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Módulo 05 – Professor Denis Mizne1

Vídeo Aula 12
Participação e Protagonismo
Tratar do tema ‘protagonismo juvenil’ tem tudo a ver com a questão dos direitos
das crianças e dos adolescentes e com a relação entre o Estatuto da Criança e do
Adolescente e a escola.
Muitas vezes é mais fácil ficar discutindo conceitualmente um tema, havendo
dificuldade de levá-lo para a prática. É possível, nesta discussão, se perder em
debates e colocar uma dúvida: será que na minha escola, para os meus alunos, na
realidade da minha cidade, tem alguma coisa que possa ser feita?
Quero aqui tratar um pouco de experiências práticas do Instituto Sou da Paz,
ONG que há dez anos vem trabalhando as questões da prevenção da violência sob a
ótica da garantia de direitos. Algumas destas experiências dialogam muito com o tema
da participação e do protagonismo, relacionado às escolas, ao seu entorno e ao
envolvimento do adolescente e do jovem na vida cotidiana. Abordam formas que
contam com a participação do jovem, com o estímulo à capacidade dele de
transformar a sua realidade, a sua comunidade e a sua vida.
Projeto Grêmio em Forma
Uma das experiências ou possibilidades, inclusive prevista no Estatuto da
Criança e do Adolescente e em muitas legislações estaduais, é a da formação dos
grêmios estudantis. Muita gente pergunta o que tem a ver falar em grêmio na escola
com quem trabalha com prevenção da violência ou com garantia de direitos.

1 Denis Mizne é advogado, foi chefe de gabinete e assessor especial do Ministério da Justiça e
participou do primeiro comitê da Assembléia Geral da ONU que defendeu a criação de um
tratado internacional sobre o controle do comércio internacional de armas. É fundador e diretor
do Instituto Sou da Paz (www.soudapaz.org)

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Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto
escrito.
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Questionam se o grêmio não é alguma coisa que possibilitará o aumento da baderna,
dos questionamentos na escola, ou que poderia atrapalhar o ambiente escolar que já é
tão difícil e que já tem tantos desafios. Porém, o que a nossa experiência traz, e de
muitas outras pessoas, é que trabalhar o grêmio na escola pode ser uma ótima
ferramenta, não só no que se refere à participação e aos direitos dos alunos, mas para
melhorar o ambiente escolar, além de trazer mais significado para a escola,
envolvendo mais os alunos, auxiliando na transformação de escolas que, muitas
vezes, são difíceis, em ambientes mais prazerosos para a educação, a experiência e a
vivência dos nossos alunos.
O primeiro projeto do Instituto Sou da Paz foi a criação do programa chamado
Grêmio em Forma. A idéia era formar grêmios dentro das escolas, com a participação
efetiva dos alunos, sensibilizando-os para a necessidade de ter um grêmio estudantil e
para o que ele poderia trazer. E porque trabalhar grêmio na escola? Porque boa parte
dos problemas que existem nas escolas, quando dizem respeito à depredação, à
violências, à ameaças, à dificuldades entre professores e alunos, à brigas entre alunos
estão ligados, e pesquisas mostram isso, a conflitos banais, a necessidade de
visibilidade, a busca do uso da violência como um recurso de imagem de conquista, do
menino conquistar a menina, por exemplo, de mostrar poder, de questionar os limites
dentro da escola. Muitas vezes também isso está muito mais ligado a uma dificuldade
de se relacionar, a uma falta de repertório ou de instrumentos para lidar com os seus
problemas, muito mais que, necessariamente, uma coisa determinista, de olhar e
pensar: ‘eles só sabem usar a violência’. Se a violência ou a falta de diálogo estão
muito presentes dentro da escola, é preciso pensar o que poderia substituir esta
relação, para que os adolescentes tivessem uma maneira de expressar aquilo que
desejam e de lutar pelas transformações que querem de forma positiva, e não através
da depredação, da ameaça, das brigas ou das pequenas violências simbólicas do dia
a dia, que acabam contaminando o ambiente escolar e dificultando o desenvolvimento
dos próprios alunos e, claro, a relação entre alunos e professores, entre alunos e
famílias ou entre a escola e a comunidade.
