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Os Lusitanos

— Questões de Etnologia Francisco Martins Sarmento
Ed. do Autor. — Typ. Silva Teixeira, Porto, 1880

Como numa grande parte da Europa, a arqueologia na Lusitânia encontra diante de si a abstrusa questão do celtismo; mas aqui a questão simplifica-se e acentua-se dum modo especial. Tudo o que sabemos dos celtas e da invasão céltica na Espanha nos mostra esta parte da Península completamente estranha à ocupação e influência célticas; tudo quanto os escritores antigos nos contam dos usos e costumes dos lusitanos nada tem que ver com os usos e costumes dos celtas, mas ao contrário, com os doutros povos muito diferentes deles; Diodoro não só nos diz expressamente que os lusitanos são iberos, isto é, não celtas, mas que a sua índole e carácter era inteiramente o oposto da dos celtiberos1, quer dizer, os lusitanos nem sequer têm mescla de sangue céltico; e, não obstante, os seus nomes étnicos e locais, os nomes de indivíduos2, de deuses, que os historiadores, geógrafos e monumentos epigráficos nos conservaram, têm na sua maioria uma fisionomia céltica tão pronunciada, que uma parte da Lusitânia antiga, a Gallæcia3, foi já alcunhada de berço dos celtas.
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Diod. Sic., V, 34. O mesmo nome de Viriato passa por céltico, Revue Celtique, vol. III, pág. 311 3 A Lusitânia antiga de Estrabão estendia-se desde o Tejo até o mar Cantábrico, compreendendo as duas Gallæcias, bracária e lucense. É neste sentido que tomamos a Lusitânia. Vid. infra.
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Vamos estudar os termos desta contradição, se não na esperança de a resolver a contento dos leitores, pelo menos na convicção de que chamaremos para este problema a atenção dos estudiosos.
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O mais antigo documento, que nos dá notícia de celtas, é um roteiro fenício do século VI4, utilizado por Avieno na sua Ora maritima, e a que nos socorreremos muitas vezes no decurso deste trabalho. Neste roteiro, que compreende a viagem entre a ilha de Tartesso, na foz do Bætis, e as ilhas britânicas, são mencionados os povos que ocupavam então o sudoeste e poente da Espanha, a Inglaterra e a Irlanda. No sul da Inglaterra conhece o nosso documento uns lígures, que haviam primitivamente habitado nas regiões geladas da Ursa, sendo daí expulsos pelos celtas, depois de tentarem debalde resistir aos invasores. A invasão céltica tinha sido feita por mar, pois que, já refugiados na Inglaterra, os lígures viveram muito tempo embrenhados pelos montes, sem ousar chegar-se à praia, “porque o seu antigo desastre os fazia olhar o mar com susto”. Receavam portanto uma nova invasão marítima, que desta vez só lhes podia vir da Morínia. A antiga pátria dos lígures, nas regiões geladas da Ursa, e numa posição sujeita a uma agressão por mar, não pode ser colocada senão nas margens do Báltico, em frente da Escandinávia, sendo da Escandinávia — a vagina nationum, de Jornandes — que, segundo este velho documento descem os emigrantes célticos, que fazem a sua aparição no mundo conhecido dos antigos. A verdade desta notícia recebe uma confirmação indirecta, se
Antes da nossa era. O mesmo se há-de entender de todas as datas que mencionamos neste escrito.
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nos lembramos das antigas legendas gregas acerca dos lígures do país do âmbar, nas imediações do Eridano, os célebres lígures, governados por Cycnus, o amigo de Phaethonte, e que desaparecem completamente destas regiões, sem se saber porquê. “O roteiro fenício dá-nos a explicação deste facto. Expulsos do noroeste da Europa pela invasão céltica, os lígures fogem na direcção da Morínia, e, atravessando o canal, refugiam-se no sul da Inglaterra, perto dos Albiões, seus irmãos. É sem dúvida temendo que os seus perseguidores lhes sigam as pisadas, e os avistem na sua nova pátria, que eles nem se atrevem a mostrar-se à beira-mar, o que só fazem muito depois, e quando, graças ao tempo e ao sossego em que vêem o país fronteiro, as suas apreensões e terrores se desvanecem. Resulta daqui que os celtas desprezaram o ocidente da Gália e as ilhas britânicas, como desprezaram a velha Ligúria do Báltico, pois que ela ficou “erma de habitantes”5. Veremos logo a direcção que provavelmente tomaram. Entre a expulsão dos lígures e a composição do roteiro medeia um espaço de anos indeterminado, que compreende a duração dos combates entre os lígures e os celtas, e todo o tempo — diu — que os asilados da ilha dos Albiões aguardaram a repetição dos seus primeiros desastres, o que se não deu, felizmente para eles. Sendo o roteiro escrito no século VI, opinião do sr. Karl Müllenhoff6, a primeira aparição dos celtas no teatro da história pode ser colocada no século VII, sem grande perigo de errar. Consultemos agora as notícias, que acerca dos celtas tinham recolhido os escritores latinos e gregos. Segundo Lívio, a emigração céltica dá-se no tempo de Tarquínio Antigo, século VII7. Quanto ao ponto de partida desta emigração, se o historiador parece ter em vista numa parte a Céltica de César, o que é de todo o ponto insustentável,
Vid. Avienus, Ora maritima, principalmente V, 130-46. A interpretação, que damos a esta e outras passagens do poema de Avieno, faz o objecto de um outro estudo, que é importuno sumariar aqui.
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Na sua obra, Deutsche Altertumskunde, pág. 73 e seguintes. T. Liv., V, 34.

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Am. Irrompendo das regiões de além do Báltico por motivos ignorados. relativamente aos celtas. vid. ou por parte da Céltica de César.. Camil. 37.. ao longo do Ródano. 12 T. se bem o entendemos. XV. V. 11 10 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 4 .noutra parte. Bertrand. seguem o caminho do Reno e parece fazerem alta no coração da Gália. faz sair os celtas e os cimbros. 34.. e que sem dúvida os ouviu da boca dos próprios lígures. é insustentável. apesar da sua hesitação. Liv. Mar. na direcção do bosque hercínio. XXVII. todas estas informações. “er nestas ilhas as britânicas.. as extremidades da terra. As tradições druídicas eram um pouco mais positivas: parte da população da Gália viera “ab insulis extremis et tractibus transrhenanis”11. Alex. V. apontam o mar hiperbóreo. Quanto às dúvidas que têm suscitado as afirmativas de Lívio. Marcel. vítimas dos celtas. XI. Se uma parte fica pela Céltica. Não pode desconhecer-se que a invasão céltica tem o carácter 8 Id. Como se vê. Admitindo isto. em que se pressente o eco da tradição. Idem. Era também a opinião de Helânico do Ponto. uma turba numerosa. sob o comando de Sigoveso. 9 Plutarco. que deve consolidá-las. 421-33. as regiões onde os dias são de seis meses9. conduzidos por Beloveso e outros caudilhos12. as hordas célticas. que fazia descer os celtas do país dos hiperbóreos10. os celtas vinham “ab oceano terrarumque ultimis oris”8. Archéologie celique et gauloise. 9. como alguns têm pretendido.. donde. segue para o nascente. Plutarco também nada sabe ao certo da pátria primitiva dos celtas. pág. estão de acordo com o autor do século VI. com quem convivia. depois de destroçar e afugentar os lígures do norte. da combinação das notícias do roteiro e das de Lívio ressalta sobre este problema histórico uma luz suficiente. Aí esta massa enorme de emigrantes separa-se. fazendo fé na matéria. mas todos os testemunhos que ele pôde coligir sobre a Céltica. como uma testemunha quase contemporânea dos factos. que primeiro se oferecem na sua marcha. enquanto que outros bandos descem para o sul.

