recursos, mitigação e/ou compensação dos danos sócios ambientais causados por grandes projetos implantados. A articulação foi chamada Fórum Carajás. Fez parte do temário da MRI, a cadeia de produção do ferro, a expansão da sojicultura, a expansão da eucaliptocultura. Na avaliação da MRI, as organizações coordenadoras, decidiram estabelecer um programa sobre a cadeia de produção do alumínio na Amazônia brasileira por não ter sido contemplado no trabalho anterior e, por ser o alumínio, um dos primeiros projetos implantados na região de Carajás. Esse programa foi denominado “Diálogo do Alumínio, responsabilidade global, da exploração ao consumo”, teve como objetivos: estabelecer diálogo com as empresas, trabalhadores (as) das fábricas e outras categorias de trabalhadores (as) e moradores (as) afetadas pelos processos de produção, organismos públicos e privados; ampliar o alcance das ações compensatórias e mitigadoras; estabelecer novos mecanismos de controle e de monitoramento dos empreendimentos; identificar doenças ocupacionais; avançar nas discussões sobre a relação Sul/Norte, inclusive com novos acordos internacionais.
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região instituída pelo Decreto Lei 1813/24.11. 1980

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A produção de alumínio na Amazônia iniciada em 1974 com a implantação da Mineração Rio do Norte (MRN) em Oriximiná/Pará; em 1984. O Consórcio de Alumínio do Maranhão (ALUMAR); em 1985, Alumínio Brasileiro S.A. (ALBRÁS) e em 1995 Alumina do Norte do Brasil (ALUNORTE), quatro consórcios de empresas nacionais e internacionais para exploração, produção e comercialização de bauxita, alumina e alumínio. Para as comunidades que viviam nessas áreas foi início da desestruturação de famílias, povoados e organização comunitária, com a destruição de recursos que dispunham para alimentação e renda. Em São Luís, capital do Maranhão, com instalação das fábricas de alumínio e alumina da ALUMAR, foram desapropriadas 17 comunidades tradicionais de pescadores entre elas Jacamim, Coquilho, Ilha Pequena, Boa Razão, parte de Igaraú, Tainha, Paquatiua, Santa Efigênia, Itaperuçu, Andiroba, Aracaua. A comunidade de Igaraú além da luta pela terra teve outros enfrentamentos com a empresa, um deles, tem relação com o período da construção do segundo reservatório de rejeitos, a ALUMAR, através das suas construtoras, desmatou a área de Reserva Legal da comunidade e usou sem autorização da comunidade água e argila das terras pertencentes ao povoado. Os canais Ilha de Tauá-Mirim e do Rio dos Cachorros em São Luís/Maranhão foram fechados pela empresa, tal medida impediu a pesca dos moradores de Tauá-Mirim, Taim e Rio dos Cachorros; os pescadores de Taim tiveram equipamentos de pesca apreendidos pela empresa. A comunidade de Aracaua teve parte de sua área sobreposta às terras adquiridas pela ALUMAR, durante esses anos peleja para obter a reintegração da propriedade. No município de Barcarena, norte do Pará, a comunidade Montana foi remanejada para dar lugar à instalação da fábrica de alumínio da ALBRÁS. Na região do Rio Trombetas, sudoeste do Pará,
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no processo inicial de exploração da bauxita, matéria prima para a produção do alumínio, a MRN depositou os resíduos da argila no Lago Batata. Poluiu também o Igarapé Água Fria, Saracá e Araticum e Lago Sapucuá, prejudicando as comunidades de Boa Vista, Boa Nova, Amapá, Casinha, Castanhal, São Pedro, Maceno, Ajarazal, Cunuri e Ascenção que se utilizavam dessas fontes de água. Além dos problemas vivenciados pelos moradores (as) e trabalhadores (as) do entorno, do interior das fábricas chegavam informações sobre mortes, acidentes e doenças ocupacionais sem registro ou estudos que pudessem subsidiar as organizações sindicais. Por outro lado, as organizações que acompanharam o a implantação desses consórcios como a Cáritas Brasileira já não atuava com essa temática, o Comitê de Defesa da Ilha estava com redução de seus quadros e o escritório da Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional (FASE) foi extinto em São Luís.

DIÁLOGO INTERNACIONAL SOBRE O ALUMÍNIO: RESPONSABILIDADE GLOBAL DA EXTRAÇÃO AO CONSUMO O Programa teve como finalidade estudar a cadeia de produção1 do alumínio; visibilizar os problemas decorrentes dos processos de produção; propor medidas mitigadoras, tais como recuperação de

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O conceito de cadeia de produção se desenvolveu na escola francesa de economia industrial na década de 60. MORVAN define cadeia produtivo como uma sucessão de operação de transformação dissociáveis capazes de serem separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico; é também um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, entre todos os estados de transformações, um fluxo de troca situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes.

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• Oficina na Alemanha sobre organização sindical e visita a órgãos públicos, parlamentares, empresas e igrejas, GKKE, Ministério de Meio Ambiente Agricultura e Urbanismo da Alemanha, Embaixada Brasileira na Alemanha, parlamentares da Comissão Brasil Alemanha, Aluminium-Zentrale (Associação da Indústria de Alumínio), fábrica de alumínio Hoogovens. Nessa atividade estiveram presentes representantes do SIDMETAL, STTR de Tucuruí, MONAPE e Fórum Carajás, a oficina foi organizada pelos trabalhadores (as) da Thissen; • Seminário Internacional “Diálogo sobre Alumínio, responsabilidade global, da exploração ao consumo”, em São Luís, maio de 1999, com participação de 128 pessoas, sendo 20 da Europa. Participaram representantes de organizações sindicais de metalúrgicos, químicos e trabalhadores rurais, centrais sindicais; organizações quilombolas; organizações de pescadores; pesquisadores; representantes de igrejas evangélicas e católica; Ongs; órgão de estado; deputados; empresas, banco; jornalistas; • Conferência sobre Alumínio do Programa de Diálogo Brasil, Alemanha, em junho de 1999, atividade conjunta da Aluminium-Zentrale, GKKE e do Instituto Evangelische Akademie Mühlheim (Cen-tro de Pesquisas e Congressos mantido pela Igreja Evangélica), objetivou implementar os resultados do Seminário Internacional na Alemanha e discutir

através da Aluminium (Associação da Indústria de Alumínio da Alemanha), Internacional River Network (rede organizações de rios da América); organizações de apoio, pesquisa e desenvolvimento (Quadro 2). Quadro 1: organizações de fabrica e atingidas pelos processos de produção
Nome Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) STTR de Tucuruí CEAP STTR de Oriximiná Associação dos Remanescente de Quilombos (ARQMO) Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Extrativas de Minerais Não-ferrosos Sindicato dos Metalúrgicos (SIMETAL) Sindicato de Químicos (SINTRANORTE) Sindicato dos Metalúrgicos (SINDMETAL) STTR de Barcarena STTR de São Luís Centro de Apoio e Pesquisa ao Pescador Artesanal (CAPPAM) Associação de Moradores de Taim Associação de Moradores de Igaraú Movimento Nacional dos Pescadores (MONAPE) Movimento dos Pescadores (MOPEMA) Associaçãodos Trabalhadores Rurais Colônia de Pescadores SIMETAL SIMETAL Tipo, categoria Atingido pela UHT Atingido pela UHT Atingido pela UHT Atingido pela exploração da bauxita Atingido pela exploração da bauxita Trabalhadores da MRN Localidade Novo Repartimento/Pará Tucuruí/Pará Tucuruí Oriximiná/Pará Oriximiná

Oriximiná

Trabalhadores da ALBRAS Trabalhadores da ALUNORTE Trabalhadores da ALUMAR Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos

Barcarena/Pará Barcarena São Luís/Maranhão Barcarena São Luís São Luís

Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Atingidos pelos resíduos Sem relação direta Sem relação direta

São Luís São Luís Organização Nacional Organização do Maranhão Curuperé/Pará Abaetetuba/Pará Açailândia/Maranhão Parauapebas/Para

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Quadro 2: Organizações de pesquisa, apoio e desenvolvimento.
Pará
NAEA CESUPA CEPASP FATA UFMA SMDH Cáritas Brasileira Fórum Carajás STR de Imperatriz

Maranhão
Tijupá CENTRU

Outros estados
CESE ELO GTA Nacional CUT/MA MAB CPT/FIAN

Outros paises
GKKE Deutsche Gerwerkschaftsbund (DGB)
Federação dos Sindicatos (IG Metal)

FIAN Universidade de Kassel GHK

Rede Internacional de Rios (IRN) MISEREOR Pão para o Mundo KOBRA Academias Evangélicas Eclesiásticas

Foram realizados eventos no Brasil e na Alemanha, de intercâmbio de informações entre trabalhadores (as) e pesquisadores (as); de formação de lideranças onde as temáticas sobre o processo de produção do alumínio e sobre saúde do trabalhador e organização sindical foram priorizadas; audiências com empresas, bancos financiadores, órgãos do governo em Brasília, nos estados do Pará e Maranhão e municípios de São Luís, Barcarena e Tucuruí; reuniões públicas e seminários, destacando-se os que se seguem: • Oficina sobre “Saúde do Trabalhador”, realizada em maio de 1998, na cidade de São Luís. O propósito desse trabalho foi elaborar mapa de risco dos locais

de trabalho e estabelecer a relação entre processo de trabalho e doença; • Encontro com cipeiros e trabalhadores das áreas afetadas pelos processos produtivos, em agosto de 1998 em Belém, buscou conhecer problemas relativos ao ambiente de trabalho e à saúde do trabalhador (a) do interior das fábricas, do entorno e das áreas de exploração das matérias primas, energia e bauxita; • Seminário “Preparatório sobre Alumínio”, realizado em Tucuruí, Estado do Pará, em outubro de 1998, priorizou questões referentes aos impactos da produção do alumínio e medidas para superação dos problemas detectados, o evento tratou também da organização do seminário internacional já proposto pela coordenação do evento; • Oficina sobre o “Programa Diálogo Alumínio” e visita às fábricas da ALBRAS e ALUNORTE, em Barcarena, Pará, em janeiro de 1999, essa oficina teve como objetivo principal reforçar articulação do Programa do Alumínio na região de Barcarena, os participantes discutiram questões referentes aos impactos da produção do alumínio na região de Barcarena; • Visitas no Brasil, ELETRONORTE, ALCAN, ABAL, ALUNORTE, MRN, ALBRÁS e ALUMAR em janeiro de 1999, participaram da atividade representantes do Fórum Carajás e GKKE para reapresentação do Programa e convite para participação do seminário internacional;

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• Seminário Internacional sobre Alumínio: subsídios para trabalho em grupo”, é resultado do seminário preparatório realizado em Tucuruí em outubro de 1998, que reuniu pesquisadores do Brasil e Alemanha, representantes sindicais dos metalúrgicos do Maranhão e Pará, trabalhadores e moradores de áreas afetadas pelas indústrias de alumínio e pela Hidrelétrica de Tucuruí. • A Produção de Alumínio e a Sociedade Civil no Brasil em 2005, Susanna Schaefer (Universidade Kassel, Socióloga) e Martin Studte (Universidade técnica de Berlim, Engenharia Ambiental), relatório sobre destruições ambientais e assuntos sociais da produção de alumínio na Amazônia Brasileira.

O LEGADO DO PROGRAMA O diálogo durou até 2003, foram oito anos de estudo e mobilização, compartilhamento de experiências de trabalhadores e comunidades da região, novas organizações da sociedade civil passaram a discutir a produção do alumínio, houve aglutinação de diversos segmentos sociais, fortalecimento das organizações sindicais e criação de novas organizações sindicais e populares inclusive de mulheres. Informações e análise sobre a cadeia de produção do alumínio, empoderamento de lideranças o que resultou em aumento do controle social sobre a indústria do alumínio no Brasil e na Alemanha. As empresas no Brasil não participaram do programa, acataram as visitas que foram solicitadas, a Eletronorte e a ALCAN participaram do Seminário Internacional em São Luís. Após a
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sustentabilidade do uso de alumínio naquele país, abordando aspectos sócio-ambientais globais. Foram participantes do evento: empresas, associações e institutos especializados da indústria de alumínio, igrejas, políticos, representantes de sindicatos, organizações não-governamentais e institu-tos de pesquisa da Alemanha e Brasil; • Campanha pela criação da Resex do Lago Tucuruí que envolveu produção de material didático e contato com órgãos públicos especialmente o IBAMA e SECTAM. • “Disputa sobre Aluminio, intercambio de trabalhadores brasileiros, alemães e suiços, em Hannover/Alemanha, outubro de 2000 com participação de 10 sindicalistas brasileiros; • “Seminário Internacional Saúde e Segurança no Trabalho e Meio Ambiente” em Hannover/ Alemanha, palestras e debate sobre os projetos industriais e desenvolvimento regional com apresentação do estudo “O caso alumínio na Amazônia e no vale Wallis na Suiça, em Zurique/Suiça; • Seminário “O Outro Lado da Ilha”, impactos no interior da Ilha de São Luís, alternativas e organização, janeiro de 2001 em Taim/São Luís com a participação das comunidades de Taim, Rio dos Cachorros, Porto Grande, Limoeiro, Vila Maranhão, Cajueiro, Tauá Mirim; • Oficinas sobre a cadeia do alumínio na Amazônia no II e III Fórum Social Mundial em 2002 e 2003, em Porto Alegre/RS;
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• Articulação com a Comissão Mundial de Barragens 4 no sentido da inclusão da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no estudo e acompanhamento do estudo, essa atividade foi realizada principalmente pelo equipe de trabalho na Alemanha; • Carta aos presidentes da ALCOA e BILLITON, em julho de 2001 motivada por acidente na fábrica da ALUMAR, solicitando providências para esse caso e outras questões já levantadas pelo Programa; • Participação na Coordenação da Campanha Contra as Barragens do Araguaia/Tocantins” nessa campanha o Programa contribui principalmente demonstrando a conexão entre a construção de hidrelétricas e a indústria do alumínio; • Debate Internacional Estratégico sobre a Indústria do Alumínio, em São Luís, outubro de 2003. Vários estudos sobre a problemática do alumínio, nos vários aspectos da realidade em debate, foram produzidos por especialistas, brasileiros e alemães: • Indústria de alumínio: impactos ambientais e sócio-econômicos no Maranhão, de autoria de Rogério Almeida, revisão dos estudos sobre o alumínio produzidos no Maranhão. Produz uma visão

4 A Comissão Mundial de Barragens (CMB), foi criada em 1988, durante encontro sobre o tema patrocinado pelo Banco Mundial e União pela Conservação Mundial (IUCN), teve por finalidade elaborar um relatório mundial sobre a contribuição das grandes barragens ao desenvolvimento e estabelecer normas e diretrizes internacionalmente aceitáveis para a tomada de decisões futuras.

panorâmica do surgimento da indústria do alumínio e o processo de implantação desse tipo de indústria no Maranhão; identifica os principais agentes externos e internos que colaboraram para isto e detecta conseqüências sociais e ambientais resultantes desse processo. • Indústria de alumínio, impactos sociais e relações de trabalho: um ensaio de estudos recentes, de Eunápio do Carmo, buscou problematizar os impactos sociais advindos da implantação dos empreendimentos na Amazônia, com especial atenção à indústria do alumínio em Barcarena. Discute as relações de trabalho no interior das fábricas, ressalta o fato de que há impasses entre os modelos adotados nessas fábricas e o modelo de desenvolvimento industrial brasileiro. • Impactos da indústria do alumínio sobre a Saúde do Trabalhador: o caso da ALUMAR, autoria de Edinalva Maciel, trata das questões de saúde e ambiente de trabalho em fábricas produtoras de alumínio, a partir do resgate das experiências dos trabalhadores de um espaço fabril particular (ALUMAR). Faz um mapeamento dos possíveis riscos e danos, demarca as condições de trabalho e os agravos à saúde dos trabalhadores, permitindo visualizar o panorama dos agravos à saúde, acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, presentes nos ambientes de trabalho.

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responsabilidad de los productores, los consumidores y los estados sobre la línea del producto. Mimeo. S./D. NEVES, E.M. Impactos da indústria do alumínio sobre a saúde dos trabalhadores , o caso da ALUMAR em São Luís: UFMA/Fórum Carajás. 1999 PIMENTA, A. P e FILHO, D. C. A Saúde do trabalhador. São Paulo: Hucitec,1988. SWITKES. G. A Conexão Hidrelétricas e Alumínio, considerações estratégicas sobre energia e hidroeletricidade relevantes a uma campanha para aumentar o controle social sobre a industria de alumínio.Rio de Janeiro: IRN, 2003.

Conferência na Alemanha, em Mühlheim, a Aluminium-Zentrale se retirou do Programa em atenção a não participação das empresas brasileiras. Aqui vale refletir que o diálogo é muito utilizado na Alemanha o que facilitou o envolvimento das suas empresas. Durante o Programa foram elaboradas 113 propostas políticas para mitigação dos danos ambientais e sociais provocados no processo de produção e exportação e de organização social, que foram amplamente divulgadas entre os envolvidos (as) das propostas implementadas, destacam-se: • Eletrificação dos municípios afetados pela UHE de Tucuruí, proposta atendida no Governo Lula através do Programa Luz para Todos; • Criação das unidades de conservação APA do Lago de Tucuruí; RDS Alcobaça e RDS Pucuruí-Ararão Lei do Estado do Pará Nº. 6.451/2002. lagos. • Em processo de criação da Reserva Extrativista de Taim em São Luís, pelo IBAMA, para proteção das áreas de manguezais. • Redução da poluição no Lago Batata, houve ações da empresa e processo natural de regeneração, com redução na turbidez da coluna de água, aumento na concentração de matéria orgânica no sedimento, recuperação de vegetação de igapó e a colonização por peixes na área impactada; • Criação de centros de referência de saúde do trabalhador (a) em Barcarena, Belém e São Luís; • Criação de Programas de formação para trabalhadores (as) pela centrais sindicais;

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• Criação do Sindicato de Químicos de Barcarena, e da Associação de Def. dos Reclamantes e Vitimados por Doenças do Trabalho na Cadeia Produtiva do AL. no Estado do PA (ADRVDT-CPA) Muitas outras ações foram desenvolvidas por outras organizações no decorrer e após o seu término que teve significação para o redirecionamento das negociações e fortalecimento das organizações sindicais com foi à criação do GT Alumínio na Amazônia, da CUT Nacional, em parceria com a DGB, os estudos sobre alumínio realizados pelo Instituto Observatório Social.

