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A representação da violência no romance

“A Morte sem Nome”, de Santiago Nazarian

Fábio Belo1

Sumário

O romance A Morte sem Nome, de Santiago Nazarian, narra trechos da


estória de Lorena, uma mulher que se mata diversas vezes. Primeiramente,
mostro como a história de Lorena – que deseja apenas “experimentar mais
uma forma de morrer” – pode ser vista como uma representação metafórica
dos efeitos da pulsão de morte sobre o sujeito: a compulsão à repetição do
“organismo vivo” em morrer à sua maneira (Freud, 1920). Em segundo
lugar, examino como se dá, nesse romance, o que André Green (1994), em
O Desligamento, chama “princípio da escritura”, isto é, a capacidade de
transformar algo do corpo desejante numa atividade de ligação, através da
linguagem escrita. O caráter fragmentário do romance e as várias passagens
metanarrativas mostram que a pulsão de morte exerce seus efeitos também
sobre a escritura. O terceiro objetivo desse artigo é discutir algumas teses
levantadas por Blanchot (1969), em L’Entretien Infini, em especial, no que
tange à possibilidade de representação da “experiência limite”, no caso do
romance, a experiência da morte.

La réponse est le malheur de la question.

Blanchot2

Na minha morte sem nome eu esperava alguém para dar as palavras.

Lorena3

1. A morte sem nome

“Minhas cicatrizes contam uma história, espero que fique inspirado.” (MSN,

203): Lorena a todo momento convida seu leitor a ir além da mera contemplação de

suas cicatrizes e mortes. Como na frase da epígrafe: o leitor deve dar palavras à morte
1
Fábio Roberto Rodrigues Belo é formado em Psicologia, pela UFMG. Mestrado em Teoria Psicanalítica,
pela FAFICH – UFMG. Doutorado em Literatura Brasileira, pela FALE – UFMG. É professor de
Psicologia, na Graduação em Direito, da Faculdade de Direito Milton Campos e, no Mestrado em Direito
Empresarial, da mesma instituição, onde leciona “Linguagem e Pesquisa Jurídica”.
2
Blanchot, 1969: 15. [A resposta é a desgraça da pergunta.]
3
MSN, 120.
2

sem nome que ela mostra repetidas vezes. Mas, afinal, o que dizem as cicatrizes e

pedaços dessa mulher que se enforca, se sufoca, pula na frente do ônibus?

Seja o que for, trata-se de algo enigmático, do qual parece se orgulhar a

personagem-narradora: “Morta, meus pedaços contam uma história que ninguém quer

ler. Pedaço por pedaço, vou sendo esquecida. Coletando impressões, fios, dentes,

peritos chegam a uma conclusão. / (...) Como mulher eu sempre fui um ótimo quebra-

cabeça.” (MSN, 131). Diante do suicídio em série da personagem, Lorena exige que a

leitura se transforme em perícia. Mas, não se trata de um exame qualquer:

No que sua mente doentia está pensando? Na frente do espelho, linha


por linha, pensava sobre mim. Não é assim que deve fazer. Olhe pela
janela. Não racionalize, não racionalize. Não transforme meu amor
numa tese. Não investigue sobre o que você deve procurar. Você deve
me amar. Não questione. Tire essa cabecinha da frente do espelho e
coloque-a em movimento. (MSN, 198)

Contra a leitura fácil da identificação com o personagem, Lorena adverte que ela

não é espelho do leitor. Se ela pede para ser amada, é para que a razão não seja um

anteparo à experiência que ela oferece. Entre o espelho e a janela, Lorena nos convida a

olhar para o Lá-Fora que a borda de suas palavras deixa entrever.

2. O nome da morte: representar o impossível

A frase de Maurice Blanchot que epigrafa esse texto me ajuda a resumir a tese

de seu L’Entretien Infini. Como o próprio título do livro indica, ele é avesso às sínteses,

mas, de forma geral, a questão que preocupa Blanchot é tentar dizer algo sobre o fundo

de silêncio sobre o qual se erige toda possibilidade de palavra. Mas, dizer “fundo de

silêncio” já é colocar em palavra aquilo que não pode ser dito, mas é possibilidade e
3

causa de todo dizer. À pergunta “o que é esse silêncio, esse Lá-Fora-da-Linguagem, a

partir do qual tudo é dito?”, toda resposta é infeliz porque remete novamente à palavra,

da qual desejamos nos afastar:

Na palavra, morre o que dá vida à palavra; a palavra é a vida dessa


morte; é “a vida que carrega a morte e se mantém nela”. Admirável
poder. Mas algo está ali e não está mais. Algo desapareceu. Como
encontrá-lo, como me voltar para o que é antes, se todo o meu poder
consiste em fazer o que é depois? A linguagem da literatura é a busca
desse momento que a precede. Geralmente ela nomeia a existência (...)
o que é fundamento da palavra e que a palavra exclui para falar, o
abismo, Lázaro do túmulo, e não o Lázaro devolvido ao dia (...).
(Blanchot, 1997: 315).