O grêmio nos parece um canal, uma possibilidade de aglutinar os alunos em
torno da melhoria da escola, para, a partir daí, começar a pensar, não só que direitos
eu tenho enquanto aluno, como sobre a forma de canalizar estes direitos e de lutar por
eles de uma maneira pacífica, respeitosa e política, no bom sentido do termo, mas,
fundamentalmente, de entender que a lógica dentro da escola também é de co-
responsabilidade, uma vez que o grêmio representa os alunos e deve servir como via
de mão dupla. Como diálogo das demandas dos alunos, mas também das
necessidades que a escola tem e precisa contar com os seus alunos.

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A forma como o projeto trabalha está descrita no Caderno Grêmio em Forma3,
que traz um conjunto de dez oficinas a serem trabalhadas com os alunos no processo
de formação do grêmio. Basicamente, o Instituto Sou da Paz chega à escola, coloca
um cartaz e convida os alunos a fazerem parte do grêmio. O trabalho pode ser feito
por um facilitador do Instituto, por professores da escola, ou por voluntários externos.
O conceito é entrar na escola e começar a conversar com os alunos, discutindo
primeiro, nas oficinas, o que é democracia, como ela pode ser trabalhada na prática, o
que são direitos etc. Não numa perspectiva de ficar repetindo a lei, contando os
artigos, mas pensando na prática, como é que eu vivencio, como isso foi conquistado,
o que significa viver numa democracia, o que diz a nossa constituição, como é que eu
posso me organizar desde cedo para poder participar da vida política do país que nós
todos trabalhamos para conquistar. O direito de participar das decisões que eu quero
ter, de começar a mexer no meu futuro, no que está acontecendo na minha escola e
dentro da minha comunidade.
A partir destas primeiras discussões, as oficinas passam a trabalhar como
constituir formalmente um grêmio, canalizando a lógica da democracia e da
participação, dentro deste instrumento que é o grêmio. Como fazer um estatuto, uma
assembléia geral fundadora, e como esta a assembléia geral pode eleger uma chapa.
Os alunos constituem uma, duas, três chapas, para que possa haver o momento da
disputa eleitoral, que significa vivenciar o que a sociedade já vivencia há mais de vinte
anos, quando participa de eleições. Isso traz a possibilidade do aluno começar a
experimentar o debate de idéias, sobre, por exemplo, como melhorar a escola, quais
são as demandas que a escola tem etc. Cada um dos momentos do processo esta
bem descrito no material Grêmio em Forma, com sugestões de textos e vídeos, mas a
assembléia geral é muito marcante, porque é o momento em que, depois de
trabalhadas três, quatro, cinco oficinas com os alunos, eles podem começar a
organizar, com todos os alunos da escola, ou o maior número possível, entre aqueles
que estejam interessados, a construção de um novo órgão dentro da escola.
Muitas escolas já possuem grêmio. Neste caso, o material ajuda a pensar se
ele está funcionando perfeitamente, ou se está ‘meio caído’, meio devagar, sendo
necessário revitalizar, trazendo de novo a discussão com os alunos. Além disso, os
alunos são muito rotativos, vão se formando e saindo da escola. É possível, assim,
retomar questões como: eu preciso de um grêmio? Como ele pode me ajudar e ajudar
a escola? A partir da eleição da primeira direção do grêmio, uma série de pequenas
ações são iniciadas. Ações de melhoria da escola, de debates de temas de interesse
coletivo, de envolvimento da comunidade, campeonatos, enfim, uma série de
oportunidades que o grêmio vai criando junto com os professores, e que vão dando
mais vida, não só a escola, mas ao conceito de participação.

