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Liberdade humana e presciência divina. A novidade de Lorenzo Valla

Paula Oliveira e Silva

2010
www.lusosofia.net

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Covilhã, 2011

F ICHA T ÉCNICA Título: Liberdade humana e presciência divina. A novidade de Lorenzo Valla Autor: Paula Oliveira e Silva Colecção: Artigos L USO S OFIA Design da Capa: António Rodrigues Tomé Composição & Paginação: José M. Silva Rosa Universidade da Beira Interior Covilhã, 2011

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∗ 3 i i i i . um espírito genuinamente crítico 2. Keβler. no meu Programa de Pós Doutoramento. em termos de produção filosófica. A novidade de Lorenzo Valla∗ Paula Oliveira e Silva Instituto de Filosofia da Universidade do Porto Conteúdo 1. Wihlehm Fink Verlag. financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Uber den freien Willen. 1990. tendo como responsável de formação o Professor Doutor Leonel Ribeiro dos Santos. apresentando este primeiro estudo sobre o De libero arbítrio de Lorenzo Valla que espero fazer seguir em breve da publicação da tradução da obra. acompanhada de introdução e notas. Cumpre aqui agradecer a orientação de formação do Professor Doutor Leonel. pela referencia à linha do texto latino nesta edição e seguida da nossa tradução. foi capaz de me transmitir o seu entusiasmo por este período ainda pouco desbravado entre nós. O divino e o humano no concurso das vontades Bibliografia 4 7 12 17 22 Este breve artigo resulta da investigação que realizei entre os anos 20072008 sobre Lorenzo Valla.i i i i Liberdade humana e presciência divina. O Diálogo De libero arbitrio: posição do problema 3. já terminada. Lorenzo Valla. Indicamos a obra pelas iniciais LA. Presciência divina e liberdade humana 4. Conhecida a sua competência científica no estudo dos autores do Humanismo italiano. Realizei o Programa no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Faremos uso da edição latina preparada e editada por E. Valla.

emergindo quer do debate com os círculos intelectuais da época. desenham os elementos da cultura filosófica e teológica então dominante. não obstante o método escolástico se encontrar ainda vigente e pujante. Ao www. Florença.i i i i 4 Paula Oliveira e Silva 1. Valla tornase efectivamente um modelo do ideal humanista do século XV.lusosofia. a filosofia e a teologia. Reunindo em si mesmo tal diversidade de saberes. Reflectindo a atenção do seu autor aos sinais dos tempos. com base em Boécio Auctor. a obra de Valla responde quase sempre a situações concretas. quer da leitura dos autores de uma determinada tradição que.termina os seus dias também em Roma. diversifica-se entre o gosto pela literatura. Milão e Nápoles.net i i i i . em particular pela clássica.a apetência pela historiografia e a compreensão do seu valor na reposição da verdade histórica. após uma existência marcada de algum modo pela errância – Pavia. ou na incontroversa auctoritas de Aristóteles. É uma figura de excepcional importância não só para a cultura italiana. em 1457. pela filologia – que o leva a adquirir competências linguísticas. mormente no plano institucional do ensino universitário da filosofia e da teologia. um espírito genuinamente crítico Lorenzo Valla nasce em Roma em 1407 e. O objecto dos seus interesses. sobretudo no grego e no latim clássicos . como também para compreender as características de fundo que historicamente virão a configurar o humanismo europeu. Valla. Interessa-se pela cultura do seu tempo e pelas particulares tendências humanistas que começam a assomar. são algumas das cidades por onde passou . reflectindo-se na sua obra.

Valla opõe a sua dedicação à retórica e a preferência pelo estilo dialógico. 3-81). p. onde ocupará a cátedra de Retórica do Studium da cidade. O anti-aristotelismo.lusosofia. contra o escrito De insignis et armis do consagrado jurista Bártolo de Sassoferrato2 . ROSSI “Il Petrarca a Pavia”. a ambição de Valla teria sido ocupar o cargo de secretário papal. o ambiente científico e cultural de Pavia não era particularmente dado aos estudos humanistas. O facto de não ter conseguido obter esse lugar na Cúria Romana faz que se dirija a Pavia. De facto. em Roma. Studi sul Petrarca e sul Rinascimento. 2 Este opúsculo foi editado em conjunto com o De libero arbitrio e a Apologia.net i i i i . dito o Panormita. Valla teve ocasião de aprofundar a sua posição crítica com relação ao aristotelismo. estava forjado pelo aristotelismo e pelo método escolástico. sobretudo quando aplicada às questões teológicas. que aí havia permanecido entre os anos 1365 e 1369. talvez mesmo em Pavia (V. à lógica dialéctica e ao método teológico escolástico. Cratander 1518). 1 www. a crítica à aplicação da dialéctica ao direito. é também assumida por Valla sobretudo no libelo Ad Candidum Decembrium contra Bartoli Libellum cui titulus de insignis et armis epistola. 1516) e na Basileia ( A. Com efeito. Do ponto de vista da sua história pessoal. tal como em Pádua e Bolonha. escrito em 1433 e endereçado a Decembri. a adesão O próprio Petrarca. em Viena (G. Em Pavia. lugar que conseguira graças ao apoio de Antonio Beccadelli. do ciclo de Humanistas da Lombardia. Singrenio.i i i i Liberdade humana e presciência divina. dificultando que aí se viessem a enraizar os studia humanitatis 1 . levada a efeito pelo circulo humanista de Pavia e Milão. o intercâmbio cultural que aí se vivia e a amizade com personagens como Pier Candido Decembri e Maffeo Vegio. tê-lo-ão familiarizado progressivamente com um modo de pensar crítico para com a dialéctica. que relata na obra “ De sui ipsius ac multorum ignorantia” redigida em 1377. V. terá sentido a mesma adversidade. 5 método e estilo escolástico. Firenze 1930. Todavia. Ao mesmo tempo. às quais associa um espírito não particularmente conciliado com a metafísica. a oposição ao método jurídico. o ensino universitário aí ministrado.

