Uma ontologia para a comunicação

1

Projeto de pesquisa

Uma ontologia para a comunicação

Marcelo S. S. Neto

2

Neto

“Sim, ciência. A ciência de comandar, a ciência de administrar; a ciência de espoliar o povo sem fazê-los reclamar muito, e quando começam a reclamar, a ciência de impor silêncio; a ciência de acorrentar e de dividir as massas, de deixá-las eternamente ignorantes para que não possam criar uma força capaz de derrubar a Força; acima de tudo, uma ciência militar, com todos os seus formidáveis meios de destruição que nos proporcionam ‘maravilhas’.” (Bakunin, 1869)

marceloneto@me.com www.marceloneto.me https://creativecommons.net/MarceloNeto

Uma ontologia para a comunicação

3

Esta página foi propositalmente deixada em branco.

4

Neto

Sumário

Figuras

04 05 06 10 16 22 28 30 31

Introdução Premissas e princípios O que é possível dizer O que é possível imaginar O que é possível desejar Possibilidades Cronograma e metodologia Bibliografia

Parte 1. Parte 2. Parte 3.

Figuras

Figura 1. Figura 2. Figura 3. Figura 4. Figura 5.

‘Intentionality’, John R. Searle ‘Guernica’, Pablo Picasso ‘One machine’, Kevin Kelly ‘Web science’, Tim Berners-Lee, et al Simulação das áreas de concentração

16 18 19 27 30

Uma ontologia para a comunicação

5

Esta página foi propositalmente deixada em branco.

6

Neto

Parte 1. O que é possível dizer

‘Comunicação’ é um termo vago, portanto suscetível a uma complementação de sentido. (Moura, 1996) Ao longo da história, é possível notar inúmeras tentativas de torná-lo mais preciso, reduzindo seu escopo, sugerindo especialismos e, logo, estabilizando certos significados. Por exemplo, noções de retórica e de persuasão são associadas à comunicação desde a antiguidade clássica, e perduram até a corrente época. (Foss, 2009) Versões mais recentes receberam operadores do tipo visual, verbal, escrita, eletrônica, social e institucional. Outras mais audaciosas transformaram o termo literalmente, criando outros como propaganda, publicidade, relações públicas, jornalismo, entras tantas variedades que serão abordadas em instantes. Mas antes é preciso ao menos tentar reduzir tal vagueza. Diria que ‘comunicação’ pertence a uma classe de noções, seja ela qual for, que não é útil como ferramenta analítica. Assim como os termos ‘biologia’, ‘cultura’ e ‘linguística’, “o conceito que denomina a matéria não é em si mesmo um conceito explanatório para a sua disciplina.” (Searle, 2006) No caso da biologia, tal matéria é a vida; da cultura, os costumes e tradições; e da linguística, apesar das divergências,1 poderia ser a cognição. Mas qual seria o negócio da comunicação? Deveríamos acumular todas as versões desprezando a sobreveniência? (Lewis, 1986) Quem sabe propor uma frase de efeito que tente abarcar todas as modalidades? Ou deveríamos continuar a varrer o assunto para debaixo do tapete, e dar-nos por satisfeitos com versões orientadas por este ou aquele padrão comportamental? Nesta segunda década do século XXI, precisamos ir além. Já sabemos que a realidade externa não é uma ilusão, e aceitamos o fato de que a mesma é formada por entidades de nível subatômico (quarks, átomos, moléculas). Aprendemos também que tais entidades conformam sistemas, e que o estado em que cada sistema se encontra depende do comportamento das mesmas. Ninguém duvida, p.ex., que existem coisas como a liquidez da água, a solidez da pedra e o calor do fogo, mesmo que não seja possível distinguir uma molécula seca de uma molhada, uma sólida de uma gasosa ou uma quente de uma fria. Porém, num nível macroscópico, tais estados se apresentam como a propriedade geral e irredutível do sistema em questão, o que também vale para aquele formado por redes de neurônios e sinapses, cujo comportamento determina o estado em que a mente se encontra em condições normais: consciência. Se estamos vivos, saudáveis e despertos, temos pelo menos quatro suspeitas de que tal propriedade geral da mente, de correlação neurobiológica, existe dentro da cabeça e não fora. Graças a esta coisa interna, temos uma opinião qualitativa, subjetiva, unificada e relacionada (Searle, 1983) sobre as experiências causadas pelos sistemas da realidade externa. Além disso, temos crenças, desejos, intenções e emoções sobre objetos, animais, pessoas, eventos, regiões e épocas; nada mais que estados mentais, os quais nos permitem imaginar possibilidades, para logo elaborar, entender e compartilhar pensamentos cuja complexidade costuma demandar faculdades de nível superior. Pensamentos estes que às vezes terminam em si mesmos, e outras se propõem a transformar o mundo, embora o mundo quase sempre os transforme. Em todo o caso, precisamos lidar com noções abstratas, p.ex. uma linha infinita, e combinatórias, p.ex. uma teoria, as quais dependem, grosso modo, de como dado sistema linguístico-conceitual se utiliza das regras sintáticas, dos valores semânticos e dos contextos pragmáticos proporcionados pela mente. Bem, se pudermos aceitar qualquer coisa do gênero, fica difícil negar que a comunicação humana possa ser, ainda que filosoficamente, rastreada aos níveis subatômicos e projetada com parcimônia aos níveis macroscópicos dinâmicos, ora tidos como
1 A intenção é a de referenciar os ríspidos debates entre representantes das várias linhas linguísticas, muitos dos quais partem ou terminam na obra de Noam Chomsky.

