CFC – Formação Complementar Leiria, Quinta-feira, 21h00 – 22h30

Ano Litúrgico
Calendário
Out 7. 14. 21. 28 Nov 4. 11. 18. 25 Dez 2. 9. 16 Jan. 6. 13. 20. 27 (15 sessões, 30 horas lectivas)

Programa
1. 2. 3. 1. 2. 3. 4. 4. 1. 2. 5. 6. 7. Introdução Tempo litúrgico e mistério de Cristo O Domingo Ciclo Pascal Evolução nos 4 primeiros séculos Tríduo Pascal Tempo Pascal Quaresma Ciclo natalício Tempo do Natal Advento Tempo Comum (e festas do Senhor) O culto à Virgem Maria e aos Santos Ano litúrgico e piedade popular

Bibliografia
Fontes Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canónicos do primeiro milénio, org. José de Leão Cordeiro, Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima s.d.. Enquirídio dos documentos da reforma litúrgica (EDREL), ed. Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 1998. São particularmente importantes para os temas em estudo os seguintes documentos: - Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário - CCD, Carta circular sobre a preparação e a celebração das festas pascais - JOÃO PAULO II, Carta Apostólica «Dies Domini» sobre a santificação do Domingo. Estudos Anámnesis 5. O Ano Litúrgico: história, teologia e celebração, Paulinas, São Paulo 1991. AUGÉ M., Liturgia. História, celebração, teologia, espiritualidade, (Dessedentar 3) Paulinas, Prior Velho 2005. BOROBIO D. (ed), La celebración en la Iglesia III. Ritmos y tiempos de la celebración, (Lux Mundi 57-59) Sígueme, Salamanca 19942. MARTIMORT A.-G. (ed.), A Igreja em Oração 4. A Liturgia e o tempo, Vozes, Petrópolis 1992.

ADAM A., O Ano Litúrgico. Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica, Paulinas, São Paulo 19832. AUGÉ M., Anno Liturgico. Storia, celebrazione, teologia, spiritualità, LEV, Roma 2009. BERNAL J.M., Para viver o Ano Litúrgico. Uma perspectiva genética dos ciclos e das festas, Gráfica de Coimbra, Assafarge [2001]. TALLEY T.J., Les origines de l’Année Liturgique, Cerf, Paris 1990. RYAN V., O Domingo. História, espiritualidade, celebração, Paulus, São Paulo 1997. BRAMBILLA F.G., Celebrar e viver o Dia do Senhor. Para uma comunidade eucarística em estado de missão, Paulinas, Prior Velho 2004. BASURKO X., Para viver o Domingo, Gráfica de Coimbra, Coimbra s.d.. SECRETARIADO NACIONAL DE LITURGIA, A celebração do Mistério Pascal. Tríduo Pascal [VIII Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica], Boletim de Pastoral Litúrgica n. 29-31 (1983). SECRETARIADO NACIONAL DE LITURGIA, A celebração do Mistério Pascal. Tempo Pascal [IX Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica], Boletim de Pastoral Litúrgica n. 33-36 (1984);depois reeditado como: O Tempo Pascal, Fátima 1996. SECRETARIADO NACIONAL DE LITURGIA, A celebração do Mistério Pascal. Quaresma [X Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica], Boletim de Pastoral Litúrgica n. 37-40 (1985). SECRETARIADO NACIONAL DE LITURGIA, A celebração do mistério do Natal [XVI Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica], Gráfica de Coimbra, s.l. 1990.

Avaliação
A avaliação compreenderá aos seguintes elementos:  Assiduidade do aluno, bem como o seu interesse e participação.  Um trabalho escrito de apresentação dos conteúdos fundamentais da Carta Apostólica «Dies Domini, de João Paulo II. Esta apresentação deve ter entre 3 e 5 páginas A4 (máximo) e a sua entrega deve realizar-se até à última unidade lectiva (27 de Janeiro de 2011). Este trabalho valerá 40% da nota final.  Exame de síntese que compreenderá toda a matéria leccionada ao longo do semestre. O exame será efectuado sem consulta, a não ser das obras indicadas como fontes. Esta prova valerá 60% da nota final.

