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revista
João Pessoa, julho de 2009, número zero

uma publicação do

a

ponto,
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s palavras não apenas nos conferem realidade; elas podem ainda defendê-la para nós, diz Alberto Manguel no interessante A cidade das palavras. A frase também suscita uma idéia, quiçá não muito nova, de que o milagre de estarmos juntos, sitiados ou não, faz-se por meio das palavras. Elas são como muralhas que nos concentram em atividades encantatórias, em oficinas tanto transparentes quanto obscuras. Dito isto, o Clube do Conto, que nada mais é do que um número indefinido de parceiros em uma espécie de novo decameron, inicia aqui uma revista e faz uma justa homenagem ao amigo e escritor que, antes de partir, não fez estardalhaço e soube contar a vida com arte em suas histórias. Geraldo Maciel ou, para os mais próximos, Barreto, idealizador das famosas Atas do Clube do Conto da Paraíba, norteou boa parte de sua vida para a construção do seu reino de palavras e de uma editora que tratava com carinho as palavras dos outros. Para apreciar sua maestria nesses ofícios tanto, basta ler seus contos. Suas histórias parecem dizer, nos andares subterrâneos do significado, algo maior: que não estamos mais indefesos contra a aridez ou o vazio. Que ali, entre páginas, as fortificações da memória eram são vigorosas. E a imaginação, uma bússola.

Este primeiro número de “ponto,”, ainda experimental, além de trazer um pouco da querida figura do contista através de sua lavoura, também traz depoimentos sobre o autor de Aquelas Criaturas tão Estranhas e contos e crônicas inspirados nele. E dá início a uma nova fase do Clube do Conto da Paraíba, porque somos muitos e as palavras são habitações que não podem prescindir de moradores. A casa, portanto, faz é o próprio convite. Que aqui já está feito.

ponto,
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índice
João e Maria: o caso 21g
Geraldo Maciel ‘Barreto’ ................................................................. 4 Ronaldo Monte ............................................................................... 6

Organização Clube do Conto da Paraíba Colaboraram nesta edição Dôra Limeira
doralims@bol.com.br

Geraldo Maciel ‘Barreto’ Maria Valéria Rezende
valeria-rezende@uol.com.br

Delicado

Ronaldo Monte ................................................................................ 7

Roberto Menezes
betomenezes@gmail.com

Viva Barreto! O tipógrafo

Ronaldo Monte
rona.monte@terra.com.br

Dôra Limeira ..................................................................................... 8 Maria Valéria Rezende ................................................................. 10

Edição André Aguiar
diariodebordo@yahoo.com

Design Alfredo Albuquerque
alfredoalbuquerque@gmail.com

Não há vagas Urucubaca O escritor

Roberto Menezes ......................................................................... 16 Geraldo Maciel ‘Barreto’ ............................................................. 17 Geraldo Maciel ‘Barreto’ ............................................................. 22

Tiragem: 100 O Clube do Conto se reúne todos os sábados, a partir das 16h, no restaurante Coelhos, no Bancários. Os encontros são abertos e gratuitos.

Peccata Mundi (trecho)

Geraldo Maciel ‘Barreto’ ............................................................. 26

Façamos nós a nossa história
www. clubedoconto.blogspot.com

Dôra Limeira .................................................................................. 30

Folha corrida

Geraldo Maciel ............................................................................... 32

João e Maria: o caso
Geraldo Maciel ‘Barreto’
Lembro: o ocaso era um pôr-do-sol derramado, um minguante despejar de luzes que caminhava para o lusco-fusco, hora em que a luz divide sua soberania com o escuro, a noite se amalgama com o dia, momento em que um homem triste, de semblante fusco, eu, com meu único olho, procurava por ela, a soberana de minha tristeza. Eu um João qualquer, ela uma Maria única, pelo menos para mim. Esse João tentando, como a luz, inutilmente sustentar o clarão dos olhos dela sobre sua vida; ela, como a noite, soberana, querendo cobrir esse João, seu reino e seu domínio, com o manto da escuridão que leva ao esquecimento. Ela dizia: João escute. O amor é como o dia: quando chega a noite, ele murcha, morre, se recolhe, desaparece; assim acontece agora com nós dois. Nada pode deter essa avalancha que nos cobre. Amanhã o sol, um outro sol, vai nascer apagando o que foi a noite. Você encontra outra. O amor é como o sol. Nada impede que ele volte, que apague a escuridão, que volte a aquecer o mundo e os entes. Eu respondia: Maria, ouça. Se você quiser, a noite não chega, o dia vai durar para sempre, jamais haverá o ocaso, e eu não me perderei nos caminhos que à noite são invisíveis. Você quer o impossível, João. Congelar o amor é como congelar o tempo; é como parar o sol, apagar a noite, dar um fim à eternidade. Impossível João. Não, não é impossível. Diga sim, diga que me quer, diga que me ama, diga pare sol, diga morra a noite, e você estabelecerá a eterni4

