21/12/2010

O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

PREFÁCIO

O trabalho do professor José Pereira da Silva, intitulado "O desenvolvimento da linguagem", constitui uma excelente obra de introdução aos estudos desse importante tópico da Psicolingüística, coligindo uma série de informações essenciais sobre o assunto expostas pelos autores mais conceituados, tais como Noam Chomsky, Jean Piaget, Charles Osggod, A. R. Luria, Judith Greene e André Ombredane. O professor José Pereira da Silva faz um apanhado dos principais trabalhos sobre as relações entre o pensamento e a linguagem, sobre os usos e as funções da linguagem e sobre as noções de competência e desempenho, para depois desenvolver, ampla e profundamente, os tópicos de aquisição da linguagem e aprendizagem de línguas estrangeiras. O que são nativismo e empirismo? Quando ocorre a diferenciação dos conceitos nas crianças? O que é a fala egocêntrica e quais as suas funções? Como se dá a fase do balbucio? A linguagem é aprendida através da relação estímulo-resposta? O que é a ecolalia? Quando ocorre a função denominativa? Existe linguagem sem pensamento ou pensamento sem linguagem? O que são mandos e tatos? Qual a idade certa para começarmos a ensinar uma língua estrangeira a uma criança? Todas essas questões são respondidas de forma didática e clara pelo presente trabalho, imprescindível numa área, a Psicolingüística, tão abandonada pelos editores brasileiros, forçando os estudantes e professores de Letras e Psicologia a valer-se, quase sempre, de fotocópias e de livros esgotados para seus estudos.

Afrânio da Silva Garcia

ÍNDICE 1 – INTRODUÇÃO 2 - PSICOLINGÜÍSTICA 3 - O PENSAMENTO E A LINGUAGEM 3.1 - A PERCEPÇÃO, OS CONCEITOS E OS SÍMBOLOS 3.2 - O PENSAMENTO E A LINGUAGEM 4 - USOS E FUNÇÕES DA LINGUAGEM 5 - A COMPETÊNCIA E O DESEMPENHO 6 - A AQUISIÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM 6.1 - A APRENDIZAGEM DA LINGUAGEM 7 - CONCLUSÃO 8 - BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO Preocupado sempre com o aperfeiçoamento pedagógico, mais especificamente, com o ensino da língua
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vernácula, e tendo tido a oportunidade de fazer o Curso de Metodologia do Ensino Superior nas Faculdades Integradas Estácio de Sá, onde os trabalhos individuais de final de cada módulo devem ser práticos, de acordo com a área específica de cada aluno, resolvi dedicar-me, sempre que possível, à pesquisa de metodologia do ensino da linguagem. Percebendo a dedicação da Profa. Léa Lattari da Costa em relação a este aspecto prático que devemos dar ao curso e à sua boa vontade e zelo em ler, corrigir e comentar pessoalmente cada trabalho que lhe é apresentado, resolvi dedicar alguns dias especialmente à pesquisa do desenvolvimento da linguagem, visto que este é um dos aspectos mais interessantes da Psicologia do Desenvolvimento, a que a citada mestra se dedicou no último trimestre de 1981, no referido curso. Minha intenção, inicialmente, foi a de preparar-me um pouco melhor para o desempenho do magistério na área a que me dedico. Após algumas leituras básicas para o trabalho, no entanto, percebi o quanto interessante e empolgante é o assunto, o que me levou à deliberação de aprofundá-lo um pouco, seja documentando as conclusões parciais com uma bibliografia especializada insistentemente citada, seja procurando abordá-lo sob aspectos e pontos de vista vários. Os objetivos deste trabalho são, como se vê, eminentemente práticos, visto que se reduzem a uma tomada de posição frente às dificuldades pedagógicas do ensino-aprendizagem das línguas, tanto no que diz respeito à língua materna, quanto a uma segunda língua.

PSICOLINGÜÍSTICA Com o nome de Psicologia da Linguagem, a Psicologia trata do fenômeno da produção da linguagem humana, do seu comportamento e do seu desenvolvimento. Quando o termo psicolingüística começou a ser usado pela primeira vez, no início da década de 1950, indicava um interesse pelos métodos lingüísticos para descrever a produção dos usuários da linguagem; em especial, a análise estrutural em unidades lingüísticas tais como fonemas, morfemas e frases, as quais pareciam oferecer uma formulação mais precisa das unidades tão obviamente psicológicas quanto as letras, frases e sentenças. "Psicolingüística" é, portanto, um neologismo que surgiu da necessidade de se denominar essa fase de revolução na Lingüística e na Psicologia, principalmente depois que Chomsky publicou nos Estados Unidos um trabalho sobre gramática gerativa denominado Syntactic Structures. Jean-Yvon Lanchec, em seu livro Psicolingüística e Pedagogia das Línguas, diz que "a Psicolingüística tem por objetivo estudar as relações entre a mensagem pronunciada por um sujeito A e o modo pelo qual é percebida por um sujeito B, que só retém uma parte dos elementos dessa mensagem". Na realidade, afirma Langacker, sendo a linguagem um fenômeno em grande parte mental, seu estudo pode ser considerado um ramo da Psicologia. Qualquer teoria adequada da Psicologia Humana deve dar alguma explicação de nossos processos de pensamento; a linguagem é de importância central aí porque a maioria de nossos pensamentos assume forma lingüística. Muitos, se não a maior parte de nossos conceitos, recebem algum tipo de rótulo verbal. Assim, a relação entre linguagem e formação de conceitos é de grande interesse para os psicólogos. A linguagem também testa significativamente teorias de organização psicológica. As línguas são altamente estruturadas, e aprendemos a identificar e descrever suas estruturas de forma consideravelmente detalhada. Qualquer teoria da organização psicológica, portanto, deve consiliar adequadamente os tipos de estruturas que sabemos serem características das línguas humanas. Demonstrando que a competência lingüística de um locutor possibilita-lhe a criação de todas as frases da língua que fala, a teoria chomskyana da gramática gerativa mostrou que a linguagem é um tipo de comportamento humano muito mais complexo do que até então era considerado, levando os estudiosos a um "saudável respeito pelas complexidades do comportamento lingüístico", visto terem todos eles fracassado ao tentar uma supersimplificação das regras gerativas da linguagem. Uma análise gerativa da linguagem humana, com certeza, levaria qualquer psicólogo a repensar as suas teorias
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o que se pode entender disso é que a Psicolingüística não é tão somente a mesma Psicologia da Linguagem." Como se vê. No entanto. ou a disciplina. Embora ainda haja discordâncias a respeito. é fato já sabido que "os conhecimentos de um escolar são. é preciso que se analisem as possíveis interferências que um deles pode ter sobre o outro. a menos que já o tivesse feito antes. seu comportamento e os seus problemas patológicos." Essas experiências são feitas assim porque se supõe que os conceitos. O PENSAMENTO E A LINGUAGEM A PERCEPÇÃO. a percepção e a linguagem são elementos que se acham estreitamente ligados entre si. ao descrever o que o comportamento lingüístico envolve. Comparativamente.. como seria mantido pelos teóricos do estímulo-resposta. o assunto.. sua evolução (aprendizagem ou aquisição). poderíamos dizer que a Psicologia da Linguagem está para a Psicolingüística assim como a Língua Latina está para a Língua Portuguesa. ". a análise lingüística atuaria como um teste empírico para avaliar a produção de modelos psicológicos. do meio. Em outras palavras.. Metodologia da Linguagem. assunto de que trataremos separadamente. não deixa de ser verdade. Predominam sempre as representações objetivas.org. mas. a mesma psicóloga ainda diz mais: "É importante entender que a Psicolingüística continua sendo uma subdisciplina da Psicologia. um ponto final que é de grande interesse para os psicólogos é a questão sobre se as leis que governam o comportamento lingüístico são especiais para a linguagem humana ou são características de todo comportamento.h… 3/27 . O que. muitas das idéias que discutiremos a seguir ficarão aguardando uma resposta definitiva dos atuais pesquisadores e estudiosos. continua Budin o relato de suas experiências: "A criança de seis ou sete anos tem escassez de representações mentais bem definidas. ". o pensamento." Ainda na mesma página." Noutras palavras. sendo que as de quantidade são mais desenvolvidas nos filologia. uma maioria respeitável de especialistas no assunto considera o comportamento lingüístico muito mais complexo do que os demais tipos de comportamento humano. cuja característica marcante reside no fato de os seus praticantes acreditarem no valor do exame lingüístico para se efetuar uma análise da linguagem. dependendo o número das mesmas do lugar. utiliza-se dos métodos revolucionários e seguros da Lingüística moderna. De qualquer maneira. como era considerada outrora. Segundo Judith Greene. etc.br/…/odesenvolvimento. pelo contrário. Por isso. a excitante idéia de que as próprias regras lingüísticas seriam um protótipo do comportamento do usuário da linguagem estimulou um novo modo de encarar a linguagem – continua Greene – e o desenvolvimento de novas técnicas para testá-lo. é de grande importância para quem está preocupado com o problema da linguagem. J. A Psicolingüística. Budin ensina: "Há inúmeras experiências cujo objetivo é conhecer a extensão das representações mentais infantis. Em seu livro. "A pesquisa psicolingüística baseia-se no pressuposto de que as gramáticas (gerativas) descrevem a competência lingüística de quem usa uma determinada língua". Relativo a isto escreve Judith Greene: "A implicação para a Psicologia é que qualquer modelo psicológico de comportamento do usuário da língua teria de se harmonizar com essa descrição do uso lingüístico. OS CONCEITOS E OS SÍMBOLOS Como o pensamento e a linguagem estão estreitamente unidos em seus usuários." Toda esta revolução dentro da Psicologia se deu a partir das idéias gerativistas e transformacionalistas de Chomsky e seus sequazes." Num outro lugar. o assunto não está totalmente pesquisado e conhecido. sem abandonar a sua origem. Deste modo.. aliás. em regra. assim como o modo pelo qual eles se relacionam. maiores do que sua capacidade de exprimi-los verbalmente.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM sobre o comportamento humano em geral. que é a Psicologia (e da qual é um segmento). Podem ser apresentados à criança objetos e figuras a fim de verificar se ela sabe dar-lhes nomes.

sem a utilização de algum tipo de linguagem. "Papai" deixa de ser um homem qualquer para se tornar um determinado homem. antes de tudo. conforme pregam os gestaltistas. E. Diz ele: "No que diz respeito ao desenvolvimento perceptivo correlacionado com o desenvolvimento motor. a cadeia falada /la bi al/. Uma certa hora. elas constituem um todo e não um agregado de percepções. ao que parece. os esquemas entoativos parecem mais importantes para a compreensão do que a articulação correta dos fonemas que compõem a mensagem." Aliás. E mais: Todas as coisas vindas através dos sentidos ou da manipulação revelam-se úteis à formação de conceitos.org. qualquer mulher. pontos ou linhas num desenho —. essa estruturação das percepções não seria possível em muitos casos. quanto os funcionalistas. Novamente é Budin que nos apoiará com as suas palavras: "Os conceitos infantis limitam-se aos que a criança faz aos objetos e ao que os objetos produzem nela. No começo. Aos nove meses de idade tem sido observada uma certa capacidade discriminatória quanto às palavras faladas pelo adulto." A partir da percepção é que a criança formula os seus primeiros e mais elementares conceitos. é percebida como um conjunto diferente de /l+a+b+i+a+l/. Bola é qualquer objeto redondo: laranja. transformacionalistas e todos os que se preocupam com a organização do pensamento e sua comunicação dão grande importância ao problema da linguagem humana e o modo por que ela é formulada na mente de quem fala e de quem ouve. por exemplo. "mamãe". reconhecê-la. geralmente. maçã. provavelmente é anterior à linguagem). a percepção tornar-se-á totalmente diferente. reação idêntica a coisas semelhantes.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM meninos. mas importante roteiro do desenvolvimento perceptivo da criança. Por meio da linguagem. Tanto os gestaltistas. por meio de suas características gerais." O que é compreensível. escreve Lanchec. uma forma simples e regular. isto é. enquanto que a transposição de uma melodia num outro tom permite-nos. ao menos provisoriamente." Antônio Gomes Penna nos dá um pequeno. os seus defensores afirmam que as linhas melódicas e as figuras. dada a complexidade da linguagem. qualquer homem é "papai". são formas. são mais bem dotadas no concernente à expressão verbal. filologia. A respeito disso o austríaco Ehrenfels observa que. que nos interessou bastante. se um elemento estranho for acrescentado — uma nota numa melodia. no sentido mais geral. contudo. Há o que se chama generalização. Só depois de aprender a falar inclui nos seus conceitos experiências alheias. Pela altura do sexto mês. pela qual a criança verifica que pode comer laranjas e maçãs. Por essa razão. demonstrando-o através de interrupção ou mudança de ocupação. como resultado de uma análise. parece claro que ela pode distinguir entre uma voz amistosa e uma reprovadora. fato que só se processa lentamente. surge a diferenciação. O encadeamento dos fonemas modifica foneticamente cada um dos elementos. Disso se conclui." Já que lembramos os gestaltistas. os estruturalistas. A percepção se faz ao nível da sílaba. gerativistas. um dos seus princípios fundamentais é que "uma forma é algo mais do que a soma de suas partes e. E "a ‘boa forma’ é. "todo indivíduo tem tendência a reorganizar suas percepções em um conjunto bem estruturado". Esse todo tem uma unidade própria. quando as percebemos. mas não bolas. com características bem definidas. uma criança revela interesse pela voz humana. pelo menos nos casos mais complexos.h… 4/27 . As meninas. representando os objetos pelo pensamento (que. de tal modo que as percepções de um indivíduo possam ser transmitidas às outras pessoas numa "boa forma". porém. no sentido de que algumas chamam-lhe mais atenção. Quanto à gestalt. etc. que os conceitos se "baseiam em imagens verbais e representam generalizações que só contêm elementos essenciais e constantes. tem sido destacado o fato de que. Essa importância da organização do conjunto foi também evidenciada na aquisição da língua materna ou na aprendizagem de uma segunda língua. já por volta dos dois meses de idade. os pensamentos e os conceitos tomam uma forma mais simples.br/…/odesenvolvimento.

