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Atendimento odontológico da criança: percepção materna
The child’s dental treatment: maternal perception

Marcelo Marcos de Oliveira MEIRA FILHO1
Débora Tarciane Carvalho ARAÚJO1
Valdenice Aparecida de MENEZES1
Ana Flávia GRANVILLE GARCIA2

RESUMO
Objetivos: Verificar a percepção e comportamento materno sobre atendimento odontológico de crianças, bem como analisar a opinião das
mães sobre a necessidade da sua presença na sala de atendimento clínico e aceitação em relação às técnicas de manejo comportamental.
Métodos: Participaram do estudo 100 mães cujos filhos, na faixa etária de 3 a 12 anos, foram inseridos no Programa de Saúde da Família
da Vila Lacasa na cidade de Cachoeirinha, Pernambuco, no período de novembro a dezembro de 2006. Os dados foram coletados a partir
de formulários validados pelo método face a face, sendo realizada uma análise descritiva dos dados.
Resultados: Verificou-se que uma parcela significativa de mães não tem medo do atendimento odontológico (68%) e exercem forte influência
na opinião e comportamento dos filhos. A principal causa do medo das mães foi a dor (45,8%). Independentemente do nível de escola-
ridade, a maioria das mães prefere estar presente na sala de atendimento (85%), pois elas acreditam que melhoram o comportamento
da criança (64%). O principal motivo que levou a mãe a procurar o serviço odontológico para seu filho foi a prevenção de cáries (51%),
seguida da dor (29%). As mães não mostraram restrição quanto à utilização das técnicas de manejo comportamental (73%).
Conclusão: As mães entrevistadas apresentaram forte influência no comportamento dos filhos e independente do nível de escolaridade, a
maioria das mães prefere estar presente na sala de atendimento clínico, aceitando as técnicas de manejo, desde que devidamente infor-
madas.
Termos de indexação: criança; comportamento materno; odontopediatria.

ABSTRACT
Objectives: To verify the maternal perception of and behavior towards children’s dental treatment, as well as to analyze the opinion of the mothers
on the need of their presence in the clinical attendance room and acceptance with regard to the techniques of behavioral management.
Methods: The study involved interviews with 100 mothers whose children between 3 and 12 years old, had been in the Family Health Program
of Vila Lacasa, in the city of Cachoeirinha, Pernambuco, Brazil, in the period from November to December of 2006. Data were collected
from forms validated by the face-to-face method, and a descriptive analysis of the data was performed. The mothers were divided into groups
considering the number of years of schooling and social-economic level.
Results: It was verified that a significant number of the mothers were not afraid of dental treatment (68%), exerting a strong influence on the
children’s opinion and behavior.The main causes of fear in the mothers was pain (45.8%). Irrespective of the educational level, the majority of the
mothers preferred to be present in the attendance room (85%), since they believed their presence improved the child’s behavior (64%). The main
reason why the mother sought dental treatment for her child was the prevention of caries (51%), followed by pain (29%).
Conclusion: The interviewed mothers were shown to have a strong influence on the behaviour of the children and irrespective of their educational
level most mothers preferred to be present in the attendance room, accepting the management techniques, provided that they were adequately
informed.
Indexing terms: children; maternal behaviour; pediatric dentistry.

INTRODUÇÃO sional-paciente satisfatória. Nesse sentido, as emoções e atitudes
dos familiares podem ser fatores de grande influência no prepa-
ro psicológico da criança e no sucesso da prática odontológica1-2.
O tratamento odontológico é uma experiência que A ansiedade é a emoção relacionada ao comportamento
envolve medo, ansiedade e estresse para a maioria das pessoas. de avaliação de risco evocado em situações em que o perigo
Apresenta impacto significativo no comportamento da criança é incerto (ameaça potencial), já o medo, está relacionado às
no consultório e na percepção da Odontologia, caracterizando a estratégias defensivas que ocorrem em resposta ao perigo real
primeira etapa a ser ultrapassada na busca de uma relação profis- (ameaça presente)3-4.