o Magnânimo. três nomes estão envolvidos 3 www. vinculando-se à corte de Afonso V de Aragão4 . I de Nápoles em 1435 e das Duas Sicílias em 1442. chega a Nápoles. valeu-lhe um pedido de demissão e o correspondente abandono da cidade. quando tiver de abandonar a cidade. 1993. redige uma obra. Explicitamente. De vitae felicitate. GARIN. e questo suo accento riveste di colori particulari. denotam principalmente uma divergência cultural e de linguagem.net i i i i . Giorgio di Trebisonda. Foram anos de produção fecunda. nos quais redige algumas das suas obras principais. 5 Bartolomeu Facio. Bartolomeu Facio5 . Bari.i i i i 6 Paula Oliveira e Silva ao método histórico-filológico são as notas características mais relevantes do ambiente cultural humanista de Pavia que Valla levará consigo. como António Beccadeli. Tais vicissitudes. Afonso V soube rodear-se de não poucos humanistas e intelectuais eminentes.e de. contra o De vero bono. onde Valla ensinava retórica. Teodoro de Gazza. Valla acusa-o de ignorar a língua latina e a eloquência – sem a qual os livros dos juristas romanos não se podem entender . que encerra uma tentativa de confrontar a visão cristã tradicional do homem e a realidade observável pela experiência humana. historiador real e tutor do Príncipe Ferrante. le antitesi di cui si compiace nei confronti dello passato” ( E. por esse facto. a propósito do espírito polemizante de Valla: “ Il Valla è sempre crudelmente polémico. em 1416. Laterza. reveladora do contraste cada vez mais evidente entre duas formae mentis. entre elas o escrito De Linguae Latinae Elegantia e o opúsculo De libero arbitrio. a humanista e a escolástica. de Valla. A perturbação que este escrito provocou na Universidade de Pavia. L’umanesimo italiano. Giannozzo Manetti e Garin escreve. dado o efeito adverso provocado pela vinda a público do referido opúsculo contra Bártolo de Sassoferrato3 . e quasi scandalosi. humanista ao serviço de Afonso V. Esta obra de Valla deu de facto origem a uma série de discussões sobre a condição humana na segunda metade do século XV. 63). 4 Afonso V de Aragão. onde permanecerá entre 1433 e 1448. Após uma breve estada em Milão e Florença.lusosofia. contudo. interpretar erroneamente o direito. p. corrompendo as normas da tradução.

551: nossa tradução). Tomo II. 2. Ora. Ao seguir Afonso V e a sua corte. Bartolomeu Facio e Lorenzo Valla.lusosofia. 6 No Prefácio ao V Livro das Elegantiae. Lorenzo Valla pôde respirar o ambiente de uma verdadeira forja de cultura humanística. nos acampamentos e campanhas militares6 . tempo disponível e por ultimo. O Diálogo De libero arbitrio: posição do problema A questão acerca da natureza do livre arbítrio da vontade humana e da sua conjugação com a presciência divina. às vezes por longos períodos. quase quatro. 1999. É neste ambiente que redige o De libero arbitrio. em constante peregrinação. p. é um debate constante ao longo da História da Filosofia. como secretário do Rei. deveria segui-lo. que pretende dizer na controvérsia: António Beccadeli. com a campanha ainda recente e certamente despendi toda ela na milícia.net i i i i . lugar adequado. Cáceres. No entanto. Introdução tradução. indo de um lado para o outro. contudo Valla não pôde ainda gozar do ócio em liberdade que sempre ansiou e que considerava condição para se dedicar às artes liberais. LOPEZ MOREDA. De facto. 1. não duvido que todos sabem com certeza que me faltaram todas as ajudas que são importantes e mesmo essenciais para os estudos: leitura habitual. De linguae latinae elegantia. logo no Proémio. p. se a protecção do Rei significou a possibilidade de realizar os seus projectos literários e de terminar as obras já iniciadas. Vol. com António Glarea.i i i i Liberdade humana e presciência divina. 7 Gianantonio di Pandoni dito Porcellio. ou a existência de uma ordem universal. ter o espírito sem outras ocupações” (L. por terras e mares. mesmo que o não dissesse. VALLA. Veja-se a propósito Charles Trinkaus. indica. www. 200-229. mas não sei com certeza se o fiz por decoro ou mais por necessidade. In Our Image and Likness. obra que se encontra entres as primeiras que elaborou durante o período napolitano. descreve assim a sua situação: “ Já passei três anos. Porém. quando Valla acede a debater. esta mesma questão. abundância de livros. edição critica e notas de S.