que não só a percepção. A sanção social age no sentido de internar o pensamento e os que não o fazem ou de fato são loucos ou são considerados como tais. sendo justo. por meio de palavras. Do mesmo modo. o que Langacker escreveu não pode. etc. mas todos ou quase todos os fenômenos da mente humana estão diretamente relacionados com a linguagem. Budin. a criança. fala sempre em voz alta. "Na evolução normal do pensamento há uma gradual transição da linguagem clara para a murmurada e. o que não impede o uso de símbolos matemáticos. E é novamente o Prof. pois ela é o próprio pensamento. utilizando aqueles que são familiares e adequados a cada situação. além de servir de recurso mnemônico indispensável." Ora." E acrescenta o mestre: "Pensamos. Pensamos. de resto. uma coisa perceptível como todas as outras. a respeito das palavras: "São adequados envoltórios do pensamento que abrangem milhares de experiências diversas e são capazes. Budin que nos traz mais esse acréscimo: "A memória está igualmente ligada à linguagem. finalmente. e essas palavras tornam o pensamento uma coisa viva e animada. as idéias que elas exprimem (idéias essas que se organizam graças às palavras com que as exprimimos). pois o adulto só se lembra dos fatos que ocorreram depois que aprendeu a falar. podemos primeiramente observar que pensamento. que fenômenos mentais poderão ocorrer que não estejam relacionados com a linguagem e até mesmo dependentes dela? O PENSAMENTO E A LINGUAGEM Entre a linguagem autêntica (aquela que. diz-se pela primeira vez e com originalidade) e o pensamento não cabem distinções. ser contestado cientificamente. notações musicais.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Não se esqueça. quando se diz. ao se descobrir de repente que duas partes de um quebra-cabeças completadas separadamente se ajustam uma à outra. se a linguagem é uma forma simbólica de exprimirmos os nossos pensamentos. ou pelo menos certos tipos de pensamento. Quando emitimos as palavras. que nela se observem fenômenos paralelos aos que podem ser registrados no domínio da percepção. mas uma análise das opiniões correntes entre os especialistas no assunto. em seu livro A linguagem e sua estrutura. ajudando-nos a organizar nossas percepções e a formular conceitos a partir dessas percepções. instrumentos preciosos na intercomunicação. pois." Diríamos mesmo. Os mais empregados são as palavras. no mesmo instante. encadeamo-lhes. Langacker. linhas. como qualquer forma de se exprimir um pensamento. escreve que Se definirmos pensamento como atividade consciente. visto que os seus conceitos estão ligados ao que ela "faz aos objetos e ao que os objetos produzem nela". encarnam em si uma significação e um sentido que as transformam na imagem do pensamento ou do conceito que elas exprimem.h… 5/27 . o que apresentaremos aqui não será uma confirmação exata. como sinais.br/…/odesenvolvimento. podem existir completamente independentes da linguagem. pois. desta para a implícita. Os movimentos musculares que a pessoa executa." Como a percepção da criança é inferior nos seus primeiros anos. — adverte Penna — que a linguagem apenas prolonga e pereniza o processo perceptual. em geral. até o momento. por intermédio de J. ou no sentido que Merleau-Ponty deu à chamada "linguagem autêntica". por meio de símbolos. Assim. símbolos que constituem conceitos. cores. de englobar milhares de outras. durante muito tempo. Ronald W. A menos que a linguagem seja considerada em sentido amplo. dificilmente ela conseguiria distinguir o que pensa do que percebe e do que faz. embora possa em seguida exclamar: "Ah! Isso deve se encaixar aqui!" É pois difícil compreender por que certas pessoas sustentam ser impossível o pensamento sem a linguagem. quando pensa. Embora não tenhamos condições de discutir tal afirmativa. ainda. demonstram de forma clara as relações entre filologia. A idéia que uma palavra exprime não está fora desta palavra. acompanhando as palavras de ações apropriadas. As palavras. Eis o que diz Sapir. uma pessoa que está absorta na sua solução não realiza nenhum ato lingüístico. O exemplo mais simples é a música. embora não tenhamos autoridade para dizer nada desta natureza.org.

Os rótulos verbais — segundo Langacker — "são especialmente importantes no campo das idéias abstratas. em Psychologie expérimentale. liberdade. o latido do cão é o símbolo do animal que late e. Por serem abstratas. as quais reúnem e mantêm juntas várias noções vagas e não muito coesas." Na maior parte das civilizações. enquanto mergulhada na pura etapa sensório-motora. praticamente. de sorte que. uma verdadeira identificação do pensamento com a linguagem. para saboreá-lo. comparada com a clareza que os diagramas projetam. libertando-se das fronteiras do espaço próximo e presente nas quais permanece prisioneira. Graças à linguagem. O fundamento básico do pensamento é a analogia. Justiça.org. afirma que "a ambigüidade da linguagem corrente." E. proporcionando-lhe uma série de operações que realmente ultrapassam os limites da inteligência sensório-motora. todo um conjunto de experiências possíveis. as palavras desse tipo são muito pouco ligadas à realidade. Inquestionavelmente — depõe Piaget —. geralmente. por conseguinte. especialmente após o surgimento do conceito de estrutura profunda da linguagem. filologia. um discurso silencioso. a profundidade de Yngve ou o número de operações de decodificação. Assim como "o ruído da colher na tigela fica sendo para a criança o símbolo de sua refeição. analisando os diagramas de Euler. sob a forma de reação simbólica. o reflexo de uma sobre a outra parece tornar-se mais evidente. um forte pressuposto subjacente da abordagem psicolingüística foi que a percepção da fala é uma imagem reflexa dos processos envolvidos na produção da fala. Justiça não evoca uma imagem concreta como no caso de mesa. democracia. as dificuldades em percepção são consideradas um reflexo direto das operações que têm lugar na produção da fala. parece que o surgimento da linguagem amplia as possibilidades da criança. concordar sobre se uma coisa é ou não uma mesa. Judith Greene escreve que aqueles que falam a língua-mãe nem sempre estão conscientes de suas intuições. também graças à linguagem. seria bastante difícil fixar seus significados com precisão. os objetos não são mais atingidos em sua condição de puro imediatismo perceptivo. essencialmente. comunismo e educação são termos familiares e. inclusive a nossa. devemos evitar o discurso para podermos alcançar o pensamento claro. mas que certeza podemos ter no que toca à justiça?" E conclui. a criança exprimirá." Na verdade. tem-se dado um valor extraordinário à verbalização como forma de simbolização dos fenômenos que se processam na mente. por extensão analógica. Woodworth.br/…/odesenvolvimento. Na realidade. Assim. a criança é capaz de evocar situações passadas. demonstrações de efeitos de percepção ou de memória devidos a variáveis tais como a complexidade transformativa.h… 6/27 . fornece um argumento sério contra a teoria segundo a qual o pensamento é. o símbolo de vários animais. Assim. pronunciando o au-au significativo. "a educação coletiva tende a forçar o pensamento a se sujeitar constantemente aos quadros das construções gramaticais." E não é só. no entanto. Por outro lado. Podemos. Isso vem acontecendo a tal ponto que "acarretou. como é um fato desta nossa civilização." As leis que regem o pensamento individual e que produzem a atitude analógica são responsáveis pelo desenvolvimento do simbolismo pelo qual se exterioriza a linguagem." Considerando a estrutura do pensamento e a estrutura da linguagem. um fruto da mesma forma e da mesma cor que aquele de que conhecemos o agradável sabor. a seguir: Tais conceitos provavelmente não existiriam se não houvesse palavras para eles. À página 85 de seu livro citado. mas inseridos num quadro conceptual e racional que enriquece a possibilidade de seu conhecimento.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM o pensamento e a fala. foram tratadas como prova direta de que essas mesmas operações são executadas pelo locutor quando produz sentenças. Por isso "colheremos.

Suponhamos. mas o instrumento e o suporte indispensáveis ao seu progresso. de modo que é mais fácil operar com conceitos codificados por uma só palavra do que com conceitos para os quais não há uma palavra especial disponível. a lição de Langacker: Não há quase dúvida de que as diferenças lexicais têm algum efeito no pensamento. mais fácil o pensamento. Se há. por exemplo. a sua ação recíproca restabelece rápido o equilíbrio. Como já mostramos anteriormente. que se manipulam sem dificuldade. quando pensamos em aritmética podemos empregar a palavra "aritmética" como um símbolo em nosso processo de pensamento. Esse problema não existiria se o pensamento fosse impossível sem a linguagem. O uso dos símbolos verbais torna. diz Wallon. Não teremos problema. "os estudiosos estão geralmente de acordo que as palavras facilitam em muito certos tipos de pensamento. "justiça". em muitos casos.. que "o pensamento antecede a linguagem. Mas não há absolutamente evidência que sugira ser essa influência de algum modo tirânica ou poderosa. tratando da evolução psicológica da criança. por exemplo. Pode-se mesmo argumentar que certos tipos de pensamento seriam impossíveis sem a existência desses símbolos com os quais podemos operar convenientemente. pelo menos no sentido de ser mais fácil pensar sobre coisas para as quais temos palavras. Não obstante.org." Por exemplo. portanto. a ambigüidade de sentenças como A caçada ao caçador foi terrível ou Eu tenho um livro roubado pode não ser notada..br/…/odesenvolvimento. Leiamos. uma vez assinaladas as duas interpretações possíveis (usualmente por meio de exemplos lingüísticos análogos). atraso de um sobre o outro. "nosso pensamento é condicionado pela categorização lingüística da experiência.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM particularmente num contexto apropriado. servindo como referências ou símbolos. contudo. A maneira. O problema. Não obstante. de determinar qual a influência da linguagem sobre o pensamento merece ser tratado com cautela.. a respeito. Numa outra parte ele nos apresenta argumentos que realmente esclarecem que a existência do pensamento sem a linguagem é óbvia. ". contudo. para nos lembrarmos da cor de um objeto vermelho ou azul.h… 7/27 . já por volta dos quatro anos de idade a criança tem elementos a partir dos quais já se pode afirmar. como já se supôs. ao apresentar o problema. Na verdade. Um deles é a experiência muito comum de querermos exprimir uma idéia e não podermos encontrar a maneira satisfatória de transformá-la em palavras. embora esta possa desempenhar um papel importante no sentido de concorrer para a aquisição de formas de equilíbrio mais avançadas e para a produção de esquemas representativos mais flexíveis ou móveis. por vezes. É muito mais fácil usar a palavra aritmética em nossos pensamentos do que operar com todo um complexo de conceitos simbolizado por essa palavra. há muito já se sabe que elas não são de causa e efeito. Chomsky afirma que. pela qual nossa língua divide a realidade conceptual tem pelo menos um efeito mínimo sobre o pensamento. que nos apresentem um objeto de tom marrom extremamente escuro. de conceitos como "democracia". Embora as relações entre linguagem e pensamento sejam profundas." Um exemplo dessa ação da linguagem sobre o pensamento está no fato de que as categorias gramaticais e demais diferenças entre as diversas línguas humanas facilitam o desenvolvimento de certas formas de pensamento para as quais a língua do usuário tenha uma forma lexical ou gramatical para exprimir." Portanto. a maior parte de nossos pensamentos envolve evidentemente a linguagem. filologia. Não há palavra comum em português especialmente para essa cor. etc. o conhecimento intuitivo da língua-mãe pelo locutor o levará a concordar que tais sentenças estão transformativamente relacionadas com duas ou mais estruturas profundas diferentes. tão escuro que é quase preto. muitas vezes de modo essencial." Aliás. Provavelmente hesitaremos em chamá-lo de marrom ou de preto. segundo Piaget. na verdade ela (a linguagem) não é a causa do pensamento. portanto.