Introdução
Como todo e qualquer acto humano a celebração litúrgica desenvolve-se no tempo, contudo, o “tempo da celebração” é um tempo significativo, é um tempo qualitativamente diferente. Neste semestre de Formação Complementar, ocupamo-nos do Ano litúrgico enquanto forma de santificação do tempo. Pretende-se chegar ao conhecimento da origem, sentido, teologia e espiritualidade do Ano litúrgico. “A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou domingo, celebra a da Ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua Paixão. Distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Incarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor. Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça.” (SC 102). Premissa metodológica O Ano litúrgico apresenta-se com uma estrutura fundamental de todo o edifício cultual cristão. Não se trata de uma acção pontual ou de um conjunto de celebrações pontuais: todas as celebrações litúrgicas são, de algum modo, “marcadas” pelo tempo litúrgico em que se realizam, pelo momento do Ano litúrgico em que acontecem. Isto é particularmente evidente na celebração eucarística e na Liturgia das Horas. Porque assim é, impõe-se dedicar toda esta atenção a essa realidade designada por “Ano litúrgico”. A bibliografia quer sobre o Ano litúrgico em geral, quer sobre cada um dos seus momentos, é abundante. Uma primeira característa desta vasta produção é a clara opção por uma perspectiva genética: só é possível conseguir uma compreensão profunda do Ano litúrgico, dos seus ciclos e festas e da sua dinâmica profunda fazendo a sua história, percebendo como atingiu essa configuração actual. No primeiro período da história da Igreja, a Páscoa foi o centro vital e único da celebração cristã, pois o culto cristão nasceu da Páscoa e para celebrar a Páscoa. A liturgia cristã nasceu com a ressurreição de Cristo, sua fonte inesgotável 1, e é sempre celebração do Mistério Pascal, isto é, presença actuante de Cristo ressuscitado. Assim, no princípio da Liturgia cristã encontramos o Domingo como única festa: a Páscoa semanal. Quase simultaneamente surgiu, em cada ano, a celebração anual da Páscoa, como um “grande Domingo”, que se ampliará, constituindo o Tríduo Pascal, com prolongamento nos cinquenta dias seguintes (tempo da Páscoa), que terminavam com a celebração do Pentecostes. Já no início do século III, respondendo à necessidade de um tempo de preparação mais intenso para o Baptismo e de penitência, em ordem à reconciliação dos penitentes, começa a estruturar-se o tempo da Quaresma. O ciclo do Natal nasceu a partir do século IV. Para criar certo paralelismo com o ciclo pascal, muito de pressa se começou a fazer preceder as festividades natalícias (Natal, Epifania, Baptismo do Senhor) de um tempo preparatório: o Advento. É tendo presente esta evolução, agora apenas esboçada nos seus momentos fundamentais, que se compreende que o mistério pascal é a chave de leitura do Ano litúrgico, pois “todo o culto cristão não é senão uma celebração contínua da Páscoa”2. “O Ano litúrgico é o resultado de uma longa experiência de Igreja, de uma vivência comunitária constante e profunda do mistério pascal e de uma necessidade irresistível de exprimir tal vivência em formas cultuais” 3. Assim, a história, sem absorver todo o tempo, ocupará porém um lugar importante neste percurso. A expressão “Ano litúrgico”4
1 Cf. J. CORBON, A fonte da liturgia, Paulinas, Lisboa 1999, 19-84 (especialmente 31-40). 2 L. BOUYER, Le Mystére Pascal, (Lex Orandi 4), Cerf, Paris 1950, 9. 3 J.M. BERNAL, Para viver o Ano Litúrgico. Uma perspectiva genética dos ciclos e das festas, Gráfica de Coimbra, Assafarge [2001], 10. 4 Cf. AUF DER MAUR H., Feste del Signore, 311-313; M. AUGÉ, Anno Liturgico. Storia, celebrazione, teologia,