Uma ontologia para a comunicação

7

sociais, a partir da linguagem. Isto vem para dizer que com o que sabemos hoje sobre o mundo, não há mais necessidade de postular esta ou aquela variação disciplinar ao abordar questões que passam a ser naturais. Enquanto houver criaturas conscientes com algum tipo de capacidade pré-linguística no mundo atual, existe potencial de comunicação. Se isto for verdade como penso que é, assim como a liquidez está para a água, a solidez para a pedra, o calor para o fogo e a consciência para mente (Searle, 1992), a comunicação está para o mundo. Tal coisa é o estado em que o estado das coisas se encontra. Podemos dizer, portanto, que o negócio da comunicação é lidar com o mundo. Entretanto, departamentos do ramo têm mantido outras opiniões. Certamente não caberia tentar caracterizar aqui as diversas nuances da ciência da comunicação,2 logo o que segue pretende levantar o suficiente para em seguida discutir algumas dificuldades que cortariam o episteme ocidental transversalmente. Para tanto, comecemos por aquela linha mais evidente que pode ser chamada de comercial por envolver qualquer tipo de agenciamento de interlocutores, os quais são normalmente executados por instituições denominadas ‘agências’. Pois bem, há registro das primeiras agências na França do século XVIII (Tungate, 2007) e na Inglaterra do XIX (Chapman, 2005), mas em todo o caso tratava-se da intermediação da compra de espaço publicitário via comissionamento, prática que passaria a ser possível com a explosão da indústria gráfica durante a primeira revolução industrial, e necessária após a segunda expansão observada a partir de 1848. ‘Resíduos históricos’ à parte, o fato é que tal atividade permaneceria essencialmente a mesma até hoje, embora tenha sido revestida com boa dose de ‘criatividade’ e alguma psicologia da década de 1920. O responsável pelo adorno foi Edward Bernays, quem voltava da Primeira Guerra Mundial para criar um curso de ‘relações públicas’ após ter testado novas ideias sobre a mente ao convocar com sucesso o contingente necessário para lutar por uma causa não grata. Orientado principalmente pelo seu primo, Sigmund Freud, seu negócio era o de acessar a ‘linguagem’ do inconsciente para traduzi-la através de sonhos. No caso, o ‘sonho (do governo) americano’: consolidar seu próprio império. Para tanto, Bernays tratou de adaptar a abordagem (patológica) psicodinâmica para conjuntos de pessoas (públicos), os quais seriam definidos pelas variáveis comportamentais, psicográficas, firmográficas e demográficas que se pudesse arranjar. Num segundo momento, estereótipos e arquétipos Jungianos prevaleceriam como referência na montagem de públicos, mas a questão todavia limitaria-se a transmitir informação via code model, numa linha mecanicista, onde emissores e receptores comportariam-se como ‘brainboxes’ (Mallinson, 1996) executando ‘programas’ alterados por estímulos num processo de causa e efeito, cujas partes deveriam ser analisadas separadamente. Por sorte, Bernays e seus comparsas da propaganda3 nunca fizeram questão de omitir as reais intenções da linha comercial, haja vista o título de seus trabalhos.4 Também não é difícil imaginar que seus mantras ganharam força e penetração na medida em que a privatização do rádio e, logo, da televisão, transformaram a ‘esfera pública’ (Habermas, 1991) num ambiente controlado por governos, oligopólios, pela mídia corporativa e o resto do esquema Ponzi5 (Black, 2010) da poliarquia. Já que as consequências são ainda mais evidentes em épocas de eleição, o interessante aqui é observar como a atual ‘indústria da propaganda e dos serviços de marketing’ consolidou sua ascendência sobre a comunicação na academia. O fato é que 8 conglomerados globais comandam cerca de 80% do talento (Tungate, 2007) e 99% do mercado formal (Neto, 2009), cujas profissões e práticas são determinadas pelos parâmetros financeiros que regem tal esquema. Isto significa que enquanto profissionais criam novos meios e especialidades de comunicação em função da decadência do modelo atual, dos avanços tecnológicos e das economias de escala, o oligopólio ‘incorpora’ tais variedades à sua ‘matriz disciplinar’. (Kuhn, 1962) Como resultado,
2 Entendida como ‘instituição’ materializada por Departamentos autônomos e atuantes nos epistemes ocidental e oriental. 3 Com destaque para a dupla criativa Bill Bernbach e Paul Rand, fundadora de honra da agência DDB, e responsável por anúncios e logomarcas icônicos. Uma análise mais detalhada pode ser verificada na dissertação de mestrado que acompanha esta candidatura (Kernel, 2009: 27-28). 4 Por exemplo, Crystallizing public opinion (Bernays, 1923); Attitude polls-Servants or Masters (Bernays, 1945); Engineering of consent (Bernays, 1955); e Public lies, private truths. (Mallinson, 1996) 5 Numa alusão às fraudes arquitetadas por Charles Ponzi no início da década de 1920, para variar.