dade. Diga! Ordene! Os deuses a ouvirão, a natureza lhe obedecerá, o cosmo cumprirá sua sentença! João, isto é para os deuses, e até para eles pode ser uma impossibilidade. Aceite a nossa humilde condição, a nossa frágil consistência; os limites de nossa carne e do nosso coração! A vida é assim, nossa vida é assim determinada. Do pó ao pó, da aurora ao ocaso. Princípio e fim. Assim foi. Vi-me num deserto a perseguir horizontes que estão sempre longe; afoguei-me numa noite tão longa que parecia eterna; mergulhei num silencio tão profundo que me pensei surdo. Mas sobrevivi. Conseguir manter o nariz acima das marolas do dilúvio. Vislumbrei pálidos reflexos ao longe, como relâmpagos no infinito; cheguei à borda do deserto, à fronteira entre a esterilidade e o úbere, entre o ocre e o verde, ao local onde o horizonte é alcançável. Hoje Maria é uma lembrança em baixo relevo, um palimpsesto que se esfarela ao contato, um vácuo aonde um dia existiu a dor. Sobrevivi. E lembro ainda, e talvez essa seja a última lembrança, quando ela naquele dia me disse: o amor é como o sol, nada impede que ele volte... Eu espero. Sobrevivi e espero aqui neste limbo, imerso neste inquietante espera do albor, aguardando a luz, procurando a aurora como um girassol demente, esperando que aquilo que ela disse um dia seja verdade. Que volte o sol, que volte a luz, que volte alguma coisa que, mesmo infinitamente pequeno, lembre aquilo que por ela eu senti um dia. Espero e desejo esse futuro como se isso fosse a única coisa a fazer na vida, mesmo sabendo que daqui a pouco, ele, como o sol, vai caminhar para a queda, para seu ninho de escuridão e eu tenha que mergulhar novamente no ocaso.
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Pesamos todos mais 21 gramas. É o peso da alma do amigo que arrastamos toneladamente. Falta paquidérmica densa insustentável.

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Delicado
Ronaldo Monte
Se me pedissem uma palavra para definir Barreto, responderia sem hesitar: delicadeza. Esta era uma qualidade que vinha antes de todas as outras. Ele podia ser crítico, irônico, até mesmo gozador. Mas tudo isto revestido com a embalagem da delicadeza. Se o leitor quiser saber exatamente do que estou falando, leia um livro de Barreto. Esses que ele assina como Geraldo Maciel. Pegue um conto, que seja. Logo se dará conta de que aquilo é fruto de um delicado trabalho de ouriversaria, ouro e prata engastados de palavras preciosas, mas tudo muito bem disfarçado em simplicidade e clareza. Tente imitar, como eu tentei, um mínimo parágrafo e saberá como é difícil e exaustivo o resultado. Até para morrer, Barreto foi delicado. Nada de períodos longos de internamento, promessas ilusórias de melhora. Foi ao encontro do Clube do Conto, no sábado, sem dar a menor bandeira. Acordou no outro dia bem disposto e saiu para cuidar da vida. Foi ali, morreu e pronto. Não obrigou ninguém a cancelar compromissos, adiar ocupações, pois escolheu para partir numa manhã chuvosa de domingo, em que não dava praia. Com isso, não estragou o programa de ninguém. Foi uma pena Barreto ter faltado ao seu velório. Ia ficar feliz com a turma que se reuniu, incrédula, para ter certeza de que a notícia não era brincadeira de mau gosto. Tinha muita gente boa, gente querida. Mas faltava alguém imprescindível. Aquele que saberia dizer as palavras exatas para a ocasião. Nos falaria de perda, de dor e de ausência. Mas falaria muito delicadamente.
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Viva Barreto!

Dôra Limeira

“Dôra, você está elegante neste seu traje amarelo, tom sobre tom.” Foi assim que Barreto me cumprimentou logo que desci do carro na porta da Escola Aruanda, nesse último sábado passado. Entre risos e brincadeiras, dirigimo-nos ao recinto da reunião do Clube do Conto. Fizemos reunião normal, como se nada fosse acontecer que nos alterasse a rotina do dia a dia. Discutimos um pouco sobre literatura, um pouco sobre essa fase de refluxo do grupo e sobre a hipótese de buscarmos outro lugar para reuniões. Barreto ponderou as coisas com a serenidade que lhe foi sempre muito peculiar. Chegamos a ler dois contos. Valéria leu o seu “Platéia”, eu li o meu “Uma tia misteriosa”. Durante todo o tempo que estive lendo meu conto, Barreto, como sempre costumava fazer, acompanhou a leitura com atenção e sua caneta riscou, sublinhou, anotou ao lado, sugeriu. Ah, Barreto, essa era uma de suas marcas, o companheirismo. Sentirei falta disso. Eu gostava de chamar Barreto de “meu galã preferido”, fazendo alusão à sua semelhança física com um ator chamado Edward G. Robinson, do cinema antigo. Notava-se que expressava sua boa vaidade com um discreto ar de riso. Barreto vai fazer falta às estranhas criaturas do Clube do Conto. Geraldo Maciel, este era seu nome de cartório, foi o editor de meus três livros. Meu quarto livro estava em suas cuidadosas e meticulosas mãos para a edição.
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Não sabíamos, mas naquele último sábado, Barreto estava se despedindo de nós, do Clube do Conto, sem nos dizer que viajaria no dia seguinte, domingo, às 10 horas da manhã. Já era noitinha quando encerramos a reunião e nos nos dissemos até logo. Despediu-se sem estardalhaços, assim como nos amou, sem alardes. Foi equilibrado, sóbrio, ponderado, inspirou confiança em todas as empreitadas que abraçou. No que teria pensado Barreto em seu último e rápido instante? Na família? No apartamento novo? Nos amigos? Na literatura? No Clube do Conto? Nunca se vai saber. Agora, está dormindo. Que tenha um sono tranquilo.

