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FFCL – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras LITERATURA BRASILEIRA I Profa.

: Sueli Aluna: Murilane Cristina Ribeiro Otaviano

Fichamento: A Carta, de Pero Vaz de Caminha “A partida de Belém (...), segunda-feira 9 de março...” “E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira da Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita ilha (...) os quais eram muita quantidade de ervas, a que os mareantes chamam Botelho (...).E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves (...)” “Mandou lançar o prumo (...), fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo navios pequenos diante...” “E dali avistamos homens que andavam pela praia, (...), segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro”. “Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. (...) Mas não pode deles haver falar nem entendimento que aproveitasse, por o mar na costa (...). E com isto se volveu à naus por ser tarde e não poder haver deles mais falar, por causa do mar”. “E sexta pela manhã (...), mandou o Capitão levantar âncoras e fazer velas (...). Fomos ao longo, (...), se achassem pouso seguro para naus, que amainassem”. “(...) E um pouco antes do sol-posto amainaram também, (...) e ancoraram também a onze braças.” “(...) E na praia andavam muitos com seus arcos e setas, mas não os aproveitou. (...), levou-os à Capitania, onde foram recebidos com muito prazer e festa”. “A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhado, de bons rostos e bons nariz, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar suas vergonhas do que de mostrar a cara (...)”. “O Capitão, quanto eles vieram, estava sentado em uma cadeira,(...), e bem vestido com um colar de ouro, (...) Acenderam tochas. E eles entraram. (...) Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizermos que havia ouro na terra (...), como se lá também houvesse prata!” “Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim desejarmos (...)” “Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela (...) mandou o (...) fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixou ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso (...). E mandou ficar com eles (...)um mancebo degredado (...), para lá

.. daquelas já ditas. com arcos e setas na mão. e a bandeira conosco (. nem fazer escândalos. E alguns aguardavam e outros se afastavam. “Ali andavam entre eles três ou quatro moças. e setas e contas. se não se envergonhavam”.). toda tingida daquela tintura preta e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas.. novas..) armar um pavilhão naquele ilhéu.)” “Esse que o agasalhou era já de idade.) “Dali se partiram os outros.. E ali todos nós outros fez dizer missa (..)” “Ao domingo de Pascoela pela manhã... E eles os depuseram (. bem novinhas e gentis... com cabelos muito pretos e compridos pelas costas. e nós levamo-lo (.).. a coisa era de maneira que todos andavam misturados (.)” “este ilhéu.” “Fomos todos nos batéis em terra....andar com eles e saber de seu viver e maneiras (.” “(. espraia muita a água e descobre muita areia e muito cascalho (..” “E concordaram em que não era necessário tomar por forças homens... e resgatavam-nas por qualquer coisa.). Com tudo.) Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres. para os de todo amansar e apaziguar... dois mancebos. como ontem... e suas .) Então tornamo-nos à naus (.. que assim nuas. E então veio-se.) Mas logo o tornaram a nós (.. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos. de tal maneira que nossos levavam dali para as naus muitos arcos.. onde fomos ouvir missa e sermão. unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos....” “(. de as nós muito bem olharmos. todos nus.)” “E portanto não descuidássemos de aqui por força tomar ninguém. Aqueles que nós levamos acenaram-lhe que se afastacem e depusessem os arcos.)” “À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outro capitães das naus em seus batéis a folgar pela bafa. e suas vergonhas. mas sim. do joelho até o quadril e a nádega. “(. por irmos na nossa viagem... Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas.) Ali acudiram logo perto de duzentos homens. e dentro levar um altar mui bem arranjado. não pareciam mal.) E ali pararam (.) se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza. perto da praia (. determinou o capitão (. pegadas pelo corpo (. armados. que não os vimos mais”.. cheio de penas. e andava por galanteria... para melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber..)” “Enquanto assistimos à missa e ao sermão. Entre elas andava uma. pouco mais ou menos. porque o costume era dos que assim à força levaram para alguma parte dizem que há de tudo quanto lhes perguntaram (.). e também os colos dos pés. tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que... estaria na praia outra tanta gente.. deixando aqui em lugar deles outros dois degredados. com uma coxa. com seus arcos e setas (.

).) fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade.para os bem amansarmos !” “(.” “E tudo se passa como eles querem -. outros de tanta feição como em pano de ras... de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Alguns traziam uns ouriços verdes. e com tanta inocência assim descobertas. outros de metades. brincaram com eles. por mais que a gente lhe perguntava com respeito a ouro. dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.) porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham. Mas na pernas da mãe. na presença de todos nós. (. e no resto. mas não tantos como as outras vezes.. e bastantes sem ossos. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito. de nenhum valor (... com um menino ou menina.)”. creio. tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes.. enquanto o Capitão esteve com ele. que na cor queriam parecer de castanheiras. e o ar em que se criam os faz tais...). nova.vergonhas tão nuas.. Ao longo dele há muitas palmeiras. não havia pano algum. E trazia metido no buraco uma pedra verde. Colhemos e comemos muitos deles. E faziam-no bem.” “(. atado com pano aos peitos. Ali vieram então muitos. saímos todos em terra a tomar água. de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. e muito bons palmitos. e foram-se para cima. embora fossem muito mais pequenos. e salto real. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras. muitos com os ossos neles. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves. uns diante os outros.). E depois houve-a o Capitão.) Falou. nem ele a nós... Mas apesar de tudo isso andam bem curados. porque desejávamos saber se o havia na terra.” “Andamos por aí vendo o ribeiro. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas. e muito limpos (. nem coisa que se pareça com elas.. e todos com os beiços furados. andando no chão.. depois de comer.” “E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando. Especiarias: “Segunda-feira. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes (. não muito altas.).” Maquiagem: “E segundo diziam esses que lá tinham ido.. por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas.” “Também andava lá outra mulher. o qual é de muita água e muito boa. sem se tomarem pelas mãos. uns verdes.” “Trazia este velho o beiço tão furado (. outros amarelos.. mas ninguém o entendia. e por isso tão esquiva. de árvores.” “Mandou o Capitão aquele degredado (. E estavam cheios de uns grãos .. para mandar com outras coisas a Vossa Alteza. que não havia nisso desvergonha nenhuma.

).Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez. de fonte a fonte. grandes e pequenos. sem arcos e sem nada (. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem..” Estratégia: “E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles. e cobertas de palha. E tinha cada casa duas portas pequenas.” . tinham de dentro muitos esteios. e todas de um só espaço. as quais diziam que eram tão compridas. altas.. e que assim os encontraram. uns sessenta ou setenta. mas eu não as vi. quando muito. e das ilhargas de tábuas.” Estilo: “Todos andam rapados até por cima das orelhas. Outras aves não vimos então.) haveria nove ou dez casas. (. e as setas compridas.. pequeninos que.).. Moradia: “Foram-se lá todos. cada uma..).. E eram de madeira. de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Vários diziam que viram rolas.” “Terça-feira. tintas de tintura preta. em que dormiam. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam (. e não quiseram que lá ficasse nenhum. faziam seus fogos.. não duvido que por esse sertão haja muitas aves!” Armas indigenas: “Os arcos são pretos e compridos. especialmente lacão cozido frio. se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. como esta nau capitaina. E de baixo.. e pardos. e para lavar roupa. e de infinitas espécies.. para se aquentarem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar. porque eles não tem coisa que de ferro seja (. que parece uma fita preta da largura de dois dedos.. Trazem todos as testas. tanto mais vermelhos ficavam. sem repartição alguma. fomos em terra.. E lutavam com os nossos. quando chegamos. e outra na oposta.(. e outras sementes que na terra dá. e pareceramme maiores bastante do que as de Portugal. e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham.” Fauna: “Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha. e tomavam com prazer..). que eles comem...). E de tudo quanto lhes deram. e andaram entre eles. a não ser algumas pombas-seixeiras. a saber muito inhame. e arroz.).vermelhos. esmagando-se entre os dedos. e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio.” Culinária Européia: “Quinta-feira. e os ferros delas são canas aparadas (. depois de comer. Estavam na praia. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes. de razoável altura. assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.. uma numa extremidade. verdes uns. E quanto mais se molhavam. fazer lenha. outros.) Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros (. comeram mui bem. derradeiro de abril (.. atravessavam alguns papagaios essas árvores. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas.

E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!” Cultura de subsistência: “Eles não lavram nem criam (. armaram altar ao pé dela. viriam bem cento cinqüenta. não duvido que eles. que viessem ali. não lhes falece outra coisa para ser toda cristã.. marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar (. E portanto Vossa Alteza. uns setenta ou oitenta. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam. sexta-feira. e quando nos assim viram chegar. e logo foram todos beijá-la. Andando-se ali nisto. acenaram-lhes que fizessem o mesmo. (. E bem creio que..). do que entenderem-nos.” “Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica. e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.)” Ervangelização: “E segundo o que a mim e a todos pareceu. e fomos colocá-la onde havia de ficar. saímos em terra com nossa bandeira. Plantada a cruz. que nos erguemos todos em pé.. (. com as armas e a divisa de Vossa Alteza. e acabada a pregação (. E a essesdez ou doze que lá estavam. deve cuidar da salvação deles. pela manhã. E não comem senão deste inhame. se alguém vier. se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande.” . com as mãos levantadas. ou mais. à qual praza a Nosso Senhor que os traga. que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza.. alguns se foram meter debaixo dela. disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore. e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem. estando assim até se chegar ao fim. visto que não têm nem entendem crença alguma. eles se levantaram conosco. se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa. por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. a fim de ser colocada amanhã.).” Ritual Religioso: “E hoje que é sexta-feira.. E assim fizemos. ao longo da praia.. seriam logo cristãos. E quando se veio ao Evangelho.). como nós (. Eram já aí quantidade deles. segundo a santa tenção de Vossa Alteza.). chamava alguns. e alçaram as mãos. junto ao rio. não deixe logo de vir clérigo para os batizar. ajudar-nos. esta gente.. primeiro dia de maio. à frente. porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos. E por isso..).). e então tornaramse a assentar. Passamos o rio. de que aqui há muito. a modo de procissão. porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade (... e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos.. que primeiro lhe haviam pregado. E aquele que digo.” “ Parece-me gente de tal inocência que. fomos trazendo-a dali. porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé. se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé. Alguns vinham e outros iam-se. que será obra de dois tiros de besta do rio. segundo as aparências.. os quais hoje também comungaram. pelos dois degredados que aqui entre eles ficam...Cristianização: “Ao sairmos do batel.

Quanto mais..” Votos de obediência: “Beijo as mãos de Vossa Alteza.” Colonização: “Contudo. acrescentamento da nossa fé!” Troca de favores: “E pois que. ou ferro. a Ela peço que. mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório. disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja. meu genro -. nem lha vimos. vista do mar. Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida. e outras brancas.o que d'Ela receberei em muita mercê. da ponta que mais contra o sul vimos. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. De ponta a ponta é toda praia. será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. a saber. por me fazer singular mercê.” Mineral: “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela. até à outra ponta que contra o norte vem. Pelo sertão nos pareceu.Extenção Geográfica: “Esta terra. muito grande (.. e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras. Senhor. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente.) terra que nos parecia muito extensa. Senhor. parece-me que. é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for. muito chã e muito formosa.” Pero Vaz de Caminha. .. umas vermelhas. ou outra coisa de metal. de que nós deste porto houvemos vista..