(DOCUMENTO DE TRABALHO

)

TRIBUNAL ADMINISTRATIVO …............................

Providência cautelar antecipatória

ISENTO (artºs 12º, nº 2, e 56º, nº 1, da Constituição, artº 310º, nº 3, do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas” e artº 4º, nº 1, f), do “Regulamento das Custas Processuais”, em leitura conjugada)

EXMº SENHOR JUÍZ PRESIDENTE

SINDICATO ……….., Pessoa Colectiva nº ………………………., com sede ………………, no quadro da sua legitimidade processual (artºs 12º, nº 2, e 56º, nº 1, da Constituição, e artº 310º, nº 2, do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas”) e em representação e defesa (ou “em representação e substituição”, também assim se podendo dizer) de associados seus, vem

INTENTAR e FAZER SEGUIR

Contra ……………………………………………… (com sede ……………)
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a presente

PROVIDÊNCIA CAUTELAR ANTECIPATÓRIA,

o que faz nos termos e com os fundamentos seguintes:

I – OS FACTOS 1 - No dia 14/Outubro/2010 o Governo, em Conselho do Ministros, aprovou, para ser submetida à Assembleia da República, uma “Proposta de Lei” sobre o “Orçamento do Estado para 2011”. A qual, 2 - Em 15/Outubro/2010 foi publicada no “Diário da Assembleia da República”, II Série-A, nº 16, de 15/Outubro/2010, sob sumário “Proposta de lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011”. 3 - O Capítulo III da “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011” contém “disposições relativas a trabalhadores do sector público”. E, 4 - O “Diário da Assembleia da República”, II Série A, nº 16, de 15/Outubro/2010 (o qual, repete-se, deu à estampa a “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011”) não contém qualquer convite às associações sindicais para se pronunciarem sobre a normação a editar e inscrita no Capítulo III da referida “Proposta de Lei 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011”.

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5 - No dia 20/Outubro/2010 teve lugar uma reunião plenária da Assembleia da República. E, 6 - Nesse mesmo dia 20/Outubro/2010 a Mesa da Assembleia da República deu conta aos Senhores Deputados da entrada e admissão da “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011” e da sua “baixa à 5ª e demais comissões” (cfr. “Diário da Assembleia da República”, I Série, nº 16, de 21/Outubro/2010). Ainda, 7 - Nesse mesmo dia 20/Outubro/2010 (isto é, quando a proposta de lei do Governo sobre o Orçamento do Estado para 2011 já tinha sido por ele apresentada na Assembleia da República e por esta admitida), e sob impulso do Governo foram, no “Boletim do Trabalho e Emprego”, nº 5, Separata, postas à apreciação pública “normas constantes da Proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2011 com incidência nos trabalhadores com relação jurídica de emprego regulada pelo Código do Trabalho”. 8 - O prazo de apreciação pública fixado no “Boletim do Trabalho e Emprego”, nº 5, Separata, de 20/Outubro/2010, foi de vinte dias “a contar da data da sua publicação”. 9 - No “Diário da Assembleia da República”, 29, Separata, de 27/Outubro/2010, foi, pela Assembleia da República, submetido à apreciação pública o Capítulo III da “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011” – isto é, as “disposições relativas a trabalhadores do sector público” (e que aí constituem os artºs 17º a 43º). 10 - O prazo para a pronúncia das associações sindicais

representativas dos trabalhadores destinatários da normação

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projectadamente editar foi fixado de 27 de Outubro a 15 de Novembro de 2010. E, 11 - Como é público e notório, em 3/Novembro/2010 – isto é, quando o prazo de apreciação pública ainda estava a decorrer – a Assembleia da República discutiu e votou, na generalidade, a “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011” – e, pois, o seu Capítulo III (“disposições público”). 12 - A Lei nº …….. aprova o Orçamento do Estado para 2011 e o seu Capítulo III (que agora se desdobra pelos artºs 19º a 45º) contém disposições relativas a trabalhadores do sector público – sendo que o nº 1 do artº 19º estatui a redução das “remunerações totais ilíquidas mensais” e o nº 4, a), do mesmo preceito fixa o que sejam as “remunerações totais ilíquidas mensais”. relativas a trabalhadores do sector

