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DOS DELITOS E DAS PENAS

FICHAMENTO

Faculdade Ruy Barbosa Salvador Outubro/2010 .GUIDO BIGLIA DOS DELITOS E DAS PENAS RESUMO Este trabalho se apresenta à disciplina Direito Penal I ministrada pela Professora Carolinne Giarrusso. relativa ao semestre 2010.2 do curso de Direito.

mas. 2003. inicialmente em estado selvagem. Os julgadores dos crimes não podem ter direito de interpretar as leis penais. apenas as sanções correspondentes à necessidade de manter o “depósito” da salvação pública se justificam. sendo este papel do magistrado. destacam-se quatro princípios: a) apenas as leis podem indicar as penas de cada delito. Estas deveriam constituir-se em convenções estabelecidas livremente entre os homens livres. b) o soberano apenas pode fazer leis gerais. frequentemente. imprescindível para a segurança e a estabilidade social? Serão justos os tormentos e as torturas? Levarão ao fim proposto pelas leis? Quais são os meios mais apropriados para prevenir os delitos? As mesmas penas serão igualmente úteis em todas as épocas? Qual a influência que exercem sobre os costumes? Quando o homem. O encarregado pelas leis e pela administração foi proclamado soberano do povo e tornou-se o depositário dessas pequenas parcelas de liberdades sacrificadas. Dos Delitos e das penas. Uma sociedade equitativa só se pode ser alcançada por meio de boas leis. c) será suficiente provar que a crueldade na aplicação das penas é inútil para considerá-la em desacordo com a justiça e o contrato social. Assim. útil. às quais todos devem obediência. Desta forma. resolveu se agrupar em sociedades fizeramse necessários mecanismos de controle social e a lei é o principal deles. Qual a origem das penas e em que se funda o direito de punir? Quais as punições que se devem aplicar aos diferentes crimes? A pena de morte será. Deocleciano Torrieri Guimarães.BECCARIA. Todo julgamento elaborado pelo juiz deve ser feito a partir de silogismo . que se constitui no direito de punir. são fruto da vontade de uma minoria. apenas os legisladores o podem. realmente. necessária. não sendo de sua competência julgar a violação destas leis. Cesare Bonesana. Trad. São Paulo: Rideel. Observou-se que o sacrifício de parcela da liberdade individual poderia garantir uma melhor condição geral de segurança.

As perfeitas demonstram que é impossível ser o acusado inocente. as provas independem umas das outras. Se no julgamento o juiz fizer qualquer raciocínio além disto ou se não seguir esta lógica. a liberdade ou a pena. Enquanto o texto das leis não for familiar a toda a população. for redigida em língua morta e não conhecida do povo e enquanto forem mantidas como oráculos misteriosos. quando a destruição de uma prova fundamental provoca a destruição das demais provas. tanto mais provável será o delito. Há as provas perfeitas e as imperfeitas. Quando. dada a mutabilidade possibilitada por esta interpretação. Se todos os cidadãos conhecessem as leis penais tal conhecimento poderia fazer com que eles evitassem a práticas de crimes. incorreriam em menos erros do que os homens instruídos que resolvem de acordo com incerta opinião. o número de provas juntadas em nada aumenta ou diminui a probabilidade de ocorrência do fato. Basta uma prova perfeita para autorizar a condenação. É muito perigoso acreditar que é necessário consultar o espírito da lei. tudo se torna incerto e obscuro. .perfeito. ou seja. depositários e intérpretes das leis. Nas imperfeitas. Por isso. O teorema geral para se calcular a certeza de um fato e o valor que têm os indícios de um delito é avaliar a natureza das provas levantadas. porém. É mais fácil sentir a certeza moral de um delito do que defini-la de modo correto. a premissa menor. onde a premissa maior deve ser a lei geral. é necessário um grande número de provas imperfeitas para que valham como uma prova perfeita. por outro lado. a ação conforme ou não à lei e a conclusão. pois isso levaria a uma avaliação discricionária do juiz. Quando as provas de um fato se apoiam todas entre si. em sua ignorância. o cidadão não poderá aquilatar por si próprio as consequências de seus atos e estará dependendo de um pequeno número de homens. o juiz deve ser assessorado por jurados leigos que. quanto mais numerosos eles forem. a possibilidade de inocência do acusado não é excluída.