O tipógrafo

Maria Valéria Rezende

Envolvido com gosto na lida da dura matéria, nos truques espertíssimos da física e da química, engenheiro pra lá de competente, sim. Isto era a profissão. Mas havia a paixão, que a empregada nomeava prosaicamente mania de livro, pra que amontoar essa livrarada toda que só serve pra criar poeira? Gostou quando se viu citado como bibliófilo. George Meireles dedicou-se mais ainda, criando novas categorias para arrumar as estantes, segundo um complexo jogo de critérios que iam da encadernação, qualidade do papel, excelência tipográfica, ilustrações, se houvesse, até, é claro, sumo critério, a qualidade literária e a riqueza vocabular. Cada volume identificado com o belo ex-libris que ele mesmo xilogravara, sugestão de mandacaru florido e o discreto monograma, GM, num canto. Imaginava que ali, naqueles volumes enfileirados, vivia adormecida toda a riqueza da língua, esperando apenas que ele os abrisse como janelas da manhã para deixar entrar a luz e despertar as palavras. Era missão que cumpria com alegria, a cada dia, tão logo acertava as contas diárias com a engenharia. Num rincão da biblioteca, por trás de um biombo, separava os livros nos quais aplicava a etiqueta genérica de mereciam ser melhores, que GM nunca mostrava aos visitantes. Cada vez que chegava com nova pilha de alfarrábios, a empregada não perdoava: e já não chega tudo isso que tem aí, não? − Não, não basta, Amélia. A resposta, porém, não se dirigia propria11