II – O DIREITO

1º Estatui o artº 277º, nº 1, da Constituição, que “são inconstitucionais as normas que infrinjam o disposto na Constituição ou os princípios nela consignados”. Ora, 2º Os tribunais (isto é: todas e cada um deles) são “órgãos de soberania” (cfr. artº 110º, nº 1, da CRP) – E os únicos “órgãos” constitucionalmente credenciados para “administrar a justiça em nome do povo” (cfr. artº 202º, nº 1, da CRP). Por isso, 3º
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É seu múnus constitucional “assegurar a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimir a violação da legalidade democrática e dirimir os conflitos de interesses públicos e privados” (ccfr. Artº 202º, nº 2, da CRP). Nesta linha, 4º E coerentemente, o artº 204º da Constituição estatui que “nos feitos submetidos a julgamento não podem os tribunais aplicar normas que infrinjam o disposto na Constituição ou os princípios nela consignados” (o que, na jurisdição administrativa e fiscal, está plasmado no artº 1º, nº 2, do ETAF). 5º O artº 120º do Código de Processo nos Tribunais Administrativos fixa os “critérios de decisão” das providências cautelares. E, 6º Conforme o nº 1, a), do mesmo artº 120º do CPTA a providência requerida é adoptada “quando seja evidente a procedência da pretensão formulada ou a formular no processo principal, designadamente por estar em causa a impugnação de acto manifestamente ilegal ….”. 7º Assinalam Mário Aroso de Almeida e Carlos Alberto Fernandes Cadilha, o “sentido e alcance” desta alínea a) do nº 1 do artº 120º, do CPTA, é “(…) o de estabelecer um regime especial de atribuição das providências, mediante a qual é afastada, para as situações nela contempladas, a aplicação do regime geral, consagrado nas alíneas b) e c) do nº 1 e no nº 2” (in, com destacados nossos, “Comentário ao Código de Processo nos Tribunais Administrativos”, Almedina, 2005, pág. 602). E, 8º
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Na continuação, dizem os Autores citados que “(…) se … o tribunal considerar que … se preenche a previsão do nº 1, alínea a), cumpre-lhe conceder a providência sem mais indagações: nem há, pois, que atender aos critérios das alíneas b) ou c) do nº 1, nem ao disposto no nº 2” (o destacado é nosso). O que, 9º Também pode ser visto em acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul: “(…) tenha ou não o requerente em vista a manutenção do statu quo (providência conservatória) ou a sua alteração (providência antecipatória) – o que se decide com base na factualidade alegada que determina os contornos do caso concreto – desde que a determinação e valoração probatória suporte um juízo jurídico de evidente procedência do pedido formulado ou a formular na acção principal, é de decretar a providência” (acórdão de 7/Abril/2005, Procº nº 00480/04 – disponível em http://www.dgsi.pt, sendo nossos os destacados). E, 10º Nesta mesma linha, assertiva o Supremo Tribunal Administrativo que “afigurando-se ao Tribunal, em termos de evidência, que a pretensão formulada ou a formular pelo requerente no processo principal iria ser julgada procedente e que a situação se integrava na previsão do artº 120º nº 1 a) de CPTA, cumpria-lhe adoptar a providência cautelar requerida ao abrigo dessa disposição, sem necessidade de maiores indagações …” (acórdão de 13/Maio/2009, Procº nº 0156/09 – disponível em htpp://www.dgsi.pt, sendo nosso o destacado). Assim sendo, 11º E metodologicamente, o A. principia pela

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A)

Evidência da procedência da pretensão a formular no

processo principal, por manifesta ilegalidade do acto a prolatar: não terá base legal constitucionalmente válida.

i) Inconstitucionalidade formal do artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei nº ……. (suportantes dos actos, de processamento de vencimentos e abonos).