o inocente submetido à tortura ou será condenado por confessar um crime que não cometeu. após ter sofrido tormentos que não merecia.Cada um deve ser julgado por seus iguais. pelo contrário. além daquele sob julgamento. esclareça contradições. É uma barbárie praticar a tortura no desenrolar do processo para fazer com que um acusado assuma a autoria de um crime. Pior ainda é praticá-lo antes da sentença do juiz que o declare culpado. Embora nenhum crime deva ficar sem punição. apenas a verdade e as leis falarão. ou será absolvido. a fim de contrapesar os interesses pessoais que mudam o pensar e a aparência das coisas. Torturar para tentar descobrir outros crimes é pressupor que um criminoso necessariamente comete outros . mesmo porque tal juramento não conduzirá o acusado a dizer a verdade. As acusações secretas constituem um abuso. sofrendo muito menos. nem sempre é útil descobrir o autor de um crime encoberto de incertezas. apenas pode ser punido para obstar que os outros homens incidam em outros idênticos pela esperança de ficarem impunes. descubra os cúmplices ou mostre outros crimes cometidos. será absolvido se conseguir suportar a tortura e fugirá à sua pena realmente devida. Um homem pode jurar de boa-fé que concorrerá para a sua própria destruição? Os juramentos tornam-se mera formalidade sem consequências. É justo que se escolham juízes em parte entre os iguais do acusado e em parte entre os iguais do ofendido. para o qual não há mais remédio. estando em sintonia com a república as acusações públicas. além disso. Desta forma. Perante as leis é inocente aquele cujo delito não foi comprovado. Torturar na intenção de elucidar as contradições termina por levar a novas contradições. Existem contradições entre as leis e os sentimentos naturais. A tortura é um meio certo de condenar um inocente débil e absolver um criminoso forte. portanto é hediondo atormentar um inocente com a tortura. Um delito já cometido. como exigir que um acusado jure dizer a verdade. O culpado. A confiança que se deposita numa testemunha deve ser balizada pelos interesses pessoais desta testemunha.

Os castigos têm por finalidade única obstar o culpado de tornar-se futuramente prejudicial à sociedade e afastar os demais cidadãos do caminho do crime. mas é justo que se conceda ao acusado o tempo necessário e os meios para se justificar. pela própria razão de serem menos frequentes. é necessário prolongar o tempo dos processos e diminuir o tempo fixado para a prescrição. Destaque-se que soltar um réu por falta de provas não significa absolvê-lo. caso surjam novas evidências. Retomando o pressuposto que a soberania e as leis nada mais são do que a soma das pequenas partes de liberdade que cada qual cedeu à sociedade e que representam a vontade geral. que serviu para constituir o Estado. Por isso. não se apoia em nenhum direito. deve-se diminuir o tempo da instrução e do processo. Já nos crimes de menos vulto e mais comuns. É justo torturar para descobrir os cúmplices e assim. na primeira situação. pois a impunidade é menos perigosa. a sociedade já estaria livre de novos atentados a serem cometidos por estes. se fundamenta no sacrifício de uma parte ínfima da liberdade individual. O processo deve transcorrer num tempo bem curto para não atrasar muito o castigo que deve acompanhar de perto o delito. Podem-se distinguir dois tipos de crimes: os crimes horrendos. ele ainda pode vir a ser preso outra vez pelo mesmo delito. A pena de morte. logo. já na segunda. A diferença desses dois casos se dá por ser. fazer sofrer um homem pelos delitos de outros homens? Além do mais. Deve-se destacar que o fim das penalidades não é torturar e afligir um ser sensível. vê-se que o “direito” a tirar a vida de outro. menos cruel no organismo do culpado.crimes. os cúmplices escapam assim que um companheiro é preso. é importante buscar a penalidade que provoque no espírito público a impressão mais eficiente e mais perdurável e. nem desfazer um crime que já está praticado. assim como se deve prolongar o tempo da prescrição do crime. a inocência do acusado mais provável do que o crime. igualmente. como o homicídio e os menos hediondos do que o homicídio. . Nos grandes delitos. via pena de morte. a sua inocência é menos provável. pois. que resulta da reunião das vontades individuais.

