DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

1

Índice
ENERGIA

Expediente
ECONOMIA

5

7
Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa

Ano XIV - no 53 - Dez/Jan/Fev - 10/11 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Arthur Chagas Diniz Elcio Anibal de Lucca Alencar Burti Paulo de Barros Stewart Jorge Gerdau Johannpeter Jorge Wilson Simeira Jacob José Humberto Pires de Araújo Raul Leite Luna Ricardo Yazbek Roberto Konder Bornhausen Romeu Chap Chap CONSELHO EDITORIAL Arthur Chagas Diniz - presidente Alberto Oliva Aloísio Teixeira Garcia Antônio Carlos Porto Gonçalves Bruno Medeiros Cândido José Mendes Prunes Jorge Wilson Simeira Jacob José Luiz Carvalho Luiz Alberto Machado Nelson Lehmann da Silva Octavio Amorim Neto Roberto Fendt Rodrigo Constantino William Ling Og Francisco Leme e Ubiratan Borges de Macedo (in memoriam) DIRETOR / EDITOR Arthur Chagas Diniz JORNALISTA RESPONSÁVEL Ligia Filgueiras RG nº 16158 DRT - Rio, RJ PUBLICIDADE / ASSINATURAS: E-mail: il-rj@dh.com.br Tel: (21) 2539-1115 - r. 221 FOTOS ImagePlus, Photodisk e Wikipedia.

O SETOR DE ENERGIA E O GOVERNO DILMA ROUSSEFF
Adriano Pires

A DESPESA DE PESSOAL E A EXPANSÃO DO GASTO PÚBLICO NO BRASIL
Raul Velloso

DESTAQUE

11

MATÉRIA

DE

CAPA

15

A ENERGIA NUCLEAR E A RELAÇÃO BRASIL/IRÃ
Marcos de Azambuja

Marcel Solimeo e Ulisses Gamboa

REGULAÇÃO E PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NA ECONOMIA

ESPECIAL

22

EDUCAÇÃO

23

O BOM, O MAU E O FEIO
Uma visão liberal do fato

LIBERDADE E TECNOLOGIA
José L. Carvalho

LIVROS

26

Nesta Edição

INSTITUTOS LIBERAIS
BRASÍLIA SCLN 107 - Bl. B - sala 206 70743-520 - Brasília - DF Telefax: (61) 3447-3149 E-mail: lehmannnelson@terra.com.br MINAS GERAIS E-mail: garciaead@yahoo.com.br RIO DE JANEIRO Rua Maria Eugênia, 167 - Humaitá 22261-080 - Rio de Janeiro - RJ Tel/Fax: (21) 2539-1115 E-mail: ilrj@gbl.com.br Internet: www.institutoliberal.org.br RIO GRANDE DO SUL Av. Ipiranga, 6681 - Prédio 96B, conj. 107 TECNOPUC - 90619-900 - Porto Alegre - RS Telefax: (51) 3332-2376 E-mail: il-rs@il-rs.com.br Internet: www.il-rs.com.br SÃO PAULO E-mail: lmachado@spo.matrix.com.br

O DEMOLIDOR DE UTOPIAS
por Rodrigo Constantino

NOTAS PEC 300 E SEUS DERIVATIVOS REALIZAÇÃO

BANCO DE IDÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.

Leitores
Sua opinião é da maior importância para nós. Escreva para Banco de Idéias.
Prezado editor, A eleição de Dilma Rousseff, notória esquerdista, com um passado de guerrilheira não sei se trotskista ou marxista, e seu competidor, o deputado José Serra, igualmente de vertente socialista, me trazem à reflexão temas que são caros a nós Liberais, tais como a liberdade, o direito de propriedade, a economia de mercado, o Estado de Direito e outros correlatos. Não há no país nenhuma corrente que contradiga os avanços que o Estado vêm efetuando não apenas em matéria legislativa como em interferências de natureza econômica e, até mesmo, reestatizações. Não há mais esperanças? Maria da Conceição Batista São José dos Campos – SP Prezada leitora, É verdade que os dois concorrentes eram de vias francamente socialista. Dilma, em especial, tem patrocinado questões de viés socialistas. O ministro Franklin Martins não esconde sua insatisfação com a imprensa. O governo Lula tentou, até o fim, criar um modelo de controle social da mídia, tentando caracterizar a medida como parte de um elenco de defesa dos direitos humanos. Acho que manter a imprensa livre é a principal batalha que enfrentamos agora, pois qualquer medida de restrição ao direito de informação reduz drasticamente nosso direito à liberdade, e sem liberdade não há Estado de Direito. A luta, D. Conceição, tem que ser determinada, porque embora Dilma afirme que respeita a liberdade de imprensa, sua matriz é contrária à mesma. Casos como os do Peru, Chile e Colômbia nos fazem acreditar que é possível reverter o quadro. Mas não é fácil. O editor Envie as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 Humaitá - Rio de Janeiro - RJ 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br.

Editorial
omo de hábito, os articulistas de Banco de Idéias são intelectuais ou profissionais de prestígio. Em alentado artigo, os economistas Marcel Solimeo e Ulisses Gamboa dão conta de que numerosos políticos e analistas consideram que a crise de 2008 era consequência direta do capitalismo, quando deixado entregue às suas próprias forças, pois as “falhas de mercado”, quando não corrigidas pela ação do Estado, levariam à autodestruição do Sistema. Existe farta literatura mostrando as imperfeições da economia de mercado, o que exige “intervenções” do governo para corrigir “as falhas” em nome “do interesse da sociedade” ou para promover a “justiça social”. Por isso se discute as falhas de governo que sempre provocam mais distorções do que aquelas que pretende corrigir. Adriano Pires, especialista em energia, faz uma análise prospectiva das alternativas que o governo Dilma Rousseff pode adotar. A partir da criação da estatal Petrosal e do aumento de capital efetuado pelo Tesouro Nacional, subscrito com “barris de petróleo futuro” na Petrobras, a União não apenas aumentou sua participação como controladora como vai obrigar a Petrobras a extraordinárias despesas. A transformação da área do pré-sal em monopólio e a suspensão do regime de concessões para exploração vai obrigar a estatal a sucessivas capitalizações. Igualmente foi mudado o regime de royalties, com enormes prejuízos financeiros para os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Prevê-se que a Petrobras deverá expandir sua participação no setor do etanol, estabelecendo parcerias no setor sucroalcooleiro. O economista Raul Velloso mostra, com sua habitual precisão, a evolução das despesas com o pessoal da União. Elas têm crescido sistematicamente em ritmo superior ao crescimento do PIB. Tudo se passa como se tivesse uma economia de escala às avessas. Velloso questiona, igualmente, a remuneração dos servidores públicos no que diz respeito à política de repassar todos os ganhos reais decorrentes do crescimento da economia. Velloso é manifestamente contrário a esta política, ainda mais que

C

aposentados e pensionistas se beneficiam da mesma, com impacto do “déficit” previdenciário. O intelectual e embaixador Marcos de Azambuja examina as relações Brasil e Irã, e as possibilidades de sua repercussão em um eventual programa nuclear no Brasil. Azambuja afirma que a adesão do país ao Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares se deve ao fato de não termos inimigos potenciais. A Argentina, terminados os anos de governos autoritários, o que levou o Brasil à tentativa de controlar o ciclo completo com a aquisição das Centrais Nucleares de Angra dos Reis, aventura milionária que nunca se mostrou eficaz para o que se propunha. Afastada a motivação (conflito com a Argentina), inexiste no caso brasileiro a necessidade de aquisição de um arsenal nuclear para fazer frente a eventuais inimigos. Restaria ao governo brasileiro a opção de dominar o ciclo completo de energia nuclear em busca de um lugar de maior prestígio entre as nações. O Prof. José L. Carvalho avalia a importância da educação, especialmente para os países em desenvolvimento. Ela promove o bem- estar do indivíduo, desenvolvendo suas habilidades para competir por recursos escassos. Em NOTAS, examinamos a PEC 300 e seus derivativos, propondo um aumento generalizado para os órgãos de segurança interna, nomeadamente: polícia federal, ferroviária, rodoviária, civil, militares e corpo de bombeiro. A ideia central da PEC é equiparar as remunerações de todo este grupo de servidores. Os congressistas estão entre duas pressões. É uma medida que interfere diretamente nos governos estaduais, obirgando-os a passar ao governo Federal parte das despesas com o aumento. NOTAS entende que a imposição de um saláriopiso em qualquer mercado de trabalho discrimina contra os menos qualificados por impedir-lhes o acesso ao emprego. Fecha esta edição a resenha de Rodrigo Constantino sobre o livro Sabres e Utopias, trabalho marcado pela coragem e lucidez do escritor Mario Vargas Llosa.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

4

Energia

O setor de energia e o governo Dilma Rousseff
Diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE).

Adriano Pires

m 31 de outubro de 2010 Dilma Rousseff foi eleita presidente do Brasil e comandará o país pelos próximos quatro anos. A sua eleição poderá implicar a continuidade de políticas implantadas durante o Governo Lula, como o fortalecimento da participação de grandes empresas estatais, notadamente Petrobras e Eletrobras, na realização de grandes investimentos no setor de energia. Nesse caso, ocorreria um cenário onde as duas estatais seriam consideradas empresas “Campeãs Nacionais”, realizando vultosos investimentos influenciados inclusive por decisões políticas. Porém, não se pode descartar

E

outro cenário, em que o novo governo poderá influir menos no setor de energia, estimulando a iniciativa privada e voltando a fortalecer as agências reguladoras. É sempre bom lembrar que quando assumiu o Ministério de Minas e Energia (MME), em 2003, Dilma Rousseff manteve políticas implantadas no Governo Fernando Henrique Cardoso para o setor de energia, como as licitações de campos de petróleo, o mercado livre no setor elétrico, além de criar os leilões de energia elétrica. No cenário “Campeãs Nacionais” seria aprovado no Congresso Nacional o atual texto do

Projeto de Lei nº 5.938/2009, referente ao modelo de partilha da produção, e com isso o governo e a Petrobras ampliariam fortemente sua influência no setor de petróleo. Isso, pelo fato de o novo marco regulatório conceder à Petrobras o monopólio da operação nas áreas ainda não licitadas do pré-sal e participação mínima de 30% em todos os consórcios de exploração. Ainda dentro desse contexto, o Governo Dilma fortaleceria a nova empresa estatal Petróleo Pré-sal S.A. (PPSA), o que poderia criar conflito de atribuições e enfraquecimento da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