8

Neto

além da corretagem de espaço e das relações privadas, a linha comercial acumula pelo menos mais trinta especialidades dividas noutras duas rubricas orçamentárias: ‘traditional advertising’ e ‘customer relationship management’.6 Logo, não resta opção ao estudante e ao praticante, senão a de eleger o silo funcional que pretende atuar, recorrendo ao jargão transplantado da disciplina militar para o domínio corporativo. Termos como ‘estratégia’, ‘tática’, ‘público-alvo’ e ‘marketing de guerrilha’ são boas evidências, mas a analogia com as armas não é mera coincidência. A necessidade de criar servo-consumidores dispostos a aceitar barganhas manufaturadas em santuários de quasi-escravidão fez da força bruta um contra-senso, já que ali estariam os alvos de repressão, os contingentes de produção e o potencial de consumo. Como diria Frederico Fellini, e la nave va! A segunda linha do que confesso não resistir a tentação de chamar de programa ersatzista (Lewis, 1986) na comunicação é a que podemos chamar de semiótica. Primeiro é preciso dizer que existe um evidente intercâmbio7 entre esta e a linha comercial, embora a semiótica seja mais presente no domínio acadêmico. Há casos8 em que quase não existe distinção entre a ciência da comunicação e este conjunto de teorias, mas na maioria dos programas ersatzistas o estudante e o praticante são induzidos à semiótica, assim como à psicanálise ou à etnografia ao interpretar dado evento, como se o caso fosse p.ex. seguir uma receita culinária, com uma ‘pitada’ de cultura e outra de arquétipos, matéria cuja ‘liga’ ocorre via semiose. Francamente, na maioria dos casos me ocorre que tais movimentos são intencionais, mas às vezes penso que é caso de ingenuidade, comodidade ou até de preguiça em discutir que tipo de ontologia abrigaria teses de que signos (monádicos, diádicos ou triádicos), p.ex., são entidades psíquicas arbitrárias e imutáveis que devem ser estudadas como instituições sociais (Saussure, 1916); de que signos são eventos físicos (Morris; 1932); e de que signos tem o papel de mediador absoluto entre o pensamento e a realidade. (Mertz e Parmentier, 1985) Quem sabe o providencialismo permitiria tamanha sobreposição. Quero dizer que é desejável conceber divergências inclusive no programa ersatzista, mas a partir de determinado ponto tais contrastes constituem outra classe epistêmica: teimosia. Como veremos daqui por diante, há um amplo repertório de motivos para encaminharmos as ‘ciências semióticas’ (Deacon, 2008) à história dos insights. Não obstante, propostas mais recentes geraram frison ao postular teorias sociobiológicas cuja propriedade geral é a de procrastinar as dificuldades impostas pela mente ao abordar eventos sócio-institucionais, ainda que exista a boa intenção de naturalizar a comunicação. Parece difícil sustentar a ideia de que existam entidades, p.ex. memes (Dawkins, 1976), cujos arranjos e comportamentos sejam análogos aos das estruturas genéticas, e que tais entidades possam ‘varrer’ o cosmos replicando ideas capazes de resistir à lógica do caos9 ostensivo predominante no métier, sob auspícios Darwinianos. Um ersatzista renomado como, p.ex., Steven Pinker classificaria esta interpretação como ‘ridícula’ (2007), embora não consiga responder adequadamente o que tornaria tais analogias ‘legítimas’. Tentaremos resolver esta questão na Parte 3, antecipando que boa parte da eficiência associada à tais abstrações se dá via repetição, no melhor estilo comportamental, esquema que se aproveita da nossa capacidade de assimilar conceitos nos chamados frames mentais (Lakoff, 2008) para ‘desenhar’ doutrinas na tabula rasa. Isto significa que tais intrusões transformam de fato a anatomia do nosso cérebro, tática milenar que justifica a tradição das ciências semióticas na comunicação, e que se ajusta perfeitamente aos recorrentes projetos coloniais celebrados nos livros didáticos. Mas coloquemos tudo novamente à parte. Afinal, faz alguma diferença?
6 Uma análise mais detalhada está disponível em Kernel (p. 36-40), mas vale reiterar que ‘traditional advertising’ abriga a divisão ‘criativa’ dos conglomerados, que se manifesta através de colossos globais que chegam a faturar mais de 2 bilhões de dólares ao ano, como p.ex. as redes DDB e BBDO da Omnicom, INC. Já ‘customer relationship management’ acomoda uma extensa variedade de serviços tidos como ‘interativos’, desde os famosos institutos de pesquisa comportamental até as supostas agencias ‘digitais’. 7 Além de compartilhar o code model, talvez o mais evidente seja o culto às marcas, entendidas como signos ou sistemas de signos que tentam representar, via repetição, a efemeridade dos interesses econômicos dos grupos de gestores no comando de dada corporação. 8 Uma versão forte seria a do “Programa de Doutorado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP”. Vale notar que o que talvez explique tal relação seja o fato do ersatzista tratar a noção de ‘mídia’—e não de mundo—como espaço lógico da comunicação. Retomaremos a questão na Parte 2. 9 Como caracterizada em Kernel (p. 36-41). Vale registrar que a noção de ‘ostensividade’ foi adicionada neste projeto, como referência à relevance theory proposta por de Sperber e Wilson (1986) para o estudo da comunição verbal. Retomaremos a questão na Parte 3.