através da linguagem interiorizada"." A linguagem. sustentar a ação. em dosagens muito variáveis. através da linguagem. assim.br/…/odesenvolvimento. que. aos 14/16 meses de idade parece certo que as crianças têm sua conduta regulada pela palavra do adulto. no final de contas.h… 8/27 . Solicitada a dar um objeto colocado diante dela. quanto para brincar." Enfim. na função da linguagem. bastante tempo antes de Chomsky se lançar como luminar da teoria gerativista-transformacional. filologia. d) uso representativo. necessariamente. Penna acrescenta que "A função reguladora da palavra não se mantém senão na medida em que ela não entre em conflito com as particularidades da situação exterior. segundo as circunstâncias e mesmo de um a outro momento da oração. e) uso dialético. se podem distinguir os seguintes usos: a) uso afetivo. na realidade. precedendo o uso lúdico. depois. analisando-as meticulosamente. e este último precede o uso prático." E acrescenta: "Entre a linguagem e o pensamento existe. coexistem segundo condições variáveis. no adulto. Citando Luria. pois. b) uso lúdico. No início. todos esses usos se organizam estreitamente. e a Psicologia. devendo-se "distinguir nitidamente o âmbito da Lingüística. substituir as narrações à ação e fazer operações simbólicas abstratas.org. as regras subjacentes na aprendizagem da língua devem ser características do modo como funciona a mente humana. o uso representativo se elabora a partir do uso prático. Mas ambos dependem.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Como a capacidade para aprender a falar uma língua é básica na inteligência humana. "o pensamento deve ser verbal para poder comunicar-se. inicialmente controlada pelos adultos sob a forma de incitações e recomendações verbais. Ofélia Boisson Cardoso. que é anterior à linguagem e independente dela. vê-se que o uso afetivo é o mais primitivo. mas ela não é a sua fonte. Os diferentes usos acima considerados evoluem do mais automático para o menos automático ou voluntário. Diga-se a propósito que Piaget já pensava de modo semelhante. pensamento e linguagem. não possam coexistir. portanto. O adulto utiliza a linguagem tanto para exprimir estados afetivos. A montagem das conexões perceptomotoras far-se-á com certa lentidão." Isto significa que a resposta não exija uma escolha entre um número muito grande de possibilidades e/ou obstáculos. c) uso prático. através da Sra. mais tarde. se ocupa em examinar o próprio conteúdo da consciência humana. A Psicolingüística tenta definir tais relações nos ouvintes e falantes. Não obstante. USOS E FUNÇÕES DA LINGUAGEM A linguagem tem uma grande importância na organização da conduta da criança e no seu desenvolvimento. enquanto o dialético é o último a se manifestar. poderá ser estudada sob vários aspectos. pela própria criança. progressivamente passa a ser controlada por ela própria. que estuda a atividade pela qual se comunica um conteúdo de consciência de um indivíduo a outro. como a Lógica. a momentos sucessivos da organização da função. Primeiro a sua influência é feita de fora para dentro. ao mesmo tempo. O fato de esses usos pertencerem a níveis diferentes de evolução não significa que. André Ombredane. passa a se projetar de dentro para fora." Deste modo. do mais simples para o mais complexo. o que quer dizer que eles correspondem. se bem que não seja freqüente aprender cada um deles em estado de pureza. um círculo genético tal que um dos dois termos se apóia. têm muito em comum. dominantes em quem fala. sobre o outro numa formação solidária e uma perpétua ação recíproca. e do mais organizado para o menos organizado. dá-nos o seguinte depoimento: Pensamos que. da própria inteligência. não estão no mesmo nível. Na linguagem constituída do adulto. essas várias atitudes se entrelaçam completamente em todas as orações. No desenvolvimento da linguagem da criança. ela o fará sem maiores dificuldades. embora não sendo uma mesma coisa. "A conduta da criança. todavia. quando escreveu que "a linguagem estende indefinidamente o poder do pensamento e lhe confere uma mobilidade que ele não poderia atingir por si mesmo. o controle da conduta é feito pelos pais. Esses usos. que serão analisados adiante. Tal já não acontecerá a partir do momento em que se aumente o grau de complexidade da situação.

21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM No caso de uma insanidade mental. modificações profundas que se comparam estreitamente aos agramatismos dos afásicos. Também Osgood é da mesma opinião que Ombredane. interjeições e blasfêmias. as formas que primeiramente são atingidas são exatamente as menos organizadas. Elas neutralizam o timbre pela inércia dos músculos que controlam os ressonadores e as lâminas vibrantes do canal vocal. digno de nota que o grande número dessas emissões verbais espontâneas e impulsivas seja constituído por fórmulas que. pela modulação da voz e pelo ritmo da emissão. embora se reserve um pouco. a que se pode denominar agramatismos. mais complexas e menos automáticas. isto é. sobretudo. relaxando a contração dos músculos que governam a abertura da glote e a extensão do segmento vibrátil das cordas vocais. escreve Antônio Gomes Penna que. acarretam um alongamento da duração das emissões fônicas. particularmente dos membros superiores e do rosto. No seu Método e teoria da Psicologia Experimental. em relação ao sentido.br/…/odesenvolvimento. Mas. elevam o tom. abreviam a duração das emissões vocais. "na medida em que se instalam condições psicopatológicas decorrentes de lesões cerebrais no falante. de alterações de estrutura às quais cabe a denominação de agramatismos. A reprodução artificial das gesticulações. sendo menos categórico no que afirma. cada um de seus usos corresponde a uma estrutura particular da frase. pelos usos graduados da língua e pelas modalidades de seu emprego. há na expressão espontânea elementos que o indivíduo não pode voluntariamente pôr em ação: variação de tonus. as interjeições. escreve que "parece provável que os mesmos filologia. Como fez notar Georges Dumas. as formas afetivas." Como veremos no lugar próprio. 2) pelo emprego espontâneo de exclamações. É. a cabeça se inclina no desgosto. primeiro na ordem de aquisição. Como assinalou Jackson. Ombredane conclui que a linguagem afetiva ultrapassa a atividade verbal. segundo. de resto. diminuem a altura. 3) por degradações da língua. como se configura através do emprego exclamativo ou interjeitivo de termos predicativos e. um retardamento da emissão. como observou Georges Dumas. a gesticulação não está codificada em uma língua. registram-se dissoluções que logo atingem as duas formas superiores de utilização dos signos verbais. as blasfêmias constituem os elementos fundamentais da linguagem afetiva. Assim. As emoções excitantes têm efeito contrário: aumentam a intensidade da voz. as emoções depressivas diminuem a intensidade da voz. as exclamações. reações secretoras. caracteriza-se por três ordens principais de fenômenos: 1) por modulações de voz e variações de ritmos. persistindo as formas beneficiadas por maior organização e maior automatismo." a) "Uso afetivo — conforme Ombredane — é o mais primitivo e o mais consolidado dos usos da linguagem. primitivamente. contrações dos músculos lisos. Só em casos extremos seriam afetadas as funções e usos mais simples. Nota-se que." Sobre a origem deste uso. Tem origem na expressão espontânea das emoções e também nos gestos pelos quais se preparam e esboçam as ações. as formas representativa e dialética. que participam naturalmente dos estados afetivos e dos impulsos à ação. como nos sinais fonéticos. O uso afetivo da linguagem oral se manifesta principalmente de duas maneiras: primeiro. O indivíduo pode usá-los mais livremente. Os gestos não adquiriram uma significação arbitrária.org. origina-se da pura expressão espontânea das emoções e dos impulsos para a realização de atos. lúdicas e práticas. no que concerne ao uso afetivo. e é no uso afetivo da linguagem que eles encontram seu melhor rendimento. e que nos usos inferiores essa estrutura comporta.h… 9/27 . normalmente. tornam a emissão mais rápida. no campo da linguagem oral. pela diminuição da força dos músculos expiradores e da energia da corrente do ar expirado. O punho cerra-se na cólera. Dela participa a gesticulação de todo o corpo. mas sua capacidade de expressão se acha singularmente limitada. como está em certos meios da linguagem por gestos. constitui a mímica. enriquecem o timbre. "nas condições normais de linguagem. tiveram valor predicativo. isto é. Fundamentalmente.

dos chistes. A que motivos obedecem tais jogos verbais? Percebe-se que esta atividade. de soldados numa ação militar ou de homens impulsionando em grupo algo demasiado pesado. Do mesmo modo. a princípio. quer se trate de crianças brincando. "no adulto. quando as emissões verbais são cada vez mais determinadas pela significação. Mas. condensações de palavras e jargão. pertencentes ao vocabulário da língua. caracterizando-se por repetições ritmadas. etc." Aliás." filologia. que deixa aos efeitos vocais a função expressiva. Mas pouco lhe importa. duas características notáveis: em primeiro lugar. Observa-se a repetição palilálica de um mesmo fonema. uma preocupação semântica que a impele primitivamente a essa conduta. Ela brinca de responder a um som ouvido pelo que ela sabe emitir. e isso se verifica no fato de. ou então do agrupamento de vários fonemas. na linguagem afetiva do adulto. assim que o som emitido se assemelha ao percebido. que adormece a inquietação muscular e leva o corpo a um estado de euforia. o uso que decorre de emissões sonoras vinculadas aos estados de satisfação ou de calma. em frases absurdas e incoerentes. Bem antes de a criança poder fixar e utilizar palavras. Também observa-se. inicialmente. É a esse uso que se vinculam as lalações. veremos que ele é. sejam quais forem um e outro sons. e uma estrutura se esboça nesses jogos. com expressão oral interrogativa. Ela designa objetos um após outro. de onde nasce uma espécie de acalanto. é o das perguntas e respostas. a indeterminação do signo verbal. Sente prazer nesse circuito que vai do ato fonético à impressão acústica que o segue." b) Uso lúdico — Começando com Penna. em segundo. com o aparecimento de lapsos. evolui para jogo de repetição de fonemas emitido pelos que cercam a criança. a resposta. visto anteriormente. que a aproxima da linguagem infantil. Um jogo de nível mais elevado. revelam-se as funções lúdicas através dos trocadilhos.h… 10/27 . Aqui se situa a origem da imitação. A criança emite sons e se ouve a si mesma. desenham-se motivos regularmente renovados. a emoção acarreta uma degradação da linguagem.org. desde o período da lalação. entre outras. o jogo das mudanças fonéticas muda para o jogo das descobertas fonéticas. mas. a aplicação do mesmo signo verbal a situações diferentes em virtude da analogia do tom afetivo fundamental. sem se prender às regras da língua. os jogos da linguagem proporcionam o prazer de uma atividade sem constrições. que serve de base ao uso representativo. poderíamos dizer que a função emotiva ou expressiva da linguagem corresponde ao uso afetivo. ela pergunta o nome dos objetos. o uso lúdico da linguagem corresponde à função poética de Jakobson. Mais tarde. no seu livro.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM padrões neurais eferentes que produzem o relaxamento da musculatura do corpo. também sirvam para provocar o relaxamento dos músculos que participam da vocalização. o enfraquecimento das estruturas verbais. Quando as lalações começam a apresentar cristalizações. formando um motivo melódico que se renova por tempo mais ou menos longo. Em suas manifestações superiores." De certo modo. associa palavras. O uso lúdico aparece cedo. que é a função dominante da linguagem literária e que está centrada sobre a própria mensagem. ela não esperar a resposta para continuar seu interrogatório. aparece a repetição ritmada. acrescenta Ombredane que "a linguagem infantil apresenta em seu uso afetivo. Não é. "fundamentalmente. Encadeia fonemas em grupos desprovidos de significação. de outro lado. pois ela exprime a atitude do sujeito em relação àquilo de que fala e está centrada sobre o sujeito emissor. no fundo dessa verbalização. a princípio. porém. a maior tensão na musculatura do corpo é acompanhada por uma crescente tensão nos músculos vocais.br/…/odesenvolvimento. sobretudo a que se cumpre em condições coletivas de colaboração ou de rivalidade. autônomo. A Afasia e a Elaboração do Pensamento Explicito. "o uso prático define a linguagem que tem por fim facilitar a ação em processo de desenvolvimento. muitas vezes." Detalhando um pouco. Quando a criança atinge o uso representativo da linguagem. que vão assumindo o aspecto de uma litania poética. c) Uso prático — Segundo Ombredane. Esse jogo de repetição ritmada que é. busca a satisfação decorrente do estabelecimento de um ritmo e a reprodução constante e monótona de certos motivos. continua a verbalizar livremente. quando a criança se submete às leis da língua. e o adulto deve responder-lhe.