mente a Amélia, mas a ele mesmo, e abria uma fresta para aquele penumbroso vão de inquietações, vagas sensações de missão não cumprida só reveladas à mulher Adelaide, vazio que se lhe escondia em algum canto da alma e ele bem sabia que não se preencheria com a mera quantidade de aquisições e nem mesmo com a leitura e a releitura de tudo aquilo. Num domingo de chuva, folheando o suplemento cultural de um dos grandes jornais de São Paulo, G.M. deu com os olhos numa nota anunciando que a senhora Artemísia Souto, viúva de um velho tipógrafo, tinha intenção de vender o único item valioso do espólio do marido, imenso arquivo contendo, criteriosamente classificados, o primeiro exemplar definitivo e as provas tipográficas com revisões de cada livro que havia composto em sua longa vida. G.M. não acreditou que outros teriam lido a minúscula nota, certo de que aquilo era dirigido pessoalmente a ele, não hesitou, alertou o amigo revendedor de automóveis de que estava à venda seu utilitário com tração nas quatro rodas, avisou aos auxiliares que estaria fora do escritório por três dias, comprou pela internet a passagem para o primeiro vôo da madrugada e desembarcou de manhãzinha em São Paulo. Foi fácil conseguir, na redação do jornal, o endereço da viúva do tipógrafo. Ninguém havia chegado antes dele e a penúria apressava também a mulher. Não regateou quando a viúve lhe deu o preço, confirmou ao revendedor a venda do carro, soube que já havia um comprador. Com o coração trêmulo, passou o cheque do total para daí a uma semana, esquivou-se do excesso de abraços gratos da viúva, fechou as pesadas caixas, sem conferir o conteúdo, endereçouas a si próprio, chamou uma transportadora para entregas urgentes,
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esperou Barreto, o caminhão, arrumarem-se com cuidado as caixas Viva chegar sim. e ver sumir na esquina a preciosa carga. Então foi-se para os sebos da Liberdade, onde passou a tarde até à hora de ir pegar o último vôo de volta. Desembarcou muito antes das caixas e ansioso pela chegada do caminhão, prevista para sexta-feira à tardinha. Aquele fim-de-semana terá sido o mais emocionante de sua vida de bibliófilo. Desembrulhou com urgência o primeiro pacote envolto em papel impermeável, pensou em usar luvas para manusear as velhas provas, mas Amélia tinha jogado no lixo as suas luvas de algodão branco que, em busca de poeira oculta, achara numa gaveta da biblioteca, alegando que já não havia lixívia que as alvejasse. Custaria um tempo precioso ir comprá-las. Ficaria para depois. O primeiro livro do arquivo, acompanhado de duas versões de provas tipográficas com correções a lápis, já se havia tornado um clássico da literatura brasileira. GM, emocionado por surpreendê-lo assim, ainda no nascedouro, folheou com mãos trêmulas o exemplar número um da obra, verdadeira prova de artista, sentindo-lhe a textura da capa e das folhas, o cheiro característico, tão vivo como se tinta e cola estivessem ainda frescas, o papel tresandando a tempo, talento e história. Leu várias vezes com emoção a dedicatória que registrava sucintamente a gratidão do escritor a seu tipógrafo. Entrou então na experiência mais inédita: ler e cotejar as primeiras provas tipográficas de um clássico! Eras duas as cópias. Abriu-as ambas, lado a lado sobre a mesa, logo abaixo do pequeno suporte inclinado em que abrira o livro, e teve a primeira surpresa: cada uma delas continha correções a lápis, a segunda muito mais numerosas
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e extensas do que na primeira, e a caligrafia, sem dúvida, não era a mesma. Reconheceu na primeira prova a caligrafia da dedicatória do livro. Na segunda, em longas frases inscritas nas margens e mesmo parágrafos inteiros no verso das folhas, reconheceu a letra que listava títulos, autores e datas no papel pardo que envolvia cada um dos pacotes. GM pos-se a ler, ora uma, ora outra das provas, cotejando-as com o exemplar publicado e, embora duvidando de si mesmo, percebeu o insuspeitável: a primeira prova trazia um texto correto, bem escrito, mas em estilo convencional que não levaria nem o livro nem o autor aos píncaros da glória em que hoje estavam instalados. A segunda prova revelava: toda a beleza e a originalidade do texto deviam-se às modificações ali registradas, sem dúvida alguma, pela mão do tipógrafo. Mas seriam obra dele ou fruto de um simples ditado do verdadeiro autor, talvez fisicamente impedido de escrever de próprio punho? Chegou a imaginar a cena: o escritor, de colarinho duro e gravata de seda, um braço na tipóia, recostado em poltrona de veludo, a mão esquerda cofiando seus bastos bigodes, o tipógrafo franzino, com a pala verde sobre os olhos, as ligas pretas sustendo as mangas da camisa, os óculos grossos, curvado sobre uma escrivaninha, lápis e provas nas mãos. O exame febril, dia e noite, de dezenas de livros e provas tipográficas provou o incrível: o desconhecido tipógrafo tinha transformado, ao longo de sua vida, centenas de livros quase banais em grandes obras de arte literária. Não era possível supor que todos os escritores que lhe confiaram seus originais tivessem dedos, cotovelos ou óculos quebrados no momento de rever as provas de seus livros.
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Nem por um segundo GM sentiu-se tentado a revelar o segredo descoberto, que o tornaria talvez o mais famoso bibliófilo do país. Uma réstia de luz infiltrara-se naquele inquietante vão escuro de seu espírito. Soube o que queria fazer. Encaminhou os papéis com o pedido de aposentadoria. Favorecido pela tecnologia mais moderna, montou em poucos dias uma gráfica nos fundos de casa e anunciou que se estabelecia como editor. De suas mão não sairia nenhum livro que não pudesse ser considerado perfeito. Começou por criar novas e belas edições críticas dos livros de domínio público que tinha guardado por detrás do biombo Anuncia-se para a próxima semana a defesa de uma tese de doutorado na Universidade mais próxima, que promete desvendar as razões de um súbito salto de qualidade na produção literária da província, prêmios e mais prêmios conquistados pelos escritores locais em concursos país afora e mesmo no exterior, o recente assédio de grandes casas editoras federais aos vates municipais e estaduais. Embora o tema lhe seja extremamente interessante, GM não assistirá à defesa. O simples convite para o ritual acadêmico, descrevendo o tema tratado, preencheu qualquer espaço ainda vago em sua alma, o coração deu-se por satisfeito e parou, num domingo chuvoso, marcando a conclusão de uma vida plena.

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Não há vagas
Roberto Menezes
Procura-se um engenheiro aposenta do que tenha experiência na área de cirurgia das palavras. Procura-se um engenheiro das palav ras que produza inveja em escritores tão grandes quanto ele. Procura-se um homem de poucas palavras que incite nos escritores menores maiores vontades. Procura-se desesperadamente algu ém que se encaixe na condição de tutor que com valia passe régua, esquadro e bisturi em vôos de ícaros frustrados. Procura-se um podador de arbustos metidos a carvalhos, para que com tempo aqueles venham se calhar se tornar estes. Procura-se um velho carvalho que chegue atrasado e não assine ponto. Procura-se um funcionário público que tenha o vício de sair apressado, que não dê aviso prévio, que se exonere antes de receber a demissão. Procura-se um pilar de aço forte para suportar com os outros pilares esse pesos insustentáveis. Procura-se uma barragem que só vaze quando o açude, que dentro tenha dela, sangre. Procura-se um jacarandá que jama is empene quando o vento amostrado algum escândalo encene. Procura-se um ser humano, um ser extraterreno. Nem alto, nem magro, nem metido a político. Procura-se aquela criatura que tenh a o dom de barretear*. Viva Barreto! *fundir (o ouro) em barras.