Vendo que estes estrangeiros procuravam. 34. Id.. desandam para a Etrúria. Mal esta gente aparece. V. dificilmente poderia viver dois séculos na Europa dos escritores antigos. Um povo que se anuncia deste modo. T. passam para a Ásia Menor. sem dar rumor de si. São sem dúvida novos bandos. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 5 . Feito isto. Sálios. Sigamo-los na sua invasão da Espanha. tendo por fim de transigir com eles16. Sic. como eles. segundo Lívio. Diod. e tal como seria a dos cimbros.. terras em que viver. Liv. 33. Les premiers habitants de l Europe.duma verdadeira irrupção de bárbaros. os focenses em luta com os lígures. seguindo sempre o caminho do Ródano. Não pode pois dizer-se da invasão céltica na Espanha que é 13 14 15 16 17 Justin. atravessam mais tarde a Panónia. 106. outros estendem-se pelo sul da Gália e penetram na Espanha. Dos que descem o Ródano uns assenhoreiam-se de parte da Itália. fazer uma espantosa carnagem nos povos por onde passa13. que tomam para nascente.. As primeiras hordas que assomam no sul da Europa vêm encontrar. 35. D Arbois de Jubainville. 2 e seguintes. onde dão o último golpe à civilização etrusca15 e reduzem os romanos à última extremidade. pág. onde metade da península se levanta contra os invasores. até aniquilar as civilizações mediterrâneas. XXIV. onde por muito tempo são o terror destas regiões14. Dir-se-ia que os celtas nada mais são que a vanguarda dessa infinidade de povos bárbaros. os celtas tomam o caso como agouro e auxiliam a causa dos fundadores de Marselha. no território dos quais os gregos tentavam estabelecer-se. Alguns dos bandos. e que entram por fim na Espanha. devastam a Macedónia e a Grécia. estendendo-se pelo litoral do sul da Gália. XXV. V. vemo-la aniquilar a Ligúria do Báltico. estranhos à Europa dos antigos. que torcem para poente. 4 e seguintes. se viesse séculos antes e não encontrasse diante de si a ciência militar e a organização política dos romanos. Outras turmas.. que o norte tinha de vomitar contra o sul. trazendo o mesmo caminho vão ainda fixar-se na Etrúria17.

cit. Entre a Celtibéria e a Lusitânia encontramos as poderosas 19 Acerca desta data. que os receberam. ob.. cit. Que ela é posterior ao roteiro do século VI. vid. no ano de 445-4318. é o que não consta de parte alguma. págs. mas.dessas que se esconde na noite dos tempos.. 21 Com efeito. ou que pelo menos no tempo da redacção deste documento os celtas ainda não tinham chegado ao poente da Espanha.. cit. que conservou até tarde o nome de Celtibéria. Que eles tivessem um plano de conquista. 38. Na Espanha. Comp. pois que o roteiro não conhece aí nenhuns povos célticos. formando uma nação mista. Os celtas encontraram nos iberos do nascente uma resistência formidável. Os invasores estabeleceram-se portanto em habitações fixas. de que já falámos. os celtiberos20. como os demais povos ibéricos. Jubainville. O sr. a bem dizer. Jubainville. 18 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 6 . Müllenhoff. que mais adiante tiveram de defender contra os romanos. é inegável. log. a par dos cynetes. cit. de cuja opinião nos temos afastado em muitos pontos. Conhece-os já Heródoto. 20 Diod. coloca a invasão céltica na Espanha nos princípios do século V.. de sorte que pode assentar-se como certo que a invasão céltica na Espanha se efectuou entre o século V e VI19. sem se importar muito com o preconceito de fazer valer a sua individualidade própria. ob. é posterior à fundação de Marselha e passa-se. os beligerantes fraternizam. e provavelmente não merecia”ela muitas mais. 279. pelo menos. págs. pág. no sentido elevado desta palavra. 282. Sic. ob. depois de aturados combates. à vista dos marselheses e à vista dos cartagineses que comerciavam com a península. e criaram nesta parte da Espanha uma verdadeira pátria. no tempo da conquista romana. Diodoro conta-nos esta invasão em poucas palavras. as populações da Cetibéria aparecemnos tão desunidas como os demais povos da Espanha. não revelando por acto algum a menor unidade política21. dir-se-ia que estes estrangeiros se deram por muito felizes em viver nas cidades ibéricas do nascente. 108 e seguintes. O teatro desta luta e desta fusão ficou circunscrito a uma região geográfica.

. fazem uma excursão para o norte. É muito natural que eles nem se ocupassem com o que se passava para o Ebro. mas uma hipótese que tinha de basear-se em dois factos. etc. sempre duma “Oretani qui et Germani cognominantur” — diz Ptin. como estavam. e na insólita condescendência dos indígenas em trocar a sua língua pela dos estrangeiros. 24 Estrab. que os celtas tinham de submeter. adoptam aí estabelecimentos fixos. e vindo habitar perto das margens deste último rio. não celtas. É certo que uma turma de celtas ultrapassa os limites da Celtibéria e se estendeu para o poente. 23 Plínio. e que. qual deles o mais extraordinário: — numa verdadeira monomania destes ocupantes. como os seus irmãos do nascente. senão muito excepcionalmente. o cognome dos oretanos seria expressivo. protegidos pelos seus vizinhos orientais. a monomania de reformar os nomes de rios. montes e cidades. H. Aqui estão os únicos celtas. estando. Chegando ao rio Lima. deviam ser em breve absorvidos pela população pré-existente. Apenas alguns bandos destes celtici do Ana. Se a palavra “germani” tem nas línguas célticas a significação de “vizinhos”. carpetanos.. Como explicar agora a toponímia céltica neste largo tracto de terra desde o Tejo até ao mar cantábrico? Admitir a filtração insensível de tribos célticas. como facilmente se imagina. seria a única hipótese possível. as duas hostes desavêm-se e destroçam-se mutuamente. 22 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 7 . vetões. em dar de mão as denominações topográficas tradicionais. III. coisa que mesmo um verdadeiro conquistador nunca faz. indo as relíquias célticas domiciliar-se pelas imediações do promontório Nério24. 3. de que a história nos dá conta na Lusitânia. ao sul da Lusitânia. que escapassem à atenção dos observadores. III. pois que Plínio os conhece nos mesmos lugares. onde os conheceu Heródoto23. Estes porém. III. N. como alguns querem. seguindo por entre o Tejo e o Ana..tribos dos oretanos22 . III. É deles que fala Heródoto. já mancomunados com os túrdulos. Os lusitanos ficaram portanto completamente estranhos à invasão céltica. 4. antes de chegar ao seu território. e. pior. 5.

e às avessas a serem procurados debalde em sítios. a estranheza do facto toca as raias do impossível. cujas populações pré-célticas têm uma individualidade muito característica. faladas ainda hoje na Armórica e em algumas partes das ilhas britânicas. e que começaram a aparecer dólmenes em regiões. que ainda no tempo da conquista romana dão mostras duma vitalidade poderosa. Um povo nestas condições não abandona a sua língua. mas de cujos habitantes pouco ou nada sabemos. Al. religião própria. onde os celtas tinham habitado. Se o facto é já para estranhar. Sabe-se que por muito tempo estes monumentos foram alcunhados de célticos. Com os celtas da Lusitânia dá-se o caso inverso. mesmo na Celtibéria. costumes. na Lusitânia. a que o habituou uma longa tradição. que eles tinham dominado. usos. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 8 . mas infere-se da sua toponímia. que dá como céltica a toponímia da Lusitânia. a celticidade dos dólmenes ficou sendo a opinião singular dum ou doutro pirrónico25. que merecem uma página aparte na obra de Estrabão. A ocupação céltica não pode provar-se directamente. “porque” se encontravam em países. vem a propósito indagar mais de perto os fundamentos. págs.tenacidade prodigiosa. adoptando as inovações da gente recémchegada. em que se escora a opinião. Bertrand. e muito pouco crível nas partes da Espanha fora da acção dos celtas. como se vê na sua luta da independência. e que na opinião dos linguistas são o velho idioma céltico 25 Vid. nem os nomes. porque é impossível deixar de descobrir nela o íntimo parentesco com as línguas chamadas neocélticas. a obra já citada do sr. Porém desde que o campo das investigações se alargou. 81 e seguintes. onde os celtas nunca haviam posto o pé. e esta toponímia é céltica. * Nestas alturas. onde encontramos nomes célticos. e não vem fora de propósito lembrar o que sucedeu com a celticidade dos dólmenes.