org. à função metalingüística. ela implica. então. que sublinham as surpresas. COMPETÊNCIA E DESEMPENHO filologia. de operários no trabalho. Não se trata aqui. em parte. as censuras. em uma área particularmente artificial. do que se supõe conhecido de todos. pequenas palavras obscuras que pontuam a ação. A cada passo da ação a linguagem prática indica a direção a tomar. É importante notar que se encontra a linguagem prática na atividade do indivíduo isolado: ordens ou desculpas.br/…/odesenvolvimento. tem por efeito de facilitar a ação. o que o distingue fundamentalmente da linguagem representativa. os fracassos. explicar. A Afasia e a Elaboração do Pensamento Explícito. de contar. para ingressarmos pela situação concreta. os esforços. etc. Entramos. e que tem como finalidade atuar sobre este mesmo sujeito. às funções referencial e conativa. excitantes ou inibidores. se é que se pode fazer um relacionamento entre o uso representativo e as funções da linguagem. as ordens. é esta atitude do chefe que se observa em todas as formas da linguagem de ação. uma atitude totalmente diversa da que domina aquele que está verdadeiramente envolvido na ação: a atitude didática é aquela que caracteriza o indivíduo que realmente não age. à função referencial. que o que caracteriza. as aprovações. visto que a função referencial está orientada para o referente. de crianças brincando. influenciando o seu modo de pensar. André Ombredane afirma que o uso prático. Os chamados. quanto a fazer e a desfazer combinações simbólicas. e. as indicações. d) Uso representativo — Continuamos na linha de Ombredane em seu livro. somente depois de uma certa vivência a criança pode desenvolver tais usos da linguagem. a realidade extralingüística para que aponta o significante) e a função conativa. Os conteúdos aos quais o sistema de signos pode ser aplicado são indiferentes. Segue-se que a linguagem prática é caracterizada pela redução extrema dos elementos representativos e pelo desenvolvimento máximo dos elementos sugestivos. Isso é evidente quando se trata de ações feitas em condições coletivas de colaboração ou de rivalidade. aquilo que está ausente e onde é necessário supor situações que existem. que marcam as articulações. quer se trate de soldados em guerra. o uso dialético e mesmo o uso representativo. essencialmente. conclui Ombredane. o seu comportamento. à qual Pierre Janet atribuiu grande importância na gênese da linguagem. podemos dizer que o uso prático corresponde. e) Uso dialético — "O uso dialético da linguagem pode ser entendido como um uso formal que não se destina tanto à descrição ou ao relato. aprovações e queixas de si para si. mas o que a distingue é a importância do suposto conhecido. os sucessos. para o contexto (a coisa." Como se vê. o uso prático. Da mesma forma. prende-se à linguagem representativa. expor. na imaginação. Enfim. cujas citações foram todas por nós traduzidas sem transcrição do texto francês a que sempre nos referimos: Com o uso representativo da linguagem. de um certo modo. denotativa ou cognitiva. pois que abandonamos o domínio da linguagem determinada pelo estado afetivo do momento. as interdições constituem a atividade de chefe. Por esse lado. a técnica a empregar. A álgebra é a forma mais elaborada deste uso. A ação representada é uma ação destacada da situação atual. pelo menos. nós ultrapassamos um limiar importante. da parte do sujeito. orientada para o destinatário ou sujeito receptor.h… 11/27 . Corresponde. são adquiridos pela criança só bem mais tarde ou. Em relação às funções da linguagem jakobsonianas. trata-se de adaptar prontamente a ação de cada um às circunstâncias que são percebidas por todos. é a importância do que é fornecido pela situação. aproximadamente e em parte. indicações de objetos e de gestos.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Noutro lugar. onde se impõe ter-se presente.

Não importa de que maneira seja a sinfonia executada. filologia. assim como uma sinfonia não é afetada quando não é bem executada. As regras que determinam as frases bem construídas de uma língua constituem um elemento essencial do mecanismo psicológico envolvido na fala e na compreensão. ao atingir a idade de cinco a seis anos.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Uma criança. das quais ele fará uso em situações concretas. normalmente já adquiriu os elementos básicos de sua língua materna. porque logicamente uma descrição da competência lingüística precede uma descrição do desempenho lingüístico. podendo criar e compreender naturalmente um número quase infinito de frases que ainda não se tinham apresentado formalmente diante de si. Ter uma competência lingüística. conforme declara Judith Greene. Segundo ela. A estrutura de uma língua não é afetada quando seus falantes fazem erros ao falar. Uma língua é um conjunto de regras dominado pelo falante. a partir das quais ele se torna um falante competente. servimo-nos dessas regras quando produzimos e compreendemos frases. mas não podem ser equiparados a esse comportamento. antes. tenhamos uma noção da natureza da competência lingüística de quem aprende a falar uma língua. e desempenho. Judith Greene tentou esclarecer o que seria o desempenho e a competência e o faz comparando as regras de condução de um automóvel com a competência e o seu uso com o desempenho lingüístico.br/…/odesenvolvimento. Uma pessoa que aprendeu uma língua — diz Chomsky — adquiriu um sistema de regras que relacionam som e significado de um certo modo específico. A tal respeito escreve Langacker que uma língua é um conjunto de princípios que estabelecem correlações entre significados e seqüências de sons. O comportamento verbal real não passa de uma manifestação indireta das regras psicológicas que fazem única a linguagem humana. Fazendo também uma comparação. considerado área de interesse da Psicologia. considerada área de interesse da Lingüística. "Um dos pontos principais que os teóricos da gramática gerativa estabeleceram como princípios é justamente a prioridade da elaboração de um modelo de competência do sujeito que fala. Da mesma forma. simplesmente. aquisição e desenvolvimento da linguagem será necessário que.h… 12/27 . Esses princípios estão subjacentes e tornam possível a comunicação através de um comportamento verbal exterior. ela adquiriu uma certa competência que coloca em uso na produção e compreensão da fala. É um sistema musical abstrato que está subjacente à atividade dos músicos. Por outras palavras. Essas regras colocam uma classe ilimitada de frases à disposição do falante. não é nada que um falante faz. portanto. A competência refere-se à linguagem no sentido do que constitui a capacidade para falar uma língua. O desempenho. ela permanece inalterada. a Profa. "a aptidão para usar as regras de condução de um automóvel a fim de desenvolver uma nova combinação de movimentos de pé e mão quando deparamos com um outro tipo de automóvel que nos é estranho. as tentativas para solucionar a disputa de fronteiras entre Lingüística e Psicolingüística gravitam em torno de uma distinção entre competência. por outro lado. um sistema lingüístico está subjacente à atividade verbal de seus falantes.org. subjacentes em todos os falantes nativos de qualquer língua humana." Essas regras gerativas a que se refere Greene são as regras da gramática gerativa da língua do falante. Na página seguinte ele continua: A preocupação do lingüista pela competência lingüística é. a questão é que nem sempre existe uma correspondência exata entre as expressões de um locutor e as regras lingüísticas da língua. Para compreendermos bem a natureza. refere-se às expressões produzidas pelos usuários da língua. O mesmo tipo de distinção pode ser feito entre uma sinfonia e sua execução. mas que não pode ser equiparado à sua atividade. é dominar as regras gramaticais dessa língua. é comparável ao uso das regras gerativas para produzir sentenças novas. Uma língua é um conjunto abstrato de regras psicológicas que constituem a competência de uma pessoa como falante. sendo que o modelo de 'performance' só pode ser estudado depois." Como a competência lingüística se reflete no desempenho.

quando o adulto conservaria marcas de gênero ou concordâncias em frases do tipo: Mamãe e papai comprou dois carro. Como é natural. ao dirigirem "a atenção para o comportamento dos indivíduos quando usam sentenças. as investigações psicológicas do desempenho lingüístico podem ser importantes no esclarecimento de dados lingüísticos. no sentido de que conterá muitas expressões divergentes que. pois ela não pode formular julgamentos gramaticais. de nada adiantaria a existência de tais estabelecimentos. Implica também que." Dentro da área da Lingüística. ou seja. filologia. trouxe a lume.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Aliás. pelo seu próprio fracasso. terão que ser expungidas dos dados. e é justamente essa competência lingüística que está subentendida no desempenho lingüístico do adulto." O trabalho dos psicólogos da linguagem. Seria muito bom se todos os que militam no magistério primário. Aliás. "não é possível avaliar a competência de uma criança pequena. Por isso. ou seja. e mais ainda. um pouco menos. amostra essa que será não só limitada mas também susceptível de degenerar. A AQUISIÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Trataremos. só nessa segunda parte é que trataremos de uma pedagogia da linguagem. melhor dito. psicolingüistas e lingüistas. "Uma gramática deve fornecer a melhor descrição possível de uso lingüístico". e mais. de um modo ou de outro. tivessem uma noção bastante lúcida deste aspecto do desenvolvimento da criança. feita. em pesquisas dialetológicas." E Judith Greene escreve que uma teoria gramatical deve poder explicar como uma criança é capaz de desenvolver um sistema de regras gramaticais que gerarão todas as sentenças possíveis. a influência de muitos fatores inesperados. sob o título de APRENDIZAGEM DA LINGUAGEM. à busca de uma relação um-a-um entre regras gramaticais e desempenho dos sujeitos. durante o processo de aprendizagem. Isto não é somente uma hipótese acerca do modo como uma criança aprende uma língua. se os poucos privilegiados que participam dessas pré-escolas não tiverem a possibilidade de aproveitar das vantagens que lhes cabem. As frases pronunciadas por crianças são. Como as gramáticas se baseiam nas expressões dos que falam a língua-mãe ou. em suas intuições sobre expressões possíveis. a produção oral. neste capítulo. Tal estudo. Essa observação não leva em conta supressões feitas pelas crianças. pode servir de base de estudo. os que se preocupam com o desempenho da linguagem desenvolvem um estudo que se denomina Estilística. a criança deve ter uma representação inerente dos princípios da gramática universal (que descreve as formas e relações gramaticais que são comuns a todas as línguas. geralmente. como é que ela faz isso com base na amostra de dados lingüísticos a que se encontra exposta. "da competência de quem usa uma determinada língua. as regras gramaticais de sua língua estão sendo internalizadas pela criança. comparadas às que os adultos empregam no 'estilo telegráfico'. jardim de infância e pré-escolares em geral.org.br/…/odesenvolvimento. às vezes. que Chomsky denominou universais lingüísticos) que restringe a sua escolha de possíveis conjuntos de regras gramaticais. no entanto. O argumento é que. Somente a 'performance'. podemos nos referir a uma distinção entre sua competência lingüística e seu desempenho lingüístico. "é fundamental distinguir entre a estrutura de uma língua e a maneira como essa estrutura é usada. tem-se desenvolvido mais especificamente em relação à língua literária e. No que diz respeito ao falante. As regras da gramática estão internalizadas na cabeça do locutor e fornecem a base para a sua compreensão das relações lingüísticas. na escola. da aquisição espontânea e natural da linguagem nativa sob o título geral acima e da aquisição artificial.h… 13/27 ." Mas essa descrição nada teria a dizer sobre as regras ou operações efetivas por meio das quais um usuário da língua realiza essa produção. para que isso seja exeqüível. os especialistas em ensino maternal.