Urucubaca

Geraldo Maciel ‘Barreto’

Como todo mandatário a quem o poder lhe chega por vias pouco ortodoxas, o sargento Quintiliano começou a ter medo de sofrer um atentado. Sabe-se lá que monturos de inveja, que vulcões de safadeza habitam o coração dessa gente sonsa? Um pode me achar feio e me olhar torto; outro pode ter tido alguma vontade contrariada e me declarar inimigo; outro inventa de cismar que eu sou a encarnação do mal, qualquer mal, e lá vem ele pra cima de mim! É preciso ter muito cuidado, andar com os olhos bem abertos, a arma sempre à mão e ter um cerco de seguranças. O poder atrai essas mazelas, esses vingadores, os que se acham justiceiros. Ele morria de medo especialmente dos barbeiros. Achava que era o local onde ficava mais exposto. Arrepiava-se só em pensar que expunha sua jugular a um desconhecido armado com uma navalha afiada. Tanto medo tinha, ou veio a ter, já que antes chegava a dormir na cadeira de seu barbeiro de confiança o gago Luiz Rosa, que depois de assumir o cargo de chefe da junta, não pôs mais os pés na barbearia. Fazia ele mesmo sua barba, com um aparelho de lâminas que comprara, pois apesar de gostar de fazer a barba com navalha, não dominava a arte de afiá-la. Depois, deixou transparecer, no início, o medo de ser envenenado. Mais adiante, de forma aberta, declarou ao seu secretário esse temor, e sem quê nem mais, ordenou: - Sendo assim, a partir de amanhã você vai avisar à cozinheira
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para redobrar os cuidados e vai, você mesmo e em pessoa, provar antes todo bocado que eu for pôr na boca. O atarantado secretário via, assim, mais uma obrigação ser acrescentada ao rol das que já tinha: provador oficial de sua excelência ou, dito de outra forma, aquele que morre no lugar de quem devia. - Cuidado com o sal, bicarbonatos, farinhas, goma de mandioca, ararutas e outros produtos brancos e em pó. Não vá me fazer essa maluca dessa cozinheira o que a cozinheira do padre Nicanor fez com seus mantimentos. Trocou o sal por um veneno para formigas e não fossem as beatas terem provado antes, e morrido logo depois, o padre teria batido a batina nas canelas antes do tempo. Verifique os lacres das garrafas, o fecho das latas, o estado dos pacotes. Qualquer sinal de violação você rejeita o produto. Mesmo aqueles de embalagem não violada devem ser provados por você antes de mim. Por isso, vai ganhar dez por cento de aumento no seu salário. - Isso não é um exagero de sua parte, excelência? Não o salário, queria dizer o secretário, mas os cuidados. - Pode ser, mas não é por causa disso que eu vou morrer. Não vou dar trégua à inveja, à maldade ou ao azar. Seguro morreu de velho e não envenenado. Que podia o pobre secretário mais objetar, a não ser que se tomasse o silêncio como objeção, o que parece não ser apropriado para o caso? Mesmo sem ter visto em filme, lido em qualquer livro de história ou sequer ter ouvido a história numa cantoria de viola, o sargento passou a desconfiar que, como Cleópatra, poderia morrer picado por uma cobra. E não as cobras dos tabuleiros, aquelas surpreendi18

das no sono ou de tocaia nos caminhos, que essas ele já as encontrara aos montes e delas quase não tinha receio. Usava coturnos e andava prevenido, de olhos abertos e mirando touceiras, ramagens, folhas secas, locas de pedras, e todo e qualquer local onde elas pudessem estar. Quantas ele não matou quando teve que se enfiar no mato em busca de criminosos fugitivos ou bandos de assaltantes de estrada? E nunca foi sequer arranhado por nenhuma delas. Seu medo era ser picado por uma cobra deixada de propósito no enrodilhado do seu lençol, enganchada no punho de sua rede, colocada dentro de seu coturno. Tanto temia essa artimanha que revistava os caibros do telhado do quarto onde passava a noite, arejava várias vezes o lençol que não chegava a usar, pendurava seu coturno em um torno que havia no quarto. Era mais um motivo para que não dormisse. Passou a temer os ratos, não porque esses pudessem mordê-lo, tampouco por que transmitissem doenças, coisa que ele nem desconfiava ser possível, mas porque é sabido que ratos atraem cobras. Então, como temia usar veneno em casa, começou a criar gatos. Seu medo aperfeiçoou-se e ele passou a temer também, escorpiões, lacraias e piolhos de cobras, esses até mais furtivos que as serpentes e de veneno quase tão mortal quanto o delas. Depois foi a vez da carne reimosa e da comida carregada. - Não me venham com carne de porco, de tacacá, de tejuaçu, seriema, peba ou tatu verdadeiro; basta um risco, um arranhão qualquer, e ele, por menor que seja, vai arruinando, inflamando, apodrecendo, se transforma numa chaga dolorosa que, num lugar atrasado como esse, vai dar em morte certa. Nem quero ver carne
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de bicho que menstrua ou peixe de couro; longe de mim carne de bicho amojado ou parido de pouco; nada de arribaçãs ou codornas. De pena só capão ou galinha cevado pro trinta dias, e ave do mato, caça, só a codorniz. Esses bichos, que muitos me trazem de presente, podem ser dados com as tais intenções outras, as mesmas de quem pode querer me envenenar ou me ver picado de cobra. - Como queira, sargento. - Abreu, sereno faz mal? - Não excelência, que eu saiba, não faz mal, a menos que se esteja com um defluxo brabo ou constipação das narinas; dizem que não faz bem para quem está com febre ou tem sinusite. Para o resto, não faz mal algum, pelo menos que eu saiba. - Mas o que você sabe dessas coisas, Abreu? Onde aprendeu essa ciência? Que garantias você pode me dar? - Garantia nenhuma, sargento. Foi só uma opinião, aliás, pedida por vossa Excelência! - Isso quer dizer que mal pode fazer, não é? - Na verdade, é, senhor sargento. - Agora eu estou arrumado! Uma cidade que não tem médico – por que diabos eu mandei prender e expulsar aquele velho curandeiro? –, e um secretário que mais me pergunta que afirma e ainda por cima nada sabe dessas coisas que podem fazer mal. Eu estou bem arrumado! Parou, permaneceu uns dois minutos calados e disparou outra: - E em mau-olhado, você acredita Abreu? - Sim e não excelência. Depende da hora e do meu humor. Dãose os casos em que é tão patente a presença de um mal olhado que
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seria heresia não acreditar; noutros, a situação pende mais para a fome que muitos passam, não sendo mais que o resultado da fraqueza que a inditosa traz; há, também, e para não deixar de nomear todas as possibilidades, o caso de ser malandragem, simulação, teatro puro, artes que inventam para fugir de algum castigo, se desculpar de alguma falta ou por pura sem-vergonhice mesmo. - E você acha que uma coisa botada pode prejudicar uma pessoa e atrasar um governo? - Achar, eu acho, mas não é o caso, excelência. - Como não é o caso? Então os governos estaduais, os presidentes da república, senadores, deputados, todos esses não são dados a consultar videntes, perscrutar os búzios, pedir proteção de deuses outros que não os da Igreja Católica, requisitar o futuro através de baralhos, tarôs, fumaças, espelhos, bolas de cristal, preto-velhos, e toda essa multidão de jeitos e formas que os homens acham para suprir sua ignorância e diminuir suas incertezas sobre o futuro? - Isso é verdade, excelência! Até parece que o futuro do poder é tão escuro que eles apelam para tudo. - Então? O meu governo daqui pra frente, não vai dispensar o auxílio de quem pode me ajudar. A partir de amanhã, mande trazer de volta aquele velho curandeiro, e vê se me acha uma cigana que possa ler mãos e botar o baralho, que eu quero saber quem, dentre os meus inimigos, anda pretendendo me matar. - Sim, excelência.