Uma ontologia para a comunicação

9

Para a linha crítica do programa ersatzista, a resposta é ‘sim’. Referências geralmente começam em Karl Marx, passam por Dallas Smythe, Herbert Schiller e Edward Herman, pela escola de Chicago de Marshall McLuhan, pela escola de Frankfurt de Jürgen Habermas, e chegam aos últimos mosqueteiros da política econômica da comunicação:10 Noam Chomsky, Robert McChesney e John Nichols. Antes de qualquer coisa, é preciso reconhecer a importância desta abordagem sociológica durante o século passado, já que tais autores analisaram em detalhe boa parte das piruetas conduzidas por imperadores, papas, monarcas e poliarcas, constituindo o que muitos chamariam de New Left. Graças às suas crônicas, não há nada de interessante por desvendar quando o assunto é propaganda. A partir do momento em que empresas11 dos ‘países aliados’ forneciam tecnologia e serviços para o Terceiro Reich (The Corporation, 2007), os episódios que gravitam sobre o 11 de Setembro cabem nas sessões de matinê. Aliás, a linha crítica optou exatamente por assistir tais eventos ao postular teorias na esperança de emocionar estudantes, praticantes e autoridades governamentais da comunicação, enquanto as técnicas oligárquicas de conglomeração corriam soltas na medida em que liquidavam com as já insuficientes políticas reguladoras. Em seu último trabalho, McChesney resgata os ‘founding fathers’ da poliarquia, e sugere que o governo norte-americano crie e distribua ‘vouchers’ para a população, de modo que indivíduos ou comunidades possam eleger e patrocinar este ou aquele conteúdo. Apesar de improvável, tal medida pretende ultimamente tirar o jornalista do inventário de ‘espécies em extinção’ (McChesney, 2010), fato que também não pôde ser evitado no Brasil, uma vez que tal diploma tornou-se facultativo no exercício da profissão. Enquanto isso, o ersatzismo local12 trabalha ‘por uma nova teoria da comunicação’ através do desenvolvimento do que seria um ‘metáporo’ ou ‘quase-método’ (Marcondes Filho, 2010) que, “diferente das ciências positivas, não adota um ponto de vista sobre a coisa, não disserta sobre ela, mas busca captá-la no próprio objeto... O trabalho de compreensão [caberia] aos estudos [?] paracomunicacionais, como a sociologia, a história, a psicologia, a psicanálise e as teorias linguísticas, semióticas e semiológicas.” (Teixeira, 2009; grifo meu) Neste caso, resta-nos tentar entender melhor se ‘paracomunicação’ e ‘metáporo’ são somente termos infelizes, ou se apresentam compromissos ontológicos com o psiquismo, a criptoanálise, ou qualquer outro método messiânico. Dúvidas resistem ao acompanhar alguns textos13 da teoria, e ao seguir as “tendências14 atuais da pesquisa em comunicação no Brasil” (Morais, 2008), o que nos leva a questionar a necessidade em insistir nos ataques delineados até aqui. De todo o modo, perguntas do tipo persistem: E agora? Devemos esperar benevolência dos poliarcas? Continuar debatendo ontologias providencialistas? Aumentar o inventário de truísmos? Ou continuar apelando para o sobrenatural, enquanto a linguística em particular e as ciências cognitivas em geral oferecem os recursos para naturalizar a comunicação? Antes de tentarmos fazer o óbvio, consideremos algumas das dificuldades do programa ersatzista, já que é possível identificar similaridades sob as aparentes discrepâncias. Como vimos há pouco, a primeira e a mais proeminente é de fato ontológica. Para ser
10 Abordagem crítica protagonizada por Smythe, Schiller, Herman e Chomsky, em especial durante o movimento de liberdade civil das décadas de 1960-70, nos Estados Unidos. 11 O caso mais notável é o da IBM, empresa norte-americana que fornecia, em regime de comodato, equipamentos mecânicos de computação para que as tropas do Führer pudessem administrar os genocídios nos campos de concentração. Daí a razão dos números tatuados nos pulsos das vítimas. 12 É difícil associar o ersatzismo local à uma das linhas apresentadas perante tamanha compilação de elementos teóricos. 13 Para entender a comunicação: contatos antecipados com a nova teoria (Marcondes Filho, 2008); Muitas teorias e poucos caminhos para a subjetivação: a busca de um método/metáporo para os estudos da Comunicação (Teixeira, 2009); O princípio da razão durante: por uma lógica dos processos em comunicação. (Marcondes Filho, 2010) 14 Além dos vários interesses historiográficos (da propaganda regional, do marketing político, das questões midiáticas, semióticas, cibernéticas, etc.), uma das “ideias em destaque” chama atenção: a hiperpublicidade (Perez e Barbosa, 2009), termo definido pelos autores a partir de que “o nome que atribuímos aos fenômenos à nossa volta revela nossas convicções... expressa nosso entendimento, aberto, interdisciplinar, líquido, complexo, criativo e ético, dessa que é a expressão sociocultural da eleição da contemporaneidade.” Não resisti a tentação de reproduzir este trecho para demonstrar a habilidade que a estudante e a praticante devem ter para fazer uso de tal coisa, mas também pelo fato da hiperpublicidade ser tema de pesquisa na ECA-USP, onde Marcondes Filho modera o desenvolvimento do seu metáporo.