Referências Bibliográficas ALUMAR. Plano de recuperação de áreas degradadas para a construção dos lagos de resíduos de bauxita. São Luís: ALUMAR Administração Industrial, 1990. CAMPOS, J.R.L. et all. “Prevalência da contaminação por metais tóxicos”. “em uma amostragem populacional de São Luís – MA.” In: Revista Journal. of Biomolecular Medicine & Free Radicals. São Paulo: Vol. 4, n. 02,1998. CARMO, E.D. Apagando a mente, ativando as mãos. Ainda? Uma análise do processo de gestão do trabalho na indústria do alumínio. Belém: UFPA, 1995. Mimeo. CASTRO E.M.R. “Flexibilização e gestão do trabalho em indústrias de”. “alumínio na Amazônia” In: COELHO, Maria Célia Munes, COTA, Raymundo Garcia (org.). 10 Anos da Estrada de Ferro Carajás. Belém: Supercores, 1997. FORUM CARAJÁS. Diálogo Internacional do Alumínio . responsabilidade global da extração ao consumo. São Luís: Fórum Carajás, 1999 MOREIRA, J.C. R. A implantação da Alcoa em São Luis: uma análise espacial da inserção do Maranhão no pólo de alumínio da região norte do Brasil. Belo Horizonte, 1989. (Texto mímeo-Tese de Mestrado) MINISTERIO DA SAÚDE. Saúde no Brasil .Brasília: Ministério da Saúde , 1997- MÜLLER-PLANTENBERG, C. La producción sostenible de aluminio -¿ una utopia realizable? La

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Inicialmente será apresentado um pequeno resumo do processo de trabalho em alguns pontos da cadeia de produção da alumina e da tranformaçào do alumínio. A seguir será tratada a questão da toxicidade do alumínio, as doenças específicas do processo, as doenças relacionadas aos agentes de risco físico e ergonômico. Ao final serão apresentados e analisados os casos atendidos na Casa do Trabalhador de Belém (CASAT), no ano de 2004. O alumínio na natureza, porque mexer com ela ? Toda vez que o homem resolve manipular a natureza para melhorar o seu “bem-estar” a natureza responde de alguma forma e a sociedade paga um preço por isso. O preço a se pagar pode ser muito elevado e coloca sob risco a vida de trabalhadores e da população. Da extração do alumínio, passando pela bauxita, pela alumina, pelo alumínio até se transformar em panelas e em todos os produtos onde existe esta matéria-prima, o processo de transformação vem carregado de um poder nocivo invisível para a maior parte da população. Deste modo, o que vem a ser este tal alumínio? É uma substância presente na natureza e constitui aproximadamente 8% da superficie terrestre. Sempre se encontra combinado com outros elementos tais como oxigênio, silício e cloro. O alumínio é amplamente utilizado em utensílios domésticos, como panelas e outros artigos de cozinha, em vasos, em materiais de construção, como coberturas, por exemplo. Utiliza-se ainda em tintas e produção de vidros, cerâmicas e também é de uso comum em medicamentos, como os anti-ácidos. O Brasil é a terceira maior reserva mundial de bauxita e é o sexto maior produtor de alumínio primário, segundo os dados da indústria. Em 2000 faturou 6,7 bilhões de dólares americanos. E neste mesmo ano o povo brasileiro consumiu per capita a quantidade de

II PARTE Saúde do trabalhador

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A SAÚDE DOS TRABALHADORES DA CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO Hermano Albuquerque de Castro1 Introdução Historicamente, os estudos realizados sobre a saúde dos trabalhadores na cadeia produtiva do alumínio revelam uma prevalência elevada para diversas doenças, variando desde doenças específicas relacionadas ao alumínio e outras substâncias químicas até as doenças osteomusculares relacionadas às cargas existentes na indústria e seus problemas ergonômicos. Estes estudos demonstram a nocividade do processo com uma exposição intensa dos trabalhadores a situações perversas do ambiente de trabalho. Os diferentes processos, em toda cadeia produtiva, mantêm trabalhadores expostos a mais de uma dezena de compostos químicos, tais como: soda caústica, fluoretos, dióxido de enxofre e outros. Os colocam ainda em situações de posturas incorretas, em ambientes com excessivo calor onde a soma destes diversos fatores irão causar danos respiratórios, sanguíneos, osteomusculares, dermatológicos, mentais, alterações no sistema nervoso central e periférico, entre outros. Um dos objetivos desta revisão é dar maior visibilidade ao adoecimento dos trabalhadores da cadeia produtiva do alumínio visando fornecer subsídios para uma real atenção à saúde de todos os trabalhadores ativos e inativos, oriundos desta atividade econômica no país.
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Médico do trabalho e doutor em Saúde Pública., coordenador do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) – Fiocruz/MS. Email: castro@ensp.fiocruz.br

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d) Precipitação - onde a alumina é precipitada por um processo de cristalização da solução através de filtragem e resfriamento. e) Calcinação - onde os cristais de alumina são aquecidos a alta temperatura, removendo a água, e formando a alumina propriamente dita. Ainda de acordo com Batista (2000), na produção do alumínio primário, “a transformação da alumina em alumínio consiste em colocála em um banho eletrolítico dentro de um forno onde se utiliza correntes elétricas contínuas. A alumina é dissolvida em um banho de criolita derretida a 950oC, em grandes fornos, por meio de uma corrente elétrica que passa através do banho entre os anodos de carbono (polo positivo) e catodos (polo negativo). O alumínio se junta ao corpo do catodo e se precipita no fundo do forno. Posteriormente é aspirado por um “cadinho” a vácuo pronto para ser ligado e fundido a outros metais. O oxigênio da alumina combina-se com o carbono do anodo, sendo expelido como monóxido ou dióxodo de carbono. Portanto, o refino do alumínio primário é um processo eletrolítico e a produção de transformados é um processo metalúrgico”. É importante conhecer o processo, pois nele está a gênese dos problemas ambientais e ocupacionais, com todas as conseqüências na saúde do trabalhador, expostos aos riscos físicos de esforço repetitivo até a exposição ao calor e aos riscos químicos com inalação de diversas substâncias químicas. O número de substâncias químicas utilizadas na produção de alumínio é exageradamente elevado, com mais de 50 substâncias conhecidas, dentre elas podemos citar acetileno, ácido clorídrico, passando por benzeno, berílio, cádmio, cloro, cromo, dióxido de sílicio (sílica), fosfina, magnésio, monóxido de carbono, chumbo, potássio, sódio e titânio. Cada uma destas substâncias produz doenças

4,0kg/hab. No entanto, ainda um consumo baixo se comparado com os americanos que consumiram 36,2g/hab, neste mesmo ano. No processo industrial, cada país define seus limites de exposição ocupacional ao pó de alumínio, e as diferenças de valores encontradas entre os países estão em função dos fatores sociais, políticos e econômicos e de um modo geral não estão relacionados à saúde (Quadro 1). Infelizmente no Brasil, a nossa norma regulamentadora, do Ministério do Trabalho, não define indicadores de saúde e nem limites de exposição ocupacional para trabalhadores da indústria.
Quadro 1 - Limites de exposição à substância pó de alumínio
País
ACGIH (Americana) Áustria Bélgica Dinamarca França Alemanha Grécia Irlanda Holanda Portugal Espanha Suécia Reino Unido

Limites de exposição ocupacional ao pó de alumínio
10 mg/m3 TWA (p oeira metálica) 6 mg/m3 MAK 10 mg/m3 VLE 10 mg/m3 TWA (pó e poeira); 5 mg/ m 3 TWA (vapores) 10 mg/m3 VME (metal); 5 mg/ m3 VME (poeira) 200 µg/L; Parâmetro = alumínio; Material = urina; Tempo de amos tragem = fim da exposição/turno 1.5 mg/m3 MAK (fracção respirável) 10 mg/m3 TWA (fracção inalável); 5 mg/m3 TWA (fracção respirável) 10 ppm TWA (total de poeira inalável); 4 ppm TWA (poeira respirável) 10 mg/m3 MAC 10 mg/m3 TWA (poeira metálica) 10 mg/m3 VLA-ED (na forma de poeira) 5 mg/m3 LLV (total de poeira); 2 mg/ m3 LLV (poeira respirável) 10 mg/m3 TWA (total de pó inalável); 4 mg/ m3 TWA (pó inalável)

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O processo de trabalho Não é nossa intenção descrever todo o processo da cadeia produtiva do alumínio, mas apenas chamar a atenção para alguns pontos com a finalidade de dimensionar as cargas de exposição nos processos, tanto para as cargas de trabalho físico, como para a exposição química, capazes de causar danos ao trabalhador e ao ambiente. De acordo com Batista (2000), em seu relatório do projeto Cepal/IDRC, a primeira etapa da cadeia consiste no processo de extração e tratamento do minério. Primeiro é realizada uma lavagem do minério, posteriormente o peneiramento, quando se reduz a taxa de areia e sílica combinada a bauxita, e a seguir a secagem. A alumina é produzida através do isolamento do óxido de alumínio (alumina) com a retirada de outros componentes da bauxita, como por exemplo o óxido de ferro e de silício. O processo de Bayer (Figura 1) é o processo comercial atualmente em uso e é realizado através de modificações químicas com alterações de pressão e temperatura, a partir de uma mistura de bauxita e soda cáustica. São necessárias aproximadamente 2,5 toneladas de bauxita para a produção de 1 tonelada de alumina.

Figura 1 - Diagrama simplificado do processo Bayer para produção de alumina a partir da bauxita
Fonte: Constantino et al. (2002)

As principais etapas do processo de refino podem ser agrupadas da seguinte forma (BATISTA, 2000): a) Britagem e moagem - consistem na redução controlada das dimensões das partículas do minério. b) Digestão - onde o minério é combinado à soda cáustica em condições de alta temperatura e pressão, resultando em uma solução de aluminato de sódio misturada com resíduos insolúveis de impureza. c) Decantação e lavagem - onde os resíduos são separados do aluminato de sódio por um processo de decantação e filtragem e onde a soda cáustica é separada dos resíduos por um processo de lavagem.

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degeneração de células do fígado e que as atividades enzimáticas das transaminases e fosfatases podem aumentar com a intoxicação. Trabalhadores diabéticos sofrem duplamente, pois o alumínio potencializa os efeitos adversos e nocivos causados pelo aumento de açúcar no sangue. Do ponto de vista endocrinológico o alumínio em excesso funciona como um disruptor endócrino, ou seja, produz uma modificação na resposta endócrina do organismo, como por exemplo as alterações de hormônios da paratireóide ocorrendo um hiperpatireoidismo secundário à insuficiência renal crônica. A intoxicação ou excesso de alumínio é responsável também por quadros de anemia e redução de ferro sérico. As alterações no sistema reprodutor têm sido pouco estudadas em seres humanos, mas em ratos foi encontrada infertilidade relacionada à diminuição de espermatozóide e morte fetal em cobaias grávidas. Alguns estudos sobre doenças presentes na cadeia produtiva do alumínio A – Asma: é uma doença presente na população, mas muito frequente entre trabalhadores da indústria do alumínio. A asma ocupacional é definida como uma doença respiratória caracterizada por obstrução reversível ao fluxo aéreo e/ou hiperresponsividade brônquica devido a causas e condições atribuíveis a um determinado ambiente de trabalho onde ocorre a presença de gases, fumos, vapores ou poeiras. Como critérios diagnósticos temos a presença de chiado no peito, dispnéia, dor torácica e tosse. Estes sintomas podem surgir após duas semanas da exposição, às vezes acompanhados por sintomas noturnos e melhoram com o afastamento do posto de trabalho.

isoladamente, como a leucemia do benzeno e podem produzir outras doenças por sua ação sinérgica ou combinada no processo de trabalho. Do ponto de vista ambiental ocorrem emissões de gases na atmosfera tais como: fluoretos gasosos (fluoreto de hidrogênio; poeira, principalmente de alumínio e sódio, um dos poluentes principais da unidade de redução de uma fábrica; emissão de SO2 e óxidos de carbono; escória (resíduo sólido) que se exposta ao “ar livre” pode gerar gases/particulados e amônia, perigosos para o meio ambiente. Emissões de gases de combustão e material particulado (pó de alumina calcinada, cal virgem em pó). O principal rejeito é a lama vermelha formada por resíduos insolúveis de bauxita mais soda caústica, prejudicial para o solo e águas (lençol freático, lagos, igarapés e rios). A lama vermelha pode causar assoreamento de rios e igarapés e em contato com águas pluviais pode contaminar o lençol freático. A soda cáustica é também um dos elementos mais nocivos ao meio ambiente. O alumínio, enquanto produto largamente utilizado pela população, causa um enorme impacto na saúde humana dos consumidores destes produtos. Neste aspecto, tem sido demonstrada a liberação do metal em grande quantidade, principalmente, em águas e alimentos cozinhados com panelas de alumínio. De acordo com o estudo da pesquisadora da USP, Elaine Bocalon, publicado pela agência USP de notícias, em dezembro de 2005, ela encontrou uma transferência de alumínio para água com sal (10 gramas em 4 litros) de 20 miligramas por litro (mg/l), após 3 horas de fervura, quando o admissível seria de 12 a 14 mg/dia. Esta mesma pesquisa também constatou que a transferência do metal cresce com uma maior quantidade de sal e com o pH (Potencial Hidrogeniônico) mais básico. Quando se aumenta a salinidade, de 10 para 50 gramas por 4 litros, a concentração de metais na água sobe

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25%. A variação do pH tornando-o mais básico aumenta em 160% a concentração do alumínio na água. O mesmo ocorre no cozimento do arroz por 10 minutos, na panela de alumínio, onde concentração do metal quase dobra, o aumento passa de 130%, comparando-se ao arroz não lavado. No feijão não foi diferente onde a concentração do metal sobe aproximadamente 35% em relação ao grão não lavado. Vários estudos mostram um incremento na concentração do alumínio nos alimentos, mas qual será o verdadeiro impacto na saúde humana? Neste caso, quando há possibilidade do risco, o melhor é assumir o princípio da precaução, da Organização Mundial da Saúde, onde diz o seguinte: “quando uma atividade representa uma ameaça para a saúde humana ou para o meio ambiente, devem ser tomadas medidas preventivas e precaucionárias, ainda que algumas relações de causa e efeito não tenham sido totalmente determinadas de maneira científica” (Declaração de Wingspread sobre o princípio da precaução, janeiro de 1998). Nosso dever e os das autoridades constituídas é o de reduzir e eliminar a exposição como o melhor caminho para manter a vida saudável. Resumidamente, o processo de retirada da bauxita causa um dano ambiental irremediável produzindo uma devastação na área de mineração, incluindo a geração de poeiras. O processo de lavagem da bauxita com soda cáustica para a produção da alumina produz um rejeito com a soda e que se não for bem fiscalizado vai parar quase sempre nos rios da região, ocasionando mortandade de peixes e danos à fauna e à flora da região. No processo de eletrólise encontra-se presente o coque, com benzeno, fluoretos e sódio, o que se não for bem controlado no processo causa danos ambientais e ocupacionais irreversíveis.

As doenças específicas do alumínio As principais vias de absorção do alumínio são a pele, a via digestiva, para a contaminação ambiental e a respiratória, principalmente para os trabalhadores expostos da indústria. Uma extensa revisão foi realizada por Prasunpriya Nayak (2002), do Instituto de Ciências Médicas da Índia e por Becaria e cols. (2002) do Centro de Ciências da Saúde Ambiental e ocupacional de Irvine, EUA, mostrando múltiplas manifestações clínicas associadas com a exposição ao alumínio. Nesta revisão é documentado o impacto do alumínio no sistema nervoso central atribuindo sintomas neurológicos à intoxicação por alumínio em populações expostas. Dentre os sintomas são relatados os tremores de extremidades, perda de memória, ataxia e até convulsões generalizadas parecidas com estado epiléptico. Por exemplo, trabalhadores em fábricas de esquadrias de alumínio, depois de um certo período de exposição, podem sofrer de tonturas, falta de coordenação, e perdas do equilíbrio e de energia, por acúmulo de alumínio no cérebro. A doença senil, a doença de Alzheimer e a doença parksoniana com degeneração neurofibrilar também se encontram associadas ao risco de exposição ao alumínio. Para o sistema músculo-esquelético esta revisão mostra uma toxicidade direta no osso, conduzindo em alguns casos à osteomalácia caracterizada por um desmineralização óssea o que conduz a fraturas e dores constantes. Ocorre ainda uma redução na atividade osteoblástica perpetuando as alterações ósseas. No sistema cardio-vascular pode ocorrer um acúmulo de alumínio no coração com estudos sugerindo uma possível hipertrofia cardíaca e um aumento de arritmias cardíacas. Os efeitos adversos produzidas pelo alumínio no fígado têm sido bem documentados. O aumento de alumínio no fígado pode ser responsável por colestases e

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– anorexia e conseqüente fraqueza e até psicoses, o que se agrava em crianças com dificuldades de eliminação desse metal devido a problemas renais crônicos. • Sintomas clínicos e doenças da intoxicação por alumínio em adultos: – dormências e paralisias em membros inferiores; – seborréia intensa no couro cabeludo, acompanhada de queda dos cabelos; – envelhecimento precoce; – esclerose cerebral (doença de Alzheimer); – conjuntivite crônica; – dificuldades no metabolismo do cálcio; – osteomalácia. Os trabalhadores doentes de Barcarena-PA No ano de 2003, iniciou-se uma demanda do município vizinho a Belém, chamado Barcarena, onde funcionam duas grandes indústrias da cadeia do alumínio do grupo Vale. Na maioria eram trabalhadores desassistidos em seu município, abandonados e demitidos da empresa para a qual trabalhavam. A demissão era sempre seguida de um diagnóstico qualquer de doença, o que caracterizava uma demissão irregular, pois não obedeçe as normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho e as portarias do Ministério da Previdência, que definem o amparo ao trabalhador no caso de doença produzida no ambiente de trabalho. A relação do diagnóstico da doença com o trabalho nem sempre é fácil e torna-se ainda mais difícil quando entram em cena o poder econômico da principal empresa da região. O poder econômico local limita a ação de saúde em vários aspectos, principalmente na liberdade

A literatura aponta diversos estudos relacionando asma em trabalhadores da indústria do alumínio, tendo como causa as diversas substâncias químicas produzidas nestes ambientes, tais como óxido de alumínio, gás SO2 e fluoretos. Como existe uma concentração de diferentes substâncias químicas no processo fica difícil identificar um único agente, mas a maioria dos estudos têm apontado os fluoretos como um dos principais agentes causais (SOYSETH; KONGERUD, 1992; STEINEGGER; SCHLATTLER, 1992). A primeira manifestação clínica da asma no trabalhador exposto pode variar entre semanas e anos após a primeira exposição e é possível que haja tanto um efeito irritante como uma reação imunológica na gênese da asma (SARIC, 1979; CHAN-YEUNG, 1986). B – Febre dos metais: a inalação do pó de alumínio pode causar uma febre específica dos metais provocada por inalação de óxidos de metais, que é uma doença semelhante à gripe, com duração de até 24 horas. C – Pneumopatias, aluminose e Doença de Shaver: a aluminose é uma patologia pulmonar conhecida como uma pneumoconiose causada por poeira de alumínio e a Doença de Shaver é causada por exposição aos abrasivos de óxido de alumínio (Al2O3) e fumos de bauxita. A doença produz um infiltrado instersticial, principalmente na parte superior do pulmão e às vezes ocorre a presença de bolhas pulmonares. Um estudo retrospectivo realizado na China por Peng e cols. (2005), no qual avaliaram 75 casos de aluminose de trabalhadores que se internaram no período entre 1972 e 2004, verificou-se que alguns trabalhadores apresentaram período curto de exposição de até 03 anos e 1/3 dos pacientes apresentaram a forma mais grave da doença evoluindo com fibrose intensa. No Brasil existem poucos relatos