5

Energia
No que se refere à divisão dos royalties, a maior beneficiada será a União, em detrimento dos estados e municípios produtores. Resta a dúvida sobre se a nova presidente vetará as modificações propostas pelo congresso referentes à atual forma de distribuição dos royalties. O conteúdo nacional poderá virar reserva de mercado e, com isso, será a indústria nacional que ditará o ritmo de extração do petróleo do pré-sal. Num cenário de cunho mais pragmático, a iniciativa privada poderá continuar a ter grande participação nos investimentos em parceria ou não com a Petrobras, o que poderá estimular a eficiência operacional no setor petrolífero brasileiro, diminuir custos ao longo de toda a cadeia de produção e favorecer a inovação tecnológica do setor, o que é um fator fundamental para o aproveitamento das reservas da Camada do Pré-sal. Para que isso ocorra de forma mais efetiva, seria retirado do modelo de partilha o monopólio da Petrobras na operação dos campos do pré-sal não licitados, bem como os 30% de participação mínima da estatal. Outra questão a ser definida no Governo Dilma é a regulamentação da Lei do Gás Natural, que foi sancionada pelo presidente Lula em 4 de março de 2009 e dispõe sobre as atividades relativas ao transporte de gás natural, bem como sobre as atividades de tratamento, processamento, estocagem, liquefação, regaseificação e comercialização do energético. O adiamento dessa regulamentação vai ao encontro do cenário das “Campeãs Nacionais”. Caso o novo governo regulamente a Lei do Gás rapidamente, poderá estimular a formação de mercados para o gás natural diante do aumento da produção com a exploração da Camada Pré-sal, como a ampliação do uso do energético na geração de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN). No refino de petróleo parece que o cenário “Campeãs Nacionais” irá prevalecer, com a Petrobras investindo em novas refinarias premium, principalmente no Norte e no Nordeste. Na hipótese do cenário mais pragmático a Petrobras exportaria petróleo bruto, concentrando seus investibiocombustíveis, construindo dutos e estabelecendo parcerias com grandes empresas do setor sucroalcooleiro para o fornecimento de etanol e ampliando a produção própria de biodiesel. No setor elétrico, no cenário “Campeãs Nacionais” a Eletrobras realizará grandes investimentos influenciados por questões políticas, assim como ocorreu na decisão de construir a usina hidroelétrica (UHE) Belo Monte, no Pará. No Brasil a empresa poderá construir novas grandes UHE na Amazônia, como o Complexo Tapajós, que terá potência total de 10.700 MW distribuídos entre cinco usinas. Ainda dentro desse cenário, o chamado desenvolvimentismo não se preocupará muito com os impactos ambientais dos empreendimentos da Amazônia. No exterior, a Eletrobras poderá participar de novos projetos de integração elétrica com a América do Sul, com a construção de usinas hidroelétricas no Peru, na Colômbia, na Argentina e na Bolívia, dentro da ideia de se tornar uma nova Petrobras no setor elétrico. No cenário mais pragmático existiria uma maior preocupação com a governança das estatais, tentando blindá-las de uma maior ingerência política, e a questão da reforma tributária no setor elétrico teria maiores chances de ser implementada pelo congresso e pelo governo. Nos próximos quatro anos com certeza serão introduzidas medidas no setor de energia que constam tanto do cenário “Campeãs Nacionais” como do pragmático. Uma ingerência maior do Estado no setor é o mais provável, a dúvida é o grau de intensidade. Porém, com certeza não ocorrerá nenhuma ruptura radical nas políticas estabelecidas para o setor de energia brasileiro. Vamos torcer para que o cenário pragmático prevaleça sobre o “Campeãs Nacionais”. A conferir.

Outra questão a ser definida no Governo Dilma é a regulamentação da Lei do Gás Natural, que foi sancionada pelo presidente Lula em 4 de março de 2009 e dispõe sobre as atividades relativas ao transporte de gás natural, bem como sobre as atividades de tratamento, processamento, estocagem, liquefação, regaseificação e comercialização do energético.

mentos no pré-sal e menos em construção de novas refinarias. Com relação à política de preços dos derivados, a Petrobras possivelmente manterá o atual controle em qualquer dos dois cenários. Do ponto de vista ambiental poderá ocorrer uma nova tributação dos combustíveis que considerasse suas emissões de carbono. Isso aumentaria a competitividade do etanol e do biodiesel em relação a combustíveis fósseis, como a gasolina e o diesel. No cenário “Campeãs Nacionais” a Petrobras deverá expandir sua atuação no setor de

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

6

Economia

A despesa de pessoal e a expansão do gasto público no Brasil
Economista. PH.D. em economia pela Yale University.

Raul Velloso

esde 2003 a despesa de pessoal da União tem crescido sistematicamente em ritmo superior ao do PIB. O Gráfico 1 mostra que a despesa pulou de 4,81%, em 2008, para 5,32% do PIB em 2009! O valor de 2009 só é inferior ao de 1995, ocasião em que, com a súbita parada do processo inflacionário, os salários dos servidores, recém-reajustados, tiveram forte ganho real.

D

Para 2010 a previsão feita no primeiro semestre foi de uma pequena queda da despesa em proporção do PIB. Mas esta não chega a ser uma boa notícia, porque decorre do forte crescimento do PIB (e não da contenção da folha) e porque parte do crescimento do PIB se refere à aceleração da inflação prevista, e não a crescimento real da economia.

Cabe, realmente, medir a despesa de pessoal em relação ao PIB? Afinal, as necessidades do País, em termos de serviços públicos, crescem no mesmo ritmo do PIB? Não haveria economias de escala que permitiriam que o número de servidores crescesse mais lentamente que o PIB? Quanto à remuneração, será obrigatório repassar aos servidores públicos todos os ganhos reais decorrentes do crescimento da economia? Acredita-se que não. A tendência natural é de que a despesa de pessoal do Governo Federal caia como proporção do PIB ao longo dos anos, ao contrário do que mostra o Gráfico 1. Vale a pena, então, analisar o crescimento real da despesa de pessoal (ou seja, o crescimento acima da inflação). Em valores de 2010, a despesa terá passado, pela estimativa usada nesta nota, de R$101 bilhões em 1995 para R$184 bilhões em 2010: um crescimento real de 82%. Notese que somente no período 20032010 o crescimento real é de 62%, o que equivale a 7,1% ao ano.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

7

Economia
E essa despesa é muito rígida para baixo: o único ano em que se observa queda significativa da despesa real foi o de 2003, ocasião em que um surto inflacionário corroeu o valor real das remunerações. Eis o ponto central da preocupação com a despesa de pessoal: a sua rigidez. Não é possível cortá-la de uma hora para outra, seja pela estabilidade da maior parte dos servidores no emprego, seja pelo custo político de se demitir os não estáveis. O ajuste por meio da depreciação do salário real enfrenta a resistência dos fortes sindicatos de servidores, além de ser um mecanismo de ajuste ineficiente (por ser um corte linear de salários, sem considerar a produtividade e a importância de diferentes carreiras). A inércia da despesa de pessoal é reforçada pelos parâmetros do regime previdenciário do setor público, que permitem aposentadoria com salário integral e pensões de longa duração. Daí porque se deve ter um cuidado “cirúrgico” na definição de salários e contratações no setor público, visto que decisões tomadas hoje terão impacto nas contas públicas pelos próximos 40 ou 50 anos. Outro ponto fundamental é que não se pode conter a expansão do gasto público no Brasil sem controlar a despesa com pessoal. Essa despesa representa uma fatia importante do gasto corrente total nos três níveis de governo. A Tabela 1 mostra que nada menos do que 25% da despesa corrente da União se referem à folha de pagamentos. Nos estados e municípios a fatia é ainda maior, chegando a quase 60% nos estados. Em várias edições do Fórum Nacional (www.inae.org.br) podem ser encontradas críticas à política de pessoal dos últimos governos, considerações acerca da dinâmica de crescimento dos salários reais baseada na maior liberdade de gastos dos Poderes autônomos (Judiciário, Legislativo e Ministério Público), bem como considerações sobre a inexistência de conexão entre o aumento do custo da folha e uma efetiva melhoria ou ampliação dos serviços públicos federais.

O MARCO LEGAL DE CONTROLE VIGENTE
O art. 169 da Constituição Federal estipula que uma lei complementar deve fixar o limite máximo para a despesa de pessoal nos três níveis de governo (essa lei veio a ser a LRF). A penalidade para o não cumprimento de tal limite é a suspensão “de todos os repasses de verbas federais ou estaduais”. A LRF1 fixou limites máximos de despesa de pessoal para cada ente da Federação (União, estados, DF e municípios). Criaram-se sublimites, em cada ente, para seus Poderes e órgãos (Executivo, Legislativo + Tribunal de Contas, Judiciário, Ministério Público). Para que um ente seja considerado cumpridor do limite não basta que a despesa total de todos os Poderes e órgãos esteja dentro do limite. Cada um dos sublimites precisa ser respeitado. As penalidades, em caso de descumprimento, são: • suspensão das transferências voluntárias (federais ou estaduais); • proibição de obter garantia (federal ou estadual) para empréstimos; • proibição de contratação de empréstimos. Note-se que a essas penalidades se agrega aquela do art. 169, e que é ainda mais ampla que a simples suspensão de transferências voluntárias: suspensão “de todos os repasses de verbas federais ou estaduais”.

Gráfico 1: Despesa de pessoal da União com contribuição patronal: 1995-2010 (% do PIB)

Fontes: Ministérios da Fazenda, Planejamento e Sistema Siga Brasil, do Senado Federal.
1

Arts. 18 a 23.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

8

Economia

Tabela 1: Despesa de pessoal e demais despesas correntes nos três níveis de governo: 2007
(% da receita corrente total)

Pessoal União Estados Municípios 25% 58% 42%

Outras despesas correntes 75% 42% 58%

Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (http://www.tesouro.fazenda.gov.br/estatistica/est_estados.asp. Elaboração própria. Obs.: não se incluem na despesa corrente as transferências obrigatórias da União para estados e municípios e dos estados para os municípios.

A Lei nº 9.496/97 e a MP nº 2.185-35/2001, ao autorizarem que a União assumisse e renegociasse parte substancial das dívidas de estados e municípios, estabeleceu alguns parâmetros de ajuste fiscal para esses entes. No que diz respeito à despesa de pessoal tem-se, em primeiro lugar, que o estado ou município deve cumprir metas para essa despesa (fixadas caso a caso), no âmbito de um “Programa de Reestruturação e Ajuste Fiscal”. O descumprimento resulta em elevação do custo financeiro da dívida renegociada e na aceleração da sua amortização (aumento da parcela da receita comprometida com o pagamento mensal da dívida). No que diz respeito à efetividade prática desses dispositivos pode-se dizer, em resumo, que os tetos legais impostos (art. 169 da CF e LRF) são parcialmente efetivos. Isso porque há manobras contábeis para “esconder” despesas de pessoal, tais como não contabilizar a despesa com inativos e pensionistas ou a despesa com serviços terceirizados, contrariando o que dispõe a LRF Além . disso, os órgãos responsáveis pela fiscalização do cumprimento do

limite (tribunais de contas e ministério público) são diretamente afetados por eles, o que induz um incentivo ao relaxamento da fiscalização. Não obstante isso, a LRF tem se constituído importante balizadora de desempenho fiscal. Os contratos de renegociação da dívida de estados e municípios parecem ser muito mais eficazes na imposição de disciplina fiscal. Primeiro, porque qualquer inadimplência dá ao Tesouro Nacional o direito de sacar, imediata e diretamente, o valor devido da conta do ente inadimplente. Segundo, porque o descumprimento das metas fiscais implica aumento da taxa de juros do contrato e, principalmente, o imediato aumento do desembolso mensal para pagamento da dívida.