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Um escritor

Geraldo Maciel ‘Barreto’

Um escritor amigo meu acaba de lançar um livro. É um livro original, tão diferente e revolucionário que ele não sabe como classificá-lo. A síntese perfeita entre o signo e seu oposto, entre a palavra e o silêncio. Um livro revolucionário. No lançamento havia oito pessoas. O namorado do autor, dois amigos ligados às letras profundas e radicais, uma tia idosa que o sustenta, uma irmã, um amigo do namorado, um transeunte e eu. Oito. Ele completava os nove estava feliz. Um dos amigos das letras radicais disse algumas palavras, durante uma hora, e eu tive que falar do livro, relembrar algumas passagens da nossa adolescência, quando estudamos juntos, de nossa amizade e afinidades literárias. A tia chorou uns quatros lenços de cambraia, a irmã somente três; o namorado, um pouco afastado, olhava embevecido e tímido para o maior escritor do mundo. São assim os lançamentos. Afinal é a coroação de dias e noites, noites e dias de suor e labuta, de labuta e suor, com pequenos intervalos para uma olhada no espelho e busca de inspiração. Ele demorou exatos dez anos para construir sua

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obra. Dez anos. Noites de labura e canseira. De insônia e labuta. Pelo menos foi o que ele afirmou na hora dos agradecimentos. Dois anos de hipérboles, metáforas, paráfrases e aliterações; não sei quantos mais de reestruturação, reescritura e acréscimos; e o restante de condensação. Ao fim do segundo ano tinha 510 páginas escritas, 251.620 palavras, 1.647.760 caracteres com espaço, 3.900 parágrafos e 22.570 linhas. Um castelo de palavras, produto da primeira fase, e de aglutinação. Os dois últimos anos ele os gastou polindo, cortando, buscando a essência. Quando fez uma primeira leitura, retirou os erros mais grosseiros, as repetições, por si mesmas desnecessárias, e os parágrafos obscuros, economizou 56 páginas; na segunda leitura, cuidou de retirar o excesso de adjetivos - os manuais falam dos tais adjetivos e de seus malefícios para o estilo -, e lá se foram 32 páginas; com o excesso de quês implicantes e repetitivos cortou 16 páginas. Ao fim dessa primeira passada, estava com 407 páginas e uma ligeira impressão de que seu romance tinha tudo para ser uma grande obra. Na terceira leitura, notou que ainda havia muita gordura, muita coisa que não contribuia para a solidez da obra e resolveu cortar. Aplicaria algo que leu de um

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determinado crítico de literatura que dizia: se você notar que retirando um capítulo ou parágrafo ele não faz falta, corte. É porque realmente ele não serve para nada. Começou com os capítulos. Dos trinta e oito, cortou quatorze. Os vinte e quatro restantes, após a poda dos parágrafos mal ajambrados, obscuros, desnecessários ou ilegíveis redundaram em 231 páginas. Semanas depois, uma leitura sobre Graciliano Ramos e sua febre pela concisão, somada com outra sobre a poesia de João Cabral, fez com que devastasse dez capítulos, que refundidos resultaram em oito e 126 páginas. dessas 126 páginas, retirou todos os personagens, deixando só o principal e com isso seu texto ficou reduzido a 45 páginas. Podando as páginas onde havia algum tipo de ação do personagem, restaram-lhe 19 páginas. Com um texto tão condensado, não havia necessidade de divisão em capítulos, o que economizou três páginas. Na última leitura, resolveu deixar somente os monólogos interiores que tivessem relação direta com o suicídio - tema do livro -, o que lhe custou sete páginas. Cortou, depois, oito delas por não terem um cunho filosófico mais profundo e se viu frente a frente com meia página altamente condensada, profundamente densa.