12º A Constituição da República Portuguesa consagra o direito das associações sindicais de participar(em) na elaboração da legislação do trabalho (cfr. artº 56º, nº 2, a), da CRP). E, 13º Como afirmam os Profs. Jorge Miranda e Rui Medeiros, o direito de participação na elaboração da legislação do trabalho deve ser lido em conjugação com o princípio, em que assenta a organização económico-social, segundo o qual as organizações representativas dos trabalhadores participam “na definição das principais medidas económicas e sociais” (in “Constituição Portuguesa”, Anotada, Tomo I, pág. 554). E, 14º Ainda segundo os Autores citados, o direito de participação na elaboração da legislação do trabalho constitui uma manifestação constitucional da democracia participativa (afirmado no artº 2º da CRP). Sendo, 15º Noutro local, afirmado pelo Prof. Jorge Miranda que a nossa Constituição “(…) na linha do Estado social de direito … renova a
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democracia representativa com formas de democracia participativa” (in “Revisão Constitucional e democracia”, pág. 57). E, 16º O artº 56º, nº 2, a), da Constituição, “confere um direito fundamental” (cfr. Prof. Pedro Romano Martinez Et Alii, “Código do Trabalho”, Anotado, 2003, nota II, a págs. 738). Sendo que, 17º Como assinala a nossa jurisprudência constitucional, aquele direito de participação na elaboração da legislação do trabalho é da titularidade de todas e cada uma das associações sindicais individualmente consideradas (cfr. acórdão do Tribunal Constitucional nº 360/2003 – in D.R., I-A, nº 232, de 7/Outubro/2003, a págs. 6628). E, 18º Está, doutrinária e jurisprudencialmente, sedimentado com suficiente consistência o conceito de “legislação do trabalho”, para os efeitos do artº 56º, nº 2, a), da CRP – e, salvo o merecido respeito, o artº 19º, nºs 1, e 4, a), da Lei nº ….. (e que correspondem ao artº 17º, nºs 1 e 4, a), da “Proposta de Lei nº 42/XI (2ª) – Orçamento do Estado para 2011”) subsumem-se nesse conceito. Sendo que, 19º O direito de participação na elaboração da legislação do trabalho é exercitável face ao “órgão” que vai aprovar a legislação. E, 20º É isso mesmo que a lei diz. Na verdade, 21º E face ao artº 472º do actual Código do Trabalho:

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a) Tratando-se de legislação a aprovar pela Assembleia da República o acto legislativo a editar é, para efeitos de apreciação pública, publicado em separata ao Diário da Assembleia da República; b) Tratando-se de legislação a aprovar pelo Governo o acto legislativo a editar é, para efeitos de apreciação pública, publicado em separata ao Boletim do Trabalho e Emprego. Ora, 22º É da competência política e legislativa da Assembleia da República apreciar “o Orçamento do Estado, sob proposta de Governo” (artº 161º, g) da CRP). E, 23º As “disposições relativas a trabalhadores do sector público” foram integradas no Capítulo III da proposta do “Orçamento do Estado para 2011”. Assim, 24º E salvo o merecido respeito, é inócua (para os efeitos de com tal se querer ver preenchido o comando do artº 56º, nº 2, a), da Constituição da República Portuguesa) a publicitação, em separa ao “Boletim do Trabalho e Emprego”, das, assim, ali são chamadas, “normas constantes da Proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2011 com incidência nos trabalhadores com relação jurídica de emprego regulada pelo Código do Trabalho”. E, 25º Em acréscimo. 26º Resulta da factualidade que:
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a) Em 14/Outubro/2010 o Governo, em Conselho de Ministros, aprovou a “Proposta de Lei do Orçamento para 2011”; b) Em 15/Outubro/2010 o Governo apresentou aquela “Proposta de Lei” à Assembleia da República. Assim, 27º A sua submissão, por parte do Governo, a apreciação pública em 20/Outubro/2010 configura, directamente, formalidade sem sentido útil. 28º Como assinalado, a Assembleia da República (cfr. “Diário da Assembleia da República”, nº 29, Separata, de 27/Outubro/2010) fixou de 27 de Outubro a 15 de Novembro de 2010 o período de apreciação pública do Capítulo III da “Proposta de Lei nº 42/XI(2ª) – Orçamento do Estado para 2011”. Mas, 29º Como é público e notório, a Assembleia da República, em 3 de Novembro de 2010, discutiu e votou, na generalidade, aquela “Proposta de Lei nº 42/XI(2ª) – Orçamento do Estado para 2011”. E, 30º Pois, o seu Capítulo III (“disposições relativas a trabalhadores do sector público”). Ou seja, 31º Ainda o prazo de apreciação pública por si fixado (isto é, de 27 de Outubro a 15 de Novembro de 2010) estava a decorrer e já a Assembleia da República (em 3 de Novembro de 2010) estava a discutir e votar, na generalidade, a “Proposta de Lei nº 42/XI(2ª) – Orçamento do Estado para 2011” – e, pois, o seu
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Capítulo III (“disposições relativas a trabalhadores do sector público”). Ora, 32º E por um lado, o que a lei diz é que qualquer proposta de lei relativa a legislação do trabalho só pode ser DISCUTIDA e VOTADA pela Assembleia da República DEPOIS de as associações sindicais se terem PODIDO pronunciar sobre ela (cfr. artº 470º do actual Código do Trabalho). Mas, 33º Em 3 de Novembro de 2010 ainda estava a decorrer o prazo de apreciação pública fixado pela própria Assembleia da República. E, 34º Por outro lado, a Constituição da República Portuguesa determina (cfr. artº 168º, nºs 1 e 2) que: a) A discussão das propostas compreende um debate na