DESPESAS DE PESSOAL
No início de 2007, quando do lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento, o Poder Executivo Federal enviou ao Congresso o Projeto de Lei Complementar nº 1, de 2007 (PLP 1/ 2007), cujo objetivo era alterar a LRF com vistas a colocar um limite máximo ao crescimento da despesa de pessoal. A regra proposta

era a de que cada Poder e órgão de cada ente só poderia ter aumento real de 1,5% ao ano na sua folha de pagamentos. A ideia, a princípio, parecia boa. Limitando-se a despesa de pessoal restariam mais recursos para financiar os investimentos do PAC. Na prática, contudo, se aprovado, provavelmente o dispositivo seria letra morta. Em primeiro lugar porque não previa punições (apenas apontava os mecanismos de ajustamento em caso de extrapolação do limite: não criação de novos cargos, proibição de reformulação de planos de carreira, etc.). Mas não havia punições imediatas, como a proibição de receber transferências ou de contratar operações de crédito. Em segundo lugar, sempre há a válvula de escape da contabilidade criativa, nos moldes do que alguns estados e municípios já praticam para driblar os limites da LRF, algumas vezes com a benção do respectivo tribunal de contas. Poder-se-ia aumentar a remuneração dos servidores por meio de pagamentos não classificados como despesa de pessoal (vale-refeição, diárias, etc.), ou aumentar o efetivo contratando via

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

9

Economia
terceirização (e, em desrespeito à LRF, não a contabilizando como despesa de pessoal). Outra opção seria a exclusão do pagamento a aposentados e pensionistas da conta de despesa de pessoal. Não bastasse o provável fracasso do limite de despesa de pessoal, caso fosse aprovado, a realidade foi ainda mais dura com o PLP nº 1/2007. A Câmara simplesmente travou a tramitação do projeto, com a interposição de inúmeros recursos por parte de deputados, convocação de audiências públicas e não apresentação de relatórios por parte dos relatores. A proposta ressurgiu sob a forma de Projeto de Lei aprovado no Senado e encaminhado à Câmara (PLP nº 549/2009). Agora o limite passava para um crescimento real da folha de 2,5% ao ano (em vez de 1,5% do projeto anterior) acima da inflação ou igual à variação do PIB, o que fosse menor. Continuavam os mesmo defeitos básicos: inexistência de punições e alta probabilidade de a regra tornar-se letra morta. Acrescia-se um defeito adicional: em caso de recessão, a folha de pessoal teria que encolher em termos reais – um limite ainda mais difícil de ser atingido. Embora aprovado no Senado (onde foi apresentado em fins de 2007 pela bancada governista, na tentativa de demonstrar disposição em controlar gastos, no contexto de debate acerca da renovação da CPMF), a sorte de tal projeto, na Câmara, dificilmente será diferente daquela reservada a seu congênere: os anais da Casa já registram forte resistência à matéria e dificuldade em fazê-la tramitar. Não há, portanto, que se esperar que o controle da folha de pagamento decorra desse tipo de medida. O que se conclui, portanto, é que o Poder Executivo Federal e sua bancada majoritária na Câmara têm atuado no sentido de fragilizar os controles institucionais da despesa de pessoal, seja impedindo a aprovação de medidas que poderiam ser restritivas (ainda que provavelmente inócuas e apresentadas “para inglês ver”), seja aprovando rapidamente medidas que desmontam peças crescimento do PIB, mesmo nos anos de forte crescimento da economia. Dada a rigidez desse tipo de despesa, provavelmente se estão criando problemas para os próximos dois ou três Presidentes da República. Mostrou-se, também, que no campo da regulação da despesa de pessoal o Governo Federal está agindo no sentido de desmontar a atual estrutura de controle sem colocar outra em seu lugar. Ao mesmo tempo em que apresenta propostas de controle de improvável eficácia, e ainda menos provável aprovação no Congresso, o Governo viabiliza, por meio de sua liderança na Câmara, a aprovação de projeto que desmonta os limites e as respectivas punições para o excesso de despesa de pessoal. Vai ainda mais longe ao facilitar a contratação de empréstimos por entes públicos que estejam descumprindo os limites de despesa de pessoal e outros limites impostos pela LRF. Seja no aspecto fiscal, seja no aspecto de planejamento, metas e gerenciamento, a política de pessoal, por seu impacto financeiro e na qualidade dos serviços públicos, precisa de uma atenção maior na gestão governamental. Não serão limites de gastos genéricos que conterão essa despesa. É preciso um diagnóstico do tipo de força de trabalho necessária, uma política de remuneração compatível com a remuneração do setor privado, uma hierarquização das carreiras em conformidade com sua relevância e a criação de estímulos à produtividade e à ascensão funcional, entre outras providências de nível administrativo e gerencial, muito mais trabalhosas (porém mais eficazes) do que a simples fixação de um (inexequível) limite máximo de despesas.

que não se pode conter a expansão do gasto público no Brasil sem controlar a despesa com pessoal. Essa despesa representa uma fatia importante do gasto corrente total nos três níveis de governo.

Outro ponto “fundamental é

centrais da LRF no que diz respeito ao controle da despesa de pessoal e às punições associadas ao seu descumprimento.

CONCLUSÕES
A política de pessoal do Governo Federal, nos últimos anos, parece ter adotado uma postura temerária no que diz respeito a seu impacto fiscal. A forte elevação de salários e contratações tem levado a uma evolução da despesa em ritmo superior ao do

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

10

Destaque

A energia nuclear e a relação Brasil/Irã
Embaixador. Vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)

Marcos de Azambuja

fato de o Brasil não ter armas nucleares se deve a um conjunto de circunstâncias que talvez convenha, desde logo, listar. Em primeiro lugar faltaram sempre ao Brasil os alvos para as armas que viesse a desenvolver. O outro lado da medalha é que também não temíamos ações agressivas de reais ou potenciais adversários. Mesmo a rivalidade com a Argentina nunca foi tão intensa a ponto de permitir que se criassem, com credibilidade, cenários em que os dois países pudessem chegar a um enfrentamento com armas nucleares ou precisassem de um arsenal nuclear para dissuadir o outro de realizar um tal ataque. O resto da América Latina foi, formal e gradualmente, se desnuclearizando desde a entrada em vigor do Tratado de Tlatelolco e com a adesão progressiva dos países do continente ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Hoje é universal na região a adesão a esses dois instrumentos. Desde a chamada crise dos mísseis em l96l, envolvendo diretamente os Estados Unidos e a então União Soviética e aparecendo Cuba como o terceiro ator, a América Latina tinha deixado de ser o cenário de enfrentamentos estratégicos de extrema gravidade e voltado a ser uma região que oferecia baixo risco para a segurança internacional, situação que mesmo o episódio aleatório da Guerra das Malvinas não conseguiu alterar. Além das condições regionais de segurança e confiança recíprocas, vale assinalar que não só a America Latina como todo o

O

Os presidentes Lula e Ahmadinejad: relações protocolares?

Hemisfério Sul do nosso planeta está livre de armas nucleares. Assim, o Tratado da Antártica estabeleceu a desnuclearização daquele grande e frágil continente; o Tratado de Rarotonga, a desnuclearização militar da África; o Tratado de Pelindaba, a desnuclearização da Oceania e do Pacífico Sul. Não tínhamos nem temos, assim, seja no nosso entorno imediato, seja em todas as mais próximas projeções de nossa geografia e dos nossos interesses imediatos nenhum inimigo a temer. Cabe destacar, ainda, que o Brasil não dispunha nas décadas de 50, 60 e 70 de uma ampla comunidade científica verdadeiramente qualificada no campo

da energia nuclear e nas diversas atividades correlatas e complementares ao projeto de desenvolvimento de uma arma nuclear, e que o chamado “programa nuclear paralelo”, expressão que encobria um programa sigiloso para fins militares, havia feito pouco progresso e tinha dependido, em não pequena medida, da aquisição sub-reptícia no mercado clandestino internacional de peças e equipamentos e do desenvolvimento autóctone de algumas tecnologias de eficiência imperfeitamente provada. O Acordo Nuclear com a Alemanha de 1975 foi uma aventura muito dispendiosa e – no fim das contas – malograda em seu objetivo principal, que era o

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

11

Destaque

de garantir para o Brasil o domínio sobre o ciclo completo de combustível nuclear. Optou-se por uma tecnologia alternativa de enriquecimento (o método chamado jet nozzle), que naquela ocasião e desde então nunca se mostrou eficaz para o fim a que se propunha. Gastou-se muito dinheiro, e os resultados foram minguados. Com o fim do ciclo de governos autoritários o Brasil iniciou, com a Argentina – que vivia também um momento semelhante de redemocratização – um processo de desmonte dos programas paralelos que se haviam montado nos dois países e por causa dos quais tivemos, durante largo período, o pior dos dois mundos: não nos tornamos potências militarmente nucleares e atraímos uma grande e onerosa desconfiança internacional sobre a transparência de nossas verdadeiras intenções. Esse desmonte iria levar a que os dois países, através de um sistema intenso de consultas bilaterais e por um processo que envolveu também a Agência Internacional de Energia Atômica

(AIEA), criassem a ABACC (Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle) e aderissem, finalmente, ao TNP . Completava-se, assim, a rede de garantias que o Brasil dava à comunidade internacional de que seus objetivos nucleares eram exclusivamente pacíficos, como determina o artigo 20 da Constituição Federal e como também estamos obrigados por nossa assinatura e ratificação do já mencionado Tratado de Tlatelolco, que estabelece a desnuclearização para fins militares da América Latina. Se, por um lado, o compromisso brasileiro com o não desenvolvimento, aquisição ou uso de armas nucleares é claro e expresso em mais de um diploma jurídico nacional e internacional, não é menos enfático e límpido nosso compromisso com o pleno desenvolvimento e emprego das tecnologias nucleares para fins pacíficos. O próprio TNP se assenta em um tripé de objetivos equilibrados e que devem ser cumpridos pelas altas partes contratantes: o desarmamento sob eficaz controle

internacional, a promoção dos usos pacíficos da energia nuclear e, naturalmente, a própria não proliferação das armas nucleares, título e objetivo central do Tratado. É verdade que as potências militarmente nuclearizadas não têm cumprido, até agora, de forma convincente seu compromisso com o desarmamento nuclear. Com a chegada de Barack Obama ao poder existem sinais de que o processo de redução dos estoques nucleares dos Estados Unidos e da Rússia (nesses dois países estão hoje mais de 90% de todas as armas nucleares existentes) foi retomado, e acredita-se que as grandes potências tradicionais não identificam mais utilidade estratégica prioritária para suas políticas de acumulação de armas nucleares e de seus vetores de lançamento, e preocupam-se com a guarda de grandes estoques de plutônio e se inclinam agora por avançar em um demorado processo negociador à sua conclusão última: um mundo final e definitivamente livre de armas nucleares. A mais recente conferência de revisão do TNP, realizada em

