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Fábio Cristiano Rabelo

                 

 

A CULTURA OCIDENTAL COMO CULTURA DA TRANSCENDÊNCIA NOS ESCRITOS DE VAZ
 
               

FAJE Belo Horizonte  2008 

Fábio Cristiano Rabelo 
                     

A CULTURA OCIDENTAL COMO CULTURA DA TRANSCENDÊNCIA NOS ESCRITOS DE VAZ
 
Monografia apresentada para a conclusão do curso de graduação em filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia Orientador: prof. Dr. João Augusto Anchieta Amazonas Mac Dowell SJ
 

Belo Horizonte 2008
 

as duas experiências históricas. Palavras-chave: Absoluto. 28f. Belo Horizonte. ocorridas no período histórico conhecido como tempo-eixo as quais plasmaram a experiência cristã de transcendência. levantando a urgência e a necessidade da reproposição do problema da transcendência em novos moldes por parte dos filósofos. encontrará o caminho de sua solução. lançou-se mão dos escritos de Vaz. A conclusão a que se chegou por meio deste trabalho não é algo definitivo e acabado. transcendência . analisando o que ele chama de transcendência. Monografia (Graduação em Filosofia) – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Fábio Cristiano. 2008. O presente trabalho tem por objetivo a tentativa de responder se o ciclo civilizatório conhecido como cultura ocidental chegou ao seu fim ou se está apenas passando por uma crise a qual.Resumo Rabelo. Para isso. metafísica. A Cultura Ocidental como Cultura da Transcendência nos Escritos de Vaz. a transcendência como Idéia na Grécia e a transcendência como Palavra da Revelação em Israel. 2008. linguagem canônica da transcendência até o advento da modernidade que refez de modo radical e profundo as relações entre religião e filosofia até então vigentes. com o devido tempo. modernidade.

..........................................................................................Experiência Histórica .................Introdução .................. 13  3.....Conclusão  ......................................................................... 6............................................. 27  .................................... 29    ................................................................................................................................Transcendência na Modernidade Pós‐Cristã ..............................................Filosofia e Teologia da Transcendência ........................................................................................ 5  2............................SUMÁRIO 1............................................Bibliografia .. 23  5.......................................... 19  4.......................

recorreremos à Antropologia Filosófica de Vaz. é pela estrutura do espírito. a início. devem ser levados em conta: o espírito como vida (pneuma). 183 5   . a noção de espírito. Como afirma Vaz. na tradição ideo-histórica na qual se formou a noção de espírito. coroa da unidade estrutural do ser humano. segundo Vaz. p. sendo este o analogado principal. Na elaboração da categoria antropológica de espírito. Porém. Antropologia Filosófica I. é o lugar do acolhimento e manifestação do Ser e do consentimento ao Ser. que será tratada logo em seguida com base no texto Transcendência:História e Teoria contido no livro Escritos de Filosofia III: Filosofia e Cultura. quatro temas fundamentais. Assim sendo. com o objetivo de entendermos a categoria do espírito da qual depende a categoria relacional de transcendência. segue-se a pergunta se aquilo entendido pelo autor como história ocidental chegará ao fim pelo processo de imanentização sofrido por sua cultura. A esta indagação. começando algo totalmente novo ou a cultura ocidental está apenas passando por uma crise a ser superada no seu devido tempo. Para cumprir com tal meta. O espírito como vida (pneuma) consiste na acepção literal do termo espírito em que se operou a transposição metafórica a qual consagrou o termo nas linguagens filosófica e teológica. o espírito finito do homem só pode ser pensado em analogia ao Espírito absoluto. Nessa primeira denominação. sopro ou respiração nas tradições greco                                                             1 VAZ. o elo conceptual entre a Antropologia filosófica e a Metafísica.1. Para isso. verificaremos primeiro o que é transcendência. o espírito como razão (logos) e o espírito como consciência-de-si (synesis). o espírito como inteligência (nous). de que a cultura ocidental não pode ser pensada sem a categoria relacional de transcendência. por parte de Vaz. o espírito é inteligência enquanto acolhimento e liberdade enquanto consentimento. traz às nossas mentes. o espírito.Introdução O objetivo deste trabalho é responder à indagação que a afirmação. Por outro lado. que o homem se revela um ser de fronteira pelo qual passa “a linha do horizonte que divide o espírito e a matéria” 1 .

forma mais alta do conhecimento. ou seja. 196 6 . O espírito como inteligência (nous). Antropologia Filosófica I. como vida divina.a diferença na identidade na qual a intuição é a unidade absoluta da inteligência e do inteligível ou a intuição absoluta de si mesmo (nóesis noéseôs). numa passagem conhecida da metafísica. O espírito como inteligência também é uno e unificante. No Espírito infinito. O tema do espírito como razão (logos) coloca a idéia de uma ordem universal. Segundo tal tema. Já no espírito finito. Esta unidade absoluta se expressa na identidade da inteligência e do inteligível. exprime a natureza do mesmo como dinamismo organizador que é próprio da vida. há a precedência da identidade sobre a diferença. sapientia). sendo que a palavra inteligível à manifestação do espírito confere uma vida propriamente espiritual à palavra proferida e escrita. o espírito se manifesta como sabedoria (Sophia. tema originariamente grego. ou seja. justamente.                                                              2 VAZ. por conseqüência. cujo ato próprio é. ou seja. presente nas origens do pensamento filosófico. O espírito finito se torna ordem necessária de inteligibilidade e bondade enquanto partícipe da ordem arquetipal da Inteligência infinita e da ordem e medida da lei eterna da Liberdade infinita. contemplar ou ordenar segundo o princípio ou a causa mais elevada” 2 .latina e bíblica. a identidade na diferença na qual a intuição é unificante. p. “Enquanto logos. Conforme Vaz afirma no texto acima. Este tema é aquele que exprime a relação do espírito com o ser como movimento imanente (enérgeia) de identidade na diferença celebrada por Aristóteles. nasce no terreno da formação da ontologia do ser em Parmênides e da visão teleológica da natureza em Anaxágoras e Diógenes de Apolônia. o espírito é atividade de contemplação. podendo até ser considerada mesmo sua matriz primigênia. o espírito é princípio de ordem e. existe precedência da diferença sobre a identidade. No âmbito deste tema. mas não absolutamente una. a relação entre espírito e palavra se estabelece. o espírito postula o Uno absoluto como princípio (arqué) do ser. Correlativo ao ser e correlativo ao uno. o espírito aparece como forma superior de vida. lei eterna: liberdade absoluta idêntica ao Bem absoluto e norma de toda liberdade e bem finito.