Portanto. pois acaba não recaindo especificamente a infâmia sobre ninguém. às leis. porém na o tem qualquer poder sobre os outros. . Assim. que é a marca da desaprovação pública. Já quem perturba a calma pública. O rigor do suplício não previne os delitos com maior segurança. nem mesmo quando o ofendido perdoa o culpado. contraria o interesse público. A perspectiva de um castigo brando. a infâmia não deve recair sobre um grande número de pessoas ao mesmo tempo. mas. ainda pode atentar contra a segurança pública. provar a sua inocência e reaver seus direitos. Também. banido. O perdão dado não pode destruir a necessidade do exemplo. um cidadão ofendido pode deixar de valer-se de sua parte desse direito. Ainda assim. podendo a sua existência acarretar uma revolução perigosa no governo estabelecido e assim. que retira do culpado a consideração e a confiança que a sociedade depositava nele. porém a certeza da punição. em relação ao qual aparece alguma esperança de não-punição. Não se pode abster de punir um crime brando. Poderiam ser banidos os acusados de crimes atrozes que sejam suspeitos de culpa com maior possibilidade de certeza. pois. não obedece às leis. apesar de se tratar de um ato benevolente. que são a expressão da vontade geral. a lei deveria permitir ao banido o direito sagrado de poder. embora sem liberdade. O direito de castigar não pertence a qualquer cidadão em particular. porém sem que os juízes estejam inteiramente convictos do delito. provocará sempre uma impressão mais forte do que o impreciso medo de um suplício horrendo. sua morte seria o único freio para se obstar novos crimes. isto é. viola as condições sob as quais os homens se mantêm e se defendem mutuamente deve ser posto fora da sociedade. a qualquer momento.A morte de um cidadão pode ser tida como necessária apenas em tempos de guerra e quando um cidadão. A lei deve também ser usada para que seus efeitos provoquem no culpado a infâmia. porém inflexível. porque senão se apequenariam aquelas que realmente merecem ser consideradas desse modo. não se devem considerar infames atitudes indiferentes em si mesmas.

As injúrias pessoais que são contra a honra devem ser castigadas pela infâmia. proporção entre os crimes e os castigos. como a melhor maneira de obstar o delito é a perspectiva de um castigo infalível e inexorável. Os atentados contra a existência e a liberdade compreendem não só os assaltos e homicídios. os maus efeitos que o exemplo do crime teria produzido. O interesse geral não se funda apenas em que sejam praticados poucos crimes. considerando o bem público. que os homens são obrigados a reparar. Outros afetam o cidadão em sua existência. Outros. um crime apenas deve ser castigado no país em que foi cometido.Pouca diferença existe entre a impunidade e os asilos. os asilos. como também as violências de mesma natureza exercida pelos poderosos e pelos juízes. Existem delitos que tendem diretamente à destruição da sociedade ou daqueles que a representem. pelo exemplo do castigo. que são um abrigo contra a ação das leis. em seus bens ou em sua honra. Além disso. por fim. Nestes crimes estão os atentados contra a existência. A segurança é a finalidade de todas as sociedades humanas e. do instante em que se tem a esperança de evitá-los. nem castigado como tal. posto que a igualdade civil é anterior a todas as diferenças de honras e riquezas. A exata medida dos crimes é o prejuízo causado à sociedade. portanto. Atos não enquadrados em uma dessas classificações não podem ser tidos como delitos. a necessidade de reconhecimento público. . Portanto. incitam mais ao crime do que as penas o evitam. deve-se castigar com as penas mais graves aqueles que a violem. e não em qualquer outra parte. por isso. são atos que contrariam ao que a lei determina ou proíbe. contra a honra e contra as propriedades. porém ainda que os crimes mais prejudiciais à sociedade sejam menos comuns. pois é apenas aí. A honra nada mais é que a necessidade dos votos populares. os meios de que se utiliza a legislação para obstar os crimes devem ser mais fortes à proporção que o crime é mais contrário ao bem público e pode tornar-se mais frequente. ou seja. Deve haver.