nos textos que tratam a mesma questão. sendo.i i i i 8 Paula Oliveira e Silva algo de próprio. por parte de Deus. conclui que em nada se contradizem. mas teológico. Esta tese é uma constante. então. dois conceitos cujo horizonte hermenêutico não é mais o da filosofia. por exemplo. esse parece ser o grande equívoco gerado pelos filósofos em torno desta questão particular. a saber. o principal réu no tribunal da história. então. Porém. sendo Boécio. por se tratar do ente supremo. neste assunto particular. em Deus. entre o acto de conhecer e o acto de exercer a sua vontade. concluir que. bastando recordar. No contexto da obra de Valla. pela dissociação. Analisando o acto livre humano e a presciência de Deus. a da predestinação. de integração numa ordem maior. muito em particular ao De Consolatione Philosophiae. eu não pareça ter raciocinado em vão. os diálogos de Agostinho e Anselmo ao propósito. 52-57: “ E esforçar-me-ei por discutir e resolver todo este assunto com a máxima diligência que puder a fim de que. o De libero arbitrio insere-se assim. nada de novo. Acresce ao facto que.lusosofia. Com efeito. depois de todos os que escreveram acerca dele. o diálogo é conduzido a termo por Valla numa direcção inesperada.” www. Poder-se-ia. Assim sendo. não é de âmbito filosófico. mais do que uma peculiar solução para o problema proposto. como uma continuatio da crítica a Boécio que iniciara em De vero bono. o De libero arbitrio é para Valla um veículo para 7 LA. por isso – e este é um pressuposto constante no pensamento deste humanista – inacessível à razão. mas o da teologia. ou não.net i i i i . novo e diferente de quanto foi dito pelos demais que se expressaram sobre o tema7 . o texto não apresenta. apresentaremos algo de nosso e diferente dos demais. a especificidade do modo de Valla se posicionar ante ele reside no facto de considerar que a questão do livre arbítrio e da sua compossibilidade. os actos de predestinação e graça são totalmente inacessíveis para a mente humana. Em que consiste. e a da graça. de facto. esta especificidade? A uma primeira leitura. na óptica de Valla. Ora.

que o levou a não entender como devia a questão do livre arbítrio. aos quatro primeiros livros respondemos na nossa obra sobre O Verdadeiro Bem.lusosofia.. e abrir novos itinerários à razão. COURCELLE. no Livro V da sua Consolação. Valla considera que o modo de entender a filosofia e a teologia. foi o de não ter amado a filosofia como devia9 . Paris. eu não pareça ter raciocinado em vão. então. E esforçar-me-ei por discutir e resolver todo este assunto com a máxima diligência que puder a fim de que. na retoma do que fora dito pelos Padres e da recordação da essência da vera religio.. quer pela metodologia. 1967. bem como pelo lugar central que esta obra ocupou ao longo da Idade Média Ocidental. Um tal posicionamento esteve na origem. em conjunto com os demais escritos de Boécio. Mas. mas na força da sobrenatureza divina. escreve Valla. a forma mentis que será uma constante no Ocidente latino até ao século XII8 . veja-se P. contestando o método de ambos os saberes e a sua aplicação à concepção da moralidade e do exercício da liberdade cristã. 9 LA. a não raciocinar como devia acerca do livre arbítrio. por um lado. historicamente. Com efeito. sendo necessário pôr de manifesto o aspecto nefasto de uma tal proposta.” 8 www. [11] Na verdade. Esta obra e o seu autor marcam de algum modo o início de uma nova era e permitem delinear. 9 ampliar a sua crítica ao saber escolástico e aos pressupostos epistemológicos da filosofia e da teologia. 10-11: “ (. quer quanto à doutrina. La consolation de Philosophie dans la tradition littéraire.i i i i Liberdade humana e presciência divina. De facto. apresentaremos algo de nosso e diferente dos demais. na óptica de Valla.) só o amor desmedido à filosofia levou Boécio. ter BoéSobre este assunto. Com efeito. Ora. a qual não está no poder da razão. em boa parte. o erro de Boécio. quer pelo conteúdo. quer quanto à transmissão do texto.net i i i i . por outro. como deveria. Valla assume o De consolatione Philosophiae como emblemático de toda a escolástica. depois de todos os que escreveram acerca dele. é em si mesmo pernicioso para a religião. bem como a projecção desta obra ao longo da Idade Média. Esta tarefa residirá. por parte de Boécio. do método escolástico e da concepção de saber por ele veiculado. A obra do erudito francês analisa à exaustão as fontes de Boécio para a composição do De Consolatione .

