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MAIS MISTERIOS ,
ENTRE O CEU E A TERRA
Objetos celestes de formatos surpreendentes e comportamento estranho são avistados pelos telescópios espaciais, e os astrofísicos não têm todas as respostas às questões levantadas por eles

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astrofísica está se tornando perigosamente semelhante aos filmes de ficção. Para os matemáticos, essa é a prova final da decadência de um campo de estudo que deixou a imaginação viajar livremente e, a cada obstáculo teórico intransponível, joga o problema para a quinta, sexta, sétima, nona ou décima dimensão. Há muito de inveja e competição profissional nessa avaliação dos matemáticos. Mas é inegável que, a cada descoberta no cosmo, a linguagem necessária para explicá-Ia parece vir do planeta Tatooine, da série Guerra nas Estrelas. Na semana passada, astrÔnomos da Universidade Harvard anunciaram a descoberta de um ainda inédito corpo celeste, um "buraco negro bebê". Buracos negros são abstrações teóricas derivadas da teoria da relatividade, de Albert Einstein, e sua existência, embora muito provável, não pode ser observada diretamente. Os buracos negros são poderosos ralos cósmicos que revelam sua existência pelas alterações que produzem na matéria e na energia das regiões vizinhas de sua porção externa mais distante do centro. Essa região é chamada de "horizonte do evento" - ou seja, depois dela nada mais escapa de um buraco negro, nem a luz. O buraco negro bebê revelou-se aos astrônomos de Harvard ao ser flagrado devorando uma quantidade de matéria equivalente a toda a massa do planeta Terra. Kimberly Weaver, astrofísica da Nasa, a agência espacial americana, explicou assim a descoberta: "É extraordinário. Lembra o comedor de planetas da série Jornada nas Estrelas". Para quem não é aficionado, Weaver se refere a uma nave-robô

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descomunal, de origem desconhecida, que destruía planetas inteiros com disparos de

seus canhões de antiprótons. Ela foi encontrada no ano 2267 pelas naves USS Constellation e USS Enterprise. As imagens denunciadoras do recémnascido cósmico foram captadas e mandadas à Terra pelo Chandra, o telescópio espacial de raios X. O artefato foi batizado em homenagem ao grande astrofísico americano nascido na Índia Subrahmanyan Chandrasekhar, morto em 1995, aos 84 anos. É tolice imaginar o que os mortos diriam sobre eventos atuais, mas é razoável supor que Chandrasekhar, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1983, descreveria essa nova descoberta em termos menos simplórios. Outro físico notável, Richard Feynman, da Universidade Princeton, que morreu em 1988, gostava de dizer que testava suas teorias com a garçonete da universidade. "Se ela entendia eu abandonava a teoria", dizia Feynman, um dos pioneiros da eletrodinâmica quântica, campo que permitiu prever com maior certeza grandezas como o "anômalo de múon" e o "desvio de Lamb". Pobre garçonete. Feynman deveria ser pródigo nas gOljetas. Chandrasekhar não foi tão radical, mas sempre foi mais rigoroso até que Richard Feynman. Antes do telescópio de raios X, ele ficou célebre pelo que veio a se chamar "limite de Chandrasekhar". E o que é isso? É uma equação altamente complexa pela qual se pode estabelecer que determinada estrela com massa 40% maior do que a do nosso Sol terá como destino final, sempre violento e trágico, desmoronar para dentro e se tornar uma estrela de nêutrons ou um buraco negro. Estrelas de nêutrons são extremamente compactas e quentes. Elas deveriam ser achatadas pela própria gravidade, mas esse colapso é impedido por uma propriedade dos

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I24 DE NOVEMBRO. 2010

BEBÊ FAMINTO Um buraco negro recém-nascido devora matéria e energia: corpo celeste teorizado mas nunca visto

nêutrons, que não podem ocupar um mesmo lugar e um mesmo estado quântico ao mesmo tempo. Por isso elas são estrelas desinteressantes. Os buracos negros, por outro lado, são as atrações cósmicas mais divertidas e controversas. Segundo a teoria da relatividade, eles defonnam o "espaço-tempo" (imagine uma rede de pescador sobre a qual se coloca uma enonne e pesada bola de chumbo) e passam a atrair para si toda a matéria e. energia à sua volta. Quando muito massivos, eles defonnariam de tal modo o espaço-tempo a ponto de romper a rede e abrir passagem a um universo paralelo ou permitir que se viaje no tempo. Essas conclusões são o que se chama de "adivinhação controlada"ou seja, um chute, mas dado de boa-fé com base em premissas sadias e um alto grau de conhecimento do assunto. Outros tipos de corpos celestes têm atraído a atenção
GÊMEAS AS BOLHAS Elas

mais pela beleza plástica do que por
oferecer algum novo subsídio ao estudo da astrofísica. É o caso da galáxia espiral NGC 1415, descoberta em 1784 por William Herschel e fotografada recentemente. Como os planetas e as luas, as estrelas são redondas. Nas fotografias, porém, algumas aparecem com fonnatos assimétricos. Isso se deve ao fato de as estrelas possuírem à sua volta discos de gases e poeira que eventualmente se condensam e fonnam planetas. "A estrela central da NGC 1415 é dupla. Como elas estão girando bem próximas,

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a nuvem de gases não se fonna de maneira esfericamente simétrica", explica o professor Robeno Dias, da Universidade de São Paulo. Já as duas bolhas gigantes fonnadas por raios gama captadas recentemente pelo telescópio Fermi, da Nasa, chamam atenção justamente por ser absolutamente simétricas - como se uma delas fosse real e a outra sua imagem vinual refletida no espelho-d'água de um plácido lago. As bolhas se tocam justamente no centro da Via Láctea, a galáxia da Terra, onde, segundo a teoria, deve existir um buraco negro. Que energia é essa que consegue escapar do buraco negro, que, como se sabe, é inexpugnável? São muitas as adivinhações controladas a respeito das bolhas fenomenais que se espalham por 50000 anos-luz, cobrindo metade do céu visível. Uma dessas teses sustenta que as bolhas são formadas por energias regurgitadas pelo buraco negro no centro da Via Láctea - ou seja, nuvens de panfculas que, atraídas pela gravidade, ainda não consegui-

ram entrar no buraco negro,
como a multidão que se aglomera em torno da catraca de um estádio de futebol. Mas como explicar suas fonnas simétricas? Ninguém sabe. O que se sabe é que esses novos telescópios espaciais estão dando sobrevida à física ao produzir mais pergun-

ocupam metade do céu vis(vel e se tocam bem no centro da Via Láctea: mais um mistério
24 DE NOVEMBRO. 2010 I wja

tasdoquerespostas.

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