transformado pelo tempo. sendo quase certo que esta ocupação só data do século V26. que sabem os linguistas da língua falada pelos povos pré-celtas do Ocidente. onde. Se se não desse por provado que os celtas haviam habitado na Bretanha. não podendo portanto deixar de falar uma das línguas do grupo grecoitalo-céltico de Schleicher. E. Mas. ninguém certamente se lembraria de chamar célticas às velhas línguas. Mesmo admitindo que nos tempos em que tais nomes foram transmitidos — tempos em que os celtas já estavam intimamente misturados com os povos préceltas — os antigos escritores soubessem extremar os nomes puramente celtas dos que o não eram. para estabelecerem com certeza que o erso. tendo de socorrer-se 26 Vid. na Inglaterra e na Irlanda. se conseguir demonstrar-se que estes povos pré-celtas eram de origem indo-europeia. substituindo-os por outros. têm uma analogia inegável com as línguas sobreviventes na Bretanha e nas ilhas britânicas. e não outra coisa? O que se sabe somente é que alguns nomes. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 9 . antes é evidente que a linguística nos seus domínios exclusivos está impossibilitada de apurar a questão de nome. que os escritores antigos nos dão por célticos. o bretão. Mas a celticidade das línguas britânicas e hibérnicas assenta em muito melhores bases. são línguas célticas. 239. Ethnogénie Gauloise — Le génie gaulois. o gaelico. o câmbrico. sem mais rodeios. mas isto não basta para decidir uma questão de tal magnitude. muitos dos quais são exactamente idênticos aos da Lusitânia. semelhante analogia. como o atestam os seus numerosos monumentos. que aí se mantiveram até hoje. a que por fim se reduz toda a argumentação. em vista do que sabemos da história. Beloguet. só mostrem o seu encarniçamento contra os nomes étnicos e locais que encontraram. e desta vez não pode pôr-se em dúvida que nestes países tenham penetrado povos de origem céltica. que a celticidade dos dólmenes Eis a questão. não chega a formar uma sombra de argumento. eles não dominaram. que deixam subsistir os usos e costumes dos povos pré-celtas. pág. há razões para admirar que estes invasores.

Justino pretende mesmo que. Mesmo modernamente tem sido objecto de surpresa a estreita analogia entre o genovês e a língua portuguesa e galega. como aliás lho insinuam os nomes de Helienes. Assim falando dos costumes das mulheres desta parte da Espanha. III. 6. XLIV 3. 7. e que ele mesmo acentua. que ela por si só não conseguirá achar nunca. como se vê. procurar os vestígios dos povos pré-celtas. 6. galegos. se das segundas que ele trata28. Os casamentos fazem-se more græco. às descobertas da arqueologia. Isto dá-se principalmente com os lusitanos. Plínio afirma do mesmo modo que os helenos e grau Estrab. ob. para liquidar se é das primeiras. que ocuparam o Ocidente.. III. segundo a tradição dos galegos. Mas as analogias mais frisantes. nenhuma analogia descobre entre tais usos e os dos celtas. entre eles Belloguet. importa pois. II. Diefenbach. Id. a todos os subsídios enfim que possam dar-lhe a chave dum enigma. astures. o parentesco entre este povo e os gregos era coisa corrente30. que nos dá os lusitanos. Amphílochi e outros. 7... Celtica. implicam com os gregos. são os mesmos com que nos pintam alguns povos ibéricos. III. as hecatombes ritu græco. cantabros. IV. pág. o geógrafo passa sem transição para os costumes das mulheres ligúricas do Mediterrâneo. e o geógrafo não põe a menor dúvida em que viessem parar a estas regiões várias colónias gregas. há usos espartanos entre alguns lusitanos de ao pé do Douro29. sendo preciso ler duas vezes os seus textos. como tendo os mesmos usos e costumes27. com que os antigos nos pintam os lígures do Mediterrâneo. Estrabão. 46. da antropologia. no intuito de colher algum indício sobre a língua que eles deviam falar. 17. III.para isso as investigações históricas. Partamos da Lusitânia. Vários escritores. Todas as analogias são entre lígures e gregos. III. pág. 29 Estrab. têm notado que os traços. * Para o problema que especialmente nos interessa. 39. 28 27 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 10 . 30 Just. cit...

1. 115. d Arb. a ser alguma coisa. Aristóteles. 34 Hecatei Abderitæ fragm. Marmora Parium. mas o que nos parece hoje digno duma séria atenção é que o nome de Hellenes e de Graici.. 34. os quais pela sua parte sentiam uma grande predilecção pelos gregos. De Fac. pág. Timeu era menos incrédulo. 37 Heródoto. 6. encontravam-se nomes gregos e mesmo inscrições gregas35. e principalmente o de seu pai Sthenelus. Esse não punha contras às tradições gregas e nomes gregos pelo noroeste da Europa. Numa ilha contra a Céltica. 33 Plutarco. que estes observadores encontram neste cabo do mundo. De More Germanorum. são genuinamente gregos. Estamos ao pé do Eridano dos antigos. sem dúvida alguma a Inglaterra. talvez já na antiga Ligúria do Báltico. ed. que os caudilhos da guerra de Tróia conduziriam aqui pelo Mediterrâneo. é muito possível que se trate dum mesmo povo e que a forma rigorosa do nome seja Seleni. 2. Meteorol. 36 Timæi fragm. Jubainville. Segundo as tradições da Gália.. e atribuía-as. rei dos lígures. Comp. ob. Heródoto acreditava pouco neste Eridano por uma razão que convém registar: é que este nome era grego36. Didot. O itinerário que os antigos fazem seguir a estas colónias. 35 Tácito. Bem que Plínio faça distinção entre helenes e cileni. nomeadamente pelos atenienses e délios34. 14. III. Por este caminho o pai da história deveria duvidar da existência dos lígures do país do âmbar. que.. pertence aos tempos arcaicos da Grécia32. 247. Cit. 32 31 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 11 .eram de origem grega31. ed. lá temos gregos barbarizados33. é a Irlanda. como outros. à influência dos argonautas que de Euxino haviam descoberto uma passagem para o mar do norte37. achamos gregos que tinham vindo viver para aqui com os hiperbóreos. e não é menos digno de reparo que estas tradições acerca dos gregos e de costumes dos gregos se encontram numa certa direcção com uma persistência singular. pois que o nome de Cycnus. Didot. Não seria difícil reunir mais citações. 6. Perto do Reno. IV. Na ilha Ogygia. parte da população deste país descendia de Plin. a par de gregos barbarizados. III. é insustentável. Lunæ.

de fisionomia grega). que por fim os obrigam a sustentar inteiramente a sua devoção. Al. tem tão pouco de mítico e tanto de positivo e de histórico.. pág. ob. não duvidam os srs. 32 e seguintes. Tudo isto é mera fantasia dos escritores antigos? Com estes gregos. D Arb. contrapostos aos dos gregos propriamente ditos. ob. Marcellino. Considerando os hiperbóreos povos pré-celtas. diga-se de passagem. A obliteração progressiva destas tradições entre os gregos aparece-nos na razão directa das dificuldades. 196. que já para certos antigos passava por imaginário. Al. que a incredulidade não encontra muito a que apegar-se. de Jubainville reconhecer uma realidade histórica o que parece incontestável — mas vendo nele o povo dos celtas — o que se nos afigura inadmissível40. ob. que os hiperbóreos encontram dia a dia na lha remessa dos seus donativos religiosos — dificuldades. cuja civilização devida a causas — 38 39 40 Am. Preller. Griechische Mythologie. 41 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 12 . pag. a não ser a razões meramente banais.. notada pelos observadores mais modernos. e a confissão de Heródoto. IV. Belloguet. pág. cit. de JubainVilie.. com que Heródoto nos fala das relações que os hiperbóreos mantinham com as religiões centrais da Grécia. As minuciosidades. XV. e tudo isto traz ao espírito a degeneração dos antigos gregos ocidentais. é impossível deixar de confrontar as tradições sobre os célebres hiperbóreos. pág. Herodoto. perdidos em tão remotas paragens. 147. cir. que aliás se mostra já um pouco céptico sobre a existência de tal povo. cit. A este povo.colónias dórias e de colónias troianas38. e que melhor se explicaria pelo estacionamento dos costumes arcaicos. II. 238. Bertrand. 261. e que alguns modernos reduzem a um puro mito39. parece-nos preciosa quando afirma que a crença nos hiperbóreos era ainda viva no tempo de Homero41. 9. do itinerário que seguiam as suas oferendas sagradas. Bertrand e Arb. dos nomes dos seus enviados (nomes.