conselheiro e historiógrafo de Afonso V: Historiarum Ferdinandi Regis Aragoniae libri tres (1446/1447). levaram a efeito. posteriormente pela de Aristóteles. primeiro pela mão de Boécio. Para transmitir a doutrina de sempre.mais do que com a filosofia. assim. em moldes que deixam de lado um sentido determinado da inteligência da fé. as doutrinas dos filósofos não foram senão prejudiciais. foi isso que a Idade Média.é a defesa de um novo paradigma de racionalidade.filológico10 . quais colunas do templo de Deus . Afinal. Por seu turno. colocar a filosofia ao serviço da religião comporta uma dupla perversão. afirma Valla.lusosofia. E. que tantas vezes expulsaram como fonte de erros . mais do que enveredar pela nova via modernorum. estar na base da ciência teológica. Valla escreve o De falso credita et ementita Constantini donatione declamatio.. que caracterizou a escolástica aristoExemplo dessa paixão pela historiografia é a obra escrita enquanto secretário. regressando às fontes dos Padres e dos Apóstolos em matéria de fé. Ora. A esta. associando aqueles dois saberes. fundamentalmente da retórica. em Paris. Do apuramento do texto à luz da filologia é resultado a Collatio Novi Testamenti. cuja segunda redacção foi publicada por Erasmo em 1505. opõe a christiana religio. Este. uma multissecular tradição filosófico-teológica.i i i i 10 Paula Oliveira e Silva cio amado a filosofia. o histórico e o filológico. na perspectiva de Valla? De certo modo. A crítica de Valla atinge. Contra estas pugnaram os Apóstolos e os Padres. deverá apurar as artes da comunicação. À sanctissima religio. o que Lorenzo Valla propõe – atitude que é comum a outros humanistas da mesma época e que caracteriza afinal o próprio humanismo . identificada com o modelo da lógica dialéctica. 10 www. bem como cingir-se ao apuramento da verdade histórica mediante o recurso ao método histórico. opondo-se veementemente à instrumentalização da filosofia por parte da teologia. rejeitando-a. pela prática das boas obras. inquinando ambos os saberes. tendo estado na origem da maior parte das heresias.net i i i i . e a Escolástica com seu exponente máximo. que servira de base ao exercício da filosofia como ancilla theologiae: o facto de a razão. deve recolher-se à autoridade dos Antiquii.

Todavia. o qual. É este o horizonte deste diálogo do Humanista Romano. Porém. mormente à luz da selecção de textos paulinos aí levada a efeito por Valla. incluindo a de Severino Boécio. foi considerada por uma tradição multissecular como sendo a melhor.. veja-se “ La rethorica come modus tehologandi”. e o modo como ela é articulada no interior da sua obra. A especificidade do posicionamento de Valla em face da discussão sobre a natureza do livre arbítrio é a compreensão da destinação humana no contexto de uma salvação sobrenatural. quer a necessidade de o esclarecer12 . CAMPOREALE. onde Boécio pensa ter solucionado a questão.. Lorenzo Valla. no capítulo II de obra de S. operada pelo Deus da revelação judeo-cristã. erroneamente. . Valla nega-se a aceitar as respostas dadas pela tradição filosófica. o debate tido com António Glarea. p. porém. da qual depende tudo o que se refere às acções humanas. Desta forma. operada pela razão filosófica quando. antes de concluir por esta tese de cepticismo racional face ao conhecimento do modo de agir de Deus.i i i i Liberdade humana e presciência divina. Valla encontra uma limitação essencial. Reconhecendo a um tempo quer a arduidade do problema. Valla apresenta a rethorica. de que De libero arbitrio deixa constância. inicia-se com uma análise da própria tese boeciana acerca da relação entre a presciência divina e o livre arbítrio. como alternativa ao problema da mediação epistemológica entre esses dois saberes fundamentais.A questão acerca do livre arbítrio. toda a justiça e injustiça. assumindo-o como próprio. Aliás. todavia. 226-265. Valla retoma o debate justamente a partir do posicionamento boeciano..lusosofia. mas sim que o seja a solução apontada. parece-me extremamente difícil e particularmente árdua” 11 www. 80: “ Ant. e não só nesta vida como também na futura.net i i i i . propunha-se instaurar o estatuto humanista da teologia11 . 12 LA. 11 télica-tomista.. e extrapolando Sobre esta proposta de Valla. só é desvendado claramente já no final do opúsculo. todo o prémio e castigo. Não recusa que o posicionamento da questão por parte deste seja exacto. a qual.

sujeito aos condicionamentos da alma unida ao corpo e à sucessão temporal13 . Valla. de um conhecimento de presença. define. 4. qua cuncta dinoscit. Presciência divina e liberdade humana No livro V de De Consolatione. Quid sit igitur aeternitas. V. 13 www. 3. Boécio soluciona a questão anulando a própria noção de presciência. haec enim nobis naturam pariter divinam scientiamque patefacit”. 6.net i i i i . Como pode a razão humana. e o conhecimento humano. sed scientiam numquam deicientis instantiae rectius aestimabis”. afinal. afirma a coexistência de um conhecimento necessário. por seu turno.lusosofia. 2-3: “ Deum igitur aeternum esse cunctorum ratione degentium commune iudicium est. que é própria de Deus. V. Severino Boécio soluciona o conflito entre presciência divina e liberdade humana invocando a especificidade do conhecimento de Deus. se julga capaz de penetrar nos segredos divinos. e uma necessidade condicionada. 21-36. com base neste conhecimento humano da inteligência divina. o que é a presciência: “ Si praesvidentiam pensare velis. sem que tal acto divino condicione ou determine a escolha humana14 . Boécio distingue. eterno e necessário. uma necessidade per se. No seguimento. De Consolatione. A solução boeciana incide numa análise do modo do conhecer divino. 14 Cf.i i i i 12 Paula Oliveira e Silva a sua limitação natural. consideremus. sublinhando a diferença entre tal modo de conhecer. tece uma dura crítica a esta postura boeciana. que acaba de ser descrita como limitada e sujeita Boécio. 6. Ibid. ante o qual a percepção do futuro é inadequada ( Cf. V. Severino. de tudo o que sucede. específica das realidades contingentes entre as quais se conta o poder humano de escolha. non esse praescientiam quasi futuri. Na base destas categorias. da mesma forma. De Consolatione Philosophiae. 31-32). Tratar-se-ia. por Deus e para Deus.

