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Brasília, 15 de maio de 2008.

Desigualdade e Justiça Tributária


Márcio Pochmann
IPEA

No desenvolvimento das nações, a tributação exerce um papel importante no


enfrentamento das desigualdades. Quanto mais justo o sistema tributário, menor tende a
ser o grau de concentração de riqueza e renda nacional. O caso brasileiro pode ser assim
caracterizado, em breve palavras.

(1) Desigualdade na repartição da Riqueza no Brasil:

Brasil: Participação dos 10% mais ricos na riqueza total nacional e nas cidades e
em períodos selecionados (em %)

100
90
80 73,4 75,4
68,7 67,0
70 62,9
60
50
40
30
20
10
0
fins do século XVIII fins do século XX fins do séulo XX
Rio de Janeiro Salvador São Paulo Brasil

Fonte: Campos et alii,Os Ricos no Brasil. Cortez: São Paulo, 2004, pág.28.

Ao se tomar como referência alguns indicadores de concentração da riqueza no


Brasil no longo prazo, percebe-se que o décimo mais rico da população mantém elevada
participação no estoque de riqueza nacional. Mesmo com as mudanças no regime
político e no padrão de desenvolvimento, a riqueza permanece pessimamente distribuída
entre os brasileiros.
(2) Baixa Carga Tributária Líquida Operacional:

Brasil: Carga Tributária Líquida, menos Juros. 2000 a 2005

14,0

11,9 12,0 12,1


12,0 11,3
10,7

10,0
9,0

8,0
% do PIB

6,0

4,0

2,0

0,0
2000 2001 2002 2003 2004 2005

Fonte: IBGE. Elaboração: IPEA

Embora todo o debate sobre Carga Tributária se restrinja atualmente à discussão


sobre a trajetória da Carga Tributária Bruta - que cresceu de 30,4% para 35,7% do PIB
entre 2000 e 2007 -, é fundamental recuperar a análise da Carga Tributária Líquida, que
corresponde ao que o Governo arrecada menos o que retorna às mãos dos cidadãos por
meio das transferências de renda (benefícios previdenciários e assistenciais).
Se além disso, se descontarmos da Carga Tributária também o que fica retido
pelos credores do Estado na forma de pagamento de juros, vemos que os recursos
mantidos no âmbito do setor público para o financiamento de bens e serviços
correspondem a um volume bem menor em termos de percentual do PIB, parcela esta
que praticamente não cresceu.
(3) Injustiça Tributária no Brasil:

Brasil: Carga Tributária (%) por Décimos de Renda,


2002-2003, a partir da POF

35,0
32,8
30,0

29,1 27,0
24,8
25,0 23,9 23,2 24,1
23,3 23,3 23,4 22,7
24,2
20,7
20,0 19,4
18,3 17,6
16,4 16,4
14,6
15,0
12,0

10,0 8,8
7,7 10,7
6,9
5,7
4,9
5,0 3,7 4,1 4,5
2,8

0,0
1o 2o 3o 4o 5o 6o 7o 8o 9o 10o
Tributação Indireta 29,1 24,2 20,7 19,4 18,3 17,6 16,4 16,4 14,6 10,7
Tributação Direta 3,7 2,8 4,1 4,5 4,9 5,7 6,9 7,7 8,8 12,0
Tributação Total 32,8 27,0 24,8 23,9 23,2 23,3 23,3 24,1 23,4 22,7

Fonte: POF/IBGE (microdados). Elaboração: IPEA, a partir de GAIGER, 2008.

A Carga Tributária Bruta é constituída por tributos diretos – que incidem sobre a
renda e o patrimônio – e por tributos indiretos – que incidem sobre o consumo. É sabido
que a tributação indireta têm características regressivas, isto é, incidem mais sobre os
mais pobres, enquanto que a tributação direta possui efeitos mais progressivos,
incidindo mais sobre os mais ricos.
O Gráfico acima confirma essa regra geral para o Brasil, mas com um grave
problema: o peso da tributação indireta é muito maior do que o da tributação direta,
tornando regressivo o efeito final do nosso sistema tributário. Ademais, o grau de
progressividade da tributação direta ainda é baixo no Brasil. O décimo mais pobre sofre
uma carga total equivalente a 32,8% da sua renda, enquanto o décimo mais rico, apenas
22,7. Isto é absolutamente inaceitável, principalmente em um país de enorme
desigualdade de renda como o Brasil.