e cujas relações se dificultam e quebram gradualmente e ao passo que a sua peregrinação mais as distancia de outras tribos. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 13 . Pela versão de Hecateu. Estrab. ou Hecateu Abderita. que nos escapa. admitia um íntimo parentesco entre os Venetos da Armórica e os do Adriático. etc. e assim por diante. A legenda dos hiperbóreos não envolve a memória de tribos arianas da mesma origem dos trácios. entregando-as em seguida aos povos limítrofes. mas precisamente a zona que vemos ocupada pelos velhos povos indoeuropeus. não há muito que hesitar cremos nós. talvez tivessem um fundamento. de poente a nascente. Eubcea e Tenos. e o itinerário seguido pelos devotos de Apolo. Esta marcha é estranha. anteriores aos celtas42. As razões por que em certa época os escritores gregos translocam o Eridano (Reno) para o Pó.complexas foi atingindo o requinte que sabemos. IV. por Dodona. e que por fim haviam conseguido que os próprios Scythas. o norte. fossem portadores das suas dádivas até às fronteiras do seu país. e que atenuasse a enormidade do disparate. mas muito à nascente do meridiano do golfo Adriático. e neste caso o nome de hiperbóreos diz-nos o caminho que eles tornaram. desde o país dos hiperbóreos até o golfo Adriático.. Segundo Heródoto. os hiperbóreos ficavam no alto norte. que se vão afastando de seus irmãos. cujo valor não discutiremos. com que todas estas 42 Uma tradição. selloi. A condescendência e devoção. e entre a posição que lhes assina Heródoto.. para depois tomar a direcção oposta. vinha a atravessar uma extensa zona. compreendendo as ilhas britânicas. 4. para chegar a este golfo. O caminho destes emigrantes tinha então sido o do Reno. que escusaram de passar e do sudeste da Europa para achar um a nova pátria? É o que se nos figura muito provável. e daqui até Delos. atravessava a Scythia inclinando o mais que podia ao poente. graici. visto que o caminho que seguiam as suas oferendas a Apolo Délio. mas ainda mais estranha é a declaração de Heródoto de que os Scythas não sabiam uma palavra destes hiperbóreos que atravessavam o seu país. os hiperbóreos ocupavam o noroeste da Europa.

uns e outros pertenciam indubitavelmente à grande massa de emigrantes indo-europeus. hiperbóreos. ou outros. deus que elas devem conhecer. a importação da agricultura. As tradições da Irlanda — diz o sr. H. II. é certo que a civilização. pág. ob. de costumes e religiões diferentes. fossem celtas torna-se impossível. mas seguissem um caminho já trilhado por outros povos irmãos. e que se substitui imediatamente à civilização do homem das cavernas. Revue d’ Anthropologie. que por causas desconhecidas atravessaram da Ásia para a Eúiropa. de Jubainvilte. Martin. embora os hiperbóreos não fossem os primeiros ocupantes arianos do noroeste da Europa.. Do mesmo modo. págs. 274 e seguintes. E que no tempo de Homero povos de origem ariana habitassem já o noroeste da Europa é o que não sofre a menor dúvida. Grécia e Ásia Menor. vol. pois que mesmo Hesíodo apenas conhece lígures nestas regiões. Admitir porém que tais povos. cit. história. cuja existência os arqueólogos nos revelam nestas regiões com os seus monumentos megalíticos. senão adorar. 199 — fazem vir os seus habitantes da Tràcia. e de que os trácios -na opinião de alguns seriam a guarda avançada43. Prova-o o seu conhecimento dos processos agrícolas e o carácter simbólico das gravuras dos seus monumentos. como a distribuição 43 D Arb. é de origem árica. costumes e língua. atribuindo esta tocante piedade a povos bárbaros. Mesmo que concedêssemos que a chegada ao norte deste famoso povo dos dólmenes era anterior à dos hiperbóreos da tradição grega. se prestam a receber e a transmitir aos seus vizinhos os presentes para Apolo. Segundo as 44 © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 14 . e entre ambos devia haver um fundo comum de crenças.populações. perde assim a estranheza que não deixa de suscitar a narração de Heródoto. estreitamente aparentadas. É a civilização dos hiperbóreos que a arqueologia surpreende no noroeste poente da Europa? Ainda que esta questão não possa ter uma solução definitiva. e só muito mais tarde é que os celtas entraram na cena da. como resultará do que vai ler-se. e melhoramentos correlativos. a sua legenda aponta quase ao dedo esta velha estrada do Reno44.

págs. págs. Estes monumentos pertencem a alguns dos povos.ª parte. págs. Études de l’antiquité historique. 45 Vid Fergusson. encontramo-las no Porto de Menestheu: Menestheu seria um rei grego (Estrab. se estenderam desde o norte até o extremo sul da Europa. e continua a desenvolver-se pelo litoral do norte da Espanha. povo agricultor? É a opinião do sr. pág. págs. págs. 255 e seguintes) — opinião que nos parece tão aceitável. ocupando as ilhas fronteiras. Por agora poremos só a questão se os massienos da Espanha serão estranhos aos Maxyes de Heródoto. tradições câmbricas. 98 e seguintes. Chabas. vai descendo pela costa ocidental da Gália. segundo Outros. II. aparece nas margens do Báltico. coligados contra os egípcios (Vid. os Maxyes de Heródoto. Introd. como inaceitável a origem céltica. pelo litoral do sul até os confins da actual Andaluzia. por vias independentes de qualquer testemunho histórico. cuja língua ela compreendeu com o auxílio do câmbrico (Celtica. pelo litoral do poente. II. de que os massienos. mas vid. II. Rude Stone Monumenis. aos mashaoushas das inscrições egípcias.geográfica dos dólmenes mostra de que modo quer uns. ou mastienos. 168 e seguintes). entre os quais figuram os Mashaoushas. V. IV). e não deixa. Com efeito.. acrescenta uma glosa. III.. quer outros. à Arqueologia da península ibérica.. Inglaterra e Irlanda. a arqueologia tem demonstrado que o povo dos dólmenes vem do Oriente. — em Gades: os gaditanos eram © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 15 . 126). 463—4). Para seguir a marcha do célebre povo dos dólmenes é preciso atravessar o Mediterrâneo e percorrer o norte da África até Constantina. que ele atribui a estas populações. onde pára45. — onde hoje é Constantinopla. carta ao fim do volume. Vita Apoll. ao qual os gaditanos sacrificavam (Philostr. e pondo de parte a fundação de Ulisippo por Ulysses. Henri Martin (Études d’ archéologíe celtique. 46 Já as seguimos do Báltico até à Lusitânia. Hu-Gadarn e o seu povo partiriam do país Haf. Felipe Simões. eram um ramo. 2. 173 e seguintes). e Diefenbach conta-nos que uma dama de Gales encontrou num bazar em Argel gente do interior da África. Continuando esta investigação até o limite dos tartéssios. O limite dos dólmenes no litoral do sul fica no território dos tartéssios (Avieno. V. E no entanto Adolfo Pictet encontrava nomes célticos de rios na África (Revue celtique. Ora maritima. de ser notável a coincidência de que precisamente nesta zona é que nós encontramos a cadeia de nomes gregos e de tradições gregas46. Pictet intitula o seu escrito “Um enigma”. também III. 13). É um enigma idêntico que nós estudamos neste trabalho. 437 e seguintes.