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de casos de aluminose entre trabalhadores da cadeia produtiva do alumínio. A falta de diagnóstico se deve provavelmente à incapacidade do sistema de saúde diagnosticar os casos e dar visibilidade ao problema, específico deste tipo de exposição. Estudo conduzido por Lin e cols (2003), com 1615 trabalhadores expostos na indústria do alumínio, avaliando alterações respiratórias, sintomas e exame espirométrico encontraram uma correlação das alterações respiratórias com um elevado nível de exposição ao fluoreto, dentro de uma matriz de exposição aos gases e vapores, fluoreto, dióxido de enxofre e outras substâncias químicas e ajustado para fumo e idade. Ao final, o estudo mostrou um redução na capacidade respiratória e aumento de sintomas, até 04 vezes mais, nos trabalhadores expostos comparados com não expostos. Em um estudo realizado por Randon e cols (1999), entre 147 trabalhadores expostos numa indústria primária de alumínio na Alemanha foi encontrada uma redução na função pulmonar, ou seja, a perda de capacidade do trabalhador respirar atribuída à exposição as substâncias químicas da indústria e aos fluoretos. D – Alterações dentárias: a presença de névoas de fluoretos é responsável por provocar erosões dentárias nos trabalhadores, fato conhecido entre os profissionais da saúde bucal, mas pouco diagnosticado na sua relação com a exposição no trabalho. E – Câncer: de acordo com algumas monografias do IARC, do inglês Institute Agency Research Center (IARC, 2006), o aparecimento de câncer em trabalhadores com exposição nos ambientes com produção de alumínio tem sido demonstrado em diversos estudos, alguns apontam o pulmão como o órgão mais atingido, aparecem também estudos sobre excesso de câncer de bexiga nos trabalhadores do alumínio. Outros estudos relacionados à indústria

primária do alumínio apontam excesso de canceres como o linfosarcoma/ reticulosarcoma, câncer de pancreas e leucemias. F – Doença de Alzheimer: um tema polêmico é a relação entre a exposição ao alumínio e a doença de Alzheimer, aqui se encontram vários estudos apontando na direção desta relação. O mais recente estudo foi desenvolvido por Walton (2005), quando examinou tecidos de necrópsia de casos confirmados da doença de Alzheimer e comparou com um grupo controle. O estudo encontrou alterações de tecidos e células do sistema nervoso central nos doentes sugerindo a hipótese de que o alumínio tem um papel importante na formação das alterações e que deveria ser considerada a exposição ao alumínio como um fator causativo para a doença de Alzheimer. G – Doença Osteomuscular e Lesão de Esforço Repetitivo (LER): um dos problemas de saúde também identificados na cadeia produtiva do alumínio é a presença de alterações músculo-esqueléticas em trabalhadores da indústria. Um estudo realizado em 2000, por Morken e cols, mostrou uma elevada prevalência de distúrbios músculoesqueléticos, entre 5654 trabalhadores da indústria do alumínio. Os operários apresentaram uma maior incidência quando comparados aos trabalhadores de escritório e houve ainda uma correlação entre o tempo de trabalho e o risco de alterações músculo-esqueléticas. Apresenta-se abaixo uma síntese de algumas doenças e sintomas relacionados ao alumínio, em crianças e adultos: • Sintomas clínicos e doenças da intoxicação por alumínio em crianças: – anemia microcítica hipocrômica refratária ao tratamento com ferro; – alterações ósseas e renais;

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Tabela 2 – Freqüência de diagnósticos nos trabalhadores avaliados

Fonte:- CASAT/BELÉM/2004

Somente dois trabalhadores conseguiram realizar exames toxicológicos, em Campinas/SP, e os dois apresentaram aumento na dosagem de alumínio no sangue. Um dos exames atingiu o valor de 77mg/l, quando o máximo aceitado é de 8 mg/l.

profissional do médico local, que não dispõe, às vezes propositadamente, de meios adequados para realizar o diagnóstico e relacionar com o trabalho. Outras vezes o sistema de atenção à saúde local torna-se vulnerável e sofre pressão por parte do poder econômico estabelecido na região. Os trabalhadores foram obrigados a se deslocar para o município vizinho, Belém, e outros trabalhadores foram encaminhados para cidades como a de São Paulo, com a finalidade de realizar exames específicos e toxicológicos para o diagnóstico de intoxicação. O processo de trabalho é descrito de forma singular por diversos trabalhadores avaliados, comparando a atividade no forno de redução a uma anti-câmara da “morte”. Um operador de forno, por exemplo, realiza o rastelamento de fornos que constitui uma limpeza com um rastelo, instrumento formado por uma fileira de dentes de ferro, atividade que mantém o trabalhador permanentemente curvado, realizando um esforço físico, em um ambiente extremamente quente. Realiza ainda levantamento de vigas, troca de anodos, limpeza do butts, transferência de banho, adição de criolita, fluoreto e barrilha para formar o banho para a partida de forno. Aqueles que trabalhavam nas unidades de aquecimento retiravam a crosta que se formava dentro da câmara de combustão. Alguns trabalhadores realizavam sua tarefa na empilhadeira, no transporte de anodos, operando a ponte rolante, enfornando e desenfornando anodo. Após este processo, o trabalhador ainda realiza a limpeza da área quando havia transbordo de banho de fornos e caixas. O rejeito era apanhado com uma pá e colocado em um carrinho de mão e conduzido até as baias fora da área de produção. Outro processo de produção envolvia os lingotes, onde o trabalhador devia carregar pilhas de lingotes, pesar e transportá-las para a área de estoque, realizando esforço físico, muitas vezes, acima

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da sua capacidade física. Um trabalhador descreveu a atividade no distribuidor que controlava o tamanho do lingote como uma atividade altamente desgastante, em função do excesso de esforço físico. Realizavam ainda tratamento de escória, principalmente quando a máquina apresentava problemas mecânicos, aumentando o rejeito e precisando catá-lo manualmente. Na caldeiraria, os trabalhadores descreviam como trabalho pesado, onde carregavam peças rejeitadas de até 30kg, a uma distância de 1 metro. Manipulavam, sem proteção adequada a manta de amianto e o pó de caulim. O operador de chumbamento realizava limpeza de butts com martelete, chumbamento de anodo, feito de piche e pó de coque. O processo era realizado com um martelete de aproximadamente 30kg, suspenso em um balancinho de cabo de aço e aclopado a uma mangueira de ar para a limpeza do butts. O objetivo deste trabalho foi avaliar a saúde de trabalhadores da cadeia produtiva do alumínio, demandados à Casa do Trabalhador do Município de Belém (CASAT/BELÉM), nos anos de 2003 e 2004, com a finalidade de dar maior visibilidade ao adoecimento relacionado ao trabalho daqueles que entregam sua força de trabalho à produção do alumínio e nem ao menos foram informados sobre os riscos reais a que estariam submetidos. Será apresentado um estudo descritivo de 41 trabalhadores avaliados neste período, todos do sexo masculino. Resultados Os 41 trabalhadores foram atendidos na CASAT na condição de ex-empregados da indústria. A média de idade foi de 42,7±6,5 anos com um mínimo de 30 anos e máximo de 57 anos. A média de tempo de trabalho na indústria foi de 6,9±4,0 anos.

Dos 41 trabalhadores avaliados, 28 (68,3%) eram operadores de forno (Tabela 1).
Tabela 1 - Distribuição dos trabalhadores por atividade na indústria

Fonte:CASAT/BELÉM/2004

Foram realizados 57 diagnósticos, 25 trabalhadores com 01 diagnóstico, 13 trabalhadores apresentando 02 diagnósticos e 03 trabalhadores apresentando 03 diagnósticos. A Tabela 2 mostra a freqüência e o percentual de diagnósticos nos trabalhadores. A queixa mais freqüente entre os trabalhadores estava relacionada com as doenças osteomusculares. Deste modo, o principal dagnóstico foi a lombalgia com 65,9% dos trabalhadores apresentando problemas de coluna.

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Referências bibliográficas BATISTA, J. C. A natural resource cluster development strategy: the case of bauxite in the North of Brazil March 2000. Projeto Cepal/ IDRC. Referência: 98-8755-01(50391). BECARIA, A.; CAMPBELL, A.; BONDY S. C. Aluminum as a toxicant. Toxicology and Industrial Health, n. 18, p. 309-320, 2002. CHAN-YEUNG, M.; LAM, S. Occupational asthma. Am Rev Respir Dis. n. 133, p. 686-703, 1986. CONSTANTINO, V. R. L.; ARAKI, K.; SILVA, D. O.; OLIVEIRA, W. Preparação de compostos de alumínio a partir da bauxita: considerações sobre alguns aspectos envolvidos em um experimento didático. Quim. Nova, São Paulo, v. 25, n. 3, p. 490-498, 2002. INSTITUTE AGENCY RESEARCH OF CANCER. Disponível em: <www.cie.iarc.fr/htdocs/monographs/vol34/ aluminiumproduction. html> . Acesso em 18 fev. 2006. IREGREN, A. B.; SJÖGREN, K.; GUSTAFSSON, M.; HAGMAN, L.; NYLÉN, W.; FRECH, M.; ANDERSSON, K. G.; LJUNGGREN, A. Wennberg Effects on the nervous system in different groups of workers exposed to aluminium. Occup Environ Med, Stanford, n. 58, p. 453-460, 2001. JANSSON, E. T. Aluminum exposure and Alzheimer’s disease. Journal of Alzheimer’s Disease, Washington, n. 3, p. 541–549, 2001.

Discussão dos casos Este é um estudo de uma pequena parcela de trabalhadores (41) que conseguiram buscar atendimento médico no município de Belém. Os dados apresentados não representam prevalências ou incidências de doenças dos trabalhadores da indústria do alumínio, por não ter sido avaliado a totalidade de trabalhadores expostos. Porém, este relato expressa o adoecimento em uma parcela de trabalhadores que se expuseram por um período curto de tempo, vivenciando situações de trabalho extremamente insalubre e às vezes perigosa. A informação deste estudo descritivo reveste-se de importância pela possibilidade de levantarmos hipóteses da relação com o trabalho e principalmente para iniciar um processo de transformação da realidade, a partir do relato de casos. A primeira questão que chama a atenção é o fato da maioria estar fora do processo de produção e todos com alguma queixa de saúde. Tal fato possivelmente pode refletir a precariedade no acesso ao serviço de saúde, quando estão na produção ou então são consequências do efeito do trabalhador sadio na indústria. Quando adoecem são demitidos e só ficam na produção os trabalhadores aparentemente sadios. Os trabalhadores encontravam-se numa faixa etária altamente produtiva, num país onde a idade para aqueles que se aposentam é de 65 anos. A indústria do alumínio está devolvendo para a sociedade, trabalhadores doentes em plena faixa produtiva. A média de idade, em torno de 40 anos, deixa claro a sobrecarga de trabalho a que esses trabalhadores são submetidos. Um fator que expressa esta sobrecarga, nesta parcela de trabalhadores atendidos na Casa do Trabalhador é o pouco tempo de trabalho. O pouco tempo de trabalho ou de exposição demonstra a

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precariedade do processo e a falta de políticas de saúde e segurança na cadeia produtiva que visassem a melhoria das consdições de trabalho. Do ponto de vista da saúde, o principal problema verificado e diagnosticado entre os trabalhadores foi o problema osteomuscular, com quase 70% dos trabalhadores apresentando problemas de coluna. Entre as vértebras existe um disco cartilaginoso que funciona como proteção da coluna, evitando atritos entre os mesmos e concedendo movimentos à coluna. A extrusão deste tecido cartilaginoso é o que chamamos de hérnia de disco. O ser humano, ao movimentar-se no trabalho, emprega os músculos que se apóiam na estrutura osteoligamentar da coluna vertebral. A movimentação corporal e as demais atividades desenvolvidas (força, destreza etc.) causam um desgaste importante em três estruturas: articulações interapofisárias; disco intervertebral; músculo e fáscias. A sobrecarga nessa estrutura produz dano na coluna que se expressa como doença osteomuscular e diversos sintomas assinalados entre estes mesmos trabalhadores. Avaliou-se 4 casos de surdez ocupacional (10% da população estudada), provavelmente este número não reflete o problema real da indústria. O que está se apresentando são casos diagnosticados, a partir da suspeita do dano, não houve uma avaliação audiológica em todos os trabalhadores demandados. É possível que se todos tivessem realizado um exame audiométrico estes números poderiam ser ainda maiores. Cada caso avaliado possui uma nítida interpretação da sua relação com o trabalho. Os casos de sinusite, faringite, leucemia, adoecimento mental, doenças cardiovasculares, dermatose, aluminose e outros são facilmente relacionados com as exposições ocorridas em cada processo de trabalho, referido na história ocupacional dos

trabalhadores. No entanto, vários dos trabalhadores ainda permanecem sem o devido reconhecimento da sua doença ocupacional, tanto pela empresa quanto pela seguridade social. Infelizmente não foi possível realizar os exames toxicológicos em todos os trabalhadores avaliados, principalmente naqueles que haviam saído da produção recentemente. Seria possível mostrar resultados alarmantes visto que nos dois casos com exames mineralógicos realizados em São Paulo os níveis estavam elevadíssimos, em um dos casos dez vezes superior ao limite superior aceitável. Finalizando, pode-se apontar algumas dificuldades encontradas na região onde os trabalhadores deveriam ser acompanhados, em um programa de atenção integral à saúde. As principais dificuldades dos serviços podem estar relacionadas à falta de recurso humano para diagnóstico, à falta de infra-estrutura laboratorial e a ausência, quase que completa, de uma retaguarda hospitalar e um sistema de saúde de alta complexidade, que responda à demanda dos trabalhadores.

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trabalhadores (NEVES; PEREIRA; CABRAL, 1999). A justificativa é inspirada nos relatos de trabalhadores que alegam, por um lado, difíceis condições de trabalho e, por outro lado, nenhum conhecimento elaborado sobre acidentes e doenças que padecem. Este aspecto é condizente com os raros estudos sobre adoecimentos e agravos à saúde dos trabalhadores em indústrias de alumínio não somente no Brasil, como também no mundo. A dura realidade em que vivem os trabalhadores brasileiros foi outra motivação para a investigação realizada, em razão de que eles sofrem dupla penalização social, tanto por suas condições de vida quanto pelas condições de trabalho. Assim, submetem-se aos modelos organizacionais das empresas para garantir sustento às suas famílias, é o que declaram, o que se constitui numa argumentação incontestável, em particular porque são desprovidos de qualificação profissional, numa região em que “empregos” são difíceis e de baixa remuneração8. Além da relevância social do estudo, é sempre bom esclarecer que o alumínio, produto do processo industrial investigado, é um elemento químico (metal) cuja natureza inorgânica não permite o metabolismo pelo corpo humano. Em termos práticos, significa a impossibilidade de ser eliminado pelo organismo, sendo continuamente acumulado3 (MENDES, 1995). A principal ação deste metal é sobre o equilíbrio eletroquímico do organismo, com subseqüente deposição no sistema nervoso, daí a suspeita de provocar doenças degenerativas,
2 Nas atuais condições de recrutamento das empresas, as empresas multinacionais exigem o ensino médio completo, o que torna mais crítica a situação de trabalhadores que não alcançaram um grau de escolarização compatível. 3 Este é um debate presente na literatura acerca da ação dos metais não orgânicos no organismo humano, tanto a respeito de sua metabolização quanto às possíveis formas de eliminação do corpo. Neste estudo, nos filiamos à perspectiva apresentada por Mendes (1995), ao afirmar que metais são acumulados organicamente, sendo improvável a sua eliminação, por ausência de enzimas ou mecanismos biológicos, resultando em processos de adoecimento de longa duração que, por seu caráter insidioso, são de difícil diagnóstico.

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A PONTA DO ICEBERG: ESTUDO SOBRE ACIDENTES, “INCIDENTES” E DOENÇAS DE TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DO ALUMÍNIO EM SÃO LUÍS – MA

Ednalva Maciel Neves1 Introdução Este texto explora as relações entre trabalho e saúde no mundo contemporâneo, associadas à vertente da saúde dos trabalhadores. Os estudos científicos, neste domínio, reclamam que as relações de trabalho, as condições e formas de organização do processo de produção são consideradas fatores determinantes das modalidades de agravos à saúde dos trabalhadores. E, neste sentido, tanto a tecnologia quanto a pressão da produtividade exercida podem ocasionar um acidente ou um adoecimento, situações que nem sempre são registradas, mas que integram a experiência social dos trabalhadores. A caracterização destes aspectos relacionados ao trabalho permite reconhecer o padrão de desgaste e adoecimento operário, presentes nas atividades desenvolvidas e nas condições, nas maquinarias e na concentração de componentes que podem ocasionar acidentes e doenças ocupacionais (ROCHA et al., 1993). Este estudo aborda as condições de trabalho e os agravos à saúde na indústria do alumínio, a partir da experiência social dos

1 Professora do Departamento de Sociologia e Antropologia, Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão, doutora em Antropologia Social, edmneves@terra.com.br.

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por método estatístico aleatório e os principais dados obtidos dizem respeito a: identificação do trabalhador, descrição do acontecimento, caracterização da lesão orgânica sofrida, horário da ocorrência, tempo de afastamento e tratamento. A etapa mais significativa do estudo compreendeu a coleta de informações primárias, realizada junto aos trabalhadores. Foram recolhidas as percepções que estes agentes sociais constroem acerca dos aspectos que consideram “arriscados” no ambiente de trabalho, envolvendo as tarefas, o processo e a organização do trabalho. As informações foram obtidas através de entrevistas semi-estruturadas, cujo objetivo é garantir ao investigado narrar livremente sua experiência laboral motivado pelas questões fornecidas pelo pesquisador7. O saber elaborado pelos trabalhadores sobre a produção de alumínio foi central para a compreensão dos processos e formas de organização do trabalho. O levantamento sobre o sistema industrial de produção a partir da experiência dos trabalhadores no chão de fábrica foi inspirado num estudo semelhante realizado por Facchini et al. (1991), em Pelotas (RS). Embora alguns trabalhadores declarassem que “não conheciam todo” o processo e, em particular, as substâncias químicas comumente utilizadas na produção, a experiência acumulada permitiu montar o processo e compreender rotinas e normas que regem o cotidiano da vida fabril. A Norma Regulamentadora 09, da Portaria 3.214/1978, do Ministério do Trabalho, foi o parâmetro utilizado para levantar os fatores
7 O roteiro de entrevista consta de cinco itens: identificação do entrevistado, condições socioeconômicas, vida laboral, vida na fábrica de alumínio (ingresso, tarefas, processo e rotinas, hierarquias e normas do trabalho etc), fatores de risco e agravos à saúde identificados no ambiente de trabalho (informações emitidas espontaneamente a partir da experiência do entrevistado e questionados conforme a NR 09). Foram entrevistados 21 trabalhadores de todos os setores da produção, com duração variável, gravadas, transcritas e analisadas por categorias temáticas, conforme recomenda estudos qualitativos.

como o Mal de Alzheimer. Este é um aspecto relevante quando se considera que o processo de produção de alumínio se caracteriza pela liberação de agentes químicos na forma de vapores que são facilmente absorvidos pelo organismo através do sistema respiratório. A investigação que desenvolvi, juntamente com uma equipe de duas pesquisadoras, pode ser caracterizada como um estudo exploratório ou survey que tem como objetivo demonstrar a existência e magnitude de certo fenômeno. A intenção é fornecer conhecimentos acerca da incidência ou prevalência de um acontecimento, num intervalo de tempo. Na investigação acerca dos agravos à saúde dos trabalhadores, identifica formas de adoecimento (aguda ou insidiosa) resultantes do ambiente de trabalho e fornece elementos acerca de fatores e situações consideradas determinantes, que, devidamente ponderadas, são modificadas ou redimensionadas para garantir a condição de saúde dos trabalhadores. Os princípios que regem toda a pesquisa estão associados à saúde do trabalhador na perspectiva de Mendes e Dias (1991), envolvendo, também, a perspectiva de Lacaz (2007), ao considerar os dilemas vividos pelos estudos sobre saúde do trabalhador nos contextos sociais contemporâneos4. O conhecimento produzido a partir destes estudos provê futuros empreendimentos, aprofundando investigações sobre condições e relações sociais que compõem a situação de trabalho.