generalidade e outro na especialidade; b) A votação compreende uma votação na generalidade, uma votação na especialidade e uma votação final global. Assim, 35º E transparentemente, a forma e o processo de formação do acto legislativo final têm parametrização constitucional. E, 36º Como assinala a nossa jurisprudência constitucional, o funcionamento de uma ordem constitucional democrática assenta precisamente na observância de procedimentos previamente estabelecidos e

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regulados (cfr. acórdãos do Tribunal Constitucional nºs 289/92 e 868/96). O que, 37º Diz-se no último aresto citado, é “um tópico que nenhuma retórica argumentativa poderá dispensar nesta matéria” (in D.R., I-A, nº 240, de 16/Outubro/1996, a págs. 3624). E, 38º Como igualmente assinala a nossa jurisprudência constitucional, numa assembleia política plural, como a Assembleia da República, o procedimento legislativo está ordenado de tal modo que a superação de cada uma das respectivas fases acarreta a preclusão da reabertura da discussão quanto ao ponto entretanto ultrapassado (cfr. acórdão nº 130/2006 – in D.R., II Série, nº 74, de 13/Abril/2006, a págs. 5632). Ora, 39º O ponto ultrapassado foi a discussão e votação na generalidade do Capítulo III da “Proposta de Lei nº 41/XI(2ª) – Orçamento do Estado para 2011” sem cabal exercício do direito de audição das (todas e cada uma delas) associações sindicais. E, 40º Como se diz no citado acórdão nº 130/2006 do Tribunal Constitucional, o cabal exercício do direito de audição pressupõe: a) Um prazo razoável para o efeito (o prazo de apreciação pública foi fixado de 27 de Outubro a 15 de Novembro e em 3 de Novembro a Assembleia da República discutiu e votou na generalidade – isto é, na primeira fase do procedimento constitucionalmente parametrizado);

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b) Que “ele se exerça (ou possa exercer) num momento tal que a sua finalidade (participação e influência na decisão legislativa) se possa atingir …”. Sendo que, 41º E contrariamente ao preconizado a propósito do negócio jurídico e do acto administrativo, o vício gerado com a ultrapassagem, nos termos assinalados, da fase procedimental de discussão e votação na generalidade NÃO É elidível em momentos posteriores (isto é, na discussão e votação na especialidade e/ou na votação final global). Por isso, 42º Ou seja, por vício in procedendo, o artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei nº …….., enferma de inconstitucionalidade formal. O que, 43º Retira base legal constitucionalmente válida ao acto a prolatar – no mês de Janeiro de 2011 e em todos os meses subsequentes – pela Entidade Demandada, de atribuição e processamento dos vencimentos e abonos dos associados do A. se, e quando, obedientes aos normativos citados. E, 44º Pois, salvo o merecido respeito, bem fundada é a pretensão do A. de que seja adoptada a providência cautelar antecipatória (nos termos que adiante vão requeridos).

ii) Inconstitucionalidade material

a) Irretratibilidade da remuneração

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45º À face da economia global e coerência interna do nosso ordenamento jurídico-constitucional pode dizer-se, com suficiente consistência, que o contrato de trabalho para o exercício de funções públicas cria simultaneamente: a) Uma situação jurídica objectiva (em tudo o que respeita à aplicação de determinadas normas legais). E, b) Uma situação jurídica subjectiva (na parte respeitante aos efeitos individuais do contrato). Sendo que, 46º À primeira espécie (isto é, a situação jurídica objectiva) pertencem, designadamente, as regras de competência, o regime disciplinar e as disposições relativas à aposentação ou reforma. E, 47º À segunda espécie (isto é, a situação jurídica subjectiva) pertencem, nomeadamente, a vigência do contrato e o vencimento (a remuneração tem que constar do contrato: artº 72º, nº 2, c), do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas”). 48º Do artº 59º, nº 1, a), da Constituição, resulta o direito fundamental a uma justa remuneração (cfr. Jorge Miranda e Rui Medeiros, “Constituição Portuguesa”, Anotada, Coimbra Editora, Tomo I, nota III, a págs. 597). Ora, 49º É princípio do nosso Estado de direito democrático a máxima efectivação dos direitos fundamentais (cfr. artº 2º da CRP) – e é tarefa fundamental do Estado garantir os direitos e liberdade