1
Associação Caruaruense de Ensino Superior, Faculdade de Odontologia. Av. Portugal, 584, Universitário, 55016-400, Caruaru, PE, Brasil. Correspon-
dência para / Correspondence to: DTC ARAÚJO. E-mail: <deboratarciane@hotmail.com>.
2
Universidade Estadual da Paraíba, Faculdade de Odontologia. Campina Grande, PB, Brasil.

RGO, Porto Alegre, v. 57, n.3, p. 311-315, jul./set. 2009

então. independente do grau de escolaridade. Os dados foram coletados pelos próprios Quando questionadas se fazem comentários pesquisadores. conforme 81% das mães relataram não interferir na conversa entre foram surgindo nos serviços para o atendimento clínico dos o dentista e o paciente infantil.3.2º grau e 3° grau completos (7%). diarreia. e instrumentais. Apesar de 83% das mães se sentirem relaxadas contribuem para essa questão. As mães. (Tabela 2). de ambos os sexos. na sala de espera e em responderam positivamente e. n. e os aspectos psicológicos5. solicitada a participação da entrevistada. A infância caracteriza-se como um período crítico para o desenvolvimento do medo e/ou ansiedade. negativa (37. 13% ficam ansiosas antes da consulta odontológica. apenas 20% das mães entrevista individual e padronizada. No que concerne à ansiedade materna. durante o atendimento clínico. o desconhecido. taquicardia. principalmente na idade pré. 2009 . p. Para análise dos resultados. foi explicada a finalidade da Com relação à questão sobre o controle de pesquisa. a partir de formulários aplicados por meio de prévios sobre o atendimento clínico. em especial.até o 1º grau incompleto. dentre estes se destacam: experiências Nesse método. Considerando a importância da ansiedade infantil Quando questionadas a respeito de sua percepção na repercussão do tratamento odontológico e a influência sobre a experiência odontológica de seus filhos. Grupo III . são capazes de diagnosticar o comportamento Um percentual de 34% das mães relatou sentir me- e o nível de ansiedade dos filhos sobre o atendimento do do cirurgião-dentista. pois a forma como a criança elabora internamente essa experiência é decisiva na formação de suas As mães foram divididas em três grupos com futuras expectativas e reações em relação à Odontologia7-8. tabilidade e recusa do tratamento6. na faixa etária de 3 a 12 anos. sendo as reações mais comuns o Associação Caruaruense de Ensino Superior sob o número choro. No momento inicial. Na questão sobre o motivo que leva a mãe a procurar MÉTODOS o serviço odontológico para o seu filho. presente na sala de atendimento clínico. na opinião de 64% do total das mães cidade de Cachoeirinha. um dos sete Programas de Saúde da Família da (Tabela 4). sendo a dor (45. o dor. distribuições absolutas e percentuais (Estatística Descritiva). Porto Alegre. a maioria o que representou a maioria das entrevistadas (85%). tremores. maior influência do que as experiências médicas refere à condição socioeconômica verificou-se que 95% e odontológicas anteriores. estão associadas a diver. o medo e/ou ansiedade se manifestam Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da diferentemente do adulto. 2006. a expectativa de entrevistadas que expliquem./set. v. A seleção das mães foi feita por conveniência. Realizou-se um estudo transversal com 100 mães Um percentual de 85% das mães prefere estar cujos filhos. Pernambuco. durante o atendimento de seus filhos. é objetivo desta pesquisa avaliar mães consideraram-na positiva e 94% relataram que o a percepção e o comportamento materno em relação ao comportamento do cirurgião-dentista teve influência nesse ambiente odontológico e. jul. tontura. recebiam até um salário mínimo e apenas 5% entre dois e escolar9. no período de novembro a dezembro de tratamento não vai doer. 18% explicam que o visitas domiciliares. e o comportamento cooperador da criança. das mães permitiriam o uso dessa técnica. No que se inclusive. comportamento com o uso de técnicas de restrição física. 312 RGO. Grupo dos estudos estabelece uma associação significativa com II . com suas próprias palavras. 60% das da mãe neste contexto. A fidedignidade das respostas foi testada pelo método de constatou-se que. sendo RESULTADOS esta uma causa significativa do absenteísmo odontológico na adolescência e fase adulta. independente do estavam sendo atendidos no Programa de Saúde da Família nível de escolaridade (Tabela 3) e 82% em todas as consultas Vila Lacasa. o pesquisador solicita às mães odontológicas traumáticas. 650 famílias. 73% validação “face a face” em 10% das entrevistadas.8%) e a experiência odontológico10. foram obtidas mente sem distinção na Odontologia. palavras usadas frequente. sendo. à falta de maturidade. Já.5%) as causas mais citadas. que abrange cerca de (Tabela 5) podem melhorar o comportamento da criança. devido que entenderam sobre cada pergunta11. 311-315. visto que. da criança.MMO MEIRA FILHO et al.de 1° grau completo até 2º grau incompleto (8%). e 85% deixam a criança à seus filhos. quais os fatores que aspecto. sudorese. No paciente infantil. relação à escolaridade: Grupo I . 069/06. sos fatores etiológicos. principalmente na idade pré-escolar (84%) (Tabela 6). A ansiedade e/ou medo. 57. exercendo. além de influenciarem o grau de ansiedade cinco salários mínimos. constatou-se que a revisão (51%) e a dor (29%) foram os principais motivos. irri. destas. Participaram da pesquisa apenas as mães que vontade para esclarecer as suas dúvidas sobre equipamentos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