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Disponível para download em www.soudapaz.org
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Muitas coisas são aprendidas se vivenciadas na prática. É possível, através de
uma iniciativa simples, como a criação de um grêmio estudantil, dar oportunidade para
os alunos se organizarem, debatendo no campo do diálogo, e não através da
violência. Significa dar oportunidade para os alunos reivindicarem, começando a ver
que não só eles são sujeitos de direitos, mas que também possuem deveres, pois, por
exemplo, a partir do momento que tem um grêmio, eles também vão ter que prestar
contas aos seus colegas, vão ter que engajar a escola. Isso leva a uma mudança do
lugar passivo para um lugar ativo, um lugar de construção. Este é o desafio e o convite
que o grêmio faz para os alunos, e esta é a maneira que temos para começar a
transformar o ambiente escolar, dando uma oportunidade que vai muito além da
escola, porque não só o grêmio pode ir além da escola, mas o aluno que passa pela
experiência do grêmio se torna um aluno que tem mais interesse em construir o seu
projeto de vida, que pensa em poder se formar melhor e vai pensar, em qualquer lugar
que ele estiver na vida, daqui para frente, em como pode participar e transformar a
realidade que está vivendo.
Pode parecer uma coisa simples para alguns, para outros pode parecer uma
dor de cabeça, uma confusão, mas não é. O grêmio não é a solução de todos os
problemas, e nem é a criação de tantos outros, é uma maneira de se vivenciar na
prática, de viver direitos e trabalhar para transformar a realidade. A escola pode ter no
grêmio uma nova relação com os seus alunos e uma nova maneira de mexer na
escola a partir da lógica de que todos nós somos co-responsáveis.

Projeto Praças da Paz


Ainda na lógica de amarrar questões conceituais com experiências práticas, a
partir de projetos que ajudam a transformar a realidade dentro e fora da escola,
podemos tratar de outro projeto do Instituto Sou da Paz: as Praças da Paz.
Muitos dos professores que trabalham em escolas nas regiões mais periféricas
das grandes cidades, ou nas regiões mais pobres espalhadas por todo o Brasil,
percebem um problema muito comum que é a falta de espaços de cultura, lazer e
esporte. Aonde as crianças vão depois que saem da escola? Onde podem usufruir do
seu lazer no final de semana? Será que estes espaços são espaços de segurança?
Para muitos pais, infelizmente hoje não só nas grandes cidades, mas também nas
cidades médias, isso reflete uma preocupação: Onde vou deixar o meu filho? Aonde
ele vai se divertir? Esta é uma preocupação que une a todos nós. Aqui em São Paulo,
de onde vem a experiência do Instituto Sou da Paz, há uma demanda muito grande,
nos bairros, de espaços de cultura, esporte e lazer. Mesmo os espaços públicos em
geral são raros. Além da escola, nas comunidades, você não encontra mais espaços
de convivência pacífica, parques, praças etc. Neste sentido é que trabalha o projeto
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Praças da Paz SulAmérica.
O projeto busca espaços abandonados na cidade, que podem se transformar
em uma praça. Terrenos baldios, quadras ou campinhos de futebol pouco utilizados,
terrenos abandonados etc. O interessante do projeto não é a entrega de uma praça
em si, mas o processo como isso se dá. O Instituto se aproxima da comunidade e
começa a conversar com as pessoas. De casa em casa, com associações de
moradores, grupos juvenis, ou pessoas que usam os espaços existentes e começa a
discutir: O que é que você gostaria que tivesse aqui neste terreno? Aqui perto da sua
casa, que poderia te ajudar? Tornar os seus dias mais bacanas? A partir daí as
pessoas começam a pensar: Um campo de futebol? Um campo de bocha? As mães
falam em parquinho para as crianças, os mais velhos querem uma pista de
caminhada, ou espaços com equipamentos de ginástica. Os jovens querem sempre
campo de futebol, a quadra de vôlei, de basquete ou o espaço do skate. Assim, a
partir das idéias das pessoas, portanto do protagonismo delas, é que o projeto vai se
desenvolver, e não conforme o que um grupo externo, sozinho, pensou. A partir das
colocações da comunidade dá-se início ao processo de construção coletiva daquela
obra. Comparecem os arquitetos e engenheiros, são feitas reuniões e assembléias
com a comunidade e maquetes para mostrar como o espaço vai ficar.