4 Para Lacaz (22307, p. 757), “Saúde do Trabalhador é campo de práticas e conhecimentos cujo enfoque teórico-metodológico, no Brasil, emerge da Saúde Coletiva, buscando conhecer (e intervir) (n)as relações trabalho e saúde-doença, tendo como referência central o surgimento de um novo ator social: a classe operária industrial, numa sociedade que vive profundas mudanças políticas, econômicas, sociais”.

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O objetivo principal da pesquisa consistiu em fornecer subsídios aos trabalhadores através do levantamento histórico e sistemático das formas de adoecimento (acidentes e doenças) resultantes dos processos e das condições de trabalho na indústria do alumínio. São subsídios, na modalidade de conhecimento científico, que fomentam a tomada de decisão e garantia de direitos sociais pelos trabalhadores e seus representantes, pelos órgãos e agentes sociais que atuam na promoção da justiça social (como os tribunais de justiça do trabalho). Este trabalho apresenta informações acerca dos acidentes de trabalho e das percepções dos trabalhadores sobre fatores de risco e adoecimento relacionado ao ambiente na indústria do alumínio. Para o entendimento das dificuldades de realização de um estudo como este, começo com uma exposição sucinta sobre os procedimentos realizados na pesquisa e, em seguida, apresento os resultados obtidos. As situações investigadas deixam entrever que existe uma política industrial de culpabilização dos trabalhadores pela empresa perante os agravos à saúde que lhes atingem, a que chamamos de ideologia da responsabilização. As narrativas dos trabalhadores são apresentadas tal como expressadas, num diálogo entre literatura existente e a Norma Regulamentadora 09, desvelando aspectos do ambiente de trabalho que podem ser apropriados pela empresa para reconhecer riscos e intervir na melhoria das condições de trabalho. Sobre a pesquisa A pesquisa partiu do levantamento de informações sobre os agravos registrados em comunicações de acidentes de trabalho para, em seguida, se dedicar à coleta de informações junto aos trabalhadores acerca das condições e organização do processo de trabalho às quais

estão submetidos. O objetivo da investigação foi revelar as modalidades de acidentes e doenças5 ocupacionais que acometem trabalhadores da indústria de alumínio6, fornecendo um panorama baseado em informações oficiais e primárias. Em resumo, além da revisão bibliográfica sobre o tema, o desenho da investigação privilegiou duas fontes de informações: as comunicações de acidente e os relatos dos trabalhadores. Etapas realizadas simultaneamente. As Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) são documentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que registram e caracterizam os agravos a partir da descrição médica do dano físico ocorrido no ambiente e no trajeto para o trabalho. O levantamento anual dos acidentes foi o instrumento utilizado para caracterizar o perfil dos eventos. A coleta de dados privilegiou o intervalo de tempo entre a construção da indústria, no ano de 1984, até o ano de 1990, totalizando 14 anos, em razão de que dados mais contemporâneos não eram acessíveis no momento da investigação. O levantamento e sua análise histórica permitiram não só a identificação dos acidentes registrados pela empresa, mas a caracterização dos acontecimentos, viabilizando a comparação com informações recolhidas junto a outras fontes, tais como a literatura científica e, em particular, os relatos obtidos de trabalhadores. Tais comunicações de acidentes foram localizadas nos arquivos do INSS, em São Luís. Examinadas 239 comunicações, selecionadas

5 Acidentes de trabalho são definidos através de legislação trabalhista específica. O leitor pode encontrar a definição na legislação em vigor, a partir da qual acidentes e doenças do trabalho são caracterizados, o que inclui as definições de “acidente típico” e de “acidente de trajeto” (Consolidação das Leis Trabalhistas e complementares como: Lei 8.213/1991 e Decreto 2.172/1997). 6 Os trabalhadores metalúrgicos, empregados diretos do Consórcio de Alumínio do Maranhão S. A. (Alumar), indústria situada em São Luís, capital do estado do Maranhão, compreenderam os agentes sociais de interlocução.

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ocupação que não exige qualificação do trabalhador, e que todos que a ocupam exercem as mesmas tarefas. Na caracterização das lesões, os membros superiores (88 acidentes) e a extremidade superior (55 casos que atingiram o pescoço e cabeça) são as partes mais acometidas do corpo dos trabalhadores, perfazendo percentuais de 36,8% e 23%, respectivamente. Estas partes são seguidas por lesões nos membros inferiores, com 46 lesões referidas em 19,2% das comunicações, seguidos das lesões que atingem o tórax e a região lombar da coluna vertebral (cada representa 6% do total de acidentes examinados). Tais informações se conjugam com o registro da causa atribuída na comunicação, revelando que 38% das ocorrências tiveram como conseqüência a manipulação de “máquina ou ferramenta” (91 casos). Outros agentes referidos como causas são: “poeiras” e “agentes químicos” (28 ocorrências, 11,7% para cada um dos itens); “esforço físico excessivo” e “queda de níveis”, fatores que são responsáveis por 9,2% dos agravos cada uma delas. Demais causas registradas são: colisão com objetos presentes no ambiente de trabalho, colisão e atropelamento automobilísticos, queda de peso sobre o corpo do trabalhador, picada de inseto, sonolência. As informações revelam, também, que pouco mais de 10% das ocorrências levaram à concessão de afastamento do trabalho (24 acidentados), embora a taxação de não registro desta informação seja elevada, pois apresenta um percentual de 51% de comunicações examinadas. No entanto, apenas 15% dos acidentados (36) tiveram um tempo médio menor que 10 dias para se submeter a tratamento, enquanto que 18% dos trabalhadores (43) tiveram direito a um tempo médio igual ou superior a 30 dias para realização de tratamento do

de adoecimento no ambiente de trabalho, a partir do seu anexo IV que estabelece a classificação8 dos riscos ambientais segundo a natureza do agente9. A utilização deste anexo foi estratégica para o estudo, já que este é considerado um dos principais instrumentos de normalização do ambiente de trabalho e de fiscalização dos órgãos competentes, devendo ser apropriado pelas comissões de prevenção e segurança no trabalho. Os grupos de risco indicados foram, também, referências para configurar o roteiro de entrevistas, bem como para os resultados da pesquisa. Quando se trata da busca por informações atualizadas, a equipe de pesquisa se deparou com dificuldades de várias ordens, e o obstáculo mais marcante para a coleta de dados está nas instituições estatais que alegam a indisponibilidade de documentos. Afirmava-se que a burocracia dos sistemas de notificação e benefícios disponibiliza os dados apenas após cinco anos do registro da ocorrência. Já as informações acessíveis (sites institucionais e do Ministério do Trabalho, por exemplo), apresentavam dados consolidados do estado do Maranhão, não contabilizados por empresa. Restava, ainda, o fato de que ao Sindicado dos Metalúrgicos do Maranhão (Sindmetal), os acidentes de trabalho ocorridos não são comunicados, o que leva ao desconhecimento da real situação pela representação dos trabalhadores.
8 Trata-se da Tabela 1 do Anexo IV – NR- 9 (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais) da Portaria nº 3.214/1978, sobre a Classificação dos Principais Riscos Ocupacionais em Grupos, de Acordo com sua Natureza e a Padronização das Cores Correspondentes (Mapa de Riscos). Segundo a legislação, o objetivo é construir um mapa sobre riscos ambientais que podem depreciar a saúde dos trabalhadores. As normas regulamentadoras indicam limites de tolerância ambientais, equipamentos de proteção e segurança, assim como procedimentos para o acompanhamento da saúde dos trabalhadores. 9 O processo de produção de alumínio se caracteriza por um trabalho contínuo, de natureza química, visando a liberação do metal da forma encontrada na natureza, na composição chamada bauxita. Por isso, não iremos discorrer sobre riscos biológicos, já que não estão presentes neste processo, tal como relatado por trabalhadores e verificado na literatura sobre o processo de trabalho de produção de alumínio.

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A qualidade das informações é prejudicada pela natureza incompleta, descrição ilegível ou ausência do dado. Esta dificuldade está relacionada ao preenchimento das Comunicações de Acidente e revela o nível de atenção dada ao registro da informação pelo profissional de saúde. Na realização das entrevistas, a dificuldade surgiu por parte dos trabalhadores, que reclamavam de medo de “perder o emprego” ou de receber alguma represália da empresa. Por tais motivações, foi garantido o anonimato dos entrevistados como condição de participação e ética da pesquisa. Perfil dos acidentes de trabalho: dos “incidentes” e da ideologia da responsabilização Na construção do perfil dos acidentes de trabalho registrados, dois aspectos foram centrais para entender a experiência cotidiana dos trabalhadores: um deles consistiu nos dados concretos armazenados nas CAT e o outro compreendeu a discussão levantada pelos trabalhadores sobre a caracterização e a definição do que são acidentes de trabalho pela empresa. Tal discussão surgiu quando os trabalhadores exploravam os riscos de acidentes presentes no ambiente de trabalho. Um dos aspectos relevantes da comunicação de acidentes é caracterizar o tipo de agravo. Do total de comunicações examinadas, em 205 as lesões descritas pelos profissionais são consideradas decorrentes de acidentes típicos de trabalho, o que equivale a aproximadamente 86% dos registros, já em 21 delas o profissional não qualifica a causa da lesão ou o faz de forma ilegível. Apenas 12 acontecimentos, cerca de 5%, foram descritos como conseqüências de acidentes de trajeto, enquanto um caso estava registrado como

acidente de trabalho e de trajeto simultaneamente (0,4% do total das comunicações examinadas). Apesar do número de comunicações sem registro (ou escrito de maneira ilegível) do turno de ocorrência do acidente (121), 93 delas indicavam que o acidente ocorreu durante turnos diurnos (38,9%), contra 23 (aproximadamente 10%) são declaradamente sofridos no turno da noite ou noturno, como registrado. No exame da faixa etária dos trabalhadores acidentados, observa-se que 121 (50,6%) dos eventos ocorreram em trabalhadores com idade entre 19 e 29 anos, fenômeno que se agrava quando acumulamos os acidentados com idade até 39 anos, cujo percentual alcança a cifra de 86,4% das ocorrências, equivalente a 206 comunicações de 239 examinadas. Este perfil etário revela que os trabalhadores acometidos encontravam-se no início da vida economicamente ativa, com possibilidades perdas sociais variadas comprometendo sua permanência no mercado de trabalho. Quando se verifica a ocupação dos trabalhadores, ressalta-se que a maior incidência de acidentes recai sobre os envolvidos no processo de produção, o que compreende 205 ou 86% das comunicações examinadas. Dentre estes, os operadores despontam como os mais atingidos (82 ocorrências, aproximadamente 34,3%), seguidos pela categoria dos mecânicos que totalizam 17,1% dos acometimentos (41 acidentados). Apenas em 17 eventos (5,7%), os atingidos não estão diretamente envolvidos na produção, são categorias como: administrativos (08), auxiliares de segurança (03), trabalhadores do almoxarifado (02), auxiliares de serviço (02) e técnico de meio ambiente (02 casos). Este dado se torna muito relevante quando é acrescido da informação de que a função de “operador” é uma

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Adota-se uma nomenclatura oportuna, distinguindo-se entre “incidente” e “acidente”. São considerados e chamados de “incidentes” as ocorrências avaliadas como “menos graves”, tais como: “queimaduras, cisco no olho”. Já aqueles eventos que exigem apenas o “afastamento do setor de trabalho”, são costumeiramente designados como condição do “regime restrito”. Os acontecimentos considerados “menores” não aparecem no âmbito das estatísticas, descaracterizando os fatores de risco presentes no ambiente de trabalho. Os baixos percentuais de afastamento do trabalho indicam que a classificação fundada no “incidente” tem sido eficaz na cultura da empresa em limitar o número de acidentes de trabalho comunicados, e que recebem assistência à saúde no ambiente de trabalho. Apenas os acidentes que provocam lesões graves são notificados como acidentes de trabalho. Estes quase sempre exigem dias de afastamento ou provocaram lesões que exigem tratamento de saúde. Outro recurso que reforça esta política compreende a implantação do “recorde de dias sem acidentes12”, que passa a ser um objetivo a ser atingido pelas equipes de trabalho na empresa. Os trabalhadores alegam que existe um custo para aquele que é acidentado, em razão de que toda a equipe é “marcada” por ter maculado a quebra do recorde. Isto provoca um “sentimento de culpa” nos trabalhadores acidentados, estigmatizados pelos colegas de trabalho. Trata-se de que

agravo, mediados por 30,6% que tiveram entre 10 e 29 dias de tempo médio para assistência ao agravo sofrido (73 acidentados)10. Em resumo, pode-se dizer que o trabalhador acidentado é jovem e de baixa qualificação profissional. Os acidentes de trabalho sofridos ocorreram durante o dia, com aparente baixa taxa de concessão de afastamento, porém com elevados percentuais de tempo médio de tratamento. As lesões corporais são resultantes de agressões provocadas por: manipulação de “máquina ou ferramenta”, poeiras e agentes químicos presentes no ambiente, esforço físico excessivo e queda de níveis. Informações coletadas junto aos representantes dos trabalhadores, no Sindmetal, revelaram que até 1999 haviam apenas quinze ações ajuizadas sobre acidentes de trabalho. As ações decorriam de danos e lesões sofridas no ambiente de trabalho, impetradas pelos trabalhadores para buscar o reconhecimento de seus direitos trabalhistas pela empresa. As principais reclamações dizem respeito a problemas de saúde caracterizados como: problemas de coluna (06 casos, 40% do total), infortúnio laboral (04 casos, o que corresponde a 26% das queixas), perda da visão (02 casos, equivalente a 13%), ferimentos nas mãos e mutilações de dedos (02 casos, 13%) e perda de olfato e amígdalas (01 registro, equivalente a 8%). Quando o trabalhador é questionado sobre fatores que consideram arriscados no ambiente de trabalho, os aspectos indicados reforçam o perfil encontrado nas comunicações e fornecem outros elementos que contribuem para a compreensão do cotidiano no trabalho. Para eles, “arriscadas” são aquelas “condições ou situações de perigo
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12 O recorde é registrado em outdoor, estrategicamente posicionado na empresa, de modo que trabalhadores e visitantes o percebam. No entanto, isto não impede que “[caso] o trabalhador seja, pelo menos capaz de ir à indústria, mesmo que não possa trabalhar o recorde não é quebrado, porque não está ‘caracterizado’ o afastamento. Deste modo, o record estatístico continua até que um trabalhador esteja gravemente ferido ou doente” (MOREIRA, 1992, p. 112).

Cabe ressaltar que 36,4% das comunicações de acidentes de trabalho não registravam

essa informação ou o registro estava ilegível, o que leva a ponderar sobre a responsabilidade do profissional de saúde que atende ao acidentado e preenche o formulário, e, em tais situações, os maiores prejudicados são os trabalhadores, que não têm a sua disposição informações fidedignas acerca das circunstâncias e da intensidade dos agravos.

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que podem causar um acidente ou fazer adoecer e impedir de trabalhar” (depoimento). A referência ao “impedimento de trabalhar” é uma das preocupações destes indivíduos, em razão de o trabalho ser um valor social cuja realização depende da saúde do corpo físico (BOLTANSKI, 1989), em particular quando a qualificação é limitada. Daí porque os trabalhadores acumulam conhecimento sobre situações insalubres e “arriscadas” de trabalho que podem comprometer o corpo e ameaçar o cumprimento do ofício. Segundo Duarte (1996), os trabalhadores associam a idéia de adoecimento apenas com casos de acidentes graves que limitam ou impossibilitam sua capacidade para exercer o trabalho. Nessa lógica, o trabalhador não valoriza acidentes de menor gravidade e não relacionam sintomas leves e insidiosos de doenças com o trabalho, por conseguinte não contabilizam as pequenas ocorrências diárias de “choques” ou outros agravos que sofreram. Entre os trabalhadores entrevistados, esta estratégia desponta de maneira bastante espontânea quando afirmam que nunca “sofreu[ram] acidentes, apenas uns choquinhos”. Poucos trabalhadores chegaram a afirmar (03 dos entrevistados) que “[o] risco maior de adoecer é de queimadura e de morrer é por doença ocupacional” (depoimento). Os trabalhadores revelaram, ainda, que conhecem fatores do ambiente de trabalho que podem resultar em acidentes, no entanto preferem banalizar os riscos que correm em razão do objetivo maior que é a garantia do emprego e, conseqüentemente, dos salários. Tal estratégia está associada ao duplo sentido que atribuem ao trabalho, entendido, por um lado, como esfera de valorização da vida pessoal (identidade cultural) e, por outro, pela manutenção da qualidade de vida familiar, o que inclui os projetos familiares de reprodução reforçados com os ganhos secundários fornecidos pela empresa (plano de saúde, lazer etc.).
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É nesta trilha que se chega ao dilema da definição do acidente de trabalho, e que compreende também a administração política da empresa destes acontecimentos. Nas informações recolhidas junto aos trabalhadores, eles relataram que, quando se trata de acidentes de trabalho, o Decreto 2.172/199711 delibera sobre duas formas de caracterização do acidente: administrativa e técnica, como “instrumento de reconhecimento do direito do trabalhador”. Na caracterização administrativa, o setor de benefícios do Instituto Nacional de Previdência Social estabelece o nexo existente entre o trabalho exercido e o acidente, enquanto na caracterização técnica da perícia médica busca-se identificar o nexo causal do acidente ou lesão ocorrida com a atividade desenvolvida. A caracterização do acidente é relevante em razão de que procedimentos de segurança são adotados como estratégia de prevenção de eventos futuros, com gravidade variável e que podem acarretar afastamentos do ambiente de trabalho. Na experiência dos trabalhadores, a política adotada pela empresa busca minimizar a ocorrência de acidentes de trabalho, por isso adota estratégias que limitam o registro dos acontecimentos. A empresa recomenda que, diante da ocorrência de um “quase acidente”, o trabalhador deve informar ao líder de seu grupo, responsável pelo preenchimento do relatório. No entanto, pequenas ocorrências não são relatadas, por força do “medo de ficar marcado”. Nesta política inclui-se, também, o afastamento do ambiente de trabalho utilizandose os dias de folga acumulados pelo trabalhador, no caso de acidentes que exigem “poucos dias de afastamento”.