que em épocas muito remotas. e estão completamente separadas da história dos marselheses e das suas colónias na Espanha do nascente. ocupando de preferência os litorais.. IV. III. Ora marítima. — em Mœnaca: pelo aspecto das suas ruínas reconhecia-se nela uma cidade grega (Estrab..60 Não será escusado advertir que estas tradições remontam a tempos pré-históricos. IV. V. id. ou negar com consciência. * Sobre este mundo misterioso. é o que ninguém poderá afirmar. pois que a origem dumas e doutras deve ser a mesma. indicado ainda hoje pelos marcos miliários dos dólmenes. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 16 . — em Abdera. Quod in feroci barbaroque sat loco Cognomen hujus Græciæ accipis sono) Prorepit amnis. segundo Philostrato (ibidem). que sob o nome de hiperbóreos se compreendam povos da mesma família dos selloi. e o que o rasto das tradições gregas deixaria entrever. etc. é um facto fora de toda a discussão. Do rio que corria nas raias dos tartéssios diz Avieno. é o que pode causar tão pouca surpresa. posteriores todavia à ocupação do sudeste da Europa pelos trácios. partindo do mesmo ponto.Assim. 3). e que estes povos seguissem o caminho. mas o que não afecta essencialmente o problema étnico. uma grande massa de povos arianos faz a sua aparição no norte e dai se estende até o sul da Europa. poderiam lançar uma viva luz os documentos fenícios. E sem dúvida alguma com estas mesmas populações pré- de origem grega. que copiava autores duma grande antiguidade: Theodorus illic (nec stupori sit tibi. graici. como a marcha de quaisquer outros emigrantes que fizeram esta longa peregrinação. onde se viam monumentos dos errores de Ulysses (Id. 457. ou as inclua já. Que esta marcha seja aberta por tribos anteriores aos hiperbóreos. 2). que as ciências arqueológicas forcejam ressuscitar.

130 e seguintes. Ligus e Bergion.. segundo se vê ainda dum fragmento de Hesíodo. adversários de Hércules. que nos dá o norte ocupado pelos scythas. que do século XII em diante começam a lidar os lírios no seu comércio com o país do estanho e do âmbar. e mais que um povo ligúrico nas regiões. por exemplo. Infelizmente este novo é o menos comunicativo da terra. Para alguns investigadores. Em tempos já relativamente recentes. 132.. que conhece ainda uns Albiones.. sendo ainda um desideratum o destrinço e a colecção destes materiais. na certeza de que os seus perseguidores teriam a mesma sorte. de Jubainville. e a sua reserva parece obedecer além disso a um cálculo de mercador. onde o teatro daquelas cenas melhor pode colocar-se49. pág. Um facto basta. V. Esta interpretação parece de todo o ponto justificada pelo roteiro do século VI. nada mais são que os insulares do mar do norte e outros povos do noroeste da Europa. que lucra em envolver no maior mistério a fonte de riquezas incalculáveis que quer monopolizar47. Albion e Dercynus. O que porém é incontestável é que o nome colectivo dos povos ocidentais na antiga geografia era o de lígures. filhos de Neptuno. Didot. as informações que sobre o Ocidente devemos aos fenícios.célticas. sacrificou num naufrágio premeditado o seu navio e tripulação. 113. que foi indemnizado de todos os prejuízos pelos cofres públicos (Estrab. o sul pelos etíopes e o ocidente pelos lígures50. II). © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 17 . 308. e dominantes na vasta zona dos dólmenes. feito com a crítica severa que eles estão exigindo. como tiveram. que receberam pouco amigavelmente a primeira visita dos filhos de Melkart48. Afora o documento do século VI. andam dispersas e desfiguradas pelos mitógrafos e outros escritores antigos. Hesiodi fragm. Comp. Apenas se salvou o dono da embarcação fenícia. ob. cit. que um verdadeiro milagre nos salvou. 48 49 50 Arb. vendo que era seguido por um navio romano que pretendia conhecer este segredo. e esta geografia não 47 Poderiam citar-se provas numerosas. 197-9. V. III. um comerciante fenício. ed. uns Dranganes. Avienus. Ora maritima.

são os lusitanos dos escritores subsequentes51. 8). mas que. Isto é tanto mais provável. admitir a forma intermediária ligusitani. a nosso ver. O sufixo etani é relativamente moderno. e os albiões e ccstrymnidos. os célebres lígures do Báltico. se resolviam em étnicos mais ou menos especiais na nomenclatura dum observador. os gregos apenas podiam saber de positivo sobre o Ocidente e os povos ocidentais aquilo que aos fenícios aprouvesse comunicar-lhes. e ainda séculos depois. Demais disso. que pela afinidade saliente dos seus costumes e raça tinham direito a uma denominação comum perante a teoria geográfica. e tradições que só podem referir-se a este povo. pois que nenhum escritor verdadeiramente antigo o conhece. que o roteiro conhece ainda dois povos com o nome especial de lígures. lusitani. que os passava particularmente em revista. cujos habitantes se chamavam lígures54. V. (II.II. outro no noroeste da Espanha. não nos parece ponderosa. 52 53 54 51 Eratosthenes em Estrab. págs.pode deixar de ser fenícia. V. que o documento do VI século nos nomeia na Inglaterra. é verdade. os hibernos na Irlanda. Avienus. e que. os cempses. cit. Stephanus. e o nome de Lusitani não é um e o mesmo. repetem-se no sudoeste da Espanha dum modo excepcional. e assimilação das vogais. e a sua contracção em liusitani. Bætis. Ora maritima. mas a queda do g nas línguas chamadas neo-célticas é um facto tão vulgar. que a objecção fundada em tal argumento. 221-2).. 285. Um promontório dos tartéssios tinha o nome de ligústico52. um no sul da Inglaterra. Jubainville (ob. Ligystine. nascia dum lago ligústico53. não são certamente outra coisa mais que diferentes ramos desta grande colectividade de povos. fugidos aos celtas. IV. como é de crer. No século Dirão os competentes se o nome de ligures. pela queda do g. a norte dos cempses. o nome de lígur. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 18 . De Urbibus. Eram pois os lígures que os fenícios consideravam como representantes da civilização do Ocidente. e lusitani parece estar para liguses. pois que no tempo de Hesíodo. como turdetani para tartessii. Seria necessârio. I. 40. O Tartessus. ou melhor liguses. segundo as demonstrações do sr. e ao pé dele havia uma cidade Ligystina. cynetes e tartéssios no poente e sudoeste da Espanha.

pág. Ibid. 2. o organizador político que distribui o seu povo por sete cidades58. e que o sr. O sr. As tradições relativas a Habis. a este grupo de factos uma verdadeira consistência e receba-la deles. 60 Id. Esta opinião. segundo este sábio. os sicanos eram iberos. XII. figura-se-nos uma causa sem defesa possível. Jubainville crê ligúrico56. 56 62 Thucydides. o importador da agricultura no sudoeste da península. e aqui as afirmativas de Thucydides. Segundo Thucydides. ter-se-ia efectuado pouco antes da céltica. I. 57 Justino. 5.. Mal podem desligar-se delas as que aludem à guerra dos deuses e dos titãs no bosque dos tartéssios60. se celebrizasse no sudoeste da Espanha. VI. 58 Id. expulsos pelos lígures das margens do rio Sicanos na Ibéria62. Ibid. Habis. A invasão ligúrica. cerca do VI século. pela inovação da agricultura. mas o Sequana da Gália. 61 Estrab. entre outras coisas. págs. que Diefenbach já tinha por muito pouco provável (Origines © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 19 . 20 e seguintes) pretende demonstrar que o Sicanos de Thucydides não é o Xucar da Espanha.. Jubainville (ob. Jubainville. vêm dar. e este grande benefício não pode deixar de ser atribuido aos lígures. A aparição dos lígures 55 Heródoto. Admitir que uma civilização. XLIV. é o introdutor da agricultura no sudoeste da Espanha57. e as pretensões dos tartéssios a uma literatura que remontaria a mais de seis mil anos61. séculos depois que os tinos haviam explorado estas regiões. derramando aí a sua cultura. 244. isto no século VI. 163. quer dizer. cit. X. da qual Gargoris e Habis são os chefes históricos ou míticos. Um rei dos cynetes. são dessas que pertencem ao primeiro ciclo da civilização dum povo e só podem criar raízes num mundo ainda bárbaro59.. nome indubitavelmente ariano.. 59 Justino quase que faz esta observação. recomendando-se. cit. aproximando Habis dos fundadores de Roma. Ambas as afirmativas nos parecem porém pouco sustentáveis. na opinião do sr. 4. e doutros.VII um rei dos tartéssios tem o nome de Arganthónio55. cremos nós. ob. Jubainville. e na direcção do nascente a poente.