Uma outra questão preliminar é a do valor da expressão “Ano litúrgico”. Convém ter presente que esta expressão é relativamente recente, que corresponde a uma preocupação de organização conceptual típica dos tempos modernos. Até aos século XX, os livros litúrgicos desconheciam uma designação para o conjunto das celebrações da Igreja ao longo do ano. A primeira testemunho de um nome específico para designar a realidade a que chamamos Ano litúrgico encontra-se na liturgia luterana, em âmbito germânico, nos finais do século XVI. O nome era “Ano da Igreja” ou “Ano eclesiástico” (Kirchenjahr) e foi utilizado por J. Pomarius em 1589. A expressão utiliza-se ainda hoje nos países de língua alemã. No século XVII, em França, surge a expressão “Ano cristão” (Année chrétienne) na obra de Nicolas Letourneaux. No mesmo período, nos países de língua inglesa, começou a usar-se a expressão Christian Year. A expressão “Ano litúrgico” foi usada pela primeira vez no século XIX, por Prósper Guéranger, abade de Solesme. Foi esse, de facto, o título que o abade beneditino deu à sua famosa obra L'Année Liturgique (1841-1866). Progressivamente, a expressão foi adoptada pelos liturgistas e, no século XX, entrou nos documentos Magisteriais, tornando-se uma designação “oficial”. A primeira vez que a expressão aparece em documentos magisteriais é na Encíclica de Pio XII Mediator Dei (1947). Contudo, já no século XX, outras expressões equivalentes surgiram: - Pius Parsch, em 1923, publicou o seu “Ano da salvação” (Das Jahr des Heiles); - Aemiliana Löhr deu ao seu comentário ao Ano litúrgico o título de “Ano do Senhor” (Jahr des Herrn); - encontram-se ainda a designação “ano espiritual”... Assim, a expressão Ano litúrgico corresponde a uma necessidade de organização conceptual e visa designar o conjunto das festas cristãs como uma unidade. O início do Ano litúrgico e a sua estrutura orgânica5 O actual calendário romano não se põe o problema do início e do fim do Ano litúrgico: as Normas Gerais sobre o Ano litúrgico e o Calendário (1969) limitam-se simplesmente a expôr os princípios e a estabelecer as regras gerais relativas ao Ano litúrgico. Os livros litúrgicos, por sua vez, apresentam um princípio (1º Domingo do Advento) e um fim (último Domingo do Tempo comum – Solenidade de Cristo, Rei do Universo). Mas basta recordar que as leituras do Domingo I do Advento nos falam do fim da história, tal como os últimos Domingos do Tempo comum: isto é, não se estabelece uma ruptura, um fim e um início, mas antes uma continuidade. A ideia de que o Advento, preparando a celebração do mistério da encarnação, é teologicamente o início do Ano litúrgico e que, muito consequentemente, a referência à parusia seria o final, parece óbvia. Mas esta ideia parte de um pressuposto discutível: que o Ano litúrgico seja uma representação dramática que imita e segue de perto as etapas e momentos da vida de Cristo. Esta concepção é discutível precisamente por, aparentemente, não apreender a centralidade pascal do Ano litúrgico. Mais uma vez, a história dá-nos indicações interessantes. É certo que os antigos sacramentários ostentavam a designação de Circulus Anni. Mas essa expressão não deve ser entendida como correspondente ao nosso Ano litúrgico. A ideia que está por trás da expressão Circulus Anni é simplesmente a circularidade. Quando começa e termina esse círculo, não parece interessar aos seus compositores. A pergunta sobre o início do Ano litúrgico não é, pois, uma questão meramente académica: a resposta exprime uma concepção de Ano litúrgico. Um leccionário antigo, por volta do ano 500, testemunha que o início do Ano litúrgico era o mês da celebração da Páscoa (Março). Vários Padres da Igreja apresentam idêntico testemunho. Por exemplo, Zenão de Verona e Agostinho. Este último, comentando a paixão de Cristo, fala da
spiritualità, Roma 2009, 14-19. 5 Cf. W. EVENEPOEL, «La délimitation de “l'Année liturgique” dans les premiers siècles de la chrétienté occidentale. Caput anni liturgici», Revue d'Histoire Ecclésiastique 83 (1988) 601-616; AUGÉ, Anno Liturgico, 12-14.