já que. Toda criança normal que não seja isolada do uso da linguagem começa logo a falar naturalmente uma ou mais línguas. satisfazendo-se no próprio exercício. porém. b) O Empirismo — declara que a linguagem infantil se forma pela imitação. quando mais rudimentares são os processos de aquisição. Não temos a intenção de discutir aqui todas as teorias e respectivas refutações. admite uma atividade congênita. Budin. Assim. Principalmente a figura da mãe. ou tentando por meio da linguagem infantil transpor a distância entre sua competência lingüística amadurecida e a competência incipiente da criança. ela não pretende comunicar-se. Os pais podem gastar horas "reforçando" toda parcela de atividade verbal reconhecível de seus filhos com um sorriso ou outra recompensa. em sua Metodologia da Linguagem. através de estímulos exclusivamente sonoros. tal como essas modificações são perceptualmente assimiladas pelo falante. sons próximos das vogais. A idéia central é a de que o domínio da linguagem segue rigoroso paralelismo com as modificações da constelação familiar. absolutamente espontânea. A importância das interferências emocionais no desenvolvimento da conduta verbal permite situar o problema da assimilação das formas verbais como um problema vinculado ao aprendizado de novas posições e de novos desempenhos funcionais no interior do grupo. ainda não se tem uma explicação suficientemente clara e incontestável sobre a aquisição da linguagem. que atuará emocionalmente com uma grande intensidade na psique da criança que inicia a aquisição da linguagem. começando pela observação de todas as suas reações verbais mais elementares. o grito da criança contém. involuntária e ancestral (impulso ou instinto de linguagem). semelhante à etiqueta. Isto não significa que a figura dos pais não tenha a mínima importância para a aquisição da linguagem pela criança. sem a qual não pode haver imitação. em início. mas duas teorias explicam (cada uma negando a outra) a germinação da linguagem infantil: a) O Nativismo — dá grande importância ao poder inventivo da criança (imaginação). apesar de todos os esforços concentrados de pais extremosos. instintiva. As crianças podem aprender uma língua brincando com outras crianças que a falam o melhor que podem. Emitindo os sons que imita. Uma terceira teoria. de jogo. Não é bem esse o processo. abstraindo e generalizando. "em essência." Aliás." Até hoje.h… 14/27 . Só depois de vencida esta etapa.org. semelhantes a sopros que se produzem na respiração. escrevendo que argumentar-se-á com o fato de ser a linguagem adquirida. Em seu livro. na época própria em que filologia. apenas. Mas não há razão especial para crer-se que tal atividade tenha qualquer conexão com o êxito final da criança ao tornar-se falante nativo da língua de seus pais. sem a qual se torna impossível a seleção das palavras. o som como que já se tornou concreto: e. poderá a criança comunicar-se usando a palavra. conciliatória (acrescenta Budin). A única coisa aparentemente necessária é ficar suficientemente exposto à língua em questão. o conteúdo das expressões verbais está condicionado à imitação. Veremos que "as crianças mostram uma habilidade surpreendente para falar com fluência qualquer língua constantemente usada ao seu redor. o que é mais importante é que a aquisição da língua vernácula pela criança independe de qualquer orientação especial. A criança realmente percebe sons e os imita. que atende à inquietação muscular. Pelo contrário. tornou-se consistente. De fato. dada a extensão do trabalho. Ofélia Boisson Cardoso trata do mesmo tema. infelizmente. mas não intencionalmente. há uma atividade lúdica.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM J. muito do que ela diz será produto de uma atividade criadora. mas apenas abordar o assunto de uma maneira que nos pareça satisfatória. ela será importantíssima. escreve que "o melhor meio de acompanhar a formação espiritual e humana da criança consiste em seguir-lhe o desenvolvimento da linguagem". quando chega a fazê-lo intencionalmente. não há um determinado alvo a atingir.br/…/odesenvolvimento. o que não diminui o valor da espontaneidade. acrescidos de outros. Psicopatologia da Linguagem (Alguns Temas).

por sua universalidade em toda a raça humana. quando uma criança mostra todos os sinais de linguagem egocêntrica e é colocada num grupo de crianças surdo-mudas ou entre estranhos. maternal. que. nos primeiros anos de sua vida. As diferenças são realmente mínimas quando se comparam com o vulto dessa realização. No entanto. a criança sente que todos os outros percebem o que ela percebe e compreendem o que ela compreende. são de importância fundamental. abrangendo princípios de organização altamente abstratos. as pessoas de quem ela mais depende afetivamente. Normalmente. que se compreende a palavra antes que se possa observar a sua utilização. a usar instrumentos. elas podem ser os avós.org. Simplesmente não há casos de crianças normais que. A aquisição da linguagem é uniforme na espécie humana. Também é cabida aqui uma observação sobre a importância das modificações da "constelação familiar". Esta capacidade de aquisição da linguagem é notável por várias razões. sob certo sentido. etc. constituindo as estrelas principais do lar. Antes de A. qualquer criança consegue dominar pelo menos um desses sistemas. o sistema lingüístico dominado pela criança é idêntico para todos os fins práticos ao sistema empregado pelas pessoas que a cercam. Para a criança. O processo é ainda mais notável pela relativa rapidez e por sua perfeição. a babá poderá ter uma influência "maternal" sobre a criança muito maior do que a mãe. depois que o "caçula" já está de uma certa idade. é dominar um certo número de condutas das quais fomos inicialmente apenas espectadores. Por isso. mostrou-se capaz de um mínimo de progresso nesta direção. tais pessoas são os pais. acrescenta Langacker. a babá. segundo Vigotski. seja como substituta ou como auxiliar dos pais. por exemplo. como é o caso da mãe operária. Merleau-Ponty já afirmara que "toda linguagem é. sobretudo. é claro." É claro que o que aqui se fala em relação à mãe ou aos pais é válido para qualquer pessoa que tenha grande influência. Além disso. quando surge um neném. Tal como as relações da criança com sua mãe. haverá um grande impacto psicológico-emotivo sobre tal criança. a criança usa a sua linguagem egocêntrica como forma de comunicação com os outros. Vigotski admite. sensível ao aprendizado da fala. Demonstrando o caráter essencialmente socializado da conduta verbal. mas nenhum outro animal. Assim. fala menos do que sob outras condições.br/…/odesenvolvimento. Toda pessoa normal aprende uma língua humana. continuam. será a forma como se irá viver a relação com a figura materna.h… 15/27 . nem mesmo o macaco mais inteligente. Significativa. conseguirá manter os dois sistemas lingüísticos separados. a partir dos quais se desenvolve o discurso. Penna. quando esta passa maior parte do dia separada do filho. David Krech e Richard S. Crutchfield escreveram. G. provavelmente aprenderá as duas. Se a criança for regularmente submetida a duas línguas. por volta de filologia. embora alguns animais possam aprender a resolver problemas. É também específica da espécie humana. nesta primeira fase da vida da criança. Em primeiro lugar. A abundância das pesquisas realizadas sobre o processo do desenvolvimento da linguagem permite que se considere que os primeiros sons emitidos por um recém-nascido são os elementos manifestos. etc. Vale dizer. em seu livro.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM ele se revela. que a natureza egocêntrica da linguagem da criança resulta da diferenciação insuficiente entre o seu mundo interior e o mundo social externo. Elementos de Psicologia. tendo tido a oportunidade. pois que a linguagem do falante. praticamente. descobrimos ser ela extraordinariamente complexa. isto acarretará uma modificação muito grande em relação a ele. Aprender a falar é aprender o desempenho de um certo número de papéis. inúmeras e importantes discordâncias existem contra a afirmação de Piaget de que a resposta verbal da criança é egocêntrica. ainda mais. Por exemplo. inclusive com perigo de algum tipo de retrocesso no seu processo de desenvolvimento. o que em si é também um feito considerável. Mesmo assim. os irmãos. Por exemplo. se revela essencialmente maternal. que as vocalizações são utilizadas como meios de comunicação antes da aquisição da própria palavra. sem dúvida. Quando tentamos analisar uma língua para ver como funciona. que a criança normal possui um repertório de apenas algumas palavras. ou isolada num canto. também a aquisição da linguagem é um fenômeno de identificação. em sua fase inicial. não tenham adquirido uma língua nativa.

Entre os 10 e os 14 meses. — 20 palavras aos 15 meses. Começa por imitar a si mesma. Vêm. Aos oito meses.. por sua vez. aparecendo. os gestos são acompanhados de vocábulos. Do terceiro mês em diante. a criança deve.org.. expressões traduzem estados de satisfação. seguindo-se os verbos e os adjetivos e. dependendo o seu emprego específico do processo do desenvolvimento. para reproduzir as nossas palavras. que os substantivos aparecem primeiro. Ora. da vida alheia. às vezes. A título de exemplo. em longos e intermináveis monólogos. associações entre uns e outros. os labiais: p. As primeiras manifestações intencionais de comunicação vão desenvolver-se progressivamente: os substantivos aparecem primeiro. primeiro. É a fase do balbucio. o que faz pela imitação. de cólera ou de indiferença. combinar os elementos lingüísticos de que dispõe. b. — 23 palavras aos 18 meses. que as primeiras palavras têm função de sentença e que as combinações de palavras aparecem relativamente tarde. à medida que se dá o desenvolvimento. que as palavras são utilizadas. Os olhos buscam a pessoa que fala. os nenês emitem todos os sons da linguagem humana. embora. mas que. a linguagem da criança seja o eco de tudo quando ela ouve. ainda..21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM um ano. As primeiras reações resultam unicamente da impressão sonora. pois. — 3ª fase: A criança compreende algumas palavras sem poder repeti-las. Vejamos. uma palavra característica ou um conjunto indeterminado onde sobressai uma espécie de melodia da linguagem. Paulatinamente o idioma passa a ser compreendido de maneira mais precisa: há manifestação da própria vida. antes dos 10 meses. sons guturais e nasais para os quais não existem símbolos. aos seis meses. determinam uma linguagem própria. entretanto. eis a progressão constatada numa criança: — 3 palavras aos 12 meses. por último as guturais: k. m. aos nove. que o desenvolvimento no curso do primeiro semestre do segundo ano é lento. existem movimentos independentes. sem lhe atribuir significação particular. filologia. mais tarde. primeiro. de algo que podemos chamar de realidade. a seguir. as palavras exprimindo relações. as diferenças de sons se tornam acentuadas e correspondem a estados de alegria. depois os verbos. sem imitações. Segundo Jean-Yvon Lanchec. Atua sobre a criança um som vocal. A expressão vocal é espontânea.. compreendem-se gestos simples. uma grande aceleração se registra quanto à aquisição de respostas verbais. apenas. formam-se. g. O sentido das palavras representa todas as vivências que a criança obtém pelo ouvido e que. A criança brinca com os sons do mesmo modo por que. a imitação dos outros já é mais difícil. é pronunciada a primeira palavra com significação. mais tarde. ao fim desse mesmo ano. Depois. contradiz inteiramente a noção de que a criança gradualmente se torna capaz de produzir vários sons. r. movimenta os braços e as pernas. — 2ª fase: A criança tenta imitar o que escuta. a criança passa pelo estágio pré-verbal: — 1ª fase: A criança manifesta oralmente suas sensações agradáveis e desagradáveis. os adjetivos e os advérbios. Uma afirmação mais precisa seria dizer que se modificam as freqüências comparativas dos vários sons da linguagem.h… 16/27 . aproximadamente. o mesmo acontecendo com relação aos objetos (indicados pelo olhar) e seus respectivos nomes.br/…/odesenvolvimento. Isso. aos dois ou três anos. a abordagem da evolução ou desenvolvimento da linguagem nos primeiros anos da vida da criança: Nos primeiros dois meses de vida. conclui Osgood.. e só ao fim do segundo ano os pronomes. num sentido geral. em que são empregadas todas as vogais e grande parte das consoantes.

no entanto. Verifica-se um como encaixe de duas frases de uma única palavra. H. se formam termos novos. Às vezes acontece também que o outro indica um aspecto particular: "Mamã vem" (= Mamãe. É o estágio da palavra-frase. A oração de duas palavras surge quando a criança completa um ano e meio. em torno daquilo que já é conhecido. que empregava a palavra ‘robe’ para designar tudo o que se relacionava com o passeio (robe. "olha" (= veja o resultado! olha o resultado ou o que aconteceu!). Eles servem para manifestar a vontade: "coloque". então. porque a criança começa a perceber o valor das palavras dentro da sentença. verbos no infinitivo (ou forma invariável na terceira pessoa). numa ordem bem precisa: a classe pivô (P). ou ainda o resultado de ações: "veja". abranger o conteúdo total. Em alguns casos. a partir de uma classe-pivô: artigos. os períodos mais longos também já estão aparecendo. ou mesmo mais tarde. a um conjunto coerente. Tratando das pesquisas que sobre o assunto se fizeram a partir de 1960. e a classe aberta (O). a uma "gramática" particular. inclusive. Esse domínio das primeiras reuniões de palavras desenvolve-se entre dois e três anos. a reunião de duas palavras constitui a primeira frase elementar. em cinco meses. Nomeiam-se pessoas ou coisas que participam de um acontecimento. O emprego de formas variadas traduz. Depois. Cada um dos vocábulos poderia. venha!). os adultos. cinco classes gramaticais aparecem. a qual permite à criança constituir. compreendem pouco as crianças que não conhecem bem. voiture). entram em uso as desinências. as palavras da criança não têm flexão: substantivos. os períodos mais longos começam logo a aparecer rapidamente. dando-se o oposto com as que figuram na sua órbita familiar. Bloch. por si. cada um dos termos pode ter um valor de palavra-frase. após o aparecimento de frases com duas palavras. adjetivos e pronomes possessivos. Até aos dois anos.org. vários acontecimentos se confundem na mesma frase. adjetivos. necessidade de expressar coisas diferentes. Frases de uma só palavra — Os adultos exprimem por meio de uma oração o que as crianças fazem com um só vocábulo. cada um. cujos elementos são mais numerosos e menos empregados. As frases de duas palavras são formadas a partir de classes gramaticais. "quero". O nome de um objeto serve para designar todas as ações com ele relacionadas. chapeau.br/…/odesenvolvimento. As formas difíceis tardam mais: conjunções. adjetivo na forma positiva.h… 17/27 . filologia. Delacroix cita o exemplo de uma menina observada por O. A segunda pessoa só aparece mais tarde. formada por poucos elementos utilizados freqüentemente. em geral. preposições e numerais. Lanchec escreve: Essas pesquisas consideram que a criança passa por uma sucessão de estágios que correspondem. "existe uma base relativamente pequena de formas adquiridas. quando aparece o uso das desinências. sem corresponderem às classes gramaticais dos adultos. por si mesma. Os verbos manifestam-se no vocabulário com um atraso de um a cinco meses em relação ao substantivo. Assim. já que. Aliás. "levanta". o que às vezes torna a diferenciação delicada. Temos assim frases (S) do tipo: S Õ (P) + O meu pé Exemplo: (P) = alegre + O = homem aquele café Essas classes vão diferenciar-se progressivamente. etc. Brown e Bellugi observaram que. Constatamos que os substantivos são empregados sobretudo no início: uma criança de dois anos utiliza 16 verbos entre 100 substantivos. Segundo Ster. mesmo na linguagem dos adultos há exemplo disso: — Socorro! Por isso. Aos três anos. pronomes demonstrativos.. O processo de aquisição dura vários anos e depende muito do ambiente. o caudal das formas gramaticais".21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM A aquisição se faz muito lentamente no início e a palavra pode ter então várias significações.

