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nós, os Gálatas

(1)

c a r l o s q u i ro g a

convocatória aberta a todas as raças, a todos os credos, sexos, mas

Somos os que devemos e estamos os que queremos, nesta

especialmente aos mais próximos, aos mais íntimos a este espaço, para nestes Dias de Criação conseguirmos recriar o encontro com o nosso imediato corpo social. Todas as noites, todos os dias,

alguém nasce para a miséria, afirmou Blake, e parece que o nosso corpo social só tenha crescido durante séculos para essa miséria, para o desencontro obrigado de fora. Será que o nosso corpo (no modo de falar, não no que fala) pode continuar a sonhar na nossa

língua, pode seguir a ser o nosso corpo no modo de falar, sem a proximidade das partes...? Há um corpo de pulmões e membros, de sentidos e dedos, de centenares de pêlos e miles de poros. Um para que respire, ande, sinta e toque, para que viva e esteja corpo que é uma pátria, a pátria mais entranhada que cada ser é, e acordado a uma vida mais feliz e plena, dois pulmões lhe darão todos, os dedos, pêlos, poros, quanta mais saúde tenha mais corpo será. O nosso corpo privado e o corpo público da Galiza, no que lhe resta de identidade própria, anda mutilado e desencontrado nas

mais ar, duas pernas lhe abrirão mais horizonte, os sentidos

suas peças, à cuja memória é acordado em empreendimentos e olhares como este –em que muitos e muitas insistimos para que
1. O presente texto serviu de base inicial e aproximada à intervenção na «Mesa relações entre Galiza / Trás-os-Montes», celebrada às 10 H. do 13 de Maio de 2006, Casa da Eira Longa, em Vilar, Boticas. Libera-se no blogue Quantasletras para um rio, sob licença Creative Commons 3.0 BY-NC-SA, em Novembro de 2010. 1

e somos. na prática fronteira. mesmo sendo o espaço galego é o íntimo espaço de Portugal que é o também cerne. até que o costume arrume definitivamente a ideia de Galiza que mutilada pode ser ainda acordada a um mais amplo sentir renovado sangue a lhe correr por dentro. no outro Portugal. respirar. Portugal. para além doutros apriorismos. Porque do mesmo modo que interessou menos aos oculto ou contaminado –como a obra diarística onde a vertente de no que atinge à comunidade nacional portuguesa. nesta convocatória aberta.Q U I R O G A N Ó S . Falta ir efetivando mais e mais na pragmática do real. e por aí fora. Porque o espaço espaço transmontano e não é tão o cerne de nós. também é fácil para 2 os galegos. subsidiário de uma História com maiúscula. O espaço transmontano é o íntimo espaço galego ou transmontano. e do corpo coletivo todo. ou há outro Portugal que não é o aqui é o lugar de sermos o cerne de nós. assim nos interessa mais como galegos estar aqui para sentirmoE. desde Murguia. Porque transmontano não é Portugal. Em Portugal. também podemos ser. A teoria já está afirmada. Angola. que psicologicamente ainda se resguarda em restos na cabeça de cada corpo privado. nos mais em intimidade. como no Brasil. corpo vivo a Somos os que devemos e estamos os que queremos. Mas menos intimamente. e tem todo o sentido estarmos aqui. a mais alargados horizontes a percorrer. de uma do dia a dia. está-o por nossa parte desde Castelao. O S G Á L A T A S C A R L O S aconteçam todas as vezes que possível seja. identificar-se não só . interessou menos porque não falava do íntimo de nós–. por falarmos no mundo de Torga e na sua escrita –que tem todo o sentido estando como aqui estamos–. a do outro galegos a parte torguiana onde este espaço se acha em estado mais documento histórico.

A adesão é sincera porque é a raiz menos entusiasmo à poesia. do teológico ao cósmico e ao sociológico (4) . «Miguel Torga também fala do Cachoeiro». transmontano. varrer o pátio e atender a freguesia. «Miguel Torga: um trágico cepticismo». 4. tratar dos porcos. aproximavam o longe. 33. in JL . Lisboa. e não importava a Criação». p. in JL . o longe inclusive de “um Brasil belo e bruto. Almedina. 31 de Agosto de 1982. Artes e Ideias. Rubem Braga. mas também. O Espaço autobiográfico em Miguel Torga.º 75. Até que às vezes os galegos também odeiam. E aderimos. decorre.Q U I R O G A N Ó S . que ele sofreu e soube retratar no livro A Criação do Mundo” (2) .”. limpá-los e arreá-los. Condenado Adolfo que foi abraçar nomes dos amos dos galegos antes de abraçar os filhos que tinha tão próximos. Era n’ A Criação do Mundo. a distância. etc. e especialmente. 3 . 13 de Dezembro de 1983. tarefas como “carregar o moinho.º 40. O S G Á L A T A S C A R L O S neste espaço. as metonímias geográficas (3) ou as presenças reais do espaço origem. Torga. Lisboa. Coimbra. Clara Crabbé Rocha. 1977. no trabalho duro e no tipo de vida que nele honrado que a ele se furta.Jornal de Letras. e por isso mesmo também nas tarefas do emigrante mungir as vacas que davam leite para a casa. Aderem. 3. como hoje não importa nestes «Os Dias da Mas por estarmos onde estamos a homenagem tem mais sentido. ir rachar lenha. aproximava-se o conjunto das designações à contiguidade galega no plano da escrita. 178.Jornal de Letras. n. Artes e Ideias. Fernão de Magalhães Gonçalves. sem que importe muito o paralelo de Agarez. Talvez com presentes. a 2. no seu por vezes violento realismo. Os diferentes tipos de discurso aí atmosferas de ar existencialista ou emotividade repentina. as diversas isso perdoamos. n. que aconteciam longe mas por tratar-se do que se tratava buscar os cavalos da cocheira ao pasto.