10

Neto

direto, queremos saber De onde exatamente as teorias ersatzistas tiram suas pressuposições existenciais? Nomes próprios não cabem aqui. Baseado no que é possível dizer sobre mundo, dos níveis quânticos aos cosmológicos, não há qualquer referência sobre a existência de entidades extra-humanas dispostas a ‘parasitar’ na nossa mente, sejam elas espíritos, signos, memes, dígitos, e todo o resto. O que segue não pretende soar Nietzscheano, mas quanto maior o aparato metafísico postulado, maior é o preço a se pagar, ainda que tarde como na genealogia dualista que ainda admite ou encobre a presença do divino nesta equação. Como sabemos, nossa tarefa é exatamente a de aprender a lidar com tais language-games (Wittgenstein, 1953); somos de fato tradutores. 15 (Anderson, 1996) Quero dizer que a função de uma ontologia não é ‘abençoar’ determinada epistemologia, já que seus desdobramentos permeiam teorias de modo inexorável. Neste caso, estamos falando em conceber que o mundo atual tenha dois (às vezes, três ou mais) departamentos, e que o excepcionalismo da espécie humana viria com um bônus típico dos zumbis: uma massa cinzenta de pouco mais de um kilo que, embora localizada dentro da cabeça, tenha a notável capacidade de receber sinais de entidades superiores e de seus representantes legais para acatar estes e outros absurdos, sem debate nem resistência. Entre eles, chama atenção o fato de que objetos e eventos seriam ‘inteiramente presentes’ na medida em que possibilidades resumiriam-se a duas palavras: passado e futuro. Aqui caberia perguntar O que seria ‘o presente’? Algo que acabou de acabar? Voltaremos ao assunto adiante, mas por enquanto vale registrar que numa versão fraca, talvez dirigida àqueles que propõem projetos intelectuais que sequer distinguem ou questionam tal visão de mundo, caberia a falácia ad baculum.16 (Grcic, 2009) Já numa versão forte, leia-se intencional, restaria somente lamentar o assalto à dignidade e à natureza humana. As dificuldades epistemológicas do programa ersatzista na comunicação são menos óbvias e mais heterogêneas, mas ao derivar da mesma ontologia apresentam ao menos três características complementares: teorias geralmente (1) recorrem à abstrações e seus modelos, matrizes e códigos para representar o mundo de dicto; logo, (2) formalizam proposições singulares via silogismos, nominalismos e categorias arbitrárias, postulando dogmas de previsão a partir de uma suposta capacidade de observação de padrões comportamentais que emulam os métodos17 das ciências ‘naturais’; e assim o fazem por (3) negligenciar o estudo da mente humana no melhor, e no pior dos casos por subserviência as principais correntes do pensamento econômico, notadamente o conservador, o liberal e o comunista.18 Pois bem, aqui alguém poderia sugerir que devemos relevar tais ‘lapsos’ e atribuí-los à épocas já superadas, mas não acredito que seja o caso. A coleção de paradoxos, assassinatos, perseguições e humilhações contidas, grosso modo, na obra do próprio Descartes e Julien de La Mettrie (Chomsky, 1966), assim como nas de David Hume e Wilhelm von Humboldt (Toulmin, 1990), e nas de Kropotkin (Chomsky, 2003) e Bakunin (Cutler, 1993), demonstram que sempre houve uma filosofia da mente pronta a questionar as implicações sociais relacionadas tanto à natureza quanto às funções atribuídas à linguagem. Mas por razões evidentes a esta altura, a trupe de Viena iria selecionar justamente a obra de Frege e do primeiro Wittgenstein para inventar a filosofia da linguagem como disciplina (Searle, 2010), a partir de demandas epistemológicas relacionadas à analiticidade aritmética, à determinação de sentido, à bivalência, e à imposição de condições de verdade. (Moura, 1996) Como exatamente o positivismo se relaciona ao programa ersatzista na comunicação? Normalizando que a linguagem humana se resume às funções representativas e
15 Caso raro de lucidez na ciência da comunicação, James A. Anderson sugere o termo institutionalized agents of translation. Após analisar os fundamentos epistemológicos de doze teorias da comunicação contemporâneas, o autor conclui que “as a singular, [it] is the product of a historicized effort to ‘fix the field’. The consequence will always be multiple, excessive, contentious, and disciplined only by the power of its agents.” 16 Se refere ao uso da força (moral, bruta, econômica, psicológica, etc.) para induzir pessoas a esta ou aquela doutrina. 17 O caso da memética de Dawkins é um exemplo fraco perante a aplicação do aparato Cartesiano ao social, método reconhecido pela filosofia da matemática comtemporânea como ‘bogus application’. Mais dicussão em Kernel (p. 26). 18 Embora pense que distinções ideológicas sejam desnecessárias sob auspícios oligárquicos, o que é evidente desde clubes de futebol à partidos políticos.