11 Trata-se de Decreto da Presidência da República que regulamenta os Benefícios da Previdência Social, revogado pelo Decreto nº 3.048, de 12 de maio de 1999, sobre o Regulamento da Previdência Social.

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durante as entrevistas, em razão de que os trabalhadores não têm conhecimento sistematizado sobre as composições que utilizam na realização das tarefas. No entanto, a partir da reconstituição do processo de trabalho, eles puderam indicar os compostos que são manipulados na produção. O relato abaixo é emblemático da descrição feita pelos trabalhadores dos processos de trabalho e dos agentes químicos encontrados no ambiente. Essa função, hoje, é mais de monitoramento do processo em si, porque lá na fábrica de alumina, onde transforma o minério, a bauxita em si, e sai a alumina que é um pozinho branco, tipo açúcar. Desse produto é transformado em alumínio metálico. O produto químico que é usado nesse processo é só a soda cáustica misturada com água, ela forma uma solução chamada licor e esse licor com uma determinada concentração e a uma temperatura é adicionado com a bauxita. Ele fica que nem uma pasta e daí é que é feito o processo (depoimento). Na perspectiva dos trabalhadores, são empregadas várias substâncias, tais como: soda cáustica, coque, piche, ácido sulfúrico, hidrocarbonetos, fluoreto de alumínio, solventes, alumínio (alumina e metálico), criolita, extrato de carvão, enxofre, magnésio entre outros que não aparecem nos discursos dos trabalhadores. Apesar deste inventário, os conhecimentos sobre essas substâncias são adquiridos através de várias fontes, desde reconhecimento por experiência anterior de trabalho com certas substâncias até a identificação a partir das conversas entre líderes de equipes e supervisores. Alegam que muitos agentes químicos são conhecidos pela leitura dos rótulos presentes nas embalagens e que indicam a gradação de perigo da substância química.

se “sentem responsabilizados” pelo ocorrido, o que leva o trabalhador acidentado a aceitar as condições impostas pela empresa como uma forma de não ficar “mal visto” pelos companheiros de equipe. Cria-se, desta forma, um mecanismo de controle entre os membros da equipe, que consiste no controle sobre si-mesmo e sobre os colegas. Assim, afirmações como: “nosso grupo nunca aconteceu um acidente”, “no dia tal, batemos o recorde de acidente” são expressões comumente valorizadas pelos trabalhadores. Esta política exerce um desvio na responsabilização do acidente, passando da análise dos aspectos relacionados à natureza e processos de trabalho para a pessoa do trabalhador. O desvio da responsabilização repercute sobre direitos sociais, já que a ausência de registro oficial dos acontecimentos não possibilita seu reconhecimento posterior por instituições sociais de direito. Estes elementos são reveladores de uma política de segurança, fundada numa idéia de risco em que o trabalhador é considerado o responsável pelos danos que o atingem no ambiente de trabalho. Tal sistema de responsabilização e controle pelos trabalhadores caracteriza o que designo de ideologia da responsabilização, que é reforçada pela baixa oferta de trabalhos, pelo contingente de trabalhadores disponíveis e pela sensação de ameaça de “perder o emprego”, como já enfatizado. Os trabalhadores reconhecem fatores associados ao ambiente de trabalho e, neste sentido, valorizam a política de segurança desenvolvida na empresa. No entanto, ponderam sobre as exigências que lhe são feitas e a pouca intervenção da empresa nas condições e nas relações de trabalho.

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Fatores de risco e formas de adoecimento A partir da descrição das tarefas que realizam na indústria de alumínio, os trabalhadores exploraram os aspectos do ambiente de trabalho abalizados como fatores que podem provocar algum adoecimento. Nas narrativas operárias, as situações de risco por eles identificadas foram relatadas tendo como referência casos de acidentes, sofrimentos vividos por colegas e mortes que testemunharam ou que são contadas por colegas de trabalho, o que inclui a experiência própria com problemas de saúde. Estes “casos” fazem parte da memória coletiva dos trabalhadores e compõem o conhecimento acumulado no cotidiano laboral. A sistematização das informações coletadas teve como referência o Anexo IV da Norma Regulamentadora 09 (Portaria 3.214/ 1978), como já dito. Assim, foi possível recolher informações sobre fatores de risco e sinais de adoecimento referidos pelos trabalhadores. Dentre os agentes reunidos no primeiro grupo, definido como riscos físicos (ruídos, vibrações, pressões anormais, temperaturas, umidade e ventilação etc.), encontram-se os fatores que presentes no ambiente de trabalho podem provocar danos à saúde quando extrapolam limites de tolerância. São fatores que podem ser medidos através de instrumentos objetivos, como fotômetros, fonômetros e outros. Questionados sobre como era o ambiente de trabalho, os entrevistados foram unânimes em dizer que “[escuro] não é. Calorento, sim”, outros foram ainda mais enfáticos ao relatar que “[até] porque o ambiente de trabalho é muito desconfortável, desconfortável mesmo, é quente; você sua, você perde calor, você se irrita fazendo o serviço, porque no momento que você tá suado, você já perde a concentração, e lá você só trabalha suado. É quente, super-quente” (depoimentos).
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O calor advém do uso da energia elétrica em alta voltagem para garantir a composição química e liberação do alumínio, resultando em altas temperaturas ambientais. O calor provoca a perda de líquidos e altera a homeostase orgânica, e o risco de desidratação e desfalecimento é elevado, por isso foi dito que “às vezes, o cara desmaia. Já houve caso de pessoa desmaiar” (depoimento). Os trabalhadores informaram ainda que o ruído é também outro aspecto físico presente no ambiente de trabalho. As informações revelam que “o ruído é um negócio que incomoda muito a gente. Barulho, se bem, a gente usa o protetor, abafador, mas o ruído incomoda. Nem sei, há dias que a gente se irrita. Não sei se é do barulho, se é mesmo do processo” (depoimento). Mantido o controle pelo uso de protetores auriculares, parece que o ruído é deslocado frente ao “calor”. A este conjunto de fatores, os trabalhadores reclamam de desidratação, sudorese intensa, câimbras, desfalecimentos, distúrbios na pele, entre outros aspectos relacionados ao comportamento, como irritabilidade. O segundo grupo do Anexo IV reúne os fatores químicos, entendidos como “substâncias, compostos ou produtos que podem penetrar no organismo pelas vias respiratórias em forma de névoas, fumos, gases, ou vapores; ou que pela natureza da atividade e exposição possam ter contato ou ser absorvidas pelo organismo através da pele ou por ingestão” (MIRANDA, 1998, p. 30). Os agentes químicos são considerados, na literatura da saúde do trabalhador, como causadores de doenças ocupacionais, em razão da exposição prolongada e da natureza insidiosa da agressão ao organismo. Segundo os entrevistados, as substâncias aparecem na forma de vapores e líquidos. A identificação das substâncias e compostos químicos presentes no ambiente de trabalho foi um exercício difícil

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consiste na substituição do cálcio ósseo, por isso provoca lesões neste sistema e tecidos associados, causando osteofluorose que compreende a esclerose das articulações, tendões, dos ossos da região pélvica e da coluna vertebral. Os principais sintomas da doença são: dor de cabeça, dores reumáticas, insônia, estado de debilidade física, náuseas, diarréia, resfriado, vômito, além de variação da pressão arterial (MÜLLERPLANTENBERG, s/d, p. 26). Questionados sobre doenças do trabalho, sete deles incluíram em suas narrativas questões relacionadas ao fluoreto, um deles alegou “[já] ouvi falar bastante, inclusive teve gente que foi transferido de área porque estava com fluorose, doença, doença provocada pelo flúor” ou ainda “[rapaz], tem um vapor. Vapor, não. É um que eles chamam fluoreto que existe mais é em salas de cubas. Quando houve um caso desse no lingotamento, de excesso de fluoreto, todo mundo parece que tem essa substância no corpo” (depoimentos). Corroborando com estas preocupações, um entrevistado relembrou que, até 1993, não usavam o EPI na área de lingotamento, alegando-se que “jamais havia sido provado que a doença nesse setor de qualquer fábrica de alumínio”. Consta na literatura que uma intoxicação aguda por fluoreto raramente acontece no ambiente de trabalho, uma vez que sua liberação em grandes quantidades produz um odor característico, sendo facilmente identificável.
Los efectos de la exposición profesional a los fluoruros tardan muchos años en manifestarse. Según los casos publicados, incluso después de una exposición a concentraciones extremas de fluoruro en el aire (que van de 20 mg/m³ a 9g/m³), las primeras lesiones óseas detectables se produjeron aproximadamente el cabo de 10 años (OMS, 1997, p. 99).

Nesse sentido, o risco de uma intoxicação crônica é bem mais aceitável, porque a contaminação ambiental pelo fluoreto de alumínio é aparentemente imperceptível. Dentre os trabalhadores com mais de

A presença de substâncias nocivas nos ambientes de trabalho deve ser considerada um dos fatores de agravos à saúde. A inalação de vapores ou fumos é a modalidade mais freqüente de adoecimento (intoxicação aguda ou doença ocupacional). Este fato é potencializado quando associado ao esforço físico (levantamento de peso, por exemplo), em razão da maior ventilação exigida dos pulmões. Embora a via respiratória seja aquela de maior absorção de substâncias tóxicas, devemos considerar também a pele e a via digestiva como possibilidades de contaminação. Acerca destas substâncias, os trabalhadores reclamam também de queimaduras e dermatites de contato, assim como de partículas que penetram nos olhos e de “asma ocupacional” – o chamado cansaço. Os trabalhadores reconhecem que a empresa produz, também, os insumos necessários à produção do alumínio (anodo é um produto químico indicado por eles, por exemplo). No entanto, os componentes utilizados não são identificados pelos trabalhadores que alegam desconhecer a totalidade das substâncias e seus componentes utilizados na produção do alumínio. Essas substâncias dificilmente serão reveladas pela empresa, em razão de que se trata da produção industrial e, portanto, da competência e competição internacional de fabricação de metais flexíveis utilizados na confecção de bens materiais de consumo: automotivos, embalagens, engenharia de construção etc. Muitas substâncias químicas referidas pelos trabalhadores possuem limites de tolerância definidos pela legislação internacional e nacional, baseados em estudos prévios sobre a fisiopatologia das agressões sobre o organismo. Porém, cabe ressaltar que algumas citadas pelos trabalhadores exigiriam estudos específicos, como é o caso do manganês, causador de uma patologia denominada Parkinson

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mangânico e que pode ser potencializado pela exposição concomitante com outras substâncias. Diante da profusão de substâncias citadas pelos trabalhadores, a estratégia, então, foi investigar os danos à saúde provocados por duas substâncias químicas presentes na cadeia produtiva: o alumínio e o flúor, na forma de fluoreto de alumínio. Entre as doenças geradas pelo alumínio, estão as denominadas pneumoconioses. Segundo Mendes (1980, p. 217), pneumoconioses metálicas resultam reação pulmonar à deposição de alumínio inalado, podendo variar o quadro clínico até a chamada asma ocupacional. No levantamento bibliográfico sobre doenças provocadas pelo alumínio, surgiram a referência a dois quadros consideradas de maior gravidade: aluminose e a doença de Shaver. A primeira é determinada pelo alumínio metálico e a segunda pelo óxido de alumínio ou corundum, segundo Mendes (1980, p. 217). Essas duas já foram descritas na Alemanha (1940), no Canadá (1947) e também no Brasil (1963). A aluminose é uma doença crônica ocupacional provocada pela inalação e fixação da poeira do alumínio no pulmão, que produz um quadro progressivo e grave de fibrose pulmonar difusa. Reconhecida em estudos comparativos envolvendo grupo de trabalhadores (população exposta) e grupo de população não exposta, no entanto, por não ter sido ainda intensamente estudada, acredita-se que o tempo de exposição para o desenvolvimento varia de 2 a 20 anos, com tendência a ser inferior a 10 anos na produção de corundum. O Imparcial, jornal de circulação diária do estado do Maranhão, estampou em suas páginas no dia 24 de janeiro de 1999, uma matéria sobre um trabalhador da indústria de alumínio, de 51 anos dos quais doze trabalhados na Alumar, que desenvolveu quadro respiratório semelhante. Os sintomas descritos caracterizam doença

pulmonar restritiva tal como descrita na literatura sobre a aluminose, não reconhecida como doença ocupacional. Demitido pela empresa e a doença tem sido considerada como asma brônquica, de herança familiar, que se acompanha de sinusite e resfriados. Ao alumínio também é atribuída a capacidade de provocar danos neurocomportamentais. Isto se deve à natureza neurotóxica desse metal, e produz as encefalopatias tóxicas de origem exógenas. Segundo Mendes (1995, p. 270), as manifestações neurotóxicas dependem de dois aspectos principais: o tempo de exposição e o agente neurotóxico. Os danos provocados pelo alumínio são classificados nas denominadas encefalopatias tóxicas e podem ser agudas ou crônicas. Pelo menos dois trabalhadores alegaram que: Eu já senti coisas até piores. Eu cheguei com problema de estressar, processo alérgico, ficar muito irritado, não ter tolerância com nada. Eu já superei isso. Essa parte, também, já melhorei mais um pouco, esse lado. Mas, esse problema de esquecer, de não lembrar, de saber mais é da tabela, que hora que vai trabalhar em tais fornos. Quer dizer, a gente fica como se fosse num outro planeta, vivendo mais o trabalho do que a vida, do jeito que deveria ser feito. Isso é a gente sair da realidade e ficar mais no cumprimento de um dever (depoimento). A encefalopatia tóxica crônica caracteriza-se por efeitos sutis, decorrentes do processo gradual de deterioração do sistema nervoso, alterando a capacidade de raciocínio, memória, coordenação e demais funções complexas do sistema nervoso. A fluorose, um dos primeiros sinais de intoxicação por flúor e seus compostos, caracteriza-se por manchas esbranquiçadas nos dentes que passam despercebidas, em razão de que a instalação da fluorose depende do tempo de exposição. Seu mecanismo fisiopatológico
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A luminosidade é um dos agentes comumente referidos pelos trabalhadores. Causado pelo reflexo no metal da luz ambiente, provoca ofuscamento resultando na contração prolongada da retina. É responsável por lesões nas estruturas oculares e pelo surgimento de doenças como a catarata, além de gerar irritabilidade e cefaléias. Os trabalhadores comentam que “[durante] a noite, ele é de muita luz. Ela reflete muito forte e é muito quente. Muito quente com muita luz. A luz de cima” (depoimento). Cabe lembrar que dos 15 processos ajuizados, segundo o Sindmetal, dois deles estavam associados à perda de visão. Dentre os mais referidos agravos encontra-se a “queimadura”, para eles “[é] quando você encosta em qualquer equipamento daquele, você é queimado” (depoimento), em razão do “fogo de energia” e que submete o trabalhador, também, aos “pequenos choques”. Em termos de acidentes, como já observado nas comunicações, os membros superiores e também inferiores são algumas das partes do corpo mais atingidas. Outros agravos são revelados com o seguinte teor: “[quebrar] dedo é quando os mecânicos. Aí, o camarada vai tirar qualquer peça daquela, ele usa material inadequado aí acontece. Já aconteceu vários colegas quebrar os dedos nesse tipo de trabalho” (depoimento). Uma declaração que surpreendeu a equipe foi a de que se trabalha “numa área pressurizada, tipo uma bomba”, e tal referência foi expressa por vários entrevistados, Essa declaração sobre os riscos como “pressão”, ou como uma “bomba” busca expressar a intensidade das tensões vividas no ambiente de trabalho. A metáfora usada se constitui num desabafo sobre condições e relações de trabalho, confessado que “[e] outra coisa, o maior índice de, pra morrer mesmo é no caso de prensar, ser prensado de máquina, por exemplo” (depoimento).

10 anos de trabalho na operação, alguns alegaram que colegas queixam-se de muitas dores de coluna e de cabeça, “fadiga no corpo”. Um deles chegou a narrar que: “[eu] sinto muitas dores, dores todo tempo. Eu estou ainda em tratamento com um reumatologista, que eu estou sentindo disso aqui, oh, [dor] nos braços e no joelho dos dois lados” (depoimento). A grande dificuldade dos trabalhadores é conseguir comprovar que a doença ocupacional existe. O grupo quatro relaciona os agentes designados como ergonômicos, e que compreendem os equipamentos e esforços realizados no desenvolvimento das tarefas. Neste, são considerados fatores vinculados à organização (turnos, monotonia, repetitividade, pressões, intensidade, conteúdo e controle sobre o trabalhador), aos equipamentos e às atividades físicas de levantamento, transporte e descarga de materiais associados ao trabalho. Aqui, a centralidade é sobre a postura física, mudanças de níveis, deslocamento de pesos e esforço físico excessivo. O adoecimento provocado por estes fatores envolve principalmente as lesões do sistema osteomuscular, conforme aparece nas comunicações de acidentes de trabalho. Neste sentido, um entrevistado esclareceu que os maiores acometimentos “são doenças de coluna. É o que mais acontece, que a gente sobe e desce, pega peso. O serviço braçal, o esforço físico é muito grande” (depoimento). Associando-se a altura das pontes rolantes e a obrigação do cumprimento das tarefas, os riscos são potencializados. A caracterização das tarefas, ritmos e pausas revela pouca margem de administração do trabalho, anulando a iniciativa e a capacidade criativa do trabalhador. Apesar da referência ao planejamento introduzido pela organização em sistema de qualidade total, as tarefas e objetivos estão previamente definidos, cada vez mais limitadas à monitoração de sistemas e manutenção de equipamentos.
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O ritmo do trabalho é muito forte, muito agitado, muito acelerado. A pressão sobre o trabalho lá é muito grande, muito grande. A pessoa é pressionada tanto, é fisicamente, o desgaste é muito grande, como psicologicamente (Depoimento).

E, hoje, com o TPM (Manutenção de Produtividade Total), a gente tá sendo, além de todo esse trabalho que é um pouco técnico, tem outro lado que é com a introdução da TPM, a gente se torna também um zelador, porque a gente faz a parte de mecânica. Aquele detalhe mínimo de mecânica, de elétrica e faz a parte da limpeza total, chega a ponto de me dar pano pra limpar uma estrutura de ferro, uma coisa assim (depoimento).