Acredito que a idéia de que o sujeito humano seja um ser pulsional leva a

psicanálise ao mesmo lugar que a literatura levou Blanchot. Afinal, a psicanálise

também pode se perguntar: o que seria esse pulsional sem a mediação da palavra? Como

experimentar ou saber da pulsão sem a mediação simbólica, sem a “representação”? O

que dizer sobre esse antes da palavra, quando, no entanto, existíamos sem saber que

existíamos?

No que tange à morte, isso fica ainda mais claro. Toda nossa linguagem existe

para dizer aquilo que é, que existe e não aquilo que desaparece, que se perde. A

experiência da morte é impossível de se relatar, pois no momento em que “eu” morro

não há mais instância alguma para narrar esse momento. O tormento da linguagem é

voltar-se a isso que falta sempre e precisar ser isso que falta para dizê-lo. (cf. Blanchot,

1969: 50) É assim que interpreto o lugar de onde Lorena enuncia sua narrativa: “Perdi a

consciência, tudo bem. Foi daí que comecei a lembrar...” (MSN, 10). Não podemos nos

identificar com Lorena porque o que ela deseja é levar adiante o paradoxo de falar desse

lugar sem-consciência, como o de “Lázaro no túmulo”4.


4
Diga-se, apenas de passagem, a importância de Lázaro como metáfora dessa possibilidade de ter
experimentado a morte. Sylvia Plath explora esse tema de forma brilhante no poema Lady Lazarus.
4

Se na linguagem quotidiana é impossível dizer o pulsional, a literatura ao menos

pode responder a isso (cf. Blanchot, 1969: 68). É preciso pensar, a partir disso, no que é

essa resposta. A meu ver, A Morte sem Nome, de Santiago Nazarian, é um exemplo de

resposta poética à impossibilidade de nomear o pulsional. Se não pode dizê-lo

diretamente, ao menos explicita um de seus efeitos. Consciente de sua insuficiência

desde o título, o romance de Nazarian não cessa de se mostrar a tentativa de nomear o

que não tem nome.

Blanchot lembra que a literatura pode muitas vezes se aproximar disso que

George Bataille chama de experiência interior e que Blanchot chamará de experiência-

limite. Diz o autor: “A experiência-limite é a resposta que encontra o homem, tão logo

ele decidiu se colocar radicalmente em questão.” (Blanchot, 1969: 302). Trata-se da

“experiência disso que há fora de tudo, pois tudo exclui tudo fora, disso que resta a

alcançar (atteindre), depois que tudo é alcançado, depois que tudo é conhecido: o

inacessível mesmo, o desconhecido mesmo.” (Blanchot, 1969: 304-5).

Os suicídios sucessivos de Lorena não seriam uma metáfora para esse radical

questionamento? É importante distinguir: Lorena não tenta se matar diversas vezes. Se

assim fosse, estaria resguardada a integridade do eu, sua suposta invulnerabilidade,

apesar das tentativas de auto-extermínio. Não: Lorena se mata de fato diversas vezes.

Esse impossível é uma forma imprecisa de dizer deste “excesso de morrer”, desse

momento da morte que só pode ser experimentado como infinito. Lorena deixa-se

apreender pelo “infinito do fim”: “Afinal, a vida é só. É só mais uma doença longa,

paciente e terminal. / Não quero mesmo viver para sempre, apenas experimentar mais

uma forma de morrer.” (MSN, 8).

Falar desse lugar Fora não é apenas uma impossibilidade lógica. Como pretendo

mostrar na próxima seção, há razões de ordem afetiva que nos afastam do


5

reconhecimento dessa experiência-limite. De maneira geral, o sujeito não se coloca

radicalmente em questão. Todavia, como sabemos, as razões que nos impedem são

também a que nos impelem inconscientemente ao reconhecimento daquilo que deveria

permanecer obscuro.