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Mas, pensando bem, nada seria mais profundo que o ato do seu personagem. E trocou aquele parágrafo profundo por esta frase banal, mas tão representativa: Ele iria se matar. E tal concisão levou à idéia genial: A morte é o absoluto. O que é uma frase para representá-la? E riscou a frase dando origem àquela sua obra de tantos anos. Pelo menos foi o que ele disse na hora dos agradecimentos. A crítica não tomou conhecimento. Os resenhistas passaram ao largo, e as más línguas acharam outras coisas de que se ocupar. Vendeu oito exemplares no lançamento. Embriagou-se e começou a se preparar para escrever o próximo livro.

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Peccata Mundi*

Geraldo Maciel ‘Barreto’

ra o ano da graça de 1800 e tantos, soprava uma brisa quente e cheirosa pelas ruas da cidade de Parahyba naquele fim de manhã, quase meio-dia, e essa tal brisa, perfumada pelo cheiro das mangas, mangabas, oitis e araçás, foi encontrar o padre Leocádio Carrão Brindeiro sentado à testa da mesa de refeições, arfando, a boca cheia com um naco generoso de uma coxa de galinha e o rosto sujo de farofa. Sua cara quase chafurdava no prato que comia, e suas mãos nervosas espalhavam restos de comida sobre a toalha, já suja e engordurada. Vestia uma batina surrada, apesar de ser um homem rico, e trazia um pano de prato, também já sujo e encardido – ao modo de um guardanapo – atado ao pescoço, adereço de todo compatível com a porcalhada que fazia na mesa à sua frente. Enquanto mastigava com pressa, a cozinheira entrou na sala e lhe disse ao ouvido, como se ele fosse surdo: – Padre, tem uma pessoa aí fora querendo falar com o senhor. É um emissário do senhor de engenho, o Major Florentino. Sem parar de mastigar, o padre disse à cozinheira para mandar o rapaz esperar, enquanto limpava a boca com o tal guardanapo
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e tentava suavizar um arroto que denunciava o quanto já se empanturrara. O padre, apesar dos sessenta anos já vividos, era um homem ativo, forte e corpulento. Além de oficiar os sacramentos que o dever lhe impunha – mesmo que algumas vezes os achasse excessivos – cuidava de duas fazendas no Brejo, e de uma próxima à vila do Pilar, todas elas com engenho, cana, gado e escravos. Como um grande proprietário, comprava e vendia boiadas, exportava açúcar, fabricava rapadura e cachaça, emprestava dinheiro a juros, que alguns achavam extorsivos, tinha comissões em negócios que os inimigos achavam duvidosos, mantinha, supria e dava assistência a três casas, onde mantinha três amásias com quem ajudava a povoar a província da Paraíba do Norte. Nos atropelos de suas múltiplas atividades, padre Leocádio havia esquecido os votos de castidade em algum canto por aí e não lembrava mais onde os havia deixado. Uma vez perdido o voto de castidade, não foi difícil perder todos os demais, à medida que ia encontrando as coisas que a vida podia lhe oferecer. Foi assim com relação ao celibato, foi assim com relação à pobreza, à parcimônia e à temperança. Ninguém mais que ele levava a sério a exortação crescei e multiplicai-vos. Tanto que, da parte que lhe cabia, apesar dos esforços que tais proezas exigem, já havia posto no mundo dezoito filhas – das quais seis haviam morrido muito cedo – desgraciosas, ou melhor, dezessete, pois a décima oitava, Maria Esplendorosa, era delgada, graciosa, e bela como um amanhecer. Por serem tantas e morarem em casas diferentes, ele, como pai,
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só as via duas vezes por semana, umas às segundas, outras às quarta, o restante às sextas, e aos domingos quando as via reunidas na igreja. As desobediências a esse calendário só ocorriam quando o padre tinha que viajar para vistoriar suas fazendas e conferir o andamento dos seus negócios. Nos intervalos, tentava manter acesa a chama da fé que, naquela época, ali na capital da província, bruxuleava e às vezes quase apagava por completo. Se tal chama amortecia, mas não apagava, isto se devia aos cuidados que a ela devotava o nosso guloso pároco. Na segunda-feira, após o café da manhã, na casa da amásia número um, parte de suas filhas fazia uma fila para beijar-lhe a mão e pedir-lhe a benção. Sua benção, meu padre. Deus lhe abençoe Maria da Paz. E se seguiam Maria Dolores, Maria Anunciada, e Maria Concebida; na quarta-feira e na segunda casa, abençoava Maria das Graças, Maria das Vitórias, Maria do Amparo e Maria do Perpétuo Socorro; e na sexta-feira, abençoava Maria da Luz, Maria da Conceição, Maria das Dores, também conhecida como Maria, a horrorosa, e Maria Esplendorosa, que todos chamavam de Maria, a bela. Normalmente Maria Esplendorosa era a última a lhe pedir a benção, coisa que lhe enchia os olhos e lhe apascentava o coração. Quando olhava sua linda filha, sempre dizia consigo mesmo: vou arranjar um bom casamento para você, minha filha! No momento, porém, ele estava na casa paroquial, ainda sentado à mesa, rodeado de ossos de frango, sujo de farofa, ruminando a última porção do prato enquanto o trabalho de digestão lhe retirava qualquer vestígio de pensamento da cabeça. O torpor
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que normalmente sentia após a refeição não o impediu de lembrar que ainda teria de atender ao emissário do Major Florentino que o esperava. “Que pode querer o Major para me mandar um recado a esta hora?” Pensou enquanto dava mais um arroto, empurrava a cadeira para trás e levantava. Retirou o guardanapo do pescoço, atirou-o sobre a mesa e dirigiu-se para a sala. O emissário esperava. Ao vê-lo, levantou-se, fez uma reverência, pediu-lhe a benção e beijou-lhe a mão, ainda com resquícios de cheiro do frango e da farofa. – Deus te abençoe – disse o padre de forma displicente –, que deseja o Major Florentino? – Ele pede que o reverendo padre, logo que possa, vá até sua casa para tratar de um assunto urgente. – Diga ao senhor Major que no fim da tarde, sem falta, estarei lá. E com um sinal da cruz mal traçado no ar, despediu o serviçal. Tão logo o emissário saiu, o padre dirigiu-se para o quarto onde o esperava uma rede, lugar de sua sesta habitual, ocasião em que, com calma, faria sua trabalhosa digestão e que, de acordo com o estado de seus intestinos, lhe proporcionaria um sono leve ou pesado, acompanhado de seus inseparáveis sonhos, normalmente pesadelos, os pesadelos do padre Carrão.