semana santa como “última semana” (novissima hebdomada) do ano. Esta concepção antiga partia da ideia de fundo de que a ressurreição de Cristo constituia um novo início. Associada a esta concepção estava igualmente a convicção de que Cristo tinha ressuscitado no mesmo dia em que fora criado o mundo e inaugurado uma “nova criação”. Leão Magno, ligando os sacramentos da iniciação cristã, celebrado na Vigília Pascal, com a Páscoa, apresenta esse momento como exordium, início. É certo que, a nível dos livros litúrgicos, apenas o referido leccionário do ano 500 apresenta explicitamente o mês de Março como início do Ano. Contudo, por exemplo no Sacramentário Gelasiano Antigo, o mês de Março aparece referido como “primeiro mês”; Junho como “quarto mês”. Na Gália, Sidónio Apolinário, no século V, designa Fevereiro como o “décimo segundo mês”. E mais próximo de nós, S. Martinho de Dume, na sua obra De correctione rusticorum, testemunha o início do ano eclesiástico em Março, não tanto por referência à ressurreição, mas à criação do mundo: “Outro erro se introduziu entre os ignorantes e rústicos, o julgarem o princípio do ano nas calendas de Janeiro, o que é totalmente falso. Porque aos 25 de Março, como diz a Sagrada Escritura, no ponto do equinócio, foi o princípio do primeiro ano.” (cap. 5). Em Roma, inicialmente considerava-se o primeiro de Março o início do ano civil; mas a partir de 153, o início oficial do ano passou a ser o 1 de Janeiro. Significa isto que não era por coincidir com o início do ano civil que, séculos mais tarde, se apresentava o mês de Março como início do ano (esta afirmação encontra-se ainda com frequência). Pelo contrário: quando em Roma o início do ano passou para Janeiro, com festejos exuberantes em honra dos deuses, a Igreja deliberadamente apresenta um início de ano diferente. A escolha do mês de Março estava ligada à Páscoa. De facto, o dia 25 de Março foi considerado, durante todo o período patrístico, como a data da morte de Cristo ou da sua ressurreição6. Com o aparecimento e estruturação da Quaresma, o início do ano cristão começou a ser antecipado para o início desse período preparatório; depois para o início da Quinquagésima, da Sexagésima e da Septuagésima. Contudo, note-se que a referência fundamental para o início do Ano litúrgico continuava a ser a Páscoa. O Natal impõe-se como início do ano eclesiástico no século VIII (esta tendência é observável desde o século VI, mas só “triunfa” no século VIII). A primeira referência explícita à celebração do Natal data de 354 (Cronógrafo Filocaliano). Se Agostinho dizia que o Natal era apenas um aniversário, enquanto que a Páscoa era a celebração de um evento salvífico, poucos decénios depois Leão Magno apresenta o Natal como o início da salvação: o Natal, para Leão Magno, era o início da Páscoa, o início do mistério pascal. Consequentemente, o início do Ano litúrgico foi deslocado para a celebração do Natal. O que estes dados históricos revelam é que o Ano litúrgico se desenvolveu num movimento do centro (a Páscoa) para a periferia. Mas foi sempre a Páscoa a referência para o início da Ano litúrgico.

1. Tempo litúrgico e mistério de Cristo
Bibliografia:
– – J. LÓPEZ MARTÍN, «En el Espiritu y la verdad» 2. Introducción antropológica a la liturgia, (Ágape 5/2) Secretariado Trinitario, Salamanca 1994, 252-295. J. LOPEZ MARTIN, La Liturgia de la Iglesia, (Sapientia Fidei 6) BAC, Madrid 1996, 153-162.

6 Cf. V. LOI, «Il 25 marzo data pasquale e la cronologia giovannea della passione in Età Patristica», Ephemerides Liturgiche 85 (1971) 48-69.

J. LOPEZ MARTIN, «Tiempo sagrado, tiempo liturgico y tiempo de Cristo», in La celebración en la Iglesia III. Ritmos y tiempos de la celebración, ed. D. Borobio, (Lux Mundi 57-59) Sígueme, Salamanca 19942, 31-58. M. AUGÉ, Anno Liturgico. Storia, celebrazione, teologia, spiritualità, Roma 2006, 21-42.