3. A pulsão (sexual) de morte

“E, se eu estive sonhando todas as minhas mortes, onde esteve a minha vida?”

(MSN, 141): a pergunta de Lorena é importante porque levanta a possibilidade de ver a

vida entregue à repetição como uma espécie de vida sem vida. Se o sonho é a realização

de um desejo inconsciente, qual o desejo Lorena realiza ao sonhar todas as suas mortes?

Para responder a isso, devo fazer um breve resumo do que entendo, a partir da obra de

Jean Laplanche, da teoria das pulsões5.

A pulsão não é inata. Ela advém da relação originária: dos cuidados que um

adulto dispensa ao bebê. Mas, o adulto é sempre atravessado por seu inconsciente. Ao

mesmo tempo que a mãe oferece elementos narcísicos que irão ajudar na constituição

do eu do seu bebê, ela também deposita, à sua revelia, excitações contra as quais o

sujeito ainda incipiente deve se defender. É a partir do conflito entre esses elementos

constitutivos do narcisismo e esses “restos” de excitação não traduzidos que se instaura

o recalcamento originário. De um lado, institui-se o ego e as forças de defesa e de

síntese. De outro, permanecem as excitações disruptivas, sem tradução, polimorfas e

“sem nome”.

Na releitura que Jean Laplanche faz do conceito de pulsão de morte de Freud, o

conjunto dessas excitações passam a ser nomeadas “pulsão sexual de morte”. Para

5
Sobre a leitura de Laplanche do conceito de pulsão de morte, recomendo, além do clássico Vida e Morte
em Psicanálise, o artigo citado na bibliografia: cf. Laplanche, 1999.
6

Laplanche, é importante manter o caráter sexual da pulsão de morte e não sucumbir ao

desejo de ligá-la, como fizera Freud, ao biológico (cf. Laplanche, 1999).

A partir da interpretação de Laplanche, gostaria de ler algumas passagens de

Além do Princípio do Prazer como metáforas que nos auxiliem a compreender o

funcionamento da pulsão sexual no seu aspecto mais mortífero, mais “demoníaco”, para

usar o adjetivo dado pelo próprio Freud à pulsão de morte.

Lembro, em primeiro lugar, da metáfora da “elasticidade orgânica”. Freud a

utiliza para explicar a “força impelente interna ao organismo vivo que visa restabelecer

um estado anterior que o ser vivo precisou abandonar devido à influência de forças

perturbadoras externas” (Freud, 2006 [1920]: 160). Essa força para retornar ao “estado

anterior” é como a força de um elástico esticado: quanto mais ele se afasta de sua forma

original, maior é a tensão para voltar a ele. Pois bem, na releitura de Laplanche, qual é

esse “estado original”? Certamente, não tem nada a ver com o vôo migratório das aves

ou a desova dos peixes rio acima, como Freud argumenta em parágrafo próximo à

metáfora citada. Trata-se, na verdade, da situação originária da constituição do eu. É

para esse momento traumático que somos tentados a retornar.

Lembremos que a situação originária é uma situação de extrema passividade. O

bebê desamparado está entre ao adulto que cuida dele e, inevitavelmente, tem seu corpo

excitado das formas mais diversas, boas e más. São constitutivas de um “envelope

corporal” ao mesmo tempo em que “abrem” e “penetram” esse mesmo envelope. Para

se constituir enquanto ego razoavelmente “fechado” é preciso recalcar esse estado de

passividade. Esse “corpo aberto” ao outro deve ser recalcado, mas é a ele que desejamos

retornar. Como na experiência do fort-da, desejamos viver de novo a experiência

traumática para se assenhorar dela.


7

A releitura de Laplanche permite dar um sentido não-biológico à enigmática

frase de Freud: “O objetivo de toda vida é a morte, e remontando ao passado: O

inanimado já existia antes do vivo.” (Freud, 2006 [1920]: 161). De fato, na experiência-

limite da constituição do ego, éramos como que inanimados que existem, passivos, mas

reais. Para se apropriar de si mesmo, é preciso retornar a esse momento, mas não de

qualquer forma:

Ele [o organismo] quer morrer à sua maneira, e, assim, também essas


pulsões que preservam a vida na verdade foram originalmente
serviçais da morte. Daí o paradoxo de que o organismo vivo lute tão
energicamente contra as forças (os perigos) que poderiam ajudá-lo a
alcançar por um atalho bem mais curto seu objetivo vital de morrer
(por assim dizer, um curto-circuito6). Na verdade, o que ocorre é que o
comportamento de buscar a morte a seu próprio modo é algo de cunho
puramente pulsional e por isso está em oposição a uma ação
inteligente. (Freud, 2006 [1920]: 162-3).