visto que possuem um centro comum). A subordinação representa. designam os pais. Nenhuma criança reproduz indiferentemente uma palavra ou frase ouvida. O que pode acontecer. Chomsky insiste no fato de que as estruturas não são todas dominadas antes dos seis anos. A duração dessas divergências no concernente à linguagem dos adultos varia bastante. dar realce a certo fato.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM (Chamam-se orações irradiadas. o individual precede o geral e o subjetivo precede o objetivo. simultaneamente. nem com a finalidade. Sobressaem duas tendências: expressar a emotividade e colocar. acima de tudo. P. As partículas negativas (principalmente no francês). etc. progride o ponto de vista objetivo e regride o subjetivo. aparecem as frases perifrásticas do tipo "É bom que". mas paulatina e gradativamente. enquanto progressivamente as diversas regiões do cérebro se diferenciam e se organizam. negando. De início. De começo. depois. a aquisição da linguagem é possível apesar das deficiências físicas e psicológicas. faz-se tão somente a justaposição das frases. etc. unidas a vogais. intuitivas. as condicionais e as finais. etc. no que diz respeito à aquisição da linguagem. Aos poucos. nem todas ao mesmo tempo. de adjetivos e de pronomes demonstrativos. Ela só começa a utilizar-se de uma estrutura a partir do momento que começa a entender tal estrutura. com reduplicação: mamá. No início do terceiro ano. não o grande). As subordinadas causais introduzidas por porque são empregadas mais tarde. pois é claro que um surdo não pode aprender uma língua ouvindo-a. Nessa idade. e.org. sempre. nem a de emitir sons vocais impedirão uma criança de dominar um sistema lingüístico. A criança pergunta como se chama (ou o que é) uma coisa e mais tarde o porquê (aos quatro anos. As orações temporais e as relativas são as primeiras. um pouco mais tarde. o oposto: o pequeno não (= o pequeno. Também se pôde observar que a criança não repete simplesmente o que ouve falar ao seu redor. de tal maneira que o concreto precede o abstrato. naná. pode-se dar uma ampla interpretação à normalidade. O período da relação manifesta-se entre três e quatro anos. que prossegue durante muitos anos. analógicos e alguns de significado diferente do habitual (mamá = alimento). pouco a pouco. e é muito freqüente.br/…/odesenvolvimento. Em todas as partes do mundo. do afetivo-volitivo para o objetivo-compreensivo". são dotadas de sentido emotivo-volitivo. Voltando ao que se disse no início deste capítulo. Nem a incapacidade de ouvir. aproximadamente). outros. Constatamos a utilização de artigos. por influência dos adultos. Aparecem vocábulos onomatopaicos. de pronomes possessivos. o alimento. geralmente mal empregadas. Todas essas pesquisas põem em evidência a complexidade do desenvolvimento da linguagem. é evidentemente necessário um treinamento especial. uma grande conquista da linguagem e do pensamento. Aos quatro ou cinco anos. traduzem desejos e estados emotivos. filologia. tatá. Manyuk constatou que todas as estruturas de base que o adulto emprega são utilizadas por certas crianças entre os três e meio e os quatro anos e meio. o desenvolvimento da linguagem é tal que a criança está em condições de manifestar verbalmente seus afetos e idéias a ponto de poder ser compreendida pelo adulto. as primeiras palavras abrangem formas semelhantes: labiais e dentais. Segundo Neumann. já. Na realidade. mais tarde vêm as causais. outrossim. Hobart Mowrer "a observação de que é pela capacidade de sentenciação e não pela simples emissão de palavras isoladas que a verdadeira dimensão verbal se instala na criança". as crianças não se preocupam nem com a causa. é que a palavra ou a frase seja entendida de uma maneira própria da criança. No caso das crianças surdas. as coisas concretas. Desenvolve-se a função denominativa. C. mas o desenvolvimento de estruturas mais complexas vai progredir até a idade de dez anos. todavia. "a linguagem progride. Cabe ainda creditar a O. "É necessário que". A criança pode. De tudo o que até aqui se viu já se pode concluir que as formas sintáticas não são absorvidas em pouco tempo. podendo ser até muito curta.h… 18/27 .

em outras palavras.br/…/odesenvolvimento. geralmente é explicado pela teoria do condicionamento e reforço. uma criança não pode inventar uma língua a partir do nada. portanto. pronunciando o nome desse objeto (lápis." Isto acontece de tal modo que "quando uma mãe mostra a uma criança um objeto. "a hipótese que propõe Mowrer é a de que o processo de reforçamento beneficia todos os sons emitidos pela própria mãe da criança e que são por esta. em 1964. é o fato de que eles poderão trazer algum esclarecimento sobre a natureza de tão notável aspecto do desenvolvimento psicológico da criança. assim. a qual vimos ser admirável por várias razões. e de Barbizet. para os que se preocupam com o ensino da linguagem. A estrutura da linguagem humana é algo extremamente complexo. centros de recepção e vias de associação. não depende de maneira decisiva da expressão verbal. a dificuldade será proporcional ao tempo que a criança ficou isolada da linguagem. reproduzidos. o requisito mínimo necessário para a aquisição da linguagem. Langacker afirma que "a tarefa da Lingüística é chegar a uma compreensão da linguagem. a emissão dos sons semelhantes aos produzidos pela mãe é recompensada na medida em que esses sons se associam aos prêmios e à redução das tensões produzidas por eles. no entanto. Uma explicação satisfatória da aquisição da linguagem (afirma ele). Neste caso. No entanto. vias. aprender uma língua sem dificuldades especiais. São capazes de compreender perfeitamente uma língua e podem aprender a comunicar-se por escrito como qualquer outra pessoa. No entanto. geralmente conseguem fazer alguns progressos no aprendizado do uso da língua. A língua que uma criança aprende." Grande estudioso do assunto e lingüista de renome internacional. pôde ser formulada uma interpretação neurofisiológica satisfatória dos fenômenos do desenvolvimento da linguagem oral.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM As crianças incapazes de usar seus órgãos vocais para produzir sons vocais podem." e que "é fundamental para esse fim um conhecimento da capacidade de aquisição da linguagem. é claro. No entanto. No entanto. mais especificamente. não há uma documentação suficiente sobre tais experiências porque tais casos são raros. O cérebro foi algumas vezes comparado a um computador que conservaria em sua memória as informações recebidas por todas as vias nervosas. Quando trazidas para a sociedade normal. qualquer que seja a situação. Uma criança deficiente mental a ponto de não poder aprender aritmética pode ainda assim adquirir a linguagem. as crianças que cresceram em regiões desertas ou em isolamento lingüístico. Uma das razões que justificam os estudos lingüísticos. eventualmente." Enfim. concretamente. ainda não explicará a mínima parte da aquisição e do desenvolvimento da linguagem. a sua descrição não é muito simples. Por isso. Em outras palavras. A aquisição da linguagem. a criança escuta o nome enquanto toma conhecimento do objeto. filologia. onde a linguagem é regularmente usada. aprende-a a partir dos modelos que tiver em seu convívio. O modo como se reforçam nos bebês certos sons e se extinguem outros. embora não esteja de todo provada esta hipótese. de um conhecimento básico de cibernética. em 1962. mas com esse objetivo em vista estamos grandemente motivados para investigar a estrutura das línguas. de modo algum poderá ser explicada suficientemente com base no mecanismo de condicionamento e reforço ou no estímulo e reação. A aquisição da língua nativa é menos provavelmente afetada pelo retardamento mental do que a de outras habilidades intelectuais. pois. dependendo.org. Ocorria o que ele chama de recompensa secundária. por exemplo). etc. conforme ensina Langacker. parece claro que o conhecimento do processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem será de grande proveito para os psicólogos e pedagogos em geral e. de comunicação e neurofisiologia. olhando-o. como é natural. se isto for comprovadamente verídico. ainda está longe de nosso alcance. apalpando-o. Ela adquire. "nos últimos dez anos. No entanto. Estar exposto ao uso da língua é." Seria muito interessante saber-se como se organiza e como se fixa a linguagem no cérebro de uma criança. a significação ligada ao nome do objeto pelo uso de seus órgãos sensoriais e sensitivos: receptores. graças aos trabalhos de Hyden. A tal respeito.h… 19/27 .

Línguas secretas como a "língua do p" são uma boa ilustração da flexibilidade e da criatividade lingüísticas. Para o adulto. dando apenas uma visão panorâmica do que sobre o assunto se discute entre os especialistas e doutos. É lógico que.h… 20/27 . para enternecer) tomam facilmente significação simbólica. Nossa abordagem pretende ser a mais descomprometida possível. que a Psicologia ajuda a entender. por exemplo. que depois da adolescência. a diferença entre aquisição e aprendizagem da linguagem é muito sutil e. a linguagem precisa de ser ensinada e aprendida. considerados mais importantes ou mais cultos. como acontece com todas as línguas faladas por muitas pessoas.org. Por isso a escola tem uma grande importância na aprendizagem da língua. As crianças podem tornar-se facilmente fluentes numa língua desse tipo. É a partir da escola que se estabelece a unificação de uma língua e o seu desenvolvimento técnico e artístico. controlem suas conversas. a aprendizagem de uma língua estrangeira significa geralmente um grande esforço. com o duplo movimento da associação analógica (que estende o uso dos termos) e da inibição condicionada (que o restringe e adapta). se a quisermos em níveis mais abstratos e técnicos. Por tudo isso e muito mais é que "uma introdução à natureza da linguagem é importante para qualquer pessoa que interesse por possíveis aplicações práticas dos resultados da investigação lingüística. segundo processos de aprendizagem particulares. portanto. geralmente mais lentos para essas coisas. por associação com experiências perceptivas. para chamar. consideremos sob o título de aprendizagem o resultado de trabalho pedagógico. Para sermos práticos. Psicologia do Comportamento. o inglês. visto que ela é a instituição social destinada a conter a desenfreada e desorganizada evolução de uma língua. e podem usá-la como código secreto para evitar que os adultos. numa sociedade do tipo da nossa.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Vejamos. mas com a intenção de alertar os pais para a vantagem de proporcionar condições de aprendizagem de línguas a seus filhos quando eles ainda estiverem em seus primeiros anos de vida. Os gestos vocais. Em seu livro. Seu desenvolvimento sistematizado é a linguagem que. Aproveitando a oportunidade. sua significação. uma pessoa aprenda a falar uma língua estrangeira sem sotaque. principalmente porque a ascensão social está quase sempre ligada ao domínio de determinados registros da língua padrão. como o português. Uma compreensão fundamental da linguagem seria certamente valiosa para quem estuda ou ensina uma língua (mesmo a língua nativa do aluno ou professor). não vale a pena teorizar sobre o assunto." Tais observações são aqui colocadas com a intenção. geralmente baseadas de modo coerente na língua padrão." Seja dito a propósito que já foi freqüentemente constatado que os adultos não são capazes de aprender uma língua natural e espontaneamente como as crianças. Não é provável. no que nos interessa. tratando da linguagem. seria bom lembrar aos pais que há muitas pré-escolas por aí que nem se preocupam com tão importante aspecto do desenvolvimento da criança. é transmitida pela educação aos novos indivíduos do grupo. filologia. seu papel são aprendidos progressivamente. etc. enquanto que a aquisição é aquela que se realiza espontaneamente. e raramente resulta num domínio perfeito do novo idioma. alguma coisa a respeito do ensino e da aprendizagem de línguas." Como já vimos. não são absolutamente raras. já que os que tomaram conhecimento deste trabalho certamente já estarão conscientes disso. "é durante a primeira infância que a língua materna se instala. por menor que seja. que comportam meios de ação sobre os outros seres (gritos para amedrontar. Tais línguas. "as crianças podem ser muito inventivas no que diz respeito à linguagem. são praticados pelas crianças e. não sei até que ponto válida. o espanhol. num grupo social. através dos ensaios-e-erros da vida mental. APRENDIZAGEM DA LINGUAGEM Como foi visto no início deste capítulo. Henri Piéron ensina: Os gestos vocais. sem uma preocupação metódica. Não nos caberá também a defesa de um ou outro método ou de uma ou outra teoria da aprendizagem específica.br/…/odesenvolvimento. Além de tudo isso. em toda sua flexível variedade.

