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ESCRAVA DO SENHOR

– A vocação de Maria.

– Deus chama-nos.

– Meios para conhecer a vontade do Senhor.

I. O MEU ESPÍRITO exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque pôs


os olhos na baixeza da sua escrava1.

Quando chegou a plenitude dos tempos, o anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré2. O Senhor dirige-se a quem mais
amava nesta terra e serve-se para isso de um mensageiro excepcional, pois
era excepcional a mensagem que lhe queria comunicar: Não temas, Maria,
pois achaste graça diante de Deus...3, diz-lhe o Arcanjo São Gabriel.

A Virgem, como fruto da sua meditação, conhecia bem as Escrituras e as


passagens que se referiam ao Messias, e eram-lhe familiares as diversas
formas empregadas para designá-lo. Além disso, unia-se a esse conhecimento
a sua extraordinária sensibilidade interior para tudo o que dizia respeito ao
Senhor. Num instante, por uma graça particular, foi-lhe revelado que ia ser a
Mãe do Messias, do Redentor de quem tinham falado os Profetas. Ia ser a
virgem anunciada por Isaías4, que conceberia e daria à luz o Emmanuel, o
Deus conosco. A resposta da Virgem é uma reafirmação da sua entrega à
vontade divina: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua
palavra5.

A partir desse momento, o Verbo de Deus, a Segunda Pessoa da


Santíssima Trindade, fez-se carne nas suas entranhas puríssimas. Foi o que
de mais admirável e assombroso aconteceu desde a Criação do mundo. E
aconteceu num pequeno povoado desconhecido, na intimidade de Maria. A
Virgem compreendeu a sua vocação, os planos de Deus a seu respeito. Agora
sabia o motivo de tantas graças do Senhor, a razão das suas qualidades, por
que tinha sido sempre tão sensível às inspirações do Espírito Santo. “Todos os
pequenos episódios que constituíam a trama da sua existência – e essa
mesma existência na sua totalidade – ganhavam agora um relevo imprevisto;
ao som das palavras do anjo, tudo teve uma explicação absoluta, mais que
metafísica, sobrenatural. Foi como se, de repente, a Virgem se tivesse
colocado no centro do universo, para além do tempo e do espaço”6.

E Ela, uma adolescente, não titubeia diante da grandeza incomensurável de


ser a Mãe de Deus, porque é humilde e confia no seu Deus, a quem se
entregou plenamente. A Virgem Santa Maria é “Mestra de entrega sem limites
[...]. Pede a esta Mãe boa que ganhe força na tua alma – força de amor e de
libertação – a sua resposta de generosidade exemplar: «Ecce ancilla Domini» –
eis a escrava do Senhor”7. Senhor, conta comigo para o que quiseres. Não
quero pôr limite algum à tua graça, ao que me vais pedindo todos os dias,
todos os anos. Nunca deixas de pedir, nunca deixas de dar.

II. “ESTE FACTO FUNDAMENTAL de ser a Mãe do Filho de Deus é, desde


o princípio, uma abertura total à pessoa de Cristo, a toda a sua obra e à sua
missão”8.

Neste terceiro dia da Novena da Imaculada, a Virgem ensina-nos a estar


sempre abertos a Deus, numa entrega plena à chamada que cada um recebe
do Senhor. A grandeza de uma vida consiste em podermos dizer ao fim dela:
Senhor, sempre procurei cumprir a tua vontade, não tive outro fim nesta terra.

A vocação a que fomos chamados é o maior dom recebido de Deus, o dom


para o qual o Senhor nos criou, aquilo que nos torna felizes. Deus chama-nos a
todos e quer algo importante de nós, desde o momento em que nos chamou à
existência. A grandeza do homem consiste em conhecer a vontade divina e
levá-la a cabo, tornando-se colaborador de Deus na obra da Criação e da
Redenção. Encontrar a vocação é encontrar um tesouro, a pérola preciosa9.
Gastar todas as energias nela é encontrar o sentido da vida, a plenitude do ser.

Deus chama alguns à vida religiosa ou ao sacerdócio; “mas quer a grande


maioria dos homens no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes
cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que desenvolvem
as suas tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina
do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha”, e ali
devem eles agir “de tal modo que, através das acções do discípulo, se possa
descobrir o rosto do Mestre”10.

Contemplando a vocação de Santa Maria, compreendemos melhor que as


chamadas feitas pelo Senhor são sempre uma iniciativa divina, uma graça que
parte d’Ele: Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi11. Não
poucas vezes, cumprem-se ao pé da letra as palavras da Escritura: Os meus
caminhos não são os vossos caminhos...12 O que tínhamos forjado na nossa
imaginação, talvez com tanto entusiasmo, tem às vezes pouco a ver com os
projectos do Senhor, que sempre são maiores, mais altos e mais belos.