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

12

Destaque
2010, produziu um promissor documento final e superou o impasse que havia levado a Conferência anterior, realizada em 2005, a concluir seus trabalhos sem poder aprovar um parágrafo sequer do que seria seu documento final. Um novo governo norte-americano e as preocupações crescentes com os programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte, e a percepção cada vez mais urgente de que armas nucleares poderiam cair em mãos de atores não governamentais ou mesmo grupos terroristas, deu um novo impulso à necessidade de tornar o mundo mais seguro e mais eficazmente desarmado. A mais clara manifestação dessa nova atitude é o chamado programa “Global Zero” que, como o próprio nome indica, pretende livrar o mundo das armas nucleares no espaço de uma ou duas gerações. O que faz esse projeto especialmente interessante é que seus principais promotores são grandes personalidades da vida política dos Estados Unidos e de seus principais aliados no Atlântico Norte, e que a mesma iniciativa encontra também ressonância favorável na Rússia de Putin e Medvedev. Afastada a motivação, inexiste no caso brasileiro – de aquisição de um arsenal nuclear para fazer frente a eventuais inimigos – e motivação que pode ser invocada para a aquisição dessas armas é a do prestígio internacional acrescido e do aumento da autoestima nacional que deriva da posse desse tipo de arsenal. O argumento contém mais do que uma parcela de verdade. É fato que a posse de armas nucleares tem sido, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um atributo das grandes potências e um título que pode ser invocado para desempenhar um papel mais visível na vida internacional e pleitear mesmo um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Essa observação se aplica, essencialmente, ao que aconteceu com os primeiros membros do clube nuclear. Os atores chegados mais tarde não tiveram o mesmo reforço de prestígio. A Índia e o Paquistão, por exemplo, não tiveram a rigor elevada sua inserção internacional. Israel, ao alteraram os termos da equação. O primeiro foi a criação do Protocolo Adicional ao TNP que , autoriza inspeções mais intrusivas a todas as instalações nucleares de um país, inclusive aquelas que não estão sujeitas a salvaguardas da AIEA. O segundo fato novo foi a evolução do programa nuclear iraniano, que – como indiquei acima – é cercado de considerável suspeição internacional e já foi objeto de mais de uma rodada de sanções do Conselho de Segurança, além de outras adotadas por grupos de países afins, como é o caso da União Europeia e dos Estados Unidos e Israel. A questão do protocolo adicional reacendeu no Brasil um debate que parecia encerrado, e o país reluta em dar um novo passo e subscrever o referido protocolo adicional. Com esse debate voltou a questão da assimetria que o TNP cria entre potências nucleares e não nucleares, cabendo aos desarmados controles e restrições crescentes e pouco ou nada se cobrando dos países já militarmente nuclearizados. São legítimas as críticas que se fazem ao TNP Ele, de fato, não . é um modelo de um instrumento paritário de aplicação universal. Suas falhas e limites são visíveis. É, contudo, e importa repetir isso sempre, um instrumento até hoje indispensável para conter uma proliferação descontrolada das mais perigosas armas que o mundo até hoje conheceu. Se o TNP não existisse o mundo seria bem mais instável e, seguramente, mais perigoso. A questão iraniana é bem mais grave do que aquilo que acontece na Coreia do Norte, cuja exígua geografia e vizinhança com as grandes potências nucleares impedem, a rigor, que suas veleidades apareçam como verdadeiramente ameaçadoras para a paz e a segurança

fazem ao TNP. Ele, de fato, não é um modelo de um instrumento paritário de aplicação universal. Suas falhas e limites são visíveis.

“ São legítimasse as críticas que

se armar nuclearmente, reforçou a desconfiança de seus vizinhos e empurrou vários deles (mais recentemente o Irã) a procurar se dotar de arsenais equivalentes. A Coreia do Norte é mais do que nunca um rogue state, ou seja, um Estado-pária por causa, em parte, de sua política nuclear; o Irã, cujas intenções parecem cada vez mais suspeitas, deve enfrentar sucessivas levas de sanções que, se não paralisam sua economia, representam um ônus e um embaraço consideráveis. A situação, da perspectiva brasileira, pareceria estabilizada se não fosse por dois acontecimentos que, de alguma maneira,

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

13

Destaque
internacionais. Os seus vizinhos – a China, a Rússia e a Coreia do Sul (neste último caso vale dizer os Estados Unidos, que ali têm uma importante presença militar) – têm meios e saberão conter a questão dentro de limites administráveis. O que a Coreia do Norte busca é menos transformarse em uma potência nuclear e mais, isto sim, preservar sua sempre precária existência. A situação no Irã me parece muito mais desafiadora. Em primeiro lugar porque o Oriente Médio é uma região mais instável e mais perigosa do que a Ásia Oriental, e porque o Irã é um ator internacional de muito maior peso do que a Coreia do Norte. O Irã é, de fato, pela sua vizinhança com o Iraque e o Afeganistão, por sua proximidade com a Índia, o Paquistão e, sobretudo, com Israel, um país que, nuclearizado, alteraria a balança de poder em uma região que, além de toda sua importância estratégica histórica, representa o epicentro da produção mundial de petróleo. Para o Brasil, em condições normais este seria apenas mais um grande problema internacional que nosso país, distante pela geografia e com interesses seus indiretamente afetados, poderia tratar dentro na moldura de nossa inserção multilateral, agora acrescida pela nossa presença temporária no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A tentativa turco-brasileira de exercer um papel de mediação e facilitação na busca de um encaminhamento diplomático para a questão nos levou a ter uma presença bem mais ativa e um perfil mais alto na questão. Como os esforços de Ancara e Brasília não tiveram os resultados esperados, fomos levados mesmo a votar contra a resolução do Conselho de Segurança que adotou uma nova série de sanções contra o Irã, ficando o Brasil, no fim das contas, em posição isolada, acompanhado apenas pela Turquia. À luz do que aconteceu, parece hoje que o Brasil subestimou as resistências à tentativa de encaminhamento que adotou e foi, em alguma medida, induzido em erro pelos Estados Unidos, cujo Presidente em mais de uma ocasião tinha dado indicações – orais e por escrito – que o caminho trilhado pela diplomacia brasileira poderia produzir bons resultados. O Brasil, depois desse voto, anunciou que cumpriria, como é de seu dever, as sanções adotadas, mas ficou um resíduo desagradável de suspeita de que o Brasil tinha ido, no caso, além de suas pernas e se envolvido em um “imbróglio” do qual devíamos ter permanecido distantes. Mais do que nos procurar identificar com os objetivos e as políticas iranianas, melhor seria que o Brasil deixasse claro que outras são as nossas circunstâncias e que o nosso programa – já bem estabelecido – de domínio completo do ciclo de enriquecimento de urânio e do desenho e fabricação de turbinas nucleares navais e para produção de eletricidade se realiza com transparência, em uma região militarmente desnuclearizada e em harmonia – e mesmo cooperação – com seus principais vizinhos e sob a estreita e assídua supervisão da AIEA. Da mesma maneira que a ausência de uma motivação nuclear militar facilita a ação brasileira e reforça a confiança internacional em nossos objetivos declarados, as circunstâncias no Irã e no seu entorno promovem a suspeita de que seus motivos são outros, diferentes daqueles que professa. Não se pode afirmar a esta altura, com certeza, que o programa nuclear iraniano encobre um outro, de natureza militar. Por outro lado, pelas circunstâncias geopolíticas no Oriente Médio e pela natureza mesma do regime teocrático e autoritário do Irã, ganha força a presunção de que Teerã pretende dotar-se, em algum momento, de um arsenal nuclear. As recentes ações militares estrangeiras contra o Iraque e o Afeganistão terão reforçado em Teerã a convicção de que só um escudo nuclear protegeria o país de sofrer o mesmo destino. Por outro lado, Israel deseja manter a exclusividade de seu poder nuclear na região, e apenas se todo o Oriente Médio pudesse, em um determinado momento, definir-se como uma zona livre desse tipo de armas seria possível imaginar um encaminhamento construtivo e duradouro para o problema. Mesmo esse projeto de um Oriente Médio desnuclearizado, que foi aprovado pela mais recente Conferência de Revisão do TNP (que só encontrou a resistência de Israel e dos Estados Unidos), é uma imensa empreitada que, na melhor das hipóteses, levaria a um longo período para avançar e produzir os resultados desejados. O Brasil, detentor de vastas reservas de urânio, engajado há muitos anos em um amplo programa de domínio do ciclo completo do combustível nuclear, com sua terceira central nuclear em construção e várias outras programadas, tem que preservar o patrimônio de credibilidade que nossa política e nossa diplomacia souberam construir; assim, mesmo que atuemos de forma bem intencionada, devemos nos distanciar de outros projetos que não têm a credibilidade e a transparência do nosso. O desgaste que sofremos no episódio iraniano foi real, mas pode ser certamente anulado por gestos e palavras que sugiram que também no campo da energia nuclear o Brasil é um ator construtivo e identificado com a luta contra a proliferação das armas nucleares, e defensor exclusivo dos usos pacíficos do átomo.
DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53 14

Matéria de Capa

Regulação e participação do estado na economia
Marcel Domingos Solimeo e Ulisses Ruiz Gamboa
Economistas do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo

mercado financeiro sofreu forte abalo a partir de setembro de 2008, com a crise iniciada no sistema bancário dos Estados Unidos. Essa crise acarretou profunda repercussão na economia real da maioria dos países, em virtude da quase paralisação dos financiamentos tanto internacionais como domésticos, devido ao abalo da confiança no sistema financeiro. Muitos analistas e políticos

O

consideraram que a crise era decorrência inevitável do capitalismo, quando deixado entregue às suas próprias forças, pois as “falhas do mercado”, quando não corrigidas pela ação do Estado, levariam à autodestruição do sistema. A previsão do fim do capitalismo, ou do liberalismo, é bastante antiga, mas tem sido repetidamente desmentida pela história. Além disso, é fato que o surgimento de crises financeiras é

algo recorrente na história econômica, tal como mostram Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart em seu recente livro Oito Séculos de Delírios Financeiros, onde analisam os surtos de crises financeiras desde a experiência da China, no Século XII, até a crise atual. Os autores concluem que o surgimento de crises econômicas em geral tem contado, através da história, tanto com a presença de excesso de endivi-