seguido por Avieno. Jubainville admite.. mas esta opinião não passa também duma conjectura. como. ed. 43). não havendo portanto mesmo certeza se ele. ou da sua táctica de guerra. que Avieno não deixaria de utilizar. O sr. se outro muito diferente. A nosso juízo. é para nós muito provável que Thucydides aurisse de outra fonte as suas informações. Conjectura por conjectura. estão bem longe de reunir a seu favor tantas e tão veementes presunções. na época de que tratamos. mais fundada me parece a que alvitra que a passagem de Hecateu foi aproveitada por Avieno (Ora maritima. é inteiramente conjectural. por exemplo. segundo as tradições da Sicília recolhidas por Thucydides. isto é. se faz do poente a nascente64.. cit. Com respeito à marcha destes invasores. 14. e. pela superioridade das suas armas. Didot). se ouve falar do Sequana. e o que é certo é que o Sicanos da Espanha era conhecido de outros escritores antigos. no dizer de alguns. pelas indicações de Thucydides. sucedeu ao Arar. como este. Müllenhoff (ob. anteriores a Thucydides. 95). enquanto que. e estabelecer nesta parte da Espanha uma dominação que deixou de si uma memória duradoura. pág.na Ibéria seria então anterior ao século XV63. visto que o poeta nos diz expressamente que aquele antigo autor foi um dos seus informadores (V. que não tomaram a deliberação dos sicanos. dir-se-ia que a pressão dos lígures sobre os iberos se faz na direcção oposta à que o sr. que nos foi conservada (Hec. que pela superioridade da sua cultura e organização política. reunindo os elementos dispersos que estas diversas fontes nos subministram. e com estas indicações coincide a circunstância de Europaæ. 480-1). e a destes coloca-se no ano 1400. tinha este nome. pág. V. tidos pôr dogmáticos. temos que antes do século XV aparece no sudoeste da Espanha um povo agricultor e portanto ariano. só chegando a tempos muito modernos. muitos factos da história antiga. o rio que deu o nome aos iberos n6o foi © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 20 . fragm. 165) quer que a notícia de Thucydides se funde numa passagem de Hecateu de Mileto. porque a notícia de Thucydides contém uma particularidade notável. 64 A crer um dos autores. e segundo as observações dos fenícios. ligúrico. soube subjugar os iberos. muito anterior à chegada dos tinos a Gades. e. se a lesse em Hecateu. considerando-se esta data como o primeiro dado cronológico positivo da história do Ocidente. 63 A ocupação da Sicília pelos sicanos é anterior à dos sículos (lígures).

vêm principalmente. etc. já antes do século XV nos aparecem no sudoeste da Espanha. V.. que só na Sicília podem achar paragem. 65 Os limites dos tartéssios eram cerca do rio Sicanos (Avienus. As dúvidas que tem suscitado o texto de Thucydides. cit. Philisto. Quanto à cronologia — o misterioso povo dos dólmenes é o primeiro representante da civilização ariana no Ocidente. 66 Al. permita-se nos a exageração. cujos vestígios encontramos desde o Báltico até os tartéssios. I3ertrand. quando procurando nós os restos da o Ebro conhecido. A. Os lígures da geografia fenícia. a ligúrica. considera dos pelos fenícios como representantes da civilização ocidental. do que a outros que não o são menos. 249—52). E experimentem os mais sagazes se podem extremar um povo do outro. porque. desde o Báltico até os tartéssios65. É como se os ligures trouxessem a marcha do povo dos dólmenes. Mas nós nada sabemos das peripécias desta migração. segundo as observações do sr.só se encontrarem memórias vivas de lígures e tradições ligúricas no sudoeste e poente da Espanha. tinham de ser inventados. 463 e seguintes). V. encadeadas com as dos lígures de Albion e do Báltico. é inevitável e torna impossível a corrente duma invasão pelo nascente. Preface. portanto duas vezes não ibérico (no sentido restrito deste nome) dominando desde o extremo Ocidente precisamente até perto do Sicanos. segundo temos notado. e a crítica. porque o facto é obscuro e pouco verosímil. Ora maritima. e passam sem oposição. forçados pela evidência a reconhecer a presença dum povo agricultor e construtor de dólmenes. não têm mais direito a rejeitá-lo absolutamente. Pela nossa parte. se não existissem. sem nos determos com as aventuras da sua peregrinação até à Sicília. XII. é impossível. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 21 .. os textos que nos ocupam. oh. E pior é. Admitir a prioridade do povo dos dólmenes e uma segunda migração. Bertrand. A direcção que eles dão à fuga dos iberos. uma autonomia própria66. da estranheza que naturalmente causa o fadário destes fugitivos da Espanha. que reduzisse a primeira a uma posição secundária e subordinada. o exame dos monumentos daquela época demonstra evidentemente uma forte organização comunal. mas outro a poente do estreito (Ora maritima. e vai ocupando sucessivamente o litoral da Europa.

. pertençam a migrações diferentes69. pág. respeitam a um e o mesmo facto etnológico. ob. para que lhas não confundissem com as de nenhuns outros povos67. 58). e depois o poente da Europa. e como elas nos aparecem na Inglaterra. que nos intima esta série de coincidências. é-nos impossível lutar contra a evidência. que os conheciam de perto. no tempo dos romanos. que nem os gregos atingiram. que parece terem tomado a precaução de estampilhar os seus monumentos e as suas cidades. como as vemos na Espanha. ninguém poderá demonstrá-lo. que se encontram gravados nos dólmenes e nas ruínas das nossas cidades mortas. a que não é também estranho o subsídio das. apesar dos seus sonhos de pan-helenismo. 70 A preferência do litoral não é privativa destes misteriosos povos ocidentais. tradições acerca dos hiperbóreos68. o que explica a sua rápida extensão ao longo dos litorais70. ou por lígures. os célebres monumentos de Stone-Henge e Abury (vid. E antes muito provável que as populações áricas. Por povo dos dólmenes. pouco mais ou menos. seguindo o mesmo caminho. no sentido dos fenícios. e. etc. 68 Não tem faltado quem veja nos templos circulares dos hiperbóreos. Pela nossa parte. encontramos apenas os restos da civilização do povo dos dólmenes. que ocuparam o noroeste. não se lhes pode exigir uma verdadeira unidade. mais ou menos extensas. mas respeitando a maior parte das vezes o território já habitado por povos da sua raça.. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 22 . O que porém interessa ao nosso intento é estabelecer que 67 Referimo-nos aos círculos. 7. Belloguet. com a sua autonomia própria. segundo se infere de Thucydides. deva ser o mesmo. nem os outros árias do sudeste. mencionados por Hecateu de Abdera. 69 É o que afirmam também as antigas tradições das ilhas britânicas. tais. não podemos entender senão uma multidão de tribos. Temos por mais que provável que as revelações da arqueologia e as notícias históricas de origem fenícia sobre os antigos lígures ocidentais. Que todas estas informações se refiram a um povo único. desses representantes da civilização do Ocidente. embora o fundo étnico e moral. espirais. na opinião autorizada dos fenícios. 1. cit.civilização desses famosos lígures do Ocidente. no tempo de Agrícola.