na faixa etária de 4 a 12 anos. DISCUSSÃO Tabela 3. 45. A percepção de mães sobre a recusa de crianças ao tratamento dental. embora a escolaridade tenha influência diferenciada no comportamento da criança15. dados semelhantes Tabela 4. p.8% citaram a dor e experiência negativa (37. A ansiedade materna pode ser um fator de grande influência sobre a ansiedade infantil na prática odontológica. jul. 2009 313 . n. Momento ideal da presença da mãe na sala de atendimento clínico. RGO. Significado para a mãe de sua presença na sala de atendimento clínico. 70% afirmaram serem os seus filhos também temerosos em relação à Odontologia. Tabela 5. v. Causa do medo odontológico relatada pelas mães. Comportamento da criança quando a mãe está presente na sala clínica. s Tabela 6. 57./set. principalmente a ansiedade materna16 e na fase pré-escolar17-18.5%) como o principal motivo14. Após análise dos dados pôde-se verificar que a maioria das mães entrevistadas não tem medo de dentista (68%) e. constatou-se que o maior percentual (62%) foi de crianças que não têm medo do dentista. Motivo da procura do serviço odontológico para atendimento dos filhos. 311-315. Necessidade da presença da mãe na sala de atendimento clínico. aos de outra pesquisa15. independente do nível de escolaridade. Atendimento da criança: percepção materna Tabela 1. Porto Alegre. dentre 24% das mães que declararam ter medo de dentista. No que se refere à ansiedade dos filhos percebida pelas mães. Tabela 2. demonstrou que vários fatores interferem neste aspecto13. dentre estas. Pode-se observar que. Este fato reforça a ideia de que o medo e/ou ansiedade dos pais pode ter influência no comportamento das crianças.3. não sendo possível unificar um modelo padrão de comportamento19. o que levaria a criança a se comportar de modo negativo12-13.

