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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SETOR DE CIÊNCIAS HUMANAS ARTES E LETRAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO POLÍTICA

E IMAGEM

Camila Olivia de Melo

Ensaio As diferentes faces de Marilyn Monroe Suas imagens através do cinema e da fotografia

Dr. Angelo Silva Imagens: Produção e Leitura

CURITIBA 01/05

Figura 1 Marilyn Monroe – uma mulher imagem na consciência de toda uma época

Apenas uma Ilustração: Jesse Lenz - Monsters and Marilyns

As diferentes faces de Marilyn Monroe Suas imagens através do cinema e da fotografia Camila Olivia de Melo "... todo mundo está sempre pegando no seu pé. Todos querem uma parte sua. É como se eles tirassem pedaços de você. Acho que eles nem percebem, mas é 'faça isso, faça aquilo... ' mas você quer ficar intacta - intacta e sobre dois pés". MARILYN MONROE

O ensaio a seguir não vem apenas analisar uma imagem específica, mas também uma personagem que nasceu de um turbulento processo imagético. Nosso objeto de estudo aqui é a atriz Californiana Marilyn Monroe – 1926/1962 - que obteve seu auge em Hollywood, 1953 com 27 anos. Marilyn produziu mais de 30 filmes e obteve o prêmio de melhor atriz para o trabalho em “Quanto mais quente melhor – 1959”.

O que pensava Marilyn Monroe - década de 50 - gênero e cinema
Numa indústria cinematográfica que vive de imagens fáceis e produções em massa, está Marilyn Monroe personagem complexo e repleto de representações. Quando começou sua trajetória nas telas de Hollywood, ela não se interpunha a imprensa, pois, acreditava que sua publicidade alavancaria a sua carreira, que seria positivo e também reconhecida por seu trabalho. A mídia não queria apenas uma fotografia e um texto explicativo para representar a atriz, muito pelo contrário, com uma força incontrolável passou a perseguir Marilyn por todos os lados em busca do furo de reportagem seja ele sobre a vida pessoal ou profissional, apelando para o lado negativo e sensacionalista. As imagens foram sendo produzidas pela mídia ao longo do tempo, construindo uma atriz lindamente incapaz de produzir bons filmes com uma inocência sensual, além de divulgar fotografias de uma vida pública conturbada. Conspirações políticas e ameaças rodearam intensamente a figura de Marilyn Monroe com essa super exposição. A figura 1 massificou a idéia de inocência e sensualidade uma mistura explosiva para a década de 50, num cenário de pós-guerra em que os movimentos feministas questionavam a ordem patriarcal. Para dar início ao ensaio imagético de Marilyn é preciso resgatar a relação entre gênero e cinema, um campo que possui desde suas origens como característica, a produção do silenciamento das experiências de “mulheres reais”, como afirma Adelman (2005) e

principalmente o cinema, através do filme, é um recurso imagético dominado pelo olhar masculinista. A produção cinematográfica de Marilyn Monroe tem em sua maioria a característica da mulher como espetáculo: objeto de sexualidade, desejo e inocência. O filme possui ampla circulação quando atrelado a imagens produzidas a partir dele mesmo intensificando sua força de propagação, no caso a Figura1 divulga o filme: “O pecado mora ao lado 1955”, e carrega diversos símbolos agregados a imagem da mulher na década de 50’s. O rosto numa fotografia é de extrema importância, é ele que também dá identidade e significado ao flash, Adelman cita o estudioso de cinema Graeme Turner (1993) que dá relativa importância ao “rosto da atriz” nos processos de espetáculo cinematográfico, ele agrega a esse rosto o “display do corpo” resultando no significado de comportamento “feminino”. Aponta a problemática dos meios de comunicação de massa da Indústria Cultural: “máquina de imagens” instrumento de grande propagação de noções do feminino, seja ele imagens em movimento ou não. Mais que um rosto e um corpo, Marilyn é uma imagem com pequenos significados colados na superfície da foto. Significados comportamentais, idéias de um feminino aceitável socialmente como afirma o estudioso. Nesse rosto repleto de pequenos e amarelos post it com frases escritas pela Mídia, está Marilyn com uma luz mágica transmitindo idéias de uma realidade criada e não revelada.

Análises Filosóficas sobre Monroe – Poder do Olho

A imagem 1 ficou mundialmente conhecida através do filme “O pecado mora ao lado –
1955”, tantas reproduções dessa imagem, entre outras da atriz, levantam a questão: Qual o limite entre a imagem como expansão de mundo e imagem como biombos? Flusser afirma que o mundo não é acessível imediatamente ao ser humano, e a imagem tem o propósito de representá-lo. Para nossos estudos as imagens produzidas com a função de mapear a atriz Marilyn, na verdade não conseguem atingir o objetivo, elas ao em vez de ampliar a visão do público, são como biombos, impedem a visão. E como esses biombos imagéticos possuem tanto prestígio? Uma das idéias a serem consideradas para as análises é o caráter mágico da imagem, para Flusser podemos observar alguns fatos como um processo de magicização da vida. Em nosso caso a