Conjuga-se, desta forma, fadiga física e insatisfação no trabalho, que associadas com outros aspectos resultam no que alguns autores denominam de fadiga industrial. A denominada fadiga industrial, segundo Oddone et al. (1986, p. 24) “incide profundamente sobre a saúde psicofísica do trabalhador”, de maneira que esse é um dos grupos que mais concentra comentários dos trabalhadores sobre situações causadoras de estresse físico e/ou psíquico. Cabe ressaltar que estão aí incluídas operações desenvolvidas sempre da mesma forma e repetidas durante toda a jornada de trabalho, caracterizando a monotonia, provocando distúrbios de ordem psicológica – doenças inespecíficas de adaptação (ODDONE et al., 1986, p. 39). Tais distúrbios acabam por gerar disfunções orgânicas, principalmente doenças que se apresentam com “sintomas não específicos”, tais como: alterações da atenção, distúrbios do humor, irritabilidade, alterações no ritmo do sono, e outros, por exemplo: dor de cabeça (cefaléia), taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos), gastrite (azia) e distúrbios intestinais – colites. Outros elementos relacionados à organização do trabalho chamam a atenção quando se trata do sistema de controle sobre a realização da tarefa pela empresa. Compreende, assim, o modelo de gestão do trabalho13 adotado e das relações sociais hierarquizadas que aí se desenvolvem para garantir a produtividade. É neste contexto que o trabalho revela que:

As novas propostas de organização do trabalho impõem, assim, o acréscimo de atividades que descaracterizam a especialização do ofício tão cara ao trabalhador, em razão da experiência e conhecimento acumulados, e que conferem autoridade ao portador. Os novos métodos de gestão introduzem novas atribuições aos trabalhadores, aliando controle de tempo e tarefas (CORIAT, 1994). As hierarquias e pressões, também, são incorporadas e os trabalhadores explicitam essa situação explorando as figuras do “líder de equipe” e do “supervisor”, dito da seguinte forma: “[o] que ele faz? Ele é só pressionar, cobrar nós. A cobrança do nosso trabalho. Mesmo quando num tá, a produção não saiu correta, alguém deixou de fazer alguma coisa, neguinho cobra” (depoimento). O quinto grupo reúne os agentes que provocam acidentes vinculados à organização do ambiente, tais como: arranjo físico inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção, ferramentas inadequadas ou defeituosas, iluminação inadequada, eletricidade, probabilidade de incêndio ou explosão, armazenamento inadequado, animais peçonhentos, entre outras situações de risco que poderão contribuir para a ocorrência de acidentes.

13 Em 1993, a Alumar iniciou a implantação do sistema de gestão fundado sobre o princípio da manutenção de produtividade total (TPM) e dos círculos de controle de qualidade (CCQ). Segundo Castro (1977) as tensões do mercado mundial, o que inclui a competitividade, têm influenciado a adoção de programas e inovações tecnológicas com padrão organizador da rotina nas fábricas (p. 169).

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Como a crônica de uma morte anunciada, este comentário foi feito antes do acidente de trabalho que vitimou um trabalhador, levandoo à morte. O acontecimento refletiu entre trabalhadores e pesquisadores, emocionalmente sensibilizados. Além disso, a ausência de informações sobre o acontecimento em órgãos públicos responsáveis pela fiscalização de empresas desvelou o grau de dificuldades pelas quais passam os trabalhadores para alcançar o reconhecimento de seus direitos sociais. Em resumo, os principais sintomas que os trabalhadores reconhecem como principais fenômenos que os afetam são os casos de “doença de coluna”, “questões de vista”, “cansaço”, “irritabilidade”, “mudanças de humor”. Alguns revelaram conhecer sobre “problemas” causados pelo chamado “fluoreto” e pelo “alumínio” e associaram ao fato de que tinham colegas que haviam “acusado” nos exames periódicos, que tiveram de “mudar de setor”. Aqui, a compreensão da doença insere-se na mesma lógica político-administrativa da ideologia da responsabilização, já que os trabalhadores consideram que doenças ocupacionais “[são] doenças que você adquire dentro do trabalho por descuido ou erro” (depoimento). Segundo esta versão, as doenças são desenvolvidas pelos trabalhadores, por causas que são inerentes ao organismo de cada um, desviando da exposição ocorrida no ambiente de trabalho. Assim, a empresa deixa de reconhecer os adoecimentos que atingem aqueles que ali trabalham e o pagamento de direitos sociais à coletividade.

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Conclusões Já se foi uma década desde a realização deste estudo. As inquietações permanecem, assim como as expectativas de realização de investigações que possam aprofundar as questões relativas aos agravos à saúde dos trabalhadores na indústria do alumínio. Carecemos, ainda, de um mergulho demorado, sistemático e intenso sobre as situações de saúde dos trabalhadores, que permita dimensionar e acompanhar a parte imersa do iceberg. Desde então, as mudanças nas relações de trabalho, com a terceirização, por exemplo, e a implantação de sistemas automatizados e grupos organizacionais são alguns dos aspectos que podem motivar o desenvolvimento de novos estudos. Antecipo que as inquietações resultam, também, das dificuldades de intervenção sobre os processos de trabalho, a assistência e as políticas de saúde voltadas para os trabalhadores a partir do conhecimento produzido. Nos documentos analisados, os pesquisadores se depararam com informações incompletas ou preenchidas de maneira ilegível, aspectos que revelam atitudes de descaso com a assistência à saúde de trabalhadores. As conseqüências deste descaso despontam no chamado subregistro de acidentes e doenças do trabalho, assim como no domínio do direito social, em particular quando se trata de reconhecer direitos trabalhistas. Cabe lembrar que o estudo sobre a saúde de trabalhadores envolve agentes sociais que integram perspectivas de si mesmo (identidade profissional) e estratégias familiares. Articulação que fomenta a estimativa cotidiana dos riscos a correr no ambiente de trabalho. Portanto, os riscos que se corre são considerados menores, já que apenas o trabalhador é atingido, e não a sua família. Da urgência pelo trabalho ao pacto com a ideologia da responsabilização, os

trabalhadores vivem novos dilemas (exigências de qualificação) e mantêm antigos problemas (contingente de reserva industrial de trabalhadores, menosprezo pela representação sindical). Ideologia fornecida pela concepção de risco e de fatores de risco, compreendendo que se o trabalhador conhece as tarefas que realiza, a ele cabe a responsabilidade de evitar os danos. A idéia de risco atua aí como um mediador da gestão industrial e indicador de “descuido” e “irresponsabilidade” do trabalhador. Assim, os pequenos acidentes, ou “incidentes”, são menosprezados e isso vai de encontro à política empresarial e do Estado quando mantêm um sistema de indenização pelo dano ocorrido. Vive-se, desta forma, no prenúncio do perigo das perdas (do emprego, da auto-estima, do vigor físico etc.), cristalizado na metáfora da bomba utilizada pelos trabalhadores para sintetizar a sua experiência social.

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permanecem em solução. O precipitado de Al(OH)3 é calcinado (aquecido fortemente), convertendo-se em Al2O3 purificado. 1.1 Principais fontes de poluição

CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO: PROCESSO INDUSTRIAL E FONTES DE POLUIÇÃO Elio Lopes dos Santos1 Resumo

As principais emissões, provenientes da produção da alumina, são formadas por poluentes atmosféricos como materiais particulados e vapores cáusticos. Os efluentes líquidos, assim como os resíduos sólidos, também se destacam e merecem uma atenção especial em relação a sua contenção e tratamento. As figuras abaixo destacam as principais fontes de poluição desprovidas de sistema de controle de poluentes, assim como aquelas providas de sistemas de controle, porém com sérios problemas de operação e manutenção.

A cadeia produtiva do alumínio apresenta um elevado potencial poluidor com emissões constituídas primordialmente por material particulado, gases ácidos e vapores alcalinos. Neste contexto a poluição do ar é a que mais afeta o meio ambiente e a saúde do trabalhador. Entre as principais fontes emissoras de poluentes destacam-se as cubas eletrolíticas. O sistema de controle de poluição dessas unidades utiliza numa primeira fase a própria alumina para adsorção do gás fluoreto, retendo numa segunda fase a alumina, (adsorvida com fluoreto e compostos orgânicos) em filtros de tecido. Os poluentes recuperados são utilizados como matéria-prima no processo produtivo. Porém existem falhas de operação e manutenção nestes sistemas de controle de poluentes, assim como também existem nas várias fases de produção da alumina e do alumínio, onde diversas fontes de poluição desprovidas de equipamentos e sistemas de controle de poluentes colocam em risco o meio ambiente e a saúde do trabalhador. Palavras-chave: alumina, alumínio, fluoreto, fontes de poluição, poluentes, poluição, meio ambiente, saúde do trabalhador.

Figura 3 – A emissão de poeiras fugitivas provenientes da armazenagem e operações de manuseio da bauxita faz parte da poluição difusa, característica da inexistência do controle ambiental.

1 Mestre em Engenharia Urbana, Pós-Graduado em Engenharia de Controle de Poluição, Químico, Engenheiro Industrial e de Segurança do Trabalho. Foi Gerente da Cetesb em Cubatão, Assistente Técnico do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do Ministério Público do Estado de São Paulo e Consultor Ambiental do Ministério da Saúde. Atualmente exerce as seguintes atividades: Assistente Técnico ad hoc do Ministério Público Estadual - SP e Ministério Público Federal, Professor da Faculdade de Engenharia Química e Coordenador do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho da Unisanta e Consultor da ECEL Ambiental.

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1 Processo de produção da alumina As principais fases de produção da alumina (matéria-prima para produção do alumínio) são: armazenagem, transporte, moagem, digestão, filtração, evaporação, precipitação e calcinação.
ÁREA VERMELHA

ÁREA BRANCA

Bauxita

Armazenagem de cal

Estocagem de licor pobre de soda cáustica

Decantação

Evaparação

Filtração do transbordo

Figura 2 – Diagrama de processo (área branca) de produção da alumina No processo Bayer, a primeira etapa é a purificação do minério (bauxita), onde são removidas as impurezas (principalmente compostos de ferro, silício e gálio) que poderiam afetar as propriedades do produto. Adiciona-se NaOH ao minério, e como o alumínio é anfótero, dissolve-se, formando aluminato de sódio. O SiO2 também se dissolve na forma de íons silicato. Todos os rejeitos insolúveis, particularmente óxido de ferro, são removidos da solução fortemente alcalina de aluminato. Isso pode ser feito com borbulhamento de CO2 (óxido que diminui o pH) ou então semeando a solução com Al2O3. Os íons silicato

Transferência de Iama

Figura 1 – Diagrama de processo (Área vermelha) de produção de alumina

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2 Processo de produção do alumínio A transformação da alumina em alumínio metálico recebe o nome de redução, e se realiza em cubas eletrolíticas, em altas temperaturas (960ºC), em banho de criolita fundida. O processo foi patenteado em 1886 por Hall-Héroult, onde ocorrem as reações de eletrólise: 2Al2O3 + 3C Al2O3 + 3C 4 Al + 3 CO2 3CO + 2 Al

Figura 4 – Os sistemas de transporte e pontos de transferência da bauxita (correia transportadora e elevadores de caneca) geralmente são dotados de sistema de ventilação local exaustora e filtros de tecido. Enclausuramento inadequado das correias transportadoras aéreas permitem o arraste, pela ação dos ventos, de particulados finos para a atmosfera.

Figura 10 – Cuba eletrolítica Nesse processo a alumina Al2O3 é fundida, misturada com criolita, Na3[AlF6], e eletrolisada num tanque de aço revestido de grafita, que atua como cátodo. Os ânodos também são feitos de grafita. A célula funciona continuamente, e a certos intervalos o alumínio fundido (ponto de fusão 660°C) é removido do fundo da célula, adicionandose também novas quantidades de alumina. Al(OH)3 + 3NaOH + 6HF Na3[AlF6] + 6H2O Figura 5 – A moagem da bauxita é realizada adicionando-se uma mistura de solução de soda cáustica e cal.

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Figura 6 – A adição de soda cáustica e cal geram emissão de vapores cáusticos através dos vent´s dos moinhos e conseqüentemente um ambiente insalubre.

Figura 8 - A evaporação do licor cáustico, associada à inexistência de sistema de controle de poluentes, acarreta emissões atmosféricas em diversos pontos de armazenamento.

Figura 7 – A unidade de filtração da lama de bauxita, via de regra desprovida de sistema de controle de poluentes, apresenta emissões significativas de vapores cáusticos na atmosfera, pondo em risco o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores.

Figura 9 – O sistema de filtração de lama da bauxita, além de apresentar emissão significativa de vapores cáusticos, gera resíduos sólidos alcalinos. As operações de carregamento de caminhões e transferência dos resíduos geram efluentes líquidos contaminados. A fase mais crítica da contaminação ambiental ocorre no percurso entre a unidade de filtração e o local de disposição dos resíduos. A ausência de sistema de contenção de efluentes, aliada aos procedimentos operacionais de lavagem do piso da unidade tem potencial para poluir o solo, águas superficiais e subterrâneas.
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Figura 11 – Emissão de material particulado: tem início no poço de recebimento de insumos básicos (pixe e coque). Esses sistemas normalmente são providos de sistema de ventilação local exaustora e equipamentos de controle de poluentes (filtros de tecido). O arraste de material particulado para a atmosfera ocorre pela ação dos ventos, devido à ausência de uma porta (enclausuramento) na entrada do poço de descarga

A criolita melhora a condutividade elétrica da célula, pois o Al2O3 não é um bom condutor de eletricidade. Além disso, a criolita é uma impureza adicionada que reduz o ponto de fusão da mistura a cerca de 960°C. No ânodo formam-se vários produtos, incluindo O2, CO2 e F2, compostos de carbono e flúor. Eles provocam desgaste do ânodo, que deve ser substituído periodicamente. Os traços de flúor formados provocam séria corrosão. Nas primeiras semanas depois de se colocar em operação uma célula recém revestida, o eletrólito é rapidamente absorvido no revestimento e no isolamento, com a absorção preferencial marcada da parcela em alto teor de sódio, o que tende a tornar a razão NaF/AlF3 inferior ao nível desejado. Compensa-se esta perda pela adição de material alcalino, por exemplo, barrilha: 3Na2CO3 + 4AlF3 2(3NaF.AlF3) + Al2O3 + 3CO2

Depois das primeiras semanas de operação das cubas, ocorre uma perda de AlF3 mediante a volatilização dos compostos ricos em AlF3 e também em virtude da reação com a soda cáustica residual na alumina, na hidrólise do ar ou nos materiais adicionados: 3Na2O + 4AlF3 3H2O + 2 AlF3 2(3NaF.AlF3) + Al2O3 Al2O3 + 6HF

Figura 12 – Forno de cozimento de coque com detalhe da emissão de poluentes orgânicos e inorgânicos gerados pelo refluxo das câmaras
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Para manter a composição desejada, as perdas são compensadas mediante adição periódica de AlF3 ao eletrólito. A pequena quantidade de cal normalmente presente na alumina é suficiente para manter a concentração desejada de fluorita durante a reação.

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Os fluoretos volatilizados e os fluoretos de hidrogênio são coletados, juntamente com outros gases liberados nas células, por sistema de ventilação local exaustora e encaminhados para uma central de tratamento e recuperação de gases. 2.1 Principais insumos básicos 2.1.1 Fluoreto de alumínio (AlF3) A eletrólise da alumina é realizada em meio a um banho de sais fundidos, ou eletrólitos, constituídos basicamente de fluoretos de sódio e alumínio. No início de funcionamento, o constituinte principal do banho é a criolita (NaF3.AlF6), mas, durante a operação das cubas, a composição química do eletrólito sofre variações que necessitam ser permanentemente ajustadas, para manter as condições adequadas ao processo eletrolítico. Este ajuste é feito pela adição programada de fluoreto de alumínio, pó de aspecto esbranquiçado. 2.1.2 Coque de petróleo (C)

seqüência um processo de cozimento a altas temperaturas, para adquirir as propriedades apropriadas ao processo eletrolítico. 2.1.3 Piche (C) O piche eletrolítico, obtido a partir da destilação do alcatrão de carvão mineral, é utilizado na fabricação de ânodos como aglomerante das partículas de coque. O produto tem que atender a especificações rígidas para a indústria do alumínio, sendo fornecido na forma líquida ou na forma sólida, o chamado piche “pencil”. 2.1.4 Óleo pesado Normalmente são utilizados óleos, BPF, ou Tipo A, nos fornos de cozimento. Esse óleo serve como combustível para queima e geração do calor necessário para produzir anodos cozidos com as propriedades especiais exigidas pelo processo eletrolítico, dentre elas, elevadas a resistência mecânica e a baixa resistividade elétrica. 2.2 Principais fontes de poluição

Via de regra a indústria de alumínio dispõe de instalações completas para fabricação do anodo. Este produto, obtido pela calcinação do chamado coque verde originado nas refinarias de petróleo, tem o aspecto de carvão granulado e é recebido a granel. Após beneficiamento na Fábrica de Anodos Verdes, para ajuste na distribuição granulométrica, o coque é então misturado a certa quantidade de piche eletrolítico, de função aglomerante. Passa, a seguir, por um processo de moldagem para constituir o bloco de anodo verde, que sofrerá na

Essas unidades de apoio, assim como as unidades de eletrólise, apresentam diversas fontes de poluição ambiental, que colocam em risco a saúde dos trabalhadores, conforme descritos nas figuras seguintes:

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Referências Bibliográficas AZEVEDO, F. A.; CHASIN, A. A. M. Metais gerenciamento da toxicidade: São Paulo: Atheneu, 2003. BUONICORE, A. J.; DAVIS, W. T. Air pollution engineering manual. USA, 1992. CIÊNCIA QUÍMICA. Disponível em: <www.cienciaquimica.hpg.com.br>. Acesso em: 20 maio 2005. CONSELHO NACIONAL DE MEIO AMBIENTE. Legislação ambiental. Brasília, 2005. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Coordenadoria de Saúde do Trabalhador. Parecer técnico sobre a cadeia produtiva do alumínio. Produto OPAS/OMS. Brasília, 2005. SHREVE, R. N; BRINK JR., J. A. Indústrias de processos químicos. 4. ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill; Editora Guanabara Koogan S. A., 1977. Figura 13 – As emissões de compostos orgânicos voláteis são geradas durante as operações do pré-aquecimento do agregado. Nesta fase a indústria controla as emissões no próprio processo produtivo utilizando alumina na adsorção. Trata-se de uma operação de alto risco, onde se mistura particulados com gases, potencializando a toxicidade dessa mistura de poluentes (material particulado + fluoreto + orgânicos)

Figura 14 – À direita, em primeiro plano, observa-se detalhe do sistema de ventilação local exaustora e filtros de tecido da unidade de pré-aquecimento de agregado. Nesse sistema, a alumina adsorvida

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com compostos orgânicos voláteis é estocada em silos e, a seguir, misturada com o produto da britagem de crosta (limpeza dos anôdos usados com alumina fresca). Essa mistura de resíduos constituída de material particulado adsorvido com fluoreto e poluentes orgânicos retorna por caminhão para as unidades de redução. Essas operações envolvendo o carregamento, transporte e descarregamento, geram emissões atmosféricas e são as principais fontes de poluição ambiental, disseminando poluentes altamente tóxicos nas áreas internas e externas à indústria de alumínio.