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fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático (cfr. artº 9º, b), da CRP). Sendo que, 50º Por força do artº 16º, nº consagrados 1, da na Constituição, “os não direitos excluem fundamentais Constituição

quaisquer outros constantes das leis e das regras aplicáveis de direito internacional” (o destacado é nosso). Ora, 51º Lei nº 45/78, de 11 de Julho, aprovou para ratificação (sem reservas, assinale-se) o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais. O qual, 52º Mercê da ratificação e publicação no jornal oficial, vigora na nossa ordem interna, nos termos afirmados no artº 8º, nº 2, da Constituição. E, 53º Assim e no que para aqui interessa, na nossa ordem jurídica interna está reconhecido: a) O direito de todas as pessoas de gozar de condições de trabalho justas e favoráveis que que assegurem no em especial a …. todos uma os remuneração proporcione, mínimo,

trabalhadores … um salário equitativo …. e … uma existência condigna para eles próprios e para as suas famílias … (cfr. artº 7º, a), do Pacto, anexo à Lei nº 45/78, de 11 de Julho); b) O direito de todas as pessoas a um nível de vida suficiente para si e para as suas famílias, incluindo alimentação, vestuário e alojamento suficientes, bem como a um melhoramento

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constante das suas condições de existência (cfr. artº 11º, nº 1, do Pacto, anexo à Lei nº 45/78, de 11 de Julho). Aliás, 54º Também o Tratado de Lisboa proclama (no Título X, relativo à política social) o objectivo da “melhoria das condições de vida e de trabalho” dos trabalhadores – com adesão à Carta Social Europeia (assinada em Turim, em 18 de Outubro de 1961) e à Carta Comunitária dos Direitos Sociais Fundamentais dos Trabalhadores (de 1989). Assim, 55º Uma solução como a que resulta do artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei do Orçamento (e que, por direitas linhas, conflui em o trabalhador continuar a trabalhar o mesmo e a receber menos) está em aberta colisão com os artºs 7º, a), e 11º, nº 1, do “Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos e Sociais” – e que “vigoram” na nossa ordem jurídica interna, nos termos dos artºs 8º, nº 2, e 16º, nº 1, da Constituição, mercê da Lei nº 45/78, de 11 de Julho. E, 56º Por isso, são materialmente inconstitucionais. O que, 57º Manifestamente, retira base legal constitucionalmente válida ao acto a prolatar – no mês de Janeiro de 2011 e em todos os meses subsequentes – pela Entidade Demandada, de atribuição e processamento dos vencimentos e abonos dos associados do A. se, e quando, obedientes aos normativos citados da Lei do Orçamento. E, 58º

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Pois, salvo o merecido respeito, bem fundada é a pretensão do A., de que seja adoptada a providência cautelar antecipatória (nos termos que adiante vão requeridos). E, 59º Continuando a mesma linha – isto é, a da irretratibilidade da remuneração. 60º A proibição de diminuição da retribuição é uma solução legal imperativa decorrente do artº 129º, nº 1, d), do Código do Trabalho. E, 61º Esta solução legal também pode, em coerente unidade do sistema jurídico, extrair-se do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas”. Na verdade, 62º O artº 89º, nº 9, do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas” proíbe à entidade empregadora pública “diminuir a retribuição, salvo nos casos previstos na lei”. Ponto é que, 63º Relativamente à ressalva do segundo segmento do nº 9 do artº 89º do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas”, a lei tenha acomodação constitucional. E, 64º Salvo o merecido respeito, como para já foi mostrado lei não há da acomodação constitucional uma redutora

