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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Copyright © 2009 by Fórum Carajás

Ficha Catalográfica:
Márcia Pereira de Abreu Pinheiro
AL UMÍNIO NA AMAZÔNIA:
ALUMÍNIO
Editoração e Impressão:
Fort com. Gráfica e Editora
SAÚDE DO TRABALHADOR,
MEIO AMBIENTE
Foto de Capa:
Sindmetal/Maranhão E MOVIMENTO SOCIAL
Tiragem: 1.000 exemplares

Alumínio na Amazônia: saúde do trabalhador, meio ambiente e movimento
social / Rogério Almeida (organizador). – São Luís: Fórum Carajás, 2009.

154 p.: il.

1.Alumínio – Amazônia. 2. Alumínio – Indústria – Aspectos Ambientais.
3. Alumínio – Indústria – Aspectos sociais. 4. Trabalhadores – Cuidados médicos
– Amazônia. 5. Movimentos sociais – Amazônia. I. Almeida, Rogério.

CDD 338.47669722

A reprodução não autorizada desta publicação,
no todo ou em parte, constitui violação do copyright

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Centro dos Direitos das Populações da Região de Carajás -
Fórum Carajás

Programa: Siderurgia na Amazônia- Projeto “Políticas Públicas e
Sustentabilidade da Região de Carajás”. AL UMÍNIO NA AMAZÔNIA:
ALUMÍNIO
Coordenação Executiva do Fórum Carajás: SAÚDE DO TRABALHADOR,
Antonio Gomes de Morais
Edmilson Carlos Pinheiro
MEIO AMBIENTE
Jean Carlos Santos E MOVIMENTO SOCIAL
Apoio: Misereor

Textos: Maurílio de Abreu Monteiro, Eder Ferreira Monteiro, Marluze
Pastor Santos, Hermano Albuquerque de Castro, Ednalva Maciel
Neves, Elio Lopes dos Santos, Manoel Maria de Morais Paiva,
Reinaldo Damasceno e Rogério Almeida

Organização: Rogerio Almeida (Jornalista)
Colaboração: Edmilson Pinheiro

Fórum Carajás
Avenida João Pessoa, Q. 09, Casa 19- Filipinho
CEP: 65040-000 São Luís/MA/Brasil
Site: www.forumcarajas.org.br
E-mail: forumcarajas@forumcarajas.org.br
Fone/fax: (098) 3249-9712

São Luís - MA
2009

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CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO: PROCESSO
INDUSTRIAL E FONTES DE POLUIÇÃO Agradecimentos
Elio Lopes dos Santos

O Fórum Carajás nestes seus 17 anos tem-se consolidado na luta, na
III PARTE
resistência e também nas proposições numa região onde os grandes
Movimentos sociais, saúde do trabalhador, meio ambiente e
política projetos assolam as populações locais. Os estudos, as pesquisas e as
informações nascidas no meio desta Articulação têm pautado e
subsidiado os mais diversos grupos, organizações e movimentos nos
CADEIA PRODUTIVA DE ALUMÍNIO NA AMAZÔNIA: seus embates e na busca por seus direitos.
IMPACTOS AMBIENTAIS, SOCIAIS E A PELEJA
SINDICAL Este livro ora apresentado é apenas uma parcela do que o movimento,
Manoel Maria de Morais Paiva academia e pesquisadores vem acumulando nestas ultimas décadas,
o que nos enaltece e nos fortalece a cada dia. Agradecemos por mais
LINHAS SOBRE A ASSOCIAÇÃO DOS VITIMADOS DAS
esta caminhada aos companheiros, colaboradores e pesquisadores:
FÁBRICAS DE ALUMÍNIO DE BARCARENA, PARÁ:
SAÚDE E MEIO Maurílio de Abreu Monteiro, Eder Ferreira Monteiro, Marluze Pastor
Reinaldo Damasceno Santos, Hermano Albuquerque de Castro, Ednalva Maciel Neves,
Rogério Almeida Manoel Maria de Morais Paiva, Reinaldo Damasceno, Rogério
Almeida e a toda equipe do Fórum Carajás.

Este livro não seria possível sem o apoio das comunidades e populações
da Região de Carajás, dos químicos, dos metalúrgicos, funcionários e
sindicalistas que trabalham e lutam por dias melhores e por mais
dignidade na Amazônia.

Edmilson Pinheiro
Fórum Carajás

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SUMÁRIO

Apresentação

I PARTE
Contexto do Alumínio na Amazônia

AMAZÔNIA: OS (DES) CAMINHOS DA CADEIA
PRODUTIVA DO ALUMÍNIO
Maurílio de Abreu Monteiro e Eder Ferreira Monteiro

O DIÁLOGO INTERNACIONAL DO ALUMÍNIO
Marluze Pastor Sántos

II PARTE
Saúde do trabalhador

A SAÚDE DOS TRABALHADORES DA CADEIA
PRODUTIVA DO ALUMÍNIO
Hermano Albuquerque de Castro

A PONTA DO ICEBERG: ESTUDO SOBRE ACIDENTES,
“INCIDENTES” E DOENÇAS DE TRABALHADORES NA
INDÚSTRIA DO ALUMÍNIO EM
SÃO LUÍS – MA
Ednalva Maciel Neves

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representações dos(as) trabalhadores(as) e ex-operários(as),
pontuando a peleja em torno de suas demandas sociais, ambientais e
políticas. Apresentação
Mais que um registro, pretende-se que esta publicação seja
uma ferramenta de base técnica que possa ser usada para a efetivação A intervenção militar ao apagar das luzes da década de 1960 e
da garantia dos direitos dos(as) trabalhadores(as) em diferentes frentes: início da década de 1970 cimentou a trilha do saque rumo às terras e
de enfrentamento com o capital privado e junto aos órgãos públicos aos recursos naturais nela existentes na Amazônia. Com o aporte do
do setor da saúde e da liberdade de organização sindical, meio Estado, o capital privado nacional e internacional se alastrou sobre
ambiente e política. imensas áreas na região, equivocadamente considerada um vazio
demográfico. Uma indiferença aos habitantes originais, os(as) indígenas.
Fórum Carajás A sanha sobre os recursos naturais engendrou um vasto leque
de passivos das mais variadas ordens, que espocam como chagas, a
repetir a experiência ibérica nas Américas em tempos coloniais. Na
trilha do saque germinam concentração de poder político e econômico,
grilagem de terras, mortes, devastação da floresta, trabalho escravo,
prostituição infantil, desastres ambientais, introdução de monoculturas
e cultivos de espécies exóticas e indiferença/silêncio da mídia. O balanço
nas dimensões sociais e ambientais dos diferentes ciclos econômicos,
baseados em variadas formas de extrativismo poderia ser pior?
A lógica do que é conhecido como grandes projetos: a
exploração madeireira, o extrativismo mineral, a pecuária, a construção
de empresas de gusa, a fomentação de empresas de eletro intensivo
(fábricas de alumínio), a construção de hidrelétricas e a edificação de
portos é a transferência de riquezas para além-mar.
Trata-se do que os economistas chamam de economia de
enclave, onde as mazelas são socializadas entre os nativos: camponeses,
quebradeiras de coco babaçu, pescadores, indígenas, coletores,
ribeirinhos, quilombolas e tantas outras categorias que dão colorido à
diversidade social da Amazônia.

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A inquietação sobre a questão não é nova. Há pelo menos causal das doenças com a atividade laboral. Limites que passam pela
duas décadas, numerosas interrogações povoam o ambiente: É a má fé de profissionais em níveis privado e público, além do poder das
condição periférica a nossa sina? Desenvolvimento para quem? Que empresas em questão.
projeto de desenvolvimento desejam os que habitam a Amazônia? A publicação se encontra dividida em três partes. A primeira
O horizonte das políticas públicas para a região não soa contempla a construção do contexto do processo da produção do
animador. Uma visita aos planos nota-se uma manutenção das lógicas alumínio na Amazônia e o debate do assunto no interior da rede Fórum
pretéritas. Há um conjunto de obras de infra-estrutura que objetivam a Carajás. Os pesquisadores Maurílio Monteiro ao lado do jovem Eder
integração do continente sul-americano através de eixos de integração: Monteiro fazem a contribuição inicial. Já o segundo artigo da seção é
energia, transporte e comunicação. A base é animar a circulação de produzido pela ex-coordenadora da rede, Marluze Pastor, que recupera
mercadorias, ao invés dos pólos de produção: madeira, pecuária e a linha do tempo do debate no interior da rede.
minérios, dos tempos ditatoriais. Três especialistas se debruçam sobre a temática central do livro,
Especialistas sugerem que é necessário mensurar a saúde do trabalhador, são eles Hermano Albuquerque de Castro,
economicamente a Amazônia para que a gula do capital não a subjugue. médico do trabalho e doutor em Saúde Pública, coordenador do Centro
É possível uma outra globalização? Em dias idos, o geógrafo Milton de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH)
Santos alertou para o aumento da sanha dos grandes conglomerados da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) – Fiocruz/MS; que trata
sobre as terras e os recursos naturais renováveis ou não, nas periferias da problemática a partir de pesquisa realizada com trabalhadores nas
do mundo. O mundo de cá parece fatiado para os grandes. fábricas do grupo Vale da cadeia de produção de alumínio localizadas
A presente publicação que ora se apresenta busca lançar um no município de Barcarena, Pará. Já o levantamento da doutora
pouco de luz sobre um dos passivos sociais originados das grandes Ednalva Neves, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) trata
empresas do setor de alumínio na região. O foco reside na saúde do da questão na fábrica Alumar, do grupo ALCOA, localizada no
(a) trabalhador(a) nas fábricas de alumínio do Pará, Albras e Alunorte, Maranhão. O trabalho do professor Elio Lopes dos Santos, técnico
sob o controle do grupo Vale; e da Alumar, empresa do grupo Alcoa, do Ministério Público Federal e professor da Faculdade de Engenharia
com sede no Maranhão. A publicação pontua ainda aspectos ambientais, Química e coordenador do curso de Engenharia de Segurança do
com registros de acidentes industriais. Trabalho da Universidade de Santa Cecília, de Santos (Unisanta),
A demanda agora registrada em livro foi ponto de diferentes consiste em analisar os poluentes e seus efeitos na cadeia de
encontros da rede Fórum Carajás ocorridos dentro e fora do país. transformação do minério.
Representantes dos(as) trabalhadores(as) das duas fábricas sempre Já terceira enfoca a trajetória de algumas representações dos
sublinharam o passivo na área da saúde da categoria no interior das (as) trabalhadores(as) e ex-trabalhadores(as) das fábricas de alumínio
fábricas e a imensa dificuldade em se conseguir estabelecer o nexo no Pará. Os mesmos fazem a reconstrução das trajetórias das

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produzidas, respectivamente, pelas empresas Alumínio Brasileiro S.A.
(Albras) e a Alumina do Norte S.A. (Alunorte).
Mesmo nos anos 1990, o Estado nacional brasileiro, já sem o
poder de centralização e recursos financeiros de que dispunha nos
anos 1980, patrocinou planos como o “Brasil em Ação” (1996-1999)
e o “Avança Brasil” (2000-2003), e recorreu, naquele momento, ao
discurso da eficiência das forças de mercado como propulsoras de
desenvolvimento regional e indicou a necessidade da criação de eixos
estruturadores de desenvolvimento regional. Estes, por sua vez, seriam
reforçados pelo aporte infra-estrutural para que corredores multimodais
estimulassem o dinamismo regional. Naquele contexto, uma vez mais,
o município de Barcarena assumiu destaque nos planos do governo I PARTE
central como um local-chave dos “eixos de integração nacional”. Contexto do Alumínio na Amazônia
No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a visão
oficial, expressa pelo “Plano Plurianual 2004-2007”, indicava que se
fosse dada máxima prioridade para o controle da inflação e a elevação
do saldo da balança comercial. Isto implicou dispensar tratamento
privilegiado aos agentes econômicos que para exportar não necessitem
realizar grandes importações, como no caso das grandes empresas
mínero-metalúrgicas, sendo que, neste especial, teve significância
simbólica a presença do presidente Lula na cerimônia que comemorou
a ampliação da fábrica da Alunorte, em 25 de fevereiro de 2006.
No Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciando
pelo presidente Lula no primeiro ano de seu segundo mandato (2007),
as obras de ampliação do Porto de Barcarena foram indicadas com
uma das prioridades em termos nacionais. Assim, as diferentes tentativas
estratégicas de modernização patrocinadas pelo Governo Federal na
Amazônia oriental tiveram, de formas diversas, repercussão decisiva
para a implantação e ampliação da indústria de alumínio em Barcarena.

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AMAZÔNIA: OS (DES) CAMINHOS DA CADEIA
PRODUTIVA DO ALUMÍNIO *

Maurílio de Abreu Monteiro**
Eder Ferreira Monteiro***

1 A indústria do alumínio em Barcarena: decorrência de
estratégias modernizantes
Durante os governos militares, as estratégias de modernização
para a Amazônia intensificaram o ritmo e alteraram a forma pela qual
se desenvolviam na região os processos de reestruturação espacial, de
mudanças demográficas e econômicas. O Governo Federal lançou os
fundamentos de intervenção do Estado na economia como forma de
favorecer o desenvolvimento. Para tanto, foram escolhidas áreas que
deveriam concentrar espacialmente capitais, receber a maior parte dos
incentivos e de aporte infra-estrutural. Barcarena, no Estado do Pará,
foi um dos municípios escolhidos para receber indústrias de
transformação da bauxita (minério de alumínio) em alumina e em alumínio
primário.
Em função das ações do Estado nacional, o município de
Barcarena se tornou um importante exportador de commodities
minerais, com destaque para o alumínio primário e a alumina,

∗ A elaboração deste trabalho contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq).
∗∗ Doutor em Ciências: Desenvolvimento Socioambiental, professor do Núcleo de Altos
Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA). E-mail:
maurílio_naea@ufpa.br.
∗∗∗ Graduado em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
**** Publicado pelo NAEA

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para o que, segundo a empresa, foram realizados investimentos que 2 Macrocenário da implantação da indústria do alumínio
superam US$ 1,6 bilhão. na Amazônia
A instalação de fábricas de alumínio primário na Amazônia
3 Indústria do alumínio e promessas modernizantes oriental brasileira se deu no contexto de reestruturação da indústria
Com a implantação da Albras, criou-se uma gama de novas mundial de alumínio, no qual os governos militares se empenhara para
relações sociais, ambientais e econômicas na região, transformando que, paralelamente à exploração das reservas de bauxita, fossem
com isso a realidade e a paisagem até então existentes. Como se indicou, também regionalmente produzidas alumina e alumínio primário, o que
a atuação do Estado nacional brasileiro e a do capital transnacional se fez por meio da adoção de uma série de medidas que favoreceram
foram fundamentais para a instalação dessa nova realidade na região. os capitais interessados na valorização da bauxita, da alumina e do
A estruturação da indústria de alumínio sofre pressões que alumínio primário.
guardam ligações estreitas com reestruturações das bases financeiras Como parte destes esforços, criou-se, em 1973, a Centrais
e produtivas da economia mundial e que se refletem nas dinâmicas Elétricas do Norte do Brasil S. A. (Eletronorte), com a finalidade de
estabelecidas entre o capital e o trabalho. Algumas destas pressões e viabilizar a implantação de usinas capazes de aproveitar o potencial
mudanças delas decorrentes, no âmbito da Albras, são discutidas a hidroelétrico da região, tarefa indispensável para a transformação
seguir. industrial da alumina em alumínio. Assim, logo após a sua criação, a
O apoio à edificação de gigantescas plantas industriais Eletronorte assumiu a coordenação da construção da Usina
destinadas à produção de alumínio guardou, e ainda guarda, sintonia Hidroelétrica de Tucuruí.
com um recorrente discurso sobre o desenvolvimento da Amazônia; O acordo inicialmente firmado entre a CVRD e a Light Metals
nele se afirma que, em face das “grandes dimensões”, dos “enormes Smelters Association (LMSA), empresa japonesa, em 1974, estimava,
problemas existentes” e mesmo do reconhecimento da existência de em valores da época, que seriam necessários investimentos de US$
“gigantescas potencialidades”, a tarefa de modernização da Amazônia 2,5 bilhões para se implantar na Amazônia uma fábrica de alumina com
só é capaz de ser realizada por grandes capitais. capacidade de produção para 1,3 milhão de toneladas anuais, que
Esta visão ideologizada acerca do processo de modernização supririam a demanda de uma outra unidade voltada à produção de
da região se presta muito bem a justificar expressões como a de alumínio primário. Destes investimentos, 28% deveriam ser destinados
“civilização do alumínio”, presente na reportagem da revista Veja, de 5 à participação na construção da Usina Hidroelétrica de Tucuruí, e 8%
de janeiro de 2000 (FERRAZ, 2000), assinada pelo jornalista Silvio para obras de infra-estrutura (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE;
Ferraz, que a utiliza para caracterizar o ambiente social que envolve a LIGHT METALS SMELTERS ASSOCIATION, 1974, p.17).
relação entre a Albras, seus funcionários e a sociedade local. A Em 1975, os sócios japoneses questionaram a viabilidade da
reportagem busca ressaltar os avanços ocorridos na relação entre sua participação no empreendimento, especialmente devido aos

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elevados custos referentes à construção da Usina Hidroelétrica de Sob tais condições, e com o apoio e aval estatal ao
Tucuruí e à montagem da infra-estrutura para dar suporte aos projetos. empreendimento, a Albras foi instalada no distrito industrial de
Para manter os capitais japoneses como partícipes do empreendimento, Barcarena, em uma área com cerca de 320 ha, próxima ao terminal
no processo de negociações, o governo brasileiro eximiu os parceiros portuário. O Governo Federal, por meio da Portobras, construiu o
da responsabilidade de qualquer participação na edificação da usina porto de Vila do Conde para atender às demandas de carga e descarga
para a geração de energia elétrica e assumiu, integralmente, a derivadas da produção do alumínio. Ele foi edificado em uma área de
responsabilidade com todos os custos referentes à construção da Usina 430 ha à margem direita do rio Pará, no local então denominado Ponta
Hidrelétrica de Tucuruí. Grossa, com condições para receber navios de grande calado. Já a
Assim, como parte destas novas formas de investimento em implantação da malha viária que serviria ao projeto foi efetivada pelo
“países em desenvolvimento”, que se generalizaram mundialmente na Governo Estadual.
década de 1970, consolidou-se, em 1978, a Albras, uma associação Os custos inicialmente previstos para a implantação daquela
entre a CVRD e a substituta da LMSA, a Nippon Amazon Aluminiun unidade industrial apta a valorizar 320 mil toneladas de alumínio primário
Corporation (NAAC), que representava um consórcio, mais amplo, por ano, foram estimados em US$ 1,343 bilhão, em valores da época.
que envolvia 33 empresas e o próprio Estado nacional japonês que, Na negociação que envolveu a implantação da Albras, estabeleceu-se
participou com 49% do empreendimento, cabendo o restante à empresa uma relação debt/equity de 70/30 (VIVACQUA; ANDRADE;
brasileira. Para a produção da alumina, criou-se a Alunorte, na qual a MACHADO, 1981, p. 25). Uma decisão que implicou a necessidade
participação do consórcio japonês seria menor do que na Albras, e de se recorrer a empréstimos que ultrapassaram a cifra de US$ 1 bilhão
deveria ser equivalente a 39,2% do empreendimento. e que foram efetivados, em sua maioria, em moeda japonesa,
No ano de 1980, os favores patrocinados pelo governo endividamento que elevou imensamente os custos financeiros da unidade
brasileiro ao empreendimento foram ampliados através da assinatura de transformação industrial, fazendo com que se acumulassem em seus
de um contrato entre a Eletronorte e a Albras, garantindo acesso ao balanços sucessivos prejuízos vinculados a despesas realizadas com
fornecimento de energia elétrica a preços não vinculados aos custos custeio da dívida.
de geração e transmissão da energia, mas sim ao valor do alumínio no A Albras foi implantada em duas fases, cada uma com
mercado mundial. Estabeleceu-se no contrato de fornecimento três capacidade para produzir 160 mil toneladas por ano de alumínio. A
fórmulas de cálculo dos valores da energia, cabendo à Albras optar fase I foi inaugurada em outubro de 1985. Em fevereiro de 1991 se
pela que mais lhe fosse benéfica. De tal contrato, com duração de 20 completou a instalação da fase II. E em dezembro do mesmo ano foi
anos, resultou o fornecimento de energia com custos abaixo dos de finalizado o processo de melhorias tecnológicas que possibilitaram a
produção, implicando num subsídio em favor da Albras. Este contrato elevação da produção a um patamar de 350 mil toneladas por ano.
vigorou desde 1984 e foi encerrado em junho de 2004. Disto resultou um ritmo ascendente de produção de alumínio primário,

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empresa e empregados nos últimos anos, assim como suas ações que
beneficiam algumas das comunidades existentes em Barcarena.
Assim, o recurso à expressão “civilização do alumínio” guarda
sintonia ideológica com as expectativas de se atingir uma rápida
modernização e desenvolvimento da região através da extração e a
transformação industrial de minerais na Amazônia oriental
(MONTEIRO, 2005).
Figurando na lista das maiores empresas do país, a empresa
passou a vincular o crescimento da produção e faturamento (Gráfico
01) e as mudanças decorrentes da sua operação como sendo resultado
da “civilização do alumínio”, em especial no âmbito da produção de
Gráfico 02: Número de empregados e produtividade física. riquezas, da responsabilidade social e ambiental, da qualidade no
Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª trabalho e da assistência junto às comunidades que cercam a área da
região (1986-2006). empresa. A evocação da dimensão civilizatória do empreendimento
ganha reforço discursivo pelo fato de a empresa passar a ser uma das
É necessário ir além das aparências manifestas nestes números maiores e mais produtivas empresas dedicadas à produção de alumínio
e estatísticas, amplamente divulgadas em uma grande variedade de primário do mundo (EXAME, 2000; 2001; 2002; 2003).
documentos da empresa, e investigar parte do conteúdo a ela subjacente
e, em parte, materializada pela relação entre a empresa e seus
funcionários. No caso da Albras, estes números (Gráfico 02) são a
manifestação mais visível de uma reestruturação produtiva aos moldes
das que ocorriam noutras partes do planeta e que impunham relações
de trabalho fortemente caracterizadas pela flexibilização das relações
trabalhistas e pela terceirização de atividades.
A reestruturação produtiva na Albras proporcionou um grande
impacto na estrutura da força de trabalho e teve um grande preço para
os trabalhadores do setor. A partir dos anos 1990, sob o novo modelo,
o número de trabalhadores diretamente contratados pela Albras foi Gráfico 01: Evolução da produção das vendas da Albras.
sendo sistematicamente reduzido. Assim, enquanto os índices de Fonte: Site da Albras. Acesso em 20 abr. 2007.