o ápice da unidade do ser humano e a existência humana. que tornou-se tema dominante da filosofia moderna. O ato espiritual é fundamentado na estrutura                                                              3 VAZ. conseqüentemente. Como ser corpóreo. citado por Vaz 3 . “ a vida propriamente humana é a vida segundo o espírito” 4 . Enquanto no Espírito absoluto. Conforme Aristóteles. ou seja. Antropologia Filosófica I. “É vivendo segundo o espírito que o homem vive humanamente a vida corporal e a vida psíquica” 5 . situando-se no tempo e no espaço. a vida humana não pode ser chamada com propriedade “vida segundo o corpo” ou “vida segundo o psiquismo”. a vida psíquica.217 VAZ. p. Sendo assim. abertura transcendental para a universalidade do ser. na interpretação socrática do preceito délfico do “Conhece-te a ti mesmo”. a verdadeira existência humana é espiritual. A dimensão categorial do espírito no homem surge como dimensão na qual seu conhecimento do mundo e seu reconhecimento do Outro se situam. a consciência-de-si é identidade absoluta do Si consigo mesmo. viver para os seres vivos é seu próprio existir. vida racional e livre. à escolástica medieval e à filosofia hegeliana do espírito. o homem vive a vida corporal e como ser psíquico. só a vida segundo o espírito é vida de presença a si mesmo: vida de conhecimento de si e de autodeterminação. sua manifestação se dá por meio de suas operações que consistem no exercício dos atos manifestadores do espírito como princípio mais profundo e essencial da vida humana. p. Contudo. encontrou uma expressão altamente especulativa na intuição absoluta de si mesmo de Aristóteles legada ao neoplatonismo. A vida segundo o espírito se mostra como a fonte originária da qual flui o verdadeiro ser do homem sob dois aspectos: o aspecto da presença e o aspecto da unidade. já claramente presente em Santo Agostinho. Antropologia Filosófica I. Sendo o espírito. Antropologia Filosófica I. no espírito finito é retorno a si a partir da exterioridade da natureza.218 4 5 7 . é na reflexividade do espírito que se realiza a unidade efetiva do ser humano.217 VAZ. p.O espírito como consciência-de-si (synesis) tem suas raízes longínquas . provavelmente. Como a vida é o próprio existir do vivente. Esta presença da reflexividade. embora somática e psiquicamente determinada. Só o espírito é presente a si mesmo em virtude de sua reflexividade essencial e.

exercendo-se com intensidade transtemporal. mesmo com a fixação deliberada do espírito em seus atos inferiores ou com a inclinação obstinada do seu dinamismo inato de conhecimento e amor para os objetos inferiores. Por meio dele. p. sem deixar de ser-nomundo” 7 . 222 7 8 9 8 . acolhimento do ser. transformado pela técnica. encontrando no Espírito infinito sua realização absoluta. p.                                                              6 VAZ. Estes dois atos supremos orientam estruturalmente a vida segundo o espírito tal qual um vetor ontológico que subsiste imutável em sua direção. dom ao ser. Antropologia Filosófica I. Antropologia Filosófica I. O ritmo fundamental da vida no espírito é constituído pelo duplo movimento de inteligência. O ato espiritual é o ato vital por excelência do qual a vida se apresenta como perfeição transcendental. A incompletude e imperfeição do ato espiritual aponta para a plenitude e perfeição do Espírito infinito cuja presença no cerne mais íntimo do espírito finito “abre a ferida de uma indigência essencial que espera e apela pelo dom de uma vida divina”8 . p. pobreza e carência diante do outro encontrado no reconhecimento e no amor. Escritos de Filosofia III: Filosofia e Cultura.198 VAZ. pobreza e carência radical diante do Outro absoluto “do qual espera a palavra última sobre sua origem e sobre seu destino” 9 . Tem seu fim em si mesmo. nascendo e fluindo da fonte inesgotável que é o espírito. enraizando-se no espaço-tempo da presença do homem ao mundo exterior pelo corpo próprio e no espaço-tempo psicológico da presença humana ao mundo interior de cada um pelo psiquismo. 222 VAZ. 221 VAZ.ontológica total do ser humano. Antropologia Filosófica I. pulsando por meio de seus atos supremos: a intuição intelectual e o amor. Essa dupla presença é suprassumida dialeticamente “na presença espiritual da identidade consigo mesmo e da identidade intencional e dinâmica com o ser em sua absoluta universalidade” 6 . “o espírito-no-mundo passa além das fronteiras de seu estar-no-mundo. Portanto o ato espiritual é indivisível no espaço. e liberdade. transfigurado pela arte. p. E assim se revela o paradoxo do espírito finito: riqueza e plenitude diante do mundo exterior compreendido pelo saber. não se orientando para a produção de um efeito que lhe seja exterior.

e o ímpeto para a plena intuição intelectual. por um lado. 223 VAZ. p. Neste ponto. a inteligência espiritual. por nós aqui demonstrada. O ritmo da inteligência espiritual é passível de ser representado como oscilação entre a necessária elevação do intelecto ao inteligível e de seu retorno ao sensível. é uma passagem à identidade intencional em ato do sujeito e do objeto do agir. O estabelecimento de um esquema do processo cognoscitivo o qual anteceda e prepare sua forma reputada mais alta. coroa de todo o sistema simbólico. marca da finitude do espírito humano. O termo transcendência. Este problema está interligado com o problema das “formas de vida” (trópoi tou bíou) que encontra sua solução na ética e espiritualidade antigas na afirmação da vida contemplativa (bios theoretikós) 12 . clássico na língua latina na forma                                                              10 VAZ. A unidade estrutural do ser humano. e o amor se faz visão do bem que é sua verdade” 10 .A inteligência espiritual e o amor espiritual se entrelaçam no cimo mais alto da vida do espírito no qual “ a inteligência se faz dom à verdade que é seu bem. 226 VAZ. Esta identidade supõe a atualização da inteligibilidade e amabilidade do objeto no sujeito para que a possibilidade da presença deste seja real nos atos do conhecimento e do amor. Inteligência espiritual e amor espiritual devem ser entendidos aqui como o termo do crescimento e o fruto mais perfeito da vida do espírito em sua estrutura e movimento dialéticos. É conhecido que a tradição filosófica apresenta a sensação e a intelecção como os dois limites extremos da atividade do conhecimento 11 . Antropologia Filosófica I. A vida segundo o espírito em nós. 228 11 12 9 . ora atrai o sensível para o pólo do inteligível que seria o lugar no qual a única forma de conhecimento válida ocorreria. ora atrai o inteligível para o pólo do sensível o qual se apresenta como regulador de toda atividade cognoscitiva. Antropologia Filosófica I. torna-se tarefa que todos os grandes sistemas do pensamento clássico julgam dever cumprir. p. revela-nos a impossibilidade da primazia exclusiva de um desses pólos em vista do desequilíbrio que disto resultaria. seres humanos. podemos e devemos começar a analisar o que é transcendência. de outro. Antropologia Filosófica I. A tensão estabelecida entre os pólos da sensação e da intelecção. p.