As mães que relataram ter medo de dentista tiveram como Esses números estão de acordo com Correa22 que constatou principais fatores causais a dor e a experiência odontológica que. em especial com crianças na fase pré-escolar. VA uma parcela significativa (82%) prefere estar em todas as MENEZES participou da elaboração do projeto. da influência materna no atendimento odontológico do paciente infantil. 3. No entanto. exercendo uma forte influência em relação à sua CONCLUSÃO opinião no que se refere à Odontologia e. melhoraria comportamento. visto que ela está em contato direto com o mesmo. adrenal. com relação às técnicas de manejo de que a sua presença. com os estudos de Correa22. Na presente pesquisa 12% das mães prefere estar na MMO MEIRA FILHO e DTC ARAÚJO sala de atendimento apenas na primeira consulta. porém com frequências menores. Balone GJ. AF GRANVILLE GARCIA participou filhos. Loureiro SR. 2. 1. no seu comportamento na clínica. Pânico na sala de espera. ressalta-se que 2) como principal motivo para a procura do serviço odon. tem medo de dentista. 2001.9(6):334-8. No entanto. Graeff FG. 2003. v. verifica-se que clínico e se preocupa com a saúde bucal dos seus filhos.6(29):70-4. orientação e consultas. 82. e 2% são os cuidados com a saúde bucal7. Almeida AM. estudo que a maioria das crianças de escolas públicas (77. na sala de atendimento clínico. p. Odontopediatr Odontol Bebe. A 85. não souberam responder24. exercendo forte influência na opinião Isto pode ser justificado pelo fato de algumas mães sentirem. Paiva SM. dão a devida impor. 16. para 10% das entrevistadas o momento ideal da presença tológico. se com medo (2%) ou aflitas (13%) antes do atendimento. esta questão deve ser definida pelo cinco salários mínimos.5% mesmas foram previamente informadas sobre a forma como e 37% das mães. Sobre a presença da mãe na sala de atendimento. verificou-se que 73% tratamento e quanto maior o nível socioeconômico maiores autorizariam o uso de métodos restritivos. Barbosa NB.22(1):5-12. 2009 . seria feita. No entanto. a Uma parcela significativa das mães entrevistadas não maioria das entrevistadas (Tabela 3) prefere estar presente. constatou-se que 99% das entrevistadas. de 52 mães entrevistadas. pânico e o eixo hipotálamo-pituitária- comportamental. das mães prefere estar presente na sala de atendimento Ainda analisando estes aspectos./set. 1983.5% das mães achavam que a sua presença melhoraria o desempenho da criança e 7. A literatura relata que o grau de Estes dados reforçam a necessidade de esclarecer e aceitação aumenta quando é dada uma breve explicação para orientar os pais sobre a saúde bucal infantil20-21 e a importância a mãe do que será feito e de como será feita essa abordagem2. respectivamente. 25% não.6%) No que se refere ao grau de aceitação das mães sobre procura atendimento odontológico devido à necessidade de as técnicas de manejo (contenção física). participaram da coleta de dados e redação do artigo. a maioria com medo e 13.8% citaram que pioraria. 3. Rev ABO Nac.29(supl. que se estivessem presentes a colaboração seria pior. 2007. 2005. Comportamento infantil no ambiente odontológico: aspectos psicológicos e sociais.8% negativa. Estes dados concordam. Cardoso CM. Ramos-Jorge ML. foi verificado em outro profissional23. foi a prevenção de materna na sala de atendimento deveria ser estabelecido pela cáries (50%). apesar de que apenas 5% recebesse entre dois e própria mãe. Rev Bras Psiquiatr. jul. Ansiedade.7% ficam relaxadas. por conseguinte.5% aflitas. Contudo. Com relação à relevância dada pela mãe à saúde profissional. O que pôde ser confirmado (Tabela na sala de atendimento clínico. fato que deve ser levado em consideração pelo da análise e redação final do trabalho.1):s3-6. n. principalmente quando as o comportamento do paciente infantil. e comportamento dos filhos em relação à Odontologia. 57. demonstrando o apego das mães para com seus da redação do artigo. Problemas comportamentais e stress REFERÊNCIAS em crianças com ansiedade frente ao tratamento odontológico. como sendo o principal motivo para a sua permanência tância a esse aspecto. J Bras 5.3. no entanto. 311-315. Este momento foi ressaltado por 84% das entrevistadas independente do grau de escolaridade. Porto Alegre. O odontopediatra e a psicologia 4. Est Psicol. foi positiva. no qual Colaboradores 86. dos grupos II e III. Independente do nível de escolaridade.7% das mães com maior escolaridade (Tabela 5) acham aceitação materna. consideram o contrário. 314 RGO.MMO MEIRA FILHO et al.3(1):26-34. Rev Paul Odontol. bucal de seu filho. relatado pela maioria das mães.

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