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4 Flexibilização produtiva e resistência dos trabalhadores e gestão de processos. Com isso a empresa buscava adequar-se aos
A presença da Albras na lista das empresas mais produtivas do padrões internacionais obtendo maior competitividade.
segmento tem articulação com um processo iniciado ainda no fim da A adesão ao TQC provocou uma reestruturação no quadro
década de 1980: sua reestruturação produtiva e administrativa. Naquele funcional da Albras, extinguindo antigos postos de trabalho e criando
momento (1989) a empresa iniciou mudanças em seu modelo de gestão, outros novos:
implantando um novo programa de gestão da força de trabalho e do A redução do número de empregados não é o único elemento
processo produtivo, que utiliza a metodologia do Total Quality Control para apontarmos o momento de reestruturação pelo qual passa a empresa.
(TQC – Controle de Qualidade Total), no estilo japonês. A adoção Há também outros elementos que irão direcionar para a mesma
desde modelo de gestão ressaltou, em grande medida, a percepção compreensão. Porém é certo que este é um dos mais marcantes
dos sócios nipônicos sobre a condução de negócios. Adotaram-se (EXAME, 2003, p. 55).
mudanças que tinham por objetivo ampliar o potencial produtivo da O modelo TQC representou na visão da empresa a introdução
planta, adequando-a às novas dinâmicas do mercado mundial. de técnicas gerenciais e de produção que integram, do ponto de vista
Essa reestruturação proporcionou mudanças significativas na da empresa, o “movimento internacional pela qualidade” (CARMO
distribuição e configuração de seu quadro funcional, tendo sido 2000, p. 64), ao qual muitas empresas se adequaram. Sua implantação
provavelmente a Albras a primeira grande empresa na Amazônia Oriental como novo modelo de gestão na Albras provocou mudanças
a introduzir o novo paradigma de gestão, proporcionando a
significativas nas estruturas da empresa e uma reformulação considerável
“flexibilização” de seu processo produtivo, reorganizando “os postos
em seu quadro funcional.
de trabalho, mantendo as atividades centrais (focais) em seu quadro
A política de redução do pessoal diretamente empregado e a
funcional e terceirizando as demais, e, finalmente, a aplicação de outros
ampliação da terceirização permitiram que, enquanto os índices de
métodos de trabalho que incorporem a incerteza e novos padrões de
produtividade seguissem escalas crescentes, caísse o número de
temporalidade com dados fundamentais para obter constantes melhorias
trabalhadores em números absolutos.
no processo de produção, na qualidade do produto, o que exige do
Para sustentar sua produção, em 1990 a empresa empregou,
trabalhador uma predisposição para um aperfeiçoamento constante”
em média, 2356 empregados, que foram responsáveis por uma
(EXAME, 2003, p. 19-20).
produção anual de 82 toneladas de alumínio por trabalhador diretamente
Eunápio Dutra do Carmo (2000), em seu trabalho sobre gestão
contratado. Em 2006, o número médio de empregados tinha caído
do trabalho na Albras, ressalta as transformações ocorridas na empresa
no início dos anos 1990, quando o novo modelo de gestão TQC passou para 1357 e a produtividade anual por trabalhador tinha sido elevada
a ser empregado. Trata-se de um modelo de gerenciamento que se para 336 toneladas (Gráfico 02).
baseia na liderança, gestão de pessoas, desenvolvimento tecnológico

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férias (presente em 71 processos), Adicional de insalubridade (presente produtividade da empresa cresceram, o número de funcionários, ao
em 67 processos), FGTS (presente em 69 processos) e demais contrário, decresceu (Gráfico 02).
diferenças concectárias (presente em 58 processos). A empresa passou a adotar discursos diferenciados, tanto para
No julgamento desses casos, a Albras foi muitas vezes acusada a sociedade quanto para os trabalhadores. Afirmava que “qualidade
de “se furtar ao pagamento das parcelas trabalhistas” postuladas nos no trabalho é uma etapa essencial nessa nova atitude de mudanças”; a
processos. Percebendo a gravidade da situação, a Albras começou a empresa alegava que, em 1995, foi abolida a obrigação de ponto dos
fazer acordos de indenização com os trabalhadores das empresas seus operários, eliminando, também, “a humilhante revista nos portões”
terceirizadas. Apesar de não assumir o vínculo empregatício, a empresa (FERRAZ, 2000), e com outras medidas que seguiam o mesmo
pagava aos trabalhadores valores referentes aos seus direitos objetivo, presenciou o salto de sua produtividade. Parece óbvio que
trabalhistas, declarando esse ato como “mera liberalidade” de sua parte. isso foi o “natural resultado do estabelecimento de um nível de relação
A partir dos 375 processos trabalhistas analisados em detalhes, patrão-empregado” (FERRAZ, 2000).
observou-se uma proporção de sete vezes mais homens envolvidos Nestes termos, as alterações mais significativas nas relações
do que mulheres, confirmando o fato do trabalho no setor metalúrgico entre os trabalhadores e a empresa, nas mais de duas décadas de sua
ser dominado, ainda, pela presença masculina. existência, decorreram de um processo de mudança que teve como
Os processos analisados e detalhes apresentam reivindicações referência temporal o último ano da década de 1980, quando a empresa
de trabalhadores ocupantes de vários postos na hierarquia funcional começou a adotar políticas buscando flexibilizar suas estruturas
da empresa, sendo encontrados 90 tipos diferentes de objetos produtivas. Tais alterações acarretaram conflitos e tensões entre os
reclamados, havendo, como já se indicou, processos que continham trabalhadores e a empresa que, em alguma medida, foram captados
mais de um objeto. pelas reclamações trabalhistas movidas contra a Albras.
Assumindo os processos trabalhistas como um componente
capaz de sinalizar elementos da reação dos trabalhadores aos processos
de reestruturação produtiva, foram levantadas todas as reclamações
trabalhistas dos empregados contra a Albras. Um levantamento que
cobriu mais de 18 anos de história daquela empresa (1986-2003),
sendo localizados um total de 1.245 processos (Gráfico 03).
Dos 1.245 processos localizados, 377 encontravam-se nas
varas do trabalho da cidade de Belém. Os outros processos estavam
distribuídos nas 25 varas da justiça trabalho do Estado do Pará. Em
Abaetetuba, encontra-se a maioria dos processos contra a Albras (941

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

processos). Dos processos, em sua totalidade, 375 foram analisados A ampliação do número de processos trabalhistas contra a
um a um, com o intuito de buscar elementos para reconstruir as tensões Albras ocorrido no ano de 1997 (Gráfico 03) tem relação com o
entre trabalhadores e a direção da empresa. processo de reestruturação, especialmente com a adoção, pela
empresa, da estratégia de terceirização de atividades. A análise dos
processos daquele ano indicou que o maior número de reclamações
trabalhistas contra a Albras está relacionado à atuação de funcionários
de empresas que prestavam serviços àquela.
Portanto, o cenário de 1997 foi diferente daquele dos anos de
1990 e 1991, quando se verificou um crescimento de reclamações
trabalhistas motivado por ações empetradas contra a empresa por
empregados até então diretamente vinculados à Albras. Assim, a maioria
dos processos referentes aos anos de 1996 e 1997 corresponde a
reclamações contra empresas que prestavam serviços à Albras.
Gráfico 03: Número de reclamações trabalhistas movidas contra Nas pesquisas dos processos arquivados na vara do trabalho
a Albras (1986-2003) do município de Abaetetuba, foram encontradas demandas contra
Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª quatorze empresas que prestavam serviços à Albras. Naqueles
região (1986-2006). processos, a Albras foi chamada a integrar o processo como
litisconsorte.1 Dos 137 processos contra a Albras analisados no TRT
O levantamento permitiu evidenciar que o ano de 1991, quando de Abaetetuba, em nível de detalhe, 87 correspondiam às empresas
foram registradas 177 reclamações trabalhistas, e o ano de 1997, no terceirizadas. Era grande o número de objetos das ações referentes,
qual houve 229 reclamações, foram os anos de maior incidência de sobretudo ao não cumprimento, pelos empregadores, de direitos
reclamações contra a Albras. Trata-se, evidentemente, de indicadores básicos dos trabalhadores. Naqueles processos os trabalhadores, no
da resistência dos trabalhadores, a diversos aspectos, da reestruturação geral, apresentavam mais de uma demanda por ação, sendo mais
produtiva empreendida pela empresa. comum a alegação do não pagamento pela empresa de: Aviso prévio
O rápido crescimento no volume de reclamações trabalhistas (presente em 72 processos), 13° salário (presente em 65 processos),
nos anos de 1990 e 1991 (Gráfico 03) está diretamente relacionado à
reestruturação produtiva iniciada pela empresa que teve como uma de 1
Termo jurídico utilizado quando uma empresa é intimada a fazer parte do processo e
suas conseqüências o estabelecimento de uma tendência de redução dividir responsabilidades com a empresa reclamada, por ter sido beneficiada de alguma
forma dos serviços dos trabalhadores dessa empresa. Nos processos relacionados às empresas
do número trabalhadores diretamente vinculados à Albras (Gráfico 02). prestadoras de serviços à Albras e à Alunorte, estas são constantemente convocadas a
integrarem o processo.

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e do agir social em praticamente todas as formações sociais do planeta.
Enfim, deles decorreram dinâmicas responsáveis pela “europeização”
ou “ocidentalização” do globo, que se denominam de modernização –
termo supostamente menos carregado de conteúdo etnocêntrico.
Advoga-se que empreendimentos como a Albras têm, em si,
um papel modernizador, pois são parte de um processo normalmente
associado à crescente destruição das formas tradicionais de estruturação
social, à ascensão do moderno capitalismo industrial e à crescente
integração produtiva dos serviços e bens ambientais e da tecnificação
da produção social. A modernização, então, é pensada como um
conjunto de permanentes transformações políticas, sociais, econômicas
e culturais que se inter-referenciam reciprocamente, vistas como
intrinsecamente positivas e como se representassem, sobretudo, o
amadurecimento das sociedades, mesmo tendo tais mudanças vingando
integralmente em pouquíssimas frações da economia moderna.
As multifacetadas manifestações da modernização, em termos
da organização social, estão associadas à ampliação de poderes
públicos; à consolidação e legitimação do Estado; à construção de
uma rede de instituições na sociedade civil; à progressiva especificidade
funcional na esfera política; e à introdução de mecanismos de
racionalização crescente de todos os setores da sociedade. A
modernização, assim, deveria, supostamente, conduzir ao
entrelaçamento de estruturas alta e crescentemente tecnificadas, capazes
de ampliar permanentemente o acervo de bens e o volume de serviços
socialmente disponíveis.
Todavia, estudos recentes sobre as conseqüências da
implantação das plantas industriais instaladas em Barcarena têm
apontado para a ampliação da concentração de renda; concentração, Gráfico 04: Relação dos pedidos mais freqüentes nos processo.
em espaços muito limitados, da melhoria das condições de vida; e, Fonte: Pesquisa de campo. Dados do Tribunal Regional do Trabalho/8ª região
(1986-2006).

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A reivindicação mais freqüente dos trabalhadores era a de pedidos). Nos processos os trabalhadores são enfáticos em ressaltar
diferenças pecuniárias de diversas ordens. Esta reclamação era seguida, o perigo a que estão expostos diariamente em seu ambiente de trabalho,
em termos de freqüência, por horas extras não pagas (8%), não se mesmo aqueles que não trabalham diretamente em áreas consideradas
limitando apenas as horas extras no período normal de trabalho, pois, insalubres pela empresa; todavia, detalham o risco que correm ao
além das horas da jornada de trabalho regular, é freqüente também o transitarem por certos ambientes no qual se detecta certos riscos à sua
pedido de horas extras face ao diálogo de segurança, com 18 integridade física.
processos. Aqui, é importante ressaltar o grau de perigo aos quais os
Os pedidos de equiparação salarial também foram um dos mais trabalhadores se consideram submetidos, já que a empresa possui uma
freqüentes, representando 5,5% dos objetos de reivindicação dos escala de ampliação de pagamento para os trabalhadores sujeitos à
trabalhadores. Era requerido pelos funcionários lesados, pois, apesar situação de maior risco, onde, logicamente, aqueles que trabalham em
de exercerem as mesmas atividades que um outro colega, percebiam contato maior com o risco ou perigo recebem uma porcentagem maior
que seus rendimentos eram menores. Não era raro encontrar desse beneficio em seus rendimentos. Para os funcionários, esse valor
reclamações onde um operador de forno pedia equiparação salarial a sempre é maior do que o concedido pela empresa ao serem dispensados;
seu superior, alegando exercer a mesma função deste na área em que quanto maiores forem os riscos de morte, maior os rendimentos
trabalhava. conseguidos.
Outra reclamação freqüente encontrada nos processos se refere A redução dos processos trabalhistas (Gráfico 03) parece
às chamadas horas extras “in intineri”. O número de processos em que também sinalizar a derrota da resistência mais organizada dos
se percebe a presença de pedidos de parcelas de horas extras “in trabalhadores e representar a afirmação de um novo modelo de gestão
itinere”, 3,4% dos pedidos, revela a visão que os empregados têm da força de trabalho, que reduziu o número de trabalhadores diretamente
desse tipo de conjunto habitacional. Os pedidos de horas extras “in vinculados à empresa, estabeleceu mecanismos de recompensas
itinere” correspondem ao tempo gasto pelos trabalhadores no percurso individuais, mas, sobretudo, fragilizou a organização sindical e seu poder
entre suas residências e o local onde fica a fábrica. Para eles, esse de intervenção.
tempo deve ser computado na jornada de trabalho, pois, ao residirem
em um conjunto de propriedade da fábrica e tomarem condução em 5 Os limites das promessas modernizantes
um veículo fornecido pela mesma, alegando também não haver outra A gestação e os desdobramentos dos processos que envolveram
forma de transporte, estão sujeitos aos horários estabelecidos pela a produção de alumínio na Amazônia oriental brasileira, em última
empresa. instância, decorrem dos profundos e significativos processos de
Outros objetos recorrentes nas reclamações dizem respeito aos transformação que introduziram novas formas de organização da
adicionais por insalubridade (4,9% pedidos) e por periculosidade (2,8% capacidade e potencialidade produtivas, de estruturação institucional

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sobretudo, o crescimento da pobreza (RIBEIRO, 2006). Outros
OS CAMINHOS DO ALUMÍNIO estudos demonstram que estratégia de terceirização da Albras (CORÔA
FILHO, 2005) e de outras empresas localizadas em Barcarena (LIMA,
Marluze Pastor Santos1 2005; COELHO, 2006) não tem se prestado à transferência de
tecnologia para seus contratados e fornecedores, não representando,
neste especial, uma perspectiva de enraizamento social do crescimento
Resumo econômico verificado no município.
O documento é uma síntese histórica do Programa de diálogo Torna-se, portanto, mais necessário refletir sobre os limites das
sobre a cadeia de alumínio na Amazônia desenvolvido por organizações promessas modernizantes vinculadas à implantação da indústria de
brasileiras e alemãs no período de 1999 a 2003. Foi elaborado a partir alumínio na região. Em especial, porque a implantação da Albras
de documentos existentes sobre o Programa e informações de acalentou, em diversos e amplos segmentos sociais, expectativas de
participantes. Na parte introdutória relata fatos motivadores da criação rápida modernização local. Uma convicção que se expressou, ao longo
do programa, destacando as conseqüências da exploração, produção do tempo, em diversas práticas governamentais, vários planos estatais
e comercialização do alumínio para comunidades que vivem no entorno de desenvolvimento, discursos e ações de partidos de distintos matizes
das fábricas e trabalhadores. A segunda parte trata do desenvolvimento políticos, posicionamentos e intervenções de sindicatos, tanto patronais
e resultados do Programa, os eventos e estudos que foram realizados quanto de trabalhadores etc. Uma convicção que, portanto, mobilizou
que contribuíram sobremaneira para a qualificação das organizações e ainda mobiliza uma pluralidade de atores sociais empenhados, na
envolvidas. Na terceira parte a autora analisa o programa, as ações maioria das vezes com sucesso, em verem transformadas industrialmente
implementadas e seus desdobramentos. as reservas minerais da região de Barcarena, como alternativa para
desenvolvimento social.

Palavra chave: alumínio, cadeia de produção, diálogo do
alumínio.

1
Marluze é agrônoma, MSc em agroecologia, foi coordenadora do Fórum Carajás quando
da MRI e do Programa do Alumínio. marluzepastor@yahoo.com.br

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Referências Bibliográficas LIMA, Marco Antônio Silva. Relações inter-firmas em Barcarena/
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COELHO, Edineide Santos. Flexibilização produtiva e suas implicações para o desenvolvimento regional. Novos Cadernos
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Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, RIBEIRO, Lílian Lopes Ribeiro. Impacto da atividade minero-
Belém, 2006. metalúrgica na qualidade de vida em Barcarena entre 1991 e
2000: uma análise intramunicipal a partir dos indicadores sócio-
CÔROA FILHO, Vicente Uparajara. Redes de subcontratação e econômicos. 2006. Dissertação (Mestrado em Planejamento do
desenvolvimento local: A atuação da Albras no arranjo produtivo de desenvolvimento) - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos,
Barcarena. 2005. Dissertação (Mestrado em Planejamento do Universidade Federal do Pará, Belém, 2006.
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jun. 2000; jul. 2001; jul. 2002; jul. 2003.

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ano 33, n. 1, p. 68-69, 5 jan. 2000.

34 35
Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

áreas degradadas, criação de reserva para conservação da
biodiversidade, ampliação dos benefícios (impostos, empregos), INTRODUÇÃO
liberação de recursos naturais imobilizados pelas empresas e ampliar a
discussões Norte/Sul. Em março de 1995, foi realizada em São Luís do Maranhão
Foi iniciado em 1995 com um intercâmbio entre organizações uma Mesa Redonda Internacional (MRI), evento central de uma
e trabalhadores do Brasil e da Europa, essa primeira atividade teve articulação criada por Ongs da região de Carajás2, sindicatos,
lugar em outubro de 1995 com o objetivo de conhecer as empresas, o pesquisadores, organizações de mulheres, associações, em 1992, com
ambiente de trabalho, as relações com os trabalhadores e as relações o propósito de abordar e reconstruir políticas públicas e privadas para
no entorno das fábricas. Uma comissão formada por representantes que proporcionassem democratização dos recursos, mitigação e/ou
do Fórum Carajás, pesquisadores brasileiros, representantes da compensação dos danos sócios ambientais causados por grandes
Conferência Conjunta das Igrejas Católica e Evangélica Alemãs sobre projetos implantados. A articulação foi chamada Fórum Carajás.
Desenvolvimento (GKKE), Associação de Indústria de Alumínio da Fez parte do temário da MRI, a cadeia de produção do ferro,
Alemanha visitaram a Mineração Rio do Norte (MRN), a Usina a expansão da sojicultura, a expansão da eucaliptocultura. Na avaliação
Hidrelétrica de Tucurui, Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A da MRI, as organizações coordenadoras, decidiram estabelecer um
(ELETRONORTE), o Consórcio de Alumínio do Maranhão S/A programa sobre a cadeia de produção do alumínio na Amazônia
ALUMAR). Visitaram também o Sindicato de Trabalhadores e brasileira por não ter sido contemplado no trabalho anterior e, por ser
Trabalhadoras Rurais de Tucuruí, Associação de Remanescentes de
o alumínio, um dos primeiros projetos implantados na região de Carajás.
Quilombos de Oriximiná/PA (ARQMO) e o Sindicato dos Metalúrgicos
Esse programa foi denominado “Diálogo do Alumínio,
do Maranhão (SINDMETAL-MA). Essa atividade permitiu conhecer
responsabilidade global, da exploração ao consumo”, teve como
o caminho do alumínio, a importância das empresas e impactos.
objetivos: estabelecer diálogo com as empresas, trabalhadores (as)
Formaram-se então duas equipes de trabalho, uma no Brasil
das fábricas e outras categorias de trabalhadores (as) e moradores
coordenada pelo Fórum Carajás e outra na Alemanha, coordenada
(as) afetadas pelos processos de produção, organismos públicos e
pelo GKKE, para articular com organizações da região, com
privados; ampliar o alcance das ações compensatórias e mitigadoras;
comunidades atingidas pelos processos de produção, trabalhadores
estabelecer novos mecanismos de controle e de monitoramento dos
(as) das empresas de alumínio e moradores (as) do entorno das fábricas;
empreendimentos; identificar doenças ocupacionais; avançar nas
identificação de pesquisadores, organizações e estudiosos sobre o tema;
articulação com as empresas, com organizações de paises compradores discussões sobre a relação Sul/Norte, inclusive com novos acordos
dos produtos e com legislativos. internacionais.
Participaram do Programa organizações sindicais, associações
de moradores, organizações quilombolas (Quadro 1), empresas alemãs 2
região instituída pelo Decreto Lei 1813/24.11. 1980

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A produção de alumínio na Amazônia iniciada em 1974 com a no processo inicial de exploração da bauxita, matéria prima para a
implantação da Mineração Rio do Norte (MRN) em Oriximiná/Pará; produção do alumínio, a MRN depositou os resíduos da argila no Lago
em 1984. O Consórcio de Alumínio do Maranhão (ALUMAR); em Batata. Poluiu também o Igarapé Água Fria, Saracá e Araticum e
1985, Alumínio Brasileiro S.A. (ALBRÁS) e em 1995 Alumina do Lago Sapucuá, prejudicando as comunidades de Boa Vista, Boa Nova,
Norte do Brasil (ALUNORTE), quatro consórcios de empresas Amapá, Casinha, Castanhal, São Pedro, Maceno, Ajarazal, Cunuri e
nacionais e internacionais para exploração, produção e comercialização Ascenção que se utilizavam dessas fontes de água.
de bauxita, alumina e alumínio. Para as comunidades que viviam nessas Além dos problemas vivenciados pelos moradores (as) e
áreas foi início da desestruturação de famílias, povoados e organização trabalhadores (as) do entorno, do interior das fábricas chegavam
comunitária, com a destruição de recursos que dispunham para informações sobre mortes, acidentes e doenças ocupacionais sem
alimentação e renda. Em São Luís, capital do Maranhão, com instalação registro ou estudos que pudessem subsidiar as organizações sindicais.
das fábricas de alumínio e alumina da ALUMAR, foram desapropriadas Por outro lado, as organizações que acompanharam o a implantação
17 comunidades tradicionais de pescadores entre elas Jacamim, desses consórcios como a Cáritas Brasileira já não atuava com essa
Coquilho, Ilha Pequena, Boa Razão, parte de Igaraú, Tainha, Paquatiua, temática, o Comitê de Defesa da Ilha estava com redução de seus
Santa Efigênia, Itaperuçu, Andiroba, Aracaua. quadros e o escritório da Federação de Órgãos de Assistência Social
A comunidade de Igaraú além da luta pela terra teve outros e Educacional (FASE) foi extinto em São Luís.
enfrentamentos com a empresa, um deles, tem relação com o período
da construção do segundo reservatório de rejeitos, a ALUMAR,
através das suas construtoras, desmatou a área de Reserva Legal da DIÁLOGO INTERNACIONAL SOBRE O ALUMÍNIO:
comunidade e usou sem autorização da comunidade água e argila das RESPONSABILIDADE GLOBAL DA EXTRAÇÃO AO
terras pertencentes ao povoado. CONSUMO
Os canais Ilha de Tauá-Mirim e do Rio dos Cachorros em São
Luís/Maranhão foram fechados pela empresa, tal medida impediu a O Programa teve como finalidade estudar a cadeia de produção1
pesca dos moradores de Tauá-Mirim, Taim e Rio dos Cachorros; os do alumínio; visibilizar os problemas decorrentes dos processos de
pescadores de Taim tiveram equipamentos de pesca apreendidos pela produção; propor medidas mitigadoras, tais como recuperação de
empresa. A comunidade de Aracaua teve parte de sua área sobreposta
às terras adquiridas pela ALUMAR, durante esses anos peleja para
obter a reintegração da propriedade. 3
O conceito de cadeia de produção se desenvolveu na escola francesa de economia industrial
No município de Barcarena, norte do Pará, a comunidade na década de 60. MORVAN define cadeia produtivo como uma sucessão de operação de
transformação dissociáveis capazes de serem separadas e ligadas entre si por um
Montana foi remanejada para dar lugar à instalação da fábrica de encadeamento técnico; é também um conjunto de relações comerciais e financeiras que
estabelecem, entre todos os estados de transformações, um fluxo de troca situado de
alumínio da ALBRÁS. Na região do Rio Trombetas, sudoeste do Pará, montante a jusante, entre fornecedores e clientes.