O significado do tempo O tempo é uma das noções mais complexas e difíceis de explicar. “O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, sei o que é; mas se o quero explicar a quem me interroga, então já não sei o que é” [S. AGOSTINHO, Confissões XI, 14, 17: Quid est ergo tempus? Si nemo ex me quaerat, scio; si quaerenti explicare velim, nescio]. Esta frase de S. Agostinho reflecte bem a complexidade do problema. a) O tempo cósmico. O tempo é uma grandeza das coisas quanto à sua duração. O ano, o dia, as horas e qualquer outra divisão do tempo correspondem a cálculos que têm como base a rotação da terra em volta do sol e de si mesma. Este é o tempo da cronologia, o tempo matemático, que não é senão uma dimensão do tempo. Porque se calcula com base nos movimentos do universo, chama-se tempo cósmico. Considerando o tempo desta maneira, todas as horas são iguais e não há distinção entre uns dias e outros. Este tempo homogéneo não é mais que uma referência do verdadeiro tempo, da duração das coisas. O homem tem uma autoconsciência do devir dos tempos, que não coincide simplesmente e sem mais com este tempo cronometrado: cada tempo tem a sua importância própria e reflecte uma etapa da existência humana e da vida das coisas (basta evocar a nossa experiência de tempo psicológico para o comprovarmos). Ora, é das distinções qualitativas do tempo que nos ocupamos: ao falarmos do tempo histórico-salvífico ou do tempo litúrgico, falamos de distinções qualitativas, e não quantitativas ou cronológicas. b) O tempo histórico-salvífico. “Uma das datas mais importantes da história da religião é a transformação das festas naturais israelitas em comemoração de datas históricas que são também aparições do poder, acções de Deus. Quando a antiga festa do passah, ligada aos tabus da festa lunar e da primavera, se transformou na celebração da bondade de Deus na saída do Egipto, começou algo totalmente novo”.7 De facto, na história de Israel verificou-se uma mudança radical na concepção do tempo sagrado, superando a ideia cíclica do eterno retorno. Deus manifesta-se na história do povo. As suas intervenções são “históricas” (não míticas) e fazem história. Neste sentido, o tempo bíblico não é já repetição do passado, mas promessa e profecia de futuro. Cada intervenção salvífica de Deus é irrepetível e libertadora. O tempo, pela intervenção de Deus, tornase histórico-salvífico: um tempo histórico carregado de acontecimentos salvíficos. Assim, a história humana em que Deus actua é interpretada pelo povo de Deus como uma história de salvação. Esta concepção bíblica da história como lugar do agir divino implica distinções qualitativas no tempo: - Há um tempo quantificável, caracterizado pelo suceder das horas, dias, semanas, meses, anos; este é um tempo que se pode medir (cronológico, do grego cronos). - Mas paralelamente, a Bíblia conhece um outro tipo de tempo, qualitativamente diferente: a intervenção de Deus na história, no tempo, qualifica esse mesmo tempo. O termo grego usado para referir esses momentos da intervenção de Deus é Kairós (tempo favorável; tempo apropriado). Para o cristianismo, herdeiro destas concepções do tempo, a história, enquanto história da salvação, tem um centro: Jesus Cristo. Não um centro cronológico, mas um centro qualitativo: Jesus Cristo dá sentido ao que o antecede e ao que lhe segue; Cristo não só permite compreender plenamente os acontecimentos anteriores, mas também dá sentido à história que continua. A vinda de Cristo é o Kairós por excelência! c) O tempo litúrgico. O tempo litúrgico ou tempo da celebração é a ritualização do tempo histórico-salvífico, isto é, a celebração dos acontecimentos pelos quais se manifestou a salvação de
7 G. VAN DER LEEUW, Fenomenologia de la religión, citado por LOPEZ MARTIN, La Liturgia de la Iglesia, 155.