Antropologia Filosófica II.verbal transcendere. ponto de encontro entre a ética e a antropologia. uma das categorias da estrutura relacional do ser humano. a transcendência deve ser entendida como relação de transcendência 13 . E. traduzido na significação silenciosa das estruturas do mundo e das leis da natureza. assim. reúne uma metáfora espacial e uma metáfora dinâmica. Escritos de Filosofia III. A negação da transcendência é um prolongamento da negação do espírito percorrida pela filosofia pós-hegeliana e antecipada pelo interdito kantiano à possibilidade da metafísica como ciência. p. a linguagem pressupõe e postula uma relação recíproca que o mundo e a natureza são incapazes de oferecer ao homem.                                                              13 VAZ. o sujeito humano é mediador da passagem da natureza dada à natureza significada. A metáfora espacial designa a transgressão dos limites de determinado espaço intencional. A metáfora dinâmica exprime o movimento intencional que eleva o pensamento para além das fronteiras nas quais habitualmente se move. ultrapassando todo conceito limitado na sua extensão lógica. Antropologia Filosófica II. dá-se. por meio do fazer humano o qual não deixa de ser expressão humana e. 49-92 14 15 10 . coloca o sujeito como ser diante do mundo e o mundo como o horizonte que circunscreve este ser-no-mundo. assim. Esta estrutura contém três dimensões fundamentais: a relação de objetividade. movimento incessante de auto-expressão. A categoria relacional de intersubjetividade 15 . p. Porém. respondendo-lhe no seu próprio dizer. na antropologia de Vaz. E como negar a transcendência sem antes tê-la afirmado? Na acepção antropológica utilizada por Vaz. p. ele confere um significado humano ao seu ser e à realidade em que se situa. Como o homem é linguagem. 9-48 VAZ. exprimindo. apresentando alguns dos problemas teóricos mais decisivos levantados pela idéia de transcendência. a relação de inter-subjetividade e a relação de transcendência. A categoria relacional de objetividade 14 .194 VAZ. Esta negação parece refutável pelo argumento de retorsão o qual propõe a demonstração de que a negação da transcendência implica na afirmação da mesma ao pressupor uma abertura intencional à infinitude do Ser no sujeito que a enuncia pelo fato de só assim poder ser pensada. transformando-o e conhecendo-o pela atividade científico-técnica.

p. Os domínios da história e da natureza. encontrando sua efetivação nos costumes. desenvolvido pela linguagem. por outro. por um lado. Porém. entre outros. mostrando-se como suprassunção necessária da dialética de oposição entre interioridade e exterioridade. Porém. na linguagem. e pela alteridade plural dos sujeitos na relação de intersubjetividade que outorga ao indivíduo singular a tarefa da migração da solidão interior à realização na comunidade do existir-com-o-outro. Ela é evidenciada pela irredutível alteridade do mundo na relação de objetividade. é um encontro espiritual pelo qual existe o reconhecimento mútuo de dois sujeitos. Escritos de Filosofia III. na sensibilidade comum. escritos e. o espaço intencional no qual se desdobra a relação de intersubjetividade nos está vedado pela limitação desta relação que consiste no corpo dos signos que são condição de possibilidade da comunicação entre os sujeitos e que se manifestam através dos sons. Escritos de Filosofia III. reivindicando para si o predicado de transcendente. Pensar este Absoluto transcendente na imanência do sujeito é o desafio profundo e decisivo do                                                              16 VAZ. conforme já apresentado. Daí. Este encontro de duas infinitudes intencionais.197 VAZ. nas instituições. reflexo do paradoxo do sujeito situado na exterioridade do mundo e da história e aberto. p. 198 17 11 . Esta oposição tem como destino o significado da distinção entre o sujeito finito e a realidade objetiva. até mesmo. O Absoluto transcendente se mostra imanente ao espírito que o pensa por não estar sujeito à lei da irredutível exterioridade regente das relações entre os seres finitos. gestos. à universalidade do ser 17 . intuição transparente do outro. A relação de transcendência deriva da superabundância ontológica que brota da auto-afirmação do sujeito. possibilita o encontro com o outro. a relação de intersubjetividade sempre será toldada pelos sinais estabelecidos entre os seres humanos pelo fato de não haver. termos finais das relações de intersubjetividade e objetividade. emerge a figura do Absoluto no horizonte intencional do sujeito. desvelam uma oposição entre interioridade e exterioridade na qual se descobre um lugar conceptual em que a tradição filosófica encontrou fundamento para a categoria relacional de transcendência16 . A relação de intersubjetividade possui uma natureza essencialmente histórica na qual a comunidade humana existe no tempo. em sua interioridade. do silêncio e da imobilidade nos quais os significados se encarnam e se submetem ao ambíguo jogo do oculto e do manifesto.por isso. para nós.

. dada na não-reciprocidade do Absoluto pelo fato Deste não poder ser pensado segundo uma relação real ad extra. p.problema da transcendência. o Bem. . O Absoluto.). É no hiato desta não-reciprocidade que os pseudo-absolutos.. Assim se descobre a necessidade de um intermediário que deve ser capaz de articular a particularidade do homem à universalidade do Absoluto . a necessidade de repropor o problema do Absoluto na inteireza de suas exigências aos indivíduos e às sociedades. O interdito ou a suspeita lançados sobre o problema do absoluto resumem a crise de nossa civilização. A relação de transcendência tem uma face objetiva. É conveniente. de Platão a Hegel. pensar o Absoluto em sua amplitude transcendental seja como Absoluto formal (o Ser.210 12 . seja como Absoluto existencial (Deus). definindo a face subjetiva da relação de transcendência. pois “a elevação inalcançável do transcendente ameaça a possibilidade humana de uma real experiência da transcendência” 18 . como os ídolos. Escritos de Filosofia III. apresentado a toda a tradição filosófica. em sua imanência ao sujeito inteligente e livre. conforme veremos no capítulo seguinte desta monografia em seus dois exemplos paradigmáticos para a história ocidental. infiltram-se. colocando na procissão de pseudo-absolutos que ocuparam o horizonte do homem no século XX. torna o sujeito participante no mais íntimo de seu ser. A experiência de transcendência está sempre em risco de perder-se na infinitude do ser. a partir deste ponto. a Verdade.                                                              18 VAZ.