Aquele que se mata produz menos mal à sociedade do que aquele que renuncia para sempre a sua pátria.O cidadão que se recusa a duelar se vê vítima do desprezo dos demais. em proporção aos seus lucros. nestes casos. O roubo praticado com violência e aquele praticado por astúcia são crimes totalmente diferentes. Outra classe de crimes é a dos que perturbam o repouso e a tranquilidade pública. Para que os cidadãos possam ser considerados culpados é necessário que eles conheçam as leis estabelecidas. causando o dobro de prejuízo que . O castigo mais adequado seria aplicar escravidão e o trabalho do fraudador ao fisco. O que deve ser feito é lhe proibir a contração de novas dívidas e obrigar a utilizar seu trabalho no pagamento de seus débitos. Estes não estão desobrigados de suas dívidas. dando à sociedade domínio total sobre a pessoa e o trabalho do réu. O suicídio é um crime que parece não poder estar submetido a qualquer tipo de pena. pois a opinião pública não liga qualquer infâmia a este tipo de crime. o que se necessita são medidas educativas. Trata-se de um delito que Deus castiga depois da morte do culpado. o castigo mais apropriado é a escravidão temporária. Se o roubo é consequência da miséria. mas cujo castigo prescinde da infâmia. Um roubo praticado sem o uso da violência deve ser castigado com uma pensa em dinheiro. contudo. sendo obrigado a uma vida de solidão e a expor-se aos insultos e à vergonha. Deve-se diferenciar o falido de modo fraudulento e aquele que pode provar de modo evidente a falta de fidelidade de outrem. uma vez que a população não se identifica como vítima neste tipo de crime. logo. A iluminação das cidades à noite e a manutenção de seguranças nos diferentes bairros são algumas medidas para evitar este tipo de acontecimento. o roubo é seguido de violência. Se. O contrabando é um crime que ofende ao soberano e à nação. é justo acrescentar à escravidão as penas corporais. as perdas de seus correspondentes ou imprevistos inevitáveis. O mais eficiente meio de obstar um duelo é castigar aquele que provocou a querela e declarar inocente aquele que foi obrigado a defender a sua própria honra.

O espírito de família é uma fonte geral de injustiças na legislação. as leis e os usos serão obras dos chefes de família e os demais componentes serão quase que escravos. tem-se o adultério. Existem crimes que são muito frequentes. por outro lado. mas muito difíceis de serem provados. Se se considera que um país é formado de famílias. todos os homens são cidadãos. que se trata de uma destruição de contrato social. produzida pela saciedade dos prazeres e também consequência do tipo de educação dada a certos homens.causaria o suicida (por diminuir o número de cidadãos produtivos de seu país e por aumentar este contingente em outro país). busca estender a ventura sobre todas as classes da humanidade. o castigo é um incentivo a mais. todo crime que. O adultério é produzido pelo abuso de uma necessidade permanente. Entretanto. em verdade. a pederastia e o infanticídio. um desejo ainda maior de o deixar. Orientado pelos valores da primeira sociedade. . O infanticídio é o efeito quase inevitável de uma mulher que cedeu por fraqueza ou que foi vítima de violência. portanto. em alguns casos. uma lei que procurasse retirar dos cidadãos a liberdade de deixar o seu país causaria. O modo mais correto de prender os homens em suas pátrias é fazer com que aumente o bem-estar de cada cidadão. portanto. que é anterior à sociedade. comum a todos os mortais. Uma lei que tente regulá-lo. enquanto desestimula os estrangeiros de nele se fixar. Não se pode dizer. o homem limita seu bem-estar ao círculo estreito de umas poucas pessoas que não escolheu. têm-se as leis que proíbem o porte de armas aos cidadãos pacíficos. Como regra geral. por sua natureza. sem um papel central nessa sociedade. Ter falsas ideias de utilidade é ocupar-se mais com inconvenientes particulares do que com os gerais. é inútil. A imaginação se excita e se empenha em perseguir o objeto de seus desejos quando os óbices que se apresentam não são insuperáveis. Se. Como exemplo. deixando armados os criminosos. A pederastia é. se considera que um país é feito de cidadãos. com frequência fica sem punição. Inspirado pela outra. Como exemplo.

pública. devem-se fazer leis simples e evidentes e pôr o país inteiro preparado a armar-se para defendê-las. pronta. necessária. A pena. Tais leis não devem favorecer qualquer classe em especial. os monarcas e os juízes consideravam seus interesses nos crimes que deveriam prevenir. assim como devem proteger de modo igual cada membro da sociedade. É preferível prevenir os delitos do que precisar puni-los.Houve um tempo em que todas as penalidades eram em dinheiro e assim. poderiam prejudicar as pretensões do fisco. deve ser. uma boa legislação nada mais é do que a arte de propiciar aos homens a maior soma de bem-estar possível e livrá-los de todos os pesares que se lhes possam causar. de modo essencial. porém ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos propensos à prática do mal é aperfeiçoar a educação. . Caso se deseje prevenir os crimes. Finalmente. para não ser um ato de violência contra o cidadão. a maneira mais segura. proporcionada ao delito e determinada pela lei. a menor das penas aplicáveis nas circunstâncias referidas. toda a arte do magistrado consistia em conseguir a confissão do crime do modo mais favorável ao fisco. elucidando o fato de modo a favorecer o réu. Eram excluídas da instrução de um processo as inquirições e as provas que.