Uma coisa que aparece muito, e que pode se aplicar também dentro da escola,
é que muitas pessoas já não sabem nem mais sonhar. Elas não têm nem repertório
para pensar, imaginar o que gostariam de ter no seu bairro. É tanto tempo vendo
abandono, vendo coisas que não funcionam... Uma das coisas que o projeto faz, e que
pode ser feita na escola, é levar as pessoas para conhecerem coisas diferentes. No
caso do projeto, as pessoas são levadas para conhecerem coisas bacanas em
parques, praças etc. Muitas vezes os adolescentes e jovens nunca saíram de seu
bairro. Às vezes não está tão longe. São espaços no centro da cidade, ou em bairros
vizinhos, mas que as pessoas não viram. A partir desta experiência eles podem
começar a sonhar de novo: “Olha, aqui tem uma possibilidade!” “Nossa, que bacana,
dá pra ter uma praça que tem um palco para fazer show cultural?” “Dá pra ter um
espaço coberto pra gente fazer reunião, um lugar pra gente fazer a nossa quermesse,
na época da festa junina, ou um lugar pra eu fazer treino de futebol, campeonato disso
ou daquilo...”
Ao mesmo tempo em que é trabalhado com a comunidade, como um todo, a
definição de como será a praça, um grupo menor, de adolescentes e de jovens,
começa a ser preparado para fazer a gestão deste espaço. O interesse é que a gente
possa, através desta experiência, transformar uma falta numa conquista. As pessoas
devem entender que não estão ganhando aquilo de presente, mas tendo oportunidade
de participar da construção. Tanto na construção em si, por meio de um mutirão, na
pintura, na conservação, como na gestão do espaço. Em todo este processo vai
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sendo trabalhada a lógica dos direitos e deveres. Uma nova lógica de mudança,
porque infelizmente, tem muito clientelismo, muita distribuição de favor, muito projeto
que é entregue como presente para a comunidade. Não é disso que estamos falando,
mas de mostrar para as pessoas que direitos elas têm e como é que eles podem
ajudar a conquistar estes direitos.
Este grupo menor de pessoas vai aprender a gestão do espaço, e também
como podem negociar na prefeitura uma demanda, como fazer um ofício, lutar por
alguma coisa que precisam, ou organizar um campeonato, um evento, mobilizando as
pessoas do entorno para participarem. Este processo sempre trabalha conceitos
importantes, que servem para dentro e para fora da escola, como a diversidade, por
exemplo. A questão da diversidade, do diferente, é maior do que a tolerância, não é
aceitar que as pessoas são diferentes, é gostar disso. Nossa! Mas é possível fazer
isso? Não é melhor todo mundo ser meio parecido? Claro que não. Quando começam
a perceber o diferente, começam a perceber o outro. Quando falamos isso na teoria,
às vezes não dá para entender, mas quando é falado nesta questão no momento em
que se pensa em um campeonato de futebol, por exemplo, fica claro. Se os meninos
participam, no futebol, também tem que ter quadra de vôlei, também tem que ter
espaço para as crianças. Desta forma eu vivo a diversidade na prática.
Na hora que eu falo que quem vai usar a praça não pode ser só o mais forte,
que eu vou ter que ter regra para quem vai usar a quadra, o campo, o palco, cada um
dos equipamentos, que eu vou ter que combinar, acordar isso com as pessoas, eu
começo a perceber que não vale só a lei do mais forte, mas que o que tem que valer é
todo mundo ter direito a participar. São maneiras muito concretas de trabalhar uma
série de conceitos que vão impactar na vida destes jovens. Na hora que eu discuto
que, quando vai ter o campeonato de futebol, as regras têm que ser acordadas pelo
grupo, e que se alguém brigar, está fora, eu estou mostrando que regra é importante e
que a violência é rejeitada. Não adianta somente rejeitar a violência se não é oferecida
outra maneira de comunicação. Isso vale para qualquer projeto.