Este período histórico. ao longo da chamada “aventura intelectual do homem antigo”.2. o ocorrido no tempo-eixo se trata de uma transgressão do simbolismo cósmico que representava a ordem para as grandes civilizações anteriores ao início do primeiro milênio antes de Cristo no qual a experiência de transcendência se preparava para irromper com nitidez no tempo-eixo. Não é infundada a afirmação de que as sementes da idéia de transcendência se encontram disseminadas onde quer que a inquietação humana se confronte com os mistérios do mundo e da existência 1 . aproximadamente entre 800 e 200 a. A proposição de abertura no primeiro volume da obra voegeliana . Escritos de filosofia III. pode ser contada entre as mais brilhantes realizações intelectuais do século XX. Escritos de Filosofia III. “Ordem e História”. revela-se como traço inconfundível a assinalar a face simbólica de uma nova matriz de civilização que. A grande obra de Eric Voegelin.. A experiência histórica da transcendência.                                                              1 VAZ.“A ordem da história emerge da história da ordem”.C.Experiência Histórica Após discorrer sobre o conceito de transcendência em Vaz no capítulo anterior.coloca a “história da ordem”. antes de alcançar uma rigorosa conceptualização filosófica em Platão. neste capítulo iremos tratar da transcendência como experiência histórica. Como Voegelin descreve ao longo de toda a sua obra. p. segundo Vaz 2 . desvelando a transcendência como suprassunção dialética da oposição entre interioridade e exterioridade e como superabundância ontológica a brotar da auto-afirmação do sujeito. ocupa a faixa geográfica do continente eurasiano do Extremo Oriente ao Mediterrâneo. mereceu a atenção dos historiadores durante todo o século XIX que foi quando houve a possibilidade de reconstituição da cadeia das grandes civilizações eurasianas do primeiro milênio antes de Cristo.201 VAZ. denominado tempo-eixo (Achsenzeit).203 2 13   . p. profundamente reformulada pelo aparecimento súbito da experiência espiritual a qual assinala o surgimento do tempo-eixo.

Assim.205 VAZ. segundo a análise de Voegelin. sobre esta questão é que se elevará e preponderará a interrogação sobre a transcendência. Escritos de Filosofia III. p. A resposta a esta questão do lugar ontológico do homem definirá a essência humana e. p. o processo de simbolização para obtenção de uma estrutura analógica quando o fecho transcendente da ordem do ser se mostrar incognoscível em si mesmo. posteriormente. apresentando-se ao homem como objeto da sua experiência mais profunda. constituindo o núcleo germinal do problema da transcendência. a partir desta resposta. conforme Vaz 5 . a interrogação sobre a permanência e o devir dos seres na comunidade do ser. Essa tensão se estabeleceu entre dois pólos simbólicos o                                                              3 VAZ. forjar-se-á a tentativa de descrever a rota do destino do homem. Os paradigmas fundamentais que presidiram às vicissitudes da idéia de transcendência na civilização ocidental se constituem por uma tensão fundamental. a início. coloca-se a interrogação fundamental e dramaticamente existencial do lugar do homem como parte desta totalidade que será. p. a fixação da idéia do verdadeiro e do falso simbolismo. Segundo Vaz 3 . pela razão filosófica. Escritos de Filosofia III.206 4 5 14 . Portanto. Voegelin assinala quatro vertentes mediante as quais emergiu com toda a clareza a distinção entre verdadeiro e falso simbolismo: a experiência de participação no ser. a idéia da transcendência imprime direções novas à “ordem da história como história da ordem”. respondida pelas grandes visões religiosas e. Vaz 4 prolonga a reflexão sobre a experiência histórica da transcendência como a descoberta de uma nova dimensão mais abrangente e profunda da relação do homem com a realidade a qual dá um novo sentido às outras grandes formas da experiência integrantes da dinâmica do processo civilizatório: a experiência da transformação do mundo pelo trabalho e a experiência edificadora da sociedade pelo reconhecimento. Escritos de Filosofia III. Neste ponto. a partir da perspectiva da hermenêutica voegeliniana. Seguindo-se à idéia de participação no Ser como totalidade.205 VAZ.A característica da nova simbólica da ordem nas civilizações do tempo-eixo é a sua “referência a um fundamento transcendente” que se delineia com nitidez cada vez maior na idéia de uma participação no Ser como totalidade que extrapola infinitamente os limites do sensível.

tornando-se um dos pilares do edifício da filosofia. Já o pólo simbólico do ser representou o caminho de um êxodo “que se dirigia a romper o compacto e opressivo véu do simbolismo cósmico e que não era mais do que o caminho para uma forma de transcendência”. expressão de uma relação fundamental do homem com a realidade. o que devemos fazer e o que é lícito esperar.105-109 7 15 .. em Platão. A expressão paradigmática desta experiência como experiência metafísica foi alcançada. traduzindo uma relação peculiar do homem ao ser. é um conceito ontológico. A experiência ética do Bem será organizada em duas direções ao longo da história: o Bem como medida e o Bem como fim. movendo-se no campo de sua gravitação ontológica desdobra-se em experiência noética da Verdade. Assim. a idéia da verdade. em Platão. deve ser buscada no ensinamento socrático que foi elevado por Platão a ciência do Bem e codificada por Aristóteles como “ciência prática” ou ética. a irrupção do tempoeixo no mundo grego.C. Portanto. A experiência noética da Verdade 6 surge com extraordinária limpidez. p. p. O pólo simbólico do cosmos era o centro unificador de um simbolismo religioso e político de inspiração cósmica o qual se tornou matriz da legitimação ideológica das grandes formações imperiais do primeiro milênio antes de Cristo. caracterizando-se justamente por sua homologia com o ser que é o verdadeiro. a ação e a crença. animada por uma prodigiosa energia de pensamento. em suas origens históricas. sobretudo nos grandes pensadores inaugurais desse tempo. O conceito platônico de verdade (alétheia) se define a partir do discurso na medida em que se constitui como “discurso verdadeiro” (alethés logos) e como discurso da “ciência” (epísthéme) em contraposição à “opinião” (dóxa). Antropologia Filosófica II. experiência ética do Bem.                                                              6 VAZ. assinalando. A experiência ética do Bem 7 . a experiência da transcendência como experiência do Ser. na qual se dá a intuição da presença do ser à inteligência. intimamente relacionada com a experiência noética da verdade. experiência metafísica e religiosa do Uno ou do Absoluto. antropologia Filosófica II.quais Vaz denomina cosmos e ser. sem dúvida. A irrupção do problema da transcendência provocou um revolver profundo e uma profunda mudança na configuração de três campos da experiência humana: o conhecimento. na passagem do século VI ao século V a.102-105 VAZ. A aurora histórica da experiência de transcendência antecipa as célebres questões kantianas sobre o que podemos conhecer.