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• Oficina na Alemanha sobre organização através da Aluminium (Associação da Indústria de Alumínio da
sindical e visita a órgãos públicos, parlamentares, Alemanha), Internacional River Network (rede organizações de rios
empresas e igrejas, GKKE, Ministério de Meio da América); organizações de apoio, pesquisa e desenvolvimento
Ambiente Agricultura e Urbanismo da Alemanha, (Quadro 2).
Embaixada Brasileira na Alemanha, parlamentares da
Comissão Brasil Alemanha, Aluminium-Zentrale Quadro 1: organizações de fabrica e atingidas pelos processos de
(Associação da Indústria de Alumínio), fábrica de produção
alumínio Hoogovens. Nessa atividade estiveram
presentes representantes do SIDMETAL, STTR de Nome Tipo, categoria Localidade
Sindicato dos Trabalhadores e Atingido pela UHT Novo Repartimento/Pará
Tucuruí, MONAPE e Fórum Carajás, a oficina foi Trabalhadoras Rurais (STTR)
STTR de Tucuruí Atingido pela UHT Tucuruí/Pará
organizada pelos trabalhadores (as) da Thissen; CEAP Atingido pela UHT Tucuruí
• Seminário Internacional “Diálogo sobre STTR de Oriximiná Atingido pela exploração
da bauxita
Oriximiná/Pará

Alumínio, responsabilidade global, da exploração Associação dos
Remanescente de Quilombos
Atingido pela exploração
da bauxita
Oriximiná

ao consumo”, em São Luís, maio de 1999, com (ARQMO)
Sindicato dos Trabalhadores Trabalhadores da MRN Oriximiná
participação de 128 pessoas, sendo 20 da Europa. das Indústrias Extrativas de
Minerais Não-ferrosos
Participaram representantes de organizações sindicais Sindicato dos Metalúrgicos Trabalhadores da Barcarena/Pará
(SIMETAL) ALBRAS
de metalúrgicos, químicos e trabalhadores rurais, Sindicato de Químicos Trabalhadores da Barcarena
(SINTRANORTE) ALUNORTE
centrais sindicais; organizações quilombolas; Sindicato dos Metalúrgicos Trabalhadores da São Luís/Maranhão
(SINDMETAL) ALUMAR
organizações de pescadores; pesquisadores; STTR de Barcarena Atingidos pelos resíduos Barcarena
representantes de igrejas evangélicas e católica; Ongs; STTR de São Luís Atingidos pelos resíduos São Luís
Centro de Apoio e Pesquisa Atingidos pelos resíduos São Luís
órgão de estado; deputados; empresas, banco; ao Pescador Artesanal
(CAPPAM)
jornalistas; Associação de Moradores de Atingidos pelos resíduos São Luís
• Conferência sobre Alumínio do Programa de Taim
Associação de Moradores de Atingidos pelos resíduos São Luís
Igaraú
Diálogo Brasil, Alemanha, em junho de 1999, Movimento Nacional dos Atingidos pelos resíduos Organização Nacional
atividade conjunta da Aluminium-Zentrale, GKKE e Pescadores (MONAPE)
Movimento dos Pescadores Atingidos pelos resíduos Organização do Maranhão
do Instituto Evangelische Akademie Mühlheim (MOPEMA)
Associaçãodos Trabalhadores Atingidos pelos resíduos Curuperé/Pará
(Cen-tro de Pesquisas e Congressos mantido pela Rurais
Colônia de Pescadores Atingidos pelos resíduos Abaetetuba/Pará
Igreja Evangélica), objetivou implementar os resultados SIMETAL Sem relação direta Açailândia/Maranhão

do Seminário Internacional na Alemanha e discutir SIMETAL Sem relação direta Parauapebas/Para

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Quadro 2: Organizações de pesquisa, apoio e desenvolvimento. de trabalho e estabelecer a relação entre processo de
trabalho e doença;
Pará Maranhão Outros estados Outros paises • Encontro com cipeiros e trabalhadores das áreas
NAEA Tijupá CESE GKKE
afetadas pelos processos produtivos, em agosto de
CESUPA ELO Deutsche
CENTRU 1998 em Belém, buscou conhecer problemas relativos
Gerwerkschaftsbund
CEPASP GTA Nacional
(DGB)
FATA
UFMA
CUT/MA ao ambiente de trabalho e à saúde do trabalhador (a)
Federação dos
SMDH MAB Sindicatos (IG Metal) do interior das fábricas, do entorno e das áreas de
CPT/FIAN exploração das matérias primas, energia e bauxita;
Cáritas Brasileira FIAN
Fórum Carajás Universidade GHK
• Seminário “Preparatório sobre Alumínio”,
STR de Imperatriz
de Kassel realizado em Tucuruí, Estado do Pará, em outubro de
Rede Internacional de 1998, priorizou questões referentes aos impactos da
Rios (IRN)
produção do alumínio e medidas para superação dos
MISEREOR problemas detectados, o evento tratou também da
Pão para o Mundo
organização do seminário internacional já proposto pela
KOBRA
coordenação do evento;
Academias
Evangélicas • Oficina sobre o “Programa Diálogo Alumínio”
Eclesiásticas
e visita às fábricas da ALBRAS e ALUNORTE,
em Barcarena, Pará, em janeiro de 1999, essa oficina
Foram realizados eventos no Brasil e na Alemanha, de intercâmbio teve como objetivo principal reforçar articulação do
de informações entre trabalhadores (as) e pesquisadores (as); de Programa do Alumínio na região de Barcarena, os
formação de lideranças onde as temáticas sobre o processo de participantes discutiram questões referentes aos
produção do alumínio e sobre saúde do trabalhador e organização impactos da produção do alumínio na região de
sindical foram priorizadas; audiências com empresas, bancos Barcarena;
financiadores, órgãos do governo em Brasília, nos estados do Pará e • Visitas no Brasil, ELETRONORTE, ALCAN,
Maranhão e municípios de São Luís, Barcarena e Tucuruí; reuniões ABAL, ALUNORTE, MRN, ALBRÁS e
públicas e seminários, destacando-se os que se seguem: ALUMAR em janeiro de 1999, participaram da
• Oficina sobre “Saúde do Trabalhador”, realizada atividade representantes do Fórum Carajás e GKKE
em maio de 1998, na cidade de São Luís. O propósito para reapresentação do Programa e convite para
desse trabalho foi elaborar mapa de risco dos locais participação do seminário internacional;

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

• Seminário Internacional sobre Alumínio: sustentabilidade do uso de alumínio naquele país,
subsídios para trabalho em grupo”, é resultado do abordando aspectos sócio-ambientais globais. Foram
seminário preparatório realizado em Tucuruí em outubro participantes do evento: empresas, associações e
de 1998, que reuniu pesquisadores do Brasil e institutos especializados da indústria de alumínio, igrejas,
Alemanha, representantes sindicais dos metalúrgicos políticos, representantes de sindicatos, organizações
do Maranhão e Pará, trabalhadores e moradores de não-governamentais e institu-tos de pesquisa da
áreas afetadas pelas indústrias de alumínio e pela Alemanha e Brasil;
Hidrelétrica de Tucuruí. • Campanha pela criação da Resex do Lago
• A Produção de Alumínio e a Sociedade Civil no Tucuruí que envolveu produção de material didático
Brasil em 2005, Susanna Schaefer (Universidade e contato com órgãos públicos especialmente o IBAMA
Kassel, Socióloga) e Martin Studte (Universidade e SECTAM.
técnica de Berlim, Engenharia Ambiental), relatório • “Disputa sobre Aluminio, intercambio de
sobre destruições ambientais e assuntos sociais da trabalhadores brasileiros, alemães e suiços, em
produção de alumínio na Amazônia Brasileira. Hannover/Alemanha, outubro de 2000 com
participação de 10 sindicalistas brasileiros;
• “Seminário Internacional Saúde e Segurança
O LEGADO DO PROGRAMA no Trabalho e Meio Ambiente” em Hannover/
Alemanha, palestras e debate sobre os projetos
O diálogo durou até 2003, foram oito anos de estudo e industriais e desenvolvimento regional com
mobilização, compartilhamento de experiências de trabalhadores e apresentação do estudo “O caso alumínio na Amazônia
comunidades da região, novas organizações da sociedade civil passaram e no vale Wallis na Suiça, em Zurique/Suiça;
a discutir a produção do alumínio, houve aglutinação de diversos • Seminário “O Outro Lado da Ilha”, impactos no
segmentos sociais, fortalecimento das organizações sindicais e criação interior da Ilha de São Luís, alternativas e organização,
de novas organizações sindicais e populares inclusive de mulheres. janeiro de 2001 em Taim/São Luís com a participação
Informações e análise sobre a cadeia de produção do alumínio, das comunidades de Taim, Rio dos Cachorros, Porto
empoderamento de lideranças o que resultou em aumento do controle Grande, Limoeiro, Vila Maranhão, Cajueiro, Tauá
social sobre a indústria do alumínio no Brasil e na Alemanha. Mirim;
As empresas no Brasil não participaram do programa, • Oficinas sobre a cadeia do alumínio na Amazônia
acataram as visitas que foram solicitadas, a Eletronorte e a ALCAN no II e III Fórum Social Mundial em 2002 e 2003, em
participaram do Seminário Internacional em São Luís. Após a Porto Alegre/RS;

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

• Articulação com a Comissão Mundial de panorâmica do surgimento da indústria do alumínio e o
Barragens 4 no sentido da inclusão da Usina processo de implantação desse tipo de indústria no
Hidrelétrica de Tucuruí no estudo e acompanhamento Maranhão; identifica os principais agentes externos e
do estudo, essa atividade foi realizada principalmente internos que colaboraram para isto e detecta
pelo equipe de trabalho na Alemanha; conseqüências sociais e ambientais resultantes desse
• Carta aos presidentes da ALCOA e BILLITON, processo.
em julho de 2001 motivada por acidente na fábrica da • Indústria de alumínio, impactos sociais e
ALUMAR, solicitando providências para esse caso e relações de trabalho: um ensaio de estudos
outras questões já levantadas pelo Programa; recentes, de Eunápio do Carmo, buscou problematizar
• Participação na Coordenação da Campanha os impactos sociais advindos da implantação dos
Contra as Barragens do Araguaia/Tocantins” empreendimentos na Amazônia, com especial atenção
nessa campanha o Programa contribui principalmente à indústria do alumínio em Barcarena. Discute as
demonstrando a conexão entre a construção de relações de trabalho no interior das fábricas, ressalta o
hidrelétricas e a indústria do alumínio; fato de que há impasses entre os modelos adotados
• Debate Internacional Estratégico sobre a nessas fábricas e o modelo de desenvolvimento
Indústria do Alumínio, em São Luís, outubro de industrial brasileiro.
2003. • Impactos da indústria do alumínio sobre a Saúde
Vários estudos sobre a problemática do alumínio, do Trabalhador: o caso da ALUMAR, autoria de
nos vários aspectos da realidade em debate, foram Edinalva Maciel, trata das questões de saúde e
produzidos por especialistas, brasileiros e alemães: ambiente de trabalho em fábricas produtoras de
• Indústria de alumínio: impactos ambientais e alumínio, a partir do resgate das experiências dos
sócio-econômicos no Maranhão, de autoria de trabalhadores de um espaço fabril particular
Rogério Almeida, revisão dos estudos sobre o alumínio (ALUMAR). Faz um mapeamento dos possíveis riscos
produzidos no Maranhão. Produz uma visão e danos, demarca as condições de trabalho e os agravos
à saúde dos trabalhadores, permitindo visualizar o
panorama dos agravos à saúde, acidentes de trabalho
4
e doenças ocupacionais, presentes nos ambientes de
A Comissão Mundial de Barragens (CMB), foi criada em 1988, durante encontro sobre o
tema patrocinado pelo Banco Mundial e União pela Conservação Mundial (IUCN), teve trabalho.
por finalidade elaborar um relatório mundial sobre a contribuição das grandes barragens ao
desenvolvimento e estabelecer normas e diretrizes internacionalmente aceitáveis para a
tomada de decisões futuras.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

responsabilidad de los productores, los consumidores y los estados Conferência na Alemanha, em Mühlheim, a Aluminium-Zentrale se
sobre la línea del producto. Mimeo. S./D. retirou do Programa em atenção a não participação das empresas
brasileiras. Aqui vale refletir que o diálogo é muito utilizado na Alemanha
NEVES, E.M. Impactos da indústria do alumínio sobre a saúde o que facilitou o envolvimento das suas empresas.
dos trabalhadores , o caso da ALUMAR em São Luís: UFMA/Fórum
Durante o Programa foram elaboradas 113 propostas políticas
Carajás. 1999
para mitigação dos danos ambientais e sociais provocados no processo
PIMENTA, A. P e FILHO, D. C. A Saúde do trabalhador. São de produção e exportação e de organização social, que foram
Paulo: Hucitec,1988. amplamente divulgadas entre os envolvidos (as) das propostas
implementadas, destacam-se:
SWITKES. G. A Conexão Hidrelétricas e Alumínio, considerações • Eletrificação dos municípios afetados pela UHE de
estratégicas sobre energia e hidroeletricidade relevantes a uma Tucuruí, proposta atendida no Governo Lula através
campanha para aumentar o controle social sobre a industria de do Programa Luz para Todos;
alumínio.Rio de Janeiro: IRN, 2003. • Criação das unidades de conservação APA do Lago
de Tucuruí; RDS Alcobaça e RDS Pucuruí-Ararão Lei
do Estado do Pará Nº. 6.451/2002. lagos.
• Em processo de criação da Reserva Extrativista de
Taim em São Luís, pelo IBAMA, para proteção das
áreas de manguezais.
• Redução da poluição no Lago Batata, houve ações
da empresa e processo natural de regeneração, com
redução na turbidez da coluna de água, aumento na
concentração de matéria orgânica no sedimento,
recuperação de vegetação de igapó e a colonização
por peixes na área impactada;
• Criação de centros de referência de saúde do
trabalhador (a) em Barcarena, Belém e São Luís;
• Criação de Programas de formação para
trabalhadores (as) pela centrais sindicais;

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

• Criação do Sindicato de Químicos de Barcarena, e Referências Bibliográficas
da Associação de Def. dos Reclamantes e Vitimados
por Doenças do Trabalho na Cadeia Produtiva do AL. ALUMAR. Plano de recuperação de áreas degradadas para a
no Estado do PA (ADRVDT-CPA) construção dos lagos de resíduos de bauxita. São Luís: ALUMAR
Muitas outras ações foram desenvolvidas por outras Administração Industrial, 1990.
organizações no decorrer e após o seu término que teve significação
CAMPOS, J.R.L. et all. “Prevalência da contaminação por metais
para o redirecionamento das negociações e fortalecimento das
tóxicos”. “em uma amostragem populacional de São Luís – MA.”
organizações sindicais com foi à criação do GT Alumínio na Amazônia, In: Revista Journal. of Biomolecular Medicine & Free Radicals.
da CUT Nacional, em parceria com a DGB, os estudos sobre alumínio São Paulo: Vol. 4, n. 02,1998.
realizados pelo Instituto Observatório Social.
CARMO, E.D. Apagando a mente, ativando as mãos. Ainda? Uma
análise do processo de gestão do trabalho na indústria do alumínio.
Belém: UFPA, 1995. Mimeo.

CASTRO E.M.R. “Flexibilização e gestão do trabalho em
indústrias de”. “alumínio na Amazônia” In: COELHO, Maria
Célia Munes, COTA, Raymundo Garcia (org.). 10 Anos da Estrada
de Ferro Carajás. Belém: Supercores, 1997.

FORUM CARAJÁS. Diálogo Internacional do Alumínio .
responsabilidade global da extração ao consumo. São Luís: Fórum
Carajás, 1999

MOREIRA, J.C. R. A implantação da Alcoa em São Luis: uma
análise espacial da inserção do Maranhão no pólo de alumínio da região
norte do Brasil. Belo Horizonte, 1989. (Texto mímeo-Tese de
Mestrado)

MINISTERIO DA SAÚDE. Saúde no Brasil .Brasília: Ministério
da Saúde , 1997- MÜLLER-PLANTENBERG, C. La producción
sostenible de aluminio -¿ una utopia realizable? La

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Inicialmente será apresentado um pequeno resumo do processo
de trabalho em alguns pontos da cadeia de produção da alumina e da
tranformaçào do alumínio. A seguir será tratada a questão da toxicidade
do alumínio, as doenças específicas do processo, as doenças
relacionadas aos agentes de risco físico e ergonômico. Ao final serão
apresentados e analisados os casos atendidos na Casa do Trabalhador
de Belém (CASAT), no ano de 2004.

O alumínio na natureza, porque mexer com ela ?
Toda vez que o homem resolve manipular a natureza para
melhorar o seu “bem-estar” a natureza responde de alguma forma e a
sociedade paga um preço por isso. O preço a se pagar pode ser muito
elevado e coloca sob risco a vida de trabalhadores e da população. II PARTE
Da extração do alumínio, passando pela bauxita, pela alumina, pelo Saúde do trabalhador
alumínio até se transformar em panelas e em todos os produtos onde
existe esta matéria-prima, o processo de transformação vem carregado
de um poder nocivo invisível para a maior parte da população.
Deste modo, o que vem a ser este tal alumínio? É uma substância
presente na natureza e constitui aproximadamente 8% da superficie
terrestre. Sempre se encontra combinado com outros elementos tais
como oxigênio, silício e cloro. O alumínio é amplamente utilizado em
utensílios domésticos, como panelas e outros artigos de cozinha, em
vasos, em materiais de construção, como coberturas, por exemplo.
Utiliza-se ainda em tintas e produção de vidros, cerâmicas e também é
de uso comum em medicamentos, como os anti-ácidos.
O Brasil é a terceira maior reserva mundial de bauxita e é o
sexto maior produtor de alumínio primário, segundo os dados da
indústria. Em 2000 faturou 6,7 bilhões de dólares americanos. E neste
mesmo ano o povo brasileiro consumiu per capita a quantidade de

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

A SAÚDE DOS TRABALHADORES DA CADEIA
PRODUTIVA DO ALUMÍNIO

Hermano Albuquerque de Castro1

Introdução
Historicamente, os estudos realizados sobre a saúde dos
trabalhadores na cadeia produtiva do alumínio revelam uma prevalência
elevada para diversas doenças, variando desde doenças específicas
relacionadas ao alumínio e outras substâncias químicas até as doenças
osteomusculares relacionadas às cargas existentes na indústria e seus
problemas ergonômicos. Estes estudos demonstram a nocividade do
processo com uma exposição intensa dos trabalhadores a situações
perversas do ambiente de trabalho.
Os diferentes processos, em toda cadeia produtiva, mantêm
trabalhadores expostos a mais de uma dezena de compostos químicos,
tais como: soda caústica, fluoretos, dióxido de enxofre e outros. Os
colocam ainda em situações de posturas incorretas, em ambientes com
excessivo calor onde a soma destes diversos fatores irão causar danos
respiratórios, sanguíneos, osteomusculares, dermatológicos, mentais,
alterações no sistema nervoso central e periférico, entre outros.
Um dos objetivos desta revisão é dar maior visibilidade ao
adoecimento dos trabalhadores da cadeia produtiva do alumínio visando
fornecer subsídios para uma real atenção à saúde de todos os
trabalhadores ativos e inativos, oriundos desta atividade econômica no
país.

1
Médico do trabalho e doutor em Saúde Pública., coordenador do Centro de Estudos de
Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH) da Escola Nacional de Saúde Pública
(ENSP) – Fiocruz/MS. Email: castro@ensp.fiocruz.br

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

d) Precipitação - onde a alumina é precipitada por um processo 4,0kg/hab. No entanto, ainda um consumo baixo se comparado com
de cristalização da solução através de filtragem e resfriamento. os americanos que consumiram 36,2g/hab, neste mesmo ano.
e) Calcinação - onde os cristais de alumina são aquecidos a No processo industrial, cada país define seus limites de
alta temperatura, removendo a água, e formando a alumina exposição ocupacional ao pó de alumínio, e as diferenças de valores
propriamente dita. encontradas entre os países estão em função dos fatores sociais,
Ainda de acordo com Batista (2000), na produção do alumínio políticos e econômicos e de um modo geral não estão relacionados à
primário, “a transformação da alumina em alumínio consiste em colocá- saúde (Quadro 1). Infelizmente no Brasil, a nossa norma
la em um banho eletrolítico dentro de um forno onde se utiliza correntes regulamentadora, do Ministério do Trabalho, não define indicadores
elétricas contínuas. A alumina é dissolvida em um banho de criolita de saúde e nem limites de exposição ocupacional para trabalhadores
derretida a 950oC, em grandes fornos, por meio de uma corrente elétrica da indústria.
que passa através do banho entre os anodos de carbono (polo positivo)
e catodos (polo negativo). O alumínio se junta ao corpo do catodo e Quadro 1 - Limites de exposição à substância pó de alumínio
se precipita no fundo do forno. Posteriormente é aspirado por um
“cadinho” a vácuo pronto para ser ligado e fundido a outros metais. O País Limites de exposição ocupacional ao pó de alumínio
oxigênio da alumina combina-se com o carbono do anodo, sendo ACGIH (Americana) 10 mg/m3 TWA (p oeira metálica)
Áustria 6 mg/m3 MAK
expelido como monóxido ou dióxodo de carbono. Portanto, o refino
Bélgica 10 mg/m3 VLE
do alumínio primário é um processo eletrolítico e a produção de
Dinamarca 10 mg/m3 TWA (pó e poeira); 5 mg/ m 3 TWA (vapores)
transformados é um processo metalúrgico”. É importante conhecer o França 10 mg/m3 VME (metal); 5 mg/ m3 VME (poeira)
processo, pois nele está a gênese dos problemas ambientais e Alemanha 200 µg/L; Parâmetro = alumínio; Material = urina; Tempo de amos tragem = fim da
ocupacionais, com todas as conseqüências na saúde do trabalhador, exposição/turno 1.5 mg/m3 MAK (fracção respirável)

expostos aos riscos físicos de esforço repetitivo até a exposição ao Grécia 10 mg/m3 TWA (fracção inalável); 5 mg/m3 TWA (fracção respirável)

calor e aos riscos químicos com inalação de diversas substâncias Irlanda 10 ppm TWA (total de poeira inalável); 4 ppm TWA (poeira respirável)
Holanda 10 mg/m3 MAC
químicas.
Portugal 10 mg/m3 TWA (poeira metálica)
O número de substâncias químicas utilizadas na produção de
Espanha 10 mg/m3 VLA-ED (na forma de poeira)
alumínio é exageradamente elevado, com mais de 50 substâncias Suécia 5 mg/m3 LLV (total de poeira); 2 mg/ m3 LLV (poeira respirável)
conhecidas, dentre elas podemos citar acetileno, ácido clorídrico, Reino Unido 10 mg/m3 TWA (total de pó inalável); 4 mg/ m3 TWA (pó inalável)
passando por benzeno, berílio, cádmio, cloro, cromo, dióxido de sílicio
(sílica), fosfina, magnésio, monóxido de carbono, chumbo, potássio,
sódio e titânio. Cada uma destas substâncias produz doenças

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

O processo de trabalho
Não é nossa intenção descrever todo o processo da cadeia
produtiva do alumínio, mas apenas chamar a atenção para alguns pontos
com a finalidade de dimensionar as cargas de exposição nos processos,
tanto para as cargas de trabalho físico, como para a exposição química,
capazes de causar danos ao trabalhador e ao ambiente. De acordo
com Batista (2000), em seu relatório do projeto Cepal/IDRC, a primeira
etapa da cadeia consiste no processo de extração e tratamento do
minério. Primeiro é realizada uma lavagem do minério, posteriormente
o peneiramento, quando se reduz a taxa de areia e sílica combinada a
bauxita, e a seguir a secagem. A alumina é produzida através do
isolamento do óxido de alumínio (alumina) com a retirada de outros
componentes da bauxita, como por exemplo o óxido de ferro e de
silício. O processo de Bayer (Figura 1) é o processo comercial
atualmente em uso e é realizado através de modificações químicas com
alterações de pressão e temperatura, a partir de uma mistura de bauxita
Figura 1 - Diagrama simplificado do processo Bayer para
e soda cáustica. São necessárias aproximadamente 2,5 toneladas de produção de alumina a partir da bauxita
bauxita para a produção de 1 tonelada de alumina. Fonte: Constantino et al. (2002)

As principais etapas do processo de refino podem ser
agrupadas da seguinte forma (BATISTA, 2000):
a) Britagem e moagem - consistem na redução controlada das
dimensões das partículas do minério.
b) Digestão - onde o minério é combinado à soda cáustica em
condições de alta temperatura e pressão, resultando em uma solução
de aluminato de sódio misturada com resíduos insolúveis de impureza.
c) Decantação e lavagem - onde os resíduos são separados do
aluminato de sódio por um processo de decantação e filtragem e onde
a soda cáustica é separada dos resíduos por um processo de lavagem.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

degeneração de células do fígado e que as atividades enzimáticas das isoladamente, como a leucemia do benzeno e podem produzir outras
transaminases e fosfatases podem aumentar com a intoxicação. doenças por sua ação sinérgica ou combinada no processo de trabalho.
Trabalhadores diabéticos sofrem duplamente, pois o alumínio Do ponto de vista ambiental ocorrem emissões de gases na
potencializa os efeitos adversos e nocivos causados pelo aumento de atmosfera tais como: fluoretos gasosos (fluoreto de hidrogênio; poeira,
açúcar no sangue. principalmente de alumínio e sódio, um dos poluentes principais da
Do ponto de vista endocrinológico o alumínio em excesso unidade de redução de uma fábrica; emissão de SO2 e óxidos de
funciona como um disruptor endócrino, ou seja, produz uma modificação carbono; escória (resíduo sólido) que se exposta ao “ar livre” pode
na resposta endócrina do organismo, como por exemplo as alterações gerar gases/particulados e amônia, perigosos para o meio ambiente.
de hormônios da paratireóide ocorrendo um hiperpatireoidismo Emissões de gases de combustão e material particulado (pó de alumina
secundário à insuficiência renal crônica. A intoxicação ou excesso de calcinada, cal virgem em pó). O principal rejeito é a lama vermelha
alumínio é responsável também por quadros de anemia e redução de formada por resíduos insolúveis de bauxita mais soda caústica,
ferro sérico. As alterações no sistema reprodutor têm sido pouco prejudicial para o solo e águas (lençol freático, lagos, igarapés e rios).
estudadas em seres humanos, mas em ratos foi encontrada infertilidade A lama vermelha pode causar assoreamento de rios e igarapés e em
relacionada à diminuição de espermatozóide e morte fetal em cobaias contato com águas pluviais pode contaminar o lençol freático. A soda
grávidas. cáustica é também um dos elementos mais nocivos ao meio ambiente.
O alumínio, enquanto produto largamente utilizado pela
Alguns estudos sobre doenças presentes na cadeia população, causa um enorme impacto na saúde humana dos
produtiva do alumínio consumidores destes produtos. Neste aspecto, tem sido demonstrada
A – Asma: é uma doença presente na população, mas muito a liberação do metal em grande quantidade, principalmente, em águas
frequente entre trabalhadores da indústria do alumínio. A asma e alimentos cozinhados com panelas de alumínio. De acordo com o
ocupacional é definida como uma doença respiratória caracterizada estudo da pesquisadora da USP, Elaine Bocalon, publicado pela agência
por obstrução reversível ao fluxo aéreo e/ou hiperresponsividade USP de notícias, em dezembro de 2005, ela encontrou uma transferência
brônquica devido a causas e condições atribuíveis a um de alumínio para água com sal (10 gramas em 4 litros) de 20 miligramas
determinado ambiente de trabalho onde ocorre a presença de gases, por litro (mg/l), após 3 horas de fervura, quando o admissível seria de
fumos, vapores ou poeiras. 12 a 14 mg/dia.
Como critérios diagnósticos temos a presença de chiado no Esta mesma pesquisa também constatou que a transferência
peito, dispnéia, dor torácica e tosse. Estes sintomas podem surgir após do metal cresce com uma maior quantidade de sal e com o pH (Potencial
duas semanas da exposição, às vezes acompanhados por sintomas Hidrogeniônico) mais básico. Quando se aumenta a salinidade, de 10
noturnos e melhoram com o afastamento do posto de trabalho. para 50 gramas por 4 litros, a concentração de metais na água sobe