Que fique claro, então: não pertence ao sujeito, à sua livre e consciente escolha,

morrer à sua maneira. Trata-se de um movimento inconsciente, pulsional. Há uma

grande diferença entre esse movimento do retorno ao “inorgânico” e as tentativas de

alguém se matar. Obviamente, há relações poderosas entre esses dois eventos, mas não

são coincidentes. O retorno ao inorgânico, tal como estou interpretando-o, não precisa

se dar, necessariamente, através de uma tentativa de suicídio, pois o “inorgânico” é, na

verdade, o estado no qual existíamos ainda sem existir, em que havia apenas um corpo

excitado pelo outro, onde deveria haver um eu.7 Tentar descrever esse momento é tentar

responder à questão de Blanchot: “O que seria essa experiência do obscuro na qual o

obscuro se daria na sua obscuridade?” (Blanchot, 1969: 62). Do ponto de vista clínico,

apenas nos momentos de angústia intensa, do quase-esfacelamento do ego teríamos uma


6
Há um elemento a ser explorado aqui, novamente, uma metáfora: qual a diferença, nesse contexto, entre
curto-circuito e atalho? Quais seriam as diferenças entre a morte-curto-circuito e a morte-atalho? Ao que
me parece, não são sinônimos como quer Freud.
7
Experiências religiosas, estéticas ou sexuais, por exemplo, são alternativas a esse retorno-dissolução do
eu.
8

sensação desse obscuro que, no entanto, só pode ser sentida nesse estado limite. Do

ponto de vista literário, romances como o de Nazarian podem nos auxiliar a

compreender essa obscuridade.

Em resumo: a narrativa de A Morte sem Nome é uma tentativa paradoxal de

colocar em palavras aquilo que não pode ser dito. É uma resposta oriunda à experiência-

limite. Há, todavia, sempre a tentativa de “tamponar” essa experiência com um sentido

bem comportado. Isso se dá por razões não apenas de ordem lógica, mas de ordem

afetiva. De fato, reconhecer esse estado no qual éramos sem ser, no qual existíamos,

mas sem consciência de si, é admitir uma passividade aterradora. Entretanto, é para esse

estado, lugar paradoxal da constituição do sujeito psíquico, que o sujeito deseja retornar.

Por quê? Ora, para se assenhorar desse momento terrível. Para não ser mais passivo. É

aqui, justamente, que reside o risco do engano: muitas vezes, o sujeito vai dar um nome

para esse momento, cuja nomeação é sempre impossível, mas cuja ausência de nome é

insuportável. Na próxima seção, mostro que há um convite para esse tipo de nomeação

enganosa no romance de Nazarian.

4. Um nome para a morte

Em vários momentos do romance, Lorena se refere ao pai, a quem dirige suas

queixas:

Aos pés do meu pai, eu me atirava. Não precisava fazer mais nada, a
não ser derreter. Em lágrimas e soluços, eu era sua filha preferida.
Única em seus braços. Ele se sentia homem ao me fazer mais criança.
Chorando, eu o fazia mais pai. E ele contente por conseguir me fazer
parar. Deitar. Dormir. (MSN, 14)
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Eis o curto-circuito: derreter nos braços do pai. Assim, ela o fazia mais homem e

ele a fazia mais criança. Nesse pacto, cujo resultado era o sono (uma forma de morte),

Lorena mantinha-se presa ao infantil. Mas, por que esse pacto se constitui assim?

Temos, na passagem a seguir, uma pista:

“Você ainda não comeu nada. Não deixe a comida esfriando, Letícia.”
Meu nome era Lorena. Há dezenove anos, ele ainda não percebera.
Sempre me chamou de Letícia, meu pai, porque Lorena era nome
escolhido por minha mãe. Nem sei se eu mesma concordava ou não,
talvez não, mas continuava com o mesmo cartão de visita. Lorena é
meu nome, eu não tenho escolha. (MSN, 21-2)

Para ser a Letícia do pai, a Lorena (da mãe) deve morrer. Mas, ela “não tem

escolha”. De fato: não somos nós quem escolhemos nossa identidade. O que não quer

dizer que devemos nos conformar com a identidade que temos. Lorena está presa nesse

curto-circuito: ela deve retornar ao momento de sua constituição para, a partir daí, se

refazer enquanto Letícia. Eis o paradoxo: no momento de sua morte como se lembrar de

retornar como Letícia? Se Lorena morre, morrem também seus desejos, inclusive o de

ser Letícia. Por isso a infinita repetição: ela só pode chegar nesse momento limite e

voltar mais uma vez.