Podemos ainda notar que a imagem mental de um objeto lembra o seu uso. do estruturalismo e do gerativismo. e mais ainda porque os sons pronunciados serão interpretados progressivamente como sendo "mamã". uma inter-relação entre as diversas disciplinas do curso. pois a criança ou o adolescente já tem à sua disposição todo um sistema de referências e um meio de comunicação com o mundo exterior: sua língua materna.org. embora exista discordância sobre quão complicadas precisam ser as conexões estímulo-respostas no caso de comportamentos complexos tais como a solução de problemas. é claro que teremos de passar em revista algumas das teorias que têm bastante aplicação no ensino-aprendizagem de línguas. etc. dependendo do objetivo específico do texto escrito." Considerando-se esta lei da "Gestalt". -Y. social. ilustrações e modos mil que existem de se colocar em destaque alguma coisa que se considera importante. Ainda defendem os gestaltistas que "dois estados de consciência que surgiram simultaneamente permanecerão associados. inclusive. como o significado. Um caso muito comum nas grandes metrópoles. naturalmente. Em conformidade com igual doutrina. "Certos tipos de arranjos. por exemplo. afirmando que as respostas verbais estão diretamente vinculadas a estímulos. que. nem haverá outra idêntica. são mais favoráveis que outros à compreensão global ou parcial da coisa significada. Por conseguinte. o pensamento e a linguagem. Lanchec diz que no caso de uma criancinha que grita porque tem fome. resolvem adotar a linguagem de seus colegas e acabam aprendendo-a. trataremos. mas também tentando agrupá-los de acordo com as semelhanças que eles apresentam entre si? Muitas escolas tentam fazer. Com efeito. Tratando da teoria da aprendizagem. elas podem ser explicadas pelas leis que regem o estabelecimento de conexões entre estímulos e respostas. conforme nos ensinam os estruturalistas. certos agrupamentos (dizem os gestaltistas). o outro tenderá a reproduzir-se.h… 21/27 . Segundo a gestalt.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM quando a oportunidade então perdida não voltará jamais. sem profundidade. como é o caso do Rio de Janeiro e São Paulo. depois "mamãe". podemos ter um condicionamento do tipo pavloviano se sua mãe atender logo. possuidores de sotaques muito marcantes. No caso da aprendizagem de uma língua estrangeira. pesado em leve. considera-se que as respostas verbais são uma subclasse das respostas em geral.br/…/odesenvolvimento. Bem mais adiante continua Judith Greene: Skinner baseia sua teoria da aprendizagem na idéia de que o reforço exerce a mesma influência filologia. seria natural que todo o processo de organização da gramática de uma língua fosse realizado sobre as oposições. as pessoas fazem a concordância entre as palavras de uma frase e muitíssimos outros fatos da linguagem. por exemplo. de maneira que a semelhança interdisciplinar dos assuntos facilitem a aprendizagem. de modo que. sem necessidade alguma de variáveis intervenientes. Por que é que os livros didáticos apresentam os assuntos não apenas em ordem crescente de complexidade. A exposição mais simples é a de Skinner. deve-se fazer um arranjo adequado dos itens. ligações do tipo estímulo-resposta têm pouca oportunidade de se produzirem. Entre outras. que na linguagem o significante lembra o significado. se um deles se realizar. J. Ao tratar da teoria do condicionamento pavloviano. por que existem os alofones posicionais e por que." Em se tratando da língua escrita. etc. as idéias ou as regras gramaticais. para conseguirem uma integração satisfatória em seu ambiente de trabalho. é o dos migrantes do interior. "um significado pode sugerir o seu contrário e ao mesmo tempo seu semelhante. É assim que quente faz pensar em frio. podemos compreender. do condicionamento (de Pavlov e de Skinner). Greene diz que. por que um fonema sibilante tende a sonorizar-se entre vogais. Tais livros e escolas assim se organizam baseados na lei gestaltista segundo a qual "pares de itens similares são aprendidos mais facilmente do que uma seqüência de pares de itens sem ligação entre si." Portanto. é muito importante que se leve em conta o problema da arte gráfica e dos esquemas. a ligação gritos® chegada da mãe será estabelecida com bastante rapidez. do ponto de vista da teoria da aprendizagem. da gestalt. etc.

apenas as funções que indicam uma necessidade do sujeito falante. etc. é a que se refere à importância do condicionamento operante como técnica de aprendizagem da linguagem. o funcionalismo. a teoria skinneriana do reforço só teria validade para as funções da linguagem centradas no ouvinte ou receptor. influenciando o seu modo de pensar. a teoria da aprendizagem é incapaz de fornecer tal explicação." De outro modo. mas de caráter mais abstrato. "a função do mando caracteriza-se por se apoiar em necessidades experimentadas pelo falante. seja como uma forma de desenvolvimento. Um reforço positivo aumenta a probabilidade de aparecimento da reação procurada. a Lingüística Estrutural procura analisar e definir. Chomsky e seus adeptos declaram que. exigência e assim por diante. a função prática. Aliás. que busca um tipo específico de reforço no ouvinte por meio do imperativo. no início. e desenvolvidas nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. dando importância especial a aspectos que foram quase abandonados pelos lingüistas estruturalistas." Considerando assim. tais como os problemas relativos à competência." Lançadas as bases da renovação metodológica dos estudos lingüísticos. com a finalidade de atuar sobre o destinatário. a função conativa. de acordo com o mesmo mestre. e só posteriormente vai distinguindo as partes. que é diretamente associada ao sinal físico. dentro de cada língua.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM sobre o animal e a criança (alimento para o rato e recompensa verbal para o aluno). o formalismo. Penna. a função de mando. A partir do estruturalismo. o gerativismo e o transformacionalismo são os que mais de perto interessam ao estudo. enquanto um reforço negativo (de evitação) não a faz aparecer. Não é motivada por uma necessidade especial da pessoa que fala. por Ferdinand de Saussure. filologia. organização em categorias e em sintagmas. Entre elas. a esse tipo de aprendizagem: seu desejo de comunicar-se para satisfazer as suas necessidade será reforçado pelo encorajamento dos que a cercam. da estrutura profunda. pois os tatos são comentários sobre o mundo de forma enunciativa. na Europa. O gerativismo e o transformacionalismo desenvolveram-se nos Estados Unidos a partir do estruturalismo.. E mais ainda: que uma explicação da aquisição embasada na teoria de estímulo-resposta (se possível) seria uma explicação francamente antieconômica da aprendizagem lingüística. Como cada língua corresponde a um sistema particular. seja como contestação de seus princípios." escreve Judith Greene. "a função do tato é como uma função de nomear. etc. A tese básica de Skinner. Ou seja. que evolui também de uma maneira sistemática e particular. em princípio. O aparecimento da linguagem na criança pode ser assimilado. ou seja. várias outras teorias vieram surgindo. "Entre os progressos da Lingüística Contemporânea.h… 22/27 . organizada em categorias e sintagmas. "Uma importância da teoria gerativa de Chomsky reside em sua ênfase central sobre o aspecto "criativo" da habilidade do usuário da língua para produzir sentenças novas que ele nunca proferiu nem ouviu antes. pioneiramente. à organização da linguagem e sua aquisição pela criança.br/…/odesenvolvimento. A linguagem supõe todavia a instalação de processos muito complexos que não podem ser assimilados unicamente a reações do tipo estímulo-resposta. a criança percebe primeiramente a frase como um todo. que inclui ordem. Chomsky estabeleceu o que chamou de estrutura superficial e estrutura profunda da frase: "Podemos distinguir a estrutura superficial da frase. G. o seu comportamento. ensino e aprendizagem de línguas. tais princípios são encontrados. o sistema fonológico. Atualmente.org. os métodos modernos de ensino de línguas passaram a utilizar os princípios dos estruturalistas. duas correntes influenciaram profundamente o ensino das línguas: o estruturalismo e a gramática gerativa transformacional. solicitação. segundo A. subjacente igualmente. nos métodos audiovisuais e áudio-orais e aplicados pelos lingüistas práticos na organização de manuais escolares para ensino de língua. por exemplo. o sistema mórfico e o sintático. admitindo-se modos diferentes de reforçamento para as formas de mando e tato. etc. como se estivessem fazendo uma análise sintática. Para analisar essa "geração" ou organização da gramática de uma língua." Segundo os gerativistas. procurando descrever a sua estrutura e organização interna e estabelecendo regras que regem a sua estrutura e organização atual e a respectiva evolução. Argumentando contra tais teorias da aprendizagem e contra todas as teorias da aprendizagem que tentam explicar a habilidade do locutor para usar a linguagem.

ao passo que.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Esquematicamente. No estudo de uma segunda língua.h… 23/27 . a que Chomsky chama os dados lingüísticos primários. de acordo com a língua particular a que a criança está exposta.br/…/odesenvolvimento. Chomsky afirma que. Quanto mais jovem for uma criança.org. aliás. a criança tem que organizar um conjunto de regras que não só explicarão a amostra como também serão capazes de gerar novas sentenças. Estrutura profunda: F SN SV O URSO F É LINDO SN SV urso é branco O URSO BRANCO É LINDO. de todas as muitas gramáticas possíveis que são compatíveis com os dados. o conteúdo real da gramática variará. mas a de suas estruturas profundas. Estrutura superficial: F SN SV O URSO BRANCO É LINDO. maior facilidade terá em procurar sons que não existem em sua língua materna: uma criança de menos de seis anos não tem dificuldade alguma em apropriar-se de um novo sistema. A grafia reforça. ou às vezes /f/ ou /v/ pelos locutores de língua francesa. escreve Lanchec: O sistema fonológico de uma língua é difícil de ser dominado desde que os hábitos auditivos e articulatórios tenham sido adquiridos e fixados para a língua materna. Isto leva a concluir que a criança se defronta com o mesmo gênero de tarefa que o lingüista. tem tendência a aproximar os novos fonemas ouvidos de sua língua materna. todas as crianças escolhem um determinado tipo de gramática. Ela ouve certas expressões. mas é percebido muitas vezes como um fonema idêntico em "no" e ‘so". podemos representar a frase: O urso branco é lindo. O inventário das semelhanças e diferenças facilita a constituição de um corpo para a filologia. Isto é o mesmo que dizer que a criança tem que desenvolver uma teoria acerca da gramática da língua que está aprendendo. os "th" ingleses são interpretados como /s/ ou /z/. um dos métodos mais usados atualmente é o método do estudo comparativo dos dois sistemas da língua ativa do aluno e o da língua-meta. A análise sintática proposta pela gramática gerativa não tem como objetivo principal a comparação dos sistemas de duas línguas ao nível das estruturas superficiais. essa impressão de equivalência: o ditongo inglês /ow/ é diferente do /o/ francês. etc. das seguintes maneiras. naturalmente. mais tarde. Desse fato deduziu ele que as crianças devem possuir alguma espécie de aptidão lingüística inata que as habilita a escolherem aquele tipo de gramática que é o mais apropriado à análise da língua em geral. Sobre o estudo comparativo de dois sistemas. quando avançar em idade. A partir desses dados. Seu procedimento inconsciente é idêntico para o ritmo e a entoação da língua-meta.