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

25%. A variação do pH tornando-o mais básico aumenta em 160% a As doenças específicas do alumínio
concentração do alumínio na água. O mesmo ocorre no cozimento do As principais vias de absorção do alumínio são a pele, a via
arroz por 10 minutos, na panela de alumínio, onde concentração do digestiva, para a contaminação ambiental e a respiratória, principalmente
metal quase dobra, o aumento passa de 130%, comparando-se ao para os trabalhadores expostos da indústria.
arroz não lavado. No feijão não foi diferente onde a concentração do Uma extensa revisão foi realizada por Prasunpriya Nayak
metal sobe aproximadamente 35% em relação ao grão não lavado. (2002), do Instituto de Ciências Médicas da Índia e por Becaria e
Vários estudos mostram um incremento na concentração do alumínio cols. (2002) do Centro de Ciências da Saúde Ambiental e ocupacional
nos alimentos, mas qual será o verdadeiro impacto na saúde humana? de Irvine, EUA, mostrando múltiplas manifestações clínicas associadas
Neste caso, quando há possibilidade do risco, o melhor é assumir o com a exposição ao alumínio. Nesta revisão é documentado o impacto
princípio da precaução, da Organização Mundial da Saúde, onde diz do alumínio no sistema nervoso central atribuindo sintomas neurológicos
o seguinte: “quando uma atividade representa uma ameaça para a saúde à intoxicação por alumínio em populações expostas. Dentre os sintomas
humana ou para o meio ambiente, devem ser tomadas medidas são relatados os tremores de extremidades, perda de memória, ataxia
preventivas e precaucionárias, ainda que algumas relações de causa e e até convulsões generalizadas parecidas com estado epiléptico.
efeito não tenham sido totalmente determinadas de maneira científica” Por exemplo, trabalhadores em fábricas de esquadrias de
(Declaração de Wingspread sobre o princípio da precaução, janeiro alumínio, depois de um certo período de exposição, podem sofrer de
de 1998). Nosso dever e os das autoridades constituídas é o de reduzir tonturas, falta de coordenação, e perdas do equilíbrio e de energia,
e eliminar a exposição como o melhor caminho para manter a vida por acúmulo de alumínio no cérebro. A doença senil, a doença de
saudável. Alzheimer e a doença parksoniana com degeneração neurofibrilar
Resumidamente, o processo de retirada da bauxita causa um também se encontram associadas ao risco de exposição ao alumínio.
dano ambiental irremediável produzindo uma devastação na área de Para o sistema músculo-esquelético esta revisão mostra uma toxicidade
mineração, incluindo a geração de poeiras. O processo de lavagem da direta no osso, conduzindo em alguns casos à osteomalácia
bauxita com soda cáustica para a produção da alumina produz um caracterizada por um desmineralização óssea o que conduz a fraturas
rejeito com a soda e que se não for bem fiscalizado vai parar quase e dores constantes. Ocorre ainda uma redução na atividade
sempre nos rios da região, ocasionando mortandade de peixes e danos osteoblástica perpetuando as alterações ósseas.
à fauna e à flora da região. No processo de eletrólise encontra-se No sistema cardio-vascular pode ocorrer um acúmulo de
presente o coque, com benzeno, fluoretos e sódio, o que se não for alumínio no coração com estudos sugerindo uma possível hipertrofia
bem controlado no processo causa danos ambientais e ocupacionais cardíaca e um aumento de arritmias cardíacas. Os efeitos adversos
irreversíveis. produzidas pelo alumínio no fígado têm sido bem documentados. O
aumento de alumínio no fígado pode ser responsável por colestases e

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

– anorexia e conseqüente fraqueza e até psicoses, o que A literatura aponta diversos estudos relacionando asma em
se agrava em crianças com dificuldades de eliminação trabalhadores da indústria do alumínio, tendo como causa as diversas
desse metal devido a problemas renais crônicos. substâncias químicas produzidas nestes ambientes, tais como óxido de
• Sintomas clínicos e doenças da intoxicação por alumínio em alumínio, gás SO2 e fluoretos. Como existe uma concentração de
adultos: diferentes substâncias químicas no processo fica difícil identificar um
– dormências e paralisias em membros inferiores; único agente, mas a maioria dos estudos têm apontado os fluoretos
– seborréia intensa no couro cabeludo, acompanhada como um dos principais agentes causais (SOYSETH; KONGERUD,
de queda dos cabelos; 1992; STEINEGGER; SCHLATTLER, 1992).
– envelhecimento precoce; A primeira manifestação clínica da asma no trabalhador exposto
– esclerose cerebral (doença de Alzheimer); pode variar entre semanas e anos após a primeira exposição e é possível
– conjuntivite crônica; que haja tanto um efeito irritante como uma reação imunológica na
– dificuldades no metabolismo do cálcio; gênese da asma (SARIC, 1979; CHAN-YEUNG, 1986).
– osteomalácia. B – Febre dos metais: a inalação do pó de alumínio pode causar
uma febre específica dos metais provocada por inalação de óxidos de
Os trabalhadores doentes de Barcarena-PA metais, que é uma doença semelhante à gripe, com duração de até 24
No ano de 2003, iniciou-se uma demanda do município vizinho horas.
a Belém, chamado Barcarena, onde funcionam duas grandes indústrias C – Pneumopatias, aluminose e Doença de Shaver: a aluminose
da cadeia do alumínio do grupo Vale. Na maioria eram trabalhadores é uma patologia pulmonar conhecida como uma pneumoconiose
desassistidos em seu município, abandonados e demitidos da empresa causada por poeira de alumínio e a Doença de Shaver é causada por
para a qual trabalhavam. A demissão era sempre seguida de um exposição aos abrasivos de óxido de alumínio (Al2O3) e fumos de
diagnóstico qualquer de doença, o que caracterizava uma demissão bauxita. A doença produz um infiltrado instersticial, principalmente na
irregular, pois não obedeçe as normas regulamentadoras do Ministério parte superior do pulmão e às vezes ocorre a presença de bolhas
do Trabalho e as portarias do Ministério da Previdência, que definem pulmonares.
o amparo ao trabalhador no caso de doença produzida no ambiente Um estudo retrospectivo realizado na China por Peng e cols.
de trabalho. (2005), no qual avaliaram 75 casos de aluminose de trabalhadores
A relação do diagnóstico da doença com o trabalho nem sempre que se internaram no período entre 1972 e 2004, verificou-se que
é fácil e torna-se ainda mais difícil quando entram em cena o poder alguns trabalhadores apresentaram período curto de exposição de até
econômico da principal empresa da região. O poder econômico local 03 anos e 1/3 dos pacientes apresentaram a forma mais grave da
limita a ação de saúde em vários aspectos, principalmente na liberdade doença evoluindo com fibrose intensa. No Brasil existem poucos relatos

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de casos de aluminose entre trabalhadores da cadeia produtiva do primária do alumínio apontam excesso de canceres como o linfosarcoma/
alumínio. A falta de diagnóstico se deve provavelmente à incapacidade reticulosarcoma, câncer de pancreas e leucemias.
do sistema de saúde diagnosticar os casos e dar visibilidade ao F – Doença de Alzheimer: um tema polêmico é a relação entre
problema, específico deste tipo de exposição. a exposição ao alumínio e a doença de Alzheimer, aqui se encontram
Estudo conduzido por Lin e cols (2003), com 1615 vários estudos apontando na direção desta relação. O mais recente
trabalhadores expostos na indústria do alumínio, avaliando alterações estudo foi desenvolvido por Walton (2005), quando examinou tecidos
respiratórias, sintomas e exame espirométrico encontraram uma de necrópsia de casos confirmados da doença de Alzheimer e comparou
correlação das alterações respiratórias com um elevado nível de com um grupo controle. O estudo encontrou alterações de tecidos e
exposição ao fluoreto, dentro de uma matriz de exposição aos gases e células do sistema nervoso central nos doentes sugerindo a hipótese
vapores, fluoreto, dióxido de enxofre e outras substâncias químicas e de que o alumínio tem um papel importante na formação das alterações
ajustado para fumo e idade. Ao final, o estudo mostrou um redução na e que deveria ser considerada a exposição ao alumínio como um fator
capacidade respiratória e aumento de sintomas, até 04 vezes mais, nos causativo para a doença de Alzheimer.
trabalhadores expostos comparados com não expostos. G – Doença Osteomuscular e Lesão de Esforço Repetitivo
Em um estudo realizado por Randon e cols (1999), entre 147 (LER): um dos problemas de saúde também identificados na cadeia
trabalhadores expostos numa indústria primária de alumínio na Alemanha produtiva do alumínio é a presença de alterações músculo-esqueléticas
foi encontrada uma redução na função pulmonar, ou seja, a perda de em trabalhadores da indústria. Um estudo realizado em 2000, por
capacidade do trabalhador respirar atribuída à exposição as substâncias Morken e cols, mostrou uma elevada prevalência de distúrbios músculo-
químicas da indústria e aos fluoretos. esqueléticos, entre 5654 trabalhadores da indústria do alumínio. Os
D – Alterações dentárias: a presença de névoas de fluoretos é operários apresentaram uma maior incidência quando comparados aos
responsável por provocar erosões dentárias nos trabalhadores, fato trabalhadores de escritório e houve ainda uma correlação entre o tempo
conhecido entre os profissionais da saúde bucal, mas pouco de trabalho e o risco de alterações músculo-esqueléticas.
diagnosticado na sua relação com a exposição no trabalho. Apresenta-se abaixo uma síntese de algumas doenças e
E – Câncer: de acordo com algumas monografias do IARC, sintomas relacionados ao alumínio, em crianças e adultos:
do inglês Institute Agency Research Center (IARC, 2006), o • Sintomas clínicos e doenças da intoxicação por alumínio em
aparecimento de câncer em trabalhadores com exposição nos crianças:
ambientes com produção de alumínio tem sido demonstrado em diversos – anemia microcítica hipocrômica refratária ao
estudos, alguns apontam o pulmão como o órgão mais atingido, tratamento com ferro;
aparecem também estudos sobre excesso de câncer de bexiga nos – alterações ósseas e renais;
trabalhadores do alumínio. Outros estudos relacionados à indústria

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Tabela 2 – Freqüência de diagnósticos nos trabalhadores avaliados profissional do médico local, que não dispõe, às vezes
propositadamente, de meios adequados para realizar o diagnóstico e
relacionar com o trabalho. Outras vezes o sistema de atenção à saúde
local torna-se vulnerável e sofre pressão por parte do poder econômico
estabelecido na região. Os trabalhadores foram obrigados a se deslocar
para o município vizinho, Belém, e outros trabalhadores foram
encaminhados para cidades como a de São Paulo, com a finalidade de
realizar exames específicos e toxicológicos para o diagnóstico de
intoxicação.
O processo de trabalho é descrito de forma singular por diversos
trabalhadores avaliados, comparando a atividade no forno de redução
a uma anti-câmara da “morte”. Um operador de forno, por exemplo,
realiza o rastelamento de fornos que constitui uma limpeza com um
rastelo, instrumento formado por uma fileira de dentes de ferro, atividade
que mantém o trabalhador permanentemente curvado, realizando um
esforço físico, em um ambiente extremamente quente.
Realiza ainda levantamento de vigas, troca de anodos, limpeza
do butts, transferência de banho, adição de criolita, fluoreto e barrilha
para formar o banho para a partida de forno. Aqueles que trabalhavam
nas unidades de aquecimento retiravam a crosta que se formava dentro
da câmara de combustão. Alguns trabalhadores realizavam sua tarefa
na empilhadeira, no transporte de anodos, operando a ponte rolante,
enfornando e desenfornando anodo. Após este processo, o trabalhador
Fonte:- CASAT/BELÉM/2004 ainda realiza a limpeza da área quando havia transbordo de banho de
fornos e caixas. O rejeito era apanhado com uma pá e colocado em
Somente dois trabalhadores conseguiram realizar exames um carrinho de mão e conduzido até as baias fora da área de produção.
toxicológicos, em Campinas/SP, e os dois apresentaram aumento na Outro processo de produção envolvia os lingotes, onde o
dosagem de alumínio no sangue. Um dos exames atingiu o valor de trabalhador devia carregar pilhas de lingotes, pesar e transportá-las
77mg/l, quando o máximo aceitado é de 8 mg/l. para a área de estoque, realizando esforço físico, muitas vezes, acima

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

da sua capacidade física. Um trabalhador descreveu a atividade no Dos 41 trabalhadores avaliados, 28 (68,3%) eram operadores
distribuidor que controlava o tamanho do lingote como uma atividade de forno (Tabela 1).
altamente desgastante, em função do excesso de esforço físico.
Realizavam ainda tratamento de escória, principalmente quando a Tabela 1 - Distribuição dos trabalhadores por atividade na indústria
máquina apresentava problemas mecânicos, aumentando o rejeito e
precisando catá-lo manualmente.
Na caldeiraria, os trabalhadores descreviam como trabalho
pesado, onde carregavam peças rejeitadas de até 30kg, a uma distância
de 1 metro. Manipulavam, sem proteção adequada a manta de amianto
e o pó de caulim. O operador de chumbamento realizava limpeza de
butts com martelete, chumbamento de anodo, feito de piche e pó de
coque. O processo era realizado com um martelete de aproximadamente
30kg, suspenso em um balancinho de cabo de aço e aclopado a uma
mangueira de ar para a limpeza do butts.
O objetivo deste trabalho foi avaliar a saúde de trabalhadores
da cadeia produtiva do alumínio, demandados à Casa do Trabalhador
do Município de Belém (CASAT/BELÉM), nos anos de 2003 e 2004,
com a finalidade de dar maior visibilidade ao adoecimento relacionado
ao trabalho daqueles que entregam sua força de trabalho à produção Fonte:CASAT/BELÉM/2004
do alumínio e nem ao menos foram informados sobre os riscos reais a
que estariam submetidos. Será apresentado um estudo descritivo de Foram realizados 57 diagnósticos, 25 trabalhadores com 01
41 trabalhadores avaliados neste período, todos do sexo masculino. diagnóstico, 13 trabalhadores apresentando 02 diagnósticos e 03
trabalhadores apresentando 03 diagnósticos. A Tabela 2 mostra a
Resultados freqüência e o percentual de diagnósticos nos trabalhadores.
Os 41 trabalhadores foram atendidos na CASAT na condição A queixa mais freqüente entre os trabalhadores estava
de ex-empregados da indústria. A média de idade foi de 42,7±6,5 relacionada com as doenças osteomusculares. Deste modo, o principal
anos com um mínimo de 30 anos e máximo de 57 anos. A média de dagnóstico foi a lombalgia com 65,9% dos trabalhadores apresentando
tempo de trabalho na indústria foi de 6,9±4,0 anos. problemas de coluna.

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Referências bibliográficas Discussão dos casos
Este é um estudo de uma pequena parcela de trabalhadores
BATISTA, J. C. A natural resource cluster development strategy: (41) que conseguiram buscar atendimento médico no município de
the case of bauxite in the North of Brazil March 2000. Projeto Cepal/ Belém. Os dados apresentados não representam prevalências ou
incidências de doenças dos trabalhadores da indústria do alumínio,
IDRC. Referência: 98-8755-01(50391). por não ter sido avaliado a totalidade de trabalhadores expostos. Porém,
este relato expressa o adoecimento em uma parcela de trabalhadores
BECARIA, A.; CAMPBELL, A.; BONDY S. C. Aluminum as a
que se expuseram por um período curto de tempo, vivenciando
toxicant. Toxicology and Industrial Health, n. 18, p. 309-320,
situações de trabalho extremamente insalubre e às vezes perigosa. A
2002.
informação deste estudo descritivo reveste-se de importância pela
CHAN-YEUNG, M.; LAM, S. Occupational asthma. Am Rev Respir possibilidade de levantarmos hipóteses da relação com o trabalho e
Dis. n. 133, p. 686-703, 1986. principalmente para iniciar um processo de transformação da realidade,
a partir do relato de casos.
CONSTANTINO, V. R. L.; ARAKI, K.; SILVA, D. O.; OLIVEI- A primeira questão que chama a atenção é o fato da maioria
RA, W. Preparação de compostos de alumínio a partir da bauxita: estar fora do processo de produção e todos com alguma queixa de
considerações sobre alguns aspectos envolvidos em um experimento saúde. Tal fato possivelmente pode refletir a precariedade no acesso
didático. Quim. Nova, São Paulo, v. 25, n. 3, p. 490-498, 2002. ao serviço de saúde, quando estão na produção ou então são
consequências do efeito do trabalhador sadio na indústria. Quando
INSTITUTE AGENCY RESEARCH OF CANCER. Disponível em: adoecem são demitidos e só ficam na produção os trabalhadores
<www.cie.iarc.fr/htdocs/monographs/vol34/ aluminiumproduction. aparentemente sadios.
html> . Acesso em 18 fev. 2006. Os trabalhadores encontravam-se numa faixa etária altamente
produtiva, num país onde a idade para aqueles que se aposentam é de
IREGREN, A. B.; SJÖGREN, K.; GUSTAFSSON, M.; HAGMAN,
65 anos. A indústria do alumínio está devolvendo para a sociedade,
L.; NYLÉN, W.; FRECH, M.; ANDERSSON, K. G.; LJUNGGREN,
trabalhadores doentes em plena faixa produtiva. A média de idade, em
A. Wennberg Effects on the nervous system in different groups of
workers exposed to aluminium. Occup Environ Med, Stanford, n. torno de 40 anos, deixa claro a sobrecarga de trabalho a que esses
58, p. 453-460, 2001. trabalhadores são submetidos.
Um fator que expressa esta sobrecarga, nesta parcela de
JANSSON, E. T. Aluminum exposure and Alzheimer’s disease. Journal trabalhadores atendidos na Casa do Trabalhador é o pouco tempo de
of Alzheimer’s Disease, Washington, n. 3, p. 541–549, 2001. trabalho. O pouco tempo de trabalho ou de exposição demonstra a

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precariedade do processo e a falta de políticas de saúde e segurança trabalhadores. No entanto, vários dos trabalhadores ainda permanecem
na cadeia produtiva que visassem a melhoria das consdições de trabalho. sem o devido reconhecimento da sua doença ocupacional, tanto pela
Do ponto de vista da saúde, o principal problema verificado e empresa quanto pela seguridade social.
diagnosticado entre os trabalhadores foi o problema osteomuscular, Infelizmente não foi possível realizar os exames toxicológicos
com quase 70% dos trabalhadores apresentando problemas de coluna. em todos os trabalhadores avaliados, principalmente naqueles que
Entre as vértebras existe um disco cartilaginoso que funciona como haviam saído da produção recentemente. Seria possível mostrar
proteção da coluna, evitando atritos entre os mesmos e concedendo resultados alarmantes visto que nos dois casos com exames
movimentos à coluna. A extrusão deste tecido cartilaginoso é o que mineralógicos realizados em São Paulo os níveis estavam elevadíssimos,
chamamos de hérnia de disco. em um dos casos dez vezes superior ao limite superior aceitável.
O ser humano, ao movimentar-se no trabalho, emprega os Finalizando, pode-se apontar algumas dificuldades encontradas
músculos que se apóiam na estrutura osteoligamentar da coluna na região onde os trabalhadores deveriam ser acompanhados, em um
vertebral. A movimentação corporal e as demais atividades programa de atenção integral à saúde. As principais dificuldades dos
desenvolvidas (força, destreza etc.) causam um desgaste importante serviços podem estar relacionadas à falta de recurso humano para
em três estruturas: articulações interapofisárias; disco intervertebral; diagnóstico, à falta de infra-estrutura laboratorial e a ausência, quase
músculo e fáscias. A sobrecarga nessa estrutura produz dano na coluna que completa, de uma retaguarda hospitalar e um sistema de saúde de
que se expressa como doença osteomuscular e diversos sintomas alta complexidade, que responda à demanda dos trabalhadores.
assinalados entre estes mesmos trabalhadores.
Avaliou-se 4 casos de surdez ocupacional (10% da população
estudada), provavelmente este número não reflete o problema real da
indústria. O que está se apresentando são casos diagnosticados, a partir
da suspeita do dano, não houve uma avaliação audiológica em todos
os trabalhadores demandados. É possível que se todos tivessem
realizado um exame audiométrico estes números poderiam ser ainda
maiores.
Cada caso avaliado possui uma nítida interpretação da sua
relação com o trabalho. Os casos de sinusite, faringite, leucemia,
adoecimento mental, doenças cardiovasculares, dermatose, aluminose
e outros são facilmente relacionados com as exposições ocorridas em
cada processo de trabalho, referido na história ocupacional dos

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trabalhadores (NEVES; PEREIRA; CABRAL, 1999). A justificativa LIN, F.; MALCOM, R. et al. Respiratory synptoms and lung-function
é inspirada nos relatos de trabalhadores que alegam, por um lado, changes with exposure to five substances in aluminium industry. Int
difíceis condições de trabalho e, por outro lado, nenhum conhecimento Arch. Occup. Environ. Health, London.n. 76, p. 103-110, 2003.
elaborado sobre acidentes e doenças que padecem. Este aspecto é
condizente com os raros estudos sobre adoecimentos e agravos à saúde LUND M. B.; ØKSNE, P. I., HAMRE, R.; KONGERUD, J.
Increased nitric oxide in exhaled air: an early marker of asthma in non-
dos trabalhadores em indústrias de alumínio não somente no Brasil,
smoking aluminium potroom workers? Occup Environ Med,
como também no mundo.
Stanford,n. 57, p. 274–278, 2000.
A dura realidade em que vivem os trabalhadores brasileiros foi
outra motivação para a investigação realizada, em razão de que eles MORKEN T, RIISE T, MOEN B, BERGUM O, HAUGE SH,
sofrem dupla penalização social, tanto por suas condições de vida HOLIEN S, LANGEDRAG A, OLSON HO, PEDERSEN S, SAUE
quanto pelas condições de trabalho. Assim, submetem-se aos modelos IL, SELJEBO GM, THOPPIL V.. Prevalence of musculoskeletal
organizacionais das empresas para garantir sustento às suas famílias, é symptoms among aluminium workers. Occup Med, Londres, n. 50, v.
o que declaram, o que se constitui numa argumentação incontestável, 6, p. 414-421, ago. 2000.
em particular porque são desprovidos de qualificação profissional, numa
região em que “empregos” são difíceis e de baixa remuneração8. NAYAK, P. Aluminum: impacts and disease. Environ Res. v. 89, n.
Além da relevância social do estudo, é sempre bom esclarecer 2, p. 101-15, 2002.
que o alumínio, produto do processo industrial investigado, é um
PENG, J. J.; ZHOU, Z. S.; WANG, F. Y.; SHEN, X. 1: Zhonghua Lao
elemento químico (metal) cuja natureza inorgânica não permite o
Dong Wei Sheng Zhi Y e Bing Za Zhi. Clinical analysis on 75 cases of
metabolismo pelo corpo humano. Em termos práticos, significa a aluminosis caused by black fused alumina. Chinese journal of industrial
impossibilidade de ser eliminado pelo organismo, sendo continuamente hygiene and occupational diseases, v. 23, n, 4, p.286-289, ago 2005.
acumulado3 (MENDES, 1995). A principal ação deste metal é sobre o
equilíbrio eletroquímico do organismo, com subseqüente deposição RADON K, NOWAK D, HEINRICH-RAMM R, SZADKOWSKI
no sistema nervoso, daí a suspeita de provocar doenças degenerativas, D. Respiratory health and fluoride exposure in different parts of the
modern primary aluminum industry. Int Arch Occup Environ Health,
n. 72, v. 5, p. 297-303, ago. 1999. Erratum in: Int Arch Occup Environ
2
Nas atuais condições de recrutamento das empresas, as empresas multinacionais exigem o
ensino médio completo, o que torna mais crítica a situação de trabalhadores que não Health, n. 72, v. 8, p. 560, nov. 1999.
alcançaram um grau de escolarização compatível.
3
Este é um debate presente na literatura acerca da ação dos metais não orgânicos no
organismo humano, tanto a respeito de sua metabolização quanto às possíveis formas de P. Romundstad, T. Haldorsen, and A. Andersen. Lung and bladder
eliminação do corpo. Neste estudo, nos filiamos à perspectiva apresentada por Mendes
(1995), ao afirmar que metais são acumulados organicamente, sendo improvável a sua cancer among workers in a Norwegian aluminum reduction plant. Occup
eliminação, por ausência de enzimas ou mecanismos biológicos, resultando em processos
de adoecimento de longa duração que, por seu caráter insidioso, são de difícil diagnóstico. Environ Med, n. 57, p. 495-499, 2000.

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SARIC M.; ZUSKIN, E.; GOMZI, M. Bronchoconstriction in potroom A PONTA DO ICEBERG: ESTUDO SOBRE ACIDENTES,
workers. Br J Ind Med, n. 36, p. 211-215, 1979. “INCIDENTES” E DOENÇAS DE TRABALHADORES NA
INDÚSTRIA DO ALUMÍNIO EM SÃO LUÍS – MA
SORGDRAGER, B, T. M. Pal A.J.A. de Looff, A. E. J. Dubois, J. G.
R. de Monchy. Occupational asthma in aluminium potroom workers
related to pre-employment eosinophil count. Eur Respir J., n. 8, p. Ednalva Maciel Neves1
1520-1524, 1995.
Introdução
SOYSETH V.; KONGERUD J. Prevalence of respiratory disorders
among aluminium potroom workers in relation to exposure to fluoride
– Br. J Ind Med, n. 49, p. 125-130, 1992. Este texto explora as relações entre trabalho e saúde no mundo
contemporâneo, associadas à vertente da saúde dos trabalhadores.
STEINEGGER, A. F., SCHLATTER, C. Evaluation of fluoride Os estudos científicos, neste domínio, reclamam que as relações de
exposure in aluminium smelters: state of the art. Med Lav, , n. 83, p. trabalho, as condições e formas de organização do processo de
489-498, 1992. produção são consideradas fatores determinantes das modalidades de
agravos à saúde dos trabalhadores. E, neste sentido, tanto a tecnologia
quanto a pressão da produtividade exercida podem ocasionar um
acidente ou um adoecimento, situações que nem sempre são registradas,
mas que integram a experiência social dos trabalhadores.
A caracterização destes aspectos relacionados ao trabalho
permite reconhecer o padrão de desgaste e adoecimento operário,
presentes nas atividades desenvolvidas e nas condições, nas maquinarias
e na concentração de componentes que podem ocasionar acidentes e
doenças ocupacionais (ROCHA et al., 1993).
Este estudo aborda as condições de trabalho e os agravos à
saúde na indústria do alumínio, a partir da experiência social dos

1
Professora do Departamento de Sociologia e Antropologia, Centro de Ciências Humanas
da Universidade Federal do Maranhão, doutora em Antropologia Social,
edmneves@terra.com.br.

