Horas Amenas

A pequena e o carnaval Manhã dourada, Confete e sol, Lá vai ela. Perdida mas também achada, Suada de samba E tranqüila parada. E no meio do bloco foi ela, Por uns dita bela, Por outros passantes, Apenas magrela. Foi leve e levitando. Rastejante e presa, Rosnando e cantando, Roçando entre corpos, Máscaras, Rostos Sem alma. Desceu do bloco E seguiu o trio. Fluida e faceira, Feito vento, Água de rio.

Atravessou avenidas Banhadas de luz e suor Esbanjando alegoria. Carregou sozinha uma alegria E foi cantando Marchinhas centenárias Feito os rostos dos chatos Que, imóveis e imunes, Olhavam com cara de bunda As outras tantas que ali passavam. Foi tão pequena, Tão lentamente e depressa, Que na grande contradição Mal foi percebida, Mal foi notada, Mal foi amada Amor de carnaval... Viveu o dia E foi pra casa, Passou a rua E atravessou Solitária a quarta feira E eram cinzas... E eram apenas cinzas...

Levanta a mão e acaricia. Enquanto isso a gente c o r u l s a l P a. fala. Enquanto isso a gente pode Em conversa de roda Jogar pro alto Conversa fiada . Diz que é o amor da vida toda Pelos próximos segundos. Enquanto isso a gente beija. ta Muro.Língua afiada. Lapso no meio da vida . Puxa e abraça. cerca. Tempo breve. Ainda que depois do dia A gente finja que não falou. Pra falar depois da hora. BERRA. Bater portões. . Buraco em calçada. Enquanto isso a gente ouve.Pausa para a encrenca. barranco. Enquanto isso r e. Abaixa a cabeça.Antes e depois do tempo Enquanto isso podemos fazer Um monte de coisas: Brincar de pique. Enquanto isso a gente vive. E aí a gente fala Tudo aquilo que a gente ouve Quando finge que não ouve. Assustar cachorros E passar trotes.

Vai passar. Vivendo e vendo se passa Tudo isso que. agita. Enquanto isso a gente vive. . Sem paciência ou pressa.a gente até para. Agora e sempre tudo isso. a gente sabe. Sem lugar e sem tempo. Vira. faz revolta A gente dá reviravolta Enquanto isso durar. Com a calma de quem passa Esperando o tempo que vem Ou aquele já se foi. empaca. Breca. Enquanto isso a gente volta.

Juro que o que tento Quando sinto é descrever E se de salto em salto As palavras. Que já me é próprio. Coisa do ser. Juro que antes Com tal sinceridade Nunca jurei. Pois afinal: . não dispenso. livres e soltas. Eu juro.Qual é a credibilidade De um ser que nunca amou? .Confissão na aurora Juro que quero E tento. Até por que O que se sabe de mim E o que se quer Eu ainda nem sabia. Coisa que é coisa de ser E de ver E de ter E quase sempre De sempre querer. Mas que antes que eu me disperse. O que antes eu fazia Eram caras e sinais Gestos mínimos. O que vem depois Não é por querer. Se embaralham – uma ilusão . Até por que eu nem sabia O que era jurar. Com um fervor De quase paixão.As coisas mudam.

Em cartinhas escritas em rosa. sem depois. E por fim o derradeiro amor Que é mais que a conjugação Do conhecido verbo amar Em cantadas nas rodas de prosa. Já que tudo é beleza. E amar até sem ver. Primaveras mais E a cada das tais Dar a bela sua flor. . Louca. desvairada. Amar sem pintar O não sutil amor noutro alguém. Numa alegria quase sofrida. Que é amar a cada dia O amor mudo ou respondido. Amor de agora. Extrema pureza. Querendo a cada manhã Querer mais do amor vivido. Amar sem esquecer o bem. Amar sem mistério.Conjugação do amor Amar sem dar risada. Ensaio que é o próprio ato. Amar sem dor. Querer o amor sem ver o Fato. Amar sem destilar o mal.