em dois mundos históricos que floresceram às margens do mediterrâneo oriental. A experiência metafísica e religiosa do Uno ou do Absoluto 8 apresenta-se como o fundamento e o protótipo de toda “experiência transcendental” na medida em que as experiências noética da Verdade e ética do Bem somente se tornam experiências transcendentais enquanto nelas transluzem a identidade da Verdade e do Bem com o Ser. implicando na “experiência transcendental” do Bem o qual não é mais medido pelas exigências do nosso agir e relativo à sua contingência e finitude.109-112 VAZ. e a “experiência do Ser na sua transcendência real”. requer um fundamento absoluto que não pode ser encontrado na contingência do próprio agir e do seu mundo. objeto da metafísica como teologia. A experiência ética. na qual transluz a presença do Ser na sua infinitude. O paradigma da transcendência como idéia na Grécia imprimiu uma nova direção à “ordem da história como história da ordem” apontando para um arquétipo ideal transcendente. desdobra-se em dois níveis: a “experiência do Ser na sua transcendentalidade formal”. do qual viria a fluir “a ordenação normativa da desordem do vir-a-ser na Natureza e na História”. que diz respeito ao dever-ser do agir. No decorrer do tempo-eixo. mas sim um Bem que se manifesta como tal na sua identidade com infinitude do Ser. p. A experiência metafísica do Absoluto situa-se no mesmo nível fenomenológico da experiência de Deus e.207 9 16 . a perfeição ou virtude do sujeito deve corresponder à perfeição do Bem. Na Grécia. p. constituindo a estrutura primária que seria transmitida à tradição intelectual do Ocidente pela filosofia grega. na qual a crítica da tradição mitológica se fez sob o signo da Verdade                                                              8 VAZ. Escritos de Filosofia III. antropologia Filosófica II. decorre “o imperativo de auto-realizar-se segundo as exigências do Bem” para a liberdade. “lugar de ordem das razões”. a qual originou o conceito analógico de Ser. Assim sendo.Esta experiência revela na liberdade humana uma homologia com o ser na sua manifestação como bem da qual. a interrogação sobre a transcendência caminhará. o êxodo para a transcendência provocou na consciência da formação cultural uma diferenciação caracterizada por uma feição noética 9 . para assumir a forma dois paradigmas que irão presidir às sucessivas mudanças da idéia da transcendência na civilização ocidental: o paradigma da transcendência como Idéia na Grécia e o paradigma da transcendência como Palavra da Revelação em Israel.

aliança cuja iniciativa vem de Deus ou do transcendente. desenrolando-se “na pressuposição de uma homologia entre os degraus da inquisição ascendente da inteligência e os graus da perfeição do Ser” 11 . tendo como forma intrínseca o “existir na presença de Deus”. Nesta experiência histórica da transcendência que contribuiu na moldagem da idéia de transcendência da civilização ocidental. tendo lugar o termo absolutamente                                                              10 VAZ. finalmente. Verdadeiro. do qual procede igualmente a escolha gratuita do Povo depositário da Promessa e parceiro da Aliança” 13 . Verdadeiro e Bom. Escritos de Filosofia III. Os Diálogos platônicos da maturidade e a doutrina não-escrita da teoria dos Princípios viriam a explicitar a diferenciação noética. p.205 VAZ. A relativização e. a “ordem da história como história da ordem” teria impressa em si uma nova direção a qual aponta para “um desígnio transcendente a conduzir a História para uma plenitude final” 12 que consiste na essência da mensagem do profetismo bíblico o qual seria mais tarde relançado pelo Kérigma cristão. Esta explicitação viria a originar a teoria das noções supremas da inteligência que a tradição consagraria com o nome de “noções transcendentais”: Ser. ciência que é discurso sobre o Ser como Uno. p. ética e metafísico religiosa como experiência de participação no Ser.212 VAZ. exemplarmente proposta por Platão na alegoria da Caverna e na comparação da linha. No paradigma da transcendência como Palavra da Revelação em Israel. finalmente. Escritos de Filosofia III. “A solução do problema da mediação entre a finitude humana e a infinitude do Ser exigida pela experiência da transcendência como Idéia” 10 encaminhou-se no movimento de ascensão ou de trabalhosa anábasis da mente rumo à intuição plenificante que consumaria a união da inteligência (nous) com o inteligível supremo (noeton). p. Esta diferenciação da experiência da transcendência como experiência do ser na tríplice dimensão da Verdade. do Bem e da Unidade ou do Absoluto iria constituir a filosofia . Bom e Belo. a rejeição de todo simbolismo do divino intracósmico se faz na transcendência da Palavra da Revelação em Israel sob o signo da história.211 VAZ. assinalando a direção da experiência histórica de transcendência no que poderíamos denominar o “existir na contemplação do Ser” (theoria). Promessa e.do ser (alétheia). Uno. a mediação desce do alto como “Apelo. Este itinerário propriamente ontológico cujos passos foram articulados por uma lógica do ser. p. Escritos de Filosofia III. construindo a mediação entre nosso espírito finito e a infinitude da Idéia transcendente.211 11 12 13 17 . Escritos de Filosofia III.

herdeiro da Palavra bíblica e do Logos grego. expressa na categoria da criação a qual seria traduzida no rigoroso monoteísmo da tradição bíblica.imprevisível e gratuito da “descida” (Katabasis) do Transcendente à imanência do mundo na qual a experiência da Verdade seria interpretada na categoria da fidelidade de Deus à Palavra da Revelação na forma da Promessa. Nos tempos que acolheram todas as correntes da cultura antiga. no qual se prolongaria.208 18 . marcando indelevelmente o perfil espiritual do Ocidente conforme iremos acompanhar no próximo capítulo desta monografia. do qual haveria de resultar o discurso filosófico-teológico cristão. pelo menos até os inícios dos tempos modernos. a Revelação e a Razão.                                                              14 VAZ. Escritos de Filosofia III. a experiência do Bem seria interpretada na categoria da Lei divina (torah) em que a Palavra se faz norma de vida e a experiência do Uno ou Absoluto se faria interpretar na proclamação da unicidade de Deus e da sua soberania absoluta sobre o cosmos. a hermenêutica da experiência histórica da transcendência a qual se demonstraria a mais dinâmica forma de civilização. dar-se ia o encontro 14 das duas formas de diferenciação da consciência da transcendência sobreviventes à irrupção espiritual do tempo-eixo. denominados de “a idade ecumênica” por Voegelin. p.