Uma coisa muito importante neste projeto, e em tantos outros, é ter um
conjunto de combinados, um conjunto de regras que todo mundo sabe que está
valendo e que vale para o educador, e para o participante, para o educando. Valem
para todos e tem que ser respeitadas pelo grupo. Pode parecer difícil, mas a partir do
momento que eu “faço com” é mais fácil eu ter o respeito. Nós percebemos que, com
este processo participativo de construção das praças, a depredação cai muito, que as
pessoas não picham a praça, não jogam entulho. Não é tudo de um dia para outro,
demora para ter a transformação, mas a conservação é muito maior porque as
pessoas sentem que aquela praça é delas, que elas lutaram, que elas fizeram alguma
coisa para aquilo acontecer. E este conceito do projeto é muito importante, que é o
conceito da co-responsabilidade, que eu trago a lógica de trabalhar junto para
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transformar junto, e isso gera um compromisso de cada um dos envolvidos que vai ser
muito mais fácil para garantir uma transformação no futuro.
Nós temos uma fase da construção ou reforma da praça, e depois vem uma
fase da ocupação, que também é super importante. A gente não pode parar na obra,
ou em qualquer coisa, só quando está lindo e está pronto... Vai estar pronto quando
estiver sendo usado, quando as pessoas se apropriarem do espaço. O importante é
trabalhar com diversidade de ações. Num festival de música, por exemplo, devem ser
colocados diferentes ritmos. O festival tem que ter o samba, o pagode, o rap, a música
sertaneja, enfim, tem que ter todos os tipos de música para as pessoas aprenderem a
construir e a vivenciar juntos. Para poderem dizer: “Nossa, como é legal! Eu posso
vivenciar coisas diferentes e construir coisas novas, muito mais do que se eu ficar
sempre repetindo, sempre cercado do mesmo grupinho...”
A idéia central é que as coisas não aconteçam apenas no projeto em si, mas
que as pessoas passem a pensar onde mais podem chegar. Se vivenciaram este
processo, se no curso de um ano, um ano e meio, conseguiram sair de um terreno
baldio para ter uma praça construída e ocupada, que pensem: “Será que eu não posso
transformar também a minha rua? Será que eu não posso transformar aquela garagem
abandonada em biblioteca?” “Será que não podemos lutar pelo que temos direito?”
Como buscar isso na prefeitura? Como buscar isso junto a parceiros? Como me
organizar com meus amigos para ir transformando cada vez mais, para que ter
respeito e conviver com o outro harmonicamente façam parte do cotidiano, e não
sejam uma coisa especial, distante, que vemos apenas na TV ou nos livros, mas que
façam parte da nossa vida.

Desafios e possibilidades
Quando falamos de protagonismo e de participação, relacionados aos direitos
das crianças e dos adolescentes é preciso que vejamos estas possibilidades não
como uma obrigação a mais, ou como uma das tantas responsabilidades que são
jogadas nas costas dos professores, mas sim, como uma oportunidade para melhorar
o ambiente escolar, às relações entre professor e aluno, enfim, este conjunto do
cotidiano que faz a nossa vida dentro das escolas.
Existe uma história que eu gosto muito, contada pela Professora Rosely Sayão,
que tem muito a ver com estes aspectos:
Um dia um aluno que chegou em casa e falou assim:
- Mãe, a professora mandou uma carta para você.
A mãe abriu a carta e estava escrito:

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Prezada mãe, o seu filho hoje não se comportou bem na aula, conversou
com os coleguinhas o tempo todo e não fez as lições direito. Favor tomar
providências.
Um abraço.
Professora.
No dia seguinte o menino chegou à escola e falou:
- Professora, a minha mãe também mandou uma carta para você.
A professora abre a carta e estava escrito:
Prezada professora, o seu aluno ontem não escovou os dentes, não quis
dormir na hora certa e ficou vendo televisão até tarde. Favor tomar providências.
Um abraço.
Mãe
Esta historinha ilustra um pouco o conceito da co-responsabilidade. Esta lógica
que por mais que se tente colocar cada coisa “na sua caixinha”, vamos ver que o
trabalho que a gente está fazendo no cotidiano na escola, o que é feito em sala de
aula, tem relação com o que acontece fora da escola. A relação entre família e escola,
entre os alunos, com os seus colegas, com os professores, tudo isso é
interdependente. Mais do que isso, a história mostra que todo mundo tem uma
responsabilidade em fazer vivenciar as oportunidades de mudar a sua vida, de deixar
o aluno ser protagonista, de começar a transformar o nosso ambiente.