o professor deve desenvolver os meios de satisfazer seu desejo de expressão. baseados no pressuposto de que a criança está internalizando gradualmente a gramática completa da língua adulta. bem fixada. seu cérebro tem já uma certa "rigidez". Defendendo o valor da escolha de um método adequado e eficiente para o ensino de língua. a criança não poderá. a enumeração dos estágios do desenvolvimento só nos fornece poucas informações diretamente úteis ao ensino das línguas vivas (entenda-se línguas estrangeiras).org. que é particularmente favorável. O estudo comparativo tem grandes vantagens. De outro lado. Veja. Para tanto." A partir dessa idéia surgiram vários métodos de alfabetização chamados de métodos naturais. a avaliação do nível de conhecimentos. e apoiados por análises de gramáticas infantis que fornecem provas abundantes de que a aprendizagem não pode ser explicada como imitação reforçada de associações estímulo-resposta. ela escreve: "O método empregado conserva um papel importante. Uma vez mais. que trata demoradamente sobre ambos os assuntos (dos testes e da motivação) em seu livro citado. no entanto. as teorias da aprendizagem desenvolvidas pelos psicólogos para explicar o processo da aprendizagem da linguagem têm-se mostrado insuficientes. predisposição essa de que. Somente uma aprendizagem precoce. a tal respeito. desde que seja aplicado com critério seguro e amparado numa teoria segura das gramáticas das línguas em questão. os tipos de exercícios e seu número são determinados de acordo com os resultados obtidos. o que escrevem as professoras Maria Helena Cozzilino de Oliveira e Conceição Perkles Monteiro. permite-lhe organizar suas relações com o mundo exterior. Dada a predisposição humana para aprender línguas humanas. A língua materna. A tal respeito. voltar à idade de 2 a 4 anos.br/…/odesenvolvimento." Também o mesmo faremos a respeito da motivação e sua importância no estudo da linguagem. pois se trata de elaborar provas que permitam.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM redação e a elaboração de métodos de ensino. segundo parece. Graças à ruptura que estabelecem entre a língua materna e a língua-meta. mas. pode permitir o domínio harmonioso e sem esforço de vários códigos lingüísticos. Desde que se dê o necessário desconto para a complexidade do o que é aprendido.h… 24/27 . segundo certas estruturas ligadas à sua língua de origem e exercer influências permanentes sobre a segunda língua. começando a aprendizagem de uma segunda língua por volta da idade de 11 anos (na 5ª série do 1º grau). tanto da língua materna do aluno quanto da sua línguameta. os métodos audiovisuais favorecem o desenvolvimento do interesse e filologia. o que realmente faz falta é a descrição dos mecanismos de aprendizagem pelos quais uma criança chega às regras daquela língua a que está exposta. os animais são carentes. Até hoje. não existe razão alguma para que os psicólogos não tentem várias teorias da aprendizagem para explicar como é aprendido. antes dos 5 anos. transcreveremos apenas a opinião de Lanchec. Com efeito. fisiologicamente. Por outro lado. em seu livro Metodologia da Linguagem. felizmente. "a facilidade com que uma criança domina o sistema fonético e sintático de sua língua materna levou alguns pedagogos a pensar que a aquisição de uma segunda língua — tão difícil quando o professor utiliza o método tradicional gramática-tradução — poderia ser realizada com êxito através da utilização de processos algo similares aos que são vividos de modo espontâneo na primeira infância. Como parece óbvio. não faremos aqui um estudo sobre os testes e provas de língua principalmente porque já estamos tornando demasiadamente longo este trabalho. Embora não seja desprovido de importância. a função da descrição lingüística é impedir a supersimplificação do comportamento que está sendo estudado. pois a apresentação de um novo tipo de ensino desperta o interesse dos alunos e é preciso desenvolver seu desejo de exprimir-se. Os lingüistas transformativos forneceram uma descrição de o que uma criança aprende. na maioria dos casos. Após haver fixado os objetivos em função das dificuldades de aprendizagem dos diversos aspectos lingüísticos. que recebem nomes os mais variados. transcrevemos aqui a observação de Lanchec de que "a construção de um teste de língua exige inicialmente um estudo comparativo das estruturas e sobretudo uma utilização sistemática dos resultados obtidos pela análise dos erros. não basta dizer com Chomsky que a criança deve ter uma aptidão lingüística inata que a habilita a descobrir justamente aquelas regras transformativas que gerarão de forma sumamente econômica as sentenças de uma língua. vêm se desenvolvendo gradativamente no sentido de encontrar uma solução adequada e eficiente.

conseqüentemente. Dada essa competência universal. por meio do que os psicólogos americanos chamam de generalização mediata ou mediação verbal. no Rio de Janeiro. de tal forma que muitos pensamentos e muitos conceitos seriam irrealizáveis sem o auxílio da linguagem e que ela é. mesmo transferindo sua responsabilidade à escola. isto é. CONCLUSÃO As lições que deste trabalho resultaram não poderiam ser tidas por suficientes para os espíritos sedentos de conhecimentos concretos e definitivos e de inovações revolucionárias em sua especialidade. Que há mesmo uma interdependência relativa entre eles. As crianças de mais de cinco anos de idade atuam e controlam o comportamento primordialmente por meio de estímulos verbais. dependem de constante reforço e são rapidamente esquecidas. seja de maneira passiva (compreendendo-o). Do mesmo modo. uma retomada de posição da Didática da Linguagem. filologia. elas tentam dar uma nova orientação à didática das línguas com as gramáticas gerativas e transformacionais. quando interiorizada. publicada pela Tempo Brasileiro. pois. Entendemos facilmente que há uma relação muito estreita entre o pensamento e a linguagem. o elemento básico de sua organização.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM facilita a aquisição das relações situação-língua. Referente ao ensino de línguas estrangeiros (vivas). Mussen escreve que "o comportamento aprendido com o uso da linguagem é adquirido mais rapidamente. Entretanto. por mais promissoras que sejam as pesquisas. estes sempre serão os mais importantes mestres que a sociedade já adquiriu. a conclusão mais segura a que chegamos ao final deste trabalho é que as pesquisas relativas ao desenvolvimento da linguagem humana ainda estão longe de atingirem uma explicação adequada e eficiente da sua organização. para não voltar a jogar toda a responsabilidade sobre os pais. e da aplicação da teoria gerativista-transformacional de Chomsky. lembremo-nos de que "em Lingüística. O Desenvolvimento Psicológico da Criança. Chegamos também à conclusão de que os professores de línguas e demais responsáveis pela aprendizagem da linguagem infantil deveriam estar sempre atualizados em relação à Psicolingüística e à Pedagogia das Línguas. cabe uma observação sobre a importância da aprendizagem da linguagem o mais perfeita possível desde o início da vida escolar da criança. No seu livro. quando exteriorizada. Aliás. uma verdadeira renovação. traduzido por Rodolfo Ilari e publicado pela Livraria Almedina. as reformas metodológicas mais importantes já concretizadas em todo o mundo foram um resultado da aplicação das teorias estruturalistas. em 1978. lembro duas obras importantes em português: Lingüística e Ensino do Vernáculo. que tem uma evolução extraordinariamente regular em toda a raça humana e só na raça humana. sem dúvida têm revolucionado os estudos psicológicos relativos à linguagem. no plano técnico. da qual se desenvolveram diversos métodos de alfabetização. acarretando. não foi difícil compreender que todos os homens têm uma competência lingüística. aquisição e evolução na mente da criança. seja de modo ativo (produzindo-o). eles é que escolhem (quando podem) a escola em que seus filhos vão estudar." Como não desenvolverei o assunto. nas teorias da aprendizagem e na Pedagogia em geral. mais ou menos evoluída. Paul H.br/…/odesenvolvimento. no sentido de conseguir ou não um discurso mais ou menos abstrato e mais ou menos complexo. E mais." Como estamos chegando ao fim.h… 25/27 . é altamente estável e generaliza-se amplamente. desde que sejam colocados em contato com outras pessoas que usam alguma linguagem durante um período mínimo. ao passo que as reações aprendidas sem participação verbal são relativamente instáveis. com a gramática gerativa e transformativa. a aquisição da linguagem é natural e espontânea em todos os seres humanos normais. em Coimbra. e Lingüística e Ensino do Português." Concluindo.org. direta ou indiretamente. de Émile Genouvrier e Jean Peytard. particularmente. sem no entanto realizarem. Competência esta que é sempre suficiente para organizar pessoalmente a gramática da língua a partir da amostra a que se estiver exposto. Aliás. a simbolização do pensamento. Os novos rumos tomados pela Lingüística a partir de Chomsky. em 1974. começando com o uso didático sistemático de audiovisuais e áudio-orais. essas contribuições teóricas levam a crer que dentro de alguns anos nossas técnicas pedagógicas sofrerão profundas transformações. de Lúcia Maria Pinheiro Lobato e outros. visto que a escolha (ou criação) de um método apropriado e bem dosado é uma das mais eficazes motivações para a aprendizagem.

é importante que lembremos que a aquisição de uma língua nativa independe de cuidados especiais e mesmo os dispensam. 1969. "Les types et les lois de la psychologie". Psicolingüística (Chomsky e a psicologia). 29. 1937. Cambridge. Petrópolis: Vozes.org. Jean. _____. CARDOSO. JAKOBSON. 1947. The acquisition of syntax in children fron 5 to 10. Press. 22. MENYUK. 15. Readings in english transformational. 251 e ss. e quase impossível. "Les relations avec autrui chez l’enfant". R. 9. E mais ainda. 5. ou seja. M. 1967. Rio de Janeiro: Zahar. Paul H. Elementos de psicologia. 1968. Sentences children use. Nacional. 1949. Lisboa: Minotaura. _____.F. David e CRUTCHFIELD. La linguistique. (Tradução de Rodolfo Ilari. Liège: Bibliothèque de la Faculté des Lettres. GUILLAUME. The acquisition of language: the study of developmental psycholinguistics. O desempenho lingüístico é um problema de registro. A. nº 8. GENOUVRIER. P. A execução ou o uso de uma língua não afeta em nada a sua organização subjacente. a sua estrutura profunda. sendo mesmo muito difícil para um adulto. MARTINET. _____. New York: Harcourt. 4. La troisième année et les annés suivantes. 26. 2. MCNEILL. 1929. CHOMSKY. 1977. 1972.R. GREGOIRE. "Remarks on nominalisation". In Pour l’ère nouvelle. 1968. 1974. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 18. Jacobs e P. 1977. 3.S. 8. nº 236.T. Émile e PEYTARD. 1970. 26/27 filologia. Rio de Janeiro: Zahar. 1978. George. Jean-Yvon. L’appretissage du langage. Harper & Row. 14. 1964. LANGACKER. Ronald W. Lingüística e ensino do português. LOBATO. Mouton. S. Les deux premières années. Roman. 27. São Paulo: Cultrix. 1934. Aspects of the theory of syntax. Richard S. 1965. 1962. in R. 1967. 23. A. 1966. Isto é tratado pela Psicologia como o desempenho lingüístico. 5ª ed. H. p.21/12/2010 O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Enfim. Rio de Janeiro: Zahar. Ginn and Company. Sintactic structures. 1969. 19. Princípios de lingüística geral. G. C. Press. "La fonction régulatrice du langage dans son developpement et sa dégradation". CARVALHO. D. 16. Teoria da linguagem. 11. Coimbra: Atlântida. 17. T.U.br/…/odesenvolvimento. A. Psicopatologia da linguagem (alguns temas). Brace & World. A. 13. Psicolingüística e pedagogia das línguas. Paris: Fammario. _____. Joaquim Mattoso.S. 6. 20. Rio de Janeiro: Conquista. Lingüística e comunicação. Liège: [Bibliothèque de la Faculté des Lettres]. 1956. Herculano de. Mass. K. 1970 25. 10. de estilo ou de preferências individuais.. 1963. In Bulletin de psychologie. Judith. pois o que é mesmo necessário é que a criança esteja exposta a uma língua durante os primeiros anos de sua vida. São Paulo: Ed. CÂMARA JÚNIOR. J. Metodologia da linguagem. J. La psychologie de la forme. A linguagem e sua estrutura. Mass. Paris: Alcan. CHOMSKY. 28. 21. São Paulo: Pioneira.). Lúcia Maria Pinheiro et alii. DELACROIX. L’apprentissage du langage. 7. In Recherches psychologiques en U. _____. Rosenbaum (org. 1980. Ofélia Boisson. LANCHEC. O desenvolvimento psicológico da criança. P. L’enfant et le langage.: M. que a aquisição da linguagem (ou de uma segunda língua) será mais difícil à medida que a criança vai avançando em idade. Lingüística e ensino do vernáculo. 24. 2ª ed. o modo pelo qual cada indivíduo usa a sua competência lingüística. Mouton. 1969. Sobre a fenomenologia da linguagem. I. Paris: P. Langage et communication. KRECH.I. Noam. Rio de Janeiro: Padrão. Paris: Denoël. MUSSEN. se pensarmos numa aprendizagem perfeita. 1937. 1957.h… . 1969. MILLER. grammar. GREENE. Moscou: Progrès. guide alphabétique. BUDIN. Language and mind.) Coimbra: Almedida. 12. ou seja. BIBLIOGRAFIA 1.. LEWIN. MERLEAU-PONTY.: M. LURIA. Cambridge.

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