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

15

Matéria de Capa
damento privado como com crescimentos da dívida pública insustentáveis, levando a toda sorte de calotes soberanos e emissão monetária hiperinflacionária. Também é interessante notar que o subtítulo do livro é “Desta Vez é Diferente”, fazendo menção à “síndrome” historicamente recorrente de excesso de confiança na capacidade das políticas fiscal e monetária em evitar o surgimento de grandes crises financeiras. De qualquer forma, para muitos a crise representou a oportunidade de reabilitar o papel do Estado como controlador da economia, em parte por ideologia, mas também, em muitos casos, por não saberem como agir. A crise de credibilidade que atingiu o sistema financeiro da maioria dos países levou os governos a socorrerem as instituições com montantes expressivos de recursos, recorrendo em alguns casos à estatização de bancos. Buscou-se restabelecer a confiança no sistema financeiro oferecendo, além do volume brutal de recursos, a garantia de novos aportes em caso de necessidade. A crise do sistema financeiro foi apresentada como consequência da falta de regulamentação, descartando-se outras causas que poderiam ter contribuído para a formação e posterior estouro da “bolha”. Não se discutiu a responsabilidade dos governos em relação à crise, atribuídas unicamente às “falhas de mercado”. Existe muita literatura mostrando as imperfeições da economia de mercado, o que exige “intervenções” do governo para corrigir as “falhas”, em nome do “interesse da sociedade” ou para promover a “justiça social”. Pouco se discute, no entanto, sobre as “falhas do governo” que, no geral, provocam mais distorções do que aquelas que pretende corrigir. De acordo com a Teoria da Escolha Pública, tanto os agentes privados como os do setor público agem procurando maximizar seus interesses. A diferença é que os mecanismos de mercado, baseados na liberdade de escolha, permitem a autocorreção mais rápida das distorções do que a intervenção pública que, no geral, se perpetua por anos ou décadas, continuando em vigor mesmo depois de as medidas adotadas já não serem mais necessárias, ou justificáveis. Embora pareça ser consenso que a principal causa da crise tenha sido a falta de regulamentação do mercado financeiro, é preciso analisar quais foram as sinalizações e os estímulos que as políticas dos governos transmitiram aos agentes econômicos. É preciso considerar até que ponto as condições macroeconômicas criadas pelo governo dos Estados Unidos estimularam o comportamento irresponsável de gestores de recursos de terceiros. Assim, substitui-se a ética pela ganância na busca de resultados de curto prazo, com vistas aos “bônus” elevados, sem qualquer preocupação com a segurança e o futuro das instituições. A política fiscal dos Estados Unidos, com seus déficits gigantescos, gerou uma liquidez internacional exagerada, a qual foi sancionada pelo FED (Banco Central norte-americano) com a manutenção dos juros muito baixos por longos períodos. Além disso, os vultosos déficits das contas externas norte-americanas, que foram uma consequência natural do crescimento insustentável do gasto público, também se transformaram em enorme massa de liquidez, ao serem financiados por países comercialmente superavitários, como a China, que investiram a maior parte desse superávit em títulos públicos do Tesouro norteamericano. Essa política permitiu que o sistema financeiro pudesse expandir de forma exponencial as operações de derivativos e de outros mecanismos de “alavancagem” financeira, como se essa situação fosse perdurar eternamente. Segundo Alan Greespan, que foi presidente do FED por muitos anos, o mandato da autoridade monetária se restringia a controlar a inflação que, graças à entrada dos produtos chineses mais baratos no mercado americano, impediu a elevação dos índices de preços. Não se pode ignorar, no entanto, que a ampla liquidez, que provocou uma excessiva valorização dos ativos, propiciou também a expressiva elevação dos preços das commodities, a qual, aliada à ampla disponibilidade de recursos financeiros a custos baixos, permitiu, durante muitos anos, o crescimento significativo da economia dos países emergentes, entre os quais o Brasil. Assim, muitos dos críticos da “irresponsabilidade” norte-americana se beneficiaram dessa situação e se vangloriaram de suas políticas econômicas como responsáveis pelo crescimento da economia. Ao excesso de liquidez e aos juros baixos, resultados da ação do governo e que propiciaram a formação das “bolhas” dos ativos, se somou, no caso americano, a política “frouxa” na concessão de crédito hipotecário. O objetivo de propiciar “uma casa para cada americano” levou a que o mercado imobiliário passasse a conceder financiamentos de forma pouco cautelosa, porque contava com a garantia da Fannie Mae e do Freddy Mac, que faziam

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

16

Matéria de Capa
parte do sistema GSE (Government Sponsored Enterprise – conjunto de instituições financeiras criadas pelo Congresso americano). Essas empresas, apesar de serem privadas, gozavam de acesso a uma linha de crédito do Tesouro americano, além de isenções de impostos estaduais e municipais, e não estavam sujeitas às normas da SEC (Bolsa de Valores americana). Essas duas GSE controlavam cerca de 90% do mercado secundário de hipotecas. Assim, as cautelas necessárias nas concessões de financiamentos imobiliários foram relaxadas pela certeza de que, em caso de inadimplência, o contribuinte americano cobriria. Esse comportamento, denominado risco moral (moral hazzard), implicou, em suma, que o sistema de crédito hipotecário dividia seu risco com o Estado americano, seu “sócio oculto”, incentivando a excessiva tomada de riscos. Assim, a má qualidade dos financiamentos imobiliários e a utilização das hipotecas para gerar derivativos, que foram se espalhando pelo sistema financeiro de muitos países, foram o “estopim” do estouro da “bolha” financeira. Desse modo, pode-se dizer que mesmo que a falta de regulamentação tenha permitido a alavancagem excessiva do sistema financeiro, na origem da crise se encontram as “falhas do governo”, que incentivaram as condutas irresponsáveis dos agentes econômicos. Curiosamente, a crise vem sendo combatida na maioria dos países com injeções maciças de recursos na economia, do que resulta elevados déficits públicos, ampla liquidez e juros baixos, gerando incerteza em relação ao futuro. Por tudo isso, é preciso cautela com as intervenções governamentais em função de seus desdobramentos. Mesmo que as medidas adotadas possam ter sido inevitáveis no auge da crise, as propostas de regulamentação do sistema financeiro em discussão devem ser muito bem avaliadas para não se tornarem do que nos países desenvolvidos, pois embora profunda (a produção industrial chegou a cair 23% no início de 2009) ela foi de curta duração, pelo fato de os bancos brasileiros estarem pouco inseridos no mercado financeiro internacional e operarem com baixa “alavancagem”, em virtude de regras do BC e dos elevados depósitos compulsórios. As medidas adotadas pelo Banco Central permitiram o restabelecimento do crédito doméstico em prazo relativamente curto e o governo concedeu estímulos fiscais para alguns setores, o que ajudou em uma recuperação mais rápida da economia. Mesmo que se aceite a necessidade da intervenção governamental nos períodos de crise generalizada, isso não implica necessariamente o aumento da participação do Estado na economia, embora possa aumentar a regulação das empresas privadas. Atualmente, nos países desenvolvidos e em vários emergentes, como o Chile, por exemplo, a intervenção passa pela atuação de agências reguladoras, constituídas como instituições de Estado e não do governo de turno, o que lhes confere independência política, privilegiando a aplicação de decisões de cunho técnico. Infelizmente, no caso brasileiro o governo que acaba de terminar seu mandato contribuiu decisivamente para a “desidratação” das agências reguladoras, que passaram a ficar subordinadas ao poder político dos Ministérios, restringindo-se sua capacidade de atuação e seu orçamento, além de quebrar o preceito básico de estabilidade no cargo dos seus diretores, o que reduziria a influência partidária na constituição de seus quadros. Convém sempre lembrar, como certa vez afirmou o célebre especialista em regu-

Embora pareça ser consenso que a principal causa da crise tenha sido a falta de regulamentação do mercado financeiro, é preciso analisar quais foram as sinalizações e os estímulos que as políticas dos governos transmitiram aos agentes econômicos.

obstáculos para a recuperação das economias, por bloquearem demais as forças do mercado. Também existe o risco da permanência de intervenções por mais tempo do que o necessário, o que é normal ocorrer, porque os interesses da burocracia e dos grupos beneficiados acabam se consolidando. Isso pode retardar a volta da eficiência dos sistemas econômicos e o crescimento futuro.

A CRISE NO BRASIL E O AUMENTO DO TAMANHO DO SETOR PÚBLICO
O impacto da crise financeira internacional no Brasil foi menor

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

17

Matéria de Capa
Gráfico 1: Carga Tributária: 2003 - 2009 (% do PIB) que a participação das instituições financeiras públicas nas operações de crédito totais à pessoa física vem aumentando de forma constante, passando de 36,3% em janeiro de 2009 para 42% em setembro de 2010 (Gráfico 2). A descoberta das jazidas do pré-sal serviu para que se estabelecessem regras que favorecem a Petrobrás e aumentam a intervenção estatal na economia. Além disso, ela foi pretexto para a criação de mais uma empresa, a Pré-Sal Petróleo S/A, ainda no papel, mas já aprovada pelo Congresso, em vez do fortalecimento da ANP e de sua profissionalização. No caso da Eletrobrás, o movimento de reestatização na área da energia elétrica parece seguir o objetivo, declarado por algumas autoridades, de transformar essa empresa na “Petrobras” do setor. Além de arrematar nos leilões diversos projetos, a Eletrobrás vem comprando da iniciativa privada usinas de geração de energia, o que lhe permite responder, através

Fonte: IBPT.

lação Harold Demsetz, que uma regulação malfeita pode, na maioria dos casos, ser pior que a total falta de regulação. No Brasil, a crise serviu para que o governo procurasse justificar, e aprofundar, as medidas intervencionistas e estatizantes que já vinha praticando anteriormente, algumas das quais de difícil reversão, a começar pelo aumento da carga tributária, que passou de 31,6% do PIB, em 2003, para mais de 35% em 2009 (Gráfico 1), apesar do crescimento da economia no período. A maior participação estatal na economia, no entanto, vem se dando não apenas pelo aumento da carga tributária, mas também com a criação de novas empresas e pela expansão das existentes, como a Petrobras, o Banco do Brasil, a Eletrobras e a Telebras e o BNDES. No caso do Banco do Brasil destaca-se, de acordo com dados do Banco Central, que entre junho de 2009 e junho de 2010 o BB passou do 14º lugar para a primeira posição do ranking de tamanho dos ativos totais bancários. As causas mais impor-

tantes desse impressionante aumento de participação no mercado financeiro nacional foram as capitalizações feitas pelo Tesouro ao longo do período, já que a aquisição do Banco Nossa Caixa representou pequeno aumento dos ativos, também conforme o Banco Central. Os dados permitem ainda concluir

Gráfico 2: Evolução das participações dos sistemas financeiros público e privado nas operações de crédito:
janeiro 2008/setembro 2010 (%)