Este pressuposto é coincidente com o A crítica à posição de Boécio e aos limites da razão é introduzida pela fala de António. é debatido precisamente o mesmo problema e conclui-se que as dificuldades derivam não tanto da divindade da presciência. . Conclui Agostinho: “ A. 10. a que conhecimento da eternidade e da inteligência poderei aspirar? Suspeito que estas coisas certamente nem o próprio Boécio as entendeu. III. que direi dos outros.) não é 15 www.lusosofia. Qual é. mas da relação entre o conhecimento de outro face à acção livre de um terceiro17 .. recorda o debate ocorrido entre Agostinho e Evódio. Eu porém. a solução de Valla e o seu contributo para o esclarecimento da questão? Valla não concebe a oposição entre presciência e liberdade a partir de um modelo de conhecimento específico da divindade. não sendo capaz de levar a cabo a sua tarefa. Na verdade.. se refugia em certas realidades imaginárias e fictícias? Com efeito. seja-me dada a tua benevolência e a dos demais: absolutamente nenhum deles tem o meu assentimento. que está acima da razão. – É mais por ser de Deus. Com efeito. 13 ao tempo. penetrar na essência da divindade. baseado em elucubrações e sobretudo um atentado ao primado de Deus sobre a razão humana15 . no terceiro livro do Diálogo sobre o Livre Arbítrio. coisa que não creio. Mas no assunto acerca do qual desejo falar contigo. se o que disse é verdade. o raciocínio de Boécio surge a Valla como contraditório. então.net i i i i .. que sou racional e nada conheço fora/à margem do tempo. alguns séculos antes daquele registado entre Boécio e a Filosofia.. LA. “ A. afinal.)” Após o debate com Agostinho. conhecer a mente suprema de Deus? Por isso. 149-164: “E nos demais assuntos não rejeito os escritores.” 16 LA 252-253 :“ Não dirás que algo seja por tu saberes que é” 17 Diálogo sobre o Livre Arbítrio (DLA). Neste sentido. (.i i i i Liberdade humana e presciência divina. ora outro me parece dizerem coisas prováveis. sendo essa a base do argumento. Evódio reconhece que o que faz a presciência dos futuros um conhecimento necessário é o própria noção de presciência – conhecimento antecipado. pois ora um. IV. – De onde te parece provir esta contradição entre a presciência de Deus e o nosso livre arbítrio? É por se tratar de presciência ou por ser presciência de Deus? E. quando o próprio Boécio. e pela sua eternidade. mas a partir da experiência humana do conhecimento prévio16 . a quem todos dão a palma na explicação desta questão.(. sabe tudo e tem tudo na sua presença. diz que Deus pela sua inteligência.

subordinada aos acontecimentos). de Paula OLIVEIRA E SILVA. Porventura é por saberes isso que o dia é? Ou pelo contrário. o debate prossegue apurando a análise e fixando o problema não com relação a um conhecimento eterno de acções que se desenrolam no tempo – proposta que se viu ser a de Boécio – mas por referência ao conhecimento dos futuros. para quem a previsão de um acontecimento não é causa eficiente dele18 . de facto. Por um lado. 248-255:“Ainda não vejo por que razão te parece que da presciência de Deus decorre a necessidade das nossas acções. mas sei que assim é porque isso é ou foi. 271-274 :“Assim. é porque é o dia que sabes que é de dia?” 19 LA. o facto de o conhecimento prévio de Deus respeitar a natureza das coisas que conhece. a presciência de Deus torna-se necessária (e. que sei que é desse modo. o que introduz em Deus a contradição própria de um conhecimento necessário de realidades contingentes. Por exemplo. (Trad. Mas o raciocínio acerca do futuro é diferente. ou ser. seguramente saber que algo é faz igualmente que seja. não dirás que algo seja por tu saberes que é. nestas realidades temporais admito que não é por algo ter sido. porque é variável e não pode conhecer-se com certeza.lusosofia. pois as coisas terão de ocorrer tal como Deus as prevê.” www. se afirmar que as coisas acontecem de um determinado modo. Às aporias de Glarea. prever que algo virá a existir. INCM. a liberdade humana de escolha é anulada. Ora. inversamente. Se. faz que venha a existir. pois só com relação a estes se coloca a questão da incerteza e da variabilidade19 . António Glarea leva o raciocínio até à aporia. inclusivamente. Deste modo. 267-269). e é por isso que Deus as prevê.net i i i i . um determinismo absoluto. Mas se conheço a tua inteligência. saber que agora é de dia. Deus conhece as acções humanas enquanto resultapor ser presciência de Deus que é necessário que aconteça o que ela conhece de antemão.i i i i 14 Paula Oliveira e Silva de Valla. a este futuro incerto (para nós). Valla responde com duas teses que também se encontram em Agostinho. Mas se. porque é incerto. Lisboa. 2001. de algum modo. No modelo de Agostinho. 18 LA. p. pois a ser assim. mas tão-somente por ser presciência. a presciência divina confere. a qual seguramente não existe se não conhecer coisas certas”.