Assírio & Alvim. o assunto moral e o assunto social passando num sentimento trágico da vida posto em discurso complexo e noutro registo distanciador. onde a proximidade do mundo recriado e a atingem o equilíbrio. pois. 4 . o mesmo mundo. Lisboa). Lisboa. Lda. 1990 (a 1ª edição é de 1984 em A Regra do Jogo. as mesmas fórmulas para resolver conflitos na a superstição. o mesmo matiz na afloração dos arquétipos. Moisés Espírito Santo. os conflitos do homem com Deus e com a natureza. o poético. apesar de integrado oficialmente repertório num estado político diferente. A Religião Popular Portuguesa. enfim. causa o mesmo efeito que o pólo documentalista na obra diarística. ocuparia um espaço de conformação maior à atual. a popular que aí se analisa. as mesmas condições e história de pobreza extrema e emigração. enfim. de recuarmos muito no tempo. No percurso etnológico e sociológico que camponês imediato da Galiza.. que 5. o mesmo todo que formam a religião e a magia e mesma simbolização da natureza e das coisas. sua depuração literária leve.Q U I R O G A N Ó S . a manter a autenticidade universal. Moisés Espírito Santo realiza à volta do território do eixo Bragareconhecidos Porto (5) . tudo isso que é igual ao outro Torga. mas com a lente da máquina muito mais levantada e com filtros depuradores de maior poder. mas mais mesmo Espaço. os mesmos mitos e sonhos coletivos. A mesma Natureza. o mesmo predomínio da família matrifocal. Um mundo que. ao ponto de abstrair para a sua elementaridade reconhecível nos seus elementos. Edições. O S G Á L A T A S C A R L O S consciência literária evidenciando-se. Mais do que a experiência religiosa tradicionais. reconhecemos as mesmas crenças sociedade aldeã. a descrição dos elementos culturais e míticos podem ser em continuidade quase exata no Aderimos.

5 . Tem todo o sentido estarmos aqui. fala da aliança no ano 160 a. 1988. nós. Moisés Espírito Santo segue nisto José Mattoso no seu Portugal Medieval. mencionado por Moisés Espírito Santo. Origens Orientais da Religião Portuguesa seguido de Ensaio sobre Toponímia Antiga. C. E até na análise da Toponímia Antiga acha confirmação. Moisés Espírito Santo. que teriam mantido grandes guerras com os Gálatas. Lisboa. Como afirma o A distinção entre a Galiza do norte e a Lusitânia é próprio Espírito Santo. O texto bíblico. entre Judas Macabeu. que seriam os habitantes da Galécia ou Galácia. O espaço dos 8:1-4 como Gálatas (8) . com sabedoria bem terrena. 8. Porque aqui é o lugar de sermos o cerne de nós. nunca situam a Lusitânia e a Galécia nas mesmas articula o território português em dois pólos. 7. os que aparecemos em I Macabeus Gálatas todos. O S G Á L A T A S C A R L O S do centro do país (6) : explicaria os nomes de sítios como Galegos e Galiza na toponímia Percebe-se melhor Torga assim percebido. Os geógrafos antigos. mas os O eixo Braga-Porto é diferente do Coimbra-Viseu e ainda hoje seus estudos sobre religiões e tradições acabam por também provar. (7) terem sido outrora os habitantes de toda a faixa costeira Estrabão. o de Torga. entre os quais fronteiras: ora a Galécia vem até ao Sul. e os Romanos. Ibidem. Galegos. p. somos. A de que a Galiza se liga com este espaço. moderna e arbitrária.Q U I R O G A N Ó S . os Galegos. 349. e não importe já mais donde a gente proceda para estes «Os 6. parece desde o Tejo aos confins da Galiza. habitantes da Galécia. ora é a Lusitânia que vai até ao Norte. nome comum aos habitantes da outra Galácia da Ásia Menor. chefe de Israel. todos nós agora e aqui. para que o mundo se invente hoje e a partir de hoje sabendo quem Dias da Criação». Assírio & Alvim.

Finalmente. poderia ser de e continuam a tentar desenvolver. como modo fundamental de manter a própria identidade.Q U I R O G A N Ó S . O S G Á L A T A S C A R L O S utilidade aludir às tentativas épicas. para não ser estar informadas. desenvolvidas com custos dramáticos. que no último quartel do século XX se desenvolveram. por parte de muitas associações no sentido de uma aproximação da Galiza e Portugal. Mas. talvez seja preferível deixar esta parte para o diálogo aberto e posterior que entre todos nós se há de dar –chamando essas recordações se imprescindíveis. e porque algumas pessoas já disso podem 6 . assim como por empenhamentos mais particulares. conversa cansativa. e para além desta lírica inicial. como AGAL.