retribuição. Sendo que, 65º

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Em acréscimo, pode tranquilamente dizer-se que, no plano dos princípios constitucionais (e a sua violação gera inconstitucionalidade: artº 277º, nº 1, da CRP), não tem aval qualquer medida redutora ou até eliminatória como a que aqui é submetida a juízo de censura contenciosa. Na verdade, 66º Isso pode, conjugadamente, extrair-se: a) Do artº 1º da CRP – consagra, como valor axiológico fundamental da República, o princípio da dignidade da pessoa humana e postula o empenhamento do Estado na construção de uma sociedade justa e solidária; b) Do artº 9º, d), da CRP – e´tarefa fundamental do Estado promover o bem estar e a qualidade de vida do povo; c) Dos artºs 59º, nº 1, a), e 2, a), da CRP – direito à retribuição do trabalho “de forma garantir uma existência condigna” e a incumbência do Estado de assegurar o estabelecimento e a actualização do salário mínimo nacional; d) Do artº 81º, a), da CRP – incumbência prioritária do Estado de “promover o aumento do bem-estar social e económico e da qualidade de vida das pessoas” (os destacados são nossos). Assim, 67º E salvo o merecido respeito, à luz do artº 16º, nº 1, da CRP (que não exclui direitos fundamentais “constantes das leis e das regras aplicáveis do direito internacional” – e, pois, os direitos reconhecidos nos artºs 7º, a), e 11º, nº 1, do “Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos e Sociais”, vigorantes na ordem jurídica interna nos termos afirmados pelo artº 8º, nº 2, da CRP, “ex vi” da Lei nº 45/78, de 11 de Julho), em conjugação com as
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normas constitucionais identificadas no ponto anterior (artºs 1º, 9º, d), 59º, nºs 1 a) e 2 a), e 81º, a), da CRP) afirma-se, tranquilamente, que o “princípio da irretratibilidade” da remuneração é vinculativo para o legislador do Orçamento do Estado. E, 68º Não tendo sido – como não foi ! – respeitado pelas normas da Lei do Orçamento do Estado aqui submetidas a juízo de censura contenciosa (cfr. artº 204º da CRP e artº 1º, nº 2, do ETAF) elas estão inquinadas de inconstitucionalidade material. O que, 69º Manifestamente, retira base legal constitucionalmente válida ao acto a prolatar – no mês de Janeiro de 2011 e em todos os meses subsequentes – pela Entidade Demandada, de atribuição e processamento dos vencimentos e abonos dos associados do A. se, e quando, obedientes aos normativos citados da Lei do Orçamento. E, 70º Pois, salvo o merecido respeito, bem fundada é a pretensão do A. de que seja adoptada a providência cautelar antecipatória (nos termos que adiante vão requeridos).

b)Violação

de

outra

directriz

constitucional

a

que

a

elaboração do OE deve obediência

71º O Orçamento do Estado tem previsão constitucional expressa e os artºs 105º, 106º e 107º condensam as normas que lhe dizem