215-216 2 3 4 19   .. existe a possibilidade de encontrarmos um caminho para o núcleo inteligível no qual o discurso filosófico-teológico cristão fundamenta sua consistência. caracterizada por uma nova forma de relação do homem com a realidade a qual se distingue pela busca de uma fundamento transcendente. contrapondo-se ao pólo simbólico do cosmos que marcara a relação do homem com a realidade até então.3.208 VAZ.213 VAZ.p. agir e crer do ser humano. demonstrando-se sua hermenêutica da experiência histórica de transcendência como a forma mais dinâmica de civilização a qual viria a marcar indelevelmente o perfil espiritual do Ocidente. conforme nos testemunham os últimos escritos sapienciais do Antigo Testamento e a obra de Fílon de Alexandria 3 . a experiência histórica da transcendência revelou-se na faixa geográfica do continente eurasiano do extremo oriente até o mediterrâneo. No período histórico denominado por Voegelin como “a idade ecumênica”.C. constituindo a linguagem canônica da transcendência ao longo dos séculos de formação da cultura ocidental. considerando a natureza da experiência histórica de transcendência como experiência de participação no Ser. resultando no discurso filosófico-teológico cristão. p. ocorrendo no período histórico entre 800 e 200 a. vindo a marcar a cultura ocidental por meio de dois paradigmas: o paradigma da transcendência como Idéia na Grécia e o paradigma da transcendência como Palavra da Revelação em Israel os quais revolveram profundamente os campos do conhecer.208 VAZ. assinalando a face simbólica de uma nova matriz de civilização. Escritos de Filosofia III. ocorreu o encontro das “duas formas de diferenciação da consciência da transcendência que sobreviveram à irrupção espiritual do tempo-eixo: a Revelação e a Razão” 2 que se interpenetrariam. legítimo herdeiro da Palavra bíblica e do Logos grego.Escritos de Filosofia III. Escritos de Filosofia III. A experiência de participação no Ser. Conforme afirma Vaz 4 . p. p. Escritos de Filosofia III. ao diferenciar-se                                                              1 VAZ.Filosofia e Teologia da Transcendência Conforme apresentado no capítulo anterior. conforme citado por Vaz 1 .

reinterpretando a tradição bíblica da Palavra de Deus de tal forma que. elaborando o pensamento da experiência da transcendência. Este enigma sobre o qual os historiadores multiplicam suas hipóteses. o transcendente. conforme Vaz 8 . buscando desvendar “as origens do cristianismo”. tenha origem “uma prodigiosa força de transformação das condições espirituais e do sentido nos quais até então fora vivida a experiência da transcendência em Israel” 7 . a tensão entre a existência e a essência. sendo expressa pela revelação do Deus criador e do Deus que é. como Presença pessoal na contingência da História” 5 . conforme as duas alternativas fundamentais oferecidas à expressão do fundamento último do Ser: como Absoluto de existência (Causa eficiente primeira) ou como Absoluto de essência (Idéia suprema).p. Escritos de Filosofia III.216 VAZ.Antropologia filosófica II. ou seja. p. Escritos de Filosofia III. p. A expressão do fundamento último do Ser como Causa eficiente primeira foi seguida pela tradição bíblica. No encontro destas duas tradições históricas no cristianismo. finalmente. num movimento imprevisível de Katabasis. numa inversão simetricamente rigorosa e perfeita da anabasis da Filosofia grega. Escritos de Filosofia III. A versão cristã da experiência de transcendência se apresenta historicamente com traços de profunda e radical novidade.233 6 7 8 9 10 20 . ou seja. como Aliança e. O filósofo não pode afastar sua reflexão das razões da enorme energia espiritual desprendida nesse tempo único no qual Hegel viu a história girar suas dobradiças. ilumina-se referido ao Evento que Vaz denomina o Fato do Cristo 9 .p. O Fato do Cristo significa que a eternidade se fez tempo 10 .                                                              5 VAZ. dessa reinterpretação.216 VAZ. Escritos de Filosofia III.213 VAZ. desce gratuitamente à imanência histórica. assumindo “a iniciativa da Palavra criadora como Promessa. coloca em evidência o problema do Princípio ou do fundamento último do Ser. da Verdade e do Bem” 6 .213 VAZ.nos paradigmas da experiência da Palavra de Deus em Israel e da experiência da Idéia na Grécia.p. p. Escritos de Filosofia III. enquanto a expressão do fundamento último do Ser como Idéia suprema foi acolhida como atividade de “contemplação (theoría) do Princípio pensado segundo a perfeição da Unidade. estabelece-se a tensão entre o Absoluto na História e o Absoluto na Idéia trans-histórica.213 VAZ.

O núcleo inteligível e dinâmico do pensamento cristão viria a se constituir. ou seja. conduzindo-nos a reconhecer. a mediação e seu termo. no discurso cristão.217 VAZ.                                                              11 VAZ. extrapolando a necessária imanência do Uno no múltiplo.ao se fazer pessoa humana. é História” 13 . conforme os documentos e os testemunhos que dele nos falam. a presença de uma meta-analogia estabelecida entre a analogia do ser e a analogia fidei. obra da razão filosófica no seu exercício metafísico. pelo pensamento de proporção (ana-logia). avança até à paradoxal “presença existencial imediata do Absoluto na história” 11 .p. matriz conceptual da experiência da transcendência.Escritos de Filosofia III.218 12 13 21 . Idéia e Palavra. A analogia fidei na sua conceptualização lógico-concreta. simultaneamente. torna possível o resgate da contingência do devir no tempo pela “descida” do Absoluto à imanência da história conforme a mensagem do prólogo do Evangelho de João: “o Absoluto é logos. Escritos de Filosofia III. obra da Razão teológica no seu exercício sapiencial sobre a palavra da Revelação. na sua conceptualização lógico-abstrata. a Razão do Ser e a Revelação do Que é. herança de uma das categorias fundamentais do pensamento grego. Escritos de Filosofia III.p. p. e é Sarx. possibilitando a descrição da estrutura do conceito de Ser conforme uma analogia entre os seres pelo pensamento de proporcionalidade entre existência e essência. A originalidade do pensamento cristão e o seu surpreendente vigor especulativo se tornam evidentes na articulação destas duas analogias.218 VAZ. A analogia do ser ou analogia entis. A meta-analogia entre a essência e a existência. o Absoluto na história. Esta analogia. coloca a referência ao Transcendente absoluto como Idéia na ascensão dialética cujo dever é abandonar “a existência empírica à contingência do devir no tempo” 12 . estabelecendo o Mediador na pessoa de Jesus de Nazaré que é. também. A apresentação da articulação conceptual fundamental se dá na analogia entre a identidade da essência e da existência no Absoluto e a diferenciação entre a essência e a existência nos seres contingentes (o Mundo e a História). a metafísica grega do ser e a metafísica bíblica do existir foi possibilitada pela idéia fundamental da participação no Ser. na perspectiva cristã.

a tradição noética grega foi profunda e radicalmente repensada em face do problema da existência e a tradição profética bíblica foi retranscrita no código filosófico elaborado segundo as exigências do problema da idéia.recebida no cristianismo pela versão existencial bíblica do “Eu sou o que sou” que purificou a teologia filosófica grega. 22 . na experiência da transcendência no cristianismo. constituindo a linguagem canônica da transcendência na história ocidental até o advento da modernidade pós-cristã que viria a refazer de modo profundo e radical o modelo das relações até então vigentes entre filosofia e religião. conforme veremos no capítulo seguinte. Portanto.