Fonte: Banco Central.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

18

Matéria de Capa
de suas controladas, como Furnas, EletroNorte, CHESF, Itaipu e EletroNuclear, por mais de 50% da capacidade instalada no país. Segundo empresários da área, as regras dos leilões afugentam a iniciativa privada, dando pretexto para o avanço estatal em um setor parcialmente privatizado na década passada. As empresas estatais têm contado, para esse avanço, com recursos do BNDES. Em relação à Telebras, sua “ressurreição” decorre da decisão do governo de levar a “banda larga” para todas as regiões do país, objetivo que poderia ser atendido pela iniciativa privada. É evidente o interesse do governo em dispor de mais poder e mais cargos para negociação com essa decisão. Além da Telebrás, também a VALEC Engenharia foi reativada para operar 9.000 km de trilhos, para o que o governo elevou seu capital social inicial de R$920 milhões para R$ 2,6 bilhões e, depois, promoveu novo aumento de capital de R$1,037 bilhão. Duas novas empresas devem ser criadas para finalidades específicas, uma para operar as obras de transposição das águas do Rio São Francisco e outra para liderar a construção do polêmico “trem bala”. Além disso, a criação de duas fábricas, uma para hemoderivados e outra para semicondutores, ambas ainda não funcionando, foi justificada como necessária para dotar o país de empresas que pudessem atender à demanda em áreas estratégicas, mas o alcance esperado dessas iniciativas não se afigura como relevante para a economia. A Empresa Brasil de Comunicações pretende ser uma resposta do governo à “parcialidade” da mídia, mas o fato de sua audiência ser muito baixa a transforma apenas em mais um órgão governamental para oferecer cargos a colaboradores “fiéis”. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), destinada a fazer o planejamento energético, já sofreu o desgaste do escândalo que atingiu a Casa Civil, desacreditando em muito seu papel. O Banco Popular do Brasil gastou muitos recursos em propaganda e acabou sendo e 2014 são da ordem de R$959 bilhões, valor que deverá aumentar, conforme revelam as experiências da realização de grandes obras públicas. Se considerarmos a política de apoio à criação da “grande empresa nacional”, através dos financiamentos subsidiados do BNDES e da participação dos Fundos de Pensão das estatais, veremos que a intervenção do governo na economia é muito maior do que sugere a participação de suas empresas. Política semelhante foi adotada no governo Geisel, com o II PND, quando o Estado, e não o mercado, escolhia os setores ou empresas que deviam ser fortalecidas. Com relação ao BNDES, cabe assinalar que mais de 25% dos financiamentos concedidos no país, e cerca de 40% daqueles destinados à infraestrutura, são fornecidos por esse banco. Além de financiar a expansão de estatais e de “grandes empresas nacionais”, o BNDES tem oferecido recursos para a reforma de estádios, para o controvertido “trem bala” e outras aplicações questionáveis do ponto de vista econômico – e não justificáveis no aspecto social – para receberem créditos subsidiados. Nos últimos 18 meses o governo injetou R$180 bilhões no BNDES que, mesmo após a recuperação da economia, continua expandindo suas operações, criando dificuldades para o Banco Central administrar a política monetária. Ao mesmo tempo em que avança a participação das estatais, a iniciativa privada se depara com dificuldades para investir em determinados setores, seja pela insegurança das regras, pelos obstáculos regulatórios, pela demora de aprovação de licenças ambientais e pela fixação

No Brasil, a crise serviu para que o governo procurasse justificar, e aprofundar, as medidas intervencionistas e estatizantes que já vinha praticando anteriormente, algumas das quais de difícil reversão, a começar pelo aumento da carga tributária, que passou de 31,6% do PIB, em 2003, para mais de 35% em 2009.

extinto sem atingir o objetivo de oferecer microcrédito. Ficou comprovada a absoluta desnecessidade de sua criação, e mostrou-se que muitas empresas estatais têm servido, mais uma vez, apenas para atender a conveniências políticas do governo. Segundo matéria do jornal VALOR, entre 2003 e 2009 o Tesouro aplicou R$63,8 bilhões no fortalecimento das empresas estatais. Esse volume de recursos deve crescer significativamente com as obras do PAC 2, cujos investimentos previstos entre 2011

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

19

Matéria de Capa
de preços irrealistas em licitações ou concorrências. Também restrições operacionais como no caso, por exemplo, do setor portuário, no qual a participação da livre iniciativa é desestimulada com a proibição da construção de terminais portuários de uso privativo misto, que permitiria operar carga própria e de terceiros. O decreto que regulamenta a Lei dos Portos proíbe, ainda, que a empresa movimente produtos diferentes no mesmo terminal. Essas restrições se revelam ainda mais graves quando se sabe que os portos brasileiros são extremamente onerosos e, na maioria, representam pontos de estrangulamento para as exportações. A intervenção do Estado na economia vem se acentuando também pelo lado da burocracia e da tributação. A tributação das empresas submetidas ao regime do lucro real é da ordem de 50% a 60% do valor adicionado por elas, carga extremamente elevada, que os empreendimentos de grande porte suportam por terem poder de mercado para transferir parte importante dessa carga a seus consumidores, pessoas físicas ou jurídicas. Isso exige grande escala operacional, que vem levando ao aumento da concentração empresarial. Quando se esperava que a evolução da informática e das comunicações fosse reduzir os ônus burocráticos para as empresas, o que se assiste é à “informatização da burocracia”, transferindo ao setor privado os custos da “modernização” da fiscalização e da arrecadação. Isso não deverá reduzir o tempo gasto pelas empresas brasileiras na administração tributária, que se mantém como o maior entre 183 países (108,3 dias em média por ano), de acordo com estudo do Banco Mundial (Doing Business 2010). A introdução da Nota Fiscal Eletrônica e do SPED – Sistema Público de Escrituração Digital pode até propiciar alguma facilidade ou vantagem aos estabelecimentos de grande porte, mas transferiu às empresas os elevados custos da implantação, que exige equipamentos, sistemas e pessoal especializado. As empresas médias, que não gozam de nenhum dos incentivos oferecidos aos empreendimentos de micro e pequeno portes, não possuem, também, os recursos e pessoal especializado das grandes para atender às novas exigências da burocracia, e nem o seu poder de mercado para transferir a tributação excessiva. Assiste-se, em consequência, a um processo de absorção das empresas médias pelos grandes grupos, inclusive com a desnacionalização acentuada de alguns setores, como o de autopeças. Essa informatização da burocracia e a tributação elevada, por sua vez, representam um desestímulo ao crescimento das pequenas empresas, pois perderiam o benefício da simplificação burocrática e da menor carga tributária. Isso coloca a preocupação com o destino da empresa média no Brasil e com as consequências de seu desaparecimento, principalmente no que tange à geração de empregos. Embora o governo se vanglorie de sua atuação durante a crise, é importante recordar que políticas econômicas verdadeiramente anticíclicas são de natureza intrinsecamente temporária, suavizando os efeitos negativos do ciclo de contração. O economista inglês John Maynard Keynes, fonte de inspiração de todos os que defendem a regulação, sugeriu, em plena Grande Depressão, que o investimento público deveria ser aumentado temporariamente para compensar a retração do setor privado, mas se referia a aumentos temporários dos gastos, que gerariam grande quantidade de empregos temporários. Contudo, numa “tropicalização” das recomendações key-

Gráfico 3: Evolução do gasto público corrente 2000 - 2009 (% do PIB)

Fonte: Tesouro Nacional.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

20

Matéria de Capa
nesianas, o governo entre 2009 e 2010 expandiu de forma significativa a quantidade de funcionários públicos, além de conceder generosos aumentos de seus salários. Essa expansão dos gastos com pessoal é do tipo permanente, contribuindo para elevar o gasto público corrente a 45,1% do PIB em 2009 (Gráfico 3), o que implica incrementar o tamanho do setor público na economia, já elevado para os padrões internacionais de uma economia emergente como a brasileira. Tanto o aumento da participação do Estado na economia, seja pela tributação, criação e expansão de empresas estatais, como pelo crescimento dos gastos de pessoal são medidas de caráter permanente, cujos efeitos continuam presentes mesmo após a recuperação econômica, passando a se constituir em obstáculo para o exercício da política fiscal e, em consequência, também da monetária. A “contabilidade criativa” que vem sendo utilizada para obter um “superávit primário” maior não muda a realidade de que a “responsabilidade fiscal” foi abandonada nos últimos anos. O resultado tem sido a manutenção dos juros elevados, a valorização cambial e a expansão da dívida pública, cuja real evolução fica “mascarada” ao se descontar do montante total as reservas internacionais acumuladas pelo Banco Central e o crédito gerado pelos empréstimos do Tesouro ao BNDES. Desse modo, ao analisar a evolução da dívida total sem descontos (bruta) podemos constatar que sua trajetória tem mostrado franco crescimento, situando-se próxima a 60% do PIB, pondo em risco a sustentabilidade futura da política fiscal brasileira. Muitos dos países desenvolvidos que atualmente apresentam excessivo endividamento fiscal e flertam com a ameaça de calote soberano apresentaram evolução similar à que vem ocorrendo no Brasil. O desafio para o novo governo é o de procurar restabelecer a responsabilidade fiscal pelo corte de gastos, que devem ser mais acentuados para liberar recursos para investimentos. Além disso, deverá adotar medidas que estimulem o investimento privado em infraestrutura, para evitar que a taxa de crescimento da economia seja comprometida. De fato, para chegar a ser um país desenvolvido o Brasil precisa crescer continuamente a taxas elevadas, o que somente será viável se houver uma taxa de investimento de pelo menos 25%, que dista muito dos atuais 18%. Caso contrário, estaremos condenados a repetir outro novo ciclo de baixas taxas de crescimento, principalmente no momento em que as taxas de juros internacionais começarem a subir, levando parte importante dos capitais estrangeiros que hoje contribuem para que o país cresça de forma acentuada. Esse tão sonhado desenvolvimento econômico, que serviria para erradicar de forma definitiva a miséria, construindo uma economia mais forte e mais justa, passa necessariamente por uma correta divisão de atividades entre o setor público e o privado. O critério de delimitação deverá ser pautado por critérios de eficiência. Afinal, o Estado tem tarefas relevantes a desempenhar em áreas como segurança, saúde e educação, o que não vem fazendo com eficiência, pelo que deve estimular o setor privado em vez de procurar substituí-lo, criando um ambiente regulatório favorável ao desenvolvimento da livre iniciativa.

A Suécia depois do modelo sueco
de Mauricio Rojas

R$ 15,00
Este livro mostra o que aconteceu com o modelo de welfare state implantado naquele país. Originalmente socialista, Rojas assistiu à debacle do famoso modelo sueco da economia do bem-estar e às alterações que se sucederam, desmascarando a derradeira utopia da esquerda no mundo.

Esta e mais 80 obras estão à venda no Instituto Liberal

Peça pelo site:

www.institutoliberal.org.br

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

21

Especial
Uma visão liberal do fato

melhor do período eleitoral foi a manutenção da herança institucional deixada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Apesar de todas as diatribes, o esqueleto que suporta a Lei de Responsabilidade Fiscal e as metas de inflação foram mantidas. Mesmo sendo alcunhadas pelo presidente de “herança maldita”, Lulla manteve-se dentro desses parâmetros, ainda que mudasse algumas regras contábeis, como fez em relação ao superávit primário. Agora, com as obras necessárias para a realização das Olimpíadas no Rio e a Copa do Mundo no Brasil abre-se um espaço tentador para a realização de gastos vultosos, e enorme dificuldade para controlá-los. A experiência no Brasil (vide os Jogos Panamericanos) tem mostrado que as obras só são contratadas quando em função do tempo, as licitações se tornam impossíveis. A corrupção é o resultado direto da “pressa planejada”.