Uma ontologia para a comunicação

11

semânticas estritas sobre o estado das coisas, o que por conseguinte confina outras duas funções essenciais no domínio controlado pelas artes políticas: expressão e comunicação. Não é a toa que “cursos de filosofia social… tendem a ser… uma continuação da filosofia política, às vezes chamada de filosofia política e social.” (Searle, 2010) Em resumo, o social seria mera consequência do institucional, enquanto sabemos que o inverso é verdadeiro. Aliás, é este o paradoxo que os contratistas sociais tinham em mente ao apelar à metáforas como a do Leviathan (Hobbes, 1651), a do ‘espírito’ das leis (Montesquieu, 1748) e da estabilidade do ‘cosmos’ econômico (Smith, 1759) para justificar a fabricação de poderes deônticos assegurados ultimamente pela força bruta. Agora torna-se mais fácil entender porque as teorias ersatzistas comerciais se propõem a determinar e manipular públicos-alvo, enquanto as teorias semióticas se voltam aos signos, e as teorias críticas às lamentações. Haveria como sair desta clausura? Ao propor de início que o negócio da comunicação é lidar com o mundo, espero ter demonstrado que sim. Espero ainda ter justificado em parte que o problema da ciência da comunicação não resume-se a compilar teorias para elaborar variedades filosóficas ou alternativas técnicas—o programa ersatzista foi longe demais. Entretanto, também disse que dispomos de conhecimento suficiente para avançar. Se por um lado é desnecessário recorrer ao misticismo, por outro não é preciso reinventar a roda. Foi John R. Searle quem deu-se a este trabalho ao longo da sua obra filosófica. Parece que o homem tem sido capaz de explicar em detalhe como uma ontologia subjetiva permite uma epistemologia objetiva, feito que reconcilia o material, o mental, o linguístico, o social e o institucional, já que tais estruturas sempre constituíram um só domínio. Grande parte dos correntes estudos19 sobre ontologia social liderados por Searle deve-se ao progresso das ciências cognitivas, mas não a totalidade. Da mesma forma, seria um equívoco rejeitar sumariamente certos conteúdos da tradição behaviorista, postulando que daí não há nada que se aproveite. É precisamente através da inclusão do ersatzista neste debate ontológico que as barreiras disciplinares podem ceder. Se entendermos que o caminho é de ‘revolução’, podemos ressuscitar o slogan ‘cognição versus comportamento’; mas se adotarmos o conceito de ‘reforma’, é possível superar complexos quase sempre associados às tradições medievais do episteme ocidental. Neste caso, uma ontologia ‘natural’ daria conta do rótulo, mas não abarcaria todo o conteúdo que hoje julgo necessário para moderar uma reforma na ciência da comunicação. Como o próprio Searle admitiu em sua última obra, “é impossível dizer de antemão o que de fato será útil para pesquisas” (2010) que se utilizem desta análise lógica. Portanto, ao defendê-la, quero tentar identificar sua utilidade e suas dificuldades, as quais precisariam ser superadas para eventualmente nortear as hipóteses da nossa teoria.

19 Realizados pelo Berkeley Social Ontology Group, fundado em 2005.

12

Neto

Esta página foi propositalmente deixada em branco.