Não se afobe. Sou agora o nome. Mas esqueço o verbo. Saio de mim E me invado E me contradigo Em tudo que digo Que hoje passe É o que hoje peço E que eu me amorne E que eu me amanse E que eu me acalme E que eu me alcance. Caminho E não saio do lugar. Lá vou parar. Horizontes: Vou para além. Naquilo que não é. . Quem sabe lá Meu ser se acalme. Sou afobação. Os pensamentos. Não se apousam. alguém me diz. Meu ser não se acalma. Sou só palavra. É a alegria do que não vi. O ser.Cotidiano metropolitano Minha alma está inquieta. Procuro o que é. Quem sabe lá Minha alma se aquiete. Vou para lá. É o prazer do que não fiz. Só se apressam.

Posso ouvir as canções que trarão saudade. E o que me incomoda. Posso sentir as lágrimas Que tocarão a matéria desalmada. Como se tudo o que está ausente Chamasse-me ao seu encontro. E que me empobrece a alma. Aposentam-se as paixões. Sensações de fim Me dilaceram a cada instante. Tempos de fim. Já se sente saudade dos amigos. . É como se para minh’alma Tudo o que já foi Fosse suficiente Mas no fundo eu sei que não é. E que me rouba as noites E que me traz o choro Não é saber o que aqui ficará É não saber o que me aguarda. Como se uma revoada de pássaros Habitasse em meu estômago.Crematório É como se me restasse pouco. Alguns passos na caminhada da vida. Certificam-se as frustrações.

Sejamos ao menos breves. numa tarde de sol mais alegre. Dias falsos. Assim como deve ser. Ao menos por enquanto Deixemos que os beijos contidos Disfarcem-se E Disfaçam-se em sorrisos. Firmes. . Posto que herméticos. sérios. Escapar da boca O que se tentou Em todo esse tempo esconder. Sejamos ao menos brilhantes. E se. dissimulados. Isso temos que ser.Fingidores Ao menos por enquanto Eu quero a alegria suposta.

E não Apenas a menininha doce Mas também a estrada negra . Para a menina Era o futuro. Das auroras sempre vistas. Também o chão. . Dos beijos insípidos E dos calores de idade. Também o suspiro da vida noturna. Um hiato. Também o mato. Apenas um clown ambulante. E ainda a ausência E a multidão.Futuro Ambulante Então na velha Pedra mole de sílica Refletia-se brevemente No rosto da velha A menina.Metáfora da vida. Menina doce de antes. E se para a velha Era aquilo o passado que ia. De antes do tempo Das dores.

Vá que o que é certo se desfez e as sandices são paradigmas para vidas puras de gozo. Elogie com tuas palavras duras e acaricie com teus brutos gestos. Pois o sono não é mais repouso e a tristeza não é mais doer. . Vá em paz pra tua guerra que a calma é o tormento de um guerreiro qualquer.Inversão Navegue montanhas. Escale o mar.

Tão vestida e ainda nua. Pequenos flashes de prazer em tal visão de puresa. O dorso dourado de sol e a penugem inebriante.Little Haze Não como as outras. Verdadeira alma feminina. das quais se esvai o aroma passadas horas. . Como a imagem da lascívia Emoldurada em arco de candura. Anjo barroco em quarto de hotel. Derradeira alma da menina. Pequenina e única. Mas a derradeira e real.

E eu que já sabia o que queria: A menininha do vestido leve. Olhando tudo. Aos poucos E sem pressa. Uma bela moldura. Não o quê. Despia um vestidinho leve. Trazia no rosto o sorriso comum Que jaz no rosto de quem ama. E eram tantas caras Que num instante Eu pensei que fossem Esses tantos alguns versos De um poema: A Quadrilha.Assim também chamada avó. Presente da mãe da mãe. Sem dar chance ao acaso Empunhei a lança do destino. E lá fomos nós. Flores vermelhas num fundo branco. Leve e plena. E eu lá parado. . Mas eu sabia. Então foi aquele Que olhou pra ela Que estava rindo Que era aquela Que fora dele.Memórias forjadas. Feito rastro de vento em espuma do mar. No cabelo uma flor Amarela do campo E nas mãos um punhado de areia. E criei para ela. Despi-a Das flores no cabelo. Tomei-a como minha E acordei em suas mãos. . Mas que ela queira Ao menos querer algo Que de fato nem ela sabia. Ela veio. Assim como quem não quer nada.