O

tom de deboche com que Lulla reage às críticas do Tribunal de Contas da União, pois ele diz acreditar que o controle é incompatível com a eficiência quando, na verdade ele é essencialmente o único e legítimo instrumento oficial de checks and balances possível. Esta atitude crítica e de menosprezo ao Tribunal, tratada em tom de deboche, vem sendo, aliás, recorrente e despertou o primeiro lugar em duas categorias: mau e feio. Esta, no qual por fim foi escolhida, é o troféu de o fato mais feio do período, onde acabou sendo superado. A crítica ao TCU tem caráter mais permanente e mais deletéria que a indevida participação do Presidente na eleição de Dilma Rousseff. Criticar o TCU por apontar equívocos na realização de obras estatais é, antes de tudo, uma atitude ditatorial ou imperial do monarca em exercício. A existência de um Tribunal de Contas é administrativamente a única possibilidade de defesa da sociedade contra os excessos do poder executivo.

O

comportamento de Lulla nas eleições, que acabaram por conduzir Dilma Rousseff ao poder, extrapolou, em muito, o que a ética autorizaria a um presidente que, em nenhum momento, se licenciou do primeiro cargo do Poder Executivo. As inaugurações, legítimas ou inventadas, de obras resultantes do PAC foram utilizadas francamente para carrear votos para a candidata escolhida pelo Presidente. No 2º turno Lulla excedeu-se, e fez verdadeiros comícios no exercício do seu cargo. Foi feio e acabou superando, em desqualificação, as críticas com as quais o presidente tentou qualificar o TCU, o qual recomendou a suspensão de algumas obras do PAC (em especial) por falta de licitação e, mesmo, por pagamentos de obras não realizadas. Essa atitude é um retrocesso republicano e caracteriza um modelo imperial de governar. O que há de mais próximo de Lulla é a definição de Luis XV, quando afirmou: L´etat c´est moi.

O

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

22

Educação

Liberdade e Tecnologia
José L. Carvalho
Vice-Presidente do Instituto Liberal e Professor de Economia da Universidade Santa Úrsula uas obras, separadas por um quarto de século, tratam do futuro e do impacto da tecnologia sobre a civilização: The Future of Technological Civilization, de Victor Ferkiss (1974) e NonZero: The Logic of Human Destiny, de Robert Wright (2000). Creio ser útil um exame dessas duas obras, que vêm influenciando as reflexões a respeito de como o desenvolvimento tecnológico tem afetado a liberdade das pessoas. Embora os argumentos de Ferkiss tenham sido construídos antes da queda do Muro de Berlim, suas observações são atuais, uma vez que a onda contrária ao pensamento liberal tem crescido alimentada pelos movimentos ambientalistas e pelos críticos do que inapropriadamente ficou conhecido como neoliberalismo. Ferkiss destaca a globalização em um contexto ambientalista e apresenta uma percepção negativa sobre a filosofia liberal e, consequentemente, do futuro do individualismo e da sociedade de homens livres. De maneira construtivista, elabora o que deve ser feito para que a humanidade seja salva. Confundindo causa com efeito – Liberalismo emergiu com o advento da modernidade; hoje ele é obsoleto e perigoso, porque a era na qual ele nasceu está chegando a um fim. (p.8) – ele descarta a filosofia liberal por ser incompatível com o mundo em mutação no qual vivemos. Os problemas ambientais gerados pelo progresso – e não pela existência de bens de propriedade comum e pela má caracterização dos direitos de propriedade – são a bússola que aponta a direção do sistema de valores que permitirá às sociedades lidar com a relação humanidade-tecnologia-natureza. Isso exigiria uma mudança drástica na organização social, e a tecnologia da informação e comunicação (TIC) tornaria possível tal transformação: ... o mundo do século vinte e um será um no qual a liberdade humana deverá ser planejada e, na realidade, criada por meio

D

de regulamentação social tornada possível pelas poderosas tecnologias de supervisão e controle que estarão disponíveis. (p.18) É fato que a tecnologia tem sofrido mudanças drásticas, especialmente no campo da informação e comunicação e não resta dúvida de que as novas tecnologias da informação e comunicação podem produzir um tipo de governo Big Brother. O crescimento das regulamentações e dos controles governamentais que enfrentamos hoje em dia é uma indicação de que a visão de Ferkiss, na metade da década de 1970, reflete uma ameaça verdadeira à existência de uma sociedade liberal. Entretanto, Ferkiss desconsidera a luta dos indivíduos, ao longo dos séculos, para restringir o poder do governante. Assim, o poder do governante, a despeito dos avanços tecnológicos, constrangerá mais ou menos nossas liberdades, dependendo das instituições sociais que tenhamos desenhado para protegê-las. Tecnologia em si não age, embora ela seja sempre usada para satisfazer os desejos humanos.

Para Ferkiss a sociedade de homens livres está se autodestruindo e somente uma nova filosofia política pode salvar a humanidade. Essa filosofia seria o humanismo ecológico [o qual] difere do liberalismo por assumir que o bem comum existe e que seu conteúdo é passível de ser conhecido, e que ele tem prevalência sobre todos os bens privados. (p.273). É falso atribuir ao liberalismo a negação do bem comum. A proposição liberal é a de que em uma sociedade, o bem comum, ainda que não saibamos exatamente o que é, será promovido pela ação livre dos indivíduos na busca de seus próprios interesses, sob um conjunto de instituições que garantam as liberdades e estabeleçam responsabilidades delas decorrentes. Se o principal objetivo de Ferkiss é mudar, por uma revolução promovida pelo convencimento, a tendência da organização da sociedade humana, Wright (2000) alega ter descoberto a direção da evolução biológica e da história da humanidade: Minha esperança é a de ressaltar um tipo de força – a dinâmica do soma-não-zero – que tem, de forma crucial moldado o desabrochar da vida na terra, até agora. (p.5). Sob a lente da teoria dos jogos, Wright conduz o leitor por uma rica e interessante jornada, identificando ao longo da história humana as inovações que introduzidas na vida social a direcionaram. Inovações, tanto na produção de bens materiais quanto nas instituições sociais são criadas para promover jogos de soma-nãozero entre os indivíduos. Assim, instituições que reduzem os conflitos entre os indivíduos em uma sociedade têm emergido ao longo da história. Esse processo, assim como sua velocidade, mudou drasticamente com o advento da Sociedade Moderna. A inovação que promoveu o desenvolvimento e a disseminação desse processo foi a invenção por Gutenberg dos tipos móveis para a impressão pedagogicamente comparada por Wright com a Internet: Na realidade,

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

23

Educação
não há melhor preparação histórica para se pensar como a Internet redesenhará a vida política e social do que examinar como a imprensa as modificou. (p.176) Nesse contexto, ele enfatiza a importância da imprensa para os movimentos de protesto tanto na sociedade quanto entre grupos: A imprensa lubrificava os protestos. Ela o fazia reduzindo os custos de informar e mobilizar uma grande audiência. (p.176). Não é por outra razão que governos, embora autodenominados democráticos, vêm controlando ou tentando controlar o processo de disseminar informação nas sociedades, inclusive pela Internet. A redução dos custos de informação e comunicação, promovida pelas novas tecnologias, tem alimentado movimentos separatistas, sectários e terroristas, assim como a sociedade civil na sua luta pela descentralização do poder político e pela liberdade. Com o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) ao longo do século XX os fundamentos das relações políticas e econômicas se modificaram. Entretanto, essas mudanças ocorreram em um período muito curto de tempo e por isso mesmo não foram acompanhadas pelos costumes, normas sociais e leis, assim como outras instituições, inclusive governança, tanto pública quanto privada. A cultura muda mais lentamente como bem explica Ogburn (1950). Essa distância, entre a cultura e o dia a dia do indivíduo na tentativa de se adaptar às novas tecnologias exige um ajustamento. Ajustes sociais têm custo e requerem tempo e por isso mesmo produzem duas forças conflitantes: globalização e tribalismo. A globalização é a reação econômica aos incentivos gerados pelas novas TIC. Por reduzirem os custos de transação elas favorecem o comércio internacional e as transações financeiras internacionais, dando origem às empresas transnacionais. Tribalismo é a reação cultural à globalização, a qual ameaça as diferenças culturais e linguísticas por semear a cultura do consumo (consumismo) que favorece o livre comércio e o inglês como a principal língua. Reduzindo os custos de congregar pessoas, as novas TIC facilitam o desenvolvimento de tribos identificadas etnicamente (como na Iugoslávia), religiosamente (como na Turquia) ou linguisticamente (como em Quebec, Canadá). Mas, como seria esse mundo globalizado? A governança pública tende a se expandir para promover soluções para os problemas não considerados pelos códigos morais ou fora do escopo do sistema de preços devido a falhas de mercado. Isso já vem ocorrendo em dois níveis. Os governos nacionais estão expandindo o seu papel de regulador pela multiplicação de agências de controle e monitoramento. As atuais organizações internacionais assim como as novas que vêm surgindo têm procurado prover uma ordem supranacional pela demanda das corporações transnacionais e do mercado financeiro globalizado, assim como em resposta às pressões de grupos organizados por meio de ONG’s. Isso significa que Ferkiss estava certo ao prever para o século XXI que a liberdade humana precisava ser planejada? Não, e a revisão de Wrigth nos convence de que, a despeito de todas as dificuldades atuais a liberdade e a proliferação de interações do tipo soma-não-zero, só possíveis em um ambiente de liberdade e criatividade, continuarão a promover a prosperidade da humanidade. As novas TIC têm afetado o comércio e o mercado financeiro internacionais a tal ponto que podemos dizer que elas são responsáveis pela globalização do século XX. Provavelmente a Internet é a inovação mais facilmente associada à globalização, graças a outra inovação que enfatiza a característica individualista da sociedade moderna, o computador pessoal (PC). Contrariamente às indicações de Ferkiss, (1974), de que o liberalismo seria incompatível com esta nova civilização da tecnologia, o PC e a Internet amplificam a característica individualista da modernidade, assim como o sentimento individual de pertencer a uma comunidade sem barreiras físicas ou a um grupo ou tribo. As escolhas individuais de interação com outros têm se expandido a custos menores. O mercado financeiro internacional é provavelmente o mercado mais globalizado hoje em dia. Isso explica, em parte, a tendência liberalizante nos mercados financeiros domésticos de modo a promover um fluxo internacional de capitais, mais contínuo. Com o desenvolvimento das novas TIC as transferências financeiras ficaram mais baratas assim como o custo de se obter informações dos parceiros financeiros no mercado internacional. Identificando a possibilidade de expandir seus negócios por meio das novas TIC os mercados financeiros locais pressionavam os governos por liberalização. À medida que mais transações internacionais se tornavam viáveis para os empreendedores locais a pressão por liberalização do mercado se espalhava por todo o setor financeiro. A liberalização a que nos referimos aqui não implica menos intervenção governamental no mercado, mas menos ação governamental restringindo o fluxo financeiro internacional. Com a crise das subprimes esse processo foi interrompido. Reagindo à crise os governos nacionais têm restringido as atividades desse setor por meio de normas regulatórias. Apoiados por vários governos nacionais, alguns organismos multinacionais já deixaram clara sua disposição de assumir um papel regulador nesse mercado internacional. A globalização dos mercados financeiros produziu um benefício líquido para todos os participantes? Os benefícios líquidos apropriados, como comumente se argumenta, se concentram nos países desenvolvidos em detrimento dos demais participantes? A globalização promoveu o crescimento econômico? Uma avaliação da liberalização do mercado financeiro internacional deve ser conduzida para um período anterior à crise subprime, a menos que esta tenha resultado de tal liberalização. Este não foi o caso. As evidências indicam que a crise, como o nome que a identifica deixa claro, teve origem nas falhas de governo nos Estados Unidos. Embora a literatura técnica sobre finanças seja abundante a evidência empírica neste particular é bastante escassa e deve ser vista com reserva. De um modo geral as características dos dados usados em tais estudos não atendem às exigências necessárias ao desenvolvimento de tais análises. Os estudos que investigam a relação agregada entre desenvolvimento financeiro, na maioria dos casos devido à liberalização desse mercado, e