Independente das convicções de seus autores.                                                              1 VAZ. Vaz propõe designar como modernidade pós-cristã 1 aquela que. apesar de sua publicação póstuma.Escritos de Filosofia III.p. encerrando “aparentemente o ciclo das modernidades que se desenvolveram sob a égide da razão clássica” 3 . conforme demonstrado na tensão entre a existência e a essência no capítulo anterior desta monografia.4. a partir do século XIX em diante.235 VAZ. A tarefa assumida pelas grandes filosofias antigas.Escritos de Filosofia III.Escritos de Filosofia III. assinalando uma nova era na civilização ocidental “do ponto de vista da reorganização do seu sistema simbólico” 2 .p. passou a ser conhecida simplesmente como modernidade. A tensão entre filosofia e religião se apresenta na tradição cristã sob a forma do problema das relações entre a fé e a razão. a modernidade pós-cristã se anuncia quando desponta um novo sol filosófico a reorganizar o sistema de razões dominantes da sociedade nas Regulae ad directionem ingenii de René Descartes no ano de 1629. a tradição noética grega foi profunda e radicalmente repensada em face do problema da existência e a tradição profética bíblica foi retranscrita no código filosófico elaborado segundo as exigências do problema da idéia. a tarefa de reinterpretar a religião segundo os códigos do discurso filosófico como teologia origina uma tensão entre filosofia e religião. podendo ser exemplificada na utilização filosófica do mito por Platão e na importância da legislação religiosa das Leis. constituindo a linguagem canônica da transcendência na história ocidental até o advento da modernidade. O esforço intelectual de conduzir adiante o esforço nesta tarefa atravessa toda a tradição do alegorismo filosófico na Antiguidade. É neste escrito de Descartes que estão as premissas cujas conseqüências viriam a ser desenroladas na evolução da filosofia moderna.235 VAZ. culminando no neoplatonismo.235 2 3 23   .Transcendência na Modernidade Pós-Cristã No capítulo anterior. vimos como na experiência de transcendência no cristianismo.p. sendo que seus primeiros sinais já poderiam ser sentidos a partir do século XVII.

a relação do privilégio do ato atual de filosofar com o tempo se estabelece pela suprassunção do tempo na transcendência de um fundamento transtemporal.225 VAZ. ou seja. A partir de Descartes. ao centralizar a terra confinando nela o homem. A mudança de paradigma metafísico pode ser evidenciada do ponto de vista da situação do homem no mundo. A onto-teologia da Metafísica clássica que possibilitara a convivência da religião com a modernidade filosófica. 4                                                              4 VAZ. No modelo da metafísica clássica. “objeto supremo da theoría ou da contemplação do filósofo” 5 .Escritos de Filosofia III. invertendo a relação que a filosofia tivera coma religião nas modernidades clássicas. introduzindo uma descontinuidade essencial na curva da evolução da metafísica ocidental. p. A esta centralização tópica correspondia uma descentração metafísica que elevava o ser humano à contemplação (theoría) do Absoluto transcendente. formando segmentos temporais privilegiados pela forma de Razão neles exercido.237 VAZ. a partir do novo programa cartesiano da filosofia.Escritos de Filosofia III. A estrutura fundante do ato do Cogito cartesiano reclama para si o privilégio de suprassunção do tempo no agora privilegiado do saber filosófico. captura do tempo no conceito na qual o tempo passa a ser o lugar do conceito e sua representação se torna uma sucessão de modos e atualidades. Nas modernidades da razão clássica.p. cede lugar a uma onto-antropologia. a relação entre filosofia e tempo passaria a ter como princípio a imanentização do fundamento do privilégio temporal do filosofar no próprio sujeito. A reproposição da relação humana com o tempo no ato de filosofar iniciou o ciclo de uma nova modernidade a qual reivindicaria e celebraria o predicado do moderno como algo maior. Escritos de Filosofia III. a experiência do estar-no-mundo colocava o ser humano diante da “humilhação geocêntrica”.p.Antes de prosseguirmos devemos explicitar o conceito de modernidade utilizado por Vaz como uma forma filosófica de leitura do tempo a qual consiste na captura do tempo na filosofia.238 5 6 24 . “lugar primeiro da experiência metafísica e onde podem entrelaçar-se conceptualmente filosofia e religião” 6 .

é com ele que é excluída a validez do conhecimento analógico na elaboração da idéia do ser e dos seus atributos ao chegar a um termo a total reestruturação do espaço metafísico.No paradigma da metafísica moderna.240 8 9 25 .Escritos de Filosofia III.Escritos de Filososfia III. A relativização do lugar físico e a imanentização das coordenadas do lugar metafísico são o primeiro e decisivo passo na direção de uma modernidade secularizada na sua relação com o tempo. como nous ou intellectus. Com a exclusão do conceito de analogia da idéia do ser do horizonte do pensamento moderno. A esta descentração tópica corresponderia uma recentração no plano metafísico na qual o homem passaria a ocupar o centro do universo inteligível. conforme Vaz 8 . Neste ponto que é possível situar a ruptura entre filosofia e religião. geometrizando e tornando infinito o espaço físico.240 VAZ. p. segundo o qual se procederia o desenvolvimento teórico da modernidade secularizada. uno. verdadeiro e bom no Existente que se encontra além de toda determinação conceptual finita. Os caminhos seguidos pela idéia de Deus na filosofia moderna talvez sejam a expressão mais significativa da inversão dos vetores metafísicos orientadores do espaço simbólico do homem ocidental. torna-se problemático o lugar de Deus ou do divino no universo conceptual da filosofia que passaria a aplicar à religião um procedimento teórico objetivante                                                              7 VAZ. conforme o modelo euclidiano.p. imanentizando as coordenadas metafísicas. p. Escritos de filosofia III. transcende as suas próprias fronteiras no excessus da contemplação analógica” 9 . excluindo a teologia do sistema dos saberes objetivos que seriam reconhecidos legítima e universalmente pela modernidade pós-cristã.240 VAZ. relativizando o espaço e o tempo. A analogia da idéia do ser permitia unificar os predicados de ser. “mas que pode ser atingido pela nossa razão que. abrindo a ela o domínio do transcendente no sentido clássico. a terra foi descentralizada. Apesar da dissolução da idéia de analogia do conceito de ser preceder cronologicamente a instauração de uma nova modernidade filosófica por Descartes. O lugar eminente da idéia de Deus na metafísica clássica era assegurado pelo procedimento analógico o qual permitia “a transgressão dos limites conceptuais traçados pela finitude da nossa razão” 7 .