. E nem sei ao certo quem eu era Só sei que estava com ela.Com pés pesados. Deixando marcas. Traçando traços. e ela Estava com o que era eu.

Acorda a mãe e chama o pai Tira os guris da sala E traz pra cá o reverendo. Que hoje a prosa vai render E esse tanto de conversa Só terá quem está me vendo. Pra lá se foi O contador de causos E quem fica é homem sério Com notícia ruim pra dar.Prosa nova Acorda o boi que dorme Que a conversa é outra. Que o papo é sério E o tempo é pouco. .

Espelhos que ali se quebram Em quartos assombrados De casas atormentadas Por almas ali desterradas. Espelhos. Morte Speculae. Por mortos diante do espelho. Reflexos. . Vita Speculae. Almas do desterro. Reflexões.Vita – speculum – mortE Espelhos. Corpos sem reflexo. Corpos desterrados. Almas refletidas.

E na mente a cara lembrança De um amor que nem nasceu . Primeiro entre olhares estreitos Tento captar a sua essência. O Principio da decadência. E não me aborreço com o tempo Pois sei não poder enganá-lo. Sinto que hoje me destruo Por uma alegria um tanto efêmera. Nem a ele e nem aos outros Que de tempos em tempos Constrangem-me por meus atos. Sinto que hoje me aniquilo Por querer aquilo que não quero.Vôos incertos Agora são as dores. E bem ao lado. Sinto muito por não ir além Pois se de longe vejo céu e horizonte O que tenho e dou por certo É a segurança de um pequeno muro Onde eu fiz minha prisão. Fim de Noite Então era a marca Vinho no copo. Vive o principio e o fim Dos meus temores de sofreguidão. Então era Chico Buarque A cantar o amor barato. Mas depois em um silêncio de fim Defino-me a mim mesmo Como o pior dos homens. Momentos aflitos Onde afoito tento escolher Entre alçar vôos mais altos Ou abater-me por meus meios Rumo ao abismo que me cerca. Com a primazia da juventude. Batom de chocolate branco Que na boca molhada Se desfazia em prazeres e desejos.

Era apenas o cansaço Em véspera de luta Prisão antes do roubo. COmo se o depois fosse talvez. Não me importo Com o que precisa ser Ou deixar de ser Pois permanecer Também é arriscar. Como se o medo fosse mestre. Não me importo com sorrisos Desfeitos ao cair da tarde . Intenção. A fome. Era só o choro antes da guerra O Cuspe antes do amargo.E que imperfeito como quase todos Se manteve em sonho e em suspiro. Era só a mente em viagem A pensar no corpo pequeno. Então era só a alma frouxa Folgada e fora de si. Apenas forte abraço E nem acabara o Show. Então era a tortura. Fazenda de vizinho. A lonjura Era a ausência medida em metros Era a ilusão e a vontade Era beira de laje Era alto de morro. Como se um dia se soubesse O que seria antes de ser. Era a água fervendo O macarrão cozendo E por dentro a chama controlada Fogo de colheita Que antes de dar á noite o brilho Se apaga em ribeiro.

eu sei. Antiquado. Envelope. Gravura. Mas como poeira. Não seja tempo Te mando carta. E que a vida apenas Aconteça E que sigamos juntos Não como barco em rio Que essa nossa nada tem Que pudesse ter um curso. Que mesmo. Relevo no papel. sem vontade E sem intento. A dançar no vento. Amor espera. Agonias previstas Não me ocupam mais a mente Eu quero o novo. Quero o hoje Quero a falta E não a calma. A cor da tinta. Tem até perfume.Nem com abraços Que ansiosos Esperam por acontecer. . E que eu seja teu nada Tua ausência desejosa E tu me seja fim de dia Vontade de entardecer E quer sejamos brisa Quer sejamos temporal Que tudo seja mais que o sonho Do que um dia sonhamos querer. É de sentir o cheiro. Acho mais gentil.