Diante desse paradoxo, muitas vezes, Lorena vai cair em estado de profunda

confusão e fragmentação. O trecho no qual Lorena se pergunta se está grávida é

especialmente revelador, nesse sentido (cf. MSN, 107-9). Chama a atenção seu apelo ao

pai nesse momento: “Penteei os cabelos e procurei pelo pai. Como filha, procurei pelo

meu. Para nos seus braços me fazer menos mãe. Para nos seus braços me fazer mais

menina. Uma mulher a menos. Com seus braços ao meu redor, sou uma mulher a menos

neste mundo.” (MSN, 107). Adiante ela conclui: “Será que sou filha? Me coloco frente

a frente, na frente do espelho, com meu pai e seus filhos, sua filha sou eu, e meus
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amantes, seu pai. (...) Cada um com poder de ser pai, e filha. E filho, e mãe. (...) Uma

mulher a menos, com um homem a mais, dentro de mim.” (MSN, 109). Tudo se

confunde: quando ela se vê na posição de mãe e mulher, deseja retornar ao colo do pai

para voltar a ser menina. Diante do espelho, tudo se perde, as identidades se confundem.

Lorena parece estar diante de alternativas igualmente terríveis: se confundir com

o pai, ser Letícia, morrer por ele. Sua escolha incide sobre a última opção:

Sentei na frente do meu pai e tentei agir com naturalidade, apesar de


morta. Ele não perceberia. Silêncio. (...) / Fiz silêncio para ver se ele
notava. Meus pulmões quietos. Meu nariz tapado. Meu ventre
sossegado, sem o movimento rítmico da respiração. Olhe para mim,
pai, eu estou morta. Não queria avisá-lo, mas acho que você deveria
saber. E, ao perceber que eu não respiro, deveria me sacudir e me jogar
ao chão. Deveria chamar um especialista. Deveria me dar seu sangue.
Deveria beijar minha testa e me abençoar assim que parti. Eu parti.
Olhei para o seu rosto e ele continuava a comer. (MSN, 139-140).

Sublinhemos essa linha: “Deveria me dar seu sangue.”. Como nos pacientes que

aprenderam a amar o outro se matando, Lorena, no fundo, também deseja o sangue do

outro. Se amar é morrer pelo outro, só há uma forma de se saber amada: quando o outro

dá o sangue por ela.

Nesse ponto, reside o principal perigo na interpretação psicanalítica desse

romance. Por um momento, esquecemos que Lorena é uma personagem ficcional e

usamos sua história como metáfora para compreender o que encontramos diariamente

na clínica. Se reduzimos a análise a isso, acredito, perdemos o principal, o que seja: o

convite da própria Lorena de “sair da frente do espelho” e olhar pela janela. Tratá-la

como alguém real é, certamente, importante, afinal, a ficção pode auxiliar a

compreender fenômenos psíquicos pouco perceptíveis de outra forma. No entanto,

torná-la real é esquecer que para dizer “essa mulher”, “é preciso que de uma maneira ou

de outra eu lhe retire sua realidade de carne e osso, que a torne ausente e a aniquile”; é
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esquecer ainda que “a palavra me dá o ser, mas ele me chegará privado de ser”

(Blanchot, 1997: 311). É justamente isso o fundamental: ao invés de perceber Lorena

real, lembrar dessa ausência necessária que ela evoca. É esse o risco sobre o qual

alertávamos mais acima: não se pode nomear a experiência-limite ou o estado originário

do sujeito psíquico. Desejar fazê-lo é sempre perder de vista o horror dessa experiência.

Talvez não seja por acaso que não ler seja anagrama quase perfeito (por um til!) de

Lorena. Mas, se o leitor não pode ler, se ele não pode tomá-la como real, o que lhe resta,

qual a sua tarefa aqui?