Uma ontologia para a comunicação

13

Bibliografia

Adelson, Edward, et al. The Perceiving Brain. Eric Kandel e Charlie Rose. 2009 24 Novembro 2009. Agassi, Joseph. Science and its History. Toronto: Springer, 2008. Anderson, James A. Communication Theory Epistemological Foundations. New York: The Gilford Press, 1996. Austin, John L. How to do Things with Words. New York: Oxford University Press, 1962. Berners-Lee, Tim, et al. A Framework for Web Science. Cambridge : Massachusetts Institute of Technology, 2006. Black, William. “To rob a country, own a bank.” The Real News Network. Paul Jay. 19 Março 2010. Branquinho, João, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes. Enciclopédia de Termos Lógicofilosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Bush, Vannevar. “As we may think.” The Atlantic Monthly 1945. Julho: 101-108. Castañon, Gustavo A. “John Searle e o cognitivismo.” Ciências & Cognição 2006. 15-Agosto: 96-109. Chapman, Jane. Comparative Media History. Malden: Polity Press, 2005. Chierchia, Gennaro. Semântica. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. Chomsky, Noam. Cartesian Linguistics. Cambridge: Harper & Row, 1966. —. The Chomsky-Foucault Debate. 11 February 2008. 22 February 2008 <http://www.youtube.com/ watch?v=WveI_vgmPz8>. —. On Language. Cambridge: The New Press, 1978. —. Profit over People. New York: Seven Stories Press, 1999. —. “Language and Mind Revisited: The Biolinguistic Turn.” The Charles M. and Martha Hitchcock Lectures. Berkeley: UC Berkeley, 2003. —. Hegemony or Survival. New York: Henry Holt & Co., 2004. Cutler, Robert M. The Basic Bakunin. Amherst: Prometheus Books, 1992. Dahl, Robert. Polyarchy. New Haven: Yale University Press, 1971. —. On Democracy. New Haven: Yale University Press, 1998. D’Andrade, Roy. The Development of Cognitive Anthropology. Cambridge: Cambridge Press University, 1995. D’Arista, Jane W. Evolution of U.S. Finance vol. II. New York: Sharpe, 1994. Dawkins, Richard. The Shelfish Gene. New York: Oxford University Press, 1976. Deacon, Terrence. “Memes as signs in the dynamic logic of semiosis.” 2008. 29-Outubro. Teleodynamics. 2010. 5-Maio <http://www.teleodynamics.com/?p=55>. Dennett, Daniel C. Content and Consciousness. New York: Routledge, 1969. E la nave va. por Frederico Fellini, Tonino Guerra e Andrea Zanzotto. Dir. Frederico Fellini. Perf. Freddie Jones, et al. 1983. Elmer, Paul. “Unmanaging public relations: Reclaiming complex practice in pursuit of global consent.” Public Relations Review (2007): 360-367. Engdahl, F. William. Full Spectrum Dominance. Baton Rouge: Third Millenium Press, 2009. Epstein, Joshua M. Generative Social Science. Princeton: Princeton University Press, 2006. Erickson, Tamara. Plugged In: The Generation Y Guide to Thriving at Work. Boston: Harvard Business Press, 2008. —. “Task, not time: Profile of a Gen Y Job.” Harvard Business Review (2008): 01. Feyerabend, Paul. Against Method. London: Verso, 1975.

14

Neto

Foss, Sonja. Rhetorical Criticism. Long Grove: Waveland Press, 2009. Fyfe, Aileen e Bernard Lightman. Science in the Marketplace. Chicago: University of Chicago Press, 2007. Grcic, Joseph. Logic and life. Terre Haute: Joseph Grcic, 2009. Grice, Paul. Studies in the way of words. Cambridge: Harvard University Press, 1989. Habermas, Jürgen. The Structural Transformation of the Public Sphere. Cambridge: MIT Press, 1989. In-Stat. “Wi-Fi Hotspot Market Stages Revival as 2009 Worldwide Connects Surge to 1.2 Billion.” 11 11 2009. In-Stat. 20 11 2009 Jackendoff, Ray e Steven Pinker. “The nature of the language faculty and its implications for evolution of language.” Cognition 2005. 12-Abril: 211-225. Kelly, Kevin. “The Technium.” 2 Novembro 2007. KK*. 5 Setembro 2009 <http://www.kk.org/ thetechnium/archives/2007/11/dimensions_of_t.php>. —. What technology wants. New York: Penguin, 2010. Kirkpatrick, Jerry. In Defense of Advertising. Claremont: TLJ Books, 1994 Klein, Naomi. No Logo. New York: Picador, 2002. Kripke, Saul A. Naming and necessity. Cambridge: Harvard University Press, 1972. Kropotkin, Peter. Anarchism. New York: Dover, 1970. Kuhn, Thomas S. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: The University of Chicago Press, 1962. Leier, Mark. Bakunin: the creative passion. New York: Seven Stories, 2006. Lakoff, George. “Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think.” The Helen Edison Lecture Series. San Diego: University of California, 2005. —. The Political Mind. New York: Penguin Group, 2008. Lewis, David K. On the Plurality of Worlds. Malden: Blackwell, 1986. Lopes da Silva, Fábio and Kanavillil Rajagopalan. A Linguística que nos fez falhar. São Paulo: Parábola, 2004. Mallinson, Bill. Public Lies and Private Truths. New York: Cassell, 1996. Marcondes Filho, Ciro. A Produção Social da Loucura. São Paulo: Paulus, 2003. —. Para Entender a Comunicação. São Paulo: Paulus, 2008. —. O Princípio da Razão Durante: por uma Lógica dos Processos em Comunicação. São Paulo: Paulus, 2010. McChesney, Robert. Communication Revolution. New York: The New Press, 2007. McChesney, Robert W. and John Nichols. The death and life of american journalism. New York: Nation Books, 2010. Meulen, Alice G. B. Ter. Representing time in natural language. Cambridge: MIT Press, 1995. Miller, George A. “The cognitive revolution: a historical perspective.” Trends in Cognitive Sciences (2003): 141-144. Moraes, Osvando J. de. Tendências atuais da pesquisa em Comunicação no Brasil. São Paulo: Intercom, 2008. Morris, Chales. Six theories of mind. Chicago: University of Chicago Press, 1932. Moura, Heronides M. M. O Buraco Negro do Valor de Verdade: a Semântica dos Predicados Vagos. Tese de Doutorado. Unicamp. Campinas: Biblioteca Digital da Unicamp, 1996. —. Significação e Contexto. Florianópolis: Editora Insular, 2006. Moura, Heronides M. M. e Ivelã Pereira. “Máquinas e mentes: interpretando a metáfora.” Working Papers em Linguística (2008): 81-99. Neto, Marcelo S. S. Kernel. Dissertação de Mestrado. Boston: Simmons College, 2009. Nöth, Winfred. A Semiótica no século XX. São Paulo: Annablume, 2009. Noonan, Harold W. Personal Identity. New York: Routledge, 1989. Obama, Barack. “The Blueprint for Change.” Obama ‘08. 4 Maio 2008 <www.barackobama.com>. Ostrom, Elinor. Governing the Commons. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. PBS. Dennett en Sacks (1993) ‘Een schitterend ongeluk’,. 06 February 2009. 10 February 2009 <http:// www.youtube.com/watch?v=SJzqHnwNbUY>.