A conversa pela lâmina E nem fui eu quem a lhe dei. E quem sabe nessa mornidão Perceberias o teu erro De amar por conveniencia Por brilho apenas. Tenho porém conta ti Que abandonaste os teus primeiros amigos. Carta aos que são igreja. Que trocaste o abraço pela espada. Compartilharia o luar. Eram o fogo pra purificar E o óleo que cura Mas suas brasas apagaram E sei quem nem souberam. Já que és esperança e medo Celebração. Já que és frio e calor Mordida e carinho.São até lágrimas. . Beberia por alegria E não por morte. Comeria o Pão. Por perdão. Que caem como chuva Ao chão de celulose Preparando a terra. Quem me dera foste morno Só por um instante. Desespero. Semear de sensações E no fim é até sorriso Na janela baixa Onde a agonia sutil Do desejo e da espera Se torna a alegria A resposta e a entrega.

Tenho porém ao teu favor A esperança. Se fossem fiéis para morrer Teriam ganhado toda a vida. Sei que são ricos. Sei que tentaram Ser meus pés. A pedra incandescente Brasa pequenina Quem sabe brilhe a tua luz Quem sabe tereis sabor Quem sabe sereis livres. Gerundio. Esse calor que arde em alguns. Mas de fato são pobres. O projeto do poeta. emabarços. Sei como tratam Aos que não dizem ser meus Mais de fato são. Fumo caribenho. Do que não são e de si mesmos. Mas sou apenas o que sou. fracassaram. Fumaça em espiral. O ódio de toda rima. Sei que vendem o colírio que cega Sei que teu manto é tua nudez. Luz do avião bem longe. Quem me dera ter lirismo Forjaria um coração partido e um fim de estrada Quem sabe queda. . Foram tropeços. Na boca o gosto da menta E na mente apenas dor. meus braços Por sozinhos.Seu azeite sujo e mal-cheiroso Agora é vendido em palácios. Morte Um traidor e um punhal E na ponta do que me alivia Pintaria um vagalume.

Me ame também. Nem te faço sombra. Não ligue por sorriso pouco. Esse vento sutil. Quando permitires que o amor floresça Verás que o amante teu não foge a luta. coladas Fazendo prece pedindo por ti.O burro de nascença Como todos outros nós. E nem permite que o tempo. Então. Menina bonita. Poema-pedido Menina bonita. Me deixa te amar. Queimando regra Comendo síndeto Disfarçando a perda Sou apenas a raposa. Com todo e qualquer intento Ou suspiro de amor que há em ti. Só deixa que pouse teu ouvido Em meu peito que já nem meu é. . Só deixe que teus olhos Enxerguem minhas mãos Assim bem juntinhas. Não ligue pra altura. E quando enfim Findar a noite longa com a rotina da alvorada E o som de todo dia Que eu então não queira Um fim subjuntivo Que a minha vida simples Eu leve assim vivendo Alegria de ignorancia Sem ponto e sem virgula. Não ligue para o tempo muito. Menina bonita.

Apague nele a chama Purpura Do puro amor que arde por ti. .

Feito avesso de alergia. E na lonjura do que se Quis É que se percebe que o apego Não mais é que quase sonho. Lá fora primavera e aqui A tormenta. É vioáo sem corda. É feito ponte quebrada. Pego meu barquinho. Nada mais tenho por certo. Tudo passa. O vento. Navego em lágrima Onde tenho um rio.Taj Mahal Intenso como deve ser. Breve momento de eternidade. . Onde um dia o amor ousou ser. E mesmo o silêncio será A dor. Sei que passa. intacto e inerte É apenas um belo palácio. E o que fica.