Estou tratando destes temas porque muitas vezes pode parecer que ao falar de
grêmios estudantis ou de outros projetos que dão uma série de espaços de
protagonismo para os alunos, adolescentes e jovens, às vezes nos perguntam: ‘Será
que isso funciona, será que é tão fácil assim? Todo mundo participa? É tão fácil assim
dividir poder? Eu vou criar um grêmio na minha escola, e ai? Será que eu não vou só
organizar a baderna? Quer dizer, hoje eles badernam separados, eu faço o grêmio, se
juntam todos e ai que fica impossível dar conta do recado?’
O que a experiência mostra é exatamente o contrário. Eu não estou dizendo
que seja fácil ou que não haja resistência. Tem escola que o diretor não gosta, em
outras a maioria dos professores não tem tempo de se engajar nestes projetos. O que
nós defendemos é que estas ações sejam vistas como pequenos investimentos que
podem valer à pena. Está fácil para os professores comandar uma classe sem dividir
este poder? Será que se eu faço aquela história dos combinados, exatamente naquela
aula que é mais difícil, que os alunos fazem mais bagunça, prestam menos atenção,
testam, o tempo todo, os limites... Será que não é nesta aula que, ao invés de eu
aumentar cada vez mais a disciplina, a distância, e os alunos aumentarem cada vez
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mais a bagunça, ao invés de ficar esta escalada, eu posso parar e tentar mudar?
Tentar uma coisa diferente, nem que seja por três, quatro, cinco, seis semanas, para
ver o que acontece?
A proposta é a de fazer junto. Na hora que começamos a discutir, a dividir o
poder de alguma maneira, também estamos dividindo a responsabilidade. Na hora em
que deixamos de ser o único responsável por manter determinadas condutas dentro
da escola, mas temos um grupo de alunos que participaram desta decisão, boa parte
deles, vão ajudar a mexer nisso. Uma coisa que vemos nestes tipos de trabalho de
protagonismo, que é muito interessante, é que começam a surgir lideranças positivas.
Muitas vezes o mesmo aluno que era o mais difícil, que dava mais trabalho, quer se
engajar numa outra atividade. Ele fazia aquilo porque precisava aparecer, porque tem
muita energia, tem criatividade e liderança, mas não tem em quem se espelhar. As
lideranças que estão disponíveis para os nossos adolescentes e jovens hoje são
lideranças da violência, do autoritarismo, às vezes do crime. São lideranças que não
são positivas. A partir do momento em que são criadas condições para que os alunos
enxerguem, nos seus pares, lideranças positivas, esta história pode começar a mudar.
Não é fácil. Não quer dizer que a primeira vez que eu chamar uma reunião para
criar um grêmio vai vir todo mundo. Também não quer dizer que a primeira vez que eu
começar a trabalhar com este grupo, todo mundo vai querer se comportar direitinho.
São comportamentos recorrentes. Levamos anos e anos formando um tipo de atitude,
não vai mudar de uma hora para outra, mas alguma hora tem que começar a mudar.
Porque se a escola não for o lugar onde as crianças podem vivenciar respeito, acesso
a direitos, onde elas possam começar a transformar o mundo, como é que a gente
espera que elas se formem e sejam cidadãos responsáveis, que respeitem os direitos
e as pessoas? Se não for na escola, onde eles vão aprender?
Muitas vezes, infelizmente, as famílias não são os melhores lugares hoje para
ficar falando em respeito, em tolerância, em cuidado, infelizmente têm muitos
problemas nessa área também. Claro que tem casos muito bacanas. A escola pode
ser este espaço de vivência, não é um espaço só da teoria. Claro que é legal contar
para as pessoas que direitos elas têm, mostrando os artigos, falando da Constituição,
contando do ECA, mas uma boa complementação a isso é dar a chance de
vivenciarem. A partir do momento em que o aluno começa a ter poder, ele começa a
se colocar também no lugar dos líderes, e vai ver a dificuldade que é liderar grupos.