repetimos. que por exemplo. pág. Thraco-Illyro-Ligur. que não deixa de pôr em perigo o celtismo das línguas hibérnicas e britânicas. Celesia. 72 Celtica. e a sua língua tão estreitamente aparentada com a dos celtas. graici. * Diefenbach admitia já que os lígures eram um dos mais antigos povos da Europa. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 23 . Mo estamos no caso de entrar nestas melindrosas questões. eram um ramo de lígures73. etc. não é necessariamente céltica. pág. É o que pensava já G. bem que por meio dela pretendesse fazer o destrinço das populações célticas e ibéricas da Península. 73 Em. — importa agora pouco o nome — que tinham enraizado nela uma civilização sua. nos nomes de cidades é quase impossível distinguir se o nome pertence a uma.. que estes povos deviam falar. Humboldt (Recherches sur les habitants primitifs de l’Espagne. Para ele os latinos. o que pensam da língua dos lígures alguns sábios abre à toponímia céltica da Lusitânia uma solução nova. toda a região onde vemos estender-se os dólmenes. a terminação em briga. se realmente o elemento predominante era o ligúrico. II. págs. e língua. Dell’antichíssimo idioma de Liguri. Inquirindo agora da língua. enchendo-a de monumentos e de tradições. 223 e seguintes. ao grupo grecoitalo-céltico de Schleicher 71. tão vulgar na Espanha. lígures. Arbois de Jubainville sustenta que os lígures eram um povo ariano. estava ocupada e dominada por uma cadeia de povos de origem árica. 24-41. selloi. 74 Jubainville. Jubainvilie admite um grupo anterior. quanto à origem.muito antes da aparição dos celtas no Ocidente. Na opinião deste sábio. O sr. e. ob. e nomeadamente da Espanha. e suspeitava também que a sua língua tinha algum parentesco com o céltico72. pode ria. e consequentemente de nomes étnicos e locais. 126). se a outra língua74. págs. O sr. Celesia atacou desassombradamente a questão. afirmar-se a priori que ela pertencia. cit. 71 Compendium der Vergleichenden grammatik. duvidando mesmo se precederam os Iberos. A solidez deste facto parece-nos inabalável. 9.

. e. 8) vê no nome Cyneticum (littus) um nome grego. procurar luz noutra ordem de investigações e fora do terreno da linguística. 96) o nome de Albiones é céltico. Oestrymnidos. II. 443). mas Albion Dercynus (Dranganes. Ilha Achale.. Ilha Agonida. pág.. Albion pode ser ligúrico (Jubainville. pode ser absolutamente estranha à influência dos celtas. 357) deriva-o do sânscrito avara = ocidental. onde é provável haver já mistura de notícias. Dranganes. cit. o que talvez não suceda do Ana por diante. nos demonstram que a Lusitânia 75 Limitamo-nos a estes nomes. cit. ob. pág. pág.Müllenhoff (ob. Jubainville. não o são com toda a certeza. mas o chamado neo-céltico tem cwn. Pelo que respeita à Lusitânia. por eles pertencerem com certeza ao autor do roteiro. Mallenhoff (ibid. e daqui se evidencia que a toponímia duma região. II. Tartéssios. para resolver a dúvida. Cempses. se todas as investigações. o nome de cynetes e cyneticum jugum estaria no mesmo caso. mas pode ser pré-céltico: o sr. Pictet. Hibernos.). que. Stockes (Revue celtique. Por identidade das razões apresentadas por este sábio. Ilha Pelagia. ob. Ana é um nome céltico (A. alguns dos quais um celtista daria como célticos sem a menor hesitação76. cit. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 24 . são por isso dignos duma atenção especial. pág.Os nomes. se ocupa de povos pré-celtas e livres de toda a influência céltica. para deixarmos de os reproduzir: Albiones. como o nome grego. pág. Saulcy (Étude topographique sur l’Ora maritima. W. conservados pelo roteiro fenício. O sr. segundo vimos. tiradas de fontes diversas. Etc. 228). tornando-se indispensável. Do mesmo modo o nome de Hiberni é céltico para o sr. 76 Segundo o sr. a que é possível recorrer nestas matérias. infelizmente pouco numerosos. Cynetes. 308) são j adversários de Melkart. Rio Ana75. não obstante as mais estreitas afinidades com o céltico. í. pág. que explicaria tão bem o facto. Revue celtique. Estes nomes. são mencionados séculos antes da chegada dos celtas à Inglaterra.

a arqueologia demonstra-nos como eles se estenderam até ao sudoeste da Espanha. nem das razões que se nos impõem por diferentes vias. consideramo-los como fragmentos dum mesmo livro que nos ajudam. mas antes com outros povos de carácter e índole muito diferente dos celtas. para nós os lusitanos.. demonstram que estes monumentos continuaram em uso até depois da conquista romana. que entre os usos e costumes dos seus habitantes e os dos celtas nenhum escritor registra a menor analogia. cempses.. I. sem negarmos que Outras tribos “ligúricas” se derramassem pelo interior da Península. como os albiões. Por outro lado. que nas relíquias da civilização dos seus povos se acusa o carácter da do povo dos dólmenes. e os subsídios literários e arqueológicos. e. como é possível.ficou alheia à invasão e ocupação céltica. graici. visto o carácter das ruínas que temos examinado no Minho. que nos aparecem nos dólmenes do norte da Europa. e que não são poucas. não pode ser seriamente contestada. Quanto ao modo por que esta difusão se operou. como se vê dos povos do litoral do poente e sudoeste da Espanha. cuja afinidade de costumes e língua com os lígures. são de origem pré-romana. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 25 . que serviam de abrigo à população deste vale. 78 Só nos ocupamos. As legendas gregas. cestrymnidos. que persistiu até épocas relativamente modernas77. dizem-nos que caminho trouxeram estes emigrantes do sudeste para o noroeste da Europa. onde. nem em face das afirmativas dos escritores antigos. são ramos da velha migração ariana. além dum dólmen perfeito. Num promontório dos cynetes parece ter havido alguns monumentos megalíticos (Estrab. selloi. hibernos. a estudar este antigo mundo pré-céltico. a sua população não podia deixar de ter os mesmos usos e costumes que as do vale do Ave e do Âncora. etc. III. onde a história recolheu algumas das suas curiosas tradições79. 4). a história é 77 As explorações que fizemos em alguns dólmenes do vale do Ancora. cynetes e tartéssios78. como se prova pela semelhança das suas construções e das de Sabroso. Ainda uma vez. nem que muitas delas fraternizassem com as populações pré-existentes 79 Relativas a Habis. a opinião que sustente a celticidade dos lusitanos não sabemos onde possa encontrar uma base científica. britânicas. Em Sabroso encontram-se as mesmas gravuras. etc. as povoações muradas. cotejadas com as das ilhas. se tudo isto é indubitável. que temos passado em revista. há ainda vestígios de mais quatro.

. e que não eram pequenas as suas disposições para a vida marítima84. estes mesmos œstrymnidos transportam-se do norte da Espanha para o sul da Inglaterra83. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 26 . Em épocas muito remotas. a que por vezes temos aludido. que emparelhavam no arrojo com os fenícios. Os antiquários pelas suas próprias observações suspeitavam que a preferência do povo dos dólmenes pelo litoral. todas as probabilidades são que a invenção delas é anterior à chegada daqueles afamados mareantes82. III. a navegação entre 80 81 Avienus. representa os insulares da Inglaterra. remontar-se a um período ante-fenício. V. e a ocupação das terras sertanejas. antes dos tyrios. 13. antes da redacção do roteiro. fazendo. adversário de Melkart. Gal. chama-nos a atenção para a audácia com que os insulares de Albion. V. pois que estas embarcações sui generis nada deviam à imitação dos fenícios. 7. do país dos hiperbóreos. como parece certo. se não prova que este velho povo estivesse familiarizado com o Atlântico. é: que o deus precisa de pedir informações sobre a posição das Hespérides—o que significa que o conhecimento das Cassitérides. III. e portanto o caminho marítimo que para lá levava. O mesmo sucedia com os tartéssios. sem dúvida as ilhas britânicas. 8). Mas há um facto mais digno de atenção. deixava subentender um conhecimento tal qual da navegação. quando atravessaram do continente para a ilha. A confusa legenda de Hércules relativa às Hespérides. De Bell.. 102-8. 83 Avienus. em navegações de curto fôlego. estes povos já antes dos tyrios conheciam transportes marítimos tais quais. Estrab. se Albion. .talvez menos muda do que se crê. foi revelado aos fenícios por gente que o conhecia já. É quase nomear os tartéssios. e que é nelas e com elas que foi rasgada. os œstrymnidos. subindo o curso dos rios. afrontavam o mar nas suas barcas de couro80. como eles. é verdade. Ora maritima. III. a estrada marítima. barcas usadas também pelos lusitanos na navegação dos seus rios81. E. Ora niarilima. que depois se tornou tão célebre e tão frequentada pelos comerciantes fenícios. prova que depressa se familiarizou. 82 No tempo de César os venetos da Armórica tinham uma marinha notável. sem poder. 84 Acrescentemos que. apresenta um ponto claro. e também sui generis (Ces. Ora o roteiro do VI século.55-8. e isto.