5. Psicanálise e literatura: o desligamento

É importante na análise de A Morte sem Nome, de Santiago Nazarian, que se

diga algo acerca de sua estrutura narrativa. Trata-se de um romance pós-moderno, nisso

que a fragmentação e a metatextualidade caracterizam tal categoria.

A fragmentação da narrativa parece ampliada pelos efeitos significantes

propostos. Sob o signo da morte, o tempo e o espaço se fragmentam; os personagens

parecem nunca estar plenamente acabados. Os “parceiros” de Lorena, assim como os

“trechos” de sua história, são apenas aludidos. Parece faltar uma “costura” firme e

coerente que ligue todos os pedaços da narrativa.

Ora, tudo isso é proposital. É trabalho extenuante sobre a linguagem realizado

por Nazarian. O que quero lembrar, entretanto, é aquilo que André Green diz sobre a

construção da escritura. Para Green, a escritura é parte do trabalho de “ligação” tal

como descrito por Freud, em Além do Princípio do Prazer:

Nós já havíamos constatado que uma das mais antigas e importantes


funções do aparelho psíquico é a de “capturar e atar” as moções
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pulsionais que chegam a ele, de modo a poder substituir o processo


primário que prevalece nessas moções pelo processo secundário e
transformar a energia livre e móvel das cargas de investimento em
energia que esteja predominantemente em estado de repouso (tônico).
(Freud, 2006 [1920]: 180).

Diariamente, já “ligamos” o pulsional: este é o trabalho “automático” do ego. A

escrita literária seria, por assim dizer, um trabalho de ligação ainda mais complexo.

Nesse sentido, Green propõe o conceito de “princípio da escritura”: “transformar algo

proveniente do corpo desejante numa atividade de ligação, exclusivamente formada de

caracteres da linguagem, unidos por uma cadeia orientada e obedecendo às leis da

gramaticalidade.” (Green, 1994: 26). O que me interessa investigar é justamente como

se dá essa “transformação” – talvez Laplanche usaria ainda aqui tradução – dos aspectos

mais mortíferos da pulsão em material literário.

Green cita as escritas contemporâneas nas quais a formulação inconsciente em

“seus aspectos mais violentos, menos discursivos, mais selvagem” torna-se objeto da

escritura, geralmente, passamos da escritura da representação à representação da

escritura:

Escrito despojado de qualquer representação, de qualquer significação.


Escrito que se esforça em não dizer nada mais do que é o próprio
processo da escritura. Essa escritura não-figurativa, assim como a
precedente, pois nessa última trata-se menos de representar o corpo do
que fazê-lo viver em estilhaços, fragmentado e despedaçado. Nesse
caso, a ausência de figurabilidade faz da escritura a única matéria para
a representação. (Green, 1994: 30)

Esse tipo de trabalho com a linguagem, obviamente, tem um limite. “Não é fácil

livrar-se da representação; ela exige o pagamento de um mínimo vital, sem o qual deixa

de ser escritura.” (Green, 1994: 31). Como mostrei, Blanchot tem o mesmo problema: é

impossível dizer o Lá-Fora, mas é fundamental tentar representá-lo.


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No romance de Nazarian, esse procedimento de explicitar o princípio da

escritura é feito de maneira a transformar Lorena na própria escritura. Como que para

lembrar, afinal, que seu corpo é um corpo de letras, que sua vida é um romance:

“Edição após edição, a vida nos ensina novas formas de morrer. Tento todas. E no final

de cada uma tenho certeza de que poderá haver mais uma. Será que terminei? Será que

terminei?” (MSN, 154). A dúvida explicita que essa tarefa é infinita.

Retomando os pontos que levantei: não se pode falar da experiência-limite ou da

situação originária. É através da palavra, entretanto, que nos apoderamos precariamente

dessa situação. O mérito do romance de Nazarian é falar dessa experiência e ao mesmo

tempo deixar pistas que permitem ver sua insuficiência. Nazarian passa de uma escritura

da representação para a representação da escritura. Mais uma vez, entretanto, como

mostro na próxima seção, haverá uma tentativa de “calar” esse procedimento.