” Em DLA III. porque o faz voluntariamente. expressa nas leis da natureza. Deis é também presciente de tal poder. A vontade existirá. porque a presciência de Deus é de uma vontade. Assim. portanto. A base de um tal conhecimento é a constância das relações causa-efeito. A essência da questão é a distinção. Aqueles primeiros sucedem dentro de uma ordem natural das coisas. . O mesmo não sucede com as acções humanas. 23 Cf. que Ele conhece de antemão. 233-236 :“Pelo facto de Deus prever algo que será feito pelo homem. existirá a própria vontade. O facto de Ele não poder não prever o futuro é manifestação não de uma imperfeição da sua natureza mas de um excesso da sua sabedoria22 . Sendo estas causadas pela possibilidade de escolha. não há nenhuma necessidade em que o faça. discute-se precisamente este aspecto23 . 290-294. 15 dos de uma decisão livre da vontade que as pratica20 : de que modo pode Deus ignorar a acção. e que é exemplo a medicina ou a agricultura.Valla responde com a infinita perfeição do conhecimento de Deus. Um derradeiro passo na análise da relação entre presciência e liberdade humana é dado pela distinção entre futuros contingentes e futuros livres. p. a qual está na base de uma certa presciência que também se encontra em toda a ciência humana dos fenómenos naturais. 339-340.i i i i Liberdade humana e presciência divina. Mas não poderia tratar-se de uma vontade se não estivesse em nosso poder. pois Aquele cuja presciência não se engana conheceu de antemão que este poder me pertenceria” ( Agostinho.net i i i i . 320-385.lusosofia. que elas não sejam efectivamente livres. Diálogo sobre o Livre Arbítrio. nenhuma determinação prévia as poderá anteceder. No exemplo retirado das fábulas de Esopo. LA. III. Ele até me pertencerá com mais segurança. 8: “ Como Deus conhece de antemão a nossa vontade. 21 Cf. na medida em que Deus o conhece de antemão. LA. 267). se não ignora a vontade que é fonte da acção?21 Quanto à segunda dificuldade que decorre da introdução em Deus de um conhecimento necessário do contingente . 20 www. 22 Cf. nas acções humanas. não é pela presciência de Deus que este poder me será arrebatado. se pode. Ora o que é voluntário não pode ser necessário. . LA. Ora a pura indeterminação delas faz ou que Deus não as possa prever ou. entre um domínio de LA.

informando-o de que morrerá na miséria e no exílio. não os elabora ou determina.lusosofia. Valla orienta o debate para o contexto da adesão fiducial. pois no plano da pura possibilidade de escolha os próprios contrários são compossíveis24 . pois a ele cabe a decisão de que assim acontecerá 26 . totum ad voluntatem Dei esse referendum. LA 405-414. De facto. sobre o que lhe viria a acontecer. Cf. Apolo responde que não o pode fazer. LA 453-575. Sexto fará livremente os actos que o conduzirão àquele destino desafortunado. sobretudo. Suplicando Sexto que lhe altere o futuro. no que emerge da fábula de Sexto Tarquínio. Cf. aquilo que a presciência não torna necessário se deve submeter à vontade divina: hoc. Mas a novidade da proposta de Valla estará. e insistindo nos limites da razão humana. com a qual estabelece o limite racional de compreensão do problema em análise. que Sexto não deseja e contudo lhe ocorrerá contra sua vontade. afinal.i i i i 16 Paula Oliveira e Silva possibilidade e a decisão efectiva. mediante a interpretação de Valla. a força da fábula? Ela é revelada. 26 LA. também é um facto que. acusa Parcas. Qual é. Apolo profere um oráculo sumamente desfavorável a Sexto. responsabiliza Júpiter. Ora. quidquid est. Mas o infortúnio. só sobre esta última incide a presciência. dando por encerrado o debate25 . 476-480: “Acusa Júpiter. pois apenas conhece factos. apelando para a potência absoluta da justíssima vontade de Deus. em De libero arbitrio 576-584: se é verdade que em um só Deus (que os gentios não possuíam. nas minhas está apenas a presciência e a predição. acusa a fortuna de onde procede a causa de tudo o que acontece. o Deus em cujas mãos está o poder e o querer dos destinos. Está nas mãos deles o poder e o querer dos destinos. A fábula é acerca da consulta que Sexto fez a Apolo. a quem deverá ser imputado? Apolo. e por isso apresentam em duas personagens) não se podem separar a sabedoria e o poder da vontade.net i i i i .” 25 24 www. no diálogo imaginado. Assim. considerados por Valla como dois planos de realidade distintos. se for do teu agrado.

Se até agora ele fora conduzido no domínio da razão dos filósofos. é inacessível tudo o que se refere à ordem divina. a partir de agora. 2. Por seu turno. LA 585-593. é esta concepção de um Deus sumamente bom que age necessariamente pelo melhor. no Proslogion. o discurso avançará no plano da fé. Th. I.lusosofia. a liberdade de escolha30 . à qual tudo se refere. é saber se a vontade de Deus anula. e convida António a procurar outro mestre. A ideia de Deus como noção suprema é uma constante na história da filosofia ocidental e nela se baseiam os argumentos de Agostinho. o raciocínio da fé deve comportar um juízo maximamente benévolo acerca do incompreensível28 . 17 4. o de Anselmo. na S. o diálogo sofre uma inflexão. 28 27 www.i i i i Liberdade humana e presciência divina. e a 4a via de Tomás de Aquino. 30 Cf. O que está em discussão. o comentário a Boécio. nesta terceira e última parte do diálogo. concretamente sobre a Epístola de S. então. Inversamente. LA 792-793. Deus é sapientíssimo e óptimo. Deste modo. Valla afirma não ter solução para a resposta no plano da razão filosófica. e por outro. ou não. 29 A razão oculta da causa do agir divino está numa espécie de tesouro escondido ( cf. que permitirá a Leibniz. a quem este opúsculo de Valla não passou despercebido. por um lado. em De libero arbitrio. Para esta. q. o que é bom só pode agir bem ( cf. O divino e o humano no concurso das vontades Ante o postulado da absoluta vontade de Deus. LA 664-666). conceber este como o melhor dos mundos possíveis. aquela deve importar para si uma dupla certeza: a da bondade de Deus e a da inacessibilidade dos seus desígnios. abandonada esta à sua limitação. Paulo aos Cf. não na probabilidade da razão27 . Estas duas formas de conhecimento são claramente distintas: estamos firmes na fé. LA 675-676). investindo sobre o texto bíblico. a certeza do carácter arcano do agir divino para a razão humana29 .net i i i i . O diálogo abandona.

a sabedoria e a vontade não são o mesmo. e mesmo no caso da inteligência angélica que tem o privilégio de conhecer Deus por intuição. Antes de mais. não lhes sendo. totalmente incompreensíveis para a razão humana. mostrará que ela pode agir sobre os indivíduos. na relação com o conjunto dos homens. mesmo se muito santa e próxima do divino. IX. entre a sabedoria e a vontade. por isso. em Deus. LA. tornando-se para nós e pelo mesmo motivo absolutamente incógnita33 . por meio deles. a um tempo. eles são livres de escolher o próprio curso a imprimir à sua vontade. 11-12 e Rom. ao postular uma vontade de Deus absoluta. quer usando de misericórdia para com eles. mas que se convertam e vivam. Neste quadro. Esse facto deve permitir aos humanos confiar nesse desígnio ( Cf. Valla considera totalmente inacessível a qualquer razão criada a compreensão dos desígnios da sabedoria divina: a vontade de Deus tem uma causa antecedente que reside na sabedoria de Deus. LA 660-665.net i i i i . porque é de Deus. a qual sempre se exerce a fim da maior expressão de bondade. Na base. O raciocínio de Valla é assaz complexo. no que se refere à relação deles com o divino. quer endurecendo a sua vontade. e.i i i i 18 Paula Oliveira e Silva Romanos31 . no entanto. tornando-se. que Deus age sobre os indivíduos. 33.lusosofia. Cristo. na versão específica que dela possui a religião judaicocristã. como sucedia com S. mas apenas ao modo como Deus actua neles e. Depois. 32 31 www. Esse facto não obsta às livres acções dos homens. como se referiu. Essa causa é absolutamente justa. Acresce a estes elementos a vontade salvífica universal de Deus. 33 Cf. Valla afirma que os actos desta se submetem àquela. Valla pode afirmar. Paulo. O horizonte hermenêutico é agora o da história da salvação. Quanto à relação. em Deus. cuja operatividade se levou a efeito mediante a morte do Cristo histórico32 . 11. conclusão que agora irá explorar. Os textos referidos por Valla são Rom. está a convicção de potência absoluta de Deus. 784-787). diz que quer que todos os homens se salvem e que não quer a morte dos pecadores. sabedoria e virtude de Deus. por isso. retirada a responsabilidade no agir. na lição da fábula de Sexto Tarquínio. insinuou que.

nem a matéria de que ele foi feito por Deus – a especificidade da sua natureza. Por quem? Pela vontade de Deus. Uma semelhante posição para a relação entre as vontades divina e humana. para Deus ou contra ele. para Valla.net i i i i . ou seja. que se prende com a explicação de uma queda original e das suas consequências para o género humana. e mais além dela. de facto. necessariamente. para o bem ou para o mal. Este facto – e aqui reside alguma novidade. ao menos numa certa orientação da existência humana. Se é verdade que Valla não emprega aqui o termo predestinação . Ele é.porventura por o considerar mais próximo de Cf. uma corrupção da natureza. 35 34 www. Porém. e age de facto. Qual a causa de que a vontade divina endureça uns e use de misericórdia para com outros? Esta razão é impossível indagar35 . endurecendo umas e sendo favorável a outras. angélicas ou humanas. na natureza humana.lusosofia. então. Esta acaba por intervir na humana. depois do pecado livre de Adão? Pecaram com ele todos os homens? Degradou-se a matéria original criada por Deus? Nenhuma das soluções faz sentido. que endurece uns e se compadece de outros. pelo menos debilita-a na sua autonomia. Analisemos a interpretação de Valla neste assunto particular. no género humano. se é certo que não anula a liberdade de escolha. O que sucede é que a vontade dos homens foi endurecida. Que sucede. Adão pecou por livre escolha. ele pode agir. exerce-se uma vontade suprema. Não há. Esta mantém-se naqueles que são toda a sua descendência. sobre a liberdade de escolha. esse facto não corrompe a sua natureza. 19 Quanto à relação de Deus com as liberdades criadas. 775-777: “ A causa da vontade de Deus. anterior à queda.i i i i Liberdade humana e presciência divina. LA 681-729 LA. De que modo ela pode ser regenerada? Pela morte de Cristo34 . nem dos anjos”. De outra forma não seriam compreensíveis a actuação de Adão e a consequência dela. Em última instância. não é conhecida nem dos homens. racional e livre. da parte de Valla – não decorre de uma queda original.

como Lutero e Calvino. pois desta forma Valla pretende conciliar o exercício individual da liberdade de escolha com a afirmação de uma ordem suprema e universal. Jalabert.i i i i 20 Paula Oliveira e Silva uma presciência (o conhecimento de um destino prévio) do que de uma consideração da vontade absoluta de Deus – as fronteiras entre liberdade e destino/desígnio são aqui efectivamente assaz ténues. 406-412. sectária. mas também as possíveis. fazendo incidir o seu comentário na fábula de Sexto Tarquínio36 . III. 270-374. De facto.lusosofia. o posicionamento de Valla servirá a Leibniz. Perante uma tal posição. pai de Sexto. Porém. completa a narração de Valla. corrigindo a interpretação de Valla. 36 www. Préface et notes J. Leibniz reproduz alguns trechos deste opúsculo de Valla. é levado ao reino de Parcas. É certo que o acto humano permanece livre: é cada homem que escolhe em cada acto. LEIBNIZ . Os reformadores. não deixa de o fazer em função da determinação de uma vontade suprema e absoluta que. para a salvação dele. Fixando-se na garrafa meia cheia. se não anula a capacidade de escolha.isto é. para não dizer aleatório. no final do Livro III dos Ensaios de Teodiceia. 1962. de base para a ilustração da sua tese acerca do melhor dos mundos. onde lhe é permitido contemplar as acções de Júpiter. a qual é à partida. observando a garrafa meio vazia .defenderão a tese da massa damnata e de uma impossibilidade de o livre arbítrio do homem contribuir. é fácil compreender a leitura que a posteridade dela fará. efectivamente. Numa linguagem simbólica. ficando com a dimensão negativa de uma predestinação anunciada e de uma liberdade cujo exercício escapa à escolha humana . do critério de selecção entre justos e injustos. não apenas reais. Paris. Essais de Théodicée. não permite ao ser humano querer de outro modo. Esta será sempre obra da graça.net i i i i . mediante alguns ajustes. levando-a mais longe retira dela uma nova força. A proposta não deixa de ser interessante. Depois. p. Teodoro. a qual é sempre benéfica e quer para todos o melhor dos bens. com a agravante do carácter arcano.

21 Aí. e estava nas mãos de Judas não pecar. permanecendo a liberdade de escolha” www. Porventura se segue imediatamente que o serei? De modo nenhum. visualiza as diferentes possibilidades da existência de Sexto e compreende que. ao menos aplicado às escolhas individuais38 . mas apenas o ser dele37 . Se é verdade que posso agir de modo diferente do que virá a acontecer. 416 : “ mon père [ de Parca] n’a point fait Sextus méchant.net i i i i . facto que já assim tinha sido prescrito. Leibniz leva esta possibilidade às últimas consequências e aplica-a. posso ser soldado ou sacerdote. de entre elas.lusosofia. a própria liberdade se insere no domínio mais amplo de uma vontade e sabedoria absolutas de bondade e felicidade. de algum modo. embora tivesse sido previsto. este mundo de possíveis. as escolhas de Sexto não pertencem a Júpiter. Exercendo-se mediante a livre escolha dos seres racionais e livres.i i i i Liberdade humana e presciência divina. O resultado só pode ser a efectivação do melhor dos mundos a um tempo livre. mediante a actividade criadora de Deus. Il l’était de toute éternité. maximamente feliz e sumamente bom. Com efeito. a presciência é confirmada. III. Também Valla considerara. contudo não ajo de modo diferente. Posso casar-me. mas ele preferiu pecar. à totalidade do universo. 37 Essais de Théodicée. a de um Sexto que elegeu ser perverso. il l’était toujours librement ” 38 LA 405-411: ““É muito diferente o facto de que possa acontecer e o facto de vir a acontecer. Portanto. Júpiter executou a melhor.

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