Deus. Assim, não só comemora e recorda os factos passados, mas também e principalmente de algum modo os torna presentes e actuais. O tempo litúrgico adquire então dimensões de verdadeiro acontecimento salvífico, de novo kairos, que prolonga a história da salvação no tempo presente. O mistério pascal aconteceu “de uma vez por todas” (ephápax) e para sempre. Porém, o ephápax dos kairoi bíblicos acontece agora no osákis (“todas as vezes que”) das acções litúrgicas. Esta nova categoria temporal (osákis) está relacionada precisamente com o kairós definitivo, como afirma S. Paulo aos Coríntios: “Todas as vezes que (osákis) comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Cor 11, 26). É isso mesmo que sublinha, de forma sintética, o Catecismo: “A Liturgia cristã não se limita a recordar os acontecimentos que nos salvam: actualiza-os, torna-os presentes. O mistério pascal de Cristo [ephápax] celebrase, não se repete; as celebrações é que se repetem [osákis]. Mas em cada uma delas sobrevem a infusão do Espírito Santo, que actualiza o único mistério” (n.º 1104). Os ritmos da vida e da Liturgia Uma das características do tempo da celebração é a sua determinação no calendário. Os calendários não nasceram porém como fruto da arbitrariedade de um qualquer iluminado. Na sua determinação, foram decisivos os ritmos cósmicos, astronómicos, bem como os ritmos celebrativos judaicos. Por um lado, os ritmos cósmicos ou astronómicos influenciaram bem mais a fixação do calendário do que por vezes suspeitamos. Basta pensar que não é obra do acaso que a Páscoa seja uma celebração tipicamente primaveril; como também não será por acaso que os grandes ritmos cósmicos estão assinalados no calendário cristão por importantes festividades. Tratou-se, sem dúvida, de um esforço da Igreja para evangelizar ritmos celebrativos associados ao paganismo (equinócios, solestícios); mas foi igualmente a intuição da significatividade antropológica desses ritmos que levou a Igreja a fixar neles esta ou aquela celebração. Estes ritmos cósmicos foram assimilados pelo calendário judaico, que influenciou claramente o calendário cristão e os nossos ritmos celebrativos. A Liturgia cristã, adoptando e adaptando esses mesmos ritmos, criou uma autêntica “pedagogia dos símbolos”, que ajuda o homem a passar do visível ao invisível. Vejamos os principais ritmos cósmicos assumidos pela Liturgia cristã: a) Ano. O ano é um ritmo astronómico significativo em todas as culturas. O calendário hebraico era lunar e o ano hebraico tinha o seu início no mês de Nisan (correspondente a MarçoAbril do calendário solar). O ano é a unidade temporal na qual o judaismo faz memória das intervenções salvíficas de Deus. O cristianismo recebeu do judaismo esta herança. “No ciclo do ano, a Igreja comemora todo o mistério de Cristo”, afirmam as Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário (NGALC 17; cf. SC 102). O Ano Litúrgico, que coincide (quanto à duração) com o ano civil e solar, tem um significado próprio como unidade significativa do mistério de Cristo no tempo. Durante o ano, articulam-se as diversas festas móveis, cuja data depende da oscilação da data da Páscoa, e as festas fixas, cuja data está fixada no calendário litúrgico. b) Mês. O mês corresponde a um curso completo das fases lunares (trata-se, pois, de um ritmo do calendário lunar, depois adaptado ao calendário solar). Na Bíblia, o ritmo mensal não era fundamental, mas tinha importância sobretudo a nível da religiosidade popular (celebrações das neomédias = luas novas). A Liturgia cristã nunca assumiu este ritmo, mas ele tem grande relevo na religiosidade popular. c) Semana. A semana é um período de sete dias que equivale aproximadamente à quarta parte do mês lunar. Na Bíblia, a semana tem uma enorme importância e marca o ritmo celebrativo

