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“Seu pai morreu alguns dias após seu nascimento”.

Essa era a única informação que eu recebia para a minha insistente curiosidade sobre o meu pai. Minha mãe não dizia mais nada. Aliás, minha mãe há muito já não dizia ou sentia coisa alguma. Tudo que expressava era uma certa mágoa, visível através de sua fisionomia pesada. Não me recordo de vê-la sorrindo. Ela era apenas um corpo vagando pelo mundo. Uma alma perdida em seus labirintos mentais, sendo perseguida por um Minotauro que se recusa a dar o golpe final e que estendia a agonia da espera da morte para cada corredor e cada curva. Nossos familiares... eu não os conhecia. Mudamos tantas vezes que perdi, desde a minha infância, qualquer referência local. Éramos tão fugazes no espaço, como o tempo é para a vida. Vizinhos... não passavam mais que dois anos de contato. Minhas raízes foram fragmentadas pelo caminho. É certo que não conheci meu pai, mas todas as pessoas, com as quais tive a oportunidade de conversar, conheceram as histórias do grande pesquisador que morreu em uma expedição na floresta amazônica, ou do capitão da aeronáutica que perdeu a vida em um teste de um caça ultrasecreto ou tantas outras aventuras que a minha imaginação podia me dar. Certo dia, um colega me disse: “seu pai era o Super-homem”. O pobrezinho não sabia que nenhum herói era capaz de chegar perto de meu pai. Afinal, ele era tudo de melhor que existia em todos eles. O tempo passou e a minha curiosidade sobre meu pai aumentou na mesma proporção em que surgiam suas imbatíveis aventuras. Já estava com dezessete anos quando ganhei um conjunto de roupa social. Na primeira vez em que vesti essa roupa, tão masculina e adulta, fiquei muito tempo observando-me pelo espelho. Aquela imagem de homem, de um certo modo, me intrigava, a não ser pela marca de nascença em forma de lua minguante no pescoço, era quase um desconhecido que estava à minha frente. Nesse instante, minha mãe passou pela porta de meu quarto e de relance se assustou com o que vira e, inconscientemente, disse o nome de meu pai. Lancei meu olhar para aquela mulher, que em prantos e em desespero tentava abafar a palavra pronunciada. Era tarde demais. Caminhei em sua direção, agarrei-a pelos braços e balançando em desespero, pedi que, de uma vez por todas, falasse sobre meu pai. Ela tentou escapar, mas não teve força e sem saída disse que, ao me ver com estas roupas, viu em mim a imagem de meu pai. Essas as últimas palavras que ouvi minha mãe pronunciar. Fui a uma loja especializada em fotografia. Pedi que tirassem uma foto minha com as roupas que havia ganhado e que fosse produzido um efeito de envelhecimento. O produto final me surpreendeu e emocionou; tinha enfim uma foto de meu pai. Procurei os jornais das cidades onde havia morado e pedi que publicassem a foto, pedindo informações sobre a história daquele homem. Foram meses de espera até que um dia recebi uma carta, sem remetente, que

Era na periferia. ainda mais. lendo meus pensamentos. eu era uma mistura de raiva e felicidade. dividi a culpa de todo o meu sofrimento entre duas mulheres que me deixaram tanto tempo sem pai: uma por volúpia e a outra. Só podia ser isso – pensei – ela roubou meu pai de nossa família. mas que recebera uma carta que me levara até essa casa. Não contive e disse que queria falar com meu pai. a mulher sentou-se ao meu lado. Respondi que crescera ouvindo minha mãe dizer que havia morrido. quando me viu. disse que minha mãe não havia mentido. Em pouco tempo a porta se abriu e uma mulher apareceu. Ela perguntou-me o que eu sabia sobre meu pai. A mulher pediu que eu me sentasse em um sofá. e sentou-se em uma poltrona em frente. minha mãe. Uma raiva começou a arder-me por dentro. Ela. Nesse instante. me enlaçou em um maternal abraço e. perguntou o que eu desejava. me Ela. Viajei no dia seguinte para a cidade à qual a carta se referia. Perguntei se fora por causa dela que meu pai abandonara a família. Analisei cada centímetro dessa mulher. postura altiva. se assustou ao olhar para mim. o que .simplesmente dizia que meu pai estava vivo e informava o endereço onde poderia encontrá-lo. nada fez e nada esboçou. que na realidade meu pai morrera dias após meu nascimento. Ela fingiu não entender o que eu dizia. pele bronzeada. do dedão do pé ao último fio de cabelo. Dentro. Comecei a pensar que era a mulher atual de meu pai e que talvez ela o tivesse afastado de minha mãe e posteriormente de mim. Tomei coragem e toquei a campanhia. mas quanto mais me encantava. naquele instante. abriu a porta e pediu que eu entrasse. Vendo que não conseguiria dissuadir-me. mais a minha raiva crescia. Encorpada. onde pareciam morar pessoas mais afortunadas que a maioria dos moradores. Ao ver meu pranto. Energicamente falei para deixar de ser dissimulada e que a reação que ela teve. de súbito. por sinal muito confortável. Sua beleza chamava atenção. ajudou-me a me recompor. Ela respondeu que sim. O endereço era de uma casa verde. muito diferente de minha mãe. Cômodos bem mobiliados e bem acabados. Mostrei para minha mãe. Detive-me na entrada. por mentira. bem conservada. A imagem de meu herói foi quebrada e. Comecei a chorar. Meu coração estava disparado e mil coisas se passavam em minha cabeça. não entendia o porquê da mentira. a casa se mostrava. Ofereceu algo para beber. não deixava dúvida de que ela sabia muito bem quem eu era e do que eu estava falando. Ela me consolou. Com dificuldade encontrei o bairro. ser um corpo estranho naquele bairro de periferia. Ela era muito bonita. mas ela nada disse. tentando esconder o espanto.

Em meu luto paterno nunca mais pronunciei o nome de meu pai. Ao me despedir. Nada respondi.recusei. Pedi que ela me deixasse ir embora. Uma pequena marca em forma de lua minguante em seu pescoço ficou exposta. O vento soprou e fez dançar os longos cabelos da mulher. a mulher pediu perdão por tudo que ela pudesse ter causado. Ganhei a rua e fui embora. o que ela fez depois de ter certeza de que me acalmara. .