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por método estatístico aleatório e os principais dados obtidos dizem como o Mal de Alzheimer. Este é um aspecto relevante quando se
respeito a: identificação do trabalhador, descrição do acontecimento, considera que o processo de produção de alumínio se caracteriza pela
caracterização da lesão orgânica sofrida, horário da ocorrência, tempo liberação de agentes químicos na forma de vapores que são facilmente
de afastamento e tratamento. absorvidos pelo organismo através do sistema respiratório.
A etapa mais significativa do estudo compreendeu a coleta de A investigação que desenvolvi, juntamente com uma equipe de
informações primárias, realizada junto aos trabalhadores. Foram duas pesquisadoras, pode ser caracterizada como um estudo
recolhidas as percepções que estes agentes sociais constroem acerca exploratório ou survey que tem como objetivo demonstrar a existência
dos aspectos que consideram “arriscados” no ambiente de trabalho, e magnitude de certo fenômeno. A intenção é fornecer conhecimentos
envolvendo as tarefas, o processo e a organização do trabalho. As acerca da incidência ou prevalência de um acontecimento, num intervalo
informações foram obtidas através de entrevistas semi-estruturadas, de tempo. Na investigação acerca dos agravos à saúde dos
cujo objetivo é garantir ao investigado narrar livremente sua experiência trabalhadores, identifica formas de adoecimento (aguda ou insidiosa)
laboral motivado pelas questões fornecidas pelo pesquisador7. resultantes do ambiente de trabalho e fornece elementos acerca de
O saber elaborado pelos trabalhadores sobre a produção de fatores e situações consideradas determinantes, que, devidamente
alumínio foi central para a compreensão dos processos e formas de ponderadas, são modificadas ou redimensionadas para garantir a
organização do trabalho. O levantamento sobre o sistema industrial de condição de saúde dos trabalhadores.
produção a partir da experiência dos trabalhadores no chão de fábrica Os princípios que regem toda a pesquisa estão associados à
foi inspirado num estudo semelhante realizado por Facchini et al. (1991), saúde do trabalhador na perspectiva de Mendes e Dias (1991),
em Pelotas (RS). Embora alguns trabalhadores declarassem que “não envolvendo, também, a perspectiva de Lacaz (2007), ao considerar
conheciam todo” o processo e, em particular, as substâncias químicas os dilemas vividos pelos estudos sobre saúde do trabalhador nos
comumente utilizadas na produção, a experiência acumulada permitiu contextos sociais contemporâneos4. O conhecimento produzido a partir
montar o processo e compreender rotinas e normas que regem o destes estudos provê futuros empreendimentos, aprofundando
cotidiano da vida fabril. investigações sobre condições e relações sociais que compõem a
A Norma Regulamentadora 09, da Portaria 3.214/1978, do situação de trabalho.
Ministério do Trabalho, foi o parâmetro utilizado para levantar os fatores

7
O roteiro de entrevista consta de cinco itens: identificação do entrevistado, condições
socioeconômicas, vida laboral, vida na fábrica de alumínio (ingresso, tarefas, processo e
4
rotinas, hierarquias e normas do trabalho etc), fatores de risco e agravos à saúde identifica- Para Lacaz (22307, p. 757), “Saúde do Trabalhador é campo de práticas e conhecimentos
dos no ambiente de trabalho (informações emitidas espontaneamente a partir da experiên- cujo enfoque teórico-metodológico, no Brasil, emerge da Saúde Coletiva, buscando conhe-
cia do entrevistado e questionados conforme a NR 09). Foram entrevistados 21 trabalha- cer (e intervir) (n)as relações trabalho e saúde-doença, tendo como referência central o
dores de todos os setores da produção, com duração variável, gravadas, transcritas e anali- surgimento de um novo ator social: a classe operária industrial, numa sociedade que vive
sadas por categorias temáticas, conforme recomenda estudos qualitativos. profundas mudanças políticas, econômicas, sociais”.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

O objetivo principal da pesquisa consistiu em fornecer subsídios estão submetidos. O objetivo da investigação foi revelar as modalidades
aos trabalhadores através do levantamento histórico e sistemático das de acidentes e doenças5 ocupacionais que acometem trabalhadores
formas de adoecimento (acidentes e doenças) resultantes dos processos da indústria de alumínio6, fornecendo um panorama baseado em
e das condições de trabalho na indústria do alumínio. São subsídios, informações oficiais e primárias. Em resumo, além da revisão
na modalidade de conhecimento científico, que fomentam a tomada de bibliográfica sobre o tema, o desenho da investigação privilegiou duas
decisão e garantia de direitos sociais pelos trabalhadores e seus fontes de informações: as comunicações de acidente e os relatos dos
representantes, pelos órgãos e agentes sociais que atuam na promoção trabalhadores. Etapas realizadas simultaneamente.
da justiça social (como os tribunais de justiça do trabalho). As Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) são
Este trabalho apresenta informações acerca dos acidentes de documentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que
trabalho e das percepções dos trabalhadores sobre fatores de risco e registram e caracterizam os agravos a partir da descrição médica do
adoecimento relacionado ao ambiente na indústria do alumínio. Para o dano físico ocorrido no ambiente e no trajeto para o trabalho. O
entendimento das dificuldades de realização de um estudo como este, levantamento anual dos acidentes foi o instrumento utilizado para
começo com uma exposição sucinta sobre os procedimentos realizados caracterizar o perfil dos eventos. A coleta de dados privilegiou o
na pesquisa e, em seguida, apresento os resultados obtidos. intervalo de tempo entre a construção da indústria, no ano de 1984,
As situações investigadas deixam entrever que existe uma até o ano de 1990, totalizando 14 anos, em razão de que dados mais
política industrial de culpabilização dos trabalhadores pela empresa contemporâneos não eram acessíveis no momento da investigação. O
perante os agravos à saúde que lhes atingem, a que chamamos de levantamento e sua análise histórica permitiram não só a identificação
ideologia da responsabilização. As narrativas dos trabalhadores são dos acidentes registrados pela empresa, mas a caracterização dos
apresentadas tal como expressadas, num diálogo entre literatura acontecimentos, viabilizando a comparação com informações recolhidas
existente e a Norma Regulamentadora 09, desvelando aspectos do junto a outras fontes, tais como a literatura científica e, em particular,
ambiente de trabalho que podem ser apropriados pela empresa para os relatos obtidos de trabalhadores.
reconhecer riscos e intervir na melhoria das condições de trabalho. Tais comunicações de acidentes foram localizadas nos arquivos
do INSS, em São Luís. Examinadas 239 comunicações, selecionadas
Sobre a pesquisa

A pesquisa partiu do levantamento de informações sobre os 5
Acidentes de trabalho são definidos através de legislação trabalhista específica. O leitor
pode encontrar a definição na legislação em vigor, a partir da qual acidentes e doenças do
agravos registrados em comunicações de acidentes de trabalho para, trabalho são caracterizados, o que inclui as definições de “acidente típico” e de “acidente
de trajeto” (Consolidação das Leis Trabalhistas e complementares como: Lei 8.213/1991
em seguida, se dedicar à coleta de informações junto aos trabalhadores e Decreto 2.172/1997).
6
Os trabalhadores metalúrgicos, empregados diretos do Consórcio de Alumínio do Maranhão
acerca das condições e organização do processo de trabalho às quais S. A. (Alumar), indústria situada em São Luís, capital do estado do Maranhão, compreenderam
os agentes sociais de interlocução.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

ocupação que não exige qualificação do trabalhador, e que todos que de adoecimento no ambiente de trabalho, a partir do seu anexo IV que
a ocupam exercem as mesmas tarefas. estabelece a classificação8 dos riscos ambientais segundo a natureza
Na caracterização das lesões, os membros superiores (88 do agente9. A utilização deste anexo foi estratégica para o estudo, já
acidentes) e a extremidade superior (55 casos que atingiram o pescoço que este é considerado um dos principais instrumentos de normalização
e cabeça) são as partes mais acometidas do corpo dos trabalhadores, do ambiente de trabalho e de fiscalização dos órgãos competentes,
perfazendo percentuais de 36,8% e 23%, respectivamente. Estas partes devendo ser apropriado pelas comissões de prevenção e segurança
são seguidas por lesões nos membros inferiores, com 46 lesões referidas no trabalho. Os grupos de risco indicados foram, também, referências
em 19,2% das comunicações, seguidos das lesões que atingem o tórax para configurar o roteiro de entrevistas, bem como para os resultados
e a região lombar da coluna vertebral (cada representa 6% do total de da pesquisa.
acidentes examinados). Quando se trata da busca por informações atualizadas, a equipe
Tais informações se conjugam com o registro da causa atribuída de pesquisa se deparou com dificuldades de várias ordens, e o
na comunicação, revelando que 38% das ocorrências tiveram como obstáculo mais marcante para a coleta de dados está nas instituições
conseqüência a manipulação de “máquina ou ferramenta” (91 casos). estatais que alegam a indisponibilidade de documentos. Afirmava-se
Outros agentes referidos como causas são: “poeiras” e “agentes que a burocracia dos sistemas de notificação e benefícios disponibiliza
químicos” (28 ocorrências, 11,7% para cada um dos itens); “esforço os dados apenas após cinco anos do registro da ocorrência. Já as
físico excessivo” e “queda de níveis”, fatores que são responsáveis por informações acessíveis (sites institucionais e do Ministério do Trabalho,
9,2% dos agravos cada uma delas. Demais causas registradas são: por exemplo), apresentavam dados consolidados do estado do
colisão com objetos presentes no ambiente de trabalho, colisão e Maranhão, não contabilizados por empresa. Restava, ainda, o fato de
atropelamento automobilísticos, queda de peso sobre o corpo do que ao Sindicado dos Metalúrgicos do Maranhão (Sindmetal), os
trabalhador, picada de inseto, sonolência. acidentes de trabalho ocorridos não são comunicados, o que leva ao
As informações revelam, também, que pouco mais de 10% desconhecimento da real situação pela representação dos trabalhadores.
das ocorrências levaram à concessão de afastamento do trabalho (24
acidentados), embora a taxação de não registro desta informação seja 8
Trata-se da Tabela 1 do Anexo IV – NR- 9 (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais)
da Portaria nº 3.214/1978, sobre a Classificação dos Principais Riscos Ocupacionais em
elevada, pois apresenta um percentual de 51% de comunicações Grupos, de Acordo com sua Natureza e a Padronização das Cores Correspondentes (Mapa
de Riscos). Segundo a legislação, o objetivo é construir um mapa sobre riscos ambientais que
examinadas. No entanto, apenas 15% dos acidentados (36) tiveram podem depreciar a saúde dos trabalhadores. As normas regulamentadoras indicam limites de
tolerância ambientais, equipamentos de proteção e segurança, assim como procedimentos
um tempo médio menor que 10 dias para se submeter a tratamento, para o acompanhamento da saúde dos trabalhadores.
enquanto que 18% dos trabalhadores (43) tiveram direito a um tempo 9
O processo de produção de alumínio se caracteriza por um trabalho contínuo, de natureza
química, visando a liberação do metal da forma encontrada na natureza, na composição
médio igual ou superior a 30 dias para realização de tratamento do chamada bauxita. Por isso, não iremos discorrer sobre riscos biológicos, já que não estão
presentes neste processo, tal como relatado por trabalhadores e verificado na literatura
sobre o processo de trabalho de produção de alumínio.

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A qualidade das informações é prejudicada pela natureza acidente de trabalho e de trajeto simultaneamente (0,4% do total das
incompleta, descrição ilegível ou ausência do dado. Esta dificuldade comunicações examinadas).
está relacionada ao preenchimento das Comunicações de Acidente e Apesar do número de comunicações sem registro (ou escrito
revela o nível de atenção dada ao registro da informação pelo de maneira ilegível) do turno de ocorrência do acidente (121), 93 delas
profissional de saúde. indicavam que o acidente ocorreu durante turnos diurnos (38,9%),
Na realização das entrevistas, a dificuldade surgiu por parte contra 23 (aproximadamente 10%) são declaradamente sofridos no
dos trabalhadores, que reclamavam de medo de “perder o emprego” turno da noite ou noturno, como registrado.
ou de receber alguma represália da empresa. Por tais motivações, foi No exame da faixa etária dos trabalhadores acidentados,
garantido o anonimato dos entrevistados como condição de participação observa-se que 121 (50,6%) dos eventos ocorreram em trabalhadores
e ética da pesquisa. com idade entre 19 e 29 anos, fenômeno que se agrava quando
acumulamos os acidentados com idade até 39 anos, cujo percentual
Perfil dos acidentes de trabalho: dos “incidentes” e da alcança a cifra de 86,4% das ocorrências, equivalente a 206
ideologia da responsabilização comunicações de 239 examinadas. Este perfil etário revela que os
trabalhadores acometidos encontravam-se no início da vida
Na construção do perfil dos acidentes de trabalho registrados, economicamente ativa, com possibilidades perdas sociais variadas
dois aspectos foram centrais para entender a experiência cotidiana dos comprometendo sua permanência no mercado de trabalho.
trabalhadores: um deles consistiu nos dados concretos armazenados Quando se verifica a ocupação dos trabalhadores, ressalta-se
nas CAT e o outro compreendeu a discussão levantada pelos que a maior incidência de acidentes recai sobre os envolvidos no
trabalhadores sobre a caracterização e a definição do que são acidentes processo de produção, o que compreende 205 ou 86% das
de trabalho pela empresa. Tal discussão surgiu quando os trabalhadores comunicações examinadas. Dentre estes, os operadores despontam
exploravam os riscos de acidentes presentes no ambiente de trabalho.
como os mais atingidos (82 ocorrências, aproximadamente 34,3%),
Um dos aspectos relevantes da comunicação de acidentes é
seguidos pela categoria dos mecânicos que totalizam 17,1% dos
caracterizar o tipo de agravo. Do total de comunicações examinadas,
acometimentos (41 acidentados). Apenas em 17 eventos (5,7%), os
em 205 as lesões descritas pelos profissionais são consideradas
atingidos não estão diretamente envolvidos na produção, são categorias
decorrentes de acidentes típicos de trabalho, o que equivale a
como: administrativos (08), auxiliares de segurança (03), trabalhadores
aproximadamente 86% dos registros, já em 21 delas o profissional
do almoxarifado (02), auxiliares de serviço (02) e técnico de meio
não qualifica a causa da lesão ou o faz de forma ilegível. Apenas 12
ambiente (02 casos). Este dado se torna muito relevante quando é
acontecimentos, cerca de 5%, foram descritos como conseqüências
acrescido da informação de que a função de “operador” é uma
de acidentes de trajeto, enquanto um caso estava registrado como

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Adota-se uma nomenclatura oportuna, distinguindo-se entre agravo, mediados por 30,6% que tiveram entre 10 e 29 dias de tempo
“incidente” e “acidente”. São considerados e chamados de “incidentes” médio para assistência ao agravo sofrido (73 acidentados)10.
as ocorrências avaliadas como “menos graves”, tais como: Em resumo, pode-se dizer que o trabalhador acidentado é jovem
“queimaduras, cisco no olho”. Já aqueles eventos que exigem apenas e de baixa qualificação profissional. Os acidentes de trabalho sofridos
o “afastamento do setor de trabalho”, são costumeiramente designados ocorreram durante o dia, com aparente baixa taxa de concessão de
como condição do “regime restrito”. afastamento, porém com elevados percentuais de tempo médio de
Os acontecimentos considerados “menores” não aparecem no tratamento. As lesões corporais são resultantes de agressões
âmbito das estatísticas, descaracterizando os fatores de risco presentes provocadas por: manipulação de “máquina ou ferramenta”, poeiras e
no ambiente de trabalho. Os baixos percentuais de afastamento do agentes químicos presentes no ambiente, esforço físico excessivo e
trabalho indicam que a classificação fundada no “incidente” tem sido queda de níveis.
eficaz na cultura da empresa em limitar o número de acidentes de Informações coletadas junto aos representantes dos
trabalho comunicados, e que recebem assistência à saúde no ambiente trabalhadores, no Sindmetal, revelaram que até 1999 haviam apenas
de trabalho. Apenas os acidentes que provocam lesões graves são quinze ações ajuizadas sobre acidentes de trabalho. As ações decorriam
notificados como acidentes de trabalho. Estes quase sempre exigem de danos e lesões sofridas no ambiente de trabalho, impetradas pelos
dias de afastamento ou provocaram lesões que exigem tratamento de trabalhadores para buscar o reconhecimento de seus direitos trabalhistas
saúde. pela empresa. As principais reclamações dizem respeito a problemas
de saúde caracterizados como: problemas de coluna (06 casos, 40%
Outro recurso que reforça esta política compreende a
do total), infortúnio laboral (04 casos, o que corresponde a 26% das
implantação do “recorde de dias sem acidentes12”, que passa a ser um
queixas), perda da visão (02 casos, equivalente a 13%), ferimentos
objetivo a ser atingido pelas equipes de trabalho na empresa. Os
nas mãos e mutilações de dedos (02 casos, 13%) e perda de olfato e
trabalhadores alegam que existe um custo para aquele que é acidentado,
amígdalas (01 registro, equivalente a 8%).
em razão de que toda a equipe é “marcada” por ter maculado a quebra
Quando o trabalhador é questionado sobre fatores que
do recorde.
consideram arriscados no ambiente de trabalho, os aspectos indicados
Isto provoca um “sentimento de culpa” nos trabalhadores
reforçam o perfil encontrado nas comunicações e fornecem outros
acidentados, estigmatizados pelos colegas de trabalho. Trata-se de que
elementos que contribuem para a compreensão do cotidiano no trabalho.
Para eles, “arriscadas” são aquelas “condições ou situações de perigo
12
O recorde é registrado em outdoor, estrategicamente posicionado na empresa, de modo
que trabalhadores e visitantes o percebam. No entanto, isto não impede que “[caso] o 10
Cabe ressaltar que 36,4% das comunicações de acidentes de trabalho não registravam
trabalhador seja, pelo menos capaz de ir à indústria, mesmo que não possa trabalhar o essa informação ou o registro estava ilegível, o que leva a ponderar sobre a responsabilidade
recorde não é quebrado, porque não está ‘caracterizado’ o afastamento. Deste modo, o do profissional de saúde que atende ao acidentado e preenche o formulário, e, em tais
record estatístico continua até que um trabalhador esteja gravemente ferido ou doente” situações, os maiores prejudicados são os trabalhadores, que não têm a sua disposição
(MOREIRA, 1992, p. 112). informações fidedignas acerca das circunstâncias e da intensidade dos agravos.

92 89
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que podem causar um acidente ou fazer adoecer e impedir de trabalhar” É nesta trilha que se chega ao dilema da definição do acidente
(depoimento). A referência ao “impedimento de trabalhar” é uma das de trabalho, e que compreende também a administração política da
preocupações destes indivíduos, em razão de o trabalho ser um valor empresa destes acontecimentos. Nas informações recolhidas junto aos
social cuja realização depende da saúde do corpo físico (BOLTANSKI, trabalhadores, eles relataram que, quando se trata de acidentes de
1989), em particular quando a qualificação é limitada. Daí porque os trabalho, o Decreto 2.172/199711 delibera sobre duas formas de
trabalhadores acumulam conhecimento sobre situações insalubres e caracterização do acidente: administrativa e técnica, como “instrumento
“arriscadas” de trabalho que podem comprometer o corpo e ameaçar de reconhecimento do direito do trabalhador”. Na caracterização
o cumprimento do ofício. administrativa, o setor de benefícios do Instituto Nacional de
Segundo Duarte (1996), os trabalhadores associam a idéia de Previdência Social estabelece o nexo existente entre o trabalho exercido
adoecimento apenas com casos de acidentes graves que limitam ou e o acidente, enquanto na caracterização técnica da perícia médica
impossibilitam sua capacidade para exercer o trabalho. Nessa lógica, busca-se identificar o nexo causal do acidente ou lesão ocorrida com a
o trabalhador não valoriza acidentes de menor gravidade e não atividade desenvolvida. A caracterização do acidente é relevante em
relacionam sintomas leves e insidiosos de doenças com o trabalho, por razão de que procedimentos de segurança são adotados como
conseguinte não contabilizam as pequenas ocorrências diárias de estratégia de prevenção de eventos futuros, com gravidade variável e
“choques” ou outros agravos que sofreram. Entre os trabalhadores que podem acarretar afastamentos do ambiente de trabalho.
entrevistados, esta estratégia desponta de maneira bastante espontânea Na experiência dos trabalhadores, a política adotada pela
quando afirmam que nunca “sofreu[ram] acidentes, apenas uns empresa busca minimizar a ocorrência de acidentes de trabalho, por
choquinhos”. Poucos trabalhadores chegaram a afirmar (03 dos isso adota estratégias que limitam o registro dos acontecimentos. A
entrevistados) que “[o] risco maior de adoecer é de queimadura e de empresa recomenda que, diante da ocorrência de um “quase acidente”,
morrer é por doença ocupacional” (depoimento). o trabalhador deve informar ao líder de seu grupo, responsável pelo
Os trabalhadores revelaram, ainda, que conhecem fatores do
preenchimento do relatório. No entanto, pequenas ocorrências não
ambiente de trabalho que podem resultar em acidentes, no entanto
são relatadas, por força do “medo de ficar marcado”. Nesta política
preferem banalizar os riscos que correm em razão do objetivo maior
inclui-se, também, o afastamento do ambiente de trabalho utilizando-
que é a garantia do emprego e, conseqüentemente, dos salários. Tal
se os dias de folga acumulados pelo trabalhador, no caso de acidentes
estratégia está associada ao duplo sentido que atribuem ao trabalho,
que exigem “poucos dias de afastamento”.
entendido, por um lado, como esfera de valorização da vida pessoal
(identidade cultural) e, por outro, pela manutenção da qualidade de
vida familiar, o que inclui os projetos familiares de reprodução
reforçados com os ganhos secundários fornecidos pela empresa (plano 11
Trata-se de Decreto da Presidência da República que regulamenta os Benefícios da
Previdência Social, revogado pelo Decreto nº 3.048, de 12 de maio de 1999, sobre o
de saúde, lazer etc.). Regulamento da Previdência Social.

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durante as entrevistas, em razão de que os trabalhadores não têm se “sentem responsabilizados” pelo ocorrido, o que leva o trabalhador
conhecimento sistematizado sobre as composições que utilizam na acidentado a aceitar as condições impostas pela empresa como uma
realização das tarefas. No entanto, a partir da reconstituição do forma de não ficar “mal visto” pelos companheiros de equipe. Cria-se,
processo de trabalho, eles puderam indicar os compostos que são desta forma, um mecanismo de controle entre os membros da equipe,
manipulados na produção. O relato abaixo é emblemático da descrição que consiste no controle sobre si-mesmo e sobre os colegas. Assim,
feita pelos trabalhadores dos processos de trabalho e dos agentes afirmações como: “nosso grupo nunca aconteceu um acidente”, “no
químicos encontrados no ambiente. dia tal, batemos o recorde de acidente” são expressões comumente
Essa função, hoje, é mais de monitoramento do processo valorizadas pelos trabalhadores.
em si, porque lá na fábrica de alumina, onde transforma o Esta política exerce um desvio na responsabilização do acidente,
minério, a bauxita em si, e sai a alumina que é um pozinho passando da análise dos aspectos relacionados à natureza e processos
branco, tipo açúcar. Desse produto é transformado em de trabalho para a pessoa do trabalhador. O desvio da responsabilização
alumínio metálico. O produto químico que é usado nesse repercute sobre direitos sociais, já que a ausência de registro oficial
processo é só a soda cáustica misturada com água, ela forma dos acontecimentos não possibilita seu reconhecimento posterior por
uma solução chamada licor e esse licor com uma instituições sociais de direito.
determinada concentração e a uma temperatura é Estes elementos são reveladores de uma política de segurança,
adicionado com a bauxita. Ele fica que nem uma pasta e fundada numa idéia de risco em que o trabalhador é considerado o
daí é que é feito o processo (depoimento). responsável pelos danos que o atingem no ambiente de trabalho. Tal
Na perspectiva dos trabalhadores, são empregadas várias sistema de responsabilização e controle pelos trabalhadores caracteriza
substâncias, tais como: soda cáustica, coque, piche, ácido sulfúrico, o que designo de ideologia da responsabilização, que é reforçada
hidrocarbonetos, fluoreto de alumínio, solventes, alumínio (alumina e pela baixa oferta de trabalhos, pelo contingente de trabalhadores
metálico), criolita, extrato de carvão, enxofre, magnésio entre outros disponíveis e pela sensação de ameaça de “perder o emprego”, como
que não aparecem nos discursos dos trabalhadores. Apesar deste já enfatizado.
inventário, os conhecimentos sobre essas substâncias são adquiridos Os trabalhadores reconhecem fatores associados ao ambiente
através de várias fontes, desde reconhecimento por experiência anterior de trabalho e, neste sentido, valorizam a política de segurança
de trabalho com certas substâncias até a identificação a partir das desenvolvida na empresa. No entanto, ponderam sobre as exigências
conversas entre líderes de equipes e supervisores. Alegam que muitos que lhe são feitas e a pouca intervenção da empresa nas condições e
agentes químicos são conhecidos pela leitura dos rótulos presentes nas nas relações de trabalho.
embalagens e que indicam a gradação de perigo da substância química.

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Fatores de risco e formas de adoecimento O calor advém do uso da energia elétrica em alta voltagem
para garantir a composição química e liberação do alumínio, resultando
A partir da descrição das tarefas que realizam na indústria de em altas temperaturas ambientais. O calor provoca a perda de líquidos
alumínio, os trabalhadores exploraram os aspectos do ambiente de e altera a homeostase orgânica, e o risco de desidratação e
trabalho abalizados como fatores que podem provocar algum desfalecimento é elevado, por isso foi dito que “às vezes, o cara desmaia.
adoecimento. Nas narrativas operárias, as situações de risco por eles Já houve caso de pessoa desmaiar” (depoimento).
identificadas foram relatadas tendo como referência casos de acidentes, Os trabalhadores informaram ainda que o ruído é também outro
sofrimentos vividos por colegas e mortes que testemunharam ou que aspecto físico presente no ambiente de trabalho. As informações revelam
são contadas por colegas de trabalho, o que inclui a experiência própria que “o ruído é um negócio que incomoda muito a gente. Barulho, se
com problemas de saúde. Estes “casos” fazem parte da memória coletiva bem, a gente usa o protetor, abafador, mas o ruído incomoda. Nem
dos trabalhadores e compõem o conhecimento acumulado no cotidiano sei, há dias que a gente se irrita. Não sei se é do barulho, se é mesmo
laboral. do processo” (depoimento). Mantido o controle pelo uso de protetores
A sistematização das informações coletadas teve como auriculares, parece que o ruído é deslocado frente ao “calor”.
referência o Anexo IV da Norma Regulamentadora 09 (Portaria 3.214/ A este conjunto de fatores, os trabalhadores reclamam de
1978), como já dito. Assim, foi possível recolher informações sobre desidratação, sudorese intensa, câimbras, desfalecimentos, distúrbios
fatores de risco e sinais de adoecimento referidos pelos trabalhadores. na pele, entre outros aspectos relacionados ao comportamento, como
Dentre os agentes reunidos no primeiro grupo, definido como irritabilidade.
riscos físicos (ruídos, vibrações, pressões anormais, temperaturas, O segundo grupo do Anexo IV reúne os fatores químicos,
umidade e ventilação etc.), encontram-se os fatores que presentes no entendidos como “substâncias, compostos ou produtos que podem
ambiente de trabalho podem provocar danos à saúde quando penetrar no organismo pelas vias respiratórias em forma de névoas,
extrapolam limites de tolerância. São fatores que podem ser medidos fumos, gases, ou vapores; ou que pela natureza da atividade e exposição
através de instrumentos objetivos, como fotômetros, fonômetros e possam ter contato ou ser absorvidas pelo organismo através da pele
outros. ou por ingestão” (MIRANDA, 1998, p. 30). Os agentes químicos são
Questionados sobre como era o ambiente de trabalho, os
considerados, na literatura da saúde do trabalhador, como causadores
entrevistados foram unânimes em dizer que “[escuro] não é. Calorento,
de doenças ocupacionais, em razão da exposição prolongada e da
sim”, outros foram ainda mais enfáticos ao relatar que “[até] porque o
natureza insidiosa da agressão ao organismo.
ambiente de trabalho é muito desconfortável, desconfortável mesmo,
Segundo os entrevistados, as substâncias aparecem na forma
é quente; você sua, você perde calor, você se irrita fazendo o serviço,
de vapores e líquidos. A identificação das substâncias e compostos
porque no momento que você tá suado, você já perde a concentração,
químicos presentes no ambiente de trabalho foi um exercício difícil
e lá você só trabalha suado. É quente, super-quente” (depoimentos).

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consiste na substituição do cálcio ósseo, por isso provoca lesões neste A presença de substâncias nocivas nos ambientes de trabalho
sistema e tecidos associados, causando osteofluorose que compreende deve ser considerada um dos fatores de agravos à saúde. A inalação
a esclerose das articulações, tendões, dos ossos da região pélvica e da de vapores ou fumos é a modalidade mais freqüente de adoecimento
coluna vertebral. Os principais sintomas da doença são: dor de cabeça, (intoxicação aguda ou doença ocupacional). Este fato é potencializado
dores reumáticas, insônia, estado de debilidade física, náuseas, diarréia, quando associado ao esforço físico (levantamento de peso, por exem-
resfriado, vômito, além de variação da pressão arterial (MÜLLER- plo), em razão da maior ventilação exigida dos pulmões. Embora a via
PLANTENBERG, s/d, p. 26). respiratória seja aquela de maior absorção de substâncias tóxicas,
Questionados sobre doenças do trabalho, sete deles incluíram devemos considerar também a pele e a via digestiva como possibilida-
em suas narrativas questões relacionadas ao fluoreto, um deles alegou des de contaminação.
“[já] ouvi falar bastante, inclusive teve gente que foi transferido de área Acerca destas substâncias, os trabalhadores reclamam tam-
porque estava com fluorose, doença, doença provocada pelo flúor” bém de queimaduras e dermatites de contato, assim como de partícu-
ou ainda “[rapaz], tem um vapor. Vapor, não. É um que eles chamam las que penetram nos olhos e de “asma ocupacional” – o chamado
fluoreto que existe mais é em salas de cubas. Quando houve um caso cansaço.
desse no lingotamento, de excesso de fluoreto, todo mundo parece Os trabalhadores reconhecem que a empresa produz, também,
que tem essa substância no corpo” (depoimentos). Corroborando com os insumos necessários à produção do alumínio (anodo é um produto
estas preocupações, um entrevistado relembrou que, até 1993, não químico indicado por eles, por exemplo). No entanto, os componen-
usavam o EPI na área de lingotamento, alegando-se que “jamais havia tes utilizados não são identificados pelos trabalhadores que alegam
sido provado que a doença nesse setor de qualquer fábrica de alumínio”. desconhecer a totalidade das substâncias e seus componentes utiliza-
Consta na literatura que uma intoxicação aguda por fluoreto raramente dos na produção do alumínio. Essas substâncias dificilmente serão re-
acontece no ambiente de trabalho, uma vez que sua liberação em veladas pela empresa, em razão de que se trata da produção industrial
grandes quantidades produz um odor característico, sendo facilmente
e, portanto, da competência e competição internacional de fabricação
identificável.
de metais flexíveis utilizados na confecção de bens materiais de consu-
Los efectos de la exposición profesional a los fluoruros tardan
muchos años en manifestarse. Según los casos publicados, mo: automotivos, embalagens, engenharia de construção etc.
incluso después de una exposición a concentraciones Muitas substâncias químicas referidas pelos trabalhadores pos-
extremas de fluoruro en el aire (que van de 20 mg/m³ a 9g/m³),
suem limites de tolerância definidos pela legislação internacional e na-
las primeras lesiones óseas detectables se produjeron
aproximadamente el cabo de 10 años (OMS, 1997, p. 99). cional, baseados em estudos prévios sobre a fisiopatologia das agres-
Nesse sentido, o risco de uma intoxicação crônica é bem mais sões sobre o organismo. Porém, cabe ressaltar que algumas citadas
aceitável, porque a contaminação ambiental pelo fluoreto de alumínio pelos trabalhadores exigiriam estudos específicos, como é o caso do
é aparentemente imperceptível. Dentre os trabalhadores com mais de manganês, causador de uma patologia denominada Parkinson

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mangânico e que pode ser potencializado pela exposição concomitante pulmonar restritiva tal como descrita na literatura sobre a aluminose,
com outras substâncias. não reconhecida como doença ocupacional. Demitido pela empresa e
Diante da profusão de substâncias citadas pelos trabalhadores, a doença tem sido considerada como asma brônquica, de herança
a estratégia, então, foi investigar os danos à saúde provocados por familiar, que se acompanha de sinusite e resfriados.
duas substâncias químicas presentes na cadeia produtiva: o alumínio e Ao alumínio também é atribuída a capacidade de provocar
o flúor, na forma de fluoreto de alumínio. danos neurocomportamentais. Isto se deve à natureza neurotóxica desse
Entre as doenças geradas pelo alumínio, estão as denominadas metal, e produz as encefalopatias tóxicas de origem exógenas. Segundo
pneumoconioses. Segundo Mendes (1980, p. 217), pneumoconioses Mendes (1995, p. 270), as manifestações neurotóxicas dependem de
metálicas resultam reação pulmonar à deposição de alumínio inalado, dois aspectos principais: o tempo de exposição e o agente neurotóxico.
podendo variar o quadro clínico até a chamada asma ocupacional. No Os danos provocados pelo alumínio são classificados nas denominadas
levantamento bibliográfico sobre doenças provocadas pelo alumínio, encefalopatias tóxicas e podem ser agudas ou crônicas. Pelo menos
surgiram a referência a dois quadros consideradas de maior gravidade: dois trabalhadores alegaram que:
aluminose e a doença de Shaver. A primeira é determinada pelo alumínio Eu já senti coisas até piores. Eu cheguei com problema de
metálico e a segunda pelo óxido de alumínio ou corundum, segundo estressar, processo alérgico, ficar muito irritado, não ter
Mendes (1980, p. 217). Essas duas já foram descritas na Alemanha tolerância com nada. Eu já superei isso. Essa parte,
(1940), no Canadá (1947) e também no Brasil (1963). também, já melhorei mais um pouco, esse lado. Mas, esse
A aluminose é uma doença crônica ocupacional provocada pela problema de esquecer, de não lembrar, de saber mais é da
inalação e fixação da poeira do alumínio no pulmão, que produz um tabela, que hora que vai trabalhar em tais fornos. Quer
quadro progressivo e grave de fibrose pulmonar difusa. Reconhecida dizer, a gente fica como se fosse num outro planeta, vivendo
em estudos comparativos envolvendo grupo de trabalhadores mais o trabalho do que a vida, do jeito que deveria ser
feito. Isso é a gente sair da realidade e ficar mais no
(população exposta) e grupo de população não exposta, no entanto,
cumprimento de um dever (depoimento).
por não ter sido ainda intensamente estudada, acredita-se que o tempo
A encefalopatia tóxica crônica caracteriza-se por efeitos sutis,
de exposição para o desenvolvimento varia de 2 a 20 anos, com
decorrentes do processo gradual de deterioração do sistema nervoso,
tendência a ser inferior a 10 anos na produção de corundum.
alterando a capacidade de raciocínio, memória, coordenação e demais
O Imparcial, jornal de circulação diária do estado do
funções complexas do sistema nervoso.
Maranhão, estampou em suas páginas no dia 24 de janeiro de 1999,
A fluorose, um dos primeiros sinais de intoxicação por flúor e
uma matéria sobre um trabalhador da indústria de alumínio, de 51 anos
seus compostos, caracteriza-se por manchas esbranquiçadas nos dentes
dos quais doze trabalhados na Alumar, que desenvolveu quadro
que passam despercebidas, em razão de que a instalação da fluorose
respiratório semelhante. Os sintomas descritos caracterizam doença
depende do tempo de exposição. Seu mecanismo fisiopatológico

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A luminosidade é um dos agentes comumente referidos pelos 10 anos de trabalho na operação, alguns alegaram que colegas
trabalhadores. Causado pelo reflexo no metal da luz ambiente, provoca queixam-se de muitas dores de coluna e de cabeça, “fadiga no corpo”.
ofuscamento resultando na contração prolongada da retina. É Um deles chegou a narrar que: “[eu] sinto muitas dores, dores todo
responsável por lesões nas estruturas oculares e pelo surgimento de tempo. Eu estou ainda em tratamento com um reumatologista, que eu
doenças como a catarata, além de gerar irritabilidade e cefaléias. Os estou sentindo disso aqui, oh, [dor] nos braços e no joelho dos dois
trabalhadores comentam que “[durante] a noite, ele é de muita luz. Ela lados” (depoimento). A grande dificuldade dos trabalhadores é
reflete muito forte e é muito quente. Muito quente com muita luz. A luz conseguir comprovar que a doença ocupacional existe.
de cima” (depoimento). Cabe lembrar que dos 15 processos ajuizados, O grupo quatro relaciona os agentes designados como
segundo o Sindmetal, dois deles estavam associados à perda de visão. ergonômicos, e que compreendem os equipamentos e esforços
Dentre os mais referidos agravos encontra-se a “queimadura”, realizados no desenvolvimento das tarefas. Neste, são considerados
para eles “[é] quando você encosta em qualquer equipamento daquele, fatores vinculados à organização (turnos, monotonia, repetitividade,
você é queimado” (depoimento), em razão do “fogo de energia” e que pressões, intensidade, conteúdo e controle sobre o trabalhador), aos
submete o trabalhador, também, aos “pequenos choques”. Em termos equipamentos e às atividades físicas de levantamento, transporte e
de acidentes, como já observado nas comunicações, os membros descarga de materiais associados ao trabalho. Aqui, a centralidade é
superiores e também inferiores são algumas das partes do corpo mais sobre a postura física, mudanças de níveis, deslocamento de pesos e
atingidas. Outros agravos são revelados com o seguinte teor: “[quebrar] esforço físico excessivo.
dedo é quando os mecânicos. Aí, o camarada vai tirar qualquer peça O adoecimento provocado por estes fatores envolve
daquela, ele usa material inadequado aí acontece. Já aconteceu vários principalmente as lesões do sistema osteomuscular, conforme aparece
colegas quebrar os dedos nesse tipo de trabalho” (depoimento). nas comunicações de acidentes de trabalho. Neste sentido, um
Uma declaração que surpreendeu a equipe foi a de que se entrevistado esclareceu que os maiores acometimentos “são doenças
de coluna. É o que mais acontece, que a gente sobe e desce, pega
trabalha “numa área pressurizada, tipo uma bomba”, e tal referência
peso. O serviço braçal, o esforço físico é muito grande” (depoimento).
foi expressa por vários entrevistados, Essa declaração sobre os riscos
Associando-se a altura das pontes rolantes e a obrigação do
como “pressão”, ou como uma “bomba” busca expressar a intensidade
cumprimento das tarefas, os riscos são potencializados.
das tensões vividas no ambiente de trabalho. A metáfora usada se
A caracterização das tarefas, ritmos e pausas revela pouca
constitui num desabafo sobre condições e relações de trabalho,
margem de administração do trabalho, anulando a iniciativa e a
confessado que “[e] outra coisa, o maior índice de, pra morrer mesmo
capacidade criativa do trabalhador. Apesar da referência ao
é no caso de prensar, ser prensado de máquina, por exemplo”
planejamento introduzido pela organização em sistema de qualidade
(depoimento).
total, as tarefas e objetivos estão previamente definidos, cada vez mais
limitadas à monitoração de sistemas e manutenção de equipamentos.

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O ritmo do trabalho é muito forte, muito agitado, muito E, hoje, com o TPM (Manutenção de Produtividade Total), a gente tá
acelerado. A pressão sobre o trabalho lá é muito grande, muito sendo, além de todo esse trabalho que é um pouco técnico, tem outro lado que
grande. A pessoa é pressionada tanto, é fisicamente, o é com a introdução da TPM, a gente se torna também um zelador, porque a
desgaste é muito grande, como psicologicamente gente faz a parte de mecânica. Aquele detalhe mínimo de mecânica, de elétrica e
(Depoimento). faz a parte da limpeza total, chega a ponto de me dar pano pra limpar uma
estrutura de ferro, uma coisa assim (depoimento).

Conjuga-se, desta forma, fadiga física e insatisfação no trabalho,
que associadas com outros aspectos resultam no que alguns autores As novas propostas de organização do trabalho impõem, assim,
denominam de fadiga industrial. A denominada fadiga industrial, o acréscimo de atividades que descaracterizam a especialização do
segundo Oddone et al. (1986, p. 24) “incide profundamente sobre a ofício tão cara ao trabalhador, em razão da experiência e conhecimento
saúde psicofísica do trabalhador”, de maneira que esse é um dos grupos acumulados, e que conferem autoridade ao portador. Os novos métodos
que mais concentra comentários dos trabalhadores sobre situações de gestão introduzem novas atribuições aos trabalhadores, aliando
controle de tempo e tarefas (CORIAT, 1994).
causadoras de estresse físico e/ou psíquico.
As hierarquias e pressões, também, são incorporadas e os
Cabe ressaltar que estão aí incluídas operações desenvolvidas
trabalhadores explicitam essa situação explorando as figuras do “líder
sempre da mesma forma e repetidas durante toda a jornada de trabalho,
de equipe” e do “supervisor”, dito da seguinte forma: “[o] que ele faz?
caracterizando a monotonia, provocando distúrbios de ordem
Ele é só pressionar, cobrar nós. A cobrança do nosso trabalho.
psicológica – doenças inespecíficas de adaptação (ODDONE et
Mesmo quando num tá, a produção não saiu correta, alguém deixou
al., 1986, p. 39). Tais distúrbios acabam por gerar disfunções orgânicas,
de fazer alguma coisa, neguinho cobra” (depoimento).
principalmente doenças que se apresentam com “sintomas não
O quinto grupo reúne os agentes que provocam acidentes
específicos”, tais como: alterações da atenção, distúrbios do humor,
vinculados à organização do ambiente, tais como: arranjo físico
irritabilidade, alterações no ritmo do sono, e outros, por exemplo: dor
inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção, ferramentas
de cabeça (cefaléia), taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos),
inadequadas ou defeituosas, iluminação inadequada, eletricidade,
gastrite (azia) e distúrbios intestinais – colites.
probabilidade de incêndio ou explosão, armazenamento inadequado,
Outros elementos relacionados à organização do trabalho
animais peçonhentos, entre outras situações de risco que poderão
chamam a atenção quando se trata do sistema de controle sobre a
contribuir para a ocorrência de acidentes.
realização da tarefa pela empresa. Compreende, assim, o modelo de
gestão do trabalho13 adotado e das relações sociais hierarquizadas
que aí se desenvolvem para garantir a produtividade. É neste contexto 13
Em 1993, a Alumar iniciou a implantação do sistema de gestão fundado sobre o princípio
da manutenção de produtividade total (TPM) e dos círculos de controle de qualidade
que o trabalho revela que: (CCQ). Segundo Castro (1977) as tensões do mercado mundial, o que inclui a competitividade,
têm influenciado a adoção de programas e inovações tecnológicas com padrão organizador
da rotina nas fábricas (p. 169).

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Referências Bibliográficas Como a crônica de uma morte anunciada, este comentário foi
feito antes do acidente de trabalho que vitimou um trabalhador, levando-
BARCELO, José R. Dicionário Terminológico de Química. Madrid: o à morte. O acontecimento refletiu entre trabalhadores e
Alhambra, 1976. pesquisadores, emocionalmente sensibilizados. Além disso, a ausência
de informações sobre o acontecimento em órgãos públicos responsáveis
BERLINGUER, Giovanni. A saúde nas fábricas. São Paulo: Cebes- pela fiscalização de empresas desvelou o grau de dificuldades pelas
Hucitec, 1983.
quais passam os trabalhadores para alcançar o reconhecimento de seus
direitos sociais.
BOLTANSKI, Luc. As classes sociais e o corpo. Rio de Janeiro:
Em resumo, os principais sintomas que os trabalhadores
Edições Graal, 1989.
reconhecem como principais fenômenos que os afetam são os casos
CAMPANHOLE, Hilton L.; CAMPANHOLE, Adriano B. de “doença de coluna”, “questões de vista”, “cansaço”, “irritabilidade”,
Consolidação das Leis do Trabalho e legislação complementar. “mudanças de humor”. Alguns revelaram conhecer sobre “problemas”
São Paulo: Atlas, 1998. causados pelo chamado “fluoreto” e pelo “alumínio” e associaram ao
fato de que tinham colegas que haviam “acusado” nos exames
CAMPOS, José Raimundo Lindoso et al. Prevalência da contaminação periódicos, que tiveram de “mudar de setor”.
por metais tóxicos em uma amostragem populacional de São Luís – Aqui, a compreensão da doença insere-se na mesma lógica
MA. Revista Journal of Biomolecular Medicine & Free Radicals, político-administrativa da ideologia da responsabilização, já que os
São Paulo, v. 4, n. 02, 1998. trabalhadores consideram que doenças ocupacionais “[são] doenças
que você adquire dentro do trabalho por descuido ou erro”
CORIAT, Benjamin. Pensar pelo avesso: o modelo japonês de (depoimento). Segundo esta versão, as doenças são desenvolvidas
trabalho e organização. Rio de Janeiro: Revan, 1994. pelos trabalhadores, por causas que são inerentes ao organismo de
cada um, desviando da exposição ocorrida no ambiente de trabalho.
CARMO, Eunápio Dutra do. Apagando a mente, ativando as mãos.
Assim, a empresa deixa de reconhecer os adoecimentos que atingem
Ainda? Uma análise do processo de gestão do trabalho na indústria
aqueles que ali trabalham e o pagamento de direitos sociais à
do alumínio. Belém: UFPA, 1995.
coletividade.
CASTRO, Edna Maria Ramos de. Flexibilização e gestão do trabalho
em indústrias de alumínio na Amazônia In: COELHO, Maria Célia
Munes; COTA, Raymundo Garcia (orgs.). 10 anos da estrada de
ferro Carajás. Belém: NAEA/UFPA, 1997. p.165 a 182 ...-...

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Conclusões trabalhadores vivem novos dilemas (exigências de qualificação) e
mantêm antigos problemas (contingente de reserva industrial de
Já se foi uma década desde a realização deste estudo. As trabalhadores, menosprezo pela representação sindical).
inquietações permanecem, assim como as expectativas de realização Ideologia fornecida pela concepção de risco e de fatores de
de investigações que possam aprofundar as questões relativas aos risco, compreendendo que se o trabalhador conhece as tarefas que
agravos à saúde dos trabalhadores na indústria do alumínio. Carecemos, realiza, a ele cabe a responsabilidade de evitar os danos. A idéia de
ainda, de um mergulho demorado, sistemático e intenso sobre as risco atua aí como um mediador da gestão industrial e indicador de
situações de saúde dos trabalhadores, que permita dimensionar e “descuido” e “irresponsabilidade” do trabalhador. Assim, os pequenos
acompanhar a parte imersa do iceberg. Desde então, as mudanças nas acidentes, ou “incidentes”, são menosprezados e isso vai de encontro
relações de trabalho, com a terceirização, por exemplo, e a implantação à política empresarial e do Estado quando mantêm um sistema de
de sistemas automatizados e grupos organizacionais são alguns dos indenização pelo dano ocorrido. Vive-se, desta forma, no prenúncio
aspectos que podem motivar o desenvolvimento de novos estudos. do perigo das perdas (do emprego, da auto-estima, do vigor físico
Antecipo que as inquietações resultam, também, das dificuldades etc.), cristalizado na metáfora da bomba utilizada pelos trabalhadores
de intervenção sobre os processos de trabalho, a assistência e as para sintetizar a sua experiência social.
políticas de saúde voltadas para os trabalhadores a partir do
conhecimento produzido. Nos documentos analisados, os
pesquisadores se depararam com informações incompletas ou
preenchidas de maneira ilegível, aspectos que revelam atitudes de
descaso com a assistência à saúde de trabalhadores. As conseqüências
deste descaso despontam no chamado subregistro de acidentes e
doenças do trabalho, assim como no domínio do direito social, em
particular quando se trata de reconhecer direitos trabalhistas.
Cabe lembrar que o estudo sobre a saúde de trabalhadores
envolve agentes sociais que integram perspectivas de si mesmo
(identidade profissional) e estratégias familiares. Articulação que fomenta
a estimativa cotidiana dos riscos a correr no ambiente de trabalho.
Portanto, os riscos que se corre são considerados menores, já que
apenas o trabalhador é atingido, e não a sua família. Da urgência pelo
trabalho ao pacto com a ideologia da responsabilização, os

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110 111
Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

permanecem em solução. O precipitado de Al(OH)3 é calcinado CADEIA PRODUTIVA DO ALUMÍNIO: PROCESSO INDUS-
(aquecido fortemente), convertendo-se em Al2O3 purificado. TRIAL E FONTES DE POLUIÇÃO

1.1 Principais fontes de poluição Elio Lopes dos Santos1

Resumo
As principais emissões, provenientes da produção da alumina,
são formadas por poluentes atmosféricos como materiais particulados A cadeia produtiva do alumínio apresenta um elevado potenci-
e vapores cáusticos. Os efluentes líquidos, assim como os resíduos al poluidor com emissões constituídas primordialmente por material
sólidos, também se destacam e merecem uma atenção especial em particulado, gases ácidos e vapores alcalinos. Neste contexto a polui-
relação a sua contenção e tratamento. As figuras abaixo destacam as ção do ar é a que mais afeta o meio ambiente e a saúde do trabalhador.
principais fontes de poluição desprovidas de sistema de controle de Entre as principais fontes emissoras de poluentes destacam-se as cu-
poluentes, assim como aquelas providas de sistemas de controle, porém bas eletrolíticas. O sistema de controle de poluição dessas unidades
com sérios problemas de operação e manutenção. utiliza numa primeira fase a própria alumina para adsorção do gás flu-
oreto, retendo numa segunda fase a alumina, (adsorvida com fluoreto
e compostos orgânicos) em filtros de tecido. Os poluentes recupera-
dos são utilizados como matéria-prima no processo produtivo. Porém
existem falhas de operação e manutenção nestes sistemas de controle
de poluentes, assim como também existem nas várias fases de produ-
ção da alumina e do alumínio, onde diversas fontes de poluição des-
providas de equipamentos e sistemas de controle de poluentes colo-
cam em risco o meio ambiente e a saúde do trabalhador.

Palavras-chave: alumina, alumínio, fluoreto, fontes de poluição,
poluentes, poluição, meio ambiente, saúde do trabalhador.

Figura 3 – A emissão de poeiras fugitivas provenientes da 1
Mestre em Engenharia Urbana, Pós-Graduado em Engenharia de Controle de Poluição,
Químico, Engenheiro Industrial e de Segurança do Trabalho. Foi Gerente da Cetesb em
armazenagem e operações de manuseio da bauxita faz parte da poluição Cubatão, Assistente Técnico do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do Minis-
tério Público do Estado de São Paulo e Consultor Ambiental do Ministério da Saúde.
difusa, característica da inexistência do controle ambiental. Atualmente exerce as seguintes atividades: Assistente Técnico ad hoc do Ministério Públi-
co Estadual - SP e Ministério Público Federal, Professor da Faculdade de Engenharia
Química e Coordenador do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho da Unisanta e
Consultor da ECEL Ambiental.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

1 Processo de produção da alumina ÁREA BRANCA

As principais fases de produção da alumina (matéria-prima para
produção do alumínio) são: armazenagem, transporte, moagem,
digestão, filtração, evaporação, precipitação e calcinação.

ÁREA VERMELHA

Bauxita

Armazenagem Estocagem de
de cal licor pobre de
soda cáustica

Decantação Evaparação

Filtração do Figura 2 – Diagrama de processo (área branca) de produção
transbordo da alumina

No processo Bayer, a primeira etapa é a purificação do minério
(bauxita), onde são removidas as impurezas (principalmente compostos
Transferência de Iama
de ferro, silício e gálio) que poderiam afetar as propriedades do
produto. Adiciona-se NaOH ao minério, e como o alumínio é anfótero,
Figura 1 – Diagrama de processo (Área vermelha) de dissolve-se, formando aluminato de sódio. O SiO2 também se dissolve
produção de alumina na forma de íons silicato. Todos os rejeitos insolúveis, particularmente
óxido de ferro, são removidos da solução fortemente alcalina de
aluminato. Isso pode ser feito com borbulhamento de CO2 (óxido que
diminui o pH) ou então semeando a solução com Al2O3. Os íons silicato

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

2 Processo de produção do alumínio

A transformação da alumina em alumínio metálico recebe o nome
de redução, e se realiza em cubas eletrolíticas, em altas temperaturas
(960ºC), em banho de criolita fundida. O processo foi patenteado em
1886 por Hall-Héroult, onde ocorrem as reações de eletrólise:

2Al2O3 + 3C 4 Al + 3 CO2
Al2O3 + 3C 3CO + 2 Al

Figura 4 – Os sistemas de transporte e pontos de transferência
da bauxita (correia transportadora e elevadores de caneca) geralmente
são dotados de sistema de ventilação local exaustora e filtros de tecido.
Enclausuramento inadequado das correias transportadoras aéreas
permitem o arraste, pela ação dos ventos, de particulados finos para a
atmosfera.

Figura 10 – Cuba eletrolítica

Nesse processo a alumina Al2O3 é fundida, misturada com
criolita, Na3[AlF6], e eletrolisada num tanque de aço revestido de grafita,
que atua como cátodo. Os ânodos também são feitos de grafita. A
célula funciona continuamente, e a certos intervalos o alumínio fundido
(ponto de fusão 660°C) é removido do fundo da célula, adicionando-
se também novas quantidades de alumina.
Figura 5 – A moagem da bauxita é realizada adicionando-se
Al(OH)3 + 3NaOH + 6HF Na3[AlF6] + 6H2O uma mistura de solução de soda cáustica e cal.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Figura 8 - A evaporação do licor cáustico, associada à
inexistência de sistema de controle de poluentes, acarreta emissões
Figura 6 – A adição de soda cáustica e cal geram emissão de atmosféricas em diversos pontos de armazenamento.
vapores cáusticos através dos vent´s dos moinhos e conseqüentemente
um ambiente insalubre.

Figura 9 – O sistema de filtração de lama da bauxita, além de
apresentar emissão significativa de vapores cáusticos, gera resíduos
sólidos alcalinos. As operações de carregamento de caminhões e
transferência dos resíduos geram efluentes líquidos contaminados. A
fase mais crítica da contaminação ambiental ocorre no percurso entre
Figura 7 – A unidade de filtração da lama de bauxita, via de
a unidade de filtração e o local de disposição dos resíduos. A ausência
regra desprovida de sistema de controle de poluentes, apresenta
de sistema de contenção de efluentes, aliada aos procedimentos
emissões significativas de vapores cáusticos na atmosfera, pondo em
operacionais de lavagem do piso da unidade tem potencial para poluir
risco o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores.
o solo, águas superficiais e subterrâneas.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

A criolita melhora a condutividade elétrica da célula, pois o
Al2O3 não é um bom condutor de eletricidade. Além disso, a criolita é
uma impureza adicionada que reduz o ponto de fusão da mistura a
cerca de 960°C. No ânodo formam-se vários produtos, incluindo O2,
CO2 e F2, compostos de carbono e flúor. Eles provocam desgaste do
ânodo, que deve ser substituído periodicamente. Os traços de flúor
formados provocam séria corrosão. Nas primeiras semanas depois de
se colocar em operação uma célula recém revestida, o eletrólito é
rapidamente absorvido no revestimento e no isolamento, com a
Figura 11 – Emissão de material particulado: tem início no poço absorção preferencial marcada da parcela em alto teor de sódio, o
de recebimento de insumos básicos (pixe e coque). Esses sistemas que tende a tornar a razão NaF/AlF3 inferior ao nível desejado.
normalmente são providos de sistema de ventilação local exaustora e Compensa-se esta perda pela adição de material alcalino, por exemplo,
equipamentos de controle de poluentes (filtros de tecido). O arraste barrilha:
de material particulado para a atmosfera ocorre pela ação dos ventos,
devido à ausência de uma porta (enclausuramento) na entrada do poço 3Na2CO3 + 4AlF3 2(3NaF.AlF3) + Al2O3 + 3CO2
de descarga
Depois das primeiras semanas de operação das cubas, ocorre
uma perda de AlF3 mediante a volatilização dos compostos ricos em
AlF3 e também em virtude da reação com a soda cáustica residual na
alumina, na hidrólise do ar ou nos materiais adicionados:

3Na2O + 4AlF3 2(3NaF.AlF3) + Al2O3

3H2O + 2 AlF3 Al2O3 + 6HF

Para manter a composição desejada, as perdas são
compensadas mediante adição periódica de AlF3 ao eletrólito. A
Figura 12 – Forno de cozimento de coque com detalhe da pequena quantidade de cal normalmente presente na alumina é suficiente
emissão de poluentes orgânicos e inorgânicos gerados pelo refluxo para manter a concentração desejada de fluorita durante a reação.
das câmaras

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

Os fluoretos volatilizados e os fluoretos de hidrogênio são seqüência um processo de cozimento a altas temperaturas, para adquirir
coletados, juntamente com outros gases liberados nas células, por as propriedades apropriadas ao processo eletrolítico.
sistema de ventilação local exaustora e encaminhados para uma central
de tratamento e recuperação de gases. 2.1.3 Piche (C)

2.1 Principais insumos básicos O piche eletrolítico, obtido a partir da destilação do alcatrão
de carvão mineral, é utilizado na fabricação de ânodos como
2.1.1 Fluoreto de alumínio (AlF3) aglomerante das partículas de coque. O produto tem que atender a
especificações rígidas para a indústria do alumínio, sendo fornecido na
A eletrólise da alumina é realizada em meio a um banho de sais forma líquida ou na forma sólida, o chamado piche “pencil”.
fundidos, ou eletrólitos, constituídos basicamente de fluoretos de sódio
e alumínio. No início de funcionamento, o constituinte principal do banho 2.1.4 Óleo pesado
é a criolita (NaF3.AlF6), mas, durante a operação das cubas, a
composição química do eletrólito sofre variações que necessitam ser Normalmente são utilizados óleos, BPF, ou Tipo A, nos fornos
permanentemente ajustadas, para manter as condições adequadas ao de cozimento. Esse óleo serve como combustível para queima e geração
processo eletrolítico. Este ajuste é feito pela adição programada de do calor necessário para produzir anodos cozidos com as propriedades
fluoreto de alumínio, pó de aspecto esbranquiçado. especiais exigidas pelo processo eletrolítico, dentre elas, elevadas a
resistência mecânica e a baixa resistividade elétrica.
2.1.2 Coque de petróleo (C)
2.2 Principais fontes de poluição
Via de regra a indústria de alumínio dispõe de instalações
completas para fabricação do anodo. Este produto, obtido pela Essas unidades de apoio, assim como as unidades de eletrólise,
calcinação do chamado coque verde originado nas refinarias de petróleo, apresentam diversas fontes de poluição ambiental, que colocam em
tem o aspecto de carvão granulado e é recebido a granel. Após risco a saúde dos trabalhadores, conforme descritos nas figuras
beneficiamento na Fábrica de Anodos Verdes, para ajuste na distribuição seguintes:
granulométrica, o coque é então misturado a certa quantidade de piche
eletrolítico, de função aglomerante. Passa, a seguir, por um processo
de moldagem para constituir o bloco de anodo verde, que sofrerá na

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

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Figura 13 – As emissões de compostos orgânicos voláteis são
CONSELHO NACIONAL DE MEIO AMBIENTE. Legislação geradas durante as operações do pré-aquecimento do agregado. Nesta
ambiental. Brasília, 2005. fase a indústria controla as emissões no próprio processo produtivo
utilizando alumina na adsorção. Trata-se de uma operação de alto risco,
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Coordenadoria de Saúde do Trabalhador. onde se mistura particulados com gases, potencializando a toxicidade
Parecer técnico sobre a cadeia produtiva do alumínio. Produto dessa mistura de poluentes (material particulado + fluoreto + orgânicos)
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Figura 14 – À direita, em primeiro plano, observa-se detalhe
do sistema de ventilação local exaustora e filtros de tecido da unidade
de pré-aquecimento de agregado. Nesse sistema, a alumina adsorvida

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

com compostos orgânicos voláteis é estocada em silos e, a seguir, 3 Conclusão
misturada com o produto da britagem de crosta (limpeza dos anôdos
usados com alumina fresca). Essa mistura de resíduos constituída de Excetuando as fontes de poluição desprovidas de controle de
material particulado adsorvido com fluoreto e poluentes orgânicos poluentes, supracitadas, as quais representam um risco direto ao meio
retorna por caminhão para as unidades de redução. Essas operações ambiente e à saúde dos trabalhadores, de uma maneira geral as
envolvendo o carregamento, transporte e descarregamento, geram indústrias de alumínio, são dotadas de equipamentos e sistemas de
emissões atmosféricas e são as principais fontes de poluição ambiental, controle de poluentes para as fontes emissoras de material particulado
disseminando poluentes altamente tóxicos nas áreas internas e externas que garantem uma eficiência de até 99% na retenção de material
à indústria de alumínio. particulado. Todavia, essa eficiência pontual da emissão primária, passa
a ser ameaçada pelas emissões secundárias, representadas pela
ausência e/ou procedimentos errôneos de operação e manutenção.
Devido à tecnologia de controle da indústria de alumínio, utilizar a
própria alumina como fluido de adsorção para recuperação dos gases
de fluoreto, pequenos vazamentos dessa fração de material particulado
inalável (alumina), adsorvida com gases tóxicos (fluoreto e compostos
orgânicos), representam um efeito aditivo na ação tóxica, pois além da
ação mecânica e irritativa das partículas inaláveis, ocorre um efeito
tóxico e inflamatório da mucosa respiratória pela ação dos gases tóxicos,
o que representa uma grande ameaça ao meio ambiente e à saúde do
trabalhador.
Figura 15 – Central de tratamento e recuperação de gases. Neste contexto, o monitoramento das emissões primárias de
Utiliza alumina para adsorver os fluoretos volatilizados e os fluoretos poluentes passa a ser uma ferramenta importante de fiscalização e deve
de hidrogênio, juntamente com outros gases liberados nas células. Essa ser realizada através de sistema “on-line” em tempo real com a agência
tecnologia é bastante eficiente na recuperação desses gases. Porém, de controle ambiental, única forma de se manter a regularidade dos
os pequenos vazamentos em conexões juntas e equipamentos do padrões de emissão.
sistema, permitem uma perda desses poluentes (alumina adsorvida com Para as fontes de poluição secundárias e difusas, representadas
fluoreto e outros gases). A ação dos ventos se encarrega de espalhar por diversos pequenos vazamentos, faz-se necessário um rígido
os poluentes por toda área da indústria de alumínio, colocando em programa de operação e manutenção preventiva e corretiva dos
risco o meio ambiente e a saúde do trabalhador. equipamentos e sistemas de controle de poluentes, assim como dos
equipamentos do processo de produção.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

de ferro, manganês, níquel, cromo, estanho, caulim e ouro) além de
imenso potencial hidrelétrico, podendo gerar até um quarto na energia
brasileira. O Pará é o maior exportador mundial de ferro, produz mais
de 80% da bauxita do país e ostenta o primeiro lugar no ranking mundial
de produção de alumina.
Mesmo assim, parece que a Amazônia está fadada ao
subdesenvolvimento, a sermos mera província exportadora de minérios
e energia, sem nos beneficiarmos com a riqueza, que é transferida para
outras regiões brasileiras e países do outro lado do mundo.
Vários são os exemplos dessa realidade. Citamos os processos
da celulose e do caulim do Projeto Jarí e do manganês do Amapá,
com a Icomi. Os primeiros já passam de 20 anos de história, e o segundo III PARTE
acabou em menos de 50 anos. A bauxita (minério do alumínio), do rio Movimentos sociais, saúde do trabalhador, meio ambiente e
Trombetas tem quase 25 anos. política
A verticalização é a saída? Temos condições de participar do
processo e fazer realidade o sonho da verticalização da produção no
Pará. O mesmo necessita de discussão ampla entre sociedade
organizada, governos e empresas. Desta forma, poderemos ver
apontando na mesma direção, as linhas comprovativas do crescimento
das indústrias e da qualidade de vida que hoje estão em direções
opostas.

O brilho do alumínio do Pará
A descoberta de reservas de 600 milhões de toneladas de
bauxita de ótima qualidade próximas ao rio Trombetas, município de
Oriximiná, em 1967, deu início à implantação e consolidação do ciclo
do alumínio no Pará. A cadeia de produção de alumínio totalmente
paraense foi um dos principais fatores para o Brasil sair da condição
de importador para exportador de alumínio primário para o mundo.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

CADEIA PRODUTIVA DE ALUMÍNIO NA AMAZÔNIA:
IMPACTOS AMBIENTAIS, SOCIAIS E A PELEJA SINDICAL

Manoel Maria de Morais Paiva1

A despeito do tão amplamente propagado desenvolvimento do
Pará, pesquisas revelam o crescente empobrecimento da população
não só do estado como de toda a região Norte. Por outro lado, estudos
de cientistas econômicos revelam que a região Norte é uma das mais
pobres do país, superando, em muito, o Nordeste.
Segundo economistas do Instituto Nacional de Altos Estudos
(INAE), e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em
1997, 42% da população do Norte eram compostos por pessoas que
não possuíam renda familiar per capita suficiente para o atendimento
de suas necessidades básicas. No Nordeste este número era de 31%,
no Sudeste 15%, Centro-Oeste 9% e no Sul 8%.
As causas que levam a estes números desanimadores são muitas
e complexas. Mas estes números são sentidos na pele pelos
trabalhadores paraenses. O que não se consegue entender, e muito
menos aceitar, ao nos depararmos nos meios de comunicação com
informações que mostram o Pará abrigando grandes indústrias, de
visibilidade internacional, que batem recordes de produção, aumentam
as exportações e consolidam expansões.
Os números dos estudos também revelam as riquezas naturais
do estado, marcadas por imensas reservas minerais (bauxita, minério

1
Engenheiro ambiental – Universidade do Estado do Pará (UEPA) e ex-presidente do
Sindicato dos Químicos de Barcarena, PA.

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

ações que não vão ao fundo da questão do subdesenvolvimento Em 1972 a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), então
regional. Não passam de maquiagem rasa sobre as chagas. estatal, foi convocada pelo governo para revitalizar a Mineração Rio
Reformas e construção de postos de saúde, escolas, pontes, do Norte (MRN), empresa que faria a extração do minério e estava
asfalto, quadra de esportes são obras que estão sendo feitas, com as obras paralizadas. O envolvimento da Vale despertou o interesse
principalmente pela Albras, mas que no conjunto final, não trazem o dos japoneses, seus tradicionais parceiros comerciais. Em 1976 os
benefício esperado. Com a expansão das duas fábricas, para que governos brasileiro e japonês se comprometeram a cooperar na
tivessem direito a juros menores no financiamento do Banco Nacional construção no Pará de um complexo para a produção de alumínio.
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as empresas se Depois de vários estudos o município de Barcarena, a 30km
comprometeram a fazer investimentos na área social. em linha reta da capital Belém, foi escolhido para a implantação das
A propaganda feita em cima de tais investimentos sociais é muito indústrias de produção da bauxita e do alumínio. Entre os fatores
maior que os benefícios reais para a comunidade, e não chegam a favoráveis, podemos enumerar: características de solo (topografia
modificar a situação em que vivem as pessoas ao redor do projeto. A plana), energia elétrica suficiente fornecida pela Hidrelétrica de Tucuruí,
Albras divulga um investimento social, desde 1985, de US$18 milhões, sistema viário, porto de Vila do Conde com capacidade para atender
mas que não são identificáveis nas condições de vida da população. navios de até 60.000 toneladas, em seus 250 metros de extensão e
Além disso, o discurso da responsabilidade social não é aplicado com profundidade de 17 metros, disponibilidade de mão-de-obra barata, e
a mesma veemência quando se trata da relação com os empregados, área com baixa densidade de ocupação.
responsáveis direto pelo crescimento das empresas. Outros elementos contribuíram como a pequena distância de
Aí as perdas só são comparáveis ao crescimento industrial, um grande centro urbano, a relativa proximidade das fontes de seus
numa relação inversa. Enquanto aumentou sua produção em mais de principais insumos. Deve-se ressaltar ainda a ausência de políticas
240 mil toneladas ano, a Albras passou de cerca de 3.200 empregados ambientais no estado. Desta forma não ocorre o monitoramento dos
no início da operação para os atuais 1.336. O salário base de um rejeitos das fábricas até hoje. Nem há orçamento para investimento
operador na partida da fábrica equivalia a 10 salários mínimos, o que em pesquisa, que vise o reaproveitamento dos resíduos gerados pelas
hoje não chega a seis. Sem contar a perda do poder de aquisição do indústrias. Atualmente os resíduos são enterrados em solos a céu aberto.
próprio salário mínimo nos últimos anos. A Alunorte já começou a Assim, em 1985, entrou em operação a Alumínio Brasileiro S.
operar com o mínimo de pessoal possível, e ao passar da Albras para A. (Albras) com capacidade instalada de produção inicial de 160 mil
a nova fábrica, os trabalhadores já saíam perdendo. toneladas de alumínio primário. Dez anos depois, foi inaugurada a
Atualmente as perdas mais sentidas pelos trabalhadores são: a Alumina do Norte do Brasil S. A. (Alunorte), para fornecimento da
moradia, antes cedida sem ônus para o trabalhador, vale transporte matéria-prima da Albras. Consolida-se assim o ciclo do alumínio no
(ônibus e barco), medicamentos, assistência médica, escola, clube de Pará. A bauxita extraída pela MRN é utilizada pela Alunorte, que entrega

136 133
Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

a Albras a alumina, que dá origem ao alumínio primário exportado concedido por 20 anos para a Albras e a Alumar (Maranhão). Até o
para o Japão e a Europa, ficando apenas uma parte para o consumo final do contrato deve alcançar o equivalente a cinco bilhões de dólares.
interno. O mesmo valor de reposição de duas fábricas de alumínio inteiramente
O investimento público tornou-se crucial para a consolidação novas.
do ciclo do alumínio da Amazônia. O mesmo se deu via incentivos “AAlbras pagou US$ 18 por megawatt/hora que a Eletronorte
fiscais. Até hoje o Governo Federal subsidia a energia elétrica consumida gera em Tucuruí com um custo de US$ 72, durante o contrato do
pela Albras. A fábrica paga a menor tarifa do país. Hoje as três indústrias primeiro subsídio. Essa diferença de tarifas é coberta pelo Tesouro
estão em expansão. Com a recente inauguração de sua terceira fase, a Nacional, ou seja, o contribuinte brasileiro. O valor do subsídio dado
Albras tem capacidade instalada de produção de 410 mil toneladas a Albras corresponde a dez anos de receita de ICMS, principal fonte
anuais de alumínio, 250 mil a mais que a projeção inicial. de tributos do Estado. Não há como negar o investimento público.
Assim se firma como a maior da América do Sul. A Alunorte, Sendo também um investimento privado, o lucro é seu objetivo, mas
com capacidade inicial prevista para 1 milhão e 100 mil toneladas de “este lucro, por sua origem e antecedentes, deve ser mediado pela
alumina por ano. 4,2 milhões de toneladas é a meta estimada para função social e discutido com a sociedade que o avalizou e suportou-
2007, o que tornará a fábrica a maior produtora de alumina do lhe o peso”, lembra o jornalista Lúcio Flávio.
continente.
A MRN segue a mesma trilha. A previsão para 2006 é uma Impactos sociais e ambientais da indústria do alumínio
quantidade superior a 16,3 milhões de toneladas, “provavelmente a em Barcarena
maior produção mundial em uma única mina”, segundo o jornalista Os números que atestam a pobreza do Estado e da região
Lúcio Flávio Pinto. As três empresas já operam com lucros líquidos. Norte são visíveis ao se observar a forma de vida da população
diretamente atingida pela indústria do alumínio em Barcarena. O
Investimento público – incentivos fiscais e energia elétrica crescimento industrial definitivamente, não se traduziu em melhoria da
Entre as três grandes empresas do ciclo do alumínio no Pará, a qualidade de vida da população que vive no entorno do grande projeto.
Albras é a de maior visibilidade, não só pelo tamanho da fábrica, como Nem sequer aos trabalhadores das duas empresas em Barcarena.
pelo investimento público que ela comporta. A empresa é um consórcio Há nesta constatação vários fatores que devem ser levados em
da CVRD (51%) com a Nippon Amazon Aluminium Co. Ltda. (NAAC) consideração. A arrecadação do município, que ultrapassa R$ 1 milhão
(49%). mensais, nestes quase 17 anos de pólo industrial do alumínio, não tem
O investimento foi de US$1,4 bilhões, direto dos acionistas. sido revertida para o bem-estar da população. O poder público também
Mas quase US$ 2 bilhões de dinheiro público estão na empresa sob não executou sua parte na história. A responsabilidade social que as
várias formas, sendo a principal o subsídio energético. O subsídio foi empresas fazem questão de alardear aos quatro cantos, não passa de

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Alumínio na Amazônia 2009 Alumínio na Amazônia 2009

na época R$1,00, de cada trabalhador sem nenhuma explicação para recreação, transporte escolar e creche eram fornecidos pela empresa.
adquirir cotas de ações da companhia. Pulverizou essas cotas pagando Hoje em dia os trabalhadores estão obrigados a contribuir com
de forma diferenciada por região. percentagens. A perda também se dá no adicional de insalubridade
(40%) e adicional por tempo de serviço (anuênio de 1% por ano); pais
O golpe e filhos acima de 18 anos ficaram fora do plano de saúde, entre tantas
A privatização da Vale foi marcada pela falta ou a manipulação perdas.
da informação em diferentes níveis. No caso dos empregados da O grande bordão dessa modalidade de projeto reside na
companhia ocorreu o desconhecimento do edital de privatização, que geração de emprego, renda, melhoria da qualidade de vida da
segundo informações, contempla em uma cláusula o percentual da população. No entanto a realidade em Barcarena desnuda um quadro
transação a serem distribuídas em ações e o valor de cada cota. diferente. Os bolsões de pobreza circulam a cidade. Ao se anunciar
Qual o número de cotas e o valor total que cada trabalhador empreendimento dessa magnitude, sempre ocorre o processo de
teria direito pelo pagamento de um real? Algum tempo depois migração. Milhares de pessoas de outras cidades e estados chegam
conhecemos que para a CVRD existe diferença de valores para um ao município em busca de um emprego nas grandes indústrias ou nas
real. Ela realmente ela foi doce para os trabalhadores do Rio de Janeiro, empresas terceirizadas.
onde com um real, receberam 1000 cotas. Mostrou-se salobra para Não sabem que mesmo esposas e filhos dos trabalhadores não
os trabalhadores de Minas Gerais, Espírito Santo e Carajás, onde com têm onde empregar sua força produtiva. Esta situação contribui para o
um real receberam 626 cotas. E revelou-se salgada para os aumento da violência, proliferação de ocupações habitacionais e
trabalhadores de Barcarena, que com o mesmo um real só receberam desmatamentos. Os impactos sociais acabam também favorecendo
313 cotas. Pior para Pará Pigmentos e Mineração Rio do Norte que impactos ambientais.
nada receberam.
Ocorre interrogar: por que a diferença entre as regiões? Verticalização da produção como melhor alternativa de
Em 2004 o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias desenvolvimento da região
Químicas do Município de Barcarena, PA, juntou-se ao Metabase de Deixar de ser mero exportador de produtos semi-
Carajás e Ferroviários do Espírito Santo, para juntos reivindicarem industrializados (quando muito), para agregar maior valor à sua
suas diferenças na distribuição das cotas, já que todos pagaram o mesmo produção é a solução para o estado do Pará sair da condição em que
valor. se encontra e passar a se beneficiar de suas riquezas. A verticalização
Os representantes das outras categorias já haviam pedido da produção é um sonho dos paraenses que tem de sair do onírico e
explicações a Investvale, que foi a operadora autorizada pela Comissão do discurso de políticos em vésperas de eleição para se tornar
de Valores Mobiliários (CVM), órgão do Governo Federal, e que até realidade.

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O próprio Jório Dauster, quando ainda presidente da CVRD tornar o terceiro produtor mundial de caulim e não tem uma única fábrica
disse que o Pará, pela abundância de recursos naturais que dispõe, de de papel.
solo, subsolo, floresta e água “tem tudo para ser a mais rica unidade da A sociedade, organizada em sindicatos, cooperativas e
federação”. Para a utopia se tornar realidade a participação da associações, pode chamar o governo e empresas para a discussão da
sociedade é fundamental na busca de um equilíbrio do tripé formado verticalização, para que deixe de ser apenas mais um ponto no discurso
com as empresas e governo. de políticos em busca de votos e passe a fazer deste estado, o mais
O ciclo do alumínio está consolidado no Pará, mas não podemos rico do Brasil, não apenas nas teorias dos números de estudos e
nos conformar com o limite do produto industrial primário, na forma pesquisas, mas na vida de cada paraense.
de lingote de alumínio da Albras. A mineração do alumínio no Pará está
chegando a 25 anos de história, mas não tem trazido os benefícios CVRD privatizada: breve histórico sobre a situação dos
para os paraenses. Esta característica se repete com o ferro, com história trabalhadores
um pouco mais nova, mas com avanço ainda menor. A garantia de pagamento de casa, água, luz, telefone,
O Pará é o segundo maior produtor mineral do país e continua medicamentos, transporte, ônibus escolar, assistência médica, ticket
a ser quase zero em siderurgia, tendo apenas três usinas de ferro-gusa alimentação, além de bons salariais, deram forma ao pacote de gentileza
em seu território. Minério não dá duas safras, lembra o jornalista Lúcio das fábricas Albras/Alunorte. A tática era atrair mão-de-obra barata
Flávio Pinto. “Uma vez exauridos os depósitos de interesse comercial, dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e
acabou a história”. E já acabou para o manganês do Amapá, em menos de outras regiões do Pará.
de 50 anos. A mina de ouro do igarapé Bahia, em Carajás, está Em 1997 com a privatização da CVRD a nova diretoria põe
chegando ao fim não passando dos 15 anos. O minério de ferro e o fim ao pacote de benefícios. A partir da privatização a empresa começa
manganês de Carajás estão chegando aos 20 anos e a bauxita do rio a repassar os custos aos trabalhadores. A decisão se deu de forma
Trombetas já tem um quarto de século. unilateral, sem a participação dos trabalhadores e das comunidades
No balanço entre o que estará acabando e o que se iniciará, o envolvidas nos projetos.
saldo será positivo por algumas décadas. Mas o Estado deve dar Vale ressaltar que houve mobilizações em vários estados do
conseqüência prática e inteligente a esta extração, senão ficaremos país contrários ao processo de privatização da empresa. Fato que foi
apenas com os buracos, não apenas no solo. questionado na Justiça e agora toma novo fôlego e mobiliza várias
Os grandes projetos na Amazônia são concebidos e executados entidades nos estados onde a CVRD possui projeto. Através de várias
para atrair as riquezas do subsolo e colocá-las no mercado internacional. ações na Justiça o processo pode ser revisto.
Além do exemplo do ferro, pode-se citar o caulim, com três fábricas Ainda sobre a privatização um fato chama a atenção. Para
(uma no Jari e duas em Barcarena) no estado, que está prestes a se desmobilizar as manifestações contra a privatização, a CVRD cobrou

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dos Ferroviários do Espírito Santo foi firmada. Uma equipe analisa os agora não se pronunciou. Em Barcarena são mais de 800 trabalhadores,
documentos coletados no Rio de Janeiro. A meta seguinte será entrar entre Albras e Alunorte que foram discriminados, lesados, enganados
com o processo. quando receberam pagando o mesmo valor por inferior número de
cotas.
A tomada do sindicato pela empresa Apesar das reivindicações até hoje nenhum dos órgãos
Além de privatizada a antes Companhia Vale do Rio Doce envolvidos se pronunciou. Entre eles a CVRD, a Investvale, a CVM e
(CVRD), uma referência ao local de origem, - o vale mineiro -, tratou o BNDES. Temos esperança que com a reabertura da CPI da
de enxugar o nome. Agora apenas Vale e adotou uma nova logomarca. privatização da Vale, possamos rever nossos direitos sendo visto de
A empresa privatizada sob o manto de inúmeras nuvens de atitudes forma igualitária, bem como possamos rever os benefícios como direitos
suspeitas se espraia para além da fronteira nacional. adquiridos.
Em solo pátrio agenda e já desenvolve inúmeros projetos de Os trabalhadores da MRN, que extrai a bauxita, a Alunorte
ampliação da produção de alumínio, como a exploração de minas no que produz a alumina, e a Albras que produz o alumínio, estão dispostos
município de Paragominas, nordeste do Pará, com vistas a garantir a a brigar para ver seus direitos serem respeitados. O comportamento
política de aumento da produção de suas fábricas no município de adotado pela CVRD, após a privatização, tem refletido negativamente
Barcarena. na vida dos trabalhadores. Não podemos mais aceitar que o capital
Para a garantia da energia necessária para a ampliação da internacional capitaneado por empresas como a CVRD não respeitem
as leis do nosso país.
produção fez um projeto de uma usina termoelétrica na mesma cidade.
O município que já teve as praias consideradas impróprias para uso
Todos temem o DRAGÃO
por conta de diversos acidentes ambientais, pode ter dias piores ainda,
Há quem diga que a CVRD é maior que o Pará. Entre os
posto a enorme capacidade de poluição de tal modelo de usina.
tentáculos de seu poder o marketing tem papel estratégico. Cogita-se
No município de Canaã dos Carajás a empresa desenvolve
que a mesma, após o estado, seja um dos principais anunciantes da
exploração de cobre, já no município de Marabá deseja erguer uma
mídia na região. Possui grande habilidade em transformar ações
siderúrgica. As duas cidades ficam no sudeste do Pará, onde se encontra
modestas em colossais.
a província mineral de Carajás. A ferrovia que liga a mina ao porto em
Qualquer doação destinada a reformas de prédios, construção
São Luís, capital do Maranhão, encontra-se em fase de duplicação.
de obras em universidades, repasse a organizações filantrópicas, ganha
Ainda no Maranhão deseja-se erguer uma termoelétrica e uma fábrica dimensões faraônicas. Com tal poder, torna-se batalha árdua conseguir
de produção de pelotes. pautar qualquer tipo de passivo ambiental ou social nas áreas de atuação
Como se nota, a companhia se encontra em franca expansão. da mesma, ou mesmo estabelecer um discurso contra-hegemônico. O
Ao longo dos 10 anos de atuação, o Sindicato dos Químicos se trem passa e a “galera” diz amém.

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A partir de 1998, quando surge o Sindicato dos Químicos de do trabalho. Fenômeno da relação entre capital e trabalho que engendra
Barcarena, algumas feridas foram abertas e mexidas contrariando o a terceirização. Uma ferramenta para que o capital possa faturar mais
discurso das empresas instaladas em Barcarena. Entre as denúncias através de redução de custos.
constam: indiferença às leis, pagamento extra de demissões para No mesmo período veio a automação, responsável pelo fim de
trabalhadores doentes, os chamados Planos de Demissão Indicados inúmeros postos de trabalho em diversos setores. O posto de trabalho
(PDI) (“sopão”). Tal prática foi adotada pelo médico da empresa passa a ser palavra de ordem das entidades dos trabalhadores. Em
Albras, baseado em resultados de exames periódicos dos detrimento de conquistas salariais, redução de jornada de trabalho,
trabalhadores. alimentação e garantias de saúde. Neste solo todo tipo de assédio
O sindicato denunciou tal ação. Entre os desdobramentos floresce.
ocorreu a criação de uma associação para defender os direitos dos O desafio para o sindicato torna-se ainda maior pelo fato do
trabalhadores seqüelados. Não bastassem as agressões aos empregador ser uma das maiores mineradoras do mundo. Se antes o
trabalhadores diretos e indiretos (terceirizados), as empresas em debate era com o Estado, a peleja tornou-se mais árdua com a
Barcarena criaram um cartel que as representa para se omitirem em privatização. Como caminhar sem se vender? A saída foi integrar redes
caso de contaminações. Como por exemplo, a contaminação por e fóruns na Amazônia e fora dela. Hoje o Sindicato dos Químicos é
fuligem em Vila do Conde, que por incompetência dos órgãos de referência dentro e fora da região sobre o debate do setor de alumínio.
fiscalização e investigação, até agora segue sem apuração. No período em que o sindicato teve um caráter combativo o
Acreditamos ser possível uma mudança nesse modelo sindical, embate residiu na garantia de uma agenda política e salarial. Como a
que se curva diante de empresas subsidiadas pelo capital internacional ajuda dos(as) trabalhadores(as) a sede própria foi erguida. O sindicato
para oprimir trabalhadores nos países bases para seus investimentos e saiu de uma sala para uma casa que conta com auditório com
enriquecimento. Não concordamos com o modelo de desenvolvimento capacidade para 250 pessoas, com arena esportiva e sala de inclusão
dito sustentável, que na verdade sustenta somente o capital, às custas digital.
da desgraça dos trabalhadores e das comunidades próximas aos Uma associação com a Central Sindical Alemã (DGB)
projetos. possibilitou a construção da sede própria. Não só com o recurso dos
operários alemães, mas, antes de qualquer coisa, com a contribuição e
Pequena retrospectiva sobre o Sindicato dos Químicos confiança dos associados. Um outro ponto de avanço foi a garantia do
de Barcarena ticket refeição, bem como o turno francês.
O Sindicato dos Químicos de Barcarena possui apenas 10 anos Através da assessoria jurídica o Sindicato dos Químicos buscou
de vida. Veio ao mundo justo no processo de fragilidade dos rever as perdas no processo de venda das cotas da empresa junto a
trabalhadores ante o capital. Momento conhecido pela precarização Investvale. Os passos já foram dados e uma parceria com o Sindicato

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Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), Rede de Justiça Ambiental, configurou com um dos atores de publicização dos passivos sociais e
Fórum de Militantes em Saúde do Trabalhador. ambientais da cadeia do alumínio dentro e fora do país, através da
A ADRVDT-CPA estima em número de 130 as pessoas participação em várias redes. Com vistas a neutralizar a ação da
vitimadas no processo de produção no complexo de alumínio nas entidade a Alunorte teve papel preponderante na eleição ocorrida em
fábricas de Barcarena. Boa parte do contingente é filiado à associação. maio de 2007. A empresa se empenhou em formar chapa de oposição
A princípio, a avaliação da associação é que os trabalhadores estão e emprestar seu staff de comunicação.
abandonados pela CVRD. A eleição foi vencida ainda graças à política de assédio no interior
O gargalo na luta dos vitimados no processo de produção do da fábrica. E ganhou ares de caso de polícia com ameaça de capangas
alumínio, reside em conseguir comprovar que as doenças de coluna, da chapa da empresa, fato registrado na delegacia do município. Agora
mentais, bursite, esclerose, intoxicações, entre outras, foram provocadas os dois sindicatos estão sob a tutela da Vale, o dos Metalúgicos que
pelo contato por conta do processo da transformação do metal. abriga os funcionários da Albras, há muito um leão de circo, e agora o
dos Químicos, tomado à força do dinheiro, do “muque” e do assédio.
Sobre as empresas Dias melhores virão?
A Albras e a Alunorte integram o consórcio de produção de
indústrias de alumínio da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), junto
ao capital japonês. Funciona desde 1985 na cidade de Barcarena, a
30 quilômetros de Belém. A primeira empresa produz alumínio, e a
segunda alumina.
O empreendimento integrou o Programa Grande Carajás,
cunhado no regime militar, como projeto de desenvolvimento para a
região de Carajás, sudeste do Pará. A matéria-prima para a produção
da alumina, a bauxita, vem do município de Oriximiná, oeste do estado.
Mão-de-obra abundante e barata, matéria-prima, e energia,
muita energia subsidiada, o principal insumo na produção do alumínio,
contaram a favor para a implantação das fábricas na Amazônia. O
processo de transformação da alumina em alumínio é considerado um
dos mais poluentes.

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LINHAS SOBRE A ASSOCIAÇÃO DOS VITIMADOS DAS A via crucis residia na ansiedade de tentar rever o processo
FÁBRICAS DE ALUMÍNIO DE BARCARENA, PARÁ: SAÚ- do PDI, buscar uma forma de encaminhar benefícios ou aposentadoria,
DE E MEIO posto o impedimento ao trabalho, ou mesmo a ausência de possibilidade
de recolocação no mercado. Situação provocada por questão de idade
Reinaldo Damasceno22 avançada, e agravada com o quadro de saúde.
Rogério Almeida23 É a partir de tal contexto que surge a Associação em Defesa
dos Reclamantes e Vitimados por Doença do Trabalho na Cadeia
Produtiva do Alumínio no Estado do Pará (ADRVDT). A organização
Sobre a ADRVDT legal da associação se deu em setembro do ano de 2003.
A baía do Guajará separa o município de Barcarena da capital
do Pará, Belém. A busca por uma racionalidade radical, na ambição A missão da ADRVDT
incessante do produzir mais, numa menor margem de tempo, e com Produzir uma amostra do desrespeito aos direitos dos
menos custo; separa a direção das empresas Albras e Alunorte, dos trabalhadores acidentados, diagnosticar os casos de doenças
trabalhadores por elas demitidos. relacionadas ao trabalho, bem como articular a atenção aos adoecidos
No coração da exploração, o local de trabalho, no ano de em decorrência de condições insalubres nas fábricas da cadeia
1992, as empresas criaram uma política denominada Plano de Demissão produtiva do alumínio (Albras e Alunorte), estão entre os motivadores
Indicada (PDI). A mesma serviu para que as empresas descartassem da criação da associação.
os operários com registro de doenças. Constam como missões da ADRVDT: a)investigar omissões
Além dos direitos garantidos pela legislação, as empresas no encaminhamento de casos à Previdência Social; b) tratar de
abonaram os trabalhadores com recursos a mais. Outros PDI são “acordos” firmados com trabalhadores afastados da empresa por longo
registrados nos anos de 1997 e 1999. período, e após passarem por reabilitação e posterior demissão; c)
No desenrolar dos fatos, os operários demitidos malograram buscar reparação dos danos físicos, mentais e sociais decorrentes dos
em suas tentativas de comerciantes e similares. Sem emprego, recurso diversos males ocasionados pela exposição continuada a agentes físicos
financeiro e com a saúde abalada, os operários passaram a procurar o e químicos no ambiente de trabalho.
Sindicato dos Químicos de Barcarena. A delicada situação dos trabalhadores e vitimados da cadeia
do alumínio no Pará, tem colocado a ADRVDT na articulação de vários
1
Reinaldo Damasceno é coordenador geral da Associação em Defesa dos Reclamantes e fóruns e redes de organização da Amazônia, nacional e internacional.
Vitimados por Doenças do Trabalho na Cadeia Produtiva do Alumínio no Estado do Pará
(ADRVDT-CPA). Fone (91) 8123 3972, e-mail: adrvdt@ig.com.br. Av. Cônego Batista Entre eles, o Fórum Carajás – rede de entidades sociais que
Campos, Qd. 377, Lt. 04, CEP: 68.447-000, Vila dos Cabanos, Barcarena, Pará.
2
Rogério Almeida é colaborador da Rede Fórum Carajás, mestre em Planejamento pelo acompanham os impactos sociais e ambientais da Ferrovia de Carajás,
NAEA, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

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Há 10 anos desempregado, Ariovaldo Oliveira, 44, vive hoje Ações: Seminário de Belém, um passo histórico
com a ajuda de familiares. Fala que perdeu tudo que tinha. Trabalhou Ainda que os abalos na saúde dos(as) trabalhadores(as) fossem
na Albras por quatro anos. Tem um sério problema na coluna que o assunto no debate do Sindicato dos Químicos, a questão ganha uma
dificulta até mesmo de um simples movimento de virar a cabeça quando outra dimensão com a ADRVDT-CPA. É a partir da demanda dos
alguém o chama. trabalhadores com seqüelas, que buscam no sindicato um
Muitos desses trabalhadores afastados das fábricas, receberam encaminhamento de suas questões, que nasce a associação.
além de direitos trabalhistas, uma espécie de bônus. Reinaldo A realização do seminário para debater o assunto no ano de
Damasceno, aposentado por doença, coordenador da ADRVDT, 2004, configura um marco no debate sobre a questão. Com o nome
explica que a situação é de desamparo total, pelas empresas e pelos de Os impactos na saúde dos(as) trabalhadores(as) provocados
órgãos públicos. Conta que a rotina desses ex-funcionários é transitar pela cadeia produtiva do alumínio, foi realizado entre os dias 11 e
entre hospitais, INSS e corredores da Justiça. 12 de novembro, no Hotel Equatorial, centro de Belém.
Entre as autoridades científicas estiveram presentes: Dr.
O poder público não fiscaliza Hermano Albuquerque Castro, da Escola Nacional em Saúde Pública
O poder público não exerce nenhum tipo de vigilância sobre as (ENSP), médico do trabalho e doutor em saúde pública (FIOCRUZ),
empresas nas áreas de saúde do trabalhador e meio ambiente. A questão Dr. Elio Lopes, consultor Ministério da Saúde, Ednalva Neves, doutora
foi um consenso durante as várias mesas com especialistas em saúde e professora da Universidade Federal do Maranhão, entre outros.
do trabalhador e meio ambiente. Entre eles Hermano Castro, técnico O encontro foi possível graças à articulação com os fóruns em
da Fiocruz, Rio de Janeiro, que vem acompanhando vários casos de que a ADRVDT participa, bem como apoio de pessoas e instituições
saúde dos trabalhadores. municipais, estaduais e federais. O evento teve apoio da Secretaria de
A ausência de controle perpassa por várias esferas. Uma delas Saúde de Belém, através da Casa de Saúde do Trabalhador (CASAT),
é falta de pessoal técnico qualificado para aferir os impactos ambientais da Secretaria de Saúde do Estado e do Ministério da Saúde.
e na saúde dos trabalhadores das fábricas. Passando por artimanhas O seminário possibilitou o aprofundamento do debate com base
das empresas, como a terceirização de setores para buscar isenção de científica. E ainda, que se ouvisse os depoimentos de trabalhadores
determinados impactos, e mesmo cooptação de técnicos de órgãos em situações de saúde debilitada. Sobre a questão ambiental, ocorreram
públicos, denuncia a ADRVDT. relatos de emissão de poluição no ar, como uma fuligem negra, e
resíduos nos igarapés de Barcarena, como no caso do rio Murucupi.
Perplexidade Sobre o aspecto de poluição, foram inúmeros os depoimentos que
Apesar dos dois maiores jornais da cidade enviarem seus ratificaram a ocorrência.
jornalistas à abertura do encontro, nenhuma linha sobre o assunto foi

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Entre os desdobramentos indicados no final do seminário Sobreviventes - depoimentos
constou a produção da presente publicação. Um outro ponto recai em Aos 44 anos, Raimundo de Jesus, quatro deles trabalhando no
encaminhar denúncias a diversas esferas do poder público. setor de redução da Albras, entre os anos de 1989 a 1993, anda hoje
O seminário teve o caráter de aglutinar os trabalhadores doentes. amparado por duas muletas e recursos ortopédicos na cintura e perna
Possibilitou ainda uma inserção na mídia local e nacional. Inclusive com direita. Padece de esclerose múltipla e é aposentado pelo INSS por
uma entrevista do coordenador da associação, Reinaldo Damasceno, invalidez.
na Rádio Nacional de Brasília e espaço em páginas na rede mundial de Conforme depoimento, já andou em tudo que é hospital, pois
computadores (Justiça Ambiental, Grupo de Trabalho Amazônico e sofre de fortes dores de cabeça e tem desmaios. O ex-funcionário da
Coalizão Rios Vivos). Albras conta que entre as muitas falhas no processo dele, há o de
Enquanto o seminário ocorria, dois ex-funcionários das fábricas apesar de aposentado no ano de 1996, na carteira, só foi desligado da
estavam num hospital de Belém passando por tratamento. Sendo que empresa em 1999, uma diferença de três anos.
um perdeu a visão total, e o segundo necessita de transplante de rim e Pedro Santos, 36, demitido em 1995, ex-funcionário da redução
coração. da Albras, sofreu um grave acidente na fábrica. Segundo ele, por conta
AADRVDT está empenhada na organização da Rede Nacional de excesso de trabalho. Tratava-se de fase de implantação, os operários
de Atenção Integrada em Saúde do Trabalhador (RENAST) no Pará. eram exigidos ao máximo. A fábrica funcionava como casa. Ninguém
A ação é desenvolvida com o apoio do Centro de Referência em Saúde se retirava da área. No acidente fraturou a perna esquerda. Já sofreu
do Trabalhador – Núcleo de Referência Metropolitana em Saúde do duas operações. Reclama de amnésia, dores de cabeça, problema na
Trabalhador, órgão municipal de Belém. AADRVDT integrou a oficina arcada dentária. Avalia que é por conta da contaminação com o
de planejamento da RENAST da Amazônia Legal (novembro de 2004). alumínio. O diagnóstico é que a contaminação ocorreu por conta do
contato com flúor (fluorose do esqueleto). É intenso o uso do flúor no
Impactos sociais e ambientais setor de redução.
40 famílias estão sem fonte de renda em Barcarena. Elas tinham No aspecto técnico e jurídico, o caso dele tem três versões.
no rio Murucupi a sua fonte de proteína e renda, o qual foi poluído por Na cópia de documento timbrado da fábrica, consta como acidente
resíduos das fábricas Albras e Alunorte, o que foi denunciado pelo grave no interior da mesma; o que obrigaria a empresa a enviar
Sindicato dos Químicos de Barcarena nos anos de 2004 e 2005. documento de registro de acidente ao INSS comunicando o caso.
Representantes expuseram que a Secretaria de Meio Ambiente do Segundo ele não foi feito. Na carteira de trabalho, o caso tem outra
Estado (Sema) nunca concluiu o laudo das amostras de água coletadas. versão, e no INSS uma terceira. Segundo ele não possui 40% da função
motora da perna esquerda.

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publicada em ambos. No segundo jornal em circulação do Estado, ao
invés de notícias sobre o encontro, uma página inteira sobre os
estrondosos números de investimento e faturamento da Vale, que, a
cada dia se internacionaliza mais, com desenhos de projetos para
Moçambique, Austrália, e em consórcio com a China, no setor de
siderurgia em São Luís, Maranhão.
Entre os investimentos na região, consta a ampliação da
capacidade da Alunorte. Estimado em US$ 44 milhões, os recursos
tornarão a empresa a maior do mundo no setor até 2006. A inauguração
da ampliação ocorreu em março de 2006. São várias as estratégias da
Vale para não ter a sua imagem maculada.
Sob a auréola da responsabilidade social, distribui recursos a
entidades assistencialistas, prefeituras, banca reformas em prédios
públicos de todas as esferas do governo, mesmo universidades.

Nexo causal - o gargalo da luta
O Sindicato dos Químicos e a ADRVDT, denunciam, que
através de uma política conhecida como Plano de Demissão Indicada
(PDI), as empresas conseguiram se livrar do quadro técnico onde foi
diagnosticado problemas de saúde. A política consistia de uma espécie
de abono. O abono era uma quantia incluída além dos direitos
estabelecidos no processo da demissão. Conforme depoimentos, ocorre
que se deu a desgraça.
Os demitidos sem conhecimento para o empreendedorismo, e
muitas com a saúde profundamente debilitada, tiveram as suas famílias
destruídas. Relatos durante o seminário atestam o fato.
Com o fim das indenizações, falidos, ou simplesmente sem
Este livro foi composto na fonte Time News Roman, corpo 12 x 16 dinheiro, ex-funcionários foram abandonados por seus pares. Com a
impresso em papel Offset 75g/m2, capa em papel cartão supremo 250g.
pela FORT COM. GRÁFICA E EDITORA End.: Rua Castro Alves, 510 - Retiro saúde agravada, muitos contam com a ajuda de parentes. Conforme a
Natal - São Luís Maranhão - CEP: 65025-230- Fone/Fax: (98) 3222-7139
FORT COM. GRÁFICA E EDITORA E-mail: fortgraf2@yahoo.com.br ADRDVT, há registros de caso de suicídio.

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Como já pontuado acima, há casos de transtornos mentais,
esclerose, cegueira, asma entre os demitidos. Ocorre que devido às
artimanhas das empresas, e à frágil fiscalização, não se consegue
estabelecer o nexo causal. Ou seja, comprovar que as enfermidades
que acometem os trabalhadores demitidos, e muitos os que estão nas
fábricas, são provenientes do processo de produção do alumínio.
Com a ausência da ficha de registro das fábricas, limita-se o
encaminhamento de medidas junto aos órgãos públicos. Com isso, se
emperra qualquer denúncia junto ao Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS), Delegacia Regional do Trabalho (DRT), e outros. E assim, as
empresas seguem a colecionar certificações de todos os tipos. E, a
inundar a capital com outdoors (e outras mídias) festivos. Não raro,
com a estampa de gente uniformizada, a exibir um riso largo.

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