do calendário judaico. Basta referir que o relato da criação, em Gn 2, está estruturado com base na semana e o ritmo hebdomadário é considerado de instituição divina. Para além da santificação do sétimo dia (Sábado), o judaísmo conhecia algumas festividades que duravam uma semana inteira (por exemplo, a festa dos tabernáculos). Depois de cada semana de anos, festejava-se um “ano sabático”; no fim de sete semanas de anos, festejava-se um ano jubilar. No cristianismo, a semana adquire novo significado: o primeiro dia da semana é o dia memorial da ressurreição. Deste ritmo hebdomadário é que nasceu e se desenvolveu todo o ano litúrgico. “No primeiro dia da semana, chamado «dia do Senhor» ou «domingo», a Igreja, por tradição apostólica que vem do próprio dia da ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal” (NGALC 4). Os dias da semana são chamados “férias” (do Latim feriae), com excepção do Domingo e do Sábado (os nomes dos dias da semana em Português reflectem esta denominação). d) Dia. Outro grande ritmo temporal da Liturgia é o dia: “cada dia é santificado com as celebrações litúrgicas do povo de Deus, de modo particular com o Sacrifício Eucarístico e o Ofício Divino” (NGALC 3). O dia mede-se da meia-noite à meia-noite seguinte, excepto os domingos e solenidades em que a celebração começa na tarde do dia precedente, seguindo a tradição judaica. e) Hora. A hora é a mais pequena repartição temporal com importância teológica, na Bíblia. Na linguagem litúrgica, a palavra “hora” reserva-se para as horas diurnas; as horas nocturnas são denominadas “vigílias” ou “nocturnos”. O centro do dia é ocupado pela celebração eucarística, embora não se fixe nenhuma hora concreta para a sua celebração. O Calendário litúrgico8 Chama-se “calendário” ao sistema que organiza e distribui as divisões do tempo de acordo com um princípio não só cósmico, mas também significativo. O “calendário litúrgico” é, pois, o sistema que coordena os tempos da celebração estabelecidos pela liturgia. É uma estrutura organizativa, ao serviço da celebração do mistério de Cristo e da obra da redenção no ciclo anual (cf. SC 102-104). A liturgia romana, como toda a sociedade ocidental, segue o chamado calendário juliano (estabelecido por Júlio César no ano 45 a.C.), com a reforma realizada em 1582 por Gregório XIII (daí a designação de calendário gregoriano). Efectivamente, em 1582, o Papa Gregório XIII, com a bula Inter gravissimas, decretou a supressão de 10 dias no calendário (ao dia 4 de Outubro desse ano suguiu-se o dia 15 de Outubro), para corrigir o erro do calendário Juliano. Os cálculos modernos dizem-nos que o calendário gregoriano tem um erro anual de 19,45 segundos, ou seja, um erro de um dia em cada 4.442 anos. Como a generalidade das Igrejas Orientais não aceitaram esta correcção, continuando a seguir o calendário juliano, essa diferença mantém-se e tem-se alargado, já que o calendário juliano tem um erro de cálculo que aumenta mais um dia cada 128 anos. Note-se que a Igreja Ortodoxa finlandesa assumiu completamente o calendário gregoriano; outras Igrejas orientais assumiram o calendário gregoriano paulatinamente, mas para a fização da data da Páscoa continuam a reger-se pelo calendário juliano. A elaboração de calendários litúrgicos surgiu muito cedo, com o desenvolvimento do próprio ano litúrgico, sobretudo a partir do século IV. Nesses antigos calendários se encontra a origem do actual calendário romano. Alguns dos mais antigos calendários que chegaram até nós: – Cronógrafo filocaliano (354), assim chamado por ter tido como autor Furio Dionísio Filocalo (+ 382). Este calendário apresenta 2 listas de aniversários celebrados pelos cristãos: a Depositio episcoporum (lista dos Papas não mártires, seguindo a ordem pela qual eram celebrados) e a Depositio martyrum (inicia com o Natal do Senhor e apresenta a lista das celebrações dos mártires, indicando a data do martírio e o lugar da sepultura). Cf. AL 1355-1375. – No Oriente, na mesma época, encontramos o calendário do Martirológio siriaco ou Martirológio de Nicomédia (362). Apresenta as celebrações dos mártires, mas igualmente a festa da Epifania e uma memória de todos os confessores da fé, na sexta-feira depois da
8 Além da bibliografia já indicada, cf. AUGÉ, Anno Liturgico, 61-69.

Páscoa. – O calendário do Martirológio Jeronimiano, que foi composto no século V-VI. Cf. AL 5367. Durante a Alta Idade Média assistiu-se a uma enorme proliferação de calendários litúrgicos, que assinalam as celebrações dos santos e as festividades do próprio do tempo ou temporal. O final do século XII marcou um ponto de viragem na história do calendário litúrgico romano: além dos mártires e santos dos primeiros séculos, começa a incluir os santos contemporâneos, prática que se manteve até à actualidade. Por esse motivo, as celebrações dos santos tornam-se cada vez mais numerosas e obrigam a sucessivas reformas do calendário. Esta foi uma preocupação do Papa Pio V, que, na reforma dos livros litúrgicos determinada pelo Concílio de Trento, reduziu drasticamente as festas de devoção, e reduziu as celebrações de santos a cerca de 120. Contudo, o número destas celebrações foi progressivamente aumentando, sobretudo a partir do século XVII. No século XVIII, as festas de santos eram já 228. Por este motivo, no pontificado de Bento XIV (1740-1758) a questão assume contornos particularmente graves e preocupantes, levando o Papa a projectar a reforma do calendário, para o expurgar de tão grande número de celebrações do santoral; porém, tal reforma não chegou a realizar-se. Uma verdadeira revisão do calendário só foi feita por Pio X, em 1913, reduzindo o peso do santoral no calendário; seguiu-se uma outra, por Pio XII e por João XXIII. Ainda assim, de Pio V a 1960, o Calendário romano acolheu 145 novas celebrações de santos. O Vaticano II determinou a revisão do Ano litúrgico, o que implicou necessariamente a reforma do Calendário. Paulo VI, antes de ordenar a publicação do Missal e da Liturgia das Horas, publicou, em 1969, o Calendário romano geral9. De entre as linhas fundamentais da reforma do Calendário, destaca-se a revalorização do Domingo, que passa a ter proeminência sobre as festas e memórias dos santos, e a proeminência do Temporal sobre o Santoral. Consequentemente, diminuiram as festas devocionais (aquelas que celebram, não um facto do mistério da salvação, mas certo aspecto de algum mistério, ou um título com que se invoca o Senhor, a Virgem Maria ou um santo) e escolheram-se para figurar no calendário geral (universal) as celebrações do Santoral consideradas de maior importância a nível universal. O Temporal apresenta-se organizado em três blocos: o ciclo da Páscoa (Tríduo Pascal, Tempo Pascal e Quaresma), o ciclo da Manifestação do Senhor (Natal, Epifania e Advento) e o Tempo Ordinário. O Domingo é apresentado como “o dia de festa primordial” dos cristãos (NGALC 4); O Tríduo Pascal é classificado como “ponto culminante de todo o Ano litúrgico” (NGALC 18); quanto ao ciclo natalício, afirma-se que “depois da celebração anual do mistério pascal, nada na Igreja é mais venerável do que a celebração do Natal do Senhor e das suas primeiras manifestações” (NGALC 32). Na apresentação do Temporal, é claro o esforço de recuperar a centralidade da Páscoa (semanal e anual) no Ano Litúrgico. Quanto ao Santoral, para além do esforço por expurgá-lo de santos cuja existência era duvidosa, tiveram-se em conta os seguintes critérios: – fixação da celebração, sempre que possível, no aniversário da sua morte (dies natalis) – escolha dos Santos mais significativos para toda a Igreja – esforço para tornar mais “universal” o calendário, acolhendo celebrações de santos dos vários continentes, épocas históricas e estados de vida – revisão da classifcação litúrgica das celebrações dos santos, reduzindo-a a 3 categorias: solenidade, festa e memória (obrigatória ou facultativa) Nas sucessivas edições do Missal, o Santoral conheceu sempre novos desenvolvimentos; por exemplo, na 3ª edição típica do Missal Romano (2002), o Próprio dos Santos foi aumentado com 3 memórias obrigatórias e 16 memórias facultativas. Na reunião plenária da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, realizada de 26 a 29 de Setembro de 2001, o Secretário,
9 Para a reforma do Calendário, cf. A. BUGNINI, La reforma de la Liturgia (1948-1975), (BAC Maior 62) BAC, Madrid 1999, 267-285.

Francesco Pio Tamburrino, apresentou estas novas celebrações, não deixando de alertar para o perigo de um “crescente congestionamento no Calendário que exigiria logicamente algum aligeiramento futuro”10. Posteriormente, já foi introduzida uma outra memória facultativa no Calendário: Nossa Senhora de Guadalupe, 12 de Dezembro. Além do calendário universal, de toda a Igreja, existem também os calendários particulares das Igrejas locais e das famílias religiosas. As normas referentes aos calendários particulares encontram-se numa Instrução sobre os calendários particulares11, publicada em 1970. Este documento pretendeu apresentar as normas para a elaboração dos calendários particulares, em harmonia com os critério de revisão do Calendário geral.

10 «Relazione dell’Ecc.mo Mons. Francesco Pio Tamburrino Arcivescovo Segretario», Notitiae 37 (2001) 412. 11 Instructio de calendariis particularibus atque officiorum et missarum propriis recognoscendis, Notitiae 6 (1970) 348-370.

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