3 Conclusão Excetuando as fontes de poluição desprovidas de controle de poluentes, supracitadas, as quais representam um risco direto ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores, de uma maneira geral as indústrias de alumínio, são dotadas de equipamentos e sistemas de controle de poluentes para as fontes emissoras de material particulado que garantem uma eficiência de até 99% na retenção de material particulado. Todavia, essa eficiência pontual da emissão primária, passa a ser ameaçada pelas emissões secundárias, representadas pela ausência e/ou procedimentos errôneos de operação e manutenção. Devido à tecnologia de controle da indústria de alumínio, utilizar a própria alumina como fluido de adsorção para recuperação dos gases de fluoreto, pequenos vazamentos dessa fração de material particulado inalável (alumina), adsorvida com gases tóxicos (fluoreto e compostos orgânicos), representam um efeito aditivo na ação tóxica, pois além da ação mecânica e irritativa das partículas inaláveis, ocorre um efeito tóxico e inflamatório da mucosa respiratória pela ação dos gases tóxicos, o que representa uma grande ameaça ao meio ambiente e à saúde do trabalhador. Neste contexto, o monitoramento das emissões primárias de poluentes passa a ser uma ferramenta importante de fiscalização e deve ser realizada através de sistema “on-line” em tempo real com a agência de controle ambiental, única forma de se manter a regularidade dos padrões de emissão. Para as fontes de poluição secundárias e difusas, representadas por diversos pequenos vazamentos, faz-se necessário um rígido programa de operação e manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos e sistemas de controle de poluentes, assim como dos equipamentos do processo de produção.
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Figura 15 – Central de tratamento e recuperação de gases. Utiliza alumina para adsorver os fluoretos volatilizados e os fluoretos de hidrogênio, juntamente com outros gases liberados nas células. Essa tecnologia é bastante eficiente na recuperação desses gases. Porém, os pequenos vazamentos em conexões juntas e equipamentos do sistema, permitem uma perda desses poluentes (alumina adsorvida com fluoreto e outros gases). A ação dos ventos se encarrega de espalhar os poluentes por toda área da indústria de alumínio, colocando em risco o meio ambiente e a saúde do trabalhador.

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de ferro, manganês, níquel, cromo, estanho, caulim e ouro) além de imenso potencial hidrelétrico, podendo gerar até um quarto na energia brasileira. O Pará é o maior exportador mundial de ferro, produz mais de 80% da bauxita do país e ostenta o primeiro lugar no ranking mundial de produção de alumina. Mesmo assim, parece que a Amazônia está fadada ao subdesenvolvimento, a sermos mera província exportadora de minérios e energia, sem nos beneficiarmos com a riqueza, que é transferida para outras regiões brasileiras e países do outro lado do mundo. Vários são os exemplos dessa realidade. Citamos os processos da celulose e do caulim do Projeto Jarí e do manganês do Amapá, com a Icomi. Os primeiros já passam de 20 anos de história, e o segundo acabou em menos de 50 anos. A bauxita (minério do alumínio), do rio Trombetas tem quase 25 anos. A verticalização é a saída? Temos condições de participar do processo e fazer realidade o sonho da verticalização da produção no Pará. O mesmo necessita de discussão ampla entre sociedade organizada, governos e empresas. Desta forma, poderemos ver apontando na mesma direção, as linhas comprovativas do crescimento das indústrias e da qualidade de vida que hoje estão em direções opostas. O brilho do alumínio do Pará A descoberta de reservas de 600 milhões de toneladas de bauxita de ótima qualidade próximas ao rio Trombetas, município de Oriximiná, em 1967, deu início à implantação e consolidação do ciclo do alumínio no Pará. A cadeia de produção de alumínio totalmente paraense foi um dos principais fatores para o Brasil sair da condição de importador para exportador de alumínio primário para o mundo.

III PARTE Movimentos sociais, saúde do trabalhador, meio ambiente e política

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CADEIA PRODUTIVA DE ALUMÍNIO NA AMAZÔNIA: IMPACTOS AMBIENTAIS, SOCIAIS E A PELEJA SINDICAL Manoel Maria de Morais Paiva1

A despeito do tão amplamente propagado desenvolvimento do Pará, pesquisas revelam o crescente empobrecimento da população não só do estado como de toda a região Norte. Por outro lado, estudos de cientistas econômicos revelam que a região Norte é uma das mais pobres do país, superando, em muito, o Nordeste. Segundo economistas do Instituto Nacional de Altos Estudos (INAE), e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 1997, 42% da população do Norte eram compostos por pessoas que não possuíam renda familiar per capita suficiente para o atendimento de suas necessidades básicas. No Nordeste este número era de 31%, no Sudeste 15%, Centro-Oeste 9% e no Sul 8%. As causas que levam a estes números desanimadores são muitas e complexas. Mas estes números são sentidos na pele pelos trabalhadores paraenses. O que não se consegue entender, e muito menos aceitar, ao nos depararmos nos meios de comunicação com informações que mostram o Pará abrigando grandes indústrias, de visibilidade internacional, que batem recordes de produção, aumentam as exportações e consolidam expansões. Os números dos estudos também revelam as riquezas naturais do estado, marcadas por imensas reservas minerais (bauxita, minério

Engenheiro ambiental – Universidade do Estado do Pará (UEPA) e ex-presidente do Sindicato dos Químicos de Barcarena, PA.

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ações que não vão ao fundo da questão do subdesenvolvimento regional. Não passam de maquiagem rasa sobre as chagas. Reformas e construção de postos de saúde, escolas, pontes, asfalto, quadra de esportes são obras que estão sendo feitas, principalmente pela Albras, mas que no conjunto final, não trazem o benefício esperado. Com a expansão das duas fábricas, para que tivessem direito a juros menores no financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as empresas se comprometeram a fazer investimentos na área social. A propaganda feita em cima de tais investimentos sociais é muito maior que os benefícios reais para a comunidade, e não chegam a modificar a situação em que vivem as pessoas ao redor do projeto. A Albras divulga um investimento social, desde 1985, de US$18 milhões, mas que não são identificáveis nas condições de vida da população. Além disso, o discurso da responsabilidade social não é aplicado com a mesma veemência quando se trata da relação com os empregados, responsáveis direto pelo crescimento das empresas. Aí as perdas só são comparáveis ao crescimento industrial, numa relação inversa. Enquanto aumentou sua produção em mais de 240 mil toneladas ano, a Albras passou de cerca de 3.200 empregados no início da operação para os atuais 1.336. O salário base de um operador na partida da fábrica equivalia a 10 salários mínimos, o que hoje não chega a seis. Sem contar a perda do poder de aquisição do próprio salário mínimo nos últimos anos. A Alunorte já começou a operar com o mínimo de pessoal possível, e ao passar da Albras para a nova fábrica, os trabalhadores já saíam perdendo. Atualmente as perdas mais sentidas pelos trabalhadores são: a moradia, antes cedida sem ônus para o trabalhador, vale transporte (ônibus e barco), medicamentos, assistência médica, escola, clube de

Em 1972 a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), então estatal, foi convocada pelo governo para revitalizar a Mineração Rio do Norte (MRN), empresa que faria a extração do minério e estava com as obras paralizadas. O envolvimento da Vale despertou o interesse dos japoneses, seus tradicionais parceiros comerciais. Em 1976 os governos brasileiro e japonês se comprometeram a cooperar na construção no Pará de um complexo para a produção de alumínio. Depois de vários estudos o município de Barcarena, a 30km em linha reta da capital Belém, foi escolhido para a implantação das indústrias de produção da bauxita e do alumínio. Entre os fatores favoráveis, podemos enumerar: características de solo (topografia plana), energia elétrica suficiente fornecida pela Hidrelétrica de Tucuruí, sistema viário, porto de Vila do Conde com capacidade para atender navios de até 60.000 toneladas, em seus 250 metros de extensão e profundidade de 17 metros, disponibilidade de mão-de-obra barata, e área com baixa densidade de ocupação. Outros elementos contribuíram como a pequena distância de um grande centro urbano, a relativa proximidade das fontes de seus principais insumos. Deve-se ressaltar ainda a ausência de políticas ambientais no estado. Desta forma não ocorre o monitoramento dos rejeitos das fábricas até hoje. Nem há orçamento para investimento em pesquisa, que vise o reaproveitamento dos resíduos gerados pelas indústrias. Atualmente os resíduos são enterrados em solos a céu aberto. Assim, em 1985, entrou em operação a Alumínio Brasileiro S. A. (Albras) com capacidade instalada de produção inicial de 160 mil toneladas de alumínio primário. Dez anos depois, foi inaugurada a Alumina do Norte do Brasil S. A. (Alunorte), para fornecimento da matéria-prima da Albras. Consolida-se assim o ciclo do alumínio no Pará. A bauxita extraída pela MRN é utilizada pela Alunorte, que entrega

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a Albras a alumina, que dá origem ao alumínio primário exportado para o Japão e a Europa, ficando apenas uma parte para o consumo interno. O investimento público tornou-se crucial para a consolidação do ciclo do alumínio da Amazônia. O mesmo se deu via incentivos fiscais. Até hoje o Governo Federal subsidia a energia elétrica consumida pela Albras. A fábrica paga a menor tarifa do país. Hoje as três indústrias estão em expansão. Com a recente inauguração de sua terceira fase, a Albras tem capacidade instalada de produção de 410 mil toneladas anuais de alumínio, 250 mil a mais que a projeção inicial. Assim se firma como a maior da América do Sul. A Alunorte, com capacidade inicial prevista para 1 milhão e 100 mil toneladas de alumina por ano. 4,2 milhões de toneladas é a meta estimada para 2007, o que tornará a fábrica a maior produtora de alumina do continente. A MRN segue a mesma trilha. A previsão para 2006 é uma quantidade superior a 16,3 milhões de toneladas, “provavelmente a maior produção mundial em uma única mina”, segundo o jornalista Lúcio Flávio Pinto. As três empresas já operam com lucros líquidos. Investimento público – incentivos fiscais e energia elétrica Entre as três grandes empresas do ciclo do alumínio no Pará, a Albras é a de maior visibilidade, não só pelo tamanho da fábrica, como pelo investimento público que ela comporta. A empresa é um consórcio da CVRD (51%) com a Nippon Amazon Aluminium Co. Ltda. (NAAC) (49%). O investimento foi de US$1,4 bilhões, direto dos acionistas. Mas quase US$ 2 bilhões de dinheiro público estão na empresa sob várias formas, sendo a principal o subsídio energético. O subsídio foi

concedido por 20 anos para a Albras e a Alumar (Maranhão). Até o final do contrato deve alcançar o equivalente a cinco bilhões de dólares. O mesmo valor de reposição de duas fábricas de alumínio inteiramente novas. “AAlbras pagou US$ 18 por megawatt/hora que a Eletronorte gera em Tucuruí com um custo de US$ 72, durante o contrato do primeiro subsídio. Essa diferença de tarifas é coberta pelo Tesouro Nacional, ou seja, o contribuinte brasileiro. O valor do subsídio dado a Albras corresponde a dez anos de receita de ICMS, principal fonte de tributos do Estado. Não há como negar o investimento público. Sendo também um investimento privado, o lucro é seu objetivo, mas “este lucro, por sua origem e antecedentes, deve ser mediado pela função social e discutido com a sociedade que o avalizou e suportoulhe o peso”, lembra o jornalista Lúcio Flávio. Impactos sociais e ambientais da indústria do alumínio em Barcarena Os números que atestam a pobreza do Estado e da região Norte são visíveis ao se observar a forma de vida da população diretamente atingida pela indústria do alumínio em Barcarena. O crescimento industrial definitivamente, não se traduziu em melhoria da qualidade de vida da população que vive no entorno do grande projeto. Nem sequer aos trabalhadores das duas empresas em Barcarena. Há nesta constatação vários fatores que devem ser levados em consideração. A arrecadação do município, que ultrapassa R$ 1 milhão mensais, nestes quase 17 anos de pólo industrial do alumínio, não tem sido revertida para o bem-estar da população. O poder público também não executou sua parte na história. A responsabilidade social que as empresas fazem questão de alardear aos quatro cantos, não passa de

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na época R$1,00, de cada trabalhador sem nenhuma explicação para adquirir cotas de ações da companhia. Pulverizou essas cotas pagando de forma diferenciada por região. O golpe A privatização da Vale foi marcada pela falta ou a manipulação da informação em diferentes níveis. No caso dos empregados da companhia ocorreu o desconhecimento do edital de privatização, que segundo informações, contempla em uma cláusula o percentual da transação a serem distribuídas em ações e o valor de cada cota. Qual o número de cotas e o valor total que cada trabalhador teria direito pelo pagamento de um real? Algum tempo depois conhecemos que para a CVRD existe diferença de valores para um real. Ela realmente ela foi doce para os trabalhadores do Rio de Janeiro, onde com um real, receberam 1000 cotas. Mostrou-se salobra para os trabalhadores de Minas Gerais, Espírito Santo e Carajás, onde com um real receberam 626 cotas. E revelou-se salgada para os trabalhadores de Barcarena, que com o mesmo um real só receberam 313 cotas. Pior para Pará Pigmentos e Mineração Rio do Norte que nada receberam. Ocorre interrogar: por que a diferença entre as regiões? Em 2004 o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas do Município de Barcarena, PA, juntou-se ao Metabase de Carajás e Ferroviários do Espírito Santo, para juntos reivindicarem suas diferenças na distribuição das cotas, já que todos pagaram o mesmo valor. Os representantes das outras categorias já haviam pedido explicações a Investvale, que foi a operadora autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão do Governo Federal, e que até

recreação, transporte escolar e creche eram fornecidos pela empresa. Hoje em dia os trabalhadores estão obrigados a contribuir com percentagens. A perda também se dá no adicional de insalubridade (40%) e adicional por tempo de serviço (anuênio de 1% por ano); pais e filhos acima de 18 anos ficaram fora do plano de saúde, entre tantas perdas. O grande bordão dessa modalidade de projeto reside na geração de emprego, renda, melhoria da qualidade de vida da população. No entanto a realidade em Barcarena desnuda um quadro diferente. Os bolsões de pobreza circulam a cidade. Ao se anunciar empreendimento dessa magnitude, sempre ocorre o processo de migração. Milhares de pessoas de outras cidades e estados chegam ao município em busca de um emprego nas grandes indústrias ou nas empresas terceirizadas. Não sabem que mesmo esposas e filhos dos trabalhadores não têm onde empregar sua força produtiva. Esta situação contribui para o aumento da violência, proliferação de ocupações habitacionais e desmatamentos. Os impactos sociais acabam também favorecendo impactos ambientais. Verticalização da produção como melhor alternativa de desenvolvimento da região Deixar de ser mero exportador de produtos semiindustrializados (quando muito), para agregar maior valor à sua produção é a solução para o estado do Pará sair da condição em que se encontra e passar a se beneficiar de suas riquezas. A verticalização da produção é um sonho dos paraenses que tem de sair do onírico e do discurso de políticos em vésperas de eleição para se tornar realidade.

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O próprio Jório Dauster, quando ainda presidente da CVRD disse que o Pará, pela abundância de recursos naturais que dispõe, de solo, subsolo, floresta e água “tem tudo para ser a mais rica unidade da federação”. Para a utopia se tornar realidade a participação da sociedade é fundamental na busca de um equilíbrio do tripé formado com as empresas e governo. O ciclo do alumínio está consolidado no Pará, mas não podemos nos conformar com o limite do produto industrial primário, na forma de lingote de alumínio da Albras. A mineração do alumínio no Pará está chegando a 25 anos de história, mas não tem trazido os benefícios para os paraenses. Esta característica se repete com o ferro, com história um pouco mais nova, mas com avanço ainda menor. O Pará é o segundo maior produtor mineral do país e continua a ser quase zero em siderurgia, tendo apenas três usinas de ferro-gusa em seu território. Minério não dá duas safras, lembra o jornalista Lúcio Flávio Pinto. “Uma vez exauridos os depósitos de interesse comercial, acabou a história”. E já acabou para o manganês do Amapá, em menos de 50 anos. A mina de ouro do igarapé Bahia, em Carajás, está chegando ao fim não passando dos 15 anos. O minério de ferro e o manganês de Carajás estão chegando aos 20 anos e a bauxita do rio Trombetas já tem um quarto de século. No balanço entre o que estará acabando e o que se iniciará, o saldo será positivo por algumas décadas. Mas o Estado deve dar conseqüência prática e inteligente a esta extração, senão ficaremos apenas com os buracos, não apenas no solo. Os grandes projetos na Amazônia são concebidos e executados para atrair as riquezas do subsolo e colocá-las no mercado internacional. Além do exemplo do ferro, pode-se citar o caulim, com três fábricas (uma no Jari e duas em Barcarena) no estado, que está prestes a se

tornar o terceiro produtor mundial de caulim e não tem uma única fábrica de papel. A sociedade, organizada em sindicatos, cooperativas e associações, pode chamar o governo e empresas para a discussão da verticalização, para que deixe de ser apenas mais um ponto no discurso de políticos em busca de votos e passe a fazer deste estado, o mais rico do Brasil, não apenas nas teorias dos números de estudos e pesquisas, mas na vida de cada paraense. CVRD privatizada: breve histórico sobre a situação dos trabalhadores A garantia de pagamento de casa, água, luz, telefone, medicamentos, transporte, ônibus escolar, assistência médica, ticket alimentação, além de bons salariais, deram forma ao pacote de gentileza das fábricas Albras/Alunorte. A tática era atrair mão-de-obra barata dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e de outras regiões do Pará. Em 1997 com a privatização da CVRD a nova diretoria põe fim ao pacote de benefícios. A partir da privatização a empresa começa a repassar os custos aos trabalhadores. A decisão se deu de forma unilateral, sem a participação dos trabalhadores e das comunidades envolvidas nos projetos. Vale ressaltar que houve mobilizações em vários estados do país contrários ao processo de privatização da empresa. Fato que foi questionado na Justiça e agora toma novo fôlego e mobiliza várias entidades nos estados onde a CVRD possui projeto. Através de várias ações na Justiça o processo pode ser revisto. Ainda sobre a privatização um fato chama a atenção. Para desmobilizar as manifestações contra a privatização, a CVRD cobrou