5. O leitor-pai

Para concluir, selecionei três trechos nos quais uma temática do romance se

repete. Lorena seduz e provoca seu leitor. Apesar de ter nos advertido para não tratar

sua história como a um espelho, ela a chama “nosso romance”. De repente, é o leitor

também convidado a se ver como romance:

Assim termina nosso romance. Vírgula, acento agudo, ponto final. Não
preciso lhe dizer, conhece as regras. E sabe quando deve transgredir.
Sabe quando deve cortar um capítulo com uma faca. Sabe quando deve
pular um parágrafo pela janela. Sabe quando deve terminar uma frase
com um tiro. Bang! Com um tiro. (MSN, 204)

Como citei no início, Lorena pede para ser amada. Agora, no duplo sentido da

palavra “romance” (narrativa literária ou relação amorosa), revela-se o que ela deseja do
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leitor. Se ela convida para o romance é nos dois sentidos. Mas, o leitor não sabe tanto

quanto ela diz. A ênfase no suposto saber do leitor é irônica, afinal, a vida humana não é

um romance. Ninguém tem a autonomia de cortar uma parte de sua existência como se

cortasse uma linha, como se apagasse uma palavra. Isso só se faz enquanto personagem.

Desejar transformar o princípio da escritura na própria existência é cair no engodo da

palavra plena que deseja apagar a experiência sem nome das origens.

Lorena, no entanto, de forma sedutora, convida o leitor a se assenhorar dela, a

tomá-la para si e dar a ela um sentido que o apazigúe:

Mas os doutores não foram feitos para abstrair. Me coloca nos eixos.
Me tira as rodas. Me corta as asas. Cirurgião. Nutricionista.
Homeopata. Regra minha história e acentua minhas perversões. Pontua
meus parágrafos. Me tire daqui. Não quero ficar presa entre duas
sentenças. Não quero ficar presa entre duas sentenças. (...) Me tire
daqui. Desligue as máquinas. Me salve deste parágrafo. (MSN, 53).

A ciência e o saber do intérprete vão capturar e apreender o que Lorena tenta

dizer e, ao fazê-lo, vão perder exatamente o essencial. Vão retirá-la da escrita, vão

transformá-la numa representação mimética de uma mulher. Se o leitor for seduzido a

salvá-la, talvez seja também para escapar às suas ameaças, claríssimas:

Isso não é diversão. Não é para você se divertir. A pena no papel. A


faca no estômago. O sexo entre as pernas. O amor no coração. Cada
palavra dói tanto em mim quanto em você, ou deveria. Furo seus
olhos. Abro seu estômago. Preencho seus espaços, em branco e em
vermelho. / (...) Você não deveria sorrir, cada vez que eu tento me
matar. Se a faca escapa de minhas mãos, atinjo sua garganta. Acredite,
eu gostaria. Eu abriria mão de minhas mortes se pudesse sentir a sua.
Lenta e dolorosa. Eu abriria mão de minhas mortes se pudesse sentir
como você. Morrendo, nas minhas mãos. / (...) Que sinta seu próprio
corpo penetrado. Que sinta seu próprio sangue derramado. Pelas
páginas do meu livro. Que sinta sua garganta cortada. Isto não é
diversão. (MSN, 166-7).
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O leitor torna-se agora o parceiro amoroso fundamental de Lorena, torna-se seu

pai, cujo sangue é a única prova de amor possível para ela. Quem é esse leitor-pai? É o

leitor que não sabe quem é a filha-personagem ou, o que dá na mesma, é aquele que

julga saber tudo sobre ela, leitor-perito que, no entanto, vai certamente trocar seus

nomes e chamá-la pelo nome que lhe convém: Letícia, edípica, psicótica, perversa.

Para ver Lorena, no entanto, é preciso deixar que a faca escape de suas mãos e

que nos fure os olhos, abra nossos corpos, corte nossa garganta, que, enfim, nos mate. E

no Lá-Fora da consciência, nos faça lembrar, sem nenhuma memória, que o que

incomoda na morte é que, morrendo, não somos mais capazes de morrer, mesmo se

assim o desejássemos profundamente, à nossa própria maneira.

Bibliografia

Blanchot, Maurice. A parte do fogo. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
_______. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1969.
Freud, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. In. ____. Escritos sobre a psicologia do inconsciente, vol.
II. Trad. (Coord). Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2006 [1920].
Green, André. O desligamento: psicanálise, antropologia e literatura. Trad. Irène Cubric. Rio de Janeiro:
Imago, 1994.
Laplanche, Jean. La soi-disant pulsion de mort: une pulsion sexuelle. In. _____. Entre séduction et
inspiration: l’homme. Paris: Quadrige/PUF, 1999, pp.189-218.
Nazarian, Santiago. A morte sem nome. São Paulo: Planeta, 2004.