magicização de Marilyn Monroe. Com tantos flashs focados na atriz, cenas foram construídas e com isso idéias, fora da realidade sobre a personagem, foram sendo criadas. A mágica do símbolo beleza/sucesso/feminilidade, atrai o olhar do público que reproduz e vivência o infundado, enxergam apenas truques de mágica. Adaptando os estudos de Flusser à realidade do estudo, a confusão imagética inverte a real função da fotografia e o público atingido pelo brilho das imagens de Marilyn, ao invés de se servir delas em função de seu mundo (conhecimento/entretenimento) passou a viver e entender Marilyn em função das imagens. Sua personalidade e vida passaram a ser vivenciadas pelo público como conjunto de cenas. Seguimos o pensamento de que Marilyn sofreu penosamente com essa confusão. Mas como é possível sofrer e anular-se a partir de uma simples imagem? Que olhar é esse que fere, destrói e engana? Para essas questões de reflexão ocular, expansão do olhar, o questionamento filosófico entre eu imagem, imagem eu, trazemos o que Marilena Chaiu chamou de janela da alma espelho do mundo. E como é possível deixar-se levar e acreditar em falsas idéias coladas na imagem de Marilyn Monroe? Chauí descreve a crença em nossos olhos e que acreditamos naquilo que vemos porque simplesmente o vemos, está ali na nossa frente, o que faz possível acreditar nos símbolos Monroe. O poder do olho, que devora, mata, faz sofrer. O olho do outro aliena transforma em coisa, aniquila sentimentos e personalidades, para Chauí o exercício do olhar do outro à minha imagem tira-me a condição de sujeito, passo a ser então objeto de desejo. Essa sede de olhar, de ver, do capturar levou Marilyn a confusão plena, já não sabia se era a personagem ou atriz, confundia-se entre o que era por dentro e o que lhe viam por fora. Como enxergaremos então por dentro? Se segundo Chauí cremos na visão do lado de fora? O ato de olhar para a filósofa é simultaneamente mudar o ângulo do olhar e entender-se de fora pra dentro, compreender-se dentro de si mesmo com o que observou por fora. Nessa observação Marilyn se deparou com um grande paradoxo, o que estava espelhado por fora não era exatamente o que se consistia por dentro. E então sua janela da alma estava exposta porém, em pedaços, em cenas e não como realmente era. Imagens nesse caso, não traduzem sentimentos particulares, apenas uma visão geral. A fotografia é fragmentada, em pedaços, então assim vemos por partes e não por inteiro. Mas são esses pedaços que nos fazem sentir próximos do objeto, próximos de Marilyn Monroe, como se estivéssemos vendo-a a distância. Com esses pedaços de significados da atriz podemos com o olhar apalpá-la, imaginá-la mas sem se apropriar.

Esse ver a foto ultrapassa os outros sentidos do corpo porque realiza aquilo que é impossível fisicamente: sair de si, viajar a terrenos impossíveis, pensar que tem algo que nunca terá. Com a imagem não é preciso pegar o avião e entrar nos estúdio de Hollywood para ver a Marilyn, não há alteração material nem temporal, como afirma Chauí, é um vai e vem, entra e sai, indo e voltando para dentro de si. Ao mesmo tempo que Marilena descreve o exercício do olhar positivo, é preciso considerar também a vertente do olhar negativo, imagens que reproduzem pré-conceitos através do olho, a mágica do afastar-se ao em vez de aproximar. A filósofa afirma que entendemos o que vemos a partir do que olhamos por fora e que existe uma considerável diferença entre a experiência do ver e ao pensamento de ver. A partir dessa colocação podemos aplicar na Figura1 a experiência de ver a atriz na foto: ela é sexy, famosa, rodeada de homens, pela imprensa e fotógrafos, tem glamour, é rica, desejada e feliz. Exercitando o pensamento de vê-la na foto: está sozinha, possui uma felicidade plástica, não possui privacidade e é possível pensar em outras variáveis no mesmo contexto. A imagem fica questionável/variável e não mais experimental e única como na experiência.

Conclusão
Para Chauí, é a formosura, a beleza que os olhos amam ver. A figura do belo em Marilyn alucina, ultrapassa o imaginável e chega a alucinar o público. Flusser apresenta o caráter mágico das imagens técnicas, elas hipnotizam o olhar e alucinam. Esses mecanismos de produção imagéticos são foco das reflexões de gênero pois, reproduzem o olhar masculino sob a mulher. A mídia e sua reprodução em massa quebram o ícone em pequenos pedaços, excitam a experiência do ver. Problemáticas já percebidas pela atriz, sentia que todos queriam seus pedaços, queria estar intacta, de pé, mas impossível dentro da reprodução em massa dela mesma. E com todas as reflexões nesse ensaio o mais importante é além de experimentar imagens é pensar imagens.

Bibliografia
BEAUVOIR, S. O segundo Sexo 2. A Experiência Vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1949. BERGER J. Modos de ver. São Paulo: Rocco, 1985 CODATO, A. Para viver no século XXI. Curitiba: Sesc da Esquina, 2007. FUNCK, B. S, NARA, W. Gênero em discursos da mídia. Santa Catarina: Edunisc, 2005. FLUSSER, V. Filosofia da caixa preta – ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. NOVAES, A. CHAUÍ. M – O olhar. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

Internet
JANELA DA ALMA. Disponível: http://www.youtube.com/watch?v=-37DW7fbk9A Acesso em: 01 de maio 2010 COMPLET VERSION (Marilyn Monroe vestido no subway). Disponível http://www.youtube.com/watch?v=Q92zpt9QCYM&feature=related Acesso em: 01 de maio 2010 JESSE LENZ. Disponível: http://www.jesselenz.com/ Acesso em: 05 de maio 2010