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dos Ferroviários do Espírito Santo foi firmada. Uma equipe analisa os documentos coletados no Rio de Janeiro. A meta seguinte será entrar com o processo. A tomada do sindicato pela empresa Além de privatizada a antes Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), uma referência ao local de origem, - o vale mineiro -, tratou de enxugar o nome. Agora apenas Vale e adotou uma nova logomarca. A empresa privatizada sob o manto de inúmeras nuvens de atitudes suspeitas se espraia para além da fronteira nacional. Em solo pátrio agenda e já desenvolve inúmeros projetos de ampliação da produção de alumínio, como a exploração de minas no município de Paragominas, nordeste do Pará, com vistas a garantir a política de aumento da produção de suas fábricas no município de Barcarena. Para a garantia da energia necessária para a ampliação da produção fez um projeto de uma usina termoelétrica na mesma cidade. O município que já teve as praias consideradas impróprias para uso por conta de diversos acidentes ambientais, pode ter dias piores ainda, posto a enorme capacidade de poluição de tal modelo de usina. No município de Canaã dos Carajás a empresa desenvolve exploração de cobre, já no município de Marabá deseja erguer uma siderúrgica. As duas cidades ficam no sudeste do Pará, onde se encontra a província mineral de Carajás. A ferrovia que liga a mina ao porto em São Luís, capital do Maranhão, encontra-se em fase de duplicação. Ainda no Maranhão deseja-se erguer uma termoelétrica e uma fábrica de produção de pelotes. Como se nota, a companhia se encontra em franca expansão. Ao longo dos 10 anos de atuação, o Sindicato dos Químicos se

agora não se pronunciou. Em Barcarena são mais de 800 trabalhadores, entre Albras e Alunorte que foram discriminados, lesados, enganados quando receberam pagando o mesmo valor por inferior número de cotas. Apesar das reivindicações até hoje nenhum dos órgãos envolvidos se pronunciou. Entre eles a CVRD, a Investvale, a CVM e o BNDES. Temos esperança que com a reabertura da CPI da privatização da Vale, possamos rever nossos direitos sendo visto de forma igualitária, bem como possamos rever os benefícios como direitos adquiridos. Os trabalhadores da MRN, que extrai a bauxita, a Alunorte que produz a alumina, e a Albras que produz o alumínio, estão dispostos a brigar para ver seus direitos serem respeitados. O comportamento adotado pela CVRD, após a privatização, tem refletido negativamente na vida dos trabalhadores. Não podemos mais aceitar que o capital internacional capitaneado por empresas como a CVRD não respeitem as leis do nosso país. Todos temem o DRAGÃO Há quem diga que a CVRD é maior que o Pará. Entre os tentáculos de seu poder o marketing tem papel estratégico. Cogita-se que a mesma, após o estado, seja um dos principais anunciantes da mídia na região. Possui grande habilidade em transformar ações modestas em colossais. Qualquer doação destinada a reformas de prédios, construção de obras em universidades, repasse a organizações filantrópicas, ganha dimensões faraônicas. Com tal poder, torna-se batalha árdua conseguir pautar qualquer tipo de passivo ambiental ou social nas áreas de atuação da mesma, ou mesmo estabelecer um discurso contra-hegemônico. O trem passa e a “galera” diz amém.
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A partir de 1998, quando surge o Sindicato dos Químicos de Barcarena, algumas feridas foram abertas e mexidas contrariando o discurso das empresas instaladas em Barcarena. Entre as denúncias constam: indiferença às leis, pagamento extra de demissões para trabalhadores doentes, os chamados Planos de Demissão Indicados (PDI) (“sopão”). Tal prática foi adotada pelo médico da empresa Albras, baseado em resultados de exames periódicos dos trabalhadores. O sindicato denunciou tal ação. Entre os desdobramentos ocorreu a criação de uma associação para defender os direitos dos trabalhadores seqüelados. Não bastassem as agressões aos trabalhadores diretos e indiretos (terceirizados), as empresas em Barcarena criaram um cartel que as representa para se omitirem em caso de contaminações. Como por exemplo, a contaminação por fuligem em Vila do Conde, que por incompetência dos órgãos de fiscalização e investigação, até agora segue sem apuração. Acreditamos ser possível uma mudança nesse modelo sindical, que se curva diante de empresas subsidiadas pelo capital internacional para oprimir trabalhadores nos países bases para seus investimentos e enriquecimento. Não concordamos com o modelo de desenvolvimento dito sustentável, que na verdade sustenta somente o capital, às custas da desgraça dos trabalhadores e das comunidades próximas aos projetos. Pequena retrospectiva sobre o Sindicato dos Químicos de Barcarena O Sindicato dos Químicos de Barcarena possui apenas 10 anos de vida. Veio ao mundo justo no processo de fragilidade dos trabalhadores ante o capital. Momento conhecido pela precarização

do trabalho. Fenômeno da relação entre capital e trabalho que engendra a terceirização. Uma ferramenta para que o capital possa faturar mais através de redução de custos. No mesmo período veio a automação, responsável pelo fim de inúmeros postos de trabalho em diversos setores. O posto de trabalho passa a ser palavra de ordem das entidades dos trabalhadores. Em detrimento de conquistas salariais, redução de jornada de trabalho, alimentação e garantias de saúde. Neste solo todo tipo de assédio floresce. O desafio para o sindicato torna-se ainda maior pelo fato do empregador ser uma das maiores mineradoras do mundo. Se antes o debate era com o Estado, a peleja tornou-se mais árdua com a privatização. Como caminhar sem se vender? A saída foi integrar redes e fóruns na Amazônia e fora dela. Hoje o Sindicato dos Químicos é referência dentro e fora da região sobre o debate do setor de alumínio. No período em que o sindicato teve um caráter combativo o embate residiu na garantia de uma agenda política e salarial. Como a ajuda dos(as) trabalhadores(as) a sede própria foi erguida. O sindicato saiu de uma sala para uma casa que conta com auditório com capacidade para 250 pessoas, com arena esportiva e sala de inclusão digital. Uma associação com a Central Sindical Alemã (DGB) possibilitou a construção da sede própria. Não só com o recurso dos operários alemães, mas, antes de qualquer coisa, com a contribuição e confiança dos associados. Um outro ponto de avanço foi a garantia do ticket refeição, bem como o turno francês. Através da assessoria jurídica o Sindicato dos Químicos buscou rever as perdas no processo de venda das cotas da empresa junto a Investvale. Os passos já foram dados e uma parceria com o Sindicato

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Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), Rede de Justiça Ambiental, Fórum de Militantes em Saúde do Trabalhador. A ADRVDT-CPA estima em número de 130 as pessoas vitimadas no processo de produção no complexo de alumínio nas fábricas de Barcarena. Boa parte do contingente é filiado à associação. A princípio, a avaliação da associação é que os trabalhadores estão abandonados pela CVRD. O gargalo na luta dos vitimados no processo de produção do alumínio, reside em conseguir comprovar que as doenças de coluna, mentais, bursite, esclerose, intoxicações, entre outras, foram provocadas pelo contato por conta do processo da transformação do metal. Sobre as empresas A Albras e a Alunorte integram o consórcio de produção de indústrias de alumínio da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), junto ao capital japonês. Funciona desde 1985 na cidade de Barcarena, a 30 quilômetros de Belém. A primeira empresa produz alumínio, e a segunda alumina. O empreendimento integrou o Programa Grande Carajás, cunhado no regime militar, como projeto de desenvolvimento para a região de Carajás, sudeste do Pará. A matéria-prima para a produção da alumina, a bauxita, vem do município de Oriximiná, oeste do estado. Mão-de-obra abundante e barata, matéria-prima, e energia, muita energia subsidiada, o principal insumo na produção do alumínio, contaram a favor para a implantação das fábricas na Amazônia. O processo de transformação da alumina em alumínio é considerado um dos mais poluentes.

configurou com um dos atores de publicização dos passivos sociais e ambientais da cadeia do alumínio dentro e fora do país, através da participação em várias redes. Com vistas a neutralizar a ação da entidade a Alunorte teve papel preponderante na eleição ocorrida em maio de 2007. A empresa se empenhou em formar chapa de oposição e emprestar seu staff de comunicação. A eleição foi vencida ainda graças à política de assédio no interior da fábrica. E ganhou ares de caso de polícia com ameaça de capangas da chapa da empresa, fato registrado na delegacia do município. Agora os dois sindicatos estão sob a tutela da Vale, o dos Metalúgicos que abriga os funcionários da Albras, há muito um leão de circo, e agora o dos Químicos, tomado à força do dinheiro, do “muque” e do assédio. Dias melhores virão?

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LINHAS SOBRE A ASSOCIAÇÃO DOS VITIMADOS DAS FÁBRICAS DE ALUMÍNIO DE BARCARENA, PARÁ: SAÚDE E MEIO Reinaldo Damasceno22 Rogério Almeida23

Sobre a ADRVDT A baía do Guajará separa o município de Barcarena da capital do Pará, Belém. A busca por uma racionalidade radical, na ambição incessante do produzir mais, numa menor margem de tempo, e com menos custo; separa a direção das empresas Albras e Alunorte, dos trabalhadores por elas demitidos. No coração da exploração, o local de trabalho, no ano de 1992, as empresas criaram uma política denominada Plano de Demissão Indicada (PDI). A mesma serviu para que as empresas descartassem os operários com registro de doenças. Além dos direitos garantidos pela legislação, as empresas abonaram os trabalhadores com recursos a mais. Outros PDI são registrados nos anos de 1997 e 1999. No desenrolar dos fatos, os operários demitidos malograram em suas tentativas de comerciantes e similares. Sem emprego, recurso financeiro e com a saúde abalada, os operários passaram a procurar o Sindicato dos Químicos de Barcarena.
1 Reinaldo Damasceno é coordenador geral da Associação em Defesa dos Reclamantes e Vitimados por Doenças do Trabalho na Cadeia Produtiva do Alumínio no Estado do Pará (ADRVDT-CPA). Fone (91) 8123 3972, e-mail: adrvdt@ig.com.br. Av. Cônego Batista Campos, Qd. 377, Lt. 04, CEP: 68.447-000, Vila dos Cabanos, Barcarena, Pará. 2 Rogério Almeida é colaborador da Rede Fórum Carajás, mestre em Planejamento pelo NAEA, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A via crucis residia na ansiedade de tentar rever o processo do PDI, buscar uma forma de encaminhar benefícios ou aposentadoria, posto o impedimento ao trabalho, ou mesmo a ausência de possibilidade de recolocação no mercado. Situação provocada por questão de idade avançada, e agravada com o quadro de saúde. É a partir de tal contexto que surge a Associação em Defesa dos Reclamantes e Vitimados por Doença do Trabalho na Cadeia Produtiva do Alumínio no Estado do Pará (ADRVDT). A organização legal da associação se deu em setembro do ano de 2003. A missão da ADRVDT Produzir uma amostra do desrespeito aos direitos dos trabalhadores acidentados, diagnosticar os casos de doenças relacionadas ao trabalho, bem como articular a atenção aos adoecidos em decorrência de condições insalubres nas fábricas da cadeia produtiva do alumínio (Albras e Alunorte), estão entre os motivadores da criação da associação. Constam como missões da ADRVDT: a)investigar omissões no encaminhamento de casos à Previdência Social; b) tratar de “acordos” firmados com trabalhadores afastados da empresa por longo período, e após passarem por reabilitação e posterior demissão; c) buscar reparação dos danos físicos, mentais e sociais decorrentes dos diversos males ocasionados pela exposição continuada a agentes físicos e químicos no ambiente de trabalho. A delicada situação dos trabalhadores e vitimados da cadeia do alumínio no Pará, tem colocado a ADRVDT na articulação de vários fóruns e redes de organização da Amazônia, nacional e internacional. Entre eles, o Fórum Carajás – rede de entidades sociais que acompanham os impactos sociais e ambientais da Ferrovia de Carajás,

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Há 10 anos desempregado, Ariovaldo Oliveira, 44, vive hoje com a ajuda de familiares. Fala que perdeu tudo que tinha. Trabalhou na Albras por quatro anos. Tem um sério problema na coluna que o dificulta até mesmo de um simples movimento de virar a cabeça quando alguém o chama. Muitos desses trabalhadores afastados das fábricas, receberam além de direitos trabalhistas, uma espécie de bônus. Reinaldo Damasceno, aposentado por doença, coordenador da ADRVDT, explica que a situação é de desamparo total, pelas empresas e pelos órgãos públicos. Conta que a rotina desses ex-funcionários é transitar entre hospitais, INSS e corredores da Justiça. O poder público não fiscaliza O poder público não exerce nenhum tipo de vigilância sobre as empresas nas áreas de saúde do trabalhador e meio ambiente. A questão foi um consenso durante as várias mesas com especialistas em saúde do trabalhador e meio ambiente. Entre eles Hermano Castro, técnico da Fiocruz, Rio de Janeiro, que vem acompanhando vários casos de saúde dos trabalhadores. A ausência de controle perpassa por várias esferas. Uma delas é falta de pessoal técnico qualificado para aferir os impactos ambientais e na saúde dos trabalhadores das fábricas. Passando por artimanhas das empresas, como a terceirização de setores para buscar isenção de determinados impactos, e mesmo cooptação de técnicos de órgãos públicos, denuncia a ADRVDT. Perplexidade Apesar dos dois maiores jornais da cidade enviarem seus jornalistas à abertura do encontro, nenhuma linha sobre o assunto foi

Ações: Seminário de Belém, um passo histórico Ainda que os abalos na saúde dos(as) trabalhadores(as) fossem assunto no debate do Sindicato dos Químicos, a questão ganha uma outra dimensão com a ADRVDT-CPA. É a partir da demanda dos trabalhadores com seqüelas, que buscam no sindicato um encaminhamento de suas questões, que nasce a associação. A realização do seminário para debater o assunto no ano de 2004, configura um marco no debate sobre a questão. Com o nome de Os impactos na saúde dos(as) trabalhadores(as) provocados pela cadeia produtiva do alumínio, foi realizado entre os dias 11 e 12 de novembro, no Hotel Equatorial, centro de Belém. Entre as autoridades científicas estiveram presentes: Dr. Hermano Albuquerque Castro, da Escola Nacional em Saúde Pública (ENSP), médico do trabalho e doutor em saúde pública (FIOCRUZ), Dr. Elio Lopes, consultor Ministério da Saúde, Ednalva Neves, doutora e professora da Universidade Federal do Maranhão, entre outros. O encontro foi possível graças à articulação com os fóruns em que a ADRVDT participa, bem como apoio de pessoas e instituições municipais, estaduais e federais. O evento teve apoio da Secretaria de Saúde de Belém, através da Casa de Saúde do Trabalhador (CASAT), da Secretaria de Saúde do Estado e do Ministério da Saúde. O seminário possibilitou o aprofundamento do debate com base científica. E ainda, que se ouvisse os depoimentos de trabalhadores em situações de saúde debilitada. Sobre a questão ambiental, ocorreram relatos de emissão de poluição no ar, como uma fuligem negra, e resíduos nos igarapés de Barcarena, como no caso do rio Murucupi. Sobre o aspecto de poluição, foram inúmeros os depoimentos que ratificaram a ocorrência.

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Entre os desdobramentos indicados no final do seminário constou a produção da presente publicação. Um outro ponto recai em encaminhar denúncias a diversas esferas do poder público. O seminário teve o caráter de aglutinar os trabalhadores doentes. Possibilitou ainda uma inserção na mídia local e nacional. Inclusive com uma entrevista do coordenador da associação, Reinaldo Damasceno, na Rádio Nacional de Brasília e espaço em páginas na rede mundial de computadores (Justiça Ambiental, Grupo de Trabalho Amazônico e Coalizão Rios Vivos). Enquanto o seminário ocorria, dois ex-funcionários das fábricas estavam num hospital de Belém passando por tratamento. Sendo que um perdeu a visão total, e o segundo necessita de transplante de rim e coração. AADRVDT está empenhada na organização da Rede Nacional de Atenção Integrada em Saúde do Trabalhador (RENAST) no Pará. A ação é desenvolvida com o apoio do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador – Núcleo de Referência Metropolitana em Saúde do Trabalhador, órgão municipal de Belém. AADRVDT integrou a oficina de planejamento da RENAST da Amazônia Legal (novembro de 2004). Impactos sociais e ambientais 40 famílias estão sem fonte de renda em Barcarena. Elas tinham no rio Murucupi a sua fonte de proteína e renda, o qual foi poluído por resíduos das fábricas Albras e Alunorte, o que foi denunciado pelo Sindicato dos Químicos de Barcarena nos anos de 2004 e 2005. Representantes expuseram que a Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Sema) nunca concluiu o laudo das amostras de água coletadas.

Sobreviventes - depoimentos Aos 44 anos, Raimundo de Jesus, quatro deles trabalhando no setor de redução da Albras, entre os anos de 1989 a 1993, anda hoje amparado por duas muletas e recursos ortopédicos na cintura e perna direita. Padece de esclerose múltipla e é aposentado pelo INSS por invalidez. Conforme depoimento, já andou em tudo que é hospital, pois sofre de fortes dores de cabeça e tem desmaios. O ex-funcionário da Albras conta que entre as muitas falhas no processo dele, há o de apesar de aposentado no ano de 1996, na carteira, só foi desligado da empresa em 1999, uma diferença de três anos. Pedro Santos, 36, demitido em 1995, ex-funcionário da redução da Albras, sofreu um grave acidente na fábrica. Segundo ele, por conta de excesso de trabalho. Tratava-se de fase de implantação, os operários eram exigidos ao máximo. A fábrica funcionava como casa. Ninguém se retirava da área. No acidente fraturou a perna esquerda. Já sofreu duas operações. Reclama de amnésia, dores de cabeça, problema na arcada dentária. Avalia que é por conta da contaminação com o alumínio. O diagnóstico é que a contaminação ocorreu por conta do contato com flúor (fluorose do esqueleto). É intenso o uso do flúor no setor de redução. No aspecto técnico e jurídico, o caso dele tem três versões. Na cópia de documento timbrado da fábrica, consta como acidente grave no interior da mesma; o que obrigaria a empresa a enviar documento de registro de acidente ao INSS comunicando o caso. Segundo ele não foi feito. Na carteira de trabalho, o caso tem outra versão, e no INSS uma terceira. Segundo ele não possui 40% da função motora da perna esquerda.

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publicada em ambos. No segundo jornal em circulação do Estado, ao invés de notícias sobre o encontro, uma página inteira sobre os estrondosos números de investimento e faturamento da Vale, que, a cada dia se internacionaliza mais, com desenhos de projetos para Moçambique, Austrália, e em consórcio com a China, no setor de siderurgia em São Luís, Maranhão. Entre os investimentos na região, consta a ampliação da capacidade da Alunorte. Estimado em US$ 44 milhões, os recursos tornarão a empresa a maior do mundo no setor até 2006. A inauguração da ampliação ocorreu em março de 2006. São várias as estratégias da Vale para não ter a sua imagem maculada. Sob a auréola da responsabilidade social, distribui recursos a entidades assistencialistas, prefeituras, banca reformas em prédios públicos de todas as esferas do governo, mesmo universidades. Nexo causal - o gargalo da luta O Sindicato dos Químicos e a ADRVDT, denunciam, que através de uma política conhecida como Plano de Demissão Indicada (PDI), as empresas conseguiram se livrar do quadro técnico onde foi diagnosticado problemas de saúde. A política consistia de uma espécie de abono. O abono era uma quantia incluída além dos direitos estabelecidos no processo da demissão. Conforme depoimentos, ocorre que se deu a desgraça. Os demitidos sem conhecimento para o empreendedorismo, e muitas com a saúde profundamente debilitada, tiveram as suas famílias destruídas. Relatos durante o seminário atestam o fato. Com o fim das indenizações, falidos, ou simplesmente sem dinheiro, ex-funcionários foram abandonados por seus pares. Com a saúde agravada, muitos contam com a ajuda de parentes. Conforme a ADRDVT, há registros de caso de suicídio.
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Este livro foi composto na fonte Time News Roman, corpo 12 x 16 impresso em papel Offset 75g/m2, capa em papel cartão supremo 250g. pela FORT COM. GRÁFICA E EDITORA End.: Rua Castro Alves, 510 - Retiro Natal - São Luís Maranhão - CEP: 65025-230- Fone/Fax: (98) 3222-7139 E-mail: fortgraf2@yahoo.com.br

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Como já pontuado acima, há casos de transtornos mentais, esclerose, cegueira, asma entre os demitidos. Ocorre que devido às artimanhas das empresas, e à frágil fiscalização, não se consegue estabelecer o nexo causal. Ou seja, comprovar que as enfermidades que acometem os trabalhadores demitidos, e muitos os que estão nas fábricas, são provenientes do processo de produção do alumínio. Com a ausência da ficha de registro das fábricas, limita-se o encaminhamento de medidas junto aos órgãos públicos. Com isso, se emperra qualquer denúncia junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Delegacia Regional do Trabalho (DRT), e outros. E assim, as empresas seguem a colecionar certificações de todos os tipos. E, a inundar a capital com outdoors (e outras mídias) festivos. Não raro, com a estampa de gente uniformizada, a exibir um riso largo.

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