* Estes são os primeiros parágrafos do romance Peccata Mundi, de Geraldo Maciel ‘Barreto’, premiado com o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008 29

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E nasce um formigueiro de contos
por Dôra Limeira

façamos nós a nossa história

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m abril de 2004 o Clube do Conto ainda não existe efetivamente. O que existe é uma lista de discussão na internet constituída de escritores locais que curtem o conto como gênero literário. Essa lista virtual, criada pelo poeta e contista Antônio Mariano, dentro de pouco tempo, evolui para encontros presenciais. Dois ou quatro escritores contistas se encontram aos sábados, finais de tardes, para tomar cafezinho, conversar amenidades, falar de literatura, falar de contos. No entanto, ainda não há nada definido, não se pensa em “criar” um grupo de contistas, formalmente. Esse grupo surge de forma espontânea e natural, resultado da necessidade que têm algumas pessoas de trocar idéias e experiências, compartilhar sobre suas perspectivas, seus modos de escrever. Não há nada de pretensioso naquele momento. A brincadeira, o faz de conta, e o despojamento são as tônicas iniciais do grupo que nasce num point barulhento do Shopping Sul, Conjunto dos Bancários, onde é servido cafezinho expresso. O ajuntamento inicial de escritores atrai parceiros dentro do próprio shopping. A Livraria Almeida e a Associação de Lojistas do Shopping, sensíveis a esse grupo nascedouro perdido naquela barulheira comercial, operacionalizam para que um recanto discreto do shopping seja
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destinado às reuniões. Mesas e cadeiras da Associação são colocadas à disposição do grupo aos sábados. Livraria Almeida e Associação dos Lojistas, portanto, são as primeiras duas parcerias. A divulgação boca a boca, os convites pela internet, pelo telefone e por outras vias ajudam o grupo a emergir. O não formalismo, o não academicismo e a acolhida são alguns elementos que fazem a diferença entre o grupo nascente e os demais focos de literatura existentes na cidade. Tendo a inclusão como diapasão a nortear os tons das reuniões nos finais de tarde dos sábados, é permitido que qualquer pessoa possa participar, escrevendo ou não. Basta que goste de ler, que aprecie o conto literário, que ame o bom livro. O intercambio de idéias, projetos, pontos de vista, a troca de abobrinhas, enfim, qualquer pretexto pode ser um bom início de conversa. Nesse sentido, a interação é muito importante. Em abril de 2004, portanto, o grupo ainda engatinha. Tenta se afirmar, tanto pela assiduidade, como pela leitura de textos, autorais ou não. Trivialidades literárias também fazem parte e são bem aceitas a cada encontro.

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Geraldo Maciel ‘Barreto’
araibano, nascido em Nova Palmeira, em 1950. Foi professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba, engenheiro civil e Doutor em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP. Seu primeiro livro de contos Aquelas ciaturas tão estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura. Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina. Publicou contos em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Concluiu um romance – Aqui as noites são mais longas e terá editado em breve um quarto livro de contos. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008. Faleceu em 31 de maio de 2009 deixando uma saudade imensa no Clube do Conto da Paraíba, do qual era um dos membros mais atuantes.
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Raoni Xavier

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folha corrida