pondo de lado alguns objectos de indústria romana e algumas © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 27 . favorecendo a cultura. de que atrás falámos: baía de Lagos. Ora maritima. e convém notar por outros motivos. I 14-15. donde a navegação para o sul da Inglaterra se fazia directamente. V.. bala de Aroza (Padron). Estas estações eram. 88 Íamos dizer — até muito depois da conquista romana. Se as considerações que ficam feitas não são infundadas. conforme tentámos demonstrá-lo no estudo do poema de Avieno. graças à sua posição geográfica. E o que é incontestável. facilitando as comunicações87. pelo menos as povoações da beira-mar. a sua velha civilização enfim. ao longo do qual se fixou o povo dos dólmenes. é que desde tempos remotíssimos o litoral. baía do Sado. As comunicações entre as britânicas e a Lusitânia são comprovadas pela identidade de nomes étnicos e locais. deixa pressupor relações idênticas. A Citânia sofreu esta influência. Corunha. os seus velhos costumes. Tudo leva a acreditar que Sabroso acabou. A fuga dos lígures do Báltico para o sul da Inglaterra. este povo manteve-se no noroeste da Espanha com a sua velha língua. pelo menos até Constantino. N. baía do Tejo. 34) nos fala duns Albiones no noroeste da Península. têm. Lima. que vieram lançar sobre a etnografia do Ocidente uma confusão deplorável. teve suas estações comerciais. e livrando. E não obstante. 87 São conhecidas as íntimas relações que no tempo de César havia entre os bretões insulares e do continente. Formado por um grupo de tribos. que se cruzavam nesta estrada marítima das velhas migrações. O confronto da Citânia e Sabroso deixa esperar que a velha civilização pré-romana possa ser reconstruída até certo ponto. completamente livre do contacto dos celtas. nas vizinhanças dos albiões. da barbárie em que o seu isolamento as poderia fazer recair. que seria fastidioso comparar aqui. como se infere duma moeda lá encontrada ultimamente. até à conquista romana88. 85 86 Avienus. e desde que os estudos e explorações arqueológicas se ocuparem seriamente deste problema. pertencentes à migração àrica que primeiro penetrou na Europa. IV. ao contrário do que geralmente se pensa.Tartesso e as ilhas britânicas85. Não podemos porém deixar de notar que Plínio (H. uma das mais puras árvores genealógicas dos povos antigos. visitadas por mercadores tartéssios e fenícios86. Aveiro. antes de se fazer sentir nesta estação a influência romana. os lusitanos.

Os limites da Lusitânia antiga. 201-2. se à acessão de novas tribos ligúricas que vieram doutra parte. se a Lusitânia é etnologicamente um terreno privilegiado.. o mesmo estilo ornamental.As diferentes revoluções. ocupam o noroeste da Espanha. os lusitanos. dir-se-ia que as duas estações são contemporâneas: a mesma arquitectura. visto que o roteiro não só desconhece este nome. Este nome de britânicas. 90 Estrab. é uma questão que provavelmente nunca se resolverá. devendo colocar-se entre a viagem do autor fenício e a viagem do marselhês. eram: —ao sul o Tejo. 91 Jubainville. ao nascente os carpetanos. Ora maritima. antiga já para Estrabão. mas conhecido por Pytheas e vulgarizado por ele. cit. na Irlanda. por que passou a Lusitânia. ob. Aqui está o que nós podemos entrever destas revoluções. as mesmas gravuras e sinais simbólicos. Segundo é de crer. ou não quis. 3. e ainda no ocidente da Gália. que se estendem até à baía do Sado89. que. Donde se conclui que a civilização romana. em épocas posteriores ao século VI. As mais antigas notícias de Estrabão dão-no-los já ocupando uma área muito mais extensa. já o dissemos. III. quer conglobandoos. 31. a invasão céltica anunciou-se na inscrições. tendo a sul os cempses. os lígures do noroeste têm-se apoderado do país dos cempses. etc. vacceus. pág. Assim. a aparição deste povo em tais países não pode deixar de lhe ser posterior. ou não pôde quebrar a rotina da civilização anterior. quer rechaçando-os para nascente. não alteraram em nada o carácter das suas populações. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 28 . como desconhece celtas na Inglaterra. e que. III. supõe-se ser uma inovação de procedência céltica91. ao poente e norte o oceano. 89 Avienus. são para nós os lígures do documento fenício. No século VI. vetões. V. É quase certo que a exploração de todas as outras ruínas que temos visto daria resultados idênticos. galegos e outros povos inominados90. É porém muito verosímil que este facto coincida com a invasão céltica nas ilhas britânicas. e. ignorado pelo roteiro fenício. principalmente no norte. Se a ocupação do território dos cempses é devida a uma superabundância de população lusitana.. arqueologicamente não o é menos.

explica-nos talvez esta nova deslocação etnográfica.Inglaterra. nem a época em que se fez. Antes da conquista romana a etnografia da Lusitânia sofreu uma outra modificação. A conquista vai progredindo lentamente pelo sul e pelo nascente. o noroeste da Espanha tornase o último reduto dos seus defensores. e. e que por tradição estavam bem ao facto das crueldades desta gente. com o seu cortejo de guerras e devastações. Uma vista de olhos aos sucessos que antes deste tempo se deram na Espanha. 20. O movimento dos galegos sobre os lusitanos do noroeste pode 92 Comp. mal conseguem expulsar dela os cartagineses. é indubitável. declaramna propriedade sua. vindo assim os velhos filhos de Cycnus a acabar na Lusitânia. Não é fácil saber-se se esta ocupação foi pacífica. III. Estrab. pois que de Bruto se diz que triunfou dos Lusitanos e dos galegos. Os callaici. promovendo a deslocação e emigração dalguns povos. Nada de impossível que muitos descendentes daqueles mesmos lígures. apoderam-se dum vasto tracto de terra entre o Douro e o mar cantábrico92. e empregam todos os esforços para aniquilar a resistência que os povos ibéricos opunham à sua dominação. . como no tempo dos árabes. como nas outras partes. sendo de presumir que alguns desses emigrantes procurassem um refúgio na Espanha. IV.e o Douro era já então o limite dos dois povos. tão frequentada nesses tempos. onde os esperava mais tarde a servidão inevitável dos romanos. fossem os primeiros a abandonar a sua segunda pátria. © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 29 . que chegaram à Península como humildes suplicantes. seguindo a estrada marítima. que vimos há pouco vizinhar com os lusitanos do norte. Os romanos. Que ela estava efectuada antes da incursão de Bruto no Entre-Douro-e-Minho. que os primeiros celtas afugentaram do Báltico para a ilha dos Albiões. se violenta..

nem a migração ligúrica das ilhas para a Espanha.. pois que lusitanos. e do escudo longo e a grande espada dos gauleses. cava foras.. 93 Estrab. Comp. III. pág. que ele supõe lígures. altera em nada a etnologia da Lusitânia antiga. nem a mistura de galegos e lusitanos. A armadura desta estátua é precisamente a que Estrabão atribui aos lusitanos: “aspide uti parva. cujus diameter duum pedum. III. o que diz o sr. encontrada perto do monte de Santo Ovídio (Fafe). © Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 30 . Possuímos uma das célebres “estátuas calaicas”. número já cit.muito bem ter por causa a pressão dos povos da faixa do norte que vão recuando diante dos inexoráveis conquistadores. astures. … ad hæc sica” (Ib. 198) acerca da armadura dos Fir-Bolgs das britânicas. Martin (Revue d’ Anthropologie. Mas. onde são muito visíveis os vestígios duma antiga povoação murada. cantabros são povos da mesma raça.). seja como for. 6. galegos. com os mesmos usos e costumes: Estrabão é expresso93. 7. H.