Vai perceber as dificuldades de exercer o poder que conquistou. Na hora que ele é o
presidente do grêmio, ou o coordenador de alguma atividade, sendo responsável por
uma área da escola, ou que ele ajudou a organizar a festa junina, ou o campeonato,
quando as pessoas começarem a não participar, ou querer atrapalhar, ele vai ter que
garantir também a ordem naquele lugar, discutindo isso com os colegas. Na hora que
ele for trabalhar ele vai pensar nisso, na hora que ele tiver de volta à condição de
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aluno, à condição de alguém que está sentado, não sendo o protagonista daquela
ação específica, ele vai ter uma outra vivência.
Uma coisa muito comum nas praças é a diminuição das depredações. As
pessoas cuidam muito mais do que construíram, mas não é um processo automático
de mudança. Eu me lembro numa das primeiras praças feitas, uma semana depois da
inauguração roubaram a tabela de basquete. Eu estava na praça e um grupo de
moradores falou para mim:
- Olha não se preocupa. A gente sabe quem roubou a tabela de basquete e nós
vamos lá, vamos bater no cara, vamos dar um cacete no cara...
E ai nós temos que mostrar que não é assim. Que isso não vale. Não valia para
construir a praça, não valia para pressionar, não vale agora, mesmo que seja para
garantir uma coisa boa. É preciso aprender que os fins não justificam os meios.
Mesmo um grupo com o qual estávamos trabalhando por muito tempo, tem recaídas, é
normal, é preciso insistir.
É muito importante e necessário que tenhamos disposição para experimentar o
novo, e o novo dá medo, o desconhecido dá medo, mas eu posso experimentar o novo
principalmente se eu reconhecer que o que está acontecendo hoje, não
necessariamente, é o melhor cenário possível. A forma como as escolas tem
trabalhado hoje não é a menos desgastante, não é a mais fácil para dar aula, então,
talvez valha à pena testar coisas novas. A partir do momento que resolvemos
experimentar, precisamos ter em mente que as coisas não vão mudar de uma hora
para outra, mas que determinadas coisas eu vou ter que manter o tempo todo. Da
mesma forma, não é trabalho para apenas um professor, mas para vários e, às vezes,
nem mesmo somente para a escola, mas para os outros atores da comunidade.
Juntos poderão incentivar novos comportamentos, outras relações, mudando, aos
poucos, a forma de agir das pessoas e isso, com o tempo, vai ficar perene, porque
estas pessoas que estão mudando a sua forma de agir, vão ver os benefícios que isto
traz e vão começar a servir de referências para outras. Com este processo, ao invés
de termos apenas um professor tentando construir um ambiente mais organizado,
participativo, mais fácil para o aprendizado, de repente este professor vai descobrir
que tem aliados entre os alunos. Isso é muito bom, porque muitas vezes, aquilo que
vem de cima para baixo, principalmente com adolescentes, e parece que a
adolescência começa cada vez mais cedo, parece que o questionamento começa
cada vez mais cedo, muitas vezes, quando vem de cima para baixo não tem o mesmo
apelo do que se viesse dos pares, dos colegas que estão conversando. Pode ser no
recreio, na atividade extra-classe, os alunos começam a ver que existem outras
maneiras de funcionar.
Aos poucos será possível transformar não só o ambiente escolar, mas,
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fundamentalmente, a maneira como os nossos alunos se relacionam com a sociedade.
Nós não precisamos mais de apatia, ou de pessoas que aceitem as coisas de cabeça
baixa, que resolvam os problemas com violência ou autoritarismo. É preciso encontrar
um outro caminho, que vem do respeito, do diálogo, da construção coletiva. Fácil não
é, mas é possível. As coisas não acontecem como mágica. Dá trabalho, mas dá certo,
tem resultado positivo, é isso que eu quero deixar. Vocês podem acreditar que dá para
transformar, que esta história de garantia de direitos não é uma responsabilidade a
mais, é um instrumento de transformação, uma oportunidade que vocês têm nas mãos
de mexer na sua escola, na sua sala de aula, na sua comunidade, na vida de todos
estes alunos que vão contaminar muitas vidas escola afora.

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