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respeito, preenchendo um modelo orientador a nível constitucional. Ou seja, 72º À face dos normativos recenseados, o Orçamento do Estado é lei vinculada àquele quadro normativo-constitucional. E, 73º Em tal quadro, é vinculação específica o respeito às “obrigações decorrentes de lei ou de contrato”: artº 105º, nº 2, da CRP. Ou seja, 74º É uma vinculação total à execução do ordenamento jurídico pré-existente. Na verdade, 75º O artº 105º, nº 2, da CRP, fala de obrigações (decorrentes de lei ou de contrato). Ora, 76º A obrigação tem uma significação jurídica especial (cfr. artº 397º do Código Civil). Por isso, e salvo o merecido respeito, 77º A boa hermenêutica impõe concluir que o legislador constitucional adoptou a significação jurídica especial (cfr. Inocêncio Galvão Telles, “Introdução ao Estudo do Direito”, Coimbra Editora, Vol. I, pág. 245) de obrigações: situações passivas de crédito. Assim, 78º Se o legislador orçamental desrespeitar – como desrespeitou ! – as obrigações emergentes de contrato (no caso, contrato de trabalho em funções públicas) pré-existente ocorre
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inconstitucionalidade material do Orçamento do Estado: a violação de obrigações contratuais ou ex lege traduz-se em violação do artº 105º, nº 2, da CRP. É que, 79º E cristalinamente, decorre do artº 105º, nº 2, da CRP que o , Orçamento do Estado pressupõe todas as leis e contratos préexistentes e deve respeitá-los (aliás, já a Lei de 9 de Setembro de 1908 dispunha no seu artº 11º, que “a lei da receita e despesa, que aprova o Orçamento Geral do Estado, autoriza a arrecadação de receitas e descreve as despesas do Estado, constantes de leis preexistentes”). Ora, 80º Presentemente, por aplicação da Lei nº 12-A/2008, de 27 de Fevereiro, a relação de emprego público assenta no contrato de trabalho em funções públicas (paralelo ao contrato individual de trabalho do sector privado). E, 81º A retribuição é elemento essencial do contrato de trabalho em funções públicas: artºs 68º, nº 1, h), 72º, nº 2, c), último segmento, e 214º do “Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas. Assim, 82º Sendo a retribuição (dos contratos vigorantes em 2010) obrigação decorrente de contrato (e pacta sunt servanda) a respectiva despesa (isto mesmo para quem considere que no nosso Estado social de direito democrático a retribuição devida ao trabalho é uma “despesa” da Entidade Empregadora !) (deveria ter sido inscrita no Orçamento do Estado, por imposição dos artºs 2º (princípio do Estado de direito democrático”) e 105º, nº 2, da Constituição da República Portuguesa. Ora,
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83º No Orçamento do Estado para 2011 o que está inscrito é a ablação da retribuição, contratualmente devida, nos contratos de trabalho em funções públicas vigorantes em 2010. Assim, 84º O artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei ……… enferma inconstitucionalidade material. O que, 85º Manifestamente, retira base legal constitucionalmente válida ao acto a prolatar – no mês de Janeiro de 2011 e nos meses subsequentes – pela Entidade Demandada, de atribuição e processamento dos vencimentos e abonos dos associados do A., se, e quando, obedientes aos normativos citados da Lei do Orçamento. E, 86º Pois, salvo o merecido respeito, bem fundada é a pretensão do A. de que seja adoptada a providência cautelar antecipatória (nos termos que adiante vão requeridos). Sendo que, 87º E adminicularmente, mais se pode dizer. Na verdade, 88º Não estamos nem em estado de sítio nem em estado de emergência: artº 19º da Constituição da República Portuguesa. E, 89º Embora o estado de necessidade seja uma figura transversal ao mundo jurídico (cfr. artºs 3º, nº 2, e 151º, do Código do Procedimento Administrativo, e o que se extrai do artº 16º da Lei nº
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de

67/2007, de 31 de Dezembro) certo é que não se verificam os respectivos pressupostos. Na verdade, 90º E além do mais, não há demonstração (e não é por acaso: tal não é possível !) que os resultados da medida excepcional (isto é: a do artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei do Orçamento) não pudessem ser alcançados por outra via. E, 91º Assertivamente no sentido da impossibilidade acima afirmada, basta, salvo o merecido respeito, compaginar a agressividade do legislador parlamentar (fazendo sua a agressividade do Governo) com as remunerações do trabalho e demais prestações matriciadamente remuneratórias – reduzindo-as sem horizonte temporal definido e capturando as reduções na fonte – e a flacidez e bonomia do mesmo legislador parlamentar (dando cómodo ao que lhe foi proposto pelo Governo) com os rendimentos e os lucros (irrefragavelmente menos dignos de carinho num – como é o nosso ! – Estado social de direito democrático, cujo vector axiológico fundamental é a dignidade da pessoa humana) do sector económico, do sector financeiro, do sector dos seguros … et reliqua ! Ora, 92º A solução da Lei do Orçamento, vista por direitas linhas, traduzse numa expropriação da retribuição contratualmente devida – E sem contrapartidas (v. g., certificados de aforro, títulos da dívida pública, etc.). Sendo certo que, 93º Como incisivamente afirma o Supremo Tribunal de Justiça, “os particulares não estão sujeitos ao dever de, em qualquer caso, em nome do interesse público, absorver ou suportar exclusivamente
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lesões ou suportar sacrifícios em nome do bem comum ou da sociedade, cabendo a esta, nos casos em que aqueles sacrifícios possam ser e tenham de ser impostos, compensá-los dos prejuízos causados – princípio da indemnização por expropriação” (acórdão de 19/Outubro/2010, Procº nº 565/1999.L1.S1 – disponível em htpp://www.dgsi.pt). Aliás, 94º O princípio da indemnização justa por expropriação está também consagrado no direito comunitário (cfr. artº 17º, nº 1, da “Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia”, ex vi do artº 6º do Tratado de Lisboa). Em suma, 95º E salvo o merecido respeito, a solução da Lei do Orçamento corresponde, com propriedade e rigor, a um verdadeiro esbulho do tipo de “cláusula de melhor fortuna”. não havendo sequer, e no mínimo, a previsão de uma salvaguarda

B) Não ofensa do interesse público

96º Não há interesse público prosseguível sem respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos (cfr. artº 266º, nº 1, da Constituição, e artº 4º do Código do Procedimento Administrativo). E, 97º Como escrevem Freitas do Amaral Et Alii, “num Estado de Direito, as duas realidades (isto é, a prossecução do interesse público e a protecção dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos) encontram-se indissociavelmente ligadas, não sendo
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possível, sob pena de ilegalidade a realização do interesse público sem a devida consideração dos direitos e interesses legítimos dos particulares” (in “Código do Procedimento Administrativo”, Anotado, Almedina, 4ª edição, pág. 41). Ora, 98º Sendo a República Portuguesa um “Estado de direito democrático” (cfr. artº 2º da CRP), na qual “o Estado subordinase à Constituição e funda-se na legalidade democrática” (artº 3º, nº 2, da CRP) e onde “a validade das leis e dos demais actos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição” (artº 3º, nº 3, da CRP) não pode haver ofensa a um interesse público que se pretenda extrair de normativos inscritos em acto legislativo que ofende a Constituição e os princípios nela consignados. Assim, 99º E salvo o merecido respeito também por aqui não se eriçam escolhos à adopção da presente providência cautelar antecipatória.

C)

Fundado receio de produção de prejuízos de difícil

reparação para os interesses visados assegurar no processo principal

100º Em procedimento cautelar periculum in mora é observável em duas não cumulativas vertentes: a) O perigo de infrutuosidade da sentença final da acção principal;

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b) O perigo de retardamento da sentença final da acção principal. E, 101º Aqui, e salvo o merecido respeito, verifica-se para os associados do A. o perigo de retardamento da sentença (a proferir no processo principal). Na verdade, 102º O perigo de retardamento da sentença (ou “perícolo del ritardo”, como é chamado na doutrina italiana) emerge de factos presentes dos associados do A. que enunciam a incapacidade financeira da sua esfera jurídico-patrimonial para suportar, de acordo com um trem de vida condigna, o decurso do tempo até que seja decidida, em definitivo, a causa principal (cfr. Isabel M. Celeste M. da Fonseca, “Introdução ao estudo sistemático da tutela cautelar no processo administrativo”, Almedina, 2002, pág. 117). Ora, 103º É exactamente a manutenção de um trem de vida condigno que está em causa: a) os associados do A. trabalham o mesmo e vão passar a receber menos (logo: diminui o rendimento disponível); b) a carga fiscal é mais agressiva (logo: também por aqui diminui o rendimento disponível); c) os encargos com alimentação, vestuário, transportes, saúde, educação e mais gastos normais (água, gás, luz, electricidade, etc.) aumentam – o que é de conhecimento público e notório. Assim, 104º E salvo o merecido respeito, também por aqui (isto é, por verificação do periculum in mora – na vertente de perigo de retardamento da sentença que decida, em definitivo, a causa principal) não se eriçam escolhos à adopção da presente providência cautelar antecipatória.
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III – O PEDIDO

* Na tese do A., e salvo o merecido respeito, a presente providência cautelar antecipatória deve ser julgada procedente, porque provada. E, * Consequentemente: a) DEVE a Entidade Demandada ser condenada a não prolatar acto administrativo de atribuição e processamento dos vencimentos no mês de e abonos de dos 2011 associados e em do A. os com meses fundamento no artº 19º, nºs 1 e 4, a), da Lei do Orçamento, Janeiro todos subsequentes. Ou seja, b) DEVE a Entidade Demandada ser condenada a atribuir e processar os vencimentos e abonos dos associados do A. em conformidade com o quadro normativo-legal vigorante em 2010.

* * *

Nestes termos, e nos mais e melhores de direito que forem doutamente supridos,
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REQUER seja a Entidade Demandada citada – na pessoa do seu legal representante e na morada acima indicada - para CONTESTAR, querendo, no prazo e sob a cominação da lei. Mais, REQUER, que, a final, seja a presente providência cautelar antecipatória julgada procedente, porque provada – e, em consequência, a Entidade Demandada condenada no pedido formulado em III.

Valor: Indeterminável (€ 30.001,00). Junta: Procuração.

O ADVOGADO CONSTITUÍDO,

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