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Retratos de Santos Fiéis

por Herman Hanko

Capítulo 1

Policarpo: Mártir de Cristo

Introdução

A Igreja de Jesus Cristo, enquanto no mundo, é sempre perseguida. É a


sua sorte nesta vida de sofrer por causa da justiça. Nós não devemos ficar
surpresos com isso, pois as Escrituras falam disto em inúmeros locais, e o
que Paulo disse às igrejas que ele organizou na sua primeira viagem
missionária é verdade para todos os tempos: “pois que por muitas
tribulações nos importa entrar no reino de Deus." (Actos 14:22).

Esta perseguição incessante produziu uma lista de heróis da fé, santos,


homens, mulheres e por vezes crianças, que não amavam a sua vida até à
morte e que selaram a sua fé com o seu sangue.

Entre todos estes está o antigo Policarpo, presbítero e ministro na igreja


de Esmirna. Ele não foi o primeiro dos mártires. Ele não sofreu mais do
que muitos outros. A sua morte não foi necessariamente mais ilustre do
que a morte de outros santos. Mas ele provê para nós um exemplo de
fidelidade no martírio, um testemunho do poder da graça de Cristo, em
grande sofrimento, e um incentivo duradouro para os santos de Deus de
hoje que sofrem pela causa do evangelho de Jesus Cristo.

Os Primórdios de Sua Vida

Embora a data de seu nascimento seja por volta do ano 69, próximo da
data do martírio de Paulo em Roma, Policarpo não nasceu num lar
cristão. Na verdade, o seu local de nascimento é desconhecido, porque ele
apareceu em cena na história da igreja de uma forma estranha e
intrigante, um modo que é uma evidência dos caminhos misteriosos da
providência de Deus.

Tudo começou em Smirna. Se procurar no seu mapa, vai encontrar


Smirna a menos de oitenta quilómetros a norte pelo noroeste de Éfeso, na
costa ocidental da província da Ásia, na Ásia Menor. Era uma cidade em
que uma igreja havia sido estabelecida cedo, talvez pelo apóstolo Paulo,
durante aqueles anos de trabalho em Éfeso, quando "todos os que
habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus." (Actos 19:10). O
próprio Senhor escreveu uma carta do céu para a igreja de Smirna. Ele
não tinha nada sobre o qual repreender a igreja, Ele só tinha palavras de
encorajamento e conforto em seus sofrimentos nas mãos de seus
perseguidores (Ap 2:8-11). É possível que Policarpo fosse ministro na
igreja no momento em que essa carta chegou em Smirna, e que ele a
tenha lido para a sua congregação, pouco sabendo que falava do seu
próprio martírio às mãos dos ímpios.

De qualquer forma, alguns anos antes, um homem chamado Strataeas,


um irmão de Timóteo, ou era presbítero ou um ministro da igreja de
Smirna. Uma mulher rica chamada Callisto, um membro da igreja e uma
notável por suas obras de caridade, sonhou que estava para ir à porta da
cidade chamada a Porta de Éfeso e redimir ali um jovem moço que era
um escravo de dois homens. Isso ela fez e trouxe Policarpo para sua casa,
onde ela deu-lhe um lar cristão, lhe ensinou os caminhos do Senhor,
custeou a sua educação, e adoptou-o como seu filho.

Logo depois do menino vir para a casa de Callisto ele deu evidências da
obra do Espírito de Cristo em seu coração. Ele era sério e reservado,
gentil para com aqueles com quem ele se associava, muito dado ao estudo
das Escrituras, e diligente em testemunhar a outros de sua fé. Uma
característica marcante de sua conduta foi a sua abnegação, algo que,
sem dúvida, foi usado pelo Senhor para prepará-lo para o martírio
futuro. É difícil ver como pessoas auto-indulgentes, excessivamente
mimadas, que têm muito demais de bens deste mundo e que sempre
anseiam por mais, podem enfrentar o martírio, se for exigido deles.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes da vida adulta de Policarpo era a


sua familiaridade com o apóstolo João. Vinte anos se conheceram, e
Policarpo teve o privilégio de estudar aos pés de João. É fácil de invejar
Policarpo. Podemos imaginar ouvir o discípulo amado de Jesus falar de
seus anos com o Senhor e ensinar o que Cristo lhe havia ensinado. Todo
este cuidadoso treino preparou-o para trabalhar na igreja.

Sua Obra em Smirna

A obra que o Senhor chamou Policarpo para realizar em Smirna, foi


extensa e importante. Ele foi antes de tudo um diácono na igreja e
trabalhou para o cuidado dos pobres. Este era um trabalho especialmente
importante na igreja primitiva, porque a perseguição era a sorte dos
santos e a perseguição trouxe muito trabalho aos diáconos. Eles tinham
que cuidar de mulheres e crianças cujos maridos e pais estavam na prisão
ou foram mortos. Eles tinham que visitar os santos na prisão, para
confortá-los e incentivá-los na fidelidade, enquanto ao mesmo tempo,
tentando da melhor forma possível aliviar os seus sofrimentos, trazendo-
lhes comida e roupa e pomadas para suas costas dilaceradas. E eles
tinham que recolher o dinheiro de uma congregação de pessoas que elas
próprias tinham muito pouco dos bens desta terra.

No entanto, por causa de sua aprendizagem, Policarpo foi logo chamado


para ser um presbítero na igreja - um presbítero, como a Escritura
chama aqueles que ocupam este ofício. E, após a morte do ministro (então
já chamado de bispo), ele tornou-se pastor e ministro na
congregação. Uma antiga tradição diz que João, o apóstolo, o ordenou ao
ministério, que, se não for verdade, pode pelo menos dizer que João
esteve presente para testemunhar o evento. A sua fama e influência
estendeu-se por toda a Ásia Menor. Não somente ele era respeitado por
causa de sua estreita associação com o apóstolo João, mas pela sua
própria piedade ele ganhou um nome entre os santos naquela parte do
mundo.

Houve vários eventos interessantes nestes anos de trabalho na igreja.

Inácio, bispo de Antioquia, uma cidade muito distante para o leste, onde
Paulo havia começado seus trabalhos na Ásia Menor, em sua primeira
viagem missionária, veio por Smirna a caminho de Roma e seu martírio
lá. Eles passaram uns dias agradáveis juntos em Smirna, recordando o
seu passado de amizade quando Inácio vivia também em Smirna e os
tempos em que ambos haviam estudado sob o apóstolo João.

Algum tempo depois, Policarpo também viajou para Roma. Uma disputa
sobre a data da comemoração da morte e ressurreição do nosso Senhor,
havia ameaçado dividir a Igreja. As igrejas da Ásia Menor
comemoravam estes eventos na mesma altura do ano que tiveram lugar,
ou seja, a comemoração começou no dia 14 de Nisan, o dia da Páscoa,
quando o Senhor comeu a última ceia com seus discípulos. Isso
significava, naturalmente, que estes acontecimentos da vida do Senhor
eram observados a cada ano num dia diferente da semana, e a
ressurreição não era celebrada no primeiro dia da semana todos os
anos. Esta tradição, de acordo com Policarpo, foi apostólica, por Paulo e
João haverem ensinado nessas igrejas esta prática. Mas as outras igrejas,
lideradas por Roma, desejavam a ressurreição do Senhor celebrada no
primeiro dia da semana, e assim haviam instituído a prática de a celebrar
no primeiro Dia do Senhor após o primeiro dia da Primavera. A questão
era sem grande importância, é claro, mas ameaçou dividir a igreja
primitiva em duas facções.
Policarpo, no interesse de resolver a questão, viajou para Roma para
conversar com Aniceto, o ministro da congregação lá. Eles discutiram o
assunto durante um tempo, mas nenhum podia convencer o outro. O
resultado foi que decidiram permitir às igrejas a liberdade de celebrar
esses acontecimentos da vida do Senhor, na data que escolhessem, sem
rancor, amargura, nem contendas. Como um gesto de sua separação
amigável, Aniceto pediu a Policarpo para presidir à administração da
Ceia do Senhor na igreja de Roma, que Policarpo assim fez.

O Martírio de Policarpo

Mas a ameaça de perseguição sempre pairou sobre a cabeça da igreja


naqueles dias. Houve momentos de relativa paz e cessação de perseguição
em suas formas mais brutais, mas também houve momentos em que a
perseguição irrompia em fúria. A igreja era odiada no Império Romano,
especialmente pelos judeus e romanos pagãos. Todas as calamidades
naturais, quer inundações ou terremotos ou a seca, era culpa dos cristãos
e sobre a sua recusa de adoração de César como Deus.

Quando Policarpo era um homem velho, com pelo menos 85 anos, uma
onda de perseguição irrompeu em Smirna, provocada pela multidão que
estava sedenta de sangue dos cristãos. Catorze cristãos foram presos e
arrastados para a arena pública, onde foram dados a comer à
feras. Todos menos um morreram gloriosamente, um até mesmo
esbofeteou um animal selvagem que parecia ser muito preguiçoso para
atacar o cristão que era suposto ser seu jantar.

A multidão não foi aplacada e começou a gritar por mais.


Particularmente, eles começaram a gritar por Policarpo quem sabiam ser
ministro na igreja e que estava, por insistência de seu rebanho, num
esconderijo. A polícia foi enviada para encontrá-lo, e finalmente o
encontrou, após exigir informações de seu esconderijo a um servo, que foi
submetido a tortura terrível.

A multidão e os magistrados locais estivam presentes na arena quando


Policarpo foi capturado. Ele foi trazido perante o juiz nas arquibancadas
da arena e imediatamente julgado e condenado, enquanto a multidão
frenética gritava pelo seu sangue. Foi um julgamento muito incomum e
ilegal que foi algo assim, o magistrado falando primeiro.

"Jura pela saúde de César! Arrepende-te! Declara: Morte aos ateus!"

Virando-se para a multidão, com uma elevação de sua cabeça e um aceno


de mão, Policarpo gritou: "Morte aos ateus!"
Mas o magistrado sabia o que significava Policarpo. "Apostata! Jura, e
eu vou-te libertar imediatamente! Você tem só de insultar Cristo".

"Eu servi-O por 86 anos e Ele nunca me fez nada de mal. Por que então
eu deveria blasfemar contra meu Rei e meu Salvador?"

"Jura pela saúde de César!"

"Está-se enganando se espera me convencer. Em toda a verdade eu


declaro solenemente a vós:.. Eu sou um cristão"

"Eu tenho aqui os leões, para usar como eu bem achar."

"Dê suas ordens. Quanto a nós, cristãos, quando nós mudamos, não é de
bom a ruim: é esplêndido passar pelo mal para a justiça de Deus."

"Se você não se arrepender eu o queimarei na fogueira, já que é tão


desdenhoso dos leões."

"Vocês me ameaçam com um fogo que queima durante uma hora e


depois se apaga. Mas você conhece o fogo eterno da justiça que está por
vir? Você sabe o castigo que está para devorar os ímpios? Vamos, não
demore! Faça o que quiser comigo."

A condenação foi anunciada, a multidão se apressou dos bancos a


recolher gravetos e lenha, com os judeus alegremente ajudando.
Policarpo disse aos soldados encarregados da execução que não
precisavam de amarrá-lo na estaca, pois ele não tinha intenção de
fugir. As chamas saltaram bem alto, enquanto das chamas podia ser
ouvida esta oração dos lábios do fiel servo de Cristo:

Senhor Deus Todo-Poderoso, Pai do Vosso amado e bendito Filho, Jesus


Cristo, pelo qual recebemos a graça de conhecer a Ti, Deus dos anjos e
dos poderes, e toda a criação, e de toda a raça dos justos que vivem em
Tua presença; Eu Te bendigo por te dignares a me conceder neste dia e
nesta hora que eu possa estar entre os Teus mártires e beber o cálice do
meu Senhor Jesus Cristo ... Eu Te louvo por todas as tuas misericórdias;
Eu te bendigo, eu glorifico a Ti, por meio do eterno Sumo Sacerdote,
Jesus Cristo, vosso Filho amado, com quem a Vós e ao Espírito Santo,
seja dada glória, quer agora e para sempre. Amen.

É uma lição permanente para nós que aqueles que morreram por sua fé
com orações e cânticos de louvor em seus lábios eram aqueles que sabiam
o que acreditavam, amavam a verdade, e estavam dispostos a morrer por
ela. Policarpo tornou o seu amor pela verdade claro numa carta que
escreveu à igreja em Filipos, na qual ele os advertiu contra as heresias
que já apareciam na igreja. Ele disse:

Quem não confessar que Jesus Cristo veio em carne, é anticristo, e quem
não confessar o mistério da cruz, é do diabo, e aquele, que arranca as
palavras do Senhor, segundo o seu próprio prazer, e diz: não há
ressurreição e julgamento, é o primogénito de Satanás. Portanto,
podemos abandonar o balbucio vazio desta multidão e seus falsos ensinos,
e voltar à palavra que nos foi dada desde o início. . . .

Sabendo que a perseguição em breve estará sobre a igreja também hoje,


não devemos ter atenção a estas coisas?

(Traduzido por Nuno Pinheiro do livro “Portraits of Faithful Saints” de Herman Hanko.)