A vocação também não é a culminância de uma vida de piedade intensa,


ainda que normalmente seja necessário um clima de oração e de amor para
entender o que Deus nos diz silenciosamente, sem muito ruído. Nem sempre
coincide com as nossas inclinações e gostos, ordinariamente muito humanos e
pegados à terra. A vocação não pertence à ordem do sentimento, mas à ordem
do ser; é algo objectivo que Deus nos preparou desde sempre. Em cada
homem, em cada mulher, cumprem-se as palavras de São Paulo aos cristãos
de Éfeso13, tantas vezes meditadas: Elegit nos in ipso ante mundi
constitutionem..., “o Senhor escolheu-nos antes da criação do mundo, por
amor, para sermos santos e imaculados na sua presença”.

Ordinariamente, Deus procura para as suas obras pessoas correntes,


simples, às quais comunica as graças necessárias. Ensina São Tomás,
referindo-se à Virgem, que “àqueles a quem Deus escolhe para uma missão,
prepara-os de modo que sejam idóneos para desempenhar essa missão para a
qual foram escolhidos”14. Isso é válido para todos nós. Portanto, se alguma vez
nos parece difícil levarmos a cabo a missão a que fomos chamados, sempre
poderemos dizer: porque tenho vocação para esta missão, tenho as graças
necessárias e poderei cumpri-la. Deus me ajudará, se fizer tudo o que está ao
meu alcance.

O Senhor pode preparar uma vocação desde a infância, mas também pode
apresentar-se de modo súbito e inesperado, como aconteceu com São Paulo
na estrada de Damasco15. Geralmente, serve-se de outras pessoas para
preparar a chamada definitiva ou para dá-la a conhecer. Com frequência, são
os próprios pais quem, mesmo sem o perceberem, cumprindo a sua missão de
educadores na fé, preparam o terreno onde germinará a semente da vocação,
que só Deus põe na alma. Que grandeza poderem ser assim instrumentos de
Deus! O que não fará Deus por eles? Outras vezes, serve-se de um amigo ou
de uma moção interior que penetra como espada de dois gumes, e,
frequentemente, das duas coisas ao mesmo tempo.

Se existe um verdadeiro desejo de conhecer a vontade de Deus, se se


empregam os meios sobrenaturais e a alma é sincera na direcção espiritual, o
Senhor dá então muito mais garantias de acertar na própria vocação do que
em qualquer outro assunto. “Queres viver a audácia santa, para conseguir que
Deus actue através de ti? – Recorre a Maria, e Ela te acompanhará pelo
caminho da humildade, de modo que, diante dos impossíveis para a mente
humana, saibas responder com um “fiat!” – faça-se! – que una a terra ao
Céu”16. É uma audácia que nos será necessária no momento em que
dissermos sim a Deus e seguirmos a nossa vocação, e depois muitas vezes ao
longo da vida, pois Deus nos chama todos os dias, a todas as horas. E se
alguma vez depararmos com “impossíveis”, deixarão de sê-lo se formos
humildes e contarmos com a graça, como fez nossa Mãe Santa Maria.

III. A VIRGEM ENSINA-NOS que, para acertarmos no cumprimento da


vontade divina (que pena se nos tivermos empenhado – por uns caminhos ou
outros – em satisfazer os nossos caprichos!), é necessária uma disponibilidade
completa. Só podemos cooperar com Deus quando nos entregamos
completamente a Ele, deixando-o agir na nossa vida com total liberdade. “Deus
não pode comunicar a sua vontade se não começa por haver na alma da
criatura esta apresentação íntima, esta consagração profunda. Deus respeita
sempre a liberdade humana, não actua directamente nem se impõe a não ser
na medida em que o deixamos agir”17.

A vida da Virgem Maria indica-nos também que, para ouvirmos o Senhor em


todas as circunstâncias, devemos esmerar-nos no trato com Ele: ponderar,
como Ela, as coisas no nosso coração, dar-lhes peso e conteúdo sob o olhar
de Cristo: aprender a meditar, levantar o ponto de mira dos nossos ideais. A
direção espiritual, junto com a oração, pode ser de grande ajuda para
entendermos o que Deus quer e vai querendo de nós. E também o será o
desprendimento dos nossos gostos, para aderirmos com firmeza àquilo que
Deus nos pede, ainda que alguma vez possa parecer-nos difícil e árduo.

A resposta da Virgem foi como um programa daquilo que seria depois a sua
vida: Ecce ancilla Domini... Ela não teria outro fim senão cumprir a vontade de
Deus. Podemos deixar hoje nas mãos da Virgem um sim que Ela possa
apresentar ao seu Filho, um sim sem reservas nem condições, que perdure e
se desdobre em outros sins ao longo da nossa vida.

(1) Missas da Virgem Maria, Santa Maria Escrava do Senhor; Lc 1, 47-48; Antífona de
entrada da Missa do dia 2 de Dezembro; (2) Lc 1, 26; (3) Lc 1, 30-33; (4) Is 7, 14; (5) Lc 1, 38;
(6) F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, pág. 14; (7) cfr. São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 33;
(8) João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater; (9) cfr. Mt 13, 44-46; (10) São Josemaría Escrivá, É
Cristo que passa, n. 105; (11) Jo 15, 16; (12) Is 55, 8; (13) Ef 1, 4; (14) São Tomás, S.Th., III, q.
27, a. 4 c; (15) cfr. At 9, 3; (16) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 124; (17) M. D.
Philippe, Mistério de Maria, págs. 86-87.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)