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Módulo 04 – Professora Irandi Pereira1

Vídeo Aula 2
O Papel da Escola no Atendimento do Adolescente Autor de Ato Infracional
São abordadas, neste texto, questões relacionadas à forma como a escola
pode e deve trabalhar como adolescente em conflito com a lei.
A primeira coisa importante é a escola verificar que no município, ou na
comunidade, em que ela está localizada, ela não é um ator ou um sujeito isolado na
promoção e defesa dos interesses de crianças e adolescentes. Ao contrário, a escola
faz parte de um todo, de uma rede social, ainda que não desconsideremos o seu papel
fundamental na promoção da cidadania de crianças e adolescentes. Promoção que
deve ser sempre o objetivo da escola, independente do fato de tratarmos de alunos
que cometeram, ou não, um ato infracional, se são mais ou menos disciplinados, ou da
forma como estes alunos interagem com a equipe escolar, compreendida aqui como a
soma de todos os profissionais que estão no interior da escola, desenvolvendo
educação.
O município tem, na proteção de crianças e adolescentes, várias instituições. O
conjunto delas nós chamamos de Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do
Adolescente3 - SGDCA. Este sistema é composto pela rede de justiça, pelas entidades
não-governamentais, pelo sistema de saúde, a rede das escolas etc. Assim, nos

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Irandi Pereira. Graduada em Pedagogia, e doutora em Educação pela USP. É docente no
mestrado profissional "Adolescente em Conflito com a Lei" da UNIBAN, foi membro do
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente / CONANDA (gestão 2002-2004)
e é ativista do movimento dos direitos da criança e do adolescente.
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Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto
escrito.
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A Resolução 113 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente –
CONANDA – trata do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Disponível em:
http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/.arquivos/.spdca/.arqcon/113resol.pdf1
interessa aqui, do ponto de vista da educação, verificar qual é o papel da escola, nesta
rede.
Ao tratarmos de adolescentes que receberam medidas sócio-educativas,
precisamos lembrar que elas apresentam uma série de requisitos, formalizados em lei,
para que seu cumprimento seja efetivo. Um adolescente que recebeu medida sócio-
educativa de liberdade assistida deve cumprir as suas obrigações em relação à
medida, indo à escola, por exemplo. Porém, do mesmo modo, a escola também deve
cumprir as suas obrigações e responsabilidades para com este aluno. Os
adolescentes em cumprimento de medida são atendidos no município, geralmente por
um programa na área da assistência social, mas também ele pode, e deve, frequentar
programas de esportes, culturais ou de lazer.
Após receber uma medida sócio-educativa o adolescente deverá se apresentar
a um programa ou núcleo sócio-educativo, no qual os profissionais competentes farão
uma série de verificações da vida deste adolescente, entre elas se ele está, de fato,
inserido na escola. Não basta estar matriculado, mas estar freqüentando a escola e
apresentando resultados de aprendizagem.
Os adolescentes em conflito com a lei geralmente estão fora da escola quando
cometeram o ato infracional. Além disso, em geral, apresentam defasagem idade-
série. Cabe à escola colaborar para minimizar esta problemática. O adolescente que
recebeu medida sócio-educativa deve sempre retornar à escola, não importando qual
a época do ano letivo. Ele deve ser imediatamente inserido na escola, inclusive, como
cita o próprio ECA, na escola mais próxima de sua residência, e de acordo com a série
que deve ser cursada.
O adolescente em conflito com a lei deve ser atendido pela escola, como
qualquer outro aluno. Evitando-se qualquer postura ou atitude de discriminação ou
preconceito. É obrigação da escola atendê-lo e, inclusive, uma escola poderá ser
responsabilizada por não garantir a educação básica ao adolescente, conforme
preceitua a Constituição da República, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a
própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Após 18 anos da promulgação do Estatuto da Criança e 20 anos da
Constituição da República, é possível supor que os profissionais da educação já
tenham capacitação, ou faça parte da sua formação, trabalhar direitos e deveres de
crianças e adolescentes e, no nosso caso, muito particular, compreender o que são
estes adolescentes em medidas sócio-educativas.
No Brasil, entre os adolescentes cumprindo medidas sócio-educativas, 54%
tem o ensino fundamental e apenas 4,9% possuem o ensino médio. Uma vez que
estamos falando da instituição escolar, deve ser uma preocupação constante o

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desenvolvimento de formas para que a totalidade dos adolescentes concluam o ensino
fundamental e médio, tenham eles cometido ou não atos infracionais.
Mais uma vez é importante lembrar que a escola não está sozinha em sua
comunidade, ou em seu município. A escola que tem dificuldade em trabalhar com
qualquer adolescente deve pedir reforço, orientação, auxílio, para que possa fazer
frente à educação escolar que é um direito fundamental de qualquer adolescente.
Assim, no município nós temos os Conselhos Tutelares, e a escola já tem uma
experiência em lidar com os Conselhos Tutelares em situações de evasão ou mesmo
das violações de direitos. O Conselho Tutelar é um instrumento que pode auxiliar
sobremodo a educação a lidar com crianças e adolescentes.
Nós também temos as universidades, ou no município, ou na região. Hoje é
muito comum as universidades terem centros de estudos, desenvolvendo pesquisas
sobre práticas para lidar com situações de violação, relacionadas ao ato infracional, ou
mesmo à compreensão do que sejam adolescentes ou jovens. Este também é um
recurso que a escola pode se valer.
Existe ainda o chamado Sistema de Justiça, composto pelo Ministério Público,
pelo Judiciário e pelas Defensorias Públicas. Assim como os Centros de Defesa dos
Direitos da Criança, as comissões da criança da Ordem dos Advogados do Brasil, por
exemplo, para que obtenha auxílio do ponto de vista da informação e da formação.
Também os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente, dos quais geralmente
faz parte, enquanto representação do governo, a secretarias de educação. Este
representante é alguém apto para trabalhar com as escolas, aspectos que levem a um
modo mais tranqüilo, democrático e participativo no lidar com esta questão do
adolescente em conflito com a lei. Além de tudo isso, nós temos os conselhos de
educação, de assistência social e outros conselhos setoriais que geralmente existem
no município.
Como visto, nós podemos dizer que uma escola não está sozinha para
“enfrentar este problema” que, na verdade, não é um problema do adolescente, nem
do jovem, nem daquele estudante da minha escola, é um problema da sociedade. Um
problema da comunidade, e nós, enquanto instituição escolar, temos que lidar e
enfrentar esta questão, trazendo de volta este adolescente para a escola.
Por fim, vale lembrar ao professor, que é em essência alguém ligado ao
estudo, que é preciso estudar, pesquisar a questão, levando à melhor reflexão sobre
que educação é esta que estamos fazendo, que estamos construindo para os jovens
brasileiros.