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

24

Educação
crescimento econômico, têm indicado, empiricamente, que há um incremento positivo no crescimento econômico que pode ser associado ao desenvolvimento financeiro [KingLevine (1993)], aparentemente decorrente de melhor alocação dos recursos [Beck-Levine-Loayza (1999) e Galindo-Schiantarelli-Weiss (2002)] assim como pela superação das dificuldades financeiras das pequenas empresas participarem do comércio internacional [Rajan-Zingales (1998) e Laeven (2000)]. Se por um lado as novas TIC não têm o impacto direto na concepção filosófica de sistemas de governo, por outro lado, ela são importantes, como em todas as outras atividades humanas, para administração e controle do orçamento público bem como para harmonização de impostos entre os diversos níveis de governo. Como as novas TIC reduz os custos de administração e controle do governo elas também promovem o crescimento do governo uma vez que a coordenação de suas atividades se tornou mais barata. O fato é que o governo tem crescido em todo o mundo a despeito dos custos de administração de suas atividades. A instabilidade macroeconômica registrada ao longo dos anos 1980 forçou os governos a evitar a expansão de seus gastos por meio do imposto inflacionário. Esses países usaram a privatização para ajustar o orçamento público embora não tenham ajustado o setor público às novas condições. Sob um ambiente de crescimento econômico medíocre, a outra forma de aumentar a receita governamental era a introdução de um sistema efetivo de monitoramento do contribuinte para reduzir a evasão fiscal. As novas TIC eram justamente o que as autoridades governamentais precisavam para manter e aumentar a receita tributária sob tais circunstâncias. Se por esse lado as TIC têm colaborado para o crescimento do governo, elas também tem proporcionado ao cidadão melhores instrumentos para seu controle. Na medida em que os custos de informação e comunicação são reduzidos, os cidadãos podem dispor de um sistema de administração da justiça mais eficiente, assim como de melhores mecanismos para monitorar o governo, particularmente no que se refere às garantias do Estado de Direito. Com o declínio dos custos de organização de grupos, os custos pecuniários para os cidadãos controlarem o governo foram reduzidos. E é exatamente isso que várias ONG têm feito por todo o mundo. Assim, as TIC têm favorecido o processo democrático na sociedade contemporânea, como já destacavam Jefferson e Madison (Federalist Papers números X e XIV). Papers F A importância da informação na sociedade contemporânea induziu alguns autores [por exemplo Meléndez (2002)] a sugerir a inclusão nos direitos humanos do direito de informar e ser informado sem custo. Assim, a autoridade pública deveria garantir livre acesso à Internet semelhantemente ao acesso a livros provido pelas bibliotecas públicas. O argumento é de que a participação do cidadão é essencial à representação política, de modo que se o governo não der livre acesso aos serviços de Internet ele estará condenando uma parcela substancial da população de países em desenvolvimento à exclusão do processo político. Se levarmos a sério esse argumento, somos forçados a concluir que o governo deveria também prover livre acesso a outros bens e serviços como: telefone, aparelhos de TV e rádio, serviços de correio, para mencionar apenas os mais óbvios. Esse é um caminho muito perigoso. Uma melhor alternativa seria investir no recurso mais importante do país, sua população. Que educação é importante todos concordam, particularmente para países em desenvolvimento. Entretanto, os recursos públicos alocados à educação são bem inferiores ao que o consenso público indica. Nos países em desenvolvimento, em particular na América Latina isso parece ter resultado de uma forte tendência de investir em capital físico conforme os modelos keynesianos de crescimento sugeriam ao longo dos anos 1950. Educação promove o bem-estar do indivíduo desenvolvendo suas habilidades para competir por recursos escassos. Ela enriquece as pessoas e as torna mais sociáveis, reduzindo os custos de comunicação local e global. Schultz (1975) destaca a importância do processo educacional na formação de habilidades que permitem às pessoas conviver com os desequilíbrios econômicos e sociais, tão frequentes na sociedade contemporânea. Além disso, um mínimo de educação formal é exigido para o uso eficiente das novas TIC, em particular da Internet. Assim, a preocupação de exclusão de pessoas do processo político exige, em primeiro lugar, uma revisão do atual papel desempenhado pelos governos dos países em desenvolvimento em seu processo educacional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECK, T, R. LEVINE and N. LOAYZA, Finance and the Source of Growth. Journal of Financial Economics, 58 (1999):261–300. FERKISS, Victor, The Future of Technological Civilization. New York: George Braziller, 1974. GALINDO, A., Fabio SCHIANTARELLI and Andrew WEISS, Does Financial Liberalization Improve the Allocation of Investment?: Micro Evidence from Developing Countries. Working Paper 467. Washington D.C.: Inter-American Development Bank, 2002. KING, R. and R. LEVINE, Financial and Economic Growth: Schumpeter May Be Right. Quarterly Journal of Economics, 108 (1999): 717–37. LAEVEN, Luc, Does Financial Liberalization Relax Financing Constraints on Firms? Policy Research Working Paper 2467. Washington, D.C.: World Bank, 2000. MELÉNDEZ, A. Hugo, Médios de Comunicación y Conflicto Social. Contribuciones, 19 (Abril/Junio 2002): 11–29. OGBURN, William, Social Change. New York: Viking, 1950. RAJAN, R. and L. ZINGALES, Financial Dependence and Growth. The American Economic Review, 88 (1998): 559–86. SCHULTZ, T. W., The Value of Ability to Deal with Desequilibria. Journal of Economic Literature 13 (1975):827–46. WRIGHT, Robert, Non Zero: The Logic of Human Destiny. New York: Pantheon Books, 2000.

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

25

Livros

O demolidor de utopias
Resenha do livro Sabres e Utopias: visões da América Latina, de Mario Vargas Llosa. Ed. Objetiva, 2010.

ono de incrível talento literário, agora reconhecido pelo Prêmio Nobel, o peruano Mario Vargas Llosa é também um ótimo escritor de crônicas políticas. E, ao contrário de muitos de seus colegas, ele não é um puxa-saco de caudilhos de esquerda, e sim um incansável defensor da democracia liberal. A coletânea de artigos reunida no livro Sabres e Utopias demonstra todo o bom-senso e a racionalidade deste grande escritor, qualidades raras entre os romancistas latino-americanos. Sob a influência de grandes pensadores, como Popper, Mises e Isaiah Berlin, Vargas Llosa defende a sociedade aberta, um modelo liberal de pluralidade e tolerância contra todos os tipos de coletivismos autoritários. Para ele, não existem soluções definitivas para os males que assolam a humanidade. Podemos apenas evoluir, mas devemos sempre evitar as tentações utópicas, aquelas que prometem um paraíso terrestre e costumam entregar, na realidade, o inferno. Vargas Llosa considera a liberdade política e a liberdade econômica dois lados da mesma moeda. Isso fez com que ele rejeitasse os autoritarismos de “direita” também. A economia de mercado deve sempre andar de mãos dadas com o Estado de Direito, com garantias individuais, como a liberdade de expressão e artística. Sua desconfiança em relação aos militares, que colocariam fim às ameaças marxistas no continente, sempre foi total. Pinochet, por exemplo, era visto como um “assassino e ladrão”. Não existem dois pesos e duas medidas, como acontece com muitos de seus colegas de esquerda.

D

A covardia “politicamente correta”, típica dos intelectuais da região, simplesmente não faz parte da personalidade de Vargas Llosa. Seus princípios liberais são seu único norte. Quando o presidente Lula abraçou o ditador Fidel Castro, enquanto o cadáver do dissidente Orlando Zapata ainda esfriava, Vargas Llosa escreveu sobre a sensação de asco que vivenciara. O escritor lamentou ainda as amizades do presidente brasileiro com a “escória da América Latina” e com a teocracia iraniana. A popularidade de um governante não representa obstáculo algum para o julgamento imparcial de Vargas Llosa. A insistência das crenças utópicas abaixo da linha do Equador é um tema recorrente em suas crônicas. Para Vargas Llosa, não há problema se a busca pela utopia for uma aventura individual, por meio das artes e da literatura. O perigo é quando se tenta transportar tal busca para o campo da política social. Querer “moldar a sociedade

ignorando as limitações, contradições e variações do ser humano, como se homens e mulheres fossem uma argila dócil e manipulável capaz de se ajustar a um protótipo abstrato, concebido pela razão filosófica ou pelo dogma religioso com total desprezo pelas circunstâncias concretas, pelo aqui e agora, isso contribuiu, mais do que qualquer outro fator, para incrementar o sofrimento e a violência”. O nacionalismo foi um dos maiores entraves ao desenvolvimento da América Latina, e por isso mesmo um alvo incessante de Vargas Llosa. O “outro”, um estrangeiro, sempre foi utilizado como bode expiatório para os nossos infortúnios. Os ataques aos “imperialistas” sempre alimentaram a retórica dos oportunistas. O antiamericanismo é a marca registrada de inúmeros intelectuais latinoamericanos. Vargas Llosa se destaca neste mar de estupidez, reconhecendo que “o nacionalismo é a cultura dos incultos”. A globalização, econômica e cultural, tem sido uma bandeira constante do escritor. Em suma, Vargas Llosa tem lutado a boa luta, consciente de que os liberais precisam vencer batalhas no campo das idéias, mas que a guerra jamais acabará. Não existem panacéias neste mundo. Devemos sempre evitar o fanatismo, as utopias, as soluções mágicas. Precisamos disseminar uma cultura da liberdade. Ele tem feito sua parte, sem dúvida, de forma brilhante.
por Rodrigo Constantino Economista e escritor

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

26

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

27

DEZ/JAN/FEV - 10/11 - Nº 53

28

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful