Público • Sexta-feira 7 Janeiro 2011 • 31

As suspeições lançadas sobre a compra e venda de acções da SLN não resistem a uma análise fria e objectiva

Desculpem, mas vou ter de mexer no lixo

José Manuel Fernandes

N

Extremo ocidental

ão me apetecia nada escrever sobre o tema do BPN, e não por achar que o caso das famosas acções da SLN que Cavaco Silva comprou e vendeu há mais de sete anos implicassem ou deixassem de implicar algo de comprometedor. Não me apetecia escrever sobre o BPN simplesmente porque os termos em que o tema foi colocado na campanha eleitoral correspondem a uma estratégia do PCP e do Bloco, convenientemente secundada primeiro por Defensor de Moura e, depois, lamentavelmente, por Manuel Alegre, para explorar alguns dos piores preconceitos nacionais, atirando-os contra Cavaco Silva e destruindo todo o restante debate eleitoral. Quem tivesse porventura dúvidas sobre estes objectivos tê-las-á perdido ontem, ao ouvir a intervenção parlamentar desse beato demagogo que dá pelo nome de Francisco Louçã. Não pude, por isso, deixar de tentar perceber melhor tudo o que se sabe, e de tentar perceber o que não se sabe, sobre o tema do BPN e das famosas acções. Comecei, primeiro, por fazer o meu trabalho de casa e tratar de ler o que Cavaco Silva já disse sobre o caso. Não foi difícil. Com a ajuda de uma página criada no site do Expresso e alguma busca via Google, mais uns telefonemas para uns juristas, concluí o seguinte: a) Cavaco Silva teve uma conta no BPN, que abriu no ano 2000, como esclareceu num comunicado de Novembro de 2008; b) Nesse comunicado, também se referia que o então professor de Economia, numa época em que não desempenhava qualquer cargo político, entregara a “gestão das suas poupanças” a quatro bancos, incluindo o BPN. Acrescentava-se que essas aplicações constavam, “detalhadamente, da Declaração de Património entregue no Tribunal Constitucional”, sendo que esta “pode ser consultada”. c) Em Junho de 2009, numa declaração oral feita à entrada de uma reunião da COTEC, Cavaco Silva disse que quem tivesse consultado as suas declarações fiscais teria ficado a saber que, além das acções da SLN, também deteve acções do BCP, do BPI, da EDP, da Jerónimo Martins, da Brisa e da Sonae. E acrescentou: “De uma fonte que eu indico no meu comunicado, consta mesmo o preço a que as acções da SLN foram compradas e o preço a que foram vendidas”. Ou seja, desde Novembro de 2008, pelo menos, que teria deixado de ser segredo para quem quer que tivesse consultado esses documentos que Cavaco Silva tinha comprado 105.378 acções da SLN por um euro em 2001 e as vendera por 2,4 euros em 2003. De acordo com a investigação que o Expresso editou em Maio de 2009, estes preços de compra e de venda das acções da holding que detinha o BPN correspondiam sensivelmente aos que eram praticados no mercado na altura em que as operações foram realizadas. Não haveria, pois, sinais de qualquer preço de favor. d) Do mesmo dossier do Expresso consta a reprodução, em PDF, da carta que enviou, a 17 de Novembro de 2003, ao presidente do BPN onde pedia ao banco para proceder à venda de todas as acções da SLP que estavam depositadas na sua conta. Eis, pois, o que se sabe, no essencial, sobre essa operação de compra e venda de acções da SLN. Devo dizer que, depois de ter revisto cuidadosamente todos estes documentos e depoimentos, não compreendo onde se possa ver indícios de comportamento ilícito ou de ocultação de factos. Como é, então, possível que exista tanto ruído no ar? Primeiro que tudo, porque Cavaco Silva não fez a vontade aos seus detractores nem aos jornalistas. Em lugar de repetir explicações e comunicados e de lhes entregar toda a documentação papel por papel, disse apenas que tinha cumprido a lei e que os do-

HÉLDER OLINO

Quando o preconceito ideológico e a má-fé encerram a campanha num tema mesquinho, é a democracia que fica a perder

M

cumentos respectivos estavam depositados onde deviam estar depositados e podiam ser consultados. Podemos concordar ou discordar deste comportamento, podemos discutir se é a forma mais inteligente e eficaz de gerir uma polémica numa campanha eleitoral, mas não podemos acusar o actual Presidente de estar a ocultar informação.

as, politicamente, este primeiro ponto é um pormenor. Ou, se quisermos, um pretexto para alguns jornalistas continuarem a falar de falta de transparência. O que verdadeiramente conta nesta polémica é um juízo e dois preconceitos. O juízo é que ninguém poderia, de boa-fé, ter acreditado e confiado no BPN. Até posso concordar: eu, por exemplo, não só nunca confiei, como nunca me senti tentado a beneficiar das boas taxas de rentabilidade oferecidas pelo BPN aos seus clientes. Mas isso não implica que se tivesse de ser

malfeitor para ter conta no BPN ou para ser um dos cerca de 400 pequenos accionistas da SLN. O Estado português confiou ao BPN centenas de milhões de euros de depósitos da segurança social até 2008. Os pequenos accionistas têm neste momento acções a decorrer contra a gestão de Oliveira e Costa, porque também eles foram prejudicados, e muito. Mais: Cavaco Silva tratou de vender as suas acções anos antes de Vítor Constâncio, que tinha como dever supervisionar o BPN, começar a desconfiar de que algo ia realmente mal naquele banco. Vem depois um primeiro preconceito: ter lucro com acções é pecado, e Cavaco Silva não só teve lucro como teve muito lucro. É a retórica do Bloco e do PCP, em todo o seu esplendor. Infelizmente, Alegre embarcou nela de forma irresponsável e desesperada. Na verdade, a única coisa que haverá a apurar é se uma valorização de 140 por cento em dois anos é possível, apesar de os dados do mercado confirmarem que ela ocorreu para todos os accionistas da SLN e não apenas para Cavaco Silva. A resposta é simples: é possível e até ocorre com alguma frequência. Nos últimos 12 meses, por exemplo, as acções da Jerónimo Martins valorizaram-se, em bolsa, 100 por cento. Cem por cento num ano, não em dois. E quem seguiu as cotações de muitas empresas ao longo da última década sabe que não faltaram casos de acções que duplicaram, triplicaram ou mesmo quadruplicaram de valor em intervalos de tempo relativamente curtos. No caso da SLN, isso não se passava em bolsa, mas nada impede que o mesmo tenha sucedido, sobretudo se nos lembrarmos da euforia que rodeou a valorização desse banco antes de se começarem a conhecer os seus problemas e falcatruas. Sobra o último preconceito, aquele a que se agarra agora, para surpresa de quem se habituou a admirar o seu passado, Manuel Alegre: para comprar e vender acções, será necessário um contrato. Ora sucede que não é. A regra é não haver contrato. Mais: a leitura da carta de Cavaco Silva com a ordem de venda das acções não indicia a existência de qualquer contrato (de resto, Cavaco Silva já disse, nos Açores, que não existia qualquer contrato). Também não é obrigatório existir um comprador preestabelecido. O banco pode sempre vender as acções sem que o vendedor fique sequer a conhecer o nome do comprador. Como isto não parece muito difícil de entender, só por preconceito e má-fé se pode basear uma campanha eleitoral no tipo de gritaria a que temos assistido. Como já disse Fernando Nobre, com razão, “tudo o que tem estado a acontecer não vai no sentido de contribuir para a responsabilização e credibilização da classe política, que é essencial para o país”. Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

Já ninguém lê a Constituição?
a Tem vindo o PÚBLICO, e bem, a divulgar um inquérito aos diferentes candidatos presidenciais que ajuda a elevar um debate público que, por outros palcos, tem andado demasiado rasteiro. Mesmo assim, confesso a minha perplexidade quando, ontem, li a pergunta do dia: “O Serviço Nacional de Saúde tem um défice estrutural crónico. Promulgaria um diploma que propusesse a abolição da expressão ‘tendencialmente gratuito’ quanto à prestação de cuidados de saúde?” A razão da minha perplexidade é simples: a expressão “tendencialmente gratuito” não consta de um diploma qualquer, mas da Constituição da República. Por isso, para a abolir seria necessário proceder a uma revisão constitucional. Se, por acaso, mais de “dois terços dos deputados em efectividade de funções” aprovassem essa alteração, a Constituição prevê que ela deveria constar de uma lei de revisão e que “o Presidente da República não pode recusar a promulgação da lei de revisão”. Ou seja, a pergunta não fazia sentido, pois qualquer dos candidatos, se eleito, não teria escolha, antes parecia corresponder à tentativa de fazer entrar de contrabando o debate constitucional numa eleição para um órgão de soberania que não possui quaisquer poderes de revisão da Constituição. Não os tem para a rever, nem os tem para impedir a sua revisão. É possível fazer melhor para fazer subir o nível do debate presidencial.

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