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120 ANOS DE ABOLIÇÃO: DA LEI ÁUREA ÀS


COTAS
Publicada em 14/06/2008

Em meio ao processo de colonização do Brasil, o modelo


escravista de produção foi oficialmente implantado na
economia da colônia como forma de sustentar a exploração
da monocultura e auxiliar o enriquecimento da metrópole
européia.

A manutenção dos latifúndios, ao lado do lucrativo tráfico negreiro, contribuiu para a permanência
da exploração da mão-de-obra escrava negra no Brasil por cerca de três séculos, o que interferiu
decisivamente nas relações sociais aqui desenvolvidas e na introdução do negro como elemento
social no nosso processo histórico.

Foi no bojo de uma sociedade impregnada pela idéia de superioridade dos senhores brancos que
surgiram as bases da segregação dos afro-descendentes que perdura até hoje no nosso quadro social.

A LEI ÁUREA

Assinada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel, a lei extinguiu oficialmente a escravidão do
Brasil e previu a indenização dos cafeicultores pela perda dos escravos alforriados. No entanto,
muitas críticas recaem em torno dos seus reais efeitos e, sobretudo, das intenções por trás da sua
assinatura.

As bases da criação da lei eram influenciadas por correntes humanistas que à época se opunham à
“coisificação” do negro, legitimada pela postura do estado e pelo ordenamento jurídico. As relações
entre senhores e escravos eram regidas conforme o direito de propriedade, conferindo aos
proprietários plenos direitos de fruir, dispor e “danificar” a “coisa” em seu poder. Também
influenciaram a criação da lei os movimentos abolicionistas dos próprios negros, que lutavam
inconformados com as privações que lhes eram impostas.

Por outro lado, o pano de fundo desta transformação caracterizava-se por um momento econômico
que já anunciava a falência do modelo escravista pela introdução da mão-de-obra assalariada
européia. Mais uma vez atendia-se a interesses da elite colonial.

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Ademais, quando da sua promulgação, grande parte dos escravos do Brasil já tinha conquistado sua
liberdade por outros meios. Além das alforrias conquistadas com o apoio das campanhas
abolicionistas, o número de escravos também diminuíra em função da Lei Eusébio de Queirós de
1850, que proibia o tráfico negreiro; da Guerra do Paraguai (1864-1870), que recrutou milhares de
negros com base na promessa de liberdade; da Lei do Ventre Livre (1871), que conferia liberdade
aos nascidos a partir da sua criação e da Lei dos Sexagenários (1885), que alforriava os escravos com
mais de 60 anos de idade.

Apesar de notável, a Lei Áurea não trouxe melhoras na condição social e econômica dos ex-
escravos. Sem formação escolar nem profissão definida, para a maioria deles, a simples emancipação
jurídica não mudou sua condição subalterna, muito menos ajudou a promover sua cidadania ou
ascensão social.

DE LÁ PRA CÁ...

Nestes 120 anos de abolição oficial da escravatura, a discriminação racial ainda perdura na memória
social do país, o que é refletido na marginalização e exclusão social dos afro-descendentes, grande
parcela da população brasileira.

Como contraponto às grandes dificuldades seculares impostas aos negros, a resistência manifestada
acaba por singularizar esta parcela da sociedade e por desempenhar um significativo papel nas
conquistas rumo à igualdade. Paradoxalmente, mesmo com a cultura brasileira sendo constituída em
sua grande parte por elementos da cultura negra, as conquistas na cidadania ainda muito deixam a
desejar na busca pela equidade no tratamento de concidadãos. A duras penas, os movimentos de
resistência desempenham um papel diferenciado nas conquistas sociais, mas ainda muito há de ser
feito para que se alcance a devida inclusão e construção da cidadania do povo negro no Brasil.

Num país tão miscigenado, o mito da democracia racial desmorona diante da associação entre o
elemento racial e as variáveis sociais e econômicas. A transformação de um quadro social tão
afetado perpassa por medidas capazes de promover o resgate da história e da valorização da cultura
do povo negro, para que a identidade cultural e os papéis sociais possam ser repensados. Muitos dos
danos trazidos historicamente pelo racismo e pelo preconceito a que essa população foi submetida ao
longo dos anos são irreparáveis, mas há diversas formas de promover compensações.

AÇÕES AFIRMATIVAS

Trata-se de medidas adotadas de maneira temporária no sentido de afastar a segregação


historicamente construída a partir de ações positivas do Estado, ou mesmo de entidades privadas,
capazes de concretizar o princípio constitucional da igualdade entre os cidadãos.

O sistema de cotas raciais, adotado no Brasil desde 2001, é um tipo de ação afirmativa que visa

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garantir oportunidades mais igualitárias para os afro-descendentes através da reserva de vagas nas
entidades de ensino superior. São medidas de caráter emergencial cujo funcionamento foi projetado
para produzir efeitos em paralelo com outras medidas de reforma do ensino. Atualmente, segundo
pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 2,37% de 331 mil matrículas anuais
em universidades públicas brasileiras são destinados a negros cotistas.

A indução de transformações por meio de ações do próprio Estado remonta à sua responsabilidade
em promover a reparação dos prejuízos trazidos por este processo histórico acidentado e desigual de
construção da cultura. Se por muito tempo a manutenção destas desigualdades foi apoiada pelo
Estado, nada mais acertado que a promoção de transformações parta da utilização dos meios de que
ele próprio dispõe para intervir na dinâmica social.

TEXTOS RELACIONADOS:

• A Crise no Sistema Colonial Brasileiro


• A Colonização do Brasil
• História (Geral e do Brasil)

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