Uma ontologia para a comunicação

15

Picasso, Pablo. Guernica. <http://www.museoreinasofia.es/coleccion/presentacion-coleccion/ PicassoGuernica700.jpg>. Pinker, Steven. The Blank Slate. London: Penguin, 2002. —. The Stuff of Thought. New York: Penguin, 2007. Robertson, Paul L. Authority and Control in Modern Industry. New York: Routledge, 1999. Rowe, E. G. Peter. Geometrical Physics in Minkowski Spacetime. London: Springer, 2001. Rakoczy, Hannes e Michael Tomasello, “The Ontogeny of Social Ontology: Steps to Shared Intentionality and Status Functions, em Savas L. Tsohatzidis (ed.), Intentionality Acts and Institutional Facts, Dordrecht: Springer, 2007. Saussure, Ferdinand de. Course in General Linguistics. New York: The Philosophical Library, 1959. Schumpeter, Joseph A. Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper Collins Publishers, 2008. Searle, John R. Speech Acts. Cambridge: Cambridge University Press, 1969. —. “Chomsky’s Revolution in Linguistics.” 1972. 29-Junho. NY Books. 2010. 2-Fevereiro <http://www. nybooks.com/articles/10142>. —. Intentionality. Cambridge: Cambridge University Press, 1983. —. The Rediscovery of the Mind. Cambridge: The MIT Press, 1992. —. Mind, language and society. New York: Basic Books, 1998. —. “Culture and fusion: Reply to D’Andrade.” Anthropological theory 6:40 (2006): 40-43. —. Making the social world. New York: Oxford University Press, 2010. Shirky, Clay. Here comes everybody. New York: Penguin, 2008. —. Cognitive surplus. New York: Penguin, 2010. Sider, Theodore. Fourdimensionalism. New York: Oxford University Press, 2001. Smith, Neil. Chomsky Ideas and Ideals. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. Sperber, Dan and Deirdre Wilson. Relevance, communication and cognition. Malden: Blackwell, 1986. —.The handbook of pragmatics. Malden: Blackwell, 2004. 607-632. Sperber, Dan e Deirdre Wilson. “The mapping between the mental and the public lexicon.” Carruthers, Peter and Jill Boucher. Language and thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. 184-200. Sperber, Dan and Jean B. Van der Henst. “Testing the cognitive and communicative principles of relevance.” Noveck, Ira A. and Dan Sperber. Experimental pragmatics. London: Palgrave, 2006. 229-274. Stalnaker, Robert C. Ways a world might be. New York: Oxford, 2003. Sternberg, Robert J. Psicologia Cognitiva. São Paulo: Artmed, 2006. Suppe, Frederic. The Structure of Scientific Theories. Chicago: University of Illinois Press, 1977. Tainter, Joseph A. The Collapse of Complex Societies. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. Teixeira, Ana Paula de Moraes. “Muitas teorias e poucos caminhos para a subjetivação.” XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba: Intercom, 2009. 1-10. The Corporation: The Patological Pursuit of Profit and Power. Dir. Joel Bakan. Perf. Mikela J. Mikael, Rob Beckwermert and Christopher Gora. 2005. Thoreau, Henry David. Civil Disobedience. New York: Classic Books America, 2009. Tomasello, Michael. Origins of human communication. Cambridge: The MIT Press, 2008. Toulmin, Stephen. Cosmopolis. Chicago: University of Chicago Press, 1990. —. Return to reason. Cambridge: Harvard University Press, 2001. Tungate, Mark. Adland. Philadelphia: Kogan, 2007. Turkle, Sherry. Evocative objects. Cambridge: The MIT Press, 2007. —. The inner history of devices. Cambridge: The MIT Press, 2008. University of Massachusetts. Political Economy Research Institute. <http://www.peri.umass.edu/>. Williamson, Oliver E. and Sidney G. Winter. The Nature of the Firm. New York: Oxford University Press, 1993. Wittgenstein, Ludwig. Major Works. New York: HaperCollins, 2009.

16

Neto

Marcelo S. S. Neto

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful