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NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,

e agora? Se você gritasse. a noite esfriou. não existe porta. se você gemesse. sua lavra de ouro. e agora. sua biblioteca. já não pode beber. cuspir já não pode. sem teogonia.o povo sumiu. quer ir para Minas. que zomba dos outros.. mas o mar secou. Você? Você que é sem nome. está sem carinho. se você dormisse. protesta? e agora.. o dia não veio. se você morresse. José? Está sem mulher. José? E agora. e agora. seu instante de febre. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. a valsa vienense. a noite esfriou. . José? e agora. você é duro. . quer morrer no mar. sem cavalo preto que fuja do galope.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. José. já não pode fumar. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. o riso não veio. sua gula e jejum. se você cansasse. Você que faz versos. seu terno de vidro. sua incoerência. que ama. o bonde não veio. sem parede nua para se encostar. Mas você não morre. está sem discurso. se você tocasse. José? sua doce palavra. Minas não há mais. seu ódio.

Máquinas fotográficas assestadas. O poeta está melancólico.de verdadeira poesia.. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.uma linha que seja . Não precisa estômago para digestão.) Carlos Drummond de Andrade NOTA SOCIAL O poeta chega na estação. O poeta desembarca. O poeta toma um auto. prisioneira de anúncios coloridos. Os homens não melhoram e matam-se como percevejos. felizmente. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra. . uma ovação o persegue feito vaia.você marcha. Foguetes. Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. Impossível escrever um poema . Discursos. Povo de chapéu de palha. para onde? Carlos Drummond de Andrade Se procurar bem você acaba encontrando. Se quer fumar um charuto aperte um botão. (Desconfio que escrevi um poema. estarei morto. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. Bandeirolas abrem alas.. Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Automóveis imóveis. Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda. Paletós abotoam-se por eletricidade. Não a explicação (duvidosa) da vida. Amor se faz pelo sem-fio. Os percevejos heróicos renascem. Carlos Drummond de Andrade O SOBREVIVENTE Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. Bandas de música. Inabitável. O poeta vai para o hotel. Bravos. Mas a poesia (inexplicável) da vida. José! José. O último trovador morreu em 1914. o mundo é cada vez mais habitado. Mas até lá.

O poeta está melancólico. na cachoeira. Não precisas ser amante. Carlos Drummond de Andrade CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO Alguns anos vivi em Itabira. Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. Porque amor não se troca. é semeado no vento. Amor é estado de graça e com amor não se paga. no sol danado. . Por isso sou triste. árvore que ninguém vê canta uma cigarra. e da morte vencedor. não se conjuga nem se ama. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra Carlos Drummond de Andrade AS SEM-RAZÕES DO AMOR Eu te amo porque te amo. O poeta entra no elevador o poeta sobe o poeta fecha-se no quarto. feliz e forte em si mesmo.árvore banal. por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Porque amor é amor a nada. Amor é dado de graça. Carlos Drummond de Andrade NO MEIO DO CAMINHO No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Canta. Principalmente nasci em Itabira. e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Amor é primo da morte. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. no eclipse. Eu te amo porque te amo. orgulhoso: de ferro.

que me paralisa o trabalho. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. Não peça. tive fazendas. doce boca (não provarei). Não conte. vem de Itabira. Mas como dói! Carlos Drummond de Andrade BOCA Boca: nunca te beijarei. bem sabes disto. Boca de outro que ris de mim. De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. é doce herança itabirana. só eu impossível.. beijas outro com seriedade. É a revolução? o amor? Não diga nada. E o hábito de sofrer. A vontade de amar. de suas noites brancas. zombas de minha raiva inútil.. sem mulheres e sem horizontes. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.Noventa por cento de ferro nas calçadas. Tive ouro. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. tive gado. Hoje sou funcionário público. Tudo é possível. Não ame. . O mar transborda de peixes. no milímetro que nos separa. Itabira é apenas uma fotografia na parede. este couro de anta. Carlos Drummond de Andrade SEGREDO A poesia é incomunicável. Oitenta por cento de ferro nas almas. Há homens que andam no mar como se andassem na rua. estendido no sofá da sala de visitas. Boca: se meu desejo é impotente para fechar-te. cabem todos os abismos. ris sem beijo para mim. que tanto me diverte. Fique torto no seu canto. esta cabeça baixa. este orgulho. Boca amarga pois impossível.

Para que tanta perna. um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai. As casas espiam os homens que correm atrás das mulheres. Tem poucos.Carlos Drummond de Andrade POEMA DAS SETE FACES Quando nasci. Sem ser Esquecer. pronunciado tão depressa. . Meu Deus. Carlos! ser gauche na vida. Er. e cabe tantas coisas? Repito: Ser. Vou crescer assim mesmo. Ser. um jeito. Mundo mundo vasto mundo. O homem atrás do bigode é sério. Não vou ser. por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. mais vasto é meu coração. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. não seria uma solução. ser? Dói? É bom? É triste? Ser. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome. Que é ser? É ter um corpo. Quase não conversa. Carlos Drummond de Andrade VERBO SER Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. pergunta meu coração. um nome? Tenho os três. corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. não houvesse tantos desejos. Ser. Porém meus olhos não perguntam nada. A tarde talvez fosse azul. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. meu Deus. simples e forte. Mundo mundo vasto mundo. R.

. não nos afastemos. puro fantasma que os passeia de leve. Estou preso à vida e olho meus companheiros. refletido. E eles quedam mordidos para sempre. os homens presentes. Não nos afastemos muito. Carlos Drummond de Andrade SENTIMENTAL Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. Carlos Drummond de Andrade MÃOS DADAS Não serei o poeta de um mundo caduco. mas o existido continua a doer eternamente. a vida presente. No prato. Nada. Não serei o cantor de uma mulher. Amor. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. não direi os suspiros ao anoitecer.Carlos Drummond de Andrade COTA ZERO STOP. Ninguém. considero a enorme realidade. assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. o tempo presente. vamos de mãos dadas. de uma história. A vida parou ou foi o automóvel? Carlos Drummond de Andrade DESTRUIÇÃO Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. cheia de escamas e debruçadas na mesa todos completam esse romântico trabalho. Entre eles. O presente é tão grande. e como o que era mundo volve a nada. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. deixaram de existir. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. a sopa esfria. Também não cantarei o mundo futuro. Dois amantes que são? Dois inimigos. a paisagem vista da janela. O tempo é a minha matéria. Um se beija no outro.

. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. Nada exige." Carlos Drummond de Andrade Amar o perdido deixa confundido este coração. mas do destino vão nega a sentença. tanto mais velho quanto mais amor.Desgraçadamente falta uma letra. não de cultivo alheio ou de presença. e resplandece no seu canto obscuro. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. mas pobre de esperança. E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar. o antigo amor. porém. Carlos Drummond de Andrade (Amar se aprende amando) CIDADEZINHA QUALQUER Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Mais triste? Não. essas ficarão. e por estas suplanta a natureza. O amor antigo tem raízes fundas. feitas de sofrimento e de beleza. Ele venceu a dor.Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando. uma letra somente para acabar teu nome! .. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Por aquelas mergulha no infinito. Carlos Drummond de Andrade O AMOR ANTIGO O amor antigo vive de si mesmo. Nada espera.. nem pede. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão Mas as coisas findas muito mais que lindas. Mais ardente.

por que o Governo . Eta vida besta. as janelas olham. Teu ponteiro enlouqueceu. Sim. minha flor. porque te foste Carlos Drummond de Andrade ASSANHAMENTO 8. Sim. tendo-a ao meu lado. a me ajudar. acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste. a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão para sentir saudade de ti. por favor". Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste a vida geral. Antecipaste a hora.. tenho saudades. meu Deus.VIII. o ato em si. mesmo os mais complicados e mais vários. Carlos Drummond de Andrade A UM AUSENTE Tenho razão de sentir saudade. Devagar.Um homem vai devagar. nem isso. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação.1970 Que venha o censo de 70 e com ele venha a recenseadora mais bacana. de nossa convivência em falas camaradas. enlouquecendo nossas horas. com voz de acúcar (a doce voz é a melhor senha): "Preencha direitinho este questionário. é claro. aquela que ao dizer." Ah. Um burro vai devagar. tenha sempre dos homens a resposta: "Por você. passando a vida inteira a preenchê-los.. Um cachorro vai devagar. tenho razão de te acusar. preencho tudo. simples apertar de mãos. sou capaz até de reclamar duzentos questionários. Detonaste o pacto. voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.

mercadorias. sem armas. todos os impostos.não faz todo ano um censo cem por cento com uma garota assim. vou de branco pela rua cizenta. como perdoá-los? Tomei parte em muitos. Ração diária de erro. Alguns achei belos. O tempo é ainda de fezes. bondes. revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não. outros escondi.terrível . Os ferozes leiteiros do mal. Todos os homens voltam pra casa. As coisas. Que triste são as coisas. alucinações e espera. O sol consola os doentes e não os renova. garanto que uma flor nasceu. Nenhuma carta escrita nem recebida. inclusive . maus poemas. Vomitar este tédio sobre a cidade. Devo seguir até o enjôo? Posso. Porém meu ódio é o melhor de mim. Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima. o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. rompe o asfalto. sabendo que o perdem. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo. Em vão me tento explicar. o tempo não chegou de completa justiça. Crimes suaves. O tempo pobre. inclusive em mim. distribuída em casa. Melancolias. paralisem os negócios. ônibus. a censear? Por que não reformula a engrenagem severa da Fazenda e bota a coleção dessas meninas cobrando a domicílio (pois resistir quem há-de ao seu veneno) todas as taxas. . Pôr fogo em tudo. consideradas em ênfase. foram publicados. Sob a pele das palavras há cifras e códigos.o de renda? Carlos Drummond de Andrade (Amar se aprende amando) A FLOR E A NÁUSEA Preso à minha classe e a algumas roupas. espreitam-me. Crimes da terra. que ajudam a viver. sequer colocado. Quarenta anos e nenhum problema resolvido. os muros são surdos. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia. Ao menino de 1918 chamavam anarquista. rio de aço do tráfego. Uma flor nasceu na rua! Passem de longe. Façam completo silêncio. Os ferozes padeiros do mal.

a renúncia. Maria ficou para tia. É feia. Porque o amor resultou inútil. os problemas te dispensam de morrer. . dormindo. Aceitas a chuva. sozinho. Seu nome não está nos livros. o sangue-frio. a guerra. e preconizam a virtude. João foi para os Estados Unidos. Carlos Drummond de Andrade QUADRILHA João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. a concepção. o desemprego e a injusta distribuição porque não podes. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. É feia. Pequenos pontos brancos movem-se no mar. nuvens macias avolumam-se. Coração orgulhoso. o tédio. sentes calor e frio. Tempo de absoluta depuração. muitíssimo tempo de semear. dinamitar a ilha de Manhattan. Furou o asfalto. Ao telefone perdeste muito. Teresa para o convento. À noite. Raimundo morreu de desastre. Do lado das montanhas. fome e desejo sexual. falta de dinheiro. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Suas pétalas não se abrem. pequenino. tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. galinhas em pânico. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Carlos Drummond de Andrade ELEGIA 1938 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco. Mas é uma flor. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe. abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.Sua cor não se percebe. Mas é realmente uma flor. o nojo e o ódio. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que. Tempo em que não se diz mais: meu amor. onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. se neblina. Carlos Drummond de Andrade OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas. Praticas laboriosamente os gestos universais. em face de indecifráveis palmeiras.

justiça entre os homens e as nações. você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita. Pouco importa venha a velhice. a luz apagou-se. tem de fazê-lo novo. As guerras. achando bárbaro o espetáculo. mas tente. mas com ele se come. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. se compreende. eu sei que não é fácil. sem mistificação. direitos respeitados. consciente. Alguns. que de tão perfeito nem se nota. . experimente. que é a velhice? Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. as fomes. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade. És todo certeza. Chegou um tempo em que não adianta morrer. você. tem de merecê-lo. Carlos Drummond de Andrade RECEITA DE ANO NOVO Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris.E os olhos não choram. se trabalha. espontâneo. não abrirás. Em vão mulheres batem à porta. E nada esperas de teus amigos. se ama. já não sabes sofrer. recompensa. E o coração está seco. meu caro. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo. ou da cor da sua paz. não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. A vida apenas. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo. Ficaste sozinho. liberdade com cheiro e gosto de pão matinal. remendado às carreiras. prefeririam (os delicados) morrer. se passeia. começando pelo direito augusto de viver.

sobre a montanha. e aves pairassem no céu de chumbo. noturno e miserável. assim me disse. e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco.. pedregosa. mas hermética. Carlos Drummond de Andrade A MÁQUINA DO MUNDO E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério. e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los. e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior.. olha. a outro alguém. em coorte. nos abismos. a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. repara. vê. convidando-os a todos. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste. contempla. Abriu-se em calma pura. essa ciência sublime e formidável. sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto. Abriu-se majestosa e circunspecta. vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos. abre teu peito para agasalhá-lo.” . esse nexo primeiro e singular.É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. essa total explicação da vida. que nem concebes mais. em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém. e a cada instante mais se retraindo. mesmo afetando dar-se ou se rendendo.

pois a fé se abrandara. suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses. o que nas oficinas se elabora. não mais aquele habitante de mim há tantos anos. os recursos da terra dominados. e mesmo o anseio.As mais soberbas pontes e edifícios. pedregosa. passasse a comandar minha vontade que. desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. É muito menor. e o solene sentimento de morte. meu coração não é maior que o mundo. Nele não cabem nem as minhas dores. na estranha ordem geométrica de tudo. já de si volúvel. e a máquina do mundo. como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando. e como se outro ser. que floresce no caule da existência mais gloriosa. seguia vagaroso. afinal submetido à vista humana. como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso. repelida. e o absurdo original e seus enigmas. enquanto eu. . A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas. e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios. como se um dom tardio já não fora apetecível. Carlos Drummond de Andrade Mundo grande Não. se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas. antes despiciendo. de mãos pensas. Mas. avaliando o que perdera. baixei os olhos. tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto. incurioso. dá volta ao mundo e torna a se engolfar. se foi miudamente recompondo. o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento. a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra. lasso.

entre o fogo e o amor. as sonatas. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos. Tu sabes como é grande o mundo. Meus amigos foram às ilhas. as confissões patéticas. tão calma. os poemas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam. A rua é enorme. Por isso me dispo. Estúpido.. muito maior do que eu esperava. Em verdade sou muito pobre. Escuta a água nos vidros. o grande mundo está crescendo todos os dias. O mundo é grande. Conheces os navios que levam petróleo e livros. Entre o amor e o fogo. Mas também a rua não cabe todos os homens.. – Ó vida futura! Nós te criaremos. entre a vida e o fogo.. sabes como é difícil sofrer tudo isso. Então. as diferentes dores dos homens. Só agora vejo que nele não cabem os homens. Nunca escutei voz de gente. meu coração também pode crescer. estão na rua. amontoar tudo isso num só peito de homem. Ilhas perdem o homem. sem que ele estale. por isso me grito. . por isso freqüento os jornais. fáceis de habitar. ilhas sem problemas. Outrora viajei países imaginários. carne e algodão. Maior.Por isso gosto tanto de me contar. meu coração cresce dez metros e explode. Entretanto escorre nas mãos. meu coração é muito pequeno.) Outrora escutei os anjos. A rua é menor que o mundo.. não anuncia nada. ridículo e frágil é meu coração. Fecha os olhos e esquece. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. Viste as diferentes cores dos homens. tão calma! Vai inundando tudo. Os homens estão cá fora. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. Sim.

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