é verdade que idéia de Deus seria integrada por Descartes na ordem das razões na medida em que dela também o Eu pensante deve “dar razão” ao contrário do seus sucessores que se encaminhariam no processo de desconstrução da idéia de Deus para conceder lugar à plena e incontestada primazia do sujeito. Nas provas das Meditações. Escritos de Filosofia III.p. da matemática universal cujo único artífice é o sujeito 10 . Por fim. Segundo Vaz 11 . o exercício do conhecimento fundado na pressuposição do Absoluto transcendente cedeu seu lugar ao exercício do conhecimento fundado no próprio sujeito do ato de filosofar.248 11 12 26 . Descartes transpõe a antiga teologia na temática da idéia do Infinito imanente ao sujeito pensante. Escritos de filosofia III.242 VAZ. Escritos de Filosofia III. “a religião acabou sendo integrada dentro do movimento geral da constituição da razão moderna” 12 colocando a civilização ocidental em profunda crise conforme analisaremos a seguir na conclusão deste trabalho monográfico. Assim. tornando a religião apenas um objeto da filosofia. a theologia como ápice do sistema filosófico cederia lugar às filosofias da religião. O passo decisivo e final para o abandono da analogia da idéia do ser foi dado por Descartes ao estabelecer a ordem do conhecimento das ciências tendo como fundamento e princípio a certeza do cogito e as regras do método. colocando as premissas para a desconstrução antropológica da idéia de Deus e decidindo o destino da modernidade que convencionamos denominar pós-cristã. p. tornando-a apenas um capítulo.                                                              10 VAZ.241 VAZ.p. Deste modo. quase sempre secundário.e redutor.

Experiência Mísitca e Filosofia na Tradição Ocidental. provavelmente em novos termos. e a exaustão do ciclo civilizatório e cultural que hoje o próprios cristãos evitam pudicamente denominar cristão” 1 Esta afirmação acima nos coloca diante de um problema: A imanentização.Conclusão Após discorrer sobre a questão da transcendência nos últimos quatro capítulos. a experiência ética do Bem e a experiência metafísica e religiosa do Absoluto. Em Vaz. assinala talvez o abandono final dos caminhos dessa aventura histórica que chamamos Ocidente. Vaz nos diz que “Essa profunda inversão da hierarquia da ação e da contemplação que atinge tanto a ordem natural da vida política quanto a ordem sobrenatural da vida cristã. sobretudo nas                                                              1 VAZ.90 27   . colocando o significado da mesma nos escritos de Vaz. Porém. o filósofo não é profeta e Vaz não se coloca como tal. leva a crer que um passo além da pós-modernidade – e esse passo será dado necessariamente pelo homem do século XXI – consistirá em repropor.5. portanto. nas diversas instâncias da cultura. como processo de inversão da hierarquia da contemplação e da ação. a cultura ocidental não poderia ser pensada sem a categoria de transcendência visto que três das experiências norteadoras da vida espiritual de qualquer comunidade estão ligadas a esta questão na cultura ocidental: A experiência noética da Verdade. A segunda pergunta feita no início deste trabalho monográfico focalizaria na alternativa: a cultura ocidental estaria chegando ao fim pelo processo de imanentização sofrido na modernidade ou seria apenas mais um ciclo da aventura histórica conhecida como Ocidente. a primeira pergunta colocada no início deste trabalho monográfico parece ter sido respondida.p. permitindo-se a ter esperança como na seguinte afirmação: “Tudo. se levada cabo por completo irá por fim destroçar aquilo que chamamos de cultura Ocidental. descrevendo o acontecimento histórico da experiência da transcendência como Idéia na Grécia e como Palavra da revelação em Israel dentro do período histórico conhecido como tempo-eixo e a confluência destas duas formas históricas da transcendência no cristianismo produzindo uma filosofia e teologia da transcendência que viria a ter o início de sua demolição nos tempos modernos.

colocadas por Vaz nos seguintes textos: “a destruição da antiga razão prática e a perversão da vida contemplativa pelo furor místico da práxis não são senão o trânsito para o triunfo definitivo da razão técnica e para a robotização do antigo animal político. p.                                                              2 VAZ.118 VAZ. p. Escritos de filosofia III. Porém. sua verdade. colocar esta questão de profunda e extrema importância para a cultura ocidental que é a questão da transcendência e do transcendente.118 3 4 28 . Essas são as metas que já se delineiam na direção da corrente de fundo que impele a modernidade e que. não é possível dar uma resposta definitiva sobre o que se sucederá.90 VAZ. Escritos de filosofia III. esperançosos e confiantes. as duas possibilidades consistem na imanentização total da cultura ocidental na qual viria a ocorrer o processo de robotização do homem. cabe a nós. de hoje e de sempre: nela. o problema da transcendência como problema de um Transcendente que se eleve acima da natureza. e seu fim” 4 Conforme os textos acima. assinalarão o definitivo advento da pós-modernidade” 3 “Permanecendo no plano de uma analise histórico-filosófica. uma vez alcançadas. desde que a tentação da imanência tenha sido definitivamente vencida no discurso cristão.instâncias ética filosófica e religiosa. do sujeito e da história” 2 Portanto. filósofos. p. natureza sujeito e história são assumidos no mistério de uma Presença na qual o homem pode reconhecer. tornando-o apenas mais uma engrenagem no mecanismo da existência e no reencontro da humanidade por meio da reproposição da questão da transcendência em novos termos pelo homem do século XXI. finalmente. a figura do Transcendente que seus documentos originais afirmam ser de ontem. Não há ainda como saber que caminho está sendo trilhado pelo homem do século XXI o qual mal acaba de começar. sua imagem perfeita. é permitido lembrar que a tradição bimilenar do cristianismo poderá transmitir à nova idade histórica. mas podemos jogar com as duas possibilidades reais. Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental.

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